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Entrevista de Ana Bock a alunos da faculdade de Psicologia

UNIPÊ - Centro Universitário de João Pessoa, Paraíba


Abril de 2013.

Pergunta: Como você define a Psicologia Social?


Ana Bock: Primeiro é preciso dizer que não há um consenso na definição do que
seja Psicologia Social; e segundo, é preciso dizer que a Psicologia social pode ser definida
como área de conhecimento e como área de atuação. Como área de conhecimento – e é
aí que não existe consenso – muitos definem a Psicologia Social como o estudo do
comportamento dos sujeitos perante, frente, outras pessoas. Nós, na PUC, consideramos
essa definição bastante limitada e preferimos trabalhar a partir das definições instaladas
no campo pela professora Sylvia Lane, como Psicologia Social como um conhecimento,
uma área da psicologia, uma área da ciência psicológica que estuda a dimensão subjetiva
dos fenômenos sociais. O que isso quer dizer? Quer dizer que todo fenômeno social –
violência, relações de gênero, comunicação, exclusão, preconceito, comportamento
político – seja ele qual for o fenômeno social que queiramos delimitar, ele tem dimensões.
Dimensões jurídicas, que se referem aos seus aspectos legais, dimensão ética, moral,
dimensão sociológica, dimensão antropológica, econômica. Uma dessas dimensões é a
dimensão psicológica, ela se refere ao conjunto de registros simbólicos, subjetivos,
psicológicos que os sujeitos fazem e que compõe, que é parte desse fenômeno social.
Assim, pra que exista exclusão social, por exemplo, é preciso que a exclusão exista na
realidade, enquanto forma de relacionamento, mas é preciso que ela exista nos sujeitos, é
preciso que exista um registro para os sujeitos – valores, atitudes, formas de pensar,
significados, sentidos, seja lá o conceito que quisermos usar no campo da Psicologia
Social –, que exista nos sujeitos registrado de alguma forma. Essa existência nos sujeitos
é a dimensão subjetiva e ela efetivamente compõe o chamado fenômeno social. A
psicologia social estuda essa dimensão dos fenômenos sociais. Como área de atuação, é
a aplicação deste conhecimento e os psicólogos atuam em todos os lugares onde existam
coletivos: nas instituições, em comunidades, em movimentos sociais, na sociedade em
geral. É uma aplicação daquele conhecimento adquirido da compreensão que o psicólogo
adquiriu pelo conhecimento científico da dimensão subjetiva dos fenômenos sociais.
Pergunta: com que público trabalha o profissional de Psicologia Social?
Ana Bock: o profissional de Psicologia Social, podemos dizer de uma maneira
geral, que ele trabalha com coletivos de pessoas. Onde o interesse for o coletivo das
pessoas – as relações sociais, as construções de significado que este coletivo faça, as
representações sociais desse coletivo. Onde existir um coletivo e nos interessarmos pelo
registro que essas pessoas fazem no espaço da intersubjetividade – grupos, comunidades,
movimentos, instituições – aí poderá se encontrar um psicólogo social.
Pergunta: Qual o campo de atuação da Psicologia Social?
Ana Bock: Bem, acho que está bastante ligado a pergunta anterior e eu volto a
recolocar que onde houver interesse nas relações, nos fenômenos que surgem no coletivo,
nesse espaço da intersubjetividade pode existir um psicólogo trabalhando ou pesquisando.
Ele vai trabalhar, ele vai se interessar, pelas relações de gênero, pela escolha de parceiros,
pelas relações pais, filhos, grupos familiares, pela comunicação, pela mídia, pela
exclusão, pelo comportamento político – os mais variados comportamentos políticos –,
pelos movimentos sociais, relações comunitárias, instituições. Muitos psicólogos
estudam e estudaram relações dentro das instituições, como as instituições totais,
estudadas pelo [Erving] Goffman. Então, o importante da compreensão é que o psicólogo
social pode estar em qualquer lugar onde qualquer outro psicólogo de outra área esteja.
A grande diferença é o foco, é a perspectiva com que ele vai olhar a realidade. E volto a
frisar: ele está interessado na dimensão subjetiva dos fenômenos coletivos.
Pergunta: Quais as metodologias utilizadas pelo profissional dessa abordagem?
Ana Bock: Eu aproveito para primeiro fazer uma distinção, quando vocês
perguntam sobre abordagem. Estou aqui falando de Psicologia Social e Psicologia Social
é uma área de conhecimento ou uma área de atuação. O profissional que nela trabalha
pode ter qualquer abordagem teórica, ele pode ser um psicanalista, um junguiano,
comportamentalista, um fenomenólogo, um sócio-histórico. A sua abordagem teórica
pode ser a mais variada, qualquer uma daquelas que compõe a psicologia e, portanto, a
metodologia de trabalho, a metodologia de pesquisa ou de trabalho desse profissional vai
depender da sua abordagem teórica, da abordagem escolhida por ele. No entanto, é
possível se dizer que, em geral, como ele está interessado pelos coletivos, ele trabalha
com metodologias que utilizam grupos, que utilizam entrevistas grupais ou entrevistas
individuais voltadas [para o coletivo] onde o tema, o debate, o que se conversa é alguma
coisa sobre a vida coletiva. Ele tem interesse na vida coletiva e, por isso, ele em geral
prefere metodologias, procedimentos de pesquisa de trabalho onde as pessoas estão em
relação, onde o espaço intersubjetivo é o foco do trabalho desse profissional.
Pergunta: Falar um pouco do cotidiano do profissional de Psicologia Social e
falar das dificuldades do exercício.
Ana Bock: Vou juntar as duas últimas perguntas para dizer que o cotidiano e as
dificuldades são as mesmas que qualquer psicólogo enfrenta em qualquer área e vou citar
algumas delas que toquem de perto a chamada Psicologia Social. Uma delas é o
reconhecimento dessa área, desse profissional, o próprio reconhecimento que a psicologia
em geral tem na sociedade, ou seja, o pouco reconhecimento, que está diretamente ligado
ao segundo aspecto que é o conhecimento da psicologia. Muitas vezes se desconhece o
que faz o psicólogo, nós temos uma tradição, a imagem social da psicologia está muito
ligada ao trabalho terapêutico, ao trabalho de tratamento, de cura, ao trabalho clínico. Mas
os psicólogos trabalham com muitas outras coisas e os psicólogos sociais não trabalham
com terapia1. Então, há um desconhecimento maior porque ele não está ligado àquela área
tradicional, à área que o imaginário social, que o conhecimento comum sabe sobre a
psicologia. Então, existe uma dificuldade nesse campo do reconhecimento e do
conhecimento que “atrapalha” (entre aspas) a demanda que se faz pro serviço do
psicólogo. Então ao invés de chamar um psicólogo social pra compreender, dar
visibilidade e trazer visibilidade para as relações sociais, para os valores daquele grupo,
para os significados que o grupo anda produzindo, em vez de ele ser chamado para isso,
em geral se chama quando há problemas. E vem então toda uma intenção, uma demanda
de um trabalho muito mais terapêutico do que um trabalho de promoção de saúde, como
em geral os psicólogos sociais fazem. A outra questão, todas muito ligadas a essa, está
diretamente ligada ao espaço social, a quantidade de trabalho, de mercado de trabalho, ao
tamanho do mercado de trabalho que os psicólogos sociais têm. Hoje, sem dúvida alguma,
há uma ampliação desse conhecimento e desse reconhecimento, mas ele ainda é muito
pequeno se a gente considerar que esse psicólogo pode estar em qualquer instituição,
fazendo os mais variados tipos de trabalho, interferindo na dinâmica grupal, interferindo
nas relações institucionais, na produção de significados e, portanto, na produção de
sentidos que os sujeitos constroem a partir da vivência coletiva, desta vivência social.
Então, se pode imaginar que ele pode estar em qualquer lugar desde que existam pessoas
em relação, desde que existam pessoas constituindo um espaço intersubjetivo. Nós temos

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Essa firmação não é consenso entre os acadêmicos de Psicologia Social.
exemplos excelentes de trabalho onde os psicólogos são convocados pra esse tipo de
intervenção, por exemplo nos espaços urbanos. Os psicólogos sociais muitas vezes são
chamados para interferir no planejamento da circulação dos sujeitos na cidade, são
chamados para interferir, as vezes, na organização, trabalhando junto com arquitetos, por
exemplo, na construção das estações do metrô, os lugares onde as pessoas vão circular,
vão se encontrar, vão ser usuárias de um determinado serviço, muitas vezes se convoca
psicólogos sociais para se pensar esse momento da vida coletiva. Muitos psicólogos
trabalham em movimentos sociais ligados, por exemplo, ao MST. Há um chamado para
que ajudem a organizar a vida nos acampamentos, a vida do movimento dos sem terra no
momento que se instalam em um acampamento: como trabalhar com as crianças, como
organizar as famílias, como organizar o trabalho dentro daquele local de vida. Enfim, os
psicólogos sociais têm muita coisa para fazer, porque os homens são eminentemente
coletivos, vivem em sociedade e em todos esses ligares onde esses nossos sujeitos da
sociedade estejam juntos, os psicólogos sociais têm espaço de trabalho. No entanto, como
eu estava dizendo, pouco se reconhece ou pouco se conhece do trabalho do psicólogo e
isso tem dificultado, muitas vezes, a demanda, o chamado, o tipo de expectativa que se
tem em relação ao trabalho dele. Então o mercado é estreito, o salário pequeno, o que não
é diferente do conjunto dos psicólogos, do trabalho dos psicólogos em geral. Mas exige
uma nova visão da psicologia, quando se fala em Psicologia Social, porque a intervenção
do psicólogo social é fundamentalmente na direção da promoção de saúde ou da
prevenção, mas fundamentalmente na promoção de saúde e, muitas vezes, o psicólogo
tem lá a sua perspectiva, o seu imaginário. O imaginário da sociedade está ligado ao
trabalho terapêutico.
Penso que respondi às questões que me foram feitas, todas procurando dar uma
ênfase à ideia de que a Psicologia Social estuda esses registros psicológicos, o registro
simbólico, os sentimentos, o imaginário, os sentidos, os significados que são produzidos
pelas pessoas e que compõe os fatos sociais, os fenômenos sociais e que precisam ser
compreendidos.