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Ronald Hayman

NIETZSCHE
NIETZSCHE E SUAS VOZES

Tradução de
Scarlett Marton
Editora UNESP
© 1997 Ronald Hayman
Título original em inglês: Nietzsche. Nietzsche’^ Voices, publicado pela Phoenix,
uma divisão da Orion Publishing Group Ltd.

© 1999 da tradução brasileira:


Fundação Editora da UNESP (FEU)
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Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do


Livro, SP Brasil)

Hayman, Ronald, 1932-


Nietzsche: Nietzsche e suas vozes/Ronald Hayman; tradução de Scarlett Marton. -
São Paulo: Editora UNESP, 2000. - (Coleção grandes filósofos)

Título original: Nietzsche.


Bibliografia.
ISBN 85-7139-254-4
1. Filosofia alemã 2. Nietzsche, Friedrich Wilhelm, 1844-1900
I. Título. II. Série.
99-3395 CDD-193

Índice para catálogo sistemático:


1. Nietzsche: Filosofia alemã 193

Editora afiliada:
Associação Brasileira de Editoras Universitárias
Asocíación de Editoriales Universitárias de América Latina y el Caribe
NIETZSCHE E SUAS VOZES

A menos que você creia em Deus, você não pode crer que Deus está
morto: uma entidade que nunca existiu não pode morrer. Nietzsche nunca
afirmou, de modo inequívoco, acreditar que Deus estava morto: ele estava
falando pela boca de um louco num livro de 1882, A gaia ciência, escrito,
como a maior parte de sua obra, em segmentos descontínuos. A história fina e
ambígua, que intitulou “O insensato”, é virtualmente discreta.

Não ouvistes falar desse louco que, em pleno dia, acendia uma lanterna e
corria pela praça do mercado, gritando sem cessar: “Procuro Deus! Procuro Deus!”
- E como lá se achavam reunidos precisamente muitos que não acreditavam em
Deus, ele provocou uma grande gargalhada. Então, Deus se perdeu? - dizia um.
Perdeu-se como uma criança? - dizia outro. Ou escondeu-se? Tem medo de nós?
Embarcou num navio? Emigrou? - assim gritavam e riam todos ao mesmo tempo. O
louco precipitou- se no meio deles e atravessou-os com o olhar. “Para onde foi
Deus?” - gritou. “Quero dizer-lhes! Nós o matamos - vós e eu. Nós todos somos
seus assassinos! Mas como fizemos isso? Como pudemos esvaziar o mar? Quem
nos deu a esponja para apagar todo o horizonte? O que fizemos quando separamos
esta terra de seu sol? Para onde ela se movimenta agora? Para onde nos levam os
seus movimentos? Para longe de todos os sóis? Não estamos caindo sem cessar?
Para trás, para o lado, para a frente, para todos os lados? Existem ainda um acima e
um abaixo? Não erramos como através de um nada infinito? O espaço vazio não
sopra sobre nós? Não faz mais frio? Não vem a noite e cada vez mais noite? Não é
preciso acender lanternas em pleno dia? Não ouvimos ainda o ruído dos coveiros
que enterraram Deus? Não sentimos ainda a putrefação divina? - também os deuses
apodrecem! Deus está morto! Deus permanece morto! E fomos nós que o matamos!
Como nos consolaremos, nós, os assassinos de todos os assassinos? O que o mundo
possuía de mais sagrado e mais poderoso perdeu seu sangue sob nossas lâminas, -
quem lavará esse sangue de nossas mãos? Com que água poderemos purificar- -
nos? Que expirações, que jogos sagrados teremos de inventar? A grandeza desse
ato não é demasiado grande para nós? Não temos de converter-nos em deuses, para
parecermos dignos desse ato? Nunca houve ato mais grandioso - e quem nascer
depois de nós fará parte, por causa desse ato mesmo, de uma história superior a
tudo o que foi a história até agora.” Aqui se calou o louco e encarou outra vez os
seus ouvintes; também eles se calavam e o olhavam com estranheza. Por fim, atirou
ao chão a lanterna, que se partiu em pedaços e se apagou. "Vim cedo demais”, disse
então; “ainda não é chegado o meu tempo. Esse enorme acontecimento ainda está a
caminho e viaja - ainda não atingiu os ouvidos dos homens. O relâmpago e o trovão
precisam de tempo; a luz dos astros precisa de tempo; os atos precisam de tempo,
depois de terem sido realizados, para serem vistos e ouvidos. Esse ato está ainda
mais distante dos homens que o astro mais distante - e no entanto foram eles que o
realizaram!”. (A gaia ciência, § 125)1.
É possível que a noção da morte de Deus tenha sido tomada de
empréstimo do trabalho de 1834 de Heinrich Heine Sobre a história da
religião e filosofia na Alemanha: “Nosso coração está repleto de piedade
temerosa. O velho Jeová prepara-se para a morte ... Ouvis o sino tocar?
Ajoelhai. Estão trazendo os sacramentos para um Deus agonizante”. Mas
Nietzsche produziu mais do que uma variação sobre um tema pouco original.
Antes de apresentar o louco, ele declarou que o maior perigo a que a
humanidade fazia frente era “uma erupção de loucura - um arrebatamento em
ouvir, sentir e ver; prazer na falta de disciplina mental; alegria na humana
desrazão”. Como um sonâmbulo que está sujeito a cair ao acordar, temos de
continuar sonhando que existe uma realidade por detrás das aparências.

Aparência, para mim, é o próprio eficiente e vivente, que vai tão longe em
sua zombaria de si mesmo, a ponto de me fazer sentir que aqui há aparência e fogo-
fátuo e dança de espíritos e nada mais - que entre todos esses sonhadores também
eu, o “conhecedor”, danço minha dança, que o conhecedor é um meio para estirar a
dança terrestre no sentido do comprimento, e nessa medida faz parte da ordenação
festiva da existência, e que a sublime consequência e coerência de todo
conhecimento é e será, talvez, o meio supremo de manter em pé a generalidade do
sonho e a inteligibilidade total de todos esses sonhadores entre si e, justamente com
isso, a duração do sonho. (A gaia ciência, § 54)

Não poderíamos ter sobrevivido sem o nosso hábito arraigado de


preferir compromisso a incerteza, erro e ficção a dúvida, assentimento a
recusa, julgamento fortuito a fazer justiça. Em vez de permitir que o
ceticismo nos desoriente, continuamos a agarrar-nos à fé que nos deu
estabilidade. Isto é para sugerir que só o louco está desperto, enquanto a
maioria sã ainda continua sonhando.
A tensão na prosa de Nietzsche impede-nos de descartar como ridícula
tagarelice a notícia da morte de Deus. Uma vez que o homem acusa o povo -
e a si mesmo - de assassinar a divindade ausente, suas perguntas deixam de
ser absurdas e o ritmo dos golpes impede-nos de pô-las de lado. Ele não se
apresenta como uma personagem imaginária - não temos ideia da sua idade
ou da sua aparência - mas seu modo de falar é diferente do de Nietzsche.
O estilo em prosa não é bíblico e a história não é uma parábola, mas se
poderia ler o anúncio da morte do Pai como uma audaciosa consequência do
relato bíblico da crucificação. A história de Nietzsche é, também, um
primeiro ensaio para Assim falava Zaratustra, onde tanto a narrativa quanto
as declarações do herói semelhante a um profeta dependem de um pastiche da
Bíblia.

Depois de dizer estas palavras, Zaratustra calou-se como alguém que ainda
não disse a sua última palavra; hesitando longamente, balançou na mão o bastão;
por fim, falou assim - e sua voz se havia transformado. Sozinho vou agora, meus
discípulos! Também vós, ide embora, e sozinhos! Assim quero eu. Afastai- -vos de
mim e defendei-vos de Zaratustra! E, melhor ainda: envergonhai-vos dele! Talvez
vos tenha enganado. O homem do conhecimento não precisa somente amar seus
inimigos, precisa também poder odiar seus amigos. Paga-se mal a um mestre,
quando se continua sempre a ser apenas o aluno. (Assim falava Zaratustra,
Primeira Parte, “Da virtude que dá”).

Aqui ouvimos duas vozes, e apenas uma delas é de Zaratustra. Se


ambas forem de Nietzsche, ambas estão disfarçadas.
Como Kierkegaard, que usou copiosamente pseudônimos e
personagens, Nietzsche explorava sua ambivalência; e nada provocava mais
ambivalência em Nietzsche do que a religião de sua infância: o
protestantismo luterano. Em 1534, ao dar aos alemães a primeira tradução da
Bíblia, Martinho Lutero deu-lhes, com efeito, uma língua nacional, imbuída
de reverência pela autoridade tanto divina quanto humana. Nada encorajava
mais a artificialidade do fraseado do que a devoção semelhante à de um
suplicante que os pregadores afetavam em seus sermões e os adultos nas
homilias que dirigiam às crianças. A biografia do irmão, que Elizabeth
Fõrster-Nietzsche escreveu, exemplifica o fracasso dela em recuperar-se do
condicionamento linguístico que ambos receberam.
O pai, Karl Ludwig Nietzsche, um pastor luterano, morreu quando
Friedrich Wilhelm não tinha ainda cinco anos e Elizabeth só tinha três. A
mãe, Franziska Nietzsche, que se casou aos dezessete anos e deu a luz ao seu
filho aos dezoito, era filha de outro clérigo luterano; e a mãe de Karl Ludwig,
que viveu com eles e assumiu a direção da casa, sempre dominando a nora,
era filha de um arquidiácono e viúva de um superintendente - o equivalente
de um bispo. Na tenra infância, Nietzsche viu-se cercado por mulheres, que
passavam a vida tratando de pregadores, cozinhando e cuidando da casa para
eles, conversando com eles (provavelmente mais ouvindo do que falando),
imitando-os e tentando agradá-los. O estilo de conversa moralizante dessas
mulheres seguia o modelo do dos homens, e elas apreciavam o que
acreditavam ser um dever - impor o cristianismo às crianças. Elizabeth, a
única dos irmãos de Nietzsche que sobreviveu, era por natureza mais
conformista. Em março de 1883, dois meses depois de começar Assim falava
Zaratustra, ele disse a um amigo: “Não gosto de minha mãe e é penoso para
mim ouvir a voz de minha irmã; sempre fico doente quando estou com elas.
Quase não discutimos ... Sei como conviver com elas, embora isso não me
convenha” (Carta a Franz Overbeck de 6 de março de 1883).2
Durante a infância, Nietzsche foi encorajado tanto pelos preceitos
quanto pelos exemplos a acreditar que a principal função das palavras
consistia em exprimir reverência. Ao escrever Assim falava Zaratustra,
aproximou-se do idioma, da sintaxe e das cadências do velho estilo
reverencioso, em parte para parodiá-los e em parte para construir uma caixa
de ressonância que daria maior repercussão às prédicas an- ticristãs de seu
profeta pagão.

“Não furtarás! Não matarás!” - essas palavras eram ditas outrora sagradas;
diante delas, dobrava-se o joelho, abaixava-se a cabeça e tiravam-se os sapatos.
Mas eu vos pergunto: quando houve, alguma vez, no mundo ladrões e
assassinos melhores do que essas palavras sagradas?
Furtar e matar não fazem parte de toda vida? E, ao dizerem-se sagradas tais
palavras, não se assassinou com isso a própria verdade?
Ou foi uma prédica de morte, que disse sagrado o que contradizia e
desaconselhava toda vida? O meus irmãos, quebrai, quebrai as velhas tábuas!
(Assim falava Zaratustra, Terceira Parte, “Das velhas e novas tábuas”, § 10).

Na obra de Nietzsche, jamais se pode separar enunciado e estilo, mas,


embora ele nos fale numa variedade de vozes, poucos comentadores
oferecem conselhos úteis sobre como deveriamos lidar com isso. (As
honrosas exceções incluem Jacques Derrida e Henry Staten, o autor
americano do livro A voz de Nietzsche). Nietzsche aproxima-se mais de
identificar- -se com Zaratustra do que com o louco, mas nem sempre é fácil -
seja com essas duas vozes ou com outras - avaliar a oscilação entre
identificar-se e alienar-se. A questão que Staten levanta é “por que é tão
difícil dizer quem está falando quando ‘Nietzsche’ fala, quem é ‘eu’ ou ‘nós’
e quem são ‘eles’ em seu texto”.
Não é apenas quando está recorrendo a uma personagem que temos de
enfrentar os problemas de voz e de tom. O cultivo de diferentes vozes e
estilos foi central para o seu desenvolvimento enquanto escritor e pensador.
Somente um escritor intensamente consciente do estilo teria dito, como ele
fez em Humano, demasiado humano: “Melhorar o estilo significa melhorar o
pensamento, e nada além disso!” (O andarilho e sua sombra, § 131). O estilo
de Nietzsche, como Thomas Mann apontou, poderia por vezes confundir-se
com o de Oscar Wilde. Tanto um quanto o outro poderia ter escrito: “Não
passa de parvo quem não julga pelas aparências”. Nietzsche, o autor dessa
frase, também disse: “É apenas enquanto fenômeno estético que a existência e
o mundo permanentemente se justificam”.
Esta orientação para o estético deu-lhe algo em comum com Wilde,
mas, de acordo com um apontamento de 1888, escrito pouco antes do colapso
de Nietzsche na insanidade, "para um filósofo, dizer ‘o bom e o belo são o
mesmo' é infâmia; se ele então acrescenta ‘também o verdadeiro’, tem de ser
rechaçado. A verdade é ameaçadora. Possuímos a arte para não perecer com
a verdade.”
Aqui, só se poderia traduzir as duas últimas sentenças na língua de
Wilde. Em geral, os aforismos de Nietzsche lembram menos os de Wilde que
os de Wittgenstein. Como mostra Erich Heller em seu ensaio, Wittgenstein e
Nietzsche, seria fácil tomar uma declaração de um por uma declaração do
outro, embora nos anos 20 Wittgenstein ainda não tivesse alcançado o ensaio
de Nietzsche de 1873 “Sobre verdade e mentira no sentido extra moral”, que
sustentava não poder a linguagem transmitir a verdade objetiva acerca da
realidade exterior. Uma vez que não podemos evitar ser enganados,
desenvolvemos convenções linguísticas para nos enganarmos a nós mesmos
sem medo. Nietzsche comparava a linguagem a uma prisão e a uma rede;
Wittgenstein falava de seu “enfeitiçamento de nossa inteligência” e das
“contusões que nosso entendimento sofreu por bater a cabeça contra os
limites da linguagem”.
Por vezes, os aforismos de Nietzsche lembram menos os de Wilde ou
os de Wittgenstein que os de Kafka, que disse sermos pensamentos niilistas
na mente de Deus. Nietzsche, que via a morte de Deus como o equivalente da
segunda Queda do homem, sugeriu que em nossa segunda expulsão
precisávamos ver a promessa de um novo paraíso, pois “o demônio pode
começar a invejar aqueles que sofrem profundamente em demasia e mandá-
los - para o céu”.
Como Kafka, Nietzsche era um profundo descrente religioso. Mas,
junto com muitos dos outros apontamentos póstumos reunidos na Vontade de
potência3 esse belo paradoxo sugere que, funcionando mais como escritor
criativo do que como filósofo, às vezes anotava frases por causa de seu apelo
verbal, demorando a perguntar-se o que significavam e se concordava ou não
com elas. Escrever era amiúde como tomar nota de um ditado feito por uma
voz interna.
Para explicar por que ele procedia dessa maneira, poderíamos partir de
sua enfermidade. Tanto seus hábitos de pensar quanto seus métodos de
trabalhar foram afetados pela doença que o maltratou. Durante os 23 anos de
sanidade quando adulto - ele tinha 44 quando enlouqueceu -, lutou contra
intermináveis dores de cabeça, dores nos olhos e ao redor deles, contrações
estomacais, vertigem, náusea, insônia, indigestão, neurastenia. Nunca
descobriu o que fazia com que ficasse doente. Com espantosa paciência e
otimismo decrescente, vagueou de lugar em lugar, seguindo sugestões de
médicos e amigos, buscando um clima que aliviasse os sintomas.
A sua maior limitação era não poder manter qualquer atividade - ler,
escrever ou até pensar - por longos períodos. Tinha de fazer o seu trabalho
por partes. Se lia ou escrevia durante muito tempo em seguida, seus olhos
faziam-lhe mais mal do que podia suportar. Por vezes, doíam tanto que tinha
de dissertar sem anotações e ditar em vez de escrever. Muitos de seus
melhores pensamentos ocorreram quando estava ao ar livre. Enquanto
filósofo, convinha-lhe menos percorrer longas distâncias do que correr a toda
velocidade.
Ele tomava notas, com frequência, em pedaços de papel e o estilo
dessas notas mantinha-se, muitas vezes, tanto nas conferências quanto nos
ensaios; mas, se seus livros parecem mais desarticulados e impressionistas do
que os de seus contemporâneos, parecem também mais modernos. A maioria
dos grandes filósofos alemães do século XIX foram mais sistemáticos no
pensamento, mais inclinados a construir sistemas e à abstração. Talvez tenha
sido a falta de vigor que levou Nietzsche a organizar seus livros em unidades
relativamente breves ou talvez tenha sido a percepção intuitiva do valor da
descontinuidade. De qualquer modo, a fragmentação trabalhou de mãos dadas
com a assunção de que a filosofia deveria preocupar-se com as minúcias do
comportamento humano. Escrevendo seus comentários históricos
impressionistas, ele podia isolar contradições e momentos de disjunção em
vez de enfocar, como fazia a maioria dos historiadores contemporâneos,
personalidades, tendências e períodos circunscritos por datas. Enquanto
historiador, ele foi brilhante, se bem que errático. Sua pobre vista impedia-o
de ler o bastante para embasar todas as generalizações impetuosas que fazia;
e muitos de seus argumentos científicos e teológicos baseavam-se mais em
inspiradas conjecturas e arguta auto observação do que em leitura ou
pesquisa; mas, ao delinear a genealogia da moralidade e ao analisar a
psicologia da punição, ele antecipou de modo substancial o livro de Michel
Foucault de 1975, Vigiar e punir: o nascimento da prisão. Nietzsche
observou, por exemplo, como funcionam sistemas disciplinares ao assumirem
que delinquentes se tornam devedores em relação à comunidade. Deve-se
permitir ao credor - Igreja ou Estado - que demonstre seu poder infligindo dor
e humilhação no réu. Desse modo, equilibram-se as contas.
Coleridge elogiava os “homens de todas as idades que se viram
impelidos, como por um instinto, a propor a sua própria natureza como um
problema e devotaram os seus esforços a solucioná-lo”. A indisposição pode
levar a enfocar a consciência em seu próprio funcionamento; e, como
Dostoievsky e Proust, Nietzsche tinha talento para trazer a introspecção para
fora, usando sua consciência como uma base de observação para aventurar-se
em generalizações acerca da mente humana e seu funcionamento.
O desconforto físico intensificou o sentimento de estar dividido em si
mesmo, mas isto era em alguns aspectos vantajoso. Sem a auto divisão, dizia
ele, não há autoanálise; e, ao engrandecer a auto divisão, sua autoanálise
também ampliou-a. Em vez de ouvir uma voz interna, ele ouvia várias, e os
desacordos entre elas eram amiúde veementes. Mas, embora houvesse um
elemento de auto dramatização em seus escritos, ele não procedia como
dramaturgo. Era tão impensável uma peça escrita por Nietzsche quanto por
Immanuel Kant ou John Bunyan; as suas relações com as suas vozes não
eram como as de um autor dramático com as suas personagens. Quando ouvia
vozes em sua cabeça, Nietzsche estava menos interessado em reproduzir o
conflito do que em dramatizar o processo de autos superação que parecia
continuar incessantemente em seu interior. O impulso principal era para o
monólogo, não para o diálogo. Zaratustra tem vários interlocutores, mas
existe pouca interação com eles. Nietzsche queria ser um transgressor das
leis, para destronar o juiz, enterrar o deus, ter o controle da voz didática que
nunca pode silenciar.
Tratando da multiplicidade de vozes em sua prosa, Henry Staten
refere-se ao que Derrida chamou “os Nietzsches” - as vozes em seu texto que,
por vezes, se contradizem umas às outras. Staten diagnostica uma “nostalgia
da unidade perdida”. Os escritos de Nietzsche sobre retórica descrevem um
ser mitológico primordial com uma centena de cabeças que poderiam falar
umas com as outras. Dando-se conta de que esse diálogo pode continuar, a
criatura deixa-se desintegrar em homens individuais, sabendo que, em
conjunto, não pode perder sua unidade. Nietzsche gostava da ideia de que
somos todos fragmentos do que foi uma vez uma gigantesca criatura.
Ao condenar Wagner como “o artista moderno par excellence”, ele
reclamava que os problemas apresentados nas óperas (ou “dramas musicais”)
eram todos problemas do histérico. Um dos apontamentos reunidos na
Vontade de potência define o histérico como “admirável em toda arte de
dissimulação”. Vaidade e irritabilidade fazem-no dramatizar cada incidente
trivial e cada mínimo acidente. Ele não é mais um indivíduo; é como “um
encontro de indivíduos - primeiro, um e, depois, outro arremessa-se para a
frente com desavergonhada segurança”. Staten observa quão próximo isto se
acha da passagem do Crepúsculo dos ídolos descrevendo o “estado
dionisíaco”, que impele o sistema afetivo a “excitar simultaneamente o poder
de representar, imitar, transfigurar, transformar e todas as espécies de
imitação ou representação”. O elemento significativo é “a inabilidade para
não reagir (como em certos histéricos, que, sentindo-se de qualquer modo
instigados, também entram em qualquer papel ... Eles transformam-se
constantemente)”. (“Incursões de um extemporâneo”, § 10). Embora
Nietzsche não apreciasse ver-se comparado a Wagner ou ser classificado
como histérico, a afinidade entre as duas passagens, de fato, lança luz - é o
que Staten advoga - sobre o problema das múltiplas vozes.
Como alternativa, poderiamos olhar para elas a partir de uma
perspectiva junguiana. Aos dezenove anos, então estudante de medicina, Carl
Jung assistia a seções em que uma prima de quinze anos, Helene Preiswerk,
era médium. Entrando em estado de transe, ela desmaiava, caía numa cadeira
ou no chão, tinha várias inspirações profundas e começava a conversar na
pessoa de parentes próximos, falando em alto alemão em vez de seu dialeto
suíço habitual. Parecendo mais velha e mais experiente do que era e
movendo-se com mais graça do que de costume, convencia Jung de que
através dela estavam falando as vozes de seus dois avós. Seis anos depois, ao
escrever sua dissertação, ele disse que as vozes representavam fragmentos da
própria personalidade dela, que tinha “se despedaçado”.
Assumindo que as emoções que entraram em cena tinham sido
reprimidas, ele emprega a expressão de Freud “identificação histérica” para o
“delírio histérico” em que as fantasias oníricas de Helene “se tornaram típicas
alucinações”. Mentirosos patológicos que foram devassados por suas
fantasias, diz ele, comportam-se como crianças que se perdem num jogo ou
como atores que se entregam a seus papéis (Jung, Collected Works, v.l, p.67).
Não é distinto do relato que Nietzsche faz dos histriônicos histéricos no
trabalho de Wagner, e, embora Nietzsche de início tivesse controle de suas
vozes, ele perdeu o controle quando ficou louco.
O medo da loucura nem sempre esteve inteiramente separado da
ansiedade de que, sem Deus, a civilização se desintegraria. Dostoievsky
assemelha-se a Nietzsche, tanto por ser profundamente religioso por
temperamento quanto por estar apreensivo acerca das consequências do
niilismo. Se Deus está vivo, tudo tem sentido; se Deus está morto, tudo é
permitido e nada é compreensível. “Decidi há muito tempo não
compreender”, diz Ivan Kamarazov. “Se tento compreender alguma coisa,
serei desleal ao fato, e estou determinado a permanecer fiel ao fato”. Assim
era Nietzsche.
O ensaio de Schiller de 1795-1796, “Sobre poesia ingênua e
sentimental”, celebra os poetas gregos por estarem sem esforço de acordo
com a natureza. Contra o romantismo de Rousseau, Nietzsche sustentou que a
arte ingênua sempre representa um triunfo da ordem apolínea sobre a
turbulência dionisíaca. A arte dionisíaca leva-nos a encarar com confiança os
horrores da existência, tendo empatia pelo ser primordial em sua ira pela vida
e seu terror ao ameaçar a destruição. Nietzsche igualava o dionisíaco à
superabundância de energia criativa, que fomenta “o desejo por destruição,
mudança e vir- -a-ser”. Ou como Zaratustra pode dizer: “quem tiver de ser
um criador, em verdade, esse tem de ser antes um aniquilador e quebrar
valores” (Assim falava Zaratustra, Segunda Parte, “Da superação de si”).
Num caderno de apontamentos de 1885, Nietzsche descreveu o
dionisíaco como “aquele auge de alegria em que um homem pode sentir-se
em apoteose, pode sentir que a natureza nele se justifica”. Mas “os escravos
das ‘idéias modernas’”, os filhos de uma época fragmentada, pluralista,
doente, fantasmagórica (Fragmento póstumo 41 [6] de agosto/setembro de
1885), perderam a capacidade de ser feliz que os gregos possuíam. Sem ela,
estes não poderíam ter participado dos festivais dionisíacos: a alma helênica
floresceu sem nenhuma necessidade de exaltação mórbida ou loucura. E num
caderno de apontamentos que manteve de março a junho de 1888, o último
ano de sua sanidade, Nietzsche define o dionisíaco como

um ímpeto à unidade, um remanejamento radical sobre pessoa, cotidiano,


sociedade, realidade, sobre o abismo do perecer: o passionalmente doloroso
transporte para estados mais escuros, mais plenos, mais oscilantes; o embevecido
dizer sim ao caráter global da vida como que, em toda mudança, é igual, de igual
potência, de igual ventura; a grande participação panteísta em alegria e sofrimento,
que aprova e santifica até mesmo as mais terríveis e problemáticas propriedades da
vida; a eterna vontade de geração, de fecundidade, de retorno; o sentimento da
unidade da necessidade do criar e do aniquilar. (Fragmento póstumo 14 [14] da
primavera de 1888)

Dizer que Nietzsche cultivava a divisão em si mesmo é dizer que


conscientemente corria o risco da destruição, da desintegração. “O Dioniso
cortado em pedaços é uma promessa de vida: eternamente renascerá e voltará
da destruição” (Fragmento póstumo 14 [89] da primavera de 1888). Como
Plutarco explicou em seu relato desse mito da criação alternativo, o deus foi
desmembrado, mas suas partes foram distribuídas ao vento, à água, à terra, às
estrelas, aos planetas, aos animais. A história serve de base para alegorias
sazonais, em que a destruição invernal e a morte são seguidas pela
regeneração, mas para um homem era perigoso imitar um deus.
Nietzsche impingiu a Zaratustra suas primeiras ideias de divisão e
conflito internos.

E este segredo a própria vida me contou: “vê”, falava ela, “eu sou o que
sempre deve superar-se a si mesmo".
“Vós a chamais, por certo, de vontade de procriação ou ímpeto para a
finalidade, para o que é mais elevado, mais distante, mais complexo; mas tudo isso
é uma coisa só e um só segredo.”
“Até prefiro sucumbir a renunciar a essa única coisa; e, em verdade, onde
há declínio e cair de folhas, sim, é ali que a vida se sacrifica - por potência!”.
“Que eu deva ser luta e vir-a-ser e objetivo e contradição dos objetivos: ah,
quem adivinha minha vontade, adivinha também quão tortuosos são os caminhos
que ela tem de seguir”.
“O que quer que eu crie e como quer que eu o ame - logo tenho de ser
adversário seu e de meu amor: assim quer minha vontade!”
“E tu também, que buscas o conhecimento, és apenas uma senda e uma
pegada da minha vontade; em verdade, a minha vontade de potência caminha com
os pés da tua vontade de verdade!”...
Em verdade, eu vos digo: bem e mal que seja imperecível - não há! Por si
mesmo ele tem sempre de se superar de novo.
Com vossos valores e palavras de bem e mal exerceis poder, ó estimadores
de valores; e esse é vosso amor escondido e o esplendor, estremecimento e
transbordamento de vossas almas.
Mas um poder mais forte nasce dos vossos valores e uma nova superação:
faz ela romperem-se o ovo e a casca do ovo.
E quem tiver de ser criador em bem e mal, em verdade, esse tem de ser
antes um aniquilador e quebrar valores.
Assim o mais alto mal faz parte do mais alto bem; mas é este o criador.
(Assim falava Zaratustra, Segunda Parte, “Da superação de si”).

Talvez Nietzsche não estivesse ciente da extensão em que Zaratustra


ecoava o Wotan de Wagner, que dizia; “até a náusea encontro eternamente
apenas a mim mesmo em tudo o que realizo!... O que amo tenho de
abandonar, assassino quem desejo, atraiçoo iludindo quem confia em mim! ...
Destruo o que construí!... Abandono a minha obra; só quero uma coisa: o
fim!...” (Wagner, A Valquíria, Ato II, cena 2).
Mas Zaratustra é mais dionisíaco do que wagneriano, e toda a história
do desenvolvimento de Nietzsche poderia ser contada em termos de sua
relação com Dioniso. Seu primeiro livro, O nascimento da tragédia no
espírito da música (1870- 1871), insiste nisto: que entre a ordenada tendência
apolínea e a desordenada tendência dionisíaca não existe inimizade alguma.
Elas “caminham juntas, lado a lado... incitando-se reciprocamente a
nascimentos cada vez mais poderosos” que culminam no nascimento da
tragédia grega, que tanto é apolínea quanto dionisíaca. Em Pforta, uma das
mais ilustres escolas clássicas da Alemanha, onde os alunos despendiam
todas as semanas dez ou onze horas com latim e seis com grego, aprendendo
não só a ler mas também a falar ambas as línguas, Nietzsche desenvolveu
uma paixão duradoura pela cultura clássica e, em especial, pela tragédia
grega. Em seu jovem entusiasmo por Wagner, considerou-o um gênio, que
poderia fundir música e drama - uma realização cultural prodigiosa que teria
o efeito de lançar a Alemanha num novo Renascimento e reunir arte e
filosofia depois de dois mil anos de divórcio.
Embora considerasse difícil afastar-se da influência de Wagner,
Nietzsche operou o corte quando tinha pouco mais de trinta anos e, em seu
livro de 1877, Humano, demasiado humano, tentou desviar-se do heroico
para ir em direção ao cotidiano. Queria observar “cientificamente” o
comportamento humano, concentrando-se nas "pequenas verdades
imperceptíveis”. Enquanto filósofo, não recebera nenhuma formação especial
e surpreendia-se de que, na tradição alemã, os filósofos dogmáticos - não só
os idealistas mas também os materialistas e realistas - se interessavam, todos,
por problemas irrelevantes para a vida cotidiana.
Na academia, Nietzsche transferiu-se dos estudos clássicos para a
filologia e só tinha 24 anos, em 1869, quando aceitou a nomeação de
professor na Universidade da Basiléia. Mas sua saúde frágil obrigou-o a parar
de lecionar em 1876. Sendo o mais analítico dos filólogos, ele tornou-se
extraordinariamente cético quanto à linguagem; e, se Roland Barthes tem
razão em afirmar que “a invenção de um discurso paradoxal é mais
revolucionária do que a provocação”, Nietzsche tornou-se um revolucionário
em 1873, quando, já professor na universidade e já sofrendo de distúrbios na
vista que o forçavam a dissertar sem apontamentos, ditou um ensaio sobre
linguagem e objetividade, “Sobre verdade e mentira no sentido extra-moral”.
A linguagem, sustentava ele, é como um guarda-chuva: nós a
seguramos para nos abrigarmos de tomar ciência de que o universo é, na
melhor das hipóteses, indiferente e, na pior, hostil. As palavras não podem
nunca ser transparentes

pois, entre duas esferas completamente diferentes tais como sujeito e objeto,
não existe nenhuma causalidade, nenhuma precisão, nenhuma expressão, mas
apenas uma relação estética, ou seja, uma transmissão de sugestões, uma tradução
trôpega numa língua completamente estranha. Mas, para tanto, é necessária uma
esfera intermediária, que poetize e invente livremente, e uma força intermediária...
O inseto e o pássaro percebem um mundo diferente do nosso e não
deveríamos nos regozijar por ter uma visão melhor, pois não há padrão de
comparação. Um homem pobre pode enganar-nos fingindo ser rico, mas o que
significa rico? Todas as nossas palavras baseiam-se em equações entre coisas
desiguais e nunca podem ter mais do que uma relação tênue com o que
representam...
Porque o homem, ao mesmo tempo por necessidade e tédio, quer existir
socialmente e em rebanho, ele precisa de um acordo de paz e se esforça para que
pelo menos a máxima bellum omnium contra omnes desapareça de seu mundo.
Esse tratado de paz traz consigo algo que parece ser o primeiro passo para alcançar
aquele enigmático impulso à verdade. Agora, com efeito, é fixado aquilo que
doravante deve ser “verdade”, isto é, é descoberta uma designação uniformemente
válida e obrigatória das coisas, e a legislação da linguagem dá também as primeiras
leis da verdade: pois surge aqui pela primeira vez o contraste entre verdade e
mentira. O mentiroso usa as designações válidas, as palavras, para fazer aparecer o
não-efetivo; ele diz, por exemplo: “sou rico”, quando para seu estado seria
precisamente “pobre” a designação correta. Ele faz mau uso das firmes convenções
por meio de trocas arbitrárias ou mesmo inversões dos nomes. Se o faz de maneira
egoísta e de resto prejudicial, a sociedade não confiará mais nele e com isso o
excluirá de si. Os homens, nisso, não procuram tanto evitar serem enganados,
quanto serem prejudicados pelo engano... E também em um sentido restrito
semelhante que o homem quer somente a verdade: deseja as consequências da
verdade que são agradáveis e conservam a vida; diante do conhecimento puro sem
consequências ele é indiferente, diante das verdades talvez perniciosas e destrutivas
ele tem disposição até mesmo hostil...
O que é a verdade, portanto? Um batalhão móvel de metáforas, metonímias,
antropomorfismos, enfim, uma soma de relações humanas, que foram enfatizadas
poética e retoricamente, transpostas, enfeitadas, e que, após longo uso, parecem a
um povo sólidas, canônicas e obrigatórias: as verdades são ilusões, das quais se
esqueceu que o são. ( “Sobre verdade e mentira no sentido extra moral", § 1)

Já no início de seu trabalho filosófico, Nietzsche chegou a um impasse.


Sem as palavras, não tinha meio de comunicar- -se com os seus leitores e as
palavras não eram dignas de confiança. Como podia ele continuar? Uma
vantagem de falar através de uma persona era a de que os leitores teriam de
pensar duas vezes se acreditavam ou não que ele acreditava no que a persona
estava dizendo.
Assim falava Zaratustra é o experimento de Nietzsche mais
impressionante - e o mantido por mais tempo - em imitar outras vozes e
escrever em estilos que não lhe vinham naturalmente. Enquanto usou o louco
numa única seção, continuou a falar pela boca de Zaratustra em quatro partes
sucessivas, que se estendem por mais de dois anos.
Nietzsche pretendeu que tanto a voz do narrador quanto a voz de
Zaratustra sufocassem ecos das vozes moralizantes que dominaram a sua
infância, mas o seu trabalho no livro precipitou-se pela experiência de
apaixonar-se pela primeira vez com a idade de 37 anos. Carismática, bem
apessoada, resoluta e muito inteligente, Lou Salomé era a filha de 21 anos de
um general russo. Nietzsche encontrou-a numa visita aos lagos italianos,
onde logo passou a imaginá-la como sua filha, discípula e noiva espiritual.
Ela pensou que um dia ele poderia revelar-se como o profeta de uma nova
religião; e era sobretudo a respeito de religião que falavam, que passavam -
dizia ela - dez horas por dia conversando.
Ele imaginou formar um ménage à trois sem sexo com ela e o jovem
autor de um livro intitulado Observações psicológicas, Paul Rée, que os
havia apresentado. Mas não era um plano factível e a constituição doentia de
Nietzsche pagou muito caro pela frustração. “Se não puder aprender o truque
do alquimista de converter essa imundice em ouro”, escreveu, “estou
perdido”. Seu cadinho era a sua mente, e ele levou apenas dez frenéticos dias
para destilar a primeira parte de Zaratustra dessa imundice. Fez deslizar
facilmente no livro a persona e o estilo. Sua premência por vingança era
irreprimível, mas o principal impulso era em direção da alegria. “Não é com a
ira que se mata, mas com o riso”, diz Zaratustra. “Eia, matemos pois o
espírito de peso” (Assim falava Zaratustra, Primeira Parte, “Do ler e
escrever”).
Zoroastro (Zaratustra em alemão) era o fundador de uma religião persa
pré-islâmica do século VI a. C. Refinou a velha religião popular ariana com a
ideia da punição eterna de acordo com o equilíbrio entre feitos bons e maus
na terra. Representou, para Nietzsche, os valores de bom e mau nas mais
velhas histórias da humanidade; e Nietzsche desenvolveu a fantasia criativa
do profeta Zaratustra como seu filho depois de abandonar a fantasia
autoindulgente de Lou como sua filha.
A experiência negativa tinha de transformar-se em algo positivo o
bastante para inflamar outras pessoas. Ele precisava olhar bem fundo no
abismo e fazê-lo soar com um riso audacioso, igualando Lou e Rée, que
haviam partido juntos, com a vida na grande cidade. A imagem das moscas
no mercado aparece para aviltar a vida social. “Foge, meu amigo, para a
solidão e para onde sopra o ar rude e forte” (Assim falava Zaratustra,
Primeira Parte, “Das moscas do mercado”). Altitude elevada representa a
alternativa para a vida na cidade - afastamento, desligamento, meditação, paz,
solidão. “Aquele que galga as mais altas montanhas ri de todas as tragédias
lúdicas e de todas as tragédias sérias” (Assim falava Zaratustra, Primeira
Parte, “Do ler e escrever”).
Escutando as vozes argumentativas dentro de sua cabeça, Nietzsche
recuperou um estado de equilíbrio que podemos chamar de “astúcia do
ouvido”. Discutindo consigo mesmo sobre Lou Salomé, Paul Rée, vida,
amor, Jesus, Deus e humanidade, ouviu uma voz didática a chamá-lo à
ordem, e pôde escrever bem o bastante para traduzir essa voz na de
Zaratustra. Em breve, tinha ganho confiança o bastante para pregar através da
boca de Zaratustra.

De tudo o que se escreve, aprecio somente o que alguém escreve com seu
próprio sangue. Escreve com sangue, e experienciarás que sangue é espírito.
Não é fácil compreender o sangue alheio; odeio todos os que leem por
desfastio.
Quem conhece o leitor nada mais faz pelo leitor. Mais um século de leitores
- e até o espírito estará fedendo.
Que todos tenham o direito de aprender a ler, estraga, a longo prazo, não
somente o escrever mas também o pensar.
Outrora, o espírito era Deus, depois, tornou-se homem e, agora, ainda acaba
tornando-se plebe.
Quem escreve com sangue e máximas, esse não quer ser lido, mas
aprendido de cor.
Na montanha, o caminho mais curto é de cume a cume; mas, para isso,
precisa-se de longas pernas. Que máximas sejam cumes; e aqueles a quem são
ditas, altos e robustos.
O ar rarefeito e puro, a vizinhança do perigo e o espírito imbuído de uma
alegre malvadez: coisas que combinam bem.
Quero ter duendes a meu redor, porque sou corajoso. A coragem, que
afugenta os fantasmas, cria seus próprios duendes: a coragem quer rir.
Eu já não sinto do mesmo modo que vós: essa nuvem que vejo abaixo de
mim, essa coisa negra e pesada - é, justamente, a vossa nuvem de temporal.
Vós olhais para cima, quando aspirais a elevar-vos. E eu olho para baixo,
porque já me elevei.
Quem de vós pode, ao mesmo tempo, rir e sentir-se elevado?...
Descuidados, zombeteiros, violentos - assim nos quer a sabedoria: ela é
mulher, ela ama sempre somente um guerreiro...
Eu acreditaria somente num deus que soubesse dançar.
E, quando vi o meu diabo, achei-o sério, metódico, profundo, solene: era o
espírito de peso - através dele caem todas as coisas...
Aprendi a caminhar; desde então, deixo-me correr. Aprendi a voar; desde
então, não quero que me empurrem, para sair do lugar.
Agora, estou leve; agora, voo; agora, vejo-me debaixo de mim mesmo;
agora, um deus dança dentro de mim.
Assim falava Zaratustra. (Assim falava Zaratustra, Primeira Parte, “Do ler e
escrever”).

Em vez de abençoar os mansos, os compassivos e os amantes da paz,


Zaratustra favorece os grandes desprezado- res, aqueles que “não querem ter
muitas virtudes”. Rejeita o ideal cristão de amor fraterno. “O vosso amor pelo
próximo é o vosso mau amor por vós mesmos” (Assim falava Zaratustra,
Primeira Parte, “Do amor ao próximo”). Mais se tem realizado por bravura e
combate do que por amor ao próximo. “Dizeis que a boa causa santifica até a
guerra? Eu vos digo: a boa guerra santifica qualquer causa” (Assim falava
Zaratustra, Primeira Parte, “Da guerra e dos guerreiros”). Mas, ao ver que se
poderia usar esse ditado em propaganda militarista, Nietzsche ataca o
nacionalismo: “Estado chama-se o mais frio de todos os monstros frios.
Friamente também ele mente ... em todas as línguas de bem e mal... Com
dentes roubados ele morde, esse mordaz” (Assim falava Zaratustra, Primeira
Parte, “Do novo ídolo”). Invertendo tanto o princípio mosaico de olho por
olho, dente por dente, quanto o princípio cristão de dar a outra face,
Zaratustra adverte a víbora a tomar o seu veneno de volta, já que ela não pode
dar-se ao luxo de perdê-lo.

Mas, se tendes um inimigo, não lhe pagueis o mal com o bem, porque isto o
humilharia. Mostrai, ao contrário, que ele vos fez, mesmo assim, algum bem...
E mais nobre dizer que se errou do que querer ter razão, especialmente
quando se tem razão. Mas é preciso ser bastante rico para isso.
Não gosto de vossa fria justiça e, nos olhos de vossos juízes, vejo sempre o
olhar do carrasco e seu frio cutelo. (Assim falava Zaratustra, Primeira Parte, “Da
mordida da víbora”)

Nietzsche resume aqui o motivo da morte de Deus.

Para os velhos deuses já há muito chegou o fim: - e em verdade foi um bom,


um gaio fim de deuses o que tiveram!
Esses não morreram passando por um “crepúsculo” - isso é uma boa
mentira! Pelo contrário: mataram a si próprios - de rir!
Isso aconteceu, quando a palavra mais sem-Deus foi pronunciada por um
deus mesmo - a palavra: “Há um deus! Não deves ter nenhum outro deus além de
mim!”
- Um velho ranzinza de um deus, um ciumento, perdeu assim a compostura:
E todos os deuses riram então, e vacilaram em suas cadeiras e exclamaram:
“Mas divindade não é justamente haver deuses, e não um Deus?”. (Assim falava
Zaratustra, Terceira Parte, “Dos renegados”)

Embora prefira de longe o politeísmo ao monoteísmo, Nietzsche sente-


se menos hostil a Deus do que aos homens que o usaram para apoiarem-se.
Zaratustra está apto para encontrar o último Papa.

Voltou a ver alguém sentado no caminho que percorria e, precisamente, um


homem alto e vestido de preto, com um rosto pálido e macilento: esse o deprimiu
enormemente. “Ai”, falou ao seu coração, “ali está uma tribulação mascarada e, ao
que me parece, da raça dos padres; o que quer essa gente no meu reino?”...
"Quem quer que sejas, ó andarilho”, falou, “ajuda um extraviado, um
buscador, um velho homem a quem por aqui poderia facilmente acontecer algum
mal!
Este mundo a meu redor me é estranho e distante, também ouço bramirem
animais ferozes; e aquele que poderia oferecer- -me abrigo não existe mais.
Eu procurava o último homem piedoso, um santo e eremita, que, sozinho
em seu bosque, ainda nada ouvira daquilo que hoje todo mundo sabe”.
“O que hoje todo mundo sabe?”, indagou Zaratustra. “Talvez que o velho
Deus, em que um dia todo mundo acreditava, não vive mais?”
“Tu o disseste”, respondeu aflito o ancião. “E eu servi esse velho Deus até a
sua hora derradeira.
Agora, porém, fiquei sem ofício, sem senhor e, contudo, não livre, e,
também, sem ainda um só momento de alegria, a não ser nas minhas recordações.
Para isso subi nesta montanha, para enfim me oferecer outra vez uma festa,
como convém a um velho Papa e pai da igreja: pois, fica sabendo, eu sou o último
Papa! - uma festa de devotas recordações e serviços divinos”...
“Tu o serviste até o fim?”, perguntou Zaratustra, meditativo, depois de um
profundo silêncio, “tu sabes como ele morreu? E verdade o que se fala, que ele foi
asfixiado pela compaixão? - que ele viu como o homem pendia na cruz e não o
suportou, que o amor pelo homem foi seu inferno e, por fim, sua morte?”
O velho Papa, porém, não respondia, mas olhava esquivo, com uma
expressão dolorosa e sombria, para o lado.
“Deixa-o partir”, disse Zaratustra, depois de uma longa meditação,
continuando sempre a olhar o velho diretamente no olho.
“Deixa-o partir, ele acabou. E mesmo se te honra falares apenas bem desse
morto, sabes tão bem quanto eu quem era ele; e que ele seguia estranhos
caminhos.”
“Dito entre três olhos”, disse o Papa, divertido (pois ele era cego de um
olho), “em coisas de Deus eu sou mais ilustrado do que o próprio Zaratustra - e com
todo o direito.
Meu amor serviu a ele longos anos, minha vontade seguiu em tudo sua
vontade. Um bom servidor, porém, sabe de tudo, e também de muito daquilo que
seu senhor esconde de si mesmo.
Ele era um Deus escondido, cheio de clandestinidade. Em verdade, ele só
chegou a ter um filho por vias dissimuladas. A porta de sua crença está o adultério.
Quem o celebra como um Deus do amor não pensa bastante bem do amor.
Não queria esse Deus ser também juiz? Mas o amante ama para além de
recompensa e punição.
Quando ele era jovem, esse deus da terra do sol nascente, ele era duro e
vingativo, e edificou um inferno para delícia de seus prediletos.
Mas por fim ele ficou velho e mole e frágil e compassivo, mais semelhante
a um avô do que a um pai, mas mais semelhante ainda a uma velha, trôpega avó.
E se sentou murcho em seu canto, perto da estufa, queixou- -se de suas
pernas fracas, cansado do mundo, cansado da vontade, e um dia se engasgou em
sua compaixão grande demais”. (Assim falava Zaratustra, Quarta Parte, “Fora de
serviço”).

Sentindo-se mais do que nunca em casa numa máscara ou num estilo


estranho, Nietzsche podia escrever de maneira mais autobiográfica,
satisfazendo a inclinação de dramatizar sua própria situação. Tendo poucos
amigos e menos contato com eles à medida que passava o tempo, sentiu essa
necessidade de modo cada vez mais agudo. Zaratustra herda tanto a solidão
de Nietzsche quanto sua inquietação peripatética:

Sou um andarilho e um escalador de montanhas, disse ele ao seu coração;


não gosto das planícies e não posso ficar sentado tranquilo por muito tempo.
E seja lá o que ainda me venha como destino e vivência - sempre será o de
um andarilho e escalador de montanhas: afinal, só se tem vivências de si mesmo.
Passou o tempo em que ainda me acontecia deparar-me com acasos; e o que
poderia ainda agora ocorrer-me, que já não seja meu!
Está somente voltando para trás, está somente voltando para mim - o meu
próprio eu e o que dele de há muito se achava em terras estranhas, disperso em
meio a todas as coisas e acasos.
E também isto eu sei: encontro-me, agora, diante do meu último cume e
daquele que por mais tempo me foi poupado. Ai de mim, que devo galgar o meu
caminho mais árduo! Ai de mim, que iniciei a minha mais solitária peregrinação!
Mas, quem é do meu feitio não se furta a uma hora destas, a hora que lhe
diz: “Somente agora percorres o teu caminho da grandeza! Cume e abismo -
resolveram-se numa única coisa!’’. (Assim falava Zaratustra, Terceira Parte, “O
andarilho”).

Zaratustra também herda o audacioso masoquismo de Nietzsche. Por


demais empobrecido para pagar acomodações confortáveis ou aquecimento
suficiente no inverno, ele tenta ter o controle de sua má fortuna, lutando
contra si mesmo e contra as forças que parecem hostis.

Eu sou Zaratustra, o sem-Deus: e ainda me cozinho todo acaso em minha


panela. E somente quando ele está bem cozido eu lhe dou boas-vindas, como minha
comida.
E em verdade muito acaso veio a mim como senhor: mas mais
senhorialmente ainda falou-lhe minha vontade - e ali já estava ele, suplicando de
joelhos - suplicando por albergue em mim, e coração, e aduladoramente dizendo:
“Mas vê, ó Zaratustra, como somente um amigo vem a um amigo!”.
Mas o que dizer, quando ninguém tem meus ouvidos! E assim quero clamar
a todos os ventos:
Vós vos tornais cada vez menores, ó gente pequena! Desmoronais, ó
comodistas! Ainda me ireis ao fundo - por vossas muitas pequenas virtudes, por
vossas muitas pequenas omissões, por vossas muitas pequenas resignações.
Fofo demais, indulgente demais: assim é vosso terreno! Mas, para que uma
árvore se torne grande, para isso ela quer lançar ao redor de duros penhascos duras
raízes”. (Assim falava Zaratustra, Terceira Parte, “Da virtude que apequena”).

Zaratustra sente-se enfastiado por aquilo que, em geral, desperta


felicidade.

Que podeis experimentar de mais excelso? A hora do grande desprezo...


A hora em que dizeis: “Que me importa a minha felicidade! Não passa de
miséria, sujeira e mesquinha satisfação”. (Assim falava Zaratustra, Prefácio,
Terceira Seção)
Amo Aqueles que não sabem viver a não ser como os que sucumbem, pois
são os que atravessam. (Assim falava Zaratustra, Prefácio, Quarta Seção).

Essa aparente indiferença à felicidade não põe Nietzsche contra o


físico.

Mas o homem já desperto, o sabedor, diz: “Eu sou todo corpo e nada além
disso; e alma é apenas uma palavra para algo no corpo”...
Atrás de teus pensamentos e sentimentos, meu irmão, está um soberano
poderoso, um sábio desconhecido - chama-se si-mesmo. Mora no teu corpo, é o teu
corpo. (Assim falava Zaratustra, Primeira Parte, “Dos desprezadores do corpo”).

Não há nenhuma dramatização direta da experiência frustrante com


Lou Salomé e Paul Rée, mas Zaratustra adverte seus discípulos contra as
mulheres.

Não é melhor ir parar nas mãos de um assassino do que nos sonhos de uma
mulher libidinosa?
E olhai para esses homens: seus olhos o dizem - nada de melhor conhecem
na terra do que deitar ao lado de uma mulher...
Aconselho-vos a castidade? A castidade é uma virtude em alguns, mas em
muitos quase um vício.
Estes praticam sem dúvida a abstenção; mas a cadela sensualidade olha com
inveja tudo o que fazem...
E com que bons modos sabe a cadela sensualidade mendigar um pedaço de
espírito, quando lhe negam um pedaço de carne! (Assim falava Zaratustra, Primeira
Parte, “Da castidade”)

É claro que não há nenhuma discussão explícita em Assim falava


Zaratustra acerca do elemento autobiográfico na filosofia, mas em Para além
de Bem e Mal Nietzsche escreve:

Aos poucos se evidenciou para mim o que toda grande filosofia foi até o
momento: a autoconfissão de seu autor, uma espécie de memórias involuntárias e
inadvertidas; e também se tornou claro que as intenções morais (ou imorais) de toda
filosofia constituíram sempre o germe a partir do qual cresceu a planta inteira. De
fato, para explicar como surgiram as mais remotas afirmações metafísicas de um
filósofo, é bom (e esperto) perguntar-se sempre antes de tudo: a que moral isto (ele)
quer chegar? Não creio, portanto, que um “impulso ao conhecimento” seja o pai da
filosofia, mas sim que um outro impulso, nesse ponto e em outros, se tenha
utilizado do conhecimento (e do desconhecimento) como um simples instrumento.
Quem observar os impulsos básicos do homem, para examinar até que ponto eles
aqui gostaram de fazer seu jogo como gênios inspiradores (ou demônios ou
duendes), verá que todos eles já fizeram alguma vez filosofia - e que cada um deles
bem gostaria de apresentar-se como o objetivo último da existência e senhor
legítimo de todos os outros impulsos. Pois todo impulso busca dominar e, enquanto
impulso, procura filosofar... No filósofo, pelo contrário, nada é impessoal; e
particularmente a sua moral dá um decidido e decisivo testemunho de quem ele é -
ou seja, da hierarquia em que se dispõem os impulsos mais íntimos da sua natureza.
(Para além de Bem e Mal § 6)

Ele também diz, em Para além de Bem e Mal, que "o tipo e o grau da
sexualidade de um homem atingem os cumes mais altos do espírito” (§75).
Mas, em Assim falava Zaratustra, as generalizações acerca das mulheres e da
sexualidade parecem, com frequência, impróprias - azedadas pela ferida que
Lou causou em Nietzsche. “Duas espécies de coisas quer o verdadeiro
homem: perigo e divertimento. Quer por isso a mulher, como o mais perigoso
brinquedo.” “Vais ter com as mulheres? Não esqueças o chicote!” (Assim
falava Zaratustra, Primeira Parte, “Das mulheres velhas e jovens”).
Aventurando-se tão longe de todas as velhas normas, Nietzsche estava
levando seus poderes de raciocinar para a zona de perigo, onde a loucura
poderia surpreendê-lo. Intimidado, tentou acomodar sua ansiedade na
narrativa. “Escreve com sangue, e experienciarás que sangue é espírito ...
Aprendi a caminhar; desde então, deixo-me correr. Aprendi a voar; desde
então, não quero que me empurrem” (Assim falava Zaratustra, Primeira
Parte, “Do ler e escrever”). “Eu vos digo: é preciso ter ainda caos dentro de
si, para poder dar à luz uma estrela dançante” (Assim falava Zaratustra,
Prefácio, Quinta Seção).
Numa das seções, um bufão segue um saltimbanco sobre uma corda e
salta por cima dele, fazendo-o perder o equilíbrio e cair. O incidente causa
perplexidade, mas uma interpretação é sugerida quando Zaratustra diz que,
enquanto houver muitas maneiras de se superar a si mesmo, só um bufão
tentará pular por cima do Homem. Outra consiste nisto: Nietzsche está
contando com a personagem que criou, Zaratustra, para salvá-lo da perda de
equilíbrio. Numa carta sobre os poemas ou “canções de Dioniso” que está
escrevendo, chama-os de “a última forma de minha loucura”.
Mas ele não quer mais os seus pés para estar prosaicamente no solo:
“Quero fazer coisas tão árduas para mim quanto jamais foram para alguém; é
apenas sob essa pressão que tenho uma consciência clara o bastante de
possuir o que poucos homens têm ou alguma vez tiveram - a bem dizer,
asas”.
Seu apetite pela auto superação é insaciável. “E este segredo a própria
vida me contou: “vê”, falava ela, “eu sou o que sempre deve superar-se a si
mesmo”... E, em verdade, onde há declínio e cair de folhas, sim, é ali que a
vida se sacrifica - por potência!” (Assim falava Zaratustra, Segunda Parte,
“Da superação de si”). Apanhado no fogo cruzado da batalha de Nietzsche
contra si mesmo, o leitor não tem como ignorar a advertência: “E tu também,
que buscas o conhecimento, és apenas uma senda e uma pegada da minha
vontade; em verdade, a minha vontade de potência caminha com os pés da
tua vontade de conhecer a verdade” (Assim falava Zaratustra, Segunda Parte,
“Da superação de si”).
Tendo emprestado a sua voz a um louco que anuncia a morte de Deus,
Nietzsche agora usa Zaratustra para introduzir o conceito de além-do-homem
(Übermensch). Trata-se de sugerir que se pode realizar mais completamente o
potencial humano. Traduzido de forma equivocada por “super-homem”, a
palavra Übermensch confundiu muitos leitores, que perderam de vista a
perspectiva darwinista sob a qual Nietzsche escrevia. Schopenhauer havia
sugerido que os maiores homens formavam “uma espécie de ponte sobre o
rio turbulento do vir-a-ser”; e, em 1873, quase dez anos antes de começar
Assim falava Zaratustra, Nietzsche escrevia: “O objetivo da humanidade não
pode estar em seu fim, mas apenas em seus exemplares mais elevados” (Da
utilidade e desvantagem da história para a vida).
Acreditando que a qualidade de vida se aprimorava constantemente,
ele creditava o fato aos homens notáveis de cada geração. Por volta de 1883,
tornou-se menos otimista, mas, para ele, a ideia de além-do-homem já estava
tão clara que a única definição que forneceu foi negativa e indireta - baseada
na vaga expressão “demasiado humano”: “Em verdade, também o maior (dos
homens) achei - demasiado humano” (Assim falava Zaratustra, Segunda
Parte, “Dos sacerdotes”). Aquilo de que a humanidade precisa é de homens
que farão mais ao usar a dialética do conflito e da auto superação que culmina
na autotranscedência. Aqueles com força suficiente, diz Zaratustra, deveriam
imitar as virtudes de uma coluna de mármore, que se torna mais fina, mais
branda e internamente mais dura à medida que sobe. Aqueles que são
elevados se tornarão belos e estremecerão com desejos iguais aos dos deuses,
sendo a sua vaidade imbuída de adoração.
Depois de concluir Assim falava Zaratustra em 1885, com quarenta
anos, Nietzsche nunca mais manteve um papel por tanto tempo. Pode-se dizer
que, ao adotar tantas vozes e estilos, ele estava flertando com a loucura, mas
pode-se igualmente sustentar que sem essas vozes ele não poderia ter mantido
a loucura à distância durante tanto tempo. A maior parte dos escritores pensa
que sabe o que quer dizer quando diz “eu”; mais sofisticado e menos
superficial, Nietzsche era mais vulnerável, embora não enfrentasse o perigo
até escrever Para além de Bem e Mal: prelúdio a uma filosofia do porvir, que
começou no verão de 1885 e concluiu no início de 1886.
Ciente de que não se acharia mais protegido por uma máscara, ele
decidiu enfrentar todas as implicações do que havia escrito em 1873 sobre a
impossibilidade de usar as palavras para dizer a verdade. Durante treze anos,
passando ao largo de muitas das saídas, jamais abandonou a fantasia de que
um filósofo poderia permanecer à tona agarrando-se a um mastro de
objetividade. Religioso por temperamento e inclinado a acreditar na redenção
(se não pela fé, pelo menos pelas obras literárias), Nietzsche fracassou em
quebrar o hábito sancionado por mais de dois mil anos de filosofar - o hábito
de adorar a verdade. A auto superação que esperava realizar no novo livro é
sugerida no primeiro parágrafo com uma pergunta austera, que
provavelmente jamais tinha sido colocada: qual é o valor da vontade de
verdade? Por que não deveríamos preferir a inverdade ou a incerteza ou a
ignorância? A resposta é que, de fato, preferimos. Nosso instinto de
autopreservação ensina-nos a ser superficiais.
Designando-se um iniciado de Dioniso, Nietzsche expõe “a filosofia
desse deus”, que com frequência pensa em como ajudar o homem a ir adiante
“e fazê-lo mais forte, mais perverso e mais profundo do que é”. (O cinismo
contrabalança o sentimentalismo de acreditar numa divindade benevolente).
Dando-se conta de que havia ignorado as premissas de que partira em seu
ensaio sobre a verdade e a falsidade, Nietzsche retoma a tese sobre a
impossibilidade de referir-se com exatidão à realidade exterior. A maior parte
do pensamento consciente tem de ser descontínua como uma atividade
instintiva; falsificação é a condição de nossa existência.
Como podemos nos sentir confiantes em fazer um enunciado? Quem
está a fazê-lo? Como é possível dizer “eu penso” ou “eu quero”? Descartes
ignorou o corpo, quando disse: “Penso, logo existo”; e fracassou ao responder
as questões metafísicas que levantou.

De onde tiro o conceito de pensar? Por que acredito em causa e efeito? O


que me dá o direito de falar de um eu, e até mesmo de um eu como causa e, afinal,
ainda de um eu como causa de pensamentos? ... O povo que acredite que conhecer é
um conhecer- -final; o filósofo tem de dizer a si mesmo: se eu decomponho o
processo que está expresso na proposição “eu penso”, obtenho uma série de
afirmações temerárias, cuja fundamentação é difícil, talvez impossível - por
exemplo, que sou eu quem pensa, que em geral tem de haver algo que pensa, que
pensar é uma atividade e efeito da parte de uma essência que é pensada como causa,
que há um “eu”, e, enfim, que já está estabelecido firmemente o que se deve
designar como pensar - que eu sei o que é pensar. Pois, se eu já não tivesse
decidido sobre isso comigo mesmo, em que me basearia para distinguir se o que
acaba de acontecer não é, talvez, “querer” ou “sentir”? Basta dizer que aquele “eu
penso” pressupõe que eu compare meu estado no instante com outros estados que
conheço em mim, para assim estabelecer o que ele é... (Para além de Bem e Mal, §
16).

...é um falseamento da realidade efetiva dizer: o sujeito “eu” é a


condição do predicado “penso” ... Um pensamento vem quando “ele” quer, e
não quando “eu” quero... Pensa-se, mas que este “se” seja precisamente o
velho e decantado “eu” é, na melhor das hipóteses, apenas uma suposição.
(,Para além de Bem e Mal, § 17)
Apresentando o pensamento como nada além de uma relação entre
vários impulsos, Nietzsche tinha de pintar-se num estado de dispersão
dionisíaca.
Dioniso era o deus das máscaras (ou personae) e, para falar através
delas, Nietzsche precisava de uma variedade de vozes. Sem uma máscara,
não se tem nenhum rosto para apresentar; e é somente através das máscaras
que se pode falar bem alto o que se aprendeu. Jamais se pode remover a
máscara, a menos que exista uma outra máscara atrás dela; e escrevemos
livros não para revelar mas para esconder o que está em nós. Pode um
filósofo alguma vez ter opiniões “últimas e próprias”?

Quem, entra ano, sai ano, e de dia e de noite, sentou-se a sós com sua alma
em confidencial duelo e diálogo, quem em sua caverna - pode ser um labirinto, mas
também uma jazida de ouro - se tornou urso de cavernas ou cavador de tesouro ou
vigia de tesouro e dragão: seus próprios conceitos acabam por conter uma cor
própria de lusco-fusco, um odor de profundeza como de mofo, algo de
incomunicável e renitente, que sopra frio em todo aquele que passa. O ermitão não
acredita que um filósofo - suposto que um filósofo sempre foi primeiro um ermitão
- tenha jamais expresso suas próprias e últimas opiniões em livros: não se escrevem
livros, precisamente, para se resguardar o que se guarda em si? - ele até duvidará se
um filósofo pode, em geral, ter opiniões “últimas e próprias”, se nele, por trás de
cada caverna, não jaz, não tem de jazer uma caverna ainda mais profunda, um
modo mais vasto, mais alheio, mais rico, além de uma superfície, um sem-fundo
por trás de cada fundo, por trás de cada “fundamento”. Cada filosofia é uma
filosofia de fachada - eis aí um juízo ermitão: “Há algo de arbitrário se aqui ele se
deteve, olhou para trás, olhou em torno de si, se aqui ele não cavou mais fundo e
pôs de lado a enxada - há também algo de desconfiado nisso”. Cada filosofia
esconde também uma filosofia; cada opinião é também um esconderijo, cada
palavra também uma máscara. (Para além de Bem e Mal, § 289)

Aqui Nietzsche não tenta disfarçar a sua voz ou usar qualquer máscara
a não ser a inevitável máscara do “filósofo”. Mas filosofar é engajar-se numa
atividade didática; e é questionável se isto pode ser feito sem uma máscara ou
uma plataforma de identidade estável.
Conduzindo-se sem máscaras ou vozes, Nietzsche encontra-se em
grande perigo de contradizer-se e produzir temas prosaicos para mudanças
perceptíveis na temperatura emocional. Sua escrita tende a tornar-se mais
retórica à medida que mais libido se acha envolvida. Embora seu hábito de
estruturar os livros em sequências relativamente curtas em geral evite a
necessidade de sustentar longos argumentos filosóficos, ele tende a divagar
ou a mudar engrenagens emocionais quando se estimula a cólera ou a
admiração. O tom está longe de ser neutro quando escreve a propósito da
besta loira.

Supondo que fosse verdadeiro o que agora se crê como “verdade”, que
mesmo o sentido de toda cultura seja fazer do animal de presa “homem” um
animal manso e civilizado, amestrá-lo num animal doméstico, então se deveria
tomar todos aqueles instintos de reação e ressentimento, com cujo auxílio foram
finalmente liquidadas e vencidas as estirpes nobres junto com os seus ideais, como
os autênticos instrumentos da cultura; com o que não se estaria dizendo, no
entanto, que os seus depositários representem eles mesmos a cultura. O contrário é
que seria não apenas provável - não! hoje é palpável1. Os depositários dos instintos
depressores e sedentos de desforra, os descendentes de toda escravatura europeia e
não-europeia e, em especial, de toda população pré-ariana - eles representam o
retrocesso da humanidade! Esses “instrumentos da cultura” são uma vergonha para
o homem e, na verdade, uma acusação, um argumento contrário à “cultura”! Pode-
se ter toda razão, quando se guarda temor e se mantém em guarda contra a besta
loira que existe no fundo de toda raça nobre; mas quem não preferiria mil vezes
temer e poder ao mesmo tempo admirar a não temer e ao mesmo tempo não mais
poder livrar-se da visão asquerosa dos malogrados, atrofiados, deformados,
envenenados? E este não é o nosso destino? O que constitui hoje nossa aversão
contra o “homem”? - pois nós sofremos do homem, não há dúvida, (Para a
genealogia da moral, Primeira Dissertação, § 11)

Henry Staten, que bem sabe assinalar e interpretar mudanças


involuntárias de tom, observou quão veemente Nietzsche se torna ao discutir
o tipo que ele denomina o sacerdote aristocrata. No livro Para a genealogia
da moral, de 1887, seu interesse na evolução desse tipo exerce “uma pressão
que leva a sua prosa para aquilo que não é uma narração progressiva mas
uma oscilação, num padrão parecido com o que Derrida observa em Para
além do princípio do prazer, de Freud. Pois, o objeto pelo qual Nietzsche se
sente fascinado, o objeto que ele continuamente atrai e então repele, a
vontade ascética, já está inteiramente presente no sacerdote aristocrata com
que Nietzsche começa o seu relato, e todas as suas narrativas de
desenvolvimento progressivo entretecem-se em torno das pulsações de seu
fascínio e rejeição pelo objeto”.
Preocupado com o desenvolvimento de bem e mal como conceitos, o
livro Para a genealogia da moral consiste em três dissertações. A primeira
versa sobre a diferença entre “ruim” e "mau” e sobre os sentidos
contrastantes de “bom” na moralidade dos senhores e na dos escravos.
Nietzsche subverte a suposição a-histórica dos “psicólogos ingleses”,
segundo a qual a ideia de bondade se originou com aqueles que se
beneficiaram de ações altruístas. A evolução da linguagem foi determinada
por grupos dominantes, que usaram a sua prerrogativa de dar nomes para
glorificar a si mesmos e a suas qualidades, enquanto denegriam as de outros
grupos.
“Bom” era sinônimo de “nobre”, “mau” de plebeu. Em Homero, os
heróis são sempre nobres, os plebeus sempre fracos, desprezíveis e astutos. A
associação do “que é de ascendência nobre” com magnânimo e do “que é de
origem humilde” com vil ainda sobrevive na maior parte das línguas.
Voltando-se para a emergência da casta sacerdotal, Nietzsche sugere
que a sua ênfase na limpeza converteu a abstinência em virtude. As várias
cobiças - por poder, conquista, sexo, vingança - todas acabaram por parecer
perigosas e o homem assemelhou-se a um animal interessante, porque tinha
uma oportunidade que não fora proporcionada a nenhuma das outras bestas
predatórias: ele podia pecar. Enquanto os valores dos líderes guerreiros
pressupunham um interesse saudável em lutar, caçar, aventurar-se e dançar, a
realização dos sacerdotes consistia em envenenar a corrente sanguínea: a
moralidade judaico-cristã era uma moralidade escrava, consequência de uma
revolução ética alimentada pelo ressentimento - “o ressentimento de seres
tais, aos quais está vedada a reação propriamente dita, o ato, e que somente
por uma vingança imaginária ficam quites” (Para a genealogia da moral,
Primeira Dissertação, § 10). Os fracos podem sentir-se superiores aos fortes,
condoendo-se por aquilo que estes sofrerão no inferno.
Embora o sacerdote e o escravo estejam igualmente inclinados a esse
ressentimento, Nietzsche é ambivalente quanto aos sacerdotes e à espécie de
ressentimento que instilam. Intitulada “Culpa, má consciência e companhia”,
a segunda dissertação explica a má consciência como a doença que a
humanidade teve de contrair, quando, passando por uma transformação
fundamental, se viu constrangida pela sociedade e pela paz. Instintos que não
puderam descarregar-se tiveram de voltar-se para dentro, enquanto “o inteiro
mundo interior, originariamente delgado como algo retesado entre duas peles,
separou-se e aumentou, adquiriu profundeza, largura, altura, na medida em
que a descarga do homem para fora foi obstruída" (Para a genealogia da
moral, Segunda Dissertação, § 16).
Esse instinto de liberdade tornado latente à força - já compreendemos esse
instinto de liberdade reprimido, recuado, encarcerado no íntimo e, por fim, capaz de
aliviar-se apenas contra si mesmo: isto, apenas isto foi em seus começos a má
consciência. (Para a genealogia da moral, Segunda Dissertação, § 17)
Guarde-se de fazer pouco caso desse fenômeno, simplesmente porque já é
desde o início feio e doloroso. No fundo é a mesma força ativa, que se põe à obra
grandiosamente naqueles organizadores e artistas da violência e constrói Estados,
que aqui, interiormente, em escala menor e mais mesquinha, dirigida para trás, no
“labirinto do peito”, para falar com Goethe, cria a má-consciência e constrói ideais
negativos; é aquele mesmo instinto de liberdade (na minha língua: a vontade de
potência); somente que a matéria em que se extravasa a natureza conformadora e
violentadora dessa força é aqui o homem mesmo, o seu inteiro e velho si-mesmo
animal - e não, como naquele fenômeno maior e mais evidente, o outro homem, os
outros homens. Essa secreta autoviolentação, essa crueldade de artista, esse prazer
em dar uma forma a si mesmo, como a uma matéria difícil, resistente, sofredora, em
impor-se uma vontade, uma crítica, uma contradição, um desprezo, um Não, esse
inquietante e horrivelmente prazeroso trabalho de uma alma voluntariamente
dividida, que a si mesma faz sofrer, por prazer em fazer sofrer, essa inteira “má
consciência” ativa - já se percebe - como o verdadeiro ventre de acontecimentos
ideais e imaginosos... (Para a genealogia da moral, Segunda Dissertação, § 18).

O argumento é confuso se negarmos a Nietzsche o direito de


contradizer-se. Inferior a seus senhores, o padre ascético veio a ser atacado,
porque seus instintos estavam enraizados em algo doentio e porque ele tornou
as massas doentes ainda mais doentes à medida que seus maus instintos se
consolidaram em autodisciplina. Mas a autodisciplina era benéfica para um
animal doente tal como o homem, cuja

inquieta energia não lhe dá sossego, fazendo seu futuro entrar como uma
espora na carne de cada presente - como não deveria um animal tão corajoso e rico
ser também o mais comprometido, o mais profunda e desesperadamente doente de
todos os animais? (Para a genealogia da moral, Terceira Dissertação, § 13).

Embora tenha remetido o ascetismo à degeneração, Nietzsche regozija-


se com a “energia incansável” que impulsiona a humanidade em direção ao
futuro. Apesar de si mesmo, admira a vontade que faz sofrer a si mesma a fim
de recriar-se.
Mas não vem muito ao caso censurar Nietzsche por inconsistência ou
por zombar da lei de não-contradição que ele menosprezava. Uma de suas
realizações consistiu em mostrar que o valor dela era limitado. Seus ataques à
linguagem e à lógica foram lançados de modo mais convincente na obra que
não chegou a publicar. Suas formulações de 1886-1887 não divergem
substancialmente das do ensaio de 1873, exceto por abandonarem a distinção
que ele havia estabelecido entre conceitos e consciência intuitiva. Embora se
refira com frequência - como faria um empirista - à evidência dos sentidos,
para ele

o contrário do mundo fenomênico não é “o mundo verdadeiro”, mas o


mundo sem forma, informulável, do caos das sensações portanto, uma outra
espécie de mundo fenomênico, “incognoscível” para nós. (Fragmento Póstumo (64)
9 [106] do outono de 1887)
O mundo fictício do sujeito, substância, “razão” etc. é necessário ...
“Verdade” é a vontade de tornar-se senhor sobre a pluralidade das sensações
...Tomamos os fenômenos como reais. (Fragmento póstumo (64) 9 [89] do outono
de 1887).

Por ser indescritível, o caráter de um mundo num estado de fluxo pode


parecer falso ou autocontraditório. Se a linguagem e a lógica só são capazes
de cobrir um mundo fictício, onde tudo permanece estático, então a lei de
não- -contradição não pode obrigar-nos mais do que, por exemplo, a regra de
três.

O interdito conceitual da contradição procede da crença... de que o conceito


não só define o verdadeiro de uma coisa, mas a apreende... A lógica é uma tentativa
de apreender o mundo efetivo segundo um esquema do ser por nós estabelecido.
(Fragmento póstumo (67) 9 [97] do outono de 1887).

Quase não há dúvida de que Nietzsche esteve louco durante os últimos


doze anos de sua curta vida (1844-1900), mas é impossível ter certeza sobre
quando ficou louco. Nem mesmo é fácil dizer quando se defrontou pela
primeira vez com a perspectiva da loucura. Seu amigo Franz Overbeck
pensava que ele estivera “vivendo o seu caminho em direção” ao colapso
final. E, na Universidade da Basiléia, quando tinha 25 anos, Nietzsche
escreveu:

O que me amedronta não é a forma aterrorizadora atrás da minha cadeira


mas a sua voz; portanto, não são as palavras, mas o tom, que se identifica como
inarticulado e inumano, dessa forma. Sim, se pelo menos ela pudesse falar como os
seres humanos falam. (Anotações dos anos 1868-1869).
Este afloramento de linguagem ilusória é isolado, mas a ênfase na voz
é significativa, uma vez que as ideias de divisão, dispersão, desintegração
eram básicas para os seus hábitos mentais. Ele tentava não pensar em termos
de indivíduos mas de forças. A identidade estável do eu desaparece, e o livro
que ele começou em 1880, Aurora, sustenta que, mesmo durante o período
pré-cristão, a convenção fora tão implacavelmente opressiva que a loucura
fora um fator na história da moralidade.

“Através da loucura vieram os maiores bens à Grécia”, disse Platão com


toda a velha humanidade... Para todos aqueles homens superiores, que foram
irresistivelmente impulsionados a quebrar o jugo de toda convenção e fazer novas
leis, não havia alternativa, se não eram realmente loucos, a não ser fazerem-se de
loucos. (Aurora, § 14).

Se não fossem corajosos o bastante para assim fingirem, tinham de


incitar a isso; e a receita que Nietzsche jocosa- mente oferece é como um
espelho distorcido que focaliza a rotina de sua própria vida:

excessivo jejum, contínua abstinência sexual, retiro para a solidão, ou


escalar uma montanha ou uma coluna, ou "sentar num antigo salgueiro diante de
um lago”, e pensar resolutamente em nada exceto no que provoca êxtase e
desordem mental.

A pilhéria reforça a suspeita que se pôde pretender atenuar - a de que


havia um elemento de autodestruição no estilo de vida de Nietzsche. A sua
abstinência sexual era, no fundo, involuntária, mas a sua dieta, que era
excêntrica e inadequada, determinava-se menos pela pobreza que pela
autodisciplina masoquista. O conforto físico era menos importante para ele
do que a ambição de ser um dos grandes assassinos da lei. Em todos os
períodos, sustenta, os homens mais criativos foram os que mais sofreram e,
assombrados pela lei que assassinaram, ansiaram pelo delírio que lhes
permitiria pensarem-se acima dela. São Paulo foi um desses assassinos da lei;
e a denúncia que Nietzsche faz dele baseia-se, pelo menos em parte, na
simpatia, assim como mais tarde, quando escreve sobre a morte de Deus, está
pensando na morte da lei divina e sentindo remorso por ter sido um dos
assassinos.
Mas ser um legislador é ser um líder, e mesmo quando estava falando
pela boca do profeta que inventou, Zaratustra, Nietzsche tinha temores, que
passava diretamente para Zaratustra.
Conheceis o pavor de quem adormece?
Até os dedos dos pés apavora-se de que o solo fuja debaixo dele e o sonho
comece.
Eu vos digo isso por imagens. Ontem, na hora mais silenciosa, o solo fugiu
debaixo de mim: o sonho começou.
O ponteiro avançava, o relógio da minha vida respirava - nunca ouvi tal
silêncio a meu redor: a tal ponto que o meu coração se assustou.
Depois, falaram-me sem voz: “Tu o sabes, Zaratustra?”
A esse murmúrio, gritei de medo e o sangue fugiu-me do rosto; mas fiquei
calado.
Então, voltaram a falar-me sem voz: “Tu o sabes, Zaratustra, mas não o
dizes!”
E eu, por fim, respondi, teimoso: “Sim, eu sei, mas não quero dizê-lo!” ...
Então, voltaram a falar-me sem voz: “Que sabes disso? O rocio cai sobre as
ervas quando a noite mais se cala”.
E eu respondi: “Eles zombaram de mim, quando encontrei o meu próprio
caminho e comecei a caminhar; e, em verdade, então, tremeram-me os pés”.
E falaram-me assim: “Desaprendeste o caminho e, agora, desaprendes,
também, a caminhar!”.
Então, voltaram a falar-me sem voz: “Que importância têm suas zombarias!
Es alguém que desaprendeu a obedecer; deves agora ordenar!
Não sabes quem é aquele de que todos mais necessitam? Quem ordena algo
grande.
Realizar algo grande é difícil; mas o mais difícil é ordenar algo grande.
É isto o mais imperdoável em ti: tens o poder e não queres dominar”.
E eu respondi: “Para ordenar, falta-me a voz do leão”.
Então, voltaram a falar-me como num sussurro: “As palavras mais quietas
são as que trazem a tempestade, pensamentos que vêm com pés de pomba dirigem
o mundo.
O Zaratustra, deves caminhar como a sombra daquilo que tem de vir: assim
ordenarás e, ordenando, caminharás à frente de todos”.
E eu respondi: “Tenho vergonha”.
Então, voltaram a falar-me sem voz: “Ainda tens de tornar-te criança e não
sentires vergonha.
O orgulho da juventude ainda tens em ti, tarde te tornaste jovem; mas quem
quer tornar-se criança tem de superar, também, a sua juventude”.
E eu refleti longamente e tremi. Mas, por fim, disse o que dissera no início:
“Eu não quero”.
Então, aconteceu uma risada a meu redor. Ai, como essa risada me rasgava
as entranhas e dilacerava o coração!
E voltaram a falar-me, pela última vez: “Ó Zaratustra, os teus frutos estão
maduros, mas tu não estás maduro para os teus frutos!
Assim tens de voltar novamente para a solidão: porque ainda deves
sazonar”. (Assim falava Zaratustra, Segunda Parte, “A hora mais silenciosa”).

Um dos luxos que Zaratustra ofereceu a Nietzsche foi a oportunidade


de imaginar que tinha discípulos e uma audiência para a sua pregação. Ele
podia até entreter fantasias de prepará-los para o combate.

Meus irmãos na guerra! Eu vos amo de todo o coração, sou e fui vosso
igual. E sou, também, o vosso melhor inimigo. Deixai, pois, que vos diga a
verdade!
Eu sei do ódio e da inveja do vosso coração. Não sois bastante grandes para
não conhecer ódio e inveja. Sede bastante grandes, pois, para não envergonhar-vos
de vós mesmos!
E, se não podeis ser santos do conhecimento, sede, ao menos, seus
guerreiros. São estes os companheiros e precursores de tal santidade.
Vejo muitos soldados; gostaria de ver muitos guerreiros! “Uniforme”
chama-se a roupa que trajam: oxalá não seja uniforme o que com ela escondem!
Deveis ser aqueles cujos olhos estão sempre à procura de um inimigo - do
vosso inimigo. E em alguns de vós nasce um ódio logo ao primeiro olhar.
Deveis procurar o vosso inimigo, deveis fazer a vossa guerra e fazê-la por
vossos pensamentos! E, se o vosso pensamento for vencido, deve a vossa retidão
lançar ainda assim um grito de vitória!
Deveis amar a paz como meio para novas guerras. E a paz curta mais que a
longa.
A vós não aconselho o trabalho, mas a luta. A vós não aconselho a paz, mas
a vitória. Que o vosso trabalho seja uma luta e a vossa paz, uma vitória!
Só se pode ficar calado e tranquilo quando se tem arco e flecha: do
contrário, vive-se em ociosas conversas e desavenças. Que a vossa paz seja uma
vitória!
Dizeis que a boa causa santifica até a guerra? Eu vos digo: a boa guerra
santifica qualquer causa. (Assim falava Zaratustra, Primeira Parte, “Da guerra e
dos guerreiros”).

Mas Nietzsche não tinha discípulos e só uma pequena audiência para


os seus livros. O isolamento estava agindo como um veneno lento em sua
sanidade, mas foi apenas na fase final de seu trabalho que ilusões de grandeza
foram seriamente prejudiciais.
Não havia nada de patológico no fato de ele dar-se conta de que, num
mundo sem-Deus, a humanidade precisaria de uma nova moralidade, mas era
insano pensar que isso podia ser provido in toto por um único filósofo. Em 3
de setembro de 1888, Nietzsche escreveu o que pretendia ser o prefácio do
primeiro volume de sua Transvaloração de todos os valores - “talvez o mais
orgulhoso prefácio já escrito”.

Este livro pertence a poucos. Talvez nenhum deles viva ainda. Podem ser
aqueles que compreendem o meu Zaratustra: como eu poderia confundir-me com
aqueles para os quais já existem hoje ouvidos? E somente o depois de amanhã que
me pertence. Alguns homens nascem póstumos... (O Anticristo, Prefácio).
Dentre os pré-requisitos para compreendê-lo estava o hábito das
altitudes das montanhas e de

ver abaixo de si a lamentável tagarelice sobre política e interesse nacional...


Uma predileção do forte por questões para as quais ninguém tem hoje coragem, a
coragem para o proibido... Uma nova consciência para verdades que até então
permaneceram caladas... Reverência por si mesmo, amor a si mesmo, liberdade
incondicional contra si mesmo. (O Anticristo, Prefácio).

Numa carta a um amigo, ele anunciou que assim que o livro fosse lido
e compreendido

ele cortará em duas metades a história da humanidade ... Muito do que foi
livre não mais será livre: o domínio da tolerância reduz- se, por juízos de valor de
primeira importância, a mera covardia e fraqueza de caráter. Ser cristão - estou
mencionando apenas uma consequência - será doravante indecente. Uma grande
parte disto, a mais radical subversão que a humanidade já conheceu, está a caminho
dentro de mim. (Carta a Paul Deussen de 14 de setembro de 1888).

Em vez de aventurar-se numa transvaloração de todos os valores, o


livro que se segue a esse orgulhoso prefácio, O Anticristo, reitera pontos que
Nietzsche já salientara sobre poder, fraqueza, decadência, compaixão e a
moralidade judaico-cristã. Mas ele já era incapaz de autocrítica. O livro
estava meio concluído quando declarou:

Ele possui uma energia e transparência que talvez nunca tenham sido
alcançadas por um filósofo. Tudo se passa como se de repente eu tivesse aprendido
a escrever ... A obra atravessa com firmeza os séculos. Aposto que tudo o que foi
dito ou pensado como crítica do cristianismo é, em comparação, pura infantilidade.
(Carta a Franz Overbeck de setembro de 1888).

Ilusões de grandeza tornavam Nietzsche peremptório com os seus


amigos. A um deles, que expressou diplomaticamente suas divergências em
relação ao panfleto O caso Wagner, ele escreveu:

Não há coisa alguma, sobre a qual eu admita oposição. Sou, em questão de


décadence, a mais alta instância que já existiu sobre a Terra. A humanidade de
hoje, com seus instintos miseravelmente viciados, deveria considerar-se com sorte
por ter alguém que pode verter vinho puro. (Carta a Malwida von Meysenbug de 18
de outubro de 1888).
As estratégias que adotava para alcançar a autossuficiência tornavam-
se cada vez mais desesperadas. Sozinho no dia de seu quadragésimo quarto
aniversário, ele festejou começando o livro Ecce Homo.

Na antevisão de que dentro em breve terei de me apresentar à humanidade


com a mais difícil exigência que jamais lhe foi feita, parece-me indispensável dizer
quem sou eu ...A desproporção, porém, entre a grandeza de minha tarefa e a
pequenez de meus contemporâneos, alcançou sua expressão no fato de que nem me
ouviram, nem sequer me viram. (Ecce Homo, Prólogo, § 1).

Ele continua a elogiar Assim falava Zaratustra como o livro mais


elevado e mais profundo que existe,

um poço inesgotável, em que não desce nenhum balde sem voltar cheio de
ouro e bondade ... É um privilégio sem igual ser ouvinte aqui. (Ecce Homo,
Prólogo, § 1).
Não foi em vão que enterrei hoje meu quadragésimo quarto ano, eu podia
enterrá-lo - o que nele era vida está salvo, é imortal. (Ecce Homo, Abertura).

Títulos de capítulos tais como “Por que sou tão sábio” e “Por que
escrevo livros tão bons” dificilmente deixam de irritar, mas o capítulo final,
“Por que sou um destino”, olha de modo impressionante para o futuro.
Embora não seja niilista, Nietzsche disso se aproxima ao encarar as
consequências de seu desejo de aniquilar a mediocridade, uma vez que
grande parte da humanidade é irremediavelmente medíocre. O que acontecerá
agora que ele destruiu a tábua de salvação que o judaísmo e o cristianismo
mantinham?

Um dia, ao meu nome estará ligada a lembrança de algo tremendo - de uma


crise como jamais houve sobre a Terra, da mais profunda colisão de consciências,
de uma decisão conjurada contra tudo o que até então foi acreditado, exigido,
santificado. Eu não sou um homem, sou dinamite... Pois quando a verdade sair em
luta contra a mentira de milênios, teremos comoções, um espasmo de terremotos,
um deslocamento de montes e vales como jamais foi sonhado... O conceito de
política estará então completamente dissolvido em uma guerra dos espíritos, todas
as formações de potência da velha sociedade explodirão pelos ares - todas se
baseiam inteiramente na mentira: haverá guerras como ainda não houve sobre a
Terra. (Ecce Homo, Por que sou um destino, § 1).

Ele chega a ponto de confundir imagens mentais e atividade literária


com acontecimentos exteriores. Dez dias depois de terminar esse capítulo,
escreve:

Considerando o que escrevi entre 3 de setembro e 4 de novembro, receio


que possa haver em breve um pequeno terremoto ... Há dois anos, quando estava
em Nice, lá ocorreu de modo apropriado. De fato, ontem o relatório do observatório
mencionou um pequeno tremor. (Carta a Meta von Salis de 14 de novembro de
1888).

Por volta de dezembro, estava maniacamente confiante de que nada


existia além de seus poderes.

As tarefas mais inauditas são fáceis como um jogo; minha saúde, como o tempo,
está melhorando a cada dia com firmeza e ilimitado fulgor... O mundo ficará de ponta-
cabeça nos próximos anos: depois que o velho Deus abdicou, doravante governarei o
mundo. (Carta a Carl Fuchs de 11 de dezembro de 1888).

Não tendo mais controle de redação sobre as declarações feitas pelas


vozes em sua cabeça, Nietzsche não podia mais estar certo de sua identidade.
As últimas de suas cartas assinadas com o seu próprio nome foram escritas
para o dramaturgo sueco August Strindberg no final do ano: "Eu ordenei uma
convocação de príncipes em Roma. Quero que o jovem Cáiser seja fuzilado”.
A assinatura era “Nietzsche- -César”. Agora poderíamos dizer dele o que
Jung dizia de sua prima espiritualista: elementos reprimidos irromperam em
alucinações como se fossem personalidades independentes.
Enviando a Nietzsche uma carta inteiramente escrita em grego e latim,
Strindberg começou com a citação de um poema anacreôntico - “Eu quero,
quero estar louco”. A carta, que terminava com a frase “Entrementes é uma
alegria estar louco”, estava assinada “Strindberg (Deus, optimus maximus)”.
Na manhã de 3 de janeiro de 1889, Nietzsche viu um condutor de
carruagem bater em seu cavalo numa piazza. Em lágrimas, o filósofo lançou
seus braços ao redor do pescoço do animal e desmaiou. Bem depois, levado a
um hospício, pensou que a viúva de Wagner, Cosima, o trouxera lá.
Denominando-se ora o Duque de Cumberland ora o Cáiser, ele estava
confuso quanto à sua identidade; e certa vez disse: “Eu fui Friedrich Wilhelm
IV pela última vez”. Por vezes, falava francês com os outros pacientes e
pensava que o chefe da segurança era Bismarck.
Três das cartas que Nietzsche escreveu no início de janeiro de 1889
estão assinadas “Dioniso” e três, assinadas “O Crucificado”. Escreveu para o
rei da Itália, dirigindo-se a ele como “Meu querido Umberto” e para o
secretário do Estado do Vaticano. Numa outra carta, dizia:

O mundo está transfigurado, pois Deus está na Terra. O senhor não vê como
os céus se regozijam? Acabei de tomar posse do meu reino, estou pondo o Papa na
prisão e fuzilando Wilhelm, Bismarck e Stöcker. (Carta a Meta von Salis de 3 de
janeiro de 1889).

Numa carta que postou em 5 de janeiro, escreveu:

Por fim, preferiria ser professor na Basiléia a ser Deus; mas não ousei levar
tão longe o meu egoísmo privado e, por causa dele, deixar de criar o mundo. Como
o senhor vê, tem-se de fazer sacrifício de qualquer modo e onde quer que se viva ...
- Já que estou condenado a passar a próxima eternidade com piadas ruins, tenho
aqui uma papelada, que de fato nada deixa a desejar - muito agradável e de modo
algum fatigante ... O que é desagradável e ofende a minha modéstia é que, no
fundo, eu sou todos os nomes na história; também com as crianças, que eu pus no
mundo, é de tal modo que pondero com alguma desconfiança se todos os que
entram no “reino de Deus” não provêm também de Deus. (Carta a Jacob Burckhardt
datada de 6 de janeiro de 1889, mas postada no dia 5).

Ele teve de sobreviver por mais de onze anos, que despendeu num
estado de apatia. Um músico, Peter Gast, que o visitou em janeiro de 1890,
teve a impressão de que “seu distúrbio mental consiste apenas num
agravamento da excentricidade jocosa que ele estava habituado a fingir no
círculo íntimo dos amigos”, mas, quando Gast o levou para passear, ficou
óbvio que não desejava retomar sua vida pregressa. “Tudo se passava - por
horrível que fosse - como se Nietzsche estivesse apenas fingindo a loucura,
como se estivesse contente por tudo ter terminado dessa maneira”. Isto está
de acordo com as impressões de Franz Overbeck, que chegou em fevereiro.
“Não posso evitar a horrível suspeita ... de que a sua loucura é simulada. Só
se pode explicar essa impressão pelas experiências que tive com as
dissimulações de Nietzsche, com as suas máscaras espirituais”.
Mas ele raramente pronunciava uma sentença coerente. No dia
primeiro de fevereiro, quando Gast chegou com seis doces, Nietzsche disse:
“Não, meu amigo, não quero ficar com dedos pegajosos agora, porque antes
quero tocar um pouco”. E sentou-se ao piano para improvisar. “Nem uma
nota em falso! Entremeando tons da sensibilidade de Tristão... da
profundidade de Beethoven, e canções de júbilo que se sobressaíam. Então,
de novo devaneios e sonhos”. Incapaz ou relutante em usar máscaras ou
vozes, ele ainda podia comunicar-se através da música.
A etiologia de sua doença e sua loucura são problemáticas:
diagnósticos contemporâneos não são confiáveis e é rara a evidência que
ainda se mantém. Embora seu pai sofresse de ataques epiléticos
(provavelmente, do petit mal), não podemos estar certos de que fossem
sifilíticos ou de que as doenças de Nietzsche na infância fossem hereditárias.
Suas enxaquecas talvez se devessem à sinusite, que pode causar um
desconforto persistente e crônico, se não for tratada de modo eficaz;
dificilmente pode ter sido sífilis hereditária que deixou Nietzsche louco ou o
colapso teria ocorrido antes. Em janeiro de 1889, depois do ataque de
loucura, ele disse que se contaminara duas vezes em 1866. Se um médico de
Leipzig diagnosticou doença venérea, provavelmente baseou sua opinião nas
dores e talvez estivesse errado.
Sabemos que Nietzsche foi a um bordel em 1865, mas aparentemente
deixou-o sem tocar em nenhuma das mulheres. Thomas Mann conjecturou
que ele lá voltou, mas isto não parece verossímil. Uma vez que não podemos
estar certos de que a loucura final era sifilítica, não há necessidade de supor
que Nietzsche deva de uma forma ou outra ter-se contaminado com sífilis.
Com exceção de suas próprias afirmações, feitas depois que enlouqueceu,
não há evidência alguma de que nem mesmo tenha feito amor com uma
mulher - ou com um homem.
Não podemos excluir a possibilidade de sífilis cerebral, que pode ter
causado o ataque que ele sofreu em 1898, mas é improvável que as ilusões de
grandeza ou o colapso tenham algo a ver com sífilis. Durante muitos anos,
entre o colapso e o ataque, Nietzsche permaneceu livre da incontinência e de
qualquer paralisia corporal séria, mantendo pelo menos um controle parcial
de sua memória. Sua mãe podia cuidar dele quase sem ajuda, e ele ainda
podia falar sem modulações. Não se pode conciliar nada disso com o
diagnóstico de dementia paralytica. Tampouco posso encontrar qualquer
evidência no boato, que tanto Freud quanto Jung ajudaram a propagar, de que
ele visitou um bordel masculino em Gênova.
Com suas dores de cabeça, perturbação visual, vômitos e loucura, ele
estava sobrevivendo, mais diretamente do que qualquer outro pensador, às
consequências de afastar-se da religião organizada. A relevância de sua
experiência seria a maior das causas de seu colapso, se elas não fossem
orgânicas. Há, frequentemente, um elemento de escolha nos colapsos e um
elemento histriônico na loucura, embora pareça improvável que Nietzsche
estivesse apenas fingindo ou que tivesse chegado a tal ponto só para fugir da
humilhação de ter fracassado em transvalorar todos os valores. Ele antecipou
seu próprio destino num apontamento sobre “o último filósofo”. Sua maneira
de consentir ao esquecimento foi entregar-se ao colapso.
Mas a loucura de Nietzsche não invalida suas realizações filosóficas
nem a exigência que ele faz de nós. Se o seguimos no impasse, não podemos
escapar da maneira como ele escapou. E possível que nos familiarizemos com
a ausência de Deus, mas se perdemos a fé na linguagem e na verdade, como
faremos para nos comunicar? Se perdemos a fé na coerência do eu, como
saberemos quem está pensando quando o fazemos? Mais de um século
transcorreu desde que Nietzsche desafiou as suposições por trás de todas as
nossas convenções, mas não encontramos respostas nem convenções
alternativas.

Notas

1. Embora o autor deste ensaio não utilize a edição crítica das obras completas de
Nietzsche, organizada por Giorgio Colli e Mazzino Montinari, foi a partir dela que
traduzimos todas as citações dos textos e cartas do filósofo aqui presentes (Werke.
Kritische Studienausga.be, 15 volumes, Berlin: Walter de Gruyter & Co., 1967-1978, e
Sàmtliche Briefe. Kritische Studienausgabe, 8 volumes, Berlin: Walter de Gruyter & Co.,
1975-1984). Fruto de um trabalho de fôlego, desenvolvido ao longo de anos com extremo
cuidado e rigor, esta edição crítica tornou-se imprescindível para a pesquisa internacional
acerca da obra de Nietzsche. Seus méritos são inquestionáveis: tornou acessível aos
estudiosos a totalidade dos escritos do filósofo; buscou recuperar os textos de acordo com
os manuscritos originais ordenados cronologicamente; procurou depurar das deformações e
falsificações que sofreram a obra publicada, as anotações inéditas e a correspondência;
incluiu imenso aparato histórico-filológico de valor inestimável. (N. T.)

2. Neste caso, como em muitos outros, optamos por fornecer ao leitor as referências
completas da citação, embora não tivessem sido incluídas pelo autor deste ensaio. (N. T.)

3. Em 1901, Elizabeth Förster-Nietzsche publicou uma obra a que deu o nome de Vontade
de potência. A partir de apontamentos que o filósofo deixou e de um plano que ele seguiu
durante algum tempo, reuniu 483 fragmentos póstumos redigidos entre o outono de 1887 e
os primeiros dias de janeiro de 1889. Escolheu-os a dedo no caos das notas escritas durante
meses e organizou-os sem respeitar sequer a ordem cronológica. Assim, com a ajuda de
Peter Gast, compilou o que apresentou como a “obra filosófica capital” de Nietzsche.
Questionável sob vários aspectos, a Vontade de potência serviu, até a década de 1950,
enquanto instrumento de trabalho para os estudiosos. Contudo, depois da Segunda Guerra
Mundial, Karl Schlechta denunciou o procedimento de Elizabeth Förster-Nietzsche e
desqualificou o livro por ela inventado. Baseando-se em pesquisas feitas nos Arquivos
Nietzsche em Weimar, constatou que não existia a Vontade de potência, a “obra capital”;
tudo o que havia eram papéis póstumos. (N. T.)
Coleção: Grandes Filósofos

Formato: 11 x 18 cm
Mancha: 20 x 38,2 paicas
Tipologia: IowanOldSt Bt 9/12
Papel: Pólen 80 g/m2 (miolo)
Cartão Supremo 250 g/m2 (capa)
1a edição: 2000

EQUIPE DE REALIZAÇAO
Produção Gráfica
Edson Francisco dos Santos (Assistente)

Edição de Texto
Fábio Gonçalves (Assistente Editorial)
Fábio Gonçalves (Preparação de Original)
Rodrigo Villela (Revisão)

Editoração Eletrônica
Lourdes Guacira da Silva Simonelli (Supervisão)
Luís Carlos Gomes (Diagramação)