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E-Fólio_B Pré e Proto-história de Portugal Bruno Miguel Gambinhas Leal - 1500783

Na Extremadura durante o Calcolítico, o desenvolvimento da agricultura e a


apelidada “Revolução dos Produtos Secundários” originam a produção de excedentes e o
florescimento do comércio, o que justifica a construção de linhas defensivas amuralhadas
para proteção dos habitantes e seus bens. Dos vários povoados fortificados encontrados
na Extremadura podemos destacar os três mais importantes: Leceia (Oeiras), Zambujal
(Torres Vedras) e Vila Nova de São Pedro (Azambuja).
Estas três fortificações situam-se no topo de plataformas altamente defensáveis,
próximas a vales agrícolas de elevada fertilidade e a cursos de água com a possibilidade
de antigos estuários providenciar um porto natural para entrada e saída de comércio (Dias,
1985; Kunst & Uerpmann, 2002; Daveau, 1980). São delimitadas por três ou mais linhas
defensivas e continham uma área habitável e população muito aproximada entre si
(estimada em cerca de 200 habitantes).
O povoado de Leceia, localizado no topo de uma elevação calcária defendida por
dois lados por escarpas de 10m de altura, é estabelecido inicialmente em povoado aberto.
A distância de 4 km ao Rio Tejo seria possivelmente encurtada pelo estuário da Ribeira
de Barcarena (o nível médio da água do mar estaria 5 m acima do nível atual (Dias, 1985))
o que facilitava a navegação até ao estuário do Tejo. Assistimos á construção da primeira
linha de muralhas durante o Calcolítico Inicial, situável entre 2870 e 2400 a.C. através de
datação por radiocarbono de carvões e ossos encontrados no local (Soares & Cardoso,
1995).
Embora ainda não se tenha identificado nenhuma semente em Leceia, a prática da
cultura cerealífera encontra-se representada na existência de dois lajeados circulares,
considerados como embasamento de eiras, destinadas ao processamento de cereais e
secagem de leguminosas. Nos casos de Vila Nova de S. Pedro e Zambujal a importância
da atividade agrícola é mais evidente, quer em amostras polínicas, quer no espólio
recolhido, onde constam machados destinados à deflorestação, sachos utilizados na cava
e mós manuais e elementos de foice em sílex. Estas práticas seriam complementados pelo
pastoreio e suinicultura, providenciando uma importante fonte de proteína, o que
evidenciava um elevado grau de sedentarização e mestria da domesticação de animais. A
caça de espécies selvagens como o javali, veado, auroque e cavalo também são
reconhecíveis no inventário faunístico. De salientar ainda a relevância da pesca e da
recoleção de moluscos, identificados na presença de diversos anzóis de cobre e de
numerosos restos de dourada e pargo. Os bosques adjacentes seriam igualmente
explorados, demonstrado pelo estado de exaustão de muitos machados de pedra polida,
quer pela deflorestação para produção de campos agrícolas, para criação de pastagens
permanentes, ou para obtenção de lenhas e de produtos silvícolas como a bolota, presente
em Vila Nova de S. Pedro (Paço, 1954).
Entre o espólio encontrado, vislumbra-se bem representada nesta fase do
Calcolítico a cerâmica com decoração canelada em copos e taças, e pela primeira vez
identificada em 1959 por Savory em Vila Nova de S. Pedro, no substrato da estrutura
central da fortificação (Savory, 1983/1984). Como nessa época não existia paralelo
peninsular para este tipo de decoração, os “copos canelados” foram relacionados com
cerâmicas do Mediterrâneo Oriental. Facto justificado igualmente com a então geral
aceitação da teoria do difusionismo, levada por vezes ao extremo, ao ponto de se

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verificarem parentescos egípcios em pinturas rupestres da Beira Alta. Podemos hoje


afirmar que se trata de um tipo de decoração já presente no Neolítico Final de Leceia
(Cardoso et al, 1983/1984). De destacar igualmente a qualidade do talhe bifacial de certos
artefactos líticos, por vezes confundidos com um “retoque egípcio”, de novo uma alusão
ao Mediterrâneo Oriental, embora esta técnica de lascamento já fosse conhecida no
Neolítico Final da Extremadura. As pontas de seta mitriformes beneficiariam desta
técnica revelando um trabalho muito elegante, no entanto seriam de igual modo conotadas
com exemplares do Egipto pré-dinástico. Outros artefactos seriam entretanto também
confundidos com raízes orientais como alguns ídolos de osso com gola e alfinetes de
cabeça maciça torneada, com o formato da cápsula da papoila recolhidos em vários locais
da Extremadura, incluindo Leceia e Vila Nova de S. Pedro. No Calcolítico Inicial da
Extremadura desconhece-se entretanto a existência de artefactos de cobre, o que contraria
a tese originária das escavações no Zambujal, de que a prospeção e processamento do
minério seria a causa da chegada de populações exógenas ao território.
O excelente trabalho de datação por radiocarbono por parte de Cardoso e Soares
em Leceia permite calcular o início do Calcolítico Pleno naquela estação em cerca de
2600 a.C. ficando o seu termo fixado em cerca de 2200 a.C., período já contemporâneo
com as cerâmicas campaniformes do final do Calcolítico na Extremadura (Soares &
Cardoso, 1995). Durante este período, no Zambujal continua-se a dispensar especial
cuidado às linhas defensivas, ao passo que em Leceia, devido à rápida decadência das
suas estruturas, todo o complexo foi erigido de uma só vez. Em Vila Nova de S. Pedro, a
construção progrediu gradualmente do exterior para o interior, tornando assim a
fortificação central a mais recente de todo o dispositivo.
Nesta estação seria efetuado corte estratigráfico que permitiu a identificação de
uma nova fase cultural que continha “copos canelados” a que Savory correspondeu a
colonizadores do grupo de Los Millares (Savory, 1983/1984), o que se traduz numa
transição para a aceitação de um modelo de difusão cultural peninsular mais natural, em
detrimento da doutrina difusionista de larga distância até aí geralmente suportada.
De notar a falta de conhecimento dos exploradores sobre a cerâmica com
decoração “folha de acácia” e “crucífera”, identificando-a com cerâmica campaniforme
ou posterior (Savory 1983/1984), não obstante a ocorrência deste tipo de cerâmica ao
longo de todo o estrato construtivo. Tal como em Leceia, as percentagens de cerâmicas
caneladas, cerâmicas com decoração “folha de acácia” e “crucífera” e cerâmicas
campaniformes são muito idênticas, ocupando as peças caneladas o fundo da estratigrafia,
e as restantes ocupando os níveis superiores, com maior abundância de vasos
campaniformes mais modernos que os anteriores.

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Bibliografia:

CARDOSO, J. L. - Pré-História de Portugal. Lisboa. Universidade Aberta, 2007.

CARDOSO, J. L. - O povoado de Leceia (Oeiras), sentinela do Tejo no terceiro


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CARDOSO, J. L.; SOARES, J.; SILVA, C. T. da - O povoado calcolítico de


Leceia (Oeiras): 1.ª e 2.ª campanhas de escavação (1982 e 1983). Lisboa Clio 1, 1983-
1984.

DAVEAU, S. - Espaço e tempo. Evolução do ambiente geográfico de Portugal


ao longo dos tempos pré-históricos. Lisboa. Clio 2, 1980.

DIAS, J. M. - Registos da migração da linha de costa nos últimos 18000 anos na


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Quaternário Ibérico, 1, 1985.

KUNST, M. & UERPMANN, H.P. - Zambujal (Torres Vedras, Lisboa): relatório


das escavações de 2001. Lisboa. Revista Portuguesa de Arqueologia 10.1, 2002.

PAÇO, A. - Sementes pré-históricas do Castro de Vila Nova de S. Pedro. Lisboa.


Anais Academia Portuguesa de História, 2ª Serie, 5, 1954.

SAVORY, Η. Ν. - A section through the innermost rampart at the chalcolithic


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Tradução portuguesa em CLIO, 1, 1983/84

SOARES, A. M. M. & CARDOSO, J. L. – Cronologia absoluta para as


ocupações do Neolítico Final e do Calcolítico Inicial do povoado pré-histórico de Leceia
(Oeiras). Oeiras. Estudos Arqueológicos de Oeiras 5, 1995.

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