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Fundamentos da relação

Cristianismo
& Cultura
Olá!
Eu sou Jean Francesco
Você pode me encontrar no instagram @ojeanfrancesco
ou enviando um e-mail para jeanfrancesco@ipb.org.br
Introdução

Não existe uma perspectiva cristã homogênea a


respeito de nossa relação com a cultura. Durante a
história do cristianismo diversas opções foram
propostas. Com isso em mente, vamos tentar traçar o
perfil de como cristãos se relacionaram com a cultura e,
ao final, propor cinco fundamentos bíblicos essenciais
que norteiam essa relação de forma saudável.
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O Clássico
H. Richard Niebuhr, em Cristo e
Cultura, apresenta um histórico
das relações cristãs com a
cultura.
Cinco maneiras de lidar com a cultura

Contra A favor
A igreja precisa manter-se A igreja precisa incorporar
em tensão com a cultura a vida cultural da
sempre. A santidade se sociedade. O evangelho
desenvolve numa relação precisa andar em sintonia
de separação do mundo. com o espírito da época.

(Monasticismo/Anabatismo/ (Gnosticismo/Abelardo de
Missões*) Paris/Liberalismo)
Cinco maneiras de lidar com a cultura

Acima Paradoxo
A igreja precisa assumir A igreja precisa agir
uma posição de sobrepor a segundo sua dupla
cultura. As coisas terrenas cidadania, mesmo que em
são boas, mas o espiritual conflito. Seguimos as
é melhor. Hierarquia é regras do reino de Deus e
necessária. as do reino terreno.
(Helenismo/Catolocismo (Luteranismo/Kierkegaard)
medieval)
Cinco maneiras de lidar com a cultura

Transformador Crítica:
A igreja não é do mundo, •  Tais categorias fechadas
mas precisa assumir seu não são simples de ver na
papel de juíz e redentor da Escritura;
cultura no mundo. O projeto •  Os modelos são
de Deus não é criar outro condicionados a partir de
sua circunstância histórica
mundo, mas restaurar o
mesmo. •  Contra, Paradoxo e
Transformador são as
(Agostinho/Calvino/A.Kuyper) posições mais saudáveis
Vamos ver o que estamos falando
Quais fundamentos?
Princípios da Escritura que orientam nossa relação
com a cultura
1.
Doutrina da
Somos criaturas
criação criativas.
Criação (Gn 1.26-28; 2.15,19)

A narrativa de Gênesis nos desafia a amar o mundo


criado como uma coisa boa. Deus dá aos seres
humanos a tarefa de serem produtores de cultura, na
administração do cosmos, no cultivo do jardim, na
classificação dos animais e nas relações espirituais e
relacionais. O trabalho é visto como um meio para
atingir a santificação.

O trabalho é visto como uma vocação (sacerdócio) para a


glória de Deus
… todas as tarefas dos cristãos, tais
como amar sua esposa, a criação de

‘’
filhos, governo familiar, obediência
aos magistrados, as quais os
papistas consideram como secular e
carnal, são frutos do Espírito. Esses
homens cegos não sabem distinguir
entre vícios e as coisas que são
boas criações de Deus.

(LUTHER, Martin. Luther’s Works, vol. 26, St. Louis: Concordia, 1958, p. 217).
Não existem trabalhos
particularmente santos. Tudo o que

‘’
fazemos é secular. Entretanto,
todos os nossos trabalhos se
tornam santos quando feitos em
obediência a Deus, certos de que
ele se agrada daquilo que fazemos
pela fé.

(ALTHAUS, Paul. The Ethics of Martin Luther. Philadelphia: Fortress Press, 1972, p. 10).
2. Conhecemos
Deus por meio da
Revelação geral criação.
Revelação geral (Rm 1.20)

Deus pode ser conhecido por meio da sua revelação


escrita, encarnada e criada. As duas primeiras
maneiras de conhecer a Deus são específicas, a última,
geral. Tal princípio nos motiva a buscar o que de Deus
é possível conhecer por meio das ciências naturais.

É possível conhecer Deus por meio da criação


Os astrônomos Kepler e Copérnico eram
tão motivados por sua fé num Deus

‘’
criador e inteligente que se intitulavam
“sacerdotes de Deus” examinando o livro
da natureza. Eles acreditavam
firmemente que ser um cientista era
buscar compreender a mente de Deus,
suas leis e sabedoria, não para atiçar
suas próprias curiosidades, mas para
melhor glorificarem a Deus.

(HOOYKAAS, R. A religião e o desenvolvimento da ciência moderna. Brasília: UnB, 1988, p. 196)


Kepler e Copérnico trabalharam
incansavelmente, pois foram treinados

‘’
a ver no universo criado os traços da
sabedoria do seu criador e, por causa
disso, movidos a descobrir seus
mistérios. A ciência, nas suas origens,
nada mais era que a busca pelo
conhecimento daquilo que o próprio
Deus deixou no universo.

VEITH Jr. G. E. De todo o teu entendimento. São Paulo: Cultura cristã, 2006, p. 23.
3.
Providência
O mundo é
divina governado por Deus.
Providência divina (Mt 10.29-30)

O mundo é governado e preservado por um Deus


extremamente inteligente, soberano e bom. Assim, o
mundo criado é ordeiro, estável e absolutamente
proposital. Este foi o axioma que moveu as
investigações por leis naturais da ciência. Sem essa
premissa, qualquer investigação científica não passa de
mera conjectura.

É possível conhecer objetivamente o cosmos.


Stephen Hales fez a primeira medição
quantitativa da pressão sanguínea.
Também foi o primeiro a afirmar e

‘’ provar que as plantas absorviam ar


pelas suas folhas, convertendo-o em
substâncias sólidas. Ele também
descobriu que as folhas processavam a
luz para uso da planta.

(HEEREN, Fred. Mostre-me Deus. São Paulo: Clio Editora, 2009, p. 393)
Quanto mais pesquisas fazemos nesse

‘’ admirável cenário de coisas, mais


beleza e harmonia vemos nelas; e mais
forte e nítida são as convicções que
elas nos dão do ser, do poder e da
sabedoria do Arquiteto divino.

*Stephen Hales (1677-1761)

(HALES, Stephen. Vegetable Staticks. London :Printed for W. and J. Innys ... :||and T. Woodward,1727, xxxi)
Providência divina (Is 28.23-29)

Deus escolheu continuar sua atividade criativa neste


mundo por meio das mãos humanas. Em seu
comentário de Gênesis Lutero afirma que “Deus
ordenha as vacas por meio de homens que foram
chamados para este ofício.” Através do nosso trabalho,
por mais simples que pareçam, pessoas estão sendo
trazidas ao cuidado providencial de Deus.

Deus age no mundo por meio das nossas mãos.


(LUTHER, Martin, Werke Kritische Gesamtausgabe, vol. 44, Weimar: Hermann Bohlaus, 1883, p. 6)
Usando homens como suas próprias “mãos”
Deus oferece suas dádivas ao mundo por
meio das vocações terrenas. Comida por

‘’
meio de fazendeiros, pescadores e
caçadores; paz externa por meio de
príncipes, juízes e poderes organizados;
conhecimento e educação por meio de
professores e pais. Enquanto oramos pela
manhã “o pão nosso de cada dia nos dá
hoje”, pessoas estão muito ocupadas
trabalhando nas padarias.

(WINGREN, Gustaf. Luther on Vocation, St. Louis, Concordia, 1957, p. 9, 27).


4. Deus concede graça
Graça comum a quem não o ama.
Graça comum (Mt 5.43-45, Lc 6.32-36)

Deus presenteia os seres humanos como um todo, e


não apenas os seus filhos, com a graça da sabedoria,
inteligência, força, beleza, talentos, oportunidades e
conquistas. Esse conceito nos ajuda a reconhecer e até
mesmo louvarmos a Deus pela genialidade e prodígios
dos grandes cientistas pagãos.

Deus usa os ímpios para o bem da humanidade


Quando vemos em escritores pagãos
essa admirável luz da verdade que
transparece em suas obras, devemos

‘’ estar advertidos de que a natureza do


homem, conquanto havendo perdido a
sua integridade e se tornado
grandemente corrupta, não deixa,
entretanto, de ser ornada por muitos
dons de Deus [...]

CALVINO, João. As Institutas. São Paulo: Cultura Cristã, 2006, v.1, II, 36-37, p.105-107.
Se reconhecermos o Espírito de Deus
como a única fonte de verdade, não
lutaremos contra a verdade onde quer que
ela apareça; caso contrário estaremos

‘’ ofendendo o Espírito de Deus. […] Se o


Senhor nos quis deste modo ajudados pela
obra e ministério dos ímpios da física, na
dialética, na matemática e nas demais
áreas do saber, façamos uso destas, para
que não soframos o justo castigo de nossa
displicência, se negligenciarmos as dádivas
de Deus nelas graciosamente oferecidas.

CALVINO, João. As Institutas. São Paulo: Cultura Cristã, 2006, v.1, II, 36-37, p.105-107.
5. Deus irá restaurar
Nova criação todas as coisas.
Nova criação (Rm 8.19-21)

Deus tem um projeto final para a história conhecido


como novo céu e nova terra. Não somos salvos para
vivermos em outro mundo, mas no mesmo mundo
totalmente transformado. Viveremos com Cristo com o
nosso corpo glorificado numa terra restaurada.
Portanto, apesar das descontinuidades, a nova criação
estará repleta de continuidades com a atual.

Produção cultural pode ter duração eterna.


Possivelmente, algumas profissões
necessárias no tempo presente, devido à
queda e as suas consequências, serão
desnecessárias na nova criação. Profissões

‘’ relacionadas a saúde, estética, doenças


emocionais e morte seriam de pouco proveito
para uma população que não fica doente,
envelhece nem morre. Não haverá mais
necessidade de quimioterapia, ambulâncias
para socorrer pessoas em acidentes de
trânsito, muito menos coveiros para sepultar
pessoas.
FRANCESCO, Jean. Uma perspectiva reformada sobre o destino final da humanidade redimida.
Dissertação de Mestrado, 2017, p.89.
Por outro lado, a arte, o conhecimento e o

‘’
trabalho em diversas áreas que não
envolvem o tratamento do pecado ou
consequências dele, serão amplamente
difundidos e gloriosamente aperfeiçoados.

FRANCESCO, Jean. Uma perspectiva reformada sobre o destino final da humanidade redimida.
Dissertação de Mestrado, 2017, p.89.
Considerações finais

§  Somos seres essencialmente produtores de cultura.


Nossos papeis no mundo não são meramente
tarefas “seculares”, mas vocações criacionais com o
propósito de manifestar a glória de Deus.
§  Nossos esforços em produzir cultura não devem ser
vistos apenar como “meios de sobrevivência”, eles
são parte do processo de santificação e
conhecimento de Deus.
Considerações finais

§  A providência de Deus nos dá certeza de que é


possível conhecer e investigar a realidade, e motiva
a enxergar nossas vocações como as “mãos de
Deus” no mundo.
§  Não podemos ser ingratos para com Deus negando
a genialidade que ele tem dado a certos incrédulos.
Em Deus está toda a fonte de sabedoria,
independente de onde venha.
Considerações finais

§  Devemos ser inspirados pelo fato de que aquilo que


fazemos neste mundo pode ter um valor perene. Os
frutos do nosso trabalho, independente da área,
devem ser vistos como sinais de restauração –
prenúncios da glória –, ou até mesmo sementes a
serem desenvolvidas no novo céu e nova terra. O
que fazemos aqui pode ter repercussões eternas.

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