Você está na página 1de 7

Ouvir a dimensão criadora da voz é deixar se afetar por uma ação vocal que se constitui a um só

tempo de recursos vocais e forças vitais .

Recursos Vocais:

os recursos primários da voz: respiração , intensidade, frequencia, ressonância, articulação

os recursos resultantes: dinâmicas da voz: projeção, volume, ritmo, velocidade, cadência,


entonação, fluência, duração, pausa e enfase.

Esses recursos combinados expressam as intenções, e/ou os sentidos vocais da emissão.

Forças vitais: são aquelas por meio das quais se opera a relação sensível com o mundo,
fundaamentalmente no que permite a expansão da vida em seus vários planos.

O ator precisa estar disponível durante seu processo criativo, desde as primeiras leituras da peça
até a estréia, a investigar várias maneiras de expressar vocalmente o personagem na montagem do
texto teatral.

Quando na emissão da voz cênica se fundem as forças vitais e os recursos vocais , tem -se a Ação
Vocal: a voz interferindo decisivamente na situação cenica , e consequentemente , afetando os
rumos do espetáculo.

A Preparação da Voz na Criação

Trata-se de preparar a voz desde o início , articulando a saúde vocal do ator com a realidade e a
necessidade de seus usos cênicos e , mais do que isso, trata-se de trabalhar os recursos vocais
implicados na criação.

Há diferenças básicas entre a voz cênica e a não cênica. As exigencias fundamentais de projeção no
espaço e articulação na emissão da voz cênica diferem da não cenica, na qual por exemplo, as
condições de espaço são outras. E também por outro lado a exibição de uma variação emocional
constante exige ajustes vocais cênicos que "transgridam" a voz habitual , do dia a dia , e isto está
diretamente ligado à vivência que o ator terá do seu personagem.

A trajetória da construção vocal do personagem vai se delimitando por intermédio de um estudo


aprofundado feito pelo ator. Em práticas corporais e vocais e na investigação das emoções e
intenções da personagem que o ator quer encarnar. Quanto mais instrumentalizado o ator estiver
para revelá-las por meio da voz, mais potencializado estará para manifestá-la naquele personagem
específico.

Voz cênica ativa : uma ação vocal plugada no contexto C~enico. Se constitui com atitude, pois faz a
história da personagem em movimento vivo : recria quando interpreta, multiplicando as
possibilidades vocais quando diariamente revive sua trajetória.

O movimento da voz em movimento

Perceber voz como uma força cênica capaz de modificar a situação, os atores e o público. A fala
vem acompanhada pelo percurso do personagem, o ápice de uma projeção de voz é também um
momento emotivo culminante do personagem.

Recursos vocais podem ganhar uma amplitude que corporifica o personagem e ata o publico.

Falar em intensidade forte no palco não deve ser somente necessidade do ator, mas
principalmente , e ao mesmo tempo, dirigido a propósitos do personagem, pois as palavras devem
vir esposadas pelos contextos.

Comunicar-se em cena pressupõe agir sobre o outro por meio de uma linguagem que "além de
representacional, comunicativa e expressiva, é componente na criação do real, na produção de
sentido.

O conceito de ação vocal pretende uma emissão em acordo com a ação cênica e não uma voz
apenas dramatizada, distante da realidade do texto. Ela deve ser construida em harmonia com a
cena, para que se efetue como acontecimento expressivo concreto, vivo, que fuja dos clichês
vocais vazios de sentido, contendo em si mesma todos os elementos do personagem: psíquicos,
culturais, situacionais, corporais.

A ação vocal se dá também num plano invisível, imobilizando sensações , impressões. Desloca-se
não apenas fisicamente, através de ondas sonoras, mas pelos sentidos e afetos que provoca no
encontro entre personagens, e destes com o público. As palavras de um texto possuem ilimitadas
possibilidades de movimento, assim como o mover-se corporalmente.

Ação física

Qualquer coisa que ocorra no palco deve acontecer com algum propósito. A ação física é
preenchida com um como e um por que , de uma intenção objetivada. Podendo ser a própria
imobilidade , o estar parado pleno de atividade do ator. O mesmo podemos dizer do ato da fala em
cena.
A noção do que é ação física serviu de base para a elaboração do conceito de ação vocal. A
conexão entre a ação física e a verbal do personagem deve ficar aparente e palpável, não só para o
autor mas também para o o espectador. A ação física e vocal ocorrem em comunhão fazendo a
história acontecer.

O Superobjetivo e o Objetivo

A fala do autor é também uma ação que se dirige a um superobjetivo, por intermédio de um fio de
tensão invisível que liga todas as cenas e cria sentidos a cada recurso de voz que brota da ação
vocal. Esses acontecimentos são cobertos de sentido e dimensões, que deixam ver a humanidade
do personagem, cada um é considerado uma conquista de um objetivo que no final chega ao
superobjetivo.

Situação

Estar em situação é localizar-se geográficamente e afetivamente em cena. Localizar-se


geograficamente é atuar com a atenção em tudo que nos cerca quando estamos em cena: pessoas,
coisas, lugares, temperaturas, sons, luzes etc. Localização afetiva é a que leva o ator a se orientar
no plano de afecções: emoções , memórias, perspectivas, desejos, dores, pressas, etc.

A atuação não é uma abstração, uma ausência; ao contrário, ela se determina pela presença, daí a
importancia de trazer para os sentidos esse reconhecimento geográfico e afetivo que, mesmo se
não for aplicado à interpretação, não poderá nunca ser ignorado.

Intenção

As intenções do ator e do personagem estão vinculadas à vontade, ao desejo, ao pensamento. Está


ligada a um vir a ser que pode se atualizar. As perguntas dos personagens e suas ações vão
determinar no campo das intenções as mais variadas possibilidades , tanto para quem pergunta
quanto para quem ouve a pergunta. Recursos vocais , como a entonação , trazem em suas curvas
melodicas intenções que , integradas à ação geral , criam no ouvinte um corpo imaginário. A
Intenção gera movimentos que se efetuam pela voz e pelo corpo , determinando ação.
Subtexto

O texto é uma pele , um tecido a cobrir a carne, os ossos, sangue e víceras de uma humanidade
inaudita, oculta, impronunciável, profunda, milenar, que cada palavra exige ser manifesta. A
compreensão dessa dimensão da fala é que faz com que tenhamos a emissão vocal cênica como
algo que não pode se dar numa enunciação impensada. O ator se apropriará daquilo que diz , se
dando como terra para as palavras e fará suas as raízes dessas palavras , o que será seu subtexto. A
formação dessas raízes se dará por intermédio da compreensão e elaboração dramática , como o
ator atento a todas as sugestões e situações trazidas pela peça. O texto escrito será recriado na
encenação sob o qual será escrito um ou outro texto de desejos, objetivos e intenções: o subtexto.

Falar é agir

As ações físicas e vocais são referencias concretas conectadas às características cênicas, orientam o
trabalho do ator. O treinamento vocal fica impregnado , incorporado nele como uma espécie de
memória, pronta para realizar-se como ação vocal na interpretação. esta , mobiliza no ator
impulsosm ligados ao superobjetivo e objetivos , às situações, às ações físicas e ao subtexto. A
ação vocal é como estratégia para se alcançar um determinado objetivo, uma intenção, para
transmitir um subtexto , para estar em situação. Auxiliado pelo pensamento e pela imaginação
pondo em relevo significados e permitindo aos atores e ao público " ver com o ouvido". A
imaginação excita a atuação. O ator deve liberar as palavras como se estivesse descobrindo-as por
meio dos pensamentos da personagem e da sua própria imaginação no momento da emissão. A
voz deve ser fluxo das forças vitais exprimindo sensações, idéias, emoções, imagens. O processo
dinamico pode ser no silêncio , e na pausa, o que não significa falta de ação.

Partitura vocal

Na partitura do papel , pelas divisões da fala, percebe-se a compreensão lógica e emotiva do texto
pelo ator. Este é o movimento que se produz entre a busca da respiração e a encarnação do
pensamento do personagem pelo ator. As pausas possibilitam a divisão interpretativa do texto e
determinam um andamento vocal ao falante.

Existem 3 tipos de pausas: a lógica, a psicológica e luftpause. as pausas interpretativas


representam as divisões da fala na partitura. Lógica: quando possui um breve intervalo, ou
psicologica que cria um suspense , uma tensão. Sempre que há pausa é necessário ouvir o retorno
do que foi falado, as reações do que foi falado , as reações a ação vocal no público e nos outros
atores. Na pausa psicologica este tempo é maior. As pausas lógicas e psicológicas podem ser
respiratórias ou não. A luftpause significa : pausa para retomar o fõlego , é sempre respiratória.

A ênfase é uma acentuação, é a proeminência do que se vai dar na fala. Ela dá vitalidade às
palavras faladas, está ligada a intenção da fala.

A intensidade é usada ao enfatizarmos uma palavra , é o grau de força expiratória com que o som é
produzido, força que se manifesta acusticamente na menor ou maior amplitude de vibração das
pregas vocais.

O volume engloba a intensidade e a ressonância. A voz tem de ser elaborada com volume e boa
projeção em todo o espaço para alcançar seus propósitos. QQ variação de intensidade deve estar
ligada ao desejo de revelar o personagem e às necessidades vocais do ator.

o ator se utiliza de tempos diversos para dar ritmo a fala. A partitura é o canto/ faldo do ator, é o
desenho da musicalidade da fala.

A voz falada estabelece curvas melodicas : ascendente / agudo, descendentes/ graves, e mistas.
começando com um tom , ascendendo e depois descendendo, ou o contrário. Há também o
monotonal, no qual o mesmo tom é mantido. Essa curca define intenções e sentidos para quem
fala e para quem ouve.

A articulação pode ser forte ou abrandada . É a mecânica, o movimento da língua, boca, lábios,
dentes, palato e bochechas, na emissão de sons , que são encadeados na fala. Pode-se alongar ou
encurtar as emissões determinando a duração que está realacionada as curvas melódicas, ênfases
e à fluencia do discurso.

A altura vocal, a velocidade e a ênfase são os três elementos que podem proporcionar infinita
flexibilidade a voz falada.

Como compor a partitura

As palavras sublinhadas são enfatizadas no texto.

As pausa interpretativas são marcadas com barras, sendo :

/ - lógica

// - psicológica

v - luftpause

curva melódica :
seta ascendente ( agudizando )

seta descendente ( agravando )

seta ascendente/ descendente

seta descendente/ ascendente

Intensidade

^ forte

v fraco

Articulação

Força duplamente sublinhada

____ _________________________

Abrandamento

-------------------

Articulação

. alongamento

Velocidade

Rápida

_______

_______>

Lenta

_______

---------->

Cadencia
/ / / / silabada