Você está na página 1de 33

O sertão do Ceará e o lugar do impulso criatório: trilhas, fazendas e

vilas.

Zilda Maria Menezes Lima1

Georgina da Silva Gadelha2

Lugar sertão se divulga: é onde os pastos carecem de fechos;


onde um pode tirar dez, quinze léguas, sem topar com casa de
morador...

(Guimarães Rosa, Grande Sertão Veredas, p. 9).

OBJETIVOS

Objetivamos neste capítulo, proceder a uma apresentação do processo de


ocupação dos sertões cearenses a partir das fazendas de gado e constituição das primeiras
vilas, no sentido de um entendimento da conformação social e econômica resultante do
longo e violento caminho percorrido pelos conquistadores para ocupar o espaço, hoje
denominado genericamente, sertão do Ceará.

Interessa-nos possibilitar um olhar acerca da ocupação dos sertões do Ceará a


partir de uma bibliografia especializada no tema. Neste exercício, procuramos apresentar
ao leitor, autores de matizes teóricas e metodológicas variadas, com o intento de promover
uma compreensão acerca dos vários modos de “se fazer” História: seus objetos, suas
abordagens e seus aportes teóricos e metodológicos.

1
Professora do Curso de Graduação em História (UECE-Fortaleza) e do Mestrado Acadêmico em História
(MAHIS); Doutora em História Social (Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ); Pós-Doutora pela
Indiana University (USA).
2
Doutora em História das Ciências e da Saúde (Casa de Oswaldo Cruz – FIOCRUZ); Bolsista do Programa
Nacional de Pós-Doutoramento ( PNPD –MAHIS\ UECE) sob supervisão da Prof. Dra. Zilda Maria
Menezes Lima.
2

Pretendemos relacionar a ocupação dos sertões cearenses com a necessidade, da


Coroa Portuguesa, em dominar o mais amplamente possível o território conquistado,
com o intuito de explorar as possibilidades que este território “pouco conhecido” podia
oferecer.

INTRODUÇÃO

O que se pretendemos neste capítulo é estabelecer alguns níveis de compreensão


acerca do processo de ocupação da capitania do Ceará, a partir da instalação das fazendas
de criar e as vilas que lhes foram subsequentes. Em linhas gerais, percebemos que tal
processo, possibilitou um maior adensamento dos sertões cearenses, porém deixou rastros
de profunda violência nos modos como as terras foram ocupadas pelos conquistadores.
Os povos nativos defenderam-se como foi possível3 dos conquistadores que desejavam
“limpar” a terra para que o gado pudesse pastar livremente.

AS TRILHAS DE SOL E POEIRA

Do Rio da Cruz, que é o actual Camocim, ao Cabo de todos os


Santos, a leste do Maranhão, iam as 75 legoas concedidas a
Fernando Alvares de Andrade. Donde se conclue que o actual
occupa terras de três capitanias.

(Geografia do Ceará, Barão de Studart, p. 15).

3
A resistência dos povos nativos na Capitania do Ceará estendeu-se, grosso modo, de 1679, data de doação
das primeiras cartas de sesmarias até por volta de 1713, quando uma confederação de povos indígenas,
partindo da ribeira do Jaguaribe, invadiu a Vila de Aquiraz, a capital da capitania, fazendo muitos mortos
e destruindo fazendas de gado. (PINHEIRO, Francisco José. Os Povos Nativos do Cearâ: uma síntese
possível. In CHAVES, Gilmar (org). Ceará de Corpo e Alma: um olhar contemporâneo de 53 autores sobre
a terra da luz. Fortaleza: Relume Dumará, 2002, pgs 21-25)
3

No capítulo anterior foi possível perceber, que embora pouco visíveis na


historiografia oficial as práticas de resistência à ocupação do espaço colonial,
ocorreram, e não foi fácil retirar da população que aqui já vivia, o seu território, suas
crenças e seus costumes como ilustrado anteriormente.

É bastante destacada na historiografia cearense “a ausência de empenho” e/ou o


“desinteresse” do governo português pelas terras da capitania do Ceará durante todo o
século XVI. São várias as razões apontadas para essa falta de interesse que variam desde
a ausência do pau brasil (o produto nobre da primeira investida comercial na colônia),
passando pelos obstáculos climáticos à resistência dos indígenas locais face às tentativas
ocupação das terras o Siará Grande. Valdelice Carneiro Girão4 enfatiza que os tão
propalados obstáculos foram vencidos pelo desejo de procurar metais preciosos, adquirir
novas terras e escravizar índios.

Deste modo, como afirma Francisco Pinheiro5, não podemos deixar de


compreender que os registros de doação e posse dessas terras, são resultantes de um
violento processo de expropriação das terras indígenas, através do qual, a pecuária pôde,
finalmente, avançar para o interior da capitania cearense, especialmente para uma das
mais importante áreas de ocupação naquele momento: a ribeira do rio Jaguaribe.

A capitania do Ceará compartilhou, assim, com outras capitanias da região, o


povoamento assentado na pecuária. Porém, esta capitania imprimiu um traço
característico na atividade pastoril que desenvolveu: a criação das chamadas oficinas ou
charqueadas, nas quais a carne era salgada de forma a poder conservar-se durante o
longo percurso.

Segundo Teixeira da Silva, citado por Almir Leal de Oliveira6, o principal fator
da introdução das charqueadas foi a concorrência que as boiadas do Piauí e Ceará tinham
com áreas mais próximas do Recife, como as dos sertões do São Francisco. Segundo
aquele “por volta de 1740, todo o sistema de comercialização sofreria uma mudança

4
GIRÃO, Valdelice Carneiro. As Oficinas ou Charqueadas no Ceará. Fortaleza: Secretaria de Cultura e
Desporto, 1995.
*Fazemos referência à pesquisa que a historiadora citada desenvolveu acerca da importância da atividade
criatória para a ocupação das terras da capitania do Ceará. Tal pesquisa resultou na sua dissertação de
mestrado e em capítulos de livros e artigos publicados na revista do Instituto do Ceará: Histórico,
Geográfico e Antropológico.
5
PINHEIRO, Francisco José. O Vale do Jaguaribe: de um espaço livre dos povos indígenas para uma região
da Pecuária. Proposta: Fortaleza, vol 6, n.6, 1999.
6
OLIVEIRA, Almir Leal de. As Carnes Secas do Ceará e o Mercado Atlântico no século XVIII. Temas
Setecentistas. Humanas, Curitiba: UFPR, sd.
4

radical [...] havia uma mercadoria a ser transposta até os centros consumidores de Recife,
Olinda e Salvador”7.

Os interpretes da História do Ceará são unânimes quando reconhecem que a


formação histórica do estado está intimamente ligada à instalação das fazendas para a
criação de gado, que resultou na conquista dos espaços denominados em linhas gerais de
sertão. As tão comentadas correntes exploratórias nomeadas por Capistrano de Abreu8
como corrente do sertão de dentro e corrente do sertão de fora, ilustram os dois
movimentos e/ou duas trilhas por onde os rebanhos tocados por vaqueiros descortinavam
o interior do que hoje nomeamos Nordeste do Brasil. Vejamos esses caminhos9:

7
TAKEYA, Denise Monteiro. Europa, França, Ceará: origens do capital estrangeiro no Brasil. São Paulo,
Natal: Hucitec-UFRN, 1995. p. 102.
8
ABREU, Capistrano. Capítulos da História Colonial (1500-1800). Editora Belo Horizonte: Itatiaia; São
Paulo: Publifolha, 2000.
9
http://revistas.com.br/reads/arquitextos. Acesso em 25.10.2017.
5

Como podemos observar, para o Ceará, confluem duas trilhas: a da Bahia que
penetra no território através do Piauí e a de Pernambuco, que genericamente, circunda o
litoral e adentra o Ceará vinda do Rio Grande do Norte. A corrente advinda da Bahia,
teria transposto a serra da Ibiapaba e se estabelecido na bacia do alto Poti (onde hoje situa-
se Crateús). Já a corrente pernambucana teria alcançado as nascentes do Jaguaribe, e
ampliando-se em direção ao Acaráu (norte da capitania).

A imensa área disputada entre colonizadores e grupos indígenas, cravada no sertão


– a caatinga, era pouco indicada à produção agrícola. Neste sentido, seria uma área que
poderia ser utilizada para uma atividade que exigia grandes espaços e pequena mão de
obra. Desse modo, a capitania do Ceará foi evidenciando-se no cenário colonial, a partir
da criação das fazendas de gado que foram se multiplicando pelos vastos sertões,
principalmente, ao longo dos caminhos dos rios Jaguaribe e Acaraú, favorecendo, por um
lado, o povoamento desse espaço, mas por outro expropriando vários grupos indígenas
das suas terras.

Assim, os rios Jaguaribe e Acaraú foram os dois primeiros pontos essenciais da


ocupação com base na pecuária na capitania do Ceará e ao mesmo tempo, essa ocupação
possibilitou a abertura de trilhas por onde se desenvolveu a marcha do assentamento do
interior da capitania, depois escoadouro das manadas de corte para os mercados
consumidores.

A criação do gado já era conhecida na capitania em período anterior à ocupação


interiorana. Segundo nossa historiografia oficial, Martin Soares Moreno, em 1621,
informava ao Rei de Portugal de “umas vacas que trouxe se dão naturalmente cavalgadura
e gados miúdos”. Assim, para este, o gado aqui encontrado pelos flamencos foi
proveniente do pequeno rebanho trazido das capitanias vizinhas por Moreno. Porém,
importante se faz destacar que é improvável que a ocupação do sertão assentada na
pecuária, tenha ocorrido com base nesse primeiro criatório. Girão assegura que

A ocupação pecuária cearense se deu, não há dúvida, com o gado trazido das
capitanias vizinhas, principalmente Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte,
por colonizadores que requerendo as primeiras sesmarias interioranas, vieram
ocupar de início, o vale do Jaguaribe10.

10
GIRÃO, Valdelice Carneiro. As Oficinas ou Charqueadas no Ceará. Fortaleza: Secretaria de Cultura e
Desporto, 1995.
6

Segundo Luciana Meire Gomes Regis11, em se tratando das ribeiras do Jaguaribe,


aqueles que foram constituindo suas fazendas próximas às suas margens, puderam,
desfrutar de águas e pastos, fatores determinantes para a atividade criatória. Do mesmo
modo, os núcleos familiares que foram se estabelecendo próximos às margens do Rio
Coreaú. Assim, no processo de ocupação dos vastos sertões, os cursos d’agua, sobretudo
os rios, foram elementos fundamentais para o desenvolvimento dessa atividade bem como
para prover a integração dos homens e mulheres àquele espaço.

No primeiro momento desta atividade, o gado era levado, margeando os rios até
as principais vilas baianas e pernambucanas, onde era comercializado nas feiras a baixo
preço, em virtude das grandes distâncias percorridas e das dificuldades encontradas na
longa travessia.

O gado, evidentemente, chegava às feiras com peso muito baixo, tendo assim na
negociação, seu preço muito reduzido. Em virtude da baixa margem de lucro e do
exaustivo deslocamento, passou-se a abater o gado na própria fazenda, fazendo uso da
técnica de salgar e secar a carne. Após todo o processo, era vendida para outras
localidades, suprindo a necessidade de abastecimento de carne, das regiões destinadas ao
cultivo da cana de açúcar12. Assim, encerramos este tópico com as seguintes questões
para reflexão:

1. Se as terras que hoje entendemos como o território cearense, não eram


lucrativas, então por que ocupá-las?
2. Que esforços foram necessários para empreender tal ocupação?

11
REGIS, Luciana Meire Gomes. Esquadrinhando a Vila de Limoeiro nos Inventários Post-Morten ( 1875-
1880). In CHAVES, José Olivenor (org). Vale do Jaguaribe: Janelas para o passado. Fortaleza: EDUECE,
2014.
12
PINHEIRO, Francisco José. Mundos em Confronto: povos nativos e europeus na disputa pelo território.
In SOUZA, Simone (org) Uma Nova História do Ceará. Fortaleza: Edições Demócrito Rocha, 2004.
7

AS FAZENDAS DE CRIAR E SUA DINÂMICA

Sertão é onde manda quem é forte, com astúcias.


Deus mesmo, quando vier, que venha armado!
(Guimarães Rosa, Grande Sertão Veredas, p.19)

Das 2472 datas solicitadas por interessados em adquirir terras na capitania do


Siará Grande entre 1679 e 1824, 90,85% tinham como justificativa a necessidade de terra
para a pecuária13. A partir dessa informação pode se inferir que a ocupação e fixação não
autóctone da capitania do Ceará, encontraram no sistema de sesmarias todo o apoio
necessário para o empreendimento dos primeiros passos rumo à expansão criatória. Os
primeiros sesmeiros ocuparam funções de mando, desempenhando atividades militares e
cumprindo funções de ordenança pequenas povoações então distantes do braço colonial.

Na primeira metade do século XVIII, a fazenda de gado foi a sede das sesmarias,
da unidade familiar, da atividade produtiva e também onde se encontraram as condições
propícias para os primeiros sinais de acumulação de renda no sertão. Assim, para Clóvis
Ramiro Jucá Neto14, a fazenda foi sede da vida política local, de toda autarquia sertaneja
e suas famílias, com poderes quase absolutos, e da rede de mandos e desmandos que
pautou a organização territorial. Cumpriu ainda o papel de defesa diante da população
indígena ou perante outros sesmeiros na luta pela posse das terras

A violência foi o elemento mais comum no avanço da ocupação dos sertões para
que fossem consolidados os caminhos das boiadas e as instalações das fazendas de gado.
A hostilidade atribuída aos indígenas mascara os métodos adotados pelos colonizadores
no sentido de garantir a posse do território.

13
NETO, Clóvis Romero Jucá. Os primórdios da organização do espaço territorial e da vila cearense –
algumas notas. In Anais do Museu Paulista: História e Cultura Material. Vol. 20, n.1. São Paulo. Jan-Jun,
2012.
14
NETO, Clóvis Romero Jucá. Os primórdios da organização do espaço territorial e da vila cearense –
algumas notas. In Anais do Museu Paulista: História e Cultura Material. Vol. 20, n.1. São Paulo. Jan-Jun,
2012.
8

Para tornar a conquista mais eficaz, era fundamental do ponto de vista da


administração colonial e dos colonos, restringir as terras que haviam sido doadas pela
Coroa em virtude da Ordem Régia de 1700. Em 1717, as terras da aldeia dos Anacés
foram doadas pelo capitão-mor governador e destino idêntico tiveram os Jaguaribaras que
lhes foram tiradas no mesmo ano15. Para Girão

O desdobramento das fazendas por compra ou aquisição de novas


sesmarias, e, consequentemente, o aumento do rebanho a partir da primeira
década do século XVIII, deveu-se ao apoio oficial dado aos colonos, no
combate oficial aos donos naturais da terra; fornecendo armas para sua
defesa pessoal e organizando expedições contra os silvícolas16.

As primeiras fazendas e a ocupação do sertão pela pecuária foram possíveis com


o gado trazido das capitanias de Pernambuco, Paraíba e Rio grande do Norte, por
exploradores que requereram sesmarias interioranas e ocuparam inicialmente o Vale do
Jaguaribe. Assim, os rios Jaguaribe e Acaraú foram os dois primeiros pontos vitais da
ocupação dos espaços sertanejos na capitania do Ceará, como já foi dito, mas também e
ao mesmo tempo serviram de estrada por onde seguiam os indivíduos e as boiadas.
Segundo Antônio Bezerra17, nos primeiros anos do século XVIII, o rio Jaguaribe “estava
conhecido e mais ou menos povoado com alguns sítios ou fazendas que ocupavam
grandes extensões de terras”.

15
PINHEIRO, Francisco José. Mundos em Confronto: povos nativos e europeus na disputa do território. In
SOUZA, Simone. Uma Nova História do Ceará. Fortaleza: Edições Demócrito Rocha, 2000.
16
GIRÂO, Valdelice Carneiro. Da Conquista à Implantação dos primeiros núcleos urbanos na Capitania
do Siará Grande. In SOUZA, Simone. História do Ceará. Fortaleza: Edições Demócrito Rocha, 1994.
17
BEZERRA, Antônio. Algumas Origens do Ceará. Fortaleza: Tipografia Minerva, 1918, p 62.
9

A imagem acima18, talvez, aproxime-se de uma casa de fazenda, no estilo das


casas fazendeiras do sertão do Ceará. Não devemos imaginar que as propriedades dos
donos de boiadas se equiparassem às propriedades dos senhores de engenho. As casas
eram grandes, fortificadas, mas nada havia que lembrasse luxo ou opulência. Muitos
donos de fazendas, inclusive, eram donos de engenhos e pouco visitavam suas
propriedades criatórias, deixando sua administração com o vaqueiro. Porém, uma fazenda
para ser considerada próspera, poderia aproximar-se do seguinte rebanho:

1435 vacas paridas, 190 novilhotas, 277 garrotas, 308 bezerras, 46 bois de
carro, 20 bois de lote, 20 novilhos pais, 148 boiotes, 31 novilhotes, 490
garrotes, 300 bezerros. 276 Bestas solteiras, 63 poldrinhas, 113 cavalos
capados, 50 cavalos pais de bestas, 6 cavalos de sela. 20 ovelhas, 40
cabras19.

18
http://revistas.com.br/reads/arquitextos. Acesso em 25.10.2017.
19
PAIVA, Manoel de Oliveira. Dona Guidinha do Poço. São Paulo: Ática, 1981. p12. Neste romance do
escritor cearense Oliveira Paiva, o cenário da trama consiste numa grande fazenda fictícia denominada Poço
da Moita. O pesquisador Ismael Pordeus, no entanto, observou inúmeras coincidências entre a ficção
imaginada por Paiva e uma trágica história ocorrida numa fazenda, próxima a cidade de Quixeramobim.
10

Segundo os estudiosos do sistema de pecuária e seus desdobramentos no Ceará, a


unidade econômica e social era a fazenda. De modo geral, cada fazenda podia abrigar
uma família e seus agregados – estes, unidos por laços de parentesco e compadrio ao dono
da fazenda, vejamos

[...] cada fazenda caracterizava-se pelo extremo patriarcalismo peculiar às


coletividades pastoris. Laços de parentesco unem todos ao Senhor. Havia
os parentes sanguíneos (legítimos e ilegítimos) e o restante, em número
maior, por parentesco canônicos ou convencionais. Nestes últimos,
encontravam-se moradores e agregados. São as relações de regime de
compadrio, dos domínios rurais20.

Em muitos casos, o proprietário podia não residir na fazenda e ter uma espécie de
empregado um pouco mais qualificado, para administrar suas terras e rebanhos. Porém,
quando residia

Dirigia os trabalhos cercado dos parentes [...] acrescidos pelos índios


mansos, que, constituindo depois a sua prole, ali ficavam como pessoas de
casa [...] podiam ainda encostar-se ainda forasteiros, no mais das vezes
fugitivos da justiça ou da ação vingativa de parentes e suas vítimas21.

Para Otaviano Vieira Jr22, tal estrutura familiar e domiciliar - composta por graus
tão diversos de parentesco, se coadunava com o seminomadismo observado na sociedade
do sertão cearense, em que predominavam as dificuldades de sobrevivência, expressa
mesmo na precariedade de alimentos e que faziam da coabitação entre parentes uma
poderosa estratégia de sobrevivência. Porém, destaca o autor citado, que a família não era
sempre um grupo coeso. Esta, através da violência poderia consolidar ou tornar frágil sua
unidade, de acordo com o cumprimento ou não de determinados códigos de convivência.

A grande maioria dos estudos acerca do Ceará colonial destaca as relações


patriarcais desenvolvidas nos sertões distantes. Porém, estudos mais recentes, apontam a
presença de mulheres como Donas de terras, rebanhos e Cabeça de Casal no âmbito do

Citamos o mencionado romance, porque defendemos que a literatura pode ser tratada como fonte pelo
historiador, desde que não tomemos seu discurso como verdadeiro e sim como verossímil.
20
NOBRE, Geraldo da Silva. As Oficinas de Carne do Ceará. Solução Local para uma pecuária em crise.
Fortaleza: Gráfica Editorial Cearense, 1979, p 16.
21
Idem
22
VIEIRA JR. Antonio Otaviano. Entre Paredes e Bacamartes: História da Família no Sertão (1780-1850).
Fortaleza: Edições Demócrito Rocha/Hucitec, 2004.
11

espaço colonial cearense. Ana Cecília Farias de Alencar, analisou cerca de 30 inventários
entre os anos de 1748 a 1791 que atestam a existência de mulheres proprietárias e
administradoras de seus bens23.

Segundo a autora citada, tal prática foi possível porque na América Portuguesa,
ocorreu uma adaptação do processo de sucessão das terras e outros bens aos herdeiros,
quando comparado ao mesmo processo em Portugal, conforme se pode observar

As Cartas de Doação das capitanias hereditárias, apesar de se


enquadrarem juridicamente no âmbito das ordenações
manuelinas (1521 a 1603), sofreram adaptações em sua aplicação
na Colônia: o direito a sucessão às terras e demais bens doados
pela Coroa sofriam em Portugal, restrições impostas pela Lei
Mental de 1434, que determinava a possibilidade de herança
desses bens somente pelo filho varão legítimo mais velho; aqui,
ao contrário, tais cartas permitiam sucessão não só pela linha
feminina como até de filhos não legítimos24.

Desse modo, as mulheres poderiam herdar terras e bens na morte de seus esposos,
desde que reivindicassem a posse dos mesmos em seu nome. Em vários processos
analisados por Alencar, foram também encontradas, variadas solicitações de registros de
sesmarias partindo de mulheres bem como vários inventários e testamentos em que
aparecem como detentoras de bens variados25. Assim, para os padrões econômicos da
época, tais mulheres eram consideradas ricas e poderosas.

Uma forma de perceber como os utensílios e equipamentos sociais estão


vinculados à condição econômica dos indivíduos é analisar os inventários e testamentos.
Estes documentos possibilitam ao pesquisador um olhar acerca dos bens materiais que
um indivíduo acumulou. Porém, é importante entender que não necessariamente, todo o
patrimônio que um sujeito amealhou teria que obrigatoriamente estar inventariado e
registrado.

23
ALENCAR, Ana Cecília farias de. Declaro que sou cabeça de casal, dona e viúva: arquétipos femininos
no Ceará Colonial. Dissertação de Mestrado – Mestrado Acadêmico em História – UECE, 2014.
24
SALGADO, Graça. Fiscais e Meirinhos: administração no Brasil Colonial. Rio de Janeiro: Nova
Fronteira, 1985.
25
Solicitação de Datas de Sesmarias de Teresa Freire de Carvalho, Francisca Ferrreira Dinis, Catarina
Ribeiro de Moraes, Joana Theodósia de Jesus e os Inventários de Ignácia Ribeira de Freitas e Ana Lopes
Cabreira são analisadas pormenorizadamente por Ana Cecilia Farias de Alencar na dissertação já citada.
12

Assim, um fazendeiro poderia ser mais rico do que o patrimônio declarado.


Manoel de Oliveira Paiva26, na sua obra Dona Guidinha do Poço27 nos apresenta um
modelo de inventário de bens, vejamos:

OURO

Moedas de ouro de 20$ e 40$


Pares de fivela de ouro cortado - 40 oitavas
Grande crucifixo com cruz de caixão -14 oitavas
Par de brincos com aro de gancho – 5 oitavas
Duas varas e meia de cordão grosso – 14 oitavas

PRATA
Jarros d’agua de mãos - 224 oitavas
Bacia – 312 oitavas
Leiteira – 112 oitavas
Tigela de lavar – 80 oitavas
Cafeteira – 288 oitavas

COBRE
Tacho
Bacias de cozer
Bacia de barba
Um sino

BENS MÒVEIS
23 escravos
Cinco prédios na Vila
As terras de seis fazendas
Rebanho de mais de duas mil cabeças de gado28

26
PAIVA, Manoel de Oliveira. Dona Guidinha do Poço. São Paulo, Ática, 1981, p 12.
27
Um romance, uma obra literária, pode ser usada como fonte histórica? Sim. Desde que lhe seja aplicada
os procedimentos teóricos e metodológicos usados em qualquer outra fonte, salvas as suas peculiaridades.
28
Idem.
13

Porém, é importante entender que não necessariamente, todo o patrimônio que


um homem ou mulher amealhou, teria que obrigatoriamente estar inventariado e
registrado. Assim, um (a) proprietário (a) de terras e gado poderia ser mais rico (a) do
que o patrimônio declarado. As fontes cartoriais, a exemplo de outras, não podem ser
tomadas como fontes infalíveis e vistas como a expressão de uma verdade incontestável.
É necessário também esclarecer que os bens acima mencionados, sofriam todo um detalhamento,
a partir do seu valor individual.

Se tais mulheres portarem esse protagonismo, não significa que a


sociedade sertaneja não fosse essencialmente patriarcal, porém, sugere que havia
exceções à regra. Embora saibamos que toda a família permanecia sob o poder pátrio, as
dificuldades de toda ordem enfrentadas por aqueles que se aventuravam pelos áridos
sertões, talvez, possibilitasse vários arranjos familiares. Assim, vamos problematizar as
questões fundantes deste tópico.

1. Por que afirmamos que a violência foi um dos traços mais marcantes da
ocupação dos sertões cearenses?
2. Como entender a formação da família patriarcal e suas estratégias de poder
nesse contexto?

AS OFICINAS, FEITORIAS OU CHARQUEADAS


14

Os fazendeiros da área litorânea, já a partir da primeira metade do século


XVIII, reconheciam que não havia como competir com os rebanhos das fazendas dos
sertões. Desse modo, passaram a exportar seu gado abatido transformado em carne seca
salgada bem como também vendiam o couro dos animais. Surgiram assim, no Ceará, as
oficinas de beneficiar carne: as chamadas charqueadas ou feitorias instaladas nos
estuários dos rios Jaguaribe e Acaraú, estendendo-se depois ao rio Paranaíba no Piauí e
ao rio Açú em Mossoró, Rio Grande do Norte 29.

Afirma Valdelice Girão, que o Ceará parecia possuir as condições


necessárias para o estabelecimento de uma empresa desta natureza: ventos constantes,
baixa umidade, existência de sal, possibilidades de utilização da navegação de
cabotagem. Nesse sentido, as povoações de Aracati, Granja, Camocim e Acaraú
portavam as condições exigidas para a empreitada30.

As salgadeiras, também chamadas de fábricas ou charqueadas,


expandiram-se rapidamente na vila de Santa Cruz do Aracati. Aí, reuniam-se as condições
ideais para a indústria: o sal abundante, a ligação direta com o Interior através do rio
Jaguaribe, a situação portuária daquele núcleo populacional. Assim, segundo Raimundo
Girão, a comercialização da carne da região jaguaribana através das charqueadas [...]
datam de época anterior a 1740 e surgiram, primeiramente, no pequeno arraial de São
José do Porto dos Barcos, depois elevada a categoria de Vila com o nome de Santa Cruz
do Aracati, hoje cidade do Aracati. O autor assim descreve o espaço e o processo da
fabricação das carnes

[...] as oficinas eram construções toscas, apressadas, galpões


cobertos de palha, várias para estender a carne desdobrada e
salgada e alguns fechos de ferro para a extração de parte da gordura
dos ossos por meio de fervura em água. O sal do reino só se
empregava para encharque – salga da carne. [...] de forma muito
rudimentar, um tipo de carne não prensada, moderadamente
salgada e desidratada ao sol e ao vento pelo tempo necessário à sua

29
GIRÃO, Valdelice. As Charqueadas. In SOUZA, Simone (org). História do Ceará. Fortaleza: Fundação
Demócrito Rocha.
30
Op cit. p 65
15

conservação. Posteriormente, aperfeiçoada a sua técnica veio a ser


chamada de carne-do-sol 31.

A courama era estaqueada, seca ao sol; o sebo, simplesmente lavado posto ao


tempo em varais e depois secado, em forma de madeiras cúbicas, produzindo pães de peso
variável. A ossamenta era amontoada e queimada e esta cinza atirada para aterros, ou
servia, empilhada, para fazer mangueiras e cercas [...] 32.

Tal técnica, apesar de rudimentar, obteve resultados muito positivos e as oficinas


de charque multiplicaram-se gradativamente. As oficinas ou charqueadas foram
distribuindo-se próximas às margens dos rios Jaguaribe e Acaráu, e gradativamente,
possibilitaram o desenvolvimento inicial das vilas de Aracati, Icó, Limoeiro, Sobral entre
outras. Vale a pena destacar que o couro também passou a ser beneficiado e
comercializado33.

A força periférica do charque e as suas relações mercantis na economia


colonial e posteriormente do Império, constituídas ao longo da primeira metade do século
XVIII, com a expansão das atividades ligadas à pecuária na ocupação dos sertões e
ribeiras, da capitania anexa do Siará grande, estão claramente evidenciadas em 1757,
quando os homens de negócio do Recife pediram autorização à Coroa para constituírem
uma Companhia Geral de Comércio de Carnes Secas e Couros do Sertão, para
comercializar de modo mais sistemático e distribuir os dois produtos em Pernambuco,

31
GIRÂO, Raimundo. História Econômica do Ceará. Fortaleza: UFC, 1984.
32
GIRÂO, Raimundo. História Econômica do Ceará. Fortaleza: UFC, 1984.
33
LEMENHE, Maria Auxiliadora. As razões de uma cidade.
16

Bahia e Rio de Janeiro. O não atendimento àqueles negociantes não significou uma
diminuição do interesse nos produtos pastoris34. Interessante informar que nesse
momento, esse tipo de carne chegava aos mercados consumidores por via marítima,
levadas em sumacas.

Desse modo, fica claro que a comercialização da carne de charque da região


cresceu consideravelmente. Assim, a Vila do Aracati exteriorizava o sucesso econômico
na sua arquitetura, nos seus sobrados, na aquisição por parte dos prósperos negociantes
de mercadorias importadas. O contato com comerciantes de outras vilas e a prosperidade
observada inclusive no modo de trajar e no comportamento social dos seus habitantes
dotou Aracati do título de “vila mais progressista da capitania”.

Outras feitorias logo se desenvolveram no médio e baixo Acaráu, situadas nos


locais de embarque do antigo povoado da Barra do Acaraú, núcleo inicial da cidade com
o mesmo nome e estendendo-se às povoações de Granja, Camocim e Sobral. E assim,
para o porto do Acaraú, rumavam as boiadas, os carros de bois com carnes, couro e sola
dali transportados nas sumacas, principalmente para Pernambuco.

Os barcos que levavam os produtos pastoris voltavam trazendo as


grandes novidades em pratarias, porcelanas, cristais, móveis de
jacarandá [...] e uma boa quantidade de materiais de construção, o
que contribuiu para o aformoseamento da Vila de Sobral35.

Segundo Nicodemus Araújo, a indústria das charqueadas na ribeira do Acaraú teve


início por volta de 174536. Os donos das oficinas ás margens do Acaráu, ribeira rica do
gado, abundância de sal e navegação fácil, logo adotaram o processo rudimentar das
Feitorias do Jaguaribe, multiplicando suas fábricas, base de uma ocupação mais densa da
região norte da capitania, em que a vila de Sobral vai se constituir e se destacar a
posteriori.

Ao que parece, as informações colhidas sobre as feitorias e sua produção nas


povoações de Granja e Camocim, são bem restritas, embora Studart37 afirme que a vila

34
SALGADO, Graça. Fiscais e Meirinhos: administração no Brasil Colonial. Rio de Janeiro: Nova
Fronteira, 1985.
35
GIRÂO, Valdelice Carneiro. As Oficinas ou Charqueadas no Ceará Fortaleza: Secretaria de Cultura e
Desporto, 1995.
36
ARAÚJO, Nicodemus. Almofala e os Tremembés. Fortaleza: Imprensa Oficial, 1981.
37
BRAGA, Renato. Um Capítulo esquecido da economia pastoril do Nordeste. Revista do Instituto do
Ceará. Vol 61. Janeiro-Dezembro de 1947, p 149-160.
17

de Granja, que domina a foz do rio Camossi, tem sim, hum grande comércio e carne [...]
que atrai pelo seu comodo muitas embarcações das capitanias vizinhas. Porém, para
Valdelice Girão, Granja possuía modesta importância nesse contexto. Vamos agora às
reflexões

1. Por que a fazenda de gado e atividade criatória foram escolhidas para promover a
“real” ocupação do território cearense?
2. Por que o texto sugere que muitas vezes as relações sociais ali desenvolvidas foram
pautadas na violência?

TRABALHADORES DAS FAZENDAS DE CRIAR

Eu nasci pra ser vaqueiro [...] eu num invejo


dinheiro, nem diploma de doutor.

(Sina – Raimundo Fagner)

No mundo pastoril, ao que indica a historiografia cearense, a mão de obra escrava


negra, aparece em quantidade reduzida, sendo utilizada apenas para o trabalho doméstico.
A capitania do Ceará não se caracterizou como um mercado de aquisição de escravos,
sobretudo no que se refere às importações diretas do continente africano. Alguns
pesquisadores afirmam que a mão de obra negra adquirida nesta capitania era oriunda de
Pernambuco e Maranhão em razão dos altos custos38, porém, esta força de trabalho foi
localizada, durante o Império, principalmente, nas áreas em que se praticou a agricultura
canavieira.

38
FUNES, Euripedes. Os Negros no Ceará. In SOUSA, Simone. Uma Nova História do Ceará.
Fortaleza:Fundação Demócrito Rocha, 2000.
18

Consoante Lindemberg Barbosa39, a ideia do cativo ausente na capitania do Ceará


tem origem, sobretudo, na pequena quantidade de escravos se comparados a outras
capitanias. Ainda assim, é possível admitir um pequeno número de escravos nas fazendas
de criar, e estas, possibilitaram a vinda de negros livres, possuidores de ofícios, que
imprimiram no sistema escravista cearense características muito particulares.

È sempre destacado o fato que a mobilidade espacial permitida pelo pastoreio


facilitou a adaptação do indígena a este trabalho e influenciou esses interesses em seus
descendentes na primeira fase de instalação das fazendas, posto que não parecia haver
necessidade de grande contingente de trabalhadores para a “lida” com os rebanhos.

Segundo Capistrano de Abreu, grande parte dos homens inseridos no universo


das fazendas criatórias eram homens livres, expulsos pelo açúcar, mão de obra não
aproveitada no cultivo da cana, dada a preferência dos proprietários de engenhos ao
trabalho escravo. Desse modo, há uma certa unanimidade entre os pesquisadores, no que
diz respeito ao vaqueiro, reconhecendo-o como o principal trabalhador das fazendas nos
sertões. Entre outras atividades, cabia ao vaqueiro amansar e ferrar os bezerros, bem
como curá-los das bicheiras:

Para cumprir bem com seu oficio vaqueiral [...] deixa poucos noites de
dormir nos campos ou ao menos nas madrugadas não o acham em casa,
especialmente no inverno, sem atender às maiores chuvas e trovoadas,
porque nesta ocasião costuma nascer a maior parte dos bezerros e pode nas
malhadas observar o gado antes de espalhar-se ao romper do dia, como
costumam, marcar as vacas que estão próximas a ser mães e trazê-las quase
como à vista, para que parindo, não escondam os filhos de forma que
fiquem bravos ou morram de varejeiras40.

Vestindo roupa de couro e montados em cavalos escolhidos, os vaqueiros


“tangiam” o gado. Não eram simples trabalhadores. Eram símbolo de status naquele
contexto.

39
BARBOSA, Lindemberg Segundo de Freitas. A Escravidão na Freguesia de Limoeiro. In CHAVES, José
Olivenor de Sousa (ORG). Vale do Jaguaribe: Histórias e Culturas. Fortaleza: Luxprint Of Set, 2008.
40
ABREU, Capistrano de. Capítulos da História Colonial (1500-1800). Editora Belo Horizonte: Itatiaia;
São Paulo: Publifolha, 2000.
19

Embora não recebessem pagamento de salário, com o passar dos anos, era
possibilitado a eles – quando administradores da fazenda, criar o seu próprio rebanho
através do sistema de quarta e desse modo, poderiam se transformar em fazendeiros,
porém, a longo prazo.

O “pagamento” era realizado ao final de cada inverno quando o gado era recolhido
para a ferra e permaneceu em uso até meados do século XX. Segundo Girão, com a
melhoria do rebanho, principalmente nas criações não extensivas onde foram introduzidas
raças bovinas importadas, os fazendeiros passaram a realizar pagamentos dos seus
vaqueiros mensalmente41.

Importante esclarecer que ao redor da casa-grande fazendeira, mas a distâncias


irrregulares, se cultivavam pequenos roçados para atender ao consumo imediato, a

41
GIRÃO, Valdelice. As Oficinas ou Charqueadas no Ceará Fortaleza: Secretaria de Cultura e Desporto,
1995.
20

chamada agricultura de emergência: trabalho para mulheres e crianças que plantavam


milho, feijão – complementares ao regime alimentar fornecido pelo gado (leite, manteiga,
queijo e carne) bem como um pouco de algodão para a fiação doméstica42.

Porém, é necessário reafirmar que a agricultura, nesse contexto, bem como seus
trabalhadores, estiveram expostos a inúmeras dificuldades: preparar a terra para o plantio
– que exigia devastar a caatinga; o clima difícil – secas e enchentes; inexistência de
ferramentas adequadas, entre outras limitações. Após essas informações acerca dos
trabalhadores da fazenda de criar, reflita:

1. Por que afirmamos que o vaqueiro “era símbolo de status” naquele contexto ?
2. Como você avalia o fato dos moradores/trabalhadores das fazendas não receberem
salários?

NEM TUDO ERA GADO ... E FAZENDAS...

Descem fantasmas dos morros/Vêm almas dos cemitérios/Todos


pedem ouro e prata /E estendem punhos severos /Eis o retrato da
violência[...]

(O Romanceiro da Inconfidência – Cecília Meireles)

A ocupação da região sul do Ceará não foi efetuada, efetivamente, pelo pastoreio.
Ali teria prevalecido a agricultura baseada no cultivo da cana de açúcar, porem,
inicialmente, seus principais exploradores buscavam jazidas de metais preciosos,
vejamos:

42
Op, cit. p 34.
21

[...] em vários lugares, e distantes huns dos outros, e achey que havia em
todos ouro, porém, de nenhuma conta, porque em três dias de trabalho [...]
sendo oyto os trabalhadores, se não tirou mais de treze ou quatorze léguas
de grãos de pezo [...] olho d’agua dos Oytiz não me mostrou couza [...] no
riacho das Aningas também não me mostrou cousa alguma [...]43.

O excerto acima constitui uma pequena amostra de diligências que eram


realizadas nos riachos dos Kariris Novos. O trecho acima faz parte de uma carta enviada
a El Rei, por Jerônimo Mendes de Paz, Comandante e Intendente das minas de São José
dos Cariris, em dezembro de 1752.

O documento acima citado, contem uma relação minuciosa de levantamentos


realizados em “riachos, lagoas, chapadas e taboleyros”, objetivando informar: o trabalho
realizado na busca dos metais preciosos, as localidades exploradas, e o pouco que foi
encontrado naquele ano. Embora, o ouro fosse o maior interesse, outros tipos de minérios
eram encontrados como podemos ver abaixo

[...] em hum dos riachos dos Kariris se descobrio hua pedra


finíssima e transparente, cuja amostra para se fazer mais digna de
estimação, me mandou o Cura daquella freguezia [...] na mesma
cayxa em que vay achará a V. Exa. hua amostra da mesma
qualidade de pedra [...]44.

A exploração aurífera no sul do Ceará deu origem à Companhia de Ouro das


Minas de São José dos Cariris. Na esteira da criação da Companhia

[...] começaram a entrar nos fins de novembro e começo de


dezembro do ano de 1756, os escravos da Companhia que
chegaram a setenta, pouco mais ou menos, a maior parte negros
novos ladinos e todos boçais, sem experiência do que era o serviço
das minas [...]

O Governador e Capitão Geral de Pernambuco, Thomé Joaquim da Costa Corte


Real, segundo várias cartas pertencentes à Coleção Studart, apresentava profunda

43
Para a História das Minas do Cariri. Documentos da Coleção Studart. Instituto do Ceará; Histórico,
Geográfico e Antropológico.
44
Para a História das Minas do Cariri. Carta de Luis Joseph Correia e Sá, 10 de março de 1754.
Documentos da Coleção Studart. . Instituto do Ceará: Histórico, Georgráfico e Antropológico.
22

insatisfação com os resultados obtidos na extração dos minérios do Cariri. No


entendimento da citada autoridade as minas serviam mais de ruína a quem as cultivasse
que de conveniência. Jerônimo Mendes de Paz, já citado, Intendente das minas do Cariri,
reconhecia que houve “pouco rendimento nos primeiros dois anos de sua cultura, porém,
cresceu nos três anos seguintes últimos de sua duração que deu mais de duas arrobas e
meia de ouro” 45.

As minas do Cariri pareciam, realmente, não apresentar o lucro esperado e em


virtude disso, não justificava a permanência da Companhia das Minas de São José na
região bem como os investimentos em escravos e aquipamentos. O próprio capitão mor
governador do Ceará Luis Diogo Lobo da Silva argumentava

[...] para se conhecer o prejuízo que a Real Fazenda tem resultado


das mencionadas descobertas, em que entendo, não faz conta
alguma, semelhante qualidade de minas, que por lhe ser patente tão
considerável prejuízo pelas contas que dey pela Secretaria de
Estado que me mandou pelas mesmas a mandasse fexar. O que
executei não só nessa parte, mas em todas as outras que decobrirão
nesta capitania, por serem idênticas na sua natureza.

Assim, a Carta Régia de 12 de setembro de 1858 determinou que

[...] não se minerasse mais nas Minas do Cariri nem em outra


alguma que nessa capitania aparecesse, na consideração do
prejuízo que dellas se tem seguido, não só com a perda da Real
Fazenda, mas dos seus fiéis vassalos [...]

Desse modo, deram-se por findas as explorações dos metais tantas vezes
malgradas da região do Cariri. Como complemento, foi expedida em 30 de junho de 1766,
pelo Marquês de Pombal, ordem régia suprimindo o oficio de ourives no Brasil46.
Segundo Figueiredo Filho

45
Carta de Jerônimo de Mendes Paz, Comandante e Intendente das Minas de São Jose dos Cariris aThomé
Joaquim da Costa Corte Real, Governador e Capitão Geral de Pernambuco. Coleção Studart. Instituto do
Ceará: Histórico, Geográfico e Antropológico.
46
STUDART, Guilherme. O Ceará nos tempos de Miranda Henriques, Lobo da Silva e as Missôes do
Cariri, p 144. Coleção Studart. Instituto do Ceará: Histórico, Geográfico e Antropológico.
23

[...] em face dos nenhuns resultados obtidos [...] a Companhia de


Ouro das Minas de São José dos Cariris com a duração de um ano
e vinte sócios, que se obrigaram a subscrever para os fins sociais
certa quantia em dinheiro e a entrar com determinado número de
escravos [...] não suportando as asperezas da missão e não
mostrando o negócio nenhuma renda, vieram todos a compreender
a inutilidade da mineração47.

Assim, o interesse em novos investimentos foram direcionados para o plantio e


expansão da cana de açúcar e o comércio com Pernambuco. As Vilas do Crato e Jardim
teriam se originado dessas primeiras sesmarias que datam de 1703.

Vamos agora, às nossas reflexões:

1. Você já sabia que foram encontradas minas de ouro no Ceará no período


colonial? Por que esta atividade foi tão curta?
2. Por que os investimentos foram tão pequenos e que dificuldades você conseguiu
perceber nesse processo que justificasse sua curta duração? Os documentos
oficiais apresentados esclarecem as razões que possam explicar a curta
exploração desses minérios?

AS VILAS E A NECESSIDADE DE VIGIAR AS “GENTES” DO SERTÃO

47
FIGUEIREDO FILHO, José Alves. História do Cariri. Vol 1. Instituto Superior do Cariri. Sd.
24

O movimento dos rebanhos das fazendas, levados para a venda nas feiras em
Pernambuco, esquadrinharam, inicialmente o Ceará. Muitos desses caminhos serviram
como centros catalisadores na formação dos adensamentos populacionais48. Com a
proliferação das fazendas que margeavam o rio Jaguaribe no início do século XVIII,
formou-se a conhecida Estrada Geral do Jaguaribe, que partia da Vila do Icó e subia o
Rio Salgado e suas nascentes.

Da bacia do Jaguaribe também se chegava aos campos criatórios do Piaui,


passando pelo rio de Quixeramobim através da Estrada Nova das Boiadas. Outro
escoadouro da produção piauiense no território cearense era a Estrada das Boiadas que
ligava a capitania do Ceará a Pernambuco e Rio Grande do Norte49.

A partir dessas “estradas” iam formando-se arraiais especializados


em recolher o gado. Muitos desses sítios deram origem a núcleos
urbanos, como foi o caso da Vila de Icó que era ponto de encontro
das duas maiores vias da capitania: Estrada Geral do Jaguaribe e
Estrada das Boiadas50.

Segundo Raimundo Girão, a partir das charqueadas outros adensamentos


populacionais foram emergindo e se fortalecendo no cenário urbano cearense, numa
trajetória que teve início na foz do rio Jaguaribe e se estendeu até a desembocadura do
Acaraú chegando à Paraíba e ao Piaui. Aracati foi uma das vilas gestadas nesse
movimento. Essa Vila era o principal foco das oficinas por se situar na desembocadura
do Jaguaribe e por ser um porto marinho relativamente próximo de Recife e Salvador.
Além de escoar a produção pecuarista da região, a vila de Aracati servia como porta de
entrada para os produtos europeus que eram distribuídos por mascates sertão adentro 51.

Assim, as rotas comerciais que se formaram a partir dos movimentos das boiadas
bem como as oficinas, possibilitaram o surgimento e crescimento de algumas vilas.
Porém, como destaca Vieira Junior, as Vilas são reconhecidas na medida em que é

48
GIRÃO, Valdelice. Da Conquista à Implantação dos Primeiros Núcleos Urbanos do Siará Grande. In
SOUZA, Simone. História do Ceará. Fortaleza: Fundação Demócrito Rocha/Multigraf, 1994.
49
VIEIRA JUNIOR, Antônio Otaviano. APUD STUDART, FILHO, Carlo. Vias de Comunicação do Ceará
Colonial in Páginas de História e Pre-História. Fortaleza: Insstituto do Ceará, 1966.
50
VIEIRA JUNIOR, Antônio Otaviano. p 35
51
GIRÃO, Raimundo. História Econômica do Ceará. Fortaleza: Instituto do Ceará, 1947, p 252.
25

possível vislumbrar a possibilidade de aumentar os impostos sobre os produtos


comercializados bem como torna-se primordial, a necessidade de fixar essa população
itinerante para o seu melhor controle.

Nesse sentido, a Coroa Portuguesa ampliou seus agentes na capitania, dando início
a um processo de administração e policiamento, no território ocupado pelos maiores
agrupamentos populacionais da capitania, principalmente aqueles ligados à
comercialização do gado e congêneres.

Assim, os pequenos vilarejos ganharam funções administrativas e com isso status


e aparelhagem de vilas, quais seriam “[...] a construção de vários pelourinhos [...] as
presenças de juízes ordinários e vereadores [...] a igreja matriz”.

As Vilas foram criadas sob duas óticas. A primeira, no sentido de normatizar


a população e as povoações que deram origem aos territórios ocupados a partir das aldeias
jesuíticas, administradas por um “funcionário” da Coroa Portuguesa. A outra ótica
consistia na criação de Vilas mediante as normas estabelecidas para os imigrantes e para
os homens e mulheres sem moradia fixa que vagavam pelos sertões, sem trabalho.
Ambas, seguiam as normas da reforma imposta pelo Marques de Pombal, segundo as
quais, a fixação era um dos meios para ampliar o controle metropolitano em suas
concessões52.
Consoante Pinheiro53, quando se estabeleceu a primeira vila no Ceará, todo
o poder, estava concentrado nas mãos do capitão-mor governador, que deveria: cuidar da
organização militar, impulsionar o desenvolvimento das aldeias indígenas, inspecionar as
câmaras e justiças territoriais, prover os ofícios de justiça e os postos de ordenação, que
seriam confirmados pelo governador de Pernambuco. Até 1799, a capitania do Ceará foi
subalterna à capitania de Pernambuco. A partir dessa data, tornou-se capitania autônoma,
com autorização para comercializar diretamente com a Metrópole.

Importante informar que o número de fogos e residências era fundamental


para que fosse atribuída a verdadeira importância a uma Vila. Assim, a criação e
efetivação desses espaços enquanto vilas traziam consigo uma estratégia de normatização

52
OLIVEIRA, Adriana Santos de. Pecuária, Agricultura e Comércio: dinâmica das relações econômicas
no termo da Vila de Sobral. Dissertação de Mestrado. UFC. Fortaleza, 2015.
53
PINHEIRO, Francisco José. PINHEIRO, Francisco José. Mundos em Confronto: povos nativos e
europeus na disputa do território. In SOUZA, Simone. Uma Nova História do Ceará. Fortaleza: Edições
Demócrito Rocha, 2000.
26

do espaço. Do Alinhamento das ruas até a demarcação das áreas para a construção de
cada habitação, diziam respeito à padronização exigida pelos poderes instituídos.

Porém, a preocupação com o ordenamento e padronização das Vilas não era


semelhante e nem seguia os mesmos termos. As determinações administrativas da Vila
de Quixeramobim, por exemplo, originada de uma fazenda, não significou uma mudança
quanto ao local que originou inicialmente a localidade. Já na Vila de Aracati, a ocupação
original dos primeiros moradores não foi levada em consideração em detrimento das
preocupações administrativas.

Segundo Jucá54, apesar do meio físico e social da capitania não ser tão atraente à
fixação, funcionários do reino seguiram os caminhos traçados pelos vaqueiros e
instalaram-se no território. A primeira Vila, como é possível observar foi criada em 1713.
Porém, a primeira vila da área da Pecuária foi criada somente em 1736, pela ordem régia
de criação da Vila do Icó, mas sendo erigida a partir de uma povoação já existente.
Antônio Bezerra identificou as vilas cearenses abaixo com suas respectivas datas de
fundação:

Datas de Vilas criadas entre 1713 e 1801


criação
das Vilas
Cearenses

1713 Vila do Aquiraz


1726 Vila de Fortaleza
1736 Vila do Icó
1748 Vila de Santa Cruz do Aracati
1755 Vila Real de Soure (Caucaia, atualmente)
1756 Vila de Messejana
1759 Vila de Arronches ( Parangaba)
1764 Vila Real do Crato
1773 Vila Real de Sobral
1764 Vila Real do Crato
1773 Vila Real de Sobral
1801 Vila de São Bernardo das Russas

54
JUCA NETO, Clóvis Romeiro. Para este autor, as vilas foram fundadas, em sua maioria, onde já existiam
paróquias, evidenciando assim a precedência da organização religiosa, quanto à organização politico-
administrativa. Este autor afirma que durante o século XVIII o número de freguesias criadas superou o
número de vilas. A capitania teria alcançado o século XIX com 17 freguesias e 14 vilas.
27

Necessário esclarecer que o aumento do número de vilas e/ou surgimentos de


novas não significou que essas, representassem núcleos desenvolvidos dotados de
equipamentos urbanos. Os pesquisadores desse contexto afirmam que a maioria das
edificações presentes nesses espaços eram rústicas e sem conforto, com mobília muito
simples e sem sofisticação.

Não é difícil deduzir que inicialmente, a ação do estado português se


constituíu mais no sentido de legitimar seu poder e menos em submeter o poder das
famílias influentes que se encontravam já definindo seus “currais” - no duplo sentido. Era
necessário compor um arranjo que aglutinasse as forças responsáveis pelo ordenamento
e “administração” da sociedade sertaneja de então: um sistema baseado no consórcio entre
o poder público e o privado.

Isto significa que no início da sua composição, a construção dos “governos”


nos sertões cearenses, em grande parte, foi uma tarefa essencialmente delegada à
parentela familiar prepotente dos sertões. Assim, a estruturação político-administrativa
da capitania do Ceará, em essência, teria sido mesmo uma tarefa delegada os proprietários
de terras e boiadas dos sertões, do que a uma ação sistematizada, orientada com base na
defesa dos interesses da capital da Vila ou mesmo da coroa portuguesa.

Deste modo, a criação das vilas deve ser entendida no âmbito das estratégias
políticas e administrativas da Coroa Portuguesa, no sentido das tentativas de ampliar o
seu lucro nesta parte da sua colônia. As Vilas cumpririam, então, dois objetivos: o
primeiro: transformar os indígenas em súditos do Rei de Portugal convertendo as aldeias
de índios em Vilas e o segundo, aquelas poderiam possibilitar um maior controle da
população pobre e mestiça que vivia vagando pela colônia sem atividade laborial definida
e sem lugar fixo para morar. Segundo OLIVEIRA,

Essa população errante passou a preocupar a Coroa Portuguesa que


buscou fixar esses homens e mulheres nas Vilas. Não era
28

interessante para o Reino que homens livres e pobres ficassem


vigando sem lugar fixo para viver, trabalhar e pagar impostos55.

Dessa forma, entendemos que o alcance do poder metropolitano portava certos


limites. Embora a Vila representasse o território de ocupação do poder formalmente instituído
(como por exemplo, a casa da Câmara de Vereadores), inferimos que o lócus do poder
concentrava-se nos imensos grupos de familiares e agregados e suas articulações umas
famílias com outras em que podemos encontrar pequenos “exércitos de cabras valentes” que
davam suporte a tais famílias e “resolviam” as querelas para as mesmas, muitas vezes de
modo violento, “lavando a honra e seus interesses com sangue”.
De modo geral, as estiagens periódicas são apontadas como fator de-
sarticulador da economia das carnes secas do Ceará a partir do final do século XVIII. As
crises climáticas de 1777-78-79 e 1790-91-92-93 são indicadas como as grandes
responsáveis pelo fim da indústria do charque, principalmente aquela conhecida como
Seca Grande (1790 a 1793), que dizimou o gado, impedindo a reorganização das oficinas,
segundo Thomaz Pompeu de Sousa Brasil

[...] no ano de 1790 principiou uma seca tão horrível e rigorosa que
dourou quatro annos [...] os prejuízos se avolumaram a tal ponto
que os fazendeiros que recolhiam mil bezerros, não ficaram com
20 nos annos seguintes [...] destruiu e matou quasi todos os gados
dos sertões e por isso veio desaparecer o commércio das carnes
secas [...]56

A grande seca de 1877-78-79 já foi bem abordada por vários


historiadores57 cearenses e todos afirmam os trágicos significados desta tragédia para a
Província. Durante esta estiagem, milhares de retirantes famintos “invadiram” a cidade
de Fortaleza em busca de auxílio e trabalho. Foram criados os abarracamentos para
“abrigar” os sertanejos e afastá-los das principais ruas da capital. E para mantê-los
ocupados obrigaram-nos a trabalhar nas obras publicas em troca de roupas e alimentação
– ambas de péssima qualidade.

55
OLIVEIRA, Adriana Santos de. Pecuária, Agricultura e Comércio: dinâmica das relações econômicas
no termo da Vila de Sobral. Dissertação de Mestrado. UFC. Fortaleza, 2015. p 14.
56
BRASIL, Thomaz Pompeu de Sousa. O Ceará no Começo do Século XX. Fortaleza: Tipografia
Lithográfica, 1909, p 253.
57
Historiadores que pesquisaram SECAS no Ceará: José Olivenor de Souza Chaves, Frederico Neves,
Wendell Guedes, Kênia Sousa Rios, Tyrone Apolo, entre outros.
29

Entendemos que os efeitos das estiagens prolongadas foram profundamente pre


judiciais aos rebanhos, porém, Valdelice Girão58 pondera que o cenário internacional
apontava para um estímulo à agricultura não somente dirigida à produção do açúcar, mas,
principalmente, do algodão: o novo produto revelou-se importante matéria prima têxtil
com o advento da revolução industrial.

A produção algodoeira propiciará uma abertura do sertão para o litoral e/ou do


litoral para o sertão: várias estradas e também vias férreas foram criadas e/ou ampliadas
objetivando o escoamento de uma produção agrícola algodoeira, feita em larga escala e
para exportação, inaugurando dois novos momentos na História do Ceará: um
desenvolvimento dos meios de transporte bem como a hegemonia da capital, Fortaleza,
enquanto cidade mais cidade mais importante da Província.

Deste modo, indagamos:


1. Que interesses possuíam a Coroa Portuguesa no sentido de criar Vilas nesta
Província do Ceará?
2. Por que a Coroa assentiu na separação política entre Pernambuco e Ceará?

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Segundo Alfredo Bosi, a colonização é um projeto totalizante, cujas forças


motrizes poderão sempre buscar, ocupar um novo chão, explorar seus bens, submeter os
seus naturais, porém, afirma o autor, os agentes desse processo não são apenas suportes
físicos de operações econômicas [...] a cruz chantada na terra do pau brasil, subjugará os
tupis, mas em nome da mesma cruz haverá quem peça liberdade para os indios59.
Assim, podemos afirmar que a instalação das charqueadas propiciou
transformações econômicas, sociais e políticas de grande importância para a capitania do
Ceará:

58
GIRÂO, Valdelice Carneiro. As Oficinas ou Charqueadas no Ceará Fortaleza: Secretaria de Cultura e
Desporto, 1995.
59
BOSI, Alfredo. Dialética da Colonização. São Paulo: Companhia das Letras, 2002, p 15.
30

[...] as charqueadas contribuíram com o primeiro impulso


monetário para desenvolver as fazendas de gado e a própria
indústria do charque; possibilitou o surgimento das fazendas que
se constituíram em alguns casos - nos primeiros núcleos urbanos e
posteriormente, contribuiu também para o aparecimento das
primeiras vilas; foi fundamental para o início de um mercado
interno e alguns derivados até foram encaminhados para o mercado
externo além de tornarem mais próximos as relações
administrativas entre o sertão e o litoral60.

Porém, ha que reafirmar: pecuária, representou a base da economia do Ceará


colonial e até o século XIX, o couro era presente nos mais variados elementos da vida
material dos cearenses do sertão, estando por exemplo, presente na mobília dos setores
menos abastados. Para além dessa questão, Takeya61 ilustra que entre os anos de 1841-
1842 os couros ainda possuíam lugar privilegiado na pautas das exportações cearenses:

Mercadoria Destino Destino Destino Total


EUA Grã-Bretanha Portugal
Algodão ------------ 113.052 570 113.622
Couros 5.945 35.835 5.945 47.725
Madeiras ------------ 3.241 211 4.462
Café ----------- ----------------- 760 760
Chifres 90 276 96 462
Artigos diversos 186 2.744 9.209 12.139
Total 6.221 155.148 16.791 178.161

60
GIRÂO, Valdelice Carnero. As Oficinas ou Charqueadas no Ceará Fortaleza: Secretaria de Cultura e
Desporto, 1995.
61
TAKEYA, Denise Monteiro. Europa, França, Ceará: origens do capital estrangeiro no Brasil. São Paulo,
Natal: Hucitec-UFRN, 1995. p. 102)
31

A tabela62 acima apresenta o valor oficial das exportações pelo Porto de


Fortaleza, em mercadorias para países estrangeiros por destino e em milhares de réis.
Como é possível observar os couros representam o segundo produto mais exportado e no
período em questão o produto mais lucrativo em mercadorias exportadas para os Estados
Unidos.

Em resumo: com o algodão, inicia-se uma nova fase econômica para a


Província, assentada na agricultura, embora não exclusivamente. Nesse sentido, amplia-
se a necessidade de uma comercialização direta com Portugal, solicitada pelas autoridades
da capitania à Coroa. A desvinculação de Pernambuco, ocorrida a partir de 1799 – pelo
menos oficialmente, representou a possibilidade desta comercialização direta bem como
significou a ascensão de Fortaleza.

FONTES

BRASIL, Thomaz Pompeu de Sousa. O Ceará no Começo do Século XX. Fortaleza:


Tipografia Lithográfica, 1909.
Carta de Jerônimo de Mendes Paz, Comandante e Intendente das Minas de São Jose dos
Cariris a Thomé Joaquim da Costa Corte Real, Governador e Capitão Geral de
Pernambuco. Coleção Studart. Instituto do Ceará: Histórico, Geográfico e Antropológico.
Para a História das Minas do Cariri. Documentos da Coleção Studart. Instituto do Ceará;
Histórico, Geográfico e Antropológico.
Para a História das Minas do Cariri. Carta de Luis Joseph Correia e Sá, 10 de março de
1754. Documentos da Coleção Studart. Instituto do Ceará: Histórico, Georgráfico e
Antropológico.
PAIVA, Manoel de Oliveira. Dona Guidinha do Poço. São Paulo: Ática, 1981.
STUDART, Guilherme. O Ceará nos tempos de Miranda Henriques, Lobo da Silva e as
Missões do Cariri, p 144. Coleção Studart. Instituto do Ceará: Histórico, Geográfico e
Antropológico.

62
Fonte: NA, série F12, cartoon 2699, Relatório do Consul Francês na Bahia, datada de 1º. de março de
1844 ( apud TAKEYA, Denise Monteiro. Europa, França, Ceará: origens do capital estrangeiro no Brasil.
São Paulo, Natal: Hucitec-UFRN, 1995. p. 102)
32

BIBLIOGRAFIA

ABREU, Capistrano de. Capítulos da História Colonial (1500-1800). Editora Belo


Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Publifolha, 2000.
ALENCAR, Ana Cecília farias de. Declaro que sou cabeça de casal, dona e viúva:
arquétipos femininos no Ceará Colonial. Dissertação de Mestrado – Mestrado Acadêmico
em História – UECE, 2014.
ARAÚJO, Nicodemus. Almofala e os Tremembés. Fortaleza: Imprensa Oficial, 1981.
BARBOSA, Lindemberg Segundo de Freitas. A Escravidão na Freguesia de Limoeiro. In
CHAVES, José Olivenor de Sousa (ORG). Vale do Jaguaribe: Histórias e Culturas.
Fortaleza: Luxprint Of Set, 2008.
BRAGA, Renato. Um Capítulo esquecido da economia pastoril do Nordeste. Revista
do Instituto do Ceará. Vol 61. Janeiro-Dezembro de 1947.
BOSI, Alfredo. Dialética da Colonização. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.
FIGUEIREDO FILHO, José Alves. História do Cariri. Vol 1. Instituto Superior do Cariri.
Sd.
CHAVES, Gilmar (org). Ceará de Corpo e Alma: um olhar contemporâneo de 53 autores
sobre a terra da luz. Fortaleza: Relume Dumará, 2002.
FUNES, Euripedes. Os Negros no Ceará. In SOUSA, Simone. Uma Nova História do
Ceará. Fortaleza: Fundação Demócrito Rocha, 2000.
GIRÂO, Valdelice Carneiro. As Oficinas ou Charqueadas no Ceará. Fortaleza: Secretaria
de Cultura e Desporto, 1995.
GIRÃO, Raimundo. História Econômica do Ceará. Fortaleza: Instituto do Ceará, 1947.
NETO, Clóvis Romero Jucá. Os primórdios da organização do espaço territorial e da vila
cearense – algumas notas. In Anais do Museu Paulista: História e Cultura Material. Vol.
20, n.1. São Paulo. Jan-Jun, 2012.
OLIVEIRA, Adriana Santos de. Pecuária, Agricultura e Comércio: dinâmica das relações
econômicas no termo da Vila de Sobral. Dissertação de Mestrado. UFC. Fortaleza, 2015.
OLIVEIRA, Almir Leal de. As Carnes Secas do Ceará e o Mercado Atlântico no século
XVIII. Temas Setecentistas. Humanas, Curitiba: UFPR, sd.
PINHEIRO, Francisco José. Os Povos Nativos do Cearâ: uma síntese possível. In
CHAVES, Gilmar (org). Ceará de Corpo e Alma: um olhar contemporâneo de 53 autores
sobre a terra da luz. Fortaleza: Relume Dumará, 2002.
33

PINHEIRO, Francisco José. Mundos em Confronto: povos nativos e europeus na disputa


do território. In SOUZA, Simone. Uma Nova História do Ceará. Fortaleza: Edições
Demócrito Rocha, 2000.
REGIS, Luciana Meire Gomes. Esquadrinhando a Vila de Limoeiro nos Inventários Post-
Morten (1875-1880). In CHAVES, José Olivenor (org). Vale do Jaguaribe: Janelas para
o passado. Fortaleza: EDUECE, 2014.
SALGADO, Graça. Fiscais e Meirinhos: administração no Brasil Colonial. Rio de
Janeiro: Nova Fronteira, 1985.
SOUZA, Simone. História do Ceará. Fortaleza: Fundação Demócrito Rocha/Multigraf,
1994.
TAKEYA, Denise Monteiro. Europa, França, Ceará: origens do capital estrangeiro no
Brasil. São Paulo, Natal: Hucitec-UFRN, 1995.
VIEIRA JR. Antonio Otaviano. Entre Paredes e Bacamartes: História da Família no
Sertão (1780-1850). Fortaleza: Edições Demócrito Rocha/Hucitec, 2004.
VIEIRA JUNIOR, Antônio Otaviano. APUD STUDART, FILHO, Carlo. Vias de
Comunicação do Ceará Colonial in Páginas de História e Pre-História. Fortaleza:
Instituto do Ceará, 1966.

Interesses relacionados