Você está na página 1de 210

Textos

=?-'" CERU
PESQUISA EM CIENCIAS SOCIAIS:
OLHARES DE MARIA ISAURA PEREIRA DE QUEIROZ

Celia Toledo Lucena


Maria Christina Siqueira de Souza Campos
Zeila de Brito Fabri Demartini
Organizatloras

ZERU
PESQUISA EM CIENCIAS SOCIAIS:
OLHARES DE MARIA ISAURA PEREIRA DE QUEIROZ
EDITORA HUMANITAS

Presidents
Mario Miguel Gonzalez
Vice-Presidente
Marco Aiirelio Werle

CONSELHO EDITORIAL

Titulares Suplentes
Antonio Dimas de Moraes Gildo Marcal Branddo
Beatriz Perrone-Moises Margarida Maria Taddoni Petter
Berta Waldman Maria Luiza Tucci Cameiro
Beth Brait Osvaldo Humberto Leonardi Ceschin
Jose Jeremins de Oliveira Filho Vera da Silva Telles
Sueli Angelo Furlan Veronique Dahlet
Valeria de Marco
Vera Lucia Amoral Ferlini

UNIVERSIDADE DE SAO PAULO


FACULDADE DE FILOSOFIA, LETRAS E CIENCIAS HUMANAS
Diretor
Gabriel Cohn
Vice-Diretora
Sandra Margarida Nitrini

Sollcita-se permuta
Endereco para correspondencia HUMANITAS
Colecao Textos - FFLCH/USP Rua do Lago, 717 - Cid. Universitaria
Av. Prof. Luciano Gualberto. 315 sala 20 05508-080 - Sao Paulo - SP - Brasil
05508-010 - Sao Paulo - SP - Brasil Tel.: 3091-2920 / Telefax: 3091-4593
Tel: (11) 3091-3784 / Telefax: (11) 3091-3735 e-mail: editorahumanitas@usp.br
e-mail: ceru@usp.br http://www.edltorahumanitas.com.br

Foi feito o deposito legal


Impresso no Brasil / Printed ut Brazil
MarQG 2008
Coleção TEXTOS

Série 2

Número 10

2008

PESQUISA EM CIÊNCIAS SOCIAIS:


OLHARES DE MARIA ISAURA PEREIRA DE QUEIROZ

Célia Toledo Lucena


Maria Christina Siqueira de Souza Campos
Zeila de Brito Fabri Demartini
Organizadoras
Copyright © 2 0 0 8 do CERU.
Direitos de publicação d a Editora l l u m a n i t a s

Proibida a reprodução parcial ou integral desta obra por qualquer


meio eletrônico, mecânico, inclusive por processo xerográfíco, sem
permissão expressa do editor (Lei n". 9.610, de 19.02.98).

L26p LUCENA, Célia Toledo; CAMPOS. M. Christina


Siqueira de Souza; DEMARTINI, Zeila de Brito
Fabri. orgs.
Pesquisa em Ciências Sociais: olhares de Maria
Isaura Pereira de Queiroz / Célia Toledo Lucena;
M. Christina Siqueira de Souza Campos; Zeila de
Brito Fabri Demartini, orgs. São Paulo : CERU. 2008.
208 p. ; 22 cm. (Textos. Série 2 ; n. 10).

ISBN 978-85-7732-O62-2

Periodicidade: irregular

1. Pesquisa em Ciências Sociais 2.


3. I. Lucena. C. Toledo II. Campos. M. Christina
Siqueira de Souza III. Demartini. Zeila de Brito
Fabri IV. Coleção

(Preparada por Eleni Steinle de Moraes - Bibliotecária do CERU)

EDITORA HUMANITAS

Editor Responsável
Prof. Dr. Moacir Amãncio

Coordenação Editorial e Diagramação


M'. Helena G. Rodrigues - MTb n. 28.840

Revisão
Célia Toledo Lucena / M. Christina Siqueira de Souza Campos

Editora afiliada:

Associação Brasileira de
Editoras Universitárias
SUMARIO

Apresentação 7
Célia T. Lueena; M. Christina S. de S. Campos;
Zeüa de B. F. Demartini

ARTIGOS DE MARIA ISAURA PEREIRA DE QUEIROZ

O pesquisador, o problema da pesquisa, a escolha de

técnicas: algumas reflexões (1992) 15

Relatos orais: do "indizível" ao "dizível" (1988) 35

Histórias de vida e depoimentos pessoais (1983) 79

Pesquisa individual, pesquisa em equipe: irmãs inimigas

ou íntimas colaboradoras? (1983) 99

Análise de documentos em Ciências Sociais (s.d.) 119

Enigmas de uma definição do "ser brasileiro" (1980) 147

A literatura como fonte de dados para a Sociologia (1976) 157


Escravos e mobilidade social vertical em dois romances
brasileiros do Século XIX (1976) 163
Normas para Apresentação de Trabalhos 200

Sobre o CERU 202


APRESENTAÇÃO

Do enorme acervo de Maria Isaura Pereira de Queiroz, uma


pequena parte está aqui reunida, com o intuito de atender a estu-
dantes, pesquisadores e estudiosos em metodologia de pesquisa,
principalmente na área das ciências sociais. Diante de inúmeros
ensaios e estudos sociológicos, resultados de pesquisa, a escolha
para compor este livro seguiu a seguinte direção: buscar artigos que
enfatizam o como "fazer pesquisa", tarefa bastante difícil, principal-
mente entre os estudantes universitários.
São oito os textos escolhidos para integrar esta coletânea, es-
colhidos seja por sua importância, seja por sua atualidade ou, ain-
da, por seu ineditismo: "O pesquisador, o problema da pesquisa, a
escolha de técnicas: algumas reflexões", de 1992, "Relatos orais: do
'indizível' ao 'dizível'", de 1988, "Histórias de vida e depoimentos
pessoais", de 1983, "Pesquisa individual, pesquisa em equipe: ir-
mãs inimigas ou íntimas colaboradoras?", de 1983, "Análise de do-
cumentos em Ciências Sociais", texto inédito e sem data, "Enigmas
de uma definição do 'ser brasileiro'", de 1980, "A literatura como
fonte de dados para a Sociologia", de 1976, e "Escravos e mobilida-
de social vertical em dois romances brasileiros do século XIX", tam-
bém de 1976.
Embora muitos desses textos tenham sido escritos há bas-
tante tempo, não perderam sua atualidade e jovens pesquisadores,
ao tomarem contato com esses escritos, se admiram com a clareza
da linguagem e a maneira como Maria Isaura aborda questões fun-
damentais que atormentam pesquisadores iniciantes. Na sua pena,
essas questões acabam por parecer simples, fazendo-nos pensar
Coleção TEXTOS. Série 2, n. 10

por que não fomos capazes de escrever algo semelhante. Também a


lógica da exposição e a fundamentação de tudo que é analisado
chamam a atenção para a riqueza de suas contribuições e a grande
experiência de que dispõe em pesquisa, bem como a base francesa
de sua formação sociológica e metodológica. Assim, não só o ini-
ciante tira proveito de suas reflexões como também o pesquisador
mais experiente, pois a leitura desses textos dá ensejo a um apro-
fundamento metodológico.
Maria Isaura sempre se debruçou sobre a realidade brasileira
procurando conhecer aspectos ainda pouco estudados ou, na sua
percepção, que mereciam ser observados a partir de novos olhares.
Foi a partir do olhar constituído pelas contribuições da Sociologia,
da Antropologia, da História e também da Literatura que estudou o
mandonismo, as relações entre escravos e senhores rurais, as rela-
ções sociais nos bairros rurais, os movimentos messiânicos, o car-
naval, a religiosidade popular e outros muitos temas (universidade,
produção acadêmica etc). Sua autoridade científica a levou a não
poupar esforços no desvendamento dos problemas de investigação,
tendo recorrido a fontes de pesquisa muitas vezes não usuais no
momento em que as utilizou.
A relação entre as explicações teóricas das Ciências Sociais e
a realidade empírica pesquisada é aspecto fundamental da propos-
ta metodológica de Maria Isaura, mas sempre com uma orientação
questionadora: as teorias devem sempre servir ao pesquisador como
hipóteses de trabalho; nunca devem cercear seu olhar, impedi-lo de
apreender na realidade pesquisada (atual ou pretérita) todos os ele-
mentos que permitam explicá-la, e não apenas os que anteriormen-
te foram aventados pelas primeiras. A preocupação com a discus-
são das propostas teóricas, especialmente daquelas produzidas em
contatos não brasileiros, a partir das especificidades de nossa reali-
APRESENTAÇÃO

dade, é talvez a contribuição mais importante da vasta produção


intelectual de Maria Isaura. Seja quando discute aspectos mais
metodológicos como os que são abordados nos textos selecionados
para esta publicação, seja estudando temas como o coronelismo, o
messianismo, a escravidão, o carnaval etc, torna-se evidente seu
interesse em refletir sobre a condução da pesquisa; sua postura é,
antes de tudo, a postura de uma investigadora que sempre quis ir
além dos modismos de cada momento, preocupando-se "apenas"
com o desvendamento da realidade social.
Para tanto, poderiam e deveriam ser trabalhados fontes e da-
dos de naturezas diversas, desde que sempre fossem verificadas as
condições de sua produção, suas subjetividades e intencionalida-
des. A crítica às fontes e a atenção do pesquisador em relação às
especificidades das mesmas pode ser percebida em toda sua obra,
assim como as possibilidades que são colocadas pelos dados que se
complementam.
Para Maria Isaura, as técnicas da entrevista e do uso do gra-
vador, a coleta e a análise das histórias-de-vida e dos depoimentos,
as investigações sobre a memória individual, a transmissão de co-
nhecimentos e a troca de experiências no contato entre narrador e
pesquisador são questões instigantes para o estudioso. Isso, evi-
dentemente, após a formulação de seu problema de investigação, a
definição dos objetivos e a escolha de sua trajetória de investigação.
O uso do gravador, ao lado das demais técnicas, como a foto-
grafia, o cinema e a televisão, nas décadas que se sucederam à Se-
gunda Guerra Mundial, baseava-se numa crença ingênua de que os
meios mecânicos possibilitariam um grau muito elevado de objetivi-
dade, com a mínima interferência da subjetividade do pesquisador.
Entretanto, para Maria Isaura cada uma das técnicas suscita refle-
xões específicas à medida que são empregadas no decorrer das pes-
Coleção TEXTOS. Série 2, u. 10

quisas. O uso do gravador exige alguns cuidados, que vao bem além
do momento da coleta da entrevista, a transcrição da fita, consti-
tuindo, então, um documento escrito. O pesquisador, munido de
um gravador, passa a ser o fabricante de documentos. Nessa tarefa
alguns requisitos são necessários para a transmissão se conservar
fiel à gravação. A narrativa oral, uma vez transcrita, transforma-se
em texto escrito com similitude a qualquer documento escrito. Po-
rém, para Maria Isaura, a tarefa não se encerra aí, o pesquisador
precisa encarar outra fase, ou seja, o aproveitamento do novo docu-
mento oriundo da fita gravada, que é a interpretação ou análise do
material coletado.
Cada história de vida ou depoimento pessoal fornece oportu-
nidade ao pesquisador de estudar o fato social no seu interior, na
fonte. Segundo a professora, 'Toda a história de vida tem de ser um
depoimento, isto é, não apenas um relato cronológico de aconteci-
mentos, mas trazer em si a riqueza de sentimentos, opiniões e atitu-
des da pessoa que a relata..." (1953, p. 14)1. Dessa maneira, a histó-
ria de vida "se define como o relato de um narrador sobre sua existência
através do tempo, tentando reconstituir os acontecimentos que vi-
venciou e transmitir a experiência que adquiriu." (1988, p. 20)2.
Ao ressaltar a riqueza dos conteúdos a serem encontrados
nos depoimentos pessoais e histórias de vida, Maria Isaura chama a
atenção para a importância da formulação do problema, antes do
início da pesquisa. Sem uma questão precisa, que depoimento bus-
car? Sendo assim, sua utilização está ligada ao problema enunciado
pelo investigador, "somente através da análise, isto é do desdobra-

Sociologia, São Paulo, v. 15, n. 1, p. 8-24, mar. 1953


Relatos orais: do "indizível" ao "dizível". In: SIMSON, OR.M. von (Org.). Experi-
mentos com histórias de vida: Itálla-Brasil. São Paulo: Revista dos Tribunais/
Vértice, 1988, p. 14-43.

10
APRESENTAÇÃO

mento dos tópicos que contém, poderá ser aproveitada a informa-


ção nele encerrada"3.
Ao abordar a questão da análise nas Ciências Sociais, tema
sobre o qual ministrou um curso no CERU em 1992, torna-se mais
clara a natureza de suas preocupações com as relações entre teoria
e empiria, reveladas na forma cuidadosa como vê o trabalho dos
sociólogos evidenciadas no texto "Análise de documentos em Ciên-
cias Sociais". Para Maria Isaura, a crítica às fontes e a forma como
se conduz a análise das mesmas, com base em rigoroso trabalho de
comparação, é que podem levar o pesquisador à observação das
questões investigadas, conforme cita em pequeno trecho do artigo:
"De acordo com esta perspectiva, a análise permite infinitas indaga-
ções dirigidas aos documentos - desde que estes sejam suficiente-
mente ricos para servirem a uma grande quantidade de pesquisas.
Empregando um vocabulário atualmente em moda, múltiplas são
as leituras que qualquer documento permite, porém a atitude dos
estudiosos diante dele são apenas duas: tomá-lo em sua peculiari-
dade e levantar os problemas que ele encerra, ou então efetuar a
leitura depois de formuladas as questões que julgam interessantes,
na suposição de que ele encerra elementos que permitem esclarecê-
los. Estas atitudes se aplicam a todos os tipos de documentos, se-
jam eles escritos ou gravados"4.
Não apenas o depoimento, a análise e a verificação dos dados
serão orientados pelo problema. Algumas sugestões são apontadas
como procedimentos ao pesquisador, como a anotação das pergun-
tas que fez e em que momento as formulou, assim como as fugas do

3
Trecho do texto inédito "Análise de documentos em ciências sociais", publicado
nesta coletânea.
4
Trecho do mesmo texto inédito.

11
Coleção TEXTOS. Série 2, n. 10

informante sobre determinadas questões, pois as omissões são sig-


nificativas para o problema estudado. Ainda sobre a duração da
entrevista, chama a atenção para o fato de não existir uma receita
pronta, é a própria experiência que deve indicar, variando de pes-
quisador a pesquisador, de informante a informante e de pesquisa a
pesquisa. Nesse sentido, lembra ainda que o pesquisador, ao utili-
zar o relato, o fará de acordo com suas preocupações e objeto de
estudo, ficando sacrificadas as intenções do narrador. Durante a
entrevista o narrador fica livre para expor suas lembranças, mas
quem comanda a atividade da coleta é o pesquisador.
Uma vez existindo narrador e ouvinte, a transmissão do saber
se instala. Aquele que ouve sempre é um intermediário, acrescenta
sempre sua própria interpretação ao narrar aquilo que ouviu. Em
seu texto "Relatos orais: do indizível ao dizível", Maria Isaura faz
uma crítica dizendo que o "relato" passou a ser denominado "histó-
ria oral", provocando o seu reaparecimento e a ampliação de discus-
sões sobre as técnicas de coleta do material. Segundo Maria Isaura,
"'História oral' é termo amplo que recobre uma quantidade de rela-
tos a respeito de fatos não registrados por outro tipo de documenta-
ção, ou cuja documentação se quer completar" (1988, p. 20)5. Sen-
do assim, a "'história oral' pode captar a experiência efetiva dos
narradores, mas recolhe destes tradições e mitos, narrativas de fic-
ção, crenças existentes no grupo, assim como relatos que contado-
res de história, poetas, cantadores inventam num momento dado."
(1988, p. 19).6

5
Relatos orais: do "Indizível" ao "dizível". In: SIMSON, OR.M. von (Org.). Experi-
mentos com histórias de vida: Itália-Brasll. São Paulo: Revista dos Tribunais/
Vértice, 1988, p. 14-43.
6
Relatos orais: do "indizível" ao "dizível". In: SIMSON, OR.M. von (Org.). Experi-
mentos com histórias de vida: Itália-Brasil. São Paulo: Revista dos Tribunais/
Vértice, 1988, p. 14-43.

12
APRESENTAÇÃO

Se os textos sobre os relatos orais são originais e instigan-


tes, também é preciso lembrar que Maria Isaura refletiu sobre a
literatura como fonte para a investigação sociológica: em seus pri-
meiros estudos, recorreu a essas fontes para a discussão de situa-
ções pretéritas, estimulando também o seu uso nas pesquisas de
seus orientandos. O interesse de Maria Isaura pela literatura e, em
particular, pela literatura brasileira, a levou a escrever dois textos
desta coletânea, já mencionados acima. O primeiro, "A literatura
como fonte de dados para a Sociologia", discute justamente a utili-
zação da literatura como fonte de dados por cientistas sociais já
desde os fins do século XIX. Mostra as fases em que esse tipo de
estudo esteve mais em voga ou, ao contrário, em decadência, esta
em decorrência da maior valorização dos métodos quantitativos.
Entre outros, são destacados os textos de Chevalier, na França, e,
no Brasil, as obras de diversos historiadores e sociólogos, como Roger
Bastide, Florestan Fernandes, Antônio Cândido, Lourival Gomes
Machado, Gilda de Mello e Souza e dela própria. Maria Isaura publi-
cou diversos trabalhos analisando a relação arte/sociedade, seja
para ampliar o conhecimento de problemas mais profundos, seja
para propiciar uma visão mais clara da realidade de diversos gru-
pos sociais era épocas passadas. Textos visando esse último objeti-
vo, segundo a pesquisadora, são menos comuns, pois são difíceis de
analisar. Ela própria classifica seus diversos textos sobre literatura
nessa segunda categoria.
O segundo texto mostra-se como um excelente exemplo de
análise sociológica de obras literárias, no caso os conhecidos ro-
mances "A escrava Isaura", de Bernardo Guimarães, e "O tronco do
ipê", de José de Alencar. Sua análise focou a mobilidade interna da
camada dos escravos no século XIX, ampliando os estudos de Emí-
lia Viotti da Costa e Florestan Fernandes a esse respeito. O texto de

13
Coleção TEXTOS. Série 2, n. 10

Maria Isaura, além da análise clara e fundamentada, tem o mérito


de trazer à memória o sabor das falas e descrições dos próprios
autores. Essas falas ilustram suas reflexões a propósito das rela-
ções entre senhores e escravos e a estrutura social vigente, bem
como sobre as condições em que se verificava a mobilidade social.
Suas conclusões salientam a heterogeneidade da camada escrava,
assim como a dos homens livres, igualmente dispostos em segmen-
tos hierarquizados, de tal forma que Maria Isaura considera possí-
vel falar em continuidade entre essas camadas, havendo freqüente-
mente ascensão e rebaixamento de indivíduos.
Falamos mais acima a respeito dos orientandos de Maria Isau-
ra, que atingem grande número, pois a "mestra", como a ela cari-
nhosamente se referem, era uma orientadora exigente, mas incan-
sável, sempre atenta aos menores detalhes para que os trabalhos
sob sua orientação pudessem ser os melhores possíveis. Esses ori-
entandos e seus auxiliares de pesquisa são hoje pessoas atuantes
em renomadas instituições de ensino superior no país. Merece es-
pecial destaque aqui o CERU - Centro de Estudos Rurais e Urbanos
- que foi fundado por ela e por um pequeno grupo de professores da
USP com o intuito de desenvolver pesquisas no campo das Ciências
Sociais, com o rigor científico necessário, mas sem dogmatismo nas
abordagens metodológicas. É o que o conjunto de trabalhos aqui
reunidos evidencia e disponibiliza para um público mais amplo.

Célia Toledo Lucena


Maria Christina Siqueira de Souza Campos
Zeila de Brito Fabri Demartini
Organizadoras

14
O PESQUISADOR, O PROBLEMA DA PESQUISA,
A ESCOLHA DE TÉCNICAS: ALGUMAS
REFLEXÕES

Maria Isaura Pereira de Queiroz"

A concentração do interesse do pesquisador em determinados


problemas, a perspectiva em que se coloca para formulá-los, a esco-
lha dos instrumentos de coleta e análise do material não são nunca
fortuitos; todo estudioso está sempre engajado nas questões que
lhe atraíram a atenção, está sempre engajado, de forma profunda e
muitas vezes inconsciente, naquilo que executa. Além de sua posi-
ção diante do objeto a estudar, urge considerar também o momento
histórico-científico em que se encontra, a maneira de compreender
as ciências no mundo intelectual de que faz parte. Duas perspecti-
vas se reúnem sempre: o ser pensante é sempre único, sua indivi-
dualidade é patente; seu modo de conhecer e, portanto, sua imagi-
nação, sua interpretação, seu julgamento de valor são sem dúvida
inteiramente pessoais. No entanto, o indivíduo só existe em coletivi-
dades de que é parte inseparável; é em sua sociedade e no seu gru-
po que adquire sua maneira de considerar a ciência, as técnicas de

QUEIROZ, M. Isaura Pereira de. O pesquisador, o problema da poesquisa, a esco-


lha de técnicas: algumas reflexões. São Paulo: CERU, 1992. p. 13-29. (Coleção
Textos, série 2, n. 3).
•* Professora Emérita da Universidade de São Paulo - Departamento de Sociologia
da FFLCH/USP - Centro de Estudos Rurais e Urbanos / CERU.

15
Coleção TEXTOS. Série 2, n. 10

que dispões são as que neles aprende. Mesmo quando inova, suas
criações estão delimitadas pelo que neles existe. Todo indivíduo en-
cerra uma parte que é particularmente sua e uma parte que foi
insuflada pelo seu meio; partes que sempre se interpenetram, mas
que ora estão era harmonia, ora em oposição.
A existência dessa associação fundamental entre objetividade
e subjetividade foi durante muito tempo desconhecida; supunha-
se, isso sim, que eram contraditórias, tão incompatíveis que em
surgindo uma, a outra se apagava. Tal maneira de ver se estendeu
aos procedimentos e técnicas que foram sendo empregadas nas pes-
quisas. Duas ordens destas últimas foram tidas como fundamen-
talmente opostas, embora podendo ser utilizadas na coleta e análi-
se de quaisquer dados relativos às Ciências Sociais: as técnicas
qualitativas e as técnicas quantitativas.
Quando as Ciências Sociais foram tomando vulto, durante o
século XIX, as técnicas qualitativas floresceram, se sobrepondo às
quantitativas, que no entanto já começavam a ser utilizadas tam-
bém. A maior ou menor acuidade com que os dados eram colhidos e
analisados, os comentários, as sugestões, pareciam depender dire-
tamente das qualidades pessoais e da competência do pesquisador
que, por meio da observação direta, ou em depoimentos de infor-
mantes, ou em documentos variados, coligia as informações de que
necessitava. Porém tomava-se consciência pouco a pouco de que,
estando cada cientista inserido numa fatia específica da realidade
social, tendo sido educado de acordo com as normas nela existen-
tes, esta circunstância pesava sobre sua captação dos dados, cons-
tituindo barreira para que fossem apanhados em sua veracidade.
Dizia-se então que se as Ciências Sociais desejavam chegar à obje-
tividade das Ciências Exatas e Naturais, compondo também um
corpus de conhecimentos universais e indiscutíveis, seria necessá-
rio apelar para outras técnicas que libertassem o pesquisador das

16
O PESQUISADOR, O PROBLEMA DA PESQUISA

restrições a que o sujeitavam as qualitativas. As técnicas qualitati-


vas apareciam como o remédio ideal: acreditava-se que garantiam a
objetividade do que se desejava apreender resultando em conheci-
mentos válidos para toda época, lugar e faixa social.
Seguia-se neste rumo o que afirmavam as Ciências Exatas e
Naturais para as quais a obtenção de conhecimentos "científicos"
devia deixar de lado procedimentos qualitativos e apelar para a ex-
pressão dos fenômenos em número e em intensidade. A passagem
de um procedimento a outro ocorrera havia muito tempo nas "ciên-
cias da verdade" e as distinguira do puro e simples empirismo, le-
vando-as a resultados certos e seguros; esta passagem constituíra
uma etapa necessária e decisiva do progresso do saber1. O recurso
aos questionários fechados, às estatísticas com suas porcentagens,
permitiria também às Ciências Sociais fugir das influências da indi-
vidualidade de cada cientista, uma vez que se passava a raciocinar
sobre quantidades direta ou indiretamente mensuráveis.
O termo "ciência" queria dizer conhecimento oriundo do ra-
ciocínio lógico e exato que permitia chegar às leis verdadeiras re-
gendo os fenômenos, o que só era possível ao se atingir o grau de
abstração característico do saber verídico e universal. Isto é, desde
que eliminadas as qualidades dos fenômenos, que os diferenciam,
atingir-se-á o saber verídico e universal. A busca da verdade está,
pois, embutida nesta maneira de pensar, uma vez que são procura-
das conclusões independentes tanto das opiniões, quanto do tempo
e do espaço. As ilações a que se chega eram tidas como válidas para

Conceitos e definições filosóficas e sociológicas contidas neste contexto seguem


as concepções de LALANDE, 1980; deTHINES e LEMPEREUR, 1975; de FOUL-
QUIÉ, 1982; de MORFAUX, 1980; de GRESLE et ai, 1990. A ordem desta apre-
sentação foi organizada de acordo coma contribuição de cada obra para o traba-
lho.

17
Coleção TEXTOS. Série 2, a. 10

todos e para sempre, libertadas da contingência e atingindo um alvo


primordial: a certeza. Mostrava-se a ciência superior a qualquer
outro modo de conhecer; dotada de pretensões nitidamente
hegemônicas, o saber marcado pela objetividade desfrutava do maior
prestígio e sobrepujava amplamente aquele que era alcançado pela
subjetividade, ou que nesta se banhava2.
A utilização de questionários facilmente redutíveis a algaris-
mos e porcentagens, o emprego de estatísticas pelas Ciências So-
ciais, parecia libertar a estas da individualidade de cada cientista
com as circunstâncias de que ela estava embebida, uma vez que o
raciocínio se operava sobre quantias direta ou indiretamente men-
suráveis. A quantidade sempre fora tida como detentora de elevado
grau de abstração, uma vez que se apresentava destituída de quais-
quer predicados: ela não dizia se o objeto era bom ou mau, se era
branco ou negro. O que este tipo de saber tratava era de quantas
unidades se compunha o fenômeno, com que intensidade se apre-
sentava.
Nas primeiras décadas do séc. XX, observava-se já que as Ciên-
cias Exatas e Naturais não estavam mais tão certas e seguras em
suas perspectivas e em seus resultados quanto se imaginara. Veri-
ficava-se pouco a pouco que as descobertas consideradas científi-
cas sofriam também influências e limitações da coletividade a que o
investigador pertencia, assim como das próprias qualidades e pre-
paro do mesmo; o conteúdo do seu saber, estava assim condiciona-
do pela sua inserção numa sociedade, e também pelas circunstân-
cias de tempo e de espaço. A objetividade não podia ser, em seus
resultados, tão indubitável quanto se acreditara, e as técnicas quan-
titativas não fugiam às injunções de tempo, de espaço, de predicados

2
Pereira de Queiroz, 1988, p. 103.

18
O PESQUISADOR, O PROBLEMA DA PESQUISA

variados nas conclusões a que chegavam, reunindo-se neste aspec-


to às qualitativas.
Admitia-se agora que em toda ciência, em todo conhecimento
a ela ligado, o fator qualidade vinha em primeiro lugar: era a quali-
dade que fazia uma coisa se distinguir de todas as demais; que fazia
as ciências e os conhecimentos terem suas características próprias.
A qualidade, composta pelos aspectos sensíveis de uma coisa ou de
um fenômeno naquilo que a percepção pode captar, constitui assim
o que é fundamental em qualquer estudo ou pesquisa, pois é o pon-
to de partida para qualquer deles. Todo cientista, ao determinar o
tema de sua pesquisam se encontra inserido num universo físico,
social e intelectual que a delimita; é também por meio da percepção
do que neste universo existe que formula o que pretende investigar.
Nesta fase primordial domina o diferenciável, isto é, aquilo que é
plenamente qualitativo, e não a uniformidade quantificável.
Para poder operar neste nível mais alto, necessita o pesquisa-
dor de uma formação específica que lhe permita a tomada conscien-
te de uma posição determinada no conjunto de conhecimentos que
são os seus, oriundos de sua experiência, mas ampliada pelo saber
já acumulado pelas ciências em geral e por sua ciência em particu-
lar. Deve ter dominado, por exemplo, a formação histórica e teórica
das Ciências Sociais; conhecido as principais correntes de pensa-
mento e os postulados de base de cada uma delas, dentro do uni-
verso sócio-econômico e histórico em que foram formulados; diag-
nosticado sua própria posição nas diversas correntes de pensamento
de sua disciplina; distinguido a variedade de técnicas que poderá
lançar mão no decorrer do trabalho e as limitações de cada uma, a
fim de escolher as mais eficientes na solução de seu problema. Os
cientistas sociais, como quaisquer outros cientistas, devem portan-
to ter uma formação teórica específica.

19
Coleção TEXTOS. Série 2, n. 10

Como qualquer ciência, as Ciências Sociais possuem um cor-


pus de teorias pré-existentes ao pesquisador, que este necessita
abarcar na maior amplitude possível, tanto no que diz respeito à
compreensão das diversas posturas teóricas fundamentais, quanto
também às teorias especificamente ligadas ao problema que preten-
de estudar. Trata-se de dois tipos de conhecimentos teóricos que se
inserem num contexto exclusivamente qualitativo, qualquer que seja
o tipo de ciência em causa e qualquer que seja o tipo de técnica a ser
empregada. O primeiro deles, eminentemente teórico, liga-se à filo-
sofia, quer seja esta compreendida como a ciência geral dos princí-
pios e das causas, quer seja entendida como o esforço para genera-
lizar, aprofundar, refletir e explicar conjuntos de fenômenos; de forma
alguma pode ser traduzido em termos qualitativos. Trata-se da reu-
nião de síntese, que constituem sempre construções abstratas, isto
é, despojadas de uma parte de elementos específicos para apresen-
tar somente os mais gerais. No caso particular das Ciências Sociais,
dizem respeito principalmente a suas bases. Como exemplo, é de
lembrar a afirmação de Durkheim de que todo fato social só é expli-
cável por outro anterior3; a asserção se aplica a todos os fatos so-
ciais, quaisquer que sejam o tempo e o lugar em que se encontrem,
quaisquer que sejam seu porte e forma. Significa que a sociedade,
embora detentora de raízes biológicas e psicológicas, nelas não en-
contra a sua explicação e sim somente no próprio fato social. Este
deve ser tratado como o das demais ciências para ser compreendi-
do. O estudo das coletividades se apresenta semelhante ao das de-
mais ciências, e portanto se insere no contexto filosófico a que estas
pertencem. Apresenta, no entanto, especificidades, sendo indispen-

Durkheim, 1960, p. 32.

20
O PESQUISADOR, O PROBLEMA DA PESQUISA

sável a definição de suas regras básicas também sob forma sintéti-


ca, de que se ocupou o mestre numa de suas obras fundamentais.
O segundo tipo de conhecimento teórico não atinge o mesmo
grau de abstração do primeiro porque apresenta novas limitações,
já que se liga a determinado fato concreto; seus conceitos e conclu-
sões não se aplicam pois, indistintamente, a qualquer dado do uni-
verso das Ciências Sociais. À guisa de exemplo, é de lembrar o con-
junto de teorias existentes sobre o messianismo, fenômeno ao mesmo
tempo sócio-econômico e político, porém e principalmente religioso;
por ser este a sua característica fundamental, as teorias que dele se
ocupam são específicas a um único conjunto de fatos sociais bem
determinados, não podendo ser estendidas a conjuntos que não
pertençam à mesma qualificação, por mais próximos que pareçam4.
Embora restritas a determinados fenômenos, elas são ainda abstra-
ções porque se aplicam a todos aqueles que pertençam ao âmbito
em foco, desde que apresentem os aspectos principais por elas defi-
nidos.
Tanto no que diz respeito ao, conjunto teórico fundamental,
quanto ao tocante ao segundo conjunto, necessita o pesquisador
conhecer sua própria posição diante deles, isto é, se os aceita inte-
gralmente, ou até que ponto com eles concorda, em que aspectos os
considera duvidosos. Como o conhecimento referente a este segun-
do conjunto é sempre limitado, encontra-se subordinado ao primei-
ro, que se estende a todos os fatos sociais indistintamente. A facili-
dade maior ou menor do cientista em descobrir sua maneira de
pensar diante das teorias existentes, isto é, em penetrar na obscuri-
dade do que se encontra implícito nas posições que adotou, não

Pereira de Queiroz, 1976.

21
Coleção TEXTOS. Série 2, n. 10

depende somente de qualidades pessoais e intransferíveis; depende


e muito de um sólido preparo sistemático, de um amplo leque de
conhecimentos nas disciplinas das Ciências Sociais. Caso contrá-
rio, poderá adotar posições contraditórias entre o primeiro e o se-
gundo tipo de conhecimentos teóricos. O esclarecimento destas ques-
tões, que pertencem ao âmbito do que é qualitativo, deve ser
preliminar até mesmo à formulação clara do primeiro projeto de
pesquisa (pois podem haver mudanças no decorrer da investigação)
e, portanto, à realização dela; prendem-se à formação do pesquisa-
dor e à necessidade de destrinchar a maior parte possível das ques-
tões teóricas subjacentes.
A proposição das questões a serem estudadas, a coleta e a
análise dos dados, dependerão em grande parte do grau de assimi-
lação crítica das teorias pelo pesquisador - entendendo-se por assi-
milação crítica a reflexão aprofundada do pesquisador sobre os
conjuntos de abstrações que já encontra prontos ao iniciar o traba-
lho. Comparando os vários conjuntos existentes a respeito do pro-
blema que o interessa, adota os que lhe parecerem mais adequados
aos seus propósitos e à sua própria visão da ciência e do mundo. Na
verdade, estas últimas determinarão sempre o caminho que ele re-
solver seguir; eis porque a reflexão a respeito de sua própria posição
é indispensável. Não esquecer que os corpus teóricos não consti-
tuem conjuntos de verdades irrefutáveis; são aceitos provisoria-
mente e sua manutenção depende da continuidade das investiga-
ções. Isto é, as conclusões destas são sempre comparadas com as
proposições teóricas que o cientista aceitou de início. Se concordan-
tes, fecha-se um círculo dos trabalhos, o que não elimina porém a
possibilidade dele se abrir novamente mais tarde, por meio de ou-
tras pesquisas. Se discordantes, a pesquisa termina pela proposi-
ção de um novo problema que, porém, será esclarecido numa outra

22
O PESQUISADOR, O PROBLEMA DA PESQUISA

investigação. Estas observações são válidas para todos os traba-


lhos, quer utilizem técnicas qualitativas, quer se voltem para as
quantitativas.
As técnicas qualitativas procuram captar a maneira de ser do
objeto pesquisado, isto é, tudo o que o diferencia dos demais; a
Sociologia já tem sido por isso chamada de "ciência das diferenças".
Por meio da separação das diversas partes que compõem um todo
(quer este seja um grupo ou uma sociedade, quer esteja constituído
por uma coletividade definida pelo pesquisador) é ele decomposto,
para ser recomposto de acordo com as divisões do projeto previa-
mente traçado. Assim por exemplo Roger Bastide estava interessa-
do em verificar se as formas de suicídios de brancos e negros seriam
semelhantes no Brasil, e de que maneira se diferenciariam5. Bus-
cou primeiramente saber se a cultura negra dava lugar a uma pro-
pensão ao suicídio, verificando que não; os suicídios se tornam fre-
qüentes no Brasil devido à escravidão. Dessa forma, além de procurar
conhecer uma característica da cultura negra, efetuou uma primei-
ra divisão dos dados encontrados no Brasil antigo: a separação de
livres e escravos. O esquema segundo o qual foram divididos os
dados obtidos diziam respeito primeiramente a esta delimitação, à
qual se seguia uma definição das diversas maneiras de auto-elimi-
nação. Dois caminhos foram então delineados: seguir as divisões já
existentes na coletividade, isto é, segundo a cor, segundo o sexo,
segundo a idade; conservando estas separações, verificar agora se
haveria a utilização de formas diversas de suicídio de acordo com
elas. Neste trabalho de Roger Bastide, que é na verdade um roteiro
das diversas indagações a serem efetuadas numa pesquisa, verifi-

Bastide, s.d.

23
Coleção TEXTOS. Série 2, n. 10

ca-se que os instrumentos fundamentais da abordagem qualitativa


são a diferenciação e a comparação. A decomposição dos suicídios
segundo a divisão sexual e pelas diversas modalidades de se tirar a
vida, é seguida pela comparação dos diversos itens.
A pesquisa de Roger Bastide podia perfeitamente permanecer
no âmbito da qualidade; no entanto, ele também fez uma tentativa
para buscar a distribuição numérica dos mesmos, sempre segundo
as divisões apresentadas pela coletividade brasileira, apesar das
dificuldades encontradas para quantificações seguras; introduzia
assim uma ordem estruturada pelo próprio pesquisador - a ordem
das quantidades - no interior do objeto da pesquisa. Para que esta
segunda abordagem fosse seguida, tinha sido necessário, porém,
saber quais as qualidades principais do mesmo. Desta forma, um
conhecimento qualitativo, por diferenciações internas apresentadas
pela sociedade brasileira, orientara as indagações de Bastide, dife-
renciações que a sociedade possuía e não provinham da criativida-
de de um pesquisador.
O conhecimento qualitativo da coletividade estudada havia
precedido seu conhecimento quantitativo. Bastide definira primei-
ramente as diversas modalidades de suicídio de acordo com sexo,
idade, situação social, etc, para ser possível em seguida utilizar a
abordagem quantitativa, isto é, procurar saber quantas vezes ocor-
riam suicídios segundo a posição social, o sexo, a idade. Os dois
tipos d abordagem se mostraram aqui rigorosamente complementa-
res e convergiam para um melhor conhecimento do problema que
se desejava esclarecer. O conhecimento qualitativo traça os contor-
nos externos e internos da coletividade estudada; em seguida, a
abordagem quantitativa desvenda o número de vezes em que ocorre
o fenômeno e sua intensidade, segundo as divisões já efetuadas. A
associação das duas abordagens possibilita um aprofundamento

24
O PESQUISADOR, O PROBLEMA DA PESQUISA

cada vez maior das facetas do objeto de estudo. No entanto, en-


quanto as técnicas qualitativas podem ser aplicadas sem qualquer
utilização das quantitativas, estas exigem sempre um emprego pré-
vio das qualitativas (definição de conceitos e categorias a serem usa-
das; descrição das constatações efetuadas por meio da observação
direta; análise de documentos antigos ou do presente recente, etc);
ao relatório resultante destas primeiras investigações são, em se-
guida, aplicadas as quantificações.
A escolha das técnicas quantitativas - a preferência do pes-
quisador por estas supera hoje, e muito, a abordagem exclusiva-
mente qualitativa - não elimina esta última, muito pelo contrário; o
conhecimento qualitativo é imprescindível para que se realize em
seguida um conhecimento quantitativo. Este último só pode ser ten-
tado depois que uma primeira abordagem qualitativa foi efetuada,
ou na própria pesquisa que se quer realizar, ou em pesquisas ante-
riores; assim, pode ela ser executada pelo próprio pesquisador, ou
pode sete utilizar os resultados que já existam no arsenal dos co-
nhecimentos sobre o problema, oriundos de trabalhos realizados
por outrem. Roger Bastide, depois de apresentar suas conclusões
específicas ao suicídio no meio brasileiro, comparou estes resulta-
dos com as concepções então aceitas na França, de que as caracte-
rísticas psicológicas seriam fundamentais para designar que indiví-
duos se matariam, numa coletividade; a classificação segundo tipos
psicológicos - paranóicos, perversos, mitômanos, ciclotímicos e hi-
peremotivos - mostrando a ocorrência do fato somente nos dois úl-
timos tipos de indivíduos, indicava que na Psicologia se devia bus-
car sua explicação última, e não na Sociologia. O estudo de Roger
Bastide se opunha a esta asserção. Verificara ele, por exemplo, que
o suicídio "varia conforme a cor. O preto permanece ligado aos seus
antigos métodos, os do tempo da escravidão; constitui assim um gru-

25
Coleção TEXTOS. Série 2, n. 10

po à parte na comunidade brasileira O mulato, ao contrário, mais


ambicioso, desejando separar-se radicalmente dos que são mais es-
curos do que ele", tende a igualar-se aos brancos quanto às formas
de buscar a morte. Pôde concluir então que "os fatores sociais pre-
valecem sobre os fatores psíquicos e inter-mentais" e que era válida a
regra de Durkheim, de que um fato social se explica sempre por
outro fato social6.
A visão quantitativa de um problema pesquisado e de seu
universo se encontra, assim, claramente subordinada à visão quali-
tativa, que tanto a precede quanto a segue. O cientista, chegando ao
fim da exposição quantitativa, retorna à abordagem qualitativa.
Comparando seus resultados com os de outros pesquisadores, os
quais compõem o acervo de conhecimentos a respeito do fenômeno
e formam um quadro histórico e teórico do mesmo, procura atingir
seu sentido oculto. Ao passar da constatação quantitativa para a
busca do significado de suas conclusões, regressa o cientista ao
âmbito do qualitativo, o que é imperativo e inevitável se deseja des-
vendar o incógnito.
As técnicas quantitativas não são mais do que uma ordena-
ção do qualitativo segundo a maior ou menor quantidade de ele-
mentos do fenômeno, segundo a maior ou menor intensidade com
que este se apresenta. As técnicas qualitativas desvendam os predi-
cados de uma sociedade e de suas divisões internas. Num e noutro
caso, a reflexão opera segundo divisões em partes, buscando-se ve-
rificar entre elas as oposições e as correlações; ressalta-se assim a
importância do procedimento comparativo. É por meio das compa-
rações que se pode chegar a descobertas. A utilidade da quantifica-
ção está no fato de que ela é um meio de ultrapassar unidades,

Bastide, s.d., p. 40.

26
O PESQUISADOR, O PROBLEMA DA PESQUISA

reunindo-as em coletividades que ou já existem num conjunto maior


(como é o caso da separação por sexos dentro de um grupo ou de
uma sociedade, por exemplo), ou são criadas pelo próprio pesquisa-
dor (como é o caso de uma amostragem científica).
A simples aplicação da quantificação não permite passar da
composição de coletividades a partir de unidades, nem da descrição
das mesmas (por mais sofisticadas com a aplicação de fórmulas
estatísticas cada vez mais rebuscadas) para a explicação e a inter-
pretação, sem antes utilizar o crivo das comparações. Embora a
ordem introduzida pelo pesquisador no universo dos dados em es-
tudo por meio da quantificação possa parecer a melhor maneira de
se chegar ao conhecimento dos mesmos, ela somente narra o que se
encontrou; não desvenda por que motivos ou razões a coleção de
indivíduos assim analisada age consciente ou inconscientemente;
nada diz a respeito dos interesses que a coletividade manifesta; nada
exprime que constitua uma explicação. Possibilita, isso sim, a ex-
pansão das mesmas pesquisas em lugares diferentes e sem épocas
diferentes, mas não passa de uma simples repetição das mesmas. A
esse respeito, a pesquisa realizada por Roger Bastide sobre os suicí-
dios de negros no Brasil é novamente exemplar, pois mostra como o
fenômeno se apresentou através do tempo, desde os dados que en-
controu para o séc. XIX até os anos de 1938-1940, os mais recentes
publicados pela Polícia no momento em que o estudo foi feito, tam-
bém efetua, na medida do possível, o cotejo entre dados de cidades
e de regiões diferentes. Em ambos os casos, a comparação, isto é, a
aproximação entre dados para observar as convergências e diferen-
ças de suas qualidades, a partir da constatação da existência de
certa igualdade entre eles, constitui o instrumento da reflexão in-
dispensável para aprofundar o conhecimento. Durkheim já estabe-
lecera que não existia, em Sociologia, "senão um meio de demons-

11
Coleção TEXTOS. Série 2, n. 10

trar que um fenômeno é causa de outro, e é comparar os casos em


que estão simultaneamente presentes ou ausentes"; consagrava en-
tão o método comparativo como "o único que convém à Sociologia"7.
A Comparação é uma maneira de se avaliar um fenômeno, isto é,
determinar o caráter ou o valor dele, seja por meio da reflexão, seja
por meio de cálculos. A passagem do quantitativo ao qualitativo existe
neste último caso, uma vez que a ligação entre os fenômenos com-
parados se opera sempre em função de circunstâncias que lhes são
exteriores, como as de tempo e de espaço. A comparação vem em
seguida à descrição (e a técnica quantitativa é eminentemente des-
critiva) e precede à explicação; ela não é específica das Ciências
Sociais, é um procedimento indispensável em todas as ciências, exis-
tindo sempre nelas o problema da escolha dos critérios comparati-
vos, que podem determinar o êxito ou o fracasso do trabalho; esta
consideração já demonstra que tal maneira de agir se insere no
âmbito da qualificação.
A visão quantitativa de um problema pesquisado e de seu
universo está claramente subordinada à visão qualitativa; este ca-
minho é o mesmo seguido pelas Ciências Exatas e Naturais; tam-
bém existe nestas a exigência do cientista se tornar consciente de
sua posição diante dos fundamentos específicos de sua ciência, além
dos das ciências em geral, assim como do fato de que estão elas em
grande parte determinadas pelo contexto histórico e sócio-cultural
a que pertencem, se quiser aprofundar o saber.
Toda pesquisa leva embutidas em sua formulação as opiniões
e as maneiras de pensar de quem a formulou e de quem a realizou,
as quais pertencem ao reino do qualitativo, ao qual a quantidade se

Durkheim, 1960, p. 121 e ss.

28
O PESQUISADOR, O PROBLEMA DA PESQUISA

encontra subordinada. A quantificação ocorre no interior desse rei-


no, quer se opere pelo número (pluralidade de unidades equivalen-
tes), pela ordem de grandeza (pequena ou grande quantidade), ou
ainda pela intensidade (mais ou menos forte). Depois de dominar o
que já foi realizado por trabalhos anteriores, assim como as diver-
sas correntes de pensamento teórico que a eles se ligam, o pesqui-
sador decidirá se vai responder às questões permanecendo no uni-
verso qualitativo, ou se buscará compreender as mesmas apenas
através de uma abordagem quantitativa. A especificidade dos pro-
blemas, já esclarecidos e por esclarecer, pesará, sem dúvida, em
sua decisão, assim como o destino que quer dar ao seu trabalho.
As técnicas são maneiras de fazer bem definidas e transmissí-
veis, destinadas a produzir determinados resultados considerados
úteis; sua função não é diretamente explicativa; busca operar reu-
niões de dados segundo esquemas específicos, com a finalidade de
analisá-los, isto é, de, por meio da decomposição do todo em seus
elementos, chegar a um arranjo dos dados que não existia anterior-
mente; acredita-se que a nova disposição dos mesmos levará a um
conhecimento de significados implícitos ou latentes. As técnicas são
diferentes em sua maneira de ser e de agir, sendo indispensável
conhecer com clareza os princípios que lhes são subjacentes, o que
as distingue umas das outras, bem como os limites da ação que
podem desenvolver.
Seja qual for a técnica empregada, seu campo de ação para
coligir os dados é constituído pelos documentos, que são registros
da realidade em determinado momento e em determinado local, for-
necendo informações ou servindo de provas para informações já
obtidas. Eles se apresentam em geral sob três formas: documentos
escritos; documentos orais; documentos iconográficos. Em qualquer
dos três casos, podem eles existir na coletividade estudada, ou po-

29
Coleção TEXTOS. Série 2,11. 10

dem ser fabricados pelo pesquisador. Os primeiros, cuja vigência


independe do cientista, são constituídos por registros de varias fon-
tes históricas, por estatísticas, por quaisquer apontamentos a res-
peito da realidade, efetuados por quem quer que seja, na atualidade
ou no passado. Neste último caso, para dar um exemplo, a desco-
berta de um conjunto de simples contas antigas referentes a uma
fazenda paulista durante o séc. XIX, deu lugar, pela sua análise, a
uma obra que esclarece vários aspectos do custeio de uma proprie-
dade nessa época8. Também as estatísticas oriundas de recensea-
mentos administrativos, os registros paroquiais, constituem docu-
mentos não fabricados pelo pesquisador. Émile Durkheim (1850-1918)
foi um dos primeiros sociólogos a se valer desta documentação, de-
monstrando sua importância para o estudo de coletividades9.
Além destes documentos que já existem em todo grupo ou
sociedade, os cientistas sociais podem fabricar outros para o escla-
recimento de problemas que estão estudando. A construção cons-
ciente e especializada de instrumentos para a coleta de dados se
iniciou provavelmente na França, no séc. XIX, com um grande nome
- Frédéric Le Play (1806-1882); utilizou em suas pesquisas tanto a
observação direta, técnica qualitativa por excelência, mas também
criou questionários para análise específica dos orçamentos familia-
res das camadas operárias européias10. Este instrumento de pes-
quisa foi por ele organizado e codificado para poder captar dados de
centenas de famílias, dados que eram tornados comparáveis por ser
utilizado sempre o mesmo questionário; quantitativamente analisa-
dos, sua importância descritiva ficou patente nas mais de quarenta

Pereira de Queiroz, 1965.


Durkheim, 1897.
LePlay, 1855.

30
O PESQUISADOR, O PROBLEMA DA PESQUISA

monografias que conseguiu realizar em diversos países europeus.


Ultimamente outros tipos de documentação têm sido criados pelos
pesquisadores - as fotografias, o registro oral por meio do gravador,
os documentários filmados, etc.
O emprego destes documentos, sejam eles oriundos ou não da
atividade do pesquisador, requer uma crítica rigorosa para que se-
jam aplicados com segurança. No caso de já existirem, padecem de
dupla influência da subjetividade: a de quem fez o documento e a de
quem vai empregá-lo. Urge, pois, saber quando, como e com que
intuito foram fabricados; a melhor crítica está em sua comparação
com documentos provenientes de outras fontes e versando sobre o
mesmo dado, pois as convergências e as disparidades podem refor-
çar a confiança ou mostrar que as suspeitas estão a exigir novos
cotejos. Quando o pesquisador é o "fabricante" do documento, é
indispensável que efetue primeiramente uma auto-analise em rela-
ção ao problema investigado para desvendar os juízos de valor e as
limitações que possui e desconhece: verifica sua própria posição
diante da questão que deseja investigar, não apenas para um auto-
esclarecimento do que lhe vai pelo íntimo, mas para informar aque-
les que se servirão de seu estudo, devendo esta informação constar
da introdução do mesmo. Em seguida, é imprescindível também a
comparação com documentos que não foram fabricados por ele e
que sirvam de comprovantes para a pertinência do dado que cap-
tou. Atualmente, a "fabricação" de um documento pelo pesquisador
utiliza vários instrumentos mecânicos outrora inexistentes: a foto-
grafia, o filme, e, mais recentemente, o gravador que registra entre-
vistas, depoimentos, histórias de vida. Cada um deles tem suas van-
tagens e suas limitações, que devem ser cuidadosamente investigadas
antes de se escolher sua utilização; todos eles exigem imperiosa-
mente a comparação com dados de outras fontes, tanto mais que

31
Coleção TEXTOS. Série 2, n. 10

se trata de técnicas ainda mal conhecidas e mal empregadas nas


Ciências Sociais. O gravador é o mais comumente adotado, na cren-
ça de que com ele fica limitada a interferência do subjetivismo do
cientista; ledo engano, que o aprofundar de sua utilização permite
verificar com clareza11. Não se leva em conta, também, que os grava-
dores possuem "linguagens" que lhe são específicas, isto é, siste-
mas de sinais mecânicos por meio dos quais são registrados, arma-
zenados e retransmitidos dados e reflexões. Cada tipo de computador
possui o seu "idioma", esta expressão sendo aqui utilizada de acor-
do com seu verdadeiro sentido: ao mesmo tempo linguagem parti-
cular e única na maneira de associar as palavras como veículo de
comunicação, e linguagem cuja utilização é difundida somente en-
tre uns poucos. Os "idiomas" dos computadores são específicos a
cada marca, o manejo de qualquer deles exigindo um aprendizado
que impede sua utilização por qualquer indivíduo; como todo idioma,
tem suas limitações ao expressar as idéias. Ao se lançar mão do com-
putador como meio de análise e de expressão, é indispensável verifi-
car o campo que ele abarca e o que fica fora de seu alcance, quais as
implicações explícitas e implícitas de suas demarcações. Uma vez
verificadas suas restrições, também se terá uma primeira noção de
quais outras fontes serão indispensáveis para suprir o que fica de
sua extensão. A exigência se repete a cada investigação, pois cada
questão tem também seu campo específico de extensão, demandan-
do maior ou menor detalhe na confecção do dado e da análise.
Ressalta-se assim o papel fundamental da "linguagem" nas
Ciências Sociais, uma vez que ela é um conjunto socialmente insti-

Pereira de Queiroz, 1991.


In: SIMSON, Olga R. M. von (Org.). Experimentos com histórias de vida: Itália-
Brasil. São Paulo: Vértice, 1988. p. 14-43.
O PESQUISADOR, O PROBLEMA DA PESQUISA

tuído e estável de sinais ou de símbolos verbais ou escritos, empre-


gados intencionalmente para a comunicação direta entre o ego e o
outro, mas também para o registro de pensamentos, de sentimen-
tos, de aspirações. Qualquer que seja o instrumento de pesquisa
utilizado, dará lugar a um discurso, isto é, ao desenvolvimento dos
pensamentos do pesquisador por meio de seqüências de palavras
ou de proposições que se encadeiam, de operações mentais parciais
que se articulam em conjuntos de frases. A reflexão e seus resulta-
dos caminham de um julgamento a outro, passando por vários jul-
gamentos intermediários para chegar à compreensão de algo, isto é,
ao conhecimento. Caminho percorrido, construção, conclusões, per-
tencem ao reino do qualitativo, só podendo ser comunicados e com-
preendidos por meio das palavras. O qualitativo figura abertamente
no início do trabalho, quando são apresentadas as proposições teó-
ricas; retorna ao primeiro plano no final, ao serem expostas as in-
terpretações e as generalizações. O qualitativo está, além do mais,
constantemente presente em todo o desenrolar do trabalho, uma
vez que sem a palavra nenhuma transmissão de saber científico é
possível. Na verdade, somente o procedimento qualitativo possibili-
ta um aprofundamento real do conhecimento e uma acumulação do
saber, dois predicados fundamentais da ciência. Nunca é demais,
portanto, sublinhar a necessidade de uma formação específica do
pesquisador em Ciência Sociais, de uma ampliação constante de
seu leque de conhecimentos, de uma reflexão crítica intensa tanto
com respeito às teorias quanto no que diz respeito às técnicas e,
mais ainda, relativamente ao trabalho de pesquisa que se dispôs a
efetuar. Estas exigências são ao mesmo tempo as bases e os instru-
mentos que tornarão confiáveis os resultados da investigação.

33
Coleção TEXTOS. Série 2, n. 10

Referências bibliográficas

BASTIDE, R. Os suicídios em São Paulo segundo a cor. Sociologia, n. 2, s. d.

DURKHEIM, É. As regras do método sociológico. 1. ed. São Paulo: Nacional,


1960.

. Le suicide. Paris: Alcan, 1897.

FOULQUIÉ, P. Dictionnaire de Ia langue phüosophique. 4. ed. Paris: Presses


Universitaires de France, 1982.

GRESLE, F. et ai. Dictionnaire des Sciences Humaines. Paris: Nathan, 1990.

LALANDE, A. Vocabulaire technique et critique de Ia Philosophie. 13. ed. Paris:


Presses Universitaires de France, 1980.

LE PLAY, F. Les ouvriers européens. Tours: Mame, 1855.

MORFAUX, L-M. Vocabulaire de Ia Philosophie et des Sciences Humaines. Paris:


Armarid Colin, 1980.

PEREIRA DE QUEIROZ, C. Umfazendeiro paulista no século XIX. São Paulo:


Conselho Estadual de Cultura, 1965.

PEREIRA DE QUEIROZ, M. I. "História". In: COLOMBINE, Luís Fernando


(Org.). O ímã que tudo anima: homenagem a Simão Mathias. São Paulo: Nova
Stella, 1988.

. O messianismo no Brasü e no mundo. 2. ed. São Paulo: Alfa-Omega,


1976.
. Variações sobre a técnica do gravador no registro da informação viva.
2. ed. São Paulo: T. A. Queiroz, 1991. (Biblioteca Básica de Ciências Sociais.
Série 2. Textos; 7).

THINES, G.; LEMPEREUR, A. Dictionnaire general des Sciences Humaines.


Paris: Éditions Universitaires, 1975.

34
RELATOS ORAIS: DO "INDIZIVEL" AO "DIZIVEL"*

Maria Isaura Pereira de Queiroz

Revalorização do Relato Oral

Não faz muitos anos, o "relato", denominado agora "história


oral", fez seu reaparecimento entre as técnicas de coleta de material
empregadas pelos cientistas sociais com tanto sucesso que, por
muitos deles, foi encarado como "a" técnica por excelência, e até
mesmo a única válida para se contrapor às quantitativas. Enquanto
estas últimas - reduzindo a realidade social à aridez dos números -
pareciam amputá-la de seus significados, a primeira encerrava a
vivacidade dos sons, a opulência dos detalhes, a quase totalidade
dos ângulos que apresenta todo fato social.
Diz-se reaparecimento porque, do começo do século ao início
dos anos 50, a "história oral" fora utilizada por sociólogos como W.
I. Thomas (1863-1947) e F. Znaniecki (1882-1958) em sua pesquisa
conjunta, datada de 1918-1920; ou como John Dollard (1900) que
pretendeu traçar-lhe as regras de aplicação; e também por antropó-
logos, entre os quais Franz Boas (1858-1942), geógrafo alemão con-
vertido à antropologia e naturalizado americano em 1886, que reco-
lheu relatos e depoimentos de velhos caciques e pajés a fim de
preservar do desaparecimento a memória da vida tribal. Estes cien-
tistas sociais encaravam a história oral e principalmente a história
de vida como um instrumento fundamental de suas disciplinas.
Coleção TEXTOS. Série 2,11. 10

Porém, enquanto Boas a empregava sem grandes discussões, tanto


Dollard quanto Thomas e Znaniecki alertavam para as dificuldades
que apresentavam.
Para estes dois últimos, a história de vida mostrava apenas
um aspecto parcial da realidade; assim sendo, não podia ser utiliza-
da isoladamente, mas devia ser completada e esclarecida por toda a
sorte de dados colhidos segundo outras técnicas. O monumental
trabalho que empreenderam sobre o camponês da Polônia, imigran-
te e em seu país de origem encerra, com efeito, coletas realizadas
por meio de instrumentos de pesquisa os mais variados. Quanto a
John Dollard, sua preocupação era as implicações psicológicas das
histórias de vida. Considerava-as como aptas para se conhecer como
se desenvolvia um indivíduo em seu meio sócio-cultural; estariam,
portanto, muito coloridas pelo subjetivismo do informante, o que
deturparia sua narrativa. Porém, para estes autores, o relato oral se
apresentava como técnica útil para registrar o que ainda não se
cristalizara em documentação escrita, o não conservado, o que de-
sapareceria se não fosse anotado; servia, pois, para captar o não
explícito, quem sabe mesmo o indizível.12
O grande desenvolvimento das técnicas estatísticas, em fins
dos anos 40, relegou para a penumbra relatos orais e histórias de
vida, que pareciam demasiadamente ligadas às influências da psi-
que individual. A técnica de amostragem com a aplicação de ques-
tionário surgia agora como a maneira mais adequada de se obter
dados inquestionavelmente objetivos.
Pouco a pouco se percebeu, no entanto, que valores e emo-
ções permaneciam escondidos nos próprios dados estatísticos, já

12
Thomas e Znaniecki (1927), Dollard (1935), Boas (1942).

36
RELATOS ORAIÍ: DO "INDIZÍVEL" AO "DIZÍVEL"

que as definições das finalidades da pesquisa e a formulação das


perguntas estavam profundamente ligadas à maneira de pensar e
de sentir do pesquisador, o qual transpunha assim para os dados,
de maneira perigosa porque invisível sua própria percepção e seus
preconceitos. Os números perdiam sua auréola de pura objetivida-
de, patenteando-se dotados de viezes anteriores ao momento da co-
leta, escondidos na formulação do problema e do questionário; ocul-
tos, pareciam inexistentes... Porém influenciavam o levantamento,
desviando-o muitas vezes do rumo que devia seguir.
O desenvolvimento tecnológico, colocando à disposição do cien-
tista social novos meios de captar o real, como o gravador, reavivou
novamente o relato oral. As fitas pareciam agora o meio milagroso
de conservar à narração uma vivacidade de que o simples registro
no papel as despojava, uma vez que a voz do entrevistado, suas
entonações, suas pausas, seu vaivém no que contava, constituíam
outros tantos dados preciosos para estudo. Sem dúvida, Oscar Lewis
(1970) foi um pioneiro neste sentido. Muito embora se considere hoje
discutível a maneira pela qual agiu, ao colher as várias histórias de
vida de membros da família Sanchez, mostrou como utilizar um novo
meio de registro, recolheu precioso repositório de dados, criou docu-
mentos cuja exploração é ainda possível, apesar das dúvidas levanta-
das. Como que se redescobriu nesse momento o relato oral e se aqui-
latou de maneira positiva sua grande importância.

Relato Oral e Transmissão de Conhecimento

No entanto, através dos séculos, o relato oral constituíra sem-


pre a maior fonte humana de conservação e difusão do saber, o que
eqüivale a dizer, fora a maior fonte de dados para as ciências em

M
Coleção TEXTOS. Série 2, n. 10

geral. Em todas as épocas, a educação humana (ao mesmo tempo


formação dê hábitos e transmissão de conhecimentos, ambos muito
interligados) se baseara na narrativa, que encerra uma primeira
transposição: a da experiência indizível que se procura traduzir em
vocábulos. Um primeiro enfraquecimento ou uma primeira mutila-
ção ocorre então, com a passagem daquilo que está obscuro para
uma primeira nitidez - a nitidez da palavra - rótulo classificatório
colocado sobre uma ação ou uma emoção.
A transmissão tanto diz respeito ao passado mais longínquo,
que pode mesmo ser mitológico, quanto ao passado muito recente,
à experiência do dia-a-dia. Ela se refere ao legado dos antepassados
e também à comunicação da ocorrência próxima no tempo; tanto
veicula noções adquiridas diretamente pelo narrador, que pode in-
clusive ser o agente daquilo que está relatando, quanto transmite
noções adquiridas por outros meios que não a experiência direta, e
também antigas tradições do grupo ou da coletividade.
O relato oral está, pois, na base da obtenção de toda a sorte de
informações e antecede a outras técnicas de obtenção e conserva-
ção do saber; a palavra parece ter sido senão a primeira, pelo menos
uma das mais antigas técnicas utilizadas para tal. Desenho e escri-
ta lhe sucederam. Quando o "homem das cavernas" deixou, nas
paredes desta, figuras que se supõe formarem um sentido estavam
transmitindo um conhecimento que possuía e que talvez já tivesse
recebido um nome, estando já designado pela palavra (LEROI-GOU-
RHAN, 1964). O fruto de suas experiências e descobertas ficava as-
sim concretizado e passava aos demais, inclusive aos pósteros. Mais
tarde a escrita, quando inventada, não foi mais do que uma nova
cristalização do relato oral.
Desde que o processo de transmissão do saber se instala, im-
plica imediatamente na existência de um narrador e de um ouvinte

38
RELATOS ORAIS: DO "INDIZÍVEL" AO "DIZÍVEL"

ou de um público. Ao se operar a passagem do oral para um signo


que o "solidifica", seja ele desenho ou escrita, instala-se novo inter-
mediário entre narrador e público. O intermediário pode ser tam-
bém um indivíduo que funcione como transmissor dos conhecimen-
tos que ouviu de outrem. Da mesma forma que desenho e palavra
escrita constituem uma reinterpretação do relato oral, também o
indivíduo intermediário, por mais fiel, acrescenta sua própria inter-
pretação àquilo que está narrando.
O gravador parece, à primeira vista, um instrumento técnico
próprio para anular, ou pelo menos para diminuir o possível desvio
trazido pela intermediação do pesquisador. Logo se viu, no entanto,
que o poder da máquina não era tão absoluto, e nem mesmo tão
grande quanto se havia suposto, uma vez que a utilização dos da-
dos nas pesquisas exigia, em seguida, a transcrição escrita. Uma
parte do registro se perdia na passagem do oral para o texto, e este
ficava igualado a qualquer outro documento (PEREIRA DE QUEI-
ROZ, 1983). A vantagem era conservar com maior precisão a lin-
guagem do narrador, suas pausas (que podiam ser simbolicamente
transformadas em sinais convencionais), a ordem que dava às idéias.
O documento resultante era sem dúvida mais rico do que aquele
registrado pela mão do pesquisador, mas apesar de tudo havia um
empobrecimento quando comparado com a fita gravada, e de novo o
pesquisador se tornava um intermediário que podia deturpar de
alguma forma o que fora registrado.
A fita, porém, não é passível de ser guardada indefinidamen-
te. Se repetidas vezes empregadas por um mesmo ou por sucessivos
pesquisadores que quiserem evitar a transcrição escrita, logo se
deteriora; obter dela cópias em quantidade leva a despesas apreciá-
veis, embora concorra para conservá-la. Toda fita, mesmo quando
utilizada com parcimônia, ainda assim é frágil, exige cuidados espe-

39
Coleção TEXTOS. Série 2, n. 10

ciais para maior durabilidade, e armazenagem bastante cara. A única


forma de se conservar o relato por longo tempo está ainda em sua
transcrição. Volta-se ao que se acreditara evitar com o gravador,
isto é, à intermediação escrita entre o narrador e o público para a
utilização do relato, e às possíveis deturpações dela decorrentes.
Tal constatação contribui para desfazer nova ilusão: a de que
se deveria conservar a narrativa o mais próximo possível de seu
registro, evitando a intervenção do pesquisador e a ocorrência de
cortes que prejudicariam o conhecimento integral do dado recolhi-
do. Tropeça-se aqui com algo que parece obstáculo intransponível:
a nítida distinção entre narrador e pesquisador, que é fundamental.
O pesquisador é guiado por seu próprio interesse ao procurar um
narrador, pois pretende conhecer mais de perto, ou então esclare-
cer algo que o preocupa; o narrador, por sua vez, quer transmitir
sua experiência, que considera digna de ser conservada e, ao fazê-
lo, segue o pendor de sua própria valorização, independentemente
de qualquer desejo de auxiliar o pesquisador. Procurará por todos
os meios relatar, com detalhes e da forma que lhe parece mais satis-
fatória, os fatos que respondem aos seus próprios intentos, e tudo
isto pode convir ou não ao pesquisador, o qual tentará então trazer
o narrador ao "bom caminho", isto é, ao assunto que estuda.
Mais tarde, ao utilizar o relato, o pesquisador o fará de acordo
com suas preocupações e não com as intenções do narrador, isto é,
as intenções do narrador, serão forçosamente sacrificadas. Assim, o
propósito deste último fica sempre em segundo plano, desde o início
da coleta de dados. Em primeiro lugar, porque não coincide nunca
inteiramente com os propósitos do pesquisador; foram os desejos
deste que deslancharam o relato, sendo então predominantes sobre
o intento do narrador. Em segundo lugar, porque o pesquisador
utilizará em seu trabalho as partes do relato que sirvam aos objeti-

40
RELATOS ORAIS: DO "INDIZÍVEL" AO "DIZÍVEL"

vos fixados, destacando os tópicos que considerará úteis e despre-


zando os demais.
Noutras palavras, desde o início da coleta do material, quem
comanda toda a atividade é o pesquisador, pois foi devido a seus
interesses específicos que se determinou a obtenção do relato. Du-
rante a entrevista, portanto, por mais que se procure deixar o nar-
rador como senhor do que está expressando, o pesquisador terá
sempre uma posição dominante. Que este mais tarde recorte o ma-
terial segundo suas finalidades, afim de aproveitá-lo da maneira
que melhor convenha a estas, não estará senão seguindo a mesma
linha de dominação tomada desde o início e agora reafirmada de
maneira mais clara.
Na verdade, a narrativa oral, uma vez transcrita, se transfor-
ma num documento semelhante a qualquer outro texto escrito, diante
do qual se encontra um estudioso e que, ao ser fabricado, não se-
guiu forçosamente as injunções do pesquisador; de fato, o cientista
social interroga uma enorme série de escritos, contemporâneos ou
não, que constituem a fonte de dados em que apoia seu trabalho.
Recortes de jornal relativos à atualidade, documentos históricos de
variado tipo e de diversas épocas, correspondência hodierna ou pas-
sada, registros os mais diversos - sem esquecer as estatísticas esta-
belecidas pelos governantes ou por instituições específicas - foram
redigidos com intenções que nada tinham a ver com a pesquisa que
decidiu fazer; e não é por esta razão que devam ser afastados como
menos úteis. Pelo contrário, constituem hoje, como constituíram no
passado, a base mais sólida sobre a qual se erguerá o edifício da
investigação. É sobre ela que se realizará o procedimento primordial
de toda pesquisa - análise. E análise, em seu sentido essencial,
significa decompor um texto, fragmentá-lo em seus elementos fun-
damentais, isto é, separar claramente os diversos componentes, re-

41
Coleção TEXTOS. Série 2, n. 10

cortá-los, a fim de utilizar somente o que é compatível com a síntese


que se busca. Assim, diante destas considerações, o escrúpulo em
relação aos recortes das histórias orais e à sua utilização parcial, se
afigura nitidamente como um falso problema.

História Oral, História de Vida

"História oral" é termo amplo que recobre uma quantidade de


relatos a respeito de fatos não registra dos por outro tipo de docu-
mentação, ou cuja documentação se quer completar. Colhida por
meio de entrevistas de variada forma, ela registra a experiência de
um só indivíduo ou de diversos indivíduos de uma mesma coletivi-
dade. Neste último caso, busca-se uma convergência de relatos so-
bre um mesmo acontecimento ou sobre um período do tempo. A
história oral pode captar a experiência efetiva dos narradores, mas
também recolhe destas tradições e mitos, narrativas de ficção, cren-
ças existentes no grupo, assim como relatos que contadores de his-
tórias, poetas, cantadores inventam num momento dado. Na verda-
de tudo quanto se narra oralmente é história, seja a história de
alguém, seja a história de um grupo, seja história real, seja ela mí-
tica.
Dentro do quadro amplo da história oral, a "história de vida"
constitui uma espécie ao lado de outras formas de informação tam-
bém captadas oralmente; porém, dada sua especificidade, pode igual-
mente encontrar um símile em documentação escrita. Trata-se de
tipos de documentos próximos uns dos outros, mas que é necessá-
rio distinguir, pois cada qual tem sua peculiaridade de coleta e de
finalidade. Assemelham-se às histórias de vida, as entrevistas, os
depoimentos pessoais, as autobiografias, as biografias; fornecem

42
RELATOS ORAIS: DO "INDIZÍVEL" AO "DIZÍVEL"

todas elas materiais para a pesquisa sociológica, porém diferem em


sua definição e características.
A forma mais antiga e mais difundida de coleta de dados orais,
nas ciências sociais, é a entrevista; considerada muitas vezes como
sua técnica por excelência, tem sido, ao contrário, encarada como
desvirtuadora dos relatos. Nunca chegou, porém, a ser totalmente
posta de lado, o que demonstra sua importância. A entrevista supõe
uma conversação continuada entre informante e pesquisadora; o
tema ou o acontecimento sobre que versa foi escolhido por este últi-
mo por convir ao seu trabalho. O pesquisador dirige, pois, a entre-
vista; esta pode seguir um roteiro previamente estabelecido, ou ope-
rar aparentemente sem roteiro, porém na verdade se desenrolando
conforme uma sistematização de assuntos que o pesquisador como
que decorou. A captação dos dados decorre de sua maior ou menor
habilidade em orientar o informante para discorrer sobre o tema; é
esta que conhece o acontecimento, suas circunstâncias, a condição
atual ou histórica, ou por tê-lo vivido, ou por deter a respeito infor-
mações preciosas. Elas ora fornecem dados originais, ora comple-
mentam dados já obtidos de outras fontes. Na verdade, a entrevista
está presente em todas as formas de coleta dos relatos orais, pois
estes implicam sempre num colóquio entre pesquisador e narrador.
A história de vida, por sua vez, se define como o relato de um
narrador sobre sua existência através do tempo, tentando reconsti-
tuir os acontecimentos que vivenciou e transmitir a experiência que
adquiriu. Narrativa linear e individual dos acontecimentos que nele
considera significativo, através dela se delineiam as relações com os
membros de seu grupo, de sua profissão, de sua camada social, de
sua sociedade global, que cabe ao pesquisador desvendar. Desta
forma, o interesse deste último está em captar algo que ultrapassa o
caráter individual do que é transmitido e que se insere nas coletivi-

43
Coleção TEXTOS. Série 2, n. 10

dades a que o narrador pertence. Porém, o relato em si mesmo con-


tém o que o informante houve por bem oferecer, para dar idéia do
que foi sua vida e do que ele mesmo é. Avanços e recuos marcam as
histórias de vida; e o bom pesquisador não interfere para restabele-
cer cronologias, pois sabe que também estas variações no tempo
podem constituir indícios de algo que permitirá a formulação de
inferências; na coleta de histórias de vida, a interferência do pesqui-
sador seria preferencialmente mínima.
Outro aspecto fundamental da história de vida é ser ela uma
técnica cuja aplicação demanda longo tempo. Não é em uma ou
duas entrevistas que se esgota o que um informante pode contar de
si mesmo, tanto mais que a duração delas é limitada devido ao can-
saço. Além de exigir muitos encontros com o narrador, também se
deve contar quanto levam os relatos para serem transcritos. Final-
mente, uma das dificuldades consiste em se chegar a pôr ponto
final nas entrevistas, pois o. nai rádor em geral afirma que tem sem-
pre novos detalhes a acrescentar.. Não quer perder seu papel de
personagem...
Toda história de vida encerra um conjunto de depoimentos, O
termo foi muito cedo definido juridicamente, significando interroga-
ções com a finalidade de "estabelecer a verdade dos fatos". Perde,
porém, esta conotação nas ciências sociais, para significar o relato
de algo que o informante efetivamente presenciou, experimentou,
ou de alguma forma conheceu, podendo assim certificar. O crédito a
respeito do que é narrado será testado, não pela credibilidade do
narrador, mas sim pelo cotejo de seu relato com dados oriundos de
outras variadas fontes, que mostrará sua convergência ou não. Desta
forma, nas ciências sociais, o depoimento perde seu sentido de "es-
tabelecimento da verdade" para manifestar somente o que o infor-
mante presenciou e conheceu.

44
RELATOS ORAIS: DO "INDIZÍVEL" AO "DIZÍVEL"

A diferença entre história de vida e depoimento está na forma


específica de agir do pesquisador ao utilizar cada uma destas técni-
cas, durante o diálogo com o informante. Ao colher um depoimento,
o colóquio é dirigido diretamente pelo pesquisador; pode fazê-lo com
maior ou menor sutileza, mas na verdade tem nas mãos o fio da
meada e conduz a entrevista. Da "vida" de seu informante só lhe
interessam os acontecimentos que venham se inserir diretamente
no trabalho, e a escolha é unicamente efetuada com este critério. Se
o narrador se afasta em digressões, o pesquisador corta-as para
trazê-la de novo ao seu assunto. Conhecendo o problema, busca
obter do narrador o essencial, fugindo do que lhe parece supérfluo e
desnecessário. E é muito mais fácil a colocação do ponto final neste
caso, assim que o pesquisador considere ter obtido o que deseja. A
obediência do narrador é patente, o pesquisador tem as rédeas nas
mãos. A entrevista pode se esgotar num só encontro; os depoimen-
tos podem ser muito curtos, residindo aqui uma de suas grandes
diferenças para com as histórias de vida.
Voltando novamente às histórias de vida, embora o pesquisa-
dor subrepticiamente dirija o colóquio, quem decide o que vai rela-
tar é o narrador, diante do qual o pesquisador deve se conservar
tanto quanto possível, silencioso. Não que permaneça ausente do
colóquio, porém suas interferências devem ser reduzidas, pois o
importante é que sejam captadas as experiências do entrevistado.
Este é quem determina o que é relevante ou não narrar, ele é quem
detém o fio condutor. Nada do que relata pode ser considerado su-
pérfluo, pois tudo se encadeia para compor e explicar sua existên-
cia. Pode ser difícil fazê-la concluir, pois há sempre mais e mais
acontecimentos, mais e mais detalhes, mais e mais reflexões que a
memória vai resgatando.

45
Coleção TEXTOS. Série 2, n. 10

Vê-se, portanto, que estabelecer diferenças entre histórias-de


vida e depoimentos pessoais não constitui exagero de pesquisador
demasiadamente escrupuloso. A escolha de uma ou outra técnica
não pressupõe apenas diferenças na maneira de aplicá-las, mas in-
clusive, e, sobretudo, diferença nas preocupações do pesquisador
com relação aos dados que pretende obter. Noutras palavras, as
diferenças recaem sobre o tipo de pesquisa que se quer realizar,
pesquisa esta que, na sua especificidade, deverá requerer a aplica-
ção da história de vida, ou a coleta por meio de depoimentos.
Dois exemplos podem esclarecer estas divergências. Quando
se buscou conhecer como se desenrolava a existência cotidiana de
indivíduos de baixa renda, na cidade de S. Paulo, durante as déca-
das de 20 e 30, a técnica escolhida foi a das histórias de vida de
indivíduos que tivessem sido adolescentes ou jovens naquele perío-
do; e, como se tratava de histórias de vida, não foram elas limitadas
no tempo, mas, nas idas e vindas do narrador, chegaram sempre
até os dias de hoje. No entanto, justamente porque se tratava de
velhos, às vezes mesmo anciãos de muita idade, a atenção deles
naturalmente se voltou para infância e mocidade, trazendo ao pes-
quisador aquilo que estava buscando (PEREIRA DE QUEIROZ et
ai., 1981).l3 No entanto, ao se estudar o carnaval da cidade de S.
Paulo, tal como se realizara em variadas épocas até 30/40, através
de entrevistas com velhos foliões, a técnica escolhida foi a dos depo-
imentos. Tratava-se de conhecer não a seqüência da vida dos mes-
mos, porém as formas que havia tomado o folgue do no decorrer do
tempo; para tanto, urgia conhecer também o que havia sido conta-

13
É interessante verificar que, a orientar esta pesquisa, não havia ainda a autora
refletido suficientemente sobre a terminologia e a técnica que estava empregan-
do, tendo utilizado assim "depoimentos" como sinônimo de "histórias de vida".
Na verdade, esta última técnica foi a empregada.

46
RELATOS ORAIS: DO "INDIZÍVEL" AO "DIZÍVEL"

do por pais e avós, além de saber como todos se divertiam durante


as folias de Morno. Um aspecto era mesmo essencial: quais os gru-
pos e coletividades participantes, a que camadas sociais perten-
ciam, quem eram os líderes na organização da festa. Não era possí-
vel deixar a iniciativa do diálogo aos informantes; cabia ao
pesquisador orientá-lo de modo a colher a maior quantidade possí-
vel de material.14 O pesquisador guiava, pois, a narrativa do infor-
mante. Como se verifica, na história de vida o colóquio é conduzido
pelo narrador, que detém a condução do relato, enquanto nos depo-
imentos é o pesquisador que abertamente o dirige.
Embora na história de vida o pesquisador se abstenha de in-
tervir e a maneira de se realizar caiba ao narrador, na verdade o
pesquisador foi quem escolheu o tema da pesquisa, formulou as
questões que deseja esclarecer, propôs os problemas. O comando é
dele, muito embora procure não intervir durante a narração; não
impõe, portanto, os temas ao informante, que os abordará ou não, a
seu critério. No caso da pesquisa para esclarecer o cotidiano paulis-
tano de pessoas de baixa renda entre 1920 e 1937, uma das ques-
tões que o pesquisador tinha em mente era saber como os infor-
mantes haviam vivenciado ocorrências como as revoluções de 1924,
1930, 1932. Todavia, se o informante nada dizia a respeito, também
nada perguntava o pesquisador, não tentando "avivar a memória"
de seu interlocutor. Ao contrário, a "falha da memória", encontrada
em vários casos, podia ser reveladora da forma de participação des-
ta parcela de população em tais acontecimentos. Verificar também
se a "falha" ocorria mais nos relatos femininos, e muito menos nos
masculinos, também era algo que não podia ser desprezado.

14
A técnica de depoimentos foi abundantemente empregada por Olga Rodrigues de
Moraes von Simson (1981), em suas pesquisas sobre o carnaval paulista, ainda
em curso.

47
Coleção TEXTOS. Série 2, n. 10

Além de distinguir histórias de vida e depoimentos pessoais, é


preciso ainda destacar a diferença para com autobiografias e bio-
grafias. Narrar sua própria existência consiste numa autobiografia,
e toda história de vida poderia, a rigor, ser enquadrada nesta cate-
goria tomada em sentido lato. Mas no sentido restrito a autobiogra-
fia existe sem nenhum pesquisador, e é essa sua forma específica. É
o narrador que, sozinho, manipula os meios de registro, quer seja a
escrita, quer o gravador. Foi ele também que, por motivos estrita-
mente pessoais, se dispôs a narrar sua existência, fixar suas recor-
dações; deu-lhes o encaminhamento que melhor lhe pareceu e, se
utilizou o gravador, não raro ele mesmo efetua em seguida a trans-
crição, ou pelo menos a corrige. Na autobiografia não existe, ou se
reduz ao mínimo, a intermediação de um pesquisador; o narrador
se dirige diretamente ao público, e a única intermediação está no
registro escrito, quer se destine ou não o texto à publicação.
A biografia, por sua vez, é a história de um indivíduo redigida
por outro. Existe aqui a dupla intermediação que a aproxima da
história de vida, consubstanciada na presença do pesquisador e no
relato escrito que sucede às entrevistas. O objetivo do pesquisador é
desvendar a vida particular daquele que está entrevistando ou cu-
jos documentos está estudando, mesmo que neste estudo atinja a
sociedade em que vive o biografado, o intuito é, através dela, expli-
car os comportamentos e as fases da existência individual. A finali-
dade é sempre um personagem, isto é, uma pessoa encarada em
suas ações e em suas qualidades, naquilo que faz e diz através do
tempo, em variadas situações e circunstâncias. Busca-se conhecê-
lo através da sucessão de suas condutas e segundo dois princípios
fundamentais, que orientam tanto as entrevistas quanto o relato
posterior: o personagem sempre se revela em seus comportamentos
que compõem um todo integrado, de tal maneira que este todo não
RELATOS ORAIS: DO "INDIZÍVEL" AO "DIZÍVEL"

poderia ser dividido sem se encontrar imediatamente destruído; o


personagem é um indivíduo especial e particular, diferente de todos
os outros, dos quais se destaca.
Uma vez que estas são as características de um personagem,
a finalidade de um biógrafo, ao escrever-lhe a história, é oposta à de
um pesquisador ao utilizar a técnica de histórias de vida. O primei-
ro fará ressaltar em seu trabalho os aspectos marcantes e incon-
fundíveis do indivíduo cuja existência decidiu revelar ao público. O
segundo busca, com as histórias de vida, atingir a coletividade de
que seu informante faz parte, e o encara, pois, como mero represen-
tante da mesma através do qual se revelam os traços desta. Mesmo
que o cientista social registre somente uma história de vida, seu
objetivo é captar o grupo, a sociedade de que ela é parte; busca
encontrar a coletividade a partir do indivíduo. O biógrafo, mesmo
que retrate a sociedade de que seu personagem participa, o faz com
o intuito de compreender melhor a existência do biografado.
Uma segunda diferença, agora na maneira de serem utiliza-
das biografias e histórias de vida, se depreende aqui também. Jus-
tamente porque se trata de um indivíduo considerado em sua
integralidade, a biografia não pode ser decomposta em elementos
ou utilizada em fragmentos, sob pena de se perder completamente o
sentido de que se procurava: o desenvolvimento da personalidade,
isto é, do "eu" único e permanente que, embora evoluindo através
do tempo, mantém certa linha constante que o distingue dos de-
mais. É este o caso da biografia, mas também da utilização da his-
tória de vida pela psicologia, mesmo quando trata das relações en-
tre um indivíduo e sua sociedade. Por isso, quando apenas parte
dela é utilizada, pode induzir a graves falhas na análise e na com-
preensão do que se quer estudar.
Coleção TEXTOS. Série 2,11. 10

Esta exigência não tem razão de ser quando se trata de um


estudo sociológico ou antropológico. Neste caso, o aproveitamento
da biografia ou da autobiografia se faz no sentido de buscar como
estão ali operantes as relações do indivíduo com seu grupo, com
sua sociedade. Não se trata de considerá-lo isoladamente, nem de
compreendê-lo em sua unicidade; o que se quer é captar, através de
seus comportamentos, o que se passa no interior das coletividades
de que participa. O indivíduo não é mais o "único"; ele agora é uma
pessoa indeterminada, que nem mesmo é necessário nomear, é so-
mente unidade dentro da coletividade. Todavia, em seu anonimato,
contém o indivíduo num microcosmo as configurações que sua co-
letividade abarca, ao ordenar umas em relação às outras unidades,
de que se compõe o grupo. O recorte do material não somente se
toma viável, agora, como até mesmo imperioso, pois são facetas do
mesmo que serão utilizadas.
Embora colhidas com finalidades muito diferentes, autobio-
grafias e biografias são perfeitamente utilizáveis pelos cientistas
sociais como material de análise. Ambas, principalmente se bem
feitas, podem constituir excelentes repositórios de dados que, no
entanto, devem ser verificados e completados por informações de
outras fontes. Pode-se dizer que autobiografias e biografias, desse
ponto de vista, estão em convergência com histórias de vida e de-
poimentos pessoais para o esclarecimento de um dado ou de um
momento histórico; porém não se confundem com estes. Também
devem ser manuseadas com muito cuidado. Justamente por se
tratar da análise de uma personalidade, não raro encarecerão o
que é peculiar ao indivíduo estudado. Ora, o que o sociólogo traba-
lha vai à direção do que é coletivo, isto é, do que é geral, não se
detendo nos particularismos. Sua direção é oposta à dos biógrafos e
dos psicólogos.

50
RELATOS ORAIS: DO "INDIZÍVEL" AO "DIZÍVEL"

Histórias de Vida: Características

Quando John Dollard examinou os critérios que tornariam


aceitáveis as histórias de vida como fornecedoras de dados para o
sociólogo, tropeçou justamente com o problema de estar lidando
com o desenvolvimento de um indivíduo dentro de determinada so-
ciedade e, portanto, de estar abarcando o comportamento deste, e
não diretamente os dados sobre a coletividade em foco. E quando,
no período em que publicou seu livro, outros cientistas sociais cogi-
taram do aproveitamento deste tipo de material, assim como dos
depoimentos orais, pareceu a muitos deles que a interferência da
subjetividade do narrador falseava de maneira perniciosa as entre-
vistas. Franz Boas, porém, colhendo os relatos de anciã os das tri-
bos norte-americanas, não se deixou deter por este aspecto. Tencio-
nava reconstruir, através do que reunia, a organização deliqüescente
dos grupos a fim de compreendê-los. O que lhe chamou a atenção
foi a relativa independência de certos fatos culturais, que os fazia
persistir mesmo quando desorganizado o grupo em que haviam pre-
viamente existido. Descobria assim a condição sine qua non para
que a história de vida e os relatos orais sobre o passado pudessem
ser utilizados: comportamentos e valores são encontrados na me-
mória dos mais velhos, mesmo quando estes não vivem mais na
organização de que haviam participado no passado, e assim se pode
conhecer parte do que existira anteriormente e se esmaecera nos
embates do tempo. Realmente, se a memória de determinados valo-
res e comportamentos se desfizesse com o desaparecimento das or-
ganizações sociais, então seria impossível a utilização dos relatos
orais em geral, e das histórias de vida em particular, na análise de
coletividades e sociedades.

51
Coleção TEXTOS. Série 2, a. 10

Muito antes de Dollard e de Boas, os sociólogos Thomas (ame-


ricano) e Znaniecki (polonês) haviam utilizado história de vida em
seu célebre trabalho sobre os camponeses poloneses que permane-
ciam em sua pátria e os que haviam emigrado para os Estados Uni-
dos. Porém, as preocupações de Dollard não haviam constituído
dificuldades para ambos, que consideraram, ao contrário, a história
de vida como excelente técnica de coleta de material. Chamaram a
atenção, todavia, para o fato de não poder ela ser utilizada sozinha
numa pesquisa, pois não fornece base empírica suficiente para se
levantar inferências; deve, portanto, ser sempre completada por
material coletado de outra maneira. De fato, estes autores trabalha-
ram com grande cópia de documentos escritos, como por exemplo,
a correspondência entre os imigrantes e seus parentes que haviam
permanecido na Polônia (THOMAS e ZNANIECKI, 1927).
A constatação destes dois cientistas sociais, proveniente da
experiência que realizaram, chama a atenção para um aspecto que
foi em seguida retomado por muitos outros pesquisadores: o da ne-
cessidade de uma complementação proveniente de outras fontes. A
justificativa deles era de que nunca se poderiam obter grandes quan-
tidades de histórias de vida suficientes para dar embasamento em-
pírico satisfatório e amplo que permitisse chegar a conclusões. Na
verdade, todo registro de uma história de vida, mesmo quando hoje
é feito por intermédio do gravador, desliga-a do contexto em que se
deu a entrevista; e esta falha é mais grave se a entrevista teve lugar
fora dos lugares em que o informante habita ou trabalha. De fato,
nem a escrita do pesquisador, nem o gravador registram o local
onde se passa o colóquio, ou o local onde o informante habita, am-
putando o material de uma preciosa mésse que pode encerrar deta-
lhes primordiais. A falha é muito mais importante na coleta de his-
tórias de vida do que nos depoimentos orais; a focalização destes

52
RELATOS ORAIS: DO "INDIZÍVEL" AO "DIZJVEL"

sobre determinado ponto, sua concentração sobre um dado preciso,


exclui a utilização de elementos circundantes, que, pelo contrário,
seriam esclarece dores no caso de histórias de vida, como compro-
vantes, ou como demonstradores de contradições.
Na verdade, é específico das ciências sociais necessitar sem-
pre o pesquisador de dados colhidos de fontes as mais variadas,
quando quer abarcar de forma ampla a realidade que estuda. A
unanimidade a esse respeito tem sido constante (POIRTER, CLAPI-
ER-VALLADON e RAYBAUT, 1983); mesmo aqueles que se manifes-
taram de modo muito entusiástico a respeito das histórias de vida
reconheceram que a utilização somente delas resultava em traba-
lhos limitados. A maior dificuldade estava em que a coleta de uma
história de vida é de duração longa; as entrevistas não podem ultra-
passar certo lapso de tempo porque são cansativas, devendo ser
empregadas com intervalos. Para os idosos, a quantidade de coló-
quios deve ser grande quando se revelam bons informantes, a fim
de se coletar o maior número possível de informes. Este alongamen-
to no tempo é acrescido por uma transcrição (que consome horas e
horas, sendo trabalhosa e aborrecida), assim como por uma análise
forçosamente demorada. Desta forma, é muito difícil conseguir
muitas histórias de vida que forneçam base empírica suficientemente
larga para se chegar a algum grau de certeza, a não ser por meiode
uma pesquisa que demore vários anos. O meio de se fugir a este
obstáculo estava em juntar à técnica em pauta uma coleta de dados
utilizando outros procedimentos.
Mesmo a utilização de depoimentos orais, cuja obtenção é mais
breve, aponta para dificuldades inerentes à própria natureza do in-
forme. Nunca é demais lembrar o belo trabalho de Germaine Tillion
(1973) sobre os campos de concentração nazista em que esteve de-
tida durante a Segunda Grande Guerra, e que teve como uma das

53
Coleção TEXTOS. Série 2, n. 10

fontes de dados, além da vivência da autora, uma larga coleta de


depoimentos orais. Seu intuito era desvendar o destino dado a pri-
sioneiras que periodicamente eram retiradas do campo. Verificou
que os depoimentos e que sua própria recordação do que fora viven-
ciado se orientavam em direções diferentes e não raro contraditório.
Resultavam do fato de que, individualmente, haviam os informan-
tes captado somente uma parcela da realidade de Ravensbrück, e a
narrativa de cada acontecimento era diversa ou conforme cada indi-
víduo se encontrasse numa ou noutra situação, ou de acordo com a
sensibilidade e a experiência passada de cada um. Verificou assim a
autora a impossibilidade de basear sua análise - que desejava socio-
lógica - simplesmente nos relatos de seus companheiros e em sua
experiência pessoal. Organizou então uma coleta de dados muito mais
ampla, a fim de que da complementação e do cotejo entre eles, se
reformulasse uma imagem do campo de concentração cuja confiabi-
lidade fosse muito maior do que a que resultava dos depoimentos.
Há que se observar, no entanto, que a necessidade de se acres-
centar outras fontes às histórias de vida não invalida a possibilida-
de de utilização de uma única dentre elas, para o conhecimento de
problemas de uma coletividade. É certo que toda pesquisa sociológi-
ca, quer utilize técnicas como a história de vida, quer outras técni-
cas diversas (inclusive e principalmente as quantitativas), ganha
novas dimensões, maior profundidade, maior envergadura, desde
que acompanhadas e complementadas por outras maneiras de co-
leta. Porém, uma única história de vida, desacompanhada de capta-
ções complementares de material, desde que convenientemente ana-
lisada, pode ser da maior importância para a definição de problemas
de uma coletividade, principalmente se o pesquisador não conhece
bem a esta; e, caso já possua uma visão da mesma e dados em
quantidade apreciável, serve ela para um refinamento das observa-

54
RELATOS ORAIS: DO "INDIZÍVEL" AO "DIZÍVEL"

ções e das inferências, assim como para um controle. Certamente


uma só história de vida não esgotará todos os aspectos e nem todas
as interpretações dos fenômenos que se pretende esclarecer, mas
sempre levanta relevante série de questões acerca das quais não se
havia cogitado ainda, ou fornece novas perspectivas a respeito do
que já se conhecia. Histórias de vida de indivíduos de camadas so-
ciais diversas a respeito de um mesmo momento ou acontecimento
são, por exemplo, preciosas como fontes de dados e controle.
O levantamento da história de vida tem sido ora remetido para
o início da pesquisa, a fim de se formularem questões pertinentes
cuja investigação seria efetuada por meio de emprego de outras téc-
nicas ora é empregado como elemento de controle para certos resul-
tados obtidos através de outros procedimentos. Num e noutro caso,
chega-se por meio dela aos valores inerentes aos sistemas sociais
em que, vivem os informantes, que dados como os estatísticos cer-
tamente não fornecem. No entanto, uma vez captada e analisada
uma história de vida, apresenta ela informações cuja amplitude pode
ser em seguida pesquisada por meio de amostragem estatística e
utilização de questionários.
A diversidade de modos de emprego das histórias de vida e
dos depoimentos orais mostra a riqueza dos dados que captam e a
este respeito, atualmente, mais ou menos todos os cientistas so-
ciais são concordes. Não se nega mais também, que mesmo uma
única história de vida possa ser objeto de um estudo sociológico
aprofundado e frutífero. Todo fenômeno social é total, dizia Mareei
Mauss nas décadas de 20. O indivíduo é também um fenômeno
social. Aspectos importantes de sua sociedade e do seu grupo, com-
portamentos e técnicas, valores e ideologias podem ser apanhados
através de sua história.

55
Coleção TEXTOS. Série 2, n. 10

Na verdade, tudo quanto recolhe o cientista social se compõe


de histórias, ou de parte de histórias de indivíduos, ou pode nelas
ser transformado. No entanto, encontrar histórias de vida a partir
de material colhido em pesquisa não pode ser confundido com a
técnica empregada para registrar a realidade, isto é, com modos de
agir peculiares à coleta de material. De quase todos os documentos
podem ser extraídas histórias de vida; mas isto não quer dizer que o
cientista social esteja a todo o momento utilizando a técnica das
histórias de vida.
Técnica é procedimento ou conjunto de procedimentos, de
modos de fazer bem definidos e transmissíveis, destinados a alcan-
çar determinados objetivos; como todo procedimento, é ação especí-
fica, sistemática e consciente, obedecendo a determinadas normas
e visando determinado fim; é conservada e repetida se sua eficiência
for comprovada pelos resultados obtidos. Toda técnica é mecanis-
mo de captação do real, em sociologia, e não pode ser confundida
com o material reunido, isto é, com os dados. A captação de dados
nas ciências sociais pode servir para a construção de biografias,
porém, não é esse o trabalho do pesquisador. A atividade que este
desenvolve no tempo e no espaço se destina a resolver questões
propostas por relações existentes no interior de coletividades. Para
ele, o levantamento de dados é o primeiro momento de um processo
que se desenrola em várias fases, isto é de modificações em seqüên-
cia, se escalonando a partir do projeto de trabalho, passando pela
coleta do material, pela sua análise, até chegar ao término com o
relatório final ou a publicação do livro. A coleta do material através
de histórias de vida limita-se a um momento específico da pesquisa
e não perdura pela totalidade da realização desta, nem é represen-
tativa da totalidade da mesma.

56
RELATOS ORAIS: DO "INDIZÍVEL" AO "DIZÍVEL"

O material levantado é, por sua vez, um conjunto de informa-


ções reunidas de acordo com um ponto de vista e um sistema -
conjunto empírico que deve, em seguida, ser trabalhado por outros
procedimentos como a descrição, a análise, o levantamento de
inferências, a compreensão, a explicação, os quais se sucedem como
fases diferentes e inconfundíveis. O material uma vez recolhido per-
manece igual a si mesmo no tempo e no espaço, desde que conser-
vado com o devido cuidado. Ao correr dos anos, encerrará sempre
as mesmas informações, servindo para outras pesquisas que leva-
rão a confirmações ou a novos conhecimentos c comprovações. Fru-
to de procedimentos do pesquisador, não pode ser confundido com
as técnicas utilizadas para a coleta, e nem com qualquer momento
da pesquisa. A técnica, como se vê, nada mais é que a ferramenta
destinada a desencavar o dado.
A história de vida, como qualquer outro procedimento empre-
gado na coleta de dados, é, pois, um instrumento, não é nem coleta,
nem produto final da pesquisa; ela recolhe vm material bruto que
necessita ser analisado. Porém, o material bruto, uma vez registra-
do, permanece inerte e imutável através do tempo, tendo as mes-
mas características de persistência e identidade que possui qual-
quer outro documento e, como estes, durando através das idades
desde que convenientemente armazenado.
O início da utilização das histórias de vida como técnica de
coleta em regiões diferentes mostrou convergências interessantes.
Nos Estados Unidos, o desaparecimento de tribos indígenas levou
ao emprego de variadas formas de história oral, com o objetivo de se
conservar pelo menos a lembrança de sua organização e costumes.
Na Europa, e principalmente na França, a transformação do estilo
de vida dos camponeses a partir de fins do séc. XIX fomentou tam-

57
Coleção TEXTOS. Série 2, n. 10

bém a-coleta de relatos orais, de depoimentos pessoais, de histórias


de vida, visando registrar as maneiras de agir e de pensar existen-
tes numa organização social que se apagava. A quase inexistência
de documentos escritos, assim como de outras formas de conser-
vação de informações, determinou o desenvolvimento de técnicas
que permitissem o armazenamento de dados do passado e tam-
bém de costumes que, ainda existentes, iam pouco a pouco caindo
em desuso.
Em muitas regiões da França, por exemplo, viveram os campo-
neses, até a década de 20, em estruturas sócio-econômicas e cultu-
rais que persistiam havia longo tempo. Continuavam muito impor-
tantes os liames do parentesco, as alianças matrimoniais tradicionais;
valorizava-se a experiência dos mais velhos, sempre respeitados; na
infra-estrutura material do cotidiano inexistia água corrente, luz elé-
trica, estradas asfaltadas; e apesar da leitura e da escrita se terem
difundido desde a segunda metade do séc. XIX, a transmissão de
conhecimentos por via oral e pela experiência direta continuava de
grande relevância, sob a orientação dos mais velhos que detinham o
saber prático referente às atividades agrícolas e aos ofícios.
A reformulação da infra-estrutura material, a expansão dos
meios de comunicação, determinou a utilização crescente da escrita
como veículo de registro e transmissão de conhecimentos; os livros
foram substituindo cada vez mais os ensinamentos dos velhos. A
transmissão oral perdeu paulatinamente importância; com ela de-
caiu a influência dos idosos, cujos conhecimentos não eram mgis
tão adequados ao novo contexto sócio-econômico que emanava das
grandes aglomerações urbanas. Na antiga sociedade camponesa,
continuidade e preservação haviam constituído valores muito im-
portantes para a orientação dos comportamentos; na sociedade que
agora despontava, a atenção de adultos e jovens focalizava modifi-

58
RELATOS ORAIS: DO "INDIZÍVEL" AO "DIZÍVEL"

cações e transformações como atributos fundamentais de uma vida


que se queria moderna.
O desaparecimento de sistemas e valores que acompanhavam
a estrutura de uma sociedade "tradicional", a anulação da própria
lembrança deles, parecia iminente. Os anciãos seriam as últimas
testemunhas ainda existentes de um estilo de vida que se desfazia,
e esta constatação levou cientistas sociais franceses a se interessa-
rem pela história oral em todas as suas formas. Da década de 50 em
diante, foram elas complementadas por filmes, por audiovisuais,
por videocassetes. Tratava-se de resguardar falas, opiniões, aspecto
físico, gestos dos idosos, além dos discursos, pois também consti-
tuíam algo do passado. A organização de arquivos e museus foi
muitas vezes paralela à utilização destas técnicas, que armazena-
vam documentos sobre os antigos modos de vida.
No entanto, para as ciências sociais, o importante não é nem
armazenar documentação, nem reconstituir antigas sociedades ou
épocas, mas atingir um problema de estrutura social por meio de
mecânicas específicas de coleta de dados. Thomas e Znaniecki, dos
primeiros a utilizar histórias de vida, pretendiam esclarecer ques-
tões ligadas à integração de imigrantes europeus e de outras prove-
niéncias, que a partir de meados do séc. XIX passaram a chegar em
grande quantidade aos Estados Unidos. Procuravam, por meio da
história oral, conhecer as mudanças ocasionadas na sociedade de
chegada e nas próprias sociedades de origem decorrentes da parti-
da dos que migravam. Tratava-se de um problema contemporâneo e
não mais de uma tentativa de recuperação do passado.
Mais tarde, também Oscar Lewis se preocupou em conhecer
as relações familiares de indivíduos de baixa renda no México, so-
bre os quais ou escasseavam ou inexistiam dados. O simples arqui-
vamento do material, nestes casos, passa a constituir um derivado

59
Coleção TEXTOS. Série 2, n. 10

interessante, porém o objetivo principal é outro. Para esclarecer a


questão escolhida pelo pesquisador não é necessário recorrer a pes-
soas idosas; torna-se primordial destacar informantes cujos relatos
cubram o campo investigado. Em se tratando de Oscar Lewis, foi
imprescindível entrevistar também jovens, para se perceber, no in-
terior da família, como se estabeleciam as relações entre diversas
faixas de idade. Conhecer o relacionamento no interior da constela-
ção familiar se tornava possível através das narrativas de pais, de
filhos, de parentes que com eles convivessem.
Todavia, enquanto Thomas e Znaniecki utilizaram os relatos
orais como documentos iguais a quaisquer outros, Oscar Lewis fi-
cou de tal modo fascinado pela riqueza das histórias de vida que
julgou não necessitar o sociólogo de análises e inferências; basta-
va que tomasse conhecimento do material empírico em seu estado
"natural". Não desenvolveu, pois um estudo, mas quis levar de
maneira direta aos interessados o conhecimento de seus dados,
realizando tão somente a transcrição das fitas gravadas; efetuou,
isso sim, uma limpeza e ordenação dos relatos para compreensão
mais fácil e amena por parte do leitor. E quase transformou seu
material em literatura...
O respeito à integridade das histórias de vida não foi somente
praticado por Oscar Lewis; vários pesquisadores também hesitaram
em aproveitar partes do material colhido, como se o desvirtuassem
se não o conservassem em sua inteireza; apresentaram, portanto a
história ou as histórias colhidas, tanto quanto possível, em sua to-
talidade. Não se dava conta de que relato escrito ou fita gravada
constituem registro semelhante a qualquer outro dos habitualmen-
te analisados. Se não se furtavam a utilizar destacadamente umas
das outras, as respostas a um questionário, não havia razão para
não recortarem, das histórias de vida, as passagens que diziam di-

60
RELATOS ORAIS: DO "INDIZÍVEL" AO "DIZÍVEL"

retamente respeito ao que estavam estudando. Tal utilização nao


implicava em mutilações do material; relato escrito ou fita gravada
permaneciam intactos para serem empregados por outros pesqui-
sadores. Desde que a história de vida ou os relatos orais não tinham
sido colhidos meramente para serem arquivados, urgia analisar os
dados neles encontrados, escolhendo-os na massa bruta do mate-
rial coletado. A massa bruta completa ficaria arquivada, à disposi-
ção de outros cientistas para novas pesquisas, em absoluto não se
perderia. Utilizada como instrumento de coleta de dados em ciên-
cias sociais, a história de vida deve forçosamente ser analisada e,
portanto, fragmentada.

Histórias de Vida na Pesquisa Brasileira

No Brasil, a técnica de histórias de vida, depois de breve apa-


re- cimento em fins dos anos 40 e início da década de 5015 permane-
ceu ignorada. No entanto, as características gerais da sociedade
brasileira e principalmente a rapidez de suas transformações, deve-
riam ter levado mais cedo os pesquisadores à utilização desta técni-

15
No Brasil, Roger BASTIDE parece ter sido o primeiro a utilizar as histórias de vida
como técnica de estudo, tendo suscitado também as primeiras reflexões
metodológicas a respeito. Ver na revista Sociologia, v. XV, n. 1, março de 1953,
seu artigo "Introdução a dois estudos sobre a técnica das histórias de vida". Os
dois estudos, constantes da mesma revista, foram: PEREIRA DE QUEIROZ, Ma-
ria Isaura, "Histórias de Vida e Depoimentos Pessoais" e JARDIM MOREIRA, Re-
nato, "A história de vida na pesquisa sociológica". Todo o conjunto está re-edita-
do em PEREIRA DE QUEIROZ, Maria Isaura, "Variações sobre a técnica de gravador
no registro da informação viva", S. Paulo, CERU/FFLCH/USP, Col. Textos n. 4,
1983. Dessa mesma época, ligadas à mesma pesquisa sobre as relações raciais
entre negros e brancos em S. Paulo, ver NOGUEIRA, Oracy, "A história de vida
como técnica de pesquisa", S. Paulo, Sociologia, v. 14, n. 1, mar. 1952.

61
Coleção TEXTOS. Série 2, n. 10

ca.16 Seu eclipse durante tanto tempo deveu-se à espécie de encan-


tamento pelas técnicas estatísticas de amostragem com o emprego
de questionários. Aos olhos dos cientistas sociais, as histórias de
vida e, de um modo geral, o relato oral, se apresentavam "cheios de
subjetividade", tanto do narrador quanto do pesquisador, consti-
tuindo assim instrumento que não raro levaria a desvios de obser-
vação e a interpretações errôneas.
A revalorização da história oral ocorrida recentemente na Eu-
ropa despertou o interesse dos cientistas nacionais. Primeiramente
foi a história oral que ressurgiu, suscitando iniciativas traduzidas
na fundação dos Museus da Imagem e do Som, e também de gran-
des arquivos que armazenassem entrevistas com personalidades
políticas famosas. Nestes repositórios se encerra a "memória" de
algo que se perderia com o desaparecimento de pessoas mais ve-
lhas, num país em que sempre se deplorou a falta de documentação
para estudo.17

Florestan FERNANDES utilizou a técnica de histórias de vida a partir de outros


documentos, numa direção pouco usual nas ciências sociais: fez a análise da
história de vida de Tiago Marques Aipobureu, recolhida pelo etnólogo Prof. Herbert
BALDUS e figurando em seus "Ensaios de Etnologia Brasileira", S. Paulo, 1937;
completou o trabalho com as observações efetuadas pelos pesquisadores Antônio
COLBACCHINI e César ALBISETTI, registra das em "Os bororó orientais,
orarimogodoque do planalto oriental de Mato Grosso", S. Paulo, 1942. Trata-se
também de excelente exemplo de como uma única história de vida pode ser utili-
zada em profundidade para o esclarecimento de problemas sócio-antropológicos.
FERNANDES, Florestan, "Tiago Marques Aipobureu: um bororó marginal", "in"
Mudanças Sociais no Brasil, S. Paulo, Difusão Européia do Livro, 1960. Tiago
Marques Aipobureu faleceu em 1958.
Cite-se os Museus da Imagem e do Som, no Rio de Janeiro e em São Paulo, que
encerram hoje fartíssima documentação. Na Fundação Getúlio Vargas, o Centro
de Pesquisas e Documentação (CPDOC) foi fundado com duplo objetivo: o de
arquivo de história oral sobre as décadas que recederam e se seguiram imediata-
mente à Revolução de 30, e o de centro de estudos sobre essa mesma documen-
tação. Nele se imprimia o desejo de conservar a história viva através de depoimen-

62
RELATOS ORAIS: DO "INDIZÍVEL" AO "DIZÍVEL"

Além disso, o ritmo extraordinariamente rápido de mudanças


na sociedade brasileira devia forçosamente contribuir para a difu-
são da técnica. Quando se dá conta, por exemplo, de que em 1950 o
meio rural era habitado por 70% da população e de que em 1980,
num período de 30 anos, as proporções se inverteram inteiramente,
os habitantes do meio urbano passando então a 70%, compreende-
se que a conservação do que "foi" adquiria importância aos olhos
dos estudiosos. Recolher a maior quantidade possível de testemu-
nhos sobre formas de vida para as quais não existam senão parcos
registros; saber como agiam os "silenciosos", aqueles que pouco
aparecem na documentação escrita, isto é, as camadas de baixa
renda; saber como encaram sua existência diante das modificações
velozes em curso, constituiu uma larga abertura para a utilização
de relatos orais e de histórias de vida.
Porém, desse ponto de vista, não se tratava senão de armaze-
nar a memória. A verdadeira utilização das histórias de vida como
técnica específica de pesquisa neste país, não fez seu reapareci-
mento nem na sociologia, nem na antropologia, e sim na psicologia
social. A finalidade foi o esclarecimento de problemas da memória
enquanto atri-buto humano estreitamente dependente da vida so-
cial e por esta alimentada (BOSI, 1979). O trabalho pioneiro se de-
senvolveu em São Paulo, cidade cujo crescimento acelerado e trans-
formações radicais constituem grandes provocações para se inquirir
o que "sucede com os processos de conservação das lembranças.
Somente em seguida a esta primeira aplicação da técnica, foi ela
estendida a investigações sobre aspectos propriamente sociais para

tos e histórias de vida dos remanescentes dessa época. Também tem estudado a
técnica da história de vida. Ver CAMARGO, Aspásia; ROCHA LIMA, Valentina da,
e HIPÓLITO, Lúcia (1984).

63
Coleção TEXTOS. Série 2, a. 10

os quais não se possuía farta documentação, fosse em camadas


sociais inferiores, fosse em determinados grupos étnicos, fosse em
certas categorias profissionais,18 tanto no meio urbano quanto no
meio rural.
Nestes casos, é agora a sociologia que está em jogo. Os meca-
nismos da memória, sua ligação com a base biológica e com o con-
texto sócio-econômico em que se dão as experiências individuais,
não constituem para ela questões fundamentais. A organização de
arquivos, a constituição de acervos de documentação, o armazena-
mento de dados, também por si sós não se colocam diretamente
como meta a ser alcançada. O que se busca é o esclarecimento de
relações coletivas entre indivíduos num grupo, numa camada so-
cial, num contexto profissional, noutras épocas e também agora.
Nenhuma sociedade é um todo monolítico; em seu interior
coexistem grupos e camadas sociais de diversos tipos, divisões por
sexo e idade, coletividades variadas. Histórias de vida de indivíduos
com posições diferentes dentro de um grupo, quer sejam membros
da mesma família (como já colhera Oscar Lewis), quer se trate de
homens e mulheres, quer diga respeito ao contraste entre os mais
velhos e os mais jovens, servem para dirimir dúvidas e aprofundar
conhecimentos. E estas investigações transbordam das camadas
inferiores para todas as demais, uma vez que em todas elas os mes-
mos problemas se colocam de descobrir relações ignoradas.
No meio rural, por exemplo, as mudanças extremamente rápi-
das ocorridas em São Paulo atingem indivíduos de todas as cama-
das sociais; no entanto as pesquisas utilizem ou não histórias de
vida, têm se voltado quase que somente para as camadas inferiores.

18
Um bom exemplo são as pesquisas em curso de Demartlnl (1985).

64
RELATOS ORAIS: DO "INDIZÍVEL" AO "DIZÍVEL"

Não se atenta para que, ainda há poucos anos, havia também, habi-
tando em suas propriedades, grandes e médios proprietários, e des-
conhece-se como vivenciaram a transformação que se operou em
suas existências com sua implantação nas cidades. '9 Além deles,
toda uma gama de indivíduos citadinos está ligada aos habitantes
do meio rural, não por auferirem diretamente do solo seu sustento,
porém para servirem aos moradores urbanos: funcionários públi-
cos (professores primários, tabeliães, delegados, etc), gente do se-
tor terciário (pequenos e médios comerciantes, pequenos industriais,
artesãos etc). Como vivem eles as reviravoltas havidas com o êxodo
dos campos e com as mudanças de relações de trabalho ali
acontecidas? O esvaziamento do meio rural tem determinado tam-
bém o esvaziamento das cidades dele dependentes - aspecto do pro-
blema que permanece ignorado e praticamente não estudado.
Constituem as histórias de vida, nestes casos, excelentes téc-
nicas para se efetuar um primeiro levantamento de questões, pois
ainda faltam dados a respeito destas; revelam o cotidiano, o tipo de
relacionamento entre os indivíduos, as opiniões e valores e, através
dos dados assim obtidos, é possível construir um primeiro diagnós-
tico dos processos em curso. Alcança-se então uma visão do que
ocorre, cuja extensão seria a seguir, numa outra pesquisa, investi-

19
Um exemplo nunca é demais. Em pequeno survey, efetuado no município de
Toninha (SP), na década de 60, pelo Centro de Estudos Rurais e Urbanos, verifi-
cou-se que recentemente a grande maioria de fazendeiros, sitiantes, agricultores,
passara a habitar na cidade. Contavam que trabalhar era "como ir ao escritório":
saíam de manhã para a propriedade e regressavam ã tarde, utilizando variados
meios de locomoção de sua propriedade - tanto o cavalo, a charrete, quanto o
automóvel e o jipe. Esperava-se efetuar em seguida uma série de histórias de vida
com produtores de variado nível econômico, tanto os que tivessem mudado de
habitai quanto os que não o tivessem feito, para verificar o que experimentavam
de material e concreto, e também psicológica e valorativamente, com a mudança.
Porém, os "azares" da época em que se vivia então, impossibilitaram o prossegui-
mento da pesquisa.

65
Coleção TEXTOS. Série 2, u. 10

gada por meio de técnicas estatísticas de amostragem, por exemplo.


Vive-se hoje um momento privilegiado para se captar, por meio de
história oral, e mais particularmente por intermédio de histórias de
vida ou de depoimentos pessoais, a maneira pela qual diferentes
camadas sociais, diferentes grupos, homens e mulheres, várias fai-
xas de idade estão experimentando as mudanças que ocorrem, se-
gundo que valores as estão encarando, quais as normas que acei-
tam para seus comportamentos e quais as que rejeitam.
Uma técnica qualitativa como a das histórias de vida pode
coexistir tranqüilamente com técnicas quantitativas como a da amos-
tragem, desde que cada uma delas seja aplicada a um momento
específico da pesquisa. A técnica de história de vida é, em geral,
muito útil para um primeiro levantamento de questões e de proble-
mas, ao se notar a inexistência de conhecimentos a respeito. Tam-
bém é da maior utilidade como meio de verificação e de controle do
que já foi colhido por outros meios. A técnica quantitativa, seja a da
amostragem ou outra, serve principalmente para se conhecer a in-
tensidade de um fenômeno, o quanto se espraia por um grupo ou
camada, como atinge grupos e camadas diferentes. Os dois conjun-
tos de técnicas não são opostos ou mutuamente exclusivos; são
procedimentos a serem empregados em determinados tipos de pes-
quisa, ou em determinados momentos da mesma.20 Não tem senti-
do, nas ciências sociais, se tomar partido por este ou aquele proce-
dimento, tanto mais que a obtenção de dados de fontes variadas,
que enriquece uma pesquisa, determina a necessidade de se utiliza-

20
As pesquisas utilizando técnicas quantitativas preconizam a realização de um
pré-levantamento. ou pesquisa-piloto, para se tomar conhecimento dos proble-
mas existentes efetivamente. Histórias de vida são sempre repositórios destes
problemas, podendo-se para tal consultar previamente as já existentes com o
mesmo intuito da pesquisa-piloto.

66
RELATOS ORAIS: DO "INDIZÍVEL" AO "DIZÍVEL"

rem técnicas também variadas. A querela é vã; o importante é saber


escolher a técnica adequada ao tipo de problema, à especificidade
do dado e ao momento preciso da investigação.

Histórias de vida: do individual ao coletivo

A história de vida é contada por um personagem e gira em


torno deste. À primeira vista, dir-se-ia que é algo eminentemente
individual, sofrendo as distorções trazidas pela subjetividade do
narrador. Esta colocação tem sua razão de ser; no relato de uma
história de vida, o pesquisador colhe dados que indicam como se
formou a personalidade de um indivíduo, através de seqüências de
experiências no decorrer do tempo. "Indivíduo" significa alguém que
se tomou isoladamente, extraindo-o do interior de uma coletividade
para considerá-lo em si mesmo, naquilo que o distingue dos de-
mais. Quando se estuda a personalidade do indivíduo, admite-se
que os predicados encontrados são exclusivamente seus e não ocor-
rem em nenhum outro, por mais semelhante que possa ser; isto é,
tanto sua constituição quanto suas qualidades o marcam como
único, o distinguem dos demais de seu grupo, de sua sociedade.
Indivíduo e personalidade seriam noções que recobririam aquilo que
existe de mais íntimo e de mais inconfundível em alguém.
Se o indivíduo obedecesse a determinações exclusivamente
suas e inconfundíveis, então realmente as histórias de vida seriam
impróprias para uma análise sociológica (MOREIRA apud PEREIRA
DE QUEIROZ, 1983). No entanto, o que existe de individual e único
numa pessoa é excedido, em todos os seus aspectos, por uma infini-
dade de influências que nela se cruzam e às quais não pode por
nenhum meio escapar, de ações que sobre ela se exercem que lhe
Coleção TEXTOS. Série 2, n. 10

são inteiramente exteriores. Tudo isto constitui o meio em que vive


e pelo qual é moldada; finalmente, sua personalidade, aparente-
mente tão peculiar, é o resultado da interação entre suas especifici-
dades, todo o seu ambiente, todas as coletividades em que se inse-
re. Não é novidade alguma afirmar que o indivíduo cresce num meio
sócio-cultural e está profundamente marcado por ele. Sua história
de vida se encontra, pois, a cavaleiro de duas perspectivas: a do
indivíduo com sua herança biológica e suas peculiaridades, a de
sua sociedade com sua organização e seus valores específicos. A
história de vida, em resumo, se encontra apoiada em duas discipli-
nas, a psicologia e a sociologia.
A história de vida é portanto técnica que capta o que sucede
na encruzilhada da vida individual com o social. Conforme seja a
pesquisa desenvolvida por um sociólogo ou por um psicólogo, assim
a orientação da coleta de dados levará uma ou outra acentuação.
No primeiro caso, serão procuradas no informante as marcas de
seu grupo étnico, de sua camada social, de sua sociedade global -
vários níveis que apresentam estruturas, hierarquias, valores ora
harmoniosos, ora em desacordo, o que tudo se reflete no seu inte-
rior. No segundo caso, são buscadas as particularidades que singu-
larizam o indivíduo, delineia-se o caminho seguido na formação de
sua personalidade através do emaranhado das relações variadas
tecidas pela sua coletividade, e é o produto final, considerado como
único, que se quer compreender e explicar.
Sociólogo e psicólogo poderão utilizar uma história de vida
que tenha sido colhida por um deles. O material é válido para am-
bos os estudiosos, justamente por se encontrar no cruzamento das
duas disciplinas a que se voltaram. Diante do material colhido pelo
psicólogo, o sociólogo naturalmente se queixará de falhas; e vice-
versa. Mas as lamentações não invalidam a utilização do material

68
RELATOS ORAIS: DO "INDIZÍVEL" AO "DIZÍVEL"

pelos dois. No entanto, embora muitos cientistas sociais tenham


alertado para as limitações da técnica em sociologia, considerando
até que seu emprego deveria ser evitado, na verdade ela foi se apre-
sentando como cada vez mais relevante para esta ciência, justa-
mente em função da área cada vez maior que foi a sociologia abar-
cando no correr do tempo.21
No século atual a sociologia, apoderando-se da psique tam-
bém como seu campo de estudos, estendeu seu âmbito até os so-
nhos, durante muito tempo considerados algo de exclusivamente
pessoal; encarou-os como representações simbólicas do relaciona-
mento do indivíduo com seus semelhantes e com sua sociedade.
Englobou em seguida em seus estudos, o inconsciente, vendo-o como
o repositório das agressões e das opressões do meio social, e por-
tanto material revelador para a análise de controles e coerções. Fi-
nalmente foi se orientando também para a subjetividade, isto é, para
a faixa interior que parecia mais próxima do biológico porque carre-
gada de afetividade, implicando por isso mesmo num caráter mar-
cadamente individual. Com efeito, "subjetivo" significou primeira-
mente aquilo que pertence a um indivíduo e somente aquele,
distinguindo-o dos demais; negava-se assim que a forma tomada
pelas manifestações dele pudesse ser igualada pela dos demais. Nesta
caracterização se consubstanciaria a oposição entre subjetivo e ob-
jetivo; este último encerrava características válidas para todos os
indivíduos porque exterior a eles, enquanto o primeiro permanece-
ria encerrado no íntimo do indivíduo, formado pelas qualidades que
lhe seriam exclusivamente peculiares. No julgamento subjetivo de

21
Para melhor compreensão destes aspectos, consultar a bibliografia de apoio, em
anexo.

69
Coleçno TEXTOS. Série 2, n. 10

um indivíduo estariam as marcas de suas impressões, de seus gos-


tos, seus hábitos, seus desejos e aspirações, única e fundamental-
mente seus, inconfundíveis com os dos demais.
Apesar de todas estas definições, no entanto, a sociologia atual-
mente se orientou também para o subjetivismo, considerando que
ele-não decorre exclusivamente de bases biológicas e psicológicas,
porém que se desenvolve numa coletividade, sendo portanto revela-
dor desta. O subjetivismo deixa assim de ser, para esta disciplina, a
marca individual intraduzível e inexplicável, cujo vislumbre de al-
guma interpretação só poderia ser captado através da biologia e da
psicologia; a sociologia também tem sua palavra a dizer a respeito
desses problemas, que podem ser objeto de seu estudo. Tanto mais
que as manifestações do subjetivismo respondem sempre a algo que
é exterior aos indivíduos.
Necessidades físicas, inclinações, paixões, prazer e dor, signi-
ficam reações da parte do indivíduo a algo que captou a partir do
exterior, e que só adquirem significado através da mediação do ex-
terior; conforme a sensibilidade dele, serão mais ou menos inten-
sas, desencadearão ou não ações de variado tipo. Urna vez existin-
do a mediação exterior (e a palavra é uma delas, provavelmente a
mais importante) para que se expresse o puramente individual, este
fica já comprometido com o exterior, sempre mergulhado numa at-
mosfera plenamente coletiva. Mesmo que se trate de sensações tér-
micas, respiratórias, circulatórias, isto é, do conjunto de sensações
internas de que trata a cenestesia - sensações que parecem inde-
pender até da intermediação dos sentidos para serem percebidas -
ainda assim sua apreensão pelo indivíduo forçosamente passí. pela
conscientização (ou pelo menos pela tentativa de conscientização)
através da palavra; o que significa através de um instrumento forja-
do pela realidade social. Não escapa, portanto, de se tornar em par-
te, também, objeto de estudo sociológico.

70
RELATOS ORAIS: DO "INDIZÍVEL" AO "DIZÍVEL"

Assim, ainda quando o subjetivo seja entendido como as sen-


sações inefáveis provenientes dos órgãos internos, da circulação, da
nutrição celular etc, constituindo um estado psíquico proveniente
da ação interna deles e resultando em confusas impressões inter-
nas, e desde que se admita que estas sensações podem chegar ao
estado de percepção, neste momento sua formulação se opera por
meio de manifestações que deixam de ser puramente subjetivas;
pois as sensações confusas provenientes de todas as partes do cor-
po estão sendo constantemente transmitidas aos sentidos e, ao se
transformarem em percepções, sofrem as imposições do contexto
circundante e perdem seu caráter de exclusiva subjetividade. Pela
formulação que então adquirem, entram para o domínio dos fatos
passíveis de serem analisados pela sociologia.
Nesta maneira de se compreender o subjetivismo, permanece
ele como puramente individual, e mesmo como essencialmente in-
dividual, enquanto não é apanhado nas malhas da percepção. Sua
base seriam as funções vegetativas que dariam lugar a sensações
vagas e difusas de bem-estar ou de mal-estar, cuja influência se
faria sentir fora dos órgãos dos sentidos, porém que constituiriam
uma das causas físicas importantes dos sonhos, por exemplo, mas
causa exclusivamente física, o sonho tendo também um conteúdo
que se liga estreitamente ao con-texto sócio-cultural do indivíduo.
Em tal perspectiva, o conteúdo do sonho pode ser abarcado pelo
estudo sociológico; quanto ao aspecto cinestético, somente quando,
como já se disse, de sensação passasse à percepção.
Ainda que o subjetivo seja entendido como as sensações in-
traduzíveis, ainda assim é próprio dos indivíduos tentar compreen-
dê-las primeiramente, e transmitir aos outros o que compreendeu;
porém ao fazê-lo forçosamente utiliza os mecanismos que tem à sua
disposição e que lhe foram dados pela família, pelo grupo, pela so-

71
Coleção TEXTOS. Série 2,11. 10

ciedade. A história de vida pode tentar desvendar o ponto em que


características destas coletividades se juntam às sensações cinesté-
sicas, buscando a interação entre ambas, e esclarecendo quais os
instrumentos sociais utilizados para a tradução.
A esta maneira mais antiga de compreender o subjetivismo
veio se juntar outra mais recente, baseada na teoria de Jung, dos
arquétipos enraizados na própria natureza do ser humano; isto é,
existiriam representações simbólicas comuns a todos os indivíduos
através dos tempos, sejam quais forem as raças e os momentos. A
semelhança das estruturas mentais seria fundamental, e dela ema-
nariam representações similares banhadas sempre numa dominante
de tonalidade afetiva. Assim, modelos de ação e de comportamento
se encontrariam em povos muito diversos, muito afastados no tem-
po e no espaço, que não teriam desenvolvido nem contatos, nem
influências recíprocas.
Este conjunto comporia o "inconsciente coletivo" e constitui-
ria o fundamento do subjetivismo individual na medida em que es-
taria unido ao conjunto que, no plano biológico, foi chamado de
"instinto". Nesta maneira de ver, a concepção de subjetivismo se
inverte, já que ele não tem mais por base o que seria essencialmente
individual, mas repousaria em materiais coletivos inconscientes;
herdados juntamente com as estruturas mentais, representariam
o aspecto psíquico destas. Todo o psiquismo seria, então, menos
individual do que coletivo, pois estaria sempre sob a influência
das representações e imagens arcaicas reunidas no inconsciente
coletivo.
Se aceita esta segunda concepção do subjetivismo, com mais
razão então recai ele no campo de estudos da antropologia e da
sociologia. O conhecimento dos arquétipos, figuras dinâmicas com
estrutura relativamente geral, estariam presentes no inconsciente

72
RELATOS ORAIS: DO "INDIZÍVEL" AO "DIZÍVEL"

de, qualquer indivíduo. Uma análise que desvendasse estas confi-


gurações invariantes, veladas pelos significados simbólicos acumu-
lados através dos tempos, constituiria um objetivo daquelas duas
disciplinas. As vias de acesso para descerrar os véus que oculta-
riam as imagens arcaicas seriam variadas: análise dos sistemas
mágicos, religiosos, filosóficos, interpretação dos sonhos indivi-
duais, etc. As histórias de vida aparecem então como instrumen-
tos de grande utilidade para atingir, sob a gama dos modelos de
pensamento e de ação mais recentes, adquiridos no contato com a
realidade sócio-cultural cotidiana, as estruturas mentais mais an-
tigas.
Adote-se uma ou outra maneira de compreender o subjetivis-
mo, cabe sempre submetê-la à perspectiva sócio-antropológica a
fim de aprofundar sua compreensão. Não foram muitos, porém, os
estudiosos destas disciplinas que se abalaram à exploração ampla
destas profundezas dos seres humanos e das sociedades. Sem dúvi-
da há a necessidade de um refinamento dos instrumentos de traba-
lho para poderem ser levada a efeito com suficiente êxito. Mas per-
gunta-se: é possível refinar mecanismos sem ao mesmo tempo
exercitá-los?
As histórias de vida poderiam constituir ferramenta valiosa
para a intensificação de tais estudos, uma vez que se colocam justa-
mente no ponto de interseção das relações entre o que é exterior ao
indivíduo e o que ele traz em seu íntimo. Tais observações reforçam
as afirmações de que há nesta técnica uma riqueza potencial ainda
não utilizada pelas ciências sociais, e de que seu refinamento en-
quanto mecânica de pesquisa, para ser alcançado, necessita de uma
utilização prática devidamente acompanhada de uma reflexão me-
todológica cada vez mais aprofundada.

73
Coleção TEXTOS. Série 2, n. 10

Referências bibliográficas2

BALDUS, H. Ensaios de etnologia brasileira. São Paulo, 1937.

BASTIDE, R. Introdução a dois estudos sobre a técnica das histórias de vida.


Sociologia, v. 15, n. 1, mar. 1953.

BERTAUX, D. L'approche biographique: sa validité méthodologique, ses


potentialités. Cahiers Internationawc de Sociologie, Paris, v. 69, 1980.

. Biography and Society. Londres: Sage, 1981.

BLAY, E. A. Histórias de vida: problemas metodológicos de investigação e de


análise. Cadernos CERU, São Paulo, n. 19,jun. 1984.

BOAS, F. Race, Language and Culture. 1942.

BONNAIN, R; ELEGOÈT, F. Mémoires de France: les archives orales, pourquoi


faire? Ethnologie Française, Paris, Nouvelle Série, v. 8, n. 4, oct./déc. 1978.

BOSI, E. Memória e sociedade: lembranças de velhos. São Paulo, TA. Queiroz,


1979.

CAMARGO, A.; ROCHA LIMA, V. da; HIPÓLITO, L. O método das histórias de


vida na América Latina. Cadernos CERU, São Paulo, n. 19, jun. 1984.

CATANI, M. Approccio biográfico, formazione e auto-formazione. La Critica


Sociológica, Paris, n. '71/72, ott./dic. 1984, gen./mar. 1985.

CIPRIANI, R. II caso di Valle Aurelia. La Crítica Sociológica, Roma, n. 63-64,


1982-1983.

CIPRIANI, R. et ai. n símbolo conteso. Roma: Ianua, 1980.

22
Esta bibliografia é complementar da citada nas notas.
In Sociologia, São Paulo, v. 15, n. 9 1, mar. 1953 e QUEIROZ, Maria Isaura Perei-
ra de. Variações sobre a técnica de gravador no registro da informação viva. São
Paulo: CERU/FFLCH-USP, 1983. p. 161-175. (Coleção Textos, n. 4).

74
RELATOS ORAIS: DO "INDIZÍVEL" AO "DIZÍVEL"

COLBACCHINI, A.; ALBISETTI, C. Os bororó orientais, orarimogodoque do pla-


nalto oriental de Mato Grosso. São Paulo, 1942.

CRESPI, P. Narrazione e ascolto. Aspetti e problemi dell'approccio orale in


sociologia. La Critica Sociológica, Roma, n. 70, apr./giu. 1984.

DEMARTINI, Z. B. F. Velhos mestres de novas escolas: professores primários


rurais na Ia República (São Paulo). São Paulo: Centro de Estudos Rurais e
Urbanos, 1985. mimeo

DESROCHE, H. Apprentissage en Sciences Sociales et éducation permanente.


Paris: Ouvrières, 1971.

DOLLARD.T. Criteriafor the Life History. New York: Yale University Press, 1935.

FERNANDES, F. Tiago Marques Aipobureu: um bororó marginal. In: Mudan-


ças sociais no Brasil. São Paulo: Difusão Européia do Livro, 1960.

FERRAROTI, F. Appunti sul método biográfico. La Critica Sociológica, Roma,


n. 47, 1978.

. Storía e storie di vita. Bari: Laterza, 1981.

. Vite da BaraccatL Nápoles: Liguari, 1974.

. Vite di periferia. Milão: Mondadori, 1981.

FROTA, L. S. de A. e. Documentação oral e a temática da seca. Brasília: Sena-


do Federal, 1986.

. O documento oral e algumas de suas fontes. Cadernos CERU, São


Paulo, n. 16, nov. 1981.

HALBWACHS, M. Les Cadres sociaux de Ia mémoire. Paris: Presses


Universitaires de France, 1952.

. La Mémoire collective. Paris: Presses Universitaires de France, 1950.


(Ed. bras. no prelo, Edições Vértice).

IGLESIAS, E. Reflexões sobre o que fazer da história oral no mundo rural.


Dados (Revista de Ciências Sociais), Rio de Janeiro, v. 27, n. 1, 1984.

75
Coleção TEXTOS. Série 2, n. 10

LEJAUNE, Ph. Le Pacte autobiographique. Paris: Seuil, 1975.

LEROI-GOURHAN, A. Le Oeste et Ia Parole. Paris: Albin Michel, 1964. 2 vol.

LEVY, R. Per une ricerca biográfica integrata. La Critica Sociológica, Roma, n.


70, apr./giu. 1984.

LEWIS, O. Os Jühos deSanchez. Lisboa: Moraes, 1970.

MACIOTI, M. I. Biografia, storia esocietà (L'uso delle storie di vita nelle scienze
sociali). Nápoles: Liguori, 1985.

MOREIRA, R. J. A história de vida na pesquisa sociológica. Sociologia, v. 15,


n. 1, mar. 1953.

NOGUEIRA, O. A história de vida como técnica de pesquisa. Sociologia, v. 14,


n. 1, mar. 1952.

PEREIRA DE QUEIROZ, M. I. Histórias de vida e depoimentos pessoais. So-


ciologia, v. 15, n. 1, mar. 1953.

. Variações sobre a técnica de gravador no registro da informação viva.


São Paulo: CERU/FFLCH-USP, 1983. (Coleção Textos, n. 4).

PEREIRA DE QUEIROZ, M. I.; ALVES DE OLIVEIRA, A.; RODRIGUES, D. S.;


MACERON, V. G. São Paulo, 1920-1930: depoimentos de trabalhadores de
baixos recursos. S. Paulo, Cadernos CERU, São Paulo, n. 15, ago. 1981.

POIRIER, J.; CLAPIER-VALLADON, S.; RAYBAUT, P. LesRécitsde vie (Théorie


et pratique). Paris: Presses Universitaires de France, 1983. (Col. Le Sociologue).

RAVIS GIORDANI, G. De u'utilisation des témoignages oraux: aspects


déontologiques. Ethnologie Française, Paris, Nouvelle Série, v. 8, n. 4, oct./
déc. 1978.

SIMSON, O. R. M. von. Transformações culturais, criatividade popular e co-


municação de massa: o carnaval brasileiro ao longo do tempo. S. Paulo, Ca-
dernos CERU, São Paulo, n. 14, dez. 1981.

SZÁVAI, J. L'autobiographie naive. Diogène, Paris, n. 130, avr./juin, 1985.

76
RELATOS ORAIS: DO "INDIZÍVEL" AO "DIZÍVEL"

TILLION, G. Ravensbrück. Paris: Seuil, 1973.

THOMAS, W. L.; ZNANIECKI, F. The PóLish Peasant in Europe and America.


(1918-1920). 2. ed. New York: Dover, 1927. 2 vol.

THOMPSON, P. Des récits de vie à l'analyse du changement social. Cahiers


Intemationaux de Sociologie, Paris, v. 69, 1980.

77
HISTÓRIAS DE VIDA E
DEPOIMENTOS PESSOAIS*

Maria Isaura Pereira de Queiroz

Uma das técnicas mais fascinantes da sociologia é a das his-


tórias de vida e depoimentos pessoais. A coleta de tais documentos
parece, à primeira vista, coisa fácil e ao alcance de qualquer um;
pois não basta chegar simplesmente a uma pessoa, pedir-lhe que
conte sua vida ou dê sua opinião, anotando cuidadosamente o que
ela diz? Ao executar o trabalho, todavia, as dificuldades e os proble-
mas ressaltam; não só problemas de escolha do informante e obten-
ção do material, como do preparo do pesquisador.
Foi a psicologia que primeiro se serviu das histórias de vida;
ultimamente, a sociologia tomou consciência do partido que delas
pode tirar; mas a atitude de cada uma é diferente. Para a psicologia,
é o indivíduo como tal o centro de interesse; mesmo considerando
que a personalidade resulta da interação indivíduo-grupo, toda a
ênfase é dada ao primeiro; através da história de vida busca-se com-
preender como a personalidade se formou e as vicissitudes que atra-
vessa devido ao contato com o grupo; como, a partir de um núcleo
de qualidades inatas, se desenvolveu e absorveu os valores que o
grupo ora lhe oferece, ora lhe impõe; ou então se busca estudar o
indivíduo e suas reações em determinada situação, considerados
como parte do ambiente e influindo sobre o ambiente; em ambos os
casos, é sempre o "indivíduo" que interessa; a história de vida, nos
dois casos, apresenta ótimas possibilidades de estudo.
Coleção TEXTOS. Série 2, u. 10

A sociologia tem por objeto os fatos sociais, que a princípio foi


considerado como exterior aos indivíduos e estudado nos comporta-
mentos visíveis dos mesmos e nas cristalizações institucionais; o
interesse que apresentam a história de vida e o depoimento pessoal,
para este tipo de sociologia, é limitado; servem como ilustração da-
quilo que outras técnicas permitiram estudar. Foi a partir do mo-
mento em que se admitiu que valores e opiniões tinham base coleti-
va, não eram produtos essencialmente individuais, que as histórias
de vida ganharam importância para a sociologia; ao seu primeiro
ponto de vista puramente objetivo e exterior seguiu-se outro, o de
"compreender o social não apenas como o que se realiza por meio
dos homens, mas como o que é vivido e agido por eles"23 (DUFREN-
NE, 1952), isto é, o estudo do fato social humanizado, encarado na
sua matriz que é o indivíduo, criador e criatura do grupo. A história
de vida permite justamente estudar o fato social de seu interior, na
fonte. O que os homens pensam, sentem e fazem, constituindo fatos
sociais tanto, por exemplo, quanto as técnicas que empregam em
seus trabalhos, a história de vida vem nô-lo mostrar ao vivo; ela
permite uma abordagem interior de fatos que antes só se observava
do exterior.
Tome-se, por exemplo, a afirmação da inexistência de diferen-
ças de cor entre nós, que pode ser estudada em seus aspectos obje-
tivos - quando mais não seja na lei que proíbe sua manifestação;
são esses fatos sociais frios e desumanizados. Mas a atitude de um
brasileiro branco diante, seja da comunidade negra, seja de um ne-
gro em particular; ou a atitude do negro para com os brancos1 tudo

23
Mikel Dufrenne. Coup cToeil sur 1'Anthropologle Culturelle Américaine. Cahiers
Intemationaux de Sociologie, Paris, v. 7, n. 12, 1952.

80
HISTÓRIAS DE VIDA E DEPOIMENTOS PESSOAIS

quanto se oculta por detrás desta frase comuníssima: "Eu não te-
nho preconceito, mas,.."; o significado que para negros e brancos se
prende ao elemento cor; o preconceito que se manifesta em certas
situações e noutras não - fatos sociais, pois resultam da vida em
grupo - só podem ser alcançados através do comportamento e das
opiniões dos indivíduos, e a história de vida é um dos bons auxilia-
res para sua investigação. O preconceito será assim estudado em
função do membro do grupo; será estudado dentro da comunidade,
que não será encarada como uma reunião de indivíduos a que se
impõem uma coleção determinada de instituições, de valores e de
hábitos, mas sim como uma realidade palpitante, isto é, levando-se
em canta o grupo de indivíduos vivendo, sentindo, agindo dentro da
armadura das instituições, à qual o viver, sentir e agir afrouxa, dá
elasticidade, modifica.
Consideradas sociologia e psicologia como o estuda de duas
faces complementares e inseparáveis de uma mesma realidade, a
história de vida do ponto de vista psicológica, estudando a integra-
ção do indivíduo em determinada cultura, a formação de sua perso-
nalidade pela interação entre suas qualidades individuais e o meio
em que vive, se completa com a história de vida do ponto de vista
sociológico, que mostra, dentro da rigidez do esqueleto estrutural
da sociedade, em suas instituições e "mores", as linhas mais "fá-
ceis" de conduta, os "arranjos", a flexibilidade "do comportamento
humano, que não são individuais porque seguidos por muitos.
Desta compreensão da história de vida decorrem duas conse-
qüências: primeiro, que a psicologia pode encontrar seu material
numa história de vida, pois se seu objetivo é o indivíduo (mesmo que
deste indivíduo se generalize para os restantes, sendo então neces-
sária a escolha de um indivíduo representativo); segundo, que a
sociologia não pode se contentar com uma história de vida, pois,

81
Coleção TEXTOS. Série 2, n. 10

mesmo que tenha escolhido um indivíduo característico do grupo


estudado, não poderá nunca afirmar, a partir de um, que os manei-
rismos que ele manifesta diante das instituições sejam coletivos.
Na verdade, qualquer história de vida tem em si seu problema
e seu interesse, para a psicologia; uma vez que se trata da interação
personalidade-meio, a questão a formular é interior, imanente à his-
tória de vida; o psicólogo pode abordá-la sem ter em mente quesito
algum, ela própria os fornece (o que não impede, é claro, que ele
proponha anteriormente uma questão e utilize a história de vida
para seu conhecimento). Para o sociólogo não; o problema sociológi-
co em relação à história de vida tem o mesmo caráter do fato socio-
lógico em relação ao indivíduo: é-lhe ao mesmo tempo exterior e
interior, enquanto em relação ao fato psicológico é apenas interior.
A biografia de ura negro que demonstra sentimentos de rancor con-
tra brancos explica, para o psicólogo, como estes sentimentos se
desenvolveram a partir do contato e experiências com brancos, mos-
tra em que situação tais sentimentos aparecem e as reações que o
indivíduo apresenta então; o problema psicológico é interior à vida
desse negro, não existe fora dela, a não ser na medida em que ele
seja membro de uma comunidade onde, entre as instituições, figure
a da animadversão entre as raças; mas aqui saímos fora da psicolo-
gia porque o problema não depende mais do negro como indivíduo
nem de sua vida particular, e sim do meio; quando o negro penetra
naquele meio, o problema podia já existir; e mesmo que não existis-
se, desde que surja, aparece como linha de conduta de muitos, re-
sultante de um complexo de fatores sociais; é de certa maneira im-
posto ao negro do exterior. Eis porque dizemos que, na história de
vida encarada do ponto de vista sociológico, o problema é ao mesmo
tempo exterior e interior - exterior porque é um modo de agir coleti-
vo, que se inscreve nos costumes do grupo, interior porque o indiví-
duo o absorve, tornando-o parte de sua personalidade.

82
HISTÓRIAS DE VIDA E DEPOIMENTOS PESSOAIS

O relato de uma história de vida pode sugerir problemas ao


sociólogo, e sempre possui elementos que o interessam, pois nunca
se viu um homem que existisse completamente só, sem inscrever
em sua vida os aspectos da comunidade em que se criou e habita;
todavia, diante de "uma" história de vida, como ter certeza de que o
problema nela encontrado é de fato sociológico e não peculiaridade
individual? Duas soluções se apresentam: acumular as histórias
de vida para delas deduzir o que é coletivo e o que é individual, ou
formular o problema antes de iniciar a história de vida, de acordo
com o que se observou na comunidade que se pretende estudar,
pressupondo-se então um estudo ou um conhecimento prévio do
grupo, da cultura, da comunidade em foco. Sabendo-se, por exem-
plo, que em certa comunidade, que reúne indivíduos de raças di-
ferentes, existe a "linha de cor", pode-se investigar qual o valor e o
significado atribuído por brancos e negros à cor e como reagem
diante dela.
A formulação prévia da questão é uma das regras mais impor-
tantes na colheita da história de vida para fins sociológicos; de acor-
do com a questão escolhida se orientarão as diferentes fases do tra-
balho: preparo do pesquisador, escolha do informante, entrevistas,
análise dos dados. Regra, aliás, básica em toda a pesquisa, socioló-
gica atualmente; foi-se o tempo em que se confundia prenoção com
hipótese de trabalho ou com problema e em que se encarecia que o
pesquisador devia ser como uma "tábulas rasa", ao qual a simples
observação revelaria a estrutura íntima dos fatos sociais. A coleta
cega do material foi substituída pela colheita dirigida, sendo a dire-
ção exercida pelo problema que o sociólogo tem em mente.
Tocamos então o preparo do pesquisador; para que este possa
formular o problema, é preciso que conheça sociologia em geral e o
grupo que pretende estudar em particular; quanto maior a familia-

83
Coleção TEXTOS. Série 2, n. 10

ridade com este grupo, maior facilidade para a formulação da ques-


tão, que ganha em sutileza e agudez. Será muito mais fácil formular
problemas a respeito da sociedade em que vivemos do que a respei-
to de sociedades bantus ou indígenas.
Se o sociólogo é, porém, um membro do grupo, que assim
conhece do interior, ele mesmo terá uma opinião, uma atitude, da
qual pode não ter muita consciência, diante do problema que pre-
tende estudar. Analisar sua atitude pessoal por meio de um depoi-
mento honesto, em que sejam expostas não somente sua própria
opinião, experiências e comportamentos, como também as opiniões,
experiências e comportamentos, das pessoas em cujo círculo vive, é
alcançar, por meio do melhor conhecimento de si mesmo, maior
objetividade para a pesquisa em vista; a análise permite-lhe desven-
dar tendências que ignorava ou que não levava em conta; conscien-
te da existência delas, poderá vigiá-las e evitar que deformem os
dados no ato da colheita. Por outro lado, este depoimento enrique-
cerá o acervo de dados sobre o problema que estuda.24
A escolha do informante também está diretamente presa ao
problema pré-formulado. O informante tem de ser alguém em cuja
vida e atitudes se possa estudar a questão; no caso do preconceito
de cor, por exemplo, de nada adianta obter a história de vida de um
indivíduo que não tenha contatos com outros de cor diferente. Colo-
ca-se aqui, outrossim, a questão da escolha do "indivíduo represen-
tativo"; diante de muitos indivíduos desconhecidos que fecham em
si mesmos o segredo de seus comportamentos e opiniões, como des-
cobrir o tipo médio? O pesquisador, ou conhece tão intimamente o

24
É um preparo que o Prof. Roger Bastide vem exigindo dos alunos de sociologia,
sempre que os encarrega de obter uma história de vida.

84
HISTORIAS DE VIDA E DEPOIMENTOS PESSOAIS

grupo, seus componentes e seus "mores" que lhe é fácil escolher o


informante representativo da média ou cuja vida seja especialmente
interessante para a hipótese a investigar, ou então terá de operar
uma sondagem prévia. Esta seria feita pedindo-se a vários infor-
mantes em potência que redijam curtas biografias, ou que dêem
seu depoimento pessoal sobre o problema visado; aos que fornece-
rem os relatos mais interessantes, pedir-se-á a história de vida com-
pleta e detalhada, sendo de bom aviso figurarem entre os escolhidos
tanto representantes do comum, quanto aberrantes. As restantes
biografias são outros tantos dados, servindo como meio de verifica-
ção de que as atitudes manifestadas pelos informantes são de fato
coletivas e não produtos inteiramente pessoais.
Nota-se mais urna vez o afastamento do "um" pelo sociólogo;
porque mesmo que só um indivíduo seja escolhido, ele o é como
representante da coletividade, como amostra de como agem todos; e
para sua escolha, ou para a verificação dos dados que forneceu,
recorre-se sempre à pluralidade. Para um estudo sociológico em que
se queiram utilizar unicamente histórias de vida, muitas delas de-
vem ser buscadas; não sendo assim, ficamos na psicologia. Se con-
siderarmos que, para a obtenção de histórias de vida, é necessário o
preparo prévio do pesquisador (mesmo que ele possua conhecimen-
tos sociológicos e familiaridade com a sociedade a estudar, é preciso
sempre um pequeno preparo teórico peculiar ao assunto escolhido,
assim como a auto-analise a que nos referimos atrás), a escolha
cuidadosa do informante, a entrada em relações com este para que
se estabeleça um clima de confiança sem o qual o trabalho é impos-
sível, grande quantidade de colóquios para se conseguir uma narra-
ção integral, vemos que esta técnica de estudo é das que consomem
tempo e das que mais vagar e paciência requerem; o trabalho não
pode ser feito de maneira intensiva - longas entrevistas para esgo-

85
Coleção TEXTOS. Série 2, n. 10

tar rapidamente o assunto - porque os detalhes se perdem e o can-


saço de pesquisador e informante deforma o relato. A história de
vida, para o sociólogo, dificilmente poderá então constituir um úni-
co instrumento de trabalho.
O meio de remediar a esta dificuldade é recorrer a depoimen-
tos pessoais, a fragmentos de histórias de vida, que são fáceis de
obter em maior quantidade.
Toda história de vida tem de ser um depoimento, isto é, não
apenas um relato cronológico de acontecimentos, mas trazer em si
a riqueza de sentimentos, opiniões e atitudes da pessoa que a rela-
ta; a não ser assim, revelar-se-á pobre, incolor, pouco significativa e
pouco útil, tanto para a psicologia quanto para a sociologia. Para o
psicólogo que estuda uma personalidade, porém, depoimentos pes-
soais ou apenas fragmentos de história de vida não são de muito
valor porque incompletos; ele precisa conhecer, não só como o indi-
víduo reagiu numa determinada circunstância, mas também que
motivos, o impeliram então, o que deve ser buscado geralmente no
passado, porque é o desenvolvimento individual em interação com o
grupo e a cultura que dá esses motivos. Para o sociólogo, desejoso
de conhecer como se comporta a coletividade, os depoimentos e os
fragmentos de história de vida tem grande interesse porque focali-
zam justamente o comportamento a conhecer, indicando a quanti-
dade de material, se ele é coletivo ou não; a abundância de depoi-
mentos, opiniões, fragmentos de histórias de vida, completar-se-ão
uns aos outros, agindo também como correção e controle não só em
relação uns aos outros, como em relação às poucas histórias de
vida que se obtiver.
Diante da necessidade de utilização desses depoimentos, res-
salta novamente a importância da formulação do problema antes de
iniciada a pesquisa; sem uma questão precisa, que depoimentos

86
HISTÓRIAS DE VIDA E DEPOIMENTOS PESSOAIS

buscar? E mesmo quando se trata do relato de uma história de vida,


em que a maior quantidade de dados e de informações deve ser
solicitada, o pesquisador não pode perder de vista seu problema
porque corre o risco de deixar vago e obscuro o lance que mais de
perto lhe interessam, enquanto lhe são fornecidos com abundância
dados de somenos importância para seu objetivo; com maior razão
ainda em se tratando de depoimentos, que são buscados tendo em
vista determinado fim, que devem focalizar determinado comporta-
mento ou determinada opinião, isto é, que se deve colher visando o
problema formulado anteriormente.
Colhidos os dados, é óbvio que a análise será feita de acordo
com o problema. Não só a análise, mas antes dela as pesquisas,
sobre a confiança que o documento pode merecer, a verificação dos
dados, serão também orientadas pelo problema. No caso, por exem-
plo, de o documento ser confrontado com outros diferentes, estes
também devem ter sido coligidos de acordo com o problema central
e o confronto será diretamente influenciado por ele, pois o que se
procura verificar é justamente a confiança que nos pode merecer o
documento em relação ao problema.
Toda esta exposição parece concorrer para a conclusão de que
só um sociólogo ou indivíduo que conheça bastante sociologia será
capaz de coligir uma história de vida com os requisitos necessários;
de fato, um sociólogo ou um estudante de sociologia será a pessoa
melhor indicada para a tarefa, porque só eles terão o preparo espe-
cial para obter o documento mais rico e mais preciso do ponto de
vista do problema a estudar, pois têm muito mais a consciência
aguda desse problema e das dificuldades da obtenção. Isso não quer
dizer que dados colhidos sem a orientação de um foco especial de
interesse devam ser desdenhados como inúteis; no caso, por exem-
plo, de uma biografia escrita por qualquer autor - dela pode e deve

87
Coleção TEXTOS. Série 2, n. 10

lançar mio o sociólogo, para seu estudo; mas os dados assim obti-
dos são menos precisos e necessitam de uma análise muito mais
delicada e cuidadosa, como nota Robert Angell.25 Podemos esculpir
madeira com qualquer canivete; mas o trabalho será muito mais
fácil, rendoso e perfeito, se usarmos o instrumento apropriado.
Pode-se argüir que os autobiógrafos embelezam-se a si mes-
mos, ou que os escritores tendem sempre a dar uma idéia simpática
ou antipática de seu biografado, criando uma imagem fictícia das
ações, atitudes, reações, emoções. O mesmo, porém, acontece quando
o indivíduo conta sua história ao pesquisador; todos nós somos le-
vados, às vezes de maneira inteiramente inconsciente, a nos mos-
trar como queremos ser idealmente e não como realmente somos.
Mas o psicólogo é quem sofre mais com isto, ele é que está lidando
com uma personalidade em sua formação e vicissitudes; quanto ao
sociólogo, pode sanar a falha pela comparação com outras autobio-
grafias e depoimentos, se se lida com documentos frios, ou pelo
interrogatório de pessoas da família sobre o informante, em se tra-
tando de histórias de vida. Neste último caso, o próprio conheci-
mento do informante, à medida que as entrevistas vão se acumu-
lando, permitirá de certo modo ao pesquisador uma atitude de
confiança ou de desconfiança para com a narração que está ouvin-
do. Aliás, a falta de veracidade em relação a certos acontecimentos
ou detalhes (desde que descoberta e constatada pelo sociólogo) pode
até constituir um dado suplementar; conhecido o grupo social do
informante, a falha indica a existência, nesse ponto, de uma valori-
zação ou de uma desvalorização social que o indivíduo voluntária

25
GOTTSCHALK, Louis; KLUCKHOHN, Clyde; ANGELL, Robert. The use of personal
documents in history, anthropology and sociology. Social Science Research Council,
New York, Bulletin 53, 1945.
HISTÓRIAS DE VIDA E DEPOIMENTOS PESSOAIS

ou involuntariamente pretende ignorar, exagerar ou contradizer.


Todos estes cuidados que requer a obtenção de uma história de
vida, estão a repetir que somente um estudioso de psicologia ou de
sociologia deve se encarregar do trabalho; os leigos ou os pouco
treinados nos fornecem documentos imprecisos ou deformados e,
dada a dificuldade de se obter uma história de vida completa devi-
dos ao tempo que toma, o risco não deve ser corrido.
Colhi, o ano passado, fragmentos de uma história de vida que
espero completar mais tarde, e alguns depoimentos pessoais.
O problema que norteou a escolha de meus informantes foi o
das relações entre brancos e pretos em São Paulo, de princípios do
século até 1930, isto é, no período em que, libertados havia pouco,
tiveram os negros de se haver com a concorrência dos imigrantes
melhor preparados do que eles para a luta no terreno do trabalho
livre.
Minha informante para a história de vida é pessoa de cor,
nascida em 1900; passou sua infância e mocidade na cidade de São
Paulo; empregada doméstica desde os 26 anos, tem vivido quase
exclusivamente no meio de brancos, suas amizades são, em grande
maioria, com gente branca. Conheço-a há tempo; estava, assim,
afastada a primeira dificuldade das relações entre informante e pes-
quisador, que é a conquista da confiança para que a narração seja
feita cora a maior franqueza. Outra dificuldade é a perda de interes-
se por parte, quer do pesquisador, quer do informante; muitas ve-
zes, colóquios começados com todo o entusiasmo vão adquirindo
um aspecto de obrigação que acelera o relato para acabar depressa
ou que lhe abate a vivacidade; ora, minha informante não só tem
decidido pendor para contar histórias, como narra-as com vivacida-
de e sabor; sabia de antemão que nosso interesse não diminuiria,
Coleção TEXTOS. Série 2, n. 10

antes tenderia a aumentar com o correr das entrevistas, dadas as


suas qualidades, de narradora.
Aqui intervém o perigo do "bovarysmo" que sói ocorrer quan-
do se trata de pessoa de muita imaginação: a criação de um perso-
nagem fictício pela informante para se revelar, a meus olhos, inte-
ressante como uma heroína de romance; dadas, porém, as relações
antigas entre nós duas, o conhecimento que tenho dela e de uma
parte de sua vida, com relativa facilidade descobriria os exageros.
Havia terceira vantagem na escolha desta informante, e que
não era de desdenhar: as entrevistas podiam ter lugar no ambiente
o mais normal possível, sem afastá-la de suas atividades e obriga-
ções cotidianas, sem criar para ela um "clima" diferente e sem dar
aos colóquios nenhum aspecto formal ou fora do comum. Ela leva a
passeio, todas as manhãs, a criança de quem é pajem; várias vezes
eu já a tinha acompanhado conversando. As entrevistas tiveram,
assim, caráter normal dentro de seus hábitos e de nossas relações
mútuas, realizando-se nesses passeios matinais.
Outro perigo era o de ela não se mostrar inteiramente franca
por ocupar, em relação a mim, uma posição subalterna e temer me
desgostar; este perigo também não existiu no caso; houve uma épo-
ca, a de minha infância, em que ela, apesar de empregada, ocupou
em relação a mim a posição contrária; como adulta e minha pajem,
representava a autoridade superior a quem eu devia obediência;
desta autoridade ficou um resíduo que impossibilita o estabeleci-
mento, entre nós, de relações de superior para inferior; a afeição
proveniente de um longo conhecimento, o respeito que despertaram
seu caráter e inteligência, concorre para destruir qualquer diferen-
ça de nível que tenda a se estabelecer; ela sabe que pode ser franca
comigo na exteriorização de suas opiniões e espera de mim a mes-
ma atitude.

90
HISTÓRIAS DE VIDA E DEPOIMENTOS PESSOAIS

Todavia, estas condições, que acreditei de começo "condições


ótimas" para a obtenção de uma história de vida, tinham o inconve-
niente da própria amizade que nos liga. Se o interesse de nós am-
bas, no desenrolar da narrativa, não diminuía; se, pelo fato de eu
conhecê-la bem e de longa data, era menor o perigo de ela construir
para mim um personagem fictício, por outro lado eu mesma, de
maneira insensível (percebi um dia, quando relia o que acabava de
escrever imediatamente após a entrevista) era levada a atenuar ou
acentuar certos traços pelo uso de determinadas expressões, sem-
pre tendendo a dar uma impressão favorável do personagem. A im-
parcialidade, que é difícil de ser conservada diante de ou trem - é
rara sermos inteiramente indiferentes, reações de antipatia ou sim-
patia norteiam tanto nossas atividades em relação a outro indivíduo
quanto nossa maneira de representá-lo aos olhos do público - tor-
na-se mais difícil quando está em jogo a amizade. Mesmo no caso de
não existir a amizade entre informante e pesquisador, o perigo da
afetividade, menor no início das entrevistas, vai avultando, pois os
encontros amiudados, o conhecimento mais íntimo, vão minando a
indiferença inicial no sentido da simpatia ou da antipatia. O perigo,
maior no meu caso, existe sempre. E a escolha de urr. informante
inteiramente desconhecido e indiferente é solução precária que fun-
ciona somente no início dos colóquios, mas que deixa de ser solução
à medida que o trabalho vai desenvolvendo entre pesquisador e in-
formante relações amistosas ou não.
Há duas maneiras de sanar o inconveniente. O primeiro é o
sistema de anotar tudo, palavra por palavra, à medida que o infor-
mante vai falando (sendo então de grande utilidade a taquigrafia), o
que elimina as reações do pesquisador. Ou então tomar plena cons-
ciência da deformação acarretada pela afetividade e estar sempre
em atitude de desconfiança em relação a nós mesmos, ao redigir-
Coleção TEXTOS. Série 2, n. 10

mos as entrevistas. A mais segura é sem dúvida a solução de ano-


tar, no próprio momento em que a pessoa fala, tudo quanto conta.26
Adotei, porém, a segunda; a primeira tenderia justamente a formar
o clima de exceção e de artificialismo que tentei eliminar, colocaria a
informante numa situação fora do comum para ela - a de ditar qual-
quer coisa a alguém, - diminuiria sensivelmente a espontaneidade
do relato, que é uma das preciosidades da história de vida.
Deixei, pois, minha informante falar livremente; raramente lhe
perguntava uma ou outra coisa, fazendo-o apenas quando havia
dúvidas a esclarecer, detalhes a acrescentar concernentes à ques-
tão que mais me preocupava. Apesar dos inconvenientes - depender
muito da memória do pesquisador; sofrer a história de vida duas
deformações, primeiro da pessoa que conta, em seguida da pessoa
que anota - esta maneira não só é mais suave para informante e
pesquisador, como elimina a atitude natural de defesa que senti-
mos diante do lápis e do papel, a qual levaria insensivelmente o
informante a fornecer um relato "expurgado" no sentido de se dar a
conhecer tal qual deseja ser visto pelos outros e não tal qual real-
mente é.
Também não mencionei que meu problema central era o do
preconceito de cor. Não sabendo qual a questão que preocupa o
pesquisador, o informante conta sua história naturalmente, tal como
a compreende, sem dar maior importância a determinado aspecto,
examinando o passado sem idéias preconcebidas. Conhecendo o
problema será levado, insensivelmente embora, a acentuar uma ou
outra passagem a que não daria maior importância em situações
normais. No caso da minha informante, por exemplo, se eu dissesse
que estava estudando as relações entre brancos e pretos, imediata-

26
Esta história de vida foi colhida em 1951, antes da vigência do gravador.

92
HISTÓRIAS DE VIDA E DEPOIMENTOS PESSOAIS

mente ela buscaria em sua memória tudo quanto a isso se referisse,


relatando os' acontecimentos sem a isenção de ânimo com que o fez.
O inconveniente está em que o informante pode se perder numa
quantidade de detalhes que não interessam de perto ao pesquisa-
dor. Todavia, o material que parece não se ligar ao problema central
não é de desdenhar; muitas vezes o que num relance se acredita
desligado da questão revela, num reexame, raízes profundas que o
prendem sutilmente a ela; por outro lado, como a obtenção de histó-
rias de vida requer tempo, o que limita sua quantidade, quanto mais
rica em dados de toda a espécie, melhor, porque permitirá que pes-
quisadores, do mesmo ou de diferentes ramos das ciências sociais a
possam aproveitar também.
Não pedi que respeitasse a cronologia; minha informante avan-
çava e recuava na história como bem entendia, contando os episó-
dios de acordo com associações que ia espontaneamente estabele-
cendo. O abandono da cronologia - que só deve ser empregada para
esclarecer a situação dos acontecimentos mais importantes no tem-
po, nunca para dirigir o fio da narrativa - é interessante porque
aproxima a história de vida das associações livres da psicanálise,
permitindo ao pesquisador uma penetração mais funda na mente
do informante.
São estas as melhores maneiras de se obter um material vivo,
objetivo, espontâneo: deixar ao informante toda a liberdade no rela-
to, sem o conhecimento do problema do pesquisador que influiria
na orientação de sua narrativa, sem lápis nem papel que o cons-
trangeriam, sem a cronologia que o obrigaria a uma ordenação dos
fatos de sua vida que lhes tiraria o sabor de aparecerem associados
da maneira que ele os vê associados. Mas estas regras (e nenhuma
outra) não devem ser erigidas em dogma; como sempre, a situação,
os temperamentos de pesquisador e informante, as relações entre

93
Coleção TEXTOS. Série 2, n. 10

ambos, o tipo de problema a investigar ou outros fatores podem


tornar preferível a entrevista em que funcionem intensamente lápis
e papel, em que a cronologia seja respeitada e em que o informante
esteja ao par do objetivo do pesquisador.
Ao redigir a narrativa que ouviu, deve o pesquisador anotar
quais as perguntas que fez e em que ponto as formulou. Se, por
exemplo, os pontos que necessitavam de esclarecimento foram sem-
pre os mesmos, indicarão por parte do informante um desejo, cons-
ciente ou não, de fugir diante deles, o que muitas vezes é significa-
tivo para o problema estudado.
Quanto ao tempo que deve durar cada entrevista, variará de
pesquisador para pesquisador, de informante para informante, es-
tando não somente na dependência do temperamento e do vigor de
cada um deles, quanto da relação que entre ambos se estabelece;
numa relação de simpatia, a duração da entrevista poderá ser maior
do que se a antipatia se for desenvolvendo entre pesquisador e
informante. Assim, somente a experiência poderá estabelecer o
tempo ótimo para cada caso. Em se tratando do meu, verifiquei
que mais de hora e meia era demasiado para minha memória; no
dia em que a conversa se prolongou por duas horas - não só não
quisera quebrar o fio de um episódio que apaixonava minha infor-
mante, como também tentei experimentar quanto tempo eu agüen-
taria - tive muita dificuldade em lembrar de tudo na ordem em que
fora contado; minha informante não se mostrava cansada depois
de duas horas de entrevista; tive a impressão de que poderia con-
tinuar ainda por mais duas...
Ao mesmo tempo em que trabalhava nesta história de vida,
obtive vários depoimentos de outras pessoas sobre a questão do
preconceito de cor em São Paulo, ora colocando diretamente o pro-
blema diante do indivíduo, pedindo sua opinião e o relato de sua

94
HISTÓRIAS DE VIDA E DEPOIMENTOS PESSOAIS

experiência pessoal, ora sondando por perguntas que o levassem,


sem perceber, a formular um parecer. Neste último caso, por exem-
plo, conversando com o encarregado de arquivos de um jornal pau-
lista, obtive, indagando do aumento ou da diminuição da criminali-
dade negra em São Paulo, dados sobre as relações entre brancos e
pretos, sem que o informante tivesse notado da minha parte qual-
quer interesse maior por esta última questão. A mesma abordagem
que usara na obtenção da história de vida - deixar o informante na
ignorância do problema central - utilizei-a desta vez; porém, como
também no caso das histórias de vida, depende do problema, do
pesquisador, do informante, do encontro entre ambos, a adoção desse
sistema ou do sistema de pedir diretamente a informação.
A tarefa do sociólogo é mais ingrata na obtenção dos depoi-
mentos. As questões devem ser muito claras e objetivas para que
rapidamente o informante dê um parecer preciso. No caso da obten-
ção indireta, a dificuldade aumenta; não se trata, como na história
de vida livremente obtida, de deixar o indivíduo falar como queira,
mas sim de dirigi-lo veladamente, com segurança e presteza, para
determinado fim.
Não basta o pesquisador consignar os depoimentos obtidos;
soltos nada significam. É preciso que anote cuidadosamente tudo
quanto sabe a respeito do depoente, de sua vida, profissão, nível
social, ambiente em que vive, para que a opinião dele se situe den-
tro de determinado contexto e queira dizer qualquer coisa. Também
as condições em que se realizou a entrevista devem ser relatadas.
Mesmo na história de vida, em que a situação grupai e o ambiente
estão explícitos e visíveis através da narrativa, é muito útil comple-
tar o trabalho com tudo quanto o pesquisador sabe a respeito do
informante; os dois documentos se completam: a história de vida de
um lado, o informante visto pelo pesquisador do outro. As condi-

95
Coleção TEXTOS. Série 2,11. 10

ções das entrevistas, os momentos de maior interesse do informan-


te pela narrativa, os de maior emoção, tudo isso, quando anotado,
enriquece o material.
Em resumo, a obtenção de uma história de vida requer: que o
pesquisador possua, além do preparo sociológico, um preparo espe-
cial em relação ao problema que vai abordar e à técnica da história
de vida; a formulação prévia do problema; a escolha judiciosa do
informante; entrevistas que sejam o menos possível artificial e dife-
rente dos hábitos do informante; descoberta do tempo "ótimo" de tra-
balho para ambos; narrativa livre; desconhecimento, por parte do
informante, do problema que preocupa o pesquisador; anotação, por
este, das condições das entrevistas, das perguntas que formulou no
correr da conversa, de tudo quanto sabe a respeito do informante.
Queremos frisar mais uma vez que não são regras absolutas,
mas o que se nos afigura o melhor caminho a seguir. Regras preci-
sas em relação à técnica de obtenção de histórias de vida não po-
dem ser formuladas, não só porque podem variar de caso para caso,
como porque, sendo técnica relativamente recente, não houve ainda
número suficiente de experiências para bem desenvolvê-la. Para que
isto se dê é necessário não só que a técnica seja abundantemente
utilizada como que o pesquisador, além de dar os resultados de seu
trabalho, conte como agiu na obtenção dos dados e quais as dificul-
dades que encontrou.
É muito útil narrar o sociólogo suas peripécias ao utilizar qual-
quer técnica. Têm razão os que se queixam de que, em sociologia, a
maioria dos pesquisadores exibem o material obtido, analisam-no,
interpretam-no, sem descrever como agiram para obtê-lo. Torna-se
necessário que se prestem contas, aos outros estudiosos da maté-
ria, não só do critério usado na escolha dos dados, mas também de
como estes foram conseguidos e manipulados; contar se o lápis e o

96
HISTÓRIAS DE VIDA E DEPOIMENTOS PESSOAIS

papel funcionaram ou não enquanto o narrador falava não é detalhe


de somenos importância, como parecem pensar os que se conten-
tam em fornecer o resultado de seus estudos. Somente o acumular
da experiência em relação às técnicas e ao seu modo de emprego
permitirá o aperfeiçoamento delas; aperfeiçoamento que só será al-
cançado por meio da comparação da maior quantidade de casos
semelhantes ou diferentes entre si; a comparação não é possível
quando se silencia sobre a maneira pela qual foi obtido e tratado o
material. Por outro lado, mostrar o caminho que se seguiu é permi-
tir que outros o aproveitem, o critiquem, o aperfeiçoem ou o refutem
em proveito de um sistema melhor.
Poder-se-á argumentar que os problemas sociológicos são em
extremo variáveis e que a abordagem necessariamente se modifica-
rá de acordo com cada caso e cada pesquisador, de tal modo que
nunca se conseguirá fixar normas para o tratamento dos diferentes
problemas. A variabilidade existe sim; porém também existe o ele-
mento comum; o que é variável, o é dentro de certos limites que
somente a apresentação de muitos casos permitirá perceber. Isto é,
dentro da variabilidade há uma constância que poderá ser alcança-
da desde que se acumule grande número de casos. Os problemas
sociológicos não fogem a esta constatação; dentro de sua variabili-
dade há que procurar a constante, a qual irá se desprendendo e
afirmando com o amontoar da experiência e com o relato minucioso
das diferentes técnicas empregadas no seu estudo, até permitir a
sua classificação em várias categorias e o afinamento dos melhores
meios de se pesquisar cada uma delas.

07
PESQUISA INDIVIDUAL, PESQUISA DE EQUIPE:
IRMÃS INIMIGAS OU ÍNTIMAS COLABORADORAS?*

Maria Isaura Pereira de Queiroz

Em Ciências sociais, a preferência dos pesquisadores costu-


ma ir, geralmente, para a pesquisa individual, sendo relativamente
poucas as de equipe; esta observação é acompanhada pelo reconhe-
cimento habitual de que deveriam ser expandidas, e também pelas
queixas dos pesquisadores de que se encontram enclausurados e
isolados no âmbito de seu próprio trabalho. Aponta-se como uma
das causas principais deste estado de coisas o fato de que a maioria
das pesquisas é executada para fins universitários e de carreira, as
teses e concursos devendo dar testemunho do nível e da qualidade
do trabalho individual de seus autores.
Uma outra justificativa aventada é a de que não raro surgem
desentendimentos no interior de uma equipe, que freiam o desem-
penho, tornando-o muito moroso; degenerado em conflitos, promo-
vem muitas vezes a dissolução da equipe, necessitando-se então ou
organizar uma outra, o que demanda tempo e treinamento, ou sim-
plesmente abandonar o trabalho inacabado. Inúmeras pesquisas
de equipe têm terminado desta maneira inglória.

In: QUEIROZ, Maria Isaura Pereira de. Variações sobre a técnica de gravador no
registro da informação viva. São Paulo: CERU/FFLCH-USP, 1983. p. 161-175.
(Coleção Textos, n. 4).
Coleção TEXTOS. Série 2, n. 10

Explica-se também que o brasileiro é, por natureza, extre-


mamente individualista, não conseguindo se adaptar bem ao traba-
lho coletivo - afirmação que seria válida tanto para pesquisadores
masculinos quanto femininos. Além disso, numa sociedade alta-
mente competitiva como as sociedades capitalistas ocidentais, não
seria de admirar que no interior da própria equipe se desenvolves-
sem rivalidades que poriam em perigo a continuidade da mesma.
Duas são as teorias subjacentes a tais explicações. As que se
referem ao caráter individualista do brasileiro se baseiam numa "psi-
cologia dos povos" que atribui qualidades específicas a cada coletivi-
dade nacional, embora nada exista até hoje que possa, a partir de
pesquisas efetivamente realizadas, servir de fundamento a esse tipo
de teoria. As que dizem respeito às peculiaridades da sociedade capi-
talista, referem-se a qualidades psico-sociais decorrentes da estrutu-
ra econômica que lhe é particular; acredita-se então que uma equipe
só funcionaria quando entre os participantes reinasse a concórdia, a
harmonia, a fraternidade, virtudes frontalmente opostas à realidade
do mundo capitalista. Desta forma, por um lado o brasileiro seria
congenitamente inapto ao trabalho de equipe, que exigiria uma ver-
dadeira violência de sua parte para adaptar-se ao mesmo; e por outro
lado, o trabalho de equipe seria incogruente com toda sociedade ca-
pitalista, requisitando cuidados e habilidades diplomáticas parra po-
der ser realizado. Haveria assim uma dupla inadequação dele às con-
dições do país. Pareceria então que a conformação da equipe a
aparentaria ao que Toennies definiu como "comunidade", incompatí-
vel e oposta ã sociedade complexa que é a do país.
Na realidade, uma noção muito clara de comunidade, em sua
definição afetiva, perpassa o conceito de equipe, e o opõe ao concei-
to de trabalho individual, este implicitamente qualificado de perso-
nalista, muito certamente, até mesmo francamente egoísta, e che-

100
PESQUISA INDIVIDUAL, PESQUISA EM EQUIPE

gando a tocar as raias do egocêntrico. Desta forma, somente em


condições muito especiais a pesquisa conseguiria se firmar e levar o
trabalho avante, na sociedade ocidental em geral e especificamente
no Brasil. Estas maneiras de ver contém então a noção de que tra-
balho de equipe e trabalho individual seriam mutuamente exclusi-
vos em Ciências Sociais; ou se escolhe uma via, ou outra, a associa-
ção entre ambas parecendo impossível. Também aparece como
preferencial para os brasileiros a pesquisa individual, dadas suas
próprias características psicológicas, a que se somam as caracterís-
ticas psico-sociais da sociedade capitalista ocidental, de que fazem
parte.
Mas não existiriam outras razões, por detrás destas explica-
ções de cunho ou profissional, ou psicológico, ou mesmo psico-so-
ciais, vigorando cada qual por si mesmas ou conjuntamente segundo
os discursos de diferentes especialistas? A oposição dos contrários
expressaria realmente as relações entre as duas formas de pesquisa?
Pesquisa individual é aquela que o pesquisador executa sozi-
nho, não dividindo tarefa alguma com ninguém mais, e este isola-
mento constitui sua marca específica. É possível que num ou nou-
tro aspecto do trabalho conte ele com um auxiliar esporádico, mas
raríssimas vezes tal ocorre. O termo "individual" é significativo; en-
cerra o sentido de que o trabalho efetuado pelo pesquisador compõe
uma totalidade, apresentando tal coesão interna que pode-se consi-
derá-lo como uma só coisa; também significa que o trabalho possui
caracteres distintivos, permitindo o seu reconhecimento quando
colocado lado a lado com outros semelhantes, com os quais portan-
to não é nunca confundido. A idéia de "menor divisão de um todo",
que contém o termo "indivíduo", associa-se também à idéia de pe-
culiaridades que o tornam único; a pesquisa individual apresenta,
assim a característica de ser uma unidade - menor divisão de um

101
Coleção TEXTOS. Série 2, n. 10

todo - e uma totalidade - no sentido de ser a extensão mais comple-


ta que engloba as particularidades internas. Constituindo-se uni-
dade, esta pesquisa não pode ser parcelada; porém ela é uma uni-
dade tal que todos os aspectos possíveis estão interligados, o que a
"individualiza", isto é, a torna concretamente distinta de outras
unidades semelhantes; é então totalidade.
Que se entende por pesquisa de equipe? A expressão significa
literalmente "conjunto de indivíduos executando juntos as mes-
mas tarefas ou o mesmo trabalho", quer na labutação, quer no
jogo. Trata-se, portanto, de uma labutação ou jogo que pode ser
dividido em sua execução e, o que é mais, que deve ser dividido em
sua execução para poder ser realizado. Deste ponto de vista, sua
oposição a trabalho individual não poderia ser mais clara. Outras
noções estão também presentes naquele enunciado, que é neces-
sário examinar.
Além de uma noção de coletividade (conjunto de indivíduos), a
expressão encerra também uma noção de igualdade entre eles, uma
vez que se desincumbem juntos das mesmas tarefas; não se trata-
ria de uma divisão do trabalho no sentido orgânico, e sim de uma
repartição de tarefas semelhantes. Como se trata de realizar algo
coletivamente, há também uma noção de organização, de um ar-
ranjo tal que permite alcançar a finalidade proposta. A organiza-
ção implica portanto na existência de uma estrutura, informal
quando não existem normas precisas estabelecidas para se alcan-
çar a finalidade proposta; formal quando existem as normas. E a
um e outro caso de estrutura acompanha também uma forma es-
pecífica de liderança, paralela e da mesma natureza: liderança in-
formal na primeira alternativa, quando um dos componentes do
grupo tende a ser escutado e seguido espontaneamente; liderança
formal quando o líder, apoiado na estrutura vigente, tem explicita-

102
PESQUISA INDIVIDUAL, PESQUISA EM EQUIPE

mente autoridade para ser o ordenador, o condutor, o animador


do trabalho todo, podendo executar ou não as tarefas juntamente
com os demais.
Talvez estivesse no próprio sentido profundo das duas expres-
sões, trabalho individual e trabalho de equipe, a razão de terem sido
encaradas como contraditórias e mutuamente exclusivas. Pois se
numa equipe todos realizam tarefas semelhantes ou idênticas, e se
o trabalho individual se caracteriza pela sua qualidade de "único",
não podendo portanto ser confundido com um outro e não possuin-
do semelhantes, então tratar-se-ia realmente de duas formas in-
confundíveis e irredutíveis. Dentro destes limites é que foram en-
tendidos os trabalhos universitários de tese, cuja característica
principal reside em sua originalidade, isto é, em sua singularidade,
vale dizer no fato de serem únicos.
Um trabalho único entre outros trabalhos, original, que é tam-
bém um trabalho cujo autor se conhece, que é portanto um traba-
lho assinado, são essas as características da pesquisa individual. A
recusa do trabalho em equipe se enraizaria também num orgulho
da autoria de algo inconfundível, de algo que ninguém mais execu-
tou ou pensou sequer executar. É aqui que se encontraria provavel-
mente a raiz do apego ao trabalho individual de pesquisa, como
forma preferida ao trabalho de equipe; preferência que leva a opô-lo
ao de equipe como contrários irreconciliáveis.
No entanto, o trato contínuo com as duas formas de trabalho,
ressaltando suas convergências, suas implicações mútuas, foi mos-
trando, em toda uma vida voltada para as mais diversas pesquisas,
o erro que havia em considerá-las como antagônicas. A base de ambas
as formas está no fato de que qualquer pesquisa é composta de
múltiplas tarefas que, conforme o caso, ou conforme a escolha pre-
viamente efetuada, podem ser desempenhadas por um único indiví-
duo, ou por um grupo deles.

103
Coleção TEXTOS. Série 2,11. 10

A partir da forma extrema, em que o indivíduo executou tudo


sem o menor auxílio de outrem, compondo o caso da pesquisa pura-
mente individual, existem várias outras em que o trabalho indivi-
dual pode se associar a diversos tipos de trabalho coletivo, quer sob
o comando de um especialista que formulou todo o projeto, quer
sem liderança e compondo um grupo que age como tal desde o iní-
cio, isto é, desde a proposição do problema.
Um dos tipos mais habituais é aquela em que um pesquisador
ideou todo o projeto, do qual executará as partes que considera
"nobres", porque exigem maior soma de conhecimento e de reflexão,
distribuindo entre os auxiliares tarefas mais mecânicas, e relegan-
do-os, mutatis mutandis, ao papel de operários não especializados
de uma fábrica; isto é, reservando-lhes as tarefas que qualquer um,
com um mínimo de treinamento, pode executar. Neste tipo de pes-
quisa, as parcelas do trabalho ficam partilhadas hierarquicamente
entre o pesquisador, de um lado, e, de outro lado, a mão de obra.
Tal conjunto também compõe uma equipe, na qual existe desde o
início um líder formal, o pesquisador-chefe.
No interior deste conjunto, a relação entre pesquisador e mão
de obra é de superior para inferior; a mão de obra é somente um
executante, sem maiores conhecimentos, nem a respeito das tare-
fas a serem realizadas, nem quanto à finalidade para a qual as tare-
fas se encaminham, nem com respeito à disciplina ou à ciência na
qual a pesquisa se insere. Note-se novamente uma relação como
que de patrão para assalariado; e, como em geral esta mão de obra
é paga, o vínculo empregatício torna patente a qualidade do relacio-
namento. Mas pode-se levantar a dúvida: tratar-se-á realmente de
uma equipe? Se o termo equipe significa realmente executar algo
em conjunto, a aplicação do termo é irrecusável.

104
PESQUISA INDIVIDUAL, PESQUISA EM EQUIPE

Não são muito raras equipes de pesquisa deste tipo, compos-


tas de "patrões" e de "trabalhadores braçais" da ciência. Este rela-
cionamento nem sempre implica em remuneração monetária, que
pode ser substituída por um "ersatz" qualquer. - É o caso, por exem-
plo, de estagiários ou de estudantes que pensam adquirir assim
certo tipo de experiência numa técnica ou numa fase da pesquisa. A
remuneração estaria então na prática efetuada; ou, na melhor das
hipóteses, numa citação de que fulano trabalhou com o professor
sicrano em tal pesquisa - citação que sempre vai para currículo.
Ainda outras vezes, quando se trata de estudantes de graduação
principalmente, a tarefa de que são incumbidos lhes dará a nota
necessária para se aproximarem da obtenção do diploma.
Em todas estas equipes de pesquisa, o esquema autocrático é
de regra. O pesquisador responsável, que dela em geral teve a ini-
ciativa, escolhe o tema, formula os problemas, designa as técnicas,
constrói as justificativas. Quando se trata de estudantes ou de esta-
giários, algumas vezes podem eles discutir certos aspectos ou, pelo
menos, recebem explicações mais ou menos detalhadas a respeito
do que será efetuado, das razões das escolhas, das implicações das
mesmas, das ligações cora quadros teóricos mais gerais. Obriga-
dos à leitura da bibliografia pertinente, podem (pelo menos em
teoria...) discutir alguns dos pontos que lhes pareçam duvidosos,
podem sugerir pequenas modificações e melhorias. Porém o produ-
to do trabalho não lhes pertence, como não lhes pertencera a pro-
posta inicial.
Num outro extremo da escala das equipes, existe a pesquisa
coletivamente porposta e coletivamente levada a termo, em que to-
dos os passos foram discutidos e tomados em grupo, desde o início
do projeto até a interpretação final. Pode ela ter um coordenador
mais experimentado, ou nem mesmo isso, e suas diversas fases se

105
Coleção TEXTOS. Série 2, n. 10

originam, da livre discussão de todos os participantes. Esta última


forma, que tem sido dada como a forma ideal de equipe, parece mais
rara; e isso porque toda pesquisa requer uma organização, uma
disciplina, que subentendem a existência de um condutor respon-
sável, o qual pode ser formalmente ou informalmente designado.
Poder-se-ia argüir que somente então todos teriam efetuado
as mesmas tarefas em conjunto; não existindo um chefe designado
a partir de algo exterior à equipe, a hierarquia interna, que por aca-
so se estabelecesse, decorreria simplesmente da vontade comum,
revelando o que deveria ser específico das equipes - o "espírito de
grupo". Na verdade, em toda a discussão que opõe trabalho indivi-
dual a trabalho em equipe existe, subjacente, a idéia de que, numa
equipe, o indivíduo deixa o frio isolamento para mergulhar no calor
da coesão humana, no relacionamento fraterno com seus iguais, o
que talvez não fosse mais frutífero para seu trabalho, mas seria
muito mais satisfatório do ponto de vista humano. Na língua fran-
cesa, a expressão "esprit d'équipe" significa justamente a solidarie-
dade que une os membros de um grupo, ao efetuarem juntos certas
atividades. Considerado específico de grupos não muito extensos, o
"esprit d'équipe" expressaria a adesão íntima dos indivíduos uns
aos outros, impelindo-os a agir como se constituíssem uma só pes-
soa. Noutras palavras, o "esprit d'équipe" seria uma forma de con-
senso social, caracterizada pela conformidade de pensamentos, de
sentimentos, que se originaria das ações semelhantes e sincroniza-
das dos indivíduos que compõem o grupo. Esta coesão seria indis-
pensável para que a equipe funcionasse de maneira eficiente, e da-
ria ao indivíduo os apoios de que necessita para prosseguir sem
fraquejar, nos percalços e dificuldades que toda pesquisa encerra.
Assim, o aprofundamento da análise relativa a trabalho de equipe e
trabalho individual, reforçou a idéia de que a condenação do traba-

106
PESQUISA INDIVIDUAL, PESQUISA EM EQUIPE

lho individual estaria presa à valorização da equipe como um con-


junto solidário e harmonioso, dentro do qual os esforços seriam
amenizados pelo calor do companheirismo.
Esta definição de equipe muito se aproxima das antigas con-
cepções de "comunidade", em sua oposição com "sociedade", for-
muladas por Tõnnies (1944), no dealbar das Ciências Sociais. A
marca distintiva das comunidades seria sua pequena envergadura,
permitindo um contato íntimo entre os participantes, que os levaria
a uma integração profunda, a uma harmonia nas maneiras de ser e
de pensar, a uma coesão do tipo "um por todos e todos por um".
O caráter ilusório desta concepção de comunidade já tem sido
suficientemente denunciado, mostrando-se que todo grupo, seja ele
primário ou complexo, contém sempre fermentos de discórdia que
ora se avivam, ora entram em latência, uma vez que os grupos são
sempre compostos de elementos díspares, diversamente colocados
em relação uns aos outros. A dissemelhança dos elementos, a varie-
dade de suas posições no interior do grupo, seriam dois primeiros
fatores de oposição; noutras palavras, às variações oriundas das
peculiaridades de cada indivíduo, se somariam as variações de seus
inter-relacionamentos, decorrentes das variações de suas posições
no interior do grupo. A própria existência dos indivíduos, a cada um
ligando conjuntos de circunstancias derivadas de suas peculiarida-
des e experiências, porém destas também criadores, constitui sem-
pre um fator de oposições, de contradições, de conflitos.
Como qualquer outro grupo, a equipe de pesquisa é composta
de indivíduos no sentido específico desta palavra; ela significa lite-
ralmente o que é indivisível por sua natureza, e definido por carac-
teres distintos mais ou menos permanentes, que permitem sua iden-
tificação no meio de outros indivíduos aparentemente semelhantes;
como tal, o indivíduo é ao mesmo tempo "unidade" e "totalidade",

107
Coleçno TEXTOS. Série 2, n. 10

em suas particularidades inconfundíveis. Esta contradição que de-


fine o indivíduo, ele a carrega para o interior do grupo, no qual age
sempre de maneira ambígua, pois é ao mesmo tempo semelhante
aos demais, porém com eles inconfundível, e é esta contradição fun-
damental que foi esquecida, ou foi considerada de menor importân-
cia, quando, por exemplo, Tõennies definiu as comunidades pela
sua forte homogeneidade e coesão internas.
Tais considerações se aplicam também às equipes de pesqui-
sa. Seja qual for a sua qualidade, quer se trate de uma equipe forte-
mente hierarquizada, quer se trate de uma equipe tendendo para o
igualitarismo, encerra sempre possibilidades de harmonização e de
conflito, que se estabelecem ou se anulam num dinamismo que pode
tomar formas as mais diversas. A equipe não pode ser nunca redu-
zida a cada indivíduo que a compõe - nem mesmo ao seu líder ou ao
seu chefe; mas também não pode ser considerado dotada de coesão
monolítica. Ela tem uma vida que lhe é própria, uma realidade em
constante se fazer, que se altera segundo os diversos momentos do
trabalho e conforme os influxos dos indivíduos componentes.
Não é possível, pois, considerar a equipe sem referência aos
indivíduos que a formam; o que eqüivale a introduzir o conceito de
indivíduo como parte integrante do modo de ser da equipe - indiví-
duo que é sempre parte dela, que a influencia, e sobre o qual ela
também exerce influência. O conceito de equipe e o conceito de indi-
víduo são indissolúveis, estão em reciprocidade e perspectivas, con-
tém implicações mútuas. É através da exploração dos aspectos apa-
rentemente contraditórios da associação equipe-indivíduo que se
poderá aquilatar das potencialidades e das limitações de todo tra-
balho efetuado em conjunto.
É necessário, então, rever a noção de que a equipe formaria
uma pequena comunidade no sentido que Tõnnies deu ao termo, e

108
PESQUISA INDIVIDUAL, PESQUISA EM EQUIPE

que a caracterizaria em função das relações diretas e afetivas que se


instalam entre os membros, fomentando a coesão, criando a har-
monia e rompendo o isolamento individual. Segundo esta maneira
de ver, a reunião de pesquisadores numa equipe seria o antídoto
contra a heterogeneidade e os conflitos decorrentes das estruturas
sócio-econômicas, das localizações geográficas, das preferências e
rivalidades psico-sociais etc. e desenvolvendo em seu interior uma
união profunda.
Porém, ao contrário do que se imagina, a estrutura interna-
mente hierarquizada de uma equipe pode desenvolver entre os par-
ticipantes uma coesão mais vigorosa do que entre os componentes
de uma equipe de cunho igualitário, mesmo quando se trata de
uma equipe internamente hierarquizada de maneira rígida entre
"patrão" e "mão de obra", que dir-se-ia não formar uma "verdadei-
ra" equipe... Existe, neste caso, uma clara diferenciação entre "ego"
(a mão de obra) e "aiter" (o chefe). Formada de uma camada subor-
dinada, sobre a qual pesa o poder dominante do chefe, ela contém
o ingrediente até hoje considerado o mais importante para o forta-
lecimento de laços de união entre indivíduos: a consciência de que
existe o "outro" como um elemento potencial ou efetivo de mando e
de opressão.
De há muito estabeleceu a filosofia que o conhecimento de
"ego" é inseparável do conhecimento de "alter", conceitos funda-
mentais e primeiros do pensamento, indissoluvelmente ligados. "Ego"
e "alter" não surgem, pois, separados, cada qual com sua existência
em si; estão sempre unidos, só podendo ser definidos reciproca-
mente. Esta constatação tem seus prolongamentos em descobertas
sociológicas: também se conhece há tempo em sociologia que toda
solidariedade interna de um grupo se cria ou se reforça quando
reconhecida a exixtência de "alter"; "ego", em sua forma plural de

109
Coleção TEXTOS. Série 2, n. 10

"nós", tem sua solidariedade elevada ao auge quando outro grupo,


"alter", ou "eles", o ameaça.
As equipes de pesquisa não fogem a estes preceitos. Compos-
tas de poucos membros, ou muito numerosas; de estrutura hierar-
quizada, ou igualitária - encerram sempre em seu interior ou divi-
sões, ou virtualidades de divisões, que se exprimem sob a forma de
"nós" e "eles", as quais se solidificam desde que um dos termos
sinta a resistência ou a ameaça do segundo, à qual deva fazer face.
Ou então desde que o conjunto todo se veja diante de um "alter' que
lhe seja externo, representando competição ou perigo. Todas as pes-
quisas de equipe tem, portanto, em comum o fato de internamente
se constituírem de parcelas individualizadas - os indivíduos - entre
os quais pode se instalar ou coesão, ou conflito; e também o fato de,
voltadas para o exterior, se distinguirem do meio circundante e po-
dem reagir em relação a ele ou pelo fomento de consenso interno
entre os indivíduos e conseqüente aumento da diferenciação para
com o exterior, ou pela diluição no meio externo e conseqüente des-
fazer-se como grupo.
O termo equipe não nomeia pois exclusivamente aquele con-
junto em que todos os participantes, executando tarefas semelhan-
tes, exercem também a gestão da pesquisa. Esta seria uma forma
extrema da equipe, de que formas hierarquizadas diversas, até che-
gar à forma autoritária, seriam outras tantas maneiras de ser.
O reconhecimento de que a perspectiva do indivíduo não pode
ser deixada de lado quando se encara uma equipe tem conseqüên-
cias de relevo para a organização das tarefas. Ao se admitir que
somente quando "todos fazem tudo ao mesmo tempo" se teria um
verdadeiro trabalho de equipe - isto é, quando a equipe seguisse o
ideal harmonioso da comunidade coesa - não seria possível intro-
duzir reais divisões de trabalho dentro dela. A divisão do trabalho

110
PESQUISA INDIVIDUAL, PESQUISA EM EQUIPE

consiste na distribuição de tarefas diversas entre os indivíduos, se-


gundo estes se diferenciam pelo sexo, pela idade, pela instrução,
pela habilidade, pela experiência etc, de tal forma que cada qual
exerce uma atividade diferente; a integração das tarefas, neste caso,
compõe a totalidade da pesquisa. Desta divisão do trabalho tam-
bém se origina um tipo de solidariedade muito específico, denomi-
nada por Durkheim (1893) "solidariedade orgânica" ; resulta ela da
própria diversidade das tarefas, e da importância de todas para se
alcançar o resultado final, de modo que a falha de uma prejudicará
o produto e, conseqüentemente, prejudicará também o grupo.
Ora, em toda pesquisa de equipe existem tarefas que ganham
em serem executadas por todos, e ao contrário outras que exigem
por assim dizer a divisão do trabalho. Divisão do trabalho que pode
constituir inclusive base para ampliação de coletas, para alarga-
mento de pontos de vista, para aceleramento da execução. Em todo
trabalho de equipe, é muito comum existirem parcelas e fases reali-
zadas em comum, parcelas e fases individuais, como se pode obser-
var, por exemplo, na pesquisa que deu lugar a todas estas reflexões.
A distinção entre umas e outras fases pode ser efetuada pelo coor-
denador da pesquisa; porém nada impede que decorra de uma dis-
cussão bastante acurada em grupo.
Na pesquisa referida, o princípio de base fora o da distinção
entre o trabalho da coordenadora e o trabalho das pesquisadoras; à
primeira, devido à sua experiência, caberia a organização da pes-
quisa em geral; às segundas, cuja finalidade específica era a aquisi-
ção de experiência, caberia a execução da mesma. Haveria discus-
sões em conjunto sempre que necessário, não se estabelecendo
nenhuma periodicidade a priori. No que dizia respeito as pesquisa-
doras, as tarefas seriam semelhantes entre si - isto é, a divisão do
trabalho, no interior da equipe, se inscreveria praticamente apenas
na separação entre organização e execução.

111
Coleção TEXTOS. Série 2, n. 10

Reconheceu-se em discussão em grupo, que, por sua própria


natureza, algumas tarefas só poderiam ser executadas individual-
mente: a) a coleta do material por meio de entrevista gravada; b) a
transcrição das fitas; c) a consulta bibliográfica em bibliotecas e
centros de estudo; d) a análise das entrevistas, cada pesquisadora
analisando as suas; e) a composição de relatórios parciais, relativos
às tarefas que cada uma executasse, os quais seriam formados de
relatórios individuais reunidos depois num todo.
Outros passos da pesquisa, todavia, se impunham como emi-
nentemente coletivos: a) a discussão do elenco de tarefas e de sua
seriação no tempo; b) a discussão de esquemas para as entrevistas,
a fim de que todas as pesquisadoras soubessem o que perguntar
aos informantes, quando necessário, e colocassem questões seme-
lhantes; c) o estabelecimento dos rumos de análise das entrevistas;
d) a discussão dos esboços de relatórios parciais, afim de obedece-
rem a padrões semelhantes; e) a discussão em seminário das leitu-
ras efetuadas individualmente, para se chegar a uma orientação
teórica homogênea.
Releva notar que, embora se admitisse a existência de parce-
las de trabalho individuais, também se tomou por princípio de base,
desde o início, que nenhuma tomada de decisão seria possível se
não fosse precedida de discussão por todo o grupo, inclusive a coor-
denadora. Tais discussões significavam um esforço conjunto de críti-
ca e de resoluções durante as quais pesquisadoras e coordenadora
manifestariam livremente suas opiniões, sem a observação de ne-
nhuma hierarquia.
Descendo agora a detalhes, havia todo um conjunto de leitu-
ras que devia ser básico e efetuado por todas as pesquisadoras; o
restante, em muito maior quantidade, foi partilhado entre elas, que
executaram esta tarefa individualmente. Assim, cada pesquisadora

112
PESQUISA INDIVIDUAL, PESQUISA EM EQUIPE

teve a seu cargo um elenco específico de leituras, de que deu ciência


às demais em seminário. As leituras comuns também foram discu-
tidas em grupo para se chegar a uma compreensão uniforme e para
que o mesmo questionamento fosse aplicado ao trabalho era curso.
A organização das tarefas teve, pois, como pontos essenciais a
discussão em grupo de todos os passos, de todas as decisões, de
todos os problemas que fossem surgindo, por um lado, e por outro
lado, a execução de tarefas individuais pelas pesquisadoras, que
iam da aquisição de conhecimentos bibliográficos à coleta de ma-
terial, à redação de relatórios, passando pela análise dos dados.
Desta forma, combinaram-se tarefas coletivas e tarefas individuais
e, no tocante a estas, tarefas semelhantes (como a coleta de mate-
rial) e tarefas diferentes (como a leitura de partes diversas da bi-
bliografia) .
Esta organização deu flexibilidade à equipe; não exigia horári-
os fixos, não ordenava que todas trabalhassem ao mesmo tempo,
não estipulava datas regulares de encontro entre elas, ou delas com
a coordenadora. Tudo foi sendo fixado na medida das necessidades.
E os próprios relatórios parciais se compuseram de partes da res-
ponsabilidades de cada pesquisadora, que foi por esta individual-
mente assinada.
Poder-se-ia dizer que este exemplo não é muito concludente
no que diz respeito à divisão do trabalho, pois não houve real espe-
cialização das pesquisadoras, de tal modo que cada uma realizasse
uma tarefa individualizada. A especialização seria a característica
fundamental da divisão do trabalho, manifestando-se na execução,
por um indivíduo, de parcela diversa da dos demais. Na pesquisa
aqui examinada, a especialização existira somente na separação entre
coordenação e execução, por um lado, e na atribuição de leituras
diferentes às pesquisadoras, por outro lado. As demais tarefas, em-

113
Coleção TEXTOS. Série 2,11. 10

bora não executadas coletivamente, eram iguais e intercambiáveis


entre si, exigindo atividades idênticas, se bem que individualmente
executadas.
No entanto, mesmo a pouca divisão existente, representada
pelas tarefas diversas da coordenadora e das pesquisadoras, e tam-
bém pela leitura de uma bibliografia diferenciada, permite aquilatar
a importância de uma divisão de tarefas mais pronunciada. Quan-
do todos, no interior da equipe, realizam atividades absolutamente
idênticas, a falta ou erro de um dos membros não acarretará grande
distúrbio no trabalho; uma pequena quantidade do trabalho não
será executada, a qualidade do todo permanece intacta. Porém quan-
do se opera uma real divisão do trabalho no interior do grupo, a
falha de um prejudica o resultado do conjunto e é ressentida por
todos, sendo nociva ao produto.
Depreende-se destas observações que a exigência de integra-
ção da equipe e, portanto, da sua coesão interna, se torna maior no
caso de aumento da divisão do trabalho e de especialização das
tarefas, que poderiam ser definidas pela "solidariedade orgânica"
de que fala Durkheim (1893); e a esta solidariedade, demandada
pela própria diferenciação interna daquilo que se executa, opunha
ele a solidariedade mecânica, resultante da efetividade que une os
indivíduos entre si e proveniente da semelhança de suas experiên-
cias e de suas situações. Para a coesão da equipe não seria impor-
tante, pois, que todos executassem as mesmas tarefas e tivessem
a mesma situação; o importante seria que todos os componentes
da mesma conhecessem a relevância da tarefa que executavam
para a realização do todo, de tal modo que se sentissem presos
uns aos outros pela divisão das próprias atividades que executam
e pela consciência de que também o produto final estava sob sua
responsabilidade.

114
PESQUISA INDIVIDUAL, PESQUISA EM EQUIPE

Os comentários efetuados chamam, portanto, a atenção para


o vulto e o significado do trabalho individual no interior de uma
equipe. Todo trabalho de equipe é uma soma ou uma organização
de trabalhos individuais; as duas formas não são mutuamente ex-
clusivas, como habitualmente se pensa. O trabalho de equipe apa-
rece como preferencial em relação ao individual, não porque seja de
outra qualidade, ou de qualidade superior, e sim porque constitui
uma categoria mais ampla, dentro da qual existe o trabalho indivi-
dual.
Assim, o trabalho de equipe não é apenas uma forma prefe-
rencial de trabalho científico (o que é amplamente admitido em to-
das as disciplinas, porém pouco realizado em Ciências Sociais); cons-
titui também a categoria mais ampla das formas de trabalho científico,
de que o trabalho individual comporia uma das espécies. Pois, embo-
ra pareça paradoxal, não se pode na verdade compreender a existên-
cia de um trabalho científico puramente individual. Este não tem
realidade em si. Todo pesquisador, todo cientista é sempre parcela de
um conjunto muito mais amplo de especialistas, de todo um grupo
engajado nas tarefas de desenvolver os conhecimentos de sua área.
No interior desta vasta equipe, o trabalho aparentemente individual
nada mais é do que uma parcela executada por um pesquisador que
ilusoriamente se julga único e solitário, e que se envaidece de chegar
sozinho a resultados que só ele alcançou...
No entanto, esta ilusão é muito mais encontrada nas Ciências
Sociais do que nas Ciências da Matéria, ou nas Ciências da vida;
nestas, o pesquisador tem muito mais consciência de que, sem seus
pares, não poderia realmente trabalhar, mesmo que aparentemente
seja um pesquisador individual. Quais as razões para a inveterada
persistência nas Ciências Sociais, da consideração ilusória do valor
do trabalho individual?

115
Coleção TEXTOS. Série 2,11. 10

Uma explicação, que deveria ser investigada para se aquila-


tar, sua importância, estaria ligada aos custos de uma pesquisa de
equipe, em relação às pesquisas individuais. Nas Ciências Sociais,
que até há pouco tempo não foram ciências de laboratório, nem de
aparatos mecânicos, um pesquisador isolado pode escolher um tema,
trabalhá-lo sozinho, chegando de maneira mais ou menos rápida ao
término de sua busca; este tipo de pesquisa não exige grandes ver-
bas, nem grandes dispêndios monetários. O mesmo não ocorre quan-
do se trata de pesquisa de equipe. Quando o especialista em Ciên-
cias Sociais se encontra diante da urgência de efetuar um trabalho
de pesquisa para efeitos de carreira, encontra então no trabalho
isolado possibilidades de realizá-lo com menores ônus (que geral-
mente pesam sobre seu próprio bolso) e com maior rapidez. Esta
circunstância pode ter auxiliado a transformação deste tipo de tra-
balho em norma geral, nas disciplinas citadas.
Em nossas universidades, as Ciências Sociais, ao contrário
das Ciências da matéria e das Ciências da Vida, nunca foram bem
aquinhoadas em verbas para pesquisa; os minguados auxílios re-
cebidos foram sempre parcamente suficientes para custear ape-
nas pesquisas de pequena envergadura, como são as individuais;
a obtenção de recursos mais importantes sempre exige tempo e
esforços que nem sempre é possível ao especialista despender. E
torna-se assim significativo que seja tão disseminada entre seus
pesquisadores a noção da importância primordial da pesquisa in-
dividual, e mais ainda, a noção de que a pesquisa individual - e
não a pesquisa de equipe - seria plenamente adequada a seu tipo
específico de ciência...
O obstáculo real do custo da pesquisa de equipe não é jamais
alvitrado, como se os pesquisadores não suspeitassem de sua exis-
tência. Omissão também muito significativa: não existindo esta cons-

116
PESQUISA INDIVIDUAL, PESQUISA EM EQUIPE

cientização por parte dos cientistas sociais, não exigem maiores ver-
bas, o que redunda em economia para as universidades e as insti-
tuições financiadoras, que não são assim assediadas por pedidos
importantes de auxílio financeiro, de sua parte. As demais ciências
não encontram, então, a competição dos cientistas sociais no que
diz respeito a altos pedidos de verba.
Esta situação tem como corolário falarem os especialistas das
outras ciências e os institutos financiadores, com certo desprezo,
da modéstia dos pedidos das Ciências Sociais, da incapacidade de
seus pesquisadores em apresentarem orçamentos válidos de pes-
quisa... Por outro lado, não sendo habitual a pesquisa de equipe,
mais longa e mais cara, porém também mais ampla e levando a
maiores aprofundamentos dos problemas, esta situação tem como
conseqüência uma lentidão muito maior na obtenção de novos co-
nhecimentos, no desenrolar do progresso científico.
A admissão de que a pesquisa individual seria uma forma pre-
ferencial de trabalho específica das Ciências Sociais constituiria, as-
sim, uma forma velada e inconsciente de afastar a concorrência des-
tes pesquisadores no mercado das verbas - destes pesquisadores aos
quais se recusou durante tanto tempo o estatuto de cientistas...

Referências bibliográficas

DURKHEIM, E. La division du travail social. Paris: Alcan, 1893.

TÔNNIES, F. Communauté et société. Paris: Presses Universitaires de France,


1944.

117
ANÁLISE DE DOCUMENTOS EM CIÊNCIAS SOCIAIS'

Maria Isaura Pereira de Queiroz

O instrumental para registro de comportamentos e opiniões


dos indivíduos teve um grande desenvolvimento neste século, am-
pliando de maneira impressionante a possibilidade de sua coleta e
conservação. As décadas que se seguem à Segunda Guerra Mundial
estão marcadas pela ampliação de técnicas mecânicas como a foto-
grafia, o cinema, o gravador. Procura-se com eles chegar o mais
próximo possível de uma reprodução dos dados tais quais se apre-
sentam em sua natureza empírica, numa crença ingênua de que
sua captação se faz com um grau muito elevado de objetividade e,
portanto, com um mínimo de interferência da subjetividade do pes-
quisador. A utilização deste instrumental foi sendo efetuado quase
sem nenhuma reflexão das maneiras de agir e de suas implicações,
como se o fato de se tratar de técnicas mecânicas implicasse em que
era necessário somente um domínio da aparelhagem empregada,
seu manejo não exigindo senão a habilidade automática dos gestos
reproduzidos sem pensar. Já anteriormente, neste trabalho, foram
apresentadas críticas a estas concepções.

Artigo mimeografado, São Paulo: CERU/USP, s.d.


Coleção TEXTOS. Série 2, n. 10

Ao lidar com este material, o segundo aspecto a ser cuidado-


samente considerado é o de sua ulterior utilização; quando se trata
de coleta por meio de gravador, era necessária em seguida a trans-
crição da fita para um texto datilografado, o qual passava a consti-
tuir um novo documento - agora escrito. Tal passagem também foi
examinada noutra parte deste trabalho, enumerando-se os requisi-
tos para que a transcrição se conserve fiel à gravação. Também muito
pouco foi efetuado no que diz respeito à reflexão crítica concernente
a este passo, nas diversas obras existentes.
Finalmente, é preciso encarar uma nova fase do aproveita-
mento destes documentos, no que diz respeito às informações que
encerram. Até agora, tal aproveitamento tem se limitado à apresen-
tação pura e simples das transcrições, com diversas formas de in-
terferência por parte do pesquisador que colheu o material. Nos de-
poimentos recolhidos por Ecléa Bosi (1979), houve ordenação e cortes
para depurar a narrativa de repetições, e uma escolha de tópicos
que se referissem mais de perto aos problemas da memória. No caso
da célebre obra "Os filhos de Sanchez", do antropólogo Oscar Lewis
(1970), a intervenção do mesmo foi menor, buscando ele resguardar
a integridade do que fora exposto pelos informantes, e buscando o
pesquisador somente ordenar de forma congruente a fala destes.
Finalmente, no livro "Ioiô pequeno da Várzea Nova". De Mário Leô-
nidas Casanova (1979), o pesquisador procurou se prender ao máxi-
mo às maneiras de dizer, às idas e vindas no tempo, efetuadas pelo
informante, tal qual ficaram registradas na fita, sem nada mudar de
suas repetições; no entanto, também foi necessária uma escolha de
tópicos, e o sacrifício de outros, para que todo o material recolhido
fosse publicável num volume.
No entanto, apesar das intervenções dos pesquisadores, que
parecem ser inevitáveis, o relato de cada informante é apresentado

120
ANÁLISE DE DOCUMENTOS EM CIÊNCIAS SOCIAIS

como um todo. De acordo com o modo pelo qual foram oferecidos ao


público, depreende-se que o estudioso que os colheu acredita que
este tipo de documento só será capaz de veicular informações a
outrem quando se apresentar na sua integridade. Por esta forma de
utilização, que afasta também uma interpretação do material conti-
do nos depoimentos, parecem aqueles pesquisadores afastar qual-
quer possibilidade de análise dos depoimentos colhidos. A interpre-
tação ou é inexistente, ou é mínima, reportando-se a aspectos como
os mecanismos da memória, e não às informações transmitidas pe-
los depoentes.
Por análise, no sentido operacional do termo, entende-se o
recorte de uma totalidade nas partes que a formam, que são então
apreendidas na seqüência em que se apresentam, para, num se-
gundo momento, serem restabelecidas na sua coexistência. Num e
noutro momento, isto é, na decomposição e na subsequente recom-
posição, obedece-se rigorosamente às relações existentes entre es-
tas partes. Admite-se que este desfazer de um objeto segundo uma
marcha específica, seguido de um refazer em ordem diferente (pois
no primeiro momento a ordem é de sucessão e, no segundo momen-
to, a ordem é de simultaneidade), permite chegar a uma compreen-
são mais profunda de seu sentido, a uma avaliação mais clara de
suas qualidades.
Na verdade, na maioria dos trabalhos conhecidos que lidam
com histórias de vida e com depoimentos gravados, o material não
foi em seguida analisado. Na própria obra, a tantos aspectos admi-
rável, de Ecléa Bosi, não foi utilizado este tipo de aproveitamento.
Cada história de vida e depoimento pessoal se transforma assim
num documento, cujo valor de transmissão de informações ou de
demonstração residisse na conservação de todos os detalhes, como
se não fosse possível compreendê-los senão conservando-os na for-

121
Coleção TEXTOS. Série 2, u. 10

ma monolítica. A divisão em partes, ou a busca de determinados


dados com a exclusão de outros, deturparia e a parte, e o todo. Os
pesquisadores referidos parecem aceitar implicitamente que o apro-
veitamento destes documentos só seria possível com a conservação
integral de forma e conteúdo.
Estas observações não foram explicitamente formuladas. Po-
rém a maneira constante e única pela qual foram apresentados os
documentos, por pesquisadores muito diferentes e sem contato en-
tre si, leva a estas interferências. Como corolário, conclui-se que
realmente não cabe ao pesquisador analisar e interpretar, porém
sim e somente transcrever. O pesquisador, munido de seu grava-
dor, se transformaria, neste caso, em mero coletor de material, em
mero fabricante de documentos. Sem dúvida, os bons fabricantes
de documentos são necessários e, noutra parte deste trabalho, foi
examinado como deveriam agir, quais os parâmetros que orienta-
riam sua coleta afim de alcançar a maior validade, quando utiliza-
dos os gravadores. Porém esta finalidade deverá ser a única, afas-
tando-se qualquer aproveitamento ulterior dos mesmos? E, caso
este aproveitamento seja possível, não terá ele regras que devam ser
observadas?
Estas questões são tanto mais pertinentes, quanto a interven-
ção do próprio pesquisador já se fez sentir na transcrição da fita
para o documento escrito, fazendo-o escolher o que conservar e o
que eliminar. Noutras palavras, efetuou recortes no material levan-
tado e conservou, como documento escrito, os tópicos que determi-
nados critérios lhe apontaram. Esta primeira intervenção, inteira-
mente necessária, permite encarar outras intervenções posteriores
como possíveis.
Parecia cabível indagar dos especialistas em "análise de texto"
- estudiosos da literatura e da filosofia - quais os passos a serem

122
ANALISE DE DOCUMENTOS EM CIÊNCIAS SOCIAIS

seguidos afim de se apreender o que contém um documento escrito.


Ao que parece, porém, não existiria nenhum esquema, nenhum con-
junto de regras que pudesse ser sistematicamente transmitida aos
interessados em efetuar uma operação desse tipo. Intuição, erudi-
ção e experiência compõem o arsenal de que se serve o estudioso em
tal analise, tanto no que diz respeito à literatura e aos textos filosó-
ficos, quanto no que tange às memórias, às autobiografias, isto é, a
textos próximos das histórias de vida e dos depoimentos, colhidos
por cientistas sociais. Não é possível formular nenhuma norma ope-
racional que oriente o trabalho de um pesquisador, uma vez que
cada pesquisador tem sua própria experiência e sua própria erudi-
ção, que o levarão a um entendimento mais raso ou mais profundo
dos materiais estudados, porém sempre diferente dos demais.
Existirão, portanto, múltiplas interpretações possíveis dos
documentos, cada qual constituindo a expressão das peculiarida-
des de um estudioso, e de suas intenções num momento dado; in-
terpretações que poderão ser inclusive antagônicas, conflituosas e
mutuamente exclusivas. Assim, os estudiosos que se especializam
em "análise de textos", não utilizam o termo "análise" em seu signi-
ficado atual de decomposição em partes. O sentido atribuído é outro
mais antigo: o de buscar os princípios que presidiram à construção
do texto e desvendar a origem do mesmo, pela compreensão daquilo
que ele contém. Note-se que, seguindo-se este rumo, realmente o
texto deve ser apreendido em sua totalidade, e o aprofundamento
de seu significado só é alcançado através da conservação de sua
integridade.
Tal maneira de ver parece considerar que os documentos es-
critos só teriam uma forma de aproveitamento - a que revelasse a
visão do mundo de seus autores nos seus princípios mais recôndi-
tos. Foi esta a perspectiva da chamada "escola alemã de sociologia"

123
Coleção TEXTOS. Série 2,11. 10

que, iniciada com Dilthey (1833-1911), teve em Max Weber (1864-


1920) seu mais alto expoente: perspectiva que, dos fenômenos da
história, estenderam a todos os fenômenos sociais. Eram de opinião
que estes fenômenos só poderiam ser conhecidos através de uma
compreensão intuitiva, que atingisse o seu sentido intrínseco, es-
sencialmente singular. O ato de compreensão era entendido como a
captação empática da intimidade do objeto estudado, em sua indi-
vidualidade, porém também em sua totalidade. Recusava-se, as-
sim, nas ciências sociais, a validade de uma análise tanto quanto
possível seca, indiferente, fria, como a que habitualmente se exerce
nas ciências exatas e naturais.
A incongruência desta perspectiva com o objetivo que levou à
utilização dos meios mecânicos de registro de dados é indiscutível.
Os meios mecânicos são enaltecidos porque permitem um afasta-
mento de pesquisador e de sua subjetividade na coleta dos dados;
possibilitam, desta forma, dados muito mais próximos da realidade,
sem a distorção trazida pelas emoções dos estudiosos. Porém no
momento em que se voltam para o aproveitamento do material que
colheram, então a subjetividade e as emoções voltam a ser funda-
mentais... Na verdade, estamos diante da antiga querela "ciências
da natureza - ciências da compreensão", que dividiu os cientistas
sociais nos fins do século passado (XIX), perdurando em todo o iní-
cio deste (XX); querela que Georges Gurvitch (1957) (1894-1965),
na década de 50 deste século (XX), incluiu entre os "falsos proble-
mas" das Sociologias. Como mostrou Gurvitch, não são posições
mutuamente exclusivas; dependem da perspectiva em que se colo-
ca o pesquisador a fim de efetuar o seu trabalho.
As perspectivas de pesquisa são, pois, múltiplas. No caso das
histórias de vida e dos depoimentos pessoais, podem estes ser utili-
zados para esclarecer a existência, os processos mentais, as ca-

124
ANÁLISE DE DOCUMENTOS EM CIÊNCIAS SOCIAIS

racterísticas psicológicas de determinado indivíduo; somente esta-


ria em causa a reconstrução daquela existência, ou então do fato
sobre o qual se solicitou explicitamente o testemunho do informan-
te. Nestes dois casos, realmente, o documento deve ser conservado
na sua integridade, e deve ter o seu significado apreendido através
da penetração cada vez mais abrangente que o estudioso puder efe-
tuar. Pode ser que tais documentos tenham sido colhidos exclusiva-
mente com essa finalidade; porém, mesmo neste caso, seu aprovei-
tamento para outros fins não fica em absoluto excluído.
Na verdade, histórias de vida e depoimentos pessoais, a partir
do momento em que foram registrados, passam a constituir docu-
mentos como quaisquer outros, isto é, se definem em função das
informações, indicações, esclarecimentos, escritos ou registrado, que
levam a elucidações de determinadas questões e funcionam tam-
bém como provas (MELLO E SOUZA, 1980). A utilização de histó-
rias de vida e depoimentos pessoais - da mesma forma que qual-
quer tipo de documento escrito ou registrado - passará a depender
então do interesse e do objetivo da pessoa que o consulta, seja ele
um pesquisador científico, ou qualquer outro profissional.
Como sua utilização está governada pelo problema enunciado
pelo consultante, somente através da análise, isto é, do desmem-
bramento dos tópicos que contém, poderá ser aproveitada a infor-
mação que contém. Pode o pesquisador estar interessado em co-
nhecer especificamente quais as informações que o documento
contém;sua busca não estará orientada então por uma questão es-
pecífica e delimitada, ela seguirá em sua indagação o contexto que o
mesmo apresenta, porém também efetuando uma análise, ou nou-
tras palavras, identificando os diferentes temas nele existentes, o
que significa separá-los uns dos outros.

125
Coleção TEXTOS. Série 2, n. 10

De acordo com esta perspectiva, a análise permite infinitas


indagações dirigidas aos documentos - desde que estes sejam sufi-
cientemente ricos para servirem a uma grande quantidade de pes-
quisas. Empregando um vocabulário atualmente em moda, múlti-
plas são mas leituras que qualquer documento permite, porém a
atitude dos estudiosos diante dele são apenas duas: tomá-lo em sua
peculiaridade e levantar os problemas que ele encerra; ou então
efetuar a leitura depois de formuladas as questões que julgam inte-
ressantes, na suposição de que ele encerra elementos que permitem
esclarecê-las. Estas atitudes se aplicam a todos os tipos de docu-
mentos, sejam eles escritos ou gravados.
Uma diferença apresentam os pesquisadores que utilizam a
técnica de questionários ou a de entrevistas dialogadas com roteiro
(pergunta e resposta) para a construção de documentos. Nestes dois
casos, o próprio pesquisador, ao construir seu questionário ou seu
roteiro, efetua nesse momento o primeiro corte da realidade, a pri-
meira análise, assim como delimita, de maneira mais ou menos res-
trita, o âmbito das respostas; já está, pois, definindo as seqüências
em que devem ser oferecidos os dados pelos informantes, e, e, segui-
da, basta-lhe reunir as respostas em itens ou capítulos segundo as
questões, para alcançar a síntese que se propôs realizar. Análise e
síntese não partem, então, diretamente dos dados narrados pelo in-
formante; partem dos conhecimentos prévios do pesquisador, corres-
pondendo ao que ele "supõe" ou "imagina" encontrar na realidade.
Porém tal não ocorre quando se deixou aos informantes uma
grande latitude na condução do seu discurso e de seus raciocínios,
isto é, quando a intervenção do pesquisador se reduziu ao mínimo
possível, como se dá nas histórias de vida e nos depoimentos pesso-
ais. Elas têm uma ligação muito menor com o pesquisador, e se
aproximam dos documentos históricos, isto é, dos conjuntos de in-

126
ANÁLISE DE DOCUMENTOS EM CIÊNCIAS SOCIAIS

formações escritas ou gravadas que, gerados no passado, se cria-


ram sem a mediação dos estudiosos que visam utilizá-los. Se fala-
mos em informações gravadas, é porque consideramos a pintura, o
desenho, a escultura como documentos também veiculadores de
noções e indicações, ao mesmo título que os escritos. Como nos
documentos históricos, a indicação dos cortes a serem efetuados
não pré-existe às histórias de vida e depoimentos pessoais - a não
ser de modo muito amplo, quando se indaga por exemplo o que o
informante lembra de sua infância e adolescência predominante-
mente; no entanto, no decorrer da entrevista, tem ele a liberdade de
enveredar pela idade adulta, se o desejar, sem que o entrevistador o
traga de volta ao rumo sugerido. Como já se discutiu anteriormente,
o documento bem colhido é aquele em que a intervenção do pesqui-
sador foi mínima - quando se trata de histórias de vida e de depoi-
mentos pessoais.
Estará então o pesquisador diante de um texto que se preten-
deu fosse o mais possível exterior q ele; e, repita-se novamente, diante
de um texto que pode ser encarado como um documento histórico.
Existe, porém, uma diferença importante entre ambos, que é a for-
ma de sua obtenção: o pesquisador conhece o documento desde sua
origem, está a par das situações específicas que rodearam o seu
nascimento, foi o promotor delas, no caso das histórias de vida e
dos depoimentos pessoais - o que tudo foi anotado em seu caderno
de campo. Esta circunstância torna mais significativo o que ele vai
retirar do documento, permite uma análise mais fina, porém não é
condição suficiente para indicar qual o caminho a ser seguido no
recorte dos temas que a análise pressupõe.
Diante do texto que assim obteve - isto é, de uma informação
gravada que, depois de transcrita, tomou a forma de uma narrativa
- o pesquisador tem três caminhos a seguir: a) leitura cuidadosa do

127
Coleção TEXTOS. Série 2, n. 10

mesmo para ajuizar do seu conteúdo e, então, decidir os cortes que


nele poderá efetuar, a partir do material encontrado; b) trazendo já
em seu projeto as questões que lhe interessam, procurar no conteú-
do do texto as informações de que necessita; c) combinar os dois
rumos, que não são mutuamente exclusivos, colocando ao docu-
mento as questões previamente definidas, e levantando do mesmo
outros temas que não figuravam em seu projeto, porém que de re-
pente se lhe avultaram como importantes. A segunda via de acesso
ao material se aproxima daquela que é seguida pelo pesquisador
que utiliza questionários e entrevistas com roteiro, pois, como no
caso deste, já haviam sido previamente definidas as questões consi-
deradas mais interessantes; porém, ao contrário do que ocorre com
os questionários, o informante não foi pressionado no sentido de
oferecer quase exclusivamente apenas as informações ligadas às
questões, ao ser efetuada a entrevista.
A combinação das duas atitudes, a) e b), é a que permite a
leitura mais rica do documento, de tal forma que se extraia dele o
máximo de informações, tanto a respeito das questões já formula-
das pelo pesquisador no seu projeto, quanto no tocante às informa-
ções imprevistas, que o texto pode veicular. Num e noutro caso, há
um corte importante a ser efetuado logo de início, distinguindo o
plano formal e o plano do sentido, como de há muito aconselhava a
velha técnica da exegese. Não esquecer, porém, que se trata de dois
planos profundamente imbrincados, que se pressupõem um ao ou-
tro e cuja separação se coloca, pois, como um verdadeiro artifício da
parte do pesquisador.
O plano formal diz respeito ao que, numa obra de arte, se
designa como "estilo", isto é, a marra pessoal que o artista impõe ao
material com que lida, a técnica que lhe é peculiar, a forma de escri-
ta que o distingue dos demais, que é expressão de sua sensibilidade

128
ANÁLISE DE DOCUMENTOS EM CIÊNCIAS SOCIAIS

e do seu caráter. Assim como o artista, cada informante também


possui uma maneira específica de conduzir a narrativa, escolhida
inconscientemente de preferência a outras, o que é importante con-
siderar numa pesquisa. No caso das histórias de vida e dos depoi-
mentos pessoais, a forma se expressa nos pontos de referência que
o informante adotou para apoio de sua narrativa, e que variam de
indivíduo a indivíduo; podem ser constituídos ou pela cronologia,
ou pela marca afetiva das comemorações familiares e profissionais,
ou pela topografia e localização no espaço.
A forma se inscreve também na maneira pela qual se desenro-
la a narrativa - linear, circular, com idas e vindas - marcha apoiada
nos pontos de referência específicos da narrativa do informante.
Esta apresenta, pois, uma estrutura que é preciso reconhecer e no-
mear; tem, assim, uma configuração que decorre de sua organiza-
ção interna. De acordo com tal configuração, será possível classifi-
car os informantes em espécies diversas e, comparando as espécies
com características constantes das fichas dos mesmos - sexo, ida-
de, instrução, estado civil, etc. - pode-se indagar da existência ou
não de ligações entre estes dados. Por exemplo, terão homens e
mulheres da mesma faixa de idade, de instrução e condição sócio-
econômica semelhante, os mesmos pontos de referência e a mesma
marcha da narrativa? Ou o sexo influencia estes aspectos da forma
narrativa de cada uma das duas espécies?
A matéria exposta pelo informante tem um significado, repre-
senta aquilo que ele comunicou ao pesquisador e que deve ser com-
preendido por este. A maior dificuldade da análise do significado
está em sua multiplicidade, cuja base se encontra, por um lado, na
soma de conhecimentos de que dispõe o informante e., por outro
lado, no conjunto de interesses e de conhecimentos do próprio pesqui-
sador, que, no acervo coletado, poderá encontrar maior ou menor

129
Coleção TEXTOS. Série 2, n. 10

número de informações. Esta multiplicidade de sentidos tem sido


denominada "horizontal", porque ocorre no instante em que é ava-
liado o documento pelo pesquisador, ajuizando da simultaneidade
de assuntos por ele veiculados. A variação vertical se dá através do
tempo: era épocas diversas, cada documento será também encara-
do de maneira diferente, outras informações serão buscadas nele,
porque os interesses e focalizações dos estudiosos variam com o
correr dos anos. Variação horizontal e variação vertical estão asso-
ciadas: cada momento do tempo tem a especificidade de seus inte-
resses, ao qual se associa a multiplicidade de informações que o
documento oferece.
De qualquer modo, é sempre num momento de tempo que o
pesquisador se defronta com o depoimento, avultando um primeiro
distanciamento entre ambos, entre o sentido que lhe foi dado pelo
informante, e o sentido captado pelo pesquisador. No caso de entre-
vistas gravadas, o pesquisador se encontra diante do texto em três
circunstâncias diversas, pelo menos: na realização do depoimento;
na escuta da gravação para a transcrição escrita; na leitura apro-
fundada do documento já escrito. A captação do significado pode
variar a cada uma destas circunstâncias; se tal ocorre, torna-se
necessário ouvir a gravação muitas vezes, para a confirmação do
significado mais próximo do que foi veiculado pelo informante. É
neste momento, também, que o confronto com as anotações do ca-
derno de campo do pesquisador podem trazer importante contribui-
ção, indicando qual o sentido registrado num detalhe ou num gesto,
que esclareça qual a orientação mais correta do significado.
Quando se trata de um trabalho de equipe, em que os depoi-
mentos foram recolhidos por diversos pesquisadores, e em que é
necessário que todos tomem conhecimento dos mesmos, para a
unidade do trabalho, a variação dos significados se toma ainda maior,

130
ANÁLISE DE DocutitENTos EM CIÊNCIAS SOCIAIS

multiplicada pela diversidade de apreensão por cada um dos entre-


vistadores. O cuidado deve também aumentar; entre maneiras de
ver muito díspares, deve prevalecer sempre a do pesquisador que
colheu o informe, pois estando presente na gênese do mesmo e em
todos os momentos de sua transformação de oral em escrito, é quem
detém sensibilidade e conhecimento maiores a respeito do que en-
cerra. Por estas razões se torna aconselhável que o próprio pesqui-
sador efetue todos os passos, da gravação até o documento escrito,
para garantia da maior proximidade entre a coleta oral e o resultado
escrito; por estas razões, também, um caderno de campo redigido
com cuidado pode servir de ponto de apoio para dirimir dúvidas.
A constatação da multiplicidade de sentidos de um mesmo
documento orientado pela especificidade de interesses de cada pes-
quisador não vai até o ponto de se concluir que cada intérprete
chegará forçosamente a compreensões divergentes. Na verdade, as
convergências são sempre maiores e mais importantes do que se
poderia supor. No caso de um trabalho de equipe, em que tais difi-
culdades poderiam se avolumar ao extremo, deve-se sempre lem-
brar que todos os pesquisadores estão unidos pelo delineamento do
projeto, de que participaram, e que significa um denominador co-
mum de seus interesses e opiniões. Um mesmo objetivo, uma mes-
ma visão das questões, uma mesma maneira de agir na coleta dos
dados, reuniu os pesquisadores, diminuindo as disparidades entre
eles.
Se tal sucede com uma equipe, com mais razão quando se
trata de projeto de um único pesquisador. No entanto, tais reflexões
mostram o perigo de um projeto ideado por um ou por alguns pes-
quisadores, que utilizaram, na coleta de dados, certa quantidade de
"mão de obra de pesquisa"; estes elementos se definem simples-
mente como gente que efetua coleta de material, contratada para

131
Coleção TEXTOS. Série 2, u. 10

esta tarefa específica, possuam ou não treinamento para tanto. Tam-


bém a transformação do documento oral em documento escrito pode
ser efetuado por tais elementos. Trata-se, portanto, de gente que
não participou da proposição e da organização do projeto, cujos in-
teresses não estão presos a ele, que não têm unidade de objetivos
com os pesquisadores; introduzem, por isso, um novo elemento de
variação relativamente ao material, tanto no momento da gravação,
quanto no momento da transcrição, representado pelo desenfoque
trazido pelos seus próprios interesses pessoais e pela menor soma
de conhecimentos que possuem a respeito da pesquisa. Por esta
razão, é sempre preferível que o próprio pesquisador, ou a própria
equipe, se encarregue tanto da coleta dos depoimentos, quanto da
transcrição dos mesmos.
O conteúdo de uma história de vida ou de um depoimento
pessoal dever ser encarado também na qualidade das informações
registradas. À medida que formas mecânicas de registro do cotidia-
no foram sendo inventadas (o disco primeiro, o gravador mais tarde
para a voz; a fotografia a princípio, em seguida o cinema, para a
imagem; a filmagem falada, depois a televisão para voz e imagem ao
mesmo tempo), a comparação de seus registros com o que resultava
da aparelhagem biológica humana ressaltou a precariedade deste,
em confronto com a minúcia dos resultados dos outros. Chegou-se
a admitir que os registros mecânicos seriam sempre preferíveis aos
humanos, devendo substituí-los cada vez mais. No entanto, as ex-
periências efetuadas para a utilização do cinema como uma técnica
sócio-antroplógica, demonstraram o arbítrio do pesquisador, pri-
meiramente ao construir o projeto e, uma vez terminada a filma-
gem, ao determinar os cortes que deveriam permitir um encadea-
mento narrativo dos dados que permitisse uma compreensão clara.
Noutras palavras, a intervenção autocrática do pesquisador estava

132
ANÁLISE DE DOCUMENTOS EM CIÊNCIAS SOCIAIS

sempre presente, orientando a coleta e, e, seguida, a concatenação


das imagens para transmitir as idéias, muito embora se procurasse
resguardar a lógica do que se estava assim armazenando. Esta ilu-
são de objetividade era semelhante à do pesquisador que emprega
técnicas quantitativas na coleta de seu material, e que se mostra
convencido de que a utilização dos algarismos é garantia de um
afastamento de sua própria subjetividade; na verdade, tanto na for-
mulação do projeto quanto na construção da técnica de coleta, a
subjetividade está presente.
Todavia, além dos problemas colocados pelos pesquisadores,
existe também, nas histórias de vida e depoimentos gravados, a
subjetividade do informante, que muitas vezes substitui ao real aquilo
que individualmente percebe do mesmo, seja de maneira parcial, ou
não; lado a lado com percepções exatas, ele pode afirmar com toda a
convicção uma série de enganos. Quanto mais recuados forem os
fatos no passado, ou quanto mais estiverem fora da experiência co-
tidiana do informante, mais provável a falha da memória, registran-
do falsidades ou nada registrando.
Seria possível pensar que estas lacunas estariam sanadas
quando vários depoimentos fossem colhidos sobre o mesmo fato. A
socióloga francesa Germaine Tillion (1973), ao participar como
testemunha nos julgamentos de Nuremberg, depois da Segunda
Guerra Mundial, observou que depoimentos de vários informantes
convergiam para o mesmo engano, dando-o com sinceridade como
verdadeiro. Efetuou então um confronto entre tais depoimentos e os
informantes, verificando que se tratava sempre de indivíduos edu-
cados no mesmo grupo, ou em camadas sócio-econômicas e cultu-
rais semelhantes; sua hipótese explicativa foi que tais indivíduos, a
partir de uma socialização praticamente idêntica, formulavam ima-
gens mentais análogas, que orientavam todo o registro da memória.

133
Coleção TEXTOS. Série 2,11. 10

Noutras palavras, não era o fato em sua autenticidade que se grava-


va nas recordações, e sim uma interpretação, uma verdadeira "tra-
dução" do mesmo. Assim, "hábitos mentais", adquiridos através de
uma socialização e experiências de vida homólogas, se substituíam
ã percepção "pura" do real. Esses infirmavam convictos algo que em
seguida se desvendava como sendo um engano. A quantidade de
depoimentos colhidos sobre um mesmo fato, todos no mesmo senti-
do, não era então garantia de que o fato tivesse ocorrido da forma
por que fora gravado na memória; antes de dá-lo como verdadeiro,
era preciso saber quem tinham sido os informantes. A segurança do
que fora registrado só se evidenciava quando os depoimentos tives-
sem sido apresentados por informantes muito diferentes entre si
quanto à sua experiência de vida, camada sócio-econômica, instru-
ção, etc.
Tais observações poderiam ter levado Germaine Tillion a des-
crer profundamente de todos os testemunhos que foi recolhendo,
tanto durante seu cativeiro no campo de concentração de Ravens-
brück, quanto depois de libertada e, mais tarde, quando participou
dos julgamentos de Nuremberg. A quantidade de testemunhas e a
convergência ou não de seus relatos não lhe pareceram, efetiva-
mente, meios seguros de reencontrar a verdade do passado; de onde
concluir que as estatísticas não ofereciam nunca meios seguros de
verificação do real. O estabelecimento da verdade objetiva se pren-
dia a outros cuidados, que procurou desvendar, valendo-se de sua
experiência de socióloga.
O primeiro cuidado era separar, nos documentos existentes,
tudo quanto se referisse a dados institucionais e permanentes; em
geral tais dados são registrados em documentos muito variados,
além dos depoimentos pessoais; o cotejo entre os outros tipos de
documentos e os depoimentos pessoais permitia descobrir certos

134
ANÁLISE DE DOCUMENTOS EM CIÊNCIAS SOCIAIS

enganos. O segundo cuidado era distinguir, nos depoimentos pes-


soais, tudo quanto se referisse aos "rituais" da vida cotidiana em
seus detalhes, às hierarquias e à composição interna dos grupos em
que estavam inseridos os informantes; também sobre estes aspec-
tos existe documentação registrada de outras formas, e seu cotejo
com o depoimento efetua a verificação desejada.
Restavam então, nos depoimentos, os "acontecimentos" e sua
percepção, assim como as opiniões dos informantes. Germaine Tilli-
on não define o que entende por "acontecimento"; porém a maneira
pela qual emprega o termo indica que o utiliza no sentido da verba-
lização de tudo aquilo que sucede num momento e numa localiza-
ção determinadas, e que se distingue do curso uniforme de fenôme-
nos da mesma natureza; o interesse do "acontecimento", seja ele
previsível ou imprevisível, está em que escapa inteiramente do cor-
riqueiro. Este significado do termo "acontecimento" coloca imedia-
tamente o problema da percepção dos informantes, os quais, con-
forme sua experiência e sensibilidade, o enxergarão ou não como
divergindo do "curso uniforme de fenômenos da mesma natureza".
Assim, cada informante poderá definir ou não como "acontecimen-
to" os fatos que ocorrem em sua existência, dependendo tal defini-
ção de sue próprio meio de encarar as coisas. Além do "aconteci-
mento", também dependem da percepção individual tudo quanto se
refere à avaliação da duração, à situação no espaço físico e social,
aos movimentos, às formas, às cores, ao número, à quantidade;
todas estas percepções trazem o selo do indivíduo que as formulou.
É então que se coloca como primordial a escolha dos infor-
mantes, que dever ser orientada segundo os problemas delimitados
no projeto de pesquisa; noutras palavras, é preciso escolher infor-
mantes válidos para as questões a serem estudadas. Informante
válido é aquele que se supõe de antemão que possua uma vivência

135
Coleção TEXTOS. Série 2, n. 10

do que se procura conhecer. Quando se buscava conhecer, como


Germaine Tillion, o destino último de um grupo de mulheres inter-
nadas ao mesmo tempo que ela no campo de concentração de Ra-
vensbrück, tanto eram informantes válidos as suas companheiras
de detenção, quanto os componentes da aparelhagem carcereira,
burocrática e administrativa do mesmo; podiam ser também inte-
ressantes os depoimentos dos habitantes das vizinhanças, mas, além
destes, somente os membros da cúpula nazista poderiam ser consi-
derados informantes válidos. Informantes válidos são, portanto,
aqueles que, no momento histórico escolhido, tiveram vivência do
que se procura conhecer.
O segundo cuidado com estas informações é definir qual a
relação existente entre o informante e o que se quer conhecer (rela-
ção profissional, relação afetiva, relação acidental, relação interes-
sada ou desinteressada, etc). A confiabilidade do informe, sua maior
ou menor aproximação do real, repousa no sentido desta relação.
Voltando ao caso de Germaine Tillion, e depoimento dos membros
da burocracia ou da aparelhagem carcereira de Ravensbrück se orien-
taram em direção diferente daquela das prisioneiras; a definição de
cada "acontecimento" era diversa numa e noutra situação. Não se
trata de eliminar um conjunto de informantes em função de outros;
o procedimento é confrontar os depoimentos de cada conjunto, a
fim de se estabelecer divergências e convergências, que serão inter-
pretadas à luz das relações dos informantes com os "acontecimen-
tos".
O objetivo de Germaine Tillion era chegar à verdade a respeito
do campo de concentração de Ravensbrück, e do destino dado às
prisioneiras que periodicamente eram dele retiradas - objetivo que
ultrapassava a sua própria vivência como prisioneira; dos aconteci-
mentos que sua memória havia gravado, quais os que objetivamen-

136
ANÁLISE DE DOCUMENTOS EM CIÊNCIAS SOCIAIS

te tinham existido como tal, quais os que resultavam de uma per-


cepção insuficiente, ou mal orientada, ou enganosa? Assim, a críti-
ca da percepção se iniciava com a da sua própria maneira de ver as
coisas. Sua busca se equiparava à dos historiadores em geral, que
procuram desvendar qual teria sido a realidade concreta de um
momento recuado no passado, através da quantidade de documen-
tos escritos, iconográficos ou outros; para todos eles, reencontrar a
verdade é a finalidade principal.
Todas as pesquisas não se orientam forçosamente para este
objetivo. Em outras, a curiosidade pelo que ocorreu em tempos idos
recua para um segundo plano, estando em jogo a análise do próprio
documento, ou de um conjunto de documentos, a fim de se verificar
que temas podem estar ali contidos, ou que problemas encerra. Não
se trata mais de tentar desenredar um ou vários acontecimentos na
trama do texto. Importa verificar o que o informante define como
acontecimento, e como se coloca diante dele, o que é revelado pelas
opiniões e julgamentos que efetua a esse respeito. Não é só o docu-
mento que está em jogo neste segundo tipo de abordagem; o docu-
mento é mais do que o que se encontra escrito, pois através de seu
exame revela também os mecanismos de percepção e de julgamento
do informante, e, desde que estes se encontrem repetidos num con-
junto de informantes de determinada camada social, ou de determi-
nada profissão, ou de determinada instrução, etc, detectar uma
possível relação entre a posição social do informante ou do conjunto
de informantes e sua maneira de ver um acontecimento. Saímos
então do contexto da reconstrução histórica para buscar entender
estruturas e organizações sociais, através dos informantes, de suas
qualidades, das percepções e opiniões que exprimem.
Não cabe, neste caso, procurar a verdade ou não a respeito
daquilo que o informante apresenta como "acontecimento"; cabe,

137
Coleção TEXTOS. Série 2, n. 10

isso sim, registrá-lo como tal, e classificar o informante de acordo


com os tipos de eventos que considerou extraordinários, isto é, que
de seu ponto de vista saíram do curso "normal" dos fenômenos de
mesmo gênero. Nesta perspectiva se captará o que é "normal" e o
que é "extraordinário" para cada informante ou grupo de informan-
tes.
Antes de entrar na própria matéria veiculada pelo informante,
cumpre verificar que atitude ele manifesta em sua narrativa, como
ele reúne "acontecimentos" e "julgamentos". Três seriam estas ati-
tudes possíveis: a) transmitir simplesmente os acontecimentos pas-
sados a que assistiu ou de que teve conhecimento, numa atitude
específica de testemunha; b) narrar os acontecimentos entremean-
do em seu discurso, imediata e explicitamente, reflexões de ordem
geral ou específica, comparações dos fatos com outros, manifestar
julgamentos e opiniões, numa atitude em que a testemunha fica
inteiramente obscurecida pelo "avaliador"; c) mesclar a atitude de
testemunha com a atitude de avaliador.
É verdade que não serão encontrados nem "testemunhas", nem
"avaliadores" puros; a classificação do informante num ou noutro
gênero decorre da predominância de uma ou outra destas duas qua-
lidades, enquanto no terceiro gênero se torna impossível descobrir
uma predominância qualquer. A análise do texto nesta perspectiva
leva a um conhecimento voltado para os informantes e não para o
material veiculado pelo documento. No entanto, a separação entre
"acontecimento" e "avaliação" é também extremamente importante
para se conhecer o material que ele contém e defini-lo quanto ao
conhecimento que permite alcançar.
Se a riqueza dos "acontecimentos" narrados é maior do que as
"avaliações" do informante, os conhecimentos alcançados se diri-
gem mais para o esclarecimento da realidade concreta; no caso opos-

138
ANÁLISE DE DOCUMENTOS EM CIÊNCIAS SOCIAIS

to, esclarece-se mais os valores, os modos de pensar, as visões do


mundo do informante e, no caso de haver convergências entre vá-
rios informantes, a visão do mundo de um grupo ou de uma parte
da sociedade, ou mesmo de toda ela. Porém mesmo quando o infor-
mante ou o grupo de informantes tomam a atitude de testemunhas
antes de tudo, a maneira pela qual definem o que para eles é um
acontecimento trás esclarecimentos muito importantes a respeito
de sua própria visão do mundo.
Separados os "acontecimentos" e as "avaliações" no documento,
é preciso distinguir os temas principais, tanto da narrativa objetiva,
quanto das reflexões e opiniões. Dois tipos de operações são neces-
sárias previamente: a) eliminação de todas as repetições, paráfra-
ses, implicações etc, ou melhor, uma "limpeza" do texto quanto às
reiterações que freqüentemente ocorrem em qualquer narrativa; b)
seleção dos temas que o pesquisador considera de importância para
o seu trabalho, tanto no que diz respeito aos "acontecimentos" quan-
to às "avaliações", deixando de lado os temas que não digam direta-
mente respeito ao que está efetuando; esta seleção é fundamental.
Lembrar, porém, que as repetições, paráfrases etc, têm muita im-
portância num outro momento do trabalho, isto é, quando se estu-
dou a forma da narrativa, na sua linearidade ou não, assim como
nos pontos de referência do informante; as repetições e paráfrases
são para tanto indicadores inestimáveis. Porém não apresentam a
mesma importância quando se tem por objetivo o estudo do con-
teúdo.
Quando se inicia este, a seleção dos temas se torna funda-
mental. A técnica de escolha leva a uma condensação sistemática
dos "acontecimentos" e das "avaliações" apresentadas pelo infor-
mante, e se coloca como o oposto de um levantamento exaustivo
dos tópicos contidos no documento. Coloca-se, pois, como o oposto

139
Coleção TEXTOS. Série 2, u. 10

de um levantamento exaustivo do que contém um documento (GHI-


GLIONE, BEAUVOIS, CHABROL, TROGNON, 1980); este levanta-
mento exaustivo pode ser efetuado como uma listagem preliminar,
da qual serão extraídos os temas fundamentais para o informante, e
os temas fundamentais para o pesquisador. Pretender conservar
todos os temas encontrados torna impraticável a análise; querer
tudo conservar é simplesmente reproduzir i documento em sua to-
talidade. Na medida em que análise se define como a decomposição
de um documento em suas partes, ela se apresenta como o contrá-
rio de tal conservação.
Os temas ou tópicos são unidades de identidade diferente que
compõem a estrutura de uma narrativa. Numa história de vida, vá-
rios temas podem ser encontrados, dizendo respeito ao próprio evo-
luir do informante (infância, adolescência etc), à família, à profis-
são, etc. No momento da definição dos temas pelo pesquisador, o
projeto de pesquisa reaparece em cena, pois a identificação deles
deve seguir os propósitos que teve o pesquisador ao construí-lo: se
teve por objetivo conhecer a vida de determinada camada social num
período do tempo e numa localidade, seus temas se relacionarão
com os acontecimentos históricos daquele período e daquela locali-
dade; com a família; com a profissão; e assim por diante. Pode ser,
no entanto, que o conteúdo do documento seja de tal monta que o
pesquisador, em lugar de seguir a ordem dos problemas que colo-
cou no seu projeto, escolha os temas mais salientes que for encon-
trando; neste caso, estará efetuando uma reformulação de seu pro-
jeto a partir do material encontrado, devendo então apresentar a
justificativa de sua mudança de orientação.
Uma vez selecionados os temas, tanto no que diz respeito aos
"acontecimentos", quanto às "avaliações" do informante (que po-
dem ser morais, sociais, econômicas etc, quanto aos valores que as

140
ANÁLISE DE DOCUHENTOS EM CIÊNCIAS SOCIAIS

orientam), um outro momento da busca se abre para o pesquisador:


relacionar os temas, sua ordem e a freqüência com que aparecem
no documento, com as características dos informantes, como já se
fizera com os aspectos formais (pontos de referência, marcha da
narrativa etc), com a maneira de narrar do informante (testemu-
nha, avaliador, associado), isto é, com os resultados dos diversos
cortes que foram sendo efetuados no documento. A orientação a ser
seguida nestas comparações se aproxima das que são habitualmente
utilizadas nas análises de questionários e de entrevistas com rotei-
ro: verificar se a qualidade dos informantes que apresenta determi-
nados traços narrativos, por exemplo, é a mesma de acordo com o
sexo, a idade, a instrução, o nível sócio-econômico, a profissão, etc.
Compara-se, portanto, o resultado da análise com a composição da
ficha dos informantes.
A inserção do informante em grupos e conjuntos de sua socie-
dade torna a ser importante neste passo. A escolha de informantes,
num projeto de pesquisa, raramente é deixada ao acaso; eles repre-
sentam sempre um grupo, e os grupos são sempre internamente
diferenciados, estruturados segundo a idade, o sexo, a instrução, a
profissão etc. O pesquisador delineia sempre, em seu projeto, quais
os contornos do grupo (em sentido amplo) em que será efetuada a
pesquisa; por exemplo, pode escolher fazê-la exclusivamente entre
mulheres de 20 a 50 anos, tendo de levar em consideração então as
faixas de idade, as localidades a que pertencem, o nível de instru-
ção, o estado civil, as distinções econômicas. Nenhum grupo ou
parcela de grupo forma um todo monolítico. Admitir a importância
de tais diferenciações eqüivale a afirmar que provavelmente elas
influem tanto nos aspectos formais, quanto no conteúdo das infor-
mações veiculadas. Tal afirmação genérica, implícita na formulação
do projeto de pesquisa, necessita ser explicitada sob a forma de

141
Coleção TEXTOS. Série 2, n. 10

uma questão; por exemplo, influirão as faixas de idade nas informa-


ções prestadas por mulheres entre 20 e 50 anos, de tal localidade,
ou a diferenciação das informações passará pelo crivo da instru-
ção? Todos os dados que compõem a ficha do informante se conver-
tem, assim, em indagações a respeito do que se procura encontrar.
AS respostas são buscadas nos cotejos entre as qualificações da
ficha e os resultados das análises efetuadas; pois só assim se alcan-
çará conhecer até que ponto tais distinções realmente influirão so-
bre a percepção e o julgamento dos acontecimentos.
Noutras palavras, os parâmetros observados na escolha dos
informantes contém o pressuposto de que os critérios escolhidos
deveriam ser os mais eficientes para a obtenção dos informes dese-
jados. A comparação das diferenciações dos informantes previamente
estabelecidas, com os resultados da análise dos documentos des-
vendará concomitâncias ou não entre ambas, permitindo inferir li-
gações entre elas; as respostas negativas ou positivas destas com-
parações são uma das conclusões da pesquisa, que deve, porém,
ser encarada como hipotética. De fato, a pesquisa realizada se con-
figura como o levantar da ponta de um véu, demonstrando a exis-
tência de novos problemas - no caso, a existência ou não da ligação
entre os caracteres dos informantes e os caracteres de seus depoi-
mentos. Estas conclusões, que sugerem novas questões, deverão
determinar a formulação de novos projetos de pesquisa.
Os resultados do cotejo acima exposto permitem também ava-
liar criticamente se a marcha adotada na realização da pesquisa foi
satisfatória em seus diversos passos: a) se as questões propostas
pelo pesquisador em seu projeto podem realmente ser esclarecidas
pelo procedimento que adotou na realização da pesquisa; b) se a
escolha dos informantes foi válida para os problemas então coloca-
dos; c) quais os problemas não delineados no projeto que as infor-

142
ANÁLISE DE DOCUMENTOS EM CIÊNCIAS SOCIAIS

mações dos depoentes mostram existir; d) se as técnicas emprega-


das foram satisfatórias para se alcançar alguns resultados, se fo-
ram suficientes; e) se a abordagem empregada aponta outras técni-
cas que seriam também necessárias afim de complementar de
maneira eficiente as informações obtidas. O balanço desta ques-
tões constitui também uma parte das conclusões da pesquisa. To-
das as comparações, todos os resultados, todas as críticas, tomam
então a forma de um reagrupamento do conteúdo dos documen-
tos, alcançado através das diversas análises, compondo assim uma
nova narrativa. Nesta, as informações a respeito dos depoentes
(fichas de informantes), os acontecimentos e as avaliações de seus
depoimentos (gravações transcritas), as condições em que os de-
poimentos foram efetuados (cadernos de campo), e as análises efe-
tuadas, foram reordenadas segundo as questões colocadas no pro-
jeto de pesquisa, formando um todo coerente, isto é, uma síntese.
Esta é constituída, pois, pela exposição de todos os resultados das
várias etapas de pesquisa, que reproduz, sob uma outra forma
inteiramente diversa, o conteúdo do documento. É certo que não
se trata da reprodução integral do mesmo; para quem quiser co-
nhecê-lo em tudo quanto contém, as fontes - gravações, documen-
tos escritos - estão à disposição.
O pesquisador chegou ao término de seu trabalho quando
apresentou, numa narrativa bem ordenada e coerente, tudo quanto
se propôs investigar no documento ou nos documentos de que lan-
çou mão, mostrando as respostas positivas e negativas às questões
que colocara em seu projeto. O balanço final das respostas configu-
ra a interpretação dada ao que foi encontrado no documento, em
seu cotejo com as perguntas do projeto. Porém a partir destas con-
clusões é possível efetuar novos raciocínios e novas indagações, que
não seriam alcançadas se não tivesse havido a síntese narrativa;

143
Coleção TEXTOS. Série 2, u. 10

novos raciocínios e novas indagações que são pontos de partida para


outras pesquisas.
No momento em que foram iniciadas as comparações entre os
caracteres dos informantes e os resultados das indagações à forma
e conteúdo dos documentos, passou-se da análise para a síntese.
Noutras palavras, os diversos aspectos que haviam sido considera-
dos separadamente são reunidos para compor um todo, diverso do
ponto de partida da pesquisa; desvendados os detalhes pela análi-
se, buscou-se qual o conjunto coerente que compunham. Muitas
vezes esta passagem é difícil de ser percebida, a análise conduzindo
quase imediatamente a uma síntese interpretativa, mas estes mo-
mentos, que podem ser coexistentes ou sucessivos, existem sempre
numa pesquisa bem conduzida.
Nota-se então que, ao se proceder à solução do problema ex-
posto pelo projeto, três situações são configuradas: no primeiro tem-
po, a proposição das questões que se intenta resolver, isto é, a tese
que se pretende estudar; a análise compõe o segundo tempo e se
configura como uma antítese, uma vez que desagregando a tese em
diversas partes, e dando neste momento toda a importância a estas,
contradiz o todo; no terceiro momento, a comparação dos resulta-
dos da análise com as questões propostas no projeto configuram
uma síntese, isto é, uma fusão dos dois primeiros tempos num co-
nhecimento novo que, exprimindo algo de diverso em relação aos
pontos de partida, conserva no entanto os elementos deles que fo-
rem importantes para o conhecimento do problema, integrando-os
numa outra totalidade.

144
ANÁLISE DE DOCUMENTOS EM CIÊNCIAS SOCIAIS

Referências bibliográficas

BOSI, E. Memória e sociedade, lembranças de velhos. São Paulo: T. A. Queiroz,


1979.

CASANOVA, M. L. Ioiô pequeno da Várzea Nova. São Paulo: Clube do Livro,


1979.

GHIGLIONE, R; BEAUVOIS, J.-L.; CHABROL, C ; TROGNON, A. Manuel


d'analyse de contenu. Paris: Armand Colin, 1980. (Collection U).

GURVTTCH, G. La vocation actuelle de ia sociologie. Paris: Presses Universitaires


deFrance, 1957.

LEWIS, O. Os filhos deSanchez. Lisboa: Moraes, 1970.

MELLO E SOUZA, G. Exercícios de leitura. São Paulo: Duas Cidades, 1980.

TILLION, G. Ravensbrück. Paris: Seuil, 1973.

145
ENIGMAS DE UMA DEFINIÇÃO DO "SER
BRASILEIRO"*

Maria Isaura Pereira de Queiroz"

A definição da cultura brasileira tem desafiado o entendimen-


to dos estudiosos nacionais através do tempo: "ser brasileiro", esta
asserção teria peculiaridades que concretamente fosse possível ar-
rolar, e quais?
A constatação mais antiga foi a da heterogeneidade de três
origens diversas: a indígena, a africana, a européia. Sua essência
residiria, portanto, em sua heterogeneidade. Porém a imagem ideal
que estes estudiosos formulavam a respeito do que devia ser uma
cultura nacional - homogênea, harmoniosa, solidária - era contra-
riada pela realidade em que viviam; a disparidade os fazia inquirir
se não constituiria tal amálgama em grande perigo ameaçando a
integração nacional.
É interessante notar que esta colocação se dá no fim do século
XIX, quando a abolição da escravatura trazia à consciência dos le-
trados da época os problemas da incorporação dos negros como
cidadãos, e suas dificuldades. Figurava já nos escritos de Sylvio
Romero, a partir de 1870, e não se esvaiu totalmente ainda, sendo

Artigo apresentado no 7° Encontro Anual do CERU - 17 a 19 de setembro de


1980.
Professora Adjunta do Departamento de Ciências Sociais - USP. Diretora de Pes-
quisa do Centro de Estudos Rurais e Urbanos.
Coleção TEXTOS. Série 2,11. 10

encontrada em vários autores contemporâneos. Para eles, a unida-


de cultural avultaria como meta a ser alcançada sobre todas as
outras, porque significaria a assimilação profunda de grupos étni-
cos considerados bárbaros.
Não fugiram também da constatação de heterogeneidade cul-
tural como resultante das variedades étnicas, os intelectuais que,
entre 1910 e 1920, tentaram redefinições. Porém, para eles, esta
heterogeneidade seria aparente, resultante de uma representação
superficial e falsa do que seria realmente o país. Por meio de estu-
dos, penetrar-se-ia mais além e, sob a máscara enganosa feita de
disparidades e conflitos, encontrar-se-ia o verdadeiro Brasil, indivi-
so, cuja unidade étnica e cultural era garantida por um grande sen-
timento nacional comum, consubstanciado na noção de pátria. Esta
era assim tomada como princípio emocional leigo e fundamental da
sociedade, "signomatriz" que harmonizaria as consciências, estabe-
leceria a união das etnias, cimentaria a coesão das camadas sócio-
econômicas; constituiria assim o que havia de mais profundo no
"ser brasileiro".
Esta nova posição diante do problema da cultura foi lenta-
mente se compondo, num momento em que mais e mais pareciam
se acentuar as constatações inquietantes de diversidade, de contra-
dição, de conflitos, devido à penetração massiça de imigrantes no
país, cuja assimilação era preciso garantir e acelerar. O sentimento
de pátria, que não podia ser questionado, funcionaria como a arga-
massa a prender toda a variada gama de elementos nacionais. Nova
definição que se baseava na emoção, e, portanto, se contrapunha à
razão. O conhecimento assim alcançado era proclamado de ordem
superior, porque obtido através da intuição, única via que permitia
chegar à compreensão das totalidades; por isso mesmo não podia
ser posta à prova.

148
ENIGMAS DE UMA DEFINIÇÃO DO "SER BRASILEIRO"

No entanto, tal maneira de ver era afirmada justamente quan-


do cada vez mais o raciocínio científico se afirmava como o instru-
mento por excelência da aquisição de saber; saber conseguido atra-
vés de uma atividade sistemática e submetido a verificações e provas.
Nesta perspectiva, intuição e sentimento pareciam instrumentos
inadequados e insuficientes para se chegar a um conhecimento vá-
lido, inclusive da cultura. Não é, pois, de admirar que quase simul-
taneamente com a "via da emoção", uma outra abordagem dos da-
dos culturais foi surgindo pouco a pouco, diferente tanto do
sociologismo ingênuo de fins do século XIX, quanto das afirmações
tendentes a demonstrar a existência de grandes mitos nacionais,
do início do século XX; uma abordagem analítica que levava em
consideração tanto a variedade dos elementos culturais quanto a
diferenciação da estrutura interna da sociedade.
O grande mérito de Gilberto Freyre, nos anos 30 deste século,
foi colocar pela primeira vez o problema do "ser brasileiro" não mais
em termos de diversidade de origens étnicos apenas, e sim em ter-
mos de diferenciações oriundas da estratificação social. Os estudio-
sos anteriores tinham negligenciado este aspecto, e abordavam as
análises da cultura brasileira como se a sociedade fosse interna-
mente indiferenciada; consideravam apenas as dissemelhanças ét-
nicas e culturais. Para Gilberto Freyre, a diferenciação se dava
preferencialmente em termos de polaridades hierárquicas de uma
estrutura: senhores e escravos, no meio rural; habitantes de sobra-
dos e habitantes de mocambos, no meio urbano. A diferenciação
étnica seguia de perto a diferenciação social, constituindo ambas
excelentes bases virtuais para o desenvolvimento de conflitos, que
no entanto não se concretizavam. Embalados os senhores por ba-
bás negras, educados negros e mulatos por padrinhos brancos, uma
mesma cultura se formava, banhando toda a estrutura hierárquica,

149
Coleção TEXTOS. Série 2, n. 10

igualando as crenças e as mentalidades, anulando as potencialida-


des contraditórias. A noção abstrata de "pátria", substituía-se a noção
concreta de cultura, sujos componentes podiam ser apontados e
analisados.
Na concepção de Gilberto Freyre, a cultura brasileira era sem-
pre vista como realmente heterogênea, quanto às suas origens; po-
rém este aspecto não importava, o que importava era o papel de-
sempenhado por ela no interior da sociedade, formada de camadas
sócio-econômicas diversas - principalmente nos meios urbanos, do
sul, onde uma incipiente industrialização fazia surgir nova defini-
ção ocupacional - o operário. Em contraposição a esta vivência re-
cente de uma contradição profunda entre capital e trabalho, eleva-
va-se a idéia reconfortante de que a mesma cultura irmanava a todos
- instrumento homogenizador das diversidades existentes; através
dela é que se alcançaria a cobiçada integração nacional, feita de
reconciliação e concórdia.
Porém, aceitando a noção de uma cultura composta de traços
heterogêneos, tornava-se importante diagnosticar de que maneira
se adaptavam uns aos outros, afim de definir o conjunto formado:
Sincretismo, isto é, reunião puramente artificial de elementos dis-
paratados, incompatíveis uns com os outros? Síntese, isto é, com-
posição de algo novo através da combinação de elementos vários, de
maneira a formar uma totalidade única e organizada? Integração,
isto é, ajustamento entre si de elementos incoerentes, estabelecen-
do-se entre eles uma interdependência estreita que superasse as
contradições e reforçasse o acordo? Estas indagações deram lugar a
muita pesquisa e a muita discussão, a partir dos anos 40, que toda-
via não cessaram ainda. De qualquer modo, parecia ter sido alcan-
çada uma concordância pacífica em torno da admissão de que va-
riedade e diversidade constituiriam a própria essência do "sei

150
ENIGMAS DE UNIA DEFINIÇÃO DO "SER BRASILEIRO"

brasileiro', portanto, de sua realidade; realidade necessariamente


feita de contradições e conflitos, superados por intermédio de uma
cultura multifacetada porém adequada e conciliadora.
A abordagem de Gilberto Freyre alcançou sucesso semelhante
ao que marcara, no início do século, a de Euclydes da Cunha, quan-
do distinguira dois Brasis, o Brasil moderno do litoral e o Brasil
arcaico do sertão. Correspondia a um período em que a estrutura de
classes ia adquirindo mais e mais consistência no país, mercê de
uma industrialização que paulatinamente ia se impondo. Fornecia
uma interpretação otimista desta situação, abrandando os temores
da classe superior e lhe fornecendo uma nova arma de defesa: a
compreensão de que a cultura das camadas inferiores podia ser
usada como meio de dominação, através de sua absorção e redefini-
ção pelas camadas superiores.
Nos anos 50 e 60, definiu-se nova posição de alguns intelec-
tuais, diante da definição do "ser brasileiro", de que o melhor exem-
plo são provavelmente os trabalhos do Instituto Superior de Estu-
dos Brasileiros (ISEB). Na maneira de ver destes estudiosos, o
"homem brasileiro" seria um homem sem passado, duplamente alie-
nado. De um lado porque, colonizado, não tivera possibilidades de
desenvolver espontaneamente traços que lhe fossem próprios, ven-
de-se obrigado a adaptar importados; por outro lado, porque os in-
telectuais nacionais aplicavam ao conhecimento de seu país um
saber alienígena e, portanto, pouco apropriado para sua compreen-
são. As discussões sobre as origens heterogêneas da cultura brasi-
leira seriam inócuas, pois se discutiria no vácuo. A tarefa a ser em-
preendida seria a da criação de uma cultura nacional válida, que só
podia ter vigência quando os intelectuais adquirissem consciência
da inanidade de um conhecimento pouco adequado à sociedade em
que viviam. Conhecimento e realidade se conjugavam na considera-

151
Coleção TEXTOS. Série 2,11. 10

ção de falsidade: falsa era a cultura, porque constituída de um con-


junto de traços importantes; falso era o conhecimento, porque oriun-
do de um saber exterior à sociedade brasileira. O "ser brasileiro"
não teria vigência ainda e - utopia do porvir - deveria ser construído;
aos intelectuais conscientes caberia então delinear uma cultura
autêntica.
É interessante observar que esta compreensão do "ser brasi-
leiro" novamente se opera sem apelar para as peculiaridades inter-
nas da sociedade nacional, desdenhando totalmente a colocação
anteriormente efetuada. Ela coincide também com o pleno desen-
volvimento da industrialização no país, quando também se defini-
ram as campanhas nacionalistas e se acirraram as denúncias con-
tra o capital estrangeiro. Teve lugar concomitantemente com a
enunciação da teoria da dependência, que denunciava as ilusões
do desenvolvimento em processo. Dir-se-ia que esta teoria fora trans-
posta para o plano cultural, dando como resultado a acusação de
um vazio cultural; porque o que existia, fosse originário de camadas
elevadas, ou de camadas inferiores, era falso porque dependente do
exterior. Não interessava saber de que elementos se compunha,
porque todos eles sofriam do mesmo vício.
A partir dos anos 70, rumo novo aparece na maneira de se
encarar o "ser brasileiro", novamente polarizado pelas dissemelhan-
ças culturais entre camadas superiores e inferiores. A parecença
com a teoria de Gilberto Freyre era, no entanto, muito pequena,
uma vez que a popularização estrutural era acompanhada de uma
dualidade cultural talvez irreconciliável - quando na visão de Gil-
berto Freyre, ao contrário, era justamente no âmbito da cultura que
se operava a reconciliação das camadas sociais díspares.
Como todas as sociedades, diziam estes novos estudiosos,
apresentava a brasileira uma hierarquia interna, de ordem sócio-

152
ENIGMAS DE UMA DEFINIÇÃO DO "SER BRASILEIRO"

econômica, na qual se implantavam em posições diversas os grupos


sociais que a compunham. As criações dos grupos inferiores esta-
riam sempre limitadas e orientadas pela dominação do grupo supe-
rior, expressando o seu controle. A cultura do grupo superior, por
sua vez, estaria embebida de elementos alienígenas, que a desfigu-
ravam. Assim, era nos grupos inferiores que residia a autenticidade
cultural, seria neles que se encontraria o núcleo da nacionalidade,
pois estavam preservadas do contagio de traços de culturas estran-
geiras. Neste contexto, ganhava ênfase a denúncia dos meios de
comunicação de massa como altamente perniciosos, pois através
deles se corrompia justamente a cultura das camadas inferiores,
isto é, se corrompia o cerne da cultura brasileira. Aos intelectuais
cabia denunciar a coerção das camadas superiores e a falta de legi-
timidade de sua cultura, demonstrando as limitações do controle
por elas exercido sobre a criatividade das inferiores, e auxiliando a
expressão livre, valiosa e enriquecedora destas.
Também nesta abordagem perdeu-se de vista a referência às
origens dos traços culturais; a heterogeneidade aqui apontada era
fruto somente da estrutura interna da sociedade brasileira. Porém
deve-se chamar a atenção para sua coincidência com o período em
que o governo brasileiro inicia suas atividades de incremento e pro-
teção dos elementos culturais, através da criação de Funarte, Em-
brafilmes etc, indicando como objetivos de um lado a necessidade
de "democratizar" a cultura nacional ameaçada, em amparo de uma
cultura popular indefesa, em garantia de uma cultura tradicional
em perdição. A ação estatal, na verdade, se volta para uma regula-
mentação da produção e do mercado de "bens simbólicos", ora uti-
lizando aparelhos que lhe são próprios, ora através de organismos
da sociedade civil devidamente autorizados )por exemplo, TV Globo,
Editora Abril etc). Tais iniciativas decorrem justamente do tipo de

153
Coleção TEXTOS. Série 2, n. 10

capitalismo hoje existente no país: por um lado constituem uma


forma subreptícia do governo manter o domínio sobre o setor cultu-
ral; por outro lado, controlam a expansão do mercado de bens cul-
turais. Em épocas anteriores, já havia o governo formulado "políti-
cas culturais", porém nem se haviam concretizado na prática, nem
tinham adquirido dimensão tal que abarcasse todos os seus aspec-
tos (não esquecendo o domínio da produção científica, que é contro-
lada através de organismos de financiamento como o CNPq, a FI-
NEP etc); agora, porém, as iniciativas se estendem por todos os
lados, e o que aparentemente era incoerente, se apresenta na verda-
de como perfeitamente harmonizado e concordante com o momento
sócio-político e econômico do país.
O relevo adquirido pela consideração das classes sociais como
aspecto de base a ser levado em conta na análise da cultura nacio-
nal coincidiu, assim, com a expansão da dominação estatal, a qual
nada mais é do que a expressão da hegemonia das camadas sociais
elevadas. Porém ao mesmo tempo se verificava grande modificação
na maneira de encarar a cultura no país: deixava de ter um signifi-
cado de acordo e conciliação, de ser algo de totalizante, para ser
encarada como representação válida da diversidade, admitindo-se
também que poderia constituir uma arma para as reivindicações e
as lutas. Esta admissão tácita se inscrevia nas atividades do Esta-
do, cujo esforço de organização da cultura popular era também uma
forma de despojá-la de sua periculosidade; e marcava as iniciativas
de certos grupos de intelectuais, buscando nela mais um instru-
mento de contestação.
Ao delinear a variedade de interpretações e definições do "ser
brasileiro" através do tempo, chama a atenção o fato de que uma
nova maneira de ver não se substitui inteiramente às anteriores,
mesmo quando as contraria frontalmente; vem se somar a elas, como

154
ENIGMAS DE UNIA DEFINIÇÃO DO "SER BRASILEIRO"

mais um caminho aberto à sua compreensão, como mais uma via


de aquisição de conhecimento a seu respeito. Noutras palavras, per-
sistem sempre grupos de intelectuais que conservam uma orienta-
ção que outros grupos denunciam como ultrapassada, abrindo-se
assim um leque cada vez mais amplo. Pode-se perguntar: Toda esta
interpretação multifacetada não refletiria a própria complexidade
interna cada vez maior da sociedade brasileira, na qual variadas
hierarquias e grupos sociais vão proliferando e se entrecruzando?
Seria possível identificar os grupos que permanecem ligados às for-
mulações mais tradicionais, e aqueles que advogam novas teorias?
Seriam sempre os mesmos através do tempo, ou variariam, e como,
e por quê?
Observa-se também que parece haver um paralelismo entre o
desabrochar de novas interpretações da cultura nacional e mudan-
ças internas estruturais mais ou menos visíveis. A primeira teoria
explicativa surge no momento em que a campanha abolicionista e
em seguida a libertação dos escravos vem abalar sobremaneira a
hierarquia sócio-econômica; a chegada em massa de imigrantes e
sua inserção na sociedade nacional trouxe novas diferenciações in-
ternas; os momentos mais agudos da implantação de uma socieda-
de de classes, se substituindo a uma sociedade de parentelas; a
passagem de uma economia agrícola para uma economia indus-
trial, na qual o capital mais e mais se internacionaliza; as modifica-
ções de um Estado que sob muitos aspectos constituíra, no passa-
do, somente uma virtualidade, e que adquiriu pouco a pouco as
características de criador, dinamizador, orientador de todas as ati-
vidades (mesmo culturais) de produção e distribuição, constituem
etapas a que se associam novas maneiras de conhecer a cultura
nacional.
É dentro deste quadro de referências emoldurado pelos con-
tornos e pelas características da sociedade global brasileira que deve

155
Coleção TEXTOS. Série 2, n. 10

se orientar hoje a investigação dos enigmas de sua formação cultu-


ral. Quadro de referências em que se afirmam como aspectos priori-
tários a posições dos grupos na estratificação sócio-econõmica in-
terna do país (inclusive os variados grupos de intelectuais), e em
que outros aspectos antigamente considerados como principais -
como a origem étnica dos traços culturais - passam a secundários.
O que significa que o próprio leque de teorias que veio se abrindo
através do tempo comporta uma seriação hierárquica na proposição
dos problemas, cujo significado só pode ser amplamente captado
quando identificada a posição sócio-econômica dos grupos ligados
a cada tipo de interpretação. Matéria para novas e fascinantes pes-
quisas.

156
A LITERATURA COMO FONTE DE DADOS
PARA A SOCIOLOGIA*

Maria Isaura Pereira de Queiroz

A sociologia se iniciou no Brasil com a utilização de dados


qualitativos em larga escala, e entre eles os fornecidos pela literatu-
ra, tanto pela literatura erudita, quanto pela literatura popular. Assim
é que Sílvio Romero, nos fins do século XIX, utilizou ambas larga-
mente a fim de buscar compreender a sociedade brasileira de sua
época; seus "Ensaios de Sociologia e Literatura" datam de 1900.
Gilberto Freyre também se voltou para essa fonte, que considerava
válida, e Roger Bastide, ao iniciar suas pesquisas no Brasil, anali-
sou em primeiro lugar a poesia afro-brasileira, como porta de entra-
da para a compreensão das relações interétnicas.
No entanto, a voga dos números, que se inicia na década de
30, por influência de pesquisadores norte-americanos, levou os cien-
tistas sociais brasileiros a desenvolverem certo menosprezo pelos
dados qualitativos em geral, e a afastarem decididamente a literatu-
ra como fonte válida de conhecimento da realidade sócio-econômi-
ca. Essa atitude dos cientistas sociais brasileiros não foi isolada; no
quadro geral do desenvolvimento das Ciências Sociais nos países
ocidentais, o mesmo afastamento se processa após a Segunda Guerra

Comunicação apresentada ao III Encontro Nacional de Estudos Rurais e Urba-


nos, organizado pelo CENTRO DE ESTUDOS RURAIS E URBANOS, São Paulo,
23/24 de setembro de 1976.
Coleção TEXTOS. Série 2, n. 10

Mundial. Uma pesquisa de sociologia só parece merecer a atenção,


a partir dessa época, quando é feita por amostragem estatística,
para a definição do conjunto a ser pesquisado, e quando é utilizado
o questionário como instrumento de coleta - questionário preferen-
temente com perguntas fechadas, para facilitar a contagem do nú-
mero de respostas...
Não tardou, porém, em haver uma reação a esse estado de
coisas, mostrando que se tratava de um exagero e se processando a
uma reabilitação dos dados qualitativos. Esta já é visível na França
nos fins da década de 50, quando Louis Chevalier editou sua impor-
tantíssima obra Classes laborieuses, classes dangereuses, em 1958,
e na qual demonstra a importância das obras literárias para se cap-
tar ao vivo situações e comportamentos do passado. Acha Louis
Chevalier que "um parti pris exclusivo de mensuração condenaria
os sociólogos a uma visão abstrata das coisas e a uma descrição
muito mais inexata do que a mais aventurosa das descrições literá-
rias" (CHEVALIER, 1958, p. 7). Para o período que estuda, tentando
reconstruir a vida das camadas operárias na cidade de Paris, os
testemunhos literários são da maior importância, pois "auxiliam a
restabelecer o que pode ter existido, animando as mais inertes das
estatísticas antigas, dando-lhes uma existência comparável àquela
que nossa experiência contemporânea confere às estatísticas de
nosso tempo" (CHEVALIER, 1958, p. 8-9).
Entre nós, estão os historiadores retomando o interesse pelas
fontes literárias como documento histórico (ELLIS, 1975; SIQUEI-
RA, 1975) e nós mesmos - depois de as termos largamente utilizado
no passado (PEREIRA DE QUEIROZ, 1950, 1957, 1976) - a elas
regressamos (PEREIRA DE QUEIROZ, 1976), procurando agora tam-
bém traçar seu destino e seus limites. Nosso trabalho encontra-se
ainda no início, mas já nos é possível delinear alguns contornos.

158
A LITERATURA COMO FONTE DE DADOS PARA A SOCIOLOGIA

A literatura e a arte podem ser utilizadas de duas maneiras


principais, pelos cientistas sociais: 1) como uma porta de entrada
para se alcançarem problemas mais profundos; 2) como um teste-
munho válido do que ocorreria em determinados grupos sociais, no
passado.
A primeira forma é a mais comum; buscam-se os laços entre a
literatura e a sociedade, entre arte e sociedade, tanto para determi-
nar as influências recíprocas, quanto para buscar, em profundida-
des maiores do conhecimento, a origem da criatividade artística, e
também a influência ou não de fatores sociais sobre os cânones do
Belo. Entre nós, o primeiro cultor dessa forma foi Sílvio Romero, na
obra já citada; em seguida Roger Bastide procurou passar de uma
Sociologia da Arte a uma Sociologia Estética (BASTIDE, 1943);
Lourival Gomes Machado, estabelecer as influências recíprocas en-
tre a sociedade mineradora e o barroco (GOMES MACHADO, 1969);
Gilda de Mello e Souza, divisar as interrelações entre a sociedade e
a moda no século XIX, esta última encarada como uma manifesta-
ção estética (MELLO E SOUZA, 1952) e finalmente Antônio Cândi-
do, dedicando-se mais especialmente à manifestação artística que
nos interessa, buscou as conexões entre literatura e sociedade, en-
tre nós (CÂNDIDO, 1959, 1965).
A segunda forma, na qual a literatura ou a arte é encarada
como documento, tem sido menos empregada, pois oferece dificul-
dades em seu manuseio. Sua utilização também é dupla. Restrin-
gindo-nos à literatura, para facilitar a apresentação do assunto,
encontrâmo-la tratada: 1) como um documento que pode revelar os
valores de uma época; 2) como um documento que pode revelar
dados mais superficiais do que os valores, e que mostra a contextura
da sociedade, revelando sua estrutura interna, suas estratificações
e hierarquias, a dialética das mesmas e a dinâmica do comporta-
mento de seus grupos.

159
Coleção TEXTOS. Série 2, n. 10

No primeiro caso, além do trabalho já citado de Roger Bastide


sobre a poesia afro-brasileira (BASTIDE, 1971), também Florestan
Fernandes utilizou esta via de aprofundamento do conhecimento da
realidade, a fim de alcançar preconceitos velados ou semi-ocultos
(FERNANDES, 1964, 1972). A nossa utilização da documentação
literária se integra exclusivamente no segundo caso.
São estes os primeiros passos que estamos dando no caminho
de uma reflexão teórica que se nos afigura importante e que espera-
mos poder trilhar até alcançar uma visão mais clara de seus proble-
mas.

Referências Bibliográficas

BASTIDE, R. A poesia afro-brasileira. São Paulo: Martins, 1943.

. Arte e sociedade. 2. ed. São Paulo: Cia. Editora Nacional, 1971.

CÂNDIDO, A. Formação da literatura brasileira. São Paulo: Martins, 1959. 2


vol.

. Literatura e sociedade. São Paulo: Nacional, 1965.

CHEVAL1ER, L. Classes laborieuses et classes dangereuses: à Paris, pendant


Ia premiere moitié du XIXe siècle. Paris: Plon, 1958.

ELL1S, M. O café, a história na literatura. CONGRESSO DE HISTÓRIA DE


SÃO PAULO, 2., São Paulo, 1975. Anais...

GOMES MACHADO, L. Barroco mineiro. São Paulo: Perspectiva/Edusp, 1969.

FERNADNES, F. A integração do negro na sociedade de classes. 2. ed. São


Paulo: Edusp/Dominus, 1964.

. O negro no mundo dos brancos. São Paulo: Difusão Européia do Livro,


1972.

160
A LITERATURA COMO FONTE DE DADOS PARA A SOCIOLOGIA

MELLO E SOUZA, G. R. de. A moda no séc. XIX (ensaio de sociologia estéti-


ca). Revista do Museu Paulista, São Paulo, v. 5, 1952.

PEREIRA DE QUEIROZ, M. I. A estratificação e a mobilidade social nas co-


munidades agrárias do Vale do Paraíba, entre 1850 e 1888. Revista de Histó-
ria, São Paulo, n. 2, abr./jun. 1950.

. La guerre sainte au Brésü: le mouvement messianique du Contestado.


São Paulo: Fac. De Filosofia, Ciências e Letras/USP, 1957.

O mandonismo local na vida política do Brasil e outros ensaios. São


Paulo: Alfa-Omega, 1976.

Escravos e mobilidade social vertical em dois romances brasileiros do


séc. XIX. Cadernos CERU, São Paulo, n. 9, 1976.

SIQUEIRA, S. A. Literatura: uma fonte pouco explorada do conhecimento


histórico.Revista de História, São Paulo, n. 103, 1975.

161
ESCRAVOS E MOBILIDADE SOCIAL VERTICAL EM
DOIS ROMANCES BRASILEIROS DO SÉCULO XIX*

Maria Isaura Pereira de Queiroz"

O desejo de alcançar maior objetividade, fugindo dos desvios


determinados por simpatias, afetos, emoções, ideologias, isto é, pelo
impressionismo de que está sempre impregnada a observação pes-
soal, tem afastado nos últimos vinte anos muitos dos sociólogos
brasileiros dos dados qualitativos, dos quais os romances são fonte
de primeira ordem. A ilusão de que os números constituem arma
segura contra o subjetivismo do pesquisador fez os trabalhos de
pesquisa derivarem para os algarismos, buscando em sua secura e
aridez um garantia de que os entusiasmos quedariam anulados.
Essa orientação, que se originou nos Estados Unidos, difundiu-se
rapidamente entre os estudiosos ocidentais, até que a precariedade
dos resultados obtidos levou a uma crítica mais rigorosa dos mes-
mos. Percebeu-se que na proposição de problema, na constituição
das hipóteses, na formulação dos questionários, fases que prece-
dem a coleta de dados, insinua-se sempre o subjetivismo do pesqui-
sador; que dizer, então, da interpretação, na qual está ele inteira-

Conferência realizada durante o III Simpósio de História do Vale do Paraíba rea-


lizado em Pindamonhangaba, julho de 1976. Publicado em Cadernos CERU, São
Paulo, n. 9, p. 38-38, out. 1976.
Do Departamento de Ciências Sociais da FFLCH-USP.
Coleção TEXTOS. Série 2, u. 10

mente presente com sua ideologia, suas emoções, suas racionaliza-


ções?
Pouco a pouco foi-se verificando que somente uma autocrítica
constante do pesquisador, colocando-se a si mesmo em perspectiva
sociológica, conhecendo sua própria posição numa estrutura sócio-
econômica, com todas as implicações no que diz respeito à aquisi-
ção do conhecimento em geral e à formação dos modos de pensar,
permitiriam transformar sua objetividade, de algo pernicioso, em
algo benéfico, que facilite uma penetração mais a fundo na compre-
ensão da realidade.
A crítica dos procedimentos quantitativos mostrou que o peri-
go do subjetivismo não estava nas técnicas e nos dados, e sim nos
próprios indivíduos; em resultado, houve como que uma reabilita-
ção dos dados qualitativos, de que é exemplo a tese de doutoramen-
to de Françoise Parent-Lardeur, publicada em Paris em 1970, ana-
lisando a evolução das "vendeuses de magasin" francesas, do início
do século XIX até meados do século XX. É verdade que a autora
lamenta não contar senão com documentos literários, que vão das
crônicas mundanas até o romance de Émile Zola, "Au bonheur des
dames". Não que as fontes sejam mesquinhas, ao contrário, são
muito ricas; mas os testemunhos apresentam certos desvios que
não podem ser ignorados: "Os observadores, situados no outro ex-
tremo da escala social, com relação à população observada, trans-
mitem inconscientemente todas as deformações provenientes desta
situação e do estudo de espírito à sua classe, notadamente o fato de
estarem relativamente habituados à miséria dos trabalhadores. To-
davia. Preocupam-se em captar o real, o que nos incita a atribuir
credibilidade ao seu testemunho" (PARENT-LARDEUR, 1970, p. 17-
18). É certo que tal crítica não se dirige a Zola, cujo intuito, dada
sua posição de socialista militante, é denunciar a exploração das

164
ESCRAVOS E MOBILIDADE SOCIAL VERTICAL

caixeiras e caixeiros pelos patrões, e cujo testemunho, confrontado


com os demais documentos da época permite corroborar a veraci-
dade ou não dos mesmos. Françoise Parent-Lardeur não se detém
em justificar seu recurso às obras literárias como fonte de dados,
dando o mesmo por universalmente aceito; é que na França, em
1970, se havia chegado a uma conclusão positiva sobre a validade
dos dados qualitativos, sendo desnecessária qualquer explicação
detalhada por parte do pesquisador.
Já em 1958, em plena voga dos dados quantitativos, Louis
Chevalier demonstrava, de forma brilhante, o valor deste tipo de
documentação, utilizada, largamente em seu belo estudo "Classes
Laborieuses et Classes Dangereuses". A estrutura econômica e polí-
tica do século XIX na França, diz ele, foi cuidadosamente reconsti-
tuída por historiadores que encontraram farta messe de dados quan-
titativos em que se apoiaram: trabalhos sobre o século XIX contêm
descrições contínuas, homogêneas e cuidadosamente quantificadas
dos aspectos econômicos e políticos. Mas quando se passa para o
domínio social, constata-se que os autores se contentaram em co-
lher nas obras abundantes dos romancistas da época a matéria pri-
ma de seus trabalhos: Balzac, Hugo, Zola, Daudet, Sue etc. O fato
se explica pela existência "de grandes obras literárias que não se
apresentam apenas como documentos irrefutáveis, mas que devem
à magia do verbo o privilégio de reconstituir em permanência situa-
ções desaparecidas e de oferecer, a seu respeito, uma experiência
indefinidamente renovada" (CHEVALIER, 1958, p. 5).
Essa utilização se prende à necessidade de captar ao vivo si-
tuações e comportamentos do passado. Acha Loius Chevalier que
"um parti pris exclusivo de mensuração condenaria os sociólogos a
uma visão abstrata das coisas e a uma descrição muito mais inexa-
ta do que a mais aventurosa das descrições literárias" (CHEVALIER,

165
Coleção TEXTOS. Série 2, n. 10

1958, p. 7). Com relação ao momento presente, o abuso das técni-


cas quantitativas pode ser amenizado pela experiência do próprio
pesquisador: "vivendo no momento e nos ambientes em que os do-
cumentos foram elaborados, autores e pesquisadores comparam,
corrigem, completam os algarismos, transformando-os em situações
reais, restituindo-lhes cor, paixão, existência",. Mas quando nos
voltamos para o passado, a vida e o colorido se anulam na aridez
dos números; então "os testemunhos literários auxiliam a restabe-
lecer o que pode ter existido, animando as mais inertes das estatís-
ticas antigas, dando-lhes uma existência comparável àquela que
nossa experiência contemporânea confere às estatísticas de nosso
tempo" (CHEVALIER, 1958, p. 8-9). É assim que Balzac, Hugo, Sue,
Daudet, Zola, "para não citar senão os maiores", oferecem da vida
de sua época "uma descrição tão completa e tão concreta que os
historiadores abandonam as pesquisas de arquivos aparentemente
inúteis, e de vãs estatísticas" (CHEVALIER, 1958, p. 5-6).
A necessidade de recorrer aos romancistas se origina também
do fato de que os comportamentos conscientes e inconscientes, as
qualidades, os valores, não são forçosamente aqueles que nossa
lógica atual faz supor que sejam, quando raciocinamos somente a
partir de números. E Louis Chevalier dá um exemplo: "as mais ele-
vadas taxas de mortalidade não ocorrem necessariamente nos am-
bientes sociais que se mostram preocupados de forma aguda e cons-
tante com o problema da morte. Muito pelo contrário, a inquietação
relativamente à morte e o sentimento do valor da vida se desenvol-
vem geralmente nas regiões e nas épocas em que a mortalidade está
baixando, e justamente naquelas em que atingem os níveis mais
baixos" (CHEVALIER, 1958, p. 9). São, pois, os documentos qualita-
tivos, entre os quais os romances se encontram em primeira plana,
que permitem uma reconstituição de comportamentos, de opiniões

166
ESCRAVOS E MOBILIDADE SOCIAL VERTICAL

e de valores do passado, dados que não se inscrevem nos documen-


tos estatísticos, mas que persistem nos documentos qualitativos.
De longa data se reconheceu no Brasil a importância de me-
mórias, diários, relatos de viajantes, para o conhecimento de nosso
passado e todavia, a contribuição literária foi quase inteiramente
deixada de lado, apesar da utilização pioneira que deles fez Gilberto
Freyre (1934), tanto em Casa Grande e Senzala quanto em obras
subseqüentes. Aparece tal documentação também nos trabalhos de
Roger Bastide (1943, 1964, 1973) e de alguns de seus discípulos27,
para em seguida se perder quase totalmente. O eclipse aliou-se à
maré crescente da utilização de técnicas quantitativas que, partin-
do da sociologia, se alastraram para a antropologia social, a geogra-
fia humana, a própria história, apelidadas agora de "quantitativas"
para se diferenciarem claramente das formas anteriores. Chegou-se
então ao paradoxo de uma pesquisadora, como a que redige estas
linhas, não ter achado em absoluto necessário justificar, em seu
primeiro trabalho publicado em 1950 (QUEIROZ, 1950), a utiliza-
ção de romances do século XLX como mananciais, e vir a fazê-lo
agora em 1976, vinte e seis anos mais tarde. Diante do desdém de
que tem sido vítimas, é necessário chamar de novo a atenção para
documentos cuja vivacidade, colorido e sabor permitem -uma pene-
tração muito mais a fundo na vida d'antanho. A preferência que
damos a eles sobre os viajantes estrangeiros, tão numerosos a per-
correrem naquela época estas paragens, vem do fato de que não
penetram tão a fundo na vida; captam principalmente os aspectos
que os viajantes consideram "exóticos", isto é, afastados do "nor-

27
Citamos também o excelente trabalho de Gllda Rocha de Mello e Souza (1952); e
os de Florestan Fernandes (1964, 1972). Recentemente Myriam Ellis (1975) fez
uma tentativa para o caso do café.

167
Coleção TEXTOS. Série 2, n. 10

mal" cujo modelo lhes é dado pelo que conhecem em seu próprio
país; sua visão tende, pois a ser mais distorcida do que a dos nacio-
nais. Recorreremos, pois, a dois romances do século XIX como do-
cumentos para a análise da situação da camada escrava.
A questão com que hoje nos ocupamos constitui justamente o
fecho do trabalho a que nos referimos atrás; estudando a estratifi-
cação e a mobilidade sociais nas propriedades do Vale do Paraíba,
entre 1850 e 1888, reparamos a existência de uma mobilidade no
interior da própria camada escrava e chamamos a atenção para a
necessidade de seu estudo. Isto é, a camada escrava não se apre-
sentava como homogênea, monolítica; existiam no seu interior hie-
rarquias e diferenciações de status, cujos fatores era necessário
descobrir. Não pudemos mais voltar ao problema, e não encontra-
mos ainda entre sociólogos e historiadores quem, estudando a es-
cravidão, ou os africanos, trouxesse resposta à nossa pergunta.
Emilia Viotti da Costa (1966, p. 231-241), por exemplo, anali-
sou em sua obra todas as formas do trabalho escravo, feminino e
masculino, tanto no campo quanto na cidade. Nota que o escravo
urbano "gozava inegavelmente de uma situação superior à do par-
ceiro do campo", sendo também maiores suas possibilidades de con-
seguir alforria, melhores as condições de saúde, mais brando o tra-
tamento dispensado pelo senhor. Note-se, porém que a afirmação
de uma "situação superior" para o escravo urbano representa a pró-
pria avaliação da historiadora das condições de vida deste, quando
comparadas com as condições de vida do escravo rural: não signifi-
ca opinião formulada pelos próprios escravos. A hierarquia de valor
dos escravos vai aparecer quando a autora nota a diferença de pres-
tígio de que gozava o "preto de ganho" relativamente ao escravo do-
méstico, ao escravo alugado, ao escravo da roça. Os "pretos de gan-
ho", tanto homens quanto mulheres, eram empregados em lavores

168
ESCRAVOS E MOBILIDADE SOCIAL VERTICAL

de ruas ou em pequenos comércios, de que traziam a paga aos se-


nhores; "para a venda das mercadorias nas ruas eram escolhidas
em geral as negras de melhor aparência", assim como os escravos
de maior inteligência, mais vivos ou fisicamente mais fortes. O es-
cravo alugado a outrem para um serviço qualquer em geral empre-
gado em ofícios, em pequenas indústrias, e o escravo doméstico,
vivendo no interior das oficinas ou das famílias, eram mais vigiados,
mais tolhidos, a dominação se lhes fazia mais penosa do que para
os que se entregavam a afazeres de rua (VIOTTI DA COSTA, 1966, p.
230-232). Nas fazendas não existiam "pretos de ganho" era esta
uma categoria citadina. Os negros do eito e das fainas gozavam de
prestígio bem menor que o escravo doméstico, sendo este último
escolhido pelas qualidades físicas, inclusive a cor mais clara, e pela
inteligência mais viva. Segundo a autora, os escravos domésticos
"pertenciam a um mundo ã parte. Eram invejados e respeitados
como se esta ocupação lhes conferisse um grau hierárquico supe-
rior" (VIOTTI DA COSTA, 1966, p. 276-277). Havia, porém, outras
distinções ainda no interior da camada escrava, conservavam-se as
rivalidades entre as diferentes tribos, que se consideravam umas
superiores às outras; no interior de cada tribo ou "nação", as posi-
ções hierárquicas tradicionais se mantinham, separando superio-
res e subalternos, de tal modo que o "antigo chefe, embora reduzido
à situação de cativo, continuava respeitado" (VIOTTI DA COSTA,
1966, p. 240).
A autora esboça, pois, um largo painel em que se debuxam
situações e circunstâncias, sem aprofundar sua análise, o que tam-
bém não constituía o objetivo de seu belo trabalho. Oferece-nos o
debuxo da estrutura interna da camada escrava, mas não descreve
como funciona. Quanto às relações entre livres e escravos, afirma
que "as duas camadas raciais permaneciam, a despeito de toda a

169
Coleção TEXTOS. Série 2, u. 10

sorte de contatos, intercomunicações e intimidades, dois mundos,


cultural e socialmente separados, antagônicos e irredutíveis um ao
outro" (VIOTTI DA COSTA, 1966, p. 280). É importante ressaltar
esta afirmação da autora; o significado é de que, embora vivesse o
escravo dentro da casa do senhor, em contato íntimo com este no
que diz respeito às relações e à comunicação, apesar disso estavam
afastados um do outro porque pertenciam a duas culturas diversas
e a duas sociedades diferentes. Mais do que isso, eram estas duas
sociedades e culturas antagônicas; o sentido do temo "antagônico"
é o de "agir em direção oposta, de forma surda ou declarada, no
sentido de fazer prevalecer suas pretensões, seus direitos, suas opi-
niões, seus sentimentos", distinguindo-se de "inimigo", que designa
"todo indivíduo que tende a prejudicar ou a arruinar um outro".
"Irredutível" tem o significado daquilo "que não pode ser transfor-
mado de forma a se identificar com outrem". Desta maneira a cama-
da dos homens livres se orientaria em direção oposta à dos escra-
vos, e vice-versa, de tal modo que não haveria como caminharem
ambos de forma paralela, e nem tão pouco se efetuar entre ambas
alguma integração.
A utilização destes dois termos entra em contradição com a
colocação anterior, da existência de "contatos, intercomunicações e
intimidades" entre os dois mundos. Como conciliar estas duas posi-
ções aparentemente irredutíveis? Alguma coisa pode continuar guar-
dando sua perfeita identidade apesar de um contato tão íntimo com
algo que lhe é estranho e oposto? Talvez o exame dos romances, que
significa procurar a vida em sua dinâmica cotidiana, traga a respos-
ta a esta questão, cuja importância sociológica é manifesta. Seu
esclarecimento poderá contribuir para um conhecimento melhor dos
diversos níveis em que operam as nossas análises dos fenômenos
sociais.

170
ESCRAVOS E MOBILIDADE SOCIAL VERTICAL

O trabalho de Emilia Viotti da Costa (1966) é extremamente


bem documentado, mas o recurso às fontes literárias é praticamen-
te inexistente. Apenas numa nota de rodapé é citado o romance Til,
de José de Alencar (VIOTTI DA COSTA, 1966, p. 276). Procura a
autora identificar quando e como a situação do escravo aparece como
"problema" na literatura da época, isto é, investiga por meio da lite-
ratura o despertar da consciência do branco livre a respeito da es-
cravidão, porém aí se detém (VIOTTI DA COSTA, 1966, p. 406-408).
Florestan Fernandes (1972), grande estudioso da posição do
negro na sociedade brasileira, abordou em seus livros o problema
da ascensão sócio-econômica deste; mas seu interesse volta-se para
a verificação do que sucede ao indivíduo de cor na sociedade dos
brancos e no meio destes, não abordando o que ocorria no interior
da camada escrava durante a escravidão (FERNANDES, 1972, p.
45-56; 181-191). Como seu mestre Roger Bastide (1943, 1973) já o
fizera anteriormente, também Florestan Fernandes (1972, p. 181-
191) procurou perscrutar tensões e conflitos dos grupos étnicos re-
velados pela poesia e romances de escritores negros; analisando,
por exemplo, o teatro de Abdias do Nascimento, busca "a compreen-
são do negro e dos véus com que o branco encobre uma realidade
racial pungente", tais obras são para ele "uma documentação para a
análise psicológica e sociológica das tensões e conflitos raciais no
Brasil" (FERNANDES, 1972, p. 192-193). Assim, embora Florestan
Fernandes utilize a literatura como uma documentação válida para
as ciências sociais, nosso problema não foi abordado por ele28.

28
Ao caracterizar a sociedade paulista no momento da abolição, Florestan Fernandes
lança mão de um romance, mas é de Affonso Schmidt (1941), escritor nosso
contemporâneo e cuja obra não é um documento da época, portanto Fernandes
(1964, p. 62, nota 80).

171
Coleção TEXTOS. Série 2, n. 10

Em trabalho anterior, havíamos notado a existência de diver-


sas posições sociais dentro da camada escrava; as qualidades físi-
cas do escravo, sua idade, as tarefas de que era encarregado, cons-
tituíam os elementos que compunham seu status. Escravos de bela
aparência eram separados para serviços caseiros; a idade avançada
podia gerar prestígio e respeito; a importância das diferentes tare-
fas, por sua vez, coloria também a posição do cativo (QUEIROZ,
1950, p. 212). Estes aspectos eram claramente visíveis dentro da
camada escrava e sugeriam a existência de hierarquias internas,
que talvez permitissem até falar em ascensão e descida dos cativos
no próprio interior do seu estrato. Propômo-nos agora verificar como
se configuravam as hierarquias, como se inseriam numa estrutura
de dominação escravocrata, de que forma eram vividas pelos escra-
vos.
Utilizamos dois romances como fonte de dados para nossa
análise, passando-se ambos em fazendas do Vale do Paraíba. Um
deles, "A escrava Isaura", de Bernardo Guimarães (s.d.), foi escrito
com pretensões a libelo contra a escravidão; é um "romance de tese"29.
O outro é um romance de costumes, retratando de forma saborosa
a estrutura social e o modo de viver nas fazendas da época; a pre-
tensão de José de Alencar (s.d.), ao redigir "O tronco do Ipê", não
parece ter sido mais do que contar uma história30. Muito diversos
nos objetivos que se prepuseram os autores, divergem também na
imagem da época, / a sociedade retratada por Bernardo Guimarães
é formal, cheia de etiquetas, falha de espontaneidade; a sociedade
retratada por José de Alencar é de familiaridade cheia de bonomia,

29
A primeira edição data de 1875, quando as atividades abolicionistas já se amplia-
vam.
30
A primeira edição é de 1871.

172
ESCRAVOS E MOBILIDADE SOCIAL VERTICAL

com a espontaneidade sempre presente. Provavelmente ambas as


formas coexistiam, formando variações dentro de um gênero mais
amplo, que era o da família e da fazenda na sociedade escravocrata;
malgrado as diferenças de tonalidade, os dados não se opõem, an-
tes se completam. Notemos ainda que o romance de Alencar foi edi-
tado em 1871 e o de Bernardo Guimarães em 1875.
O primeiro romance citado retrata a condição de inferioridade
do escravo com detalhes; raramente um romance espelha tão bem a
situação de dominação por parte dos brancos e de total subordina-
ção dos cativos quanto este31, que permite verificar toda a sorte de
juízos de valor negativos de que estava envolvida a condição escra-
va, assim como sua situação de nenhuma defesa diante da lei, isto
é, ficando sob o inteiro arbítrio do senhor. O romance é concebido
como um protesto direto contra a vil instituição que ainda persistia
no Brasil; as opiniões depreciativas que patenteia fugiram muitas
vezes à própria consciência do escritor. Assim é que a beleza de
Isaura é descrita como um contraste onde a exclamação de um jo-
vem: "Ó céus! É possível que uma moça tão linda seja uma escrava?
(GUIMARÃES, s.d., p. 144) Dessa forma, a escrava por definição é
feia. Se o escravo por definição é feio, também por definição não tem
caráter; Leôncio, o senhor de Isaura, diz a esta: " - Os instintos do
teu coração são rasteiros e abjetos como a tua condição..." (GUIMA-
RÃES, s.d., p. 96). E Álvaro, o apaixonado de Isaura, o jovem "libe-
ral republicano e quase socialista" descobrindo que sua amada era
uma escrava fugida, assim a descreve: "- Através das lágrimas que
lhe arrancava sua cruel situação, transparecia, em todo o seu bri-

31
Como desejávamos nos prender ao Vale do Paraíba, não analisamos o clássico
livro de Joaquim Manuel de Macedo sobre os escravos, "As vítimas algozes".

173
Coleção TEXTOS. Série 2, n. 10

lho, a dignidade humana. Nada havia nela que denunciasse a abje-


ção do escravo..." (GUIMARÃES, s.d., p. 162).
Desta forma, tanto o cruel e escravocrata Leôncio, quanto o
generoso Álvaro que alforriara todos os seus escravos, estão con-
vencidos de que o escravo é, por definição, um ente vil. O escravo
fisicamente desvalorizado, pois por definição é "feio", moralmente é
um ser desprezível, um miserável. Isaura escapa a essa classifica-
ção devido à sua "natureza privilegiada" (GUIMARÃES, s.d., p. 164),
constitui a exceção que confirma a regra, como revela a exclamação
de Álvaro: " - Pode acaso a tirania de um homem ou da sociedade
inteira transformar em um ente vil, e votar à escravidão aquela que
das mãos de Deus saiu um anjo digno do respeito e adoração de
todos? Não Isaura; eu saberei erguer-te ao nobre e honroso lugar a
que o céu te destinou..." (GUIMARÃES, s.d., p. 183).
Não apenas tem o escravo qualidades negativas, seu próprio
contato é desvalorizante. Ao revelar Martinho a Álvaro que a jovem a
quem dá o braço é cativa, Álvaro (que ignorara até então a qualidade
de Isaura), exclama: "... se alguém pagou-lhe para vir a achincalhar-
me a mim e a esta senhora, diga quanto ganha, que estou pronto a
dar-lhe o dobro para nos deixar em paz". Mais tarde confessa o
rapaz a seu amigo Dr. Geraldo a vergonha por que passou então:

(...) Uma escrava iludir-me por tanto tempo, e por fim ludibri-
ar-me, expondo-me em face da sociedade à mais humilhante
irrisão! Faze idéia de quanto eu ficaria confuso e corrido dian-
te daquelas ilustres damas, com as quais tinha feito ombrear
uma escrava em pleno baile, perante a mais distinta e bri-
lhante sociedade!..." a própria Isaura tem plena noção de sua
ousadia, ao se fazer passar por livre; denunciada sua condi-
ção por Martinho, durante o baile, exclama:"- Meus senhores
e senhoras, perdão! Cometi uma infâmia, uma indignidade

174
ESCRAVOS E MOBILIDADE SOCIAL VERTICAL

imperdoável!... mas Deus me é testemunha que uma cruel


fatalidade a isso me levou. Senhores, o que esse homem diz é
verdade. Eu sou... uma escrava!... (GUIMARÃES, s.d., p. 153;
161; 155).

Está, pois, o escravo no ponto mais baixo da escala social; a


posição de livre torna-se um alvo extremamente ambicionado, pois
é a maneira de escapar a uma situação mais do que penosa,
infamante. Para que Isaura atinja a condição de livre, consente o
pai, que muito a queria, que se case com o português Belchior, dis-
forme e quase débil mental. "Sempre é alguma coisa sair do cativei-
ro e casar-se com um homem branco e livre", raciocina sua senhora
Malvina, apesar de no primeiro momento ter achado que esta solu-
ção constituía "demasiada crueldade" (GUIMARÃES, s.d., p. 202;
206). A existência da alforria colocava dentro da mira do escravo a
possibilidade da ascensão à liberdade, e tornava-a extremamente
ambicionada. Com os olhos fixos nesse objetivo, esquecia o escravo
de lutar pela libertação da coletividade, empenhado que estava em
conseguir por todos os meios alcançá-la individualmente. Porém a
alforria dependia do arbítrio de seus senhores; podia o escravo
comprá-la, mas quem marcava o preço era o senhor. Uma das for-
mas de obtê-la era pelos sentimentos. Todavia se a afeição do se-
nhor podia determinar a alforria do escravo, também levava a negá-
la. Não falamos apenas da paixão que escravas belas despertavam
nos senhores, que delas não se queriam mais desfazer, porém da
própria afeição filial. Ainda relativamente a Isaura, fora ela criada
pela sinhá-velha desde pequenina; a dona da fazenda tanto a ela se
afeiçoara que, apesar da insistência com que a nora lhe pedia que
libertasse Isaura, - "uma tão boa e interessante criatura não nas-
ceu para ser escrava..." - respondia sempre a sogra "... Quer que eu
solte minha patativa? E se ela transviar-se por aí, e nunca mais

175
Coleção TEXTOS. Série 2, n. 10

acertar com a porta da gaiola?... Não, não, minha filha; enquanto eu


for viva, quero tê-la sempre bem pertinho de mim, quero que seja
minha, e minha só." (GUIMARÃES, s.d., p. 36; 65).
Desta forma, a alforria era totalmente dominada pelo senhor,
que decidia a seu bel prazer do destino dos cativos e cativas. Mesmo
no caso de ter tratado um preço para a libertação, podia marcá-lo
tão elevado que se tornava extremamente difícil chegar à posse de
tal soma. Insistindo o pai de Isaura, português livre, na compra da
liberdade da filha, o senhor velho pedia por ela "exorbitante soma",
e dizia: "- Não há dinheiro que a pague; há de ser sempre minha".
Não parecia, pois, ser do interesse dos cativos de ambos os sexos
uma aproximação com os senhores que determinasse apego dema-
siado, uma vez que essa relação podia se transformar em insuperá-
vel obstáculo no caminho da liberdade. As condições em que se
alcançava a alforria são desfarte, os melhores indicadores do grau
extremo de alienação a que estavam sujeitos os escravos, cuja pes-
soa, trabalho, liberdade estavam na dependência total da camada
livre.
Estes aspectos, no entanto, já têm sido bastante analisados
entre nós; o que não se analisou é como se compunha o interior da
camada escrava, que em geral tem sido implicitamente considerada
como formando um conjunto compacto e monolítico. Interessa, pois,
agora estudar esta própria camada escrava em seu interior, e não
apenas nas relações com os senhores. Já tem sido observada a exis-
tência de tarefas diversas reservadas aos cativos; no meio rural, a
maior quantidade deles trabalhava na roça, enquanto na cidade o
maior número constituía o que se chamava de "negros de ganho",
ocupados em diversos misteres cuja féria era entregue ao senhor;
tanto no meio rural quanto no meio urbano, eram menos numero-
sos os escravos que se ocupavam com o trabalho doméstico.

176
ESCRAVOS E MOBILIDADE SOCIAL VERTICAL

No primeiro romance citado, "A escrava Isaura", permite ver


que as tarefas formam uma hierarquia de prestígio em que, no pon-
to mais baixo está o trabalho na roça, tanto para homens quanto
para mulheres; é este, pois, o trabalho mais desvalorizado. A excla-
mação de Isaura: "... ponham-me na roça de enxada na mão, des-
calça e vestida de algodão..." (GUIMARÃES, s.d., p. 209) quando lhe
querem fazer aceitar o casamento com um quase débil mental, mos-
tra bem o desapreço de que estava rodeada tal atividade. No caso
das mulheres, acima do trabalho de roça estava a tarefa de fiandei-
ras, fabricando tecidos grosseiros de que necessitava a fazenda, "no
meio do sussurro das rodas que giravam, e das monótonas cantaro-
las..."; pelas conversas que mantêm entre si as escravas, verifica-se
que esta atividade, em que se encontravam mais livres e menos
vigiadas, era mais valorizada do que ir "pra roça puxar enxada de
sol a sol, ou pra o cafezal apanhar café", duas tarefas exteriores à
casa grande, que tornavam o contato das escravas com a camada
superior mais distante (GUIMARÃES, s.d., p. 70-72).
No interior da casa, havia também pelo menos dois status
distintos para as mulheres, do ponto de vista do trabalho; as ativi-
dades ligadas à cozinha eram consideradas inferiores às atividades
ligadas à sala. A condição de "escrava de sala" era alcançada pelas
mu camas habilidosas e inteligentes; nem todas porém davam inte-
gralmente conta do recado como se nota nesta observação do pajem
André à nova mucama Rosa: "Bem m ostras que não nasceste para
a sala; o teu lugar é na cozinha" (GUIMARÃES, s.d., p. 196). A "es-
crava de sala" vivia "no meio de sedas e flores e águas de cheiro"
(GUIMARÃES, s.d., p. 77) gozando de uma posição que não apenas
dava lugar à inveja, mas também a tramóias, calúnias e pequenas
conspirações para se conseguir alçar até a ela. Assim, a mucama
Rosa caluniava Isaura junto à sinhá, afim de desbancá-la e de ele-

177
Coleção TEXTOS. Série 2, n. 10

var à situação de "escrava de sala" que Isaura ocupava (GUIMA-


RÃES, s.d., p. 89-90). A hierarquia de prestígio do trabalho mascu-
lino acompanhava a do feminino, o ponto mais alto sendo o "pajem"
que também se encarregava de tarefas domésticas interiores, co-
cheiros e moços de estrebaria eram inferiores a ele, mas ficavam
acima dos escravos do eito, os quais compunham a camada inferior
(GUIMARÃES, s.d., p. 196).
Num e noutro caso, a valorização estava ligada ao tipo de tra-
balho, a partir do trabalho braçal - o da roça - mais pesado e consi-
derado inferior, e subindo até o trabalho doméstico, muito mais
leve. Esta valorização crescente à medida que se sobe do trabalho
braçal para uma atividade manual mais disfarçada, repetia a hie-
rarquia de prestígio das ocupações que se encontrava na própria
camada livre. Rico era o fazendeiro possuidor de muitos escravos, o
qual não trabalhava e sim mandava; os escravos eram suas mãos e
seus pés, como já foi dito algures. A riqueza de um fazendeiro não se
media pela extensão de suas terras, media-se pela quantidade de
escravos que trabalhavam para ele32. O sitiante, que cultivava a ter-
ra sozinho ou com o auxílio da família, gozava de pouco prestígio;
era obrigado a executar tarefas que, no caso de fazendeiros ricos,
recaíam exclusivamente sobre os cativos. Os homens brancos que
não possuíam terras vendiam seu trabalho e recebiam uma paga; o
trabalho que executavam não era, porém, o da roça - ou era de
guarda-livros, escriturando os gastos da fazenda, ou era o de feitor,
supervisionando as tarefas dos cativos. O fato de esses funcionários

32
O francês Loius Couty, que estudava aqui os problemas do café, escrevia no fim
do século: "O valor hipotecário das instalações agrícolas no Brasil (...) é mínimo;
ele não chega de modo algum a se igualar com o valor de compra de rebanho
humano. Por aí se vê que não leva em conta nem as terras, nem as culturas, nem
as construções, nem os diversos meios de exploração" (COUTY, 1884, p. 88).

178
ESCRAVOS E MOBILIDADE SOCIAL VERTICAL

não trabalharem manualmente prestigiava-os. Notaram muitos via-


jantes e memorialistas a má vontade dos homens livres em executar
trabalho na roça recebendo salário, o que levavam na conta de indo-
lência, de gosto pela vadiagem; na verdade, não queriam eles desce-
rem ao nível de escravos, degradando-se com as tarefas despresti-
giadas que, além do mais, pouco rendiam monetariamente.
O exercício ou não de trabalho manual parecia ser, assim, um
dos sinais mais evidentes da posição mais ou menos elevada dos
indivíduos na escala sócio-econômica, tanto entre livres quanto en-
tre escravos. Subir na escala social significava passar da necessida-
de de trabalhar na roça sem nem mesmo a liberdade de estabelecer
seu próprio horário de trabalho, para o prestígio o estágio em que o
próprio indivíduo determinava o momento de seu trabalho na roça
(como no caso dos sitiantes), e para estágios em que os trabalhos
não eram mais braçais, acercando-se cada vez mais da posição de
comando sem nenhuma execução, que era a posição do fazendeiro
(QUEIROZ, 1950, p. 207). Não havia uma linha limitando inexora-
velmente a posição do escravo, que não era nem dono de seu traba-
lho e do seu tempo, dos indivíduos livres possuidores do seu traba-
lho e do seu tempo; é que o escravo podia também, mediante a
alforria, ascender ã liberdade. Não é de se admirar pois que, efe-
tuando a passagem de escravo a livre, procurasse este não mais
voltar às tarefas de roça, que eram consideradas específicas do cati-
veiro.
A hierarquia de trabalho no interior da camada escrava regia-
se, pois, pelo mesmo sistema de valores que acabamos de analisar.
O mais desvalorizado era o trabalho da roça; tanto para mulheres
quanto para homens, as tarefas eram mais prestigiadas à medida
que se afastam desta posição inferior. No topo da hierarquia do tra-
balho escravo estavam as lides não apenas interiores à casa, mas

179
Coleção TEXTOS. Série 2, u. 10

diretamente ligadas aos "aposentos nobres", à "sala de visitas", ao


salão de festas.
Desta forma, não havia solução de continuidade entre a esca-
la de prestígio das ocupações dos homens livres e a dos escravos,
nem no que diz respeito à possibilidade de passagem da camada
escrava para a camada livre, nem nos valores mais aparentes que
distinguiam posições hierárquicas dentro de cada nível33. Livres e
escravos formavam um mundo em que as ocupações eram regidas
pelos mesmos valores. Deste ponto de vista, o que se passava na
camada escrava pode ser considerado um prolongamento do que ocor-
ria na camada livre. Os mesmos critérios de valor agiam como ele-
mentos de diferenciação por toda a escala social de alto a baixo. Ca-
mada livre e camada escrava se integravam como duas partes
diferentes, unidas, quanto ao trabalho, por idêntica tábua de valores.
A existência de hierarquia não significa forçosamente mobili-
dade dos indivíduos subindo e descendo nas diversas posições; po-
dem ficar por toda a sua vida ligados a um determinado status,
imobilizados portanto no mesmo lugar. J á vimos que tal não acon-
tecia com a condição de escravo, pois o indivíduo podia obter ou
comprar sua liberdade e se elevar, de cativo, a livre. Não estamos
aqui argumentando sobre a facilidade ou a freqüência com que a
passagem podia se efetuar; até agora não há trabalhos suficientes
para que possamos aquilatar como tal se dava, e lidamos sempre
com opiniões mais ou menos impressionistas. Queremos saber, isso

33
Essas características da camada escrava não nos deixam chamá-la de "casta",
como tem sido comumente feito por alguns autores. A casta é uma situação de
imobilidade social e ocupacional, caracterizada por proibições matrimoniais e de
comensalidade, que faltam totalmente ao caso brasileiro. Para a definição de cas-
ta, ver Bose (1974).

180
ESCRAVOS E MOBILIDADE SOCIAL VERTICAL

sim, quais seriam as regras formais e informais do "jogo", em ter-


mos da mobilidade dos cativos dentro de sua própria camada.
A existência desta mobilidade é atestada pelo próprio enredo
do romance "A escrava Isaura"; filha da mucama favorita de sua
sinhá-velha, fora Isaura por esta educada e, passando para a posse
da nora, permanecera em sua posição de "escrava de sala" até que a
sinhá-moça descobrira a paixão do marido pela bela cativa. Foi en-
tão remetida para a condição de fiandeira, com a ameaça de ir para
a roça trabalhar na enxada. Descreve Bernardo Guimarães (s.d.) a
tristeza desta descida social; acostumada na sala, era "degradada
do posto que ocupava para toda a vida junto de sua senhora", pas-
sando a trabalhar entre "paredes enfumaçadas que só tresandam a
sarro de pito e morrão de candeira" (p. 76-77; 80). E enquanto Isau-
ra decaía de sua posição elevada anterior, uma outra escrava que se
considerava sua rival, Rosa foi por sua vez alçada ao "status de
sala", pela vontade e escolha de sinhá-moça Malvina, a mesma que
promovera a descida de Isaura.
Ascensão e rebaixamento apresentam-se aqui dominados pela
vontade do senhor ou da senhora. A grande afeição da sinhá-velha
por Isaura elevara-a para uma situação de trabalho mais prestigia-
da; o ciúme de sinhá-moça relegara-a a uma posição inferior. O
arbítrio dos senhores era o motor da ascensão e da descida; se a
afeição elevava os cativos, a raiva, o ciúme, o ódio, podiam ser fato-
res de rebaixamento.
O aparecimento de amizade entre esses indivíduos tão afasta-
dos na escala sócio-econômica era favorecida justamente pela exis-
tência de escravos domésticos; o trato cotidiano era constituído de
relações que provocavam sentimentos se estendendo da simples afei-
ção e amizade até as paixões violentas, e percorrendo também toda
a gama da afetividade negativa. No romance de Isaura, a grande

181
Coleção TEXTOS. Série 2, n. 10

afeição da sinhá-velha pela mucama de estimação levara-a a pro-


mover a ascensão da filha da cativa; a posição desta última como
"escrava de sala" colocando-a constantemente diante das vistas de
Leôncio, desenvolveu neste violenta paixão (GUIMARÃES, s.d., p.
26). Em "O tronco do Ipê", de José de Alencar, os velhos Benedito e
Chica desfrutavam posição e privilégios especiais na família do Ba-
rão da Espera devido à afeição existente entre eles e as crianças da
casa, afeição que nascera graças à posição de ambos na domestici-
dade: "Benedito, como fora pajem grande do pai de Mário em crian-
ça, considerava-se até certo ponto avô do menino. Da mesma forma,
tia Chica que tinha criado a mãe de Alice, olhava esta como se fosse
em parte sua netinha" (ALENCAR, s.d., p. 43). A afetividade consti-
tuía pois fator de ascensão ou de descida, porém totalmente subor-
dinado ao bel prazer do senhor.
Outros fatores concorriam também para que o escravo, cha-
mando a atenção do dono, desencadeasse o processo de ascensão.
Assim, Isaura tinha "uma cor linda", fazendo sua senhora Malvina
exclamar: "... ninguém dirá que gira em tuas veias uma só gota de
sangue africano". Rosa, que substituíra Isaura, era mulata quase
branca, bonita, cujos "cabelos negros e anelados podiam estar na
cabeça da mais branca fidalga de além-mar" (GUIMARÃES, s.d., p.
70-71). O pajem André, por sua vez, era "um mulato ainda novo,
esbelto e aperaltado", o que significava "de boa presença", nos ter-
mos da época (GUIMARÃES, s.d., p. 74). Vemos, pois, que a cor
mais clara, os traços menos negróides, constituíam fator de peso na
ascensão de escravos e escravas, pois chamam para eles a atenção
valorizadora dos senhores.
Tudo isto está a mostrar que os cânones de beleza na camada
escrava eram também estabelecidos pelos donos e um trechinho de
"O tronco do Ipê" indica como os escravos haviam interiorizado es-

182
ESCRAVOS E MOBILIDADE SOCIAL VERTICAL

sas valorações. Tendo a mucama Eufrasina brigado com o pajem


Martinho, ofende-o chamando-o de "tição", ao que responde o mole-
que: " - Tição! ... tição é seu pai e você, negro cambaio e bichento
que veio lá de angola... Cada beiço assim! Ih! Ih! Cada beiço assim,
como orelha de porco... Tapuru34 era mato... chegava a sair pelos
olhos". Diante de tantas injúrias, "a Eufrasina, cega de raiva, ati-
rou-se ao pajem..." (ALENCAR, s.d., p. 172). Vê-se com o reinava
entre os próprios escravos a desvalorização da cor negra, dos traços
negroides e da própria origem africana, confirmando a valorização
da cor clara, dos traços caucasóides, já encontrados atrás do ro-
mance de Bernardo Guimarães. Novamente estamos diante de algo
que decorre da camada superior dominante, que ela impõe à cama-
da subordinada. Os elementos que concorriam para a ascensão ou
a descida não eram, pois, específicos da camada inferior, não ha-
viam surgido nela espontaneamente, mas lhe foram sutilmente im-
postos, e se transformaram, ao que tudo indica, em valores total-
mente aceitos pelos cativos.
A posição mais elevada do cativo ou da cativa muitas vezes se
transmitia aos filhos. Isaura atraiu a atenção de sua sinhá-velha
em primeiro lugar por ser filha de uma mucama favorita (GUIMA-
RÃES, s.d., p. 32); em "O tronco do Ipê", Martinho era pajem porque
filho da tia Vicência, cozinheira estimada pela família do Barão da
Espera; nos dois romances a posição melhor da mãe levava o filho a
um status melhor na hierarquia do trabalho (ALENCAR, s.d., p. 124).
No mesmo romance, Benedito tornou-se pajem de José Siqueira por
ser seu "colaço", isto é, filho de sua ama de leite (ALENCAR, s.d.), a
posição de ama de leite sendo sempre importante nas famílias. Ha-
via, pois, uma espécie de "herança" de posição mais elevada na ca-

34
Tapuru = bicho de fruta.

183
Coleçno TEXTOS. Série 2, a. 10

mada escrava: o filho ou parente de um escravo melhor colocado na


hierarquia apresentava chances de continuar nessa posição.
Esse critério era também paralelo ao que existia nas camadas
superiores e livres: nestas, embora estivesse a sociedade em forma-
ção e por isso fosse ainda fluída, dando aos indivíduos oportunida-
des reais de ascensão através da audácia nos negócios, do casa-
mento rico e da aquisição de fortuna, mesmo assim a conservação
de status por herança era uma realidade. No interior da camada
escrava repetia-se o mesmo. Novamente surge a influência da ca-
mada livre e dominante, penetrando no próprio interior da camada
escrava e regulamentando-a; pois são os donos que decidem galar-
dear o escravo preferido através de sua descendência, conservando
a estes uma posição melhor. O que era inerente à camada superior
- a "herança da posição sócio-econômica, existe também na infe-
rior, porém ou como reflexo, ou como decorrência; portanto sua
origem não estava na camada inferior, o critério não era dela origi-
nado, era exterior a ela".
Outros fatores de ascensão social eram a inteligência, a habi-
lidade, a capacidade do escravo, que o designavam aos olhos do
senhor para tarefas mais delicadas que não o mesquinho trabalho
braçal. Compreende-se assim, comentário do pajem André com re-
lação à mucama Rosa: "Bem mostras que não nasceste para a sala,
o teu lugar é na cozinha" (GUIMARÃES, s.d., p. 196). Em "O tronco
do Ipê", as mucamas "de estimação" Eufrosina e Falicia demonstra-
ram capacidades que não eram das "negras da cozinha" e muito
menos das negras de roça. Em "A escrava Isaura" o mesmo se ob-
servou em relação a Isaura e Rosa. Estes cativos de maior capacida-
de não eram forçosamente os mais claros. Em "O tronco do Ipê", a
tia Chica foi "mãe de criação" da Baronesa da Espera; sua cor escu-
ra não pesara na sua ascensão, porque as qualidades e capacidade

184
ESCRAVOS E MOBILIDADE SOCIAL VERTICAL

que apresentava foram julgadas mais importantes. O arbítrio do


senhor se fazia novamente presente; ele era quem decidia quando
as capacidades deveriam ter maior peso, quando a cor e o que se
definia como "beleza" passariam para a primeira plana.
Finalmente, a origem brasileira do escravo acarretava para ele
maior prestígio do que a origem africana. Em "O tronco do Ipê",
entre as ofensas que o pajem Martinho dirigiu à mucama Eufrosina,
está a origem africana do pai desta, "negro cambaio e bichento que
veio lá de Angola", o golpe é rude, a mucama espuma de ódio (ALEN-
CAR, s.d., p. 19-21)35. Estava implícita nesta injúria a opinião de
que o negro nascido no Brasil, o negro crioulo, era "civilizado", en-
quanto o recém-desembarcado ainda estaria mergulhado no em-
brutecimento. Submetendo-se ainda que, em contato cotidiano des-
de a mais tenra infância com o branco, o negro aqui nascido teria
perdido a selvageria. O negro recém-chegado, vivendo entre seus
iguais, todos bárbaros, era ignorante dos usos e costumes mais
adiantados, aprendia cora dificuldade o novo idioma e se comunica-
va no que se chamava "meia língua", o que era interpretado como
provas visíveis e constantes de sua incultura. Ainda aqui os valores
decorriam da camada livre e branca, e eram acatados aparentemen-
te sem hesitação pelos cativos.
Desta maneira, afeição do senhor, cor, beleza, habilidade, fi-
liação, origem brasileira, constituíam fatores que ora promoviam,
ora simplesmente auxiliavam a ascensão dos escravos na hierar-
quia de posições sociais internas de sua própria camada. Esta hie-
rarquia se estabelecera a partir do prestígio e desprestígio de tarefas
e trabalhos. Correspondendo também a valores imperantes em ge-
ral na sociedade, eram estes valores adaptados à camada escrava. A

35
Ver essas páginas e, de um modo geral, o romance todo.

185
Coleção TEXTOS. Série 2, n. 10

origem e o funcionamento da hierarquia interna da camada escrava


não eram específicos a esta camada, mas originários da camada
livre. Esta determinava calores, vias de ascensão, mobilidade real
dos cativos em tal estrutura. Como se vê, a dominação não podia
ser mais total, nem a alienação do escravo maior. Não podemos,
porém, denominar essa situação de inferioridade de "marginal" à
sociedade brasileira. Pela sua própria constituição e funcionamento
estava ela profundamente integrada à mesma, como parte indis-
pensável de sua configuração. Parte indispensável porque era ela
que lhe dava o caráter essencial: uma vez abolida a existência do
escravo, a sociedade brasileira deixou de ter sua antiga configura-
ção para apresentar uma outra, definida por novas relações entre
superior e inferior que não eram mais as de senhor e escravo.
A possibilidade de ascensão e descida do escravo inteiramen-
te subordinada a vontades externas ao grupo, tinha uma função
precisa de defesa da hierarquia vigente baseada na divisão em livres
e escravos: conhecedor de que há possibilidades de ascensão, o es-
cravo ambicionava tornar-se um dos favorecidos pela sorte e perdia
a noção de que somente a minoria ínfima de cativos conseguia su-
bir. A quantidade dos que subiam estava também limitada pela he-
rança de posições sociais, que vimos existir no interior da própria
camada escrava, mas esta circunstância também não atingia a cons-
ciência do escravo. Desse modo, cativos e cativas se empenhavam o
mais possível por uma ascensão individual, esfumando-se a noção
de que formavam uma coletividade subordinada e duramente domi-
nada. Isto é, a esperança de ascensão, que os brancos sem cessar
alimentavam mas que também dominavam e controlavam, era im-
pedimento para que entrasse em expansão uma consciência de co-
letividade dominada, conscientemente oposta e antagônica à dos
senhores, em seus objetivos e interesses. A mobilidade social inter-

186
ESCRAVOS E MOBILIDADE SOCIAL VERTICAL

na na camada escrava tornava-se assim, um instrumento de con-


trole manipulado pelo senhor.
Além dessas escalas externas ao estrato escravo a ele impos-
tas e que passavam a funcionar em seu interior, outras existiam
que lhe eram especificadas. A idade avançada era em geral fator de
importância entre os escravos, e podia levá-los a posições de lide-
rança. Assim, o rancho das fiandeiras em "A escrava Isaura" era
comandado por uma "crioula velha" d indiscutível prestígio junto às
demais (GUIMARÃES, s.d., p. 79). No colorido relato dos preparati-
vos para a festa de Natal, que encontramos em "O tronco do Ipê",
eram escravas idosas que funcionavam na cozinha (ALENCAR, s.d.,
p. 123-142), idade e experiência dando-se as mãos parta alçar uma
negra a esta posição mais elevada. A etiqueta indicava a posição de
prestígio do escravo idoso com relação aos demais, ao seu nome
adicionava-se um "tio", ou "pai" ou "tia" ou mãe", mostrando sua
condição e exigindo respeito. Os brancos dominantes também em-
pregavam os mesmos apelidos para com os escravos demonstrando
reconhecer o prestígio da idade.
Na verdade, tanto a sociedade africana de que provinha o es-
cravo quanto a sociedade brasileira em que viera se integrar consti-
tuíam configurações em que a idade era fator de prestígio e de eleva-
ção de status; os jovens tinham em geral posição de subordinação
relativamente aos mais velhos, constituindo rara exceção o contrá-
rio. Se esse valor africano aqui se conservou, foi sem dúvida porque
houve convergência entre ele e o valor proveniente de Portugal. So-
ciedades que geralmente valorizavam a idade, a posição de escavo
idoso tendia a melhorar independentemente dos valores dos bran-
cos e se impondo a estes. No entanto, aqui a contradição também
existia: para os brancos, os escravos jovens e adultos tinham valor
econômico superior ao dos velhos. Já vimos atrás que essa socieda-

187
Colecno TEXTOS. Série 2, n. 10

de, em sua configuração mais geral, estava dominada por valores


econômicos que a definiam. O escravo velho podia ser menospreza-
do e abandonado pelos brancos porque não era mais uma força
produtiva; mas podia ser também prestigiado e gozar de privilégios
justamente porque era idoso. Nos dois romances, a idade aparece
como fator de prestígio, tanto os negros, como nas relações de bran-
cos e negros. O que conhecemos dessa situação leva-nos a crer que
a idade seria sempre fator de prestígio entre os negros, reservando-
se a ambigüidade (ora valorização, ora menosprezo do escravo ido-
so, para as relações entre os brancos e negros).
A demonstração de ligação estreita com o sobrenatural, que
lhe permitia manipulações de feitiços, era outro fator de elevação e
de prestígio do escravo. Em "O tronco do Ipê", os dois moradores
sucessivos da cabana junto ao boqueirão, Pai Inácio e, em seguida,
por morte deste, Pai Benedito, desfrutavam de respeito e temor en-
tre negros e brancos, cuja origem estava em seu poder mágico "para
cura de certas enfermidades, para descobrimento de coisas perdi-
das, e realização de ocultos desejos". Pai Inácio fora feiticeiro volta-
do para o mal; Pai Benedito porém "era um feiticeiro de bom cora-
ção. Em vez de usar seu poder para soprar intrigas e desavenças, ao
contrário servia de conciliador em todas as brigas que se davam
entre os pretos da fazenda; aconselhava os parceiros em casos de
aperto por alguma falta; apadrinhava o fujão perante o antigo se-
nhor que o tinha em grande estima e muitas vezes o ia visitar em
sua cabana. Quanto ao novo (senhor), não o tratava com a mesma
amizade, mas rara vez lhe recusava o que pedia" (ALENCAR, s.d., p.
43). Este trecho é muito significativo porque mostra o prestígio da
magia atuando ao mesmo tempo junto aos escravos e junto aos
senhores, dando ao mandingueiro prestígio e poder. Era o sobrena-
tural "selvagem"36 se imiscuindo na estrutura de mando, a ele se

188
ESCRAVOS E MOBILIDADE SOCIAL VERTICAL

opondo o vigário que representava o poder sobrenatural domestica-


do da Igreja Católica.
Geralmente magia e idade se associavam; feiticeiros e feiticei-
ras tendiam a ser velhos e experimentados. Também se lhes associ-
avam fealdade e certo aspecto repulsivo. Mas havia exceções. As-
sim, "como Benedito era um bonito negro, de elevada estatura e
fisionomia agradável, as beatas inventaram outro Benedito à sua
feição. A dar-se crédito à palrice das tais velhas, aquele preto bem
apessoado, em sendo meia noite, virava anão com uma cabeça enor-
me, os pés zambros, uma corcunda nas costas, vesgo de um olho e
torto do pescoço. Era o pacto que tinha feito com seu mestre: de não
parecer de dia qual era à noite" (ALENCAR, s.d., p. 42). Os indiví-
duos de poderes sobrenaturais ocupavam, então, uma posição ele-
vada dentro da camada, gozavam de prestígio e poder até mesmo
junto aos senhores. Todavia, não era qualquer um que podia se
elevar a tanto, por um lado, e, por outro lado, estamos diante de
uma posição que não era oriunda do arbítrio da camada livre. Pelo
contrário, a fonte desse poder jazia no próprio âmago da camada
escrava, todo o saber da feitiçaria provindo as mais das vezes da
cultura africana37.

36
Estamos utilizando "selvagem" no sentido que lhe é dado atualmente em sociolo-
gia e que opõe a "regulamentado". É selvagem toda a manifestação que não pare-
ce ter uma regulamentação explícita, que encerra uma componente de criativida-
de que surge com certa constância, embora esse aparecimento não se dê segundo
normas claras.
37
As Visitações do Santo ofício às partes do Brasil revelam a existência, no início da
colonização, de bruxos e feiticeiros no meio dos brancos, muitas vezes de origem
judia ou árabe. Mas à medida que avultava o contingente escravo, a magia de
origem européia tendia a desaparecer, substituída pela magia de origem africa-
na. Constituía esta uma forma de defesa do negro oprimido e também de ataque
contra os livres. Mas sua ambivalência é notória, já que se exercia também con-
tra os próprios escravos.

189
Coleção TEXTOS. Série 2, n. 10

O feiticeiro impunha-se ao senhor; sobre ele, o senhor nao


mandava, muito ao contrário via-se obrigado a compor com ele, o
que a citação do texto de José de Alencar também deixa facilmente
perceber. Dissemos que não era qualquer um que conseguia alcan-
çar a posição aceita reconhecida e temida de mandingueiro; para
tanto era necessário que o indivíduo desse provas de sua capacida-
de nesse setor, e tal capacidade pressupunha vocação. Por esse
motivo também a situação interna do feiticeiro na escla social esca-
pava do comando do senhor. Qualquer senhor tinha sobre o escrvo
poder de vida e de morte; todavia o escravo feiticeiro, devido a seus
poderes sobrenaturais, passava a ter sobre o senhor poder de vida e
de morte, não reconhecido por lei, mas "de facto". A força de que
assim gozava o escravo era profundamente perturbadora aos olhos
dos homens livres; era uma força que contrariava a ordem estabele-
cida, pois que erguia acima do senhor aquele que ocupava a posição
mais inferior na escala social. Mesmo quando orientada para o bem,
esta força não podia deixar de ser encarada como negativa, perversa,
destruidora; quem a possuia se enquadrava também nestas desqua-
lificações, buscava-se arredá-lo do convívio votidiano com os demais.
Tanto Pai Inácio quanto Pai Benedito habitavam fora da senzala, lon-
ge da casa-grande; a distância e o isolamento constituindo formas de
se lutar contra o perigo que seu contato apresentava.

A posição anteriormente ocupada pelo cativo em sua tribo afri-


cana era fator de elevação do mesmo aos olhos de outros cativos.
Emilia Viotti da Costa (1966) demonstrou como o antigo chefe tri-
bal, o "rei" ou "príncipe", trazido escravo para estas plagas, era ob-
jeto de respeito e de um tratamento privilegiado por parte daqueles
que se haviam tornado seus irmãos de cativeiro. Todavia, os roman-
ces que analisamos não apresentaram esta condição, pois ela não
figurava nos costumes que buscaram relatar. Malgrado essa falha

190
ESCRAVOS E MOBILIDADE SOCIAL VERTICAL

de nossa documentação, nao podemos deixar de registrar a existên-


cia desta posição elevada dentro da camada escrava, uma vez que
conhecemos sua existência. Tanto mais que ela também escapava
ao arbítrio dos brancos e tinha origem no interior da própria cama-
da inferior. Mais ainda, os brancos não a aceitavam, não a reconhe-
ciam como válida e tudo faziam para contrariá-la e destruí-la. Pois o
rei negro trazido em cativeiro podia congregar em torno de si seus
antigos vassalos para atacar os senhores. A reunião nas fazendas
de indivíduos de origem tribal diversa constituía um dos instru-
mentos para quebrar as estruturas de poder tribal, que pretendes-
sem se transportar tais e quais da África ao Brasil. Desta forma
para os brancos, o escravo de origem "nobre" era igual a outro qual-
quer.

A análise destes dois romances permitiu-nos, assim, detectar


a heterogeneidade interna da camada escrava, não apenas no que
diz respeito ao prestígio das ocupações, mas também em função de
outros fatores de diferenciação de posições internas. As ocupações
dava lugar à formação de "camadas" no interior do setor escravo. O
termo "camada" encerra uma conotação de "porção" de "quantida-
de" dispostas em sedimentos, formando uma estratificação. Nas fa-
zendas, vários indivíduos ocupavam a posição de "pajem" e de
mucamas, superpostos a cocheiros e cozinheiras; estes eram supe-
riores às fiandeiras, as quais, por sua vez ficavam acima dos traba-
lhadores braçais. Da mesma forma, saindo do setor escravo, havia
pluralidade de sitiantes, de feitores, de escrivães, de guarda-livros,
de senhores, dispostos em segmentos estratificados. Existia, pois,
uma formação em estratos, se estendendo da parte livre até a parte

191
Coleção TEXTOS. Série 2, ti. 10

inferior do conjunto escravo. O indicador mais claro da posição do


indivíduo nessa estratificação geral parecia ser o tipo de trabalho
efetuado que se ligavam indubitavelmente ao fato econômico. Po-
der-se-ia falar em continuidade entre estas camadas, uma vez que
tantas vezes se afirmou existir um fosso afastando o setor livre do
setor escravo? Os dados que analisamos permite-nos admitir que o
fosso seria apenas aparente; pois o estrato escravo era de tal forma
dependente, em sua formação e em seu funcionamento, do estrato
livre, que só se pode concebê-lo como ligado a este e não como dele
afastado.
De fato, de uma camada a outra, no interior do segmento es-
cravo, existia ascensão e rebaixamento de indivíduos, e seu proces-
so se apresentou em nossa análise inteiramente subordinada aos
valores, à autoridade, ao arbítrio do estrato superior. Ascensão e
rebaixamento não se faziam ao deus-dará e, sim, segundo certos
canais, termo utilizado em sentido figurativo para designar os cami-
nhos mais fáceis que levavam à ascensão. A afeição dos sinhôs e
das sinhás, a cor e a beleza ou, noutras palavras, os elementos
estéticos, a inteligência e a habilidade de cativos e cativas, a "heran-
ça" pelo escravo de uma posição mais elevada dentro de sua cama-
da, a origem brasileira (ou crioula, como então se dizia): consti-
tuíam vias que levavam de uma camada mais baixa para porém
determinadas de fora e não originárias de dentro. Por sua vez, o
rebaixamento da camada elevada para a inferior se fazia em geral
em função das relações afetivas com o sinhô e a sinhá e tomava
então o aspecto de castigo; novamente a determinação era externa à
camada escrava. Também a idade podia constituir um fator ora de
elevação, ora de rebaixamento; tratava-se de um elemento ambí-
guo, como vimos, mas de um elemento específico aos escravos; no
entanto, o arbítrio do senhor decidia de sua direção.

192
ESCRAVOS E MOBILIDADE SOCIAL VERTICAL

Repetimos, todas estas vias de ascensão ou rebaixamento se


encontravam dominadas pelos senhores, e, com exceção da idade,
eram por eles definidas. Somente outros dois elementos escapavam
da dominação: as posições tribais elevadas, de um lado, e de outro
lado a afirmação de poderes mágico-sobrenaturais. No entanto, es-
sas qualificações não definiam camadas; o antigo "rei" era um indi-
víduo, não era uma coleção de indivíduos que reunidos comporiam
uma camada; o feiticeiro, o mandingueiro era também um indivíduo
e não uma reunião de indivíduos. Dessa forma, a antiga posição
elevada tribal e o poder mágico, qualificando ambos somente um
indivíduo que desfrutava de prestígio e de respeito dentro do nível
inferior a que fora relegado com seus semelhantes, não esboçavam
caminhos independentes de ascensão de uma camada à outra, mas
sim definiam as formas de liderança no sentido restrito de "condu-
tores de homens", no interior do setor escravo. Mandingueiros e
antigos chefes, detinham autoridade, eram prestigiados, eram obje-
to de respeito por parte dos demais. A idade, que podia agir como
via de ascensão social, também constituía elementos definidos de
liderança. A liderança apresentava-se como pessoal, no caso do fei-
ticeiro ou no caso do escravo mais velho exercendo função de con-
trole sobre o grupo. Mas a liderança do antigo chefe tribal, essa era
do tipo institucional, uma vez que suas qualidades pessoais não
determinavam a autoridade que exercia, a qual decorria do antigo
cargo ou investidura que possuíra no país de origem. Existia, pois,
no interior da coletividade escrava, tanto um fenômeno da formação
de camadas, Quanto um fenômeno da liderança; esta coletividade
era internamente diferenciada em camadas de níveis diversos e nela
existiam chefias, isto é, posições individuais de grau elevado: os
ocupantes dessas posições sendo detentores de autoridade tinham
funções de direção e de controle sobre seus iguais.

193
Coleção TEXTOS. Série 2, n. 10

O que ressalta do exame efetuado nos dois romances é a gran-


de ingerência da coletividade livre sobre a formação das camadas
escravas: realmente, os valores determinando as hierarquias tinham
sua origem fora do estrato escravo; e além disso as vias de ascensão
permaneciam sob a dominação do estrato livre. O escravo era tão
escravo que até as camadas compondo o seu retrato, e até mesmo
sua ascensão social eram comandadas pelos livres. A margem de
liberdade que lhe restava era diminuta, e se exprimia na formação
de lideranças internas, tivessem estas por definição o critério da
idade, do conhecimento da magia, ou da ocupação anterior de um
status tribal elevado.
Retomando a afirmação de Emilia Viotti da Costa (1966) os
"dois mundos", a análise dos romances leva-nos a uma concepção
mais concreta de como e até onde se interpenetravam o mundo dos
livres e o mundo dos escravos. O mundo dos escravos não tinha
uma existência por si só, não se estruturava de forma independen-
te, porém sua existência e sua estrutura estavam profundamente
dominadas pelo mundo dos brancos; do mundo dos brancos lhe
vinha a hierarquia de valores relativa ao trabalho, que orientava a
formação das camadas nas quais os escravos estavam distribuídos;
do mundo dos brancos lhes vinham todos os fatores que auxiliavam
ou dificultavam a ascensão social. Apenas em dois aspectos não
funcionava a dominação dos homens livres, e eram tanto a conser-
vação da liderança africana, quanto a grande importância do man-
dingueiro. Em todos os outros aspectos, os homens livres eram ab-
solutamente determinantes, tais aspectos haviam surgido por obra
e graça de sua dominação.
Trata-se, portanto, de algo mais do que simplesmente conta-
to, intercomunicação, intimidade; estamos diante de uma completa
estrutura de poder, a do mundo escravocrata, que compõe um con-

194
ESCRAVOS E MOBILIDADE SOCIAL VERTICAL

junto só, cultural e social, com dois estratos maiores, o dos livres e
o dos escravos. A imagem de "dois mundos, cultural e socialmente
separados", a que se refere a historiadora, não se mantém diante
desta evidência; livres e escravos formavam, no Segundo Império
brasileiro, um mundo só, de tal modo que a hierarquia de valores e
os critérios de base para a composição de camadas eram os mes-
mos, tanto no estrato dos livres quanto no estrato dos escravos.
Uma única sociedade global ou, se quisermos, um único mundo
sócio-cultural compunham a sociedade brasileira desse período. No
entanto esta sociedade não era monolítica; estava partilhada em
dois estratos, sendo o dos livres superior e dominante, e dos escra-
vos inferior e subordinado. O estado de subordinação era tão mar-
cado que a própria estrutura do estrato escravo decorria dos ho-
mens livres. Além da estrutura, a própria dinâmica do estrato inferior
dependia do estrato superior: elevavam-se nas suas camadas os
escravos que o senhor premiava, eram rebaixados os que punia.
Estrutura e dinâmica do estrato de cativos obedeciam, em sua for-
mação e funcionamento, ao estrato de homens livres.
Não formavam, pois, livres e escravos dois mundos, mas sim
duas partes de um mesmo mundo; e como duas partes que eram,
cada qual possuía a sua identidade. A diferença fundamental entre
ambas não estava em seu antagonismo, isto é, não provinha de
agirem em direções opostas; estava, isso sim, na posição de domi-
nação do estrato de homens livres relativamente ao estrato de es-
cravos, e na quantidade enorme de poder que possuíam em relação
a estes. Era este o aspecto essencial sociológico que separava as
duas partes: uma detendo todo o mando e a outra não possuindo
mando algum. Deste ponto de vista se constituíam como duas par-
tes irredutíveis, pois no momento em que o mando dos homens li-
vres sobre os escravos fosse delimitado, se reduzisse ou se anulas-

195
Coleção TEXTOS. Série 2, n. 10

se, a posição destes dois estratos deixava de ser a mesma, e a socie-


dade global brasileira não mais se definiria como uma sociedade
escravocrata: estaria modificada em sua essência.
Essas considerações são fundamentais pois permitem com-
preender ao mesmo tempo a estrutura de dominação da sociedade
global brasileira, no Segundo Império, e o grau de submissão da
camada escrava. Por outro lado, verifica-se também que se tratava
de uma estrutura de dominação-subordinação muito claramente
apresentada, já que a essência do termo "subordinação" está no
sentido de dependência do secundário para com o principal. A de-
pendência do escravo era a mais profunda, uma vez que nem mes-
mo podia espontânea e livremente formar as suas próprias cama-
das no interior do estrato mais amplo a que pertencia, e nem podia
também de "mota próprio" ascender de uma camada a outra. Por
outro lado, sem o estrato escravo, não se definiria a camada supe-
rior como uma camada de homens livres; por isso, para que existis-
se, necessitava da complementação da camada escrava, subordina-
da mas também essencial.
Não se tratava, então, de camadas agindo sempre em sentido
oposto, embora irredutíveis. Agiam em direções concorrentes uma
vez que o estrato livre impõe à escrava a orientação desta, tanto no
que diz respeito à formação da estrutura quanto à dinâmica de seu
funcionamento. Novamente reiteramos a observação de que a alie-
nação da camada escrava era amais total; e tanto era assim, que
todo o movimento abolicionista se desenvolveu entre os homens li-
vres, e não como um movimento antagônico originário dos escravos.
A abolição não foi conquistada, foi doada, e esta circunstância tem
também importantes conseqüências sócio-políticas.
Por que, diante de uma desvalorização tão marcante, diante
de uma alienação tão profunda, não explodiriam rebeliões e revoltas

196
ESCRAVOS E MOBILIDADE SOCIAL VERTICAL

muito mais numerosas e muito mais cruéis do que as conhecidas?


Não deixaram de existir, é certo, porém o quadro da opressão era
tão completo, a auto-determinação tão ausente, o período de dura-
ção tão longo, mais de três séculos, que é lícito colocar esta questão
como objetivo de pesquisa. Seria necessário então estudar o entro-
samento do estrato livre e do estrato escravo, no prisma das rela-
ções cotidianas. Os dois romances que examinamos fornecem ma-
terial suficiente, porém nossa palestra se alongaria demasiadamente,
se passássemos a examiná-los sob este prisma; julgamos mais con-
veniente relegá-lo para uma abordagem posterior.
Nossa conclusão implica o reconhecimento de que as explica-
ções até hoje apresentadas, notadamente a da fragmentação de gru-
pos étnicos e tribais entre as fazendas, de maneira a quebrar sua
solidariedade, são insuficientes para explicar totalmente o que ocor-
ria. Os trezentos e mais anos que durou a escravidão no Brasil cons-
tituíram um período suficientemente amplo para que, substituindo
a solidariedade étnica e tribal, se formasse uma solidariedade de
escravos contra livres, ou mesmo de negros contra brancos. Entre
os indígenas, por exemplo, esse tipo de solidariedade tendeu a se
formar decorridos cinqüenta anos da dominação portuguesa, dan-
do lugar a aliança pan-tribais, como a Confederação dos Tamoios, e
mais importantes ainda, a movimentos religiosos de revolta, de tipo
messiânico sobretudo. Não se diga, como muitas vezes se aventou,
que a índole do negro é mais "passiva", mais "cordata" do que a do
índio, o qual seria mais amante da liberdade e mais rebelde; conhe-
cemos hoje quão ilusórias são essas explicações pseudo-psicológi-
cas que, em geral, constituem racionalizações de estudiosos diante
de problemas cujo significado mais profundo lhes escapa. Somos de
opinião de que razões institucionais, portanto sociológicas, mais
importantes e ainda não desvendadas, completariam as explicações
que até hoje têm sido apresentadas.

197
Coleção TEXTOS. Série 2,11. 10

Acreditamos que nosso trabalho demonstra suficientemente a


riqueza de informações que encontramos nos romances e na litera-
tura em geral, que se apresentam como importantes fontes de da-
dos para os historiadores, os sociólogos e os antropólogos. Num
país como o Brasil, cuja população e dirigentes desde o passado
mais recuado nunca se mostraram grandemente sensíveis relativa-
mente à importância que os documentos e arquivos representam
para o conhecimento da marcha da sociedade, deixando que grande
parte deles se anulasse pela deterioração, a literatura como fonte de
dados avulta mais ainda do que nos países que reuniram farta do-
cumentação sobre seus dias pretéritos.

Referências Bibliográficas

ALENCAR, J. de. O tronco do ipê. São Paulo: Saraiva, s.d.

BASTIDE, R. Estudos afro-brasüeiros. São Paulo: Perspectiva, 1973.

. A poesia qfro-brasâeta. São Paulo: Martins, 1943.

. Les romans brésüiens, source sociologiques sur Ia vie nirale du pays.


Paris: Notes de Cours, Institut des Hautes Études de l'Amerique Latine, 1964.

BOSE, S. P. Transformações da sociedade hindu. Ciência e Cultura, São Pau-


lo, v. 26, n. l.jan. 1974.

CHEVALIER, L. Classes laborieuses et classes dangereuses a Paris pendant


Ia première moité du XDí e siécle. Paris, Plon, 1958.

COUTY, L. Le Brésil em 1884. Rio de Janeiro: Faro & Lino, 1884.

ELLIS, M. O café, a história na literatura. In: CONGRESSO DE HISTÓRIA DE


SÃO PAULO, 2. São Paulo, 1975. Anais...

198
ESCRAVOS E MOBILIDADE SOCIAL VERTICAL

FERNANDES, F. A integração do negro à sociedade de classes. 2. ed. São


Paulo: Edusp/Dominus, 1964.

. O negro no mundo dos brancos. São Paulo: Difusão Européia do Livro,


1972.

FREYRE, G. Casa grande e senzala. Rio de Janeiro: Maia & Schimidt, 1933.

GUIMARÃES, B. A escrava Isaura. Rio de Janeiro: Edições de Ouro, s.d.

MELLO E SOUZA, G. R. de. A moda no século XIX (ensaio de sociologia esté-


tica). Revista do Museu Paulista, São Paulo, v. 5, 1952.

MOTT, L. Pardos e pretos em Sergipe: 1774-1851. In: Reunião de Antropolo-


gia, 10. Salvador, fev. 1976.

PARENT-LARDEUR, F. Les demoiselles de magasin. Paris: Ouvrières, 1970.

QUEIROZ, M. I. P. de. A estratificação e a mobilidade social nas comunidades


agrárias do Vale do Paraíba, entre 1850 e 1888. Revista de História, São
Paulo, n. 2, abr./jun. 1950.

SCHMIDT, A. A marcha: romance da abolição. São Paulo: Anchieta, 1941.

VIOTTI DA COSTA, E. Da senzala à colônia. São Paulo: Difusão Européia do


Livro, 1966.

199
Coleção TEXTOS. Série 2, n. 10

NORMAS PARA A APRESENTAÇÃO DE ARTIGOS


PARA PUBLICAÇÃO NA REVISTA CADERNOS CERU

1. Todos os textos propostos para publicação em Cadernos CERU


devem ser enviados ao CERU em duas vias digitadas, acompa-
nhadas de disquete.

2. Os artigos não devem ultrapassar 30 laudas (42 linhas de 60


toques) em espaço um e meio. Cada artigo deverá ser acompa-
nhado de um resumo de no máximo 10 linhas e três palavras-
chave, em português e em inglês. Resenhas de livros de publica-
ção recente deverão ter de 3 a 5 laudas.

3. Todos os artigos serão avaliados pela Comissão Editorial.

4. Notas e referências bibliográficas deverão obedecer às Normas da


ABNT:
- As remissões bibliográficas deverão figurar no corpo principal
do texto. Da remissão deverá constar, entre parênteses, o so-
brenome do autor seguido de vírgula, da data de publicação da
obra e do número da página. Exemplo: (LANG, 1989, p. 123) ou
Lang (1989, p. 123).
- As referências bibliográficas deverão constituir uma lista única
no final do artigo, em ordem alfabética pelo sobrenome do autor.

Exemplos:

(livro):
SCARANO, Julita. Cotidiano e solidariedade: vida diária da gente de cor nas
Minas Gerais, século XVIII. São Paulo: Brasiliense, 1994.

200
NORMAS PARA A APRESENTAÇÃO DE ARTIGOS

(capítulo de livro]:
DEMARTINI, Zeila de B. F. Trabalhando em relatos orais: reflexões a partir de
uma trajetória de pesquisa. In: LANG, Alice Beatriz da S. G. (Org.). Reflexões
sobre a pesquisa sociológica. São Paulo: CERU/Humanitas, 1992. p. 42-60.
(Coleção Textos, série 2, n. 3).

(artigo cm periódico):
DEMARTINI, Zeila de Brito Fabri. A procura da escrita e da leitura na Primei-
ra República: recolocando questões. Cadernos CERU, São Paulo, série 2, n. 9,
p. 57-82, 1998.

(tese):
CASTRO, Manoel C. Migração e desempenho econômico: uma análise empírica.
1975. Dissertação (Mestrado em Sociologia) - Faculdade de Filosofia, Letras e
Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo.

(artigo em jornal):
NAVES, P. Lagos andinos dão banho de beleza. Folha de S. Paulo, São Paulo,
28jun. 1999. Folha Turismo, Caderno 8, p. 13.

(artigo em evento):
BRAYNER, A.; MEDEIROS, O. B. Incorporação do tempo em SGBD orientado
a objetos. In: SIMPÓSIO BRASILEIRO DE BANCO DE DADOS, 9., 1994, São
Paulo. Anais... São Paulo: USP, 1994, p. 14-29.

(banco de dados):
BIRDS from Amapá: banco de dados. Disponível em: <http://www.bdt.org/
bdt/avifauna/aves>. Acesso em: 25 nov. 1998.

201
Coleção TEXTOS. Série 2,11. 10

CENTRO DE ESTUDOS RURAIS E URBANOS - NAP/CERU

Fundado em 1964 por um grupo de estudiosos brasileiros,


funciona ininterruptamente desde esta data. Trata-se de uma so-
ciedade civil sem fins lucrativos, reconhecida como de utilidade
pública federal e estadual. Ligado à USP como Núcleo de Apoio à
Pesquisa de Estudos Rurais e Urbanos - NAP/CERU, tem sua sede
nas dependências do Departamento de Sociologia da FFLCH da USP.

CONSELHO DELIBERATIVO
Profa. Dra. Maria Christina Siqueira de Souza Campos - Coordenadora -
FEA-RP/USP
Profa. Dra. Graziela Serroni Perosa - FE/USP Leste
Profa. Dra. Kimi Aparecida Tomizaki - FE/USP Leste
Prof. Dr. Lísias Nogueira Negrão - FFLCH/USP
Profa. Dra. Margarida Maria Moura - FFLCH/USP
Profa. Dra. Maria da Graça Jacintho Setton - FE/USP
Prof. Dr. Mário A. Eufrasio - FFLCH/USP

DIRETORIA EXECUTIVA
Diretora Presidente Diretora 2* Secretária
Prof Dr" Maria Helena Rocha Antuniassi Prof Dr" Aríete Assumpção Monteiro
Diretora Vice-Presidente Diretora de Pesquisa
Prof Dr" Heloísa Helena T. de Souza Prof Dr" Zeila de Brito Fabri Demartini
Martins Diretora de Eventos
Diretora Tesoureira Prof Dr" Alice Beatriz da Silva Gordo Lang
Prof Dra" Cecüia Cunha Pontes Diretora de Publicações
a
Diretora I Secretária Prof Dr" Célia Toledo Lucena
Prof Dr" Maria Christina Siqueira de
Souza Campos

202
SOBRE O CERU

COMISSÃO EDITORIAL
Profa. Dra. Alice Beatriz da Silva Gordo Lang - CERU
ProJ. Dr. Almerindo Janela Afonso - Universidade do Minho/Portugal
Prqf. Dr. François Bonvin - MSH/Paris
ProJ. Dr. Geraldo Romanelli - USP/Ribeirão Preto
Profa. Dra. Giralda seyferth - Museu Nacional/UFRJ
Profa. Dra. Gláucia Vülas Boas - UFRJ
Profa. Dra. Heloísa Helena Teixeira de Souza Martins - Sociologia/USP
Prof. Dr. José Maria Valcuende Del Rio - Universidade Pablo de Olavide/Sevilha
Profa. Dra. Laís M. Cárdia - Universidade Federal do Acre
ProJ. Dr. Leonardo Cavalcanti - Universidade de Barcelona/Espanha
Profa. Dra. Maria Helena Rocha Antuniassi - CERU
Profa. Dra. Maria Margarida Moura - Antropologia/USP
Profa. Dra. Maria Arminda do Nascimento Arruda - Sociologia/USP
Profa. Dra. Maria Beatriz Rocha-Trindade - Universidade Aberta de Lisboa/Portugal
Prof. Dr. Mário A. Eufrásio - Sociologia/USP
Profa. Dra. Olga Rodrigues de Moraes von Simson - CMU/UNICAMP

ATIVIDADES

Pesquisas
Realizadas em áreas abertas, conforme as possibilidades e
necessidades de cada época.
Encontro Nacional de Estudos Rurais e Urbanos
Reunião anual de pesquisadores para apresentação e discus-
são de trabalhos de pesquisa.
Cursos e Seminários
Realizados periodicamente. Para tais atividades são convida-
dos especialistas brasileiros e estrangeiros. Os associados
podem solicitar um seminário para apresentar e discutir seus
trabalhos de pesquisa.

203
Coleção TEXTOS. Série 2, n. 10

Reuniões e Congressos
Participação na organização de sessões em Reuniões e Con-
gressos, como exemplificam os da SBPC e da ANPOCS.

SERVIÇOS E M FUNCIONAMENTO NO CERU

Biblioteca
Funciona na sede do CERU, sendo especializada em livros e
revistas de Sociologia e ciências afins, à disposição dos inte-
ressados. O empréstimo domiciliar é reservado aos associa-
dos. Possui ainda:
Arquivos de documentos compreendendo três sessões: teses
universitárias; relatórios de pesquisa e documentos congêne-
res; documentos sobre temas específicos (carnaval, família e
USP).
Fichário de separatas contendo bibliografia sobre assuntos
diversos, relacionados à Sociologia Rural e Urbana.
(aberta de segunda à quinta-feira, das 13 às 17 h. e
sexta-feira, das 10 às 14 h.)

ASSOCIADOS

Para se tornar sócio do CERU, o interessado deverá inscrever-


se enviando breve currículo, endereço para correspondência e
efetuar o pagamento da anuidade.

204
SOBRE O CERU

COLEÇÃO TEXTOS
Volumes Publicados

I a SÉRIE

1 - BLAY, Eva Alterman. Mulher, escola e profissão: um estudo do


ginásio industrial feminino da cidade de São Paulo. 1981.
2 - BÔA NOVA, Antônio Carlos. Clero e povo: o catolicismo na Amé-
rica Latina nos anos 60. 1981.
3 - ANTUNIASSI, Maria Helena Rocha. Multiplicidade tecnológica: a
organização do trabalho na rizicultura do Estado de São Paulo. 1983.
4 - PEREIRA DE QUEIROZ, Maria Isaura. Variações sobre a técnica
do gravador no registro da informação viva. 1983.
5 - FLEURY, Maria Tereza Leme. A organização do trabalho na la-
voura algodoeira paulista. 1983.
6 - DEMARTINI, Zeila de Brito Fabri; LANG, Alice Beatriz da Silva
Gordo. Educação e trabalho: um estudo sobre produtores e traba-
lhadores na agricultura paulista. 1983.
7 - LANG, Alice Beatriz da Silva Gordo. Aspirações à educação, à
ocupação e ao êxito social. 1984.

2 a SÉRIE

1 - BRIOSCHI, Lucila Reis; TRIGO, Maria Helena Bueno. Família:


representação e cotidiano, reflexão sobre um trabalho de campo.
1989.
2 - ANTUNIASSI, Maria Helena Rocha; MAGDALENA, Celigrácia;
GIANSANTI, Roberto. O movimento ambientalista em São Paulo: aná-
lise sociológica de um movimento social urbano. 1989.

205
Coleção TEXTOS. Série 2,11. 10

3 - LANG, Alice Beatriz da Silva Gordo (Org). Reflexões sobre a pes-


quisa sociológica. 1992.
4 - QUEIROZ, Maria Isaura Pereira de (Org). O imaginário em terra
conquistada. 1993.
5 - QUEIROZ, Maria Isaura Pereira de (Org). Roger Bastide: ensaios
e pesquisas. 1994.
6 - LANG, Alice Beatriz da Silva Gordo. A Propaganda Republicana
na Província de São Paulo. 1995.
7 - LANG, Alice Beatriz da Silva Gordo et ai. Família em São Paulo:
vivências na diferença. 1997.
3 - LANG, Alice Beatriz da Silva Gordo (Org). Reflexões sobre a pes-
quisa sociológica. 2. ed. 1999.
9 - LANG, Alice Beatriz da Silva Gordo (Org). Realidade brasileira:
várias questões, muitos olhares. 2002.

206
LIVRARIA HUMANITAS/DISCURSO HUMANITAS - DISTRIBUIÇÃO
Av. Prof. Luciano Gualbcrto, 315 Av. Prof. Luciano Gualberto, 315
Cidade Universitária Cidade Universitária
05508-010 - São Paulo - SP - Brasil 05508-010 - São Paulo - SP - Brasil
Tel: (11) 3091-3728 / Telefax: (11) 3091-3796 Tel: (11) 3814-5383 / Telefax: (11) 3034-2733
e-mail: livrariahumanitas@usp.br e-mail: humanitas.disc@usp.br
http://www.editorahumanitas.com.br

SOBRE O LIVRO

Formato: 16 x 22 cm
Mancha: 11,5 x 19 cm
Tipologia: Bookman Old Style 10/16
Papei, off-set 75g/m2 (miolo)
Cartão Supremo 250 g/m2 (capa)
1a edição: Fevereiro 2008
Tiragem: 500 exemplares
208 páginas

Você também pode gostar