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A Misericórdia perdoadora de Deus e a nossa Responsabilidade (Mt 5.

7)1

“Os homens jamais encontrarão um


antídoto para suas misérias, enquanto,
esquecendo-se de seus próprios méritos,
diante do fato de que são os únicos a
enganar a si próprios, não aprenderem
a recorrer à misericórdia gratuita de
2
Deus” – João Calvino.

INTRODUÇÃO:
A misericórdia de Deus é um de Seus atributos mais evidentes em Sua relação
conosco, homens pecadores. “Os homens se acham num deplorável estado a
menos que Deus os trate misericordiosamente, não debitando seus pecados
3
em sua conta”.

Deus propõe aos Seus filhos, ainda que em sua finitude, uma semelhança com
Ele; daí o desafio de conhecer a Deus para a partir daí termos uma dimensão mais
clara do que Ele deseja que sejamos. A vida cristã não é um manual de atitudes de-
sejáveis, antes consiste em aprender a viver conforme a nossa nova natureza, gera-
4 5
da pelo Espírito (Tt 3.5); somos novas criaturas (2Co 5.17): “O Evangelho cristão
põe toda a sua ênfase sobre a questão do ser, e não sobre a questão do fa-
6
zer”.

No texto que vamos estudar Jesus Cristo diz ser bem-aventurado aquele que e-
7
xerce misericórdia (Mt 5.7). Em outro momento, ensina: “Sede misericordiosos
8
(oi)kti/rmwn), como também é misericordioso (oi)kti/rmwn) vosso Pai” (Lc 6.36).

1
Estudo ministrado na Escola Dominical da Igreja Presbiteriana em São Bernardo do Campo, SP., no
dia 16 de maio de 2010.
2
João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Paracletos, 1999, Vol. 1, (Sl 6.4), p. 128-129.
3
João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Paracletos, 1999, Vol. 2, (Sl 32.1), p. 39. “A benevo-
lência divina se estende a todos os homens. E se não há um sequer sem a experiência de
participar da benevolência divina, quanto mais aquela benevolência que os piedosos expe-
rimentarão e que esperam nela!” (João Calvino, As Pastorais, São Paulo: Paracletos, 1998, (1Tm
4.10), p. 120-121).
4
“.... segundo sua misericórdia (e)/leoj), ele nos salvou mediante o lavar regenerador e renovador do
Espírito Santo” (Tt 3.5).
5
“E, assim, se alguém está em Cristo, é nova criatura; as coisas antigas já passaram; eis que se fize-
ram novas” (2Co 5.17).
6
David M. Lloyd-Jones, Estudos no Sermão do Monte, São Paulo: Editora Fiel, 1984, p. 88.
7
“Bem-aventurados os misericordiosos (e)leh/mwn), porque alcançarão misericórdia (e)lee/w)” (Mt
5.7).
8
O verbo tem o sentido de ser compassivo, ter piedade ou misericórdia.
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Analisemos primeiramente alguns aspectos da misericórdia de Deus:

1. A MISERICÓRDIA PACTUAL:
O Antigo Testamento emprega duas palavras que mais especificamente se adé-
quam aos conceitos de “graça” e “misericórdia expressos no Novo Testamento. As
palavras são: desex (hesedh) e }"x (hen). Nos ateremos aqui à primeira palavra.

9
Hesedh cuja etimologia é obscura, pode ser traduzida por “bondade”, “graça”,
“benevolência”, “benignidade”, “clemência”, “beneficência”, “humanidade” (ARA. 2Sm
2.5), “fidelidade” (ARA. 2Sm 16.17) e “misericórdia”. Ocorre cerca de 250 vezes no
Antigo Testamento, principalmente nos Salmos (127 vezes).

Figuradamente, Deus é chamado de “Misericórdia” por Davi: “Minha misericórdia


(‫( )חסד‬hesedh) e fortaleza minha, meu alto refúgio e meu libertador, meu escudo, a-
quele em quem confio e quem me submete o meu povo” (Sl 144.2).

Hesedh pode ser empregada acerca de Deus e acerca do homem. Quando a pa-
lavra se refere ao homem, reflete o seu amor para com o seu próximo e para com
Deus; quando a palavra é aplicada a Deus, denota a Sua graça, envolvendo dois e-
lementos importantes:

A. A Auto-Entrega de Deus a Israel na Relação de um Pacto:10


A idéia principal é a de que Deus manifesta o Seu amor ativamente na forma
11
de uma relação de um pacto; Hesedh é um “amor de Pacto” (Dt 7.9,12; Jr 31.3);
12 13
“Hesedh da aliança”; “comportamento correto segundo a aliança”. O Pac-
to de Deus é unilateral no que concerne às suas demandas e provisões; compete ao
homem aceitá-lo ou não, porém, não pode modificar os seus termos. O Hesedh é a
causa e o efeito do Pacto; Deus fez o Pacto por misericórdia; Ele revela a Sua mise-

9
H.J. Stoebe, desex: In: Ernst Jenni & Claus Westermann, eds. Diccionario Teologico Manual del Anti-
guo Testamento, Madrid: Ediciones Cristiandad, 1978, Vol. I, p. 832.
10
Veja-se: W. Zimmerli, et. al. X/arij: In: G. Friedrich & G. Kittel, eds. Theological Dictionary of the
New Testament, Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, 1982, Vol. IX, p. 383ss.; Walther Eichrodt, Teo-
logia del Antiguo Testamento, Madrid: Ediciones Cristiandad, 1975, Vol. I, p. 213ss.
11
Van Groningen, comentando o Salmo 111.1, chama a expressão de “fidelidade pactual”; no
Salmo 118.1, designa de “amor pactual” (Gerard Van Groningen, Revelação Messiânica no Velho
Testamento, Campinas, SP.: Luz para o Caminho, 1995, p. 351, 363). Packer, a traduz por “Amor
constante” (J.I. Packer, Vocábulos de Deus, São José dos Campos, SP.: Fiel, 1994, p. 88); Eichrodt,
chama de “amor solícito” (Walther Eichrodt, Teologia del Antiguo Testamento, Vol. I, p. 213). Harris
seguindo a versão King James, crê que uma boa tradução é “bondade amorosa” (R. Laird Harris,
hsd: In: R. Laird Harris, et. al., eds. Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento, São
Paulo: Vida Nova, 1998, p. 503).
12
R. Laird Harris, ihsd: In: R. Laird Harris, et. al., eds. Dicionário Internacional de Teologia do Antigo
Testamento, p. 501.
13
H.H. Esser, Misericórdia: In: : Colin Brown, ed. ger. O Novo Dicionário Internacional de Teologia do
Novo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1981-1983, Vol. III, p. 177.
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ricórdia de acordo com o Pacto (1Rs 8.23 [2Cr 6.14]; Ne 1.5; 9.32; Is 55.3; Dn 9.4).

Devido ao Seu Hesedh, Deus voluntariamente elege o Seu povo, mantendo-Se


fiel nesta relação independentemente da fidelidade circunstancial dos Seus eleitos
15
(Dt 7.6-11; 2Sm 2.6; Sl 36.5; 57.3; 89.49; Is 54.10; 55.3).

B. Está ligada com a Idéia de Justiça de Deus:

O Hesedh de Deus não é barato; Deus não age movido por um sentimento
incontrolável e incoerente; antes, Deus encontra um justo caminho para estabelecer
uma relação sólida com o homem pecador. O fundamento desta nova relação é o
próprio Cristo.

2. O AMOR SANTO, JUSTO E MISERICORDIOSO DE DEUS E A


CONSCIÊNCIA DE SEUS SERVOS:

A. Deus Santo, Justo e Misericordioso:

No grego a misericórdia é um sentimento provocado pela dor dos demais, se


manifestando em atos de bondade. “Misericórdia é atender as necessidades,
16
não apenas senti-las”. “Misericórdia é amor demonstrado em favor de
quem vive em desgraça, e um espírito perdoador para com o pecador. Ela
17
abrange tanto um sentimento de bondade quanto um ato bondoso”.

O amor independe da misericórdia, contudo, esta pressupõe aquele. As relações


de amor não necessitam de se expressar em misericórdia, mas, a misericórdia é
uma expressão do amor quando há alguma necessidade de socorro. “O amor é
constante; a misericórdia está reservada para os momentos de dificuldade.

14 22
“ Pôs-se Salomão diante do altar do SENHOR, na presença de toda a congregação de Israel; e
23
estendeu as mãos para os céus e disse: Ó SENHOR, Deus de Israel, não há Deus como tu, em
cima nos céus nem embaixo na terra, como tu que guardas a aliança e a misericórdia (‫( )חסד‬hesedh)
a teus servos que de todo o coração andam diante de ti” (1Rs 8.22-23).
15 6
“ Porque tu és povo santo ao SENHOR, teu Deus; o SENHOR, teu Deus, te escolheu, para que lhe
7
fosses o seu povo próprio, de todos os povos que há sobre a terra. Não vos teve o SENHOR afei-
ção, nem vos escolheu porque fôsseis mais numerosos do que qualquer povo, pois éreis o menor de
8
todos os povos, mas porque o SENHOR vos amava e, para guardar o juramento que fizera a vos-
sos pais, o SENHOR vos tirou com mão poderosa e vos resgatou da casa da servidão, do poder de
9
Faraó, rei do Egito. Saberás, pois, que o SENHOR, teu Deus, é Deus, o Deus fiel, que guarda a ali-
ança e a misericórdia (‫( )חסד‬hesedh) até mil gerações aos que o amam e cumprem os seus manda-
10
mentos; e dá o pago diretamente aos que o odeiam, fazendo-os perecer; não será demorado para
11
com o que o odeia; prontamente, lho retribuirá. Guarda, pois, os mandamentos, e os estatutos, e os
juízos que hoje te mando cumprir” (Dt 7.6-11).
16
John MacArthur Jr., O Caminho da Felicidade, São Paulo: Cultura Cristã, 2001, p. 120.
17
William Hendriksen, Mateus, São Paulo: Cultura Cristã, 2001, Vol. 1, p. 385.
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Não há misericórdia sem amor”.

Uma forma natural de pensar sobre a misericórdia é colocá-la em oposição à jus-


tiça. No entanto, este conceito está totalmente distante do ensino bíblico. João saú-
da os seus destinatários relacionando a misericórdia a verdade e o amor: “A graça, a
misericórdia (e)/leoj) e a paz, da parte de Deus Pai e de Jesus Cristo, o Filho do Pai,
serão conosco em verdade e amor” (2Jo 3).

Deus não quebra a Sua justiça por amor; antes, cumpre a justiça em amor; a gra-
19
ça reina pela justiça (Rm 5.21). "De fato a graça reina, mas uma graça rei-
nante à parte da justiça não é apenas inverossímil, mas também inconcebí-
20
vel".

Este tipo de raciocínio é-nos naturalmente estranho porque temos costumeira-


mente nossa hierarquia de valores com as suas prioridades próprias que tendem a
ser voláteis conforme determinadas circunstâncias. Assim sendo, ao mesmo tempo
em que sustentamos com razão a necessidade de justiça, em outras circunstâncias,
quando, por exemplo, nosso filho ou amigo esteja envolvido, é possível, que com a
mesma sinceridade anterior sustentemos a necessidade de sermos misericordiosos
e acusarmos uma postura diferente de “legalista”. Somos pecadores e finitos. A fini-
tude não é pecado, no entanto, revela a nossa limitação como criaturas. Esta limita-
ção agravada pelo nosso pecado se expressa em nossas contradições e incoerên-
cias. No entanto, somente Deus é perfeito e, por isso, o Seu agir se harmoniza de
forma perfeita com todos os Seus atributos; Deus é perfeito em suas perfeições não
havendo hierarquia em Seu ser. Obviamente a compreensão adequada desta reali-
dade escapa à nossa compreensão, no entanto, podemos ter a certeza de que Deus
é perfeitamente santo e que a santidade permeia todas as suas ações e obras.

Deste modo, somente Jesus Cristo – o Deus encarnando –, por meio da Sua jus-
tiça obtida na Sua encarnação, morte e ressurreição, poderia satisfazer as exigên-
cias de Deus para a nossa salvação. Paulo escreve: “Sendo justificados gratuita-
mente, por sua graça, mediante a redenção (a)polu/trwsij) que há em Cristo Je-
sus” (Rm 3.24). Portanto, “Quando Deus justifica pecadores à base da obe-
diência e da morte de Cristo, está agindo com toda equidade. Dessa manei-
ra, longe de comprometer Sua retidão judicial, esse método de justificação
21
em realidade a exibe”.

A santidade de Deus se revela na cruz, onde o seu amor misericordioso e a sua

18
John MacArthur Jr., O Caminho da Felicidade, p. 122.
19
“A fim de que, como o pecado reinou pela morte, assim também reinasse a graça pela justiça para
a vida eterna, mediante Jesus Cristo, nosso Senhor” (Rm 5.21).
20
John Murray, Redenção: Consumada e Aplicada, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 1993, p. 19.
“Deus se paga a Si mesmo por Sua misericórdia manifestada em Seu Filho, nosso Salvador
Jesus Cristo, que uma vez por todas se ofereceu ao Pai para ser Ele próprio a satisfação que
Lhe deveríamos prestar” (João Calvino, As Institutas da Religião Cristã: edição especial com notas
para estudo e pesquisa, São Paulo: Cultura Cristã, 2006, Vol. 3, (III.9), p. 129).
21
J.I. Packer, Justificação: In: J.D. Douglas, ed. org. O Novo Dicionário da Bíblia, São Paulo: Junta
Editorial Cristã, 1966, Vol. II, p. 899b.
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justiça se evidenciam de forma eloquente e perfeita. A cruz não fez Deus nos a-
23
mar, antes, o Seu amor por nós a produziu e se revelou ali.

Enquanto para nós as circunstâncias servem de pretexto para os nossos atos pe-
caminosos e os posteriores atenuantes, para Deus tais circunstâncias – sobre as
quais tem total domínio: Ele também é o Senhor das circunstâncias – oportunizam a
manifestação do que Ele é em Sua essência. O pecado não tornou Deus misericor-
dioso, santo ou justo; Ele é eternamente misericordioso, santo e justo. No entanto, o
pecado propiciou a Deus, por sua livre graça, revelar-se desta forma para conosco.

Na cruz vemos a manifestação gloriosa dos atributos de Deus. “A justiça e o


amor se encontraram e se abraçaram. Os santos atributos de Deus são glori-
24
ficados juntamente na morte do Filho de Deus na cruz”. Não haveria para
nenhum de nós salvação de nossos pecados sem a justificação. Da mesma forma,
existe a justificação porque Jesus Cristo é a nossa justiça; é Ele mesmo quem nos
25
redime (1Co 1.30). Como escreveu Lloyd-Jones (1899-1981): “Se lhes fosse soli-
citado responder onde a Bíblia ensina a santidade de Deus mais poderosa-
mente teriam de ir ao Calvário. Deus é tão santo, tão plenamente santo, que
nada senão aquela morte terrível poderia tornar possível que Ele nos perdo-
asse. A cruz é a suprema e a mais sublime declaração e revelação da santi-
26
dade de Deus”. Na cruz temos a reconciliação do santo com o pecador, do per-
feitamente justo com o totalmente injusto, do infinito com o finito; do Deus eterno
com o homem temporal: “A cruz é o centro da história e a reconciliação de to-
27
das as antíteses”. Isaías diz que “Todos nós andávamos desgarrados como ove-
lhas; cada um se desviava pelo caminho, mas o SENHOR fez cair sobre ele [Jesus
Cristo] a iniqüidade de nós todos” (Is 53.6).

22
“A cruz e a coroa revelam não apenas as virtudes do Filho, mas também do Pai. Todos os
atributos divinos alcançam plena expressão aqui. Dentre todas elas, uma sobressai: a justiça
do Pai. Se Ele não tivesse sido justo, certamente não teria entregue Seu Filho Unigênito. E
também, se não fosse justo, Ele não teria recompensado o Filho por Seu sofrimento. Mais, por
meio dos louvores da multidão salva, o Pai (bem como o Filho) é glorificado” [William Hen-
driksen, O Evangelho de João, São Paulo: Cultura Cristã, 2004 (Jo 17.1), p. 754].
23
Veja-se: D.M. Lloyd-Jones, Deus o Pai, Deus o Filho, São Paulo: Publicações Evangélicas Sele-
cionadas, 1997 (Grandes Doutrinas Bíblicas, Vol. 1), p. 426.
24
David Martyn Lloyd-Jones, Uma Nação sob a Ira de Deus: estudos em Isaías 5, 2ª ed. Rio de Ja-
neiro: Textus, 2004, p. 222.
25
Ver: John Murray, Redenção: Consumada e Aplicada, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 1993, p.
19.
26
D. M. Lloyd-Jones, Deus o Pai, Deus o Filho, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas,
1997, p. 97. “A santidade e a retidão do Seu ser eterno e do Seu caráter significam que Ele
não pode ignorar o pecado. O pecado é uma realidade, um problema (...) até para Deus. É
uma coisa que Ele vê e da qual tem que tratar, e assim manifesta a glória do Seu ser em Sua
santidade e justiça” (D.M Lloyd-Jones, Salvos desde a Eternidade, São Paulo: Publicações Evan-
gélicas Selecionadas, 2005 (Certeza Espiritual: Vol. 1), p. 51).
27
Herman Bavinck, Teologia Sistemática, Santa Bárbara D’Oeste, SP.: SOCEP., 2001, p. 48.
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Deus é o “Pai de misericórdias” (2Co 1.3). As Escrituras declaram que Deus é
benigno e misericordioso para com todos; até para com os ingratos e maus, aos
quais Deus manifesta a Sua bondade por meio da concessão de bênçãos temporais
(Lc 6.35,36).

A fonte de toda misericórdia está em Deus. Por isso Paulo pode saudar a Timóteo
deste modo: “.... verdadeiro filho na fé, graça, misericórdia (e)/leoj = “compaixão”) e
29
paz, da parte de Deus Pai e de Cristo Jesus, nosso Senhor” (1Tm 1.2). Do mesmo
modo João: “A graça, a misericórdia (e)/leoj) e a paz, da parte de Deus Pai e de Je-
sus Cristo, o Filho do Pai, serão conosco em verdade e amor” (2Jo 3).

B. A Misericórdia que nos assiste:

Deus Se relaciona conosco em misericórdia. Ele é pleno de Seus atributos;


30
portanto, rico em misericórdia por causa do seu grande amor: “Eis que temos por
felizes os que perseveraram firmes. Tendes ouvido da paciência de Jó e vistes que
fim o Senhor lhe deu; porque o Senhor é cheio de terna misericórdia (oi)kti/rmwn) e
compassivo” (Tg 5.11).

O salmista atento à obra de Deus, conclama: “Rendei graças ao Senhor, porque


Ele é bom, porque a Sua misericórdia (‫( )חסד‬hesedh) dura para sempre” (Sl 118.1 =
Sl 106.1; 107.1, etc.). Aqui há a compreensão de que toda a nossa relação com
Deus baseia-se em Sua misericórdia.

Após a destruição de Jerusalém, Jeremias escreve: “As misericórdias (‫)חסד‬


(hesedh) do Senhor são a causa de não sermos consumidos porque as suas
misericórdias não têm fim” (Lm 3.22). Tudo que somos e temos pode ser resumido
na “misericórdia eterna de Deus”, que se compadece de nós e propicia a nossa sal-
vação.
No Salmo 130 encontramos o salmista numa situação extrema; ele não se ilude
com soluções humanas; nenhuma metodologia de auto-ajuda o pode socorrer; por
isso, pode dizer, do mais profundo de seu coração; das “profundezas” de sua situa-
ção: “....Clamo a Ti, Senhor” (Sl 130.1). Ele sabe perfeitamente a Quem se dirige. A
sua experiência compartilhada é de esperar em Deus visto que Ele é o Deus miseri-
cordioso: “6 A minha alma anseia pelo Senhor mais do que os guardas pelo romper
da manhã. Mais do que os guardas pelo romper da manhã, 7 espere Israel no SE-
NHOR, pois no SENHOR há misericórdia (‫( )חסד‬hesedh); nele, copiosa redenção” (Sl
130.6-7).

Os servos de Deus sempre tiveram um conceito claro e abrangente da necessi-


dade e realidade da misericórdia de Deus. Vejamos alguns testemunhos:

28
“Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai de misericórdias (oi)ktimo/j) e
Deus de toda consolação!” (2Co 1.3).
29
Igualmente: “Ao amado filho Timóteo, graça, misericórdia (e)/leoj) e paz, da parte de Deus Pai e de
Cristo Jesus, nosso Senhor” (2Tm 1.2).
30
“Mas Deus, sendo rico em misericórdia (e)/leoj), por causa do grande amor com que nos amou” (Ef
2.4).
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a) A Bondade do Senhor está espalhada por toda Terra: “Ele ama a justiça e o di-
reito; a terra está cheia da bondade (‫( )חסד‬hesed) do SENHOR” (Sl 33.5). (Do mesmo
modo: Sl 119.64).

b) A Misericórdia de Deus é eterna. O salmista pede a Deus que em sua lem-


brança olhe para Ele com misericórdia: “Lembra-te, SENHOR, das tuas misericór-
dias e das tuas bondades (‫( )חסד‬hesed), que são desde a eternidade. Não te lem-
bres dos meus pecados da mocidade, nem das minhas transgressões. Lembra-te de
mim, segundo a tua misericórdia (‫( )חסד‬hesed), por causa da tua bondade, ó SE-
NHOR” (Sl 25.6-7).

c) Davi pede a Deus que o livre, o salve pela sua misericórdia: “.... salva-me por
tua graça (‫( )חסד‬hesed)” (Sl 6.4). (Do mesmo modo: Sl 31.16).

d) O salmista reconhece como a misericórdia de Deus nos acompanha e, por is-


so, expressa o desejo de que assim seja: “Eis que os olhos do SENHOR estão sobre
os que o temem, sobre os que esperam na sua misericórdia (‫( )חסד‬hesed), para li-
vrar-lhes a alma da morte, e, no tempo da fome, conservar-lhes a vida. Nossa alma
espera no SENHOR, nosso auxílio e escudo. Nele, o nosso coração se alegra, pois
confiamos no seu santo nome. Seja sobre nós, SENHOR, a tua misericórdia (‫)חסד‬
(hesed), como de ti esperamos” (Sl 33.18,22). “Bondade e misericórdia (‫( )חסד‬hesed)
certamente me seguirão todos os dias da minha vida; e habitarei na Casa do SE-
NHOR para todo o sempre” (Sl 23.6).

e) A Misericórdia de Deus é preciosa e, aqueles que a reconhecem, refugiam-se


em Deus: “Como é preciosa, ó Deus, a tua benignidade! (‫( )חסד‬hesed) Por isso, os
filhos dos homens se acolhem à sombra das tuas asas” (Sl 36.7).

f) Davi sabe que o seu culto a Deus é resultante da riqueza da misericórdia de


Deus: “.... eu, pela riqueza da tua misericórdia (‫( )חסד‬hesed), entrarei na tua casa e
me prostrarei diante do teu santo templo, no teu temor” (Sl 5.7).

g) Deus responde as nossas orações devido à Sua misericórdia: “Quanto a mim,


porém, SENHOR, faço a ti, em tempo favorável, a minha oração. Responde-me, ó
Deus, pela riqueza da tua graça (‫( )חסד‬hesed); pela tua fidelidade em socorrer (...).
Responde-me, SENHOR, pois compassiva é a tua graça (‫( )חסד‬hesed); volta-te para
mim segundo a riqueza das tuas misericórdias” (Sl 69.13,16).

h) Deus nos guarda e protege com a Sua misericórdia. Davi escreve: “Muito so-
frimento terá de curtir o ímpio, mas o que confia no SENHOR, a misericórdia (‫)חסד‬
(hesed) o assistirá (‫( )סבב‬sabab)” (Sl 32.10). A palavra assistir, que tem um amplo
sentido literal e figurado, significa envolver, cercar, contornar. Apenas para ilustrar,
mencionamos que esta é a palavra usada para descrever as voltas que o exército de
Israel deu sobre Jericó durante sete dias (Js 6.3,4,7,11,14,15). A idéia expressa é a
de que Deus nos cerca, nos envolve por todos os lados com a Sua misericórdia.
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3. A MISERICÓRDIA DE DEUS E A NOSSA SALVAÇÃO:


A encarnação do Verbo de Deus é uma manifestação de Sua misericórdia para
com os pecadores a fim de poder representá-los e socorrê-los: “Por isso mesmo,
convinha que, em todas as coisas, se tornasse semelhante aos irmãos, para ser mi-
sericordioso (e)leh/mwn) e fiel sumo sacerdote nas coisas referentes a Deus e para
fazer propiciação pelos pecados do povo” (Hb 2.17).

Por isso em nossa proximidade de Cristo mais temos noção de Sua misericórdia:
“Acheguemo-nos, portanto, confiadamente, junto ao trono da graça, a fim de rece-
bermos misericórdia (e)/leoj) e acharmos graça para socorro em ocasião oportuna”
(Hb 4.16).

Como vimos, a misericórdia de Deus nunca anula a Sua justiça. A nossa justiça
pode ser motivada por questões muitas vezes nobres, no entanto, circunscritas à
nossa própria situação limitada de conhecimento da realidade. Portanto, devemos
aprender a subordinar o nosso ardor de justiça à justiça de Deus, a qual é sempre
santa e perfeita. Deus é soberano na manifestação de Sua misericórdia: “14Que di-
remos, pois? Há injustiça da parte de Deus? De modo nenhum! 15 Pois ele diz a
Moisés: Terei misericórdia de (e)lee/w = “mostrar misericórdia”, “compadecer-se”)
quem me aprouver ter misericórdia (e)lee/w) e compadecer-me-ei (oi)kti/zw) de quem
me aprouver ter compaixão (oi)kti/zw). 16 Assim, pois, não depende de quem quer
31
ou de quem corre, mas de usar Deus a sua misericórdia (e)lee/w ou e)lea/w). (...)
18
Logo, tem ele misericórdia de (e)lee/w) quem quer e também endurece a quem lhe
apraz” (Rm 9.14-16,18).

A nossa salvação é uma eloquente demonstração do amor misericordioso de


Deus. Por isso a salvação é atribuída inteiramente à Sua misericórdia que vem ao
nosso encontro nos atraindo para Si em Cristo, nos dando vida, nos transformando e
nos concedendo uma viva esperança fundamentada na obra de Seu Filho. Neste
sentido, Paulo escreve a Tito falando do amor de Deus, acentuando que a nossa
salvação não foi por causa de algum suposto valor inerente a nós ou a alguma obra
meritória: “Não por obras de justiça praticadas por nós, mas segundo sua misericór-
dia (e)/leoj), ele nos salvou mediante o lavar regenerador e renovador do Espírito
Santo” (Tt 3.5).

Paulo, recordando envergonhado qual fora o seu comportamento antes de conhe-


cer a Cristo, como implacável e arrogante perseguidor da Igreja, realça a misericór-
dia de Deus em atraí-lo: “12 Sou grato para com aquele que me fortaleceu, Cristo
Jesus, nosso Senhor, que me considerou fiel, designando-me para o ministério, 13 a
mim, que, noutro tempo, era blasfemo, e perseguidor, e insolente. Mas obtive miseri-
córdia (e)lee/w), pois o fiz na ignorância, na incredulidade. 14 Transbordou, porém, a
graça de nosso Senhor com a fé e o amor que há em Cristo Jesus. 15 Fiel é a pala-
vra e digna de toda aceitação: que Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os peca-
dores, dos quais eu sou o principal. 16 Mas, por esta mesma razão, me foi concedi-
da misericórdia (e)lee/w), para que, em mim, o principal, evidenciasse Jesus Cristo a

31
Há aqui uma variante textual.
A Misericórdia perdoadora de Deus e a nossa Responsabilidade – Rev. Hermisten – 17/05/10 – 9/14

sua completa longanimidade, e servisse eu de modelo a quantos hão de crer nele


para a vida eterna” (1Tm 1.12-16).

Na Epístola aos Coríntios, Paulo bendiz a Deus considerando o fato de que é Ele
quem nos conforta em toda a nossa tribulação, fazendo o que Lhe é próprio, visto
32
que é o “Pai de misericórdias”: “Bendito seja (Eu)loghto\j) o Deus e Pai de nosso
Senhor Jesus Cristo, o Pai de misericórdias (oi)ktimo/j) e Deus de toda consolação!”
(2Co 1.3).

Do mesmo modo Pedro bendiz a Deus considerando a nossa regeneração efetu-


ada pela “muita misericórdia” de Deus, para que tenhamos uma viva esperança por
intermédio da ressurreição de Cristo: “Bendito (Eu)loghto\j) o Deus e Pai de nosso
Senhor Jesus Cristo, que, segundo a sua muita misericórdia (e)/leoj), nos regenerou
para uma viva esperança, mediante a ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos”
(1Pe 1.3).

Pedro dirigindo-se às igrejas da Dispersão, enfatiza a misericórdia de Deus que


os alcançou conferindo-lhes a condição de povo de Deus: “Vós, sim, que, antes, não
éreis povo, mas, agora, sois povo de Deus, que não tínheis alcançado misericórdia
(e)lee/w), mas, agora, alcançastes misericórdia (e)lee/w)” (1Pe 2.10).

A nossa salvação futura está depositada totalmente na misericórdia de Deus:


“Guardai-vos no amor de Deus, esperando a misericórdia (e)/leoj) de nosso Senhor
Jesus Cristo, para a vida eterna” (Tg 1.21).

4. OS MISERICORDIOSOS: A MISERICÓRDIA COMPARTILHADA:


A misericórdia de Deus não é estéril, antes, deve estimular-nos ao serviço obedi-
ente. Paulo considerando a ação misericordiosa de Deus em prover a salvação (Rm
33
11), roga aos romanos, “pelas misericórdias (oi)ktirmo/j) de Deus” (Rm 12.1), que
O cultuem com integridade.
34
O apelo de Paulo era frequentemente fundamentado numa questão teológica;
não se amparava simplesmente em sua idoneidade ou autoridade, antes em Deus
mesmo. Aqui ele roga pelas misericórdias de Deus (Rm 12.1/1Ts 2.12).

32
A palavra bendito, (Eu)loghto\j = “louvado”, “bem-aventurado”) (Hebraico: Baruk; Latim: Benedic-
tus) ocorre 8 vezes no Novo Testamento e é sempre usada para Deus (Mc 14.61; Lc 1.68; Rm 1.25;
9.5; 2Co 1.3; 11.31; Ef 1.3; 1Pe 1.3). Somente Deus é Bendito, Aquele que deve ser louvado.
33
O verbo rogar (parakale/w) tem o sentido de: implorar (Mt 8.5; 18.29), suplicar (Mt 18.32); exor-
tar (Lc 3.18; At 2.40; 11.23); conciliar (Lc 15.28); consolar (Lc 16.25; 15.32; 1Ts 5.11; 2Ts 2.17); con-
fortar (At 16.40; 2Co 1.4; 7.6); contemplar (2Co 1.4); convidar (At 8.31); pedir (At 9.38; 1Co 4.13;
16.15); pedir desculpas (At 16.39); fortalecer (At 20.2,12); solicitar (At 25.2; Fm 9,10); chamar (At
28.20); admoestar (1Co 4.16; Hb 10.25); recomendar (1Co 16.12; 2Co 8.6; 9.5; 1Tm 6.2).
34
Assim ele o faz pelas misericórdias de Deus (Rm 12.1/1Ts 2.12) e pelo Senhor Jesus (Rm 15.30;
1Co 1.10; Fp 4.2). Como cooperador de Deus exorta a que os coríntios não recebam em vão a graça
de Deus (2Co 6.1); roga também pela mansidão e benignidade de Cristo (2Co 10.1).
A Misericórdia perdoadora de Deus e a nossa Responsabilidade – Rev. Hermisten – 17/05/10 – 10/14

35
Como novas criaturas que somos em Cristo Jesus (Cl 3.10), a misericórdia de-
ve ser um dos ingredientes fundamentais em todas as nossas relações; deve ser a
36
nossa vestimenta: “Revesti-vos (e)ndu/w), pois, como eleitos de Deus, santos e a-
mados, de ternos afetos de misericórdia (oi)ktirmo/j), de bondade, de humildade, de
mansidão, de longanimidade” (Cl 3.12).

Vejamos exemplos e princípios:

A. Misericórdia e Intercessão:

A misericórdia é uma concessão de Deus; ninguém pode reivindicar misericór-


37
dia; ela não é merecida, senão não seria misericórdia. Podemos e devemos espe-
rar e suplicar a misericórdia de Deus inclusive em nossas intercessões. Paulo inter-
cede pelo seu leal amigo, Onesíforo, bem como pela sua família: “Conceda o Se-
nhor misericórdia (e)/leoj) à casa de Onesíforo, porque, muitas vezes, me deu ânimo
e nunca se envergonhou das minhas algemas 17 antes, tendo ele chegado a Roma,
me procurou solicitamente até me encontrar. 18 O Senhor lhe conceda, naquele Dia,
achar misericórdia (e)/leoj) da parte do Senhor. E tu sabes, melhor do que eu, quan-
tos serviços me prestou ele em Éfeso” (2Tm 1.16-18).

B. Misericórdia Prática e Agregadora:

O Senhor deseja que não apenas sintamos misericórdia, mas que a exercite-
mos para com o nosso próximo; tenhamos atos de misericórdia. É isto o que Ele diz
aos fariseus que se indignaram do Senhor comer com “publicanos e pecadores”: “I-
de, porém, e aprendei o que significa: Misericórdia (e)/leoj) quero e não holocaustos;
38
pois não vim chamar justos, e sim pecadores ao arrependimento” (Mt 9.13).

A prática da misericórdia não pode ser substituída por outros gestos ou atitudes.
Ela não é um ingrediente optativo da vida cristã. É desta forma que Jesus recrimina
e instrui a alguns dos religiosos de seu tempo: “Ai de vós, escribas e fariseus, hipó-
critas, porque dais o dízimo da hortelã, do endro e do cominho e tendes negligencia-
do os preceitos mais importantes da Lei: a justiça, a misericórdia (e)/leoj) e a fé; de-
víeis, porém, fazer estas coisas, sem omitir aquelas!” (Mt 23.23).

35
“E vos revestistes do novo homem que se refaz para o pleno conhecimento, segundo a imagem
daquele que o criou” (Cl 3.10).
36
e)ndu/w tem o sentido literal de “vestir-se” (Mt 6.25; 27.31; Mc 1.6; Lc 15.22; At 12.21) e, quase que
exclusivamente em Paulo: a aplicação figurada de “revestir-se”: a) De poder (Lc 24.49); b) Das armas
da luz (Rm 13.12); c) Do Senhor Jesus (Rm 13.14; Gl 3.27); d) Do novo homem (Ef 4.24; Cl 3.10); e)
De toda armadura de Deus (Ef 6.11,14); f) De ternos afetos (Cl 3.12); g) Da couraça da fé e amor
(1Ts 5.8). A palavra descreve também a nossa ressurreição como um revestimento de imortalidade e
incorruptibilidade (1Co 15.53-54).
37
“Falar sobre misericórdia merecida é uma contradição de termos” (A.W. Pink, Deus é So-
berano, Atibaia, SP.: FIEL, 1977, p. 23).
38
Do mesmo modo, veja-se: Mt 12.7.
A Misericórdia perdoadora de Deus e a nossa Responsabilidade – Rev. Hermisten – 17/05/10 – 11/14

Para com aqueles que titubeiam em sua fé devemos usar de misericórdia para
poder ajudá-los em sua fraqueza. Parece-nos ser isto o que recomenda Judas: “E
39
compadecei-vos de (e)lee/w ou e)lea/w) alguns que estão na dúvida” (Jd 22/Gl
40
6.1).

C. Misericórdia Aprendida em lugares insuspeitos:

Atos de misericórdia devem ser aprendidos com todos. Aos judeus tão confian-
tes de sua superioridade étnica e religiosa, por meio do diálogo com um mestre da
lei que queria tentá-lo (Lc 10.25), Jesus os ensina a procederem conforme o samari-
tano da parábola, fazendo uma pergunta ao seu interlocutor: “Qual destes três te pa-
rece ter sido o próximo do homem que caiu nas mãos dos salteadores?” (Lc 10.36).
Obtendo a resposta: “O que usou de misericórdia (e)/leoj) para com ele” (Lc 10.37).
A partir da identificação dos atos de socorro do samaritano para com aquele homem
ferido, como misericórdia, Jesus arremata: “Vai e procede tu de igual modo” (Lc
10.37). Em outras palavras, podemos aprender até mesmo com os samaritanos o
significado da misericórdia.

D. Misericórdia como motivo de alegria compartilhada:


41
1) Quando a piedosa Isabel, estéril e já idosa (Lc 1.7), por intervenção divi-
na concebeu o seu filho, João Batista, seus vizinhos e parentes se alegraram com
ela reconhecendo a misericórdia de Deus: “Ouviram os seus vizinhos e parentes que
o Senhor usara de grande misericórdia (e)/leoj) para com ela e participaram do seu
regozijo” (Lc 1.58). Deus é bom; devemos nos alegrar com a alegria de nossos ir-
mãos.

2) A misericórdia de Deus deve ser anunciada. Ao homem que estivera endemo-


niado e fôra liberto por Jesus, desejando permanecer com o Senhor, este não o per-
mitindo, lhe diz: “Vai para tua casa, para os teus. Anuncia-lhes tudo o que o Senhor
te fez e como teve compaixão de (e)lee/w) ti” (Mc 5.19).

3) A misericórdia de Deus da qual somos alvo, deve ser socializada em nossas


relações. Na parábola do “credor incompassivo”, o Senhor recrimina aquele servo
que sendo perdoado em sua grande dívida pela misericórdia de seu credor, não u-
sou de critério semelhante para com aquele que lhe devia bem menos, antes o lan-
çou na prisão. Deste modo, arremata: “Não devias tu, igualmente, compadecer-te do
(e)lee/w) teu conservo, como também eu me compadeci de (e)lee/w) ti?” (Mt 18.33). A
misericórdia é mãe do perdão. Evidenciamos que fomos perdoados aprendendo a
perdoar, a manifestar misericórdia.

39
Aqui há uma variante textual.
40
“Irmãos, se alguém for surpreendido nalguma falta, vós, que sois espirituais, corrigi-o com espírito
de brandura; e guarda-te para que não sejas também tentado” (Gl 6.1).
41
“E não tinham filhos, porque Isabel era estéril, sendo eles avançados em dias” (Lc 1.7).
A Misericórdia perdoadora de Deus e a nossa Responsabilidade – Rev. Hermisten – 17/05/10 – 12/14

4) A misericórdia deve ser exercida não com tristeza ou espírito de superioridade,


antes, com alegria, “prontidão de mente”: “.... o que exorta faça-o com dedicação; o
que contribui, com liberalidade; o que preside, com diligência; quem exerce miseri-
córdia (e)lee/w), com alegria” (Rm 12.8).

Todavia, Calvino (1509-1564) constata com tristeza:

“Quase ninguém é capaz de dar uma miserável esmola sem uma atitu-
de de arrogância ou desdém. (...) Ao praticar uma caridade, os cristãos
deveriam ter mais do que um rosto sorridente, uma expressão amável,
uma linguagem educada.
“Em primeiro lugar, deveriam se colocar no lugar daquela pessoa que
necessita de ajuda, e simpatizarem-se com ela como se fossem eles mes-
mos que estivessem sofrendo. Seu dever é mostrar uma verdadeira huma-
nidade e misericórdia, oferecendo sua ajuda com espontaneidade e ra-
pidez como se fosse para si mesmos.
“A piedade que surge do coração fará com que se desvaneça a arro-
gância e o orgulho, e nos prevenirá de termos uma atitude de reprovação
42
ou desdém para com o pobre e o necessitado”.

Em nossa beneficência, nada devemos esperar em troca, ainda que esta seja
uma prática comum. Aliás, “quando damos nossas esmolas, nossa mão esquer-
43
da deve ignorar o que a mão direita fez”. Comentando o Salmo 68 enfatiza
que o Deus da glória é também o Deus misericordioso; em seguida observa a atitude
pecaminosa comum aos homens: “Geralmente distribuímos nossas atenções
onde esperamos nos sejam elas retribuídas. Damos preferência a posição e
44
esplendor, e desprezamos ou negligenciamos os pobres”. E quanto à ingrati-
dão tão comum ao gênero humano? Bem, em nossa ajuda aos nossos irmãos não
devemos nos preocupar com isso, visto que “ainda que os homens sejam ingra-
tos, de modo que pareça termos perdido o que lhes damos, devemos perse-
45
verar em fazer o bem”. E mais: “.... não dependemos da gratidão humana,
e, sim, de Deus que Se coloca no lugar do pobre como devedor, para que
46
um dia venha restituir-nos cheio de solicitude, tudo quanto distribuímos....”.

42
João Calvino, A Verdadeira Vida Cristã, São Paulo: Novo Século, 2000, p. 39.
43
John Calvin, Calvin’s Commentaries, Grand Rapids, Michigan: Baker Book House Company, 1996
(Reprinted), Vol. XVIII, (At 5.1), p. 196.
44
João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 2, (Sl 68.4-6), p. 645.
45
João Calvino, Exposição de 2 Coríntios, São Paulo: Paracletos, 1995, (2Co 8.10), p. 173. “É real-
mente verdade que não há nada que fira tanto os que possuem uma disposição mental in-
gênua que quando os perversos e ímpios os recompensam de forma um tanto desonrosa e
injusta. Mas quando ponderam sobre esta consoladora consideração, de que Deus não é
menos ofendido com tal ingratidão do que aqueles a quem se faz a injúria, eles não têm
nenhuma justificativa de se magoarem com tanto excesso” (João Calvino, O Livro dos Salmos,
Vol. 2, (Sl 38.19-20), p. 192).
46
João Calvino, Exposição de 1 Coríntios, São Paulo: Paracletos, 1996, (1Co 16.2), p. 500.
A Misericórdia perdoadora de Deus e a nossa Responsabilidade – Rev. Hermisten – 17/05/10 – 13/14

5) A sabedoria cristã se revela em atos de misericórdia. Paulo escreve aos Ro-


manos falando de seu desejo quanto àqueles irmãos: “.... quero que sejais sábios
(sofo/j) para o bem e símplices para o mal” (Rm 16.19). Tiago, descrevendo a sa-
bedoria concedida por Deus, diz que ela é plena de misericórdia: “A sabedoria (so-
fi/a), porém, lá do alto é, primeiramente, pura; depois, pacífica, indulgente, tratável,
plena de misericórdia (e)/leoj) e de bons frutos, imparcial, sem fingimento” (Tg 3.17).

6) Os diáconos devem ser vistos como braços da misericórdia de Deus em favor


do Seu povo carente; eles exercem, em parte, o “socorro” de Deus para com o Seu
47
povo (1Co 12.28): “Os diáconos representam a Cristo em seu ofício de mise-
ricórdia, e o exercício da misericórdia está vinculado com o consolo dos afli-
48
tos”. “Nisto consiste o ofício dos diáconos: Devem demonstrar solicitude
49
pelos pobres e atender às suas necessidades”.

CONSIDERAÇÕES FINAIS:

1) Deus nos perdoa não porque seja obrigado, mas, porque Ele é misericordio-
50
so; Ele olha para o nossa estado de miséria espiritual e livremente se com-
padece de nós e nos alivia, nos perdoando os pecados, apagando toda a nos-
sa iniquidade. O salmista escreve: "Ele, porém, que é misericordioso, perdoa a
iniqüidade, e não destrói; antes muitas vezes desvia a sua ira, e não dá largas
a toda a sua indignação" (Sl 78.38). Daniel em sua oração tem a mesma per-
cepção: "Inclina, ó Deus meu, os teus ouvidos, e ouve; abre os teus olhos, e
olha para a nossa desolação, e para a cidade que é chamada pelo teu nome,
porque não lançamos as nossas súplicas perante a tua face fiados em nossas
justiças, mas em tuas muitas misericórdias" (Dn 9.18).

2) A misericórdia de Deus deve servir de medida para a nossa misericórdia. Daí o


ensino de Jesus Cristo: “35 Amai, porém, os vossos inimigos, fazei o bem e em-
prestai, sem esperar nenhuma paga; será grande o vosso galardão, e sereis fi-
lhos do Altíssimo. Pois ele é benigno até para com os ingratos e maus. 36 Sede
misericordiosos (oi(kti/rmwn), como também é misericordioso (oi(kti/rmwn) vos-
so Pai” (Lc 6.35-36). No exercício da misericórdia aprendida de Cristo, nos be-
neficiamos, crescemos: “O homem bondoso (‫( )חסד‬hesedh) faz bem a si
mesmo, mas o cruel a si mesmo se fere” (Pv 11.17).

3) Nas bem-aventuranças somos desafiados a aprender a ser humildes, a chorar,


sermos mansos e a buscar intensamente a justiça. Quando isso se concretiza

47
“A uns estabeleceu Deus na igreja, primeiramente, apóstolos; em segundo lugar, profetas; em ter-
ceiro lugar, mestres; depois, operadores de milagres; depois, dons de curar, socorros, governos, vari-
edades de línguas” (1Co 12.28).
48
R.B. Kuiper, El Cuerpo Glorioso de Cristo, Grand Rapids, Michigan: SLC., 1985, p. 141.
49
João Calvino, As Institutas, (1541), IV.13.
50
“A misericórdia não é um direito ao qual o homem faz jus. A misericórdia é aquele atributo
adorável de Deus, pelo qual tem dó dos miseráveis e os alivia.” (A.W. Pink, Deus é Soberano,
p. 23).
A Misericórdia perdoadora de Deus e a nossa Responsabilidade – Rev. Hermisten – 17/05/10 – 14/14

51
em nós, podemos naturalmente sentir e exercitar a misericórdia.

4) Uma das características do homem entregue a si mesmo, é a falta de miseri-


córdia: “insensatos, pérfidos, sem afeição natural e sem misericórdia”
(a)/neleh/mwn)(Rm 1.31).

5) A ausência de misericórdia reflete a pequena ou total ausência de consciência


da misericórdia de Deus para conosco, pecadores condenados. Aqueles que
não exercem misericórdia, não esperem também a misericórdia de Deus.
“Porque o juízo é sem misericórdia (a)ne/leoj) para com aquele que não usou
de misericórdia (e)/leoj). A misericórdia (e)/leoj) triunfa sobre o juízo” (Tg 2.13).
“Nada nos impulsiona mais ao perdão do que o maravilhoso conheci-
mento de que nós mesmos fomos perdoados. Nada prova mais clara-
mente que formos perdoados do que a nossa própria prontidão em
52
perdoar”.

São Paulo, 16 de maio de 2010.


Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

51
Ver: John MacArthur Jr., O Caminho da Felicidade, São Paulo: Cultura Cristã, 2001, p. 115.
52
John R.W. Stott, A Mensagem do Sermão do Monte, 3ª ed. São Paulo: ABU, 1985, p. 38.

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