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UNIVERSIDADE FEDERAL DA PARAIBA.

CENTRO DE CIÊNCIAS JURÍDICAS. DIREITO PÚBLICO


CURSO DE DIREITO ECONÔMICO
Prof. Ms. Carlos Alberto de Brito.

Texto nº1. Uma Discussão Sobre A Relação Economia E Direito.

1. PONTUANDO A RELAÇÃO DIREITO, ECONOMIA E ESTADO.


1.1. Como pensar o Direito?
Pensar o Direito é ir mais além do que simplesmente tentar estabelecer uma base
conceitual. A palavra, em si mesma, envolve uma gama variada de concepções além de estar,
cada uma delas, intrinsecamente conectada à história da humanidade. Partindo dessa
limitação, decorre a necessidade de se afastar da armadilha que se ergue quando se busca
uma definição. A prudência recomenda passar ao largo desse enfrentamento e centrar atenção
na análise de como e por que ele aparece.
Com esse alerta, o ponto de interesse converge para uma das noções mais
elementares que se tem a respeito do Direito: sua inserção na sociedade. O Direito está
intimamente ligado às relações que os homens estabelecem na sua convivência diária, razão
pela qual ele é pensado como forma de proporcionar regras disciplinadoras. Portanto, é
produto emanado das relações sociais, isto é, relações entre os homens para que possam se
orientar e compartilhar de forma mais disciplinada dos frutos surgidos desse envolvimento
social e, por via de consequência, alcançar a paz, a segurança e o bem-estar. O silogismo da
sociabilidade (ubi homo, ibi societas; ubi societas, ibi jus; ergo, ubi homo, ibi jus), espelha de
forma lapidar os vínculos entre o homem, a sociedade e o Direito.
Pensar o Direito a partir desse vínculo, homem e sociedade, estabelece uma
perspectiva que o desvincula de uma formação dada pela natureza; inserta-o numa dimensão
cultural, isto é, como produto do saber humano. As relações estabelecidas pelos homens ao
longo da sua história não podem prescindir de uma série de instrumentos capazes de viabilizá-
las, dentre tais o Direito pontifica como aquele mais adequado para tanto. Isto porque, através
dele, o sentido de segurança, liberdade, e igualdade, convergem para fazer a sociedade se
desenvolver de forma mais ordenada e orientada, à busca do bem-estar. Enfatizando, sendo
produto do saber humano, um dado cultural, o Direito deve ser investigado na sociedade, não
fora dela. E, mais ainda, em sendo produto cultural, está estritamente ligado a um determinado
estágio de desenvolvimento, portanto um fenômeno que está contextualizado temporal e
espacialmente. Nesse sentido, não é possível pensar o Direito, mas os Direitos. Esta é lição
que passa GRAU (1999, p.17); e vai mais além, inobstante esteja inserido numa sociedade em
que vige o modo de produção capitalista, é diverso e distinto dos outros direitos produzidos em
outras sociedades com idêntico perfil capitalista.
Outro ponto que necessariamente merece ser enfatizado é a compreensão de um
direito dinâmico. A sociedade está em constante movimento. A cada dia novo modo de
produzir, de pensar, de agir, acompanha a forma como os homens criam alternativas para
resolver seus problemas de sobrevivência. É impensável a existência de uma sociedade
estática, ela evolui e acompanha as descobertas nos diversos campos da ciência, os homens
se adéquam às novas técnicas de produção e aos novos valores; portanto, em um novo tempo,
novo Direito surge: inimaginável sua existência de divergindo do seu contexto histórico-cultural,
que lhe dá vida, posto que anacrônico tende ao isolamento, não cumprido e, portanto, ineficaz.
O Direito vive quando instigado; quando não é obedecido deve mostrar a sua pujança, quando
é violado deve mostrar o seu império. É por ter a necessidade de ser presente, efetivo, que o
Direito deve ser dinâmico. Mostrar presença efetiva na sociedade e não pairar por sobre ela.
Por conseguinte, compreendê-lo requer estudá-lo enquanto fenômeno e a partir dos elementos
que o compõe.
Muito embora o fenômeno jurídico possa ser explicado a partir de uma percepção
histórico-cultural, há de ser colocado nos seus devidos termos, isto é, não ser mero reflexo da
sociedade. Procurando situar o enfoque compreensivo do Direito a ser seguido, faz-se
necessário contrapor duas concepções teóricas que o estudam sob prismas diferentes: o
primeiro circunscrito a um reducionismo sociológico; e o segundo, a um reducionismo
normativo.
Os fatos sociais exercem uma influência significativa na ordem jurídica, entretanto,
esse condicionamento não é absoluto e nem o vincula em uma só direção. Concepções
arraigadas a uma Sociologia Jurídica, na sua forma mais radical, transformando a Ciência do
Direito num capítulo dessa, tendem a compreender que o “fundamental no desenvolvimento do
direito [...] está na própria sociedade” (EHRLICH, 1986, p.36). Para esse autor, direito vivo
seria aquele que tem como base a realidade social, inobstante não ser fixado em prescrições
jurídicas ou códigos. Partindo dessa compreensão, o ponto que deve ser investigado se bifurca
em duas direções: como as regras jurídicas se constituíram real e efetivamente e o modo como
funcionam na sociedade. Pode muito bem ser apresentado como um estudo do comportamento
do homem face às leis. Nesse sentido, a preocupação que se tem é com a eficácia ou
efetividade da norma jurídica. Não está preocupado com a norma de per se, mas procura saber
como ela é absorvida pela sociedade; para tanto, torna-se imprescindível que ela tenha a
marca do ambiente que a forma, que brote da sociedade. Visto dessa maneira, não há como se
apartar de uma noção de direito como experiência; surgidas as normas, deve-se confrontá-las
com a realidade social, isto é, investigar como elas serão recepcionadas pelos homens: se
positivamente, ganham efetividade, passa a ser “vivido pela sociedade, como algo que se
incorpora e se integra na sua maneira de conduzir-se” (REALE, 1995, p.113).
Em contraponto à Sociologia Jurídica, e explicitamente dela querendo se extremar, o
positivismo jurídico procura a “pureza” do Direito pretendendo evitar o que foi chamado por
KELSEN de “sincretismo metodológico”. Para esse autor, o Direito “é uma ordem normativa da
conduta humana, ou seja, um sistema de normas que regulam o comportamento humano”
(1997, p.5). A sua percepção de uma teoria do Direito “pura”,
significa que ela se propõe garantir um conhecimento apenas dirigido ao Direito e excluir deste
conhecimento tudo quanto não pertença ao seu objeto, tudo quanto não se possa, rigorosamente,
determinar como Direito. Quer isto dizer que ela pretende libertar a ciência jurídica de todos os
elementos que lhe são estranhos (1997, p.1).

Coroa um esforço metodológico no sentido de transformar o estudo do direito numa


verdadeira ciência, isto bem de acordo com as ciências físicas, matemáticas e sociais, cuja
característica fundamental era a sua tendência a expurgar qualquer conotação de valor. Ao
juízo de valor era contraposto o juízo de validade. O pensar desse Direito é muito bem
explicitado por BOBBIO:
O direito, objeto da ciência jurídica, é aquele que efetivamente se manifesta na realidade histórico-
social; o juspositivista estuda tal direito real sem se perguntar se além deste existe também um
direito ideal (como aquele natural), sem examinar se o primeiro corresponde ou não ao segundo e,
sobretudo, sem fazer depender a validade do direito real da sua correspondência com o direito
ideal; o romanista, por exemplo, considerará direito romano tudo o que a sociedade romana
considerava como tal, sem fazer intervir um juízo de valor que distinga entre direito ‘justo’ ou
‘verdadeiro’ e direito ‘injusto’ ou ‘aparente’. Assim a escravidão será considerada um instituto
jurídico como qualquer outro, mesmo que dela se possa dar uma valoração negativa. (1995a:136).

Visto o Direito enquanto ciência, o que resta importante é sua validez e não a justiça;
assim, circunscrito às condições essenciais para torná-lo válido, desconsidera-se o valor do
justo, visto que presente o primeiro aspecto, o segundo nele estava inserido. Direito é norma;
mais ainda, norma posta, isto é, mandamento circunscrito a um comando estatal, portanto
ligado a um poder soberano, de onde emana a sua força coercitiva. Essa visão “ascética” do
direito entroniza a norma como objeto de estudo e, mais ainda, faz do ordenamento jurídico
ponto de convergência de investigação. O jurista não mais trabalha com a realidade social (o
ser), mas com normas (dever ser).
As posições antes colocadas devem ser relativizadas por uma concepção que vê na
experiência jurídica a junção de três elementos: fato, valor e norma. Nesta versão teórica, o
Direito não é estruturado a partir apenas de fatos como querem os sociólogos, de valores como
pensam os idealistas ou das normas como afirmam os normativistas, mas pela síntese
integradora desses elementos. REALE (1995, p.65), figura expoente da teoria tridimensional do
Direito, assim a explicita:
a) onde quer que haja um fenômeno jurídico, há sempre e necessariamente um fato subjacente
(fato econômico, geográfico, demográfico, de ordem técnica etc.); um valor, que confere
determinada significação a esse fato, inclinando ou determinando a ação dos homens no sentido
de atingir ou preservar certa finalidade ou objetivo; e, finalmente, uma regra ou norma que
representa a relação ou medida que integra um daqueles elementos ao outro, o fato ao valor;
b) tais elementos ou fatores (fato, valor e norma) não existem separados um dos outros mas
coexistem numa unidade concreta;
c) mais ainda, esses elementos ou fatores não só exigem reciprocidade, mas atuam como elo de
um processo de tal modo que a vida do Direito resulta da interação dinâmica e dialética dos três
elementos que a integram.
O Direito, sob o ponto de vista da teoria tridimensional, pressupõe a análise de um fato,
de um valor e de uma norma, unidos, indissociáveis, integrados dialeticamente. Essa forma de
pensar o Direito está circunscrito a uma realidade histórico-cultural, portanto, sempre em
movimento, dinâmico. Dinamismo esse que implica modificações dos fatos, por conseguinte,
novos valores emergem e a norma que lhes serve de liame não pode ser imutável, está
também em constante movimento.
Nesta ordem de raciocínio, inexiste determinismo absoluto de um desses elementos
sobre os outros. Apesar da importância que as condições históricas da sociedade assumem
para a explicação do fenômeno jurídico, é errôneo imaginar como mero reflexo. Existe uma
dialeticidade que impõe limites à sociedade, regrando-a em concordância com os valores
estabelecidos. É evidente que, em sendo o Direito inserido na sociedade, dela não se
afastando, mas nela pulsando, está sempre necessitando de uma adequação à realidade
social. Pensar diferente é enclausurar o Direito, apartá-lo da sociedade, deixando que as
relações entre os homens se estabeleçam mediante regras próprias indiferentes às prescrições
jurídicas. Não é o absolutismo da lei que se pretende e, muito menos, o determinismo
sociológico, mas a unidade dialética dos fatos, valores e normas.
O pensar o Direito no âmbito desse trabalho parte de uma perspectiva de tomá-lo como
valor do justo, norma jurídica e fato social. Por sua vez, analisando-o enquanto inserido na
sociedade, a relação que aí se estabelece é de mútua dependência: ao mesmo tempo em que
a sociedade cria o Direito, a ele se submete. O Direito não tem existência em si mesmo, vige
na sociedade e sua materialidade, seu conteúdo, está na sociedade, nas relações da vida
humana em sociedade. A inexistência do Direito tornaria caótica a sociedade, o Direito sem a
sociedade inexistiria.
Sob essa condução teórica, a oposição norma versus realidade desvanece; o mundo
do ser apartado do mundo do dever ser fenece. É a explicação do fenômeno jurídico a partir
das condições historicamente determinadas pela sociedade, mas não de forma reflexiva. É
consideração do direito posto e do direito pressuposto , forma de pensar dialeticamente o
Direito produzido a partir de múltiplas inter-relações. Nesse sentido, assim leciona GRAU
(1999, p.43/44):
A forma jurídica é imanente à infra-estrutura, como pressuposto interior à sociedade civil, mas a
transcende enquanto posta pelo Estado, como direito positivo. ...O estado põe o direito - direito
que dele emana - que até então era uma relação jurídica interior à sociedade civil. Mas essa
relação jurídica que preexistia como direito pressuposto, quando o estado põe a lei torna-se direito
posto (direito positivo).

Partindo dessas considerações, retoma-se consideração feita anteriormente: não cabe


falar do Direito, mas dos Direitos. Isto porque ele se manifesta de forma diferente em cada
sociedade, não obstante esteja inserido num modo de produção capitalista. Visto que o Direito
é um produto cultural, portanto a cada sociedade compete produzir o seu Direito em
consonância com as suas próprias determinações e seus próprios valores. A norma é o elo que
liga os fatos aos valores. Integrados tais elementos, tem-se o Direito específico àquela
sociedade; mais ainda, historicamente determinado, em constante mutação. Portanto,
impensável um Direito, enquanto fenômeno social, universal e atemporal. (GRAU, 1995:17).
O Direito existe na sociedade, sendo fenômeno social, e caracterizado pela qualidade
de ser social. Nesse sentido, de vivência social, enquanto fato, o Direito se relaciona com
múltiplos aspectos das relações humanas, dentre as quais, sobrelevam-se as econômicas.
Dizem tais relações respeito às formas pelas quais os homens resolvem seus problemas de
produção, circulação e consumo dos bens necessários à sobrevivência. É precisamente o
relacionamento que se estabelece entre a Economia e o Direito, entre os fatos econômicos e a
ordem jurídica, o objeto das considerações a serem efetuadas a seguir.

1.2. A relação: Economia e Direito.


1.2.1. Introdução.
Como analisado anteriormente, o Direito vige na sociedade dela recebendo seus
fluidos e, ao mesmo tempo, nela atuando mediante o estabelecimento de regras obrigatórias
de convivência. O fato social aparece como um dos elementos estruturadores do Direito, não
como relação de causalidade, mas de mútua dependência. Nessa perspectiva, de refletir as
relações humanas estabelecidas no seio social, cabe abordar aquelas atividades pertinentes às
formas pelas quais os homens suprem suas necessidades de sobrevivência.
A Economia é um ramo do conhecimento humano cujo objeto, campo de estudo,
circunscreve-se à análise de como os homens, em diferentes estágios da sociedade,
solucionam seus problemas referentes à produção, circulação e consumo de bens
indispensáveis à sua existência. Como tais problemas refletem a vida em sociedade e diversos
períodos históricos, as relações com o Direito se estabelecem mediante o contínuo surgimento
de normas jurídicas que objetivam regular a convivência entre os homens em cada etapa da
história da humanidade.

1.2.2. Economia e Direito a partir de momentos diferenciados da sociedade.


O relacionamento entre Direito e Economia pode ser constatado, tomando-se como
referencial dois momentos específicos da evolução do capitalismo.
O primeiro deles diz respeito ao período que vai da Idade Média até à Idade Moderna,
nele ocorreu uma profunda modificação no quadro econômico que veio a ser conhecido como
Revolução Comercial, em razão da mudança no eixo do comércio: de início local, depois
regional, finalmente ampliado para uma escala mundial.
O comércio, antes visto como uma simples troca de mercadorias para garantir as
necessidades não atendidas com a produção própria, posteriormente, passou a ter uma
significação mais ampla: tornou-se fonte de riqueza. Não era mais garantia de subsistência,
mas atividade de cunho especulativo. O surgimento do comércio em larga escala passou a se
constituir numa atividade deslocada da produção e com vida própria, uma nova face da
reprodução da riqueza via a circulação das mercadorias. Essas relações de comércio
impuseram um novo personagem entre o produtor e o consumidor: o comerciante, personagem
de vida e atividade própria.
No bojo dessa exacerbação da atividade comercial, a moeda passou a se constituir
como intermediário de troca permeando esse sistema econômico de um caráter monetário: a
outra face do mundo das mercadorias. O que fez consolidar as bases do que viria a ser o
regime capitalista à medida que a acumulação de riqueza passou a se constituir num fim
próprio. Houve uma modificação na forma de se pensar, e nos valores formados a partir dessa
relação comercial: o lucro foi alçado como finalidade específica; a usura passou a ser vista
como algo natural no mundo dos negócios, face às necessidades de riqueza monetária para
viabilizar o comércio; a especulação com os preços tornou-se prática comum.
Nesse sistema, onde os comerciantes surgiram como agentes responsáveis pelo fluxo
das mercadorias e o comércio era a forma de levar os produtos da produção ao consumo,
novas normas surgiram para disciplinar essas relações. Impensável a continuação da lei da
usura de tempos pretéritos, agora, o empréstimo a juros tornou-se prática comum; necessitava-
se de regularizar o fluxo monetário de forma a que a moeda expressasse o valor da
mercadoria; notas cambiárias surgiram como forma de agilizar a circulação das mercadorias e
novos institutos jurídicos foram criados para garantir a seguridade dos negócios; enfim, novas
prescrições jurídicas tiveram de ser elaboradas ordenando esse novo mundo. O Direito
Comercial veio consolidar juridicamente, dar segurança às relações entre os homens no âmbito
da atividade comercial.
Um segundo momento dessa evolução da sociedade capitalista surgiu a partir da
Revolução Industrial. Consolidou-se uma nova estrutura produtiva e, com ela, emergiram novas
classes econômicas: de um lado, uma classe possuidora dos meios de produção (o capitalista);
de outro lado, uma classe cuja forma de garantir a sua sobrevivência necessitava vender a sua
força de trabalho (o operariado). O novo trabalhador, “livre” dos grilhões impostos pelo sistema
feudal, assumiu o assalariamento como relação de trabalho. O aprofundamento das relações
capitalistas de produção e a crescente proletarização de ampla camada da população, ampliou
as precárias condições de trabalho. À medida que a situação da classe trabalhadora se
deteriorava, movimentos operários organizados surgiram como forma de combater o avanço do
capital sobre o trabalho, ao tempo que vai formando uma consciência de classe. À busca
desenfreada do lucro pelos capitalistas, foi contraposta uma resistência do operariado que
cada vez mais reivindicava por melhores condições de trabalho e melhores salários.
As transformações na estrutura produtiva, naquele momento de evolução do
capitalismo, provocaram reflexos na ordem política e jurídica: se de um lado o pensamento
político e econômico liberal afastava o Estado de qualquer regulamentação à livre iniciativa na
área do comércio, da indústria e do trabalho; por outro lado, a concentração do proletariado e o
crescimento da miséria urbana sem precedente, constituíam motivação para uma resistência
mais organizada da classe trabalhadora. O Estado foi pressionado a intervir mediante a
implementação de um conjunto de normas jurídicas que tinham como objetivo disciplinar as
relações de trabalho. O Direito do Trabalho surgiu, portanto, não como uma dádiva do Estado,
mas como fruto da tomada de consciência da classe trabalhadora; a causa fundamental para o
seu aparecimento decorreu do confronto entre o capital e o trabalho.

1.2.3. Economia e Direito a partir de diferentes visões.


Essa relação entre o fato econômico e o surgimento de uma norma jurídica que o
regule, tem sido interpretada como mero reflexo, um condicionamento absoluto e vinculativo
numa só direção. Tome-se como exemplo o pensamento de SELIGMAN, para quem: “a história
do direito é realmente uma serva da história econômica; todo o desenvolvimento jurídico torna-
se inexplicável se o isolam das forças econômicas. Nesse sentido, o fato econômico é a causa,
a situação legal, o resultado”. (apud LIMA, 1955:202).
A visão teórica mais elaborada desse determinismo econômico tem por referência
básica a visão marxista do Direito. Consiste tal vertente no entendimento de que a estrutura da
sociedade é composta pelo fato econômico, isto é, pelo conjunto das relações de produção,
que se estabelecem no decorrer do trabalho. Tais relações representam a consequência do
caráter social do trabalho; o fato de que, no processo de produção, ocorrem a cooperação e a
divisão do trabalho entre os homens. A explicação desse fenômeno foi dada por MARX (1974,
p.135) em seu famoso Prefácio à “Contribuição à crítica da Economia Política”, quando da
revisão crítica da filosofia do Direito de Hegel, cuja conclusão foi assim expressada:
(...) na produção social da própria vida, os homens contraem relações determinadas, necessárias e
independentes de sua vontade, relações de produção estas que correspondem a uma etapa
determinada de desenvolvimento das suas forças produtivas materiais. A totalidade destas
relações de produção forma a estrutura econômica da sociedade, a base real sobre a qual se
levanta uma superestrutura jurídica e política, e à qual correspondem formas sociais determinadas
de consciência. O modo de produção da vida material condiciona o processo geral de vida social,
política e espiritual.

Para o autor, o que explica o desenvolvimento histórico do homem é a forma pela qual
ele reproduz suas condições de existência. Nesse sentido, a sociedade estrutura dois níveis. O
primeiro deles, a infra-estrutura que é determinante, constitui a base econômica,
correspondendo às relações: do homem com a natureza no sentido de produzir a própria
existência; dos homens entre si, ou seja: relações entre os proprietários e os não-proprietários;
e, finalmente, entre os proprietários e os objetos de trabalho. O segundo nível compreende a
superestrutura que é constituída pela estrutura jurídica-política, representada pelo Estado e
pelo Direito, como também pela estrutura ideológica representada por formas de consciência
social tais como a religião, a educação etc.
A realidade econômica, isto é, o processo de produção dos bens materiais, é o que
determina a evolução política e jurídica. Esse é o ponto fundamental. Apesar de Marx se
abeberar da filosofia dialética de Hegel, dela se aparta ao enveredar por um materialismo
dialético que tem nos fatores materiais a explicação para a história.
Enquanto o idealismo hegeliano tinha como ponto de partida a Ideia, em Marx se
inverte o movimento: parte-se do desenvolvimento material para as Ideias. O Direito é
fundamentalmente dependente da evolução das forças produtivas; surge a cada etapa, a cada
estágio da sociedade, como consequência. Observando-se a realidade feudal, a forma de
organizar a produção prendia o camponês ao solo numa relação de servidão; a organização
capitalista da fase industrial, para sua lógica de acumulação, prescinde de um servo, a ela está
atrelada uma nova relação: a do assalariamento, posto que o homem está “livre”, à disposição
do capital, na forma que melhor permita sua expansão. O Direito que surge nessa nova etapa
do desenvolvimento capitalista, referencia uma modificação das forças produtivas materiais;
não são, portanto, normas disciplinadoras da relação: servo-senhor feudal, mas assalariado-
capitalista. A essas formas de organizar a produção correspondem aparatos jurídicos
diferentes. O determinismo mecanicista embutido na concepção marxista do Direito repousa
precisamente no rompimento da nova realidade econômica com a velha forma jurídica; a velha
estrutura jurídica é destroçada com o surgimento de uma nova realidade econômica.
RECASENS SICHES (1970, p.450), ao analisar esse “monismo econômico”, a passagem de
uma velha estrutura jurídica para uma nova realidade econômica, assim posiciona:
Novo regime jurídico, que é levado em seu ventre pela nova situação econômica. Mas para que se
possa fazer tal coisa, é mister que se tenha cumprido já nas entranhas da economia a gestação de
um novo regime, posto que não são os homens quem pode criar sistemas jurídicos ao seu talante,
se não que estes podem ser engendrados unicamente pela substância econômica da história. Os
homens, o mais que podem fazer será desempenhar uma função gestadora de um novo regime
surgido no processo da dialética econômica.
Esse reducionismo economicista, mecânico, subjacente ao esquema teórico do
materialismo histórico, reduz o Direito a mero elemento da superestrutura; elemento reflexivo
das forças produtivas em dado momento da evolução histórica da sociedade. Ademais, outra
implicação decorre dessa concepção marxista: ao Direito está reservado o papel de aparato
jurídico para que a classe economicamente mais favorecida exerça sua dominação sobre as
demais. Em suma, dividida a sociedade entre proprietários e não-proprietários, entre classes
sociais antagônicas, a ordem jurídica impõe normas legais para que a classe capitalista exerça
sua dominação sobre a sociedade.
A essa percepção do Direito, STAMLER (1929, p.106) contrapõe uma visão idealista
segundo a qual o jurídico é que condiciona o econômico, visto que seria a pré-condição da
própria vida em sociedade, para esse autor os fatos econômicos:
(...) são fenômenos de massa de uma mesma espécie, dentro de relações juridicamente
organizadas. Formam-se no curso de uma vida social historicamente dada. É verdade que deles
surgem tendências reformadoras do sistema jurídico, que lhes serve de base. Tais tendências,
porém, ao triunfarem, formam, sob o amparo do direito novo, outros fenômenos econômicos da
mesma espécie, resultando daí uma interminável rotação da vida social.

O autor enquadra as inter-relações entre Direito e Economia em termos de forma e


substância: Direito é forma e Economia substância. Direito seria a forma lógica capaz de
pensar o econômico e dar-lhe uma regulamentação, por via de consequência, os fatos
econômicos passam a ser meros fenômenos condicionados segundo o conceito do jurídico.
Faz o autor um caminho inverso do raciocínio marxista em relação à realidade e o jurídico: o
Direito tem um fundamento teleológico que condiciona os fatos econômicos. Nessa
perspectiva, é através do Direito que os homens alcançam seus objetivos, e o faz ordenando
os fenômenos econômicos. Como se vê, a relação de causalidade se inverte, o Direito é um
modo de querer que impõe, condiciona e, assim sendo, não está ao sabor dos fatos
econômicos.

1.2.4 Economia e Direito: a reflexibilidade das relações.


A partir das posições teóricas antes apresentadas que tentam explicitar a relação entre
Direito e Economia, resta mediatizá-las tendo em vista os extremos que elas representam. Um
aspecto que se encontra cristalizado no pensamento de todos que analisam dita relação, é o
de que as estruturas econômicas exercem poderosa influência nas instituições jurídicas,
modelando-as e/ou modificando-as, à medida que transformações econômicas requeiram
novas normas jurídicas. No entanto isso não respalda afirmar categoricamente que o Direito é
mero reflexo da realidade social; reduzir o Direito a “servo” da Economia. LIMA (1955, p.205)
posicionando-se à respeito da influência das forças econômicas no sistema jurídico, afirma:
a contraprova desta tese é simples: excluam-se do estudo e da compreensão dos sistemas
jurídicos os fatos econômicos, as causas econômicas, e ver-se-á que não é possível chegar a
resultados satisfatórios algum; ver-se-á, pelo contrário, que relações econômico-sociais estão a
cada passo, criando o seu direito.

Por outro lado, assevera o autor, o Direito não se cinge a refletir a constituição
econômica: “o legislador, o governador, por intermédio das leis, podem dirigir a evolução social,
acelerar transformações, provocar reformas”. (1955, p.206).
Uma análise semelhante da relação Direito e Economia é feita por GRAU (1999, p.41)
quando discute o Direito posto e o Direito pressuposto. O primeiro correspondendo ao
Direito positivo, o segundo ao que está entranhado nas relações sociais. Afirma o autor: “a
economia condiciona o direito, mas o direito condiciona a economia”. Essa relação de
determinismo recíproco, em tudo dialética, ocorre tendo em vista estar a forma jurídica inserta
na infra-estrutura, isto é, não obstante inexistir ainda um Direito posto pelo Estado, a relação
existente não deixa de ser jurídica, visto que é uma relação onde está presente a vontade das
partes; a partir dela, o Estado põe o Direito. Assim, vai-se do “direito ao direito” (1999, p.44).
Dois aspectos merecem destaque: em primeiro lugar, tem-se que o Direito não é
apenas aquele que emana do Estado, nas relações econômicas já existe um Direito
(pressuposto), muito embora ainda não recepcionado pelo Direito positivo (posto), isso ocorre
em razão de que a própria dinâmica da sociedade faz surgir novas formas dos homens se
relacionarem, em específico, através dos fatos econômicos, que muitas vezes avançam além
do Direito regulado ao ponto de chegar a modificá-lo mediante um novo Direito posto. Mas, e
esse é o segundo aspecto, isso não autoriza pensar numa relação de causalidade, mecânica,
trata-se de uma relação dialética: a Economia ao mesmo tempo que determina o Direito, o
Direito determina a Economia. O Direito, portanto, é instrumento de mudança social.
Tendo em vista o que foi até aqui explanado, não mais se autoriza pensar em um
Direito condicionado à Economia. O que se tem cristalizado é a existência de uma relação de
mútua determinação. As forças econômicas, é reconhecimento válido, assumem uma
importância significativa em sociedades organizadas sob o modelo capitalista de produção,
influência que encaminha modificações frequentes na ordem jurídica estabelecida, desde que
estas não mais respaldem o desenvolvimento daquelas. No entanto uma vez constituída a
nova ordem, tem ela presença ativa, orientadora e, muitas vezes, até inovadora, capaz de
dirigir a evolução social, acelerar transformações e provocar reformas.
Não mais é mais possível pensar num Direito pairando sobre a sociedade, trôpego, ou
ao sabor dos fatos, mas num Direito que tenha presença, que esteja inserido e seja constitutivo
do modo de produção social.
O Direito, portanto, deve ser pensado como “fenômeno social”, com a “qualidade de ser
social”; isto é, estruturado mediante uma integração do fato, do valor e da norma. Mais ainda,
enquanto inserido numa sociedade capitalista, relacionado aos fatos econômicos, não como
mero reflexo ou forma e conteúdo, mas determinado e determinante, numa relação dialética.
É o Direito como expressão social. É Direito inserido na realidade social, nas entranhas
das relações sociais de produção. É Direito que surge e se desenvolve a partir das relações
dos homens entre si; relações econômicas, mas não exclusivamente, e que mesmo não
estando regulado, sendo Direito pressuposto, transcende esse nível e passa a ser Direito posto
pelo Estado.

REFERÊNCIAS

BOBBIO, Norbert. O positivismo Jurídico: lições de filosofia do Direito. São Paulo: Ícone, 1995
EHRLICH, Eugene. Fundamentos da sociologia do direito. Brasília: UNB, 1986
GRAU, Eros. O direito posto e o direito pressuposto. São Paulo: Malheiros, 1999
KELSEN, Hans. Teoria pura do Direito. São Paulo: Martins Fontes, 1997
LIMA, Hermes. Introdução à ciência do direito. Rio de Janeiro: Freitas Bastos, 1955
MARX, Karl. Para uma crítica da economia política. São Paulo: Abril Cultural, 1974. (Coleção
Os Pensadores)
REALE, Miguel. Filosofia do Direito. São Paulo: Saraiva, 1995
RECASENS SICHES, Luís. Tratado general de filosofia del Derecho. México: Editora Porrua,
1970
STAMLER, Rudolf. Economia y Derecho, segun la concepción materialista de la historia: uma
investigación filosófica social. Madrid: Reus, 1929