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DADOS DE COPYRIGHT

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A presente obra é disponibilizada pela equipe Le Livros e seus diversos parceiros, com o objetivo de oferecer conteúdo para uso parcial em pesquisas e estudos acadêmicos, bem como o simples teste da qualidade da obra, com o fim exclusivo de compra futura.

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"Quando o mundo estiver unido na busca do conhecimento, e não mais lutando por dinheiro e poder, então nossa sociedade poderá enfim evoluir a um novo nível."

DADOS DE COPYRIGHT Sobre a obra: A presente obra é disponibilizada pela equipe <a href=Le Livros e seus diversos parceiros, com o objetivo de oferecer conteúdo para uso parcial em pesquisas e estudos acadêmicos, bem como o simples teste da qualidade da obra, com o fim exclusivo de compra futura. É expressamente proibida e totalmente repudiável a venda, aluguel, ou quaisquer uso comercial do presente conteúdo Sobre nós: O Le Livros e seus parceiros disponibilizam conteúdo de dominio publico e propriedade intelectual de forma totalmente gratuita, por acreditar que o conhecimento e a educação devem ser acessíveis e livres a toda e qualquer pessoa. Você pode encontrar mais obras em nosso site: LeLivros.link ou em qualquer um dos sites parceiros apresentados neste link . "Quando o mundo estiver unido na busca do conhecimento, e não mais lutando por dinheiro e poder, então nossa sociedade poderá enfim evoluir a um novo nível." " id="pdf-obj-1-24" src="pdf-obj-1-24.jpg">

Aos filhos do presságio, que me ensinaram a ver o invisível.

As sombras caem em muros e telhas, mas o mar, o mar nas sombras brilha.

Henry Wadsworth Longfellow

18 DIAS

JIN LING

EXISTEM TRÊS REGRAS PARA SOBREVIVER NA CIDADE MURADA. Corra muito. Não confie em

ninguém. Ande sempre com uma faca.

Agora, minha vida depende da primeira.

Corra, corra, corra.

Meus pulmões queimam, buscando ar. Meus olhos ardem com as lágrimas. Papéis amassados, bitucas de cigarro. Um animal morto, tão decomposto que mal dá para saber o que era antes. Tapetes de vidro, garrafas estilhaçadas por bêbados. Tudo isso passa voando em fragmentos. As ruas formam um labirinto. Vão se desdobrando — estreitas, cheias de anúncios reluzentes e muros pichados. Homens observam com malícia dos batentes; seus cigarros brilham como os olhos de monstros na escuridão. Kuen e seus seguidores me perseguem: febris, rápidos, unidos. Caso se separassem e tentassem me cercar, talvez tivessem uma chance. Mas sou mais rápida do que todos eles porque sou menor. Consigo passar por buracos que nem chegam a ver. Isso porque sou menina. Mas eles não sabem disso. Ninguém aqui sabe. Ser menina nesta cidade, sem teto e sem família, é uma maldição. Garante ingresso automático em um dos muitos bordéis da cidade. Os meninos atrás de mim não gritam. Todos sabem que é melhor ficar quieto. Gritar chama a atenção. Atenção chama a Irmandade. Os únicos sons da perseguição são os passos duros e as respirações ofegantes. Conheço todas as esquinas que atravesso em alta velocidade. Este é meu território, a área oeste da Cidade Murada. Sei exatamente em que beco posso desaparecer. Está perto, falta só mais um pouco. Passo correndo pelo restaurante da sra. Pak, com o cheiro caseiro e aconchegante de frango, alho e macarrão. Depois tem a cadeira do sr. Wong, onde as pessoas sentam para arrancar os dentes. Em seguida fica a loja de segunda mão do sr. Lam, cuja entrada é protegida por barras grossas de metal. O próprio sr. Lam está agachado nos degraus, com os pés firmes no chão. Ele solta um barulho gutural quando passo correndo. Dá mais uma cuspida na sua coleção de latinhas. Um menino de olhos astutos senta no banco do outro lado, beliscando macarrão com frutos do mar num pote de isopor. Meu estômago ronca e penso em como seria fácil roubar a refeição dele. Continuo correndo. Não posso parar. Nem mesmo por comida. Estou tão distraída por causa do macarrão que quase perco o beco. A curva é muito acentuada e, por pouco, não torço o tornozelo. Mas continuo correndo, entrando de lado na

fenda estreita entre os dois prédios monstruosos. Paredes de blocos de concreto encostam no meu peito e raspam minhas costas. Se eu respirar rápido demais, não vou conseguir passar. Vou adentrando ainda mais, ignorando como a parede áspera e úmida rasga a pele dos meus cotovelos. Baratas e ratos se movem nos espaços que meu corpo deixa, sem nenhum medo de serem esmagados pelos meus pés. Passos duros e sinistros ecoam pelas paredes, palpitam nos meus ouvidos. Kuen e seu bando passaram reto. Desta vez. Olho para o par de botas na minha mão. Couro robusto, solas resistentes. Um bom achado. Valeram os minutos de pânico que acabei de passar. Nem mesmo o sr. Chow, o sapateiro da ponta oeste da cidade, sempre debruçado na bancada de pregos e couro, faz calçados tão resistentes. Queria saber como Kuen arranjou essas botas. Devem ser da Cidade de Fora. A maioria das coisas boas é de lá. Gritos de fúria chegam ao meu esconderijo, somados a uma série de xingamentos. Eu me encolho e o lixo aos meus pés estremece. Talvez os moleques de Kuen tenham me achado. Uma menina tropeça e cai dentro da travessa onde estou. Ela respira com dificuldade. Sangue corre dos seus braços e pernas por causa do vidro na pele. As costelas estão à mostra sob o vestido de seda lisa. É azul, cintilante e fino. Não é o tipo de coisa que se usa nesta cidade. Perco o ar. Será que é ela? A menina ergue os olhos, e vejo um rosto coberto por maquiagem. Só seus olhos são verdadeiros. Parecem impetuosos, como se ela estivesse pronta para lutar. Quem quer que seja essa menina, não é Mei Yee. Não é a irmã que tenho procurado todo esse tempo. Encolho-me na escuridão. Mas é tarde demais. A menina embonecada me vê. Abre os lábios, como se quisesse falar. Ou morder. Não sei dizer. Nem vou saber. Os homens partem para cima dela. Atiram-se feito abutres, agarrando seu vestido e tentando puxá-la. As chamas nos olhos da menina ficam desvairadas. Ela se vira, com os dedos prontos para arranhar a cara do agressor mais próximo. O homem recua. Quatro riscas brilhantes se abrem no seu rosto. Ele berra coisas indizíveis. Puxa algumas mechas do longo cabelo dela. A menina não grita. Seu corpo continua girando, debatendo-se, surrando em movimentos desesperados. São quatro homens com as mãos em cima dela, mas não é uma briga fácil. Eles estão tão ocupados tentando segurá-la que não me veem assistindo a tudo nas profundezas escuras do beco. Cada um deles segura um dos membros dela com força. A menina resiste, arqueando as costas e cuspindo na cara deles. Um dos homens a acerta na cabeça e ela cai num silêncio sinistro e perturbador. Agora que não se move, consigo ver seus captores. A marca da Irmandade está em todos os quatro. Camisas negras. Armas. Joias em forma de dragão e tatuagens. Um deles tem até o demônio vermelho tatuado no rosto. Desce até o queixo e a linha do cabelo. — Puta idiota! — o homem com os arranhões resmunga para o corpo espancado e

inconsciente. — Vamos levar esta menina de volta — diz aquele com a tatuagem no rosto. — Longwai está esperando. Só depois que a levam, o cabelo preto varrendo o chão sob o corpo inerte, percebo que eu estava prendendo a respiração. Minhas mãos tremem, ainda segurando as botas. Aquela menina. Seus olhos impetuosos. Poderia ser eu. Minha irmã. Qualquer uma de nós.

NÃO SOU UMA BOA PESSOA.

DAI

Se precisarem de provas, mostro minha cicatriz, digo minha contagem de corpos. Mesmo quando era só um moleque, atraía encrenca feito um ímã. Vivia perigosamente, deixando um rastro de coisas destruídas: vasos, narizes, carros, corações, células cerebrais. Efeitos colaterais de uma vida irresponsável. Minha mãe sempre tentava me transformar numa boa pessoa. Suas frases favoritas eram “Ah, Dai Shing, por que você não é mais parecido com seu irmão?” e “Você nunca vai conseguir uma boa esposa se continuar desse jeito!”. Ela dizia essas coisas sem parar, tentando não ficar com o rosto vermelho, enquanto meu irmão ficava parado atrás dela, com uma linguagem corporal que era a exata definição de “eu te avisei”: braços cruzados, nariz empinado, as grossas sobrancelhas franzidas e unidas. Eu sempre dizia que a cara dele ficaria daquele jeito para sempre se continuasse me dedurando: uma vida adulta condenada por uma monocelha. Mas isso nunca o impediu. A tática preferida do meu pai era o medo. Ele colocava a pasta na mesa, abria um pouco a gravata e me falava desse lugar, a Cidade Murada de Hak Nam. Uma mistura dos ingredientes mais sombrios da humanidade — ladrões, prostitutas, assassinos, viciados — em dois hectares e meio. O inferno na terra, ele dizia. Um lugar tão implacável que nem mesmo a luz do sol tinha coragem de entrar. Se eu continuasse fazendo besteira, ele mesmo me levaria para lá. Ia me largar no covil de traficantes e ladrões para eu aprender uma lição. Meu pai se esforçou muito para me assustar, mas nem todas as histórias conseguiram me tornar bonzinho. Acabei na Cidade Murada de qualquer jeito. A ironia me faria rir. Mas não rio mais. O riso ficou nos arranha-céus reluzentes, shoppings e engarrafamentos de táxis de Seng Ngoi. Setecentos e trinta. Faz setecentos e trinta dias que estou preso neste esgoto da humanidade. Dezoito. Tenho dezoito dias para encontrar uma saída. Tenho um plano, um plano muito elaborado e arriscado, mas, para ele funcionar, preciso de um corredor. Um corredor rápido. Não cheguei à metade da minha tigela de wonton mein quando o menino passa em disparada pelo banquinho. Com a mesma rapidez que surge, ele desaparece, correndo mais rápido do que os atletas da minha antiga escola. — O menino está aprontando de novo. — O sr. Lam põe para fora o muco da garganta. Seu olhar de tartaruga se volta para o outro lado da rua. — Queria saber quem ele roubou desta vez. Metade das lojas por aqui já foi vítima dele. Mas nunca tentou nada com essas

grades. Aqui ele só compra. Acabo de apoiar os palitinhos na tigela quando os outros chegam correndo. Kuen está à frente do bando, com os olhos vesgos de raiva e concentração. Faz um tempo que o risquei da lista de possíveis corredores. Ele é cruel, implacável e meio burro. Não preciso de uma pessoa assim. Mas aquele outro moleque se encaixa direitinho no perfil. Se eu conseguir alcançá-lo. Deixo o resto do macarrão, ergo o capuz do moletom e vou atrás deles. Os meninos de Kuen correm por mais alguns minutos antes de parar. Viram a cabeça de um lado para o outro, com os olhos arregalados, ofegantes. Está claro que perderam quem estão procurando, seja lá quem for. Devagar, viro para a calçada. Nenhum deles me vê. Estão muito ocupados com Kuen, que está puto da vida. — Para onde ele foi? Para onde? — o marginal grita e chuta uma lata de cerveja vazia. Ela acerta um muro com um estalo metálico; uma família de baratas sai do bloco de concreto. Sinto um arrepio ao ver isso. Engraçado. Depois de tudo o que passei, tudo o que vi, insetos ainda me dão calafrios. Kuen não nota as baratas. Ele está furioso, descontando no lixo, no muro e nos pivetes. Eles se esquivam, não querem ser o inevitável bode expiatório. Kuen se volta para eles. — Quem estava de vigia? Ninguém responde. Claro. O punho do marginal está cerrado e seus braços tremem. — Quem estava de vigia? — Lee — responde o menino mais perto dos punhos de Kuen. — Lee estava. O menino em questão ergue as mãos, rendendo-se imediatamente. — Desculpa, chefe! Não vai acontecer de novo, juro. Kuen dá um passo à frente, encurralando Lee, que treme sem parar. Os punhos do marginal estão cerrados, sedentos por uma briga. Enfio as mãos nos bolsos do moletom. Sinto um pouco de pena de Lee, mas não o suficiente para fazer alguma coisa. Não posso me dar ao luxo de me envolver nos problemas dos outros. Não agora que o tempo para resolver meus próprios problemas está chegando ao fim. Kuen parece prestes a socar o rosto do menino. Nenhum dos outros tenta impedir. Eles se encolhem, ficam olhando e esperam enquanto o punho se ergue na altura do nariz de Lee. Fica parado no ar. — Quem foi? Hein? — pergunta Kuen. — Imagino que você conseguiu dar uma boa olhada nele. — Sim, sim, sim. — Lee balança a cabeça violentamente. A sofreguidão dele dá pena, a maneira como Kuen intimidou todos esses meninos. Se morassem num mundo civilizado, jogando futebol, cantando no karaokê com os amigos, é provável que tivessem outro líder. Um com mais cérebro do que músculos. Mas esta é a Cidade Murada de Hak Nam, e quem manda aqui é o medo. É a lei do mais forte.

— Foi Jin. Ele já roubou um monte de coisas da gente. Uma lona. Uma camisa — continua Lee. — Você sabe. Aquele que veio de Fora alguns anos atrás. Aquele com o gato… Kuen rosna. — Estou pouco me lixando para a droga do gato. Quero minhas botas! Botas? Olho para baixo e vejo que o brutamontes está descalço. Tem sangue nos pés por causa da corrida pelas ruas sujas. Cortes de vidro. Talvez até restos de macarrão. É por isso que está tão nervoso. Lee está encostado na parede. Seu rosto está todo enrugado, como se estivesse prestes a chorar. — Vou conseguir as botas de volta. Prometo! — Eu mesmo vou cuidar disso. Kuen desce o punho. O som dos dedos no queixo do outro é alto e terrível. Ele continua socando, sem parar, até o rosto de Lee ficar tão escuro quanto seu cabelo oleoso. É difícil olhar. Muito mais perturbador do que meia dúzia de insetos. Eu podia impedir. Podia pegar minha arma e dispersar a gangue de Kuen como baratas. Meus dedos se retorcem e queimam a cada soco, mas os mantenho enfiados nos bolsos. Crianças morrem todos os dias nestas ruas — vidas roubadas por fome, doenças ou facas. Não posso salvar todas. E, se não mantiver a cabeça baixa e fizer o que precisa ser feito em dezoito dias, não vou conseguir salvar nem minha própria pele. É isso que repito para mim mesmo, várias vezes, enquanto vejo o rosto do menino ser destruído, cheio de sangue e hematomas. Não sou uma boa pessoa. — Tira a bota — Kuen grita quando seus punhos finalmente param. Lee está no chão agora, choramingando. — Por favor… — Tira a bota antes que eu encha você de porrada de novo! Os dedos de Lee tremem enquanto desamarra os cadarços, mas ele consegue tirar as botas mesmo assim. Kuen pega o par e coloca nos pés ensanguentados. Começa a falar com o resto dos meninos enquanto amarra os cadarços:

— Algum de vocês sabe onde esse tal de Jin se esconde? As únicas respostas são acenos negativo de cabeça e olhares vazios. — Ka Ming, Ho Wai, quero que vocês dois descubram onde ele dorme. Vou pegar minhas botas de volta. — A última frase de Kuen pareceu mais um rosnado. A rua ganha vida com berros. No começo, penso que é Lee, mas o moleque descalço e espancado está tão surpreso quanto os outros. Eles olham para a rua lá embaixo, esticando o pescoço como aqueles suricatos que apareciam no documentário sobre a vida selvagem, o favorito do meu irmão. Os berros vêm de outro lugar, lá de trás, onde meu macarrão está ficando frio. Tantos homens adultos gritando juntos só podem ser da Irmandade. Hora de dar o fora. O bando de Kuen deve estar pensando o mesmo, porque começa uma retirada imediata e

atrapalhada. Para longe dos berros. Para longe de Lee. Para longe de mim. — Por favor! Não me deixa! — Lee estende o braço, com um choramingo mais do que patético. — Nem pense em voltar para o acampamento. — Kuen cospe no menino, agora banido, antes de sumir de vez. Não consigo deixar de pensar no que vai acontecer com o moleque espancado. Se ele for como os outros pivetes de Kuen, sua situação familiar deve ser órfão, ou então pais pobres demais para alimentá-lo. Crianças com teto e comida quente têm coisa melhor para fazer do que brincar de lei do mais forte. Sem pais, descalço, com o rosto destruído, o inverno no auge… Claro, é um inverno leve (sempre é), mas o ar frio atinge mais quem não tem sapatos. As chances de Lee não parecem muito boas. Começo a andar com o capuz levantado e as mãos nos bolsos, tentando parecer o mais invisível possível. Escondo-me na escuridão de uma travessa bem na hora em que os homens da Irmandade passam. A menina que estão arrastando é mais sangue do que pele. Seu cabelo está solto, arrastando no chão. Seu vestido é de seda brilhante: uma das meninas de bordel. Devia estar tentando fugir. O que vejo é uma fuga que deu errado. O wonton mein desce queimando pela garganta. Vou para o outro lado, para as entranhas profundas e sombrias da cidade, deixando a menina enfrentar seu destino. Não posso salvar todos. Jin. Aquele com o gato. Não é muito para começar a procurar numa multidão de trinta e três mil pessoas, mas o sr. Lam pareceu reconhecer o menino. Minha primeira pista. Vou precisar agir rápido, encontrar o moleque antes que Kuen descubra onde monta sua tenda. Ele deve viver sozinho, o que, considerando o que acabou de acontecer com Lee, significa que é esperto. Esperto e rápido. Além disso, durou alguns anos nas ruas, o que já seria difícil em Seng Ngoi, que dirá neste buraco dos infernos. Exatamente o tipo de menino que estou procurando. Mais um passo para dar o fora deste lugar. Tomara que ele aceite.

NÃO TEM COMO FUGIR.

MEI YEE

Essas foram as primeiras palavras que o mestre do bordel me falou na noite em que os Ceifadores me tiraram da van sem janelas, depois de horas infindáveis de estradas esburacadas na escuridão. Eu ainda estava usando a camisola que tinha vestido muitos dias antes, uma roupa fina de algodão cheia de furos. Algumas meninas ao meu lado choravam. Eu… não sentia nada. Era outra pessoa. Não era a menina que tinha acabado de ser arrancada da cama. Não era a menina que tinha ficado em primeiro lugar na fila, esperando enquanto o homem com a grande cicatriz roxa no queixo nos inspecionava. Não era Mei Yee. Naquela noite, quando chegou a minha vez, ele me olhou atentamente, inspecionando-me por todos os ângulos. Podia sentir seu olhar na minha pele, como insetos se arrastando para esconderijos. Lugares aonde não deviam ir. — Ela — o homem disse ao líder dos Ceifadores. Ficamos olhando enquanto as moedas passavam de uma mão para outra, mais dinheiro do que eu tinha visto na minha curta vida como filha de agricultor. Mais de dez vezes o que os Ceifadores pagaram para me comprar do meu pai. — Não tem como fugir. Esquece sua casa. Esquece sua família. — A voz do mestre era fria, impassível. Tão sem vida quando seus olhos pesados de ópio. — Você é minha agora. São as palavras que tento esquecer quando Mama-san nos chama:

— Meninas? Estou sentada na cama. O medo corre em minhas veias. Olho para as outras garotas. Nuo está ao pé da cama, com um bordado nas mãos. Wen Kei está sentada no tapete e Yin Yu, ajoelhada atrás dela, fazendo tranças em seu cabelo preto e sedoso. Yin Yu é a única que não treme diante da voz de Mama-san. Seus dedos continuam se movendo, entrelaçando as mechas de Wen Kei sem parar. A boca de Wen Kei ainda está aberta, interrompida no meio da frase de uma das suas descrições infinitas e maravilhosas do mar. Eu estava tentando imaginar como eram as ondas quando Mama-san surgiu na porta. Mama-san — é ela quem cuida das garotas. É ela quem nos alimenta e veste. É ela quem chama o médico quando ficamos doentes. É ela quem gerencia o bordel e leva os clientes à nossa cama. Algumas meninas acham que foi trazida para cá como nós: na traseira de uma das vans dos Ceifadores. Deve ter sido muito tempo atrás, quando sua pele era macia e suas costas não eram curvadas. Ela sem dúvida não parece jovem agora. Seu rosto está enrugado em partes que não deveria estar, seus olhos parecem distantes.

— Meninas. O mestre quer ver vocês. Agora. Ele fechou o salão. — Mama-san sai da porta tão rapidamente quanto surgiu, a fim de juntar as garotas dos outros três corredores. — Pegaram Sing — Wen Kei, a menor e mais jovem de nós, fala como um passarinho, com uma voz fraca e esvoaçante. Yin Yu puxa o cabelo dela com tanta força que Wen Kei solta um grito agudo. — Não digam uma palavra. Se o mestre e Mama-san descobrirem que a gente sabia do plano de Sing… isso vai acabar mal. — Ela me olha enquanto diz isso, à procura de palavras de apoio. — A gente não vai falar nada. — Tento manter o tom de voz dos meus dezessete anos, mas a verdade é que estou exatamente como elas: trêmula e mais pálida do que arroz. Não sei por que estou tão aturdida. Sabia que isso aconteceria. Todas sabíamos. Foi por isso que tentamos convencer Sing a ficar. Não tem como fugir. Não tem como fugir. Em coro, sussurrávamos as palavras do mestre para ela, com dezenas de argumentos. Aqui ela tinha roupa, comida, água, amigas. E lá fora? O quê? Fome. Doenças. Ruas implacáveis com dentes de lobo. Mas, no fim, não houve como impedi-la. Fazia meses que eu tinha notado aquele ardor em seus olhos quando ela falava da vida antes daqui. Esse fogo se espalhou por tudo, incendiou as entranhas do seu corpo. Toda vez que Sing entrava no meu quarto, abria a minha cortina escarlate e olhava, olhava, olhava pela janela — a única janela em todo o bordel. Ela nunca foi boa em guardar as coisas ruins dentro dela, como o resto de nós. Yin Yu acha que é porque a família dela não a vendeu. Eles a amavam e a alimentavam, ensinaram-na a ler e depois morreram. Os Ceifadores a pegaram no orfanato. Encontramos Sing jogada no chão da área para fumantes, com o cabelo desgrenhado, os braços dobrados para trás num ângulo terrível. Não sei dizer se está acordada ou mesmo se está viva até um dos homens tentar fazer com que ela se sente. O sangue reluzente desce brilhando pelos braços e pelas pernas. Ela tem sangue no rosto também, cobrindo as bochechas e os lábios. O vestido — uma linda peça de seda azul-celeste com flores de cerejeira bordadas — está destruído. Ficamos paradas em fila enquanto o mestre anda devagar em círculos incessantes ao redor do corpo em posição fetal de Sing. Quando ele finalmente para, as pontas de suas sandálias estão voltadas para nós. Ele não grita, o que torna suas palavras ainda mais aterrorizantes. — Alguma de vocês sabe como é ser uma marginal lá fora? Como as outras profissionais? Nenhuma de nós responde, embora todas saibamos a resposta. Mama-san a repete toda vez que vê nosso rosto pálido e vazio. E tentamos desesperadamente fazer com que Sing se lembrasse dela antes de partir. — Dor. Doença. Morte. — As palavras saem de seus lábios como socos. Quando ele termina, leva o cachimbo aos lábios. A fumaça sai pelas narinas, lembrando o dragão escarlate bordado no seu roupão. — Como vocês acham que viveriam lá fora sozinhas? Sem minha proteção? Ele não quer uma resposta. A pergunta é mais um grito baixo, do tipo que meu pai costumava dar antes do primeiro copo de vinho de arroz. Antes de explodir.

— Dou a cada uma de vocês tudo de que precisam. É tudo do bom e do melhor para vocês. A única coisa que peço em troca é que façam com que nossos convidados se sintam à vontade. Um pedido ínfimo! O simples fato de ser o mestre quem está falando com a gente basta para fazer meu sangue gelar. É sempre Mama-san quem nos pune, com seus chiados e tapas fortes com as costas das mãos calejadas. Nas poucas vezes em que o mestre fala com a gente, sempre faz questão de lembrar que somos tratadas melhor do que as outras profissionais. Temos quartos individuais, vestidos de seda, bandejas de chá e incenso. Comemos o que quisermos. Potes de tinta para decorar o rosto. Temos tudo porque somos as escolhidas. As melhores. — Agora, essa Sing — ele diz o nome dela num tom que me dá arrepios — acabou de cuspir na minha generosidade. Dei segurança e luxo, e ela jogou tudo fora como se não fosse nada. Insultou minha honra. Meu nome. Sing está sentada atrás dele, ainda sangrando, ainda tremendo. Os homens de preto respiram com dificuldade. Pergunto-me até onde ela conseguiu ir antes de ser pega. O mestre estala os dedos. Os quatro capangas levantam Sing. Ela fica mole como uma boneca nas mãos deles. — Se desonrarem minha hospitalidade, se quebrarem as regras, vão ser punidas. Se insistirem em ser tratadas como prostitutas comuns, então é isso que vou fazer. Ele arregaça as mangas. Fung, o homem com a tatuagem escarlate no rosto, dá ao mestre uma coisa que não consigo ver direito o que é. Sing vê e solta um grito agudo capaz de acordar os deuses. Ela ganha vida de novo, com chutes e espasmos tão pavorosos que os homens que a seguram não conseguem mantê-la quieta. Seus gritos se transformam em palavras. — Não! Por favor! Me perdoa! Não vou mais fugir! Em seguida, o mestre levanta a mão e vejo o motivo do terror. Ali, entre aqueles dedos pequenos e roliços, está uma seringa. Cheia de um líquido marrom e turvo. As outras meninas também veem. Até mesmo Mama-san fica tensa ao meu lado. Não há como saber o que tem dentro daquele tubo. Dor. Doença. Morte. Sing resiste e se debate, seus gritos sobem além das palavras. No fim, os homens são muito mais fortes que ela. Não consigo olhar quando a agulha entra com força em suas veias. Quando os gritos cessam e finalmente olho, a seringa não está mais lá e Sing está no chão, estatelada e trêmula. As sombras do salão se aglomeram sobre seu corpo retorcido, fazendo-a parecer quebrada. O mestre esfrega as mãos. Então se volta para nós. — A primeira dose de heroína é sempre a melhor. A segunda não é mais tão forte. Mas mesmo assim você precisa dela. Precisa de mais e mais até ser tudo o que você quer. Tudo o que você é. Heroína. Ele pretende transformar nossa linda e esperta Sing numa viciada. Essa ideia se retorce dentro de mim, vazia e desconsolada. — Vocês são minhas. — O mestre olha para nossos vestidos de seda colorida. Sorri. — Todas vocês. Se tentarem fugir, esse vai ser seu destino.

Fecho os olhos, tentando não olhar para a menina que mais parece uma boneca quebrada no chão. Tento não lembrar das palavras que o mestre falou naquela noite há tanto tempo. Elas logo vêm atrás de mim, amarram-me como cordas: Não tem como fugir.

JIN LING

FAZ DOIS ANOS. Dois anos desde que os Ceifadores tiraram minha irmã de mim. Dois anos desde que os segui até a Cidade Murada para procurar por ela. Ao longo desses anos, aprendi a me mover como um fantasma, usar o máximo dos meus sentidos. É a única forma de sobreviver aqui: virar outra coisa que não é você, ou ficar completamente invisível. Eu era invisível quando era menor. Era só três anos mais nova do que Mei Yee, mas era ela que as pessoas notavam. Seu rosto era redondo e delicado, como a lua. Seu cabelo, liso, brilhante como a meia-noite. Mas ser bonita não servia de muita coisa num campo de arroz. Não ajudava a andar por horas na água barrenta, com as costas curvadas sob o calor ardente do sol, atravessando fileiras de mato açoitador. Sempre fui mais forte do que Mei Yee. Eu sabia que não era bonita: meus pés eram cheios de calos, minha pele era escura, meu nariz era grande demais. Sempre que nossa mãe prendia meu cabelo num coque e me mandava buscar água na lagoa, eu via o rosto de um menino no meu reflexo. Às vezes, queria que isso fosse verdade. Seria muito mais fácil. Eu seria mais forte, talvez até mais que meu pai quando o álcool o deixava agressivo. Mas, na maioria das vezes, eu só desejava um irmão. Um irmão para se curvar sobre o arrozal infinito. Um irmão para enfrentar os acessos de fúria do meu pai bêbado. E, no fundo, eu queria ser bonita. Como Mei Yee. Por isso, sempre desmontava o coque. Deixava meu cabelo solto. Foi a segunda coisa que perdi depois que meu pai vendeu Mei Yee para os Ceifadores. Pelas histórias, eu sabia que não conseguiria sobreviver nesta cidade como menina. A faca que usei era cega. O corte não ficou bom, cheio de partes estranhas, um lado um pouco maior do que o outro. Mas fiquei exatamente como eu queria: parecendo um pivete faminto e imundo. E foi nisso que me transformei. Quando chego à minha tenda, meus cotovelos estão esfolados e doloridos. Peguei o caminho mais longo, dando voltas nas mesmas passagens mofadas e cheia de canos para ter certeza de que ninguém me seguia. Demorei tanto que o sangue estancou e voltou a escorrer. Se eu não colocar uma faixa logo, os ferimentos vão ficar vermelhos e inflamados. Vão demorar para cicatrizar. Entro com cuidado pela abertura da tenda imunda de lona e dou uma olhada nos meus pertences. Não é muita coisa. Uma caixinha com um único fósforo. Um caderno de caligrafia ensopado e parcialmente preenchido, roubado da mochila de um aluno desatento. Duas laranjas e um mangostão afanados de um santuário ancestral. Um cobertor cheio de fungos e urina de rato. Um gato cinza e sarnento que berra e ronrona. Ele tenta de tudo para que eu

me sinta menos solitária. — Tive sorte hoje, Chma. — Coloco as botas no chão. O gato atravessa a tenda devagar. Esfrega os bigodes no couro gasto. Deixa o corpo macio cair nos cadarços com um miado de quem diz “é meu”. Pego o cobertor. Vai ter que servir. Tiro a faca da túnica e começo a cortá-lo em faixas. Tento ignorar o mau cheiro e a umidade do tecido. Mei Yee sempre fazia meus curativos. Em outros tempos. Ela passava os olhos ternos pelos cortes que meu pai fazia. Triste. Seus dedos tinham a leveza de uma pena enquanto enrolavam o pano. Ela precisou usar as faixas tantas vezes que já estavam manchadas da ferrugem do sangue. Mas nunca se esquecia de lavá-las. Sempre as amarrava bem. Cuidava de mim. Estou sozinha agora. E é muito mais difícil me enfaixar sozinha. Acabo usando os dentes, sentindo ânsia de vômito com o gosto rançoso da urina. Mei Yee ficaria horrorizada por eu estar usando este cobertor podre para cobrir minhas feridas. Ficaria horrorizada só de eu estar aqui. Vir atrás dela era a única opção para mim. Mei Yee era tudo o que eu tinha. Sem ela, não havia motivos para continuar no campo, sendo espancada pelo meu pai. Vendo minha mãe definhar com o arrozal. Não sei por que achei que encontrar minha irmã seria fácil. Eu não estava pensando direito quando montei naquela bicicleta enferrujada e pedalei atrás da grande van branca. Não pensei quando cortei o cabelo. Nem quando cheguei à Cidade de Fora e fiz perguntas com minha fala lenta e caipira. Agora sei como era jovem e idiota na época, achando que poderia simplesmente entrar neste lugar e encontrar minha irmã. A Cidade Murada não é muito grande — tem o tamanho de uns três ou quatro campos de arroz —, mas compensa isso com sua altura. As casas de madeira se empilham, chegando a uma altura tão grande que não deixam a luz do sol passar. As ruas, que antes eram dominadas pelo dia e pelo ar fresco, hoje são meras passagens repletas de cabos. Às vezes me sinto como uma formiga operária, correndo pelos túneis escuros e sinuosos num circuito sem fim. Sempre procurando. Nunca encontrando. Mas não vou parar de procurar até achar Mei Yee. E vou achar Mei Yee. Chma se levanta da nova cama de botas. Arregalados, seus olhos amarelos se voltam para a entrada do abrigo. Suas orelhas se erguem. Os pelos se eriçam. Prendo a respiração, presto atenção na canção eterna da Cidade Murada: os roncos distantes de motores, uma mãe gritando com os filhos atrás de paredes finas, cães uivando num beco distante, um avião sobrevoando a cidade a cada cinco minutos. Tem outro barulho também. Mais baixo, mais próximo. Passos. Fui seguida. Meus dedos estão firmes em torno da faca. Eu me movo devagar até a dobra da lona, com um nó de medo na garganta. Minhas coxas estão tensas enquanto espero. Fico à escuta. A mão trêmula que segura a faca está branca como arroz. Os passos param. Uma voz chama, rouca e hesitante:

— Tem alguém aí? Não é Kuen, então. Mas isso não significa que estou a salvo. As ruas estão cheias de bêbados e ladrões. Pessoas que não hesitariam em me esfaquear. — Vai embora! — Tento tornar minha voz o mais gutural possível. Bem masculina. Bem ameaçadora. Pela fresta da lona, dou uma olhada no visitante. Um menino, mais velho. Com as mãos nos bolsos, está encostado na parede do beco, um pé apoiado nela. A camada de água que sempre cobre as paredes da cidade molha seu moletom. Mas ele não parece notar, ou não liga. Seu olhar está fixo na abertura da minha tenda. Seus olhos são diferentes dos olhos da maioria das pessoas daqui, de Hak Nam. São castanho-escuros, sim, mas não parecem cruéis e selvagens como os de Kuen. Tampouco é o olhar vítreo e vazio das velhas agachadas nas esquinas, destripando um peixe após o outro. Um dia após o outro. Não. Os olhos dele parecem mais os de uma raposa. Alertas. Brilhantes. Inteligentes. Ele quer muito, mas muito, alguma coisa. É melhor eu tomar cuidado. — É Jin, não é? Meu nome. Ele sabe meu nome. É o suficiente para eu empurrar a tenda para o lado, com os dentes à mostra. Pronta para a briga. — Sai daqui. — Ergo a faca. A luz de um poste distante cintila, reflete na lâmina e atinge o olhar fixo do menino. Ele não hesita. — É meu último aviso! — Não vou machucar você. — Ele desencosta da parede. Tira as mãos dos bolsos. Estão vazias. Meus dentes ainda estão à mostra quando paro. Olho para ele de cima a baixo. Moletom preto. Calças jeans tão novas que ainda nem desfiaram. Mãos pálidas, vazias, abertas. Então examino seu rosto. Maxilares aquilinos. Tensão nos lábios. Sobrancelhas arqueadas e arrogantes. — Como me encontrou? — Meus dedos estão doloridos em torno do cabo da faca. — O sr. Lam me disse que você costuma levantar sua tenda por aqui. Só precisei dar uma procurada. E seguir minha alergia. — Como que aproveitando a deixa, seu nariz se retorce. A agonia insuportável de um espirro que não sai. — A coisa mais próxima que tenho de um superpoder. Sr. Lam. Eu me lembro do velho lojista. De cócoras. Cuspindo numa lata. Protegendo a loja cheia de móveis lascados e moedas antigas. Então minha mente se volta para o outro banquinho. Lembranças de camarões e macarrão. Os mesmo olhos alertas que me observam agora. — Você… é o menino do macarrão. — Meu nome é Dai, na verdade — ele diz. — Estou aqui para oferecer um trabalho. — Eu trabalho sozinho — digo rápido. Faço tudo sozinha: como, durmo, corro, roubo, falo, choro. É o mal da segunda regra: não confie em ninguém. O preço para continuar viva. — Eu também. — Dai não se mexe. Seu olhar parece tão sem brilho quanto minha faca. — Mas esse corre de drogas é diferente. Precisa de duas pessoas.

Corres de drogas não são novidade para mim. Faço vários para traficantes menores, aqueles que vendem pelas costas da Irmandade, torcendo para não ser notados. Eles me pagam em migalhas de pão e trocados. Mas o verdadeiro pagamento é entrar nos bordéis deles. Olhei o rosto de muitas meninas entorpecidas pelas drogas em busca da minha irmã. — Que tipo de corre precisa de duas pessoas? — pergunto. — É para a Irmandade. Um corre de drogas para a Irmandade do Dragão Vermelho. Só de pensar, meu coração sobe pela garganta. Palpitante como um animal moribundo. Ouvi muitas histórias sobre a quadrilha e seu líder bárbaro, Longwai. Sobre como ele cortou a língua de um homem que foi pego mentindo. Como entalhava uma marca escarlate na bochecha de quem tentasse enganá-lo. Como atirou na cabeça de um dos membros que o dedurou, mas só depois de cortar o homem devagar, vendo as partes do corpo caírem como pedaços de madeira. Como ele ria enquanto fazia essas coisas. — Desde quando a Irmandade usa marginais? — Os homens de Longwai vivem sendo presos quando fazem corres em Seng Ngoi. Ele prefere usar pivetes. Um que faça o corre e um que fique parado no bordel como colateral. Colateral. Uma das muitas palavras com que tive dificuldade quando cheguei à cidade. Tentava me livrar do sotaque caipira. Não levei muito tempo para descobrir seu sentido:

refém. Esperando, esperando, esperando com uma faca na garganta. Sua vida dependendo da velocidade das pernas de outra pessoa. — Você é um bom corredor — Dai diz. — A maioria dos garotos não consegue fugir de Kuen. — Então eu correria. E você ficaria parado. Com o risco da faca de Longwai. — A minha continua erguida no ar entre nós. — Isso. O pagamento é bom. — Dai aponta com o queixo para as pontas rasgadas da minha lona. — Acho que você está precisando. Ele tem razão. Pagamento bom significa que posso passar mais tempo procurando pela minha irmã em vez de ficar surrupiando roupas e comida. Mas me envolver com a Irmandade, mesmo que só num corre de drogas, é uma má ideia. Só estou considerando por um motivo. Longwai é o homem mais importante da Cidade Murada, o líder da Irmandade do Dragão Vermelho. Seu bordel é o maior de todos. E é quase impossível entrar nele. A maioria das garotas recebe clientes importantes, pessoas com poder e influência da Cidade de Fora. É o único bordel grande em que não procurei. Essa pode ser minha única chance de entrar. De procurar Mei Yee. — Você não parece precisar do trabalho. — Brando a ponta da faca na direção dos seus dentes brancos e retos. Suas roupas sem furos. Ele se porta como quem tem dinheiro. — Não o suficiente para arriscar a própria vida. Dai encolhe os ombros. — As aparências enganam. Você quer ou não quer o corre? Eu devia dizer que não. Toda essa história viola a segunda regra. Não confie em ninguém. Mas, se eu recusar, ele vai procurar outra pessoa. E vai encontrar alguém para fazer esse corre maluco. Posso perder a chance de encontrar minha irmã.

Não vale a pena arriscar minha vida por um bom pagamento. Nem confiar num estranho. Mas vale a pena fazer isso por Mei Yee. A lona aos meus pés se dobra. Chma coloca a cabeça para fora, apontando os olhos estreitos e amarelos-enxofre para Dai. Também dou uma olhada no rapaz. Não tem nenhum traço do dragão da Irmandade nele. Nenhuma joia. Nenhuma tatuagem. Só uma cicatriz reluzente que desce pelo antebraço. Feita com faca. É feia demais para não ser. Dai percebe o que estou olhando e abaixa a manga do moletom, escondendo a marca. Chma anda devagar até ele, envolvendo-se em suas pernas como um cachecol. Enchendo aquela calça boa de pelos. Ele empina o rabo felpudo, num cumprimento alegre. Depois de alguns círculos, acomoda-se aos pés do menino. Coloca uma pata sobre a outra com mais um miado firme de quem diz “é meu”. Se meu gato confia nele, acho que também posso confiar. Por enquanto. Faço que sim com a cabeça. — Parece que você fez um amigo. O espirro de Dai é súbito e explosivo. Dez vezes mais alto que o escarro do sr. Lam. Ele leva o braço ao rosto, mas o estrago está feito. Se alguma coisa pode deixar um marginal menos ameaçador, é uma cara cheia de ranho. Abaixo a faca. — Quando é o corre? O rapaz limpa o rosto e enfia as mãos de volta nos bolsos. Chma continua deitado nos sapatos dele. Ronronando. — Daqui a dois dias. Quatro horas depois do pôr do sol. A gente se encontra na frente do bordel do Longwai. — Estou dentro. — Pronto. Quebrei a segunda regra. Confiando num menino com uma cicatriz no braço. Uma busca em seus olhos. Tudo pela minha irmã. — Quero sessenta por cento. — Fechado. — ele diz, rápido e desesperado. Sem pestanejar. Devia ter pedido setenta. — Estou confiando que você vai aparecer, Jin. Senão… — Vou estar lá — garanto. Dai acena com a cabeça e vira para ir embora, expulsando o intruso felino com uma leve sacudida. Observo o garoto sair e solto um suspiro carregado. Em parte por alívio. Em parte por cansaço. Agora que descobriu minha tenda, vou ter que me mudar. Todos os meus segredos, e meu pavor, são levados pelo ar frio. Nevoentos e brancos como o leite. Como a pele da minha irmã. Quando o ar se dissipa, o menino não está mais lá. Fico parada no beco, com os dedos ainda tensos em volta da faca. Sozinha outra vez.

MEI YEE

NÃO SEI COMO SING RESISTIU depois de perder tanto sangue. Agora ela não resiste mais. O que eu e Yin Yu levantamos é um peso morto. Estamos ofegantes quando a colocamos na cama. Tem sangue nas minhas mãos. Ergo-as diante dos olhos, encaro longa e duramente as manchas cintilantes. Elas me trazem lembranças antigas. Lembranças terríveis, da vida de antes. Sempre que meu pai não estava nos campos, ficava praticamente caído na sua cadeira dobrável barata, com a mão em torno de uma garrafa. Sabíamos que era melhor tomar cuidado depois que ele abria a terceira. Na maioria das noites, ele ficava lá, com braços e pernas caídos, como peixes mortos. Nas noites em que isso não acontecia, nossa pele ficava roxa depois dos golpes. Os olhos de Jin Ling sempre apontavam para aquele canto perigoso. As surras nela eram sempre as piores, porque se recusava a ficar em silêncio. Ela resistia, agitando os membros magros como gravetos num furacão. Às vezes, até conseguia acertar um golpe. Nosso pai berrava e a espancava duas vezes mais. Acho que ela fazia isso de propósito, para que descontasse toda a fúria nela. Ele nunca batia em mim ou na minha mãe depois que acabava com Jin Ling. Enquanto penso nessas memórias, Yin Yu sai, voltando com uma bacia cheia d’água. Coloco as mãos dentro e o sangue que não é meu sai, rodopiando como o fogo da fênix até o fundo. Eu pensava que, pelo menos, não veria mais sangue aqui. Pego um pano de linho e começo a trabalhar. Tento consertar todas as maldades feitas na pele de Sing. — Ela teve sorte que ele não usou a faca — diz Yin Yu. Sorte. Quero zombar dessa palavra, mas sei que está certa. — Longwai nunca a marcaria. Ele quer que continue trabalhando. O traficante quer arrancar o maior lucro possível de um rosto bonito. Mesmo que esteja avermelhado pela heroína. Ele vai arrancar, arrancar e arrancar até não sobrar mais nada. Até que ela não passe de uma casca vazia. É isso que sempre acontece. — Por que você fez isso? — murmura Yin Yu, enquanto segura nossa amiga com firmeza. — Por que tinha que fugir? Nenhuma resposta. O olhar de Sing está fixo no teto, os olhos entorpecidos e vazios. Eu nunca a tinha visto tão imóvel. Ela sempre foi uma explosão de energia. Contava histórias, roubava cigarros dos casacos dos clientes, ensinava a xingar com sons ruidosos que chamava

de inglês. Mesmo de manhã, quando a maioria dormia até tarde, Sing ficava sentada com um livro nas mãos. Lendo. Agora, os únicos sinais de que ainda estava viva era o subir e descer dolorosamente lento do seu peito e suas bochechas rosadas e machucadas. Minhas mãos se movem rápidas como colibris. Tiram um grande pedaço de vidro verde- esmeralda do joelho esquerdo e esquelético dela. O sangue ali começa a secar em crostas, criando estranhos símbolos serpenteantes na pele muito branca. O pano, agora ensopado e rosa, limpa suas pernas. Nenhuma de nós está esperando que ela fale quando abre a boca. — Eu precisava ver. — Ver o quê? — Yin Yu não deixa escapar nada. — Lá fora. Sem paredes. — As palavras de Sing estão grudadas uma na outra, esticadas como bala derretida. Sua voz é vaga, doce e confusa. Assim como seus olhos. Eu e Yin Yu olhamos uma para a outra. Depois nos voltamos para ela. Não entendo por que isso compensaria os cortes na pele, a agulha nas veias. Ela acabou de jogar a vida fora. Yin Yu faz a pergunta no meu lugar. — Valeu a pena? Silêncio. De algum lugar, de um quarto não muito distante, vem um grito. Ele se extingue assim que surge. Por algum motivo, sei que pertence a Mama-san, embora não consiga explicar por que tenho tanta certeza disso. Nos dois anos que passei neste lugar, nunca a ouvi gritar. Sing não é a única que está sendo punida. Todas pagamos pelo que ela fez. Os olhos da nossa amiga se fecham; suas pálpebras finas como papel tremulam. Posso ver pela maneira como sua cabeça cai para trás que a heroína está controlando tudo. Um sorriso se abre no rubor do seu rosto. Fica estranho nela, envolto por tanto sangue. — O fim é aqui — ela continua, com a voz enrolada. — É bonito. Sua voz arrastada me faz curvar os ombros. As mãos de Yin Yu seguram nossa amiga com firmeza. Rasgo um longo pedaço branco de gaze e começo a enrolá-lo na pele ferida de Sing. Uma sombra surge do batente. O rosto de Mama-san parece tenso, cansado. A maquiagem acabou de ser feita — nunca a vi usar tanta antes. Não é difícil adivinhar o que está escondido atrás de tanto pó: o começo arroxeado de um hematoma, talvez até o sangue fresco de uma ferida, resquícios da fúria do mestre. Ela fica parada por um segundo, ocupando a porta com sua beleza falsa e exaurida. Aqueles olhos duros e aflitos examinam Sing: seus braços enfaixados, seu cabelo desgrenhado, seu rosto frágil e extasiado pela droga. — Eles vão pegar vocês. Ele sempre vai pegar vocês. — Mama-san continua olhando para Sing, mas suas palavras se dirigem a todas nós. São fracas, mais finas do que cocaína. Mas, quando Mama-san tira os olhos de nossa amiga, como se fosse arrancada de um sonho, ela retoma sua personalidade dura e implacável. — Deixem a menina. Largamos Sing deitada e seminua na cama. Mama-san fica parada no batente, esperando enquanto passamos devagar por ela para fechar e trancar a porta.

— Vocês duas fiquem no quarto até segunda ordem. As meninas só vão sair para cuidar dos afazeres. Meninas com funções mais práticas. Meninas como Nuo, que embala os convidados do mestre num entorpecimento profundo com suas delicadas cordas de cítara, e Yin Yu, que acende cachimbos e enche copos com vinho de ameixa a cada estalar de dedos. Não tenho nenhum afazer, o que me deixa presa no quarto. — Por quanto tempo? — pergunto. — Pelo tempo que for preciso. — A voz de Mama-san estala como um chicote, cortando outras perguntas pela raiz. — A memória dele não é curta. Não consigo afastar o rosto do mestre da minha mente. Frio e inabalável como uma rocha. Sem nenhuma raiva. O rosto de um homem que há muito não sente clemência ou piedade. Mama-san tem razão. Vamos ficar aqui por muito tempo.

As palavras de Sing giram na minha cabeça por horas. Repetidas vezes: o fim, o fim, o fim. A frieza delas penetra em meus ossos, deixa meu quarto mais gelado. Quero dormir, mas, toda vez que meus olhos se fecham, tenho visões de sangue e agulhas. Não há espaço para outra coisa. Ainda estou tremendo quando o embaixador Osamu chega. Sou uma das que têm sorte. Meninas como Yin Yu são obrigadas a atender três ou quatro homens por noite. O embaixador é meu único cliente. Ele paga generosamente ao mestre para me ter toda só para ele. Não sei por que me escolheu entre todas as meninas. Só sei que, um dia, ele parou de ver as outras e proibiu que os outros me vissem. Sou exclusivamente dele, valorizada e monopolizada. O embaixador não é tão terrível quanto os homens que deitaram na minha cama antes. Ele não bate. Não grita. Não me olha como se eu fosse um chiclete a ser tirado da sola de seu sapato. Em vez disso, diz que sou bonita. Sempre que me visita, traz flores. Botões de conforto, vivos e de cheiro doce. Hoje, elas estão aninhadas no seu braço como um bebê, pétalas violetas destacando-se contra a manga cor de carvão de seu terno apertado. Nenhum de nós diz uma palavra enquanto ele tira o buquê de rosas murchas do vaso. Pétalas caem no tampo da mesa como pedaços secos de pergaminho. Com um amplo movimento da mão, o embaixador as joga no chão. Ele tira o smoking antes de vir para a cama, onde estou sentada. Tremendo. — Desculpe por ficar tanto tempo sem vir. — Ele se senta e a cama estremece. O colchão afunda sob seu peso, lançando-me para perto dele. O calor de sua pele enche o ar entre nós, lembra-me de que estou com frio. — Ando viajando muito para reuniões. Tento sorrir, mas existe um peso nos meus lábios. Não consigo parar de pensar nos gritos, nas palavras confusas. Todo aquele som da boca de Sing. — Qual é o problema, Mei Yee? — Meu nome não soa como meu nome na pronúncia dele. Levei muitas semanas para entender direito seu estranho sotaque estrangeiro. Seus olhos castanhos me encaram. A preocupação em seu rosto é sincera, mostrada pelas

leves rugas na pele. Pelas bochechas redondas e pelo queixo, que sempre me lembram um pouco um panda. Ele estende os dedos, tocando de leve meu braço. Esse simples toque é lancinante. — Pode me contar. O que aconteceu no salão explode dentro de mim. As palavras escapam. — Uma das meninas… tentou fugir. Foi punida pelo mestre. — E isso chateou você? Respondo que sim. A pergunta parece boba, mas ele não estava lá. Não ouviu os gritos de Sing. Não enxugou os rios de sangue. — Não precisa se preocupar. Você é uma boa menina. Uma menina exemplar. Longwai não tem por que punir você. — Ele me puxa para perto, fazendo nossas coxas se tocarem. — Senti sua falta. — Também senti sua falta — digo, porque sei que é o que ele quer ouvir. Aquilo de que realmente senti falta na última semana foi o cheiro e as cores das flores frescas. O embaixador se curva sobre mim. Tão perto que sinto seu hálito. É carregado de gengibre, gergelim e mel. Meu estômago ronca, mas ele não parece ouvir. Está ocupado demais me tocando, entrelaçando os dedos no meu cabelo e me puxando para perto do peito e do rosto. É disso que não sinto falta. Meus olhos estão abertos e meu olhar está fixo no cabelo grisalho em sua têmpora. Tem

uma prateleira cheia de livros que não sei ler na parede lá atrás e as folhas perenes e duras de uma orquídea de plástico. No canto da prateleira, está a estátua de um gato dourado. Fico encarando seus olhos verdes e os caracteres em seu peito, aqueles que Sing diz que significam boa sorte. Conto os bigodes, repetidas vezes. São doze.

Doze. Doze. Doze.

O número fica na minha cabeça. Passa várias e várias e várias vezes até se tornar um

zumbido contínuo que se esforça para me distrair.

Dozedozedozedozedozedoze.

Quando termina, o embaixador se recosta na cama, ofegando como um cavalo que galopou por quinhentos lis. Seu peito, comprimido e tenso como a pele de uma galinha depenada, sobe e desce num ritmo enlouquecido. Suas bochechas estão do mesmo tom das minhas rosas antes de morrerem. Fico parada, encarando o teto. Quem morava lá antes de mim pintou estrelinhas douradas nele. Depois de meses e meses de contemplação, meus olhos não precisam mais estar abertos para vê-las. Conheço suas constelações melhor do que as das estrelas de verdade, aquelas que Jin Ling e eu olhávamos pela janela do quarto. Aquelas que coroavam a montanha e derramavam luz sobre o arrozal. Aquelas que cintilavam de verdade. Eu as olhava por causa do brilho. Joias de prata, luzes trêmulas, lindas. Jin Ling as olhava por causa dos nomes, das histórias. Quando éramos muito pequenas, nossa mãe nos contava tudo sobre as estrelas. O Tigre Branco do Oeste, que sobe quando os pés de ginkgo amarelam e perdem as folhas. O Dragão Azul do Leste, que coroa os primeiros brotos da primavera. Mas o conhecimento da minha mãe não era suficiente para Jin Ling. Ela ficava olhando e

matutando, com uma sede que nunca consegui entender. Fazendo perguntas que ninguém conseguia responder. O momento em que nos sentíamos mais próximas, o momento em que nossos fascínios se encontravam, era quando surgia uma estrela cadente. Jin Ling costumava notar antes de mim. Seus olhos eram mais velozes, diferenciavam a luz da escuridão mais rápido. Ela prendia o fôlego, abrupta e eufórica, e apontava para onde o céu encontrava a terra. Sua outra mão apertava a minha. — Rápido, Mei Yee! Precisa fazer um pedido! Eu sempre franzia a testa e contemplava o breu. Havia tantos desejos presos em minha alma. Escolher só um parecia impossível. — Não sei. Minha irmã suspirava, daquele jeito ácido e cortante dela. — O que você mais quer? Eu nunca sabia. Em vez de responder, repetia a pergunta para ela. Seus dedos apertavam os meus, cheios de uma força que sempre me surpreendia. — Quero que a gente fique juntas para sempre. Longe daqui. Longe da dor. O embaixador me envolve com seu braço, afugentando a lembrança da voz da minha irmã como se ela fosse um gato selvagem. Seu calor não me pega mais de surpresa. Está em toda parte, como um cobertor, caindo sobre mim e me pressionando. Ficamos assim por muito tempo. Pele com pele sob as estrelas falsas. Aquelas que nunca caem.

16 DIAS

DAI

NÃO ACREDITO EM FANTASMAS. Não como minha vó, que todo amanhecer se ajoelhava diante do santuário ancestral com incensos fumegantes nas mãos e oferendas de vinho de arroz e laranjas enfiadas nos bolsos. Eu sempre achava idiota desperdiçar frutas e bebida com os mortos. Que havia tanto tinham partido e havia tanto estavam em silêncio. Mesmo assim, ele me assombra. Meu irmão entra nos meus sonhos. Tenho o mesmo pesadelo toda vez que fecho os olhos. A noite que mudou tudo se repete sem parar. A voz do meu irmão ressoa e me atormenta. Não mudou todos esses anos após sua morte. — Não faz isso, Dai. Esse não é você. — Ele sempre estende a mão, segurando a barra do meu agasalho. Tentando me impedir. — Você é uma boa pessoa. Então surge o sangue. Sempre é tanto sangue. No meu braço. No seu corpo. O sangue brota e jorra de maneira surreal. Como nos desenhos antigos a que assistíamos, nos quais a vermelhidão esguichava como numa fonte. Tento impedir, segurando sua mão enquanto o perco. Seu último suspiro sai espiralado na noite de inverno como um ponto de interrogação ocidental. Mau sinal. Era para ser um ponto final. Um fim definitivo. Não aquilo… Eu acordo, com o coração aos pulos e o peito dolorido. Não tem sangue no piso branco e sujo do meu apartamento. Só os riscos que desenhei com carvão. As marcas que venho apagando, dia a dia, com o polegar. Eu me sento e pisco para esquecer a visão aterrorizante do sonho. O mundo não mudou. Minha cicatriz continua aqui. Meu irmão continua morto. Eu continuo preso em Hak Nam e agora existem só dezesseis riscos na parede. Dizendo que logo — ah, logo — o tempo vai acabar.

Parte de mim não confia que o menino vai aparecer. Eu me recosto num muro do outro lado da rua do bordel de Longwai, contando os segundos com os dedos inquietos. Um segurança do tamanho do abominável homem das neves se agiganta perto da entrada, observando-me com os olhos semicerrados. Tento ignorá-lo, concentrando-me nas lanternas de papel sobre a entrada do bordel. Sua luz escarlate se funde com o dragão gravado na porta. É o símbolo da Irmandade: um monstro da cor da sorte e do sangue marcado nas paredes de todos os prédios em Hak Nam. Um lembrete de que são eles os donos de tudo aqui. E de quase todos também. Os minutos passam lentamente e começo a achar que o menino é esperto demais. Deve ter

sentido o cheiro de encrenca. Meus dedos se agitam quando Jin surge correndo entre as sombras. Talvez seja pela luz trêmula da lâmpada pendurada nos canos sobre a cabeça dele. Ou os pedaços do pesadelo ainda incrustados nos meus olhos. Seja o que for, o rosto do menino me assusta. É tão cheio de ângulos e ansiedade. A mistura perfeita de apreensão e coragem. Igual ao rosto do meu irmão. — Alguma coisa errada? — Jin entra embaixo da luz oblíqua e solitária, e o momento passa. A semelhança com meu irmão desaparece, arrancada como uma folha. É só um pivete na minha frente agora. Com o olhar duro de desconfiança. Os braços cruzados firme diante do peito. — Não. — Engulo em seco as lembranças (estou numa dieta constante de amnésia forçada) e desencosto da parede. — Vamos lá. A gente não pode atrasar. O abominável segurança das neves dá um passo para o lado e a porta do covil do dragão se abre. Vestígios de fumaça de ópio — doce, almiscarada, ácida e sufocante — descem pelo salão, passando por fileiras e fileiras de portas fechadas. Prendo o ar e tiro as botas, colocando-as junto à fileira alinhada de sandálias e sapatos sociais na entrada de mármore. Jin para ao meu lado, olhando com melancolia para as botas. — Nada vai acontecer com elas. Se acontecer, compro um par novo para você com a minha parte. — Derramo promessas pela boca só para fazer o menino se apressar. Já estamos quase atrasados e não posso me dar ao luxo de deixar que Longwai suspeite de alguma coisa. — Um par que de fato seja do seu tamanho. Finalmente, ele descalça as botas. Descemos pelo corredor até o salão. Aqui dentro a fumaça é mais densa. Grandes sofás formam um círculo ao redor de um tapete. Estão ocupados pelos executivos mais ricos de Seng Ngoi, com ternos enrugados e braços sendo puxados para o chão pelo peso invisível do ópio. O lugar não é tão chique quanto aposto que Longwai quer que seja. Tem um ar artificial, desbotado. Um canto do tapete está puído. Tem manchas de fumaça no tecido dos sofás. Todas as tapeçarias na parede vermelha e dourada têm fios soltos. Antes da noite em que tudo mudou, eu teria achado esse lugar uma espelunca. Depois de dois anos de ratazanas e ruas cheias de excrementos, parece o palácio de um imperador. Um dos homens me examina com um olhar rápido. Está usando um robe de seda enfeitado por um bordado escarlate, um dragão que sobe e desce serpenteando pela manga. Há uma cicatriz roxa e enrugada em seu queixo. A barriga é um pouco saliente, acostumada com os anos mandando os outros irem para lá e para cá. É Longwai, líder da Irmandade, deus das facas e agulhas, imperador desse inferninho. — É esse o menino que você trouxe para fazer o serviço? — A voz do traficante lembra um cão raivoso. Gutural. Um rosnado. — Não parece muita coisa. Dou outra olhada no menino. Ele é todo olhos, os ombros curvados e os braços ainda cruzados enquanto examina os fumantes. A luz avermelhada das lanternas do bordel deixa seu rosto côncavo. Dá pra ver quantas refeições ele perdeu. Uma rajada de vento bastaria para fazer com que caísse duro no chão. Sinto um frio na barriga, mas me contenho e ignoro. Não posso me dar ao luxo de ter

dúvidas e desconfianças. É isso ou a tábua de corte. — Ele é o melhor — digo ao traficante. — Dou minha palavra. — Não precisa. — O sorriso de Longwai não poderia parecer mais com o de um dragão:

predador e perverso. Rematado com dentes falsos de ouro. — Fico com sua vida. A queimação nas minhas entranhas aumenta. Então penso nas botas deixadas no corredor. Volto a olhar para o ardor firme nos olhos do menino. Acho que vou ficar bem. Longwai acena para o canto oposto. Um homem usando um terno preto elegante surge. Ele segura um pacote de pó branco na forma de um tijolo. Longwai pega o pacote e o pesa nas mãos. — Garoto, você sabe onde fica o mercado noturno? — Na Cidade de Fora? — Jin consegue esconder a maior parte do tremor na sua voz, mas não o de seus ombros. — Sim. Seng Ngoi. — Ele faz uma careta diante do nome usado pelo menino. — Leva o pacote para a última baia no canto oeste. Tem um velho lá que vende esculturas de jade. Entrega isso pra ele, pega o que ele der e volta para cá. Meu homem vai ficar de olho para garantir que a troca aconteça de acordo com o planejado. Seu parceiro vai ficar aqui até você voltar. Se não voltar, ele vai ter um belo encontro com a minha faca. O rosto do menino fica um tom mais pálido. Meus dedos voltam a se contrair. Dedilham um staccato frenético em dois tempos enquanto vejo Jin enfiar o pacote dentro da túnica e correr rumo à porta. — Senta. — Os dentes de ouro de Longwai lampejam de novo quando me aponta um sofá vazio. Inspiro profundamente e me deixo cair na almofada macia. Hora de pôr as mãos na massa.

JIN LING

CORRES NA CIDADE DE FORA SÃO PERIGOSOS. Os policiais não entram na Cidade Murada. Mas estão sempre lá Fora. Esperando. Não foram poucos os marginais que acabaram na cadeia por fazer isso. Não tem polícia agora que corro pelas ruas vastas e limpas. Só anúncios de neon cintilantes, o brilho lustroso dos carros e um céu aberto e escuro derramando chuva. Estou toda encharcada quando chego ao mercado noturno — minhas roupas, meu cabelo. A única coisa que não está molhada é o pacote. Está aninhado entre as faixas no meu peito e minha camisa. Se eu acabar logo com isso, posso voltar para o bordel e buscar entre todos aqueles rostos pintados o único que importa. O homem com as esculturas de jade faz questão de não me olhar na cara enquanto corro na direção de sua baia. Ele se ocupa polindo uma longa fileira de estatuetas minúsculas de animaizinhos. — Põe aqui — o dono da baia sussurra e empurra uma cesta com o pé. Ela está embaixo da sua mesa de mercadorias, facilmente ignorada. Olho ao redor. Não tem muitos fregueses nesse lado do mercado. Um jovem casal está parado diante da baia ao nosso lado, olhando as joias enquanto o vendedor faz contas na calculadora. O menino está com o braço em torno do ombro da menina. Eles riem. Juntos. É um som estranho, feliz. Lembra tudo o que não tenho. Enfio a mão discretamente dentro da túnica e deixo o tijolo na base da cesta podre e lascada. Fico perto da mesa, perto o suficiente para pegar o embrulho de volta se for preciso. — Cadê meu pacote? — pergunto. Pela primeira vez, o mercador olha para mim de rabo de olho. Eu me dou conta de como devo estar imunda: magra como um bambu, molhada e suja de lama. Este não é meu lugar. Com essas pessoas felizes, rindo; esses lenços e estátuas de má qualidade mais caros do que deveriam ser. — Fala pro seu… amigo… que ocorreu um pequeno atraso. Vou fazer o pagamento daqui a alguns dias. Diz pra ele que vou mandar um dos meus meninos. Não me mexo. Não era para isso acontecer. Eu devia pegar o pacote… o dinheiro… para levar de volta. Senão, não completo minha missão. Fracasso e Dai morre. Esse último pensamento me fisga. Mais afiado que o anzol de um pescador. Por que estou preocupada com Dai? Ele não é o motivo por que estou correndo e lutando. Se for esfaqueado, a culpa é dele. Sabia exatamente em que estava se metendo quando cruzou o batente do bordel de Longwai. Falo isso para mim mesma, mas não consigo abandonar aquele sentimento. O peso da vida

do menino no meu peito. — Você parece um garoto esperto. — O dono da baia sorri, mostrando os dentes tortos e amarelos. — Tenho certeza de que seu amigo vai entender. Temos uma longa história, eu e ele. Minha palavra vale muito. Ele tem razão. Sou esperta. Esperta o bastante para ter minhas regras. Esperta o bastante para sobreviver. Não confie em ninguém. A segunda regra dispara na minha cabeça, soando como uma sirene de polícia. Talvez este homem esteja me falando a verdade, mas eu é que não vou voltar para o bordel de Longwai de mãos abanando. — Meu amigo vai entender? — pergunto. É um truque que logo aprendi nas ruas: quando você se faz de idiota, as pessoas não prestam atenção. Não ficam esperando por nada. — Ah, sim. — O sorriso do homem se abre mais. — Ele sabe onde me encontrar. Não? — Acho que sim… Quando chega o momento certo, dou o bote. Lanço o corpo embaixo do balcão com um esforço cego. A cesta pende para o lado com minha investida; o tijolo cai no chão. Estico o braço para pegá-lo, mas o dono da baia segura minha mão. Ele me xinga, tentando me tirar de debaixo da mesa. Me segura com força. Seus dedos se afundam no meu punho com tanta intensidade que lágrimas embaçam meus olhos. Minha faca está sob a túnica, ao meu alcance. Eu a seguro e a aponto para o braço do meu captor. Seu grito é terrível. Ele dá um pulo para trás. O sangue, vermelho e grosso, jorra para todo lado. Pego o tijolo e começo a fazer aquilo que faço de melhor. Corro.

DAI

LONGWAI NÃO PRESTOU MUITA ATENÇÃO EM MIM desde que o menino foi embora. Ele se

afundou na poltrona, baforando seu cachimbo demoradamente. A fumaça do ópio é soprada para o ar como tinta, criando um arco fantasma sobre a cabeça dele. Observo, tentando parecer desatento, enquanto minha cabeça está a mil. Pelo canto do olho, vejo os guardas de preto se movendo pelo corredor. Aquilo de que preciso não está neste salão. Não que eu realmente esperasse que estivesse. A maioria das pessoas não deixa seu bem mais valioso no meio de um covil de ópio. Existem quatro entradas para o salão. Todas são amplas e arqueadas, e dão para corredores escuros. Quatro possibilidades. Meus olhos correm de uma para a outra, tentando vislumbrar algo entre as sombras que me dê alguma dica. Mas dicas não servem de nada. Não se eu não conseguir sair deste sofá. Me viro para Longwai. Seus olhos estão fechados, o rosto relaxado como o de um gato sob o sol quente. — Preciso mijar — falo com a voz firme, trivial. Ele não diz nada. Nem mesmo abre os olhos. Mas sei que me ouviu pela maneira como seus lábios se afinam e se contorcem. — Tem algum banheiro que eu possa usar? — pergunto, mais alto dessa vez. Seus olhos continuam fechados. Sinto-me como uma criança cutucando com uma vara curta um dragão que ronca. Seria idiota cutucar com mais força, mas o número de hoje arde no fundo da minha mente. Dezesseis dias. Penso nisso, engulo em seco e dou outra cutucada. — Tem alguma coisa? Uma latinha? — Segura — ele resmunga. — Não consigo — retruco. Um olho se abre, escuro e envolto por pequenas veias vermelhas. — Você é muito exigente para um marginal. — Suas palavras se embolam quando ele fala. — E muito bem-vestido. Meu peito se aperta, como uma latinha sendo esmagada entre os dedos de alguém. Respiro devagar e profundamente — da maneira como meu professor de inglês me mandava fazer sempre que eu entrava em pânico durante a aula —, mas tem fumaça demais no ar. Nunca disse que era um marginal. É uma coisa que as pessoas costumam pressupor. Deixo passar, porque é melhor do que explicar a verdade. Quem eu sou. O que fiz. Fatos que mudariam a atitude de Longwai em relação a mim num piscar de olhos. — Eu me viro. — Dou de ombros.

Ele não demonstra se ficou desapontado com a resposta. Volta a fechar os olhos e aponta para o homem de preto mais próximo. — Fung vai mostrar onde fica. Fung, o carrancudo com uma tatuagem vermelha e medonha no rosto, não parece contente com a tarefa. Olha feio e sai arrastando os pés na direção do corredor oeste, sempre me mantendo à distância de um braço. Ando devagar, observo o maior número possível de detalhes. Todas as portas pelas quais passo estão fechadas com cadeado do lado de fora. Há umas etiquetas no centro, nomes gravados com tinta vermelha. Os caracteres são da mesma cor das lanternas que pairam sobre nós. São quase invisíveis dependendo do ângulo. — Aqui. — Fung abre uma porta fina com o ombro. É um pouco mais larga que meu peito e revela um ambiente escuro e bolorento. — Vê se vai rápido. Não perco tempo no banheiro imundo. A única coisa que consegui descobrir nessa aventura foi que o que estou procurando não está neste corredor. Só os quartos das meninas e um cano de esgoto aberto e podre. Enfio as mãos nos bolsos do agasalho enquanto sigo Fung de volta para o salão. Não dá mais para usar o banheiro como desculpa para bisbilhotar por aí. Preciso encontrar outro jeito. Ganhar confiança e fingir interesse na Irmandade. Criar algum tipo de distração. Vozes cortantes e furiosas como espadas me distraem das minhas maquinações. São tão altas que até mesmo Fung para. Ele se detém no fim do corredor comigo atrás, ouvindo. — Ninguém mais vê essa menina, vê? — um homem pergunta. Alguma coisa na voz dele me é familiar, me deixa inquieto. Tem um sotaque estrangeiro ríspido, como uma faca cortando fígado. Igual à maneira como minha mãe fala. Suas palavras me dão saudade de casa. A voz de Longwai é fácil de reconhecer:

— Claro que não. Você comprou a menina há muito tempo. Sou um homem de palavra. Pensei que soubesse disso, Osamu. Os pelos do meu braço se eriçam. Essa voz. Esse nome… Osamu. Conheço esse homem. Sei que ele se embebeda com saquê importado e paquera mulheres nas festas chiques da embaixada. Lembro-me perfeitamente do seu rosto. Ele provavelmente não se lembra do meu; faz tempo que não vou a nenhuma festa ou embaixada. Mas não posso correr o risco. Não aqui. Tiro as mãos dos bolsos e ergo o capuz caso Fung decida que podemos interromper. — Se eu descobrir que você está me enganando… — o político grunhe. — Se descobrir que ela esteve com outros, vou… — Eu pensaria muito bem antes de fazer uma ameaça, Osamu. — A voz de Longwai é inflexível, gravada em pedra. — Você talvez seja poderoso em Seng Ngoi, mas este é meu território. Meus domínios. Sua imunidade diplomática não significa merda nenhuma aqui. — Você não é tão intocável quanto pensa — diz Osamu, com a voz retumbante. Não, não é. Não se eu conseguir encontrar o que estou procurando e fazer o que precisa ser feito. Meu coração sobe pela garganta, meu peito ainda mais apertado. Tanta gente, tantas autoridades fizeram de tudo para manter o dia decisivo protegido da vasta infraestrutura de conhecimento de Longwai. Encontraram espiões e agentes duplos com detectores de

mentiras. Mantiveram todos os detalhes no nível de segurança mais alto possível, com apenas uma brecha: eu. E agora Osamu está aqui desatando a falar, ameaçando expor tudo. Mas ele não teria como saber… teria? É um diplomata estrangeiro, sem interesse na política de Seng Ngoi. Devo estar vendo coisa onde não tem. Colocando meus medos nas palavras dele. Longwai ri. — Que bom que a gente se entende. Você só passou aqui para conversar ou estava pensando em aproveitar o investimento? — Estava indo até o quarto, mas não trouxe o buquê. A mulher que costuma vender flores na rua não estava lá hoje. Vou ter que encontrar outro vendedor. A risada do traficante continua, ganhando volume e velocidade como uma avalanche. — Você não precisa de flores para ir para a cama, Osamu. Suas moedas são suficientes aqui. — Não acho que um homem como você entenderia essas sutilezas — Osamu fala sem medo. — Preciso das flores. Já vou voltar. Prendo a respiração, mas só ouço passos na direção contrária. Osamu foi embora. Que bom. Quando Fung me leva de volta, os homens estão deitados nos sofás, chapados e imóveis, como se nada tivesse acontecido. Só Longwai está visivelmente acordado, com os olhos salientes e agitados, sem a preguiça de antes. — Dá pra acreditar? — Ele parece não estar falando com ninguém em particular, mas seus olhos logo me encaram. — Me ameaçando? Por causa de uma coisa tão besta como aquela menina… Esse imbecil é obcecado por ela. Traz flores e presentes como se fosse um namorado de verdade. Até pagou um mês extra para que eu mudasse a menina para o único quarto com janela. Janela. Minha mente se agarra a essa palavra. Se tem uma janela, tem outro jeito de entrar. O brilho desaparece dos olhos pretos de Longwai. Ele me examina e me dou conta de que meu capuz ainda está erguido. — Quantos anos você tem, rapaz? Por um breve momento considero mentir, mas seria inútil. E idiota também. — Dezoito. — E não entrou em nenhum daqueles grupos desordenados que se consideram gangues? A maioria dos meninos da sua idade está nessa faz tempo. A menos que você esteja esperando um convite… Não é difícil adivinhar o que ele está insinuando: um convite para ser recrutado para a Irmandade. Para entrar oficialmente no grupo de assassinos, ladrões e viciados. O crime organizado. Numa vida completamente diferente, eu teria aceitado o convite na hora. Se estivesse morrendo de fome, vivendo um dia após o outro como Jin, Kuen ou tantos outros marginais da cidade, teria gritado sim. Implorado até. Mas Longwai não está oferecendo. E, mesmo se estivesse, eu não aceitaria. Embora fosse um jeito de ganhar a confiança dele, entrar para a Irmandade e enfrentar todos os ritos de passagem elaborados e invasivos ia me expor. Eu seria cortado em pedacinhos e morto. Meus

segredos não se sustentariam se Longwai me observasse de perto. Não vale o risco. Não por enquanto. — Prefiro ficar sozinho. Menos complicações. — Como é verdade, não tenho problemas para falar isso. — E o outro menino? Jin? Merda. O velho não deixa passar nada. Consigo me manter inexpressivo. — Você disse que precisava de dois para o trabalho, então eu trouxe mais um. Ele é

descartável. — Mas é você que vai enfrentar a faca se ele não voltar com o que quero… O descartável. — Esta última palavra paira no ar como uma isca, pedindo para que eu morda, luta, resista. Olho para os pés. Meus dedos lembram as enguias que ficam nos tanques de restaurantes de frutos do mar, vivas, mas apertadas, empilhadas uma em cima da outra até não ter mais espaço para se mexer.

Não brigue. Não é por isso que você está aqui.

Olho para os dedos dos pés e penso na janela. Meu próximo lance nesse intricado jogo de fuga. — O garoto voltou — grita um segurança no corredor de entrada. — Ah, é? — Longwai se recosta na poltrona, retoma sua posição de imperador gato dorminhoco. — Bom, rapaz, vamos ver se você fez a escolha certa ao confiar naquele moleque. Confiar. A palavra ressoa de um jeito estranho na minha cabeça, como uma ressaca. Acho que era isso que eu precisava fazer. Confiar que ele voltaria. Confiar que me pouparia da faca de Longwai. Vamos ver se eu estava certo. Embora meu capuz seja grosso e quente, não consigo impedir um calafrio.

JIN LING

O BORDEL DE LONGWAI é muito mais quente do que minha tenda de lona. Mesmo assim, estou tremendo. O sangue do dono da baia desapareceu, lavado pelo aguaceiro. Mas seus

gritos ainda estão presos nos meus ouvidos. Ficam mais altos a cada passo que dou. O homem de Longwai continua atrás de mim. Está ali desde que saí correndo do mercado. Abraço o tijolo de droga contra o peito. Da mesma forma como me agarro a Chma quando faz frio à noite. Calafrios, tremores, gritos. O corredor se estende infinitamente. Porta atrás de porta atrás de porta. Mas finalmente chego à poltrona de Longwai. O líder da Irmandade abre os olhos vermelhos. Eles se estreitam diante do pacote nos meus braços. Do meu fracasso.

Nunca devia ter aceitado este trabalho.

Dai está na beira do sofá. Ele não está mais com a máscara confiante e presunçosa do beco. Há um tom esverdeado no seu rosto. Brotando como musgo. Parece tão enjoado quanto eu. Não devia me preocupar com ele. Não posso. Mas o peso da sua vida é esmagador. Cai sobre meus pulmões e minhas costelas. Lembra que ainda tenho um coração. Posso até esfaquear um homem, mas não posso deixar outro morrer. Não por minha culpa. — Algum problema? — Longwai murmura. Minha boca está tão seca quanto um campo em estiagem. Preciso de algumas tentativas para formar as palavras certas. — N-não… não consegui completar a transação. Achei o homem que vendia as esculturas de jade. Entreguei o pacote como o s-senhor mandou. — E? — A pergunta é severa. Fria. Preciso de toda a minha coragem para continuar falando. — Ele não quis me dar o dinheiro. Disse que ia pagar depois. Falou que você ia entender. — E você não acreditou nele? Faço que não com a cabeça. E se o mercador de jade for mesmo um amigo próximo de Longwai? A meia laranja mofada que comi antes de vir se revira no meu estômago. Cítrica e encrespada. Longwai aponta para o bloco nas minhas mãos úmidas. — Então você trouxe o pacote de volta? Simples assim? — Ele tentou me segurar e eu dei uma facada nele. Então saí correndo. Dai inspira rapidamente. Solta um barulho agudo. Sua perna esquerda treme nervosamente. Na mesma velocidade do meu coração. — É verdade? — Longwai não está falando comigo. Seus olhos muito escuros se erguem para cima da minha cabeça. Para trás de mim. O homem de preto, minha sombra temporária, encolhe os ombros.

— Ele guinchou feito um porco. O líder da Irmandade solta uma gargalhada tão forte que todo o corpo estremece. O dragão vermelho na sua manga treme, como se estivesse prestes a pegar fogo. Ele ri e percebo que as histórias são verdadeiras. Todas elas. Quando o som se extingue, me dou conta de que a sala está completamente vazia. A menina no canto parou de tanger seu instrumento de cordas. O pé de Dai está plantado no chão. — Queria estar lá para ver. — Longwai limpa o canto dos olhos. — Traz aqui o pacote. Seguro o tijolo o mais longe possível do corpo. Ele pega o bloco e o examina por um minuto. — Está tudo aqui — ele diz. — Não é nenhuma surpresa isso acontecer. Era um cliente novo. Já deu problema para outros. O ar abafado sai titubeando dos meus pulmões. Olho para Dai, esperando que esteja contente. Ou, pelo menos, menos verde. — Era uma armadilha, então? — A voz de Dai é fria, mas sua perna está agitada novamente. Mais do que antes. — Mais ou menos. — Longwai dá de ombros, indiferente. — Ando procurando uns bons moleques de rua. Não é fácil encontrar corredores de confiança. Mas você provou seu valor hoje. O que acharia de virar meu corredor particular, para serviços mais… discretos? Pago bem. Você e seu amigo aqui vão ganhar uma porcentagem. Ele vai precisar ficar durante os corres. Como garantia, você sabe. É estranho, quase surreal, o fato de Longwai pensar que um colateral humano funcione. Acha que somos capazes de confiar um no outro. Queria saber se ele teria feito o mesmo com outros marginais ou se me encarou com aqueles olhos pretos de bisturi e trinchou até encontrar minha fraqueza. Minha necessidade de proteger. Não falo nada. A primeira regra queima nas minhas panturrilhas. Tudo o que quero é correr. Para longe, muito longe deste lugar de fumaça fedida, dinheiro sujo e medo. Um estalido brusco enche o ar: as mãos de Longwai batendo uma na outra. — Mais vinho! E luz! — ele ordena por cima do ombro. Estou prestes a dizer não quando uma mulher entra discretamente na sala. Não. Não é uma mulher. É uma menina com roupas de mulher. Seu rosto está duro de tanta maquiagem. Igual ao da menina no beco. A visão dela — com seu vestido justo e vermelho, a bandeja perfeitamente equilibrada nas mãos — interrompe minha resposta. Lembro o motivo pelo qual estou aqui. Essa menina. Eu a conheço. Ela é da minha província. De uma fazenda a quatro lis da nossa. O nome dela era… é Yin Yu. Vi seu rosto no fundo da van que levou Mei Yee embora. Ela foi trazida na mesma noite. — Gosta de carne? — Longwai ri, enquanto ela coloca mais vinho no copo. O cheiro é repulsivo. Como álcool e ameixas doces. — Tem muitas iguais a ela por aqui. Se estiver disposto a pagar. Faço que não. A menina, Yin Yu, vai embora. Seu vestido de seda cintila escarlate antes de desaparecer entre as sombras.

Se Yin Yu está aqui, Mei Yee também pode estar. Não é uma grande esperança. Não é nenhuma, na verdade. Mas, agora, é tudo o que tenho. Preciso aceitar a oferta de Longwai. Preciso continuar procurando. — Sim — digo com a boca seca, sabendo que nunca vou poder retirar o que disse. — Vou ser seu corredor se Dai aceitar ficar esperando. Se ele estiver disposto a arriscar a vida toda vez que saio às ruas. Se achar que pode confiar em mim de verdade. — Eu fico. Parece que ele está. Ele confia. Longwai nem abre um sorriso. Toma um longo gole do vinho. Escorre um pouco na mão. Os fios rastejantes de um vermelho escuro me lembram do sangue do mercador de jade. — Voltem amanhã ao pôr do sol. Tenho outro trabalho para vocês. Meu homem vai pagá- los na porta. — Ele faz um aceno com a mão livre. Um sinal para irmos. Seguimos o homem de Longwai até a entrada, onde nos entrega um envelope laranja. Cheio de grana. Todas as portas ao longo do corredor estão fechadas quando passamos. Não consigo parar de me perguntar se minha irmã está atrás de alguma delas. Esperando.

MEI YEE

SÓ TEM UMA JANELA NESTE QUARTO. É uma abertura estranha, a única em todo o prédio. Seis blocos de cimento que não foram colocados pelos pedreiros, preenchidos tardiamente com barras de metal e vidro. Ela fica escondida atrás de um tecido escarlate vivo, bloqueando minha vista de fora. Não tem muito para ver lá. Nem é uma travessa propriamente dita, só uma brecha entre prédios habitada por gatos e crianças de rua. As luzes fantasmagóricas que brilham da rua principal não fazem muita diferença… só dá para ver pilhas de lixo esquecidas. É uma vista repugnante, completamente cinza e podre. Nunca entendi por que Sing gostava tanto dela. Durante as primeiras horas da manhã, quando os clientes estavam em outro lugar, ela sentava na minha cama, abria a cortina e olhava para fora. Sempre ficava com um olhar vidrado que me fazia duvidar de que realmente estava focando a vista diante dela. Depois de dois dias sozinha, quando as paredes começam a se fechar e me sufocar, abro a cortina e olho pela janela. Os blocos de cimento descoloridos por fungos, as embalagens de salgadinho e as garrafas de bebida estilhaçadas. Olho e tento ver o que Sing via. Alguma coisa se move do lado de fora janela. Não consigo ver nada direito além do reflexo do metal e partes do meu rosto. Talvez eu só tenha imaginado. Mas então o vidro chacoalha. Uma mão aberta, branca e assustadora, encosta no vidro na altura em que meu rosto estava há pouco. Meu coração treme tanto quanto a janela. Pisco, várias vezes, mas a mão não vai embora. Ainda está ali: cinco dedos saindo de uma palma vincada como uma teia de aranha. As linhas são fundas e entrançadas, com um pouco de sujeira. Eu me pergunto o que fazer, se fecho a cortina ou grito para chamar Mama-san, quando uma voz fala, forte demais para ser contida pelo vidro fino. — Olá. Lambo os lábios, tentando pensar no que dizer. — Quem… quem é você? A mão desce, deixando a janela vazia de novo. E então um rosto. No começo são só traços, conjuntos de luz e sombra se curvando e colidindo para mostrar a pessoa do outro lado do vidro. Mas logo meus olhos se acostumam ao brilho da lâmpada de rua. Ele é jovem. Dá para ver a força dos seus braços através do moletom com capuz. Não tem barriga. Tem a aparência que um homem deve ter, ativo e lutador. Não gordo e descorado devido a doces, preguiça e fumaça. E seus olhos… são nítidos como uma noite nas montanhas. Olham firme para mim, de fora para dentro. — Você… é uma das meninas de Longwai — ele diz finalmente.

Respondo que sim com a cabeça. Sei que o menino me vê. Seria impossível não ver com a luz de tantas lanternas de papel atrás de mim. Ele fica em silêncio. Seus olhos penetrantes continuam me encarando. Fazem meu estômago se contrair de uma maneira que eu nem sabia ser possível. Não sei o que dizer ou o que perguntar. Minha cabeça está vazia. Tudo o que ouço é o correr da água, o tique-tique-tique das gotas, que significam que em algum lugar, lá em cima, está chovendo. Eu não devia perguntar nada. Se fosse uma boa menina, uma menina exemplar, se soubesse o que era melhor para mim, fecharia a cortina. Esqueceria o menino, viraria na cama e olharia minhas estrelas pintadas. Esperaria o embaixador chegar com um novo buquê de flores. Mas a chuva. A sujeira. Seus olhos. Meu estômago. Coisas ao mesmo tempo novas e esquecidas. Tudo me mantém à beira da janela, me faz apertar as mãos em torno das barras. — Qual é seu nome? — o menino pergunta por fim. Meu nome. Mei Yee. Foi minha mãe que escolheu. Lembro o dia em que ela me contou. Estava parada do lado de fora, deixando a brisa do anoitecer enroscar seus cabelos. Seu rosto estava voltado para o poente, fundido inteiramente com o dourado. Era estranho vê-la com tanta clareza. A casa, a cozinha onde ela passava a maior parte das horas, era muito escura. Estávamos paradas sob as folhas amareladas do pé de ginkgo que balançavam com o vento, observando as montanhas ficarem roxas e ásperas, como as costas de um dragão adormecido. — É tão bonito — disse minha mãe. — Igual a você. Senti as bochechas ficarem quentes, da cor de ameixas não muito maduras. — Sabia que ia ser um encanto desde que a parteira colocou você nos meus braços. — Sua voz ficou embargada, como se ela estivesse prestes a chorar. — Você me deu uma vida nova e reluzente. É por isso que te dei este nome: Mei Yee. Mei Yee. Beleza revigorante. Não quero dizer meu nome ao rapaz. Muita gente o roubou, usou de maneiras que eu não pretendia usar. Nunca se sabe a fragilidade de um nome até ele ser usado como arma, berrado como uma maldição. — Qual é o seu? — pergunto através do vidro. Ele ignora minha pergunta. — Como é aí dentro? Volto o olhar para o quarto atrás de mim. Não tem nada de novo. É o que vejo todos os dias, dia após dia após dia. Uma cama. Um lavatório e um penico de estanho. Cortinas vermelhas e lanternas de papel. A prateleira com o gato dourado. O arco-íris de vestidos de seda. Violetas já murchas. Pétalas moribundas, folhas caídas — as únicas coisas que mudam. Mesmo quando a porta está destrancada, não posso ir muito longe. Só para o corredor e para os quartos das outras meninas. Às vezes até o salão, se o embaixador quiser fumar e conversar. Normalmente ele não quer. É um mundo pequeno. — Como é aí fora? — pergunto, em vez de responder. Parece que tudo o que queremos são respostas um do outro.

— Frio. Molhado — ele diz. Gotas de chuva se acumulam como joaninhas na ponta do nariz do menino. Eu me pego fitando o brilho e o vislumbre delas sob a luz fraca da rua. Não consigo me lembrar da última em que senti a quietude da chuva na minha pele. — Sua vez. — O menino sinaliza com a cabeça e as gotas caem, pequenas rajadas de um brilho prateado. Como estrelas cadentes. — Quente. Esfumaçado. — Que mais? — É sua vez — aponto. — O que você quer saber? O que eu quero saber? Por que estou aqui, com o rosto encostado na janela, cheia de anseios? Por que estou me atormentando com os sabores da vida que nunca mais vou sentir? Devia dar um passo para trás, deixar a cortina cair. Mas o rapaz… ele me olha de um jeito como nunca fui olhada antes. É um olhar fundo que deixa minhas bochechas da cor das ameixas de novo. O que começou como estômago contraído é agora um ardor. O que eu quero saber? O que Sing queria saber? Lá fora. Sem paredes. Penso em Jin Ling debruçada na nossa janela, sedenta, tão sedenta pelos segredos das estrelas. Olhando para pegá- las e colocá-las dentro de si. Eu me encosto na janela, sinto a mesma excitação, o mesmo desejo e a mesma nuvem de tempestade aflita no meu peito. — Qualquer coisa — eu digo. — Tudo. — Tudo é muita coisa. — O rapaz franze a testa e cruza os braços diante do peito. Por um momento, fico com medo de que o jogo tenha acabado. Que ele vá em direção ao som de cacos de garrafa e latas amassadas e não volte. — Talvez a gente possa combinar uma troca. — Uma troca? — Sim, uma troca. Minhas informações em troca das suas. — Minhas informações? — Coisas sobre o bordel. Você… vê coisas? Longwai e os outros membros da Irmandade? — Às vezes. — Minha boca fica seca, como ficou quando os Ceifadores me amordaçaram com um lenço de algodão durante a viagem na van escura feito breu da nossa província até a cidade. O que tinha começado como um jogo está rapidamente virando algo perigoso. Falar da Irmandade, revelar o que vejo, pode acabar muito mal para mim. — Nunca peça camarão na barraca do sr. Lau. Ele deixa os camarões fora da geladeira por muito tempo. Você vai passar mal, com certeza. Da última vez que pedi um prato lá, não consegui comer nada por uns três dias. — Q-quê? — Minha língua enrosca na secura, como se estivesse amarrada. — A gente está trocando. Lembra? — o menino recorda. — Você fala, eu falo. — Ah. — Qualquer coisa. Tudo. Camarão estragado vendido por um tal de sr. Lau. Não era o que eu estava esperando, mas já é alguma coisa. Nem sabia que tinha barracas de camarão tão perto. — Eles fazem reuniões aí, não fazem? — Sua pergunta é tão rápida e direta que logo deixo de acreditar que a aparição na minha janela tenha sido um acaso. Todas as palavras e pausas

foram uma dança em preparação para isto: ele quer alguma coisa daqui de dentro. Alguma coisa que não consegue alcançar. E eu quero saber o que é. O que pode tanto querer neste lugar cheio de fumaça e cadeados? Tem um brilho nos seus olhos que lembra o ardor de Sing. Mas, enquanto ela ficava olhando para fora, ele olha fixo para dentro. Ouço o som deslizante de metal contra metal. Atrás de mim. Mal tenho tempo de tentar entender a situação. Lanço a cortina sobre a janela e pulo na cama. A primeira coisa que vejo são as flores. Uma dúzia de crisântemos brancos surge pela porta, e o embaixador vem logo atrás. Ele é um homem grande, e seus passos sacodem o quarto. Sinto o cheiro úmido do casaco quando o tira, mas não consigo ver as gotas de água. Deve ter usado um guarda-chuva. Meu coração bate rápido quando o embaixador vem para a cama. Tem alguma coisa nas mãos: uma caixa dourada com uma fita. Ele a coloca no meu colo. — Trouxe chocolates para você. — Sua voz é calma. Firme. O simples som dela me faz lembrar de como estou agitada. Sorrio e agradeço. Desfaço o laço devagar. Não consigo pensar em outra coisa além da janela às minhas costas. O menino ainda está ali, esperando por mim? Continuo sentindo o ardor de seus olhos. Rezo aos deuses para que minhas bochechas não estejam vermelhas. Os chocolates em forminhas de renda são diferentes uns dos outros. E não têm formato nem de círculos nem de quadrados, mas de formas estranhas que eu nunca tinha visto. — Conchas — explica o embaixador quando vê a perplexidade no meu rosto. — De onde vêm moluscos e ostras. — Conchas. — Traço a borda de uma delas. — Do mar? — Sim. Wen Kei adorava descrever o mar. Ela podia falar sobre ele por horas. Como subia e descia conforme a lua. Como chiava feito um gato furioso em dias de vento. Como suas águas cintilavam feito fogo ao nascer do sol. Para mim era impossível imaginar tanta água no mundo. Sing dizia que havia até montanhas embaixo dele, uma coisa que ela havia aprendido na escola. Nenhuma de nós acreditou. — Você já viu o mar? — Muitas vezes. — Ele sorri. — Cresci numa ilha. Não dava para ir a lugar nenhum sem cruzar a água. Sei que nunca vou ser capaz de imaginar tanta água até ver de verdade, com meus próprios olhos. — Você acha que, um dia, talvez possa me levar para ver o mar? Seu sorriso se desfaz. — Não é uma boa ideia. Normalmente eu não insistiria, ficaria quieta e acanhada, do jeito que ele gosta, seguindo nossas regras tácitas; mas meu coração está cheio e vibrante por causa do encontro na janela. — Por quê? — Você é minha princesa. Esta é sua torre de marfim. Precisa ser protegida. As pessoas lá fora… não entendem a gente. É melhor você ficar aqui.

Estas paredes são de blocos de cimento. Não de marfim. E eu também não tenho certeza se entendo a gente. Mas não tenho coragem de falar essas coisas. Fazemos nosso ritual. Nossa dança. Ao final, meu rosto está quente. Agora, em vez de contemplar as estrelas, olho para a janela e a cortina carmim. Penso na noite atrás dela. No escuro penetrante dos olhos do rapaz. Talvez não fossem os blocos de cimento e o lixo que Sing adorava. Talvez fosse a possibilidade, o conhecimento de que o universo não é feito só de fumaça de ópio, e homens suados e rabugentos. Existe sim um mundo lá fora, com restaurantes que vendem camarão e segredos de estrelas. Um lugar onde chove e meninos bonitos sujam as mãos. Um lugar onde o mar se estende até o céu.

15 DIAS

DAI

FOI DIFÍCIL ENCONTRAR A JANELA, mesmo depois de saber que ela existia. Levei uma boa meia hora, desviando dos vazamentos tempestuosos dos canos enquanto rodeava o bordel, tentando não ser visto, até achar o pedaço escarlate na outra ponta da travessa. Mas, se encontrar a janela foi difícil, encarar o que estava atrás dela foi pior. Eu não estava preparado para a garota. Cidade da Escuridão. É como as pessoas de Seng Ngoi chamam este lugar quando o avistam do alto de seus escritórios ou de suas coberturas. Um ponto negro de cortiços e crime na sua cidade clara. Um nome melhor, na minha opinião, seria Cidade da Dor. O sofrimento está em toda parte. Rastejando dentro das oficinas de aço e tecelagens, onde os trabalhadores se curvam sobre as máquinas durante catorze horas todos os dias. Correndo entre as prostitutas viciadas e os adolescentes marcados por facas. Espreitando as mesas em que bêbados jogam dinheiro um no outro e xingam quando perdem suas apostas em pombos de corrida. Normalmente consigo ignorar, olhar para o outro lado, continuar andando. Desta vez não. Não sei direito quem eu esperava encontrar. Uma prostituta, sim. Mas a menina atrás do vidro não era como as outras de Hak Nam, aquelas com olhos vermelhos que andam para lá e para cá, tentando seduzir homens com ombros nus e pálpebras pesadas. Os olhos dela não eram vermelhos, eram cheios. Igualmente cheios e vazios. Quando me encarou, eu soube que ela era e não era jovem ao mesmo tempo. Olhos misteriosos. Ávidos. Sedentos… Mostravam a realidade das barras: uma gaiola. O desejo dela atravessou a grade e fixou suas garras no meu peito, me fez tagarelar sobre intoxicação alimentar e frutos do mar. Fez minhas mãos suarem feito as de um pré- adolescente apaixonado. Olhei para aquela menina e me vi olhando de volta. Fantasmas de Dai gravados no vidro, fragmentados, presos no brilho metálico. A alma encarcerada querendo sair. Além de misteriosa, ela era linda. Deu para entender a obsessão de Osamu: o cabelo preto como a noite, preso numa trança, em contraste com a pele muito branca. O tipo de garota sobre a qual meu irmão e eu teríamos conversado baixo até a governanta nos trazer biscoitos de arroz e nos mandar terminar a lição de casa. O tipo de garota que eu teria chamado para ir ao cinema ou por quem jogaria naquelas máquinas de brinquedos só para dar o prêmio a ela. Mas Hak Nam não tem cinemas nem ursinhos de pelúcia. E não vou chamar aquela menina para sair. Vou pedir para que espie a Irmandade. Que encontre aquilo que não consigo encontrar.

Fome se aproveitando de fome. Será que ela dá conta? Essa é a pergunta que me faço enquanto enfio as mãos nos bolsos molhados e caminho por entre as ruas desoladas de Hak Nam. Não sei. É um risco enorme. Na pior das hipóteses, sempre tenho uma segunda porta para dentro do bordel. Desde que Jin continue fazendo os corres. Posso conseguir todas as informações importantes com a menina e dar o fora no último instante possível. Uma missão suicida, na melhor das hipóteses. Esse é o plano B. Não existe plano C. A maioria das lojas está escura quando passo por elas devagar, mas algumas ainda estão iluminadas, os donos trabalhando. Um relógio na parede do outro lado da loja de bolinhos me diz que são três e cinquenta. Madrugada. Se eu não me apressar, vou perder o encontro no Velho Portão Sul, onde vou fazer o relatório e ele vai lembrar, com a voz dura, que meu tempo está acabando. Começo a correr. Os cordões do capuz batem contra meu peito enquanto voo pela cidade, desviando das figuras deitadas sob cobertores, dormindo. O Velho Portão Sul é a maior e mais antiga entrada da Cidade Murada de Hak Nam. À luz do dia, parece a porta de uma colmeia, com centenas de pessoas entrando e saindo. Carteiros puxam mochilas com envelopes. Vendedores carregam frutas nas costas ou em carrinhos. Alguns até equilibram caixas na cabeça. Mas, entre a meia-noite e a alvorada, fica desolado e vazio, uma abertura para o mundo lá fora. Meu supervisor já está lá. Encostado na entrada, com um pé plantado em Seng Ngoi e outro em Hak Nam. Um cigarro brilha na escuridão, iluminando seu rosto como as chamas das torres de uma usina de aço. Quando me vê, joga a bituca no chão e pisa nela. Existem dois canhões em cada lado do portão. Relíquias de tempos antigos, quando Hak Nam era uma fortaleza, e não o covil de um dragão. Antes de o governo deixar a cidade apodrecer. Os canhões estão tão cobertos de ferrugem que parecem seixos gigantes em prantos. São meus marcadores. Quando chego neles, paro. Nem mais um passo à frente. — Você está atrasado — diz Tsang quando me aproximo devagar do canhão do outro lado. O último trago do cigarro sai pelo nariz. — Estava trabalhando. — A chuva ainda cai sobre as ruas de Seng Ngoi. Corre pelo Velho Portão Sul como um rio, batendo em minhas botas. Cubro a cabeça com o capuz. Meu supervisor não trouxe guarda-chuva. A tempestade encharcou seu corpo todo, mas ele não parece se importar. — Como foi a infiltração? Deu uma olhada? — Vi pouca coisa. Longwai me manteve por perto. — Então você não achou? — pergunta Tsang. Cerros os dentes. Já tenho pressão demais sobre mim sem as perguntas cheias de farpas dele. — Ah, sim. Ele me entregou logo depois de me fazer uma massagem no pé. Embrulhado para presente e tudo. — Isso não é piada, Dai — ele resmunga. — Há muito em jogo aqui. Vidas. Carreiras. É difícil interpretar a expressão de Tsang sem a luz do cigarro. Não gosto disso. — Não acho que Longwai vá me dar carta branca para andar pelo bordel tão cedo. Se

precisa da planta, é melhor perguntar pro embaixador Osamu. Acho que dá até pra você mesmo entrar e pagar uma menina se quiser. — O que o embaixador faz desse lado da fronteira é problema dele; você não está em posição de manchar a honra de Osamu. — Meu supervisor tira uma caixa brilhante de cigarro do bolso do casaco. — Está me dizendo que não vai conseguir? — Vou — respondo rápido. — Achei outra via. Uma menina. De dentro. — Uma das putas? Puta. Essa palavra nunca me incomodou antes. Mas, por algum motivo, sinto meus dedos se contraírem, tamborilando obscenidades em código morse. — Sim, uma das garotas de Longwai. Meu supervisor franze a testa e encaixa o cigarro entre os dentes. A outra mão segura um isqueiro. — O que você falou pra ela? — Nada. Só sabe que quero informações sobre a Irmandade. Não sabe o quê nem por quê — respondo. — E você realmente acha que consegue fazer a menina falar? É um risco e tanto. — Ele precisa de umas três tentativas para manter o cigarro aceso. — Bom, nada aqui é seguro — replico. — Certo. É o seu que está na reta — ele diz, como se eu já não soubesse. Como se já não passasse todos os segundos dos meus dias pensando nisso. — Testa a menina. Alguma coisa simples, pra ter certeza de que ela dá conta. Alguma coisa que você possa verificar se for mentira. — É o que planejo fazer. — Odeio quando ele fala comigo como se eu fosse idiota. Como se não tivesse sido educado nas melhores e mais caras escolas de Seng Ngoi. — Mas preciso dar um incentivo a ela. Um ônibus desce ruidosamente pela rua a poucos metros de distância. Tsang e eu ficamos firmes, olhando enquanto suas janelas grandes e iluminadas passam uma atrás da outra. Seus únicos passageiros, um universitário despenteado e um turista estrangeiro, estão com o rosto encostado no vidro. Aproveitando mais alguns minutos preciosos de sono, com a boca aberta. Tsang espera o ônibus virar a esquina antes de voltar a falar:

— Como o quê? — Tirar a menina daqui. Com segurança. — Não tenho como garantir isso. As putas de Longwai vão ser o menor dos nossos problemas quando a gente jogar a merda no ventilador. Já estou passando dos limites com aquilo que prometi a você… — Então o que falo pra ela? — O que quiser. — Meu supervisor ri. O cigarro treme, derramando cinzas e fumaça na poça aos seus pés. — O que achar que vai fazer a garota falar. — Quer que eu minta? — Minha mão treme. Preciso cerrar o punho para mantê-la firme. — Vai vir com essa agora? — Tsang abre um sorriso irônico. — Logo você! Baixo os olhos para o rio que cresce aos meus pés, as correntes de lixo e sujeira. Uma casca de laranja mofada se aproxima da minha bota, com algo que parece muito com fezes

humanas. Só mais um passo. Minha liberdade. Não devia ser tão difícil mentir. Não considerando que foi tudo o que eu fiz nos últimos dois anos da minha vida. Não devia ser difícil, mas penso nas bochechas vermelhas e vívidas da menina, na tensão em sua voz. Minhas entranhas se contorcem como um rato preso pelo rabo. — Precisa de alguma coisa? — pergunta meu supervisor. — Antes de eu ir? Qualquer coisa. Tudo. Relembro as vozes atrás do vermelho e do vidro. Logo depois da cortina se fechar. A menina parecia um daqueles rouxinóis engaiolados que os moradores deixam na laje. Osamu parecia um babaca egoísta. — Me traz uma concha do mar — peço para ele. — Uma bem bonita. — Você está de brincadeira… — Não, sério. Preciso de uma concha. — Preciso que a garota atrás das grades confie em mim. Preciso dar coisas para ela que Osamu não daria. Preciso deter o turbilhão doentio na minha barriga. — Mais alguma coisa? Faço que não. — Certo. Amanhã. Na mesma hora. Vou trazer sua concha. — Não perderia isso por nada neste mundo. — Nem tento conter o sarcasmo na minha voz. Meu supervisor volta a entrar sob a cortina de chuva, em direção a Seng Ngoi. Fico olhando até ele desaparecer, observando todos os detalhes da minha antiga cidade. O pavimento amplo e regular das ruas. O vidro intacto das portas e janelas. As luzes em tons neon, fazendo propaganda de tudo, de dança e bebidas a joias e manicures. Latas de lixo em toda esquina. Fico olhando até a escuridão das ruas começar a crescer em meu peito. Forço-me a me afastar do canhão e entrar nos túneis de Hak Nam. Para longe de casa. Tem mais lojas abertas agora, preparando-se para o movimento do amanhecer. Cheiros e chiados saem dos batentes, fazendo meu estômago vazio roncar. Arroz frito, rolinhos primavera, todo tipo de carne, macarrões saborosos e alho. Vendedores se cumprimentam, pegam ingredientes emprestados, trocam pratos. A maioria me cumprimenta quando passo, gritando os méritos de sua comida. — Você parece estar precisando de um pouco de enguia hoje, Dai-lo! Sempre tenho um sobressalto com esse apelido, tão próximo do meu nome verdadeiro. Irmão mais velho. Eles não fazem por mal. Mas ainda assim dói, sempre dói. Lembra-me do que não sou mais. — Tem substância! — continua o vendedor. — É bom para o inverno! — Nada de enguia! — O vendedor do outro lado da rua faz careta, apontando para seu próprio caldeirão fumegante. — Você precisa de sopa de cobra, para ter força e inteligência! Um terceiro vendedor ri. — Para o café da manhã? Não, Dai-lo! Você quer mingau de arroz e chá. Vai fazer bem para a digestão!

Bom ou não para a digestão, essa é uma manhã de bolinho. Decido isso assim que os aromas esfumaçados de massa, porco, soja, gengibre e mel flutuam pelo ar. Vejo o sr. Kung tirar uma bandeja fresca de cha siu bao do calor do forno. Ele abre um sorriso de quem me conhece. — Três? — Seis hoje. — Costumo tomar café da manhã sozinho. Faço todas as refeições sozinho. Mas penso em como Jin parecia esquelético sob as luzes do bordel. Ele precisa comer melhor e eu preciso que corra rápido para manter a lâmina de Longwai longe da minha garganta. Além disso, quero confirmar que Kuen não despedaçou a tenda do moleque. O sr. Kung tira seis bolinhos em forma de disco da bandeja e os coloca num saco de papel. — Tenha um bom dia, Dai-lo. Agradeço com a cabeça, desejando que suas palavras se tornem realidade. Mas tenho a sensação de que o Dia Quinze vai ser igual a todos os outros.

JIN LING

A CHUVA ENTRA PELA GOTEIRA DA TENDA. Está tudo molhado e trêmulo: dentes, mãos, pés. Tiro a roupa e tento ignorar a violência dos calafrios. A faixa se mantém firme contra meus peitos, protegendo minha faca. E o envelope laranja com minha parte do dinheiro. Chma mia quando deito, subindo no meu colo com suas garras. Ele está tão quente que paro de tremer. Coloco o cobertor sobre os ombros e vejo minha respiração iluminar o ar. Aqui, na quietude escura da noite, não consigo deixar de pensar no mercador de jade. Era tanto sangue. Eu me pergunto onde ele está agora. Se algum médico costurou o buraco feito pela minha faca. Ou se ele sangrou até a morte, ali mesmo, no mercado. Era ele ou nós, digo a mim mesma. Um corte no braço por duas vidas. Uma troca justa. Nós. Há quanto tempo eu não usava essa palavra? Desde que os Ceifadores arrancaram minha irmã da esteira de bambu e fiquei olhando, berrando. Meu corpo fino de doze anos era impotente contra tantos homens. Eu não podia brigar. Não podia impedir que a levassem. Desde então, era só eu. Ninguém para me atrapalhar. Ninguém para eu proteger. Ninguém para me trair. Mas agora não tenho escolha. Para continuar procurando minha irmã, preciso trabalhar com Dai. Essa ideia me deixa inquieta, mas não é tão ruim assim. Vai ser bom ter alguém com quem conversar, alguém cujo vocabulário seja mais vasto do que “miau”… … O som de passos me faz recuperar a consciência. Ainda está escuro, mas sinto no corpo aquela preguiça que significa que dormi. Não tenho tempo para pensar nisso. Alguém está vindo. — Jin? Meu coração diminui seus pulos acelerados de coelho. É só Dai. De novo. — O que você quer? — Você não se mudou — ele diz. — Andei ocupado — respondo. Não é bem verdade, percebo assim que digo. É só que não tenho muito medo de Dai. — Tinha certeza de que não estaria mais aqui. Lembro, em pânico, que não estou vestida. Acabo de enfiar minhas roupas ainda úmidas quando ele coloca a cabeça pela abertura da lona. — Não consegui dormir. Trouxe café da manhã pra gente. Novos cheiros percorrem o fedor de mofo da lona. Cheiros maravilhosos. De massa, doce, carne. Minha boca se enche d’água. A fome que habita dentro de mim se alarga. Minha barriga ronca.

Mas por que Dai gastaria seu dinheiro com café da manhã? Para mim? Nem eu compro comida para mim. Dinheiro, quando tenho, vai para lonas e facas. Coisas que não consigo roubar tão facilmente. — Qual é o esquema? — pergunto. — Não tem esquema. — Seu olhar fixo desce para minha túnica. Eu me dou conta de que minha mão está enfiada nela, em busca da faca. Puro instinto. Tiro a mão. Deixo a lâmina escondida. — É só um agradecimento por salvar minha vida lá no bordel do Longwai. — Você sabia que ele estava procurando corredores fixos? — Observo Chma se aproximar de Dai lentamente. O cheiro de carne faz o gato soltar um miado demorado. — Não. Ele tinha falado como se fosse um serviço único. Não fazia ideia de que era um teste. — Dai enfia o saco de comida pela abertura da lona e o balança de um lado para o outro. Chma mia mais alto, erguendo a pata para pegar o papel pardo: “meeeeeu”. — Agora vem. Vamos comer estes bolinhos. — Para onde vamos? — Você e suas perguntas… — Ele revira os olhos, tirando a cabeça da tenda. — Vem. Parou de chover. Fico olhando pela abertura por um momento. Olho para o frio escuro. Meu corpo dói, quer dormir, quer o calor do cobertor. Mais do que isso, quero os bolinhos. Sigo Dai até o fim do beco, entre curvas e esquinas de barracos miseráveis. Vamos subindo e subindo — subindo degraus por corredores com pintura descascada e manchas de bolor em forma de aranha; subindo escadas, entre pontes de bambu e arame. Fico a certa distância dele, com a mão sempre pronta para pegar a faca. Dai me guia por uma passagem mais estreita até a base de uma escada enferrujada. Quando olho para cima, perco o fôlego. No alto… não tem nada. Só um trecho escuro, longínquo, de céu. Se olhar com atenção, posso até ver algumas estrelas. São fracas e parecem lascadas. Quebradas. Todas as constelações, tanto as de verdade quanto as que inventei, têm um pedaço faltando. Despedaçadas pela presença devastadora da cidade. Subo a escada atrás de Dai. Quando chego ao topo, ele já está longe, desviando entre fileiras de roupas nos varais. Florestas de antenas. Quando chega na beirada, senta com os pés para fora e o saco de papel ao seu lado. Um empurrão ou uma rajada de vento forte o jogariam para a morte certa. Ele é incrivelmente corajoso ou muito descuidado. Não sei qual dos dois. Sigo adiante. As luzes da Cidade de Fora brilham forte, como estrelas que caíram na Terra e ficaram presas nas ruas e calçadas. O tipo de estrelas para o qual eu e Mei Yee fazíamos pedidos. Alguns dos arranha-céus mais altos ainda estão com as luzes acesas. Mais estrelas, tentando subir de volta para casa. Tornar as constelações inteiras de novo. — Faz tanto tempo que não vejo estrelas — digo, e me agacho perto de Dai. Ele também olha para elas. O ar encrespa com o som de Dai abrindo o saco. Um cutucão no meu cotovelo me faz dar um pulo. É só Chma, esfregando o nariz e os bigodes na minha manga. Não sei como ele conseguiu subir até aqui, mas esta não é a primeira vez que aparece em lugares impossíveis. — Às vezes eu venho aqui. Quando tudo lá embaixo é insuportável. — Dai tira um

bolinho e empurra o saco para perto de mim. Não hesito. — Gosto de lembrar que existe um céu. — Aquelas são minhas favoritas. — Aponto para um conjunto de estrelas, mais fortes que as outras, no topo de um dos prédios mais altos de Seng Ngoi. — Elas lembram uma foice de cortar arroz. Dai inclina a cabeça, com os olhos semiabertos, vendo aquele conjunto de estrelas sob uma luz inteiramente nova. — É um jeito interessante de ver a Cassiopeia. — O que é Cassapeia? — A palavra se enrola como uma enguia na minha língua. Tenho certeza de que falei errado. — Cassiopeia? Era uma rainha muito tempo atrás, num mundo diferente. Conta a lenda que era muito bonita, mas muito orgulhosa. Orgulhosa demais. Ofendeu umas deusas e ficou presa lá em cima por toda a eternidade. Volto a olhar para o grupo de estrelas, tento ver essa rainha bonita. Mas só a curva crescente de uma lâmina me encara de volta. Horas claras e árduas sob o sol. Talvez ele esteja inventando. Talvez. Mas alguma coisa nas suas palavras faz com que eu acredite. Com que queira lembrar. Cassiopeia. Guardo o nome. A história que vem junto com as estrelas. — Como você sabe disso? — Não importa. — O rapaz faz menção de morder o bolinho, mas encontra Chma plantado ao seu lado. Esfregando-se e ronronando com olhos de “me dá comida, por favor”. — Oi, gato. — O nome dele é Chma. — Racho meu bolinho no meio. O recheio dourado pinga. Corre quente pelo meu braço. A carne ainda está quente, quente demais para pôr na língua. Dou uma mordidinha na massa. — Chma. Onde você foi arranjar um nome desses? — Você não é o único que tem alergia. Ele espirra muito. — Jogo um pedacinho da massa na direção de Chma. Ele desce do colo de Dai do jeito que só um felino consegue: cheio de dignidade frenética. — Sabe? Chma, chma! O olhar dele é quase tão paralisante quanto o do gato. — “Chma, chma”? Não “atchim”? — Espirros de gato são diferentes dos nossos! — Certo. — Ele dá outra mordida no bolinho, mas nem a boca cheia esconde seu sorriso sarcástico. — Se é o que diz. — Juro, é assim — resmungo, e olho para o gato. Ele não tem a mínima vontade de espirrar. Em vez disso, explora o terraço em busca de mais farelos. Comemos rápido. Três bolinhos cada um. Ao fim, minha barriga está quase cheia. Dou um tapinha nela e lambo o caldo entre os dedos. Chma explora o saco vazio. Fica inteiro em cima dele: cabeça, ombros, corpo. Só o rabo enrolado fica para fora. O céu à nossa frente está ficando claro. Sem mais estrelas, só uma leve escuridão. Ficamos tão quietos durante a refeição que quase esqueci que Dai está aqui, sentado perto de mim. Que não estou sozinha.

— O que trouxe você pra cá? — Levo um susto quando meu acompanhante finalmente fala. — É um bom ladrão. Sem falar que é esperto pra caramba. Se vira bem em Seng Ngoi. Por que ficar no território de Longwai? Nunca falei da minha irmã. Nem mesmo para Chma. Dói demais. — Ainda não estou pronto pra sair. — Sinceramente, não tenho mais o que dizer para ele. Não sei as respostas. Não sei onde minha irmã está. Não sei o que vou fazer quando a encontrar. Aonde vamos. O que vamos comer. Como vamos viver. — E você? — pergunto, jogando essas preocupações para um canto longe e empoeirado. — Por que está aqui? Dai olha fixo para a Cidade de Fora. A luz está chegando. Trazendo cores claras e suaves por entre os arranha-céus: o roxo das pétalas de lótus, o rosa envelhecido da língua de Chma e o azul. Muito azul. — Não tenho para onde ir — ele responde. A ânsia que vi naquela primeira noite surge em seus olhos. Tremulando sob as luzes da cidade e o fulgor do sol. Chegando até os arranha- céus. O mar lá longe. — Você parece ter dinheiro. — Lanço o olhar para o saco em que Chma está enfiado. Aqueles bolinhos recheados não são baratos. — Por que não se muda? — Não é tão simples assim. — Uma história espreita por trás de suas palavras. Eu me pergunto se tem alguma coisa a ver com a cicatriz. Com o motivo por que concordou em arriscar a vida toda vez que eu faço um corre. Mas não posso levantar essas coisas sem que ele me encha de perguntas em troca. Não quero esse menino de cicatrizes e segredos revirando minhas lembranças. Não confio nele tanto assim. Um avião passa bem em cima da gente, engolindo as palavras de Dai com seu ronco ensurdecedor. O ar quente dos motores desce ruidosamente. Sopra nosso cabelo. Range às nossas costas. Dai está muito perto da beirada. Perto demais. Quando o vento bate, minha mão se estende. Seguro a ponta do capuz dele. Um movimento de velocidade e instinto. Do mesmo jeito que sempre levo a mão à faca. O avião desaparece. Minha mão continua agarrada à maciez do capuz. Ele continua imóvel na beirada, sentado com firmeza. Olha para minha mão. Seu rosto perde a cor: pálido, mais pálido, ainda mais pálido. — Desculpa. — Solto. Volto a cruzar os braços diante do peito. — A-achei que fosse cair. Estava tentando segurar você. Ele continua me encarando. Igual a como me olhou quando o encontrei na frente do bordel de Longwai. Seus olhos estão pousados em mim, mas ele não me olha de verdade. Está vendo outra coisa… outra… pessoa. Então ele pisca. O feitiço se desfaz. — Precisa de mais do que um avião para me derrubar — ele diz. — Você é sempre tão protetor? Olho para meus braços nus, muito brancos depois de dois anos sem sol. Estão cobertos por cicatrizes. Linhas e círculos brilhantes. Os punhos do meu pai marcaram toda a minha pele. Lembranças que ele queria marcar em Mei Yee. Em minha mãe. Eu nunca deixava.

Lembro-me de quando achei Chma, um filhotinho minúsculo e trêmulo, sendo chutado como uma bola de futebol por um grupo de marginais. Eu estava sozinha. Quatro contra um. Não importava. Nunca consegui ficar parada vendo as coisas acontecerem. Não sem lutar. — É uma coisa boa. — Dai não espera minha resposta. As mãos dele estão fora dos bolsos, segurando firme a borda do terraço. Seus dedos parecem prestes a quebrar. — Meu irmão era assim. — Você tem um irmão? Ele pisca de novo. Como se só agora percebesse o que tinha acabado de contar. Um segredo que deixou escapar. — Não… não tenho mais. Não mais. Igual a mim. Talvez Dai e eu tenhamos mais em comum do que eu pensava. O sol se ergue rápido. Lembra que o mundo não é só concreto cinza e rachado. Sua chama laranja cobre os prédios. Deixa o mundo reluzente. Tudo ao meu redor, tudo o que a luz toca, é bonito. — Sempre quis um irmão. — Não sei o que me faz dizer isso. Talvez sejam os bolinhos na barriga. Ou o sol quente na pele. Talvez ache que esteja devendo um segredo para Dai em troca do dele. — Por quê? — ele pergunta. — Porque assim a vida seria diferente. — Meu nariz não seria torto e quebrado. Minha mãe teria sorrido. O arroz teria crescido. Meu pai não teria vendido Mei Yee só para ter dinheiro para o vinho. Eu ainda teria uma família. — Engraçado — diz Dai. — Às vezes eu queria a mesma coisa. Só que ao contrário. Não sei o que ele quer dizer com isso até continuar:

— Às vezes… às vezes eu queria nunca ter tido um irmão. Porque assim a vida seria diferente. Ficamos em silêncio por um minuto. Contemplando o sol amarelo. Desejando vidas diferentes. — Mas é isso. — Dai faz uma bolinha com o saco vazio. Joga longe no ar. — É isso. E a gente faz o que pode. Segue em frente. Sobrevive. Fico olhando o saco cair. Descendo, descendo, descendo. Até desaparecer. Engolido pelas ruas lá embaixo.

DAI

JIN FOI EMBORA AGORA. O gato também. Engolidos pelo labirinto de becos e escadas de Hak Nam. Foram dormir naquela tenda caindo aos pedaços. É a primeira vez que trago alguém aqui em cima, ao lugar de reflexão. Aonde vou quando estou mal. Sento na beirada de Hak Nam e traço a cicatriz em meu braço. Traço e traço.

Não faz isso, Dai! Esse não é você. Você é uma boa pessoa. As últimas palavras do meu irmão flutuam no vento, enchem o espaço vazio em que Jin estava agora há pouco. Mais um avião 747 rasga o céu. Sua passagem bagunça meu cabelo e enche meus ouvidos. Tudo que ouço devem ser moléculas de ar se dividindo e gritando, separadas para sempre. Tentei de tudo para fugir dele, esquecer todas as coisas que aconteceram entre nós, mas o fantasma do meu irmão me persegue. Entra no meu dia através do rosto de Jin, dos seus trejeitos. O garoto até olhava para o céu noturno com o mesmo brilho nos olhos. Eu me pergunto o que acharia do telescópio banhado em latão do meu irmão, ou da enciclopédia de cartas celestes que lia sem parar durante a fase “Quero ser um astronauta”. Meu irmão sempre ficava acordado até tarde, descalço na sacada do quarto; se eu me aproximasse demais, falava sem parar da nova constelação que tinha encontrado. Eu fingia não ligar, mas algumas coisas ficaram na minha cabeça. Como a Cassiopeia. Como o arrependimento. E o jeito como Jin segurou meu agasalho e tentou me impedir de cair: foi exatamente igual a como meu irmão me segurou naquela noite. Os mesmos olhos arregalados. Os mesmos dedos firmes. A voz do meu irmão continua girando, estendendo-se, agarrando-me. Tentando me impedir de novo.

Não faz isso, Dai!

— Sai da minha cabeça! — grito para espantar as lembranças. É tão mais fácil quando a

amnésia se instala e eu fico anestesiado. Penso no garoto. Parte de mim se arrepende de ter trazido Jin aqui. Ter comprado café da manhã para ele. Ter me importado. Meu plano superperigoso seria muito mais fácil de executar se as pessoas que me ajudam fossem meras peças de xadrez. Peões sem rosto. Não um moleque de rua faminto e uma garota aprisionada de olhos lindos que torcem e retorcem minhas entranhas. Mostram partes de mim mesmo. Fome se aproveitando de fome.

Esse não é você.

Os mortos demoram para dormir. Assim como eu. Fecho os olhos, sinto o vento bater na minha cara, trazendo histórias e histórias desses prédios decadentes. Não vejo a longa queda a centímetros de mim. Não vejo os arranha-céus

perfurando o céu da manhã.

Você é uma boa pessoa.

Queria que meu irmão estivesse certo. Mas ele não estava. E agora, em vez de se imaginar dançando em gravidade zero, deixando pegadas no solo da Lua, ele está a sete palmos de terra. Sem conserto, despedaçado como tudo o que deixei para trás.

14 DIAS

MEI YEE

DESDE A ÚLTIMA VISITA DO EMBAIXADOR, minha vida é uma calmaria total. A porta continua trancada e Yin Yu é a única pessoa que vejo. Todos os dias ela vem limpar meu quarto, juntar as roupas sujas e pendurar novos vestidos de seda no meu guarda-roupa. Traz algumas coisas a mais escondidas: um bordado, uma barra grudenta de doce de arroz, alguma fofoca das outras meninas. Coisas para encher o lodo infinito das horas. — Quanto tempo mais? — pergunto a ela. Não importa se são feitas de marfim ou blocos de cimento: as paredes ao meu redor já estão mais apertadas do que consigo suportar. — Mama-san disse alguma coisa? Os olhos de Yin Yu correm para a porta. Ela não deveria falar comigo. — Não sei. Ainda está roxo onde o mestre bateu nela. Mama-san ainda está roxa. Foi há quanto tempo? Semanas? Meses? Alguns dias? — Não pode faltar muito — digo sem pensar. Yin Yu chega um pouco mais perto da cama, fingindo alisar as dobras nos lençóis e afofar as almofadas decorativas. — Fui para o quarto de Sing algumas vezes. A coisa está feia, Mei Yee. Muito feia. Ainda estão injetando nela… Essa última frase deixa sua voz embargada. Percebo que está à beira das lágrimas. Quando Yin Yu sai, ergo a cortina e olho através do vidro. Ainda está preto. Está sempre preto. Sento e contemplo meu reflexo até minha visão ficar azul. O menino não voltou para me ver. No primeiro dia de silêncio, tentei listar todos os motivos para ele não estar ali, do outro lado do vidro. Ele podia ter sido esfaqueado. Podia ter me esquecido. Juro que tentei esquecê-lo. Mas seu rosto está ali, quando fecho os olhos, tão nítido e forte como a noite atrás da janela. Seus olhos vão fundo, agitam o calor na minha barriga, no meu peito. Tão diferente de como o embaixador me olha. São tão diferentes como vinho de arroz e água. Sinto-me bêbada só de pensar. Mas já vi o que a embriaguez faz. Limpei o sangue de Jin Ling depois das surras do meu pai. Vi o sangue de Sing secar na pele depois do seu surto de liberdade. Se eu quiser o melhor para mim, vou continuar com a água.

Tap, tap.

Estou envolvida pelos lençóis e pela noite quando a janela chacoalha. Murmura em sua

frágil língua de vidro:

Tap, tap. Tap, tap.

Estava tentando dormir. Meu cérebro está cheio de névoa e sonhos tecidos pela metade nos quais eu fazia tranças nos cabelos longos e lindos de Jin Ling. Não sei se o barulho é de verdade ou se desejei tanto esse som que fantasmas surgem na minha cabeça. Quando puxo a cortina, são aqueles olhos castanho-escuros ofuscantes que encontro. — Aí está você — diz o rapaz. Quase tenho um sobressalto quando encosto o nariz no metal. Não tinha percebido que eu estava tão perto. — Achei que não fosse voltar. — Estava ocupado com… umas coisas. — Ele cerra os lábios. — Parece cansado. — Não sei o que me faz dizer isso. Mas é verdade. Tem uma sombra mais funda entre os cílios e as bochechas dele. Eu nunca diria uma coisa dessas para o embaixador. Talvez seja a segurança do metal e do vidro entre nós. Ou a chama laranja no meu peito. — Você não comeu mais camarão do sr. Lau, comeu? O menino pisca, como se, ao bater os cílios, pudesse embaralhar minhas palavras, rearranjando-as em algo que sua mente cansada conseguisse entender. — Não. Camarão, não. — Existe uma tensão em seus lábios, fósseis de um quase sorriso, antes de continuar: — Não durmo muito. O passado me alcança rápido demais. Faz dois anos que não prego os olhos. — É tudo o que consigo fazer aqui. — Às vezes durmo tanto que acordo cansada. Mas sonhar durante horas é melhor do que ficar olhando para a porta. Esperando. — Pena que a gente não pode trocar. Longwai não dá muita liberdade, né? Longwai. O nome do mestre me chacoalha como a primeira guinada de um carro de boi. Lembrando que o menino não está aqui só para conversar. Não está aqui para me olhar através da grade com seus olhos escuros de cristal e incendiar meu estômago. Ele quer alguma coisa. — Da última vez que veio aqui, perguntou da Irmandade. Por quê? — Pensei nisso quase tantas vezes quanto nele. Por mais que me esforce, não consigo imaginar o que quer. Ou por quê. Ele fica imóvel, examinando minha pergunta como se fossem temperos refinados, peneirando e separando as partes que vai responder. Eu me esforço ao máximo para acompanhar, tento não me distrair com a curva daqueles cílios. São perfeitos para apanhar gotas de chuvas. — Trouxe uma coisa — ele diz finalmente. — Daqui de fora. Seu braço surge tão rápido que, sem pensar, recuo. Mas o que achei que fosse um punho é na verdade uma mão espalmada, com dedos retos estendidos, em oferenda. Na sua mão, espiralada em tons perfeitos de creme e ferrugem, está uma concha. Exatamente da mesma forma espiralada dos chocolates. Parece tão diferente na mão dele, forte e frágil ao mesmo tempo. — Não fiquei muito tempo — o menino diz rápido —, mas antes de ir ouvi que você gosta de conchas. O embaixador me deu muitos presentes: lenços de seda, doces artesanais, joias que brilham

como olhos de gato. Todos luxuosos, todos extravagantes. Muitos valem mais do que meu pai conseguiria ganhar num ano. Mas nenhum me provocou o nó na garganta que essa simples concha causou. — Ela é… — Paro de falar assim que começo. Não existem palavras para preencher a lacuna: linda, impecável, perfeita. Assim como os muitos desejos da minha alma. Eu nunca conseguiria escolher só um. O menino não insiste para eu falar. Vira a mão e coloca a concha na borda da janela com o mesmo cuidado que colocaria um filhote de pássaro. — Chama náutilo. Náutilo. A palavra é engraçada. Quero dizer em voz alta, aperfeiçoá-la, mas minha garganta está mais apertada que um canudinho. — Perguntei da Irmandade porque eles têm uma coisa de que preciso. Acho que suas informações podem me ajudar a pegar. Olho da concha para o menino. — Que coisa? — Acho… que é melhor para nós dois que eu não fale. Mais uma vez, a voz na minha cabeça, a Mei Yee sensata e obediente, me diz para me afastar. Deixar o vermelho cair. Esperar, sempre esperar, e fazer o que é seguro. Mas a janela me atrai como um ímã. Não consigo tirar os olhos da concha, da maneira como os dedos do menino continuam encostados em suas curvas. A chuva passou, mas ainda tem sujeira embaixo das unhas dele. O medo cresce, mas minha curiosidade é mais forte. — O que quer saber? — Muitas coisas. Mas vamos começar pelo mais simples. Nomes. O que antes parecia tão leve e ilusório vira agora um peso muito real no meu peito. Essas são informações que posso ter que descobrir… — Nomes de quem? — Dos líderes do Longwai. Do alto escalão da Irmandade. Preciso saber o nome deles — explica o menino. Mesmo quando não estou presa atrás dessa porta, não vejo muita coisa da Irmandade. Nunca tive permissão de chegar perto das reuniões que os líderes fazem duas vezes por semana, quando conversam sobre negócios e bebem litros e litros de vinho de ameixa. Mas, se disser para meu visitante que não sei, ele vai desaparecer pelo vale de lixo. Nunca mais vou vê-lo. Talvez até leve a concha consigo. Minhas entranhas se dividem entre ardor e medo. Estou brincando com fogo, meus dedos formigam por causa do frio atrás do vidro. Nomes. É tudo o que ele quer. Sílabas lado a lado, feito ervas secando no esteio. Sons para distinguir rostos numa multidão. Mas não sei por que parece algo maior. Mais perigoso. — Por que eu ajudaria você? — Tento parecer durona, como minha irmã sempre parecia quando ficava cara a cara com os brutamontes da província. Mas ele não é um brutamontes. Está examinando minha pergunta de novo, enrolando a mão com firmeza em torno das espirais da concha.

— Posso tirar você daí. — Suas palavras ressoam através do vidro, formigam em minha pele como a profecia de um velho sábio. Tentadoras e misteriosas, mas, não sei por quê, impossíveis. Sair. Lá fora. Sob as estrelas e a chuva. Sobre a terra. Além dessas paredes.

Não tem como fugir. Não tem como fugir. Não tem como fugir.

Ou será que tem? Neste momento, olhando fixo para a concha, tudo parece possível. — Eles se encontram aqui duas vezes por semana. A cada três ou quatro dias — conto. Não sei que dias. Eles se confundem neste lugar, porque estamos sempre trabalhando. — Tem uns dez. — E os nomes? — Não sei. Se eu decidir contar, vou precisar de tempo para entrar numa reunião. Seu rosto se franze todo. Mesmo assim, ele continua bonito. — Não tenho muito tempo. Dou quatro dias. Quatro. Ele diz o número com a expressão de quem está tendo a unha arrancada. Eu me sinto igual, mas por outro motivo. Quatro dias. É quase nada. Mama-san pode manter a porta fechada por meses. Qualquer promessa que eu fizer pode não dar em nada. Tanto faz. Faria por emoção, por sonhos náutilos. — Vou… tentar… — Espero que sim — ele diz, e solta a concha. Ela quase não cabe na beira do concreto, mas o menino a equilibrou bem. Está ali para ficar, a uns dois centímetros do vidro. Se a janela estivesse quebrada, eu poderia estender a mão e tocá-la. — Se não for seguro, coloco uma flor na janela. — Estarei aqui. — Espera… — eu chamo. Ele não foi embora. Continua logo atrás do vidro, à distância de um dedo. — Falei das reuniões. Me fala alguma coisa. Por favor. Seus olhos descem para a concha, lembram que ele não me deve nada. Absolutamente nada. Mas suas palavras… o menino não tem como saber que tenho esperado por elas, que tenho passado horas imaginando o sr. Lau debruçado sobre um balde de camarão estragado. Tirando as peles com mãos calejadas cheias de prática. Preciso de mais. — Vi o nascer do sol ontem — ele me conta. — Faz dois anos que tenho insônia, mas foi a primeira vez que pensei em subir e ver. — Como foi? — Minha voz é ávida, sedenta por cores, luzes e tudo o que não tenho. Tudo o que esse menino viu. Mas ele não fala que o rosa do sol se espalhou como um rubor no rosto do céu. Ou que as nuvens brilharam num tom mais forte do que seria capaz de suportar. — Bonito — o menino diz, com a voz hesitante e obscura. — Triste. Me fez querer estar em outro lugar. Ser outra pessoa. Espero que continue, mas ele para. Deu-me tudo que tem. — Acho que todo mundo quer isso — eu digo. Pelo menos eu quero. Ele ainda está olhando para a concha. Os cantos dos lábios se apertam, tensos. Só quero que ele sorria. Que deixe cair os anos, a tensão e as noites exaustas de insônia que acumula dentro

de si. — Estou feliz que esteja aqui — digo. — Que seja quem você é. Seus lábios se contorcem. Não é um sorriso; tampouco uma careta. — Preciso ir. Volto em quatro dias. Ele vira as costas. Solto a cortina e olho para o vaso ao lado da porta como um soldado solitário em guarda. Suas flores estão murchas, lutam contra as manchas marrons da morte. Eu devia começar a regá-las.

DAI

NÃO SAIO NA MESMA HORA. Na verdade, não precisava ir embora, só precisava me afastar de tantos sentimentos arriscados, palavras perigosas. Em vez disso, fico parado e encaro a concha. É impecável. Quase perfeita demais. Quando eu era menor e os dias de verão eram mais longos, minha mãe e Emiyo levavam a gente para passear na praia procurar conchinhas. Meu balde de plástico sempre ficava cheio de ostras lascadas e carcaças ocas de caranguejo. Coisas que Emiyo jogava no lixo quando voltávamos para casa. Nunca encontrei nada tão perfeito e intacto quanto aquela concha. Fico me perguntando onde Tsang a pegou. Ele não parece o tipo que caminha na praia com as barras da calça dobradas procurando tesouros do mar. Além disso, não sei ao certo se há náutilos aqui. (Meu irmão saberia. Seria uma das informações que ele teria guardado da fase “amo golfinhos e quero ser um biólogo marinho”.) Tsang deve ter comprado na loja de presentes do Grand Aquarium em Seng Ngoi ou então numa baia suja do mercado noturno. É mais provável que tenha sido feita numa fábrica com substâncias químicas e sintéticas. Nem deve ser uma concha de verdade. Tão glamorosa, vazia e falsa quanto eu e minhas promessas. Meu estômago se revira e, por um minuto, quero bater na janela de novo. Quero olhar pela treliça e dizer à menina que é tudo uma farsa. Não posso prometer sua liberdade. Não posso nem me libertar. Mas não faço isso. Talvez porque ache que realmente consiga dar um jeito. Que, apesar de

tudo, de todos os homens de Longwai e de suas armas, consiga tirá-la de lá. Preencher o vazio de seus olhos. Do meu próprio olhar refletido.

Bonito. Triste. Me fez querer estar em outro lugar. Ser outra pessoa.

Eu estava falando do nascer do sol ou dela? Não sei ao certo.

De qualquer maneira, era a verdade. É isto então: não sou uma boa pessoa. Sou egoísta, vou pegar o que preciso e deixar a menina para trás sem nada além de bugigangas. Igual a Osamu.

Estou feliz que esteja aqui. Que seja quem você é.

Palavras salgadas esfregadas numa ferida. Ardendo como dezenas de indecências juntas. Se ela tiver um pouco de bom senso, vai esquecer os nomes. Vai me esquecer. E uma pequena parte de mim — o mesmo lado que queria que tivéssemos nos conhecido numa vida completamente diferente, a parte que a janela não reflete — torce para que esqueça. Enfio as mãos nos bolsos, onde elas se contorcem e tamborilam. Cerro os punhos. Vou embora.

13 DIAS

JIN LING

OS PRÓXIMOS CORRES QUE FAÇO SÃO FÁCEIS. Não existem tantas sombras na Cidade de Fora, mas estou aprendendo que as mesmas táticas funcionam por aqui. Não fazer barulho. Andar com os ombros curvados. Ficar perto dos prédios. É só fazer tudo isso que ninguém me nota. Nem mesmo a polícia que circunda a Cidade Murada. Abutres com algemas e armas. Não voltei a ver Yin Yu. Há outras meninas, rostos aprisionados sob maquiagens e sorrisos forçados. Sempre que uma delas entra no salão, meu coração dispara. Sempre acho que é Mei Yee. Sempre olho e percebo que é outra menina sem nome. Outra que não é ela. Sempre observo. Sempre tenho esperança. Não vou parar até encontrar minha irmã. Chma me cumprimenta quando chego ao beco, a barriga ainda quente e cheia do mingau de abóbora que Dai comprou. Acho estranho que seja tão desapegado com dinheiro, mas ele não parece se importar. Não voltamos mais para o terraço. Depois de cada corre, Dai me leva para um lugar diferente. Hoje sentamos na frente da fachada da sra. Pak. Ficamos vendo- a transformar a massa de arroz em fios finos de macarrão, ensinando a filha a fazer o mesmo. Comemos no escuro, em silêncio, ajeitados de maneira que desse para ver partes do desenho animado que passava na janela de uma família: um gato e um rato caçando um ao outro. O gato era um péssimo caçador. Ao contrário de Chma. Deixou o rato correr pelo meio de suas pernas, pular nas suas costas. As crianças lá dentro riam, apontando para a tela e mastigando os pasteizinhos de arroz que pegavam de um prato. Eu não conseguia rir com eles. Ficava imaginando como o gato devia estar faminto. Como ele definharia rápido no mundo real. Alguma coisa na maneira como Chma se mexe me deixa apreensiva. Ele pula para o meu lado, com um miado furioso na garganta. Elétrico e arqueado. Todos os pelos das costas se arrepiam. Olho ao redor, mas não tem nada. Só um saco plástico amassado rolando pela rua. Ele tropeça pelas linhas de caracteres pichados às pressas, a tinta vermelha escorrida. As paredes parecem estar sangrando. Chego perto da entrada do meu beco. Chma pula na frente do meu pé tão rápido que quase tropeço. Ele berra de novo. Não um miado de “é meu”, algo mais urgente. Com mais dentes e grrrr. Tem alguma coisa errada. Chma nunca age desse jeito. Meus dedos envolvem a faca com firmeza. Não fica com medo, digo a mim mesma. Não é nada. Deve ser só uma ratazana gigante. Assim que viro a esquina, descubro que estava errada. Minha tenda está em ruínas. A lona destruída. Os pedaços azuis e gastos espalhados por todo o beco. Os cortes nas pontas são denteados, mas firmes. Foi uma faca.

Meu cobertor. A metade derretida da barra de chocolate que Dai me deu. O livro de caligrafia que eu estava me esforçando ao máximo para estudar. O par de chinelos furados que roubei da entrada de uma casa. Minha caixa de fósforos. Tudo desapareceu. O vento bate, arrastando pedaços de lona por toda parte. Estou tremendo, de raiva e de frio. Respiro fundo para me lembrar do envelope no meu peito. Nada que perdi era importante. Tenho meu dinheiro e minha faca. Tenho Chma. — Belas botas. Eu me viro rápido. Meus dedos ficam brancos em torno da faca. Kuen está parado na entrada do beco. Seu corpo robusto bloqueia a luz fraca da rua. Não tem ninguém com ele, mas sei que não está sozinho. Kuen nunca está. Meus pés começam uma retirada lenta e certeira. — Elas têm sido úteis. — Odeio como minha voz treme. Kuen lança um olhar perverso sobre meu corpo magro, focando na finura dos meus ombros. Ele não presta atenção aonde meus pés estão me levando. — Quer de volta? O sorriso nos lábios dele se contorce. Transforma-se numa coisa feia. — Você, Jin, é um pé no saco. Desde que veio de Fora. Acho que já está na hora de dar um jeito nisso. Sombras se juntam a Kuen. Primeiro cabeças, depois torsos. Outros meninos, um pouco menores. Seus corpos bloqueiam a saída. Garantem que eu não corra. A corrida é meu ponto forte. Todo mundo sabe disso. Kuen planejou, usou o cérebro uma vez na vida. Sua mão desce para o quadril, onde tenho certeza de que guarda uma faca tão afiada e medonha quanto a minha. Ele é mais forte que eu, sem dúvida. Todos os meninos são. Conto meus passos para trás. Três. Cinco. Oito. Cada um faz o sorriso de Kuen ficar maior. Mostrar mais os dentes. São amarelos e afiados. Dentes demais para sua boca. Dez passos. Paro, minhas panturrilhas ficam duras como pedra. Rezo aos deuses para que tenha contado certo. Se olhar para cima, Kuen vai saber. Eu me agacho. Então, com toda a energia do meu grito e das minhas coxas, pulo. Já pratiquei esse movimento. Quando as noites opressivas de verão não me deixavam dormir. Mas sempre soube onde estava o cabo. O lugar saliente na laje de estanho onde meus dedos podiam segurar e me puxar. Levar meu corpo, centímetro por centímetro, para um lugar seguro. Mas isso era quando eu estava olhando. Quando não tinha um menino furioso e seu exército de facas a poucos metros de distância. Os deuses e seus espíritos devem estar zelando por mim, porque, não sei como, minhas mãos encontram a ponta de metal enferrujada. Meus dedos se agarram à beira do estanho. Puxam. É a mesma sensação de quando corro. Como se não estivesse no meu corpo. Uma sobrevivente selvagem toma conta, faz coisas que não sou capaz de fazer. Ela consegue saltar mais de três metros e pular do terceiro andar para lixeiras quase cheias. Consegue passar por espaços impossivelmente apertados, esmagadores. E consegue puxar todo o meu peso para cima de um terraço inclinado só com a força dos braços. Ouço Kuen me xingando, lançando-se para a frente. Meu corpo dá um tranco. É puxado por um peso que não é meu. Uma olhadela por cima do ombro mostra Kuen, espumando, o

rosto vermelho, a mão segurando meu pé direito. A visão é tão assustadora que eu poderia soltar a mão, mas a sobrevivente se segura firme ao terraço. Ela ergue o pé livre. Chuta a cara de Kuen com um som de revirar as entranhas. Se eu não estivesse usando as botas dele, talvez não conseguisse quebrar seu nariz. O marginal me solta, uivando de dor. Não paro para ver o rosto dele ficar vermelho de sangue. Os outros meninos estão perto, paralisados pelos gemidos animalescos do líder. Eles não vão ficar parados por muito tempo. E eles, lembra a sobrevivente, também podem subir. Eu me ergo para a chapa inclinada e ondulada de metal. Vou o mais longe possível. Por algum motivo, essa parte não se liga a outras lajes. É um pedaço esquecido, solitário. Uma ilha de metal saliente num mar de paredes de cimento. Estou em terreno alto, mas continuo encurralada. — Peguem ele! — Kuen grita sem ar sob o sangue do nariz quebrado. — Alguém pega esse menino, droga! O estanho ao meu redor treme quando o primeiro começa a subir. Ele é menor do que os outros, menor até do que eu. Um nadinha esquelético. Um dos meninos maiores o ergueu para que ele conseguisse alcançar o metal. Fico perto da borda, onde posso atrasá-los. Mantê-los afastados com golpes rápidos da faca. Encaro o menino, mostrando a lâmina. Ele para, os pés ainda nos ombros do outro. — Bon! Sobe logo! — grita um dos outros meninos. Bon. Conheço esse nome. Da última vez que o vi não passava de uma criança. Uma criança. Não mais do que seis ou sete anos. Magrelo. Tinha acabado de ficar órfão. Mendigava arroz numa esquina. Dava tanta dó que dei para ele um dos mangostões velhos que tinha surrupiado de um santuário ancestral. Pouca coisa mudou. Ele continua magrelo. Faltam muitas refeições para que seus olhos pretos brilhem, suas costelas não apareçam. Seu rosto é o mesmo — sujo de terra, assustado. Mas agora é parte do bando de Kuen. Agora é perigoso. Em vez de frutas murchas, preciso dar uma facada nele se continuar subindo. Não quero fazer isso. Quero que solte a beira da laje. Quero que caia e vá embora. Meu olhar é duro e faço que não com a cabeça. Não faz isso. Não faz isso. Por um momento acho que meus apelos mudos funcionam. Bon fica pendurado com os braços esqueléticos, forçando as articulações. Parece querer cair. Mas os outros continuam gritando embaixo dele. Seus berros se transformam num coro terrível. É a ameaça, a coragem do bando. Bon absorve tudo isso, lambe os lábios. Começa a se impulsionar para cima. Preciso dar uma facada nele. Matar esse menino que já tentei salvar. Sinto pena, sinto medo. Mas a sobrevivente não espera. Ela empunha a arma e prepara o braço. Pronta para cortar. Ouço um barulho tão alto — em toda parte — que me faz quase derrubar a faca. O bando recua, num movimento uniforme. Bon se segura à ponta de estanho, com o rosto pálido de medo. Kuen é o único que não se mexe. Suas mãos continuam apertando a sujeira ensanguentada que virou seu nariz. Olho ao redor na direção do som ensurdecedor. Dai está parado na rua, com o braço erguido para que todos vejam o revólver. Ele aponta a arma diretamente para o beco. O

bando recua contra o muro. Seus pés pisam no que sobrou da tenda. — Tenho uma bala para cada um de vocês, mesmo depois dessa. — Ele olha direto para Kuen. — Acho melhor saírem. Agora. — Isso não é da sua conta! — O líder do bando rosna entre fúria e lágrimas. — Aquele babaca me roubou… — É da minha conta sim, Kuen — Dai diz, interrompendo-o. Sua voz é fria, cortante. Como uma navalha. — Acredite em mim. Vou atirar se não saírem daqui. Kuen sai de fininho. Seu cotovelo corta o ar como uma asa quebrada, a mão tentando parar o sangramento do nariz. Os outros vão atrás, passando o mais longe possível de Dai. Bon é o último a sair. Ele chispa mais rápido que uma libélula. Minha mão que segura a faca treme. Assombrada pelo que poderia ter acontecido se Dai não tivesse chegado. Estou aliviada, muito aliviada, por não ter esfaqueado Bon. Mas essa sensação dura pouco. Kuen não terminou. E os limites da cidade são tão pequenos que vou vê-lo de novo, com certeza. Em breve. Dai fica parado, olhando para a rua. Ele segura a arma firme, todos os dedos brancos de tanto apertar. Suas mãos também estão tremendo. — Você está bem? — Quando ele olha para cima, percebo que ainda estou agachada na beira da placa inclinada de estanho. Vou descendo devagar. Testo cada membro para ver se alguma coisa dói. Uma linha vermelha e ardente lateja num vinco da palma da minha mão. Devo ter me cortado na ponta de estanho. — Estou sim. — Limpo o sangue na túnica. Mais uma mancha. Mais uma cicatriz. Dai caminha até o meio do beco. Cutuca com os pés a carcaça despedaçada da tenda. Sinto um nó na garganta quando vejo a arma, ainda ali, na sua mão. — O que está fazendo aqui? Estava me seguindo? — Só queria ver se estava tudo certo. — Ele tira os olhos dos destroços. São muito escuros, como piche. A adrenalina do momento se agita no fundo deles. Algo como terror e… tristeza? — Olha só quem está sendo protetor agora. — Guardo a faca dentro das faixas. Cruzo os braços. — Eu estava me virando muito bem sozinho. — Estava, é? — Ele olha para a laje solitária. Algo no seu rosto parece inflamado. Abalado. — Era um bom plano. Mas não sei quanto tempo você duraria lá em cima. Engulo em seco quando Dai guarda o revólver na cintura. A arma desaparece. Um esqueleto de perigo, poder, encoberto sob o tecido e o jeans. Nunca teria imaginado que ele escondia uma dessas. Tem muitas armas circulando por essas ruas, mas não pertencem a marginais. Armas são caras. Impossíveis de roubar. O dedo que aperta o gatilho costuma ser de membros da Irmandade. Mas Dai não pode ser da Irmandade. Pode? Não… Ninguém da Irmandade se sentiria mal por disparar uma bala. Suas mãos não tremeriam como as dele estão tremendo. — Onde você conseguiu isso aí? — Dai parece diferente agora que sei que tem uma arma. Ficou até alguns centímetros mais alto. — Na loja do sr. Lam.

— Como conseguiu passar por ele e por aquelas barras? — Eu comprei. Com dinheiro. Minhas pálpebras se estreitam. Nem todo o dinheiro dentro do envelope laranja compraria uma arma. Onde ele arranjou a grana? Dai sabe que não acredito nele. — Já faz um tempo que faço corres, Jin. Juntei dinheiro ao longo dos anos. Alguma coisa não parece certa. Não encaixa. A arma, a comida. As roupas sem furos. Dai não pode ter tanto dinheiro. Não com corres de drogas. Não pode estar falando a verdade. As perguntas se infiltram nos meus dentes tortos. Prontas para morder a mentira. Despedaçá-la. Para arrancar a verdade daqueles olhos de raposa. Abro a boca para atacar. Mas a pergunta não sai. Penso na arma em sua calça. A que acabou de disparar para salvar minha vida. O mingau de abóbora pesa na barriga, ainda quente. Um lembrete de que há dias não sinto fome. Dai pode não estar falando a verdade. Mas me deu todos os motivos para confiar nele. Respiro fundo. As faixas apertam meu peito. A feminilidade que mantenho escondida para sobreviver. Todo mundo na Cidade Murada tem seus segredos. Posso querer a verdade, mas quero mais a minha irmã. Não posso correr o risco de perder minha única chance de entrar no bordel de Longwai. Não por isso. Expiro. Meu hálito vira fumaça no ar entre nós. — Você tinha essa arma o tempo todo? — Não queria que as pessoas soubessem. Mas acho que isso foi para o espaço agora. — Ele suspira e pega um chumaço de cabelo. O punhado é tão preto que parece azulado. Suas mãos continuam tremendo. — Nunca atirei antes. — Acho que eu devia me sentir especial — murmuro, e chuto um pedaço solitário de lona. Ela rola no chão como um peixe moribundo. Dai me lança um olhar estranho. A tira de plástico azul encosta no seu sapato. Ele a chuta de volta para mim. — Eles não deixaram muita coisa, né? Você devia ficar lá em casa. — Não posso. — Minha resposta é automática. Desde a noite em que guardei a esteira de bambu que dividia com Mei Yee, durmo sozinha. Pode acontecer muita coisa enquanto se dorme. Quando se está morta para o mundo. Dai balança a cabeça. — Não seja idiota, Jin. Você viu a cara do Kuen. Ele vai ficar procurando você. Dai tem razão. É exatamente o tipo de coisa que alguém como Kuen faria. Ele não rasgou minha lona simplesmente. Ele a destruiu. Desfez toda a minha armadura de sobrevivência. E agora que recebi a mensagem e arruinei seu belo rosto… Chma se deita no espacinho entre minhas pernas. Seu rabo felpudo balança para a frente e para trás como os ponteiros daqueles relógios falsificados que os mascates de rua vendem. — O trabalho no bordel do Longwai é bom — ele continua. — Não quero que cortem você em pedacinhos num beco qualquer. — Eu sei me virar. — Abaixo e pego o gato. Minha mão machucada lateja contra o pelo

de Chma. Não tenho nem mesmo um cobertor para colocar em volta do machucado. — Cabeça dura, hein? — Não tem nenhum humor na voz dele. — O que você sugere que eu fale para Longwai da próxima vez que o encontrar? Que você levou uma facada nas costas porque era orgulhoso demais para dormir num lugar seguro? Ele tem razão. Tenho orgulho demais. Orgulho demais, cansaço demais, frio demais. Não consigo me salvar. Não desta vez. Preciso seguir Dai até seu abrigo. Para sobreviver à noite, preciso confiar nele. Deixar que me proteja. Solto outra nuvem de ar. — Está bem. Vou pra sua casa. Aperto o gato firme. Segurá-lo me ajuda a não tremer. Chma parece saber disso, porque não se contorce para tentar sair do meu colo. Acomoda-se no meu ombro, mole como uma coisa morta, enquanto sigo Dai a um canto misterioso da cidade.

DAI

A arma na minha calça pesa toneladas. Minhas mãos estão nos bolsos, trêmulas feito um cachorro assustado. Tremendo e queimando com a força do metal. Faz dois anos que carrego a mesma arma, mas foi a primeira vez que puxei o gatilho. A primeira vez que disparei uma arma desde a noite que mudou tudo. Não tive escolha. Precisei atirar. Cortar o ar, aliviar a tensão de todos os nervos do meu corpo. Minhas emoções são quilos de macarrão queimado. Derramam-se por toda parte. Impossíveis de voltar à forma original. É culpa delas a minha decisão impensada de trazer Jin comigo. Claro, se eu estivesse seguindo minhas antigas regras, nem teria entrado no beco. Continuaria andando com a cabeça baixa. Deixaria a natureza seguir seu curso, assim como na vez em que Kuen socou a cara de Lee. Mas, como o próprio Jin disse, ele é especial. Preciso dele. O rosto do menino está cheio de perguntas quando paramos diante da porta protegida por grades. Claro que ele sempre pensou que eu era um marginal, sobrevivendo à base de sorte e corres de drogas. Uma máscara que agora estou tirando ao pegar as chaves manchadas de óleo do bolso. A entrada do meu prédio é idêntica a quase todas da cidade. É protegida por barras, comprimida entre um restaurante de frutos do mar cheio de fregueses fumando e outro mal iluminado especializado em macarrão. Primeiro destranco o portão, depois a porta atrás dele. — Esta… é sua casa? — Jin pisca. Casa. A palavra me enche de dor. Empurro a porta, que abre com um rangido enferrujado. A escadaria atrás dela nunca fica menos feia. Suas paredes são úmidas, despedaçando-se como um castelo de areia no fim da vida. Alguns anos atrás alguém decidiu pintá-las de verde, mas só sobrou tinta em uns pedaços. Agora até eles estão descascando em meio a putrefação e encrespamentos, como uma cobra que solta a pele morta. Não é minha casa. Nunca vai ser minha casa. — Só estou ficando aqui por um tempo. — Minha resposta sobe os degraus íngremes e estreitos. Jin me segue em silêncio, mas ainda consigo sentir suas perguntas. O apartamento, a arma, o dinheiro para tudo isso… não faz sentido na cabecinha dele. Não que devesse fazer; minha história não é das mais simples. Pode ter sido um erro trazê-lo aqui. Sem dúvida Tsang ia querer minha cabeça por isso. Diria que era um “vazamento” ou um “comprometimento”. Mas Tsang é um filho da puta e eu é que não ia deixar o moleque desamparado naquele beco. Não com o bando de lobos de

Kuen rodeando, esperando que minha arma saísse de perto. As antigas regras estão mudando. Subimos os treze andares até o segundo portão. Destranco a porta e deixo Jin entrar. Tento ver o apartamento pelos olhos dele. Um único cômodo coberto por ladrilhos amarelados do tamanho de moedinhas e mais tinta verde descascada. Nenhuma decoração, nenhum móvel, nenhum alimento. Os únicos sinais de que mora uma pessoa aqui são minha pilha de itens básicos no canto e as marcas de carvão na outra parede. Jin entra no cômodo, embalando aquele gato como uma menininha que segura uma boneca. Tira as botas e contempla o vazio. Seus pés fazem sons pegajosos nos ladrilhos enquanto caminha até a janela onde fica a varanda e olha lá fora. A janela e a varanda são as únicas coisas deste apartamento que não odeio com todas as minhas forças. De vez em quando, uma brisa surge do céu aberto e, lá pelo meio-dia, um pouco mais de luz do sol bate nos ladrilhos. Mas, assim como todas as outras varandas de todos os outros apartamentos de Hak Nam, a minha é fechada por grades. São para manter os ladrões do lado de fora, mas, nos meus dias mais sombrios, tudo o que vejo é a gaiola que me mantém preso aqui dentro. — Então você não é um marginal. — Jin se vira, solta o gato. Posso sentir meu nariz começar a coçar. Maldita alergia. — Nunca disse que era. — Mas, se você não trabalha para a Irmandade nem para nenhuma gangue… como arranjou este apartamento? O que você faz? O que eu faço? Que pergunta! Sinto como se estivesse fazendo uma prova, segurando um lápis sobre uma série de alternativas, tentando escolher a melhor.

  • a) Fico acordado por dias ininterruptos para fugir dos meus pesadelos.

  • b) Sento na beira dos terraços de Hak Nam à espera de um vento mais forte.

  • c) Uso agasalho para nunca ver a cicatriz no meu braço.

  • d) Minto para uma linda garota desesperada para salvar minha própria pele.

A verdade está em todas as anteriores, mas nenhuma delas é melhor que a outra. Então escrevo minha própria meia verdade, minto um pouquinho. — Você sabe. Faço corres. Trabalho por conta própria. Acho serviços e faço. Ou repasso pra gente como você. Jin está olhando ao redor de novo, com os olhos arregalados como os de um gato. Eles varrem o lugar como a vassoura da minha vó, passando por todas as fendas em todos os ladrilhos. É esquisito sentir que todos os meus segredos estão aqui, sendo que as únicas coisas minhas são camisetas, uma calça jeans e um casaco amontoados no canto. E, claro, como é o único lugar aonde não quero que o gato vá, o animal gruda quilos de pelo diretamente no tecido dobrado. Vou agraciar o mundo com meu muco por meses. — Por favor, fica à vontade — eu digo, encarando o gato. O bicho boceja, mostrando as presas brancas, a língua áspera, e se espreguiça o máximo que consegue em cima do casaco. Jin o ignora. Seu olhar está na parede oposta, onde as marcas de

carvão sorriem para nós como uma fileira de dentes podres. — O que são aquelas linhas? Olho para onde ele aponta e lembro que não tenho meses. Só dias. Treze. Não é pouco tempo, mas sem dúvida parece quando penso sobre isso, como uma corda em volta do meu pescoço. Levo a mão à garganta. — É um… tipo de calendário. Os olhos de Jin se estreitam em especulação. Ele vira a cabeça levemente alguns graus. — Quem é você? Mais alternativas. Mais opções terríveis e verdadeiras.

  • a) Uma má pessoa.

  • b) Um egoísta.

  • c) Um assassino.

  • d) Um mentiroso.

  • e) Todas as anteriores.

A resposta não sai disso. Olho para ele de novo. Desde que apertei o gatilho, todo o meu corpo formiga, esperando que o fantasma do meu irmão apareça. Mas o rosto de Jin ainda é o rosto de Jin. Embora parte da impetuosidade tenha ido embora. Sua expressão é mais suave, menos a de um tigre prestes a arrancar minha cara e mais a de um shih-tzu mimado. Alguma coisa na postura dele parece errada. Não sei dizer o quê. Talvez seja a mancha de sangue ainda fresca na camisa. Ou o fato de que não gosto das suas perguntas. Não quero que me olhe como olhou para o quarto, varrendo-me com os olhos para me entender. Não quero que descubra a sujeira entre as frestas. — Sun Dai Shing — digo para ele. Todas as anteriores. — Sun — ele repete meu nome de família. Ecoa sobre os ladrilhos marcados, através da janela, até a grade. Embrulha minha prisão passada e presente num pacotinho impecável. Caminho até as minhas coisas, como se pudesse fugir dos sons que se esvaem. O gato não se mexe, só emite sua opinião barulhenta quando reviro a pilha. Tem um kit de primeiros socorros em algum lugar. Uma maleta vermelha com uma cruz branca, cheia de coisas que nunca uso. (Pinças e ataduras não ajudam muito quando as dores são internas.) — O que é isso? — Jin pisca ao ver a maleta. — Posso ver sua mão? — Aponto para seu punho. Está cerrado contra o peito, tenso como uma papoula enrolada. Ele me estende o braço devagar. Abre os dedos para mostrar o corte na linha da vida, de onde ainda escorre sangue. Um mau presságio, diria minha avó. — Não está ruim. Não está ruim. O corte é tão fundo que fico surpreso que ainda consiga dobrar os dedos. Ele precisa de pontos e de uma antitetânica. Não de uma gaze e um frasco de água oxigenada. Mas é tudo o que eu tenho. A água oxigenada sibila e solta espuma sobre o corte de Jin, feito um lobo raivoso. Deve doer pra caramba, mas seu rosto continua forte. Sob essa luz, consigo ver suas outras

cicatrizes, espalhando-se pelo braço feito uma renda. Algumas são brancas e reluzentes. Outras, raivosas e vermelhas. Como a minha. Mas acho que Jin não merece suas marcas. Envolvo a gaze com firmeza e dou um nó nas pontas. Jin olha o curativo, flexiona a mão, abrindo e fechando. Abrindo e fechando. — Tenta não mexer — digo. — Está tranquilo. — Ele volta a cerrar o punho. Firme como um prego. Queria poder curar minhas feridas assim tão facilmente. — Certo. Bom, está tarde. A gente devia dormir. Escolhe um lugar qualquer aí. Se conseguir tirar o reizinho do monte, pode usar meu casaco como travesseiro. Estendo o braço e aperto o interruptor. O quarto mergulha numa escuridão espantosa. Não vejo mais as cicatrizes de Jin. Nem as linhas na parede. — Dai? — O murmúrio é leve e agudo. Diferente da voz normal dele. — Que foi? Há uma pausa enquanto tateio no escuro até o centro do quarto. — Obrigado. De nada. A resposta fica presa na minha garganta como o tentáculo de um polvo. Não consigo dizer. Não sei o verdadeiro motivo por que fiz isso tudo. Não me dou ao trabalho de tirar o agasalho e usar como travesseiro. Deito de lado no chão liso, levo os joelhos em direção ao peito. Mentalmente, visualizo a parede com as marcas. Viro de costas para ela.

JIN LING

MINHA MÃO PAROU DE DOER. Eu a mantenho junto ao peito. Meu dedo encosta no curativo, o mais limpo que já usei. É fácil cair no sono quando tenho um teto. Quatro paredes. Faço minha cama no canto, de costas para os ladrilhos. Chma trocou a pilha de roupa de Dai pelo calor do meu corpo. Está enrolado na minha barriga, vibrando com uma canção de ninar de ronronados. Sem facas. Sem ratos. Sem fome. Só descanso. E Dai. Ele está deitado no meio do quarto. Enrolado como um caracol. Escondido em sua concha. Sua respiração ecoa em toda parte. Mesmo quando os sonhos começam a aparecer, me lembra de que não estou sozinha. Poderia me acostumar com isso.

12 DIAS

JIN LING

O PASTEL DE ARROZ É DOCE. Mel pinga pelos cantos, faz meus dentes doerem quando mordo. Mei Yee está sentada atrás de mim. Passa os dedos pelo meu cabelo grosso e emaranhado. Suaves, gentis, nunca me machucam. Ela separa em três partes. Começa a trançar uma na outra. — A trança é sempre mais forte que o fio. — Seu provérbio melódico flutua sobre meu ombro. Eu devia falar para ela que meu cabelo está muito curto. Não dá para fazer uma trança. Mas o mel gruda na minha boca. Prende todas as palavras. Tento virar, ver minha irmã. Mas a escuridão me envolve. O sonho acaba. O doce do mel na boca, meu cabelo longo, a voz da minha irmã. Tudo vai embora. A escuridão diante de mim se transforma. É Dai. Levantando. Andando devagar até a porta. Como uma fita no ar: em silêncio, com graça. Como as pessoas se movem quando não querem ser seguidas. Só me mexo depois que a porta se fecha, a luz da escadaria volta a ser tragada pelo breu. Seus passos parecem gotas de chuva. Enfraquecem rapidamente. Ele está saindo. Mas por quê? Paro diante da porta. Cada passo fica mais baixo. Vai sumindo. Se eu esperar demais, não vou conseguir segui-lo. Parte de mim quer voltar a dormir. Esquecer que isso aconteceu. É a mesma parte que quer confiar em Dai. Que quer acreditar que ele é confiável. Mas confiança não foi o que me fez sobreviver a dois anos de lutas de faca e fome. Dai está escondendo alguma coisa… Esta pode ser minha única chance de descobrir o quê. Não me dou ao trabalho de amarrar os cadarços antes de sair às pressas. Voo sobre os degraus. Dois, três de cada vez. Salto na companhia do meu caçador felino. Logo estou nas ruas, pulando pelas sombras e desviando por travessas. Uma corrida estabanada para alcançar Dai. É tão tarde que até os restaurantes estão vazios. Tanques de peixe e enguias frescas borbulham como grilos elétricos. Nenhum cigarro queima diante das portas. Nenhum velho agachado nos degraus toma goles de bebida barata. Até os marginais estão dormindo. Dai se move à minha frente. Ele anda rápido, com as mãos enfiadas nos bolsos. Continuo seguindo. Mantenho distância. Ele avança até o fim da rua, onde acaba a fileira de canos pendurados e as paredes úmidas de concreto dão lugar ao céu aberto. O lado de fora, a noite cravada de estrelas. Procuro Cassiopeia, mas o ângulo não está certo. Tudo o que vejo são os faróis de um caminhão, vermelhos e berrantes, como os olhos de um dragão. Um vento entra cortante pelo espaço vazio — frio, despreocupado e sombrio. É o fim do reino de

Longwai. A fronteira com a Cidade de Fora. Mas Dai não sai. Encosta na muralha. Com os braços cruzados. Uma perna apoiada. Minutos se passam. Fico agachada. Observo-o enquanto observa a Cidade de Fora. Enquanto espera. Então ele volta a se empertigar. Seus ombros ficam rígidos. A sombra de um homem surge. Ocupa o espaço vazio perto dele. O capuz do seu casaco cobre seu rosto. Não consigo ver nada além da parte de cima do seu nariz. Mas consigo ouvir. Todas as palavras. Sua voz é estridente. Não alta, mas forte. Como o gongo de um templo. — Você está se mantendo longe de encrenca? Dai faz que sim. O gesto mais parece uma reverência. O homem-sombra tira do bolso um maço bem amarrado. Oferece para Dai. O pacote paira entre eles. — Toma — diz o homem. — Você sabe como ela fica preocupada. — Estou me virando bem sozinho. — Dai franze a testa. — Arriscando sua vida? — O homem empurra o embrulho para o peito de Dai. Sua voz fica mais grave. — Você está fazendo um serviço para a Seção de Segurança, não é? Dai encara o homem, com a cara fechada. O visitante suspira. — Escuta, eu sei… sei que eles fizeram promessas, mas você não tem nenhuma obrigação lá. Precisa ficar bem. É sua prioridade até poder sair daí. — E quando isso vai acontecer?

— Está chegando a hora… — Faz dois anos! — O grito de Dai é muito alto, me assusta. Ele é sempre tão calmo e equilibrado. Como um barquinho de papel numa poça rasa. Alguma coisa nesse homem o faz sofrer. — Dois anos! Se você pudesse me tirar daqui, já teria tirado. Meu tempo está acabando. Não posso ficar parado sem fazer nada! — Nada — continua o homem, inabalável — é exatamente o que você precisa fazer. Continua aqui. Continua vivo. Se Longwai descobrir quem você é… Dai desvia os olhos do homem de capuz e do pacote encostado em seu peito. Seus olhos se voltam para as ruas. O labirinto escuro de portas silenciosas. Passam por mim. Meu coração vira chumbo. — Cadê seu casaco? Você pelo menos está ficando no apartamento? Dai dá de ombros, mas continua sem olhar para o homem. Olha fixo para o chão. Para cacos de garrafas, camadas de argamassa e lama. Meu olhar está pousado nele. Tentando responder à monção de perguntas que ecoa na minha cabeça.

Quem é esse homem? Quem é essa mulher de quem falou? Quem é Dai?

— Ela se preocupa com você. Eu me preocupo com você. Já perdemos… — Não! — Dai ergue a cabeça de repente. — Não fala dele. Algum tipo de acordo que não consigo ver nem ouvir é feito. Dai fecha os braços diante do peito, envolve o calhamaço como um bebê adormecido. Como seguro Chma. — Não vamos perder você também. Isso vai acabar — diz o homem. — Prometo.

— Por que você se preocupa? — Você sabe por quê — o homem responde. Dai não sorri nem franze a testa. Seu rosto está inexpressivo quando vira as costas. Eu me encolho, mas ele não olha para os cantos escondidos por onde passa. Seu caminhar é cheio de energia. Objetivo. Olha direto para a frente, como se não quisesse nada além de ir embora. O homem-sombra fica parado na fronteira da Cidade de Fora, observando cada passo seu. Então os dois somem. O vento uiva pelo vazio que deixam, um lamento solitário. Penetra cortante nos meus ossos. Faz um buraco no meu peito. Meu punho se cerra. Lembra a dor sob o curativo. O maço que o homem-sombra pressionou contra o peito de Dai só pode ser dinheiro. De que outro jeito ele teria as chaves de um apartamento ou uma arma escondida na calça sem rasgos? Mas por que o homem-sombra daria dinheiro para ele? E, se Dai tem dinheiro, por que trabalha para Longwai? Se o homem-sombra quer que fique escondido, por que está bem debaixo do nariz da Irmandade? O que é essa Seção de Segurança? O que faz para eles? E a maior dúvida de todas: por que Dai não pode ir embora? Parece que ele tem mais segredos do que cicatrizes. Segredos que envolvem Longwai e fazem com que arrisque a própria vida. O que significa que, durante todo esse tempo, ele estava arriscando a minha também. Com Kuen e suas facas, eu posso lidar. Desviar, fugir, me esconder. É o bastante. Mas Dai… é um tipo diferente de perigo. Feito de doçura, sono e segurança. Do tipo que surge durante os sonhos. Apunhala pelas costas. Nunca deveria ter quebrado a segunda regra. Nunca deveria ter me deixado encurralar nas quatro paredes dele. Um lugar de onde não tinha como fugir. De que adianta uma porta trancada quando o perigo pode estar do lado de dentro? Sobrevivi dois anos inteiros nas ruas. Não preciso de alguém para me salvar.

MEI YEE

A CADA DIA, AS PAREDES SE APERTAM MAIS E MAIS E MAIS. Nem olhar para o beco impede que

elas se fechem. A concha de náutilo está lá, uma lembrança do menino e de sua promessa. Me lembra que ele está lá fora e eu aqui dentro. As estrelas pintadas no teto estão gastas, velhas. Mesmo assim, eu me entrego a elas completamente. Já identifiquei todas as manchas, todos os pontos em que a mão da pintora tremeu. Fecho os olhos, tento imaginar como se esticava com o pincel nos dedos feito um palitinho. Faz tempo que cheguei à conclusão de que quem criou esse painel era uma menina. O mestre e seus homens nunca teriam feito algo de uma beleza tão desesperada. Enquanto contemplo, penso nela. Qual seria seu nome? De onde teria vindo? Em que estava pensando enquanto traçava as estrelas no teto? Será que tinha coragem, esperança suficientes para depositar um pedido em cada uma delas? Há dezenas, pontilhadas sobre minha cama. Mas continua havendo mais desejos na minha alma do que estrelas. Quero poder segurar a mão de Jin Ling. Quero que Sing nunca tivesse tentado fugir. Quero que o menino não faça meu peito arder, não faça meus pensamentos voarem como uma fênix. Quero que todas as meninas neste bordel tenham sorte. Quero estar em outro lugar, como o menino. Ser outra pessoa. E por aí vai e vai e vai.

Quando o embaixador me visita, metade do tempo que o menino me deu já passou. Dois dias gastos olhando, pensando e me afligindo diante da porta do quarto. Quando ela finalmente se abre, meu coração bate para lá e para cá como um tigre preso numa jaula de bambu. Está encharcado da dor contínua de tantos desejos, pesado e intumescido. A dor que o menino criou. A dor funda da qual nem mesmo as flores do embaixador conseguem me distrair. Suas pétalas são de um amarelo e de um laranja tão vivos que não consigo olhar para elas por muito tempo. Cores muito exageradas parecem falsas. Seu casaco é mais pesado hoje, e sua pele contra a minha parece mármore, de um frio rígido. Ele também nota, mas de um jeito diferente. — Você está quentinha. O embaixador se envolve no calor que meu corpo oferece. Suas mãos seguram meu vestido, meu cabelo, mas só consigo sentir a janela às minhas costas. O véu fino da cortina e o

náutilo atrás dela. Provocante e tentador com promessas de coisas novas. A decisão é minha. Sei como fazer Mama-san destrancar a porta, se estiver disposta a correr o risco. O embaixador é minha chave. Seu dinheiro é mais poderoso que a fúria dela ou a apatia do mestre. — Você está muito gelado — digo quando seu braço me envolve como uma faixa, depois que ele termina e rola sobre os lençóis de seda amassados. — Desculpa. — Seu murmúrio meloso enche meus ouvidos. Lento pelo sono que vai tomando conta dele. Mudo de posição e me viro para tirar sua mão de mim e ficar cara a cara com ele. Não sei se o escarlate da luz da lanterna está na inclinação certa ou se é só a juventude do rosto do menino da janela. Mas hoje noto como a idade do embaixador é visível em tantos lugares: o fino leque de rugas espalhadas no canto das pálpebras, marcas de idade da cor de pão chamuscado, veias na parte de trás das coxas que se retorcem como enguias. Sempre soube que ele era velho, mas, hoje, alguma coisa nisso me incomoda. Para lá e para cá, bate meu coração. Para lá e para cá. Para lá e para cá. Um animal inquieto. Não posso mais ficar aqui. — Mama-san está trancando nossas portas. — Como assim? — Suas mandíbulas ficam tensas, mostram os dentes como um urso. Toda a sua postura é áspera agora, injetada de raiva. Esse é o lado dele que faz meus dedos tremerem. — Por que ela faria uma coisa dessas? — Mama-san mandou não contar. Vou ficar encrencada. — Engulo em seco. Minha boca está cheia de bile. — Por favor, não diz pra ela que eu te contei. Ele não responde ao meu apelo. — Ela está mantendo você presa neste quarto? Há quanto tempo? — Não sei. Só queria conversar com as outras meninas. Fico muito sozinha aqui dentro e não tenho nada pra fazer! — Nada além de contemplar as estrelas e a concha, e de falar com um menino misterioso. O embaixador senta. Olha o quarto ao redor; em seus olhos se refletem todos os centímetros, todos os cantos da minha jaula. Acho que é a primeira vez que ele realmente olha para ela. Nota o pedaço lascado do meu vaso de flores, o rasguinho no canto da tapeçaria da parede. Todos os músculos do meu corpo se contraem quando seu olhar passa pela janela. — Mei Yee… andei pensando. Sobre aquele dia em que te dei os chocolates. O dia em que vi o menino. Não, eu me contenho, não pensa nele. Não agora. O embaixador me olha de cima. — E se eu levasse você embora daqui? Não sei por quê, mas seu sotaque parece ainda mais estrangeiro ao perguntar. Não consigo acreditar nos meus próprios ouvidos. — Embora? — Faz mais de um ano que você é só minha. Acho que seria razoável fazer um trato com Longwai. — Para o-onde? — balbucio.

— Para um apartamento. Em Seng Ngoi. Perto de onde trabalho. Tem piscina. E um jardim no terraço. Tem um serviço de comida chique. Seguranças na porta. Tudo o que você pode querer. De onde estou deitada, o embaixador parece um deus. Ele cresce, assoma como o ídolo de um templo. A pele dourada, uma barriga redonda contra os lençóis, encostada na minha. Uma piscina. Um jardim. Comida chique. As palavras parecem bênçãos, promessas de um paraíso. Uma utopia longe deste lugar de seringas e tapas. Aquilo pelo qual Sing sangrou, uma saída sendo oferecida para mim de mão beijada. Eu devia aproveitar antes que desapareça. Uma semana atrás, teria dito sim. Mas, uma semana atrás, não tinha um náutilo equilibrado no parapeito da janela. Não tinha um menino olhando aqui dentro, fazendo com que me sentisse nua mesmo que completamente vestida, também me prometendo uma saída. Sair é suficiente? É a coisa que eu mais quero? Não sei. Sim. É uma palavra tão pequena, fugidia. Tão fácil de dizer. Bastaria um gesto de cabeça. Abro a boca. A cortina vermelho-vivo se acende no canto dos meus olhos. Nenhuma palavra sai. — Mei Yee? — Nasce o princípio de uma ruga nos lábios do embaixador. Ele estende a mão, acaricia meu braço. O toque, o levíssimo roçar de dedos, me tira assustada do redemoinho na minha cabeça. Sua mão desce, repousa na curva do meu quadril. Eu devia dizer. Devia, mas não consigo. — Eu… preciso pensar — digo a ele. A ruga fica mais funda, nuvens de tempestade surgem em seu rosto. Negras. — Pensei que você fosse dizer sim. Também pensei. Mas parece que fora e longe são duas palavras diferentes. Há uma sombra no fundo dos seus olhos, do seu rosto. Um vislumbre de algo que me dá calafrios. Sua mão pesa no meu quadril; os dedos apertam, apertam, apertam. — Tem outra pessoa, não tem? — Sua acusação é como um raio, súbito e lancinante. — Longwai está obrigando você a receber outros clientes? As pontas dos seus dedos de repente apertam e machucam meu quadril. Solto uma lamúria, meio de surpresa, meio de dor. Ele nunca me tocou desse jeito, nunca me feriu. O embaixador tira a mão ao ouvir o som. Volta o olhar para a palma, depois para mim. — Desculpa. Sinto muito. É que você parece tão diferente nos últimos tempos. E só achei que… — Não tem mais ninguém. — Parece mentira quando digo. Por causa do menino. Por causa de Sing, Wen Kei, Nuo e Yin Yu. Tantos rostos que nunca vou ver de novo se aceitar. Se escolher o caminho seguro. — Só preciso de tempo para pensar. Seria difícil deixar minhas amigas… A nuvem de tempestade desapareceu, mas seus olhos estão cheios de névoa e confusão. Ele se afasta e o ar frio cobre minha pele, invocando arrepios. O embaixador se veste lenta, meticulosamente. Abotoa a camisa social e prende as abotoaduras. Seus dedos ficam firmes enquanto coloca esses itens pequenos no lugar. Não há nenhum traço de emoção em seu rosto enquanto veste o paletó e pega o sobretudo.

— Vou mandar Longwai destrancar sua porta. Ele vai embora, sai pela porta sem se despedir.

A porta se abre, como o embaixador prometeu. Mama-san não fica muito tempo. Continua descendo pelo corredor escurecido, abrindo os cadeados com os punhos de ferro de seu chaveiro. Paro no batente e a observo. Procuro o hematoma, mas não está lá. Cicatrizado ou escondido. Não sei dizer. A pele do meu quadril está roxa — sangue que não tem por onde sair, acumulando-se em formas e sombras que lembram uma flor exótica. As mesmas flores que cobrem os corpos das outras meninas. As mesmas flores que rodeavam os punhos da minha mãe quando meu pai a segurava com muita força. Também tinha essas flores nos meus primeiros meses de bordel, quando não havia limite no número de homens que se deitavam na minha cama. Antes de o embaixador chegar e me resgatar de tudo aquilo. Pelo menos era o que eu achava. Foi sem querer, digo a mim mesma. Não foi por maldade. Meu quadril lateja a cada batida do coração, lembrando que essas eram as palavras que minha mãe dizia toda manhã seguinte. Ela sequer olhava para os curativos de Jin Ling ou para seus membros surrados. Debruçava-se sobre o fogão, esperando a água chiar como um dragão preso no bule. — Não foi por maldade. Ele já pediu desculpas. Mas os hematomas continuavam aparecendo — amarelos, verdes, rosa, roxos, azuis —, um jardim inteiro de marcas que anulavam as palavras do meu pai. — Por que mamãe não vai embora? — Jin Ling me perguntou certa noite enquanto eu limpava um rasgo terrível sobre seu olho esquerdo. — A gente podia começar de novo, em outra fazenda. Ou mudar para a cidade. Minha irmã falava como se fosse fácil: ir embora. Como se a gente pudesse simplesmente encher o carro de boi e partir. E eu nunca conseguia encontrar um jeito de explicar para ela o motivo por que nossa mãe ficava. Era uma coisa que eu simplesmente sabia dentro do meu coração. Meu pai era o familiar, o conhecido. Mesmo que seu hálito ardesse em álcool toda noite ou que seus punhos espancassem nossa pele. Sabíamos o que estava por vir. Ela nunca o deixaria. Por nada neste mundo. Nem mesmo por nós. Minha mãe não era uma pessoa feita para riscos e fugas. Não como Jin Ling. Não como Sing. E eu… eu não sei que tipo de pessoa sou. As meninas vêm, uma a uma. Aglomerando-se à minha porta como pardais disputando migalhas. Sei que não faz tanto tempo assim que nos vimos, mas os rostos poderiam pertencer a estranhas. Mesmo a pequena Wen Kei, a mais jovem, tem um peso nos olhos que não estava lá antes. — Pensei que não fossem soltar a gente tão cedo — Nuo diz, quando todas estão no quarto. — Queria saber por que soltaram. Eu também queria saber o que o embaixador disse para influenciar o mestre a destrancar

não só uma, mas todas as portas. O que quer que tenha sido, funcionou. Não tenho dúvidas de que ele poderia me tirar deste bordel para sempre. Meus pensamentos ainda estão rodando e rodando velozes como um tufão furioso, tão alto que mal ouço as outras meninas falando do tempo que passavam atrás das portas. — E então ele tentou me fazer… Uma piscina. Um jardim. Comida chique. O paraíso de mão beijada. — … precisei gritar para chamar a Mama-san. Sim. Por que não disse sim? Qualquer uma delas teria dito. Num piscar de olhos. Sim. Sim. Sim. Num piscar de olhos. — … faz dias que não durmo… Fico ouvindo os gritos… Sing. Será que ela teria dito sim? Não sei dizer. É cheia de ardor, cheia de riscos. Seu coração é como minha concha. Está do outro lado da janela. Livre de grades. Fora do alcance. — Wen Kei? — ergo a voz. As outras meninas me olham. — Você já viu um náutilo? — Ainda me enrolo com a palavra, insegura. Os olhos da menina brilham. Uma faísca que dança. — Ah, sim. Meu pai pegava alguns de vez em quando. Ele vendia conchas para turistas no mercado. Se abrir a concha, dá para ver como o bichinho cresceu. Sempre que ele fica grande demais para caber no espaço antigo, ele sai e fecha a câmara anterior. Várias e várias vezes. Até ficar todo enroladinho. A última imagem faz Nuo suspirar. — Como uma samambaia? Minha avó cultivava samambaias no jardim. E rabanetes, cenouras e… — A gente não devia falar de casa — interrompe Yin Yu. Sua voz soa ansiosa e perturbada. Mais ardente que o normal. Noto a mancha de vinho em seu vestido de trabalho. Ainda úmida e escura, como uma ferida. — A gente só se machuca fazendo isso. Não consegue nada de bom. Foi isso que fez Sing se meter em encrenca… falar da casa dela. Subiu à cabeça. Não. Não subiu à cabeça de Sing. Sabotou seu coração, alimentou-o até que ele crescesse, crescesse e crescesse. Até ela ser obrigada a largar tudo, buscar uma vida maior, melhor. Queria saber se o menino sabe o que tem dentro do náutilo. Se aqueles olhos límpidos como a lua conseguem ver como minha concha está ficando apertada. Como em breve vai ser mais claustrofóbica do que sou capaz de suportar. Não é um simples sim ou não. Não é nem mesmo uma questão de fugir. É uma questão do que eu quero mais. O apartamento do embaixador ou o que quer que esteja do outro lado das grades dessa janela. O conhecido ou o risco. Não sou como minha irmã. Nunca fui. Jin Ling sempre correu mais rápido, resistiu com mais força. Quando ela estava perto, eu não precisava me esforçar. Mas também não quero ser igual à minha mãe. Acordar todas as manhãs e ver o sol brilhar sobre novos machucados, especulando, nas câmaras secretas do coração, se há algo além. Depois dos campos de arroz e das montanhas. Essa é minha corrida. Meu risco. Jin Ling não está aqui para correr no meu lugar.

Talvez eu consiga correr mais rápido do que imagino.

Não sei por que pensei que seria fácil descobrir os nomes depois que conseguisse sair do quarto. Como se pudesse simplesmente chegar perto dos capangas e apertar suas mãos. A única maneira de descobrir os nomes, de andar livremente pelo bordel sem levantar suspeitas, é pedir um trabalho para o mestre. Um trabalho que me deixe o mais perto possível das reuniões secretas da Irmandade. Um trabalho servindo vinho de ameixa e acendendo cachimbos. O trabalho de Yin Yu. Sinto sapos saltitando no estômago quando chego perto da fumaça bruxuleante do covil. Já pensei em como pedir de maneira que soe inocente. Mas o mestre é mais esperto do que sugerem suas pálpebras caídas. De que outro jeito uma pessoa se tornaria a lei num lugar sem lei? O salão está quase vazio. Não tem nenhum cliente esparramado nos sofás, nenhum cachimbo longo cuspindo fumaça sobre rostos vidrados. Nuo não está no canto; o silêncio de sua cítara é ensurdecedor. Ouço todos os meus passos, rangendo e deslizando contra a madeira desgastada. O mestre está sentado sozinho. Suas pernas estão cruzadas, dobradas com uma flexibilidade surpreendente para sua idade. Há um cachimbo em suas mãos, mas está abaixado. — Mama-san falou que você pediu para me ver. Normalmente não me daria ao trabalho, mas minha última discussão com seu cliente despertou minha curiosidade. Ele vira a cabeça com a última palavra. Só consigo olhar, só consigo ver aquele gancho roxo medonho da cicatriz. Baixo os olhos. Todos os meus dez dedos dos pés estão enrolados sob a seda das sandálias, como vermes, sacrificados como isca de peixes. Ele sabe. É esperto. Um alerta apita; a Mei Yee cautelosa e obediente está brigando, esforçando-se ao máximo para me impedir. Não pede. Volta. Fica quieta. Espera. Diz que sim. Umedeço os lábios, junto todos os fragmentos da minha coragem. São afiados, giram, acabam de nascer, mas conseguem fazer as palavras saírem. — Estava pensando se o senhor me deixaria assumir algum serviço. Queria aprender a servir vinho. — Quer que eu te dê uma tarefa? — Seus olhos se estreitam, como um gato semiadormecido, mas ainda atento. Meu pescoço parece o de uma galinha, estendido, tenso, esperando a lâmina. Eu me pergunto, não pela primeira vez, por que estou aqui. Por que não disse sim. Encaro os aros dourados e gordos do seu colar. — As outras meninas têm tarefas. Sinto como se não estivesse fazendo nada para merecer minha estadia. Pela posição da sua boca, toda enrugada e afundada na face, espero um não. Em vez disso, ele assente devagar. — Muito bem. Você veio na hora certa: Yin Yu fez a besteira de derrubar vinho num cliente hoje de manhã. Pede pra ela mostrar as bandejas e como acender os cachimbos. Você

pode tomar o lugar dela à noite. Ele diz isso e me lembro do ardor na voz de Yin Yu. A mancha em seu vestido. Fico surpresa com minha sorte, de pedir no mesmo dia em que falhou em seu serviço impecável. Mais uma vez, sou eu quem tem sorte. Saio com uma longa e lenta reverência, com a esperança, quase impossível, de que a sorte continue sorrindo para mim.

11 DIAS

DAI

ENQUANTO ESPERO PERTO DO CANHÃO ENFERRUJADO, meu corpo todo pula, com os nervos

descontrolados, à flor da pele. Para cima e para baixo. Para cima e para baixo. Queria que o cretino do Tsang viesse logo. Parece que a gente nunca chega ao mesmo tempo. Um de nós está sempre atrasado. Primeiro vejo seu cigarro. Balançando na escuridão da quase alvorada de Seng Ngoi feito um vaga-lume dos infernos. Na primeira vez que vi Tsang, na noite em que tracei as marcas na parede do apartamento, ele estava apertando o maço cancerígeno na mão. Tirando o mais perfeito cigarro, acendendo-o. Isso foi muitas semanas, muitas linhas carvão, muitos encontros clandestinos atrás. Aposto que daria para encher caixas e caixas com as bitucas que deixou no Velho Portão Sul. Paro de pular, seguro a respiração quando ele chega perto. Fumar é um dos poucos vícios que nunca adotei. Talvez porque meu pai me obrigava a fumar um maço inteiro quando me pegava acendendo um cigarro no jardim de pedras. Quando acabava, eu era o menino de oito anos mais acabado e arrependido de Seng Ngoi. Isso me faz pensar em como seria minha vida se ele tivesse usado o mesmo método para as outras coisas. — O que você tem pra mim? — Meu supervisor ainda nem parou de andar. — Longwai não está cedendo. Continua me mantendo no salão. O menino ainda está fazendo os corres pra mim… — Perco a voz, perguntando-me se falei a verdade. Jin foi embora, deixando um monte de pelo de gato no meu apartamento para piorar minha alergia. Não que seja uma surpresa. Ele é um dos meninos mais espertos que já conheci. Deve ter sacado o que eu estava tramando e dado o fora. Queria que ele tivesse pensado em roubar meu kit de primeiros socorros. Aquela ferida dele vai precisar de outra limpeza. — E a puta? Puta… Tsang está falando da menina da janela. Levo um tempo para entender. Para ligar essa palavra brutal e agressiva à menina que não sai da minha cabeça nos últimos dias. Fico lembrando o olhar que banhou seu rosto quando mostrei a concha. A alegria e o ardor. Tão diluídos. Ela olhou para o náutilo como se fosse a luz do sol num pote. A coisa mais bonita e pura do universo. Olhou para mim do mesmo jeito. Como se eu fosse alguém digno de ser visto. Um herói. Foi um olhar que me deu vontade de me empertigar, assumir esse papel. Pena que ela estava errada. Pena para nós dois.

— Estou fazendo o teste. — Soltei a verdade de uma vez: não tem nenhum herói aqui. — Ela está descobrindo os nomes. — Ainda? — resmunga Tsang. — Dei quatro dias pra ela. — Quatro dias! — Ele puxa um trago brusco. Seu cigarro acende, iluminando seu rosto. — Que generoso! — Era o mínimo necessário. — Quatro linhas na parede. É muita coisa para se dar, mas o que estou pedindo vale muito mais. — Você tem que agir mais rápido. Se livra do moleque. É inútil agora, e a última coisa de que preciso é de você destripado por um corre de drogas que deu errado. Foca na puta. Se livra do moleque. Foca na puta. Para cima e para baixo. Para cima e para baixo. Talvez, se eu pular muito, consiga me livrar dessas palavras. Pulo mais rápido. Para cima, para baixo. Para cima, para baixo. — Está me ouvindo? — O cigarro de Tsang está acabando, o que significa que ele está mais rabugento do que de costume. Seus olhos brilham sobre as últimas cinzas enquanto ele me vê pular. Para cima, para baixo. — Preciso dos dois. — Plano A e plano B. — O menino é meu único jeito de entrar no bordel. Vou precisar entrar quando a menina conseguir. — Por que não deixa a puta fazer tudo? Meus pés pousam no chão. Ficam parados. Olho bem nos olhos de Tsang. Na luz laranja que vai se apagando com uma grinalda de fumaça. Quase morta. — Para de usar essa palavra — digo. Seu rosto se contorce num sorriso sarcástico. Ele começa a rir. — Parece até que você está apaixonado. Está aí um par perfeito: uma prostituta e um… — Mais alguma coisa? — interrompo meu supervisor. O cigarro se apaga com a deixa. — No próximo encontro, quero resultados. — Tsang tira dos lábios o cadáver soltando fumaça. Joga numa poça suja, onde a bituca chia num lamento fúnebre. — Não perde o foco, Sun Dai Shing. Seu tempo está acabando.

MEI YEE

AS MÃOS DE YIN YU SEGURAVAM TUDO TENSAS quando ela me mostrou o armário envernizado

da prataria. Os nós de seus dedos estavam tão brancos e comprimidos que fiquei com medo de que a garrafa se estilhaçasse na sua mão. Servir vinho e acender cachimbos são tarefas simples, mas Yin Yu as tratava como se fossem a coisa mais sagrada no mundo. Ela me deu um vestido cintilante vermelho-azevinho, e instruções infindáveis jorravam de sua boca:

Vai quando eles chamarem. Fica olhando os copos; mantém todos cheios. Faz uma reverência antes e depois de servir. Não olha nos olhos deles.

A lista continuava infinitamente, numa voz que não era nem fraca nem forte, mas tensa, como uma corda apertada. É claro que ela estava chateada. Essa era sua função desde o primeiro dia, logo que fomos arrancadas do fundo da van dos Ceifadores, trêmulas e com os olhos turvos. Foi o primeiro passo de Yin Yu para virar uma mama-san. E ali estava eu, tirando isso dela sem uma explicação. — Eu não queria isso. — Foi o mais próximo que consegui chegar de uma desculpa, da verdade. Yin Yu deu um sorriso tão fechado quanto suas palavras. Ela abaixou os olhos para seus dedos muito apertados. — Não foi você quem derramou uma garrafa inteira no sr. Smith. Para ser sincera, eu estava com medo de que acontecesse coisa pior. Parece que tive sorte. Eu queria contar para ela. Queria contar para todas sobre o menino da janela, a concha e a promessa de um mundo lá fora. Mas pensei em Sing e isso bastou para silenciar todas as palavras que estava tentada a dizer. Então, peguei a bandeja e comecei a servir. Na primeira noite, só clientes ocuparam os sofás do salão. Nenhum membro da Irmandade estava à vista. Agora, na segunda, mordo a parte interna dos lábios, tentando não demonstrar medo. Amanhã é o quarto dia, o que significa que o menino vai voltar para minha janela. Se a Irmandade não se encontrar hoje… se eu não tiver os nomes… Não sei por que essa possibilidade me faz passar tão mal. Ainda há um apartamento em Seng Ngoi esperando por mim. Uma piscina em que eu conseguiria nadar sem me afogar. Entro no salão e o primeiro rosto que vejo é o do mestre. Olho de sofá para sofá e vejo que todos os homens estão usando preto e escarlate. Só três deles estão com cachimbo. Os olhos de todos estão cravados na presença mais dominante da sala, aquela que todos tememos.

Fico no canto, com o ombro encostado no armário de bebidas. Do outro lado do salão está Nuo, usando o mesmo vestido escarlate decotado, dedilhando as cordas de metal. As notas que ela toca são tão suaves que nem tenho certeza se as ouço. Mas meus ouvidos estão apontados para outros lugares, enquanto os homens fazem seu relatório. Tem dez deles no círculo; alguns mais velhos, com o cabelo grisalho e as sobrancelhas franzidas. O único que reconheço é Fung. Está sentado no outro canto, com uma expressão quase tão feroz quanto a do dragão tatuado em seu rosto. Tento ouvir os nomes, mas eles não são tão íntimos uns dos outros. Em vez de nomes, trocam títulos. Fung é chamado de Mastro Vermelho. O homem com os incisivos de ouro e as quatro marcas fundas de unha no rosto é o Mestre do Incenso. Outro membro, de cabelo cor de neve, é chamado de Leque Branco. Guardo os títulos no fundo do peito e tento não entrar em pânico. Por que entrar em pânico com um jardim no terraço? Será que o embaixador vai continuar a me trazer flores se eu tiver todo um jardim para cheirar? A reunião é longa. Cada um dos homens dá um relatório cheio de números, lucros, perdas e mortes. O mestre ouve, com a boca cerrada como pedra enquanto rabisca anotações num livro de pergaminho e couro vermelho. Continuo ouvindo, minhas orelhas ficam tão tensas em busca de nomes que sinto dor. No fim, saio com quatro: Fung, Leung, Nam, Chun Kit. Cinco se contar Longwai. Mas não conta. O nome dele está em toda parte. Fung. Leung. Nam. Chun Kit. Guardo os nomes na ponta da língua. Enunciando-os em silêncio para mantê-los frescos na cabeça. De novo e de novo e de novo. Até se tornarem um único nome, sem pausa: Fung-leung-nam-chun-kit. Recito várias e várias vezes, uma oração silenciosa, enquanto lavo os copos e guardo os cachimbos finos.

10 DIAS

JIN LING

DEMOREI DOIS DIAS PARA ACHAR UMA LONA NOVA. Dois dias vasculhando pilhas de lixo

repulsivo. No fim, precisei ir até a loja do sr. Lam. Usei um pouco dinheiro do envelope laranja. E, agora que tenho uma lona, não tenho lugar para montá-la. Meus lugares favoritos estão ocupados. Alguns por marginais mais velhos. Homens e mulheres que se amontoam nos cantos mais quentes com jornais despedaçados e casacos mofados comidos por traças. Outros por grupos de órfãos esqueléticos. Observam-me passar com os olhos famintos e arregalados. Rosnam sem dentes. Ando rápido. De cabeça baixa, torcendo para que nenhum deles se lembre do meu rosto. Torcendo para que não repassem a informação para Kuen. Outros lugares, perto de torneiras d’água e bocas de lobo, são muito expostos. Preciso de um que seja fora do caminho. Escondido do bando de Kuen. Evitei o brutamontes por dois dias. Não foi uma tarefa fácil. Mesmo neste labirinto de esquinas e noite eterna. Ele está à caça: três vezes entrei numa loja ou travessa e vi seu bando passar. Eles se espalharam, vagando pelas ruas em pares. Vasculhando cada passarela duas vezes. Com o brilho de suas facas. Facas querendo sangue. Só preciso ficar um passo à frente dele. Então continuo andando. Buscando um lugar pouco visível. Seguro. Fico longe das ruas principais. Longe das avós que fofocam em volta de mesas de pedra-sabão, jogando baralho e vendo a sorte na mão uma da outra. Longe das mães ajoelhadas perto das estações de água, esfregando as manchas de molho das camisas dos familiares. Longe dos operários que ficam em pé horas a fio, vertendo plástico líquido em moldes. Mas há olhos em todas as partes. Mesmo nas esquinas mais solitárias. Um velho arrasta os pés perto de mim, pegando sucata para reciclagem como um pardal escolhe palha para o ninho. Ele joga tudo no carrinho de mão com um estrondo que me faz tremer. Ando mais rápido. Viro a esquina. Rápido demais. Sem parar para ouvir outros passos. Vejo os meninos primeiro. Dois deles, andando devagar. Procurando pelas entradas e janelas trancadas das casas com olhos e pontas de faca. Meus pés ainda estão acelerados, correm quando eles me veem. O menino mais próximo para. Suas narinas se retorcem, depois abrem. — É ele! A sobrevivente toma conta. Ela vira o quadril no meio do passo. As luzes se embaçam. O cascalho sibila sob os pés. Para a frente, para a frente, sem parar. Estou correndo antes mesmo de ver aonde a rua vai me levar.

Não tem nenhum buraco ou entrada de beco por onde eu possa desaparecer. A esquina que virei ficou para trás. Este pedaço é ocupado por lojas e escadarias fechadas. A porta de um dos prédios se abre. A grade branca quase me acerta na cara. Sai da rua! A sobrevivente não hesita. Ela pula. Para dentro. Passando pelo velho inquilino espantado, com a chave na mão. Subindo, subindo, subindo os degraus. O prédio é igual ao de Dai. Com degraus que sobem serpenteando como um clipe de papel infinito. O barulho viaja longe no lugar vazio. Ouço a respiração pesada e os passos atrapalhados dos dois meninos de Kuen na escada. Pego minha lona preciosa que não para de bater, abro-a bem e a deixo cair. Xingamentos e o som de plástico combalido me fazem subir mais, passando porta atrás de porta. Dez andares disso. E então chego ao fim. A última porta. Não tem grade. Não está nem fechada direito. Ela não resiste quando empurro, e saio para o céu aberto. Água. Em toda parte. Caindo do céu escuro. Rebentando feito sardas no meu rosto. Rufando as poças aos meus pés. A umidade entra nas minhas botas. Meus pés chapinham, escorregam pelos charcos que surgem, passando por um guarda-sol abandonado entre dois colchões destruídos. Ando todo o caminho até a beirada. O terraço do prédio é menor que o dos outros ao redor, uns quatro andares mais baixo. Só tem um parapeito, um vão onde a quarta parede não se funde com o prédio onde estou. É longe para pular. E nem sei direito para onde estaria pulando. Todas as janelas à minha frente são lisas e sem grades. A única saída é para baixo. Onde as gotas de chuva cintilam, turvam e morrem. Tragadas pelo despenhadeiro. Não é tudo preto. Varandas se projetam na lateral, com lajes de estanho inclinadas penduradas como fungos na parede oposta. Mas para chegar até elas… É uma queda que faz meus pelos se arrepiarem. Atrás de mim, a porta da escadaria se abre com uma pancada. Os dois meninos saem na chuva. — Peguei você! — O primeiro menino me vê na beirada, anda mais devagar. Não chuta água com os pés. Sua lâmina está firme. — Kuen está ansioso para te ver, Jin! Lutar ou fugir. Tiro os olhos das facas deles. Volto para as lajes de metal molhadas e escorregadias. Para a queda. — Ele tem planos para você — o menino continua. Chega mais perto. — Não queria estar no seu lugar nem por todo o mingau da sra. Pak. — Não mesmo! — Seu parceiro ri com escárnio. Não posso pular. É muito alto. Muito molhado. E não posso lutar com os meninos. Não sem ser cortada ou morta. A sobrevivente volta para a beirada. Ela pula. Meu coração sobe, sobe, sobe pela garganta. Minhas mãos estão em garras, arranhando o ar tão vazio quanto minha barriga. A chuva ao meu redor cai sob as luzes das janelas, brilha feito estrelas. As gotas parecem paradas. Mas estamos caindo junto. Minhas botas acertam a laje primeiro. As solas da Cidade de Fora se seguram na umidade. Ficam firmes. Meus joelhos se dobram e minhas mãos se abrem, me equilibrando.

Consegui. Por alguns segundos fico parada numa posição de sapo. Em choque. Os xingamentos dos meus perseguidores descem com a chuva. Ergo os olhos e vejo que o primeiro menino guardou a faca. Mas não está indo embora. Está parado na beirada com a boca tensa, as pernas abertas. Ele vai vir atrás de mim. Eu me arrasto até a ponta da laje. Em toda a minha volta, tem varais e canos. Nenhum deles parece forte o bastante para me aguentar. Todas as varandas têm grades. Entre os dois prédios, há uma passarela de bambu e arame que os liga. Para chegar lá, precisaria de outro pulo. Dessa vez não hesito. O menino de Kuen está agachado, pronto para saltar. Pulamos na mesma hora. Pássaros desesperados, asas cortadas, pesos mortos. Eu pouso. A ponte balança. Inclina-se. Seguro-me nos corrimãos de arame, fico em pé, corro para o próximo corredor. As lâmpadas são velhas, tremulam como a ponte. Acendem e apagam. Não sei direito se o menino de Kuen deu o pulo. Se ainda está atrás de mim. Corro como se estivesse. Passo voando por portas iguais a jaulas. Sacos de lixo largados. Paredes marcadas por mofo e tinta úmida. Sob a luz fraca, tudo parece preto e branco. Como um pesadelo. O corredor termina em outra escadaria. Outra escolha. Para cima ou para baixo? Um grito na outra ponta do corredor interrompe meu questionamento. O menino de Kuen conseguiu. Sua silhueta cresce. Move-se rápido demais sob a luz bruxuleante. Como um monstro das sombras. Decido subir. Minhas coxas estão doendo. Tensas demais. Com cãibras ardentes e lancinantes. Meus pulmões parecem cheios e vazios ao mesmo tempo. Sedentos por ar, incapazes de segurar a respiração. Luto contra tudo isso ao subir os degraus. Até o segundo terraço. É o andar mais alto. Onde tudo é aberto, amplo e molhado. Não sei para onde estou indo, mas meus pés disparam. Atravesso varais com camisas e calças desbotadas gotejando. Passo por fileiras de vasos de plantas, cujos caules estão vergados pela chuva. Atravesso florestas de antenas. Passo por um par de rouxinóis deploráveis, deixados na gaiola abobadada por um dono esquecido. Tão ensopados que até seu canto soa pesado, encharcado. Um pé diante do outro. Em frente, em frente, em frente. É o que a sobrevivente exige. É o que dou a ela. Mas então vejo algo que me faz andar mais devagar. Parar. Dai. Ele está curvado na beirada. Onde sentamos tantas manhãs atrás. Com bolinhos recheados e luz do sol. Contempla, contempla. Como fazia naquela manhã. Olha os arranha- céus, gordos e altos como um bambuzal. As janelas cintilam através da chuva que cai. Deve ter vindo ver o sol nascer. Está sem sorte. O sol não vai nascer hoje. Não com a tempestade. Ele pode estar sem sorte, mas a minha acabou de mudar. O lacaio de Kuen não vai vir atrás de mim quando encontrá-lo. Aquele que atirou poucos dias atrás. Tenho razão. Meu perseguidor atravessa correndo uma série de calças e casacos molhados. Para. Seus olhos se estreitam, apontam para as costas ainda viradas de Dai. Ficamos de frente

um para o outro — tensos, ofegantes, encarando —, à espera. O menino de Kuen anda para trás. Devagar, devagar. Para trás das roupas. Some. Dai me salvou de novo. Sem saber. Solto uma respiração funda. Meus joelhos tremem. — Jin? — Viro e o encontro olhando para mim. Seu capuz está erguido. Tudo o que consigo ver é seu rosto, todas as dezenas de gotas descendo pela pele. Existe alguma coisa atrás de sua expressão. Algum sentimento que não foi varrido pela água. Tristeza, raiva, avidez. Não consigo identificar, e isso me incomoda. Não chego perto da beirada. Tem muita lama e água aqui em cima. Um escorregão me jogaria lá para baixo. As pernas de Dai estão penduradas como da última vez, balançando sobre as luzes da Cidade de Fora. Impetuosas e inconsequentes. Como se quisessem cair. — Por onde você andou? — Suas sobrancelhas se franzem. — Estava ficando preocupado. Estava? Olho para seu rosto de novo. Há muitas emoções ali. Todas brutas. Não consigo saber se está mentindo ou não. Meus instintos estão ficando fracos. Os muitos segredos de Dai ainda enchem minha cabeça. Tão intensos e turvos quanto a chuva à nossa volta. Já que estou aqui, posso pelo menos tentar perguntar a verdade. A verdade sobre ele. Dai vira o rosto. Volta-se para a chuva que cai. Respiro fundo. Fundo demais. Meus pulmões tremem. Como se estivesse me afogando. — Vi você. Os ombros dele ficam duros e percebo que estou tão longe dele por outro motivo. Quero espaço para correr caso as coisas deem errado. Se eu descobrir algum segredo com o qual Dai não possa me deixar viver. Se ele realmente for tão perigoso quanto acho que é. — Vi você — repito — com aquele homem. O que te deu dinheiro algumas noites atrás. Por muito tempo, Dai não se mexe. Gotas caem no seu moletom encharcado. Rufos de chumbo. Ele é o ídolo de um templo, curvado e inabalável. Começo a me perguntar se o vento não levou minhas palavras até ele. Mas então o garoto se vira. A expressão em seu rosto atingido pela chuva deixa claro que ouviu tudo o que disse. — Quem é ele? — Minhas botas se fixam no terraço molhado, muito molhado. Prontas para correr de novo. Minha faca está enfiada na túnica, o cabo segurado pela faixa. — Por que estava te dando dinheiro? Dai só fica olhando, com os lábios cerrados. Têm um estranho tom de azul. Ele está aqui na chuva gelada há tempo demais. — Por que você não pode ir embora? — Tento mais uma vez. — Se é tão perigoso a Irmandade saber quem você é, por que fica aqui? Ele se levanta, mais rápido do que deveria numa beirada tão íngreme. Depois vem na minha direção, com os lábios tensos. A cada passo que ele dá, dou um para trás. — Você é uma pessoa importante, não é? Por que outro motivo precisaria se esconder da Irmandade? Finge ser um marginal para que eles não façam perguntas. Para poder se esconder debaixo do nariz deles.

Dai enfia as mãos nos bolsos. Sob a sombra do capuz, vejo que seus lábios não estão mais finos como uma navalha. Estão enrugados e curvos. Desfigurando seu rosto. Fico à espera de que se abram. De que falem que estou errado. Mas ele fica em silêncio e continua andando. Passa por mim e se afasta. Seus pés espirram água enquanto vão em direção à escada. Eu não quero, mas corro atrás dele. Minha mão vai em direção à faca. Segura. Pega a ponta do moletom encharcado. — Dai, eu preciso saber.… — Não — ele interrompe —, não precisa. Está ao mesmo tempo certo e muito, muito errado. Não preciso saber. Mas preciso. Preciso de uma rocha, de uma âncora. Por mais que diga a mim mesma que não, preciso dessa confiança. Porque estou cansada. Cansada de correr. Cansada de ficar olhando por cima do ombro. Cansada de lutar. De ir sobrevivendo. De ficar sozinha. Cansada de gangues, corres de drogas e buscas em vão. Quero muito acreditar que Dai é uma boa pessoa. Que merece minha confiança. Aconteça o que acontecer. Quero me sentir segura. Dai tenta continuar andando, mas eu não solto. Minhas botas escorregam. Ele me arrasta por um metro inteiro até parar e olhar por cima do ombro. — Esquece, Jin. — Ele solta o moletom da minha mão. Seu braço voa para trás, batendo em um vaso de terracota, que tomba da prateleira e mergulha no chão entre terra, cacos e folhas murchas. — É melhor que você não saiba. — Por quê? — O ar ao meu redor treme. Percebo que estou gritando. Meu berro rasga a cortina de gotas, tenso demais, agudo demais. — Por que é melhor? Mas, se Dai nota como meu grito é fino, como parece de menina, não demonstra. Ele não demonstra nada. Sua expressão está imóvel. Ele flutua como uma coisa afogada. — O que você viu… não muda nada do que a gente está fazendo no bordel do Longwai. Confio que vai ficar de bico fechado. Confio. Essa palavra tem um gosto amargo na minha língua, ruim como carne podre. Ele a diz tão rápido, tão facilmente. Como se fosse uma coisa que aperfeiçoou muito tempo atrás. Minha cabeça está a mil. Mesmo se Dai se recusar a me deixar entrar, ainda posso usar o que vi. — Se for para ficar quieto e continuar fazendo os corres, quero mais dinheiro. — Mais dinheiro? — Sim. Preciso de dinheiro suficiente pra poder pagar uma das meninas do Longwai. — Olho para trás dele quando falo isso. Meus olhos focam no vaso quebrado. A terra derramada parece muito com sangue. Faz um redemoinho escuro ao se esparramar na água. Seus olhos se estreitam de um jeito esquisito, franzido. — Você quer ficar com uma das meninas dele? — Sim. — Tento deixar a voz ainda mais gutural. Pedregosa. — Por quê? — Você tem seus negócios, eu tenho os meus. Se não quiser que eu conte para Longwai,

então me dá o dinheiro. — Certo. Vou te dar metade da minha parte. Mas não espere que eu vá junto. — Suas palavras são cheias de repulsa. Percebo como esse pedido soa horrível. Parte de mim quer contar para Dai o que estou procurando. Por que vivo neste labirinto fétido e pavoroso. Mas os segredos continuam firmes entre nós. Os meus seguros comigo, os dele seguros com ele. Dai segue rumo à escada. Não tento impedir. E tudo muda. As gotas no meu rosto ficam mais duras. Doem em vez de só incomodar. O barulho da tempestade cresce e se expande. Tem branco. Branco em toda parte. Granizo. Arranha e machuca. Sacode o terraço. Os rouxinóis estão aos berros agora. As plantas nos vasos se rasgam. As roupas caem dos varais como folhas no outono. Mal dá para ver a silhueta curva de Dai descendo a escada. O ar entre nós é turvo e enevoado. Como uma tela de TV estragada. Mas vejo quando ele para, logo antes de desaparecer completamente. Grita mais alto do que as pancadas de gelo:

— Tem um corre daqui a dois dias! Vejo você lá! Então ele desaparece. Eu devia ir também. Antes que o lacaio de Kuen decida voltar com mais facas. O granizo bate com uma violência nova. Branco, cortante e agressivo. Cai tão denso que não dá para ver as luzes da Cidade de Fora. Mal dá para ver a escada de Dai. Por um curto segundo, não estou numa cidade. Estou sozinha. De novo e sempre. O ar ao meu redor bate cruel e livre. Dai. Segurança. Não é isso que importa. Não foi por isso que vim para cá. Não foi por isso que sobrevivi. Vou atravessar esta tempestade. Vou encontrar minha irmã.

MEI YEE

O MENINO DA JANELA ESTÁ CANSADO. Assim que apareceu atrás das grades e do vidro, apaguei as lanternas para ver seu rosto com mais clareza. As bochechas e a ponta do nariz brilhavam, um misto de frio e umidade. Os olhos escuros cintilavam com a água; a pele embaixo deles estava mais escura do que o resto. Mas vê-lo ainda me fascina, faz com que eu sinta comichões na pele. Como se estivesse em pânico, só que mais forte. Supera tudo: a promessa do embaixador, o hematoma no quadril, a gargalhada dos membros da Irmandade com dentes de ouro. Só existe o menino e sua concha. Eu e meu teto pintado. Meu vaso frágil de flores. — Consegui — digo, embora não estivesse planejando contar. Durante horas fiquei ponderando os nomes. O risco. Não parece mais uma coisa tão pequena. Ele respira com dificuldade. Sua respiração faz nuvens em toda parte, lembra-me da neblina que se estendia sobre os campos de arroz na hora mais mágica da alvorada. Por um segundo, a neblina é tão densa que não consigo vê-lo. Acumula-se na janela, desce rolando feito lágrimas. — Eu precisava de uma notícia boa esta manhã — ele diz, atrás das listras de água e névoa da janela. — Estou cansado. — Tem visto o nascer do sol de mais? — De menos — ele responde. Minha mão repousa no ferro da janela. Um frio penetra pelo vidro, enrolando-se por entre as grades. O inverno entra pelas frestas como formigas: devagar, constante e corrosivo. O menino também sente. Ele treme sem parar em seu agasalho preto de zíper. Está encharcado, como os trapos que eu usava para limpar os cortes de Jin Ling. Não é nenhuma surpresa estar batendo os dentes. Queria poder estender o braço através da janela. Não só para pegar minha concha ou sentir a chuva. Queria poder tocá-lo, dar a ele um pouco do calor que abafa meu quarto e me faz suar. Mais um desejo impossível. Mas, mesmo sem poder dar meu calor para ele, posso dar os nomes. Tentar mais uma vez colocar um sorriso em seu rosto. Se ele é tão bonito franzindo a testa, mal posso imaginar como fica com um sorriso verdadeiro, sincero. — Tinha dez homens ontem à noite. E o mest… Longwai. — Dizer o nome dele parece o pior dos pecados, mas falo e o menino não treme. — Eles nem sempre se chamam pelo nome. Só consegui descobrir quatro deles. O menino não sorri, tampouco franze a testa. Fica olhando para meus dedos, que seguram a

grade da janela, como se soubesse o quanto eu queria estender o braço. — Quais? — Tem o Fung. É o que tem o dragão no rosto. Coleta os impostos para Longwai todo mês. E é o trabalho dele… cuidar daqueles que não pagam. Seu codinome é Mastro Vermelho. O menino assente. — Quem mais? — Leung. Cuida de vários corres de drogas. Tem um homem com dentes de ouro chamado Nam. Não sei o que ele faz. O codinome é Mestre do Incenso. — O desconforto no estômago por causa da fumaça doce de ópio que senti há muitas horas desabrocha. Não preciso fazer isso. Posso virar as costas. Fingir que nada aconteceu. Que nunca nem sonhei ver minha irmã de novo. Ou conhecer o mar. Posso sentar, esperar e dizer sim para o embaixador Osamu. Esses pensamentos me fazem recuar. Meu quadril lateja de dor. Lembro o aperto bruto do embaixador. — Fung. Leung. Nam. — O menino conta os nomes. Três dedos saem da sua manga. — Quem é o quarto? Sinto o ar parado no corpo. Fico olhando para os dedos dele, cortando o ar frio como antenas. Estão manchados de terra, os nós feridos e as unhas roídas, em carne viva. Penso na maneira como seguraram minha concha, com tanto cuidado, como se ainda tivesse vida lá dentro, construindo câmara atrás de câmara. Não são dedos que machucam. — Chun Kit — digo, sem ar. — O último nome é Chun Kit. — Ótimo — diz o menino. — Você está certa. — Você… sabia? — Uma sensação cresce na minha garganta, como um balão prestes a estourar. — Sim — ele responde. O cabelo tão escuro quanto a asa de um corvo cai como penas nas suas bochechas, suaviza os ângulos de seu rosto. — Eu estava testando você. Para ver se você podia mesmo conseguir informações. Se saiu bem. — Então os outros seis nomes… você não precisa deles? — Bom, sim. Preciso. De certo modo. — O menino morde os lábios, algo que deve fazer com frequência, porque a pele ali está machucada. — Tinha um livro de registros? — Registros? — A palavra se enrola, gorda e desajeitada, na minha língua. — É, um caderno grande — explica o menino. — Usado para marcar nomes e números. Negócios oficiais da Irmandade. Relembro a reunião, o caderno escarlate no colo do traficante. Aquele cheio de rabiscos em tinta preta. — O m… Longwai tinha um livro. Estava escrevendo nele. — Dava para ver o que estava anotando? — Sim. — Paro, sentindo o ardor da vergonha manchar minhas bochechas. — Mas eu… não sei ler. — Tudo bem — diz o menino, com carinho na voz. — O livro… onde Longwai guardou

depois da reunião? — Eu… — Perco a voz enquanto relembro o fim da reunião. Os homens não ficaram muito tempo. A maioria saiu pelo corredor frontal. Alguns foram para os quartos das meninas. E Longwai… Faço um esforço, tentando lembrar por onde desapareceu depois do fim da reunião. Fiquei ocupada demais tentando firmar os quatro nomes na memória. — Não lembro. Ele deve ter ido para o escritório. — O escritório? — Fica no segundo andar. Acho. Nunca fui lá em cima — digo. — Você acha que consegue descobrir? Com certeza? Ficar escutando em busca de nomes é uma coisa. Mas mexer no escritório do mestre… O risco aumenta tanto que faz meu estômago balançar. Ele deve ter visto isso no meu rosto, porque não esperou minha resposta. — Olha, eu sei… Sei que o que estou pedindo é perigoso. Não pediria se tivesse escolha. Mas preciso disso. Preciso da sua ajuda. Preciso. Sua voz embarga na palavra com um desespero que não tem como ser falso. — Por quê? — Porque toda manhã acordo e quero outra vida. E esse é o único jeito de conseguir isso. É o único jeito de voltar pra casa. — Sua voz está ferida, como o nó de seus dedos. Faz minha mão apertar a grade com força. Casa. Essa palavra arde no meu peito, quente como carvão. Quero mergulhar no verde dos campos de arroz e das encostas das montanhas distantes. Quero encontrar minha irmã e segurá-la nos braços. Quero voltar a ver estrelas. — A gente… a gente não devia pensar em casa. Só faz doer. — Pelo olhar do menino, sei que me entende quando falo isso. A mesma agonia dourada, doce e amarga, enche seu peito de espinhos. — Mas eu penso mesmo assim. — Onde fica sua casa? — Cresci num lugar que tem muito arroz. E montanhas. E rebanhos de veados que pulam como peixes na neblina da manhã. — Paro, percebo que desviei do assunto. — Não posso voltar. Meu pai… ele só me venderia de novo. Os olhos do menino ficam afiados. Posso ver seu maxilar se mexendo. Para a frente e para trás num ranger de dentes mudo. — Seu pai fez isso com você? — Eu não era muito útil na fazenda. As colheitas de arroz não estavam vingando. A gente passava fome. — Odeio o fato de estar justificando meu pai. O homem que deixou mais cicatrizes e tampas de garrafa para trás do que seria capaz contar. A gente passava fome, mas o que ele tinha era sede. Aposto que há muito tempo gastou com bebida todas as moedas que meu corpo rendeu para ele. — Isso não é motivo… — O menino se detém. Sei que quer falar mais alguma coisa, algo enlaçado em fogo e chama. Mas se contém. Deixa queimar dentro dele. — Então para onde você vai? Quando sair? Não sei a resposta. Meu olhar volta a se fixar na concha. Perscruto as câmaras do meu coração em busca de alguma coisa, qualquer coisa, para dizer para ele. Mas tudo parece vazio.

Ele segue meu olhar até o náutilo. Encontra uma resposta para mim. — Sei que você quer ver o mar. Sua mão sobe e encosta no vidro, na direção da minha. Tão perto. Separadas por menos de dois centímetros. Fecho os olhos por um momento, finjo que o metal entrançado e frio não existe entre nós. — Também quero que você veja. Minhas pálpebras se abrem e ele ainda está ali. Os olhos infinitos e transbordantes, o vazio da noite abarrotado de estrelas. Se eu olhar muito de perto, posso me ver refletida neles. Uma minúscula constelação tremulante. Igual às que Jin Ling e eu traçávamos. — Vou tentar — murmuro. Preciso encontrar o livro de registros. Para ver o mar. Seu sorriso se abre até os olhos. A visão é radiante. É essa a palavra que Wen Kei sempre usa para descrever o sol sobre as águas. Me pergunto se é parecido com o sorriso do garoto. O menino vira a cabeça para o lado, como se uma voz distante tivesse acabado de chamar seu nome. Seu nome. Ainda não sei qual é. Não sei e me sinto mais próxima dele do que do cliente que entra embaixo das minhas cobertas noite sim, noite não. — Preciso ir. — Ele começa a se mover. — Volto daqui a alguns dias. — Espera. — Encosto a bochecha na grade. Desejo que pare. — Nem sei seu nome. Ele para no meio do passo, com o pé no ar sobre os cacos de uma garrafa de vinho de arroz. — Da próxima vez. Desde que você me fale o seu. Então vai embora. Tudo o que resta é o náutilo, as lágrimas na janela e meus dedos contra a grade, ainda se estendendo para tocá-lo.

JIN LING

O GRANIZO NÃO CHEGA AOS ANDARES MAIS BAIXOS. O calor entra pelas janelas e canos. Engole as pedrinhas antes que caiam. Quando chego ao fim da escada, sinto-me incrivelmente quente. Uma sensação que desaparece ao primeiro som de uma voz. — Estava demorando para descer, hein? Meus dedos congelam no último degrau da escada de mão. Fixam-se. Todos os músculos nas minhas costas ficam tensos. — Não tem nenhum grandão armado para proteger você agora, seu merdinha. Ele já foi embora faz tempo. — Ouço o ódio na voz de Kuen. Escorre de cada palavra. — Somos só nós. O lacaio de Kuen deve ter corrido até ele. Dito onde me encontrar. Viro e pulo na mesma hora. Caio agachada. Como uma aranha que salta da teia. Ele tem razão. Somos só nós na rua: Kuen e eu. Ainda tem sangue incrustado em seu rosto. Velho e escuro. Parece uma tatuagem de dragão. Enrolando-se e se retorcendo em volta do seu nariz roxo e inchado. Sua boca é a única parte do rosto que não está machucada. Continua rosnando. Os dentes brilham, amarelos. Mas então vejo o que está em seus braços e esqueço sua cara feia. Chma está lutando: uma nuvem de pelo cinza contorcida. Os cotovelos de Kuen o apertam com força. O gato rosna. O som é baixo. Em toda parte. Ouço e sinto uma pedra de gelo na barriga. — Solta meu gato. — Assim que digo essas palavras, desejo não ter dito. Elas tremulam pela rua. Expõem minha fraqueza para que todos ouçam. Kuen cospe uma palavra que soa como verme. Pega Chma pelo cangote. Meu gato uiva, arranha e se contorce, mas Kuen o segura à distância. Como um saco de lixo. Sua mão livre pega a faca na cintura. Uma ameaça clara, prateada. Começo a avançar, mas estou longe demais. Não consigo chegar a tempo. Sua faca é rápida. Rutilante. Os rugidos furiosos de Chma se transformam em algo muito parecido com um grito humano. Corta o ar, me acerta no peito. Não tenho chance. Sou pequena e estou sozinha. Deve ter dezenas de seguidores dele, com outras facas, escondidos no escuro. Mas não paro. Kuen devia estar esperando que eu fosse mais devagar ou virasse as costas. Ele não está preparado quando nossos corpos colidem. Meu peso cai sobre ele. Puxa nós dois para o chão duro. Embora eu tenha atacado, não estou preparada de verdade. Sou só fúria e impulso. Surrando, batendo os punhos. Meus socos não são páreos para a faca de Kuen. E, como a maioria dos meninos, ele é mais forte que eu.

Grunhe e rola para o lado. Caio de cima do seu peito. Meu ombro direito bate com força no concreto. Em algum lugar em meio ao caos, ouço o grito de Chma. Ainda está vivo. Vivo, mas em agonia. Então Kuen parte pra cima de mim — todo músculo e pele manchada de roxo. Pelo canto do olho, vejo o brilho de sua lâmina. Tingida de vermelho pelo sangue de Chma. Ela está descendo, cortando o ar entre nós. Em direção à minha garganta. Anos sob os punhos malucos do meu pai me ensinaram a desviar. A evitar os piores golpes. Eu me contorço. O metal traça uma linha fina de fogo no meu pescoço. A dor irrompe como água fervendo na pele. Meu punho esquerdo sobe voando. Pega o nariz inchado, mole e quebrado dele. Kuen grita, sai de cima de mim. Eu me arrasto para o mais longe possível. Vou tropeçando até o fim da rua. Outros meninos surgem. Fico esperando que estejam furiosos, mas não têm a ira que vi em Kuen. Meus olhos passam rápidos por eles, em busca de Bon. Não o vejo em parte alguma. O resto parece nervoso, quase assustado, enquanto observa o líder levantar com um salto. Ele vem na minha direção com um rugido bestial. O corte no meu pescoço lateja. Afasta a neblina de raiva da minha mente. Pulo para o lado. Em meio aos saltos e xingamentos de dor, encontro Chma. Ele está enroladinho perto de uma pilha de lixo. Seu lindo pelo macio está empapado de vermelho. Não consigo encontrar a ferida, mas, quando ele se mexe, eu vejo. Seu longo rabo, que batia de um lado para o outro, não está mais lá. Só um toco ensanguentado. Meu primeiro pensamento: “Ele vai viver”. Minha primeira ação: pegar a faca. Não tem como desviar de Kuen uma segunda vez. Ele está dominado pela fúria selvagem, transformou a dor em foco. Abre os braços. Não esqueço seus seguidores às minhas costas. Não há rota de fuga. Os músculo da minha panturrilha se dobram e saltam. Meu corpo é uma pena, leve e girando no ar. Tudo passa devagar. Vejo todos os detalhes da rua imunda. A lasca no dente de Kuen. Bitucas de cigarro molhadas entre seringas e cacos de garrafa. Baratas andando nas paredes mofadas. Chma caído como um cachecol descartado, com um brilho amarelo de dor nos olhos. Então tudo desaparece. Turvado pela queda. O peito de Kuen é forte, duro como uma tábua. Eu o acerto. Ele treme e recua um passo. Seu tornozelo prende em alguma coisa, o que o faz cair para trás. Sinto fortes pontadas de dor quando caímos: vidro, golpes e unhas. Minha faca se move violentamente, tentando acertar o que for possível. A lâmina dele também se agita. Sibila no ar. Canções de morte. Sinto uma explosão de calor no torso. Depois de tanto esforço para ficar quieta. Abro a boca e grito, grito, grito. Acabou. Por um momento é tudo em que consigo pensar. A faca de Kuen me acertou, serrando nervo e osso. Entalhando um caminho para meu sangue. A dor é terrível. Onipresente. Espero que a faca saia. Quero que meu oponente arranque o metal e me corte

de novo. Acabe logo com isso. Mas a nova dor não vem. A velha ferida fica: uma flor de chama e dor logo embaixo do meu braço. Minha visão palpita: turva, aguçada, turva. Se eu pudesse transformar meu grito em palavras, poderia implorar. Por que ele ainda não tirou a faca? Olho para o lado. Vejo o motivo. Kuen está caído perto de mim. A boca vermelho-púrpura, os olhos abertos. Estão rígidos, completamente imóveis. Minha faca está afundada no seu peito. Só o cabo à mostra. Minha visão embaça. As cores sangram uma na outra. Vermelho, cinza, preto. Elas se misturam. Girando e girando. Até restar apenas sombras. O preto domina tudo. E então tudo desaparece. Até mesmo a dor…

DAI

ENFIO AS MÃOS NOS BOLSOS ENQUANTO CAMINHO. Para longe da janela. Para longe dela. Meus dentes ainda batem por causa do tempo sentado no terraço. Quando tomei tanta chuva e frio e esperei pela queda que nunca veio. Meus pés podem estar em terra firme agora, mas ainda sinto que estou caindo. Ou talvez esteja sendo puxado. Os olhos da garota se prenderam a mim como Jin segurou meu agasalho. Ambos implorando pela verdade. Não sei por quanto tempo vou poder continuar mentindo para eles. A verdade quer sair. Ainda mais quando fico atrás da janela, falando sobre casa, ânsias e desejos. — Dai! Então eu não estava imaginando coisas. Quando estava curvado diante da janela, alguém realmente chamou meu nome, procurando por mim com uma única sílaba grasnada. — Dai! Dai! Encontro a voz na forma de um menino escondido perto de um carrinho de mão. Demoro alguns segundos para reconhecer seu rosto retorcido de passarinho. É um dos marginais mais novos, parte da gangue de Kuen. Bon, o que Jin quase esfaqueou. — Sim? O menino parece assustado. Quando dou um passo à frente, ele recua um pouco, com os ombros curvos. — Seu amigo, Jin. Ele está encrencado. De repente, não sinto mais tanto frio. Minha pele arde quente sob o tecido ensopado do agasalho. Minha mão desce até a forma pesada e plúmbea da arma. — Quê? — Kuen… ele vai me matar se souber que eu contei — o menino balbucia, agitado. Seu rosto esquelético está com uma estranha combinação de cores. Ele luta para encontrar as próximas palavras. — Mas eu… gosto do Jin. Não quero que ele morra. Alguma coisa no tom de voz do menino me faz perceber como ele é pequeno. Deveria estar no primário. Aprendendo a tabuada e os caracteres. Jogando bola com os amiguinhos no recreio. Dá para ver, só de olhar para ele, que é jovem demais. Bonzinho demais. Ainda não aprendeu as regras da sobrevivência: manter a cabeça baixa, deixar as pessoas morrerem. Por mais que goste delas. E, neste momento, sou grato por isso. — Eles estavam esperando Jin descer do terraço quando vim procurar você — Bon continua. — Kuen está puto. Muito puto.

Merda…

— Onde? — Não preciso que ele me convença. Não depois de ver o que o marginal fez

com Lee. — Me leva pra lá. Agora. Bon desaparece por uma passagem quase estreita demais para que meu corpo crescido passe. O suor se mistura às gotas da chuva no meu rosto enquanto corro atrás do menino. Ele corre e faz curvas mais rápido do que um rato nas ruas, parando finalmente na ponta de outro beco sem saída. Os olhos de Bon são dois grandes botões de ônix quando ele aponta, sem dizer nada. Dou um passo à frente, com a arma em punho, pronta. Vejo o bando aflito de cabeças, ouço as vozes confusas da gangue de Kuen reunida e tenho a terrível impressão de que

cheguei tarde demais. — Sai! — Meu grito é tão eficaz quanto a bala que disparei da última vez. As crianças se espalham, um movimento indistinto de trapos e facas em punho. Para longe, bem longe, desaparecendo nas sombras e pela saída do beco. O chão aos meus pés está no pior tom de vermelho. Poças que antes eram marrons de lama escureceram. Dezenas de fios de sangue rodeiam o concreto como raízes em busca de terra boa. Buscando-me como os pesadelos. Por um momento, esqueço de respirar. Jin parece menor do que nunca. Está deitado em posição fetal, pálido e acabado. Suas roupas estão tão empapadas de escarlate que não sei dizer de onde realmente está saindo o sangue. Ou se ele ainda respira. Não há dúvida de que Kuen está morto. Está de boca aberta como um peixe sobre o gelo, com as mãos ainda em direção à faca no peito. Sangue. Sangue em toda parte. Minhas botas patinam nele. Quase deixo a arma cair no mar espesso e vermelho aos meus pés quando me ajoelho e viro Jin de lado. As coisas ficam instáveis por um momento. Sombras tremulam como chamas no canto dos meus olhos. Lembranças da noite que mudou tudo voltam, refletem as imagens do agora. Fortes demais para engolir em seco. O sangue. O cheiro penetrante e frio de morte no ar. Minha mão segura a arma com força. Três corpos caídos aos meus pés. Três acusações de homicídio no meu nome. Três motivos por que não posso sair de Hak Nam. Mas isto é diferente. Isto é agora. E, desta vez, ele ainda está vivo. Minhas mãos voltam grudentas e carmim. Olho para Jin. Sangue demais. Demais. Como nos meus sonhos. Mesmo que nem todo seja dele. Ainda pode estar vivo, mas não por muito tempo. Não se eu não fizer nada. Não existem médicos em Hak Nam para algo tão sério. Um farmacêutico com fungos secos e barbatanas de tubarão em pó não vai fechar esse corte de faca. E minha bolsa de primeiros socorros seria tragada por todo esse sangue. O que Jin precisa é atravessar o Velho Portão Sul. Para lá dos canhões enferrujados. Para uma terra de lei e justiça. Aonde eu não posso ir.

Se livra do moleque. É inútil agora.

Tsang estava certo. Jin não vai mais poder correr por pelo menos uns dez dias. Não posso

contar com ele agora. Eu devia sair andando, seguir em frente. Deixar o menino caído e

ferido para trás. Tirá-lo da minha frente, da minha cabeça. Mas eles nunca saem da minha cabeça, saem? Meu irmão, Lee e a menina cujo cabelo arrastava no chão… seus rostos perturbam meus sonhos, suas últimas palavras se entrelaçam. Como se tivessem sido ditas para este exato momento. Meu irmão: Você é uma boa pessoa. Lee: Por favor! Não me deixa! E a menina cuja fuga deu errado: silêncio. Volto a olhar para Jin, noto como seu rosto é branco e aquilino. Como mármore. Como a menina arrastada em silêncio. Como a morte. Não posso salvar todos. Mas Jin… Jin é especial. E não acho que sou capaz de aguentar outro fantasma. Sinto como se meu corpo não fosse mais meu quando coloco os braços sob suas costas. O sangue grudento queima meus dedos gastos. Minhas entranhas se retorcem com o cheiro de sal e ferro. Minha cabeça está a mil, esforçando-se para ficar no agora enquanto o ergo até o peito, com cuidado para não mexer na faca ainda alojada em seu torso. Ele é mais leve do que eu pensava. Quase nada. Não é de estranhar que seja tão rápido. O Velho Portão Sul está cheio de pessoas resolvendo coisas e aproveitando a manhã. Elas entram e saem de Hak Nam, o cabelo ensopado da chuva, os ombros cobertos de granizo. A tempestade abrandou desde que saí do terraço. As pedrinhas — a maioria menor do que confeitos — revestem as bocas de lobo e os buracos da calçada como cobertura de bolo. Tão grossa que parece neve. Fico na beira da rua. A maior parte dos passantes não olha duas vezes. Os que olham só franzem a testa e saem andando. Marginais ensanguentados: parte normal do dia a dia de Hak Nam. Os canhões estão parados, provocando-me com ferrugem e barreiras invisíveis. Visões de algemas e prisões perpétuas. Não posso parar. Não vou parar. Inspiro o ar como quem toma coragem e continuo andando depois do arsenal antigo, passando sob o gablete de madeira, entrando na estranha camada fresca de brancura. Pensei que a primeira vez que eu voltasse para a cidade seria diferente. Imaginei meu retorno do exílio como uma coisa barulhenta, movimentada. Não uma caminhada furtiva, silenciosa. Agora que realmente saí de Hak Nam, não sei o que fazer. Fico parado, sentindo os últimos plim-plim-plim do granizo, e percebo que estou esperando alguém me impedir. Não tinha planejado chegar tão longe. Não posso levar Jin para um hospital. Vai ter perguntas demais, burocracia e papelada demais. Vão deixar o menino sangrar até a morte antes de ser admitido. Além disso, tem a polícia. (Desafiar o destino é uma coisa, mas cair diretamente em suas presas é outra bem diferente.) Só tem um lugar aonde posso ir. Um lugar onde nós dois vamos estar seguros. Pelo menos por um tempo. O taxista para o qual dou sinal é um velho com o cabelo grisalho e óculos grandes e feios.

Ele me fita como uma coruja, com os olhos pretos apertados de medo ao ver o que estou segurando. Consigo tirar um maço de dinheiro do bolso. É muito. Minha mesada, destinada à comida e ao apartamento. Muito mais do que ele ganharia numa semana. — Sem perguntas. — Mostro as notas para ele. — Sabe onde fica o bairro de Tai Ping? É uma pergunta idiota, afinal, todo cidadão de Seng Ngoi sabe onde fica o bairro mais rico da cidade. Mas descubro que costumo fazer mais perguntas idiotas quando estou segurando pessoas à beira da morte. Por um momento, o taxista parece prestes a pisar no acelerador e se afastar o máximo possível. Mas seus olhos param no dinheiro. O maço de notas que estou segurando é grosso o suficiente para convencê-lo do contrário. — Qual número? — Ele faz sinal para eu entrar, tentando não fazer careta diante da quantidade de sangue com que estou manchando o banco de couro. — Cinquenta e cinco. — Jogo as notas para a frente e olho para Jin. Sua pele está tão fantasmagórica quanto os montes de granizo lá fora. Quase não consigo sentir seu peito palpitando. Subindo. Descendo. O taxista murmura sozinho, palavras que não consigo ouvir direito por causa do zumbido tagarela do rádio. A voz sedosa de uma mulher sai das caixas de som, informando que é o inverno mais frio e úmido de Seng Ngoi em mais de uma década. Ouço o relato dela e depois uma canção de uma banda popular de meninas animadas enquanto o táxi avança rumo a Tai Ping. Sempre que penso nesse lugar, eu o imagino no auge do verão. Quando os hibiscos ganham cor: terrenos radiantes de vermelho, amarelo e branco ladeando a estrada. A margem da pista é tão cheia de sempre-vivas e pés de bambu que dá para fingir que se está numa floresta, e não numa colina no meio de uma metrópole efervescente. Penso nas cigarras, em como ficavam penduradas nos galhos de pinheiro vermelho e trinavam longamente, noite adentro. Estou tão concentrado pensando em como o lugar deveria estar que, quando o táxi para, levo um susto. Através dos garranchos gravados pela névoa na janela, vejo o portão. Está exatamente igual, espigões de ferro muito altos fixados no fim da longa pista de entrada. Flanqueados por colunas de pedra. Número cinquenta e cinco. Sinto como se o granizo que cai lá fora despedaçasse meu coração enquanto olho. O lugar parece não ter mudado nada. Intocado pela minha ausência. Mas alguma coisa está diferente… Como se as grades estivessem ali para me manter do lado de fora. — Você não vai sair? — o taxista quase grita, e sou lembrado da urgência de tudo. Meu agasalho está encharcado, pesado com o sangue que é e não é de Jin. Quando saio do táxi, meus braços doem sob o peso do garoto. Como se tivesse ganhado uns quinze quilos durante a corrida. O táxi vai embora apressado, os pneus jogando cascalho e granizo. Sofro para andar até o teclado numérico, torcendo para que o código de entrada continue o mesmo. Meu indicador deixa manchas de sangue nos botões prateados. Ouço um bipe e o giro de correntes. O portão começa a abrir. Atravesso antes que ele se abra por completo; deixando pegadas rasas e rosadas no granizo caído.

Com tanto silêncio e branquidão ao redor, a mansão parece um cenário de filme. É grande e perfeita demais com suas telhas de cerâmica e paredes altas. Vou piscando até chegar à ampla varanda serpenteante. Esperando que desapareça a qualquer minuto. Não preciso bater. As enormes portas duplas se abrem. O homem atrás dela parece distinto, mais velho. Seu cabelo está muito mais grisalho do que da última vez que o vi ali. — Dai Shing! — Seu olhar se fixa em Jin, caído nos meus braços. A pele dele fica branca como giz, como na noite que mudou tudo. — Oi, pai.

A água é escaldante, caindo sobre minhas mãos e queimando as fissuras entre meus dedos. O sangue de Jin vai descendo pela pia de mármore: primeiro escarlate, depois de um vermelho-claro como água de rosas. Vejo o sangue descer pelo ralo, deixando a cuba tão branca quanto antes. Como se o sangue nunca tivesse estado ali. O lavabo está igual, com seu piso de madeira impecável e as divisórias de papel com caligrafia antiga. Tudo está igual: o vestíbulo, a sala, o jardim de pedras. Como se meus dois anos em Hak Nam não passassem de um pesadelo muito real. Olho para baixo e me dou conta de que minhas mãos ainda estão enroladas sob a água ardente. Quando as tiro, estão vermelhas e trêmulas, como folhas de momiji levadas pelo vento de outono. Tiro o agasalho, ainda pesado pelo sangue, e o seguro com cuidado. Tudo parece limpo demais. Ou talvez seja eu que esteja sujo demais. Minhas pegadas rosa-claro no piso de madeira sugerem a segunda opção. No fim, jogo o moletom na pia, onde a torneira continua cuspindo água. Ela borbulha em torno dele, da mesma cor dos doces duros de canela que meu pai me dava quando eu era criança. — Dai Shing? Olho para a porta corrediça. A fechadura de cobre cintila com um brilho impossível, do tipo que não dá para encontrar em Hak Nam. — É você? Mesmo? — A voz atrás da porta é da minha mãe. Ela tem o mesmo sotaque que Osamu, só que é mais suave vindo dos lábios dela. Se eu fechar os olhos, consigo imaginar seu rosto: sobrancelhas arqueadas muito perfeitas, como se um mestre de caligrafia as tivesse pincelado na pele; maçãs do rosto pálidas e empoadas; boca pintada da cor de vinho tinto, fina. Ela deve estar mordendo os lábios, como faz quando fica nervosa. Levo a mão ao trinco, deixo a porta se abrir. Lá está ela, a mãe de que me lembro. Entra na luz do lavabo e vejo a marca do tempo. Mais rugas e vincos em volta dos olhos. O preto do cabelo é falso, um negrume proporcionado por tinta. É só quando a examino de perto que sinto que os dois anos passaram de verdade. — Ah, Dai Shing. Você voltou. — Sua voz é trágica e luminosa. Seus braços se abrem, mais finos do que me lembro: só pele, osso e veias azuis. Recuso seu abraço. — Não… não encosta em mim.

— Mas… — Tem… sangue. — A explicação escapa dos meus lábios. Seu olhar me percorre, como se ela estivesse vendo a imundície da minha camiseta pela primeira vez. E a cicatriz. Ainda aqui, sempre aqui. Saliente e brilhante. Um tremor perpassa seu rosto, detém-se nos lábios. Sei que ela está pensando na mesma noite. Em como o vermelho na minha camisa era dez vezes maior. Parte dele meu. — Não importa — murmura. Coloca o braço em torno de mim: sangue, manchas e tudo. — Você é meu filho. O único que restou… Engulo em seco esse pensamento; penso em como estou arruinando sua blusa Gucci. Quando ela finalmente recua, tem uma mancha rosa-pálido na seda branca. Não parece notar. Tem lágrimas nos olhos enquanto me fita. — Por que voltou? No fundo, não é essa a pergunta que está fazendo, já que a resposta é óbvia. Está respingada na minha camiseta e esparramada no quarto de visita dos meus pais, tentando não sangrar até a morte. O que minha mãe não consegue entender, o que quer saber de verdade, é por que eu correria esse risco. Não acho que consiga dizer a ela. Em parte porque não consigo colocar em palavras, mas principalmente porque não tenho tanta convicção. A adrenalina da manhã passou, levando consigo toda a clareza nítida da urgência. Só sei que não podia deixar Jin morrer. Não sou o criminoso implacável que Tsang pensa que sou, aquele que fingi ser. Não vou adicionar mais um cadáver à contagem. — O médico já chegou? — Não faço ideia de quanto tempo se passou neste lavabo cheio de vapor. — Ele está com o menino agora. — Que bom. — Vou pegar umas roupas do seu antigo quarto. — Minha mãe abre ainda mais a porta. O vapor escapa, lembrando que o mundo lá fora está claro. Frio. — E pedir para Emiyo te trazer um chá. Ela sai andando antes que eu responda. Antes que me lembre e a lembre de que minhas antigas roupas não cabem mais. Muito tempo e muitos centímetros passaram desde que deixei de morar aqui. Essa revelação ecoa pelo meu corpo. Pintando todos os cantos de cada cômodo que atravesso. Eu mudei. Não pertenço mais a este lugar. Não é mais meu mundo. Todo o meu tempo em Hak Nam — todos os anos à beira dos terraços, parado, olhando — desejei, ansiei, lutei por este lugar. Pelo menos era o que eu pensava. Voltar para casa não é a solução. Não me traz paz. Então o que é minha liberdade? Minha fuga? O que vai me curar? A porta do quarto de hóspedes está trancada. Emiyo já limpou o sangue do chão. As tábuas do piso ainda estão escorregadias pela umidade. Nunca reconhecia o cheiro de limpeza antes de Hak Nam, mas, agora, não consigo ignorar o ardor de limão e substâncias químicas no meu nariz. Paro nas últimas marcas de umidade e fico ouvindo. Em busca de palavras, sons… qualquer

coisa que possa me dizer se meu amigo está vivo ou morto. Meus ouvidos são recompensados com passos e ordens incisivas. Não consigo entender; estão embaralhadas, cheias de termos que não compreendo. Nunca perdem o ritmo; o frenesi vaza por baixo da porta, mistura-se ao limão. Não consigo ficar parado, então começo a andar em círculos pela sala de estar. Meus dedos tamborilam nervosos sobre as manchas escuras na calça jeans. Minha mãe não volta com as roupas limpas, mas Emiyo surge depois de um tempo. Uma bandeja de chá verde está equilibrada em suas mãos experientes. — Mestre Dai? — Ela limpa a garganta e as xícaras tremem. É o conjunto que minha mãe trouxe de seu país natal. Pintadas com imagens de botões de lírios e flores de lótus. — Por favor, só Dai — eu a corrijo. Mesmo quando era menor, mestre já me incomodava. Agora parece um absurdo. Emiyo apenas sorri para mim, como se tivesse uma resposta, mas não ousasse pronunciá-la. — Sua mãe mandou trazer isto. Enrolada sob seu braço está uma muda de roupa. Uma camisa branca e uma calça. Obviamente do meu pai. A criada coloca a bandeja na mesa e estende as roupas para mim. Seu olhar desvia e eu o sigo. Depois de tanto andar, manchei o chão de novo. — Obrigado, Emiyo. — É bom ter o senhor em casa. — A criada faz uma reverência. — Sentimos sua falta. Ela está sendo tão doce. Todos estão. Com abraços, sorrisos e roupas novas. Agindo como se nada nunca tivesse acontecido. Como se estivesse tudo esquecido e perdoado. Queria poder me ver com os mesmos olhos. Emiyo sai depressa antes que eu consiga encontrar uma resposta. Finalmente me permito parar, segurando firme a camisa social cara. Ainda estou pensando em me trocar quando a porta do quarto se abre. Logo reconheço o homem que sai a passos largos: dr. Kwan, o médico da família. Suas mangas estão arregaçadas até os cotovelos pálidos como cinzas. O resto da camisa está quase tão manchado quanto a minha. Ele para à minha frente, hesitando antes de perguntar:

— Cadê seu pai? — Não sei. — Não o vi desde que saiu correndo para chamar o médico. Mas esse é o menor dos meus problemas. — Como está Jin? O dr. Kwan suspira, como se a pergunta fosse um inconveniente. — Está melhor. Perdeu muito sangue, mas dei alguns pontos nela. A faca não atingiu nenhum órgão vital. Foi um corte preciso. Já liguei para o hospital pedindo sangue. Ela vai precisar de uma transfusão. — Ah, que bom. Eu… — De repente me dou conta do gênero que o médico está usando. Aquilo perfura meu crânio duro. — Ela? Percebo que minha boca está aberta, mas não me importo o suficiente para fechar. Ela. Nela. Levo mais um minuto para que as palavras entrem na minha cabeça. Não pode ser… Talvez eu tenha pensado em voz alta. Ou talvez o médico tenha visto na minha cara. — Você não sabia? Ela se esforçou muito para esconder. Mas sim. É definitivamente uma

mulher. Jin é uma menina. E eu aqui pensando que era o único com segredos.

9 DIAS

MEI YEE

NÃO CONSIGO DORMIR. Todos os músculos, todas as fibras do meu corpo, ainda estão cheios, flutuando alto com pensamentos da janela. Quando o menino partiu, levou meu coração com ele, correndo por ruas imaginárias até em casa. Estou correndo pela estrada de terra, passando os gramados, tão verdes e brilhantes quanto uma garrafa de bebida. Passando os cachorros de rua que imploram por pedaços de pão seco na entrada das casas dos fazendeiros. Passo pelo meu pai, com as costas curvadas e manchadas de suor, afundado até os joelhos nas águas turvas do campo de arroz. Passo pela minha mãe, pendurando roupa para secar à sombra do seu pé de ginkgo, com os braços sarapintados pelos hematomas. Corro até alcançar minha irmã, para ficarmos juntas novamente. Como ela pedia. Se eu pudesse passar por essas grades, voltaria para casa? Ou iria ver o mar? As possibilidades são tão infinitas que dão medo, como as águas. Pensar em estar lá fora, no mundo, sozinha, basta para me fazer perder o ar. Mas eu estaria sozinha? Tem o menino e o que ele disse: Também quero que você veja. Alguma coisa na sua voz, nos seus olhos, faz com que eu pense que não sou a única com as entranhas em chamas. Mas não sei. Não tenho certeza. E, quanto mais tempo ele fica longe, mais essas coisas começam a escapar, como um sonho que se desfaz a cada hora da manhã que passa. Meu corpo irrequieto se contorce com cada um desses pensamentos quando o zumbido começa. É como o som que um espírito faria, baixo e queixoso. Ele se enrola sob a porta, me chama para onde está. O corredor está envolto em trevas; as lanternas estão sem brilho e fumaça. O som, uma canção fina como a de um órfão, escapa pelas frestas da porta de Sing, desliza por entre a trava de Mama-san. Faz minha pele tremer como num leve terremoto. Quando me aproximo, o lamento para. Ouço passos, o som de sandálias nas tábuas do chão e o baque surdo de mãos na madeira fazendo a porta tremer. — Por favor! Por favor, me dá mais. — A voz de Sing é alta. Alta demais. — Eu vou me comportar! Prometo! Fico paralisada no corredor, olhando para todas as lanternas apagadas. Estão dispostas em fileiras, imóveis em forma de bulbo, como luas escarlates que foram ceifadas e penduradas para secar. — Só mais uma! Por favor! — grita Sing. — Faço qualquer coisa! O que vocês quiserem! A porta treme de novo. A fúria atrás dela cresce, como se quem estivesse ali não fosse mais uma menina, mas uma gata selvagem, chiando, espumando, rosnando em busca dos filhotes. Mas não tem nenhum filhote aqui. Só tem eu e, em algum lugar deste labirinto de lanternas e

escuridão, uma agulha que espera para ser enfiada nas veias de Sing e lhe dar algumas poucas horas de alívio. — Eu preciso! — Seu rugido se transforma num soluço. — Por favor! Nessas palavras, ouço tudo o que Sing perdeu. Apesar de todas as vezes em que Mama-San

bateu com a cinta nas suas costas, apesar de todos os homens que entravam e saíam de seu quarto, ela sempre conseguia manter a força. Sempre sonhava.

Eu preciso.

Eu.

Preciso.

Suas palavras ecoam, crescem e transbordam, viram o sangue e a medula deste corredor escuro. Tão alto que não ouço os passos que trazem Fung até meu lado. Ele surge diante de mim feito um pesadelo, uma sombra mais longa que o normal. Tem uma seringa na mão e os lábios tensos. Seus olhos são escuros como os pedaços de carvão gasto que minha mãe jogava atrás da cabana. Todo o meu corpo treme, esperando um grito ou um tapa rápido da sua mão, mas Fung não faz nada. Ele me encara por mais um segundo. Aqueles olhos escuros, escuros, e o dragão sobre eles não demonstram nada. — É melhor você voltar pro quarto — ele resmunga. Obedeço. Volto para o quarto e para a janela cheia de grades. Aqui, não há lugar para sonhadores. Não há lugar para riscos. E não há lugar para mim lá fora. Não de verdade. Como disse ao menino: não posso ir para casa, nem mesmo para ver minha irmã. Meu pai está lá, com sede, sarna e uma carteira vazia. Ele me venderia de novo, e de novo minha mãe não faria nada, com os olhos roxos cheios de lágrimas. Nem sei onde fica o mar. Ou o que faria se conseguisse chegar lá. O embaixador não faz meu coração cantar, mas conheço todas as sardas do seu corpo. Sei que seu prato favorito é enguia salteada com cogumelos e broto de bambu. Sei que ele sempre soluça três vezes seguidas. Sei que é o filho mais novo de dois operários. Sei que ainda pode me dar aquele apartamento. O menino nem me diz seu nome. Enfio a cabeça no travesseiro, mas ainda consigo ouvir Sing. Seus gritos atravessam a porta, atingem meus tímpanos. Assombram-me com todas as possibilidades de agulhas e derrotas, o verdadeiro preço do desconhecido. Talvez eu tenha puxado à minha mãe.

JIN LING

NO COMEÇO, ACHO QUE ESTOU MORTA. Abro os olhos. Encontro meu corpo envolto em panos brancos. Limpos e claros, como uma mortalha. O quarto em que estou é mais bonito do que tudo o que já vi na vida. O piso e o teto são de madeira escura encerada. Lanternas elétricas de papel de arroz lançam halos de luz sobre os móveis esparsos e lustrosos. Até as paredes são obras de arte, com garças e pequenos abetos pintados nelas. Só quando tento me mexer que percebo que estou viva. A dor ainda está aqui. Forte e perceptível. Perto da escápula. Meu pescoço também lateja, lembranças de todos os lugares por onde a faca de Kuen passou. Alguma coisa puxa minha mão e percebo que tenho uma agulha enfiada na pele. Um tubo transparente sai serpenteando de mim até um saco vermelho e cheio. Sangue. Coloco a cabeça de volta no travesseiro. Pisco ao ver os caibros. Se uma coisa é certa, é que não estou na Cidade Murada. Nenhum lugar lá é bonito assim. Então como saí de lá? Como estou viva? — Ah, que bom. Você acordou. — Meus pensamentos são interrompidos pela voz de um homem. Alta e estridente, como o gongo de um templo. Eu o reconheço na hora. A maneira como para no batente, com os ombros rijos, é a mesma. Ele está sem capuz, mas sei que é o homem que encontrou Dai na fronteira da Cidade de Fora. Aquele com o dinheiro. — Como está se sentindo? — O homem fica perto da porta corrediça, com as mãos nas costas. Preciso estreitar os olhos para ver mais detalhes do seu rosto. Não estou acostumada a uma luz tão forte. — Confuso. — Continuo examinando os traços do homem mais velho. Ele não é atarracado ou desfigurado como Longwai. Tem rugas, mas seu rosto é alerta e astuto. Como uma raposa olhando um galinheiro. Dai é igualzinho ao pai. — Vou chamar a enfermeira. — Ele faz menção de se virar. — Não… espera — eu grito, e logo me arrependo quando a dor dispara. — Dai está aqui? O nome faz alguma coisa com ele. Transforma seu rosto. Ele não parece mais tão alerta: a diferença entre o caçador e a caça. Sai, tentando esconder isso. Espero em silêncio, sem saber se o homem vai voltar. Dobro a mão, fito o saco de sangue. É esquisito ver aquele líquido vermelho grosso pendurado numa bolsa, longe dos corpos e da dor. Quase como o molho que a sra. Pak coloca no frango. Demoro um pouco para reconhecer Dai quando ele entra. Está vestido como um cara rico:

camisa branca, calças passadas, cabelo penteado. Parece estar saindo de um daqueles arranha- céus gigantes de metal. Só falta a pasta. Mas, então, ele enfia as mãos nos bolsos e lembro quem ele é. O menino que senta no terraço, com os pés no ar, flertando com alturas fatais e a morte contra o concreto. O menino que passa horas sob a faca de Longwai, esperando minha volta. O menino de cicatrizes e segredos. Ele caminha até a beira da cama. Sei o que vai dizer. Posso ver pela maneira como me encara com olhos desconfiados. — Você é uma menina. — E você é rico. — Minha resposta é curta e grossa. Não consigo acreditar que, depois de tudo o que escondeu de mim, esteja mesmo bravo. Dai encolhe os ombros; seus punhos continuam nos bolsos. Tem alguma coisa embaixo do seu braço. Alguma coisa comprida, achatada, da cor das minhas botas. Não consigo ver direito o que é, porque ele virou de costas. Não está olhando para mim nem para o caos de tubos em volta da cama. Olha para o quarto chique. Objetos que deviam estar num museu. — Não tive muita escolha em relação a isso. — Eu também não. — Sinto que estou fazendo uma careta. — Desculpa desapontar você. — Na verdade… — Ele lambe os lábios, procurando a palavra certa. — Na verdade, estou impressionado. Não é um segredo fácil de guardar. Não sei o que responder, então fecho os olhos. Meu torso dói e lateja sem parar. — Por que escondeu isso? Um dos meus olhos abre, dando-me uma visão do rosto bonito de Dai. Seus lábios estão quase enrugados, o que significa que a pergunta é séria. Falar dói, mas o faço mesmo assim:

— Você viu o que acontece com as meninas naquele lugar. — Quero dizer… por que você escondeu isso de mim? — Acho que pelos mesmos motivos que você escondeu isso tudo. Todos temos nossos segredos. Tínhamos — eu me corrijo. — Além disso, teria mudado alguma coisa? Seus lábios ficam tensos e ele encolhe um pouco os ombros. — Então, por que queria dinheiro para ficar com uma das meninas do Longwai? Para que precisava daquela grana? As perguntas de Dai são rápidas. Como tiros de arma de fogo. Elas me deixam nervosa. Não gosto de ser a pessoa que dá todas as respostas. Não quero isso. Não com Dai sendo a maior farsa entre nós. — Só conto se você se explicar. — Uma dor lancinante corta meu torso. Ranjo os dentes. Espero passar. — Onde a gente está? Quem é você? Espero que ele fuja das perguntas como das outras vezes. No entanto, Dai puxa uma cadeira alta de madeira para o lado da cama. Coloca no chão o que estava segurando. E, por um momento, consigo ver de relance o que é. Um livro. — É uma longa história. — Ele senta na madeira envernizada. Não parece confortável. — Que bom. Já que estou presa aqui. — Ergo a mão espetada pela agulha e mostro para ele. O tubo escarlate se agita com o movimento. — Quero as respostas que você tem para

me dar. Dai suspira. É um som pesado, cheio de anos e silêncios. Algo que ele carrega há muito, muito tempo. Algo que está pronto para desabafar. — Eu cresci aqui, nesta casa… Era basicamente tudo o que conhecia até os treze anos. Tutores. Mercedes. Escolas particulares. Viagens para o exterior. Claro, eu era uma criança na época; não sabia como o que tinha era bom. Nem consigo imaginar a vida que ele descreve, o mundo que estou contaminando deitada aqui. O mais difícil é adivinhar como perdeu isso tudo. Por que não mora mais aqui? O que aconteceu com seus tutores e carros caros? Pergunto isso a ele. — Já falei do meu irmão. — Dai engole em seco. — Aquele que você me lembra. O nome dele era Hiro. Era. Essa palavra parece outra droga estranha injetada no meu corpo. Dá ânsia de vômito. Eu sabia que não seria uma história feliz. Só não sabia que seria tão parecida com a minha. — Perdi meu irmão. Ele afunda a cabeça entre os joelhos. Suas mãos desarrumam seu cabelo. A maneira como ele não olha para mim me faz pensar que está chorando. — A gente tinha dois anos de diferença. Eu era o mais velho, mas Hiro era mais maduro. Ele era um bom menino: só tirava dez, era um ótimo atleta e tudo mais. Quando crescesse, poderia ser o que quisesse. Já eu era encrenqueiro. Pegava os carros para fazer rachas, colava, roubava bebidas do meu pai… se alguma coisa era contra as regras, eu fazia. Quando a gente era pequeno, Hiro vivia me seguindo e dizendo pra eu não fazer essas coisas. Como aqueles anjinhos que ficam no ombro dos personagens de desenhos animados. Às vezes eu nem dava ouvidos. Ele fala e vejo Mei Yee. Não os bons momentos, as noites em que ficávamos abraçadas sob o pé de ginkgo olhando a névoa irromper na montanha, tampouco quando nossa mãe reutilizava folhas de chá e nos servia água amarelada em xícaras lascadas. Não. O que vejo é a última vez. A noite em que os homens vieram. O pavor em seu rosto. O terror absoluto e desolador no meu peito. O mesmo terror que ouço na voz de Dai. — Quando fiz catorze anos, meus pais me mandaram para um internato do outro lado de Seng Ngoi. A maioria dos alunos lá eram ricos e chatos… Mas alguns do meu ano adoravam confusão. Esses meninos quebravam as regras. Todas as que dava pra quebrar. A gente levava cigarros e bebida. Revistas de sacanagem. Ele para novamente. — Eu era jovem. Idiota. Comecei a sair com os meninos que estavam se metendo em coisas muito piores. Chantageando outros alunos por dinheiro. Traficando drogas. Era divertido. Aquela sensação. Uma sensação de poder. Os outros meninos me admiravam. Queriam trabalhar para mim. “Foi bom nos primeiros dois anos. Ninguém foi pego. A gente criou nosso pequeno reino dentro do internato. Nada poderia nos deter. Mas então Hiro foi matriculado na mesma escola. Ele não demorou muito para descobrir no que eu estava metido. Tentou me convencer a parar, como sempre fazia. Mas não dei ouvidos.

“A gente teve uma grande briga por causa disso, logo antes dos meus corres da noite para pegar o estoque de drogas para o mês seguinte. Hiro tentou me impedir, me puxou pelo agasalho e falou que eu era uma boa pessoa. Saí correndo da escola, pensei que tinha acabado aí.

“Nosso fornecedor era o Longwai. Os capangas dele encontravam a gente em Seng Ngoi e faziam a troca. Quem tinha de pegar naquela noite era eu e o filho do prefeito. O menino, Pat Ying, estava muito nervoso. Tinha fumado um antes de sair. Eu gostava de fazer os corres sóbrio. Com a cabeça no lugar. “Hiro seguiu a gente naquela noite. Só fui saber disso quando…” Dai para. Seus olhos cintilam, à beira de lágrimas. Atrás deles, vejo a tensão dessa noite há muito tempo perdida. A escuridão das ruas. A raiva e o medo lutando dentro de seu peito. O amor que tinha pelo irmão. A culpa pesada, pesada, que curva suas costas. Embarga sua voz. — As coisas deram… errado. Teve uma briga por causa da quantia. Pat Ying ficou agressivo e começou a discutir com o homem de Longwai. Puxou uma faca e eu tentei impedir. Ele estava chapado demais para perceber que era eu e abriu meu braço com a faca. Dai faz uma careta com a lembrança e recordo a cicatriz que sobe pelo seu braço. — O capanga de Longwai estava com uma arma. Bastou ver a faca para sacar e sair atirando. Tudo aconteceu muito rápido. Meu braço estava doendo. De repente, Hiro estava lá, aos berros. Foi uma barulheira, e então ele caiu no chão. Pat Ying também. Eu não conseguia ver o sangue. Mas tinha a arma… bem ali, aos meus pés. Não sei como, mas o capanga do Longwai deixou cair. Eu nunca tinha atirado antes, mas ver meu irmão caído me fez pegar a pistola. O homem pulou em cima de mim e eu nem pensei. Só puxei o gatilho. Dai fecha os olhos. Não sei dizer se ele está lembrando ou lutando contra aquilo. Talvez os dois. — Quando acabou, só eu estava segurando a arma. Tudo estava no chão. As drogas. A grana. Hiro e Pat Ying. O homem que eu matei. Hiro… O nome do irmão paira no ar por um momento, pesado pela lembrança e pela tristeza. — Ele só tinha catorze anos. Podia ter sido o que quisesse… Tinha a vida inteira pela frente! Acreditava em mim, achava que eu faria a escolha certa. Em vez disso, morreu nos meus braços. “Eu não sabia o que fazer. Pat Ying também estava morto. Hiro e ele levaram tiros da arma que eu estava segurando. O capanga do Longwai também. Voltei para cá, para casa. Contei para meu pai o que tinha acontecido. “Eu tinha dezesseis anos. Idade suficiente para ser julgado como adulto. Meu pai sabia de toda a história. Sabia que me acusariam de tudo. Não pensou duas vezes antes de me levar para Hak Nam. Eu nunca o tinha visto dirigir antes… Mas ele me colocou no carro e me levou para a Cidade Murada. Falou para eu esperar lá até conseguir ajeitar as coisas, porque assim a polícia não poderia me prender. Esperei e esperei. No começo, ele voltava toda semana para o Velho Portão Sul com dinheiro e notícias. Mas as semanas foram se arrastando e ele não conseguiu limpar meu nome. Minhas digitais estavam na arma que matou três pessoas. “Já faz dois anos que sou um fugitivo. Se sair de Hak Nam, posso ser preso, levado a

julgamento por homicídio e tráfico de drogas. Mesmo com a influência do meu pai, acho que não ia acabar bem.” É muita coisa para eu absorver. Faz minha cabeça girar. Fico tonta sem nem me mexer. — Então… você matou um dos capangas do Longwai e agora está trabalhando pra ele? Não tem medo de que descubra? E, se seu pai está dando dinheiro, por que trabalhar? Por que correr o risco? — A gente nunca usava os nomes. Sei que Longwai ainda poderia chegar até mim, se olhasse a história de perto. Estou torcendo para ele não fazer isso. — Dai engole em seco; seu pomo de adão salta. Tem mais coisa na história. — Jin… — Dai se interrompe. — Esse é seu nome de verdade? — Jin Ling. — Você sabe por que Hak Nam é do jeito que é? Por que é uma cidade sem lei? É difícil mover a cabeça nesse travesseiro de plumas imenso. Faço o possível. — Antigamente era uma fortaleza. É por isso que tem aqueles canhões em volta do Velho Portão Sul. Uns cem anos atrás, vieram os estrangeiros e compraram a cidade, mas Hak Nam não estava incluída no contrato. Os governos foram trocados e novas leis foram feitas, entretanto a cidade foi simplesmente esquecida. Nem os políticos nem a polícia prestaram atenção nela e assim foi crescendo sem parar até virar o que é agora. Essa conversa sobre governos e políticos parece grego para mim. Difícil de entender. Faço o possível para acompanhar. Vou assentindo com a cabeça. — O contrato dos estrangeiros vai acabar no Ano-Novo. Formaram um novo conselho municipal para conduzir a transição, que decidiu ocupar Hak Nam e demolir a cidade toda. Acabaram de passar uma lei que permite que entrem na Cidade Murada e a esvaziem. Destruam tudo. Assim que estiverem no poder, vão mandar a Seção de Segurança para tomar a cidade. Tento entender o que ele está dizendo. O fim da Cidade Murada. O fim de Longwai. O fim das chances de encontrar Mei Yee. — Mas… e a Irmandade? A cidade é de Longwai… Ele não vai simplesmente aceitar sem uma briga. — A lei está sendo mantida em sigilo. Só algumas poucas autoridades sabem, para que Longwai não descubra. Querem pegar o cara de surpresa. Mas, mesmo se prenderem Longwai e os outros membros da Irmandade, a Seção de Segurança precisa de provas para que fiquem sob custódia. Neste momento, eles não sabem nem quem prender. A Irmandade protege a identidade de seus membros a qualquer custo. — Então como você sabe da lei? — pergunto. — A Seção de Segurança sabe que estou alojado em Hak Nam. Sabe que estarei encurralado no Ano-Novo. E sabe que tenho contatos na Cidade Murada. Os membros vieram falar comigo algumas semanas atrás e me ofereceram um acordo: absolvição completa em troca de uma única prova. — Que prova? — Longwai é um cara às antigas. Nomes. Números de contas bancárias. Negociações. Ele anota tudo num caderno. O livro de registros dele. Vai ser a maior prova da Seção contra a

Irmandade. Vão poder usar para botar a quadrilha na cadeia para sempre. Longwai e seus homens foram presos algumas vezes, sempre que viajaram para fora de Hak Nam, mas a Seção nunca conseguiu que ficassem sob custódia. As testemunhas sempre dão pra trás; ficam com medo demais para testemunhar. Com medo do que Longwai vai fazer com elas e com sua família se o tribunal o soltar. Medo. Elas precisam ter mesmo. Não paro de pensar na cicatriz reluzente em forma de gancho do traficante, em como o dragão na sua manga brilhava quando ele ria da história de um homem esfaqueado. — Por que não mandam um policial pegar o livro? — Não dá. Não por enquanto. Eles ainda não têm poder em Hak Nam. Se mandarem um policial disfarçado, vai ser uma prova adquirida ilegalmente. Inútil no tribunal. E têm medo de que, se esperarem até a cidade ser retomada, Longwai perceba o que está acontecendo e destrua o livro. Sou a brecha deles. Se pegar o livro para a Seção de Segurança, será uma prova legítima. A Irmandade não vai ter chance de sair com fiança. Por isso, preciso roubar o livro e entregar para a Seção antes do Ano-Novo. Roubar o livro de registros do traficante? Só a simples ideia faz o medo correr por minha coluna dolorida. Não é de admirar que eles estejam oferecendo perdão total para Dai. É uma missão impossível. — E se você não conseguir? — Longwai e seus capangas saem livres. E eu vou parar na cadeia. — Ele morde os lábios. Suas pernas balançam, agitadas como no bordel de Longwai. — Ou coisa pior. — Então é por isso que você fica esperando durante os corres? Queria entrar no bordel porque é lá que eles guardam o livro… — Vou perdendo a voz. — Sim — ele responde. — Desculpa por não ter sido honesto com você. Achei… achei que conseguiria fazer isso sozinho. Eles me fizeram jurar que não ia contar pra ninguém. Se essa informação vazar, se Longwai ficar sabendo da invasão… já era. Eu devia estar brava. Furiosa. Dai me meteu num perigo muito maior do que eu imaginava. Fazer besteira num corre de drogas não é nada comparado a isso. Mas a ira, a fúria que eu estava esperando sentir, não vêm. Sei que, se fosse Dai, eu teria feito o mesmo. Faria com que ele esperasse para tentar procurar minha irmã. — Quanto tempo falta para o Ano-Novo? — Deve ser logo; já está bastante frio. Todo ano nessa época, a Cidade de Fora se cobre de vermelho, bota fogo no céu. Dragões de papel dançam pelas ruas. Crianças de sorte, que não são marginais, correm de um lado para o outro com sapatos novos, brandindo envelopes vermelhos reluzentes cheios de dinheiro. Jogam bombinhas no chão para afugentar Nian, o ladrão de crianças. — Nove. — Ele cospe o número como um carvão ardente. — Os riscos na parede do seu apartamento… — eu me dou conta. — Mas você… não está na Cidade Murada agora. — Não, não estou. Essas três palavras me mostram o risco que correu me trazendo para cá. Sua liberdade. Sua vida pela minha. É uma sensação estranha, calorosa. Toda a minha vida sempre fui a protetora, aquela que resgatava as pessoas. Eu fazia isso sozinha.

— Acho que a Seção não vai me prender agora — ele explica, vendo a expressão no meu rosto. — Eles querem muito o livro de registros. — Mesmo assim, foi um risco. Dai dá de ombros. O movimento fica estranho sob a camisa social. Duro. Desconfortável. — E-eu não podia deixar você morrer… — Sim, podia. — Olho de relance para a bolsa de sangue. Parece mais vazia; o topo espuma com bolhas vermelho-beterraba. A vida escorre para dentro de mim. — A maioria das pessoas teria me deixado. Mas você não. Você me salvou. A expressão em seu rosto. É como se eu o tivesse apunhalado ou coisa parecida. — Obrigada — acrescento. Dai segura minhas palavras por um minuto. Sente o gosto delas. À medida que se assentam, seu rosto vai parecendo menos machucado. — De nada — ele responde finalmente, antes de mudar de assunto. — Sua vez. Dei minhas respostas. Cadê as suas? De repente, eu me sinto exausta, pesada na cama. Como se toda a história de Dai tivesse acabado de cair sobre meu peito. Pressionando. Pesando. — Não é uma história tão longa, na verdade — eu digo. Mas então começo a contar. Conto tudo para ele. Sobre o campo de arroz e a força com que os punhos do meu pai socavam. Sobre minha irmã e a noite dos Ceifadores. Revivo cada momento através das palavras: montando na bicicleta e seguindo a van deles. Cortando meu cabelo e virando um menino. Procurando, procurando, sempre procurando minha irmã. Lutando com unhas e dentes. Sozinha. Minha história é mais longa do que eu pensava. Dai até parece cansado no fim. — Você acha que sua irmã está no bordel do Longwai? — Procurei em todos os outros lugares — conto para ele. — O que você acha que vai acontecer com as meninas de lá? Depois do Ano-Novo? — Depende. Se eu conseguir o livro e a Seção prender a Irmandade, elas vão ficar livres. — E se não conseguir? — A Seção pode pegar Longwai por um tempo, mas ele vai dar um jeito de se soltar, como já fez antes. E, sem a lista de membros do livro de registros, a Seção não vai conseguir pegar toda a Irmandade. Alguns homens vão ficar livres… redistribuir os recursos da Irmandade. Tirar as meninas e fundar um bordel em outro lugar. — O rosto de Dai fica mais pálido. Como se o sangue que entra nas minhas veias fosse tirado do seu braço. — Sua irmã. Qual é o nome dela? — Mei Yee. — Esta é a primeira vez em anos que digo o nome dela em voz alta. — O nome dela é Mei Yee. A mão de Dai sobe na cama, encontra a minha. Dedos com dedos. Ele toma cuidado para não tocar na fita adesiva, no tubo e na agulha. Envolve minha mão com força. Sua pele é surpreendentemente calorosa. Humana. — A gente não precisa fazer isso sozinhos, Jin Ling. Vou ajudar você a encontrar sua irmã. Se ela estiver lá, a gente vai conseguir. Deve ser essa a sensação de ter um irmão mais velho. Penso em todas as vezes que desejei

ter um. Quando minhas costas ardiam sobre fileiras e fileiras de arroz por cortar. Quando as palavras do meu pai se enrolavam umas nas outras e seus punhos me acertavam. Quando os Ceifadores vieram e não havia ninguém forte o bastante para detê-los. Faz muito tempo que parei de desejar isso. Quando as últimas gestações da minha mãe terminaram em sangue e eu me dei conta de que, se ela desse à luz um menino, eu teria que protegê-lo também. Mas, agora, Dai está segurando minha mão e eu não tenho que ser a mais forte. Não preciso mais ficar sozinha. Aperto os dedos dele nos meus. A agulha incha nas minhas veias, puxa a fita adesiva. Traz uma dor ardida. — E eu vou ajudar você a encontrar o livro — prometo. — Antes do Ano-Novo. Nove dias caem sobre o rosto de Dai. Ele tira a mão. — Você precisa de repouso. O dr. Kwan disse que tem que ficar na cama por pelo menos duas semanas. E depois ficar um mês sem fazer esforço.

O que ele não diz em voz alta, o que está escrito na sua testa, é que vou ficar aqui por um tempo. Quero discordar, mas, agora, até respirar dói. — Trouxe uma coisa para passar o tempo. — Dai se debruça, pega o livro do chão. Uma fina camada de poeira cobre a capa. Ele passa a mão para limpar. Dá o livro para mim. — Cartas celestes. O livro é pesado. Cheio de tantas coisas que não conheço. Tantas coisas que quero aprender. Coloco-o no meu peito, vou virando as páginas que têm cheiro de cera e passado. Os escritos estão numa língua que não reconheço, apertados e ilegíveis. Mas têm figuras:

fundo azul-veludo e linhas de teia de aranha. Ligando dezenas de pontos. Se eu olhar de perto, reconheço algumas. — A Cassiopeia está aí — Dai diz. — Se terminar esse, tem muito mais lá em cima. Oceanografia, zoologia, arqueologia. Um monte de “logias”. Hiro nunca conseguiu decidir o que queria ser quando crescesse… Sua frase murcha. Triste. Como os campos do meu pai depois de semanas sem chuva. Tento virar um monte de páginas, procurar minha gadanha de arroz, mas o ardor sob meu ombro dispara. Faz com que eu ranja os dentes. Dai levanta. Sua cadeira raspa o chão de leve. — Vou chamar uma enfermeira. Para dar alguma coisa para a dor. Deixo o livro de cartas celestes escorregar para meu lado bom, que não arde. Meus olhos estão se fechando, rendendo-se ao sono inevitável. Nunca na minha vida me senti tão, mas tão cansada. No entanto, tem uma pergunta que ainda não fiz. Uma resposta que preciso ter. — Espera… você… você viu o Chma? Ele está bem? — Chma? — Dai para. — Kuen cortou o rabo dele. — Vejo a faca. O toco com o sangue molhado e grudento de Chma. A raiva volta. — Você matou um menino por causa daquele gato? — A briga parece tão simples, tão estúpida quando Dai fala desse jeito: um menino em troca de um gato. Um coração em troca de um rabo.

Não é uma troca tão justa.

Dai coloca a mão na porta, balança a cabeça. — Não, não vi. Ele sai. Olho fixo para o teto preto como breu. Tudo o que vejo são os olhos inexpressivos de Kuen, fitando o vazio. Talvez ele merecesse. Talvez minha mão tenha escorregado. De qualquer forma, ele está morto. Por minha causa. Kuen está morto. E eu estou viva. Então por que tenho a sensação de que quem perdeu fui eu?

8 DIAS

MEI YEE

ESPERO O EMBAIXADOR. Os gritos de Sing estão na minha cabeça e o sim está na ponta da língua, enchendo meu corpo de faísca e espuma como aquele rojão que os vizinhos compraram num Ano-Novo. Eu nunca tinha visto aquela cor, um vermelho-cereja tão vivo que fez um buraco na minha vista. Era tão bonito, tão distante do meu mundo, que pensei ser suficiente. Mas então o pavio terminou de queimar e ele disparou para o céu límpido de inverno com um rastro branco emplumado de fumaça. O escuro da noite se encheu de mais cores do que eu era capaz de nomear: rastros safira, escarlate e verde. A imagem era tão bonita que me fez chorar. E, agora, sinto que estou prestes a chorar quando a porta se abre. Tem tanta coisa dentro de mim — medo, perda, ganho, desejos não pronunciados, meu sim —, girando, espumando e ardendo como aquele rojão. É impossível manter tudo aqui dentro. Mas algo no jeito como o embaixador entra exige silêncio. Ele parece ainda maior, agigantado sob a corpulência do casaco. O tecido é tão preto quanto a pele de um urso. Seus braços carregam alguma coisa que não consigo ver por inteiro. Seja o que for, não são flores. Não ganho um oi nem um aceno formal. Ele caminha até o lado da mesa e segura o vaso. — Não tinha nenhum buquê bonito — o embaixador me diz por cima do ombro. — E queria trazer alguma coisa especial. Para mostrar que estou arrependido do que aconteceu… O que aconteceu. Eu queria que ele dissesse, falasse que está arrependido dos hematomas em vez de me trazer mais um presente caro. Queria que se mantivesse na rotina, trouxesse flores. O embaixador se afasta e vejo que trocou o antigo vaso lascado por um mais raso. Do cascalho arenoso, sai uma árvore. Não é um brotinho, mas uma coisa crescida, com galhos, tronco, folhas e raízes. Uma árvore que deveria ser mais alta do que eu, mas é menor que meu braço. — O que é isso? — Fico olhando. Esqueço o sim por um momento, tentando imaginar como uma árvore pode estar enjaulada e encolhida. Parece mágica, impossível. — Um pé de cipreste. — Ele se debruça para examinar as folhas, passando os dedos de unhas feitas com cuidado excessivo por elas. — Como… por que ela é tão pequena? — Sinto-me idiota por fazer essa pergunta. Nunca tinha visto um cipreste antes. A maioria das árvores na minha província não estava lá quando nasci, tinham sido cortadas para dar lugar aos campos de arroz. Talvez todos os ciprestes sejam desse tamanho e eu nunca soube. — É uma técnica chamada bonsai. Os jardineiros usam para que as árvores não fiquem grandes demais, difíceis de cuidar. Assim, dá pra ter uma dentro de casa. Para seu deleite. Continuo olhando para a árvore minúscula. Tentando imaginar como ela seria se não

estivesse confinada no vaso. Se os dedos dos homens não ficassem atormentando-a, cortando-a sem parar. — Não vai ter mais flores? — pergunto. — Elas morrem logo — o embaixador diz, como se eu já não soubesse. Como se meu quarto não se enchesse do cheiro doce e pútrido toda vez que as pétalas murchavam. — Pensei que você fosse gostar de uma coisa mais permanente. Agora não vou ter nada para colocar na janela. Nada para avisar o menino. Esse pensamento me acerta, duro e afiado, como uma pedra. Não importa. Não deveria importar. Em breve, não vai ter mais janela. Nem paredes. Nem botões de orquídeas falsas ou estrelas assimétricas. Assim que eu disser sim. O embaixador para de cutucar a árvore. Tira o paletó. Deixa com o casaco. Vem para a cama. O choque do seu corpo sobre o colchão dispara a dor no meu machucado. — Você voltou a pensar na minha oferta? Sim. É só dizer. Diz e tudo isto vai acabar. Ele está sentado ao meu lado, mas olho fixamente para a árvore. Seu vasinho é de cerâmica, azul brilhante. O mesmo tom suave com que a luz da rua cobre o rosto do menino. Pego-me pensando se é a cor das ondas. Meus lábios se abrem, mas, em vez da resposta, vem uma pergunta. A mesma de antes. — Você me levaria para ver o mar? O embaixador franze a testa. Ele não fica bonito fazendo isso, como o menino da janela fica. Só faz as rugas do seu rosto ficarem mais fundas, mais traiçoeiras. — Não seria bom se as pessoas vissem a gente junto, em público. Mas não se preocupe. Você nunca vai precisar sair do prédio. Além disso, se é o oceano que quer, sempre vai poder ver do terraço. Quando for para o jardim. — Dá… dá para ver do terraço? — Perco o ar com a ideia de que o mar estava tão perto, esse tempo todo, e eu nunca soube. — Sim. Seng Ngoi é uma cidade litorânea. A gente está bem perto da água. — Suas palavras são rápidas e cortantes. Como o barulho daquele rojão havia muito estourado. — Chega dessa baboseira. Qual é sua resposta? Meus pelos se arrepiam com a rispidez da sua voz. Procuro o sim, aquele que estava na ponta da minha língua, esperando para ser libertado, mas ele está mais fundo agora. Incerto. Nem mesmo a lembrança do grito de Sing o chama de volta. Em vez da piscina, dos jardins no terraço e da comida chique, só consigo pensar nos seguranças na porta do apartamento. Que nunca vou ter que sair do prédio. Pode até não ter grades lá, mas também não vai ter o menino. Ninguém para me prometer uma saída. Será que posso trocar uma jaula por outra? Pedaços do mar bastam? — Mei Yee! Responda. — Sua voz é furiosa, alta demais no meu ouvido. Só tem um caminho para casa. Para o menino. Para mim. Se eu disser sim agora, vou trair o menino, destruir seu desejo de ir para casa. Vou trair a mim mesma, destruir todas as minhas centenas de desejos.

Só tem um caminho, e não é dizendo sim. — Não. — Espero que minha voz saia como um galho de salgueiro: fina, curvada e servil. Como minha coragem. Em vez disso, sou feito um bambu: cheia de lascas e partes afiadas. O embaixador sente isso. Por um breve momento, até parece ter sido espetado. Sua boca se abre, seus olhos ficam vítreos. — Quero ficar aqui, com minhas amigas… — A força que estava na minha garganta se desfaz, murcha diante da expressão que surge no rosto dele. A nuvem de tempestade, o demônio. — Você está me traindo, não está? Tem outro! Sei que tem! — Seu grito é trovão e fogo. Cospe pelo quarto, respinga no meu rosto. Sinto o calor da sua saliva. — Não! — começo a protestar, mas não importa. Aqueles braços, aqueles dedos, quebram a rotina e me prendem na cama, segurando-me com uma força que eu não sabia que tinham. A ponta afiada dos grampos de cabelo corta meu couro cabeludo quando sou jogada contra o travesseiro. Tanto suor e tanta pele. Em toda parte. Envolvendo-me com força, muita força. E dor. Estou sendo violada, despedaçada, rasgada. Aberta e fechada. Exposta e sufocada. Não. Não. Não. Talvez eu esteja dizendo isso em voz alta. Talvez não. Não consigo mais ouvir nada. Não consigo ver. Minha visão está coberta por pontos azuis, como quando eu encarava a janela e esperava o menino. Só quando o embaixador me solta e cai para o lado que me dou conta de que ele estava com a mão na minha garganta. O ar que invade meus pulmões está cheio de fumaça. A cada inspiração, o mundo vai voltando. O plástico coberto de pó das pétalas das orquídeas. Uma dezena de machucados invisíveis no meu braço, no meu pescoço. O fio vermelho ardente descendo pelas minhas pernas, manchando os lençóis. O embaixador sai da cama, recompondo-se em zíperes e botões. Não olha para mim nem para o bonsai. A porta se abre e ele está quase saindo quando me olha de relance por cima do ombro. Não sei interpretar seu rosto. Suas emoções parecem caracteres impressos, rabiscos e pontos. O que quer que esteja sentindo, é intenso. Como medo, raiva e amor, tudo misturado. Como as cores do rojão dos vizinhos. — Não importa se está aqui ou lá. Você é minha. Lembre-se disso. Ele fecha a porta. Leva consigo o vaso cheio de flores mortas.

O embaixador queria me destruir. É a conclusão a que chego quando vou mancando até o espelho e vejo as marcas de dedo borradas como tinta em volta da minha garganta. Passo vários minutos com meu pincel de maquiagem, colocando camada sobre camada de pó na pele. No entanto, por mais que me maquie, ainda consigo ver as marcas. Uma sombra estranha. Ele queria me destruir. Mas sou mais forte do que pensa. Sou mais forte do que eu mesma pensava. A única coisa que destruiu foi a si próprio, a imagem que criei ao longo dos meses, a ideia de que poderia me tirar deste lugar.

Só há uma saída. E nunca foi com ele. As outras meninas notam os machucados, mas não fazem perguntas. Ainda bem, porque sei que nunca conseguiria responder. Nunca poderia contar sobre a oferta do embaixador, sobre como recusei o paraíso de mão beijada e fui punida por isso. Elas se reúnem no meu quarto e falam sobre a menina que sofre mais do que nós. — Eles continuam fazendo Sing receber clientes — Nuo conta enquanto tenta colocar a linha na agulha. O bordado está ganhando forma: uma carpa com escamas brancas e cor de fogo, nadando contra uma corrente safira. — O mestre não a manteria aqui se não desse dinheiro para ele — Yin Yu fala com a língua na ponta dos lábios. Ela segura minha mão, passando um esmalte escarlate nas unhas. Chegou à última sem um deslize. Nuo franze a testa. A agulha perfura o tecido com força; puxa o fio tingido de amarelo- alaranjado. — Acho que… — Yin Yu continua. O pincel passa o esmalte até a ponta da unha do meu mindinho. Termina. — É melhor assim. Ela não duraria muito nas ruas. Nenhuma de nós duraria. Yin Yu acaba, tanto minhas unhas como sua fala, e fecha o tubo de esmalte. — Preciso ir — ela diz de repente. É só quando fica em pé que percebo como está magra. — Preciso lavar umas coisas no corredor oeste. Mama-san vai ficar brava se eu não terminar logo. Também levanto, tentando ignorar a dor nas coxas. — Você está limpando demais. Deixa que eu pego alguns quartos. — Você já ajudou bastante. Além disso, não devia estragar suas unhas. — Yin Yu faz um sinal para eu sentar e desparece pela escuridão da porta. Só restamos nós três agora, sentadas em silêncio. Wen Kei olha para a porta como se fosse a boca de um monstro marinho, ameaçando engolir seu corpo frágil. Nuo perfura a agulha no tecido. Ela escapa, afunda na pele. Um lamento baixo sai de seus lábios quando leva o dedo machucado até eles. — Yin Yu vive para trabalhar — ela diz quando tira o dedo, apertando-o contra o tecido sedoso do vestido. — É o que dá forças para ela continuar. — Eu sei. — As outras duas meninas ficam me encarando. Quatro olhos escuros e cheios de perguntas, poços sem fundo. Não consigo aguentar os olhares por muito tempo, então olho para a cortina vermelha na janela. Combina com a nova cor brilhante das minhas unhas. Ainda sinto o olhar fixo de Nuo. — Por que você pegou as tarefas dela? Quer virar uma mama-san? — Foi o que Yin Yu disse — Wen Kei acrescenta. Se há uma hora para contar, é agora. Lembranças, fantasmas do menino e das promessas dele, desfilam pela minha mente como uma procissão de monges de manto laranja. Tem um ardor no meu coração, contorcendo-se, querendo sair e mostrar a luz para elas. O vermelho da cortina parece mais vivo, mais de sangue do que de chamas. Quero abrir a cortina, mostrar a concha. Mas, toda vez que penso em fazer isso, ouço os apelos desesperados de Sing, arranhando e lutando dentro da minha cabeça. Sei que as outras

não vão entender. Não do jeito que eu entendo. Só vão tentar me impedir. Como tentei impedir Sing. — A reunião é daqui a pouco. — Mudo de assunto. — É melhor a gente se preparar. Nuo leva o dedo ao rosto. Ainda tem sangue lá, espalhado como uma segunda camada de pele vermelha. A agulha deve ter ido fundo. Penso em todas as cordas esticadas na sua cítara, feitas de aço cruel. — Você vai conseguir tocar? Ela franze a testa, coloca o bordado sob o braço. — Tenho escolha? Nenhuma de nós diz nada, porque todas sabemos a resposta.

Na reunião, minhas mãos não tremem. A bandeja laqueada de preto fica firme enquanto arrasto os pés pela sala, servindo vinho e oferecendo fogo. Há tanta fumaça vindo dos cachimbos e cigarros da Irmandade que em pouco tempo não consigo mais ver Nuo com clareza. Só sei que ela está lá por causa da música. Apesar do dedo enfaixado, as notas cortam o ar, firmes e fortes. E, apesar da dor nas pernas, ando com a postura ereta, mantenho um sorriso na cara. Somos mais fortes do que eles pensam. Longwai mantém o livro de registros perto dele. É pequeno: do tamanho daqueles blocos de notas em que Sing desenhava nosso rosto. Do comprimento de um tijolo, mas da grossura de um polegar. A capa é de um vermelho tão brilhante quanto o dedo ferido de Nuo, decorado pela crista de um dragão dourado reluzente. De tantos em tantos minutos, ele vira as páginas, passando por caracteres enigmáticos escritos semanas e meses atrás. Durante toda a reunião, enche o livro de mais anotações; alguns números eu reconheço, caracteres que aprendi quando Sing tentou nos ensinar a ler. Às vezes, ele está tão concentrado pintando linhas e curvas de tinta que os homens precisam repetir para ser ouvidos. Quando a reunião termina, junto os copos vazios rapidamente, torcendo para que Longwai e o livro fiquem onde estão e eu possa segui-los depois. Os copos tilintam quando batem uns nos outros; suas bordas vermelho-púrpura disputam espaço na minha bandeja. Tento andar devagar, mas, pelo reflexo do armário, vejo Longwai se levantando, com o livro firme nas mãos. Ele começa a andar até o corredor do outro lado, na direção das escadas. Guardo os copos na prateleira de baixo, ainda manchados pelo vinho de ameixa, e sigo. Nunca estive na escada antes. Na verdade, só cheguei a ver a escada duas vezes. Fica no fim do corredor leste, perto da porta do quarto de Mama-san. É em espiral, como minha concha de náutilo, subindo e subindo, rumo à escuridão. Não sei se consigo fazer isso. No fundo do peito, sinto um puxão, um fio de covardia me segurando, implorando para que eu volte para o quarto. Sente na cama e espere. Peça desculpas ao embaixador e aceite sua oferta. Peça desculpas a Yin Yu. Diga ao menino que não posso fazer o que ele pede. Seja igual à minha mãe. Continue suportando. Mas então me lembro do demônio sob os olhos do embaixador e sei que as coisas nunca

mais vão ser as mesmas entre nós. Ainda que ele nunca volte a me machucar, todo toque vai me lembrar da noite em que me fez sangrar. Calo todos os medos e continuo andando, passando por todo o corredor banhado por trevas, subindo todos os degraus. A porta no alto tem uma fresta aberta, derramando uma luz amarelo-escura sobre a escadaria. O ar aqui tem um cheiro diferente, carregado de mofo, couro e tinta. Aromas ao mesmo tempo fortes e deteriorados. Eles se prendem na minha garganta quando bato no batente da porta. Ela se abre. Longwai está atrás, ocupando a maior parte da entrada com seu volume. Gotas de suor pontilham sua sobrancelha, e seu peito incha com inspirações fundas. Seus olhos escurecem e se enrugam ao me ver. As meninas não sobem esses degraus. — O que está fazendo aqui em cima? — Suas palavras são firmes e precisas, como se tivessem sido talhadas por uma faca. — E-eu queria falar com o senhor. — Faço uma leve reverência enquanto gaguejo isso, e vejo de relance sua sala. Uma parede inteira de armas: espadas, pistolas, rifles, facas. Passo os olhos de um lado para o outro. Nada do livro. Minha reverência dura mais do que deveria. Sei muito bem disso quando me levanto e sinto o olhar minucioso de Longwai. — Estou ocupado. Todos os problemas que tiver devem ser levados para Mama-san. — Ele aponta para a escada. O movimento permite que veja mais um pouco. Vislumbro uma cama e uma tela cheia de imagens brilhantes em movimento. A TV. Ainda nada do livro. — Eu… — Minha cabeça está a mil, buscando palavras e justificativas que possam me manter aqui. Dar-me tempo suficiente para encontrar aquele livro fugidio. — Não posso falar com Mama-san. Não posso confiar isso a ela. Longwai franze a testa. — Ah, é? Meu coração grita profanidades em forma de batidas. Não sou uma espiã, não nasci para isso. As mentiras que tenho para dar de comer ao dragão, aquelas em que passei horas pensando, parecem viscosas e podres. Como algo que ele vai cuspir de volta. Eu as ofereço mesmo assim. — Ela tem suas favoritas. — Fico, bem de leve, na ponta dos pés, tentando dar mais uma olhada. Não há nenhuma cor no quarto do traficante. Quase tudo é preto ou de algum tom de marrom. Os móveis, o chão, as decorações na parede. As únicas coisas que brilham são a tela da TV e um aquário. Lançam uma luz fantasmagórica em todo o quarto. Finalmente, encontro. O vislumbre tênue do vermelho. É só a ponta de alguma coisa, saindo da gaveta aberta da escrivaninha. Tem que ser ele. — Todo mundo tem favoritas. — A voz retumbante do mestre me faz abaixar os olhos de novo. — É… é a Yin Yu. — Vou tropeçando nas minhas próprias palavras. Minhas veias se entopem de culpa, como se o sangue nelas tivesse parado. — Ela… ela está com ciúmes por eu ter assumido suas tarefas. Estou com medo de que esteja dizendo mentiras sobre mim para Mama-san. E de que você ou o embaixador possam ouvir alguma coisa que os desagrade. Alguma coisa que não seja verdade.

— Você acha que Osamu está pagando por seu caráter? — Sua boca se abre num sorriso, depois se fecha num rosnado. — Que isso é uma escola de etiqueta para meninas? Faço que não e solto mais algumas palavras. — Não quero acabar como Sing. — Então não acabe — diz Longwai. — É só isso? — S-sim. — Dou um passo para trás, sendo lembrada da proximidade dos degraus. Meu calcanhar fica pendurado na beirada. A essa altura, pode até ser uma bênção se eu cair para trás. Alguns arranhões e hematomas parecem melhor do que a forma como Longwai me encara agora. Como um pedaço de carne. — Não me incomode de novo — ele rosna. — Obrigada, senhor. — Faço outra reverência, dou mais uma olhada no livro. Ainda está lá, encaixado na gaveta. Longwai resmunga e fecha a porta. Desço os degraus com os joelhos trôpegos. Eles batem e tremem a cada passo. No meio da escada, passo por Fung, que me observa com os olhos escuríssimos. Os degraus são tão estreitos que nossos ombros se tocam. Preciso me encolher contra a parede para deixar que passe. Estamos tão perto que ele não tem como não ver que estou tremendo. O bandido não comenta nada. Sua única palavra é um “cuidado” meio resmungado antes de continuar subindo, sem olhar para trás. Eu consegui. Vi onde Longwai guarda o livro de registros. Corri o risco. Jin Ling ficaria orgulhosa. Meu coração está tão inflado e cheio — com pensamentos sobre minha irmã, o menino, o mar — que esqueço os copos sujos no salão. Continuo andando direto para o corredor norte. Passo pelo silêncio tumular do quarto de Sing. Pelas portas fechadas de Nuo, Wen Kei e Yin Yu. Até o fim.

6 DIAS

DAI

QUANDO EU ERA MENOR e precisava de um lugar para pensar, sentava à margem do laguinho de carpas. Era um dos prazeres da minha mãe, uma lembrança de seu país natal, instalado nos fundos da casa, onde uma parede de vidro dava para o jardim de pedras. Parte da lagoa se estendia para debaixo da casa. A outra se projetava sob o vidro para dentro do jardim de cascalho cuidadosamente rastelado. As koi nadam até a margem de seu pequeno mundo e voltam; suas escamas reluzem, brancas, cor de fogo e âmbar. Seu movimento é suave e alinhado, como um tipo de hipnose cravada de joias. Acalma a mente. Sempre que Hiro cansava de ler suas enciclopédias infinitas, ele descia até aqui e jogava moedas na água. Elas rodavam pelas pequenas ondas — cometas de prata, cobre e ouro — e caíam no verde entrançado das algas. Nunca acertou um peixe. Hiro. Inspiro e mergulho os dedos no tanque. Durante minha confissão a Jin — Jin Ling — foi a primeira vez em muito tempo que disse seu nome, ou mesmo pensei nele. Passei tanto tempo tentando esquecer. Enfiando Hiro num mundo de pesadelos. Tentando cortar os laços com tudo e com todos. O fantasma do meu irmão está em toda a casa. Sussurrando “Se ao menos…” no me ouvido. Se ao menos eu tivesse dado ouvidos a ele. Se ao menos tivesse sido um irmão melhor. Se ao menos… Passei setecentos e trinta e oito dias em Hak Nam, fazendo todo o possível para sair e encontrar um caminho de volta para casa. Mas não é desta casa que preciso. Falar com Jin — Jin Ling —, contar a ela minha história, fez essa verdade entrar na minha cabeça. Uma mansão chique em Tai Ping não vai me curar. Tentar esquecer também não. Isso nunca vai me fazer merecer o perdão do meu irmão. Calar os fantasmas… Mergulho a mão mais fundo, a linha da água chega à altura do punho. As koi se dispersam; suas escamas chispam como tochas no céu da noite. Pergunto-me se as moedas de Hiro ainda estão lá no fundo, escondidas entre os anos de algas e cocô de peixe. A lagoa é fria demais. Tiro a mão e passo na camisa. Eu me preocuparia com manchas, mas sei que meu pai nunca vai usá-la de novo. Depois de conversarmos, Jin Ling adormeceu. Os remédios a forçaram a repousar. O livro de estrelas de Hiro estava fechado ao seu lado, ocupando o espaço que seria do gato. Nunca me senti tão desperto. Minha cabeça está a mil com as possibilidades. Penso em Jin Ling e sua irmã. A garota e o livro de registros. O Ano-Novo e os seis dias que faltam. A garota… ela não sai da minha cabeça. A maneira como seus olhos ganharam vida quando lhe dei a concha. Como sua mão pressionava a grade, refletindo a minha. Como, quando olho

pela janela, não tenho de ver meus pedaços. É ela que vejo, juntando meus pedaços. Como suas palavras trouxeram um sorriso ao meu rosto, tirando-o do nada como um coelho da cartola. Eu não sorria daquele jeito fazia muito, muito tempo. Nunca me senti tão desperto. O arrastar de pés me faz erguer os olhos e vejo Emiyo parada do outro lado do laguinho. Seus dedos são tão brancos que parecem ossos expostos. — Mestre Dai, o senhor tem visita. — As palavras de Emiyo são parafusos apertados até não poderem girar mais. Não tenho dúvida de quem é. Posso sentir o cheiro da fumaça daqui. — Obrigado, Emiyo. Meu supervisor está no vestíbulo. Quando entro, ele finge estar ocupado examinando uma tapeçaria de pardais e flores de cerejeira. A ponta acesa de seu cigarro brilha tão perto do tecido que chega a ser perigoso. — Não pode fumar aqui dentro — digo. Tsang se endireita, voltando o olhar para onde estou parado. Ele tira o cigarro da boca, deixa-o queimar entre os dedos. — E você não pode sair de Hak Nam. Mas aqui estamos nós. — Como descobriu? — Ergo uma sobrancelha, tentando não demonstrar o medo que começa a se agitar na minha barriga. — Você faltou a uma reunião. Além disso, a polícia recebeu uma ligação muito interessante de um taxista uns dias atrás. Disse que levou dois meninos cobertos de sangue para Tai Ping. Não demorei muito para ligar os pontos. Eu perdi a reunião… Há quanto tempo estou aqui? Esta casa tem alguma coisa que me faz ficar parado. Dias, meses, anos. Nada muda além do nosso rosto. O que mais perdi? — Eu poderia mandar prender você — meu supervisor continua —, se tivesse vontade. — Eu precisava fazer alguma coisa — digo. — Meu corredor estava morrendo. — E você fez. Não obedeceu quando mandei se livrar do moleque — ele resmunga. — Agora está aí, sem fazer nada. Desperdiçando dias. Vendo o tempo passar. Cerro os dentes. Não olho nos seus olhos nem na verruga saliente no canto do queixo. Em vez disso, olho fixamente para baixo, para o cigarro e as cinzas que caem no piso. — Até agora fui paciente. Mas nosso tempo está acabando. — Meu supervisor bate um pouco o punho, rápido demais para ser sem querer. A cinza de um calor branco explode nas tábuas do piso. Daqui, quase parece neve. — Quero você de volta em Hak Nam até hoje à noite. Aborrecido, bato de frente:

— Ou o quê? Tsang coloca a mão no bolso do paletó. A princípio, penso que está pegando outro cigarro (o dele está no fim), mas ele tira de lá um papel dobrado. Mostra para mim: meu nome, meus crimes, minha absolvição. Está carimbado e assinado por um dos juízes mais poderosos de Seng Ngoi. Liberdade em tinta fresca e papel fino. Tão perto que daria para eu estender o braço e

tomar dele. — Se conseguir o livro de registros, se me ajudar a ferrar Longwai, ganha isto. Senão… — Tsang puxa o documento de volta, perto demais do brilho âmbar do cigarro. O ar ao nosso redor cheira mal. — Basta um telefonema. Só um e você vai pra cadeia. Ele acha que vai me assustar, calar todas as perguntas. E devia. Uma vida de macacões azuis, bandejões, tomando sempre cuidado para não levar uma facada, não é algo para se zombar. Mas só consigo pensar na promessa que fiz à menina. Posso tirar você daí. Preciso que isso seja verdade. — As meninas no bordel do Longwai. O que vai acontecer com elas? — Penso em como seria fácil escorregarem pelas numerosas fendas de Hak Nam. Serem sugadas pelas trevas da correria nas ruas e da luxúria dos homens. — Não se preocupa com as putas. Se preocupa com você. — Tsang volta a dobrar o papel (um feito e tanto com apenas uma mão livre). — O que está acontecendo aqui? — Meu pai anda até meu lado, mas não olha para mim. Toda a sua concentração está no olhar furioso para o agente da Seção de Segurança. Sua boca está firme, mas seus olhos estão alertas e penetrantes, como um dobermann irritado. Aposto que é a expressão que usa quando tenta intimidar o outro lado da mesa de negociações das Indústrias Sun. Por isso nossa família é rica o bastante para morar em Tai Ping. — Só estou trocando uma palavrinha com seu filho, sr. Sun. — Meu supervisor fica com as mãos atrás das costas, escondendo o cigarro. — Está ficando tarde — diz meu pai, por mais que não seja verdade. — Sem dúvida você tem que voltar para o trabalho. — Já terminei aqui. — Meu supervisor abre um sorriso leve demais para ser sincero. — Sei onde fica a saída. E ele vai embora. A porta abre e fecha, deixando entrar um uivo de ar gelado que só aumenta o cheiro de fumaça. As cinzas no piso giram em redemoinho e se extinguem. — O que eles estão mandando você fazer? — Com os olhos, meu pai segue as cinzas. Olhamos juntos para elas. — O impossível — digo, por ser a resposta mais curta, fácil e verdadeira. — Existem outros jeitos, Dai Shing. — Existem? — Ergo os olhos. Ele está parado perto de mim. Nossas camisas são iguais, exceto que a minha ainda está molhada pela água do lago. Pela primeira vez, percebo que sou mais alto que ele. — Nem todo o seu dinheiro poderia livrar minha cara de tráfico de drogas e três cadáveres. Meu pai fecha os olhos. Suas pálpebras tremulam, como se estivesse sofrendo. — Você pode fugir. A gente tem contatos no exterior. Seu inglês é muito bom. Já estou com os documentos prontos. Fugir. Eu me pergunto por que ele só sugere isso agora, no último minuto. Pediu-me para esperar por tanto tempo, obrigou-me a fazer tantas coisas para limpar meu nome. Nosso nome. O nome da família Sun. A expressão em seu rosto me diz tudo o que preciso saber. Se eu fugir do país, vou trazer vergonha para nossa casa. Qualquer chance que meu pai teria de conseguir uma absolvição,

de limpar nossa reputação (tanto quanto fosse possível), iria embora comigo no avião. Por isso

é a última opção. O último recurso. Eu poderia fugir. Começar do zero, longe de Hak Nam, de Seng Ngoi e da minha família. Longe da Seção de Segurança e do livro de Longwai. Longe das meninas.

Não se preocupa com as putas. Se preocupa com você.

É tudo o que tenho feito há muito, muito tempo. Salvar minha própria pele. Preocupado, sempre preocupado. Atenção: insônia e egoísmo podem ser efeitos colaterais. Penso em como a mão de Jin Ling parecia pequena sob a minha. Penso na menina atrás da janela, em sua trança de meia-noite e no tênue clarão de esperança. Penso até naquele maldito gato, sem rabo e sozinho em Hak Nam, talvez ainda miando como se fosse o dono do lugar. Esses pensamentos torcem e retorcem meu coração. Arrancam uma única verdade inegável: a questão aqui não sou mais eu. Talvez nunca tenha sido. De repente, eu me dou conta do que quis todo esse tempo. A dor que voltar para casa não curou. Redenção. Uma chance de consertar as coisas. Não posso ressuscitar meu irmão, mas posso ajudar aquelas meninas. A saída delas é a minha. Não posso confiar na Seção de Segurança para encontrar a irmã de Jin Ling ou libertar a menina atrás da janela. São coisas que eu mesmo tenho que fazer. Desta vez, não vou fugir. — Eu preciso ficar. Preciso consertar as coisas. — Os olhos do meu pai ainda estão fechados quando falo isso para ele. — Vou voltar para Hak Nam. — Não tem nada para você lá — ele diz, com a voz firme. Dez dias atrás, teria razão. Mas agora… nem preciso fechar os olhos para ver o rosto da menina, sinto sua agitação no fundo do peito, arrancando a verdade, lembrando a suavidade da concha ao toque dos meus dedos. Minhas promessas não precisam ser vazias. Posso até não ser uma boa pessoa, mas vou virar uma. Vou escrever uma nova resposta para quem sou eu: o herói que a menina da janela vê. Guardo tudo isso dentro de mim. Mesmo se eu dissesse em voz alta, não sei se meu pai daria ouvidos. Nunca foi um bom ouvinte. Seus olhos se abrem e, em vez de dobermanns, eles lembram bicos de corvos. Sagazes. Afiados. Examinam-me, cutucam todos os detalhes como a ponta de uma agulha. É em momentos como este que me pergunto por que ele não me odeia. Por que me mantém vivo apesar de todos estes anos de maços de dinheiro. — Vou mandar trazer o carro — ele diz.

JIN LING

ELES ME DÃO REMÉDIOS PARA A DOR. Medicamentos que me fazem sentir como se eu estivesse me afogando na minha própria cabeça. A maior parte é escuridão. Um preto intenso, intenso. Não resisto. Não quero resistir. Só sei que os dias são diferentes quando a enfermeira vem com uma roupa nova. Liga os tubos a uma bolsa cheia de medicamento. Tira a bolsa vazia. … … … Então, Dai. Dai? Ele para ao lado da cama. Fala. Tento ouvir, mas o sono entope meus ouvidos como chumaços de algodão. Ouço só algumas palavras. — Tchau… voltar… irmã… precisa de repouso… não vem atrás de mim… Voltar? Dai vai voltar? Quero sentar. Quero brigar com ele. Fazer com que me leve junto. Não pode me deixar aqui sozinha, dormindo em travesseiros chiques de pluma, enquanto vai buscar Mei Yee. Tento dizer isso. Abro a boca, ergo a mão para segurá-lo, mas tudo está tão pesado. Em vez disso, é ele quem me segura. Pega minha mão. Aperta na dele. Desta vez, ouço todas as palavras que diz:

— Vou encontrar sua irmã e trazer ela de volta. E, por um momento, logo antes da escuridão cair, eu acredito nele.

DAI

MEU APARTAMENTO PARECE MENOR. Como se um gigante tivesse encostado do outro lado da parede e a empurrado. Não é a primeira vez que entro e percebo como é vazio. Mas é a primeira vez que esse vazio me incomoda. Tenho quase tudo de que preciso. Emiyo conseguiu esfregar todo o sangue do agasalho preto e da calça jeans. Minha arma ainda está dentro da calça. Só tem um motivo para eu estar aqui. Há tantas coisas esperando para serem encontradas: a irmã de Jin Ling, o livro de registros, o gato sem rabo. Não tenho tempo para ficar. Já desperdicei muito, e a menina atrás da janela está me esperando. Nem desamarro o cadarço das botas ao entrar. Três passos são tudo que preciso para chegar à parede. Quatro movimentos com o dedo bastam para apagar as marcas. Meu dedo fica tão preto quanto minhas roupas. Nunca tinha apagado tantas de uma vez só. Seis. Está na hora de pôr um fim nisso.

MEI YEE

O MENINO NEM PRECISA BATER. Sinto que está lá, atrás do vidro, esperando. Puxo a cortina, encosto o rosto na grade. Alguma coisa nele está diferente. Olho entre o metal, estudando a posição de seus ombros fortes sob o moletom. Está igual. Seu cabelo também, as pontas tocando os maxilares e o queixo. Ele ainda parece sentir frio, com as mãos enfiadas nos bolsos. Não é nada na aparência. Ele é a imagem cuspida e escarrada de seus eus anteriores, como uma pintura feita exatamente igual três vezes. A diferença está nos olhos e na maneira como está mais perto. Como alguém perdido que reencontrou seu caminho. Ele não é o único. Não sou a menina que estava atrás do vidro uma semana atrás:

esbaforida, com medo. Sei o que mais quero, os pedidos que faria se Jin Ling estivesse aqui. Se visse uma estrela cadente. E vou fazer o que for necessário para atingi-los. — Oi. — A voz dele também mudou. A palavra é mais forte, confiante. Ecoa no meu peito feito bronze, faz até meu coração palpitar. — Achei o que você está procurando. — É difícil não falar alto, mas essa notícia exige muito mais do que um murmúrio. — Eu estava certa. Longwai guarda nos aposentos dele. Na gaveta de cima da escrivaninha. Minhas palavras saem tão rápido que eu ficaria surpresa se o menino conseguisse entender. Mas ele entende. Sei porque consigo ver seu olhar se encher, transbordar da mesma luz que inundou minhas veias. — No andar de cima? — Isso — continuo, animada pela esperança em seu rosto. — A escada fica no fim do corredor leste. Perto do quarto de Mama-san. O menino fecha os olhos, encosta a cabeça na parede de blocos de cimento do outro lado. Ficam tão fechados que consigo distinguir cada um dos seus cílios, que batem. Suas mãos, percebo, estão limpas desta vez, sem sujeira. Mas a ponta de um dedo está manchada de preto, quase como se estivesse coberta de fuligem. Eu me pergunto o que o sujou. Estou tão concentrada nesses detalhes, tão perdida nos traços do rapaz, que sua voz me pega de surpresa:

— Não sei o que fazer — ele diz, com os olhos ainda fechados. — Você precisa do livro de registros, não precisa? — Sim. É… parte de um acordo que fiz com pessoas importantes. Pessoas que podem tirar você e eu daqui.

— Como planeja pegar? — N-não sei — ele repete, abaixando os ombros. — Eu tinha um plano. Mas as coisas deram errado. Meu parceiro levou uma facada. Dor. Doença. Morte. Longwai não estava mentindo sobre as ruas da Cidade Murada. Minha respiração se quebra em dezenas de pedaços. Levo um segundo para recuperar o fôlego, falar sem que minha voz trema. — E se você não levar o livro para essas pessoas importantes… o que vai acontecer? — Nada de bom. O que significa que ele vai ficar lá fora e eu vou ficar presa aqui dentro. Sufocando com a fumaça de incenso e cobrindo os machucados com pó, duas possibilidades diferentes de vida destruídas. Olho para o quarto por cima do ombro. Para o cipreste que nunca vai crescer. Volto o olhar para a concha de náutilo e para o menino atrás dela. Seus olhos continuam fechados, seu rosto voltado para o céu, tão pálido e rutilante quanto a cauda de um cometa. Meus dedos apertam a grade com mais força, desejando estar do outro lado, junto dele. Só um dos meus desejos. O que for necessário. — Eu pego — digo a ele. — Eu pego o livro. Seus olhos se abrem, encontram os meus. A luz atrás deles é cintilante, feroz. — Se virem você… se Longwai descobrir o que está tramando… — Seu rosto fica carregado, como o de um homem que acabou de descobrir que só tem uma semana de vida. — É muito arriscado. Ele vai acabar com você. Não posso deixar isso acontecer. Minha pele treme pelo mesmo desejo, pela mesma ânsia, que havia nos dedos do embaixador. Esforçando-se para surrar, apertar, moldar e dar forma. Enfiar-me em seu pote minúsculo de cascalho. Transformar-me em algo que não sou. É o único jeito. Na minha cabeça, vejo Sing se contorcer, gritar e berrar. Ouço a picada da agulha sob a pele, vejo a expressão sonhadora ocupar seu rosto. Sinto a escuridão do corredor oprimindo, murmurando em coro: Eu preciso. Eu preciso. Eu preciso. Pedidos custam muito mais do que estrelas cadentes. — Eu sei — respondo, porque é verdade. — Mas não consigo mais viver deste jeito. Às vezes, um fim parece muito melhor do que o que estou vivendo. Se tem alguma saída, alguma porta aberta, preciso aproveitar. — Mesmo se parece impossível? Mesmo tendo dragões atrás da porta? Mesmo assim. Não digo em voz alta, porque a voz do menino mostrou que ele já sabia disso. Ficamos olhando um para o outro. Olhos nos olhos. Seu olhar fixo despedaça o vidro, perfura o metal. Zune pelo meu corpo, carregado e elétrico. Cheio de brilho, esperança e possibilidades. — Meu nome é Dai — ele diz. — Sun Dai Shing. Qual é o seu? Dai. Não é o nome que eu teria escolhido para ele. É curto demais, abrupto demais, estrangeiro demais. Mas deixo que entre na minha cabeça por um tempo. Deixo que se encaixe com seu cabelo, seus olhos e sua pele. Quanto mais penso no nome, quanto mais

olho, mais parece combinar. O menino, Dai, se mexe de um jeito que os raios de luz safira da rua ao longe não incidem mais sobre seu rosto. Meus olhos se apertam, esforçando-se para penetrar a nova escuridão entre nós. Abro a boca, mas nenhum som sai, como se minha garganta estivesse seca. Não tenho nome. Dai volta a entrar na luz. Algo nesse azul elétrico e fantasmagórico me reconforta. Volto a respirar, fingindo que o ar ao meu redor não está poluído por incenso e suor masculino. Penso nas montanhas. No pé de ginkgo e em como minha mãe me chamava pelo nome tantas e tantas vezes. Não era para ser tão difícil dizer meu próprio nome. Mas penso nas últimas vezes em que disse a ouvidos que não mereciam. Para Longwai, que o pronuncia como uma aranha. Para Osamu, que o diz como se me conhecesse. Esse menino à minha frente, com as mãos entrelaçadas e o rosto coberto por sombras, não é Longwai. Não é Osamu. Ele é Dai. E me confiou seu nome. Então, devo confiar o meu a ele. Devo confiar tudo a ele. — Eu me chamo… — Eu me esforço para não ficar rouca. Minhas palavras ficam mais firmes, tão claras quanto seus olhos elétricos e sem fim. — Eu me chamo Mei Yee.

DAI

TODO O AR SAI DOS MEUS PULMÕES AO SOM DO NOME DELA. Encosto na parede, a camada fina

de água desliza pelo meu moletom. Fria. Devagar. O inverno está ficando forte demais para este agasalho. Devia ter colocado o outro casaco. É nisso que penso enquanto encaro o rosto da menina. Talvez porque seja mais fácil me concentrar nisso. Em me aquecer, em um casaco, em algo que possa controlar. Em algo com que possa lidar. Mas isso… ela… é muito mais do que calor. É fogo, uma alma, um nome. Mei Yee reverbera na minha cabeça, nas minhas veias. Estilhaça nos confins do meu peito. Mais forte do que um explosivo. Incontrolável. Mei Yee. Que cresceu numa plantação de arroz cercada por montanhas. Igual a Jin Ling. Quais são as chances? Volto a estudar seu rosto, procurando traços correspondentes. Não é uma semelhança perfeita, mas, quanto mais olho, mais encontro. A maneira como seu lábio se curva para o lado quando fica nervosa. A grossura e a curvatura dos cílios. Mas posso estar vendo coisas. Mei Yee não é um nome tão raro assim e é comum as meninas de bordel mudarem de nome. Penso nas plaquinhas nas portas. Em como os caracteres escarlates ficavam quase invisíveis sob a luz. Preciso perguntar para ter certeza. Desencosto da parede. — Você tem uma irmã? — Tinha — ela responde. — Antes. Por que quer saber? É o bastante. É o bastante para eu saber. Suas palavras são tristes, mas não pela perda da morte. Não trazem o mesmo vazio que as minhas quando falo de Hiro. A irmã de Mei Yee ainda está viva, em algum lugar. E aposto que esse lugar é a mansão dos meus pais em Tai Ping. Ainda sinto a mão entubada de Jin Ling na minha, apertando-me ao som do meu juramento. Parecia uma promessa sólida, simples, lá no alto da colina, cercada por portões e lagos de carpas. Aqui, em terra firme, é outra história. Por um momento, considero contar para ela. Mas e se Mei Yee não for a irmã? Ou pior, e se for e eu não conseguir tirá-la daqui? Não posso dar falsas esperanças. É cruel demais. — Só para saber. — Tento dizer isso o mais levianamente possível. Meu coração está agitado, esforçando-se para se livrar do alvoroço. Do medo. Minha desculpa para entrar no bordel está de repouso na cama, o que significa que o livro está fora do meu alcance. E, sem o livro, não posso garantir liberdade para Mei Yee. Não

posso ter o livro sem ela. Não posso tirá-la de lá sem arriscar sua vida. Sem lançá-la à frente como uma rainha num jogo de xadrez. Penso na menina silenciosa cujo cabelo se arrastava no chão. Sua fuga ensanguentada, em farrapos, que deu errado. Sinto um aperto no coração, que sobe pela garganta. Não quero arriscar. Arriscar a menina. Mas essa deve ser a voz do meu egoísmo cretino. Engraçado como as coisas mudam rápido. Os dedos de Mei Yee atravessam a grade como plantinhas brancas. Delicadas, em busca do sol. Passam tanto que consigo ver suas unhas, cobertas por um esmalte vermelho intenso e brilhante. A cor não combina com ela. Violenta e cintilante demais. — Vou pegar o livro — ela diz, mais alto. — A gente faz isso juntos — digo. — É melhor você não pegar o livro do Longwai na primeira chance que tiver. Ele vai sentir falta, com certeza. A gente precisa arranjar um jeito de tirar o livro daí. Além disso, você vai precisar de uma distração para chegar lá em cima e voltar sem ser notada. Minha cabeça parece um daqueles relógios mecânicos de corda que Hiro colecionava e desmontava (na sua fase “o jeito como as coisas funcionam é legal, quero ser engenheiro”). Só que as peças não estão espalhadas na mesa dele. Estão girando em velocidade máxima. — De quanto tempo você precisa? Para conseguir as chaves e chegar lá em cima? — Depende. Mama-san fica com as chaves por perto quase o tempo todo. Exceto… — Mei Yee para, passando a mão no cabelo da cor da noite sem estrelas. A trança gira em torno da sua cintura como uma corda. — Exceto quando Yin Yu está com elas. — Yin Yu? — Uma das meninas. Ela limpa os quartos para Mama-san, o que significa que tem acesso às chaves. — Você confia nela? A mão de Mei Yee para. Não consigo mais ver seu punho, tragado pelo preto brilhante. — Sim. Se… se eu puder dizer o motivo. Você tem dinheiro? A pergunta me pega de surpresa. — Um pouco. — As outras meninas também podem ajudar. O caderno é bem pequeno. Mas não vai passar por esta grade. — Mei Yee aponta para o ferro entrelaçado. Pouco mais de um ou dois dedos poderiam passar pelos buracos. — Vai ter que sair pela porta. Quando eu conseguir, você tem que pagar para ficar com uma menina chamada Nuo. Espera no quarto dela e eu deixo o livro lá. — Essas meninas, Nuo e Yin Yu, como você sabe que não vão trair você? — Algumas semanas atrás teve outra menina, Sing. A gente sabia que ela ia fugir. Algumas até tentaram impedir. Mas ninguém dedurou. — Não contar nada é diferente de roubar — digo. — Fala pra elas que, se a gente conseguir o livro, posso tirar vocês todas daí. Mei Yee olha para mim. A maneira como me encara, sem piscar, lembra uma criança no zoológico. Devo ser um bicho, preso do outro lado das grades, fazendo e dizendo coisas que não consegue entender direito.

— É verdade? — ela pergunta por fim. Engulo em seco, penso em todas as cinzas e na indiferença de Tsang. A polícia não se importa com as meninas, isso é certo. Mas, depois que o livro estiver do lado de fora, depois que todos os mandados de prisão forem emitidos, depois que eu ajudar a ferrar Longwai, não vai ter mais ninguém para trancar a jaula delas. Ninguém para impedir que fujam. — Sim — respondo. — Não posso contar mais, porque é segredo. Mas sim. Se você conseguir o livro, vocês todas vão estar livres. — As outras meninas vão ajudar — Mei Yee diz, rápida e segura. — Só… toma cuidado. — Meu coração aperta no peito. Confiar nessas duas meninas, nessas duas irmãs, já é muita cosia. Acrescentar mais duas garotas sem rosto à missão parece demais. Variáveis demais, chances demais de algo dar errado. — Seja discreta. — Quando a gente vai fazer isso? Envolver as meninas muda muitas coisas, e a mais importante delas é o tempo. Antes, quando era só o meu (e acho que o de Jin Ling) na reta, eu queria encontrar o livro o mais rápido possível. E podia correr, mas as meninas… são camundongos presos numa ratoeira. Se Longwai descobrir quem roubou o livro, ele pode — e vai — destruir cada uma delas. Mesmo se eu agisse sozinho, pagasse para ficar com uma das meninas ou tentasse conseguir um convite, não teria como evitar que Longwai punisse as garotas, descontasse a fúria naquelas menos capazes de resistir. Coisas demais nos ligam. Por bem ou por mal, estamos todos juntos nessa. É o único rumo que podemos tomar. Tudo precisa ser rápido, para que Longwai não perceba que o livro desapareceu até que a polícia arrombe sua porta. O golpe só pode acontecer no último minuto. — Na véspera do Ano-Novo. Daqui a cinco dias. Vou passar na sua janela pouco antes de entrar no salão. Vou distrair Longwai e Mama-san por tempo suficiente para que vá lá em cima e volte. Vou pagar para ficar com Nuo e esperar no quarto dela até você deixar o livro. Vou embora sem que Longwai desconfie. Depois volto para buscar vocês. Mei Yee engole em seco. — E até você voltar? — Mantenha Longwai no andar debaixo, fumando. Até dar meia-noite. — Como vou saber que você vai voltar? — É a pergunta de uma menina que foi deixada para trás. Várias, várias e várias vezes. A trança sai de cima do punho e vejo a marca ali. Uma mácula colorida em meio ao branco impecável. Estranha demais para ser uma sombra, borrada como a digital de um criminoso. A assinatura de certo egoísta cretino de meia-idade. Maldito Osamu. Olho para o rosto dela e não importa. Não importa se seu pai a vendeu por uns trocados. Ou se ela pode ser a irmã de Jin Ling. Ou se minha liberdade, minha vida, está agora em suas mãos. Ou se a concha foi feita numa fábrica. Mesmo com os hematomas, nunca vi nada tão perfeito e inteiro como ela. Como Mei Yee. — Vou voltar para buscar você. Custe o que custar. — São as palavras de um grande herói saindo da minha boca. A melhor parte de mim, a parte que ela despertou, chega a Mei Yee

através do vidro. Acho que nunca fui tão sincero em toda a minha vida.

Passei só alguns anos com meu avô, mas são lembranças que não esqueço. Como ele sempre ficava paralisado ao ouvir um avião. Como sempre segurava a bengala com força, as veias do braço inchando como larvas verde-azuladas enquanto caminhava. Eu tinha cinco anos quando finalmente criei coragem para perguntar sobre seu joelho. Seu queixo tremia; os pelos brancos como nuvem da barba estremeciam como se o vento os penteasse. — Há muito tempo, muito antes de você ou sua mãe nascerem, eu fui para a guerra. Sabia disso? Fiz que não. — Eu era piloto. Não lutava; quase só jogava suprimentos para os homens em terra. — Ele parou. As duas mãos seguravam a bengala, apoiando todo o peso naquele pedacinho de madeira. — Eu estava numa missão quando atiraram no avião. Sobrevivi, mas fiquei todo quebrado. Prenderam um pedaço de metal embaixo da minha patela. Nunca mais pude andar direito. Na minha cabeça infantil, nunca fez sentido que uma dor de tanto tempo atrás pudesse impedir um homem de andar direito. Como poderia permanecer com ele pelo resto da vida. Mas agora que sou mais velho, agora que disputei minhas próprias guerras e disparei minhas próprias armas, eu entendo. Sinto uma dor no peito quando me afasto da janela de Mei Yee, como a chama de um velho ferimento de guerra. Uma dor que não consigo explicar direito. Uma dor que não me permite esquecer. Pensei que tivesse passado estes dois anos apagando as lembranças. Livrando-me da dor, enfiando-a num lugar a que só os pesadelos chegavam. Mas, na verdade, foi como se as tivesse congelado: suspendido a dor no tempo. Caminho pelas ruas velhas. Passo pelas indústrias e fábricas com homens exaustos operando máquinas incansáveis. Pela esquina onde um velho desdentado se aconchega sob uma manta carcomida por traças, as mãos em concha como uma tigela feita de carne e articulações nodosas. Passo pelas prostitutas curvadas nos batentes, com os ombros nus no inverno. Crianças correm, descalças. Eu me pergunto para quem estão correndo. Ou do que estão correndo. Se estão brincando ou fugindo. Eu andava por aqui sem sentir nada. Em frente, em frente e para longe. Olhava para esses rostos — enrugados, maquiados, inexpressivos, assustados, vazios — e não sentia nada. Nem uma pontada. Agora, meu coração parece prestes a explodir de sofrimento. Por Jin Ling, Bon, Lee, Kuen, Chma e todos os seres famintos nestas ruas. Mas não é só isso. A dor vai ainda mais fundo, queima meus ossos feito lava. Uma angústia faz eu me sentir insuportavelmente desperto, vivo. A agonia dela dentro do meu peito. Um estilhaço que nunca, jamais, vai sair. Não estou com muita fome, mas, quando passo pelo brilho do fogão de cha siu bao do sr. Kung, compro um saco cheio de bolinhos recheados. O calor atravessa o papel, esquentando

meus dedos e minhas mãos. Penso em Jin Ling. Eu devia contar para ela, achar um telefone e ligar para Emiyo. Ou talvez não. Ela tem que ficar em repouso na cama, uma regra que quebraria assim que descobrisse. E, se meu plano não der certo, se a gente não conseguir pegar o livro de registros… é melhor que Jin Ling nem fique sabendo. Um longo miado baixo surge aos meus pés. Alto o bastante para me fazer parar e torcer para que eu esteja certo. Durante toda a caminhada tenho examinado as ruas. Procurando, procurando, procurando um gato sem rabo. Olho para baixo. No começo, tudo o que vejo é um lamaçal refletindo as luzes elétricas das lojas como ouro aos meus pés.

Miaaau?

Olho para meu pé direito. Os olhos amarelos de Chma me encaram de volta. Ele passa pela minha perna, esfregando seu longo pelo emaranhado na minha calça. O causador de espirros. Ele está manchado de coágulos secos de sangue. Vejo o toco feito pela faca de Kuen. Já vi coisas piores, mas mesmo assim meu estômago revira. — O que está fazendo? — pergunto e me ajoelho no meio da rua. O nariz rosa de Chma encosta no saco. Seu miado fica mais longo, mais alto. Coloco a mão dentro do saco e divido um dos bolinhos. Chma engole tudo: massa, recheio e carne. Acaba em questão de segundos. Fareja o chão e depois olha para mim. Mais. É uma exigência, não um pedido. Expressada com toda a autoridade que um gato sem rabo pode ter. — Seu metidinho do… Chma! Chma! Meu xingamento carinhoso é interrompido pelo espirro do bicho. Ele consegue parecer digno mesmo com uma camada fina de ranho no nariz. Chma! Parece que Jin Ling estava certa. Espirros de gato têm um som diferente. Tiro mais um cha siu bao e desejo que Jin Ling estivesse aqui. Para ver que tudo o que ela perdeu foi reencontrado.

2 DIAS

JIN LING

NUNCA DORMI POR TANTO TEMPO. As noites na Cidade Murada eram curtas. Sem sonhos. Mas aqui, envolta por plumas, lençóis e tubos, não consigo diferenciar os sonhos da realidade. Muitos rostos passam. Alguns visitam e conversam: Dai, minha mãe, Mei Yee. Outros só ficam olhando e enchem o quarto com o som de seus passos: a enfermeira, o pai de Dai. Algumas vezes, sinto Chma enrolado comigo, ronronando, sinto seu calor. Outras, meu pai surge diante da cama. Quando desaparece, acordo tremendo e ensopada de suor. Subitamente, acordo de verdade. Meus olhos se abrem e minha mente está clara. Sem nuvens. Ergo os olhos e vejo que as bolsas de remédio finalmente foram levadas embora. O sono induzido acabou. Eu me sento, alongando os músculos devagar. Ainda sinto dor embaixo do ombro. Quente e intensa, mas suportável. Meus tendões e minhas articulações estão rígidos. Como cordas deixadas no sol por tempo demais. Os ossos rangem e estalam em todo o corpo. Por quanto tempo dormi? — Oi? — Minha voz está rouca. Deve fazer dias desde que falei pela última vez. Talvez até mais. Meu chamado ecoa pelo piso de madeira sem mobília. É estranho estar num lugar tão silencioso depois de anos da canção da cidade. Até na fazenda sempre havia um vento soprando ou o borbulhar da água fervendo para o chá. Este lugar é tão silencioso quanto uma sepultura. — Oi? — Tento de novo, mais alto desta vez. Uma mulher entra na sala. Não é velha, mas também não é jovem. Parece ter a idade da minha mãe, mas está um pouco menos acabada. Não foi maculada pelo sol nem por um marido alcoólatra. Procuro traços de Dai em seu rosto. Não tem nenhum. Ela faz uma reverência quando chega perto da cama e concluo que é a criada da família. — O que posso fazer por você? — Dai está aqui? A criada franze a testa. — Ele saiu faz um tempo. Posso chamar a sra. Sun se quiser. Ela está aqui, preparando a festa de Ano-Novo. Meu estômago vazio revira, enjoado. No começo, não entendo por quê. Mas então me volta a lembrança. Ano-Novo: o dia em que tudo vai mudar. O dia em que Dai precisa estar com o livro de registros. O livro que prometi ajudá-lo a roubar. Dai dizendo adeus. Partindo sem mim. — Quanto… quanto tempo falta para o Ano-Novo? — Começo a tirar o esparadrapo.

Ranjo os dentes quando ele vai saindo, arrancando pelos e a agulha da pele. — Dois dias. — A criada arregala os olhos. Fico paralisada. O esparadrapo arrancado pela metade fica pendurado na minha mão. Dá para ver um machucado amarronzado embaixo dele. Dois dias para o Ano-Novo? Não pode ser. Devo estar sonhando de novo… — Faz oito dias que você está aqui — diz a criada, olhando para o esparadrapo arrancado pela metade. Contemplo o machucado na minha mão. Tento entender o que ela disse. Oito dias. Como pude perder uma semana inteira? — Você está se sentindo bem? Não é melhor eu chamar a enfermeira? Termino de tirar o esparadrapo, puxando tudo de uma vez. Em seguida, arranco o tubo. A agulha sai deslizando. Ignoro a queimação na mão e a dor mais forte no ombro. Levanto da cama. — O que… o que você está fazendo? — A criada ergue a mão. Tenta me impedir. Não que precise. Minha cabeça está girando, é difícil ficar em pé. Fecho os olhos, espero passar. — Preciso voltar para a Cidade Murada. Agora. O rosto da criada se enche de pânico. Seus braços começam a se debater, como as asas de um pássaro dançando sobre uma pilha de peixes destripados. — Você não pode voltar. Precisa de repouso. O médico quer que fique aqui por mais quatro semanas. Ele precisa tirar os pontos. Quando abro os olhos, o mundo para de girar. Olho para baixo e percebo que não estou vestindo muita coisa: nada além de uma fina camisola de algodão. Repousar. Eu devia repousar. Foi o que Dai me disse. Meu corpo parece carne de frango amaciada com um malho. Mas o prazo para encontrar minha irmã está diminuindo cada vez mais. E Dai pode achar que consegue roubar o livro de registros sozinho, mas eu entrei no covil de Longwai. Sei que é impossível. — Não! — Faço a palavra sair o mais alto possível. Não posso deixar Dai na mão. Meu corpo pode estar machucado e dolorido, mas não posso perder a última chance de encontrar minha irmã. Vou repousar quando ela estiver em segurança. — Onde estão minhas roupas? A criada franze o rosto, fica entre mim e a porta. — Você não está em condições de voltar para aquele lugar. Meu primeiro instinto é correr. Considero desviar dela. Mas a longa e funda ardência no meu torso me manda não fazer isso. E não tenho ideia de onde a gente está. Pode ser a quilômetros, talvez até províncias, da Cidade Murada. Sem meu envelope laranja e sem minhas botas, daria no mesmo estar acorrentada aqui. A única arma que tenho é a verdade. — Preciso ajudar Dai. Ele tem que fazer umas coisas antes do Ano-Novo. Coisas muito importantes. — Engulo em seco. Minha garganta dói. Parece em carne viva de tão rápido que falo. — Se eu não estiver lá para ajudar… as coisas podem acabar muito mal para ele. A criada joga o peso de um pé para o outro. O chão geme embaixo dela. Ela me olha como se eu fosse um cão sarnento. Imagino que vai dizer não. Vai buscar a enfermeira. Mas continua jogando o peso de um lado para o outro. É como se a madeira falasse

conosco na sua própria língua atormentada. De um lado para o outro. De um lado para o outro. Até que finalmente:

— Não consegui tirar todo o sangue das suas roupas. Tive que jogar fora. Toco a camisola fina sob os dedos. Eu não sobreviveria dez minutos nisto. — Tem alguma outra coisa que eu possa usar? — Hiro era mais ou menos do seu tamanho quando foi para a escola. São roupas de menino… — Servem. — Não consigo me imaginar voltando para a Cidade Murada de vestido. Não depois de tudo. — E minhas botas? O envelope e a faca? — Não tinha faca. — A expressão dela muda. Em vez de um vira-lata sujo, sou um lobo com dentes amarelos à mostra. — O resto das suas coisas está naquela cadeira. É verdade. Minhas botas repousam sobre a madeira reluzente: dois soldados de couro gasto. O envelope está encaixado entre elas. Ainda laranja. Ainda cheio. E, atrás dele, o livro que Dai me deu. — Vou trazer roupas. Depois chamo um carro para você. — A criada faz uma reverência e sai pela porta. Caminho até a cadeira. Meus passos são mais lentos do que eu gostaria. Cada respiração me lembra da briga. Um flashback do terror vazio e boquiaberto do rosto de Kuen. Claro que minha faca não está aqui. Ela está lá, em algum beco. Enfiada nos músculos e ossos dele. Apodrecendo com todo o resto.

A cidade passa turva pelas janelas do carro da família Sun. É tanto céu e tanto sol. As únicas nuvens lá no alto são minúsculas cicatrizes deixadas por aviões. Tudo parece limpo. Mulheres passeiam de salto alto e vestidos bonitos. Cachorrinhos brancos usam coleiras cravadas de joias. Homens carregam pastas, caminhando por entre as calçadas com barracas de comida e vendedores de equipamentos eletrônicos. Ônibus e táxis fazem curvas e desaparecem pelo asfalto liso. Vias se unem e se separam feito zíperes. Todas as coisas ao redor são sinais do meu tempo perdido. As lojas estão cobertas de lanternas escarlates e recortes de papel elaborados, em forma de serpente. Vendedores caminham de um lado para o outro com carrinhos cheios de tangerina e incenso. Em dois dias, as ruas vão estar repletas de vermelho, bolos e batidas de tambor. Fogos de artifício vão estourar. Leões e dragões vão dançar sobre o pavimento: homens fantasiados para afugentar espíritos malignos. É impossível não ver a Cidade Murada. Os apartamentos se empilham feito tijolos toscos. Todos cobertos por grades. Jaulas em cima de jaulas. Depois da temporada na mansão da família Sun, o lugar parece ainda mais feio. Mal consigo imaginar como Dai se sentiu, vindo para cá após uma vida na colina. O motorista continua sentado depois de estacionar no Velho Portão Sul. Abro a porta, saio sozinha. Lixo, mofo e sobras atingem meu nariz de uma só vez. O cheiro é terrível. Mas é o cheiro de casa. Demoro para chegar à entrada do prédio de Dai. A cada cinco passos, preciso parar para

recuperar o fôlego. O ardor no torso cresce. Queima minhas costas e costelas. O ar tremula de tão frio, mas mesmo assim meu rosto brilha de suor. Quando chego, o portão da frente está trancado. Deixo meu corpo cair no degrau da entrada, quase aliviada. Nunca conseguiria subir todas aquelas escadas. Estou zonza de novo. Azul e amarelo enchem minha visão. Tem um restaurante de frutos do mar ao lado. Cheio de sal marinho, fatias de peixe e fregueses fumantes. Observo os clientes conversando nas mesas de plástico azul. Com os palitinhos, beliscam peixe e enguia quentinhos e cobertos de alho. Enfiam na boca sem pensar. Como sempre fazem. Será que isso vai acabar mesmo em só dois dias? É difícil acreditar. Sentada aqui, me pergunto o que essas pessoas estariam fazendo se soubessem do decreto. Estariam procurando uma casa e um emprego novo? Ou continuariam levando a vida até serem expulsos à força para outro lugar? Ambas as alternativas parecem coisas difíceis demais para mim, aqui, neste degrau. Engulo a dor e ignoro as estrelas na minha visão. Não posso correr. Não posso lutar. Não posso procurar minha irmã. Tudo o que posso fazer é sentar e esperar.

DUAS LINHAS.

DAI

Fico olhando para elas, com as pernas cruzadas, os dedos trêmulos. Elas me encaram de volta, finas e pretas. Como um par de árvores queimadas sem galhos ou como as pupilas de um gato. Esperar é horrível. Quatro dias é tempo demais para duvidar de um plano (no meu caso, duvidar várias e várias vezes sem parar). Por quatro dias, fiquei sentado repassando-o ininterruptamente, considerando todas as possibilidades. Na minha cabeça, já entrei no bordel umas cem vezes e fugi com o livro. Peguei a mão de Mei Yee e corri. Outras cem, fui pego e destripado pela faca de Fung sob o sorriso de Longwai. A verdade é que as duas possibilidades são plausíveis. Tem tanta coisa em jogo. Um movimento errado e eu já era. Nós todos já éramos. Solto um resmungo diante das marcas. Chma ergue a cabeça com o barulho, as orelhas eriçadas e as patas voltadas para a frente. Ele está bem assustado nos últimos dias. Mas acho que eu também estaria com medo se alguém tivesse cortado meu rabo. Imaginei que o gato fosse desaparecer no beco seguinte quando acabasse com o saco de bolinhos. Mas, como todo gato de respeito, ele fez o contrário: ficou por perto e tomou posse de todos os centímetros do meu apartamento. Seus pelos atacam minha alergia, mas não tenho coragem de mandá-lo embora. Em breve, todos estaremos longe daqui mesmo. Chma se levanta e se espreguiça arqueando a coluna de maneira tão impossível que também tenho vontade de me mexer. Um rom-rom tremula em seu peito conforme ele se aproxima devagar. — Está com fome? — Passo os olhos pela última refeição que dividimos: uma bandeja de frango coberto por um molho doce e gosmento. Uma das criações da sra. Pak. Acabou faz algumas horas. — Acho que está na hora. Faz dias que não sinto fome. Tem tanta angústia no meu estômago que não há espaço para mais nada. Compro comida por causa de Chma. Como um pouco pelo ritual. — Vamos descer então. — Ele já está na porta. Os olhos alertas e ansiosos enquanto tiro as chaves do bolso. Descemos as escadas juntos, doze lances inteiros até o gato se afastar. Olho para baixo e ele desapareceu feito um raio prateado. É a primeira vez em dias que sai de perto de mim. Minhas narinas agradecem, mas minhas sobrancelhas franzem. Tem alguma coisa errada. Só consigo pensar numa pessoa que faria com que ele agisse assim. Esse pensamento me faz descer o último lance mais rápido, aos pulos. As patas de Chma estão espalmadas contra a porta; suas unhas deixam arranhões invisíveis

na madeira gasta pela umidade. Quando abro e destranco o portão, ele começa a correr, dispara rumo à rua. Não. Não rumo à rua. Rumo ao colo de Jin Ling. Não a reconheço de cara. Está usando as roupas velhas de Hiro. Ficam um pouco largas nela; a calça parece um paraquedas e o casaco a engole por completo. De costas, com todo esse tecido e o cabelo desgrenhado, ela parece igual a ele. Mas então se vira. A ilusão desaparece feito aquele último suspiro em forma de ponto de interrogação. Não é Hiro. É Jin Ling. Aquela que eu salvei. Agora que sei, não consigo deixar de ver sua feminilidade. Seu nariz arrebitado, o declive nas bochechas. A forma como seus cílios se curvam levemente para cima. Seria um erro pensar que alguma dessas coisas a torna frágil. O próprio fato de estar sentada aqui, oito dias depois de ter levado uma facada, é prova disso. — Jin? Seus dedos acariciam o pelo prateado de Chma. Ela ergue os olhos. Está com um sorriso no rosto. — Você encontrou Chma. — Sim, falta pouco para eu virar um velho louco por gatos. O que você está fazendo aqui? — Olho para seu torso, no lado em que foi talhada. Não há sinal do machucado sob o velho casaco de inverno de Hiro. Mas não é porque não dá para ver que não está lá. — Prometi que ajudaria você a pegar… — Ela volta os olhos para a boca dos fregueses que mastigam frutos do mar e para os fabricantes de macarrão cobertos de farinha. — Aquela coisa. — Você devia ficar em repouso — digo. Mesmo sentada no degrau, ela parece exausta. Ainda mais pálida do que de costume. — Como chegou até aqui? Ela ignora a pergunta, olha feio para mim. — É porque sou menina? — Não. É porque você levou uma facada. Faz uma semana. Os dedos dela estão afundados nos pelos de Chma. Posso ouvir o rom-rom dele. — Estou aqui. E vou ajudar você. Dei minha palavra. — Nunca pedi para você me prometer nada. Estou cuidando disso. Você precisa de repouso para os pontos não abrirem. Seu rosto se cobre de mágoa, ferindo meu coração. Chma também me olha, com as pupilas muito brilhantes e estreitas. Elas me encaram feito um raio de sol deteriorado, como se eu não tivesse passado os últimos quatro dias alimentando-o e tentando limpar o toco do seu rabo enquanto ganhava vinte arranhões e algumas mordidas. Teimoso demais para sarar. Tal gato, tal dona. — Se você acha que vou ficar aqui sentada e perder a única chance de encontrar minha irmã… As últimas palavras de Jin Ling mexem com meus nervos. Contar ou ficar quieto? Eu me sinto como uma criança parada numa gangorra, tentando o impossível para que ela fique equilibrada. Quero dar esperanças a ela. Mas, se for uma esperança falsa, se a Mei Yee atrás da

janela não for quem eu acho que é, ou pior, se for e eu não conseguir libertá-la, não sei se eu aguentaria. — Que foi? — Jin Ling se empertiga. Deve estar vendo a tensão perpassar meu rosto. Não sou mais tão bom em esconder essas coisas quanto era. Não aguento mais tantos segredos. — Sua irmã. Mei Yee? Ela me olha como se estivesse pendurada no alto de um terraço, segurando-se a uma corda enquanto seguro a outra ponta. Sinto um frio nos pulmões, como se fosse empurrado para o fundo de um rio congelado. Quase não consigo fazer as palavras saírem. — Acho que a encontrei.

MEI YEE

REGO O CIPRESTE TODO DIA. Fiz isso quatro vezes desde que Dai partiu. A árvore já está morrendo. Suas folhas de renda verde apodrecem. Caem na lama embaixo delas. Talvez eu esteja regando demais, mas não acho que seja esse o problema. Árvores não foram feitas para ficar enfiadas em bordéis escuros e esfumaçados. Solto um suspiro quando coloco o regador de volta na mesa. Não sei por que estou tentando. O fim está próximo. Em breve, se conseguirmos ou não, nunca mais vou ver essa árvore. As meninas estão atrás de mim, sentadas no lugar de sempre. Estes últimos quatro dias passaram em silêncio e espera. Elas ainda não sabem sobre Dai, sobre a janela nem nada disso. Quatro dias é muito tempo para manter um segredo num lugar como este. Nuo percebe a apreensão em meu suspiro. — Qual é o problema, Mei Yee? Passo a mão pelos finos galhos da árvore moribunda. As folhas furam minha pele feito agulhas. — Tem uma coisa que preciso contar. Algo que preciso confiar a vocês. Todas as três estão me olhando fixo quando me viro. Nesses quatro dias também especulei, e minha confiança vacilou como pernas de pau. Essas meninas, essas irmãs… sei que ficam olhando para o teto como eu olho. Querendo estar em outro lugar. Já ouvi todas falarem de casa, do mar e de dias sem paredes com um tom de esperança nos suspiros. Mas elas também viram o que aconteceu com Sing. Estavam ao meu lado enquanto ela se debatia, gritava e mergulhava em poças de sangue e sonhos de heroína. Sentiram o mesmo medo que eu correndo por suas veias, como se fosse uma droga. Uma paralisia feita para durar dias, meses, anos. Feita para nos manter aqui para sempre. Contar para elas, confiar esse plano às meninas, pode dar certo ou não. O fator redentor, o último peso na balança da minha decisão, foi o silêncio em relação a Sing. O fato de não terem falado nada quando ela fugiu. Parece que passaram séculos desde o dia em que estávamos sentadas no mesmo círculo e Sing falava. Seus lábios se moviam tão rápido que eu não entendia suas palavras. Estava hipnotizada demais pelo rubor em suas bochechas e pelo brilho em seus olhos. Agora, elas também estão em silêncio. Esperando, esperando, esperando que eu conte. — Encontrei uma saída. — Como assim? — grita Wen Kei, tão pequenininha ao meu lado. As meninas ficam olhando, piscam uma de cada vez. De repente, sinto-me alta demais,

então volto para a beira da cama. — Quer dizer, na verdade, foi uma saída que me encontrou… — digo, mais para preencher o silêncio. — Do que está falando? — Yin Yu não está mais sentada, está agachada, como um gato prestes a saltar. Meu coração palpita, enche minha cabeça com mil avisos. Os mesmos que rodopiaram em minha mente e latejaram em meus hematomas nessas duas últimas semanas. É perigoso demais. Não faz isso. Ainda dá tempo de desistir. Ainda dá tempo de dizer sim. Então, faço aquilo que sempre faço quando os medos se acumulam. Meus dedos tocam o tecido vermelho da cortina e a abrem. A concha ainda está lá. Olhando de fora para dentro. Impossível não ver. Meus segredos através do vidro, revelados para o mundo inteiro. — O que… o que é isso? — Nuo se debruça no colchão, tentando olhar mais de perto para o outro lado da grade. Seu olhar fundo me lembra de como eu e Jin Ling cobiçávamos os pedaços grudentos de doce de arroz no mercado da província. Wen Kei responde por mim. A palavra sai de sua boca mais sagrada do que uma oração. — Náutilo. Minhas duas amigas olham fixo para a janela como se fosse algum tipo de magia. Mas Yin Yu continua atrás. O olhar dela é diferente, menos mágico e mais desconfiado. Como eu olhava para os cães abandonados que minha irmã insistia em alimentar. Aqueles que poderiam cravar os dentes nela a qualquer momento. — Onde? — Wen Kei finalmente olha para mim. Todo o seu pequeno corpo denuncia sua exaltação. — Como? — Um menino me deu — conto para elas. — Já faz um tempo que ele vem me ver. A gente está trocando informações. — Informações? — diz Wen Kei, com a voz alta e aguda. — Sobre a Irmandade. — Faço questão de olhar para Yin Yu quando digo isso. — Não assumi suas funções porque queria ser uma mama-san. Fiz isso porque precisava espionar. Descobrir coisas. — Você está… — Yin Yu para, abaixa a voz até ser menos que um murmúrio. — Espionando? A Irmandade? — O que ele queria saber? — pergunta Nuo. — No começo eram só nomes. Depois, onde Longwai guarda o livro de registros. — É só quando vejo os três pares de olhos se arregalarem diante do nome do mestre que percebo que o estou usando. — Ele diz que consegue tirar a gente daqui. Todas nós. — Minhas palavras caem como pedras num lago parado. Enchem a sala de rostos trêmulos e reverberações. Nuo e Wen Kei me encaram como se eu tivesse acabado de destrancar a porta. Yin Yu não se mexe. — O que ele quer em troca? — Que a gente pegue o livro do Longwai. Silêncio. Mais tremores. — O livro vermelho? Aquele com o dragão? — Os dedos de Nuo dançam sobre suas

coxas, tocando uma canção inaudível. — Por que quer tanto aquilo? Ignoro a pergunta que não sei responder. Para mim é fácil confiar em Dai: no ardor eletrizante de seus olhos, na gravidade de sua voz e no seu “custe o que custar” do outro lado do vidro. Sei que as meninas não vão aceitar seus mistérios tão facilmente. — Longwai guarda o livro no andar de cima, na gaveta superior da mesa dele. A gente precisa roubar amanhã à noite. Quer dizer, sou eu quem vai pegar o livro, na verdade. Mas preciso da ajuda de vocês, meninas. O menino vai pagar para ficar com Nuo e esperar no quarto dela. Vou pegar as chaves da Yin Yu e entrar escondida no escritório enquanto Wen Kei distrai Longwai e Mama-san. Quando eu pegar o livro, deixo no quarto de Nuo e o menino vai embora com ele. Nuo e Wen Kei vacilam ao ouvir o nome de Longwai. Yin Yu não se deixa afetar. A franja, preta e curta, cai sobre os olhos. Abranda seu olhar duro. — E cadê a parte em que ele tira a gente daqui? Como saber se ele não vai simplesmente sair e deixar a gente? Quando o mestre descobrir que o livro de registros sumiu… — O menino vai voltar para buscar a gente. Ele prometeu. — Eu me esforço para minha voz não tremer. Torço para que seja suficiente. — E você vai confiar na palavra de um marginalzinho faminto? Ele está usando você, Mei Yee! — Não está, não! — Queria que Dai tivesse me dado mais informações. Alguma coisa sólida e concreta. Não é fácil traduzir os sentimentos dentro do meu peito. — Tem alguma coisa acontecendo, Yin Yu. Alguma coisa maior do que nós. Ela se levanta, seu vestido vermelho cintila como uma chama infernal. — Deixa esse menino cuidar dos próprios problemas. Nós cuidamos dos nossos. As palavras dela são definitivas. Uma afronta para que eu abaixe a cabeça e concorde. Algumas semanas atrás, eu teria feito isso, mas estou mais corajosa agora. Também me mantenho firme. — É isso, Yin Yu. Esta é nossa chance. Pode não ter outra. — Olho para as outras duas meninas apinhadas na minha cama como galinhas. — Mesmo se você não quiser fazer isso, tem que deixar que as outras decidam por si mesmas. Nuo faz que sim. — Eu ajudo. — Eu também. — O rosto delicado de Wen Kei se fecha. Olha feio para Yin Yu. — Não quero ficar aqui. Yin Yu dá um passo à frente, então para. — A gente nunca vai sair daqui! Vocês não entendem isso? Essa é nossa vida agora. As únicas alternativas são uma manta de mendigo ou um saco de cadáver. Vocês viram o que aconteceu com Sing. O mestre faria exatamente o mesmo com qualquer uma de nós. Somos todas descartáveis! Seus olhos soltam faíscas, mais escuros que a noite. Mais escuros que um quarto sem luz. Olho dentro deles e me dou conta de que ela decidiu há muito tempo. Quando Sing gritou e se debateu, e a agulha enfiou veneno nas suas veias. Continuo olhando, tentando não me perder no desespero profundo de seus olhos.

— A gente vai fazer isso sem você então. — Não. — Ela estende o braço, segura a maçaneta da porta. — Não vão, não. O frio na minha barriga cresce de repente, expande como se estivesse fora de mim. Pensei que, na pior das hipóteses, ela recusaria. Mas agora, vendo seus longos dedos brancos no trinco, girando a maçaneta, sei que é capaz de coisa muito, mas muito pior. — Yin Yu. Não. Vejo tudo escapar, deslizando com a maçaneta. Ela continua apertando. — Não posso deixar isso acontecer de novo. Não posso deixar você acabar com a gente! Acabar com as duas! — Yin Yu olha para Nuo e Wen Kei. — Um dia vocês vão entender. Estou fazendo isso para proteger a gente. Ela volta o olhar para mim. — Não tem como fugir, Mei Yee. A gente não tem como enganar o mestre. Ele vai ficar sabendo. Vai descobrir o que aconteceu e depois vai injetar em cada uma. Talvez até mate a gente. Ela continua apertando a maçaneta. Apertando, apertando, apertando. Um mal-estar toma conta de mim, subindo feito um óleo preto e gosmento. Cobre todas as minhas fibras. Todas as minhas veias. Nunca briguei antes na vida. Ao contrário de Sing. Ao contrário da minha irmã. Ambas feitas de socos, mordidas e ímpetos. Mas alguma coisa dentro de mim explode, lança-me à frente. De repente, estou na porta, com o ombro contra a madeira. O osso do meu quadril prende o punho de Yin Yu na maçaneta com tanta força que alguma coisa estala. No começo, ela fica surpresa. Depois me empurra para trás. Sua mão livre se agita, tateia meu rosto. Sinto suas unhas afiadas descendo pelas minhas bochechas. Empurro para me livrar dela, uso toda a minha força e mais um pouco para jogá-la contra a parede. Seu corpo pequeno, enfraquecido, não é páreo para o que despertou dentro de mim. — Não. — Seguro-a firme contra a parede. — Não, não, não, não. É tudo o que consigo dizer. Essa única palavra. Ao mesmo tempo, vejo minhas chances, minha vida fora daqui, minha irmã e suas estrelas, Dai e seu mar… vejo tudo isso devorado. Engolido pela escuridão dos olhos de Yin Yu. — O que você vai fazer? Me matar? — ela pergunta, calma e impassível. Assim como leva a vida aqui. — Estou sobrevivendo. É a única coisa que dá pra fazer aqui, Mei Yee! Ficar de cabeça baixa e obedecer às regras! Sobreviver! Prendo-a no lugar, forçando todos os músculos. Todo o meu corpo treme. Ela tem razão. Não posso impedi-la. Não sem levantar as suspeitas de Longwai e Mama-san. Não sem condenar Wen Kei e Nuo. Não posso prender Yin Yu aqui para sempre. — A gente pode sair — consigo dizer. — A gente pode voltar para casa. Ver o mar. Ela me olha como se eu estivesse falando grego, contando sobre coisas que não tem como entender. Volto o olhar para Nuo e Wen Kei. Solto. Yin Yu dá um passo para o lado. O trinco da porta se move, a porta se abre. Ela sai pelo corredor, um lampejo vermelho tragado pela escuridão.

— Mei Yee… Minha cabeça não parece mais minha. Ela se deixa cair em direção ao tapete. Encontra Nuo me observando. Wen Kei está aconchegada ao seu lado, trêmula. — Vão — falo para elas. — Antes que eles venham.

— Não é certo. Ela não pode fazer isso. — É Wen Kei quem diz. Percebo, pela maneira como saem suas palavras, que está tremendo de raiva. Caio de joelhos na cama. — Yin Yu está fazendo o que acha certo. Está tentando proteger vocês. Elas me encaram. As mãos de Nuo estão inquietas de novo. Wen Kei respira rápido, seu peito sobe e desce. — Vão — repito. — Por favor. — Mas e o menino? — insiste Wen Kei. — Não importa mais. Acabou. Nuo balança a cabeça. No começo, acho que ela quer discordar de mim. Então, vejo as lágrimas em seus olhos. Ela se aproxima, envolve meu ombro com os braços. Seu cabelo tem cheiro de cravo e canela. Não falamos nada. Não há tempo. Abraço Wen Kei e elas vão embora. Espalham-se feito sementes de bordo ao vento. O rosto de Dai surge na minha memória, forte e radiante atrás da janela. Penso que vai voltar e esperar sem nunca saber que falhei com ele. O náutilo, claro, ainda está lá. Inalterado pela grande reviravolta na minha vida. Atrás das grades e do vidro, ainda intocado. Por cima do ombro, dou uma olhada no quarto, para todas essas coisas inúteis, bonitas e quase mortas. À procura de algo forte o bastante para quebrar o vidro. Na penteadeira, está o grampo de jade, o segundo presente que o embaixador me deu. Levo-o até a janela, sua ponta afiada passa perfeitamente pelo buraco. Preciso avisar Dai. Preciso tocar o náutilo. Minha mão impele o grampo. Por um curto segundo espantoso, o vidro canta. Lascas voam, giram e se esparramam feito joias pelo peitoril. Algumas até chuviscam e brilham sobre minha cama. Então bate o frio. Ele entra pelo buraco e percebo como eu estava quente. O inverno penetra minha pele, dando-me sensações frescas de liberdade. Meus dedos passam pela grade, pela ponta afiada do vidro. Chegam até a concha, continuam empurrando. E, por um momento, toco o náutilo, sentindo sua superfície lisa na minha pele, ouvindo as promessas de Dai.

Posso tirar você daí. Também quero que você veja. Vou voltar para buscar você. Custe o que custar.

Então acaba o peitoril e a concha cai, tombando para fora do meu campo de visão. Perdida para sempre. Corto o dedo no vidro. Nem sinto a ferida. Mas, quando enfio um dos meus vestidos de seda no buraco, meu dedo está quase todo ensanguentado. A cortina se fecha pela última vez.

Sento na beirada da cama, estanco o sangue e espero que venham.

JIN LING

HÁ MOMENTOS PELOS QUAIS A GENTE ESPERA. E há momentos pelos quais a gente espera. Momentos para os quais passamos todos os outros momentos nos preparando. Pontos da vida que estalam e giram. Nos lançam numa direção inteiramente nova. Dai e eu estamos na entrada do beco. Estou sem fôlego e o ardor sem fim continua cavando um buraco no meu torso. Ignoro. Olho para o rio de lixo no chão. Conto quantos passos vão me levar até minha irmã. Meus membros tremem de tanta emoção. Dai mostra o caminho e eu vou atrás, usando uma mão para me estabilizar sobre as pedras enlameadas. Acho bom que ele esteja na frente. Não quero que veja como é difícil acompanhar seu ritmo. Dai se detém alguns metros na frente da janela. Seu corpo fica imóvel. Meu pé faz barulho ao pisar numa garrafa de refrigerante. Ele vira a cabeça para trás. Seus olhos amendoados me encaram enquanto leva um dedo à boca. Meu coração acelera: vai trotando devagar, depois mais rápido até galopar. Tem alguma coisa errada. Ficamos parados. Tento ouvir no escuro. Não escuto nada. Dai dá mais alguns passos à frente. Desvio do lixo como um gato. A luz da janela o tinge de um tom escarlate surreal. Dai olha para o vidro partido como se visse um fantasma. Ele se agacha, mergulhando os dedos entre embalagens velhas e tampas de garrafa, pegando uma coisa curva e dura. Uma concha. — O que é isso? — sussurro. — Qual é o problema? Seu maxilar fica tenso. Ele leva o dedo à boca de novo e seu olhar avisa: Fica quieta! Fico nervosa, estou prestes a sussurrar outra vez, quando surge um som do outro lado do vidro cortado. — Ela admitiu alguma coisa? — A voz de Longwai está estranhamente desperta atrás da cortina. Inteligente, cortante, alerta. — Mei Yee? Claro que não. Só fica lá sentada se fazendo de tonta. — É a voz de uma mulher, fina e aguda. De uma amargura terrível. Ouvir o nome da minha irmã me deixa ansiosa. Não há lugar para dúvidas. Ela está lá. Do outro lado do vidro. — E você revistou o quarto? — Tem um buraco no vidro. Está tapado com um dos vestidos dela. Mas nem sinal da concha. Os dedos de Dai seguram meu braço. Ele fica contra a parede, logo abaixo da janela. Faço o mesmo. Meu corte bate nos blocos de cimento. Esforço-me para não gritar. Mordo o lábio. Sal e ferro descem pela minha língua. O beco se turva com as lágrimas.

A luz em cima de nós muda. Passa de vermelho para um amarelo fraco. Sombras surgem na parede oposta, as formas de Longwai e da mulher na janela. — Mesmo que tenha quebrado por acidente, por que ela guardaria segredo? — A voz da mulher é clara. Próxima. A mão de Dai continua no meu braço, apertando firme. Não tenho coragem de me mexer. Nem mesmo para olhar para ele. Ouço a respiração de Longwai. Pesada e opressiva. Insuportavelmente perto. — Ela está com um corte no braço? — Não… não vi. — A mulher parece surpresa. — Por quê? — Sangue. — Longwai só diz uma palavra. Mas é o suficiente. — Você acha… — Vou mandar Fung dar uma olhada no beco lá fora. Desta vez, olho para Dai. Ele também me encara. Seu rosto é de um espantalho: os lábios tensos costurados, retalhos de sentimentos em toda parte. Seus olhos se voltam vidrados e expressivos para a entrada do beco. Precisamos dar o fora daqui. — O que a gente faz com Mei Yee? — pergunta a mulher. — Deixa onde está. Vou entrar para dar uma olhada nela daqui a pouco. — E se o embaixador aparecer? — Diz que está doente. Oferece outra menina. — Ao ouvir isso, sinto vontade de vomitar. Tenho de engolir em seco. Mantenho no estômago o último rolinho de arroz com atum que a criada da família Sun me deu. Sempre soube que o martírio de Mei Yee era pior do que o meu. Mas ouvir Longwai se referir à minha irmã feito um pedaço de carne torna isso muito mais real. Meu coração arde mais quente que meus pontos. Estou enjoada, mortífera e pronta para correr. A luz vermelha volta a cair. As vozes se afastam com o som de passos, interrompidos pelo ranger de dobradiças. Dai está de pé, puxando-me para cima. Sinto como se me mexesse num sonho: vontade e músculos exauridos, mas sem ir a lugar nenhum. — Vem, Jin Ling. — Dai puxa mais forte e me levanto. — A gente precisa ir. — A gente vai simplesmente ir? Mas Mei Yee… Ele me interrompe. — Você ouviu Longwai. Fung está vindo. Não consigo pensar direito. Não com a dor. Não com ele me puxando e me arrastando desse jeito. — Mas Mei Yee. O livro. A gente não pode ir embora! — Jin Ling. Olha pra mim. É a única coisa que consigo fazer. Todo o resto gira feito um carrossel. Escolho um ponto, o espaço de pele franzida entre suas sobrancelhas. Concentro-me nele. — Nós não vamos embora. Você vai. — Dai enfia a mão no bolso da calça. Tira um macinho de notas. — Sai daqui e pega um táxi de volta pra Tai Ping. Vai para o número sessenta e dois. Pede para chamar o embaixador Osamu.

O embaixador? Aquele que viria atrás de Mei Yee? Para usar minha irmã… Minha boca seca com esse pensamento. Meus ombros começam a tremer. A mão de Dai me segura firme, estabiliza-me. — Diz para ele que Mei Yee está com problemas. Que ele precisa vir. — Só isso? — É suficiente. Vai fazer Osamu vir. — Ele enfia o dinheiro no bolso da minha jaqueta. — Vai ser a distração de que a gente precisa para consertar as coisas. Sinto-me acabada. Minha cabeça está girando como no primeiro dia no quarto da família Sun. O mundo gira mesmo quando estou parada. — E o que você vai fazer? Dai está andando de novo. O braço dele me puxa como um boi que guia um arado. O lixo se remexe sob nossas botas enquanto abrimos caminho até a rua principal. Ao chegar à entrada, ele solta meu braço. — O melhor lugar para mim agora é dentro desse bordel. Acho que não ouvi direito, mas sua mão pega a minha de novo. Um metal, frio e duro, encosta na minha pele. Um peso cai súbito nos meus dedos. Olho para baixo e descubro o que ele me deu: o revólver. — Guarda isto para mim. — Dai pressiona a arma na minha mão. Uma força pesada no meu punho. — Se Fung me achar com ele, vai acabar comigo. — Não! Não vou deixar você aqui. Eu prometi… Dai empurra a arma na minha mão com mais força, interrompendo-me. — Sei o que você prometeu. E sei o que prometi. Mas somos dois, Jin Ling. São duas chances de tirar sua irmã daqui. Se entrarmos juntos, já era; e nunca vou me perdoar se deixar você entrar primeiro. — Mas Dai… — Seu nome escapa da minha garganta. — Longwai. Ele vai matar você. O menino mais velho continua falando. Não perde um segundo. — Se ele me matar… não se preocupa com o livro. Tira sua irmã daqui. Corre o mais longe possível desta cidade. Não olha pra trás. Esse sempre foi o plano. Mas, de repente, parece uma coisa impossível de fazer sozinha. Não tenho palavras. Só olho para Dai. Sinto um nó na garganta e uma dor no torso. A arma dele pesa em minhas mãos. Sua última proteção. Estou tremendo de novo. — Eu… não sei usar. — Puxa a trava, puxa o gatilho — ele diz, cortante. — Tem seis balas, então guarda até não poder mais. Não quero deixar Dai aqui. Sozinho. Desarmado. Quero ficar com ele e lutar. Mas meu torso lancinante me diz que essa não é uma opção. Preciso ir. Preciso deixar Dai fazer as coisas que não consigo fazer. — Vê se volta pra cá logo. Traz Osamu. — Ele engole em seco. Olha por cima do meu ombro, onde fica a entrada do bordel. Não sei se consigo fazer isso. Mas preciso conseguir. Meus dedos seguram a arma com firmeza.

— Lembra. Colina Tai Ping. Número sessenta e dois. Embaixador Osamu. — Dai enfia as informações na minha cabeça. Não que precise. Cada palavra já está lá, marcada com fogo e ameaça. — E leva isso, se precisar. Ele coloca as chaves do seu apartamento na minha mão e as solta. Me empurra para longe. — Vejo você daqui a pouco. Torço para que esteja certo. Estou correndo, embora meu torso doa e eu não me lembre de ter mandado meus pés se moverem. A arma está guardada no fundo da jaqueta; seu peso inacreditável me deixa mais lenta. Cada passo é terrível. Mas minhas botas continuam batendo no chão. Por ruas e atalhos. Até o Velho Portão Sul.

MEI YEE

PARTE DE MIM ESPERAVA SER LEVADA PARA O SALÃO, para que me usassem de exemplo na

mesma hora. Eu estava pronta para isso, pronta para que a cinta estrangulasse meu braço. Pronta para que a seringa entrasse na minha veia e me introduzisse a um universo completamente diferente. Eu estava pronta para outras coisas também: o cano duro da pistola na cabeça ou o gume de uma faca na garganta. Estava pronta para que tudo chegasse ao fim. A única coisa para a qual não estava preparada era o quarto de Sing. As chaves chacoalham na mão de Mama-san, fina como se tivesse ossos de passarinho, quando ela gira a trava e abre a porta com o quadril. Mesmo com todo o pó e a pintura, seu rosto transparece o que sente; todas as emoções terríveis que já sentiu estão entrançadas ali feito as contas de um rosário. Nunca a vi desse jeito, nem mesmo quando Sing estava toda quebrada e ensanguentada no chão. Penso naquela noite. No tapa e no grito quando a deixamos sozinha com Longwai. Nos hematomas que se esforçou tanto para encobrir sob o pó e as palavras cortantes. Não importa que tenha as chaves. Nenhuma a leva para fora. Está tão presa aqui quanto qualquer uma de nós. Quando a porta abre, sai o cheiro que nem mesmo o incenso pode mascarar. Urina, lixo e vômito. O ar está carregado disso, entrando pelo meu nariz, descendo pela minha garganta. Sinto o cheiro de todos os dias em que Sing esteve aqui, apodrecendo sob uma única lâmpada trêmula. O quarto está vazio, sem móveis ou decoração. A única coisa além das paredes e do chão é uma pilha de almofadas imundas no canto. O corpo de Sing, corroído por quinze dias de heroína e pouca comida, fica quase invisível sob a luz mortiça e o tecido manchado. Ela está estendida no piso com a imobilidade da morte. Mama-san não parece notar; há muito tempo seu nariz está acostumado ao fedor. Ela olha para mim e seu rosto se endurece. — Menina idiota! Estava à espera de perguntas. Ou mesmo de um tapa. Mas não disso. Mama-san me encara, com os lábios franzidos e cobertos pelo tom mais intenso. — Você poderia ter saído daqui. Se fizesse as coisas do jeito certo. Estava com o embaixador na palma da mão. — Ela estende a mão com unhas tão vermelhas quanto seus lábios. — Você teve a chance e desperdiçou. Jogou fora como se não fosse nada. — Eu não fiz nada. — Ligo o botão dentro de mim. O mesmo que uso quando o embaixador sobe na minha cama. O que faz eu me sentir morta por dentro e por fora. — Yin Yu está com inveja de mim. Está espalhando boatos.

Não há nenhuma culpa correndo pelas minhas palavras quando falo o nome de Yin Yu. Não desta vez. — Não importa. Você não entende? Onde tem boatos, tem esperança. E onde tem esperança… — Suas unhas escarlates perfeitamente lixadas apontam para o amontoado no chão. Onde pele, osso e almofadas envolvem o que restou de Sing. — Isso não é permitido num lugar como este. Idiota. — Mama-san murmura, por fim, e balança a cabeça. Ela não volta a olhar e fecha a porta. Tem ainda menos luz agora. Sinto como se estivesse trancada numa tumba. Idiota. A palavra ecoa na escuridão. Arranha-me com suas pontas de verdade. Eu nunca deveria ter contado para as meninas. Nunca deveria ter esperado que tivessem a mesma confiança que eu num menino que nem conheceram… Uma respiração trêmula surge no canto, como um mensageiro de vento feito de ossos. Agora que está mais escuro, a pilha de travesseiros se transforma numa multidão de espíritos monstruosos, que me chamam para perto. Querendo me devorar como fizeram com minha amiga. A respiração fica mais sonora, como centenas de folhas secas caindo umas sobre as outras. Uma das almofadas avança, cai para o lado como se alguma coisa tivesse se mexido atrás dela. Então, ouço um barulho alto e terrível. Hiiish… — Sing? — Sussurro, porque não sei se realmente quero que ela me ouça. Penso na última vez que estive perto dessa porta, do outro lado. Sing se atirou contra a madeira como se fosse uma criatura selvagem. Mas acho que não vai fazer isso agora. Os demônios-travesseiros estão parados. Não fosse pelo esforço rouco de seus pulmões, eu não saberia que ela está aqui. Dou alguns passos à frente, espero meus olhos se ajustarem. Sing está mais branca do que lençóis alvejados. Tão menor e mais apagada do que a menina que eu conhecia. Uma casca oca. Não sobrou quase nada. Não sei se conseguiria ficar em pé se tentasse. Mas ela se move. Seu braço se estende e, por mais que seu movimento seja lento, dou um pulo para trás. É um movimento fraco, exigindo tudo o que tem para segurar meu pé. As respirações árduas se transformam em palavras. Esforço-me para conseguir ouvir. — M-m-mais… — Sing. — Eu me agacho, mantenho distância. — Sou eu. Mei Yee. Seus olhos estão abertos, mas sem vida, como se não enxergassem a realidade. Ela olha e olha. Seu braço continua parado, torcendo e retorcendo feito um fio solto. Sing parece morta. Só sua respiração, terrível e ruidosa, que me diz o contrário. Um calafrio toma conta de mim, começando no pescoço e descendo pelas costas como uma gota de chuva. Volto para a porta e me sento, abraçando os joelhos junto ao peito. Fecho os olhos. Queria poder fazer o mesmo com o nariz e os ouvidos. A concha ficou para trás. O menino ficou para trás. E eu sou como uma estrela que cai, cai e cai rumo a uma escuridão pior do que a morte.

DAI

FICAR PARA TRÁS FOI UMA DECISÃO IMPENSADA. Uma daquelas ideias que mal dá tempo de processar enquanto o cérebro solta palavrões quilométricos. Estou na entrada do beco, onde o lixo dá lugar ao tropel da rua larga. Não há tempo para dúvidas, mas elas surgem mesmo assim, cutucando-me por toda parte como agulhas de acupuntura. Não faço ideia do que vou fazer quando passar por aquelas portas. De como vou distrair Longwai por tempo suficiente para que Osamu chegue. Só sei que o tempo de Mei Yee de repente ficou muito menor do que o meu. E tenho promessas a cumprir. Meu corpo parece muito mais leve sem a arma enfiada na calça. Como se faltasse um pedaço de mim. A concha de náutilo continua guardada na manga do meu moletom. Mais uma prova contra mim. Eu me ajoelho e acho um saco vazio de alga marinha desidratada. Do tipo que Hiro e eu jogávamos um no outro quando deveríamos estar estudando. O logotipo, um gato bonitinho lambendo os lábios, está apagado há tempos. Ninguém se daria ao trabalho de catar isso. Coloco a concha dentro da embalagem, no canto mais fundo. O saquinho de celofane amassa totalmente sob minha bota. Faz barulho contra uma coroa de vidro entalhado e reluzente. Os cacos são tão afiados quanto o bisturi de um cirurgião. Perfeitos para arrancar pele e cortar veias. Minha mão paira sobre eles, contraindo enquanto considero o risco. Posso até entrar lá sem um plano, mas sem uma arma é que não entro. Pego o maior dos cacos, enfio no bolso da frente. Melhor não ser pego no beco. A adrenalina no meu cérebro relembra. Sublinha duas vezes e põe uma estrela de cada lado, como Hiro marcava seus livros de biologia. Tomo nota (como nunca tomei quando estudava), saio para as ruas mais largas e começo a andar. Não estou tão longe da entrada do beco quanto gostaria quando Fung vira a esquina. Ele é rápido para um homem tão grande. Quando me vê, muda a marcha e se lança à frente com o dobro da velocidade. Mal tenho tempo de recuar quando chega perto de mim, segurando meu agasalho como o pescoço de um cachorro. — Você — ele resmunga. — O que está fazendo aqui atrás? — Estava indo falar com Longwai. — Mantenho a voz longa e firme, como uma régua. Não é fácil, considerando que dá para ver a arma de Fung presa no seu quadril de maneira nada discreta. — Ah, é? — As sobrancelhas do bandido se franzem e a fera em seu rosto se move como nas danças de Ano-Novo. Aquelas que logo mais vão acontecer nas ruas de Seng Ngoi. — Engraçado. Ele também quer ver você. Deram o cano nele.

Merda. Os corres. Como pude esquecer? Não que pudesse fazer muita coisa de qualquer jeito. Fung não solta meu moletom. Ele me puxa de volta para a porta, parando só para tirarmos os sapatos. Me sinto como um roedor que se contorce enquanto é levado de volta para o ninho da águia. Esperando para ser despedaçado por garras e bicos afiados. Há alguns poucos fumantes no salão, mas o sofá de Longwai está vazio, exceto por uma manta gasta e umas almofadas amassadas. Fung me puxa através da fumaça. Passamos por sofás e pontas de tapetes dobradas, e até por meninas que servem. Olho em seu rosto, com um fundo de esperança de que alguma delas seja Mei Yee. De que as palavras que ouvi atrás da janela fossem uma ilusão terrível e irreal. Mas ela não está aqui. Não segura uma bandeja nem está atrás da cítara. Nem mesmo espreita entre as sombras. Parece que alguém encheu meu peito de chumbo líquido. Vejo a mesma dor no rosto das outras meninas. Fung continua andando, puxando-me pelo corredor. O corredor leste. Passamos por portas com nomes pendurados em placas, até chegar ao fim, onde uma escada sobe em espiral. No primeiro degrau, o bandido solta meu moletom, me empurra adiante com um resmungo:

— Vai subindo. Subo cada degrau tentando não pensar se Fung está ou não com uma arma apontada para minhas costas. Em vez disso, penso em como estou perto do livro. Em como a liberdade nunca pareceu tão distante. Quando chegamos ao topo, meu coração bate acelerado e irregular. Exatamente como Fung bate com a mão grossa na madeira. Longwai não está usando o roupão quando abre a porta. Está vestido como Fung, só que mais elegante. Camisa social. Blazer. Calça social. Tudo preto. Como um executivo ocidental que se prepara para um funeral. Mas os executivos ocidentais não costumam usar correntes de ouro no pescoço nem armas na cintura. Estou torcendo muito, muito, para que não tenha nenhum funeral hoje… O líder da Irmandade me vê. Roxa e lustrosa, a cicatriz de faca no seu rosto incha com seu maxilar. Isso, somado a seu traje elegante, faz com que pareça ainda mais um predador. — Pensei que tinha mandado você procurar no beco. — Ele dispara um olhar cortante por cima do meu ombro, direcionado a Fung. — Procurei, senhor — responde o guarda, rápido. — Encontrei este aqui fuçando. — Não sabia que as ruas paralelas de Hak Nam eram proibidas. — Eu me esforço ao máximo para parecer indignado. — Se eu quiser, são. — Nenhuma fumaça pesa nos olhos de Longwai. Nenhuma indolência sutil em seu movimento. Se antes ele era uma cobra, agora é um mangusto. Seu olhar serpenteia de volta para Fung. — Continua procurando. Deixa o rapaz aqui por enquanto. Faz tempo que a gente precisa ter uma conversinha. Minhas mãos ficam firmes nas coxas enquanto Fung desce. Sinto o vidro afiado sob o jeans.

Longwai sai de perto da porta e posso ver todo o cômodo. A primeira coisa que noto são as pistolas e facas bárbaras. Toda uma parede de metais e gatilhos, potência e dor, bem na minha frente. O caco no meu bolso começa a parecer uma piada. Tento não ficar olhando por tempo demais. Tem muitas outras coisas para ver. Uma grande tela de TV emoldurada por estanho. Um aquário cheio de água azul-clara e peixes tropicais que se estende por toda uma parede. Uma grande escrivaninha laqueada. A gaveta de cima com uma delicada fechadura dourada. Estou tão, mas tão perto. Se Mei Yee estiver certa. Mei Yee. Subindo as escadas, eu tinha pensado que talvez ela estivesse aqui. Mas as sombras nesta sala estão vazias. Ela está em algum lugar lá embaixo, atrás de uma das muitas portas. Longwai caminha até o meio da sala, onde há uma mesa com tampo de vidro. Fileiras perfeitas de pó branco a riscam: listras de tigre albino. Cada centímetro do meu corpo está alerta, combatendo o medo e a sensação muito real de que sou a presa. Uma presa nos cantos mais profundos do covil do predador. Faço a cara que sempre fazia quando era pequeno e meu pai decidia me castigar. Indiferente, com a sobrancelha erguida. Como se nada no mundo pudesse me deter. — Algum problema? — Nada que seja da sua conta. Por enquanto. — Longwai para diante da mesa e me dou conta de que o vidro é, na verdade, um espelho, refletindo sua altura assombrosa. — Estou mais curioso sobre o último encontro a que você faltou. E o penúltimo também. — Meu corredor levou uma facada. Não consegui encontrar um substituto. Não é fácil achar marginais dispostos a trabalhar para você. — Tem um motivo para isso. — A mão de Longwai se ergue na altura do cinto, levantando o paletó. A pistola brilha sob a luz tropical do aquário. — Você não honrou nosso trato. Não sou do tipo que perdoa. — Foi o que ouvi dizer. — Sinto cada mililitro de sangue na minha cabeça à medida que meu coração o bombeia, batimento por batimento. Mas não tiro a máscara. Mantenho a calma. Não olho para a parede de facas muito, muito afiadas. — Mas, se você me matar, vai garantir que nunca mais outro marginal trabalhe para você. Por mais que o dinheiro seja bom. É a lei do mais forte. — Você é um menino perigoso. Esperto. — A mão de Longwai sai de perto da arma, sobe para segurar seu queixo barbeado. — E eu aqui pensando que era dispensável. Tudo o que posso fazer é não olhar para a escrivaninha. Tão perto. Estou tão, tão perto. Só a alguns metros do livro. Só preciso de uma distração e um movimento rápido. Bala ou lâmina na cabeça. Mas aquelas armas na parede não devem estar carregadas. Ao contrário da arma no coldre de Longwai. E, mesmo se eu pegasse o livro e descesse, não sei onde Mei Yee está. Não teria tempo de procurar por ela. Não é a hora certa. Mas o que me aterroriza é a possibilidade muito real de que a hora certa nunca chegue. De que a hora seja agora. — Gosto de você, Dai — diz o traficante —, e é por isso que está com todos os membros no lugar e nenhuma bala alojada no cérebro. Você é esperto. Entende como as coisas

funcionam. Cumpre as tarefas. Preciso de homens assim. O ar fica parado nos meus pulmões. Olho para o tampo de mesa de espelho, onde as fileiras de cocaína se duplicam, tornam-se mais do que realmente são. — Preciso de homens assim — ele repete —, mas também preciso saber se posso confiar em você. Preciso saber se está disposto a defender meus interesses. — Isso é um convite? — Não estou fingindo a falta de ar na minha voz. Entre todas as coisas que esperava quando fui trazido, um convite para entrar para a Irmandade não estava entre elas. Tsang estaria mijando nas calças agora. — Depende do ponto de vista. Tenta ver as coisas da minha perspectiva. Realmente acha que eu deixaria você sair impune? Depois de tudo o que viu? Qualquer outro estaria num saco de cadáver a esta altura. Mas você tem coragem e inteligência. Odiaria desperdiçar essas habilidades. — Então… eu entro para Irmandade ou levo um tiro e sou cortado em pedacinhos? — É uma grande oportunidade. — Bom, eu sou um oportunista. — Tento sorrir. Tento não pensar em Hiro, Pat Ying, Jin Ling, Mei Yee e todas as vidas incontáveis que esse homem destruiu. Tento não sentir os estilhaços sem fim que rasgam e queimam meu peito. — Claro, tem as formalidades antes de você virar um membro oficial. Verificação de antecedentes, juramentos e coisa e tal. E tem a questão da sua lealdade. Todos os meus homens têm que passar por um teste. — Qualquer coisa — eu digo. — Qualquer coisa? — Ele tira a mão do queixo, enfia no bolso do terno. Faço que sim e penso nas centenas de coisas que ele pode me mandar fazer. Centenas de coisas que eu odiaria fazer. — Uma das minhas garotas está me dando problemas… Não. Não. Não. Qualquer coisa. Qualquer coisa menos isso. Sinto como se um cirurgião tivesse me partido ao meio, deixado-me oco, minhas entranhas sujando suas luvas brancas como sementes viscosas de abóbora. Minha cabeça gira e me esforço muito, muito mesmo, para manter o sorriso no rosto. Longwai começa a andar em círculos ao meu redor. — Acho que ela anda se comunicando com alguém do lado de fora. Encontramos um buraco na janela dela hoje de manhã e uma das outras meninas diz que viu uma concha no parapeito. — O que planeja fazer com ela? — Fico grato por ter dividido a maior parte das refeições com Chma, porque meu estômago está revirando como as águas em volta de um barco. Um caos de ondas, partidas pelas lâminas afiadas do motor. — Tenho que me livrar das laranjas podres. Embora eu esteja começando a achar que todas estão assim. Acontece de tempos em tempos. Uma menina decide fugir e as outras ficam malucas. Acho que vou ter que trocar o lote todo. — Ele balança a cabeça, como se estivesse se livrando do pensamento. — Mas, se ela estiver conversando com alguém por aquela janela… preciso saber o que disse. Com quem conversou. — O que precisa que eu faça?

— Você… — Longwai caminha até o canto, onde um frigobar zumbe. — Você vai me ajudar a descobrir a verdade. A porta do refrigerador se abre com o tilintar de garrafas e uma fresta de luz forte demais. Longwai tira algo que não consigo ver direito. É pequeno o bastante para caber na palma da sua mão, escondido enquanto ele fecha a porta com o cotovelo. — Já dei um tempo para ela prever seu destino, se decidir continuar calada. Você e eu… vamos descer e fazer algumas perguntinhas. — Mas o que… o que eu tenho que perguntar? — As perguntas ficam por minha conta. Se ela não responder, quero que use isto. — Sua mão se abre, como uma ostra que cede a pérola. Só que não há nada precioso na mão macia de Longwai. É uma seringa, fina como um lápis, cheia de um líquido da cor de caldo de carne. O traficante toma cuidado para manter a agulha longe da minha pele quando a entrega para mim. A seringa é um veneno frio na minha mão. Tento não tremer. Heroína. Ele quer que eu injete heroína nela. — Não se preocupa. Vai ser um trabalho bem simples. — Ele sorri enquanto diz isso. — Afinal, como você disse, é a lei do mais forte.

JIN LING

O TÁXI PARA O QUAL DOU SINAL não é nem de perto tão chique quanto o carro da família Sun. Entro e sinto que estou andando em círculos. Voltas e voltas. Para trás, para a frente e para trás de novo. A cidade passa rodando, assim como antes, só que agora é noite. Quando o táxi começa a subir a colina Tai Ping, toda a Cidade de Fora está iluminada. A chama neon arde contra o céu negro. Um mar escuro. Tento procurar Cassiopeia, mas não dá para ver. Foi engolida pela névoa elétrica. O motorista olha por cima do ombro. — Qual era o número mesmo? — Sessenta e dois — respondo, e tento fingir que meu mundo não está se despedaçando. Que Mei Yee e Dai não estão presos no bordel de Longwai. Cercados por armas e capangas. Que não estou aqui para lutar por eles. É um corre como qualquer outro, digo a mim mesma, embora saiba que não é. É só fazer direito que eles vão ficar bem. Mas não tem uma troca rápida. Não tem drogas em troca de dinheiro. Estou indo buscar o homem que visita minha irmã. O homem que paga para Longwai para poder… Não, não posso pensar nisso. Não com uma arma pesando no meu bolso. Cutuco um pedaço de pele solta em volta da unha. Puxo e mordisco a cutícula com dentes ansiosos. Quando paramos na frente do número sessenta e dois, tem um naco de pele faltando no meu polegar. — Quer que eu espere? — pergunta o taxista. Faço que não e dou o dinheiro para ele. O motorista me deixa na beira da estrada. No escuro. Sob as estrelas e os pinheiros muito altos. Diante do portão aberto. A casa fica no alto da colina, depois de uma trama densa de árvores. É uma mansão feita mais de vidro do que de metal. A luz brilha nas paredes transparentes, ilumina tudo ao redor. Dezenas de pessoas se movem lá dentro, como bonecos minúsculos. As mulheres usam vestidos de gala. Os homens usam ternos pretos e brancos elegantes. Muitos são estrangeiros, com o cabelo claro. Uma festa. O embaixador está dando uma festa. As pessoas atrás do vidro se movem feito peixes, nadando de um lado para o outro num aquário. Esse mundo, de pessoas com joias e drinques, é quase mais aterrorizante do que uma fileira de homens de Longwai. Os homens que devem estar apontando armas para a cabeça de Dai e Mei Yee. Inspiro fundo. Seguro as lágrimas de medo e de dor. Caminho até a porta. O porteiro me vê. Fecha o sorriso.

— Por favor — consigo dizer antes que ele fale alguma coisa —, preciso conversar com o embaixador. — Ele está ocupado — o empregado diz. Sua voz é azeda. Como sua cara. — É… é sobre Mei Yee. — Rapaz, não sei de quem você está falando, mas precisa ir embora. — A porta começa a fechar. — Antes que eu chame a segurança. Seguro a porta com o ombro esquerdo, o lado bom, e entro. O porteiro solta um grito. Dou um chute forte na sua canela e entro correndo. Chego aos tropeções no meio da festa como um leitão frenético. Algumas das mulheres ocidentais soltam gritos agudos, palavras que não consigo entender. — Osamu! — dou um berro, porque não sei mais o que fazer. Os convidados ficam paralisados. Sinto mais olhares do que consigo contar. — O que significa isso? — Surge um homem. Há um leve estrondo em suas palavras. Uma raiva vaga e controlada. — Como entrou aqui? Ele é mais velho do que eu imaginava. Seu cabelo é grisalho. Sua pele é quase toda coberta de rugas. Mais perto de um cadáver do que de um marido ou namorado. A bile sobe até minha boca. Engulo em seco. Abro espaço para falar:

— Embaixador Osamu, preciso conversar com o senhor. — Faço uma reverência, embora minha vontade seja de sacar a arma de Dai e apontar para o peito dele. — Não é a hora nem o lugar para isso, rapaz. — Seus lábios velhos e enrugados estão tensos. Ele está olhando para o fundo da sala. Para os seguranças que vão me arrastar para fora a qualquer momento. Decido não perder mais tempo. — É importante. É sobre Mei Yee. Quando digo o nome dela, seus olhos se arregalam. Seus dentes rangem. Não sei se é medo ou outra coisa em seu rosto. O embaixador segura meu braço ruim, puxa-me para longe. Passamos pelo olhar fixo do porteiro, que massageia as canelas. Paramos do lado de fora, em frente à casa, perto de uma fonte. Nossas respirações anuviam nosso rosto. — Onde ouviu falar dela? Como ousa entrar na minha casa e pôr a minha honra em risco na frente das minhas visitas e da minha mulher? — Minha. Minha. Minha. Ele cospe a palavra repetidas vezes na minha cara. Sua saliva respinga nas minhas bochechas. Olho diretamente nos olhos dele. Seu peito estufado. O orgulho duro em seu rosto. Olho para ele e sinto ódio. O sentimento me corrói, descendo pelos braços. Apodrecendo meu peito e minhas entranhas. É como se todo o ódio que já senti jorrasse de mim: Kuen, meu pai, Longwai. Quase não consigo falar por causa disso. — Mei Yee está com problemas. Longwai a viu fazendo alguma coisa que não devia e ela vai ser punida. Ele não quer que você saiba. — Trato cada palavra como um mundo próprio. Tento equilibrá-las. Mantê-las firmes. Os dedos do embaixador me seguram, apertando-me mais firme, como uma ratoeira. Há força em seu olhar. Ele está tentando me intimidar para tirar a verdade de mim. — E como sabe disso?

— Eu… entrego drogas para Longwai. Uma das outras meninas no bordel me contou. Disse que era urgente. Uma questão de vida ou morte. Essas últimas palavras parecem balançá-lo. Osamu solta meu braço e volta para a porta. Olho para as paredes de vidro, onde rostos pálidos e maquiados observam através do vidro. Me encaram. O embaixador troca algumas palavras com o porteiro e pega um casaco grosso para cobrir o traje de festa. Seus sapatos chiques de couro passam por mim a passos rápidos. — Vem — ele me chama por cima do ombro. Como se chamasse um cachorro. Não tenho escolha senão correr atrás dele. Osamu nem mesmo olha para baixo quando chego ao seu lado. — Juro pelos deuses, rapaz, que, se estiver mentindo, vou mandar prenderem você por um longo tempo. Ameaças não significam nada para mim agora. Meu rosto está banhado de suor. Meu torso está se abrindo, literalmente. A velha camisa de Hiro está empapada de sangue. Não sei se consigo continuar. Apesar da dificuldade, entro no carro do embaixador e sinto a saliência da arma de Dai quando me deixo cair no banco de couro. Ela afunda no meu bolso. Lembra-me das seis balas. Seis chances de dar um jeito. De dar o fora.

MEI YEE

POR UM TEMPO HÁ APENAS PENUMBRA e o ritmo dissonante da respiração de Sing. Começo a

me perguntar se é só isso. Só a entrada e a saída de ar nos seus pulmões permeados de droga, mostrando-me o destino dela. O ritmo é quase hipnótico. Depois de minutos e minutos, meus olhos começam a fechar. Então, a porta ao meu lado se abre: uma explosão de madeira e fúria, acordando-me de repente. Com dificuldade, ajoelho e me levanto, olhando fundo para os pares de pernas indistintas que entram. Fico de pé e vejo os rostos. Aqueles que vieram me interrogar e me julgar. A maquiagem de Mama-san, a tatuagem de Fung, o dente dourado de Nam, a cicatriz violeta de Longwai. Mas tem um quinto rosto, que preciso me concentrar para reconhecer. Vejo o menino e penso que devo estar sonhando. Mas não, esfrego os olhos e ali está ele, em carne e osso, sem o vidro ou o metal entre nós. A pele dourada. O cabelo repicado caindo por toda a face. O rosto aquilino cheio de astúcia. Os olhos que zunem e brilham como a canção da fênix. Dai. O que ele está fazendo? Será que também o pegaram? Aqueles olhos encontram os meus. Seu queixo treme, de um lado para o outro, bem de leve. Baixo o olhar para o chão, para longe dele. — Mei Yee. — Longwai parece desapontado, mas uma ameaça cobre meu nome. — Mei Yee. Como pôde fazer isso comigo? Depois de tudo o que fiz por você. Mantenho a cabeça baixa, examino as fendas nas tábuas do piso. Há anos de poeira e sofrimento entre elas. Lugares que nem a vassoura de Yin Yu consegue alcançar. — Eu… não sei do que o senhor está falando. — Não? — Longwai dá um passo na minha direção. Sinto seus olhos sobre mim, machucando-me e despindo-me como no primeiríssimo dia em que me inspecionaram. Ele estende o braço, seus dedos frios e pegajosos encostam no meu punho. — Como você arranjou este corte no dedo? Ele ergue minha mão para que todos na sala vejam. Preciso de todas as minhas forças para não recuar ao toque. — Sabemos sobre o buraco na janela. Quem estava atrás dele?

Fica com a cabeça baixa. Baixa. Não olha para Dai.

— Ninguém, senhor. — Está mentindo — diz Longwai, como se fosse o fato mais óbvio do mundo. — Yin Yu disse que você mostrou uma concha para ela. Como conseguiu uma? — Yin Yu é uma mentirosa. Já disse para o senhor. Está com inveja.

— Ela é esperta o bastante para não guardar segredos. — As narinas de Longwai se alargam, como um cavalo que galopou três lis. — Estou dando uma escolha, Mei Yee. Me diz a verdade e deixo o embaixador Osamu levar você para Seng Ngoi. Se preferir continuar mentindo… Ele aponta para onde Dai está, um pouco à parte de todos os outros da sala. O menino não olha para mim, não nos olhos. Olho para sua mão e vejo o porquê. A seringa é exatamente igual à que enfiaram no braço de Sing. Cheia do líquido da ruína e da perda. Vê-la nos dedos de Dai me dá um aperto no coração. Ele me traiu? Estava brincando comigo esse tempo todo? Tirando informações de mim só para me descartar no final? Cada uma dessas perguntas parece uma flecha trespassando meu peito. Um calafrio cortante atravessa meu corpo, bem no centro. Tento, tento, tento olhar em seus olhos para encontrar respostas, mas ele não olha nos meus. Longwai pensa que os escombros no meu rosto são de medo. — Deixei que você passasse um tempinho com sua velha amiga para que a gravidade da

sua escolha ficasse mais clara para você. Então, Mei Yee, é a verdade ou a seringa. O que vai ser? Eu poderia contar. Bastaria apontar um dedo, reto como uma flecha, na direção do peito de Dai. Uma palavra, um dedo e a ponta da agulha iria embora. As armas seriam apontadas para o menino. E então? Se Longwai mantivesse a palavra, eu seria despachada para a Cidade de Fora. Enjaulada na cobertura do embaixador para uma vida de hematomas e pedaços do mar. Não é a liberdade, mas é melhor do que acabar como um esqueleto vivo no chão do bordel. Olho para a seringa, agora quase completamente visível sob os dedos tensos de Dai. A pele sobre seus ossos é de um branco fino, marcado. É uma aposta. Tudo isso. Não faço ideia, não tenho garantia de que Longwai vai cumprir sua promessa. E Dai… Foco nos seus dedos. Em como tremem. Tudo se resume a uma única pergunta. Confio nele? Passo os olhos pelos outros. Pelo queixo recuado e pelos ombros curvos de Fung. Pelo canino reluzente e pelas quatro cicatrizes descascando na bochecha de Nam. Pelo corpo de Mama-san envolto em sua roupa de seda justa. Pelo cabelo de Sing, caído no chão como fitas embebidas em graxa. Seus olhos estão abertos, parte do brilho voltou quando ela viu a seringa na mão de Dai. Pela barriga grande demais de Longwai apertada contra os botões da camisa. Por Dai. Desta vez, ele está olhando para mim. Nossos olhos se encontram só por uma fração de segundo. E eu sei.

Custe o que custar.

— Estou falando a verdade. — Minha voz não treme quando volto a olhar para Longwai. — Não tinha ninguém atrás da janela. Não tinha nenhuma concha. Ela quebrou e eu cortei o dedo colocando a seda no buraco para o frio não entrar. Yin Yu viu e tirou proveito disso, inventando essas histórias malucas.

Essa claramente não é a resposta que Longwai estava esperando. Seus lábios se fecham numa careta. Seus olhos vão de Dai para mim e então se estreitam. — Essa é a verdade? — Sim — digo. A cabeça do traficante vira na direção de Dai. Com uma mão, ele segura meu braço novamente; usa a outra para chamar o menino da janela. Dai chega tão perto que consigo sentir o calor do seu corpo. Tão diferente da umidade fria do toque de Longwai ou do suor ensebado do peito do embaixador. Esse calor é como um fogo de cozinha numa noite de inverno: o conforto quente e bruxuleante de casa. Fecho os olhos, aqueço-me nele conforme Longwai estica meu braço. Ouço o estalo de uma faixa elástica vindo de algum lugar. Então a sinto, comprimindo meu braço, fazendo todo o sangue voltar para punho, mão e dedos. Meus olhos se abrem para ver Fung atando um nó complicado no elástico. Longwai me encara. Espera que eu implore: curvada e trêmula aos seus pés. Em vez disso, eu o encaro de volta, olhando a solidez vazia de seus olhos. — Não precisa ser assim — ele diz. — Não. — Sinto cada batida do meu pulso martelando o torniquete firme de Fung. — Não precisa. A farpa na minha voz o faz rosnar e sei que não importa se acha que estou ou não falando a verdade. Mama-san estava certa. Coragem e esperança não podem existir num lugar como este. Longwai as esmaga com o pé até virarem pó. No fundo, não foi Yin Yu quem fez isto comigo. Foi este homem. Ele olha para Dai e aponta para as veias arroxeadas salientes sob minha pele. — Injeta.

DAI

NA PAREDE DO MEU APARTAMENTO RESTAM DUAS MARCAS, mas não importa. Não tenho

tempo. Não são dias nem horas que faltam. Não são nem mesmo minutos. Os números mudaram. Faço a soma, calculando rápido na cabeça enquanto meus dedos seguram a seringa. Seis pessoas. Três armas. Uma seringa. Um caco de vidro. Um livro. É uma equação desigual, impossível. Não importa quantas vezes eu a repasse, não consigo encontrar uma solução. O livro e a menina não se somam. Depois do sinal de igual, sou eu ou ela. Não nós. Longwai ganha a vida mentindo, mas ele tinha razão em relação a uma coisa: sou dispensável. Sou o sacrifício, a rainha num jogo de xadrez brutal. Descubro que existe uma lei mais importante que a do mais forte. E não sei qual é, mas posso senti-la subindo, latejando, queimando meus medos e minhas dúvidas. Sem livro. Sem mim. Só Mei Yee. A seringa de heroína perdeu o frio do refrigerador. Ela treme, cheia de dezenas de bolhinhas minúsculas na minha mão. Se alguém olhar para mim, é tudo que vão ver. Tremor e bolhinhas. Mas minha mão esquerda está deslizando muito cuidadosamente para dentro do bolso, onde o caco de vidro corta o jeans. A ponta afiada encosta na minha mão. Pronta. Tem tantas veias no braço de Mei Yee, puxadas para a superfície pelos nós apertados demais de Fung. Ela não resiste enquanto o traficante estica seu braço como uma oferenda. — Injeta. — Longwai aponta para a rede arroxeada sob a pele fina como papel. Respiro fundo, abrindo a seringa na mão direita enquanto seguro firme o vidro na esquerda. Se eu fizer tudo certo, consigo enfiar a ponta afiada no pescoço de Longwai, pegar a arma dele e dar um jeito em Fung e Nam. Um grande se. Depois, ainda tem a questão de todos os outros membros armados da Irmandade espalhados pelo lugar. Sair daqui vivo é quase impossível, mas essa é minha única chance. Finjo olhar a agulha enquanto a levo para perto da pele impecável de Mei Yee. Mas, na verdade, meus olhos estão procurando outras veias, as cordas grossas acumuladas no pescoço de Longwai. Ouço um grito de repente: uma menina. Onde eu não achava que havia uma. Ela se levanta do canto, parecendo uma bruxa com o cabelo preto e o rosto descarnado. Seus olhos

estão ao mesmo tempo inchados e afundados, fixos numa coisa. Ela se lança à frente com uma velocidade que parece impossível a seus membros esqueléticos. — Eu preciso! A seringa é arrancada da minha mão pela menina desvairada que ressuscitou. Não tenho tempo de fingir que tento impedi-la. Sua mão agarra a agulha, enfia-a no braço. Mas não há veia para transportar. Heroína e sangue escorrem sob sua pele. A menina treme, olha fixo para a seringa. Está tentando lamber o resto quando Nam tira o plástico oco da mão dela. Coloco o vidro de volta no bolso. — Tira essa menina daqui! — Longwai grita para Nam. Nunca o vi desse jeito, tão furioso. Seu rosto está afogueado nas cores do outono. — Mas para onde…? — Estou pouco me lixando! — Longwai urra. — Pode meter uma bala na cabeça dela de uma vez! E aproveita para trazer outra seringa. Nam a puxa pelo cabelo e começa a arrastá-la. O rosto dela se transforma em algo desfigurado e violento, como se estivesse possuída. Pela maneira como se move, quase acredito nisso: esperneando, arranhando, gritando, contorcendo-se. Ela consegue soltar a mão

de Nam de seu cabelo e fica livre. Sai chispando pela porta mais rápido do que um camundongo.

Agora. A hora é agora.

Minha mão volta a pegar o caco de vidro, puxa, pronta para atacar. — O que é isso tudo?! O novo berro paralisa meu braço em pleno ar. Não vem de Longwai; a expressão no rosto dele é imóvel e silenciosa. Olha fixo atrás de mim, para as sombras reunidas no batente, bloqueando todos os caminhos em direção à liberdade. Pela primeira vez fico grato pelo vidro ser tão pequeno. Ele se esconde perfeitamente entre meus dedos, sem denunciar nada. Seguro-o firme e olho ao redor. Osamu. O plano B. Jin Ling cumpriu sua missão. O embaixador está com uma roupa conhecida. Eu o vejo usando o mesmo estilo de smoking desde que eu era pequeno demais para saber quem ele era. O que sempre me chamou a atenção foram suas abotoaduras douradas, a maneira como cintilavam sob a luz da tocha no nosso jardim de pedras enquanto ele bebericava coquetéis e flertava com todas as mulheres. Incluindo minha mãe. Ele não me reconhece; duvido que esteja me vendo neste momento. Sua raiva é igual à de um touro. Tão focada que ele nem se lembrou de tirar os sapatos na entrada. Os oxfords de couro reluzente entram na sala fétida, fazendo tremer todas as tábuas do chão. — O que está acontecendo, Longwai? — Assuntos do bordel — o traficante diz, furioso, mas dessa vez sem gritar. Noto que sua mão livre está apoiada ao lado do corpo. O lado em que esconde a arma. — Nada que seja da sua conta. Estou tão perto de Mei Yee que consigo ouvir a mudança na sua respiração. Acelera de um jeito que a ameaça de Longwai ou da heroína não aceleraram. É a proximidade dele, assim como o coração de um coelho se agita sob o olhar do caçador.

Os olhos de Osamu sobem até o braço de Mei Yee, encontrando os dedos de Longwai ainda no punho dela, a veia inchada e os nós de Fung. — Mei Yee é da minha conta. Achei que tinha deixado mais do que claro para você que ela não deveria ser tocada. — Respeitei seus desejos pelo tempo que me foi conveniente. Esse tempo acabou. Você pode ter esquecido, Osamu, mas eu sou o dono do bordel e das meninas. Incluindo Mei Yee. Os homens se encaram, como dois gorilas se enfrentando por um pedaço de território. Prontos para despedaçar um ao outro. Um momento dramático de documentário sobre a natureza ao vivo. Mei Yee treme ao meu lado. Queria muito, muito, muito estar com minha arma. Osamu estende o braço, segura o punho de Mei Yee. A pele deles é tão diferente: a dela é branca como a neve; a dele, coberta por manchas de idade e pelos grossos. — É só dar um preço — ele diz, e penso em todos os hematomas que vi na pele de Mei Yee naquela noite na janela. Como se encaixam perfeitamente com seu toque. Mesmo sem intenção, minha mão segura o vidro com mais força, rasgando minha pele. — A questão não é mais o dinheiro, Osamu. — A voz de Longwai é ao mesmo tempo dura e calejada. — Ela está tramando alguma coisa. Guardando segredos. Quero saber o que é.

Por um longo momento, tudo fica imóvel. Há a avalanche rápida das respirações de Mei Yee. A velha com a roupa justa de seda, observando tudo como uma aranha numa teia. E minha mão firme no vidro. — Segredos? — Osamu olha ao redor, com os olhos arregalados e a visão cada vez mais clara, como um homem que acabou de acordar. De relance em relance, ele absorve o quarto:

as pilhas imundas de farrapos, a arma de Longwai, Mei Yee, eu… Então seus olhos se movem com rapidez. De um lado para o outro. De um lado para o outro, como uma bola de pingue-pongue, quicando entre mim e Mei Yee. — Entendi — ele diz baixinho. Sinto o calor do sangue correndo pela minha mão. — É informação que você quer? — A voz de Osamu é um lago. Plácida e calma na superfície, com profundezas desconhecidas. — Você não vai tirar nada de Mei Yee. Seus olhos se fixam feito pedra em meu rosto. — É este o rapaz que você quer. Sun Dai Shing. O que o herdeiro das Indústrias Sun está fazendo metido com a Irmandade? Tenho certeza de que ele tem segredos suficientes para entreter você pelo resto da sua carreira curta e miserável. Maldito Osamu. Não foi um plano B muito bom. Todo o calor e a ameaça que Longwai estava direcionando contra o embaixador mudam de direção, vindo como o fogo do dragão até meus ombros. O traficante solta Mei Yee e saca a arma com um único movimento fluido e letal de mangusto. O cano me encara, duro e implacável. Acabou. Ele puxa o gatilho.

JIN LING

NÃO CONSIGO ACOMPANHAR O RITMO. O embaixador sumiu. Desapareceu na Cidade Murada antes que eu conseguisse tirar o cinto de segurança. Até isso é difícil. Meu braço direito lateja de dor. Fraco. Tem uma mancha úmida na camisa de Hiro; meu torso está sangrando de novo. Lágrimas de dor enchem meus olhos. Deixam tudo turvo. As luzes, a escuridão, as lanternas vermelhas e cintilantes de Ano-Novo. Tudo brilha. Mistura-se. Eu me sinto acabada. Mas fazia anos que o rosto e a voz da minha irmã não ficavam tão claros. Vejo seu sorriso por trás do vapor do nosso chá aguado. Ouço as canções de ninar que ela cantava depois das surras do nosso pai. Penso em Mei Yee e saio do carro. Para longe do cheiro ruim do couro e da colônia forte. Ando, arrasto-me pelo Velho Portão Sul. Meus passos parecem vir de um sonho tortuoso, rumo ao coração desta cidade surreal. Através dos últimos dois anos da minha vida. A boca de lobo onde ergui meu primeiro acampamento. As lojas que roubei, as entradas que rondei. A janela pela qual espreitava de manhã para ver desenhos. O beco onde resgatei um gato cinza de torturadores marginais. O segundo beco, onde o resgatei de novo. O restaurante da sra. Pak e a loja de tralhas do sr. Lam. A cadeira de dentista do sr. Wong. As esquinas escondidas onde montei minha lona. E assim vai e vai. O fim está próximo. O fim de tudo isso está próximo. Sinto a arma no bolso da jaqueta. Todas as seis balas pesam no meu corpo, fazem cada passo parecer mais impossível que o anterior. Continuo em frente. Porque é o que quero fazer. É o que sempre fiz. Só que, desta vez, desta última vez crucial, acho que não tenho forças. Minhas botas deixam marcas nas poças de gelo. Passo, passo, dor. Paro. Encosto na porta do farmacêutico. Tento me concentrar nas dezenas de potes com raízes secas e pedaços de animais atrás das grades. Minha visão está duplicada — sombras de luz e cor. Estou quase lá. Mais uma curva e estarei na entrada do covil do dragão. Não deve faltar mais do que vinte passos, mas parece ser do outro lado do mundo. Uma lata vazia, cheia de furos de ferrugem, desce a rua ruidosamente. Faz meu pescoço se erguer, alerta. Não vejo muita coisa. Só as sombras e a névoa da minha respiração. Misturando-se. — Ele está ali! — alguém grita, e ouço passos. Um a um, eu os vejo. Vêm de todas as direções. Um grupo de garotos, farrapos e facas. Seus rostos estão pálidos e talhados. Esculpidos pelas luzes trêmulas. Tão finos e esqueléticos que nem tenho certeza se são humanos. Talvez sejam demônios. Espíritos malignos vindos para me levar para as chamas do além. Devorar minha alma pelo que fiz com o mercador de

jade. Com Kuen. Minha mão tateia, saindo do batente rumo ao bolso. Na direção do revólver. Mas tem mais do que seis deles. Mesmo sem contar os que minha visão duplica. Consigo focar num dos garotos. Ele me estuda com os olhos apertados e os lábios torcidos. Sua lâmina é de um tom pálido de prata, e corta a noite à sua frente. — Tem certeza de que é ele? Acho que está diferente. — Arranjou roupas novas, só isso. Das boas, inclusive! — grita uma voz à minha esquerda. — Ho Wai tem razão — diz outro moleque. — É ele. O que matou Kuen. O menino bem na minha frente chega mais perto. Sua faca se move diante dele; a ponta paira perigosamente perto da minha garganta. — Que coisa, hein, Jin! — Um sorriso se abre no seu rosto fino e faminto. — Legal ver você aqui.

MEI YEE

A PISTOLA DE LONGWAI APONTA PARA DAI. Quero gritar, mas não tenho voz. Ou talvez esteja gritando, mas não consiga ouvir. O som da bala saindo da arma pulsa em toda parte. Nada escapa dele — nem as fendas imundas nas tábuas do chão, nem a maquiagem endurecida no canto dos olhos de Mama-san, nem as veias doloridas do meu coração que explode —, nada. Tantas coisas acontecem de uma só vez. Dai está caindo, caindo, caindo. Está no chão. Imóvel. As tábuas do piso sob ele se deixam infiltrar pela cor da minha cortina, das minhas unhas. A cor que se espalha. Meus ouvidos zumbem, retinem, gritam. Não pode ser. Longwai caminha até o corpo, com a pistola apontada para baixo. Desta vez, mira na cabeça. Os dedos do embaixador estão em volta do meu punho. Ele pressiona como da outra vez, quebrando coisas invisíveis, trazendo dor e cores na pele. Mas não está só apertando, está puxando também, arrastando-me para longe da arma de Longwai. Para longe de Dai. Puxa meu punho com tanta força que minha articulação estala e a dor dispara. Faíscas de luz tremulam como girinos pelos meus olhos, seguem-me até a porta, descendo o corredor até o salão. Eu poderia ter tocado nele. Estávamos tão perto. — Rápido. — O embaixador me arrasta pelo pesadelo de fumaça e sofás. Não sei como resistir a ele. Não depois de ter visto tanto sangue embebendo o chão, sabendo que Dai estava lá para me buscar. Custe o que custar. Sing não chegou tão longe. Ela está no piso do salão, com o rosto pressionado contra o tapete. Os homens de Longwai estão tão ocupados com ela que nem notam o embaixador me arrastando pela sala. Mas alguém no salão nota. Caminho cambaleando, vendo Yin Yu me observar. O punho que bati na maçaneta pende inutilmente ao lado do corpo. A franja cai sobre os olhos e estou longe demais para ver a expressão em seu rosto. Não sei dizer se ela está arrependida, triste ou se sentindo vingada. Ela não se move enquanto o embaixador me leva embora. Saímos do salão, descendo o corredor sul, rumo à porta. Faz dias que sonho com este momento, sair e ir para longe deste lugar. Só que os dedos na minha pele eram mais doces — tão quentes, eternos e elétricos quanto os olhos dele. A gente poderia ter se tocado. Então ouço o barulho capaz de pôr fim a todos os outros. Mais uma vez, ele trespassa tudo:

o ar de inverno, as tábuas do corredor, meu peito. Faz o embaixador dar um pulo embora nós dois soubéssemos que isso estava por vir. O segundo disparo ressoa pelos meus ouvidos como asas de cigarra, várias e várias e várias

vezes. Matando de novo e de novo e de novo. Fecho bem os olhos, como se pudesse expulsar o barulho. Mas tudo o que vejo é Dai estatelado no chão com a arma de Longwai apontada para sua cabeça. Sem chances de fugir. — Vamos. — O embaixador continua puxando, como se eu fosse um burro empacado resistindo ao cabresto. — Longwai pode mudar de ideia agora que deu um fim no menino. Deu um fim no menino. Suas palavras congelam meus ossos. Como se o ar que entra uivando pela porta da frente fosse realmente frio o bastante para amalgamar meus ossos. Sou mais gelo que mulher. — Que foi? Está triste? Não tenta esconder. Vi o jeito como estavam se olhando! — A mão dele aperta com mais força a cada palavra, como se, me esmagando, pudesse me tornar submissa de novo. — Você matou o menino… — Deixo escapar o pensamento. Palavras de choque tão brancas e trêmulas quanto eu. — Acabei de salvar sua vida — murmura o embaixador, furioso. A dor dispara pelo meu punho como se mil agulhas tivessem sido enfiadas de uma só vez. — Troquei a sua vida pela dele. Você é minha. Ninguém pode mudar isso. Nem Longwai, nem Sun Dai Shing, nem mesmo você. Queria que ele estivesse errado. Que os tenros brotos de coragem e luta que nasceram no solo da minha alma nos últimos dias não tivessem acabado de queimar ao ouvir a morte de Dai. Queria poder impedir o embaixador. Impedir tudo o que aconteceu nas últimas horas. Mas algumas coisas simplesmente não estão destinadas a acontecer. Por mais forte e ardente que seja o pedido.

JIN LING

MINHA MÃO, ENFIADA NO BOLSO DA VELHA JAQUETA DE HIRO, está dormente. Devo estar

tocando a arma, mas não dá para ter certeza. As pontas dos meus dedos parecem bêbadas de tão desajeitadas. Como meu pai ficava depois da terceira garrafa. Todos os meninos estão mais perto agora. Como se fossem a roda e eu o centro de uma engrenagem. Suas facas lembram raios. Apontados para a jaqueta. — Onde arranjou essas roupas? — O marginal que chamaram de Ho Wai dá um passo à frente. Me olha de cima a baixo. — Deve ter sido no mesmo lugar onde arranjou as botas! — diz o menino no centro. — Agora cala a boca! — Cala a boca você, Ka Ming! — Ho Wai retruca. Consigo sentir a arma agora. Os meninos, Ho Wai e Ka Ming, não estão mais prestando atenção em mim. Estão se enfrentando. Como dois cachorros alfas. Fazendo uma demonstração de mordidas e rosnados para o grupo. Inspiro o ar úmido. Minha visão está voltando ao normal. São oito pivetes que me rodeiam em meia-lua. Oito facas contra seis balas numa mão sem firmeza. Minhas chances não são boas. É melhor só responder. — Arranjei essas roupas numa casa na colina Tai Ping — digo. Ka Ming e Ho Wai param de se enfrentar. Todos os oito pares de olhos se voltam para mim. — Duvido. — Outro menino à minha esquerda balança a cabeça. — Ele está mentindo! — Como acha que ainda estou vivo? — Encolho os ombros. A velha jaqueta de Hiro silva com o atrito. — Dai me levou para lá. Ele é de lá. — Tai Ping? O bairro dos ricaços? — Ho Wai franze a testa. Sua faca abaixa um milímetro. — Dai é de lá? — Sim… — Prolongo as palavras. Deixo minha mente trabalhar. Se esses moleques estivessem decididos a me matar, eu já seria um cadáver agora. Estaria abandonada às moscas. Mas esses meninos… eles não têm as garras nem o ódio de Kuen. São só rostos famintos. Procurando uma saída. — Descobri que ele é rico. Tem uma casa gigante e tudo mais. — Penso no dinheiro que Dai enfiou nos meus bolsos. Queria não ter dado tudo para o taxista. Meu próprio dinheiro, no envelope laranja, está guardado no apartamento dele. Longe daqui. — E muitas outras roupas como estas. Se me deixarem ir, posso arranjar para vocês também. Dúvidas silenciosas perpassam o círculo de marginais. Olhares são trocados entre as facas e os rostos frios como pedra. A maioria deles está apontada para Ho Wai e Ka Ming. Parece que o lugar que Kuen deixou é grande demais para ser ocupado por um só pivete.

— Como a gente vai saber que você está falando a verdade? Que não vai só sair correndo? — A faca de Ka Ming corta o ar a cada uma das sílabas. Reforçando o argumento. Não tenho energia para inventar outra desculpa. Outra mentira. — Não tem como saber. Ka Ming e Ho Wai se entreolham. Olhares mais afiados que as facas. Pensando em todos os motivos por que vale a pena me manter vivo. Ou me apagar. Outra voz mais baixa surge atrás de mim. Bon, o menino que quase esfaqueei. — Pô, Ho Wai. A gente nem gostava do Kuen mesmo. Acho que Jin está falando a verdade. Dai saiu da cidade com ele. Segui os dois naquele dia. Ele deve ter grana. Ka Ming cruza os braços diante do peito; sua lâmina deixa de apontar para minha garganta. — Roupa é bom. Mas grana é melhor. — Acho que a gente devia manter o moleque como refém! — ladra Ho Wai. — Encontrar Dai e tirar dinheiro dele para manter a vida do amiguinho. É uma garantia, se Jin estiver falando a verdade. Dai… Sinto um nó na garganta quando penso nele, naqueles corredores vermelhos, arriscando a própria vida para salvar minha irmã. Ele precisa do revólver. Precisa de mim. Não tenho tempo para isso. Meus dedos se apertam em volta da arma.

MEI YEE

O LADO DE FORA É UM MUNDO ESTRANHO E NOVO, onde uma camada infinita de cheiros cobre o ar: incensos, frutos do mar, podridão amortecida pelo frio. A escuridão está em toda parte, entrando nas esquinas e nos becos, acumulando-se nos anúncios de neon das lojas. E os sons… tenho certeza de que há mais sons, mas tudo o que ouço são os dois tiros. De novo e de novo. Eles retumbam e crepitam a cada batida do meu coração. Ainda ressoando e zumbindo o impossível nos meus ouvidos. Morto. Dai está morto. Não pode ser, meu coração desafina. Mas é, meu cérebro grita. É. A seda fina do meu vestido não é nada contra o ar do inverno. O frio se enrola sobre mim como um gato que se acomoda no peito do dono. Todo o calor que Dai me deu foi embora. Por mais que eu tente, não consigo me segurar a ele. Mas o embaixador continua me puxando, me arrastando com força pela rua. O torpor do choque está passando. Meu punho lateja e as sandálias de seda são inúteis nas ruas de cascalho e vidro. Meus pés colecionam cortes, sangue e arrependimentos a cada passo. Osamu venceu. Realizou seu desejo vendo o meu se apagar na explosão metálica do disparo. E eu poderia ter impedido isso. Se tivesse dito sim tantos dias atrás, Dai não teria vindo me buscar a qualquer custo. Não teria contemplado o cano da arma de Longwai. Não teria morrido. Fazemos uma curva abrupta que dobra meu punho de maneira agonizante. O embaixador para e trombo com força no tecido duro do seu terno. Vejo por que paramos. Não tem espaço para continuar. A rua ladeada por paredes de bloco de cimento, fachadas de loja e canos suspensos está apinhada de moleques de rua. Aqueles sobre os quais Longwai nos avisava. Eles não parecem nem um pouco com Dai. São pele e osso, pálidos como fantasmas, e vestem farrapos. Encaram a gente com nove pares de olhos famintos e mortos como carvão. — Saiam da frente! — grita o embaixador. Sua mão livre balança como se estivesse afugentando uma nuvem de moscas. Mas os meninos não se mexem. Não demoro muito para notar as facas, a maneira como cintilam na escuridão. — Saiam, seus bastardinhos! — O berro do embaixador enche seu peito. Chacoalha os canos sobre nós e faz o vidro tremer aos meus pés, mas não move os meninos. A única coisa que muda são seus olhos. A fome, antes inerte, agora brilha. Tão forte quanto as abotoaduras no terno do embaixador. Tão afiadas quanto as lâminas nas suas mãos.

JIN LING

ANOS DE PORTAS E CANTOS VAZIOS. Meses de escuridão e trevas. Noites de tremedeira úmida e ratos mortos assando num graveto. Dias de corres e facadas e corres e roubos e corres. Não foi à toa. Chega o momento em que só consigo olhar, imóvel. Sem saber como pude duvidar de que a encontraria. A primeira coisa que vejo é o vestido. Tão vermelho quanto as escamas de um dragão sob

as luzes da rua. Mais vivo do que sangue. Seu cabelo está mais longo agora. Com uma trança até a cintura. Seu rosto é mais suave, mais triste. Tem um peso em seus olhos. Uma gravidade em seus ombros que não havia antes. Mas ela ainda é minha Mei Yee. Ainda é minha irmã, linda, linda. Ela é a bela, mas o embaixador é a fera. Baforando ar quente e fumaça. Estufando e fazendo cara de mau. Apesar de todos os berros, Osamu está morrendo de medo. Os marginais reconhecem isso. As facas voltadas para minha garganta agora apontam para ele. Oito delas. — Sou um funcionário do governo e meus homens estão logo atrás de mim. Se não se mexerem, vou mandar atirar em vocês agora mesmo — grita o embaixador. — Ele está mentindo — falo claramente. Alto. Minha mão ainda segura firme a arma de Dai. — É só ele. O embaixador me nota pela primeira vez. Seus olhos saltam de fúria. Como um crânio de rato esmagado por uma bota. — Você! Você armou isso, não foi, seu…? Tiro a mão da jaqueta. Ela não está tremendo nem rodando como o resto do meu corpo. O cano do revólver aponta direto para o peito do embaixador. A arma faz o que oito facas não conseguiram fazer. Osamu cala a boca. Seu rosto fica vermelho feito carne crua. Cheio de um medo muito real. O revólver fica firme, mas minhas entranhas tremem.

Atira. Atira. Atira.

Mas meu dedo não se move. Recusa-se a puxar o gatilho. Fico olhando para a cara gorda do embaixador e tudo o que vejo é o olhar fixo de Kuen. Tão terrível, vazio e vermelho depois do que fiz com ele. Assim, perco a chance. O embaixador puxa minha irmã. Esconde-se atrás dela feito o covarde que é.

MEI YEE

O EMBAIXADOR ESTÁ SE REVELANDO, como uma bola de feno que ninguém consegue pegar. Todas as máscaras perfeitamente escolhidas que ele veste para mim, para Longwai, foram descartadas como cartas de baralho. Agora está parado no frio — as manchas de idade em seu rosto ficaram roxas, como meus hematomas estavam —, encarando o menino e sua arma. Tem alguma coisa pura, alguma coisa familiar nesse menino armado. Ele encara o embaixador como Jin Ling encarava meu pai: com veneno nos olhos, os punhos prontos para a briga. Penso na minha irmã e me pego olhando fixo para o menino. Não pode ser. Não aqui.

O embaixador me segura firme contra si, apertando-me contra sua cintura para que meu corpo bloqueie o trajeto da bala. Assim que ele faz isso, o rosto do menino muda, suaviza até virar um rosto que vi tantas vezes sob o luar. Quando ficávamos juntas na janela, caçando estrelas.

Não pode ser… Mas é.

Ao ver minha irmã, encontro a força de que preciso. Ela enche minhas entranhas da firmeza e da bravura do impossível. Minha liberdade, minha saída, está bem diante de mim. E sou a única pessoa capaz de aproveitar essa chance. O braço do embaixador aperta minha garganta. Sua mão está logo acima do meu ombro, os tendões tensos como cordas. Cravo os dentes fundo, bem fundo, na sua pele. Ele solta um berro e o gosto do sangue enche minha boca: salgado e amargo. Tira o braço com um solavanco, e passo correndo pelos meninos e suas facas. Não prestam muita atenção em mim. Cercam o embaixador, que xinga sem parar. Dá para ver os ossos nas órbitas dos olhos deles. Os nós de seus dedos, grandes demais em volta das facas. Penso nos vira-latas da minha antiga província. Em como a fome os esvaziou e formou criaturas ferozes e desesperadas. Animais que desconheciam o medo. Minha irmã me pega pela mão e começa a me puxar. Estamos correndo rua abaixo, entrando num beco escuro, quando os gritos do embaixador começam de verdade. Não me arrependo. Às vezes, quando meu pai perdia o controle e passava de uma simples surra a um instinto assassino, a gente se escondia. Jin Ling sempre guiava o caminho: saíamos pela porta, passávamos pelo pé de ginkgo, entrávamos no labirinto do arrozal. Ficávamos com água até a cintura, serpenteávamos como as cobras que viviam naquelas longas ondas verdes. Eu me sinto igual agora. Mas, em vez de campos de arroz, Jin Ling mostra o caminho por entre muros de limo e montes de lixo. Através de fendas que eu nem tinha notado até minha

irmã passar por elas, puxando-me atrás de si com uma urgência potente. Quando finalmente paramos, os gritos do embaixador ficam para trás. Jin Ling está ofegando, muito mais do que deveria, e, apesar do frio, gotas de suor escorrem das pontas mal cortadas de seu cabelo. Ela ainda segura minha mão, os dedos firmes em volta do meu polegar, como fazia quando estava aprendendo a andar. Paramos num canto escuro e vazio, e olhamos uma para a outra. Sem palavras. Ficamos assim, paralisadas no momento. Fitando e nos esforçando ao máximo para acreditar.

— Mei Yee. — Ela diz meu nome e aperta minha mão com tanta força que acho que nunca vai soltar. — Sou eu. Depois de tudo por que passei, tudo o que fizeram comigo, pensei que minhas lágrimas tivessem secado. Mas ver minha irmã, ouvir meu nome sair dos seus lábios, basta para me fazer chorar. As lágrimas salgadas brotam e escorrem livres pelas minhas bochechas. — Você veio me buscar. Jin Ling não cabe mais tão perfeitamente nos meus braços. Está quase da minha altura. Seu rosto afunda no meu ombro como quando era pequena, mas ela precisa se abaixar para isso. Sinto seus ossos mais facilmente, apesar da jaqueta que veste. Quando finalmente nos separamos e ficamos de frente uma para a outra, olho para ela. Tem menos sardas. Seu nariz não parece mais tão grande. E… — Seu cabelo… — Engasgo de emoção e rio por entre as últimas lágrimas. — Cortei. — Ela engole em seco e sorri, mas sua voz está trêmula. — No começo, assim que vim procurar você. — Começo? — Segui a van dos Ceifadores quando levaram você — Jin Ling explica. — Cortei o cabelo para fingir que era um menino. Estou procurando você desde então. Fico sem palavras. Olho para ela, minha irmã forte e guerreira, e arrumo uma mecha solta do seu cabelo. Pensar que cortou o cabelo e veio me buscar é demais para mim. Impossível, por mais que esteja aqui agora, dizendo isso. Mas lembro como Jin Ling fazia seus pedidos. Dizia “Quero que a gente fique juntas para sempre” como uma tigresa. Nada impediria que conseguisse o que desejava. Nem mesmo a Cidade Murada. — Como você me encontrou? — digo, então paro. Sei. Vejo a resposta no rosto da minha irmã, sinto-a dentro do meu peito, onde meu coração se esmigalha.

Minha liberdade custa muito mais do que uma estrela cadente.

— Mei Yee… — Jin Ling volta a olhar para mim. — O menino, aquele que ia para sua janela… Fecho os olhos. Está tão, tão frio, mas não consigo tremer. As pessoas só têm calafrios quando lembram como é sentir calor. — Dai. — Digo o nome dele, mas isso não ajuda. Não o traz de volta para mim. — Sim — minha irmã diz. — O que aconteceu com ele? — Dai. — Repito o nome, mas o espaço vazio ainda está lá. Uivando e com as bordas afiadas, como o buraco na minha janela, deixando o frio do inverno entrar. Não quero dizer o que vou dizer em seguida, porque, se disser, o que vi vai se tornar real e verdadeiro. Mas

nem mesmo palavras não ditas podem fazer duas balas voltarem à arma de Longwai. — Dai morreu.

JIN LING

AS PALAVRAS DA MINHA IRMÃ são como uma faca no meu estômago. Rápidas e ardentes. Nada além de dor. Levo um minuto para que a verdade entre na minha cabeça. Para que comece a doer. — O embaixador veio e acusou Dai — Mei Yee diz. Seus olhos estão fechados. As pálpebras brancas palpitam como asas de mariposa. — Longwai atirou nele. Morto. Dai. Eu me recuso a crer que essas palavras possam se juntar. Elas não se encaixam. Estava com ele agora há pouco. No beco. Ele parecia tão forte. Tão seguro. Tão vermelho e vivo sob a luz da janela. Mas Dai sabia o que estava por vir. Tira sua irmã daqui. Corre o mais longe possível desta cidade. Não olha pra trás. Sabia que eu teria que fazer isso sem ele. Mei Yee solta o ar ao meu lado. O som da sua respiração lembra o de folhas secas sendo pisadas, de papel sendo rasgado. Ouço e lembro que ela não está usando nada para se proteger do frio e que suas sandálias de seda estão rasgadas e ensanguentadas. Dai pode estar morto, mas minha irmã está viva. E é assim que quero mantê-la. — Toma. — Tiro a jaqueta. Dou para ela. Está empapada de suor, de sangue, mas mesmo

assim o tecido tem cheiro de limão e chá verde. Como a casa de Dai. — A gente precisa ir. — Para onde? — Mei Yee murmura. Não quero voltar para o apartamento de Dai. Enfrentar a sujeira vasta e vazia daqueles ladrilhos. As duas marcas pretas que nunca vão ser apagadas. Mas meu envelope laranja está lá e Mei Yee precisa de sapatos. Roupas. E tenho a sensação de que Chma está lá, esperando. Não posso perder meu gato também.

Mas e depois?

Penso na casa do meu pai. Na horta da minha mãe coberta por tampas e cacos das garrafas

de bebida. Janelas e portas vazias. Imagino meu pai encostado no batente da porta. Esperando. O rosto mais vermelho do que o poente. Os punhos cerrados. E minha mãe atrás dele. Sempre atrás dele. Não estou pronta para essa briga. Não com essa ardência no ombro. Uma arma na mão. Não sei para onde a gente vai. Para algum lugar longe, bem longe daqui. Algum lugar onde nunca, nunca mesmo, vamos precisar olhar para trás. — A gente dá um jeito.

MEI YEE

JIN LING GUIA O CAMINHO DE NOVO e eu sigo, com a cabeça latejando. Esforçando-me para não, não, não pensar em Dai e naqueles últimos momentos terríveis. Em tudo o que ele deu para que eu pudesse correr e virar por essas ruas atrás da minha irmã. Estou ocupada tentando não pensar nisso quando Jin Ling para e faz um sinal para eu ficar quieta. Estamos num espaço minúsculo. Mal daria para chamar de beco de tão estreito que é. Os blocos de cimento raspam minhas costas e meu peito. Se respirar forte demais, vou ser esmagada. Quero sair porque sinto que as pedras estão me sufocando, mas Jin Ling não se move. Ela fica encaixada ali e observa. De repente, o espaço de ar livre à nossa frente é bloqueado, tapado completamente por um homem. Com um dragão escarlate e selvagem tatuado. Fung. Meu coração para, mas o capanga de Longwai não. Ele passa pela fenda, puxando algo atrás de si. Ouço o barulho terrível de plástico e peso morto sendo arrastado. Minha garganta se enche de vômito. Fico na ponta dos pés e vejo de relance um saco de cadáver que passa pelo nosso esconderijo. Tento engolir o vômito, tento respirar, mas as paredes não deixam. Jin Ling coloca a mão na minha, aperta firme. Como se soubesse que sua presença é a única coisa que me mantém em pé. O som do saco sendo arrastado não dura muito. Dá para ouvir o resmungo de Fung quando ele coloca o saco no chão e limpa as mãos. — É isso que acontece quando você irrita o dragão — ele grunhe para o corpo antes das suas botas se arrastarem no sentido em que veio. — Mais sorte na próxima vida. Jin Ling e eu esperamos longos minutos entre os blocos de cimento, ouvindo e observando. Finalmente, minha irmã enfia a cabeça para fora e sai, como um rato de um buraco. Ela só me puxa quando tem certeza de que é seguro. O saco não está nem a dois braços de distância, uma pilha triste de plástico preto. Não quero olhar para ele, a maneira como está jogado num canto entre o degrau de uma porta e uma parede. Como se tivesse lixo dentro, e não o menino que me despertou. Que me libertou. Minha irmã vai até o plástico e ajoelha. Estende os dedos e o toca. — Jin Ling… — Não sei o que dizer, exceto que não posso ficar aqui. Prefiro me lembrar de Dai com vida atrás da janela. Não como o corpo num saco, jogado na sarjeta. — Por favor. Ela franze a testa, seus dedos afundam no plástico amassado. Começa a rasgar. O preto se

abre facilmente sob suas unhas. Como um casulo doente: sem asas, só morte. Vejo a pele de relance, tão branca e dura quanto um prato de porcelana, e desvio o olhar. Jin Ling continua rasgando e o plástico continua se abrindo. Fico olhando para minhas sandálias ensanguentadas, tentando ignorar o vazio nauseante na minha barriga. — Mei Yee… — Ouço um barulho e ela para de puxar. — Olha. Continuo olhando para baixo, examinando a seda rasgada e os dedos dormentes. Não ergo os olhos. Não me faça erguer os olhos. Essa dor, a pele vermelha e os cortes de vidro, é muito mais fácil de suportar. — Não posso… não posso ver Dai desse jeito — murmuro. Minha irmã engole em seco. — Não é ele.

JIN LING

NÃO É DAI. FICO OLHANDO PARA O CORPO ENSACADO. O que o bandido acabou de arrastar

pelas ruas. Parece mais um esqueleto do que uma menina. O cabelo ensebado. O rosto corroído. Um único ponto escarlate entre os olhos. — Sing — Mei Yee sufoca um grito ao meu lado. — O segundo tiro. Foi Sing… Recoloco o plástico sobre o rosto da menina morta. Olho para minha irmã. — O que aconteceu? A última vez que você viu Dai. Onde ele estava? — A gente… a gente estava no quarto da Sing. O embaixador acusou Dai e Longwai atirou nele. Dai caiu no chão e tinha sangue por toda parte. Longwai foi para cima dele e apontou a arma para sua cabeça. O embaixador me puxou para longe, ouvi um segundo tiro e pensei… — Mei Yee leva a mão à boca. Fita o saco de lixo. — O primeiro tiro. Onde Dai foi atingido? — Eu… eu não sei — ela diz, com dificuldade. — Perto do peito. Tudo aconteceu tão rápido. Também fico olhando para o saco preto. Mas não é em quem está dentro dele que estou pensando. Estou pensando no que vou fazer em seguida. Semanas atrás, eu teria saído correndo, levado minha irmã para fora da Cidade Murada sem nunca olhar para trás. Parte de mim, a sobrevivente, a que me manteve viva todos estes anos, ainda quer isso. Seguir a regra número um. Corra, corra, corra. Lutei tanto, arrisquei tanta coisa para ter Mei Yee de volta. E agora ela está aqui. Minha missão, a razão de ter vindo para este lugar, está cumprida. Mas lembro que, apesar de Dai não ter me feito prometer nada, jurei que o ajudaria a pegar o livro. Sua liberdade. Se ele está vivo, essa promessa ainda está de pé. Dai salvou minha vida. A da minha irmã. Agora é hora de ser salvo. — Dai ainda deve estar vivo. Ele tem que estar, ou então o bandido teria trazido dois sacos. — Volto a olhar para Mei Yee. Ela ainda está parada, engolida pela jaqueta de Hiro. Seu rosto está molhado de lágrimas. — E, se ele ainda está vivo, precisa ser tirado do lugar onde está. Fico à espera de que ela discorde. Em vez disso, tira os olhos do saco e se volta para mim. Sua voz é muito forte, segura. Existe uma chama em suas palavras, nela, que não havia antes. — Eu sei. Mas como? Como? Essa é a questão. Minha cabeça está a mil. Trabalhando mais rápido que um tear. Pegando todos os fios solitários e juntando-os uns aos outros. Entrançando-os numa tapeçaria terrível e delicada. O livro de registros. Um dia para o Ano-Novo.

O vestido escarlate de Mei Yee. Meia-noite. Oito meninos e suas facas. O revólver de Dai. Tantos fios. Partes que podem rasgar. Dar errado. Tudo isso pode desfiar a qualquer momento. Tento não pensar a respeito. Em vez disso, olho nos olhos de Mei Yee e digo:

— Tenho um plano.

1 DIA

DAI

O QUARTO ESTÁ COMPLETAMENTE ESCURO. O tipo de breu absoluto em que, mesmo se eu colocasse a mão na frente da cara, não daria para ver merda nenhuma. Perdi a noção do tempo. Se é dia ou noite. Quantas horas disso ainda vou ter que aguentar até que os homens de Tsang entrem quebrando tudo para me levar para a cadeia? As meninas devem estar longe a esta altura. Imagino se Jin Ling usou a arma que dei para ela. Torço muito, muito mesmo, para que tenha atirado em Osamu, aquele filho da puta. São pensamentos como esse que me fazem esquecer a dor, impedem-me de enlouquecer. Nas longas noites desde aquela que mudou tudo, eu me perguntei qual seria a sensação de levar uma bala no peito. Tentei imaginar a dor de Hiro: o buraco dentro dele, sem deixar que nada entrasse, nada saísse. A queimação, o frio e o torpor, trazendo um último suspiro de dor. Alma e corpo separados. Para sempre. Não preciso mais imaginar. Descobri que é muito pior do que eu imaginava. No começo, não senti nada. Nada além de um forte golpe no ombro direito, dos meus joelhos se dobrando em choque. Então, pinos e agulhas e uma dor horrível. Tantas sinapses dispararam no meu cérebro indicando essa dor que nem liguei quando Longwai apontou novamente para mim. Esfregando a morte na minha cara. Mas ele não atirou. Tampouco me deixou sangrar até a morte. (Quem diria que Fung era um enfermeiro tão talentoso? Um prodígio das gazes.) Não é um ato de clemência: ele quer respostas antes de me enfiar num saco de lixo. Tenho sorte de Longwai ter decidido pegar leve: só alguns socos no ombro sangrento e agonizante. Ele me deixou aqui, amarrado a uma cadeira, para “pensar em minhas opções”. Opções. No plural. Como se eu tivesse mais de uma. Enquanto continuar de boca fechada, continuo vivo. Nem ferrando que vou falar alguma coisa, não quando falta apenas um dia. Quero ver esse filho da mãe queimar tanto quanto Osamu. Se eu tiver sorte, Tsang e sua equipe vão chegar antes que Longwai comece a pegar pesado. Antes que queira me arrancar um olho ou uma orelha com sua infame faca sedenta. Esse pensamento me faz testar as amarras de novo, mas as cordas estão apertadas demais, cobras gigantes enroladas em volta dos punhos. Mas, quando estão nervosas, como Longwai estava, as pessoas deixam passar algumas coisas. Como o caco de vidro escondido na palma da minha mão. Aquele que segurei firme durante o disparo. Durante cada um dos socos de seus punhos calejados. Não o mostrei em nenhum momento, mantive os punhos cerrados mesmo quando Longwai acertou o último soco, tirando um grito de mim.

Minha mão se abre lentamente e o vidro vai descendo pelos meus dedos. Passo a ponta do caco de um lado para o outro, de cima para baixo. Já faz um tempo que Longwai saiu, provavelmente para fumar um cachimbo ou tirar uma soneca. A cada minuto sombrio fico à espera de ouvir passos novamente. Tento ouvir o som por debaixo da porta enquanto serro minhas amarras. Há tanta dor e ardência no meu ombro que mal sinto quando as cordas se soltam. Minhas mãos ficam livres, caem do lado do corpo. Jogo-me no chão, encontro o vidro, coloco-o de volta na palma suada da mão. Preciso estar pronto para quando Longwai voltar. Ainda estou de joelhos quando os passos começam, cada vez mais perto. Empurro o chão com o braço bom, lanço-me para a parede ao lado da porta. Minha mão segura o caco de garrafa mais firme do que nunca, pronta para avançar e apunhalar. A fechadura faz um clique e a porta se abre.

JIN LING

O CHEIRO RUIM DO ESGOTO ENCHE MINHAS NARINAS. Quente e úmido como uma selva. Fico

na frente de Ka Ming e Ho Wai. De olho em suas mãos. À procura de facas. Há um brilho tênue entre os dedos de Ho Wai, mas, quando olho mais atentamente, percebo que é só uma abotoadura dourada. — Fechado? — pergunto atrás da coluna de fumaça do esgoto. — Parece arriscado pra caramba. — Ka Ming lança um olhar para o parceiro. Arriscado. Essa é a única palavra que descreve meu planinho maltrapilho. Engulo em seco o nó na garganta e digo para eles:

— Mas vale o risco. — É, mas uma coisa é correr riscos, outra é se meter com a Irmandade — Ho Wai observa. — Quanto você falou que a gente vai ganhar? — Dez mil. — Falo o número mais alto que me vem à cabeça. — Torço para que o pai de Dai esteja disposto a pagar. — Se tudo der certo. Os dois meninos voltam a olhar um para o outro. Conversam sem palavras. — Dez mil — concorda Ka Ming. — Sem matar ninguém. Olho de relance para a faca de Ho Wai enfiada no cinto. Tem uma mancha rosada na ponta. Volto a olhar para as abotoaduras nas suas mãos. Ergo a sobrancelha. — Não com a Irmandade no meio — Ka Ming continua. — Você me entende… Entendo. Mas estou contando com eles. Com meu torso estropiado e com as seis balas. Com a velocidade não testada das pernas da minha irmã. — Fechado — digo para eles.

No caminho de volta para o apartamento de Dai, passo pela loja de macarrão. Olho para o

relógio na parede dos fundos. Um sapo marca os minutos; sua língua enorme caça a mosca que dá voltas pelo círculo. Voltas e voltas e voltas. O velho que bate a massa de macarrão me falou que, quando a língua pegar a mosca no alto, vai ser Ano-Novo. Nosso tempo vai ter acabado. Tento não pensar nisso enquanto abro a porta do apartamento de Dai. Arrasto o saco plástico cheio de coisas compradas na loja do sr. Lam com todo o dinheiro que restava no envelope laranja. Por mais que eu tenha subido as escadas devagar, ainda sinto o cheiro constante de sangue através da velha camisa de Hiro.

Só mais um pouquinho. Só mais um corre.

Parece que alguém encheu meu torso de pasta de pimenta. Vermelha e ardente. Tento

ignorar isso quando entro. Jogo o saco de compras no chão. Chma dá uma cheirada na bagunça dentro do plástico. Vê que não é comida e sai. Mei Yee sai do seu lugar na janela e se aproxima. — Pegou tudo? — Sim. — Faço uma careta. Deixo meu corpo cair no chão. O ladrilho duro e frio nunca pareceu tão confortável. — Falei com os marginais também. — Eles vão ajudar a gente? — Minha irmã começa a mexer no saco plástico. Tira todos os recipientes e pincéis que o sr. Lam enfiou lá. — Peguei os dois de bom humor… — Penso na abotoadura. Na maneira como ela brilhava nos dedos de Ho Wai tanto quanto os olhos de Chma. Mas acho que não devo contar para Mei Yee. Não por enquanto. — E ofereci muito dinheiro. Então, sim. Eles toparam. O vestido vermelho está no canto, dobrado cuidadosamente com as outras roupas de Dai. Mesmo usando roupas de menino, com olheiras e o cabelo desgrenhado, minha irmã está linda. Olho para a pilha cada vez maior de maquiagem na frente dela. Começo a ter dúvidas. Nunca vou conseguir ficar daquele jeito. Como pude pensar que o plano tinha a mínima

chance de dar certo? Mei Yee pega um pincel e abre o primeiro pote. Sai um pó cor de pêssego no ar. Faz Chma espirrar: Chma! Chma! Queria que Dai estivesse aqui para ouvir. Para eu poder dizer que estava certa.

Logo. Só mais um corre.

— Fecha os olhos — ordena minha irmã. Ela estende o pincel. — Vai fazer um pouquinho de cócegas. O pó cai sobre meu rosto. Resisto à vontade de virar a cara. Mei Yee leva minutos para ter certeza de que está perfeito, mas não para por aí. Tem pelo menos outros dez potes. Cores para as bochechas. Tinta para lábios, pálpebras e cílios. Longos cabelos que não são meus. Depois, vem o vestido de seda. Eu o visto rápido, virada de maneira que minha irmã não veja a ferida gotejante embaixo do meu ombro. Aquela que está quase me cegando de tanta queimação. Mais cedo ou mais tarde, vou pagar o preço. Mesmo sabendo disso, continuo forçando. Torcendo para que meu corpo se mantenha em pé até tudo isso acabar. Eu me sinto ridícula. Como uma personagem de desenho animado, com um vestido vermelho-vivo e a cara pintada. O coque falso fica preso com grampos na minha cabeça como um gato assustado. É só quando coloco a faixa em torno da coxa nua, e enfio a arma dentro dela, que volto a me sentir eu mesma. — Você está linda — diz Mei Yee, ao se sentar e admirar sua obra. Olho na janela. A luz fluorescente do quarto é refletida de volta para nós. Pinta um quadro perfeito do apartamento. Não me vejo no reflexo. Em vez disso, vejo uma mulher ao lado de Mei Yee. Transformada em beleza e semicurvas. Inclino a cabeça. A mulher faz o mesmo. Minha irmã fez o impossível. Agora ela precisa fazer o impossível mais uma vez. A pior parte do meu plano, a parte que faz meu estômago revirar e meus joelhos fraquejarem, não é o risco que estou correndo. É o que estou pedindo para Mei Yee fazer. Repassei o plano várias e várias vezes. Mais de cem. Porém, ele não funciona sem minha

irmã. Quase desisti de tudo, mas ela não me deixa. Não é a mesma menina que se escondia no canto do barraco do nosso pai. Que soltava um grito quando um cachorro vira-lata latia para ela. — Está quase na hora. — Dou minhas botas para Mei Yee. — Está pronta? Ela olha fixo para o couro e os cadarços surrados. — Acha mesmo que isso vai dar certo? — Não sei. — As linhas ainda estão na parede. Um par perfeito. Caminho até os azulejos e apago uma delas. — Você não precisa fazer isso. Posso pensar em outro jeito de entrar. Ela balança a cabeça. — Não, não pode. Continuo olhando para a última linha, solitária no branco sujo. Fica tão esquisita assim, sozinha. — E você está errada. Preciso fazer isso sim. — Mei Yee se senta. Calça as botas nos pés cortados. Põe a língua entre os lábios enquanto amarra os cadarços. — Custe o que custar. É algo que poderia ter saído da boca de Dai. A última linha parece triste. Como os números não importam mais, ergo a mão. Apago o último risco de carvão. Como se ele nunca tivesse estado lá.

MEI YEE

MEUS PÉS ESTÃO LATEJANDO DENTRO DAS BOTAS DE JIN LING; as bolhas e o sangue zunem de

dor contra o couro rústico. Tento focar na dor dos meus dedos e do meu tornozelo. É muito melhor do que no medo que cresce e entra por todas as veias enquanto espreito as sombras da entrada do bordel. Onde o dragão serpenteia em volta da porta e um homem armado está de guarda. — Você está pronta? — minha irmã pergunta de novo, com uma voz que deixa claro que ela acha que não. — Lembra por onde tem que ir? Sei que só faz algumas horas desde que vi Dai pela última vez, mas parecem séculos. Cada vez que fico tentada a pensar no que aconteceu com ele, nas torturas terríveis que Longwai inventou para fazer que falasse, penso no caminho. O trajeto que Jin Ling me mostrou: virar à direita, seguir reto, passar pelo vendedor de bolinhos, entrar numa fenda entre o restaurante do cachorro e a barbearia improvisada, virar à direita de novo, seguir reto até os canhões. Não é uma distância tão longa, mas não sou uma boa corredora. Não sou, mas preciso ser. Vou ser. Porque Sing está morta, porque Dai está vivo e porque esse é o único jeito. — Sim. — Minha irmã está agachada nas sombras ao meu lado, então murmuro: — Estou pronta. Jin Ling olha para mim. Nem toda a maquiagem que acabei de pincelar e esfregar no seu rosto pode cobrir sua força: esperta, calculada, ferrenha. Ela estende o braço, põe a mão no meu ombro. — Eu te amo, Mei Yee. Envolvo-a nos meus braços, como já fiz tantas vezes. Só que, desta vez, tomo cuidado para não me sujar de maquiagem em vez de sangue. Ela está quente, quente demais contra minha jaqueta, embora só esteja usando um vestido inútil. Não quero soltá-la. No final, é ela quem me solta: desfaz o abraço e me olha fundo nos olhos. — A gente consegue fazer isso. Você consegue fazer isso. Faço que sim, levanto e tento não pensar em como minhas pernas tremem. Dou um passo, depois outro, entrando na luz da rua. O guarda não me nota a princípio. Está distraído, chutando uma caixa de macarrão vazia de um lado para o outro. Despedaçando a carcaça de papelão com os pés. Engulo em seco e continuo andando. Estou perto, quase perto demais, quando ele finalmente ergue a cabeça. Seus olhos se estreitam e depois se arregalam ao me reconhecer. — Ei! — ele grita, mas meus pés doloridos já se afundaram no couro das botas.

Começo a correr.

DAI

A PORTA SE ABRE E A LUZ DA LANTERNA ESCARLATE ENCHE O QUARTO. Seguro o vidro na mão

boa, pronto para cortar a maciez de um punho ou de uma garganta. Todas aquelas artérias vitais sobre as quais aprendi nas aulas de ciências. Aperto o caco com força e dou um pulo. Nossos corpos colidem e, tarde demais, percebo que o visitante não é Longwai. Uma bandeja cai rodando no chão, derrubando copos, curativos e arroz por toda parte. Estou entrançado com uma seda vermelha, esmagando a pobre menina com meu peso. — Não! Por favor… — Seus olhos estão arregalados e seu tremor atingiria números altos na escala Richter. Olho para baixo e percebo que ainda estou segurando o caco de vidro esmeralda na sua garganta. Tiro de perto dela. — O que está fazendo aqui? — Olho ao redor, para as ruínas da bandeja, e encontro a resposta. — Você é o menino da Mei Yee, não é? — Os olhos da menina se estreitam. — O que queria o livro. Por reflexo, olho para o corredor. Não que importe se alguém ouviu ou não; o plano já deu errado. — Sim. — Eu me afasto e a menina senta. Sua franja cai como uma cortina sobre o rosto. Ela olha para a cadeira, para a corda rasgada, depois novamente para mim, de cima a baixo. Vejo a hesitação em seus olhos, o peito subindo e descendo, os pulmões prontos para avisar o bordel todo sobre minha fuga. Ela toma fôlego. — Você falou para a Mei Yee que conseguiria tirar a gente daqui. Era verdade? — Eu a tirei, não tirei? — A adrenalina do momento está passando, fazendo a dor voltar. E trazendo consigo o sarcasmo. A menina franze a testa. — E o livro? Ainda precisa dele? Guardo o caco no agasalho, mantenho os olhos fixos no corredor vazio. É questão de tempo até alguém passar. — Sim. Ela me examina, como se eu fosse uma espécie de vírus numa lâmina de microscópio. Fascinante, mas perigoso se não for manipulado corretamente. Leva a mão às dobras do vestido, tira um molho de chaves. — Pega isso. A chave da sala do Longwai é a terceira da direita para a esquerda. A menina das chaves. Yin Yu. Aquela que dedurou Mei Yee. Aquela em que a gente nunca devia ter confiado.

Não sei se devo confiar nela agora. Pode ser um dos fantoches de Longwai, uma isca para eu mostrar meus segredos em vez de contar. Pego as chaves mesmo assim. — Mudou de ideia? — Eu nunca quis… — A voz dela vacila. Engole em seco e tenta mais uma vez, mas há um tremor nas sílabas. — Eles atiraram em Sing bem na minha frente. Do nada. Ela morreu. É tudo o que diz, mas eu entendo. Já vi cadáveres antes. Sei como mudam a gente, viram nossas entranhas do avesso com sua imobilidade e sua falta de vida. Foi isso que Sing fez com Yin Yu. Mudou-a. — Não quero morrer aqui — Yin Yu diz. — Daqui a um minuto vou gritar e dizer para eles que você pulou em cima de mim e roubou minhas chaves. Longwai está no salão, de cara para o corredor de entrada. Claro que ele está de olho na entrada. Na saída. Quais são as chances de eu passar por ele sem ser visto? — Vai — Yin Yu diz simplesmente. — Seu tempo está acabando.

JIN LING

MEI YEE CORRE MAIS RÁPIDO DO QUE UMA LEBRE. O guarda

vai atrás

dela. Saio do meu

esconderijo. Atravesso a rua arrastando as sandálias surradas. Passo pela porta com o dragão. Enquanto isso, os conselhos da minha irmã se repetem na minha cabeça. Dê passos pequenos. Entrelace as mãos na frente do corpo. Mantenha a cabeça baixa. Passo por alguns dos homens de Longwai no primeiro corredor. Caminho em frente às portas abertas de onde as meninas ficam olhando. Ninguém parece notar a sujeira embaixo das minhas unhas. A rudeza do cabelo. O péssimo estado dos calçados. A mancha de sangue que brota como uma flor no meu torso. O negrume sutil no tecido. Quero andar rápido. Embora sinta que meu torso está se abrindo. A cada passo, sinto vontade de correr. Demoro mais do que gostaria para chegar ao salão. Longwai está no sofá, com a extremidade de um cachimbo longo entre os lábios. Ele não me nota entrando discretamente pelo corredor. Mei Yee cumpriu bem sua função: meu vestido, meu cabelo e minha maquiagem me camuflam. Perfeitamente. Sou só mais uma menina sem rosto. Primeiro o livro, depois Dai. Repito o plano na minha cabeça e vou atravessando o salão perto da parede. Na direção do corredor à esquerda, onde está o livro de registros. Estou quase lá, passando por uma menina que toca uma cítara, quando Longwai grita. — Você! Menina! Congelo. Ele está olhando diretamente para mim. Antes que minha mão possa descer para pegar a arma de Dai, Longwai ergue a taça. — Preciso de mais vinho. Vinho. Ele me escolheu para pegar vinho. Vou até o armário de bebidas às pressas. Tento desesperadamente entender a bagunça de taças e garrafas. Queria ter prestado mais atenção à maneira como Yin Yu servia. Na primeira vez que estive aqui. — A garrafa à esquerda — murmura a menina no instrumento. Suas palavras quase não ultrapassam o planger de suas cordas. Viro para ela. Seus olhos encontram os meus. Ela assente, sem parar de mover, mover e mover os dedos. É tão fácil para ela ver que não sou daqui. Que chance tenho com Longwai? Pego a garrafa de vinho pelo gargalo. Viro e me preparo para servir. O que vejo, porém, me deixa paralisada. É Dai. Muito vivo, passando pelos cantos não iluminados do salão. Com o capuz erguido. Esforçando-se ao máximo para chegar ao corredor leste. — Algum problema? — Longwai se remexe no sofá. — Não! — Minha resposta é mais cortante do que eu pretendia. Tira o sono dos olhos do traficante, deixa-o alerta. Ele faz menção de se levantar.

Bastaria Longwai virar. Olhar por cima do ombro. Para que Dai fosse pego. Solto a garrafa. Ela despenca no chão. O vinho carmesim se espalha no tapete feito sangue, chegando até as sandálias de Longwai. Ele mostra os dentes. Levanta-se. — Esse tapete vale dez vezes o que paguei por você! — Longwai me segura pelo braço. Preciso de todo o meu autocontrole para não me soltar. Resisto. Seus dedos estão pontilhados de sangue velho. Tento não pensar de onde vieram as manchas. — Desculpe, senhor. — Ao dizer essas palavras, sinto como se alguém estivesse arrancando meus dentes com um alicate enferrujado. Olho para meus pés, onde a garrafa de vinho ainda derrama o líquido. Contenho o forte impulso de sacar a arma de Dai. — Desculpe? — O traficante se abaixa. Olha-me nos olhos apesar dos meus esforços para virar o rosto. — Não me lembro de pedir para Mama-san escolher uma menina nova para servir. Na verdade… nem me lembro de você. Sinto um aperto no coração. Seu olho cintila. Seus dedos me comprimem. Ele está juntando as peças, unindo suas suspeitas como a argila de um oleiro. Talvez eu tenha que usar o revólver. — O nome dela é Siu Feng. — A menina parou de tocar para falar com o traficante. — Veio com outras meninas uns meses atrás. O grupo de Wen Kei. Isso deixa Longwai um pouco desconcertado. Ele franze a testa, duvidando. Seus dedos relaxam. Suas costas se endireitam. Aponta para o tapete. — Limpa isso. E esquece o vinho. Tenho mais o que fazer. Ergo os olhos, aliviada por ver que Dai foi embora. As sombras estão vazias. Contrariando meus medos, Longwai não segue em direção ao escritório. Em vez disso, desaparece no corredor norte. A menina não volta a tocar, mas se aproxima e pega a garrafa de vinho aos meus pés. — Obrigada — digo quando a entrega para mim. Ela leva o dedo aos lábios. Aponta para os clientes sonolentos à nossa volta. Homens tão imóveis que esqueci que estavam lá. — Você está com o menino, não está? — ela murmura. Faço que sim e olho de soslaio para o corredor leste. Não sei se devo seguir Dai até lá. Um grito surge do corredor norte como uma sirene. A voz de uma menina balbucia sobre ataques e chaves, seguida de berros de Longwai:

Cadê ele? Estou prestes a começar a correr. Para avisar Dai. Mas Longwai entra no salão feito um touro, com o rosto mais vermelho do que o dragão da porta. Sua arma está em punho. Pronta e trêmula em seus dedos. Ele desaparece tão rápido quanto entrou. Engolido pelo tênue brilho escarlate do corredor leste.

MEI YEE

CORRE. POR DAI. Por Dai. Corre. Faz tanto tempo que não me movo assim. Para falar a verdade, é uma surpresa ainda conseguir. Pular por montes de lixo, passar por debaixo de escadas, virar esquinas abruptas. As luzes das lojas passam turvas, meus pés voam por cima das poças, e sempre ouço o guarda ofegando atrás de mim, xingando a cada passo. Corro, corro, corro, até não sentir mais meus pés. Faz tempo que esqueci a dor dos cortes e das bolhas. Há uma nova força nos meus membros, uma energia pura e veemente. Sinto

que, se esticar os braços, posso voar. Sair dos túneis e subir até as estrelas. Deve ter sido assim que Sing se sentiu antes de a pegarem. Penso nisso e, de repente, minha botas deslizam sob meus pés e caio. A dor atinge meus ossos, vira parte de mim. O chão sob minhas mãos treme com o peso dos passos do guarda. Não há mais nenhum desejo no meu peito, só esperanças. Espero que Jin Ling esteja certa sobre aqueles meninos de rua. Espero que eu tenha chegado longe o bastante. Uma mão me pega pelo tornozelo, me puxa para trás. Meu corpo desliza facilmente pela poça. Viro e vejo o guarda praticamente em cima de mim. Antes de saber o que estou fazendo, dou um e depois outro e mais outro chute forte no meio das suas pernas. Ele solta um berro, me larga no mesmo instante. Rastejo para trás bem a tempo de ver as sombras surgirem. Os marginais surgem de todos os cantos. Criaturas feitas de trapos, facas e ossos, aglomerando-se sobre o guarda como larvas em carne. Eles são pequenos, mas, como são oito contra um, o capanga de Longwai não tem a mínima chance. Pegam a arma dele e a chutam para longe. — É melhor sair correndo! — um dos meninos maiores grita para mim. Ele tem razão. Logo mais vão soltar o guarda; Jin Ling me disse que os marginais só poderiam me dar um pouco mais de tempo. Mesmo armados com facas e em maior número, nunca machucariam um membro da Irmandade. Assim que o homem perceber isso, vai vir atrás de mim de novo. Preciso correr muito e rápido para que perca meu rastro. Estou de pé novamente e entro no beco entre a barbearia e o restaurante do cachorro. Passando por garrafas, corpos e tantas, tantas coisas quebradas e jogadas fora. Saio e viro à direita. Meus pulmões estão em chamas e minhas pernas são como palitos lascados, mas continuo seguindo.

Por Dai. Por Dai. Por Dai.

Em linha reta como as cordas da cítara de Nuo, até chegar aos canhões enferrujados. Chego

perto deles sem fôlego nos pulmões. Sei que devia seguir as instruções de Jin Ling — achar um policial, pedir ajuda, ficar com ele —, mas toda a energia que percorreu meu corpo momentos atrás acabou. Apoio-me na ferrugem, tentando recuperar o fôlego. — Garota, acho que não é uma boa noite para ficar aqui fora. É melhor voltar enquanto pode. Ergo os olhos, tentando focar. A princípio, tudo o que vejo é a luz de um cigarro. Em seguida, reparo no homem de sobretudo atrás dele. Alguma coisa parece errada: o jeito como fala, as roupas que veste. Não pertence à Cidade Murada. Então, vejo a série de vans estacionadas nas ruas atrás dele. Ceifadores é meu primeiro pensamento, seguido por um nó na garganta. Mas não, os Ceifadores não usariam roupas como essa. E não ficariam parados tão visivelmente nas ruas da Cidade de Fora. O homem tira o cigarro da boca e olha o relógio dourado no punho. — Seu rapaz vem ou não vem? — Um segundo homem sai de uma das vans. Usa um colete verde, um chapéu azul-marinho com um distintivo prateado no topo. — Estamos prontos para entrar. Volto a olhar para a caravana de vans pretas e, de repente, entendo tudo. Não são Ceifadores. São os policiais de que Jin Ling me falou. São as pessoas que iriam nos tirar daqui. Dai e eu. Juntos. — Dai está no bordel — eu digo. O homem de sobretudo ergue os olhos, surpreso. — Quem é você? — Mei Yee. — Ele não reconhece meu nome, então continuo falando. — Era eu quem ia ajudar Dai a pegar o livro para vocês, mas… Ele trava a mandíbula; sua irritação é iluminada pela chama fraca do cigarro. — Mas? — Deu tudo errado e Longwai pegou Dai! Ele ainda está no bordel. Precisa de ajuda! O cigarro não está nem na metade, mas o homem o joga no chão e dá outra olhada no relógio. — A essa altura, querida, a única pessoa que pode ajudar Sun Dai Shing é ele próprio. — Volta o olhar para o homem com o distintivo no chapéu. — Certo. O menino não vem. Vamos entrar! As portas das vans se abrem e por elas sai um exército. Homens com o corpo blindado, holofotes e armas maiores que meus braços. Descem dos veículos e começam a correr. Passam pela velhinha agachada com uma manta, apregoando embrulhos de incenso especiais para o Ano-Novo. Pelo homem de cabelos brancos e sua cesta de doces de feijão. Pela jovem que empurra um carrinho cheio de roupa limpa pela rua esburacada. Todo mundo fica imóvel, observando os homens e suas armas entrarem um a um pelo Velho Portão Sul. As palavras do homem ardem mais quentes que seu cigarro: “A única pessoa que pode ajudar Sun Dai Shing é ele próprio”. Mas, como está errado, entro atrás dele na cidade das trevas.

DAI

ENCONTREI A MENINA POR PURA SORTE e tenho quase certeza de que devo minha vida a ela. Mas não tenho tempo para pensar nisso agora. O minuto que Yin Yu me deu está passando rápido. Mal respiro enquanto coloco a mão na porta no alto da escada. Está trancada, exatamente como Longwai a deixou. As chaves tremem na minha mão boa. São tantas, penduradas no chaveiro como esqueletos banhados em ouro. Meus dedos nervosos se atrapalham, pegam a terceira chave da direita. Quase consigo ouvir os segundos passando enquanto encaixo a chave na fechadura. Yin Yu deve gritar a qualquer momento agora. Mas é a chave certa e a porta se abre. A primeira coisa que pego é uma arma, uma das pistolas antigas à mostra na parede de Longwai. Está leve. Leve demais. Uma checada rápida prova que minhas suspeitas estavam certas. Ele não guarda nenhuma dessas armas carregadas. Viro para a escrivaninha e vejo o relógio. Os números são digitais, pixels vermelhos que ardem como os olhos de um demônio na semiescuridão: 23h58. Quase meia-noite. O tempo está acabando. Tique-taque, tique-taque. Minha mão se contrai no ritmo dos segundos que passam enquanto vasculho a escrivaninha, examino a gaveta de cima. Tem uma fechadura pequena, fácil de quebrar com as ferramentas certas e força suficiente. Pego a faca mais próxima da coleção de Longwai. Enfio e puxo como se fosse um pé de cabra. A gaveta se abre, torta e curva. Como um vagabundo manco. Tem papéis, canetas, cigarros solitários, uma embalagem de balas de menta e clipes de papel dourados. Minhas mãos vasculham e tiram todas essas coisas até chegar ao fundo. Desesperados, meus dedos arranham o vazio. O livro de registros não está aqui. — Aí está você. Viro para encontrar o rosto conhecido: Longwai parado no batente, com a pistola em punho, mirando entre meus olhos. A faca está na escrivaninha. A centímetros dos meus dedos. Inútil. — Achei que você já tinha ido embora… — O traficante perde a voz ao avistar a gaveta aberta, os papéis, canetas e badulaques revirados. O grande vazio em forma de livro no meio de tudo. — Cadê? — ele resmunga e entra na sala. Seus olhos vermelhos se arregalam quando ele me segura pelas cordas do capuz, apertando-as mais firme do que um nó. — O livro. O que você fez com ele? Não há nada para esconder, nada para arriscar, então conto a verdade.

— Nada. Não estava aí quando abri a gaveta. — Impossível! — Sua pistola pressiona minha testa, marcando um O na minha pele. — Você tem cinco segundos para me dizer onde está. Então é assim que tudo vai acabar. Um suspiro e uma explosão ao mesmo tempo. É melhor, imagino, do que ser transformado em isca sangrenta de peixe, pedaço por pedaço. Mas por pouco. — Cinco… Não sei por quê, mas acho que estou vendo flashes agora. Talvez cenas da minha infância. Correndo pelo Grand Aquarium com Hiro: eu de olhos arregalados diante das enguias elétricas, ele recitando o nome científico de cada espécie que via. Ou montando aviõezinhos com meu avô. — Quatro… São flashes, mas não partes do passado. Estou na praia, meu braço está em volta do ombro de Mei Yee, olhamos para as águas. Jin Ling está ao nosso lado, tacando conchas nas ondas. É o meu futuro. O que morre a cada número que sai dos lábios de Longwai. — Três… Talvez eu mereça morrer por tudo que fiz. Até desejei isso naqueles momentos no terraço escuro, quando minhas pernas balançavam sobre as ruas e a voz do meu irmão dizia que eu era uma boa pessoa e eu sabia que não era. Mas agora… agora não tenho certeza se Hiro estava errado. Agora eu quero viver. Irônico, não? — Dois… Fecho os olhos. — Um.

ANO-NOVO

DAI

O SOM DO TIRO É DIFERENTE. Devia ser alto, direto. Como o que trespassou meu ombro, crepitando por entre as câmaras da arma feito um único raio. Cortando o tempo e a matéria num único movimento lento. Em vez disso, é abafado. Como uma bombinha esmagada por uma bota. Um eco sem disparo ou chama. Não sinto nenhuma estocada. Nenhuma nova dor se enraizando na minha pele. Só meu ombro, e seu latejar firme e constante. O mesmo que me diz que o sangue corre nas minhas veias. Dentro de mim. Meus olhos se abrem. Ainda estou de pé. Meu ombro continua queimando, em carne viva. As cordinhas do meu capuz continuam amarradas na altura do meu pescoço. Longwai está diante de mim, mas sua pistola perdeu a firmeza. Aquele O não marca mais minha testa. Deslocou-se com a atenção do traficante. Ele olha por cima do ombro, para a porta aberta. Outros disparos estalam na escuridão e gritos sobem pela escada. A batida começou. — O que é isso? — A pergunta de Longwai atravessa a porta aberta, mas se perde na tormenta crescente de barulho. A faca. Não espero. Pego a lâmina curva e ornamentada e ataco com toda a força que resta no meu corpo. É uma faca cerimonial antiga, mais para decorar do que para cortar e fatiar de verdade. — Que diabos é is…? — Longwai acaba de se virar quando encosto. Jogo-me em cima dele, usando o lado bom, esforçando-me ao máximo para derrubar o traficante. Ele é mais sólido do que eu esperava, como se suas sandálias estivessem cimentadas no chão. Continua de pé, mas a arma cai no chão, rodando como uma daquelas roletas da TV. Recuo em pé, de frente para ele. Tentando ignorar como meu braço direito pende mole feito um fio de macarrão. Como os dentes de ouro de Longwai brilham à mostra, prontos para serem cravados na minha garganta. Como a lâmina na minha mão esquerda não parece grande coisa. Ainda mais porque sou destro. Longwai é um lutador. Move-se rápido, dá um soco direto no meu queixo. Seu punho, já coberto de sangue, volta a atacar meu rosto. Mas, desta vez, nada me prende. Pulo para o lado, deixo que dê uma bela surra no ar. Ao mesmo tempo, ergo a faca. Ouço um ruído e sua camisa preta se rasga. Um longo corte desce pelo antebraço, reto como um tubo de esgoto, preciso como o trabalho de um cirurgião. O vermelho escapa dele ao mesmo tempo que grita.

Braço por braço. Agora estamos quites. Mas tem tantas coisas pelas quais esse deus das facas e agulhas tem de pagar que continuo lutando. Pulo em cima dele de novo. Longwai cai, xingando, berrando e sangrando de dor. Pulo outra vez. Meu ombro treme com o impacto; supernovas de dor iluminam minha visão. Caudas de estrelas percorrem meus olhos, corroendo a cara feia de Longwai. Tento ver entre elas, ergo a faca até a pele macia, macia, na beira da garganta dele. Ela se enrosca nas suas correntes de ouro, tira uma lamúria de seus lábios. — Acabou, Longwai. — O grunhido que sai da minha boca parece animalesco demais para ser meu, mas não sei que outra pessoa estaria dizendo essas palavras. — Você está acabado. Eu também. Eles já estão aqui, subindo a escada a passos duros, enchendo os aposentos com gritos e holofotes. Invadem o quarto como gafanhotos, explorando todos os cantos com rifles e luzes fortes. Examinando Longwai, a faca molhada de sangue na garganta, apontando para mim. — Polícia! Abaixa a faca! Coloca as mãos na cabeça! — alguém diz quando as luzes se juntam sobre mim. Até a parte de dentro das minhas pálpebras cintila quando as fecho. Jogo a faca no chão, longe do alcance de Longwai. Levo a mão boa à cabeça. Um dos policiais pega meu braço e o torce atrás de mim. Os estalos e rangidos das algemas enchem meus ouvidos. Fecham firmes nos meus punhos, um destino frio e metálico.

MEI YEE

OS POLICIAIS SAEM DO BORDEL SOZINHOS OU EM PARES. Meras gotas comparadas à força que

entrou alagando a cidade minutos atrás, como um dique rachado de armas e holofotes. Quase todos estão trazendo gente. A maioria, como Fung, membros da Irmandade e clientes do salão, está algemada. Outros, como Yin Yu e Mama-san, estão livres. Outros ainda nem saíram. Não vejo Dai nem minha irmã em lugar nenhum. A cada rosto estranho que passa pela porta, meu coração fica mais apertado, como um balão cujo ar vaza devagar. Por favor. Eles têm que estar vivos… Mal termino de pensar isso quando vejo o rosto de Dai. Ele está sendo empurrado para fora do bordel, com os braços torcidos para trás. Seu rosto também está torcido: dor, dor, dor. Vejo as algemas e o policial empurrando-o. Surge o pânico. Corro até o policial. — Você está cometendo um engano! — Para trás — ele diz com o rosto duro e dá mais um empurrão em Dai. Dor e angústia ardem no rosto do menino da janela, fazem-me olhar para seu ombro. O moletom está em farrapos, rasgado e duro de sangue seco. Embaixo estão faixas, brancas e cor de ferrugem. As mesmas cores do meu náutilo. — Não! Você não entende! Ele estava lá dentro ajudando a me resgatar. — Fico na frente deles, bloqueando com o corpo o trajeto forçado de Dai. — Não pode ser preso. A muralha inexpressiva no rosto do policial mostra incerteza. Seus olhos pairam sobre Dai e, por um segundo, acho que o convenci. — Ah. Você encontrou o menino. — O homem do Velho Portão Sul se aproxima de mim. Suas mãos estão enfiadas nos bolsos do sobretudo. O cigarro pela metade entre seus lábios abafa suas palavras. — Estava começando a achar que tinha fugido. — Desculpa desapontar você. — Dai volta o olhar para o fumante. Suas palavras assumem uma ironia que continham quando nos conhecemos. — Estava ocupado demais sendo amarrado e torturado. O homem traga o cigarro, que brilha mais forte, como uma estrela solitária no crepúsculo. — Não é culpa minha se foi pego. Encontrou o livro? Dai faz que não. O homem com o cigarro fica parado por um momento. Ele exala: ar feito de cinzas, suspiro e decepção. Quando toda a fumaça se dissipa, acena para o policial. — Se vir Chan, fala para ele que ainda falta encontrar o livro de registros. Manda ficar de olho. Leva o menino com o resto. Tem um mandado de prisão no nome dele.

— Espera! Não! — eu grito. — Você não pode fazer isso. O homem de sobretudo tira o cigarro da boca. O movimento lança faíscas no ar. Algumas caem no meu braço inofensivas, mas brilhantes. — Queridinha, esse menino é um assassino. A gente ofereceu uma chance de redenção e ele não cumpriu sua parte. É melhor se despedir. — É o livro que você quer? — Olho para o homem; a fumaça enche seus lábios como uma manhã nevoenta, turvando o ar entre nós. — Está no escritório de Longwai! Na gaveta de cima da escrivaninha. Dai balança a cabeça. — Mei Yee, não está lá. A gaveta estava vazia. — Mas… não pode ser… — Continuo falando para não sentir o buraco frio cada vez maior na minha barriga. — Estava lá. Eu vi! Eu vi! Agora estou olhando para Dai, implorando para que acredite em mim. Seus olhos estão ainda mais fundos do que antes. Tristes, grandes e cheios. Há um sorriso em seu rosto quando olha para mim. — Fico feliz que tenha encontrado Jin Ling — ele diz, e aponta com a cabeça para trás de mim. Olho e vejo minha irmã, mancando no frio. O sangue que ela se esforçou tanto para esconder agora deixa uma mancha incontestável no seu vestido. — Tira esse rapaz daqui! — o homem perto de mim grita e acena para a noite sem fim das ruas. Elas se abrem à nossa volta como as grandes cavernas de montanhas na nossa província. Aquelas em que moram espíritos, à espera de sacrifícios que pararam de ser oferecidos há anos. — Não! — Estendo o braço, tento segurar Dai, mas o policial o empurra, mais forte desta vez, rumo ao mundaréu de gente. Não são as trevas das ruas que o devoram. É a multidão de ternos pretos e algemas que finalmente o esconde da minha vista. Em vez dele, é Longwai que vejo, com as mãos presas atrás do corpo, sendo arrastado pela polícia em meio ao lixo e à sujeira. Um de seus braços está torcido como o de Sing estava tanto tempo atrás, quebrado e coberto de sangue. Parte de mim acha que eu deveria estar feliz, vendo-o desse jeito. Depois de tudo o que fez. Comigo. Com Sing. Com todas aquelas meninas trêmulas e exaustas aglomeradas sob a única luz safira da rua. Mas, ao ver o quanto ele está quebrado, sinto que estou igual por dentro, uma sensação que ecoa longe, mais funda que a escuridão atrás das estrelas.

DAI

AS ALGEMAS ESTÃO APERTADAS DEMAIS. Não consigo mais sentir meus dedos, mas meu ombro é outra história. É como a ponta de uma corda sem nós: as fibras retorcidas, estirando, desfiando, desmanchando. Não ajuda muito o fato de o policial estar me empurrando aos trancos. Sei, porém, que é melhor não reclamar. Tive minha chance. Tive mais do que isso. Só consigo imaginar o que meu pai vai dizer, se algum dia for me visitar. Posso vê-lo, sentado com seu terno impecável e seu cabelo quase todo grisalho. Vai me encarar através do vidro. Todos esses anos mascarando emoções em reuniões de negócios e coquetéis não servirão de nada para esconder a decepção em seu rosto. Ele vai se aproximar do microfone e dizer:

— Você devia ter fugido. Estou começando a concordar com ele quando vejo Mei Yee. Seu rosto está vermelho, como se tivesse corrido. Embora esteja usando minhas roupas, com o cabelo preso, tudo nela parece mais radiante. Mais vivo. Ela não pestaneja quando Tsang me chama de assassino. Continua olhando para mim com o mesmo olhar fixo que dirigia ao náutilo. Tirando a areia da minha alma e vendo as melhores partes. Aquelas que Hiro via. Aquelas sobre as quais tentou me falar. Então vejo Jin Ling atrás dela, mancando desesperadamente para chegar perto da irmã. Juntas novamente depois de tantos anos.

Eu as vejo quase lado a lado (como Hiro e eu andávamos ao caminhar pela praia), e não há dúvidas.

Valeu a pena.

JIN LING

NÃO CONSIGO CORRER E GRITAR AO MESMO TEMPO. É tanta dor. Tão pouco ar. Mal consigo

andar com o peso extra na perna. A distância é curta, mas demoro séculos. Quando finalmente chego perto de Mei Yee e do homem que fuma, Dai foi embora. Engolido pela maré de bandidos e da Seção de Segurança. — E-espera! — Estou ofegando, curvada. Tentando ignorar a dor que irradia. A ferida está cobrando seu preço, drenando todas as minhas reservas vitais. — Traz Dai de v-volta! — Se quiser ver o rapaz, precisa agendar uma visita na penitenciária. — O homem franze a testa. Acho que porque seu cigarro está quase no fim. — Ainda não sei dizer qual. — Tenho o que você quer. Isso parece chamar sua atenção. Ele se vira. Olha para mim. A pele sobressalente no pescoço encosta no queixo. — E o que eu quero? Estou prestes a pegar o livro, mas continuo olhando para a cara do homem. Está iluminada. Laranja e infernal. — Traz Dai de volta que eu mostro. O homem faz uma careta e joga o cigarro no chão. Nem se dá ao trabalho de pisar para apagar. Desaparece em meio à massa humana, chamando Dai e o policial. Fico olhando o cigarro se apagar. Só mais um lixo para pisar em cima. Mei Yee também olha para ele. — Você está mesmo com o livro? Antes que eu possa responder, o homem está de volta. Dai e o policial confuso o seguem como vagões de um trem de brinquedo. Os três me encaram. À espera. Levo a mão à faixa na minha coxa, onde o revólver está encaixado atrás do pano. Minha mão pega o que precisa de dentro do tecido grosso e elástico. Puxa. O homem de sobretudo me olha. Sua boca está aberta, estranhamente vazia sem o cigarro. Ele estende a mão. Tentando desesperadamente pegar o que estou segurando. Fiz o mesmo quando a menina da música, Nuo, e outra, Wen Kei, me mostraram o que estavam escondendo. Depois que Longwai atravessou o salão às pressas e bloqueou todos os caminhos até Dai, Nuo me segurou pelo braço. Levou-me até seu quarto. Ela inspirou fundo quando puxou o livro de registros de debaixo da cama. Suas palavras saíram cheias de orgulho quando explicou como subiu escondida pela escada de Longwai enquanto ele questionava Mei Yee. Usou grampos na fechadura. Uma habilidade que herdou da tal Sing. Puxo o livro para trás. Para longe do homem. As páginas douradas do dragão brilham em um tom quase verde sob as luzes da rua. Abraço o couro vermelho junto ao peito dolorido.

Encaixa direitinho. — Solta Dai. Como prometeu. O homem fica olhando para o livro importantíssimo. Tem um quê de alívio em seus olhos. Na maneira como seus lábios se entreabrem. Ele se volta para o policial que segura Dai. — Tira as algemas dele. Espero as algemas serem tiradas. Os braços de Dai ficam livres. O direito cai pesado e desengonçado. Ele embala o braço com cuidado enquanto entrego o livro de segredos de Longwai. O homem sem cigarro folheia as páginas. Seus lábios estão fechados agora. Puxados para cima num sorriso. — É assim que a gente vai ferrar Longwai — ele diz. Fecha a capa como se fosse a boca de um dragão. — Isso é tudo, Tsang? — As sílabas de Dai custam a sair, ele sua de esforço e dor. Não consigo ouvir o que diz sem me lembrar da minha própria ferida. — Já passou da meia-noite. E, tecnicamente, não foi você quem me entregou o livro. Mas… — O homem, Tsang, coloca a mão no bolso do sobretudo. Tira um papel dobrado. — Estou de bom humor. Vou deixar essa passar, Sun Dai Shing. Dai pega o papel com os dedos ávidos. Segura tão firme que as bordas amassam. Ele enfia no fundo, bem no fundo do bolso do agasalho. Tsang põe o livro embaixo do braço. Olha para cada um de nós. Com uma centelha nos olhos. — Vou dar um conselho para vocês, crianças. Saiam de Hak Nam. Vão derrubar tudo isso. Transformar num parque. — Esse é o plano — digo. Volto a olhar para minha irmã. — Boa sorte então. — Tsang vira para ir embora. — Espera! — O grito de Mei Yee o detém no meio do passo. — O quê… o que vai acontecer? Com Longwai? Com todas as meninas? Tsang dá um tapinha carinhoso no livro, como se acariciasse um gato. — Tem evidência suficiente aqui para pôr Longwai e os homens dele na cadeia por um bom tempo. Já as garotas… — Seus olhos se voltam para o poste sob o qual as meninas estão apinhadas. Um rebanho vestido de seda que se criou sozinho. — Elas podem ir. As meninas se remexem agitadas em seus vestidos finos e coloridos. Parecem ao mesmo tempo perdidas e aprisionadas. Como os cardumes brilhantes metidos nos aquários de restaurantes. — Ir para onde? — pergunta Mei Yee. — Não é da minha conta. — Tsang dá de ombros e sai andando. Ninguém o impede. Não estou mais me movendo. Mas a dor está. Preciso me sentar. Não importa se o chão está coberto de vidro e bitucas de cigarro. Consegui o que vim buscar. Minha família está reunida e não aguento mais. Não aguento mais correr, lutar e me esconder. Não aguento mais ficar em pé. Acabo sentando no chão. Embora pareça mais uma queda. — Jin! — Dai se ajoelha ao meu lado. — Eu estou… — Tento fazer que não é nada. — bem… Você tem dinheiro aí?

— Dinheiro? — Ele franze a testa. — Dei todo o dinheiro que tinha para você. Precisa de dinheiro para quê? — Os marginais… a velha gangue do Kuen… eles ajudaram. — Estou ofegando. — Prometi que ia pagar. — A gente arranja o dinheiro — ele diz. — Tem certeza de que está bem? Faço que sim. — Você está sangrando — Dai diz. Aponta para a mancha escura e úmida no meu vestido. — Você também. — Aponto para seu ombro. — Só preciso descansar. Nada de mais. Ele se acomoda ao meu lado. Bem em cima da bituca de Tsang. — Acho que todos precisamos.

MEI YEE

ELAS ESTÃO TODAS AQUI: Nuo, Wen Kei e Yin Yu. As meninas dos outros corredores. Menos de vinte ao todo, piscando e tremendo boquiabertas sob a luz muito, muito azul. Até mesmo Mama-san anda para lá e para cá à margem do grupo, onde a luz do poste é mais opaca. Seu rosto é parte sombra, parte vergonha. Elas não me reconhecem de cara, engolida como estou pela jaqueta e pelas botas. Quando dou um passo à frente, encolhem-se, como uma única criatura que já sofreu demais. Wen Kei é a primeira a perceber que sou eu. Ela se separa dos rostos pálidos e retraídos, lança-se na minha direção. — Mei Yee! Você está bem! As outras meninas se remexem e levam um susto ao ouvir meu nome. Nuo corre para meu outro lado, enfia o rosto no meu ombro. Dou um abraço apertado nas duas, respiro. Estamos todas tremendo. Até mesmo Yin Yu. Ela está tentando ficar invisível, esconde-se de mim, mas não vai muito longe. Consigo ver seus lábios se contorcendo, seu rosto tremendo como a ponta das estrelas imperfeitas no meu teto. — Você libertou a gente — Wen Kei grita quando finalmente se separa. Libertar. As outras meninas se remexem. A palavra não é tão sagrada para elas; não cai bem. — Não fui eu. — Olho por cima do ombro, para os fios desgrenhados de seu cabelo angelical. Minha irmã ainda está curvada no chão, parecendo uma gota de sangue naquele vestido. Meu menino da janela está agachado ao seu lado e, mesmo a essa distância, mesmo com a dor, seus olhos estão brilhando. — O que vai acontecer agora? — Nuo pergunta. Eu me volto para elas e contemplo o grupo. Dezoito rostos. Dezoito rostos lindos, dilacerados, ansiosos. O que vai acontecer agora? Passei tanto tempo desejando, ansiando, sonhando com esta liberdade. E agora ela está aqui, as ruas estão muitos escuras, e não somos da conta da polícia. — E-eu não sei. — Você não sabe? — A voz de Yin Yu corta como uma navalha, enchendo-me de culpa e agonia. — Onde a gente vai dormir? O que a gente vai comer? Nuo e Wen Kei se afastam, mas continuam olhando para mim. Todas olham para mim, à espera de respostas que não tenho. Então, surge uma presença. Um calor ao meu lado e uma mão na minha. Dedos entrelaçando dedos. Calor entrançando calor. O toque de Dai é completamente diferente do toque de todas as outras pessoas. Faz meu corpo ir às alturas e, mesmo sem saber como, me

dá a certeza de que tudo vai ficar bem. — Obrigado pelas chaves — ele diz para Yin Yu. — E pelo silêncio. Ela fica olhando para ele e inclina a cabeça de maneira que possa olhar por trás da franja. Como faz quando quer ver sem ser vista. Dai se vira para mim. Seus dedos são doces, passando pelos espaços vazios entre os meus, enchendo os buracos. — Todas as meninas estão aqui? Olho para os rostos delas novamente. Só falta Sing. Meu coração incha e dói ao lembrar isso. Faço que sim. Meu menino da janela limpa a garganta. Sua voz é firme, muito mais clara sem o vidro para nos separar. — Sei que, além de Mei Yee e Yin Yu, vocês não me conhecem. Mas queria dizer que, se quiserem um lugar para ir hoje, um lugar seguro, podem vir comigo. Vai ter comida. E chá. E esteiras para dormir. Se quiserem. Todas as meninas ficam olhando para ele como se fosse um bicho selvagem. Eu me pergunto se era essa minha cara naquela primeira noite em que ele bateu na janela e vi outra vida se estendendo, chamando-me para outro lugar. Penso no quarto minúsculo com ladrilhos da cor dos dentes de um fumante. Em como Jin Ling, o gato e eu parecíamos um formigueiro humano. — Não vamos todas caber no seu apartamento. — Não vamos para o apartamento — Dai diz. — Vamos sair de Hak Nam. Vamos para casa. Casa. Ele diz essa palavra como uma canção. Algo diferente dos pés de arroz murchos e das noites cheias de surras. Algo sobre o que vale a pena cantar. — Mei Yee, você confia nele? — pergunta uma menina do corredor sul. Volto a olhar para o menino cuja mão estou segurando. Cujo cabelo está todo bagunçado e cujos olhos estão envoltos por um cinza exausto. Que está sorrindo de um jeito que nunca vi antes. Seu sorriso é como o som da palavra casa: seguro, inteiro e cheio de calor. Essa resposta é fácil:

— Com todo o meu coração. Os dedos de Dai apertam os meus. Seu sorriso cresce e ele volta a olhar para as outras meninas. — Quem quiser, é só vir comigo. Wen Kei dá um passo à frente. Depois vem Nuo. As outras a seguem, com passos tímidos. No fim, só resta uma. Solitária sob a ilha da lamparina. — Mama-san. — Solto a mão de Dai e caminho até ela. — Você pode vir também. — Não tem lugar. — A voz da velha é diferente aqui, ao ar livre. Não tem mais o som do dragão. É baixa, quase perdida. — Você ouviu Dai. Todas podemos ir — digo para ela. Mama-san balança a cabeça. Seu coque muito, muito apertado está se desfazendo, deixando fios soltos caírem no rosto. Ela os joga para trás com os dedos em forma de rastelo. — Não tem lugar lá fora — ela repete. — Não é nosso mundo. Pessoas como nós têm que

ficar nas sombras. Vou ficar em Hak Nam. Conheço o olhar, a maneira como seus ombros se curvam, como os olhos se arregalam. Ela ficou engaiolada por tempo demais. É a porta aberta e desconhecida que teme. Igual à minha mãe. Ofereço a mão para que a tome. — Mama-san… — Vai. — Ela me interrompe, afasta-se da luz da rua. — Logo vocês vão descobrir. Dai e as meninas estão me esperando, mas Mama-san continua se encolhendo. Para longe da minha mão estendida, para longe da luz e para dentro das sombras que acha que são seu lugar. A escuridão continua a vir, envolve Mama-san até ela desaparecer. Agora sou eu que estou sozinha. À deriva sob a lâmpada, no lago azul de luz. Dai chega perto de mim. — Você está bem, Mei Yee? — Eu não posso… — Engulo em seco a náusea impotente na minha garganta, continuo olhando fundo na escuridão. — Não quero deixar Mama-san aqui. — A escolha é dela — ele diz baixinho —, e é graças a você que tem uma. Meu menino da janela tem razão. Por mais que eu queira pegar Mama-san pelo braço e levá-la para um lugar seguro, não posso fazer isso. A escolha é dela e de mais ninguém. — Está pronta para ir? — ele pergunta. Nossas mãos estão juntas novamente, firmes. Não sei dizer se sou eu que estou me segurando a ele ou o contrário. Acho que um está se segurando no outro. Olho para as meninas e para minha irmã. Para a estrada que se abre, pronta para nos levar para fora e para longe. Escolho não ficar na escuridão. — Vamos para casa — eu digo.

DAI

SUSTENTO OS PASSOS FRACOS DE JIN LING COM MEU BRAÇO SAUDÁVEL, levando-a até o Velho

Portão Sul. Como da outra vez. Só que, agora, não é o sangue dela na minha camisa, e eu não preciso correr. Tenho todo o tempo do mundo. Mei Yee caminha ao meu lado, junto ao meu ombro ferido. Ele lateja sempre que ela aperta demais, mas ignoro a dor. Vale a pena. O resto das meninas segue atrás, um êxodo de olhos arregalados e vestidos cintilantes. Mal consigo imaginar a cara do meu pai quando eu bater na porta do número cinquenta e cinco da colina Tai Ping desta vez. Imagino que tenha alguma coisa para dizer a respeito, e que eu vou ter alguma coisa para dizer também. Vamos ficar no vaivém de sempre e, no fim, as meninas vão ficar. Todas as vinte. Claro que essa não é uma solução permanente. Mas, neste momento, não estou pensando muito além das próximas vinte e quatro horas: uma visita do dr. Kwan, uma boa dose de analgésicos, um prato quente de comida e um colchão firme. E depois… Não sei, mas tenho a sensação de que tudo vai se resolver. Mais uma silhueta se junta a nós, pulando sem rabo por cima de montes de lixo e degraus. Quando as sombras ficam para trás, ele trota perto dos meus tornozelos, miando mais alto que de costume. — Não se preocupa. — Olho para Chma aos meus pés quando nossa estranha procissão chega aos canhões enferrujados. Ele salta para cima de um dos artefatos antigos, encarando-me com seus olhos amarelos como faróis. — Não vamos deixar você para trás. As ruas de Seng Ngoi estão cheias de vida, transbordando com desfiles e bêbados felizes. Tudo é de um dourado luminoso e de um vermelho da cor da pétala da papoula. Tem lanternas, bolos e crianças dançando com sapatos novos, encantadas por estarem acordadas àquela hora. Um velho passa, oferece um gole de sua garrafa de vinho de arroz. Recuso com a cabeça, mas ele sorri mesmo assim, mostrando a boca sem dentes. — Feliz ano da cobra! — Ele dá um gole e sai trôpego rumo às festividades. É muita coisa para Mei Yee. Posso ver pelo assombro em seu rosto. Ela olha fixo para as labaredas e cores da rua, cobrindo os olhos com a mão para se proteger da luz forte. O céu não está mais preto, e sim riscado de todas as cores. Fogos de artifício ressoam e lampejam em cima da gente, caindo sobre as ruas de Seng Ngoi como uma chuva mágica. Nós todos, incluindo Chma, ficamos parados e olhamos para cima. — São bonitos — ouço Mei Yee murmurar, embora cada explosão de cor a faça dar um pulo como um coelho assustado. — Este lugar é lindo. Uma cidade de luzes.

— Daqui a uns dias vou levar você para ver o mar — prometo. As cores da celebração noturna lançam luzes sobre seu rosto. Ela sorri e olha para mim. Me . Meu coração está cheio e ardente, mais iluminado do que a noite. — Seria lindo. Olho para baixo e percebo que, apesar de todo o barulho e todo o caos à nossa volta, Jin Ling caiu no sono. Ela está apoiando todo seu peso-pena em mim, com o rosto sujo e sem vergonha encostado no meu agasalho. Isso me faz lembrar de como estou cansado. Como todos estamos cansados. Olho para Chma e para minhas duas meninas. Contemplo os fogos no céu. Cores novas para marcar um ano novo. Um dia novo, o primeiro do resto da minha vida. Da nossa vida. Vamos lá.

EPÍLOGO 180 DIAS DEPOIS

MEI YEE

NA PRIMEIRA VEZ QUE DAI ME LEVOU PARA VER O MAR, fiquei sem palavras. O sol brilhava nas

águas como os fogos de artifício no céu de dias atrás. Luzia e resplandecia até o horizonte. Tanta água se espalhando em todas as direções. As ondas eram pequenas naquela manhã, calmas e tranquilas. A água se estendia sob o céu como um espelho, refletindo o infinito. Senti aquela mesma vastidão no meu peito, lavando- me por dentro e por fora. O vento, duro pelo sal e pelo inverno, batia na jaqueta de couro que a mãe de Dai tinha me dado, mas eu não estava tremendo. Fiquei na beirada do mundo e quis mais. Por isso voltei, várias e várias vezes. O mar sempre me chama como naquela primeira vez. Cantando com seu burburinho suave e o quebrar das ondas. Sussurrando possibilidades a cada maré. Nossa vida mudou rápido depois do Ano-Novo. Dai precisou de seu dom de persuasão e de um pequeno exército de táxis para levar todas nós para a colina Tai Ping. Ele caminhou até a mansão com os ombros duros, como se estivesse pronto para uma briga. No entanto, o casal que abriu a porta, o sr. e a sra. Sun, veio correndo dar um abraço nele. O que aconteceu em seguida foi um caos de visitas médicas e telefonemas. A sra. Sun e Emiyo entravam pela porta da frente com sacolas de compras mais pesadas do que as duas juntas. Roupas de todos os tamanhos, para todas as meninas. Mas a mãe de Dai não parou por aí. Ela sentou com a gente no jardim de pedras, ouviu nossas histórias. Quando nos perguntou sobre nossa casa e nossos pais, e contamos por que não podíamos voltar, ela entendeu. E pôs mãos à obra. Assim nasceu um novo projeto de caridade, fundado pelas generosas doações das Indústrias Sun e administrado pela própria sra. Sun. Foi fundado um internato para todas as crianças expulsas da Cidade Murada, tanto as de Longwai como os marginais esqueléticos. Com aulas, terapeutas e portas que só trancam pelo lado de dentro. Mesmo assim algumas das meninas foram embora. Pensei que, naquela última noite em Hak Nam, quando estava sob a luz da rua e vi Mama-san desaparecer, todas as escolhas tinham sido feitas. Mas não basta uma única escolha num único momento. Escolho toda noite, quando acordo no dormitório, suando por causa dos pesadelos com agulhas e gritos de Sing, e Jin Ling precisa me segurar pelo braço e dizer que estou segura. Ela faz isso toda vez que sinto o medo crescer, entrar em mim sem nenhum motivo, mesmo que o céu esteja azul e Dai esteja rindo de uma das piadas dela. Ela faz isso toda vez que vejo um homem com cabelo grisalho e penso que talvez o embaixador Osamu não esteja desaparecido como todos os jornais

anunciam, que talvez só esteja esperando o momento perfeito para vir atrás de mim. Os terapeutas que a sra. Sun contratou para conversar com a gente falam que essas coisas são normais. Sintomas de algo chamado transtorno de estresse pós-traumático. E, geralmente, acredito neles. Mas às vezes, só às vezes, ouço o murmúrio de Mama-san: “Não é nosso mundo. Pessoas como nós têm que ficar nas sombras”. E às vezes, só às vezes, penso que ela tem razão. Que não mereço a vastidão do mar nem a eletricidade nos olhos de Dai, que faíscam e fazem meu peito crepitar, nem nada que a sra. Sun me dá. As outras meninas sentem o mesmo, esse conflito. Yin Yu foi a primeira a fugir. Quando acordamos na nossa quarta manhã na casa da família Sun, a esteira dela estava vazia. Todas as roupas que a sra. Sun tinha dado estavam dobradas meticulosamente. Depois, outras esteiras foram ficando vazias e, mais tarde, as camas de alguns dormitórios, meninas de outros corredores. Elas sempre, sem exceção, acabaram voltando para Hak Nam, ressurgindo sob a luz escarlate dos batentes, de volta aos velhos hábitos. De volta às sombras. Os terapeutas falam que isso também é normal. A cada duas semanas, eles vão com a sra. Sun para a Cidade Murada, oferecem copos gelados de yuen yeung doce e convidam outros a se juntar a nós. Não trazem nenhuma das meninas desaparecidas, mas trazem notícias: mais batidas da Seção de Segurança, uma onda de despejos. Devagar, o governo esvazia a cidade, preparando o corpo para a dissecação. Ainda não voltei para Hak Nam, mas, de vez em quando, surge uma foto da cidade nas páginas do jornal do sr. Sun. Parece exatamente igual:

tijolos sobre tijolos e grades sobre grades. Buracos abertos como as órbitas de um crânio. É difícil imaginar como um lugar feito aquele pode ser transformado num parque, cheio de verde, luz do sol e vida. Onde possam florescer hibiscos vermelhos-vivos e primaveras carmim. Mas é o que vai acontecer. Um dia. E Dai. Ele ficou na casa do pai, estudando com tutores para compensar os anos perdidos. Tem todo um mundo novo e desconhecido na palma das mãos: viagens e universidades. Vive falando disso. E gosta de usar nós. Nossa vida mudou desde que chegamos a Tai Ping, mas uma coisa continua igual. Tão constante quanto a maré. Todo domingo, ao meio-dia, pegamos um carro em direção ao sul de Seng Ngoi, para longe das chaminés e da costa cheia de gente, rumo às praias desertas com rochas e conchas inteiras. Jin Ling se enrola numa esteira com sua pilha de livros sempre presente, folheando as páginas e imitando os personagens em voz alta, transformando os traços de tinta em palavras. Tenho inveja da rapidez com que ela aprende. Fazemos as mesmas aulas, com Nuo, Wen Kei e um monte de marginais. Mas não vai ser assim por muito tempo. Jin Ling já terminou os três primeiros livros que o professor deu para ela e está louca para ler mais. É a primeira da classe e acho que é por isso que os professores a deixam ficar com Chma na escola. O gato é praticamente parte do seu vestuário. Até aqui, na praia, ela traz o bichano, que senta pacientemente à beira da esteira, caçando os caranguejos minúsculos que às vezes saem da toca. Ele está observando um agora, com os pelos cinza eriçados. Se ainda tivesse o rabo, estaria

abanando. — Ei, Mei Yee! — Os olhos de Jin Ling estão arregalados quando os tira do livro. É um dos que saíram das estantes do antigo quarto de Hiro. Da pilha que Dai entregou para ela. — Você sabia que tem montanhas inteiras embaixo do oceano? Protejo os olhos e me volto para a água. Tento imaginar montanhas embaixo dela. Lembro como rimos quando Sing me contou exatamente a mesma coisa. Como pareceu impossível que uma altura tão grande pudesse ser engolida pela profundidade. Olho de volta para minha irmã e fico chocada ao perceber como ela parece com minha velha amiga, agachada na esteira com um livro, o brilho das palavras em seus olhos. Até tenta usar a velha trança de Sing. Toda manhã, ela me pede para fazer, então eu faço. Ainda está curto demais e o resultado não passa de um toquinho. Mesmo assim, junto três feixes do seu cabelo e os entrelaço numa trança única. Tão forte quanto ela. Algumas cicatrizes não vão embora. Como o medalhão de pele reluzente que marca o ombro de Dai. Ou o roxo furioso e curvo no torso da minha irmãzinha. Se olhar para mim agora, não dá para ver nada — nenhum hematoma, corte ou inchaço de dores antigas. Todas as bolhas e o sangue nos pés que ganhei ao correr do guarda de Longwai me deixaram faz tempo. Não dá para ver minhas cicatrizes, mas elas estão aqui também. Sing, sua morte, é só a superfície. Quanto mais falo com os terapeutas, mais encontro. Feridas que emergem mais rápido do que parecem cicatrizar. Mas estão cicatrizando. Um passo de cada vez. Um dia de cada vez. Uma escolha de cada vez. Estou derrubando as grades e os tijolos. Estou me transformando. — Está falando aqui! — Jin Ling aponta para a página surrada. No mesmo momento, Chma dá um pulo, enfia o nariz na areia. Pelo jeito, não pegou nada. Ficou gordo e preguiçoso agora que não precisa mais caçar ratos tão grandes quanto ele. — Viu? — Talvez, em vez de ficar lendo sobre o oceano, você devesse mergulhar nele. — Estou só enchendo, mas minha irmã dá um pulo mesmo assim, começa a correr pela areia até a beira d’água. — Aonde Jin está indo? Olho por cima do ombro e vejo Dai se aproximando, descalço na areia. Sua calça jeans está dobrada até os joelhos e sua camiseta branca com gola V reflete o sol da tarde. É tanto brilho que preciso cobrir os olhos. — Correr. — Trouxe o almoço. — Ele chuta o ar para tirar a areia dos dedos, acomoda-se ao meu lado na esteira. O saco pardo está amarrotado no seu colo e reconheço o cheiro delicioso de bolinhos recheados. Chma não é o único que está ficando roliço. — Devo chamar Jin? — Olho na direção em que minha irmã correu. A maré está baixa hoje, recolhendo-se para mostrar todo um tapete de conchas do mar. Ela anda na ponta dos pés feito uma bailarina, agachando-se para pegar algumas. Quando finalmente alcança a água, começa a jogar as conchas de volta, vendo-as pousar feito gaivotas no azul. Nunca a tinha visto agir desse jeito, como uma criança. Nem mesmo quando era uma.

— Não. Deixa. Ela está se divertindo. — Dai balança a cabeça e sorri para mim. — Ainda não estou com fome mesmo. Seu sorriso é como o mar. Acho que nunca vou me cansar dele. Fecho os olhos e sinto o calor do sol de verão na minha pele, no meu rosto. A dor fria da lembrança de Sing começa a passar, com todas as outras coisas. Montanhas cobertas pelas profundezas de algo maior, mais vasto do que eu jamais poderia entender totalmente. O braço de Dai envolve meu ombro e eu me encosto nele. Abro os olhos e contemplo. Minha irmã está sobre o tapete de conchas, tacando-as uma a uma no mar. — É engraçado — Dai murmura para mim. — O quê? — Nada… É só que já vi isto antes. — Uma leve ruga surge no canto dos seus lábios e fica lá. — Déjà-vu. A palavra tem um som estrangeiro, mas não como o inglês, que estou estudando. — Isso é ruim? — Não — ele diz e olha para mim. — Não é ruim. É perfeito. Absolutamente perfeito. Nossos lábios estão tão perto, a um sopro ou um suspiro de distância. Meu menino da janela… ele é sempre tão cuidadoso, tão doce. Sempre espera que eu decida, chegue mais perto, deixe que venha. Eu me aproximo mais e a doçura dos seus lábios encosta nos meus. Uma chama explode em meu peito, cheia de vida, vida, vida. Dai me beija. Seus dedos tocam minhas bochechas leves como plumas, acariciando, entrançando e incendiando como o voo de uma fênix. Ficamos juntos por muito tempo, neste espaço sem grades nem vidro. É aqui que eu quero ficar. E, mesmo quando para, não é o fim. Vejo tanta coisa refletida no castanho de seus olhos… Minha irmã e o mar. Alturas e profundezas. Horizontes e possibilidades. Voos em chamas. Vejo isso e sinto a vastidão chamando, no fundo do meu peito. É em momentos como este que sei, lá no fundo, na essência de todo o meu ser, que Mama-san estava errada. Este é meu mundo. Amplo, livre e cheio de esperança.

JIN LING

ESTOU CORRENDO. Sem botas desta vez. Sem poças de lama ou bitucas de cigarros sob mim. Só a areia veludosa entre os dedos dos pés. Só gotas, sal e mar.

É uma sensação tão diferente, correr sem motivo. Sem pontas de faca ou donos de lojas furiosos atrás de mim. Olho para trás e tudo o que vejo é Dai e minha irmã na esteira. Tão perto um do outro que parecem uma única pessoa sob o sol. Chma ainda está cavando a toca do caranguejo, com o bumbum sem rabo erguido. Caçando por diversão. Não há cacos de vidro embaixo dos meus pés. Só coisas que o mar trouxe para a praia:

algas, patas de caranguejo e conchas. Muitas eu reconheço do livro de Hiro. Mexilhões, caracóis, cauris. Eu me agacho. Pego as conchas. Vejo se ainda há vida dentro delas. O livro de Hiro dizia que, às vezes, as conchas trazidas pela corrente secam. Antes que a próxima maré as salve. Sempre que vejo a ponta amarela e selada de uma lesma, taco a concha de volta na água. Ploft! Agita a espuma branca e afunda. Ploft! Ploft! Ploft!

É uma coisa pequena. Um arremesso por uma vida. Minha vida tem sido cheia dessas coisas pequenas. Roupas sem buracos. Botas do meu tamanho. Meu primeiro colchão de verdade. Chma se espreguiçando sob o sol e as partículas de pó. Livros novos e sem mofo. Tigelas de mingau de arroz toda manhã. Aulas com lousa. Dai bagunçando meu cabelo toda vez que me vê e falando como estou crescendo. Minha irmã voltando a sorrir. As coisas pequenas vão se somando. Um dia, vou encontrar um jeito de retribuir tudo isso. Estou aprendendo tudo o que posso:

livros e livros de palavras. A sra. Sun diz que sou “superdotada”. Que posso ser o que quiser quando crescer. Médica, diplomata, advogada. Ainda não sei direito o que quero ser, mas sei que quero ajudar. Quero encontrar um jeito de buscar minha mãe. Enfrentar meu pai sem uma arma ou um olho roxo. Mostrar que ela não precisa dele. Por enquanto, continuo tacando conchas. — Jin! — Olho por cima do ombro. Vejo Dai agitando um saco de papel pardo sobre a cabeça. Como se eu fosse um táxi que ele estivesse tentando chamar. Chma está no seu colo, pedindo. — Comprei bolinhos recheados! Meu estômago faz um barulho parecido com o que Chma fazia quando eu pisava no seu rabo sem querer. Nunca sinto a fome que sentia antes, que me corroía e me comia por dentro. Mas bolinhos recheados ainda são tão deliciosos quanto eram naquela manhã no terraço. — Já vou! — Minha voz é levada pelo vento sobre a areia.

Tem uma última concha perto dos meus pés. Toda curva e enrolada como o cabelo de Nuo. Tão grande que mal cabe na minha mão. Eu a pego mesmo assim. Jogo a concha lá longe, longe, longe, no mar.

NOTA DA AUTORA

A Cidade Murada foi real. Uma cidade real muito surreal. Fiquei sabendo da existência dela quando ouvi uma mulher chamada Jackie Pullinger falando. Ela passou quase vinte anos vivendo na Cidade Murada de Kowloon, em Hong Kong. O lugar que descreveu — uma cidade sem lei, extremamente pobre e dominada por quadrilhas — parecia um cenário tirado diretamente de uma fantasia distópica. Minha imaginação disparou, como sempre faz. Comecei a pensar em todos os diferentes tipos de pessoas que viviam na Cidade Murada de Kowloon: meninos de rua, prostitutas, fugitivos, bandidos sem coração. Os enredos foram surgindo do nada, formando uma história que não pude deixar de lado. Este livro não se encaixa na categoria de ficção histórica e nunca foi essa a minha pretensão. Embora eu tenha pesquisado muito sobre a verdadeira Cidade Murada de Kowloon e tentado retratá-la da maneira mais fiel possível, também usei de licença poética para contar a história que eu queria. Isso pode ser notado na alteração de nomes (Hong Kong virou Seng Ngoi, por exemplo), nas datas de despejos e demolições da cidade, no sistema judiciário de Seng Ngoi e nas operações da Irmandade do Dragão Vermelho. Outra coisa que os leitores mais atentos devem ter notado é a maneira como lidei com os nomes dos personagens. Quase todos os nomes na Cidade Murada de Kowloon eram em cantonês, com um sobrenome de uma única sílaba (como Sun) e um primeiro nome de duas (como Jin Ling ou Mei Yee). Em Hong Kong, hoje, não é raro encurtar o primeiro nome num apelido de uma única sílaba (como Jin faz, para manter seu disfarce), embora essa prática fosse rara no tempo em que a Cidade Murada de Kowloon existiu. Alguns dos nomes também têm origem japonesa ou mandarim, dependendo de onde vêm os personagens. Acho que vale a pena mencionar que, embora o termo mama-san tenha conotações negativas no Ocidente hoje, era um título tradicional usado para mulheres que cuidavam dos bordéis na Cidade Murada de Kowloon. Havia certa influência japonesa por causa da ocupação de Hong Kong pelo Japão durante a Segunda Guerra Mundial. Apesar dessas questões, acredito que a realidade e a ficção não são tão diferentes. Tanto Hak Nam quanto Kowloon foram inicialmente fortes militares. Ambas cresceram tão densa e rapidamente que a luz do sol não chegava às ruas. Ambas abrigavam quadrilhas poderosas e mais de 33 mil pessoas dentro de suas fronteiras apertadas (eram 2,6 hectares, apenas 0,026 quilômetro quadrado). Ambas acabaram sendo demolidas pelo governo e transformadas em parque. Aliás, a decisão de demolir a verdadeira Cidade Murada de Kowloon foi anunciada em 14 de janeiro de 1987, o dia e o ano exatos em que nasci.

Embora eu nunca tenha visto a verdadeira Cidade Murada, tive a oportunidade de visitar o parque construído no local. O espaço é pequeno e bem cuidado, cheio de resquícios da cidade: canhões, ruínas do portão Sul, uma réplica em metal da antiga cidade, um jardim de bonsais e (na minha visita) até um gato sem rabo. Se algum dia você passar por Hong Kong, vale a pena visitar esse lugar. A Cidade Murada pode ter desaparecido, mas o tráfico humano não. Segundo um relatório do Unicef de 2006, quase 2 milhões de crianças foram comercializadas para exploração sexual. Algumas, como Mei Yee, são vendidas por membros da própria família. Para aprender mais sobre esse tema grave e saber como ajudar, sugiro uma visita ao site da International Justice Mission, uma agência de direitos humanos que se dedica a resgatar vítimas de tráfico e oferecer proteção jurídica a elas. Eles podem ser encontrados em: <www.ijm.org>. *

Embora eu nunca tenha visto a verdadeira Cidade Murada, tive a oportunidade de visitar o parquewww.unesco.org.br > e do Unicef < www.unicef.org.br >, que possui a iniciativa Proteja Brasil < www.protejabrasil.com.br >, um aplicativo que facilita denúncias sobre violência contra crianças e adolescentes. (N. E.) " id="pdf-obj-238-5" src="pdf-obj-238-5.jpg">

* No Brasil, você pode visitar os sites da Unesco <www.unesco.org.br> e do Unicef <www.unicef.org.br>, que possui a iniciativa Proteja Brasil <www.protejabrasil.com.br>, um aplicativo que facilita denúncias sobre violência contra crianças e adolescentes. (N. E.)

AGRADECIMENTOS

Escrever este livro foi um processo duro e complicado. Eu sentia que estava arrancando partes da minha alma, transformando em fios delicados e compondo uma tapeçaria de palavras. Mas não foi um processo solitário. Muitas pessoas apoiaram o projeto e se tornaram parte dele, como diferentes fios entrelaçados na tapeçaria. Tem aqueles que conheceram o livro como Cutthroat Novel — Lydia Kang, Amanda Sun, Kate Armstrong e Emma Maree Urquhart. Aqueles que leram como WALLS — Kelsey Sutton, Justina Ireland, Christina Farley e Caroline Carlson. Aqueles que me incentivaram a dar continuidade mesmo quando eu achava a ideia boba — Os Treze Sortudos e Aimme Kaufman. Tem a minha incrível agente, Tracey Adams, que adorou a força das irmãs e das montanhas sob o mar. Tem minha equipe editorial extraordinária — Alvina Ling, Amber Caravéo, Bethany Strout, Nikki Garcia etc. —, que trabalhou arduamente para que este livro viesse ao mundo. Tem os leitores — Mio Debman e Amy Chaw. Mio, em particular, me deu informações culturais valiosíssimas e me ajudou a pintar um retrato mais vívido de Hak Nam. Tem meus amigos e minha família, cujo amor e incentivo me lembram constantemente de que a trança é sempre mais forte que o fio. Tem David, que senta nos terraços e praias comigo. Que fala das estrelas e de casa, e enche meu coração. E em todas as coisas tem Deus, que tece e une tudo: minhas histórias e minha vida. Soli Deo gloria.

Ryan Graudin posando com uma maquete da Cidade Murada de Kowloon. (© DAVID STRAUSS)

Ryan Graudin posando com uma maquete da Cidade Murada de Kowloon. (© DAVID STRAUSS)

Ryan Graudin posando com uma maquete da Cidade Murada de Kowloon. (© DAVID STRAUSS)

A Cidade Murada de Kowloon no começo da noite, com as luzes acesas das lojas e das casas de alguns dos seus mais de 33 mil moradores. (© GREG GIRARD)

A Cidade Murada de Kowloon no começo da noite, com as luzes acesas das lojas e

Vista aérea revelando a densidade e o formato inconfundíveis da Cidade Murada de Kowloon. (© IAN LAMBOT)

DAVID STRAUSS RYAN GRAUDIN nasceu e cresceu em Charleston, Carolina do Sul. Em 2009, formou- se

DAVID STRAUSS

RYAN GRAUDIN nasceu e cresceu em Charleston, Carolina do Sul. Em 2009, formou- se em escrita criativa pelo College of Charleston. Viajou para diversas partes do mundo — deu aulas de inglês na Coreia do Sul, viveu numa fazenda na Nova Zelândia, fez um mochilão pelo Peru e observou os leões no Quênia. Também é autora da série All That Glows.

Copyright © 2014 by Ryan Graudin Edição publicada mediante acordo com Little, Brown and Company, Nova York, Nova York, EUA. Todos os direitos reservados.

O selo Seguinte pertence à Editora Schwarcz S.A.

Grafia atualizada segundo o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990, que entrou em vigor no Brasil em 2009.

TÍTULO ORIGINAL The Walled City

CAPA Alceu Chiesorin Nunes ILUSTRAÇÃO DE CAPA © by Hitomi Terasawa/ Reproduzida com permissão do artista PREPARAÇÃO Lígia Azevedo