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Texto 09 - Orientação Vocacional Ocupacional, Abordagem Grupal

Aviso ao leitor

A capa original deste livro foi substituída por esta nova versão. Alertamos para o
fato de que o conteúdo é o mesmo e que esta nova versão da capa decorre da
alteração da razão social desta editora e da atualização da linha de design da
nossa já consagrada qualidade editorial.

ARTMED EDITORA S.A.

L657p Levenfus, Rosane S.


Psicodinâmica da escolha profissional / Rosane S. Levenfus... [et al.] — Porto
Alegre: Artes Médicas, 1997.
1. Psicologia - Escolha profissional. I. Título.
CDU 159.9:331.86

Catalogação na publicação: Mônica Ballejo Canto - CRB 10/10231


ISBN 85-7307-238-5

Rosane Schotgues Levenfus e Colaboradores

PSICODINÂMICA DA ESCOLHA PROFISSIONAL

2a Reimpressão
ARTMED EDITORA
2004

Capítulo 20
Orientação Vocacional Ocupacional, Abordagem Grupal: Teoria e Técnica
Rosane Schotgues Levenfus
Tanto na abordagem individual quanto grupal utilizo o pensamento que
relacionamos no Capítulo 18: o modelo dual. Em ambos utilizo a orientação
psicanalítica como referencial.
A diferença de um tipo de atendimento para outro está relacionada ao método
e instrumentos que emprego, sendo que os objetivos permanecem os mesmos.
É importante salientar aqui que o modelo que apresento é o de minha
experiência pessoal. Trata-se de um modelo que considero em construção, sujeito a
modificações e que está muito relacionado ao meu ambiente de trabalho: clínica
psicoterápica e curso pré-vestibular. Não tenho, portanto, nenhuma pretensão de
que este discurso seja tomado como certo ou sirva como referencial para os demais
casos. Como não possuo experiência em O.V.O. escolar (a não ser quando atendo
chamados de escolas para realizar o mesmo atendimento que presto no pré-
vestibular) convidei a orientadora educacional Isabel Cristina Tremarin da Silva, que
desenvolve um trabalho muito importante no Colégio Anchieta, em Porto Alegre,
RS, para relatar sua experiência [NR1].
Partindo de meu referencial, portanto, saliento que mesmo nos atendimentos
que realizo em grupo, a O.V.O. culmina com entrevista individual. Por quê? Porque
durante os encontros em grupo mantenho o foco estritamente voltado à escolha da
profissão. Como não se trata de um grupo terapêutico, não estimulo que o jovem
exponha conflitos pessoais mais íntimos.
Acontece que esses aspectos mais íntimos podem estar exercendo grande
influência na escolha profissional e na vida pessoal de um integrante. Creio que tais
aspectos particulares podem ser reservados para entrevista individual a fim de
preservar o foco no grupo e ao próprio jovem, proporcionando ambiente em que se
sinta à vontade, resguardando sigilo sobre sua intimidade, etc.
Percebo que algumas vezes o adolescente já está determinado ao fim do
atendimento em grupo. Mesmo assim proponho a todos a entrevista individual. É
um momento integrador para todos, além de uma excelente oportunidade para o
jovem apresentar questões que preferiu preservar durante o grupo. É evidente. que,
em caso de se mostrar necessário atendimento psicoterápico, o adolescente
poderá fazê-lo em grupo se desejar, e desde que apresente critérios diagnósticos
para tal [NR2]
VANTAGENS DO ATENDIMENTO EM GRUPO [NR3]

Utilizo, então, o atendimento em grupo [NR4] por alguns motivos específicos: -


atendo mais gente em menos tempo (existe uma grande demanda em curso pré-
vestibular) [NR5]; - posso tratar em conjunto aqueles aspectos relativos à escolha
que são comuns a todo adolescente nesta etapa (fantasias de cura, lutos, relações
familiares, informações, etc.).
Como “o grupo é a matriz dinâmica adequada para o adolescente adquirir
insight da condição e vicissitudes peculiares à crise normativa desta etapa
evolutiva” (Osorio, 1986), percebo, ainda, algumas vantagens em grupo:

- O atendimento em grupo me parece extremamente válido quando tratamos de


adolescentes. Estando num grupo de iguais, o adolescente sente-se aliviado quanto
à fantasia de que é o único que passa por dificuldades desse tipo.
- No processo grupal a visão do outro auxilia na visão de si mesmo, proporcionando
um ajuste mais realista da auto-imagem.
- Ao trazer sua problemática ao grupo cada jovem contribui para com os demais no
sentido de sua escolha.
- O grupo facilita o uso de técnicas dramáticas, por meio das quais o adolescente
encontra maior facilidade para se expressar.
- Em grupo, como já mencionei, podemos atender a um número maior de pessoas.

Concordo com Carvalho (1995) quando refere as vantagens que a Orientação


Vocacional grupal oferece em termos de “compartilhar angústias, sentir aliados,
companheiros, até mesmo cúmplices, enfrentando os mesmos problemas,
minimizando a ansiedade; sentir que outros vivenciam dúvidas e dificuldades, poder
aproveitar de outras experiências; sentir menos solidão e menos medo de crescer,
num grupo que cresce junto”.
Pensamos, assim como Knobel (1986), que a tendência grupal do
adolescente e a interação de seus problemas com os da sociedade na qual vive
deve obrigar a pensar muito frequentemente na possibilidade de buscar soluções
através da utilização dos grupos, pois são um meio natural de convivência do
adolescente. Isto toma significativo o atendimento terapêutico grupal.
Observamos, como Osorio (1986), que o grupo terapêutico formado por
adolescentes finais tem ótimas possibilidades terapêuticas. Isso se dá porque
“nesses casos já houve, habitualmente, um significativo grau de amadurecimento
do ego e a definição das respectivas identidades, o que, aliado a um mais autêntico
desejo de autoconhecimento e a um mais fácil e espontâneo relacionamento social,
propicia melhores condições de elaboração de seus conflitos dentro da matriz
grupal”.

"...a circunstância de que para os adolescentes tardios as duas mais importantes


escolhas da vida do indivíduo - a do(a) companheiro(a) e a da atividade profissional
- têm ainda alentadas chances de reversibilidade, o que já não ocorre em anos
posteriores, sendo justamente um dos grandes benefícios da grupoterapia poder
auxiliá-los nessas duas escolhas, de cuja adequação depende o desenvolvimento
criativo de suas personalidades e a correspondente conquista da alegria de viver."
(Osorio, 1986, p. 55)

Conforme Knobel (1986), “de acordo com a intensidade dos problemas e da


ideologia científica dos investigadores, é possível formar grupos terapêuticos com
propósitos educacionais ou com fins corretivos”. Este mesmo autor entende, no
entanto, que permanecer em grupos psicoterápicos com propósitos educacionais é
limitar as propriedades terapêuticas com os adolescentes. Isso quer dizer que,
quando prescreve psicoterapia de grupo, recomenda a psicoterapia psicanalítica de
grupo, “que pode levar a uma melhor compreensão da problemática adolescente e
a uma melhor estruturação da personalidade do adolescente enfermo”.
O que recomendamos, em termos de O. V.O. (tanto individual quanto grupal),
é que se reúnam os propósitos educacionais com propriedades terapêuticas,
centrada no foco da escolha profissional. Nesse sentido, ainda referindo Knobel, a
concepção psicanalítica da problemática adolescente não deve obrigar o
psicanalista a isolar-se num consultório psicanalítico, mas, sim, permitir que aplique
seu conhecimento em circunstâncias especiais, onde a técnica e a formação de
terapeutas e co-terapeutas deve ser específicas.

“Todo o enorme problema de nossos colégios, nos quais o adolescente vive


intensamente por um longo período de tempo, também nos obriga a considerar o
que significa nosso sistema educacional e nos põe frente ao problema de se a
educação é ou não terapêutica. Eu penso que toda boa educação é sempre
terapêutica para os adolescentes."

"Tenho sustentado que a renúncia ao aspecto terapêutico da educação implica a


perda de uma magnífica oportunidade nas estruturas socialmente organizadas para
a formação do indivíduo em seu caminho para a maturidade. A importância que em
nossas escolas deve ter o psicólogo educacional, a equipe psicoterapêutica e a
formação psicodinâmica do educador abre uma nova perspectiva tanto na
educação como na terapia.”
(Knobel, 1986, p. 128)

TÉCNICAS DE GRUPO EM O.V.O.

Há muitas técnicas de grupo cujos objetivos, desenvolvimento e meta


prestam-se muito bem ao trabalho em O.V.O. Como já vimos, o adolescente, por
suas características, pode ter maior facilidade para se expressar através de jogos,
dramatizações, histórias criativas. Essas técnicas podem favorecer maior insight
sobre as motivações inconscientes das situações críticas emergentes no grupo por
meio de sua representação vivenciada.
Concordo com Osorio (1986) quando refere que, apesar das bem
fundamentadas sustentações teóricas que sugerem dinâmicas nos grupos
terapêuticos, podemos delas prescindir sem prejuízo significativo para o rendimento
psicoterápico de nossos grupos de adolescentes.
Considero importante que cada terapeuta selecione as técnicas com as quais
perceba maior afinidade e que sinta poder manejar de forma tranquila. De acordo
com Osorio (1986), os maiores riscos e, consequentemente, os maiores cuidados a
tomar no emprego sistemático dessas técnicas relacionam-se às limitações que
todos temos em trabalhar com vários marcos referenciais simultaneamente.
Farei, nesta parte, uma descrição de algumas técnicas que costumo aplicar e
outras que posso sugerir. Descreverei as técnicas à medida que as situo na
condução de um grupo modelo do trabalho que desenvolvo no Curso Pré-Vestibular
Mauá. Gostaria de salientar, novamente, que tal condução é adaptada a fornecer
atendimento a grandes demandas, tal como ocorre em curso pré-vestibular. Em
situações escolares, ou na clínica, podemos desenvolver trabalhos mais longos,
com emprego de mais técnicas.

RELATO DE EXPERIÊNCIA EM UM CURSO PRÉ-VESTIBULAR [NR6]

Primeiros Contatos

Divulgação: Quando do ingresso de novos alunos no curso, apresento-me nas


salas de aula. Em poucos minutos falo a respeito da importância de se escolher
bem a profissão e dos serviços que mantemos à disposição dos vestibulandos:
Grupos de O.V.O. e Grupos de Ansiedade [NR7]. Informo-lhes horários e local em
que os interessados podem me encontrar a fim de solicitar maiores esclarecimentos
e realizar inscrições. A esses horários especiais denominamos “plantão”.
A divulgação do atendimento também ocorre pelos meios de comunicação
(televisão, rádio, jornal), abrindo o serviço de O.V.O. à população.

Plantão: No plantão os alunos escolhem os grupos conforme horários


disponíveis e de sua preferência. Neste momento preenchem uma ficha com dados
pessoais (nome, endereço e telefone para contatos) e inscrevem-se mediante
pagamento de uma taxa simbólica. O atendimento é um serviço prestado pelo
Curso, sendo que a taxa cobre gastos com materiais, como, por exemplo, o livro
com guia das profissões [NR8] que os alunos recebem. A taxa também representa o
comprometimento do aluno com o horário que ocupou.

Composição dos Grupos


Compomos cada grupo com aproximadamente 10 vestibulandos. Estes
participam de quatro encontros grupais com duração aproximada de duas horas
cada um e, posteriormente, de entrevistas individuais. Os contatos são realizados,
comumente, com freqüência de uma vez por semana. Nos encontros dispomos o
grupo em círculo.

1º Encontro

Técnica de Apresentação: Solicito aos jovens que se apresentem dizendo seu


nome e o que sabem a respeito do mesmo (quem lhes deu o nome, pensando em
que, se tem algum significado especial para ele ou para a família). Alguns jovens
não sabem referir a origem de seu nome, outros a descrevem em detalhes. Quando
não sabem falar de seu nome, sugiro que falem dos nomes que já pensaram que
gostariam de dar para um filho seu.
Exemplos:

“Meu nome é Ricardo, o mesmo do meu pai, do meu avô e do bisavô”.


“Meu nome é Edson; foi o pai quem escolheu. Ele é fissurado em futebol; foi uma
homenagem ao Pelé."
"Minha avó foi quem sugeriu meu nome, Elizete, em homenagem à Elizete
Cardoso.”
"Meu pai tinha lido um livro lá com uma personagem chamada Sofia, que era
famosa, inteligente, com personalidade forte, e decidiu que quando tivesse uma
filha ia ser Sofia."
“Já pensei que o dia que eu tiver filhos, o menino se chamará Pedro. Eu acho que é
um nome muito forte, que marca muito."
“Meu pai queria que fosse Maria, minha mãe queria Valéria; para não dar briga
ficou Maria Valéria.”
"Lá em casa todos os filhos começam com a mesma letra; tem o Válter, a Valéria, e
eu sou o Víctor."
“Sou uma mistura do pai, que se chama Mário, e da mãe, que se chama Gabriela.
Vejam no que deu: Mariela.”
"Meu nome é Alexandre e meus pais gostaram, porque lembra Alexandre - O
Grande, um conquistador.”

Depois de realizada a apresentação proponho debatermos acerca de que


relação pode haver entre o nome que eles possuem e a situação da escolha
profissional.
A turma pensa, opina e trabalho com eles a noção de que os pais saudáveis
gostam dos seus filhos, e quando pensam num nome procuram dar algo importante
para eles, querem o bem deles e lhes desejam muitas coisas boas (nem sempre
aquilo que é bom aos olhos dos pais é bom aos olhos do filho). Desde que pensam
em ter um filho imaginam para ele um futuro bom, o que, em nossa sociedade, está
ligado, além de ter boa saúde e beleza, a status profissional, inteligência,
capacidade para ganhar dinheiro, conquistar o mercado de trabalho, tendo incluído,
por conseguinte, o desejo de que o filho tenha curso superior, “seja um doutor” em
alguma coisa. Bem, acontece que este “alguma coisa” ainda não é bem assim, não
é “qualquer coisa” que agrada aos pais.
Com isso o grupo vai concluindo que o nome pode ser um símbolo do desejo
dos pais. Alguns pais querem perpetuar uma “casta” em sua família, como no caso
do Ricardo: Ricardo I, Ricardo II, Ricardo III.
Para não dar briga entre os pais, a filha chamou-se Maria Valéria. E agora?
Se um quiser Engenharia Civil e o outro Artes Plásticas... Maria Valéria cursará
Arquitetura?
Edson pergunta se o pai deseja, inconscientemente, que ele seja jogador de
futebol. Bem, digo que não iremos fazer uma interpretação tão direta e concreta a
respeito das coisas, mas, quem sabe, lá no íntimo, será que o pai do Edson não
gostaria que ele fosse um ídolo, famoso, mundialmente reconhecido, eterno?
Sofia reconhece o desejo dos pais de que seja inteligente famosa, e com
personalidade forte, tal qual a personagem do livro. Conversamos a respeito de
como este passou a ser um desejo dela própria também.
Por fim, Alexandre brinca com a turma, dizendo que, por enquanto, dá muito
mais para conquistador de namoradas do que de mercado de trabalho! Vemos que
este também é um dos desejos dos pais.
Conversamos, então, alguns dos vários desejos que os pais têm com relação
aos filhos. Como o grupo familiar é importante ponto de referência para seus
membros, num momento de escolha, o desejo dos pais muitas vezes exerce grande
peso na decisão do filho. Isto ocorre de diferentes formas:

- alguns filhos não conseguem discriminar o que é desejo seu e o que é dos pais;
- alguns acham que se escolhem uma coisa que é do gosto dos pais é porque
foram influenciados e passam a rejeitar sua própria escolha;
- outros resolvem fazer qualquer coisa, menos o que os pais gostariam;
- alguns, pelo contrário, ficam chateados por gostarem de algo diferente dos pais,
com medo de magoá-los ou de perder o seu amor;
- há aqueles, ainda, que ficam tentados a seguir a carreira que os pais lhe propõem,
atrás de promessas de que serão ajudados a enfrentar o mercado de trabalho. Por
exemplo, que se cursar Odontologia poderá começar trabalhando no consultório de
uma tia, que, ainda por cima, lhe enviará clientes.

Concluímos que tudo isto pode gerar muita confusão na hora de se escolher
uma profissão. Por isto a O.V.O. precisará tratar também dos aspectos pessoais de
cada um, além das informações sobre profissões.
Reapresentação: Solicito, então, que cada um tome a se apresentar, mas
desta vez dizendo o que o trouxe no grupo. Solicito que falem acerca da dúvida que
apresentam quanto à escolha profissional, quantos concursos vestibular já
realizaram e para quais cursos. Peço que falem também das suas experiências e
expectativas com relação à O.V.O.
É comum que refiram nesta apresentação:

- estar entre uma profissão e outra;


- não estar entre coisa alguma;
- ter realizado diversos concursos para cursos diferentes;
- gostar de algo que não agrada aos pais;
- preocupação com mercado de trabalho;
- várias distorções com relação às informações que possuem;
- ansiedades com relação à dificuldade para ultrapassar o concurso vestibular;
- participação em programas de orientação que não resolveu seu problema;
- fantasias de cura;
- fantasias de que obterão respostas através de testes;
- ansiedades generalizadas.

Durante as colocações realizo intervenções com objetivo de favorecer


associações, integrar o material apresentado com o foco, trabalhar os objetivos da
O.V.O., discutir a validade de testagens e suas fantasias mágicas de solução.
Assinalo oportunamente o quanto a falta de informações prejudica na possibilidade
de escolha as limitações do processo de O.V.O. e outros.
Antes de finalizar o encontro esclarecemos aspectos de horários dos futuros
encontros, estabelecemos um contrato, distribuo o livro que utilizaremos para fins
informativos e solicito que providenciem uma autobiografia.
Autobiografia: Explico que deverão me entregar até o último encontro uma
autobiografia, contendo em uma folha a história de sua vida, com as informações
que julgarem mais importantes. Recordo do que conversamos a respeito de como
situações pessoais e familiares podem interferir em suas escolhas. Digo que é um
material sigiloso entre cada aluno e eu, que não será apresentado ao grupo e que
se destina a fornecer-me elementos que podem auxiliar na sua compreensão. O
material será utilizado na entrevista individual final.

2º Encontro

Técnica dos limões: Inicio o segundo encontro com a seguinte técnica:


distribuo um limão para cada integrante do grupo. Solicito que durante um minuto
cada um examine em detalhes o seu limão. Ao cabo de um minuto recolho os
limões em uma sacola e anuncio que despejarei os limões no centro do grupo para
que cada um encontre o seu.
Assim que digo isso o grupo mostra-se agitado. Pergunto o que estão
sentindo:
Exemplos:

"Rápido, não vamos ficar conversando que eu vou esquecer como é o meu limão."
“Impossível... são superiguais.”
“Acho que eu vou conseguir achar o meu."
“Eu duvido que a gente ache."
“Eu tenho medo de que todo mundo vai conseguir encontrar o seu limão menos
eu."
“Acho parecido com o medo que a gente fica de se esquecer da matéria durante o
vestibular."
"Um minuto foi muito pouco, a gente deveria ser avisado que teríamos que achar o
limão depois... eu teria feito uma marquinha no meu!"

Conversamos sobre essas ansiedades e despejo o conteúdo da sacola no


centro do grupo. Por incrível que pareça, em menos de um minuto cada um está de
posse de seu limão. É muito raro que alguém se engane. Pergunto se têm certeza
de estarem com o limão certo. Afirmam sorridentes que têm certeza de terem
pegado o mesmo limão.
Conversamos a respeito da ansiedade que sentiram, do medo que tiveram
frente aqueles limões que pareciam todos iguais. Vimos que bastou um pequeno
minuto para examinarem o limão e este já lhes tornou familiar. Comparamos que
tomando conhecimento das profissões estas também “lhes saltarão aos olhos” com
mais familiaridade. Percebem que sem conhecimento muitas profissões podem
soar indiferentes, parecidas umas com as outras, assim como os limões à primeira
vista. Partimos então para o conhecimento das profissões.

Informações: Destino todo o segundo encontro à informações sobre as


profissões. Como seria impossível informá-los de todas, proponho que utilizem
também o material informativo que receberam. Iniciamos pelas profissões que mais
interessam ao grupo e pelas que foram mencionadas no encontro anterior.
Proponho uma dinâmica na qual as dúvidas que houver irão sendo
solucionadas primeiramente pelo próprio grupo, cabendo a mim corrigir distorções e
ampliar o conhecimento.
Para realizar encontros informativos pode-se utilizar diversas técnicas: -
material informativo, jornais, solicitar que entrevistem previamente profissionais,
visitas a locais de trabalho, visitas às universidades, etc.

3º Encontro

Role-play (“jogar o papel”): Proponho neste encontro uma “brincadeira" em


que cada um escolherá uma profissão que gostaria de representar “no futuro".
Coloco que se passaram uns anos e nos encontramos novamente. Agora cada um
irá dizer no grupo o que aconteceu consigo, o que tem feito. Proponho que,
enquanto uma pessoa estiver se apresentando, os demais poderão lhe perguntar o
que desejarem: se ele gosta do que está fazendo, quanto ganha, como conseguiu o
emprego que referiu, como concilia lazer e vida profissional, que explique melhor o
que realiza em sua profissão. Aviso que também perguntarei coisas.
Em geral esta atividade desperta ansiedades que examinamos antes de
iniciar. O grupo refere medo de não saber falar bem sobre a profissão. Refere que
ainda não sabem bem o que devem escolher. Tranqüilizo-os de que:

- a O.V.O. ainda não chegou ao fim;


- a profissão que escolherem para representar não precisa estar necessariamente
ligada ao que pretendem na realidade;
- evidentemente não saberão tudo sobre a profissão e a brincadeira pode ajudá-los
a saber mais, tirar dúvidas, corrigir distorções;
- o objetivo de realizar perguntas destina-se a ajudar o sujeito a pensar.

Depois do início é comum que a dinâmica transcorra de forma animada e


interessante. É notório que os adolescentes com dificuldades mais sérias para
realizar a escolha costumam ser os últimos a se apresentarem e tenham muita
dificuldade para se projetarem no futuro e de descrever o que fazem, como
aconteceu com Flávia, referida no Capítulo 18. Nessas situações procuro “poupar”
esse adolescente, desobrigando-o de se apresentar, compreendendo sua
dificuldade.
Este encontro sempre é muito proveitoso e enriquecedor. Finalizamos com os
jovens referindo o que sentiram durante a dramatização e o quanto o processo lhes
ajudou a amadurecer algumas idéias.
Ao término fazemos uma avaliação de como sentiram o processo até agora.
Alguns dizem já estarem decididos, que tiraram dúvidas e se deram conta de coisas
importantes. Outros permanecem ainda muito indecisos. Outros referem ansiedade
por terem visto que as profissões que imaginavam que gostavam não são bem
como pensavam e que agora estão mais confusos. Apóio-os quanto a essas
ansiedades. Conversamos sobre a coragem que tiveram de vir questionar sobre
suas escolhas, que o processo não está concluído, que teremos mais um encontro
com o grupo para aplicação de testagem e que seguiremos com entrevistas
individuais até que cada um tenha solucionado seu problema ou seja devidamente
encaminhado a solucioná-lo. Lembro-os que no próximo encontro recolherei a
autobiografia e marcarei horários para as entrevistas individuais.

4º Encontro

"Testagem”: Coloco “testagem” entre aspas com intuito de esclarecer que não
utilizo testes propriamente ditos para medir aptidões, Q.I. e outras qualidades
pessoais. Penso que o uso de testes psicológicos pode servir de auxílio na
avaliação clínica. É um bom instrumento a ser associado ao conjunto de
informações de que se dispõem. Contudo, os testes de aptidão tornam-se relativos,
pois “aptidão” e um conceito que sofre valorações sociais. Prefiro, portanto, em
O.V.O., utilizar apenas testes que propõem levantamento de interesses e mais
dados a respeito da identidade do sujeito.
Aplico o questionário de frases incompletas sugerido por Bohoslavsky (1982),
para exploração da identidade vocacional, como já referimos no Capítulo 13.
Aplico também o L.I.P. - Levantamento de Interesses Profissionais - de Carlos
Del Nero [NR9].
Nessa mesma linha encontramos outros testes, tais como:

- Desiderativo Vocacional (ADOV) [NR10] - que objetiva indagar acerca das


identificações nas escolhas vocacionais ou ocupacionais.
- Visão do Futuro (VF) [NR11] - técnica projetiva gráfico-verbal que propõe a
exploração da identidade do sujeito em termos ocupacionais, as fantasias com
relação à realidade, a imagem de si mesmo projetada no futuro, aos temores, às
preferências, às defesas ante mudanças.
- Teste Visual de Interesses (TVI) [NR12].

5º Encontro

Entrevista individual: Realizo entrevista individual com duração de 45 minutos.


Conversamos a respeito da evolução de sua escolha. Apresento e discuto junto
com o jovem os aspectos levantados pelo L.I.P., mantendo essencialmente uma
interpretação dinâmica do mesmo. Esclarecemos dúvidas que ainda restarem.
Conversamos sobre aspectos que pareçam relevantes em sua autobiografia.
A maioria dos jovens demonstra conhecimento mais consistente a respeito de
sua escolha neste momento. Apresentam-se decididos ou bem-encaminhados.
Aqueles que persistirem indecisos seguirão com atendimento individual por mais
alguns encontros (em média três encontros têm sido suficiente).
Na entrevista individual pode ser vista a impossibilidade de se realizar alguma
escolha mais efetiva naquele momento. Buscamos uma compreensão a respeito
dessa impossibilidade, esclarecendo novamente a respeito das limitações da
O.V.O. quando algum fator emocional subjacente estiver de fato atrapalhando.
Nesta situação o jovem é encaminhado para psicoterapia ou outro tipo de
atendimento que parecer mais adequado.
Especialmente quando a situação se mostra muito complicada é possível que
os pais venham a participar de entrevistas que esclareçam as dificuldades que o
jovem atravessa e a necessidade de realizar, ou não, outras intervenções, Esse já
foi explorado no Capítulo 18.
Frente à necessidade de realizar encaminhamentos, disponho de uma lista de
serviços clínicas e profissionais que atendem, conforme a renda familiar, para
encaminhar o jovem que não dispõe de recursos ou de terapeutas conhecidos.

NOTAS

1 - Ver Capítulo 21.


2 - Segundo Ozorio (1986),“as principais indicações são os quadros neuróticos em
geral, bem como síndrome normal da adolescência e suas exacerbações ou
variantes patológicas; contra-indica-se a grupoterapia analítica adolescentes com
marcadas tendências psicopáticas ou paranóides e aos psicóticos em geral”
3 - O atendimento individual ganha na possibilidade de aprofundar problemáticas
individuais.
4 - No curso pré-vestibular realizo grupos com aproximadamente 10 vestibulandos.
Na clínica atendo psicoterapia e O.V.O. predominantemente individual.
5 - No consumo Pré-vestibular Mauá, em Porto Alegre,RS, o Serviço de Orientação
Vocacional atende 300 a 400 vestibulandos por ano.
6 - Trabalho desenvolvido pela autora no Concurso Pré-Vestibular Mauá, em Porto
Alegre, RS.
7 - Além da O.V.O., o setor de Psicologia oferece atendimento para alívio de
ansiedades relacionadas ao vestibular.
8 - Vestibular derrubando o mito. Porto Alegre: AGE. 1983, ou Faça o Vestibular
com seu Filho Faça o Vestibular com seus Pais. Porto Alegre: Artes Médicas, 1997.
9 - Copyright 1984, Vetor Editora Psico-Pedagógica Ltda. São Paulo, 1984.
10 - Adaptação feita por Haidée Hemáez, Hilda M. de Scalisi e outros.
11 - Descrito por Silvis B. Gelvan de Veinstein.
12 - Testes visual de Interesse (TVI), DE B.Tétreau e M. Trahan (Université de
Montreal). Adaptação e validação para o Brasil de A. Marocco, Ph.D. (Unisinos).

BIBLIOGRAFIA
BOHOSLAVSKY, Rodolfo, Orientação Vocacional: a estratégia Clínica. São Paulo
Martins Fontes,1982.
CARVALHO, Maria M.M.J. Orientação Profissional em Grupo: Teoria e Técnica. São
Paulo: Editorial Psy, 1995.
FIORINI, Hector J. Teoria e Técnica de Psicoterapias. 6.ed. Rio de Janeiro:
Francisco Alves, 1985.
KNOBEL, Maurício, A Adolescência e o Tratamento Psicanalítico de Adolescentes.
In: Adolescência. 4. ed. Porto Alegre: Artes Médicas, 1986.
LEVENFUS, Rosane Schotgues. Vestibular: Derrubando o Mito. Porto Alegre: AGE,
1993. LEMGRUBER, Vera B. Psicoterapia Breve: a Técnica Focal. Porto Alegre:
Artes Médicas, 1984.
MÜLLER, Marina. Orientação Vocacional: Contribuições Clínicas e Educacionais.
Porto Alegre: Artes Médicas, 1988.
OSORIO, Luis Carlos. Abordagens Psicológicas do Adolescente. 2.ed. Porto Alegre:
Movimento, 1986.
SOARES-LUCCHIARI, Dulce. O Jovem e a Escolha Profissional Porto Alegre:
Mercado Aberto, 1987.
-. (org.) Pensando e Vivendo a Orientação Profissional. São Paulo: Summus, 1993.
VEINSTEIN, Silvia B.G. Los Temas de la Orientacion. Buenos Aires: Marymar,
1994.
-. La Eleccion Vocacional Ocupacional: Estratégias - Técnicas. Buenos Aires:
Marymar, 1994.

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