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O CONCEITO DE SER GENÉRICO (GATTUNGSWESEN) COMO FUNDAMENTO DA

CRÍTICA À SOCIEDADE MODERNA NOS MANUSCRITOS ECONÔMICO-


FILOSÓFICOS DE 1844.

1. RESUMO
Trata-se de investigar o conceito de ser genérico (Gattungswesen), presente nos Manuscritos
econômico-filosóficos de Karl Marx, compreendido como fundamento da crítica à sociedade
moderna. Com efeito, questionamos quais as consequências desta fundamentação para uma
crítica dialética. Para tanto, num primeiro momento, procura-se investigar como o conceito
surge no pensamento de Marx, tendo em vista o debate com Feuerbach, dada a importância
que este autor possui para o jovem Marx, na medida em que trata o ser genérico como o
fundamento material para a crítica à religião. Num segundo momento, analisar-se-á as
modificações operadas neste conceito por Marx no interior do arcabouço conceitual dos
Manuscritos econômico-filosóficos. Num terceiro momento, investiga-se, como diferentes
intérpretes se posicionaram quanto à natureza e às conseqüências conceituais do ser genérico
operar como fundamento da crítica. Neste sentido, tem-se a hipótese de duas compreensões
possíveis do papel deste conceito quanto à crítica dialética de Marx: como um conceito
positivo, normativo ou como um conceito negativo. Tal questão se reflete em debates futuros
em torno do estatuto do pensamento dialético e do próprio marxismo como será verificado a
partir das posições de alguns intérpretes.

Palavras-chave: Jovem Marx. Ser Genérico. Dialética. Fundamentação normativa.


Fundamentação negativa.

Abstract:
The objective is researching the concept of species-being, existing in the Economic and
Philosophic Manuscripts of 1844 written by Karl Marx, understood as a foundation of the
criticism to modern society. Indeed, we question what are the consequences of this foundation
to a dialectical criticism. So, on a first moment, we will study how the concept is born in the
thought of Marx, taking in consideration the debate with Feuerbach, given the importance that
this author has for the young Marx, as he treats the species-being as the material foundation to
the criticism to religion. On a second moment, the modifications made in this concept by
Marx will be analyzed in the interior of the conceptual framework of the Economic and
Philosophic Manuscripts of 1844. In a third moment it is researched how different interpreters
2

make their position towards the nature and conceptual consequences of the species-being
operating as the criticism‟s foundation. In this sense, a hypothesis of two possible
comprehensions of this concept‟s role as to the dialectical criticism of Marx present itself: as a
positive concept, normative or a negative concept. This matter is reflected in future debates
around the constitution of dialectical thought and Marxism itself as it will be verified from the
positions of some interpreters.

Key Words: Young Marx. Species-being. Dialectic. Foundation normative. Foundation


negative.

2. INTRODUÇÃO
A questão da fundamentação da crítica de Marx à sociedade moderna pela via da
economia política coincide com a mobilização de conceitos hegelianos e feuerbachianos
efetuada nos Manuscritos econômico-filosóficos1. Nesta obra, a fundamentação da crítica de
Marx é oferecida pelo conceito de ser genérico (Gattungswesen). Como se pode verificar nas
palavras do autor: “A crítica da economia política deve, além do mais, assim como a crítica
positiva em geral, sua verdadeira fundamentação às descobertas de Feuerbach” (MARX,
1968, p. 468/20)2, ainda numa outra passagem, diz Marx: “[...] o homem não é apenas ser
natural, mas ser natural humano, isto é, ser existente para si mesmo, por isso, ser genérico”
(MARX, 1968, p. 579/128). A fundamentação da crítica a que Marx se refere, vinda de
Feuerbach, consiste justamente na compreensão do homem enquanto ser genérico. O conceito
de ser genérico é compreendido aqui como aquele que oferece à Marx a fundamentação da
crítica à sociedade moderna a partir de uma crítica da economia política. Como nos referimos
acima, é na tensão entre Feuerbach e Hegel, que Marx desdobra a fundamentação de sua
crítica a partir deste conceito, e é no interior desta tensão que procuramos verificar a
possibilidade de uma dialética histórico-materialista nascente. Uma primeira pergunta, seria,
pois: qual o lugar ocupado pelo conceito de ser genérico na gênese do materialismo histórico
de Marx? O conceito de ser genérico funcionaria como uma normatividade que regula a
crítica ou as modificações que este conceito sofre nas mãos do autor faz com que o mesmo
escape de se apresentar como um fundamento normativo, dando a este conceito um caráter

1
É necessário termos em vista ao longo da pesquisa as dificuldades de trabalhar com um texto de Marx
inacabado e fragmentário como os Manuscritos. Isto torna imprescindível recorrermos à cartas, documentos e
textos da época da escrita dos Manuscritos. Faremos isso através das edições MEW, vol. 1; 2; 3; 27 e 40.
2
Todas as traduções das citações das obras de Marx são de nossa responsabilidade. Elas são baseadas na edição
alemã, com consulta na tradução brasileira. A primeira paginação se refere à edição alemã, conforme indicado na
bibliografia e a segunda paginação indica a tradução brasileira, também referida na bibliografia.
3

negativo? E quais as conseqüências disto no que se refere à possibilidade de uma crítica


dialética no interior dos Manuscritos econômico-filosóficos? Em outras palavras, em que
medida, a fundamentação da crítica do jovem Marx à sociedade moderna, a partir do conceito
de ser genérico, não neutralizaria a dialética possivelmente presente nos Manuscritos
econômico-filosóficos?
No que se refere à relação entre fundamentação e discurso dialético, podemos seguir
Ruy Fausto, que afirma: “[...] a dialética aparece, em primeiro lugar, como o discurso que
“suprime” o ato de fundar (entendendo por “fundar” o movimento de uma fundação
primeira)”, ao mesmo tempo, completa “[...] entendemos por fundação a fundação primeira,
não toda espécie de fundação: a dialética não é de modo algum estranha a toda fundação”
(FAUSTO, 1987a, pp. 34-35). A dialética seria um discurso avesso ao ato de fundação
primeira. Posto isto, como compreender o estatuto do ato de fundação da crítica em Marx a
partir do conceito de ser genérico, em que medida, tal ato, atinge ou não a possibilidade de
um discurso dialético? O esforço de compreensão da posição do conceito de ser genérico na
crítica de Marx nos Manuscritos econômico-filosóficos é inseparável das interpretações da
tradição marxista deste momento da obra de Marx.
Apesar de situarem em perspectivas diferentes, tanto Louis Althusser quanto José
Arthur Giannotti, vêem no jovem Marx, especialmente nos Manuscritos econômico-
filosóficos, um caráter, sobretudo, feuerbachiano – e, portanto, avesso à dialética materialista-
histórica que se desenvolveria posteriormente. Outra perspectiva é a de Ruy Fausto. Para o
autor, o fundamento da crítica de Marx está antes no homem negado do que no próprio
homem, caracterizando uma antropologia negativa presente nos Manuscritos, o que afastaria
Marx, em certo sentido, de uma perspectiva exclusivamente feuerbachiana3.
É sintomático que a posição dos intérpretes diante dos Manuscritos econômico-
filosóficos - especialmente no que se refere às noções de alienação, ser genérico e sua relação
com o trabalho -, parece definir algumas linhas teóricas do marxismo. Tais posicionamentos e
debates no interior da tradição marxista em torno do conceito de ser genérico permite-nos
reconhecer algumas pistas para nos orientarmos na compreensão das divergências teóricas no
interior do marxismo4.

3
Para os nossos propósitos, as obras centrais de Althusser; Giannotti e Ruy Fausto a serem analisadas, serão,
respectivamente, Por Marx, Origens da dialética do trabalho e Marx: lógica e política I, na medida em que
nestes textos o debate sobre os operadores da dialética materialista se apresentam.
4
Apesar de compreendermos o horizonte aberto por esse debate, a investigação dos desdobramentos posteriores
das obras de Marx e do próprio marxismo não serão objetos desta pesquisa. Utilizaremos os demais autores do
marxismo na medida em que elucidam questões próprias de nosso campo de investigação.
4

3. JUSTIFICATIVA
Um dos momentos de disputa pelo legado da filosofia hegeliana gira em torno do
conceito de vida deste autor. Feuerbach terá um grande destaque neste contexto, em especial
para o jovem Marx, na medida em que ele teria dado o primeiro passo para uma dialética
materialista em direção ao sujeito vivo e ao concreto imediato identificado à natureza,
especialmente à natureza humana (GIANNOTTI, 1966, pp. 20-21). Esse direcionar-se ao
sujeito vivo, identificado com a natureza humana, culmina no conceito de ser genérico, que
terá um papel fundamental nos Manuscritos econômico-filosóficos. Neste sentido, é
necessário percorrermos alguns desenvolvimentos deste conceito em Feuerbach, a fim de
compreendermos como se dará a apropriação do conceito em Marx.
O conceito de vida, central nesse debate, pode ser apreendido a partir do capítulo A
verdade da certeza de si mesmo na Fenomenologia do espírito. Após ter alcançado a primeira
determinação da consciência-de-si, compreendida como desejo em geral, Hegel constata que
“o objeto imediato do desejo é um ser vivo” (HEGEL, 1992, p. 137), ou seja, a vida. O que
isto significa? A vida, assim como a consciência-de-si é caracterizada como a infinita unidade
das diferenças (HEGEL, 1992, p. 137). Ocorre que essa unidade no caso da vida não é para si,
isto é, ela não é refletida por si mesma. Tal movimento de auto-reflexão só será possível a
partir da figura da consciência-de-si.
A passagem da vida para a consciência-de-si se dá pela mediação do gênero. Diz
Hegel: “É o gênero simples que no movimento da vida mesma não existe para si como este
Simples; mas neste resultado, a vida remete a outro que ela, a saber: à consciência para a qual
a vida é como esta unidade, ou como gênero” (HEGEL, 1992, p. 140). A consciência-de-si
não surge sem pressupostos. Ela parte do movimento indicado pela própria vida. Não o puro
fluxo, mas apenas enquanto a vida se apresenta como um outro de si mesmo, como um gênero
que se apresenta dentre tantas formas diversas assumidas pela vida. Desde então, passa a ser
possível um primeiro instante de auto-reflexão no interior do fluxo da vida. A consciência-de-
si é para si mesma gênero. Este passo é primordial para a apresentação do ser humano
enquanto parte do jogo hegeliano da razão que se prenuncia na consciência-de-si. Movimento
astuto de reposição do idealismo na materialidade da vida, que não passaria ileso à crítica dos
jovens hegelianos.
Vejamos como Feuerbach se insere no interior do debate em torno do legado da
filosofia hegeliana. Em sua obra, A essência do cristianismo, Feuerbach procura estabelecer
uma crítica à religião cristã fundamentada numa antropologia. Nas palavras do autor: “A
essência do homem [...] não é apenas o fundamento, mas também o objeto da religião”
5

(FEUERBACH, 1988a, p. 44). Assim, a religião teria como fundamento de seu mecanismo a
noção de essência humana. O que isso quer dizer?.
Em princípio, isso significa que as qualidades divinas são as qualidades humanas
objetivadas no divino. Com isso, o materialismo feuerbachiano indica como na religião o
movimento de objetivação da essência do homem se desloca de maneira hipostasiada para um
outro ser, no caso, Deus. É, pois, na religião, que Feuerbach encontra o sentido de alienação:
uma dinâmica de inversão, na qual o que é próprio à essência de um sujeito passa para um
outro ser, objetificado na forma divina. Numa nota, diz Feuerbach: “A religião retira os
poderes, as qualidades e as essências do homem de dentro do próprio homem e as diviniza
como se fossem seres separados” (FEUERBACH, 1988a, p. 46). No entanto, mais do que
uma mera objetivação das qualidades humanas, a divinização explicita um desvio pelo qual
aquilo que era num primeiro momento objeto, ganha, por sua vez, autonomia em relação
aquilo que era num primeiro momento sujeito, na medida em que passa a determiná-lo. Há,
portanto, uma inversão da relação primeira.
Defendendo que “o homem nada é sem o objeto” (FEUERBACH, 1988a, p. 46), o
autor argumenta que o homem toma “[...] consciência de si mesmo através do objeto: a
consciência do objeto é a consciência que o homem tem de si mesmo” (FEUERBACH,
1988a, p. 46). Isto explica de que maneira na religião, compreendida como conhecimento
infinito, o homem reconhece a infinitude da consciência humana que foi posta na religião. Ou
seja, na religião, o homem reconhece sua essência de modo indireto ao conhecer Deus. Como
sintetiza Giannotti: “A Essência do Cristianismo é uma tentativa de mostrar que os atributos
divinos nada mais são do que atributos humanos transformados em absolutos pela alienação”
(GIANNOTTI, 1966, p. 34).
A desconstrução da compreensão religiosa do ser, no entanto, exige de Feuerbach uma
compreensão do que seria, então, a essência humana. Posição que está sugerida na sua
compreensão do ser humano enquanto ser genérico. Em A essência do cristianismo,
procurando diferenciar os homens dos animais, Feuerbach afirma:
De fato é o animal objeto para si mesmo como indivíduo – por isto tem ele
sentimento de si mesmo – mas não como gênero – por isto, falta-lhe a consciência,
cujo nome deriva de saber. Onde existe consciência existe também a faculdade para
a ciência. A ciência é a consciência dos gêneros. Na vida, lidamos com indivíduos,
na ciência com gêneros. Mas somente um ser para o qual seu próprio gênero, sua
qüididade, torna-se objeto, pode ter por objeto outras coisas ou seres de acordo com
a natureza essencial deles (FEUERBACH, 1988a, p. 43).
Ao contrário de se pensar que o homem coloca sua essência nas coisas (e, por isso, pode
tomá-las como objeto de conhecimento), compreender o homem como um ser genérico
significa que este é capaz de tomar a si mesmo - enquanto gênero - como objeto; e, permite-
6

lhe ainda a possibilidade de tomar todos os outros seres, na sua própria essência, enquanto
objetos. O homem é o único ser capaz de fazer de si mesmo e de todos os outros seres, objetos
para si. Diferentemente do encaminhamento hegeliano, Feuerbach nota no gênero a
materialidade do humano. É necessário ressaltar que o conceito de ser genérico feuerbachiano
encerra três atributos: a razão, a vontade e o coração (FEUERBACH, 1988a, pp. 44-45). Estes
atributos, que são objetivados na religião caracterizando a alienação, dão um caráter postivo à
crítica de Feuerbach à religião.
É importante não perdermos de vista que o ser genérico feuebachiano fundamenta
antropologicamente a crítica à religião, oferecendo uma espécie de critério para medirmos o
afastamento dos homens para com a sua essência. Em outras palavras, a crítica à alienação
religiosa consiste na explicitação do deslocamento e distanciamento da essência humana,
compreendida enquanto ser genérico. Assim, a noção feuerbachiana de ser genérico tem a
função de regular e orientar esta crítica, que, por sua vez, como vimos, possui sua
normatividade fixada em seus atributos.
Diante do exposto, vejamos como se dá a apropriação do conceito de ser genérico no
jovem Marx. Este encontra em Feuerbach, a partir da crítica deste último à religião, as bases
para que a crítica seja deslocada para outras direções, a saber, para o direito, na Crítica da
filosofia do direito de Hegel; para a política em Sobre a questão judaica e para a economia
política, nos Manuscritos econômico-filosóficos. De acordo com o jovem Marx, Feuerbach
teria oferecido o fundamento da crítica da economia política, oferecido o fundamento do
verdadeiro materialismo e com isso encaminhado uma revolução teórica desde Hegel
(MARX, 1968, p. 468/20 e 570/118). O reconhecimento5 por Marx das realizações teóricas de
Feuerbach concentram-se no fato deste ter reconhecido a materialidade do humano, enquanto
ser genérico. Numa carta a Feuerbach, diz Marx:
Em suas obras você ofereceu - não sei se deliberadamente - uma fundamentação
filosófica do socialismo, os comunistas têm interpretado, desde o primeiro momento
suas obras desta maneira. Conceber a unidade do homem com o homem, baseada
nas diferenças reais entre eles, e descer o conceito de gênero humano da abstração
para situá-lo na terra: o que é isto, senão o conceito de sociedade?” (MARX, 1963,
p. 425/679).
É este movimento de Feuerbach de “descer o conceito de gênero humano da abstração
para situá-lo na terra” que interessará à Marx, na medida em que permite o estabelecimento de
um fundamento material para a crítica.
Como veremos, tal reconhecimento não significa que Marx compreenda o conceito de
ser genérico da mesma maneira de Feuerbach. Na relação entre o ser genérico e alienação o
5
Os elogios aos feitos de Feuerbach se estendem no texto Crítica da dialética e da filosofia hegelianas em geral,
que compõe os Manuscritos econômico-filosóficos (Cf. MARX, 1968, pp. 569-570/116-118).
7

procedimento teórico de Marx nos Manuscritos econômico-filosóficos, consiste em procurar


mostrar de que maneira, a partir do trabalho alienado e da propriedade privada, a alienação é
concretizada, de modo que a dinâmica de trabalho imposta pela sociedade moderna nega o ser
genérico. Portanto, na economia política estaria o segredo em que opera a negação do homem
enquanto ser genérico. O próprio autor deixa isto implícito ao anunciar seu projeto no
Prefácio: “Assim, será encontrado o fundamento, no presente escrito, da conexão entre a
economia política e o Estado, o direito, a moral, a vida civil etc., na medida em que a
economia política mesma, ex professo, trata destes objetos” (MARX, 1968, p. 467/19). É
neste sentido que seria possível dizer que o jovem Marx, a partir da apropriação e
deslocamento filosófico do conceito de ser genérico de Feuerbach, fundamenta a crítica do
modelo de reprodução da vida social moderna - que encontra sua expressão teórica na
economia política. Aparentemente, o movimento dos Manuscritos seria muito semelhante ao
que Feuerbach desenvolve na crítica à religião. No entanto, quando Marx parte da crítica da
economia política, muitos dos elementos feuerbachianos são alterados.
Nesse sentido faz-se necessário compreender como os conceitos alienação e ser
genérico ganham em Marx um sentido diverso daquele presente em Feuerbach, mas também
em que medida esta influência é preservada. A relação do conceito de ser genérico com o
conceito de trabalho alienado permite-nos orientarmo-nos nestas questões. Uma das
determinações em Marx do conceito de trabalho alienado é a seguinte:
O trabalho não produz somente mercadorias; ele produz a si mesmo e ao trabalhador
como uma mercadoria, e isto na medida em que produz, de fato, mercadorias em
geral.
Este fato nada mais exprime, senão: o objeto que o trabalho produz, o seu produto,
se lhe defronta como um ser estranho, como um poder independente do produtor.
[...](MARX, 1968, p. 511-512/80).
Há aqui um jogo de determinações recíprocas entre: (i) a atividade do trabalho; (ii) o
trabalhador e (iii) o produto do trabalho. O trabalho produz ao mesmo tempo a si mesmo, o
trabalhador e os objetos, ocorre que a forma determinada deste objeto produzido é uma
mercadoria. De certo modo, poderíamos dizer que, devido a este trabalho ser imposto e ainda
produzir mercadorias em geral, há uma reviravolta na relação, de modo que esse produto do
trabalho passa a determinar a própria atividade do trabalho e o trabalhador. Este jogo entre
elementos que compõem o mecanismo da alienação não é apresentado por Feuerbach.
Um outro elemento que também aponta para uma diferença entre os dois autores é a
ausência em Feuerbach de uma relação entre a aparição do fenômeno e sua determinação por
trás da aparência, reduzindo o fenômeno à materialidade aparente. Procedimento crítico
diverso no caso de Marx, que pode afirmar: “Esta efetivação do trabalho aparece à esfera da
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economia política como desefetivação (Entwirklichung) do trabalhador, a objetivação como


perda do objeto e servidão ao objeto, a apropriação como alienação (Entfremdung), como
exteriorização (Entäusserung) (MARX, 1968, p. 512/80. Grifo nosso). Esta primeira
aparência não traz necessariamente toda a verdade deste modelo de efetivação do trabalho,
mas é como se fosse um momento dessa verdade.
As considerações mais densas sobre o conceito de ser genérico aparecem no capítulo
dos Manuscritos econômico-filosóficos6 intitulado Trabalho alienado e propriedade privada.
Neste capítulo Marx procura desdobrar o caráter econômico da alienação. Em grande medida,
é a partir do conceito de trabalho que se dá o amálgama entre a filosofia – haja vista
especialmente o conceito de ser genérico – e a economia. O trabalho alienado é o ponto
nevrálgico a partir do qual deve se compreender sua relação com a essência humana.
Neste capítulo, especialmente na seguinte passagem, se torna evidente a apropriação
do conceito de ser genérico de Feuerbach por Marx:
O homem é um ser genérico, não somente quando prática e teoricamente faz do
gênero, tanto do teu próprio quanto do restante das coisas, o seu objeto, mas também
– e isto é somente uma expressão da mesma coisa – quando se relaciona consigo
como [com] o gênero vivo, presente, quando se relaciona consigo mesmo como
[com] um ser universal, [e] por isso livre (MARX, 1968, pp. 515/83-84).
Devido à universalidade do gênero humano enquanto ser genérico, o homem é capaz
de tomar a si mesmo e a todas as espécies enquanto objeto, tal como demonstramos acima
com Feuerbach. Ocorre que, segundo Marx: “A vida produtiva é, porém, a vida genérica. É a
vida engendradora de vida. [...] a atividade consciente livre é o caráter genérico do homem”
(MARX, 1968, p. 516/84). Portanto, mais do que tomar a si mesmo e as outras espécies
enquanto objeto, a própria atividade humana, ou melhor, a atividade vital humana, caracteriza
o ser genérico. É por isso que o homem, como dirá Marx mais a frente, é também capaz de
produzir segundo a medida inerente a todas as espécies e objetos (Cf. MARX, 1968, p.
517/85). Aqui reside uma importante modificação no conceito de ser genérico de Marx em
relação à Feuerbach: a compreensão de uma antropologia baseada na atividade humana,
enquanto produção material e histórica.
A determinação natural da vida genérica (Gattungsleben)7, tanto no homem quanto no
animal, consiste em que ambos vivem da natureza inorgânica. A atividade vital humana que

6
Levantamos àqueles aspectos presentes nos Manuscritos econômico-filosóficos que julgamos ser importantes
para a precisão de nossa problemática e organização das hipóteses a serem desenvolvidas durante a pesquisa.
Lembremos que as considerações de Marx acerca da alienação e do ser genérico aparecem em outros textos da
juventude do autor como: Crítica da filosofia do direito de Hegel e em Sobre a questão judaica.
7
Destaca-se aqui que Marx, nos Manuscritos econômico-filosóficos, ora usa o termo ser genérico e ora usa o
termo vida genérica (Gattungsleben). Essa observação se faz necessária, na medida em que, como vimos acima
Hegel trabalha com o conceito de vida.
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toma a natureza como corpo inorgânico do homem é o trabalho (Cf. MARX, 1968, p.
516/84). A atividade vital humana seria caracterizada, portanto, pela exteriorização da
essência humana a partir de sua relação com a materialidade disponível na natureza.
Procurando marcar a distinção entre a atividade vital humana e a atividade vital animal, diz
Marx:
O animal é imediatamente um com a sua atividade vital. Não se distingue dela. É
ela. O homem faz da sua atividade vital mesma um objeto da sua vontade e da sua
consciência. Ele tem atividade vital consciente. Esta não é uma determinidade com a
qual ele coincide imediatamente. A atividade vital consciente distingue o homem
imediatamente da atividade vital animal. Justamente, [e] só por isso ele é um ser
genérico (MARX, 1968, p. 516/84. Grifo nosso).
A partir da citação acima, percebemos como a essência humana, o ser genérico, parece
apontar para a capacidade que o homem possui de não necessariamente atualizar aquilo que
nele está em potência. Afinal, a atividade vital humana não é algo com a qual ele coincide
imediatamente, como no caso dos animais, justamente por ela ser objeto de sua vontade e
consciência. Abre-se, com isso, um espaço de indeterminação e plasticidade dessa essência, já
que o homem pode, simplesmente, não realizar uma determinidade imediata. É, por isso, que
o homem “[...] produz mesmo livre da carência física, e só produz, primeira e
verdadeiramente, na [sua] liberdade [com relação] a ela” (MARX, 1968, p. 517/85. Grifo
nosso), posto que é neste caso que há a marca de sua diferença para com os animais, a saber, a
produção fora da carência física. Ao ligar o conceito de ser genérico com a noção de atividade
vital consciente e livre, compreendida como trabalho, julgamos que Marx imprime uma
modificação no conceito de ser genérico que merece ser cuidadosamente analisada. Parece ser
justamente pelo fato de não se deixar determinar completamente, que a essência humana,
compreendida enquanto ser genérico, abre a possibilidade para a sua própria alienação.
Uma pista para reforçar a compreensão das diferenças entre o conceito de ser genérico
em Feuerbach e em Marx está em outro capítulo dos Manuscritos econômico-filosóficos, no
caso, Crítica da dialética e da filosofia hegelianas em geral. Este texto permite-nos investigar
qual a origem da relação do ser genérico com o conceito de trabalho. Essa origem pode ser
reconhecida na apropriação que Marx faz do conceito de trabalho de Hegel. Ao que nos
parece, Marx procura, nos Manuscritos econômico-filosóficos, conciliar o ser genérico como
fundamento da crítica da sociedade moderna com a noção de trabalho como autoprodução do
homem, vinda da filosofia de Hegel. Assim, Marx reconhece que:
A grandeza da “Fenomenologia” hegeliana e de seu resultado final [...] é que Hegel
toma, por um lado, a autoprodução do homem como um processo, a objetivação
como desobjetivação, como alienação e superação dessa alienação; é que
compreende a essência do trabalho e concebe o homem objetivo, verdadeiro, porque
homem efetivo, como o resultado de seu próprio trabalho. (MARX, 1968, p.
574/123).
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Percebemos assim que Hegel, a partir do conceito de trabalho, é uma das grandes
referências teóricas de Marx para as modificações impressas ao conceito de ser genérico em
relação à Feuerbach. A partir da consideração dessa herança hegeliana torna-se mais claro a
relação entre trabalho e ser genérico em Marx:
[...] na elaboração do mundo objetivo [é que] o homem se confirma, em primeiro
lugar e efetivamente, como ser genérico [...]. O objeto do trabalho é portanto a
objetivação da vida genérica do homem: quando o homem se duplica não apenas na
consciência, intelectual[mente], mas operativa, efetiva[mente], contemplando-se, por
isso, a si mesmo num mundo criado por ele. Conseqüentemente, quando arranca do
homem o objeto de sua produção, o trabalho alienado arranca-lhe sua vida genérica
(MARX, 1968, p. 517/85)8.
A efetivação do homem enquanto ser genérico não se dá somente pelo fato do homem
ser capaz de tomar todos os outros seres e a si mesmo em sua essência, como no caso de
Feuerbach, mas, é na elaboração do mundo objetivo, ou seja, na sua atividade laboral que se
dá sua realização (determinação) enquanto ser genérico. Com o trabalho alienado há uma
verdadeira desrrealização do homem. Isto se dá por dois motivos: primeiro, a atividade do
trabalho não pertence ao trabalhador já que a própria atividade de trabalho não é livre, mas lhe
é imposta; segundo, o objeto de seu trabalho, onde o homem havia objetivado seu ser
genérico, não lhe pertence. Deste modo, na sociedade do trabalho alienado o indivíduo não
trabalha em favor da composição do gênero. Além disso, através da alienação há uma
transformação da consciência que o homem tem de seu gênero, de modo que sua essência
passa a ser reduzida a um meio de sua existência física. A vida genérica passa a ser um meio
de vida para a vida individual.
Parece-nos que é justamente a indeterminação que perpassa o ser genérico, como
citamos acima, que permite o fenômeno do trabalho alienado. Observemos uma passagem de
Marx: “O trabalho alienado inverte a relação a tal ponto que o homem, precisamente porque é
um ser consciente, faz da sua atividade vital, da sua essência, apenas um meio para sua
existência” (MARX, 1968, pp. 516/84-85). O que permite essa inversão operada pelo
trabalho alienado? Como dissemos acima, é pelo fato do homem não coincidir imediatamente
com a determinidade do trabalho (Cf. MARX, 1968, p. 516/84.) que torna a alienação do ser
genérico possível.
É tal indeterminação possivelmente presente no conceito de ser genérico do jovem
Marx que abre possibilidades de explorarmos diferentes hipóteses quanto à natureza deste
conceito: ele encerra uma série de qualidades positivadas de antemão, caracterizando um
conceito normativo que orienta a crítica de Marx, aos moldes feuerbachianos; ou estaria aqui

8
Fica explicitado a partir desta argumentação o fato de Marx em outros momentos dos Manuscritos econômico-
filosóficos referir-se, de modo recorrente, à inversão, ou à redução do homem ao animal, ou as funções animais.
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presente um conceito pressuposto, um vir a ser, que justamente por não ter sido posto - ou
melhor, efetivado na realidade -, não pode encerrar qualidades positivadas de antemão?
É curioso notar como que os diferentes posicionamentos dos intérpretes com relação
aos Manuscritos econômico-filosóficos podem ser organizados a partir do peso que se atribui
no interior dos Manuscritos ora para as relações entre Marx e Feuerbach, ora para as relações
entre Marx e Hegel.
É muito conhecida a posição de Althusser no que se refere às interpretações dos
escritos do jovem Marx. Segundo Althusser, os Manuscritos econômico-filosóficos marcam o
momento mais dramático e crítico da “evolução” do pensamento do jovem Marx, na medida
em que haveria nesta obra uma contradição entre a posição política de Marx, já identificado
com o movimento comunista; e sua posição filosófica, que se defronta na reflexão sobre a
economia política. Para Althusser, Marx ainda está preso a posições filosóficas pequeno-
burguesas que, devido à tensão com seu posicionamento político, já apontam para
necessidades que fazem o jovem Marx tentar “[...] a impossível aposta política de introduzir
Hegel em Feuerbach para poder falar do trabalho na alienação, e da História no Homem (Cf.
ALTHUSSER, 1978, p. 126.). Este “no Homem”, caracterizando uma ideia de essência
humana ainda seria, segundo Althusser, uma forte marca de um Marx profundamente
feuerbachiano. De acordo com Althusser, é somente a partir das Teses sobre Feuerbach – que,
não por acaso marca o rompimento entre os dois jovens hegelianos – que Marx se desloca
para uma posição teórica compatível com sua posição política, no caso, a posição teórica da
classe proletária, caracterizando assim a cesura epistemológica na obra do autor: “[...] foi
deslocando-se sobre as posições de classe absolutamente inéditas, proletárias, que Marx
desencadeou a eficácia da conjunção teórica de onde saiu a ciência da História”
(ALTHUSSER, 1978, p. 125)9.
Outra posição importante a respeito dos Manuscritos econômico-filosóficos é a de José
Arthur Giannotti, em Origens da dialética do trabalho. Nesta obra, o autor procura levar a
cabo o exame da possibilidade de uma dialética materialista a partir das tentativas de

9
Mesmo com algumas diferenças com Althusser, Balibar acompanha este na identificação da cesura
epistemológica (Cf. BALIBAR, 1995, p. 13). Balibar, referindo-se aos Manuscritos econômico-filosóficos, diz:
“Trata-se de uma análise fenomenológica (visando extrair o sentido ou o não-sentido) da alienação do trabalho
humano sob o regime do salário. As influências de Rousseau, Feuerbach, Proudhon e Hegel se combinam aí
estreitamente com sua primeira leitura dos economistas (Adam Smith, Jean-Baptiste Say, Ricardo, Sismondi),
para desembocar em uma concepção humanista e naturalista do comunismo, concebido como a reconciliação do
homem com seu próprio trabalho e com a natureza, e conseqüentemente com a sua "essência comunitária", que
a propriedade privada abolira, tornando-o assim „estranho para si mesmo‟” (BALIBAR, 1995, p. 25. Grifo
nosso).
12

estabelecimento desta por parte de Feuerbach e do jovem Marx.


De acordo com Giannotti, o esforço de se opor à lógica hegeliana conservando a sua
dialética tornaria necessário “um conceito que vincule o sujeito ao universal” (GIANNOTTI,
1966, p. 21). Na tentativa de superar o caráter especulativo da dialética hegeliana, a
vinculação entre sujeito e universal, tanto em Feuerbach quanto em Marx, teria sido
encontrada no conceito de ser genérico.
Contudo, de acordo com o autor, a tentativa por parte de Feuerbach na direção da
fundação de uma dialética materialista redunda no idealismo mais delirante, numa outra
formulação, num “vitalismo irracionalista” (GIANNOTTI, 1966, p. 54 e 253). Segundo
Giannotti, é a partir desse instrumental teórico, herdado de Feuerbach, especialmente a partir
do conceito de ser genérico, caracterizado por ele como uma “universalidade primitiva
invisível” (1966, p. 22), que o jovem Marx procura fundamentar sua crítica à sociedade
moderna e as contradições desta.
Esta herança feuerbachiana do jovem Marx o prenderia ao materialismo sensualista
daquele, tomando assim, como fundamento de sua crítica à sociedade capitalista, mesmo que
com algumas diferenças, a antropologia feuerbachiana.
Outro intérprete, Ruy Fausto, mesmo que reconheça a influência de Feuerbach nos
Manuscritos, atenta para a necessidade de se pesar a importância da influência de Hegel nos
mesmos, como diz Fausto em Sobre o jovem Marx:
[...] se se afirma que a história não é mais do que a pré-história do homem, o
homem não está lá: perde-se então o direito de falar do homem (senão como
pressuposição). Tal é a contradição dos Manuscritos. Contradição que eles
resolvem, ou pretendem resolver pela antropologia negativa (FAUSTO, 1980, p. 9).
Ruy Fausto reconhece nos Manuscritos econômico-filosóficos uma antropologia
negativa10, o que o leva a considerar uma ideia de vir a ser do homem, na medida em que o
homem não é posto, mas é pressuposto; ou melhor, ele é posto na sociedade moderna a partir
dos predicados que o negam. Acompanhando a terminologia utilizada pelo próprio Marx11,
Ruy Fausto compreende este movimento a partir dos termos história e pré-história: “[...] a
história do homem não é uma verdadeira história, mas uma história natural do homem, uma

10
No caso, para Ruy Fausto, haveria nos Manuscritos uma antropologia negativa, na medida em que o
fundamento não é o homem, mas o homem negado.
11
“[...] na medida em que, para o homem socialista, toda a assim denominada história mundial nada mais é do
que o engendramento do homem mediante o trabalho humano, enquanto o vir a ser da natureza para o homem,
então ele tem, portanto, a prova intuitiva, irresistível, de seu nascimento por meio de si mesmo, do seu processo
de geração. Na medida em que a essencialidade do ser humano e da natureza se tornou prática, sensivelmente
intuível; na medida em que o homem [se tornou prática, sensivelmente intuível] para o homem enquanto da
natureza e a natureza para o homem enquanto existência do homem, a pergunta por um ser estranho, por um ser
acima da natureza e do homem - uma pergunta que contém a confissão da inessencialidade da natureza e do
homem – tornou-se praticamente impossível” (MARX, 1968, p. 546/114).
13

história da gênese do homem” (FAUSTO, 1980, p. 9). De acordo com Ruy Fausto, é a partir
de Hegel que é possível esta antropologia negativa e a compreensão da história como história
do surgimento do homem (1980, p. 9).
Que Marx herda de Feuerbach o conceito de ser genérico não parece deixar dúvidas.
Resta saber, e essa é a grande questão, se, em Marx, o conceito de ser genérico encerra em si
uma normatividade reguladora – como é caso da interpretação de Giannotti e talvez, em certo
sentido, para Althusser –, apontando, portanto, positivamente para o que seria essa essência
humana; ou, se o ser genérico receberia o caráter de um conceito negativo, uma
processualidade a ser desdobrada, um vir a ser.
A partir do exercício de assumirmos a hipótese de Giannotti, a de que o jovem Marx
não estaria de fato sob uma perspectiva propriamente dialética, na medida em que estaria
preso ao materialismo sensualista de Feuerbach, ainda assim, a crítica do jovem Marx à
sociedade moderna já não opera, por vezes, através de um modelo de crítica descrito na
Fenomenologia do espírito? Em que medida, a fundamentação da crítica à sociedade
capitalista, a partir de uma noção de essência humana, “contamina” a possibilidade de um
procedimento tão caro à dialética hegeliana como a crítica do objeto a partir dos próprios
elementos oferecidos por este?
Hegel, na introdução da Fenomenologia do Espírito, percorre a certa altura uma
investigação acerca do critério de verdade a ser adotado no procedimento investigativo da
Fenomenologia do Espírito. A questão é: como sabemos se o conceito se adequa ao objeto?
Diz Hegel:
A consciência fornece, em si mesma, sua própria medida; motivo pelo qual a
investigação se toma como comparação de si consigo mesma, já que a distinção que
acaba de ser feita incide na consciência.
[...] Se chamarmos o saber, conceito; e se a essência ou o verdadeiro chamarmos
essente ou objeto, então o exame consiste em ver se o conceito corresponde ao
objeto. Mas chamando a essência ou o Em-si do objeto, conceito, e ao contrário,
entendendo por objeto o conceito enquanto objeto - a saber como é para um Outro –
então o exame consiste em ver se o objeto corresponde ao seu conceito. [...] Portanto
não precisamos trazer conosco padrões de medida, e nem aplicar na investigação
nossos achados e pensamentos, pois deixando-os de lado é que conseguiremos
considerar a Coisa como é em si e para si (HEGEL, 1992, pp. 69-70).
A verdade consiste na concordância do objeto consigo mesmo, isto é, seu conceito.
Portanto, o critério da verdade deve estar no interior do próprio objeto a ser investigado.
Uma hipótese a ser investigada é se Marx, em alguns procedimentos nos Manuscritos
econômico-filosóficos, não estaria operando a partir deste modelo hegeliano de verdade, na
medida em que, do interior dos próprios conceitos da economia política ele explicita suas
14

inconsistências e contradições12. Em resumo, não estaria Marx operando por vezes seguindo
o princípio: “ver se o objeto corresponde ao seu conceito” (HEGEL, 1992, p. 70)? Tal questão
faz sentido, na medida em que analisamos o peso do ser genérico diante da contrapartida do
trabalho alienado.
Diante do exposto, em resumo, caberá a tal pesquisa investigar, em que medida a
fundamentação da crítica baseada no conceito de ser genérico afeta ou não um modelo de
crítica dialética possivelmente presente nos Manuscritos econômico-filosóficos, como já
anunciamos, um caminho possível é investigar qual a natureza deste conceito nesta obra de
Marx: seria ele um fundamento normativo que regula a crítica ou tal conceito seria perpassado
por uma indeterminação e uma negatividade?

4. OBJETIVOS
Investigar qual a natureza do conceito de ser genérico nos Manuscritos econômico-
filosóficos, de Marx; e as conseqüências para uma possível dialética materialista do fato de
Marx tomá-lo como fundamento da crítica. Para tal empreendimento a pesquisa estrutura-se
nos seguintes momentos:
(i) Examinar as influências filosóficas de Hegel e Feuerbach no conceito de ser
genérico, considerando a importância pontual destes autores para a compreensão da
apropriação de tal conceito no jovem Marx;
(ii) analisar o conceito de ser genérico nos Manuscritos econômico-filosóficos a partir
das suas articulações com os conceitos de trabalho e alienação;
(iii) apresentar criticamente como diferentes intérpretes se posicionam quanto à
natureza e as conseqüências conceituais do ser genérico operar como fundamento de sua
crítica;
(iv) verificar quais as implicações diretas do conceito de ser genérico marxiano ser
tomado como fundamento para a crítica à sociedade moderna nos Manuscritos econômico-
filosóficos a fim de compreender as conseqüências disto para pensar a possibilidade de uma
dialética materialista nesta obra do autor.

12
Possíveis exemplos de adoção deste procedimento podem ser encontrados: 1. no Salário e Trabalho alienado e
propriedade privada. No texto Salário, Marx explora e explicita uma série de contradições às quais somos
encaminhados se adotarmos o ponto de vista da própria economia política (Cf. MARX, 1968, pp. 475-476/28-
30). Como também, 2. no texto Trabalho alienado e propriedade privada. Segundo Marx, “[...] ela [a economia
política] supõe o que deveria desenvolver” (MARX, 1968, p. 510/79), ainda, “A economia política parte do fato
dado e acabado da propriedade privada” (MARX, 1968, p. 510/79), como que se a partir desta postulação ela
procedesse a uma série de deduções, sem investigar o conceito mesmo do qual ela parte. Marx, na sua análise,
diz partir de um fato econômico dado (Cf. MARX, 1968, p. 511/80), para, a partir deste fato mesmo, apontar
para suas inconsistências e contradições.
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5. PLANO DE TRABALHO E CRONOGRAMA DE SUA EXECUÇÃO13


Terceiro Quadrimestre de 2017 (em andamento): Pesquisa bibliográfica. Leitura estrutural dos
Manuscritos econômico-filosóficos, leitura de textos pontuais de Hegel e Feuerbach com o
objetivo de compreender a inserção de Marx no debate em torno do conceito de conceito de
ser genérico. Participação nas atividades obrigatórias do Programa de Pós-Graduação da
UFABC, bem como de grupos de pesquisas sugeridos pelo orientador.
Primeiro Quadrimestre de 2018: Pesquisa bibliográfica. Escrita da dissertação: sistematização
das leituras sobre o conceito de ser genérico tendo como foco a contextualização do debate no
qual Marx se insere. Leitura estrutural dos Manuscritos econômico-filosóficos e outros textos
pontuais de Marx com o objetivo de analisar o conceito de ser genérico e sua relação com os
conceitos de trabalho e alienação. Participação nas atividades obrigatórias do Programa de
Pós-Graduação da UFABC, bem como de grupos de pesquisas sugeridos pelo orientador.
Segundo Quadrimestre de 2018: Leitura de alguns intérpretes dos Manuscritos econômico-
filosóficos – especialmente, Louis Althusser, José Arthur Giannotti e Ruy Fausto – com
objetivo de verificar como estes compreendem a natureza do conceito de ser genérico no
interior desta obra de Marx. Escrita da dissertação: análise do conceito de ser genérico nos
Manuscritos econômico-filosóficos. Participação nas atividades obrigatórias do Programa de
Pós-Graduação da UFABC, bem como de grupos de pesquisas sugeridos pelo orientador.
Preparação do material para o exame de qualificação.
Terceiro Quadrimestre de 2018: Exame de qualificação. Incorporação da bibliografia sugerida
na qualificação. Leitura e sistematização desta bibliografia. Escrita da dissertação:
levantamento das diferentes posições dos autores sobre conceito de ser genérico nos
Manuscritos econômico-filosóficos. Participação em grupos de pesquisas sugeridos pelo
orientador.
Primeiro Quadrimestre de 2019: Leitura e sistematização da bibliografia incorporada na
qualificação. Correções decorrentes das orientações da qualificação da dissertação.
Segundo Quadrimestre de 2019: Escrita da dissertação: implicações do conceito de ser
genérico como fundamento da crítica para se pensar uma crítica dialética nos Manuscritos
econômico-filosóficos. Participação em grupos de pesquisas sugeridos pelo orientador.
Revisão da dissertação.

13
Lembremos que o projeto será desenvolvido no programa de pós-graduação em Filosofia na UFABC.
Consideramos aqui o calendário acadêmico da instituição, regido por períodos quadrimestrais.
16

Terceiro Quadrimestre de 2019: Defesa da dissertação.

6. MATERIAL E MÉTODOS
Dada a natureza teórica desta pesquisa, os procedimentos metodológicos empregados também
serão teórico-conceituais. Tais procedimentos consistirão na leitura estrutural da bibliografia
primária e secundária, bem como a participação de seminários e produção de artigos.

7. FORMA DE ANÁLISE DOS RESULTADOS


Os resultados da pesquisa serão materializados na produção e discussão de textos sobre o
assunto; nas reuniões com o orientador; na participação em grupos de estudos e eventos
organizados pelo Programa de Pós-Graduação da UFABC e de demais Universidades.

8. REFERÊNCIAS
Fontes primárias
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______. Crítica da filosofia do direito de Hegel. São Paulo: Boitempo, 2010a.


______. Sobre a questão judaica. São Paulo: Boitempo, 2010b.
______. “Excertos do livro de James Mill „Éléments d‟économie politique‟”. In: Cadernos de
Filosofia Alemã: Crítica e Modernidade. v. 21, n.01, 2016.
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______. Werke. Band. 3. Berlin: Dietz Verlag, 1978.
______. Werke. Band. 27. Berlin: Dietz Verlag, 1963.
______. Werke. Band. 40. Berlin: Dietz Verlag, 1968.
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______. Ciencia de la lógica. Buenos Aires: Solar Hachette, 1968.
______. Enciclopédia das ciências filosóficas em compêndio - vol. I. São Paulo: Loyola,
17

1995.

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e história: de Maquiavel a Marx, p. 154-186. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2007.
______. Posições-1. Rio de Janeiro: Graal, 1978.
______. Por Marx. Campinas: Unicamp, 2005.
______. “A Querela do Humanismo I”. Revista Crítica Marxista nº 9. São Paulo: Xamã,
1999.
______. “A Querela do Humanismo II”. Revista Crítica Marxista nº14. São Paulo: Xamã,
2002.

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______. Um departamento francês ultramar. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1994.
BALIBAR, E. A filosofia de Marx. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1995.
CHITTY, A. “Species-being and Capital”. In: CHITTY, A. & IVOR, M. Marxism and
Contemporary Philosophy. Londres: Palgrave, 2009. pp. 123-142
ENGELS, F. Do socialismo utópico ao socialismo científico. São Paulo: Fulgor, 1962.
FAUSTO, R. “Sobre o jovem Marx”. In: Discurso, São Paulo, v. 1, n. 13, pp. 7-52, 1980.
______. Marx: lógica e política – Tomo I. São Paulo: Brasiliense, 1987a.
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