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ANO edição

SET
xXII 89 2015
ANO XXII - Setembro 2015 - Nº 89
Coordenação Editorial:
Vicky Safra
Assistentes de Coordenação:
Clairy Dayan
Fortuna Djmal
Colaboração:
Adina Sakkal
Heddy Dayan
Josette Lisbona
Muriel Sutt Seligson
Natalie Kachani
Sarine Dayan
ANO edição
SET Supervisão Religiosa:
xXII 89 2015
Rabino Y. David Weitman
Rabino Efraim Laniado
Rabino Avraham Cohen
CAPA
rimonim, Jornalista Responsável:
itália, meados séc. 19 Desirée Nacson Suslick
prata MTb 13603
Colaboradores especiais:
Jaime Spitzcovsky
Tev Djmal
Zevi Ghivelder
Revisão e tradução de texto:
Lilia Wachsmann
Coordenação de Marketing:
Ernesto Chayo
Produção Gráfica:
Joel Rechtman
JR Graphiks - Tel: 3873 0300
Projeto Gráfico:
LEN - Tel: 3815 7393
Serviços Gráficos:
C&D Editora e Gráfica - Tel: 3862 7635
Tiragem: 26.200 exemplares

A distribuição é gratuíta sendo sua comercialização expressamente proíbida.


Morashá significa Herança Espiritual; contém termos sagrados.
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Carta ao leitor

Muitas pessoas acreditam, erroneamente, que aquele que salva uma única vida humana é como se
Rosh Hashaná é a data da criação do mundo. tivesse salvado toda a humanidade. O oposto também
Na realidade, o mundo foi criado seis dias antes, é verdadeiro. O judaísmo atribui, portanto, suprema
em 25 de Elul. Celebrado no primeiro dia de Tishrei, importância à vida humana. A santidade da vida tem
Rosh Hashaná é o Sexto Dia da Criação, em que precedência sobre quase todos os mandamentos da Torá.
D’us criou o homem – o ápice de Suas obras.
As lições de Rosh Hashaná – de que todos os seres
Nosso Sábios explicam que a criação do homem foi humanos descendem do mesmo ser humano e que
diferente da de outras criaturas, pois fomos criados o valor da vida é imensurável – são o antídoto da
como indivíduo único, enquanto os outros seres foram desumanidade e violência que se espalham pelo mundo,
criados aos pares. especialmente no Oriente Médio. Nos últimos anos,
presenciamos Estados e organizações – algumas delas
A primeira mulher, Eva, era originalmente parte do ditas religiosas – cometerem atos de barbárie contra
corpo de Adão. O primeiro casal era, a princípio, membros de outras religiões, seitas e etnias. Há uma
duas metades de um mesmo organismo, que foi terrível guerra civil na Síria e no Iraque que não poupa
posteriormente dividido, formando dois seres humanos nem os inocentes. Ao mesmo tempo, o mundo corteja
distintos. Isto significa que tanto o homem quanto a um país que almeja adquirir armas nucleares e que
mulher descendem de um único ser humano. ameaça o Estado Judeu, seus vizinhos árabes e, por que
não – o mundo todo. Todas essas guerras e conflitos
De acordo com nossos Sábios, um dos motivos para são a antítese do que D’us espera de nós, Suas criaturas.
D’us ter criado o homem como um único indivíduo Neste Rosh Hashaná pediremos a D’us um ano de paz
foi para que todo ser humano soubesse que todos os para toda a humanidade.
demais indivíduos possuem o mesmo progenitor. Todos
compartilhamos a mesma origem. Todos descendemos Nas orações do Ano Novo Judaico, pede-se que
de Adão, que foi criado à imagem de D’us. Sendo assim, D’us elimine o mal do mundo e que o homem
ninguém pode alegar superioridade ancestral ou racial. abrace os ideais do judaísmo, que, ao longo dos tempos,
Este fato nega a crença e a alegação – que causou tanto influenciaram a humanidade. Esta precisa redescobrir
sofrimento e tanta injustiça ao longo da história – de que somos todos iguais, que o homem foi criado à
que há homens, nações, raças ou etnias superiores às imagem de D´us e que vida de cada indivíduo tem
demais. valor inestimável. Quando o mundo internalizar
tais ensinamentos, eternos e atemporais, seremos
Há vários outros motivos para D’us ter criado um único todos abençoados com paz universal, com júbilo e
ser humano. Um deles é para nos ensinar que todo prosperidade.
indivíduo abriga dentro de si toda a humanidade.
Adão possuía dentro dele a alma de todos os seres SHANÁ TOVÁ UMETUCÁ!
humanos que viriam a nascer. A vida de cada ser
humano se originou e, portanto, dependia, da de
Adão. Se ele não tivesse sido criado – ou se houvesse
perecido antes de ter tido filhos – a humanidade não
teria existido. À luz disso, nossos Sábios ensinam que
NOSSAS GRANDES FESTAS

Rosh Hashaná e os
Três Pilares do Universo
O Pirkei Avot, livro sagrado de sabedoria e ética
judaicas, ensina que o mundo se mantém sobre três pilares:
Torá, Avodá – o serviço Divino – e Guemilut Chassadim
– atos de bondade (Pirkei Avot 1:2).

E
sse ensinamento é um dos temas “Aquele que ora na Casa de orações é como se trouxesse
principais de Rosh Hashaná. Nas orações uma oferenda ao Templo”.
que recitamos nos dois dias do Ano Novo
Judaico, proclamamos que os caminhos para Tzedacá, palavra frequentemente traduzida como
se evitar os decretos Celestiais negativos e caridade, é um sinônimo de Guemilut Chassadim
atrair os positivos são os da Teshuvá (arrependimento), – a prática de atos de bondade. Em geral, o ato mais
Tefilá (oração) e Tzedacá (caridade). Estes são sinônimos simples de caridade é dar dinheiro aos necessitados.
de Torá, Avodá e Guemilut Chassadim. No entanto, a prática de Guemilut Chassadim é um
mandamento mais abrangente do que a Tzedacá, pois se
Teshuvá é sinônimo de Torá, pois o que é a Teshuvá? podem realizar atos de bondade com qualquer pessoa, e
É o retorno a D’us por meio do cumprimento de Sua não apenas com os pobres, e há várias maneiras de
Vontade, a dizer, a Torá. Ensina-nos o Pirkei Avot que fazê-lo: visitando doentes, convidando alguém para vir
um dos pilares do Universo é a Torá e seu estudo, que nos à sua casa, oferecendo bons conselhos e ajudando a
leva à Teshuvá – ao cumprimento de seus mandamentos. erguer a moral de quem está desanimado. Já a Tzedacá
limita-se, em geral, à assistência financeira.
Tefilá ou oração é outro nome para Avodá – o serviço
Divino. Como ensina o Talmud, a oração é o serviço Teshuvá (Torá), Tefilá (Avodá) e Tzedacá (Guemilut
do coração. Na ausência do Templo Sagrado Chassadim) são os pilares do Universo e do judaísmo.
de Jerusalém, as preces tomaram o lugar dos serviços Assumem particular importância nos dias em que o
que lá eram realizados, particularmente os sacrifícios. Todo Poderoso decide se os pilares do mundo são fortes
O Profeta Hoshea (Oseias) declarou: “… e (D’us) o bastante para sustentá-lo por mais um ano. Pois, apesar
aceita o pronunciamento de nossos lábios em de Rosh Hashaná ser uma data festiva – dois dias nos
substituição à oferenda de novilhos” (Capítulo 14:3), quais usamos nossas melhores roupas e fazemos refeições
revelando que as palavras podem ocupar o lugar suntuosas – é também uma época de Julgamento Divino.
dos sacrifícios. De fato, o Talmud nos indica que, Nessa data, o Rei do Universo julga e decide se renovará

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Natureza-morta com romãs. Reuven Rubin.Óleo sobre tela

Seu contrato com o mundo. No Ano O conceito dos três pilares do nós, judeus. Quando estudamos a
Novo judaico, a Corte Celestial julga Universo é relevante não só em Torá, não devemos apenas assimilar
se o Universo merece viver por mais Rosh Hashaná, mas no dia-a-dia da informações e aprender as Leis
um ano. Se o mundo continuará a vida judaica. Ao se dedicar à Torá, Divinas. Devemos também tirar
existir, não depende dos caprichos Avodá e Guemilut Chassadim, o judeu lições sobre a melhor forma de viver
da Corte Celestial, mas do próprio desempenha os três papeis que tem a vida. Um dos principais propósitos
mundo – depende da firmeza de que cumprir para viver como ser do estudo da Torá é a aquisição de
seus pilares. Se nós, o Povo Judeu, humano verdadeiramente espiritual sabedoria.
pudermos demonstrar a D’us que e justo: o papel de um Chacham, um
esses três pilares estão realmente Sábio; de um Navi, um Profeta; e de A sabedoria trata do aqui e agora
firmes – que fizemos nosso melhor um Cohen, um Sacerdote. – o mundo real, empírico, de todo
para fortalecê-los – poderemos dia. A Torá ensina que D’us criou o
sair vitoriosos em Rosh Hashaná: Torá e Teshuvá Universo com Sua Sabedoria e que,
poderemos garantir ao mundo não portanto, Ele o preencheu com leis
apenas mais um ano de existência, A Torá é a Palavra de D’us. É um científicas e morais. Assim como
mas um ano de paz e fartura. Por livro de leis e reconta importantes existe a lei da gravidade – e pobre
outro lado, se negligenciarmos esses eventos na História Judaica antiga. daquele que a ignorar – há também
três pilares – se permitirmos que No entanto, não se trata de um livro certas leis morais no Universo que
se enfraqueçam as fundações do de História, e sim, de um trabalho nenhum indivíduo em sã consciência
mundo – tornar-se-á mais difícil de Autoria Divina e Sabedoria deve violar. Aqueles que as mantêm,
merecer bênçãos Divinas. O destino Divina. A palavra “Torá” deriva de florescem; aqueles que as ignoram,
do mundo – não apenas dos judeus, Hora’á, que significa ensinamento. fracassam. Ser sábio significa estar
mas de toda a humanidade – apoia- Cada mandamento e cada história em sintonia com as leis morais do
se nos ombros de cada um de nós, da Torá contêm muitas lições Universo. Ser sábio não significa
judeus. relevantes à vida de cada um de ser instruído. Ser instruído

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NOSSAS GRANDES FESTAS

“ensinamento”, mas também Or,


“luz”. O Talmud se refere à Torá
como Oraita – “luz”. Teshuvá
significa “resposta” e, também,
“retornar” (Shuva): retornar a
D’us, à Sua Torá e à nossa própria
essência. O conceito de Teshuvá é
nossa resposta ao chamado Divino.
Dia após dia, Ele faz a cada um
de nós a mesma pergunta que fez
a Adão após este ter comido o
fruto proibido: “Onde estás?”. Essa
pergunta é especialmente pertinente
em Rosh Hashaná, quando cada
indivíduo tem de prestar contas à
Corte Celestial. A única resposta
adequada, a Teshuvá de todo judeu,
deve ser que ele está continuamente
buscando retornar à Origem de
Tudo e à Sua Sabedoria, que Ele
transmitiu a nós.
Machzor de Rosh Hashaná. França, c. 1300
Tzedacá e Guemilut
Chassadim
significa possuir grande cabedal de se inteligentes e instruídos, em geral
informações, ao passo que ser sábio é tomam decisões que lhes podem ser Por mais fundamental que a Torá
saber viver a vida da melhor maneira altamente prejudiciais. Líderes que possa ser para o mundo, é apenas um
possível. Uma pessoa com muitas agem sem sabedoria podem causar de seus três pilares. Ainda há outros
informações pode ser tola, enquanto muito sofrimento e destruição a si dois. Isso significa que o judeu não
que uma pessoa não tão informada próprios e ao povo que têm sob sua pode ser um justo se tudo o que ele
pode ser sábia. responsabilidade. A Torá é a forma possui é sabedoria. Pois a sabedoria,
pela qual D’us compartilha Sua ainda que seja adquirida por meio do
Esperamos que, estudando a Torá, Sabedoria conosco: é o local propício estudo da Torá, que é Divina, não se
os judeus se tornem não só um para a realização da sabedoria. traduz, necessariamente, em retidão
repositório de conhecimentos, mas Portanto, não surpreende o fato de caráter. A pessoa pode ser dona
também uma fonte de sabedoria. de que quando muitos de nossos de grande sabedoria e não a pôr em
A Torá deve ajudar-nos a fazer uma grandes líderes se viam diante de prática, ou o que é pior, usá-la para
avaliação mais realista do momento grandes dilemas, consultassem a propósitos malignos. O judaísmo
presente para que possamos tomar Torá. Isso foi muito comum com o não faz segredos sobre o fato de que,
decisões prudentes acerca do futuro. Rei David – o maior e mais exitoso em nossa história, muitos eruditos
de todos os reis judeus. em Torá eram seres humanos maus e
Praticar sabedoria não significa cruéis. A pessoa pode ser sábia e vil.
absorver muitas informações ou Diz-se que quando um judeu ora, Infelizmente, de tempos em tempos,
raciocinar rápida e profundamente. ele fala com D’us, e quando estuda lemos histórias sobre rabinos e
Significa aprender a fazer melhores a Torá, D’us a ele se dirige. Quando eruditos religiosos, em Israel e na
escolhas na vida. Como ensina o nos dedicamos a estudar a Torá, Diáspora, que se envolvem em
Talmud, sábio é aquele que pode D’us fala conosco. Qual deveria atos desonestos e imorais. Isso
prever as consequências de seus atos. ser nossa resposta? A Teshuvá, que, leva as pessoas a se perguntarem:
em hebraico, quer dizer “resposta”. “Para que serve o estudo da
Os seres humanos que vivem uma A Torá e a Teshuvá se entrelaçam. Torá se não previne esse tipo de
vida despida de sabedoria, mesmo Torá não só significa Hora’á, comportamento? ”. A resposta é

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que o homem pode ser sábio, um Seu papel era fortalecer esses Preocupavam-se intensamente sobre
grande conhecedor da Sabedoria pilares do Universo. Raramente a maneira como honrar os seres
Divina, e, ainda assim, agir de falavam sobre o cumprimento dos humanos e sobre o relacionamento
forma desprezível. Pode-se estudar mandamentos diários. Falavam, entre os homens e D’us. Falavam
a Torá todos os dias, dia e noite; sim, sobre as falhas do homem a verdade aos poderosos – sábios e
pode-se conhecer o Talmud de cor perante seus semelhantes. Sua reis – e também aos mandatários
e entender profundamente o Zohar principal tarefa era ensinar os religiosos. Ensinavam que não
– e, ainda assim, comportar-se como princípios da retidão moral. Quando podemos amar a D’us e a Sua
um ser humano imoral e malvado. viam as pessoas agindo de forma Torá e odiar os seres humanos.
Pode-se partilhar da Sabedoria do complacente e insensível, alertavam: Eles não se cansavam de repetir
Divino por razões egoístas e nunca “Continuem a se comportar que era hipocrisia e futilidade
atender honestamente ao chamado dessa forma e provocarão a ruína. oferecer sacrifícios no Templo
da Teshuvá. Assim como o mundo Lembrem-se: a vida é como uma enquanto se oprimia os demais.
não se sustém sobre apenas um roda. Hoje, podem estar em cima, “D’us não atenderá tuas preces se
pilar – a Torá – o ser humano não amanhã podem estar em baixo”. não atenderes o grito dos que te
pode viver uma vida de integridade No entanto, os profetas não cercam”, ensinavam. “Os pobres
e retidão se tudo o que possui é alertavam apenas sobre as catástrofes clamam e não ouves; chegará o dia
sabedoria – ainda que Divina. que se avizinhavam. Eram também em que tu clamarás e D’us não te
a voz do consolo. Quando os demais ouvirá”. O profeta é a voz de D’us
Portanto, cabe aos judeus não choravam, eles os consolavam. Onde nos conclamando ao trabalho de
apenas se empenharem em adquirir os demais viam apenas destruição redenção e fazendo da sociedade
sabedoria por meio do estudo da e desespero, os profetas viam o um lugar de justiça, de graça, de
Torá, mas também procurarem viver renascimento e a glória. misericórdia e de generosidade.
como profetas, ainda que não o sejam
e que provavelmente nunca venham As palavras cruciais para os O Talmud ensina que ainda que
a sê-lo. Diferentemente da sabedoria, profetas eram Tzedek e Mishpat não sejamos profetas, somos todos
que quase todos os seres humanos – justiça social e legal – Chessed e descendentes de profetas, devendo
podem adquirir, quase ninguém pode Rachamim – bondade e misericórdia. agir de acordo com essa ascendência.
tornar-se profeta. Trata-se de uma Devemos fortalecer o pilar de
dádiva dos Céus, que muito poucos Guemilut Chassadim copiando os
recebem. Contudo qualquer judeu profetas, envolvendo-nos em atos
pode emular os profetas. de bondade, realizando Tzedacá na
medida de nossas possibilidades e
Os profetas não foram meramente estimulando os demais a também
homens e mulheres que fazerem-no. Devemos combater a
receberam mensagens Divinas e complacência e a arrogância – dentro
as transmitiram ao povo. Eram de nós e entre os outros – mas
visionários que desafiavam devemos também animar os que
os demais. Incomodavam os estão oprimidos: devemos consolar
complacentes. Estavam prontos a e fortalecer os desesperados. Ao
repreender a quem quer que fosse praticar a justiça e a retidão moral,
– sábios, outros profetas, sacerdotes podemos evitar que a sabedoria
e até os reis. Um profeta repreendia que adquirimos com o estudo da
o povo por suas fraquezas morais. Torá seja mal direcionada e mal
Na maioria das vezes, eles falavam empregada.
sobre a moral, não sobre sabedoria.
Falavam sobre justiça social – sobre Vemos, com frequência, judeus
a necessidade de se ter piedade e que estudam muito a Torá e são
compaixão pelos demais. Os temas extremamente cuidadosos no
principais dos profetas eram a cumprimento dos mandamentos
Caixa de Tzedacá em prata trabalhada,
Tzedacá e Guemilut Chassadim. Polônia. Meados do séc.19 Divinos referentes ao homem e a

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NOSSAS GRANDES FESTAS

D’us – eles estudam e oram durante Sobre essas pessoas, ensinam nossos – uma crise praticamente sem
horas, conhecem de cor o Código de Sábios: “Seria melhor se nunca precedente na História Judaica – os
Leis Judaicas, o Shulchan Aruch, e são tivessem nascido”. Se a pessoa ignora Sábios democratizaram o serviço do
impecáveis no serviço a D’us. Mas, o pilar de Guemilut Chassadim – sacerdócio. Destituído de Templo
ainda assim, podem ser insensíveis e vivendo uma vida despida de retidão e de sacrifícios, todo o sistema de
cruéis, injustos e arrogantes. Podem moral, de bondade e de generosidade Avodá se tornou parte da vida de
ter adquirido muita sabedoria, – talvez fosse melhor que ignorasse todos os judeus. Ao orar, cada judeu
podem servir a D’us como se fossem também os dois outros pilares e não se torna um sacerdote oferecendo
o próprio Cohen Gadol – o Sumo desonrasse o D’us de Israel, a Torá de um sacrifício e expiando por seus
Sacerdote – mas negligenciam a voz Israel e o Povo de Israel. próprios pecados e pelos de seu
da profecia, que se recusa a silenciar. povo. Cada sinagoga se tornou um
Ao fazê-lo – ao buscar a sabedoria Tefilá e Avodá fragmento do Templo Sagrado de
e negligenciar a retidão – eles Jerusalém. Assim, após a queda do
desonram o judaísmo, cometendo o Assim como nem todos podem ser Templo, os judeus realizaram a visão
maior dos pecados: Chilul Hashem profetas, tampouco todos podem ser da Torá de se tornarem um “reino de
– a profanação do Nome de D’us. um Cohen – um sacerdote. Apenas sacerdotes e uma nação santa”. Um
os descendentes de Aharon, irmão não-Cohen não se tornou um Cohen,
de Moshé e primeiro Cohen Gadol, mas muitas das responsabilidades
do sexo masculino, podem ser um que jaziam sobre os ombros dos
A Torá é a forma Cohen. Contudo, assim como todos Cohanim na época do Templo
pela qual D’us nós, judeus, devemos emular os Sagrado hoje repousam nos ombros
profetas ainda que provavelmente de cada um de nós, judeus.
compartilha Sua jamais nos tornemos profetas,
Sabedoria conosco: devemos também emular os O mundo do sacerdote era diferente
sacerdotes, apesar de que apenas um do mundo do sábio e do profeta. Seu
é o local propício Cohen possa ser um deles. mundo era um lugar estruturado e
para a realização da ordenado, de harmonia e plenitude.
Na época do Mishkan – o Para o sacerdote, existe uma ecologia
sabedoria.
Tabernáculo – e, mais tarde, biológica e também moral no
do Beit HaMikdash, o Templo mundo. O que ele entendia, devido à
Sagrado de Jerusalém, os sacerdotes natureza de seu trabalho Divino, era
personificavam um dos pilares que assim como o Universo tem uma
do Universo: Avodá – o serviço estrutura física e biológica básicas,
Divino. Enquanto a também tem uma estrutura moral
grande maioria do básica criada pela Palavra e Vontade
Povo Judeu dedicava de D’us. Quando obedecemos às
a maior parte de seu ordens Divinas, alinhamo-nos com
tempo e empenho a essa estrutura, e o resultado são
assuntos mundanos, bênçãos. Por outro lado, quando
os sacerdotes (os desobedecemos às Suas ordens, o
Cohanim) realizavam resultado é o oposto.
a Avodá – o serviço
Divino – dentro e fora Para o sábio, a principal virtude é a
do Templo Sagrado. sabedoria – Torá (Teshuvá). Para o
Os Cohanim eram profeta, é a justiça e a compaixão –
responsáveis pelos trabalhos Guemilut Chassadim (Tzedacá). Para
do Templo e por realizar vários o sacerdote, é obediência e serviço:
rituais e ritos religiosos. Avodá (Tefilá). Pois está escrito: “E
Aharon e seus filhos fizeram todas
No entanto, após a destruição as coisas que o Eterno ordenara por
do Segundo Templo Sagrado meio de Moshé” (Levítico 8: 36).

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Interior da Sinagoga Veiga Filho

Para o sacerdote, precisamos fazer As leis encontradas nesse capítulo de Hoje já não existe o Templo Sagrado
tudo o que D’us nos mandou Levítico podem parecer aleatórias, e são poucas as diferenças entre os
fazer exatamente como Ele ordenou. sem nada em comum entre si. Isto mandamentos religiosos que cabem
Para o sacerdote, vivemos para porque a maioria de nós não entende aos sacerdotes, os Cohanim, e ao
executar a Vontade de D’us. Quando o significado da santidade. Santidade restante do Povo Judeu. Isso significa
a vontade do homem coincide com não significa algo valorizado ou que até a construção do Terceiro
a Vontade Divina, a ordem está excepcional. Significa honrar a Templo Sagrado, o serviço Divino,
salvaguardada contra a onipresente ordem Divina na criação, quer se a Avodá, é de responsabilidade
ameaça do caos. refira à vida vegetal ou animal, ou às de cada um de nós, judeus. Cada
relações entre seres humanos. judeu deve viver como se fosse
A palavra-chave da ética sacerdotal um sacerdote, entendendo que o
não é “sabedoria”, como é para o Para o sacerdote, a vida moral judaísmo não reside apenas em
sábio, nem “retidão moral”, como não é determinada apenas pela sabedoria e bondade, mas também
para o profeta. Mas, sim, “sagrado”, sabedoria (o Sábio) ou por empatia em santidade. O judaísmo não se
e seu texto principal é o capítulo 19 (o Profeta), mas também por honrar manifesta apenas em quanto de Torá
do terceiro livro da Torá, Levítico. as distinções que D’us nos ensinou a pessoa estuda e quantos atos de
a ver na estrutura da realidade. Por bondade realiza, mas se manifesta
Esse capítulo ordena que amemos exemplo, há o leite – símbolo da também no cumprimento dos
nosso próximo e o estrangeiro, vida – e a carne – símbolo da morte mandamentos de D’us. Já não temos
que não guardemos ódio em nosso – e os dois não podem ser comidos um Templo Sagrado em Jerusalém,
coração e que não nos vinguemos. junto. Há a vida vegetal e a vida mas há sinagogas praticamente em
Ordena-nos, também, não semear animal – e nós não devemos usar um toda parte. Sempre que possível – e
os campos com diferentes sementes, artigo de vestimenta que contenha não apenas em Rosh Hashaná e Yom
nem usar roupa misturada de linho linho e lã. Isto é ontologia sagrada Kipur – devemos empenhar-nos em
e lã; não comer frutos de uma árvore e cria uma ética da santidade: “Sê ir ao Mikdash Me’at – o pequeno
em seus primeiros três anos e não sagrado, porque Eu, o Senhor, teu Templo – a sinagoga, e realizar
cortar o cabelo na lateral da cabeça. D’us, sou Sagrado”. nossa própria Avodá – nosso serviço

11 setembro 2015
NOSSAS GRANDES FESTAS

Divino – por meio da Tefilá – o essas duas festividades. Em todos Por outro lado, um sábio que seja
serviço do coração. Ensinam-nos os dias de sua vida, um judeu deve cruel, injusto ou insensível, profana
nossos Sábios que um judeu que, empenhar-se em ser sábio, profeta e sua sabedoria. A sabedoria deve
pela manhã, ao acordar, faz Netilat sacerdote. levar à bondade e esta deve seguir
Yadaim (o ritual de lavar as mãos), o caminho da sabedoria. Portanto,
coloca os Tefilin e recita as orações Não basta que o judeu viva como até o mais generoso dos judeus
matinais, é comparável a um Cohen um profeta – fazendo atos de deve dedicar parte de seu tempo a
que oferece um sacrifício no Templo. bondade e lutando pela justiça. estudar a sabedoria Divina – estudar
O judeu que assim age é um bom o que significa ser judeu, estudar
Aquele de nós que cumpre ser humano – como qualquer o judaísmo, aprender sobre D’us e
meticulosamente os mandamentos de outro, independentemente de sobre o que Ele espera de cada um
D’us, vive como um Cohen. Aquele nacionalidade ou religião, que realiza de nós.
que diariamente invoca a D’us em atos de bondade – mas ele não é,
suas orações, que diferencia entre o necessariamente, um bom judeu. Além de adquirir sabedoria
sagrado e o profano e que cumpre Bondade e generosidade não são e conhecimento e praticar a
os mandamentos da Torá, tanto os domínio exclusivo do judaísmo. bondade e a justiça, o judeu
positivos quanto os negativos, torna- Além disso, buscar a justiça e deve também realizar atos de
se um servo de D’us, porque vive sua a generosidade destituídas de santidade. Estudar a Torá e realizar
vida de acordo à Vontade Divina. sabedoria pode levar a erros tolos e muita Guemilut Chassadim não
graves. Muitas revoluções, inclusive substituem a colocação de Tefilin
Como um sacerdote, esse judeu a que levou ao socialismo, na Rússia, ou o cumprimento dos outros
entende que a santidade não está começaram com boas intenções, mas mandamentos da Torá. Ser uma
apenas nas grandes ações, mas resultaram em injustiças, sofrimento nação de sacerdotes e um povo
também nos pequenos detalhes. e morte de milhões. O inferno está, santificado significa viver de acordo
As ações diárias do ser humano de fato, cheio de pessoas com boas com as Leis de D’us: fazendo o que
têm enorme importância. Colocar intenções. Na vida, não basta ser Ele nos pede e não fazendo o que
Tefilin e orar são ações do serviço bom. É preciso, também, ser sábio. Ele nos proibiu de fazer. O judaísmo
Divino de importância inestimável. nos ensina que o bem e o mal são
Os inúmeros detalhes que regem fatos objetivos, não normas de nossa
a Lei Judaica – como rezar, como própria imaginação. É D’us, não
comer, como conduzir os negócios, o homem, quem determina o que
como se relacionar e falar com os é certo e o que é errado, próprio e
demais – permitem que um judeu impróprio, sagrado e profano.
viva em um plano mais elevado,
como se fora um sacerdote que Há uma ética de santidade no
servisse em Jerusalém, na Casa de mundo de D’us e esta consiste
D’us. Como ensinou, certa vez, o em fazer distinções, manter as
Rabi Meir de Premishlan, grande fronteiras, honrar a ordem e restaurá-
mestre chassídico: “Aquele que está la quando for violada. Há boas ações
conectado Acima não cai abaixo”. e más ações; mitzvot e pecados. Até
o estudo da Torá e a Tzedacá não
A abordagem tríplice conseguem ofuscar essa realidade.
à vida judaica
O judeu que é generoso e justo e que
Assim como a existência do mundo frequenta aulas de Torá na sinagoga,
se sustenta em seus três pilares – mas ignora os demais mandamentos
Torá, Avodá e Guemilut Chassadim, do judaísmo, não está alcançando seu
também os judeus devem viver uma potencial completo. Dois dos três
vida baseada em Teshuvá, Tefilá pilares de sua vida podem ser fortes,
e Tzedacá – não apenas em Rosh cartão de rosh hashaná, alemanha.
mas se um faltar, seu judaísmo está
Hashaná, Yom Kipur e nos dias entre final do século 19 - início do séc. 20. carente. Evidentemente,

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mishnê torá de maimônides, cópia de manuscrito, norte da itália, c. 1457

shofar de carneiro e menorá. Ben Shahn, 1958

todos nós temos nossos pontos Conduzir um verdadeiro Cheshbon Em Rosh Hashaná, D’us conclama
fortes e fracos. Para algumas pessoas, HaNefesh significa fazer uma todos os judeus à sinagoga para
mesmo dois pilares são mais fáceis auto-avaliação honesta, de acordo prestar contas do ano que termina.
de atingir do que um terceiro. com seu potencial. Considerando O destino do mundo depende de
Contudo, todos nós devemos minha capacidade intelectual e o cada um de nós. Devemos, cada
empenhar-nos em fortalecer todos tempo disponível, estudei Torá e um de nós, aproximar-nos de
os três pilares em nossa vida pessoal, adquiri tanto de sabedoria quanto D’us, em Rosh Hashaná, com um
que, por sua vez, irão fortalecer os poderia ter feito? Considerando relatório positivo, dizendo que no
pilares do mundo. meus recursos financeiros e minha ano que findou esforçamo-nos
influência, fui generoso e justo como para fortalecer os três pilares do
O mês de Elul e os Dez podia ter sido? Considerando meus Universo, e que, portanto, nós, o
Dias de Arrependimento conhecimentos sobre o judaísmo, Povo Judeu, e o mundo inteiro,
cumpri seus mandamentos da merecemos não somente um outro
No início de Elul, o mês que melhor forma possível? ano de vida, mas que seja um ano
precede Rosh Hashaná, todo judeu de paz e plenitude. Mas isso ainda
deve fazer um Cheshbon HaNefesh: Todos os judeus devem fazer-se não é suficiente. Devemos também
uma avaliação espiritual do ano essas perguntas, especialmente no assumir a responsabilidade de que no
que transcorreu. Muitas pessoas mês de Elul e durante o período ano que se inicia em Rosh Hashaná
se concentram em pormenores – de Julgamento Divino, que se inicia desempenharemos nossa missão no
pequenos incidentes que em Rosh Hashaná e termina em mundo com mais força e afinco do
ocorreram ao longo do ano – e não Hoshaná Rabá. Independentemente que em anos passados.
avaliam a sua vida como um todo. de suas respostas a tais perguntas,
Muitos também fazem o erro de se todos devem decidir ter um melhor
comparar a outros, e dependendo desempenho no próximo ano,
Bibliografia
contra quem eles se comparam, pois em se tratando de sabedoria,
Rabbi Sacks, Jonathan, Leviticus:The Book
podem sentir-se complacentes ou bondade e santidade, sempre of Holiness (Covenant & Conversation 3) –
desanimados. podemos e devemos melhorar. The Toby Press

13 setembro 2015
NOSSAS GRANDES FESTAS

Yom Kipur
e o Poder do Perdão
Por Rabino Gabriel Aboutboul

Yom Kipur é a oportunidade dada por D’us de virar a página


de nossa vida e acreditar em nossa capacidade de melhorar.
Devemos corrigir os erros, mas não nos tornarmos reféns
do passado, incapazes de olhar para o futuro.

D
urante os dias que antecedem Yom Kipur, que o homem pode cometer contra: D’us e contra seus
o Dia da Expiação, recitamos antes das semelhantes.
orações matinais as Selichot – os pedidos
de perdão a D’us. Sempre nos referimos a O que significa pedir perdão a D’us pelos erros e
essas orações no plural – Selichot – e não transgressões cometidas contra Ele? Significa reconhecer
no singular, Selichá. Nossos Sábios explicam que isso que, ao longo do ano, nem sempre cumprimos Seus
significa que o pedido de perdão tem duas vias: não mandamentos. Em Yom Kipur, D’us pode perdoar-nos
apenas pedimos perdão, mas, também, perdoamos. apenas por esse tipo de transgressões e não pelas faltas
A quem precisamos perdoar? Às outras pessoas, a D’us e que cometemos contra outros seres humanos.
a nós mesmos.
E o que implica pedir perdão a uma pessoa?
Na língua hebraica, há várias palavras que significam Não significa apenas dizer “Me perdoe”, apesar disto
perdão. As preces de perdão foram chamadas de Selichot ser um bom começo. Pedir perdão implica procurar
porque o valor numérico de Selach é 98, que é o número reparar o erro. Se tivermos prejudicado alguém
de maldições mencionadas na Torá. Isso para nos ensinar financeiramente, devemos devolver o que devemos
que o perdão tem o poder de transformar a maldição ou, no mínimo, admitir a dívida. Se tivermos
em bênção, neutralizando tudo o que há de negativo no denegrido a imagem de alguém, devemos tomar
mundo. Mas o que significa perdoar, de acordo com o as medidas necessárias para redimi-la. (Vale ressaltar,
judaísmo? porém, que quando ofendemos ou prejudicamos
outra pessoa, é necessário um pedido de perdão duplo
O que significa perdoar? – tanto a ela quanto a D’us. Pois ofender, ferir ou
prejudicar outra pessoa de qualquer forma é, também,
Na Torá, há mandamentos que determinam tanto nossa uma transgressão dos mandamentos Divinos, que nos
relação com D’us quanto com relação a outros seres ordenam amar a todos, fazer o bem e nunca fazer mal a
humanos. Consequentemente, há dois tipos de erros ninguém).

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REVISTA MORASHÁ i 89

yom kipur celebrado por judeus ashquenazitas, na sinagoga. bernard picart

Portanto, para se obter o perdão o possível para corrigir o erro mas não podemos permitir que eles
em Yom Kipur, precisamos procurar cometido. nos definam. Não podemos nos
consertar nosso relacionamento tornar reféns dos erros do passado,
tanto com D’us como com as outras Acima, mencionamos que há três incapazes de olhar para frente.
pessoas. Porém, não adianta bater tipos de perdão. Devemos perdoar Yom Kipur não é o dia em que
no peito e confessar os pecados, as outras pessoas, devemos perdoar falamos para D’us que somos
e esperar que D’us nos perdoe a D’us e devemos perdoar a nós “inocentes”, e sim, em que
inclusive pelos erros que cometemos mesmos. Para muitos, é mais fácil admitimos nossa culpa. Mas é,
contra os outros. Para sermos perdoar aos outros seres humano e também, o dia em que expressamos
perdoados desses erros, precisamos, a D’us do que a si próprio. Muitas o desejo de melhorar. Assumir
antes do início de Yom Kipur, pedir pessoas se condenam por suas falhas nossos erros já é parte integrante da
desculpas àqueles que, de alguma e são incapazes de se perdoar. Esta obtenção do perdão.
forma, prejudicamos ou magoamos. inabilidade é algo negativo, pois
Precisamos fazer de tudo para nossa vida fica presa ao passado. Há uma enorme diferença entre o
retificar nossos erros – tanto com O auto-perdão é uma demonstração que a pessoa é e o que ela faz. Fazer
atos como com palavras. de humildade, pois demonstra que algo errado não significa ser errado.
reconhecemos que somos humanos e Um mau comportamento, uma
A verdade é que cada um de nós não infalíveis. má atitude não pode definir quem
precisa pedir perdão e também a pessoa é. Isso, evidentemente,
perdoar os outros. Assim como A grandeza de Rosh Hashaná e Yom não significa que nossos atos não
quem falhou com outra pessoa Kipur é que D’us instituiu um dia sejam importantes e significativos.
deve pedir perdão, cabe à pessoa no qual temos a oportunidade de Significa que eles não podem nos
que recebeu um pedido de desculpas “virar a página”. Precisamos estar definir: talvez erramos ontem, talvez
perdoar, contanto que o pedido cientes de nossos erros – e fazer erramos hoje, mas amanhã podemos
dela seja sincero e de fato faça todo o possível para corrigi-los – agir corretamente. O fato de uma

15 SETEMBRO 2015
NOSSAS GRANDES FESTAS

pessoa errar não significa que ela não Um fenômeno parecido ocorre no – e clamamos por perdão – algo que
deva ser perdoada ou que não possa relacionamento entre o homem e não queríamos dar a outra pessoa.
modificar-se. D’us. Se D’us fosse excessivamente Muitas pessoas não querem perdoar
exigente – se Ele cobrasse todo os outros, mas a pergunta que se
Rabi Shneur Zalman de Liadi, o pecado cometido – romperíamos deve fazer a elas é: se fosse você que
Alter Rebe, fundador do movimento a relação com Ele: passaríamos a tivesse errado, você também gostaria
Chabad-Lubavitch, explica o fugir Dele, a ignorá-Lo. O Eterno, de não ser perdoado?
significado de um verso nos Salmos então, propõe um acordo – Ele nos
que, aparentemente, não faz sentido. perdoa e facilita o pagamento de Nossos Livros Sagrados nos ensinam
Está escrito que “D’us nos perdoa nossa dívida com Ele – para que seja que D’us se comporta conosco da
para que possamos temê-Lo”. À possível manter o relacionamento. forma como nos comportamos
primeira vista, esse conceito parece com as outras pessoas. Se formos
ser ilógico: se alguém sabe que Muitas pessoas acreditam que tolerantes com outros, Ele será
será perdoado, deveria ter menos perdoar é um sinal de fraqueza. tolerante conosco. Por outro lado,
medo de pecar. O Alter Rebe explica Na realidade, é exatamente o oposto. se formos excessivamente rigorosos
esse verso com uma metáfora. A falta de perdão é sinal de fraqueza com as outras pessoas, Ele será
Suponhamos que alguém tomou e insegurança enquanto perdoar excessivamente rigoroso conosco.
um grande empréstimo no banco é um ato de coragem, de força.
para investir em um negócio. Perdoar não significa dar permissão O Baal Shem Tov, fundador do
Infelizmente, não teve sucesso. para que a pessoa volte a cometer o Movimento Chassídico, ensinou
Se o gerente do banco for exigir a mesmo erro. Significa ter fé que a que depois que a pessoa deixa este
devolução do empréstimo, além do pessoa que errou não voltará a errar mundo, é ela própria que decreta seu
pagamento de todos os juros, ele fará no futuro. Perdoar alguém significa próprio veredicto perante a Corte
com que a dívida se torne impagável. acreditar nela. D’us nos perdoa Celestial. Mostram a ela os atos de
Mesmo se o devedor quisesse porque Ele acredita em nós: Ele uma pessoa – sem revelar que se
pagar a dívida, não conseguiria. confia que nosso futuro será melhor trata dela mesmo – e se lhe pergunta:
Consequentemente, ele não fará que nosso passado. “Qual deve ser o veredicto?”. Após
qualquer tentativa para devolver o a pessoa julgar o caso, é revelado a
dinheiro que tomou emprestado. Em muitos casos, não conseguimos ela que se trata dela própria. Isso
Contudo, se o gerente do banco compreender por que alguém significa que as pessoas que estão
estiver disposto a negociar – se deveria merecer ser perdoado: por acostumadas a julgar os outros
oferecer um plano viável para o que deveria ter uma segunda ou até favoravelmente acabarão julgando-
devedor pagar o que deve –, haverá uma terceira chance. Daí ocorre que se favoravelmente perante a Corte
mais chance de o banco recuperar o D’us nos faz passar por algo parecido Celestial. Por outro lado, aqueles
empréstimo. – nós, também, acabamos falhando que são demasiadamente rigorosos
com os outros, arriscam-se a se
autocondenar. Quando alguém é
rigoroso demais, esse rigor acaba se
voltando contra si próprio.

O que impede o ato de perdoar


ou de pedir perdão? Orgulho,
arrogância e medo. E esses
sentimentos estão entrelaçados.
Muitas pessoas não pedem perdão
às outras por motivo de orgulho:
Por que eu deveria pedir perdão a
tal pessoa? Afinal, sou muito mais
importante, mais experiente, mais
inteligente, mais bem-sucedido
fivela de cinto em prata para yom kipur. polônia do que ela... O outro motivo é o

16
REVISTA MORASHÁ i 89

medo da resposta. Muitos temem


não serem atendidos e que isso seja
motivo de vergonha, ou seja, de
orgulho ferido.

Em Yom Kipur, pedimos perdão


a D´us, mas, também, precisamos
perdoar D’us. Conta-se a seguinte
história sobre um grande mestre
chassídico, o Rabi Elimelech de
Lijensk. Na noite que antecede Yom
Kipur, ele enviou um de seus alunos
a certo botequim, para que este
aprendesse o significado do perdão
duplo. Ao chegar ao botequim, o
aluno nota que o dono pede à sua
esposa uma caderneta.

Ela leva uma caderneta para o


marido onde ele havia recordado,
ao longo do ano, tudo que D’us
fizera de errado com ele: todos os
sofrimentos que ele tinha passado
durante o ano. Após terminar de
ler essa caderneta, ele pede à sua
esposa uma outra caderneta onde
ele havia escrito todos os pecados
que ele fizera contra D’us, ao longo ARON KODESH. ILYA SCHOR, 1904-1961. guache sobre papel cartão
do ano. Após ler essa caderneta, o
dono do botequim se dirige a D’us,
diz “Le’Chaim” e toma uma dose como esperávamos e deixamos de
de bebida. Aí, diz: “D’us, você me colocar Tefilin. Em certos casos,
perdoa por tudo que eu fiz de errado porém, é justificado o sentimento de
com o Senhor ao longo do ano e que D’us nos desapontou. Muitos
eu O perdoo por tudo de mal que o de nós carregamos esse tipo de
Senhor fez comigo ao longo do ano”. sentimento, principalmente, quando
Essa história pode fazer as pessoas coisas difíceis acontecem ao longo
sorrirem, mas é algo sério. do ano. Infelizmente, esse tipo de Yom Kipur é o dia
sentimento negativo acaba tomando
Cada um de nós falha contra D’us conta de nosso coração. mais sagrado do
ao longo da vida, mas todos nós ano. É o momento
temos, também, nossas chateações e Yom Kipur é o período do ano em
em que se revela
ressentimentos em relação a Ele. Às que devemos livrar-nos desse tipo
vezes, brigamos com D’us, mesmo de sentimento. Yom Kipur – e os a essência de nossa
quando certas coisas acontecem em dias que antecedem essa data – é a alma. Nesse
nossa vida que não têm nenhuma época do ano para abrir um espaço
ligação com Ele. para D’us em nossa vida, mesmo dia, revela-se o
se acharmos que Ele “não merece”: nível de conexão
Por exemplo, brigamos com mesmo se acreditamos que Ele não
alguém na sinagoga, e deixamos foi “tão bom” conosco no ano que se essencial que existe
de frequentá-la, ou algo não ocorre passou. entre nós e D’us.

17 SETEMBRO 2015
NOSSAS GRANDES FESTAS

Muitas pessoas pensam, “Fiz tantas disse a ele: “Moshé, nosso mestre. Um
coisas boas e como é possível que verso da Torá afirma, ‘Lembre-se o
D’us permitiu que tal coisa ruim que Amalek fez para ti’. Outro verso
acontecesse comigo ?”. Na realidade, diz: ‘Lembre-se do dia do Shabat
nenhum de nós tem noção da para santificá-lo’. Como se cumprem
Contabilidade Celestial e do que é, ambos os versos? Um nos ordena
de fato, bom ou ruim para nós. De lembrar e o outro, também. Moshé
qualquer forma, vale ressaltar que respondeu: “Um copo de vinho não
mesmo esse tipo de ressentimento é o mesmo que um copo de vinagre,
contra D’us é uma grande mostra de mas esse é um copo e aquele também
fé. Pois nós não nos zangamos com é um copo. Há a lembrança do
alguém em quem não acreditamos, Shabat e a lembrança de Amalek”.
tampouco nos chateamos com
alguém de quem não esperamos Esse Midrash contém lições
nada de bom. As pessoas se chateiam profundas. O vinagre é um derivado
com D’us porque acreditam Nele e do vinho, mas este é doce e aquele é
esperam que Ele faça apenas o bem. azedo. Ambos, o vinho e o vinagre,
Portanto, decepcionar-se com D’us advêm da uva e ambos são bebidos
é um sinal de grande fé, tanto na em um copo. Na vida, temos a
existência como na bondade infinita opção de beber um copo de vinho
Dele. ou de vinagre. Tudo depende de
como enxergamos as coisas, como
Mas apesar desses sentimentos lidamos com as lembranças. Isso é
serem um sinal de fé, precisamos uma lição muito importante para
removê-los do nosso coração, pois esta e para as futuras gerações
eles obstruem nosso caminho e Yom Kipur é o dia de lembranças. de judeus. Evidentemente, elas
nossa felicidade. Sentimentos de Nesse dia, lembramo-nos de precisam aprender sobre a dor que
dor, raiva e ressentimento, mesmo Amalek (o arqui-inimigo histórico do nosso povo passou, as perseguições, o
que totalmente justificáveis, são um Povo Judeu), do mal, do Holocausto, Holocausto. Mas também precisam
grande obstáculo para tudo de bom das perseguições, dos 10 mártires aprender que o judaísmo é um copo
na vida. Sentir raiva é o mesmo que que foram assassinados por Roma. de vinho e não de vinagre.
tomar um copo de veneno e desejar Em Yom Kipur, lembramo-nos
que outra pessoa morra. Quem se de nossos entes queridos que não Quando o pai traz o filho à sinagoga,
prejudica é quem sente raiva – não mais estão entre nós. Quando nos deve ser não apenas em Yom Kipur,
o objeto da raiva. Como então, lidar lembramos desses entes queridos, mas em Simchat Torá também,
com a dor, principalmente quando podemos lembrar a dor causada para que o filho aprenda que o
ela é profunda? A forma de lidar pela perda e pela ausência ou judaísmo não se restringe a orações
com a dor é tentar enxergar as coisas podemos nos lembrar dos momentos e jejuns, mas é, também, um modo
de forma diferente. alegres com eles. Quando se recita de vida baseado na alegria. De
o Hashkabah ou Yizkor1 em Yom fato, um dos fundamentos da Torá
Kipur e lembramos as almas que é o mandamento de servir a D´us
partiram deste mundo, devemos nos com alegria. Mas para poder viver
1
Yizkor (do hebraico “que Ele se lembre”)
é o serviço judaico in memoriam lembrar dos momentos preciosos que com alegria, precisamos aprender a
pelos finados, executado quatro vezes passamos com elas e do privilégio de perdoar. Precisamos perdoar a D’us,
ao ano - em Yom Kipur , Pessach,
Shavuot e Sucot (em Shemini Atzeret ) as termos tido entre nós. as outras pessoas e a nós mesmos.
- após a leitura da Torá na sinagoga,
como lembrança pelos familiares mais O Midrash nos ensina o seguinte: Uma história verídica
próximos falecidos. Esta cerimônia
fornece ao enlutado a oportunidade de Quando Moshé Rabenu ensinou
rezar pela alma do falecido, de renovar seu ao Povo de Israel o verso da Torá, Cabe relatar uma história verídica,
próprio comprometimento espiritual e de
contribuir para caridade para elevação da “Lembre-se o que Amalek fez que expressa as ideias transmitidas
alma daquele que partiu. quando você saiu do Egito”, o povo acima.

18
REVISTA MORASHÁ i 89

Em certa ocasião, um judeu religioso,


um rabino, estava viajando pela
British Airways para Nova York.
Ao lado dele, estava sentado um
homem que, após o avião decolar,
vira-se para ele e diz “Shalom”, e
revela, também, ser judeu. Ambos
passam a conversar e descobrem que
ambos estão a caminho de Israel.

O rabino, que estava viajando para


passar Rosh Hoshaná e Yom Kipur
em Israel, começa a falar de religião,
mas o judeu sentado ao lado dele diz
“Não me fale de D’us. Tenho raiva
Dele. Não posso perdoá-Lo pelo
o que Ele me fez”. Este homem,
que tinha 70 anos de idade, havia
passado pelo Holocausto. Ele teve
um filho, mas tinha sido separado
dele durante a guerra e presumia
que havia morrido. Disse ao rabino
que nunca perdoaria D’us por lhe ter
tirado seu filho.
coroa de torá em prata. JACOB HENDRIK HELWEG, AMSTERDã, 1887

O rabino pergunta: “Por que então


você vai a Israel?”, e o homem Yizkor – seu filho deveria ser um pessoa que desde a guerra não
responde, “Não quero saber de D’us, deles”. O homem responde que por queria mais se relacionar com D’us.
mas o Povo Dele é ótimo. Não existe seu filho faria tudo, inclusive ir à Se o pai nunca tivesse entrado em
lugar no mundo como Israel”. O sinagoga para o Yizkor. uma sinagoga em Yom Kipur – se
rabino tenta convencer o homem a não tivesse dado essa “brecha” para
ir à sinagoga, em Israel, durante as Era uma sinagoga pequena. E por D’us – ele passaria o restante da
Grandes Festas – diz que a sinagoga ser pequena, havia o costume de que vida acreditando que seu filho havia
que frequenta em Israel é pequena, quem quisesse, podia ir ao chazan, morrido. No momento em que ele
mas possui um ótimo chazan”. O dar o nome do falecido e o próprio deu uma chance a D´us e entrou na
homem se recusa. chazan recitava o nome da pessoa sinagoga em Yom Kipur, mesmo que
Dias mais tarde, o rabino está em cuja memória seria lembrada. fosse apenas para recitar Yizkor pelo
Israel. É Yom Kipur. Após a leitura Ao entrar na sinagoga, esse senhor se seu filho, ele reencontrou aquilo na
da Torá, ele sai da sinagoga, durante aproxima do chazan que lhe pergunta vida de mais caro, que ele acreditava
o curto intervalo em que é recitado o o nome do filho. Quando o chazan ter perdido.
Yizkor. Ele vai a uma pracinha e nota ouve o nome, ele olha para esse
que há alguém fumando: é o seu senhor, fica pálido e grita em iídiche: Essa história, além de verídica,
amigo da viagem. Ele se aproxima “Pai!” serve também como metáfora. O
dele e tenta convidá-lo à sinagoga. pai da história é D’us e todos nós
“Venha rezar um pouco,” diz o Durante muitos anos, esse senhor somos Seus filhos. Yom Kipur é o
rabino. Mas o homem se recusa. O pensou que seu filho havia morrido dia em que nos reencontramos:
rabino diz o seguinte, “Pelo menos no Holocausto. Na realidade, seu em que Ele e nós descobrimos que
entre para recitar o Yizkor pelo seu filho havia sobrevivido, imigrara Ele não nos perdeu. Yom Kipur é o
filho. Sim, você brigou com D’us, para Israel e se tornara um judeu dia em que vamos à sinagoga para
mas por que seu filho deveria sofrer religioso. Ele manteve as tradições dizer a D’us que ainda estamos
por isso? Todos serão lembrados no que aprendeu com o pai – a mesma juntos e que assim continuaremos,

19 SETEMBRO 2015
NOSSAS GRANDES FESTAS

onde vivam. Se todos os filhos não


puderem comparecer, o pai prefere
que não haja festa. Yom Kipur é o
dia em que nosso Pai deseja que
todos os Seus filhos venham à
sinagoga. É por esse motivo que
antes de se iniciarem as orações
em Yom Kipur, o chazan recita uma
frase, “Anu Matirim”, afirmando
que todos, mesmo aqueles que
cometeram grandes pecados e
renunciaram ao judaísmo, podem
rezar juntos na sinagoga naquele dia.
Pois nesse momento, o Pai convoca
todos os Seus filhos. Ele não quer
apenas alguns deles – os que se
comportaram bem. Ele quer todos
eles.

Em Yom Kipur, recita-se o “Avinu


Malkenu” – “Nosso Pai, nosso Rei”.
O Baal Shem Tov transmitiu um
ensinamento a respeito dessa prece,
que nos ajuda a ter uma percepção
“O DIA DO PERDÃO”, ÓLEO DE JACOB KRAMER, 1919
bastante diferente a respeito do
Yom Kipur. De fato, é um dia em
que somos julgados. Por que, então,
eternamente. Mas como na história Yom Kipur. A única explicação é um dia de tanta alegria, felicidade
relatada acima, esse nível de é que em Yom Kipur, o dia mais e união? Porque o Juiz é o nosso
ligação e conexão com D´us só é importante do ano, revelamos quem, Pai. Diz-se que nunca se sabe o que
alcançado quando retiramos de nós na verdade, somos. Nesse dia, é pode sair da cabeça de um juiz, mas
sentimentos negativos contra Ele, revelado que nossa conexão com se o Juiz é o próprio Pai, podemos
contra outras pessoas e contra nós D’us é atemporal e independente de ficar tranquilos. D’us é nosso Rei,
mesmos. nossas ações. Em Yom Kipur, nós nos que nos julga, mas antes de ser Rei,
sentimos conectados com D’us, com Ele é Pai. Por esse motivo, falamos
Yom Kipur é o dia mais sagrado do a comunidade judaica e também Avinu Malkenu, não Malkenu Avinu.
ano. É o momento em que se revela com as almas dos falecidos. É na E um pai é sempre misericordioso e
a essência de nossa alma. Nesse sinagoga que recitamos o Yizkor e bondoso com seus filhos.
dia, revela-se o nível de conexão nos lembramos dos falecidos, porque
essencial que existe entre nós e D’us. no Mundo da Verdade, as almas Yom Kipur é o Dia da Expiação, o
Nesse dia do Perdão não interessa desejam ser lembradas em um lugar Dia do Perdão. Pedimos perdão a
o que fizemos, e sim, o que somos. sagrado – na sinagoga. Yom Kipur é, D’us e perdoamos aos outros, mas
Ao tomarmos consciência de quem portanto, um dia de amor: amor a só podemos perdoar a D’us quando
somos, torna-se possível expressar a D’us e amor às outras pessoas – as sabemos que Ele é nosso Pai, pois
essência do nosso ser. que se encontram conosco e as que quando é nosso Pai quem fala,
estão no Mundo da Verdade. ouvimos apenas bênçãos.
Por que as pessoas que não vão à
sinagoga o ano inteiro fazem questão Sabe-se que quando um pai deseja
de ir em Yom Kipur? Há judeus fazer uma festa de aniversário, ele
que praticamente não cumprem quer que todos os seus filhos estejam Rabino Gabriel Aboutboul é um
renomado palestrante, autor e rabino
nenhuma mitzvá, mas jejuam em presentes, independentemente de atuante no Rio de Janeiro.

20
NOSSAS GRANDES FESTAS

Algumas leis relacionadas


com Yom Kipur
Neste ano, Yom Kipur se inicia no dia 22 DE SETEMBRO,
TERÇA-feira, às 17:45h, e termina na noite do dia
23 DE SETEMBRO, ÀS 18:30H.
.

C
ostuma-se fazer caparot recebendo Yom Kipur com o ato de pele (perfumes, cremes etc.), não
– abate de um galo, acendimento das velas. calçar couro, não ter relações
para um homem, e É, porém, necessário antecipar o conjugais”.
de uma galinha, para recebimento de Yom Kipur para antes
uma mulher, no dia do pôr-do-sol. O jejum diz respeito tanto aos
9 de Tishrei de madrugada, 22 de homens quanto às mulheres,
setembro, por um shochet qualificado. É costume os pais abençoarem mesmo grávidas ou amamentando.
Também é possível cumprir este os filhos, pedindo que estes Só em caso de doença ou onde
costume com dinheiro, doando-o sejam selados no Livro da Vida haja algum perigo à vida, o jejum
para tzedacá. e que, em seus corações, permaneça pode ser suspenso (consulte seu
sempre o amor a D’us. Convém rabino). As crianças de 9 a 10
É proibido jejuar no dia que precede também ir à sinagoga antes do pôr- anos podem jejuar algumas horas,
Yom Kipur, mesmo se este jejum for do-sol, para poder participar do Kol e, a partir dos 11 anos, conforme
por Taanit Halom. É, ao contrário, Nidrei, a “anulação dos votos”. avaliação dos pais, podem jejuar
uma mitzvá fazer uma refeição o dia todo. Mas o jejum torna-
adicional. A refeição que antecede o Restrições durante se obrigatório aos 12 anos, para
jejum deve ter pão e pratos de fácil Yom Kipur meninas, e aos 13, para meninos.
digestão e ser concluída 20 minutos
antes do pôr-do-sol. Bebidas Yom Kipur é o Shabat dos Shabatot O uso de sapato, sandálias ou
alcoólicas são proibidas. e, portanto, todo trabalho profano tênis de couro é proibido tanto
deve cessar e todas as leis do Shabat para homens como para mulheres.
As mulheres devem acender as devem ser respeitadas. Assim como As crianças também devem ser
velas antes de ir à sinagoga, dizendo no Shabat, é proibido carregar sobre orientadas neste sentido.
a bênção “Lehadlik Ner Shel Shel si qualquer objeto durante Yom Kipur.
Shabat Veshel Yom HaKipurim”. Se Além de observar as leis do Shabat, Ao término de Yom Kipur,
a mulher quiser locomover-se de em Yom Kipur outras cinco restrições a Havdalá deve ser feita sem
automóvel ou usar o elevador antes são acrescidas: bessamim, e a Bênção da Luz deve
do início de Yom Kipur, deverá, ser feita sobre uma vela que
antes de acender as velas, fazer “Não comer, não beber, não trabalhar, permaneceu acesa desde o dia
uma ressalva dizendo que não está não se lavar e nem massagear a anterior.

21 SETEMBRO 2015
Nossas grandes festas

Hoshana Rabá

O sétimo e último dia da festividade de Sucot é


Hoshana Rabá - a “Grande Salvação”. É o dia final do
Julgamento Divino, quando é determinado o destino do
ano iniciado 20 dias antes. Hoshana Rabá – 210 dia do mês
judaico de Tishrei – é o dia em que D’us finaliza o veredicto
assinado em Rosh Hashaná e selado em Yom Kipur.

E
nsina o Midrash que D’us disse a nosso julgamento sobre seus súditos, ele busca formas de
patriarca Avraham: “Se a expiação não for evitar puni-los. Eles podem ter violado a lei, podem
concedida a seus filhos em Rosh Hashaná, ter-se revoltado contra seu regime, mas talvez haja
Eu a darei em Yom Kipur. Se eles não a circunstâncias atenuantes. Talvez os infratores sintam
conseguirem em Yom Kipur, esta lhes será algum remorso, e isso seria uma garantia de que terão
dada em Hoshana Rabá”. melhor comportamento no futuro, especialmente porque
os erros passados lhes ensinaram lições que lhes ajudarão
O profeta Isaías, falando em nome de D’us, declara: a construir um futuro melhor. Se o rei, ao examinar os
“Eles me procuram dia (após) dia”. O Talmud de autos do caso, encontrar razões para clemência, ele pode
Jerusalém (Tratado Rosh Hashaná 4:8) explica que esses anular a acusação e declarar a inocência do réu. Mesmo
dois dias são Rosh Hashaná – o dia em que o julgamento em caso contrário, ainda há esperança: o réu pode ter
Celestial se inicia – e Hoshana Rabá – o dia em que testemunhas que se apresentem em sua defesa. É sensato
termina. O Zohar, obra fundamental da Cabalá, ensina que o rei postergue sua decisão: sempre há tempo para
que Hoshana Rabá é o dia em que o veredicto de Yom condenar e punir, ao passo que uma decisão apressada
Kipur é finalmente selado e os pergaminhos contendo pode ser irrevogável. Portanto, o rei aguarda, paciente.
os decretos são entregues aos anjos que os distribuem.
Consequentemente, Hoshana Rabá assume especial O tempo passa, e se ele acabar encontrando razões para
importância como um dia de oração e arrependimento. clemência, emitirá sua decisão de absolvição. Ainda que
haja muitas evidências contra o réu e o veredicto lhe seja
Os comentaristas esclareceram da seguinte forma a desfavorável, o rei ainda assim adia sua sentença. Como
metáfora de “anjos, pergaminhos e selos” empregada o veredicto não entra em vigor até que seja inscrito,
pelo Zohar para explicar o que ocorre em Hoshana selado e entregue, existe a possibilidade de que o réu
Rabá. Poderemos melhor entender o Reino de D’us se possa demonstrar que ele, que se opôs à vontade do rei,
compararmos seu procedimento com o de um governo agora se tornou um servo leal. Por exemplo, suponhamos
humano. Quando um rei misericordioso emite um que o rei mande um mensageiro à casa do condenado

22
REVISTA MORASHÁ i 89

SINAGOGA PORTUGUESA DE AMSTERDÃ DURANTE HOSHANA RABÁ, GRAVURA DE BERNARD PICART, 1725

e o mensageiro o encontre todas as pessoas. Os justos são final para os judeus, individual e
extremamente envolvido em servir julgados favoravelmente e aqueles coletivamente, fornecerem amplas
ao rei, cumprindo, com devoção, que estão em falta têm até Yom Kipur razões a D’us para anular quaisquer
suas leis. O mensageiro retorna para se arrepender. Se não o fizerem, pergaminhos que contenham
e diz ao monarca: “Certamente o veredicto desfavorável é selado, sentenças severas.
ele era culpado, mas hoje é outro mas ainda não é entregue. Isso só
homem”. O rei concorda em anular o ocorre em Hoshana Rabá – o último Dia do Salgueiro
veredicto. dia da festa de Sucot – o dia quando
os judeus se reúnem para orar, Quando existia o Primeiro Templo
O Reino Celestial funciona de suplicar e cumprir mandamentos da Sagrado de Jerusalém, na festa
modo semelhante. A analogia Torá. de Sucot, os Cohanim (sacerdotes)
não é precisa: D’us é onisciente costumavam colocar galhos de
e não necessita mensageiros para A festa de Sucot, que dura sete dias, salgueiro, Aravot, ao redor do
saber o que fazemos, dizemos ou é alegre – é chamada de Zman Altar, voltados sobre o mesmo.
pensamos. Contudo, apesar de sua Simchatenu (época de nosso júbilo), Os sacerdotes tocavam o Shofar,
imprecisão, a analogia ajuda porque mas é, contudo, uma oportunidade davam uma volta em torno do Altar,
transmite a ideia de que D’us não para que o Povo Judeu influencie tendo nas mãos Arbaat Haminim
pune automática ou imediatamente. os decretos Divinos assinados – as Quatro Espécies de Sucot (Lulav,
Primeiro assina, depois sela o em Rosh Hashaná e selados em Etrog, Hadass e Aravá), e invocavam
destino, e só depois entrega Seus Yom Kipur. E Hoshana Rabá é a as súplicas “Ana, Hashem, Hoshia Na.
decretos. O Todo Poderoso dá ao conclusão e culminação do período Ana, Hashem, Hatzlicha Na” (Ó, D’us,
ser humano tempo de mudar seu de Julgamento Celestial iniciado traz-nos salvação. Ó, D’us, traz-nos
comportamento, possibilitando em Rosh Hashaná. Assim sendo, é sucesso). No último dia de Sucot, o
assim alterar seu destino. Em Rosh um dia de importância espiritual dia de Hoshana Rabá, os Cohanim
Hashaná, a Corte Celestial julga extraordinária. É a oportunidade davam sete voltas em torno do Altar.

23 SETEMBRO 2015
Nossas grandes festas

Com a queda do Templo se fazia no Templo durante a época O serviço de Hoshanot se inicia
Sagrado, esse serviço cessou, do Primeiro Reinado e em toda a com a retirada de um rolo da Torá
temporariamente. Após a construção Terra de Israel na época do Segundo da Arca Sagrada. Este é levado
do Segundo Templo, retomou-se o Reinado. e colocado sobre a Bimá ou é
serviço, ampliando-o. Os profetas carregado por um membro da
Haggai, Zecharia, e Malachi, As orações que recitamos durante congregação. Os outros homens
que eram membros da Grande as voltas em torno da Bimá são presentes na sinagoga rodeiam a
Assembleia, instituíram o costume chamadas de Hoshanot, porque seu Bimá, portando as Arbaat Haminim.
de que em Hoshana Rabá, os judeus refrão constante – reminiscente A razão para as voltas em torno da
podiam cumprir esse mandamento do que era usado no Templo – é Torá é porque após a destruição do
mesmo fora do Templo. Hoshana, que significa “salva, por Templo, a Torá nos traz expiação
favor”. Os poetas judeus medievais, como o Altar o fazia, no passado.
Derrubado o Segundo Templo especialmente o Rabi Elazar
Sagrado, nossos Sábios decretaram HaKalir, compuseram várias orações Antes de rodear a Bimá, onde está
que, como cada sinagoga e casa de belíssimas, em acróstico, para cada colocada a Torá, seguram-se as
estudo é um Mikdash Me’at dia do serviço de Hoshanot, mas o Quatro Espécies juntas, apertando-
– um Santuário em miniatura, tema central de todas é a súplica, as contra o coração. O Chazan
os serviços que eram realizados constantemente repetida, “Hoshana!” (cantor litúrgico) recita em voz alta
no Templo, nos sete dias de Sucot, as seguintes frases e a congregação
seriam realizados em todas as O serviço das Hoshanot repete em seguida: “Salva-nos,
sinagogas. A partir de então, rogamos-Te: Em Teu nome, nosso
abria-se a Arca Sagrada e Realizamos o serviço de Hoshanot D’us, salva-nos, rogamos-Te. “Salva-
retiravam-se os rolos da Torá, que durante os sete dias de Sucot (exceto nos, rogamos-Te: Em Teu nome,
eram levados à Bimá – o pódio de no Shabat), como parte das orações nosso Criador, salva-nos, rogamos-
onde se lê a Torá, na sinagoga. matinais. Muitas comunidades o Te. “Salva-nos, rogamos-Te: Em Teu
realizam logo após as preces de nome, nosso Redentor, salva-nos,
Os homens da congregação, com as Hallel; outras a realizam após a rogamos-Te. “Salva-nos, rogamos-
Quatro Espécies nas mãos, davam leitura da Torá ou após a oração de Te: Em Teu nome, Tu que nos
voltas em torno da Bimá, onde já Mussaf. buscas, salva-nos, rogamos-Te”.
estava a Torá, e oravam pedindo
a ajuda Divina. O conceito de dar A seguir, circunda-se a Bimá, no
voltas ao redor de um rolo da Torá sentido anti-horário, recitando a
baseia-se em um ensinamento de liturgia específica das Hoshanot para
um Sábio talmúdico, Rabi Chiya, o respectivo dia de Sucot, que se
que dizia que um representante encontra no livro de orações, o Sidur.
da congregação segurando um
rolo da Torá é equivalente ao Depois de dar uma volta, termina-
próprio Altar do Templo Sagrado se de ler o restante das Hoshanot.
(Yalkut Tehilim, 730). Já no tempo Continua-se segurando as Arbaat
de Rabi Saadia Gaon e do Rabi Haminim até o momento em que
Chai Gaon, esse costume era muito o Chazan inicia o Kadish (algumas
difundido. sinagogas o fazem até depois do
Kadish).
Maimônides (o Rambam) escreveu
que todas as comunidades judaicas Em Hoshana Rabá, sétimo dia de
rodeavam a Bimá em cada dia Sucot, dá-se sete voltas em torno
de Sucot em comemoração aos da Bimá, como o faziam nossos
dias em que tínhamos o Templo, antepassados no Templo, nesse
e que, no sétimo dia dessa festa dia. Durante as primeiras seis
(Hoshana Rabá), batia-se no chão inspeção do ETROG. MAURYCY TREBACZ
voltas, repetem-se as Hoshanot dos
com um feixe de Aravá, assim como 1861-1941. óleo sobre tela seis primeiros dias anteriores da

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REVISTA MORASHÁ i 89

festividade. Na sétima e última volta,


recitam-se as preces adicionais de
Hoshana Rabá.

Ao término das súplicas das


Hoshanot, em Hoshana Rabá, quando
os rolos da Torá já estão de volta
na Arca Sagrada, o Chazan recita
o Kadish. A seguir, há um costume
antigo, também instituído pelos
profetas Haggai, Zecharia e Malachi,
e, como dissemos acima, encontrado
nos escritos do Rambam, de
se tomar os ramos de salgueiro,
as Aravot, recitar um trecho
especial e batê-las contra o
chão. Segundo uma tradição
cabalista, juntam-se os cinco
ramos de Aravot para suavizar os festa dos tabernáculos (Sucot), Marc Chagall. c. 1916
“cinco rigores” celestiais. Esses
ramos também são conhecidos
como Hoshanot. É costume que são mergulhadas no mel e comidas Lembremo-nos que um dos
todos – homens, mulheres e crianças na Sucá. principais mandamentos da
– realizem esse ritual. Não se deve festividade de Sucot se refere às
usar um feixe de salgueiro que já No dia de Hoshana Rabá, come- Quatro Espécies. Cada uma destas
foi usado por outra pessoa; cada se uma refeição festiva na Sucá. simboliza um tipo diferente de
membro da família deve ter o seu Esse último dia de Sucot é a judeu. O Lulav (a folhagem da
próprio. Após usar o feixe, muitos última ocasião em que se recita a palmeira) representa o erudito
têm o costume de jogá-lo acima da bênção por comer na Sucá, já que em Torá; Hadáss (o mirto), o judeu
Arca Sagrada, o Aaron HaKodesh. o mandamento bíblico de morar que pratica muitas ações boas;
Esse costume de bater com o feixe nas cabanas dita que isso seja feito o Etrog (o citro), o judeu que
de cinco Aravot no chão tem grande durante sete dias. No entanto, muitas estuda a Torá e pratica muitos atos
significado místico. comunidades que vivem fora da de bondade, ao passo de que o
Terra de Israel continuam comendo Aravá (o salgueiro) representa o
Outros costumes de na Sucá na festa que se segue judeu que nem estuda muito a Torá
Hoshana Rabá imediatamente – Shemini Atzeret. nem cumpre muitos mandamentos.
No entanto, não dizem a bênção por O Aravá, aparentemente, é o menos
À luz da importância espiritual desse estar comendo nas cabanas. importante entre as quatro espécies;
dia, muitas comunidades costumam simboliza aquilo que um judeu não
permanecer acordadas na noite Aravá: elemento mais deve ser. Como, então, explicar que
de Hoshana Rabá. Recitam todo o humilde das Quatro seja o protagonista de Hoshana Rabá,
Livro de Deuteronômio – o quinto Espécies entre as demais? Por que tomamos
livro da Torá, que expõe os preceitos o feixe de salgueiros e não um
do amor e reverência a D’us. Após Hoshana Rabá é conhecido como feixe das outras três espécies, como
a meia-noite, recita-se todo o “o dia de bater o Aravá”. O auge dos antídoto contra os rigores celestiais?
Livro dos Salmos. Em algumas serviços de Hoshanot é o bater do
congregações, é costume que o feixe de cinco Aravot no chão. A razão para tal é que em sua
Gabai, o administrador da sinagoga, Por que Hoshana Rabá – último dia simplicidade e humildade, o Aravá
distribua maçãs aos congregantes, de Sucot, dia tão importante ao ponto triunfa sobre as outras três espécies.
como símbolo de um bom ano para de ser comparado a Yom Kipur – é Em muitos casos, a humildade a
todos. Levadas para casa, as frutas associado com o salgueiro, Aravá? tudo supera. Nossos Sábios explicam

25 SETEMBRO 2015
Nossas grandes festas

que o maior obstáculo entre o sacrifício animal recebe Celestial a anular qualquer decreto
homem e D’us é o nosso ego. recompensa por ter trazido um negativo e nos abençoar com um ano
O Aravá – por ser o menos sacrifício animal. Aquele que traz bom e doce.
importante das Quatro Espécies – um sacrifício de refeição
simboliza a antítese do ego. (a oferenda de farinha) recebe As Hoshanot e as sete
A Torá aponta que Moshé Rabenu, recompensa por ter trazido um Sefirot da Emoção
o maior líder e profeta judeu dentre sacrifício de refeição. Mas quem
todos, a maior alma que já veio ao é humilde é considerado como se Um dos ensinamentos centrais
mundo, foi o homem mais humilde tivesse trazido todos os sacrifícios, da Cabalá diz respeito às Sefirot –
que já existiu. Foi sua humildade pois está escrito: “O verdadeiro energia Divina que D’us usa para
– sua total falta de ego – o que lhe sacrifício ao Eterno é o coração criar e manter o Universo. As dez
fez chegar a tão grandes elevações contrito; o Eterno jamais desprezará Sefirot – três intelectuais e sete
espirituais. um coração angustiado e pleno emocionais – são as bases de toda
de arrependimento” (Salmos, 51- a Criação. A alma humana contém
Em Hoshana Rabá, o feixe de 19; Talmud, Sanhedrin 43b). todas elas.
Aravá tem um papel central
porque simboliza a humildade, O judeu personificado pelo Aravá, As três relacionadas ao intelecto
essência desse dia. D’us eleva o modesto e humilde salgueiro, são Chochmá (Sabedoria),
aqueles que aperfeiçoam sua em virtude de sua humildade e falta Biná (Compreensão) e Da’at
humildade pessoal. Em Hoshana de ego, eleva-se espiritualmente (Conhecimento). As sete ligadas
Rabá – data em que os Cohanim cada vez mais alto. Hoshana Rabá, à emoção são Chessed (Bondade,
rodeavam o Altar do Templo o Dia do Julgamento Final, ensina- Generosidade, Expansividade),
Sagrado sete vezes – o Aravá nos nos que se pudermos dobrar Guevurá ( Justiça, Disciplina,
lembra o ensinamento de nossos nosso ego e aceitar o jugo Divino, Restrição), Tiferet (Misericórdia,
Sábios: “Aquele que traz um poderemos influenciar a Corte Beleza, Equilíbrio), Netzach
(Vitória, Ambição, Eternidade),
Hod (Glória, Humildade,
Submissão), Yessod (Estrutura,
Carisma, Conectividade) e
Malchut (Realeza, Liderança,
Supremacia).

Vimos no artigo “A Cabalá de


Sucot” (Morashá, Edição 69 -
setembro de 2010) que os sete
dias da festa de Sucot correspondem
às sete Sefirot da emoção. O primeiro
dia da festa é associado à Sefirá
de Chessed; o segundo dia, à de
Guevurá; o terceiro, à de Tiferet, e
assim por diante. Sucot – festa de
nosso júbilo – é a época em que
cada um de nós, judeus, refina os
poderes emocionais de sua alma:
torna-se mais generoso (Chessed);
mais disciplinado (Guevurá);
mais equilibrado (Tiferet); mais
determinado (Netzach); mais
humilde (Hod); mais inteligente
emocionalmente (Yessod) e mais
nobre (Malchut).

26
REVISTA MORASHÁ i 89

Em cada dia de Sucot (excetuando-se


o Shabat), enquanto damos voltas
em torno da Bimá e recitamos as
orações de Hoshanot, mencionamos,
explícita ou implicitamente, uma
Sefirá da emoção. Em Hoshana
Rabá, último dos sete dias de Sucot,
damos sete voltas: nas seis primeiras,
repetimos as passagens recitadas nos
seis primeiros dias da festa – que
correspondem às seis primeiras
Sefirot emocionais. Então rodeamos
a Bimá uma sétima vez e recitamos
as passagens referentes a Hoshana
Rabá, cujo tema é a sétima e última
delas – a Sefirá de Malchut.
A Cabalá ensina que esta Sefirá de
Malchut absorve e inclui as outras
seis Sefirot da emoção, pondo-as, Ao aperfeiçoar nossas Sefirot Sefirá de Malchut, tendo em mente
então, em ação. Em outras palavras, emocionais, podemos alinhar nossas que a mesma contém as outras seis
Malchut é a materialização dos qualidades intelectuais e emocionais Sefirot da emoção, sendo o veículo
planos teóricos. É esta Sefirá que e, assim, viver uma vida de paz que permite a cada um de nós fazer
absorve e canaliza para o mundo as interna, integridade, propósito, mudanças positivas e permanentes
demais: Chessed, Guevurá, Tiferet, virtude e bondade. neste nosso mundo.
Netzach, Hod e Yessod.
Devemos celebrar Sucot e,
Hoshana Rabá, portanto, é o sétimo particularmente, Hoshana Rabá CuriosidadE:
dia e a somatória dos seis dias – ponto alto dessa festa de sete
anteriores de Sucot. Simboliza dias – com a conscientização de No dia 1o de outubro de 1946,
a perfeição dos sete atributos que apesar de ser uma época de após 216 sessões no tribunal, o
emocionais da alma humana. júbilo, é também uma época de Tribunal Militar Internacional
A Torá espera que até Hoshana auto aperfeiçoamento, para que de Nuremberg proferiu seus
Rabá tenhamos aperfeiçoado nossa o período de Julgamento Divino, veredictos sentenciando os líderes
habilidade de usar nossas sete Sefirot iniciado em Rosh Hashaná, somente do Partido Nazista à morte pela
emocionais. traga decretos Celestiais positivos. forca. A data da execução (16
No último dia do Julgamento, o de outubro de 1946) caiu em
Sabemos perfeitamente que dia da “Grande Salvação”, nós, o Hoshana Rabá, (21 de Tishrei)
a maioria de nossos erros e Povo Judeu, temos a oportunidade – o dia em que D’us sela os
transgressões na vida são decorrentes de transmitir a D’us que além de veredictos de Rosh Hashaná para
de algum problema emocional. ter expiado nossos pecados em Yom o ano seguinte.
Para viver sábia e produtivamente, Kipur, também refinamos nossa alma
precisamos aprender quando e modificamos o que estava errado,
dar e quando refrear, quando ser e que nossas ações futuras serão
contundente e quando ser submisso, melhores do que as passadas.
como relacionar-nos com os demais Bibliografia
e como influenciá-los. Refinando Hoshana Rabá representa o ponto Rabi Scherman, Nosson, Hoshanos
nossas qualidades emocionais, culminante de todas as nossas preces – The Hoshana Prayers, The Artscroll
podemos viver uma vida melhor. e empenho espiritual, iniciados em Mesorah Series
O homem geralmente sofre e erra Rosh Hashaná. Por essa razão, é o dia Adilman, Binyomin, The High Humble
porque sua mente e seu coração final do Julgamento Divino. Nesse Willow - Hoshana Rabbah – www.
estão em perene guerra entre si. dia, devemos concentrar-nos na chabad.org

27 SETEMBRO 2015
SHOÁ

A VIAGEM DOS CONDENADOS


POR ZEVI GHIVELDER

No dia 30 de janeiro de 1933, Franklin Delano Roosevelt


completou 51 anos de idade. Em menos de um mês seria eleito
presidente dos Estados Unidos. No mesmo dia, Adolf Hitler
tornou-se o chanceler da Alemanha. Seis anos mais tarde,
no oceano que separava estes dois homens, navegou
um navio chamado St. Louis, abarrotado por refugiados.

O
Führer alemão arquitetou e executou contra em moeda forte, para as permissões de saídas. Além
o Povo Judeu um genocídio disso, nenhum imigrante poderia partir com mais de
alheio aos mais elementares valores 1 dólar no bolso.
e princípios da civilização ocidental.
O presidente americano tratou-os com um No dia 3 de maio de 1939, o navio de passageiros
comportamento ambíguo e até hoje controverso. St. Louis, pertencente à Hamburg-America Line,
chegou à Alemanha, vindo dos Estados Unidos,
Naquele final dos anos 1930, os Estados Unidos comandado por Gustav Schroeder, um homem do mar,
estavam dispostos a aceitar exatamente 25.957 com 37 anos de experiência em viagens transatlânticas.
imigrantes oriundos da Alemanha. Mas, desse total, Era uma pessoa correta que, no decorrer dos últimos seis
qual seria o número de judeus? Eleanor, a mulher de anos, não aceitava filiar-se ao partido nazista embora
Roosevelt, era solidária com relação aos refugiados sofresse frequentes pressões nesse sentido. Ele foi
judeus. O presidente, porém, temia a reação da maioria chamado para uma conversa com o diretor da companhia
da opinião pública americana, que não queria acolher naval, de nome Holthusen, que começou a distrair-lhe
“essa gente”, além do fato de boa parte dos funcionários com banalidades até chegar ao que de fato pretendia:
do governo explicitarem seu antissemitismo. “Você vai levar o St. Louis com cerca de mil passageiros,
todos refugiados, para Cuba, o que é uma coisa
De qualquer maneira, a pergunta tinha duas respostas. formidável em face da crise financeira que o país
A primeira dependia da emissão de vistos que deveriam está atravessando”. Schroeder indagou quem eram os
ser concedidos pelos diplomatas americanos que serviam viajantes e recebeu a seguinte resposta: “São apenas
em Berlim e outras grandes cidades da Alemanha. judeus que não querem mais viver na Alemanha, nada
A segunda dependia das diretivas do recém-implantado fora do comum. Mas este é um assunto sobre o qual
regime nazista, que impunha toda a sorte de dificuldades lhe aconselho a não fazer muitas perguntas. Só posso
para os judeus que pretendiam emigrar, incluindo o adiantar que em Havana você será recebido por um
confisco de seus bens e a cobrança de taxas exorbitantes, dos nossos funcionários, chamado Robert Hofman, a

28
REVISTA MORASHÁ i 89

o St. Louis rodeado por navios menores, em hamburgo

quem entregará uma encomenda”. nazista em Cuba, compreendendo Ott, que não logrei apurar se é
Schroeder deixou o escritório do cerca de sessenta agentes que, na suíço ou alemão, proprietário do
diretor convicto de que este não lhe eventualidade de um conflito, já restaurante Swiss Home”. Rowell
tinha passado as informações mais estariam perto da costa americana. só não sabia que o dito pacote
importantes. Em um de seus relatórios oficiais, continha papéis e microfilmes com
enfatizou: “O elemento de contato informações pormenorizadas sobre
Naquele mesmo dia, em Havana, dos espiões chama-se Julius Otto locais a serem sabotados nos
o tal Hofman estava sendo vigiado Estados Unidos caso estourasse uma
por agentes americanos a serviço guerra por iniciativa da Alemanha.
da Inteligência Naval Militar, do O restante das informações secretas
Departamento de Imigração dos e complementares chegariam a Cuba
Estados Unidos e do FBI, todos no navio St. Louis e seriam entregues
sob o comando do coronel Ross pelo comandante Gustav Schroeder.
Rowell, da Inteligência Naval. No
dia seguinte, em seu escritório na No dia 13 de maio de 1939, o navio
embaixada americana em Cuba, St. Louis acolheu em Hamburgo
Rowell enviou um comunicado para 936 homens, mulheres e crianças
Washington informando que uma (há fontes que citam o número 937).
agente nazista chegaria em breve a Desse total, 930 eram judeus, em
Havana, vinda do canal do Panamá, cujos passaportes estavam impressos
com a missão de encontrar-se com em vermelho uma grande letra “J”,
o dito alemão e entregar-lhe um referência a Jude (judeu, no idioma
pacote. Àquela altura, Rowell já alemão). Assustados desde os
possuía elementos sobre a rede de dramáticos acontecimentos da Noite
espionagem instalada pelo regime comandante Gustav Schroeder dos Cristais, seis meses antes, além

29 SETEMBRO 2015
SHOÁ

atenções e cortesias por parte


da tripulação, que incluía alguns
ferrenhos a adeptos do nazismo.
Mas, em função, dos regulamentos
marítimos internacionais, estes não
ousavam desrespeitar quaisquer
ordens superiores. A viagem através
do oceano Atlântico transcorreu na
mais absoluta tranquilidade com os
passageiros tendo acesso às chaises
longues do convés e a excelentes
refeições.

Antes que o navio chegasse a seu


destino, o comandante começou a
o ex-governador de nova york, alfred e. smith, no madison square garden,
receber telegramas que aludiam à
em protesto contra a perseguição nazistas aos judeus. 27 de março de 1933 frágil validade dos vistos repassados
pela empresa de navegação. Isto
de frequentes medidas de caráter do Coronel Benites e os havia se deveu à ação de antissemitas
antissemita, aqueles judeus haviam revendido ao custo de 150 dólares cubanos instigados pelos agentes
decidido deixar a Alemanha para por pessoa, contabilizando um lucro nazistas infiltrados no país. Logo
sempre. À custa de muito dinheiro e expressivo. essa informação correu entre os
sacrifícios, tais como se despojarem passageiros, que foram ficando
de todos os seus bens e abdicarem Dentre os passageiros do St. ansiosos e deprimidos. Durante os
de suas profissões e ocupações, Louis encontravam-se judeus jantares a bordo, os viajantes eram
tinham obtido vistos de entrada proeminentes. Um deles era o entretidos pelo comediante Max
para um país distante chamado famoso advogado Max Loewe, que Schlesiger, de Viena, que, em face
Cuba. Dali, julgavam, tomariam lutara pela Alemanha na 1ª Guerra do ambiente reinante no navio,
diferentes destinos, mas tendo como Mundial, tendo sido condecorado interrompeu suas apresentações.
ponto final e preferencial os Estados por heroísmo. Ele estava com
Unidos. Com essa finalidade, a mulher, a mãe, e dois filhos Os menos preocupados, pelo menos
734 deles já tinham preenchido adolescentes. Viajava, também, o na aparência, eram aqueles 734
formulários exigidos pela imigração artista plástico Moritz Schoenberger, que haviam preenchido os papéis
americana e poderiam entrar no país celebrizado pelos cartazes que americanos. Achavam que, mesmo se
de três meses a três anos depois de concebera para os filmes alemães o St. Louis fosse obrigado a retornar
aportarem em Cuba. De qualquer produzidos pela empresa UFA. O à Europa, estariam sob a proteção
maneira ainda lhes restava uma rabino Gelder, de 67 anos de idade, das leis de imigração dos Estados
sombria dúvida. Depois de terem ansiava por encontrar na América Unidos. A atmosfera no navio ficou
pagado 262 dólares pela passagem seus dois filhos que já tinham tão carregada que um de seus mais
(volumosa quantia naquela época), emigrado. A senhora Feinchfeld, de importantes passageiros, o professor
além do custo dos vistos, foram Breslau, levava seus quatro filhos Moritz Weller, sofreu um infarto
obrigados a desembolsar mais 181 com idades de um a onze anos. O e morreu. Os judeus insistiram em
dólares a título de uma espécie de marido estava à espera de todos em que seu corpo fosse acomodado no
seguro caso o governo de Cuba Nova York. frigorífico da embarcação para que,
impedisse seu desembarque, embora uma vez em terra, tivesse um funeral
os vistos contivessem a assinatura Por ordem do comandante judaico. Schroeder invocou as leis
do coronel Manuel Benites, diretor Schroeder, os passageiros não eram marítimas, segundo as quais um
do Departamento de Imigração de tratados como refugiados, mas corpo inanimado deveria ser jogado
Cuba. Esses vistos lhes tinham sido como passageiros comuns, que ao mar. A revolta dos refugiados
entregues pela Hamburg Line, que os haviam comprado suas passagens foi quase incontrolável. Schroeder,
comprara por uma quantia ridícula e, portanto, mereciam todas as então, valeu-se de um argumento

30
REVISTA MORASHÁ i 89

que não comportava contestação:


a existência de um cadáver a bordo
poderia concorrer para que as
autoridades cubanas impedissem
a atracação do navio. O corpo do
professor foi jogado ao mar tendo
o próprio Schroeder proferido um
emocionado elogio fúnebre.

No dia 27 de maio o St. Louis


chegou ao porto de Havana.
Ninguém teve permissão para
desembarcar, nem as pessoas que se
encontravam
1
no cais puderam subir 2
ao navio. Os judeus que aguardavam
familiares e amigos alugaram refugiados judeus embarcam no st. louis. hamburgo, maio, 1939
pequenos botes e margearam o
transatlântico, na esperança de
que, protegidos pela escuridão Louis chegou às páginas de todos os pedindo-lhes que dessem acolhida
noturna, alguns se atirassem na jornais do mundo, notadamente dos aos judeus perseguidos pelo nazismo.
água e nadassem ao seu encontro. Estados Unidos, que ressaltavam Roosevelt, inclusive, teve um
Os cubanos, entretanto, instalaram o perigo com que se defrontavam encontro pessoal com o segundo
poderosos holofotes em torno do os refugiados judeus caso fossem homem do governo cubano, porém
navio e essa arriscada fuga tornou-se obrigados a retornar à Alemanha. o mais influente, chamado Fulgencio
impossível. Batista, que lhe prometeu total
Apesar de atento à imprensa, o colaboração. Mas não foi de graça.
Entretanto, 28 passageiros obtiveram presidente Roosevelt nada fez para
permissão para desembarcar. aliviar o sofrimento dos refugiados Por conta da sua aquiescência,
Desconfiados dos vistos sob do St. Louis. Por essa razão, Batista conseguiu que o governo
responsabilidade da Hamburg Line, diversos segmentos da sociedade americano diminuísse as tarifas
eles haviam contratado advogados americana, judeus e não-judeus, até referentes às operações comerciais
na Europa que lhes obtiveram hoje acusam seu presidente de ter do açúcar importado de Cuba, além
documentos adicionais emitidos permanecido indiferente à sorte dos de obter por parte de Washington
pelo Departamento do Tesouro e judeus europeus que viriam a ser ajuda militar e tecnológica. O fato
pelo Departamento do Trabalho do assassinados no Holocausto. de Batista não ter cumprido o
governo cubano. Outros seis que acordo firmado com Roosevelt não
escaparam, foram um casal cubano No entanto, um livro lançado em chega a admirar em face do seu
que retornava de uma viagem de lua novembro de 2014, da autoria caráter pouco confiável. Tornado
de mel na Europa e quatro turistas de Richard Breitman e Allan J. ditador de Cuba, anos mais tarde,
espanhóis. A bordo permaneceram Lichtman, isenta Roosevelt de ele acabou sendo deposto por Fidel
908 judeus. As autoridades cubanas tal comportamento. Os autores Castro, em 1959.
alegaram que seus vistos tinham afirmam que os refugiados do St.
origem ilegal e assim careciam de Louis só conseguiram embarcar Há um outro livro, intitulado
validade. Além disso, argumentavam rumo a Cuba graças a importantes Refugees and Rescue, de 2009,
que Cuba, uma pequena ilha, já medidas tomadas pelo governo escrito por James McDonald, que
tinha recebido desde a segunda americano. Quando Roosevelt foi assessor de Roosevelt para
metade da década de 1930 milhares tomou conhecimento da ocorrência todos os assuntos referentes aos
de imigrantes (2.500 dos quais eram da Noite dos Cristais (novembro de refugiados. O autor afirma que,
judeus), muito mais, em proporção, 1938), ordenou que o Departamento já em abril de 1938, o presidente
do que países muito maiores e de Estado entrasse em contato com elaborou um plano segundo o qual
muito mais ricos. O drama do St. diversos países latino-americanos, os judeus perseguidos na Alemanha

31 SETEMBRO 2015
SHOÁ

nazista seriam absorvidos por dez formulários para a obtenção de


nações democráticas e até pediu vistos não se enquadravam nas
ao Congresso um orçamento de leis americanas de acolhimento de
150 milhões de dólares a título de imigrantes. Berenson ainda tentou
compensações para os países que oferecer mais dinheiro (500 mil
os recebessem. Era uma quantia dólares) ao governo cubano e acabou
fabulosa e McDonald afirma que enredado numa disputa entre Bru,
ouviu de Roosevelt o seguinte candidato a um novo mandato,
comentário: “Não se trata de e Batista, também candidato à
dinheiro, trata-se de seres humanos”. presidência. Nos dias seguintes,
O autor afirma que o plano do Berenson sofreu as mais repugnantes
presidente teve de ser abandonado chantagens e manobras escusas,
porque, em 1940, a prioridade dos inclusive ameaças físicas, das quais
Estados Unidos era a segurança acabou se descartando e regressou
nacional e não ações humanitárias. mas não foi atendido. No telegrama para os Estados Unidos.
enviado ao chefe do governo, o
Mas, a posição americana, vista pelo comandante havia advertido, com No dia 2 de junho o St. Louis partiu
aspecto humano, não apagava a todo o respeito, que se o St. Louis para Hamburgo, às onze horas da
frustração dos refugiados do St. Louis tivesse que retornar para a Europa, manhã. O comandante Schroeder,
que avistaram, nas proximidades da um número incerto de refugiados ciente de um novo encontro de
Flórida, embarcações da guarda- poderia optar pelo suicídio. Mas, Berenson com Bru, no dia 4, cuidou
costeira americana e tiveram a Bru aceitou receber Berenson para de ganhar tempo navegando na
esperança de que estas fariam algum uma conversa inútil: nenhum judeu direção de Miami. Ali o navio
tipo de intervenção em seu favor. tocaria o solo cubano. Disse que passou a ser monitorado pela lancha
No dia 29 de maio, a entidade tinha simpatia pelos refugiados, mas da guarda-costeira americana de
beneficente americano-judaica não aceitava a intermediação dos número 244, incumbida de impedir
Joint ( Joint Distribution Committee) vistos pela Hamburg Line porque que algum passageiro se aventurasse
enviou dois representantes a Havana. aquele expediente atentava contra a a nadar até a costa. A imprensa
Eram a assistente social Cecilia dignidade de seu governo. Enquanto americana continuou publicando
Razovsky e um famoso advogado isso, o passageiro Max Loewe, cortou reportagens sobre o drama do St.
de Nova York, Lawrence Berenson, os pulsos, foi socorrido e levado para Louis. No jornal The Richmond Times
presidente da Câmara de Comércio um hospital em Havana. Sua mulher Dispatch, o bispo James Cannon
Cubano-Americana e amigo pessoal e filhos não tiveram permissão para Jr. escreveu: “A indiferença com
de Fulgencio Batista, àquela altura acompanhá-lo. Ele só reencontrou a relação a esses judeus, que vivem um
posicionado como chefe do Estado família anos mais tarde, na França. momento de extrema angústia, é uma
Maior do exército de Cuba. Cecília desgraça para a história americana e
garantiu às autoridades locais que, No dia 1º de junho, o presidente cobre nossa nação com uma mancha
se os judeus pudessem desembarcar, Bru assinou um decreto ordenando de vergonha”.
o Joint cuidaria de seus alojamentos que o St. Louis levantasse âncora e
e refeições até que pudessem navegasse até doze milhas além do No dia 6 de junho, às 23 horas e
partir para outros países. Em um porto de Havana, caso contrário 40 minutos, sem receber qualquer
encontro com Batista, o advogado seria conduzido à força pela marinha notícia por parte de Berenson, o
Berenson comprometeu-se a fazer cubana. Era o tempo que Berenson, comandante Schroeder decidiu
uma doação de 125 mil dólares ao bastante otimista, precisava para partir rumo a Hamburgo. Um
governo cubano, como garantia orquestrar a entrega dos dólares comitê formado pelos refugiados
de que os passageiros, uma vez prometidos. Em contato telefônico enviou um telegrama ao presidente
em terra firme, não se tornariam com a sede do Joint em Nova Roosevelt dizendo que dentre os
dependentes da economia do país. York, Berenson foi informado 907 passageiros do navio mais de
De bordo do navio, Schroeder de que, segundo a avaliação do 400 eram mulheres e crianças. Não
solicitou uma audiência com o Departamento de Estado, aquelas obtiveram resposta. Mandaram,
presidente de Cuba, Laredi Bru, pessoas que haviam preenchido então, outro telegrama para a sede

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1. passageiros do st. louis se preparam para desembarcar no porto de antuérpia, 17 de junho de 1939 2. membros da família
dublon no deck do st. louis, 22 de maio de 1939 3. passageiros do st. louis a bordo do rhakotis, a caminho da inglaterra,
chegam ao porto de southampton, 26 de junho de 1939 4. dr. josef joseph, lilly joseph, morris troper e liesl joseph depois
que st. louis retornou à antuérpia, 17 de junho de 1939

do Joint: “Em grande desespero O representante do Joint estabeleceu igual número. No fim das contas,
pedimos sua ajuda para desembarcar contatos com as autoridades da 214 judeus ficaram na Bélgica, 181
em Southampton ou receber asilo da Grã Bretanha, Portugal e na Holanda e 224 na França.
benevolente e nobre França”. Luxemburgo. Não lhe disseram que
sim, mas também não lhe disseram Às vésperas de receber os
Em Paris, o representante do Joint, que não, razão pela qual enviou um 250 destinados à Inglaterra, o
Morris Troper, tinha acumulado telegrama para Schroeder: “Talvez Subsecretário britânico
uma série de telegramas recebidos tenha boas notícias em 36 horas”. do Interior declarou, numa entrevista
do escritório central em Nova York. coletiva: “Estamos dando um
Estes diziam: “Imigração fechada O comandante seguiu curso para exemplo, mas não estamos abrindo
na Colômbia”. “Nada de positivo no Hamburgo, porém, de propósito, um precedente. Não há mais lugar
Chile”. “Situação política conturbada da forma mais lenta possível. para refugiados em nosso país”.
no Paraguai. Nada”. “Argentina Em Paris, Troper encontrou-se
receptiva, porém resultado incerto”. com Louise Weiss, secretária do Os judeus restantes no St. Louis
Troper entrou em contato com o Comitê Central de Refugiados, se viram obrigados a descer em
ministro da justiça da Bélgica, que, que, por sua vez, recorreu ao Hamburgo, no dia 20 de junho, e
após consultar o primeiro-ministro, ministro das relações exteriores da enfrentar os mais incertos destinos.
deu sinal verde para o desembarque França. Enquanto esses conluios A passageira Gerda Blachmann,
de 200 refugiados. Em seguida, se desdobravam, Troper recebeu nascida em Breslau, foi para o interior
falou com a responsável pelo comitê um telegrama informando que a da Alemanha, se disfarçou como
de refugiados da Holanda. A Rainha Grã Bretanha aceitava receber 250 camponesa, junto com a mãe. Ambas
Guilhermina permitiu, então, o refugiados. Isto fez com que conseguiram atravessar a fronteira
acolhimento de 194 passageiros. os franceses concordassem com para a Suíça. Ali trabalharam como

33 SETEMBRO 2015
SHOÁ

de idade, Messinger fora passageiro


do St. Louis e descera na Bélgica
junto com os pais. Em setembro, eles
embarcaram num trem oriundo de
Antuérpia rumo à França.

O comboio foi bombardeado por


aviões alemães e Messinger nunca
mais se esqueceu do peso de sua mãe
sobre ele, para livrá-lo dos explosivos.
A família conseguiu chegar ao sul da
França, de onde partiu para o outro
lado do Atlântico, pouco depois de
parte dos judeus de Vichy terem
sido conduzidos para campos de
sr e sra. Morris Troper (centro) com refugiados judeus no deck do st. louis
concentração. Em Halifax, o doutor
Messinger declarou aos jornalistas:
operárias numa fábrica de tecidos e O último país a negar ajuda ao “Que brilhante simbolismo! Neste
emigraram para os Estados Unidos St. Louis foi o Canadá. Por isso, mesmo porto de Halifax, que fechou
em 1949. A viúva polonesa Klara em janeiro de 2011, foi inaugurado as portas para os judeus do St. Louis,
Gottfried Reif, um filho e uma no Museu Marítimo da cidade ficará para sempre um monumento
filha encontraram refúgio em Paris costeira de Halifax, na província em sua memória”.
até a normalidade de suas vidas da Nova Escócia, um memorial É pouco provável que o comandante
ser devastada pela invasão nazista. em homenagem aos refugiados Schroeder tenha entregado os
Eles deixaram a capital francesa e daquele navio, criado pelo documentos secretos para o espião
se esconderam na pequena cidade arquiteto israelense David Libeskind. nazista sediado em Havana, porque
de Limoges. Um ano depois, seus O memorial, uma grande instalação em nenhum momento pisou o solo
parentes que moravam nos Estados à feição de um tambor e contendo de Cuba e ninguém obteve permissão
Unidos tiveram a sorte de resgatá- dezenas de fotografias, recebeu para subir a bordo. Ross Rowell foi
los e levá-los via Portugal para Nova o significativo nome de Roda da um dos mais destacados pilotos da
York, onde Liane, filha de Klara, Consciência. Dentre as centenas marinha militar americana durante a
completou seu doutorado em química. de pessoas presentes à solenidade, guerra, tendo sido promovido a general
encontrava-se um prestigioso médico e recebido uma série de condecorações
No dia 1º de setembro de 1939 canadense chamado Sol Messinger, por bravura. Morreu em 1947.
eclodiu a 2ª Guerra Mundial. Por então com 74 anos. Aos sete anos
este motivo, só ficaram a salvo os É preciso acentuar que todos
judeus acolhidos na Inglaterra. Os os acontecimentos referentes à
outros, após as invasões nazistas malograda viagem do St. Louis se
nos países que os tinham abrigado, desenrolaram durante três meses
acabaram sendo deportados junto e dezessete dias antes do início da
com as demais populações judaicas 2a Guerra Mundial. A perspectiva
para campos de concentração, onde histórica evidencia que o St. Louis foi
a maioria encontrou a morte em o prenúncio do Holocausto.
câmaras de gás. Dez anos depois
do fim do conflito, o comandante
Gustav Schroeder recebeu uma Bibliografia
condecoração do governo da Thomas, Gordon e Morgan-Witts, Max,
Alemanha Ocidental por sua “Voyage of the Damned”, editora Coronet
corajosa e impecável conduta. Ele Books, EUA, 1976.v
morreu em janeiro de 1959, aos 74
anos de idade. ZEVI GHIVELDER é escritor E JORNALISTA

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ATUALIDADE

bibi, obama
e o acordo nuclear
POR jaime spitzcovsky

Após uma crise iniciada em 2002 e de uma rodada de


negociações com 20 meses de duração, as potências globais,
reunidas no grupo P5+1, e o Irã anunciaram, a 14 de julho em
Viena, um acordo sobre o programa nuclear de Teerã.

P
ara os arquitetos da iniciativa, entre eles o No olho do furacão, um documento de mais de
presidente Barack Obama, trata-se de um 150 páginas, conhecido como Acordo de Viena e
momento histórico e um passo para evitar produzido em arrastadas e tensas negociações entre
uma guerra. Para os críticos, entre eles o o regime teocrático iraniano e o P5+1, formado por
primeiro-ministro Benyamin Netanayahu, Estados Unidos, China, Rússia, França, Reino Unido
um erro de proporções catastróficas, responsável por e Alemanha.
fortalecer um país que defende a destruição de Israel e
patrocina grupos terroristas. A premissa básica do acordo repousa sobre a ideia de
o Irã recuar de suas ambições nucleares em troca do
Assim que o acordo foi anunciado, começou uma batalha fim de sanções econômicas internacionais, responsáveis
política tendo o Congresso norte-americano como palco. por asfixiar nos últimos anos a economia do país.
O presidente Obama, sabedor da polêmica envolvendo O desemprego atinge a taxa de 20% e a indústria
a estratégia, concordou em buscar a aprovação de petrolífera, por exemplo, enfrenta sucateamento pela
senadores e deputados para o acordo, num cálculo dificuldade em importar tecnologias mais modernas.
arriscado. As duas casas legislativas abrigam hoje maioria
da oposição, e a Casa Branca espera contar com votos Com bomba atômica, o regime de Teerã se tornaria uma
republicanos para aprovar o acordo e compensar a perda ameaça maior não apenas a Israel, cuja destruição prega
de apoio entre alguns parlamentares democratas. abertamente. Países árabes sunitas também protagonizam
com o Irã xiita uma disputa por liderança no mundo
A votação deverá ocorrer a 17 de setembro, fim do muçulmano e por hegemonia no golfo Pérsico, ponto
prazo de 60 dias que o Congresso dispõe para estudar vital para escoamento da produção petrolífera da região
o acordo. Até a decisão, intensa movimentação política e, portanto, nevrálgico para economia global. Frear
produziu um embate claro entre o presidente Obama e ambições nucleares iranianas também desponta como
os opositores ao acordo, liderados por Netanyahu e por sinal importante para avançar políticas globais de não-
parlamentares republicanos. proliferação de armas atômicas.

35 setembro 2015
ATUALIDADE

No entanto, foi com Hillary Clinton


à frente da diplomacia dos EUA,
no primeiro mandato de Obama,
que a ideia começou a ganhar
contornos mais concretos. Nas
últimas décadas, devido aos fatores
terrorismo e petróleo, o Oriente
Médio despontou como foco
privilegiado. A meteórica ascensão
da China e o dinamismo das
economias como Índia e Indonésia,
entre outras, levaram a Casa Branca
a tentar acelerar a transferência do
as potências globais reunidas com john kerry, secretário de estado americano “pivô” a paragens asiáticas.

Segue a lógica da Casa Branca:


Tais ameaças levaram à formação ocupar mais destaque na agenda de transformar a Ásia em prioridade
de uma coalizão entre as potências Washington, o que se evidenciou nos para ações diplomáticas, comerciais e
globais, com o objetivo de pressionar últimos seis meses. militares dos EUA implica diminuir
o governo dos aiatolás. Porém, no Obama também pretende inscrever presença no Oriente Médio, a fim de
grupo, evidenciaram-se também nos anais da Casa Branca a ideia de drenar recursos para atuação no novo
estratégias distintas, já que Rússia ter sido o presidente responsável por “pivô”. O presidente Obama acredita
e China defendiam uma linha de transferir o “pivô” da política externa também que uma melhora nas
enfrentamento mais moderada de seu país do Oriente Médio para relações com o Irã seja fundamental
com o Irã, pois temem o país com a Ásia. No jargão da diplomacia, a para diminuir tensões na região e
armas nucleares, mas não querem expressão se refere ao foco principal, permitir à Casa Branca deslocar
comprometer o relacionamento para receber mais atenção dos recursos políticos e militares rumo à
comercial existente com Teerã. estrategistas do Departamento de Ásia.
Estado e do Pentágono.
A liderança no P5+1, apesar das Com essa lógica na pasta, Obama
diferenças, coube aos EUA, que não A ideia de mudar o “pivô” permeou se transformou no primeiro líder
têm relações diplomáticas com o Irã diversas administrações anteriores. norte-americano, desde 1979, a
desde a Revolução Islâmica de 1979, ter um contato direto com um
que depôs o xá Reza Pahlevi e dirigente iraniano. Conversou com o
levou o aiatolá Khomeini ao poder. presidente do Irã, Hassan Rouhani,
E Barack Obama, na reta final do seu por telefone, em 2013. E colocou
segundo mandato, elegeu como uma nas mãos de seu secretário de estado,
de suas prioridades a obtenção de John Kerry, a tarefa de liderar as
novas relações com seus adversários espinhosas negociações.
históricos, Cuba e Irã. O acordo
histórico com os irmãos Castro veio O acordo de Viena foi construído
em dezembro. Restava o intricado sobre alguns pilares básicos. Um
tema nuclear. deles é o “breakout time”, expressão
usada para descrever o tempo
Ao tentar escrever seu legado na consumido entre o Irã decidir
arena diplomática, Obama apostava fazer a bomba atômica e ter o
em deixar a marca de presidente que artefato pronto. A maioria das
terminou a Guerra do Iraque. Mas estimativas aponta que o regime
o surgimento do Estado Islâmico teocrático conseguiu montar
inviabilizou a estratégia da Casa uma infraestrutura, com usinas,
Branca. Cuba e Irã passaram a hillary clinton centrífugas e armazenamento de

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urânio, que coloca o país, caso


“aperte o botão para obter a bomba”,
a dois ou três meses de seu objetivo.

No acordo anunciado a 14 de
julho, uma dos pontos é levar o
“breakout time” a um ano. Ou seja,
diminuir a infraestrutura nuclear do
país a fim de deixar um intervalo
de doze meses entre o governo
dos aiatolás ordenar a produção e
obter as primeiras peças prontas.
Concretamente, o Irã se compromete
a diminuir número de centrífugas e barack obama benyamin netanayahu
abrir mão de parte significativa de
seu estoque de urânio enriquecido,
matéria-prima para a bomba israelense lembra ainda dos vínculos armamentos e do programa nuclear
atômica, enviando-o a um terceiro de Teerã com grupos terroristas norte-americano.
país, provavelmente a Rússia. como o Hezbolá, que controla
atualmente, na prática, o Líbano, Em Israel, apesar da rejeição maciça
O monitoramento do programa e conta com milhares de foguetes da opinião pública ao acordo,
nuclear, a ser liderado pela Agência apontados para solo israelense. algumas vozes saíram em defesa da
Internacional de Energia Atômica, estratégia de Obama e com críticas
desponta como outro ponto básico. Ao lado de republicanos e com apoio à ação de Netanyahu, como Amy
O regime de fiscalizações será do líder da oposição trabalhista, Ayalon, ex-chefe do Shin Bet, e
reforçado, com ampliação do acesso Chaim Herzog, Netanyahu Efraim Levy, que comandou o
de inspetores e de câmeras de vídeo embarcou numa ofensiva com Mossad.
a instalações do sistema atômico intuito de brecar o acordo no
iraniano. Congresso norte-americano. O Congresso norte-americano,
Mobilizou ainda em seus esforços já contaminado pelo início da
Segue a lógica do acordo: caso nos o AIPAC e políticos democratas, campanha pela Casa Branca em
seis meses iniciais de implementação, incluindo alguns pesos-pesados 2016, se transformou num palco de
o Irã cumpra o entendimento, a do partido, contrários à estratégia enfrentamento principal do acordo
parte mais significativa das sanções iraniana de Obama. Entre eles, o de Viena, após o anúncio de 14 de
econômicas serão levantadas. Alguns senador Chuck Summer, de Nova julho. Na primeira votação, para
estudos apontam que, com o fim York, uma das vozes judaicas mais aprovar ou não o entendimento,
do embargo, o país receberá uma influentes no debate político dos basta uma maioria simples, ou seja,
injeção de cerca de 100 bilhões de EUA. 50% mais 1 dos votos. Se a iniciativa
dólares, oriundos de investimentos obamista for rejeitada, o presidente
estrangeiros e outras fontes. De seu lado, Obama também reúne poder para vetar a decisão
amealha apoios para o embate final, parlamentar. Mas o enfrentamento
Para Obama, sem um acordo, o em setembro. Internacionalmente, continua. Senadores e deputados
Irã caminharia inexoravelmente à conseguiu adesão da Arábia Saudita podem derrubar o veto presidencial,
bomba atômica, o que tornaria uma e do Egito, potências sunitas e que embora nessa fase precisem reunir
guerra no Oriente Médio inevitável. veem também com desconfiança dois terços dos votos. Ou seja,
O premiê Benyamin Netanyahu e temor o papel do Irã no Oriente mais batalhas políticas surgem no
contesta a tese, classifica o acordo Médio. No começo de agosto, horizonte de Washington.
como “erro histórico” e aponta para a Casa Branca recebeu uma carta
o fortalecimento do regime dos de apoio assinada por 29 cientistas,
aiatolás, graças ao fim do isolamento entre eles seis Prêmio Nobel e JAIME SPiTZCOVSKY, foi editor
internacional e correspondente da
político e econômico. O governo veteranos da área de controle de Folha de S. Paulo em Moscou e em Pequim.

37 setembro 2015
OPINIÃO

Pacto com Irã é importante


para a política
POR michael BLOOMBERG

S
e você é contra o acordo nuclear firmado
com o Irã, está aumentando o risco de uma
guerra. Caso seja um democrata contrário a
esse acordo, também está colocando em risco
sua carreira política. Essa é a mensagem que a
Casa Branca e alguns líderes de esquerda estão enviando.
Eles têm de parar com isso agora, pois estão corroendo
sua credibilidade.

Tenho profundas reservas com relação ao acordo, mas,


como muitos americanos, ainda estou avaliando todas
as evidências a favor e contra. Esse é um dos mais
importantes debates de nosso tempo, com enormes
implicações para o futuro dos Estados Unidos, a
segurança e a estabilidade do mundo. No entanto, em
vez de tentar convencer os americanos sobre os méritos
do acordo, seus defensores recorrem à intimidação e, ao
mesmo tempo, extrapolam sua defesa.

Na semana passada, o presidente Barack Obama


declarou que endossar o acordo não é uma decisão
difícil. Discordo inteiramente. Trata-se de uma decisão
extraordinariamente difícil e a posição do presidente
seria mais convincente se deixasse de banalizar as A defesa exagerada do acordo esconde a gravidade da
fragilidades do pacto e exagerar seus benefícios. situação e contribui para gerar desconfiança, ao invés de
ganhar apoio. Difamar os críticos é ainda menos eficaz.
Se ele acredita que o acordo “proíbe permanentemente Em seu discurso, o presidente insinuou que aqueles que
o Irã de produzir uma arma nuclear”, como afirmou condenam o acordo são os mesmos que defenderam a
em seu discurso em uma universidade americana há guerra no Iraque. A mensagem não foi muito sutil. Os
uma semana, então deveria examinar novamente o texto, que se opõem ao pacto são belicistas. (Naturalmente,
cujas restrições terminam repentinamente após 15 anos, entre os que votaram a favor da resolução sobre a Guerra
e algumas limitações com relação ao enriquecimento de no Iraque, em 2002, estão o vice-presidente e o secretário
urânio desaparecem depois de apenas dez anos. de Estado de Obama).

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Conselho de Segurança da ONU adotou por unanimidade a resolução que estabelece um sistema de monitoramento para o
programa nuclear iraniano.

E Obama foi mais longe, afirmando: legislação que dá ao Congresso Durante todo o processo, o
“São aqueles radicais que entoam autoridade para se expressar sobre presidente e seu secretário
‘morte aos EUA’ os que mais se o acordo. Esse debate é muito mais de Estado deram garantias de que os
opõem ao acordo. Estão fazendo importante do que política partidária EUA não ficariam cercados em um
causa comum com a tática e considerações pessoais não devem mau acordo. Mas, em seu discurso, na
republicana”. interferir na decisão envolvendo o semana passada, o presidente afirmou
acordo. que o Congresso tem de decidir “se
De um presidente que com apoia o avanço diplomático histórico”
frequência se queixa do excesso Schumer está certo, esse é um voto ou o bloqueia “com a objeção da
de partidarismo e cujo objetivo de consciência. Cada membro do maior parte do mundo”.
declarado é elevar o discurso, o Congresso, depois de estudar a
público merecia algo melhor. O que fundo o teor do acordo e de ouvir O Congresso não deve decidir com
foi emblemático em tudo isso - e todos os argumentos, de ambos os base na opinião do restante do
me levou a escrever este artigo - lados, deverá decidir sobre o seu mundo, nem na opinião da sociedade
foi o tratamento dado ao senador mérito e a Casa Branca tem de se americana, que se opõe a esse pacto
democrata Chuck Schumer. concentrar em defender o mérito, numa proporção de dois para um,
não em usar táticas de campanha segundo pesquisa recente.
Em seus argumentos muito para pressionar os democratas a
sensatos, ele observou que a linha votar unidos. O Congresso tem de fazer a própria
de conduta no acordo não ficou avaliação, cuidadosa e árdua - o
clara. Pessoas sensatas podem O comportamento da Casa Branca que possivelmente não conseguirá
discordar e o fazem. Mas, em é especialmente decepcionante sem examinar os acertos que ainda
vez de aceitar uma diferença de quanto à maneira como as coisas precisam ser revelados. Como
opinião apresentada com todo o se desenrolaram. Toda negociação alguém pode se manifestar sobre
respeito, o porta-voz do presidente envolve uma troca. um acordo que não conseguiu ler do
e outras pessoas próximas à Casa início ao fim?
Branca insinuaram que a decisão Essa não foi exceção. Concessões
de Schumer poderá lhe custar a importantes foram feitas no último michael bloomberg, É CEO DA
oportunidade de se tornar o líder momento, até mesmo em termos de BLOOMBERG E EX-PREFEITO DE NOVA YORK

do Partido Democrata no Senado. armas e mísseis balísticos. Foram Tradução: Estadão Conteúdo
mudanças surpreendentes que terão
O que deveriam ter dito é que amplas implicações que exigem um Reprodução autorizada por
Bloomberg L.P. Copyright© 2015.
o presidente Obama ratificou a exame cuidadoso. Todos os direitos reservados

39 setembro 2015
PERSONALIDADE

Sir Nicholas Winton

Morreu no dia 1 de julho último, aos 106 anos, sir Nicholas


Winton, responsável, em 1939, pela organização do resgate
de 669 crianças judias checas. Durante nove fatídicos meses,
numa Checoslováquia sob ameaça de invasão alemã, ele e
um pequeno grupo de voluntários estiveram numa frenética
corrida contra o tempo para evacuar e levar para a
Grã-Bretanha o maior número possível de crianças judias.

A
intervenção desse “Schindler britânico”, constava o nome das crianças, com detalhes e endereços
como foi apelidado pela mídia inglesa, das famílias que as acolheram. O álbum havia sido
salvou esses menores do que, para quase montado por um dos voluntários, W.M. Loewinsohn,
todo o restante de suas famílias, seria o em setembro de 1939, e entregue a Winton. Após a
destino de internação e assassinato nos eclosão da 2ª Guerra, quando as atividades do grupo
campos de concentração. Hoje em dia, acredita-se que tiveram que ser interrompidas, pois não era mais possível
são cerca de 60 mil os descendentes das chamadas organizar a partida dos trens, Loewinsohn reunira o
“Crianças de Winton”. máximo de informações possíveis sobre a frenética
corrida contra o tempo executada pelo pequeno grupo
Sir Winton jamais se considerou um herói e tampouco de voluntários que se haviam juntado a Winton.
gostava quando se referiam a ele assim. Mas, por suas
ações e para as milhares de pessoas que descendem Num dos momentos mais emocionantes do programa
das crianças que ele salvou, ele é um herói da mais alta de TV, a apresentadora lhe disse: “Senhor Winton,
estirpe. tenho uma surpresa. Sentados ao seu lado estão duas
das pessoas que o senhor salvou, em 1939”. Perguntou
O mundo e as próprias “Crianças de Winton” tomaram ainda se alguém na plateia devia a sua vida a Winton,
ciência das ações de sir Winton apenas 50 anos e, em caso afirmativo, que ficasse em pé. Mais de
mais tarde. Em fevereiro de 1988, Esther Rantzen, vinte pessoas ao redor de Winton se levantaram e o
apresentadora do programa da TV britânica, aplaudiram.
“That’s life”, convidou-o para participar do show
sem revelar do que se tratava. Sir Winton não estava Em 2014, a pedido do pai, sua filha Barbara Winton
preparado para o que viria a seguir. A apresentadora publicou sua biografia. “If It’s Not Impossible...” -
revelou ao público como ele resgatara da Checoslováquia The Life of Sir Nicholas Winton”. O título faz referência
699 crianças judias. Mostrou um álbum contendo a seu lema: “Se algo não é impossível, então deve
fotografias, documentos e cartas, e uma lista onde haver uma maneira de fazê-lo”, que o levou a seguir

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o presidente checo, milos zeman, condecora sir winton com a mais alta honraria de seu país

suas próprias convicções e Sua vida diferença é que eles eram judeus.
assumir uma operação que outros Rudolf e Babette, no entanto, não
haviam desconsiderado por julgar Nicholas George nasceu em davam muita importância à sua
desnecessária ou muito difícil. Hampstead, Londres, em 19 de maio herança religiosa: não frequentavam
de 1909. Era o segundo filho de sinagoga e não mantinham
O livro, além de dar os pormenores Rudolf e Babette Wertheim, judeus nenhum ritual judaico em casa.
da operação de salvamento que o alemães que se haviam mudado para Considerando-se acima de tudo
tornaria conhecido, revela que as Londres dois anos antes. O lar dos pessoas “pragmáticas”, para facilitar
atitudes tomadas por sir Winton Wertheim era semelhante a muitos a integração à sociedade britânica
ao longo daqueles nove meses são outros de famílias da alta classe se converteram e converteram
reflexo de sua personalidade e da média britânica da época. A única seus filhos ao cristianismo.
crença que norteou sua vida: cada Mudaram também de sobrenome,
um de nós pode e deve agir para abandonando “Wertheim” para
fazer uma diferença na vida dos adotar “Winton”.
outros. Para ele, “há uma diferença
entre a bondade passiva e a ativa, Nicky, como ele era conhecido pelos
que, em minha opinião, é doar de mais próximos, começou a frequentar
seu tempo e energia para aliviar a a escola aos sete anos, em 1916. Foi
dor e o sofrimento dos demais. Isso matriculado na University College
requer sair de sua zona de conforto, School em Frognal, Hampstead.
ir atrás e ajudar aqueles que sofrem Aos 17 anos, deixou os estudos para
e estão em perigo. Não basta levar iniciar um estágio no Japhet’s Bank,
uma vida exemplar, de forma mas decidiu sair do setor bancário
meramente passiva, apenas não em 1937 para trabalhar como
fazendo o mal”. com sua filha, Barbara Winton operador na Bolsa de Valores.

45 SETEMBRO 2015
PERSONALIDADE

levado ao Comitê Britânico para


Refugiados onde foi apresentado
a Doreen Warriner, o verdadeiro
dínamo que dirigia o Comitê, que
imediatamente o recrutou para
ajudá-la.

Ela sugeriu que Winton visitasse um


campo de refugiados nos arredores
da capital, para que visse o que
lá ocorria. Em meio a um duro
inverno europeu, milhares de pessoas
aglomeravam-se em barracões.
As condições no campo eram
terríveis, com instalações precárias,
racionamento de alimentos, frio
intenso. Como revelaria em sua
biografia: “Quando vi todas aquelas
Nicholas Winton e Hansi Beck, uma das 20 crianças que desembarcaram em
12 de janeiro de 1939, em Londres pessoas, percebi que tinha que fazer
algo para ajudá-las”...
O ativismo político de Winton em 9 de novembro de 1938, a seu
teve início em meados de 1930, ver, eram uma nítida indicação das Rapidamente percebeu que eram
quando, levado por sua visão de intenções nazistas. muitas as crianças refugiadas, e
igualdade social, começa a participar ninguém se preocupava com seu
de reuniões dos movimentos de Salvando as crianças futuro. Ofereceu-se, então, para
esquerda. Nesse período fez novas concentrar seus esforços nesses
amizades, entre as quais, Martin O envolvimento de Winton da menores. Sem condições de fazer
Blake, diretor da Westminster operação de salvamento começou mais do que já fazia, Doreen
School, e responsável por sua ida no final de dezembro de 1938, encorajou-o a assumir a tarefa.
para Praga, em 1938. quando recebeu uma ligação de seu Após ouvir mães implorando para
amigo Martin Blake. Eles haviam que seus filhos fossem enviados para
Winton seguia com preocupação planejado passar duas semanas a Inglaterra, começou a pensar que
os acontecimentos na Europa, esquiando na Suíça. Blake, que deveria haver uma forma de salvar
pois estava ciente da atmosfera na época fazia parte da Comissão as crianças, se as mandassem para
perigosa e violenta que permeava Britânica para Refugiados da outros países. Tinha apenas duas
esse continente e da ameaça à paz Checoslováquia (CBRC), cancelara semanas de férias, o que sequer era
representada por Hitler. Ele ficou a viagem. Convidou-o a visitar a uma fração do tempo necessário para
abismado quando, em setembro Checoslováquia. Queria que ele iniciar tal empreitada. Mesmo assim,
de 1938, Inglaterra e França visse o que acontecia nesse país. começou a agir.
assinaram o Acordo de Munique Após a anexação dos Sudetos por
que, praticamente, entregava a tropas alemãs, em 10 de outubro, Telefonou para sua mãe, em
Checoslováquia aos alemães. milhares de refugiados dessa região Londres, perguntando-lhe se ela
Para ele, a política de apaziguamento haviam-se deslocado para a parte poderia ir até o Departamento
de Chamberlain, sob o slogan central da Checoslováquia. Segundo de Imigração e verificar quais as
“paz em nosso tempo”, não deteria dados da imprensa, eram mais de 250 garantias exigidas para fazerem
Hitler, pelo contrário, apenas o mil, entre eles judeus, comunistas e entrar crianças na Inglaterra. Em
fortaleceria. Ademais, sabia do democratas sudetos e alemães. 10 de janeiro de 1939, Nicholas
grande perigo que a Alemanha Winton escreveu ao escritório em
nazista representava para os judeus. Winton tinha duas semanas de Londres do Comitê Britânico de
E os acontecimentos durante a férias e não hesitou em alterar Refugiados da Checoslováquia, o
Kristallnacht (Noite dos Cristais), seus planos. Ao chegar a Praga foi BCRC, pedindo-lhes ajuda.

46
REVISTA MORASHÁ i 89

No momento em que se tornou A partir daí Winton se dedicou


público que alguém se estava a cumprir as exigências das
dedicando a salvar as crianças, autoridades. Ao término de sua
Winton se viu praticamente sitiado jornada de trabalho escrevia cartas,
no hotel, de manhã à noite, por pais artigos, fazia cartões com fotos das
que, desesperados, vinham implorar- crianças e se mobilizava para obter
lhe que mandasse seus filhos para a os recursos financeiros necessários,
Inglaterra. Ele passava grande parte além de procurar lares adotivos.
do dia anotando nomes das crianças Ele conseguiu encontrar pessoas
e inúmeros outros detalhes, e tirando interessadas em adotar os pequenos
fotos. No dia 12 de janeiro, um refugiados, bem como outros que lhe
avião partiu rumo a Londres, com as doassem os recursos necessários.
primeiras 20 crianças a bordo.
Enquanto isso, Doreen Warriner
Decidiu estender suas férias por mais enviara uma carta à sede da CBRC,
uma semana, apesar da recusa de em Londres, solicitando que Winton
seus empregadores, que não ficaram fosse nomeado encarregado do
sensibilizados com o trabalho Departamento de Crianças, até
humanitário que estava fazendo. NIcholas Winton e seus dois irmãos então inexistente. No entanto, isso
Mas teve que retornar a Londres no durante a Guerra só foi oficializado em 24 de maio,
dia 21 de janeiro. Retomou seu posto quando ele foi nomeado Secretário
na Bolsa de Valores, mas sua mente atestado médico; o pagamento de 50 da Seção Infantil da Comissão. Mas,
estava concentrada nos esforços para libras (valor equivalente atualmente ele não esperaria a nomeação oficial
trazer crianças para Inglaterra. a 2.500 euros) por criança para para começar a agir. Conseguindo
cobrir um eventual retorno, além papel timbrado da CBRC, ele apenas
Alguns dias após sua chegada a de um lar adotivo ou alguém que adicionou seu nome e título, com o
Londres foi informado sobre as se responsabilizasse pelo menor endereço de sua residência. Mandou
exigências do governo britânico até completar 17 anos. Sem o imprimir uma resma de papel
para permitir a entrada dos menores cumprimento de tais requisitos os com esses dados e saiu em campo
refugiados: o preenchimento de um britânicos não concederiam o visto enviando relatórios para os jornais
formulário por criança, com um de entrada. sobre a desesperadora situação das

algumas das 600 crianças de winton

47 SETEMBRO 2015
PERSONALIDADE

crianças checas, escrevendo a várias de informar os pais assim que um tenham sido enviados aos campos
organizações relacionadas com lar adotivo fosse encontrado e a de concentração, sendo assassinadas
refugiados e inúmeras tratativas junto autorização de saída e os vistos de pelos nazistas, como o foram milhões
ao Ministério do Interior. entradas estivessem em ordem. de outros judeus.

O primeiro trem com as crianças Lembra Winton: “No dia da partida Declarada a guerra não havia muito
partiu de Praga em 14 de as crianças eram escoltadas até a mais que Winton pudesse fazer por
março; outros sete deixariam a estação Wilson, no centro de Praga, elas. Ele passou, então, a trabalhar
Checoslováquia ao longo dos seis por um membro da Gestapo, com nas equipes de salvamento da Cruz
meses seguintes. No dia seguinte, etiquetas penduradas no pescoço Vermelha, em Londres.
15 de março, Hitler invadiu o resto preparadas pelos meus assistentes. E
da Checoslováquia. A Comissão eram embarcadas sob os olhares dos No final de 1941, ele se candidatou à
Britânica para Refugiados em soldados nazistas espalhados pela Força Aérea inglesa, a RAF, mas foi
Praga teria que atuar de acordo com plataforma”. Ao desembarcar em recusado para piloto e para serviço de
as determinações nazistas. Para poder Londres, na estação de Liverpool, tripulação pelo fato de usar óculos.
sair do país tornara-se necessária a após uma longa viagem, elas eram Serviu como instrutor da RAF.
autorização da Gestapo. recebidas por Winton e sua mãe,
que ajudavam na entrega formal das Após a 2a Guerra
Um dos voluntários, Trevor crianças a suas famílias adotivas.
Chadwick, estava encarregado Ao término da 2a Guerra Mundial,
de negociar com a Gestapo as O nono transporte estava marcado em meio a uma Europa destroçada
autorizações de saída para as para partir no dia 1o de setembro, e tendo dado baixa da Real Força
crianças, que, em geral, eram com 250 crianças, o maior até Aérea, Winton começou a pensar em
concedidas sem dificuldade, apesar então. Foi quando a guerra eclodiu. seu próximo passo. Lembrando-se
de os nomes serem cuidadosamente Todos os meios de transporte foram daquelas crianças que tinha ajudado
examinados. Contudo, apesar bloqueados. Não se soube mais nada a salvar, sua prioridade passou a ser
da atitude relativamente dessas crianças; acredita-se que o destino dos milhões de refugiados
condescendente dos alemães, espalhados por toda a Europa.
podia ocorrer uma interferência Começa a trabalhar no Fundo para
imprevisível, a qualquer momento, Refugiados Checos, com o objetivo
e o nível de tensão no escritório de de ajudá-los a retornar ao seu lar
Praga se intensificava. Por vezes, as ou a reconstruir uma nova vida em
licenças de entrada do Ministério do qualquer outro lugar.
Interior do Reino Unido tardavam
para chegar, significando que um Tempos depois, passa a atuar
trem estava pronto, mas ainda não no Comitê Internacional para
havia os documentos de entrada na Refugiados, em Londres. Fazia
Inglaterra. parte de uma equipe pequena,
cerca de uma dúzia de pessoas,
Para resolver o impasse, Trevor que trabalhavam pela repatriação
Chadwick arranjara uma gráfica que dos refugiados. O grupo foi,
falsificava os documentos de entrada depois, integrado à Organização
para que os alemães os carimbassem. Internacional de Refugiados
Assim o trem podia partir. Quando (International Refugee Organisation
chegavam à fronteira britânica, - IRO), parte da nova Organização
as falsificações eram substituídas das Nações Unidas, criada no final da
pelos documentos verdadeiros do guerra. O trabalho de Winton com o
Ministério. O grupo sabia que estava IRO terminou na primavera de 1948.
se arriscando cada vez mais, mas
também sabia que esperar não era estátua de nicholas winton na estação
A seguir, assume um cargo em
uma opção. Chadwick se encarregaria wilson, praga Paris, no International Bank for

48
REVISTA MORASHÁ i 89

1 2 3

1. A rainha da Inglaterra, Elizabeth II, cumprimenta Sir Nicholas Winton. Bratislava, Eslováquia, out. 2008 2. Rainha Elizabeth II
o condecora com o título de Cavaleiro do Império Britânico, 2008 3. Sir Winton diante do trem a vapor que trouxe as
crianças refugiadas. Londres, 2009

Reconstruction and Development. Winton disse em sua biografia: Rainha, em reconhecimento por seu
Para ele, esse trabalho era uma “O tipo de ajuda ao próximo a que trabalho no salvamento das crianças
espécie de continuação do empenho me dediquei sempre cruzou o meu e, em 2010, recebeu o título de
mundial de tentar reerguer a Europa caminho fortuitamente. Nunca foi “Herói britânico do Holocausto”.
após os traumas da guerra. Ao uma escolha pessoal planejada. O
chegar ao Banco, no dia 1o de abril trabalho com os refugiados, em Foi agraciado com a Ordem de
de 1948, as duas primeiras pessoas 1938, aconteceu porque um amigo Tomáš Garrigue Masaryk, (uma
que encontrou foram o diretor e me pediu que me unisse a ele em das mais altas distinções checas)
sua secretária, Grete Gjelstrup, Praga, aonde tinha sido enviado pela pelo presidente checo, em 1998,
uma jovem dinamarquesa de 28 Comissão Britânico para Refugiados e ano passado, recebeu a Ordem
anos. A jovem, quieta e reservada, na Checoslováquia, após a ocupação do Leão Branco, das mãos do
tinha opiniões fortes sobre a vida e alemã. O envolvimento com pessoas presidente checo Milos Zeman.
valores parecidos aos do Nicholas. com necessidades especiais aconteceu Também foi indicado pelo governo
Embora fosse, às vezes, retraído quando nosso filho nasceu com checo para o Prêmio Nobel da Paz
e circunspecto, Nicholas era Síndrome de Down e percebemos de 2008. Devido ao fato de seus
autoconfiante e divertido. Os dois que as autoridades britânicas pais serem judeus (apesar de se
se casaram e tiveram 3 filhos, Nick, não tomavam conhecimento das terem convertido), Winton não foi
Robin e Barbara. Robin, que nasceu famílias nessa situação. Por sua agraciado com o título de Justos
com Síndrome de Down, faleceu na vez, envolvi-me no trabalho com entre as Nações – uma honraria
infância. Nicholas e Greta Winton pessoas da Terceira Idade quando o somente prestada a não judeus.
passaram a vida em Maidenhead, Secretário Geral do Lar de Idosos de
perto de Londres. Abbeyfield pediu a um dos membros Sua morte foi comentada por líderes
do nosso Rotary que um voluntário de vários países. “O mundo perdeu
presidisse um comitê na cidade de um grande homem. Não podemos
Aos 62 anos, ainda cheio de energia Maidenhead”. esquecer jamais a humanidade
e motivação, mas já aposentado, demonstrada por Sir Nicholas
Winton estava pronto para dedicar o Sir Nicholas Winton recebeu Winton ao salvar tantas crianças do
tempo que lhe restava e sua atenção inúmeros prêmios por seu trabalho Holocausto”, afirmou o primeiro-
para o que mais gostava de fazer humanitário. No aniversário da ministro britânico David Cameron.
desde a década de 1950: ajudar o rainha Elizabeth II, em 1983, foi “Ele sempre será um símbolo de
próximo. nomeado membro da Ordem do coragem, profunda humanidade e
Império Britânico por seu trabalho incrível humildade”, declarou, por
Sobre o trabalho voluntário que na instalação de lares de idosos. Em sua vez, o primeiro-ministro checo
sempre fez parte de sua vida, 2002, foi elevado a cavaleiro, pela Bohuslav Sobotka.

49 SETEMBRO 2015
MEIO AMBIENTE

o que será das abelhas?

O mel, com sua doçura, é um dos símbolos principais


de Rosh Hashaná. Mas sua produção está sendo ameaçada
e os cientistas têm lançado um alerta sobre o forte
declínio no número de abelhas no mundo.As abelhas
estão no centro de um debate internacional.

V
ários governos estão alarmados com o momento, de polinizadores. Em Israel, o tema vem
forte declínio no número de abelhas, cujo sendo estudado profundamente por especialistas em
papel é fundamental nos ecossistemas. apicultura, agricultores e segmentos governamentais.
Dizimadas em algumas regiões, seja pela
propagação de pragas incontroláveis por Na Antiguidade
pesticidas, seja pela ação do homem no meio ambiente,
as abelhas ocupam um espaço importante na agricultura O mel faz parte da história de Israel desde a
– inversamente proporcional ao seu reduzido tamanho. Antiguidade. O Livro da Sabedoria exalta a bondade do
Sua extinção teria efeitos desastrosos, não apenas pelo mel, mostrando como as palavras agradáveis são como
fim da produção de mel, mas, principalmente, pelo seu um favo de mel, doces para a alma, e representam saúde
papel na polinização de milhares de hectares destinados para os ossos.
à agricultura. É preciso ressaltar que 3/4 das espécies
utilizadas pelo homem na produção de alimentos Na Torá, a Terra que nos foi Prometida pelo Todo
dependem da polinização para uma produção de Poderoso foi descrita como uma terra que emana
qualidade e em quantidade. leite e mel, um sinal da abundância e prosperidade
nela encontrada. Estudiosos judeus e não judeus têm
A polinização é o processo que garante a produção procurado decifrar o significado por trás desta frase.
de frutos e sementes e a reprodução de diversas Há os que tentam identificar o mel que fluía como
plantas, sendo um dos principais mecanismos de sendo de tâmaras ou do néctar de alguma fruta e não
manutenção e promoção da biodiversidade na Terra. necessariamente de abelhas. No entanto, não há dúvida
Para que aconteça, entram em ação os polinizadores, de que o mel encontrado na Terra de Israel era
como abelhas, vespas, borboletas, pássaros e morcegos originário de abelhas desde épocas muito antigas.
responsáveis pela transferência do pólen entre as
flores masculinas e femininas. Das espécies conhecidas Elas construíam suas colmeias em grutas, em penhascos
de plantas com flores, 88% dependem, em algum e, algumas vezes, em um esqueleto de leão, como mostra

50
REVISTA MORASHÁ i 89

a narrativa referente a Sansão fim na discussão sobre a prática O mais antigo encontrado, até então,
quando estava a caminho de seu da apicultura na região. Durante possuía entre 100 e 200 colmeias
casamento na terra dos filisteus: escavações feitas em Tel Rehov, que outrora abrigaram mais de
“No esqueleto do leão, ele (Sansão) no vale de Beit Shean, no norte de um milhão de abelhas. Foram
encontrou um enxame de abelhas Israel, ele encontrou um apiário encontrados, também, 25 cilindros
e mel. Ele o colheu com suas mãos datado do século 9 a.E.C. onde eram depositados os favos.
e o comeu e foi caminhando. Feitas de palha e de barro, cada
De fora daquele que come veio colmeia media 80 centímetros de
algo para comer. Do forte veio algo cumprimento e 40 de diâmetro.
doce” (Juízes 14: 8-14). Estavam dentro de um recinto feito
com tijolos, que foi destruído por um
Há outros relatos bíblicos que incêndio. Os pesquisadores estimam
confirmam a crença de que o que o apiário tivesse uma produção
mel jorrava na Terra de Israel anual de cerca de 500 quilos de mel
produzido por abelhas silvestres: e 70 de cera.
“Ele alimentou-se de mel do
penhasco” (Deuteronômio 32:13). Segundo declarações de Mazar na
“Eu te saciei com mel da rocha” época do achado, trata-se de uma
(Salmos 81:17). evidência, sem precedentes, da
existência da apicultura avançada
Uma descoberta feita em 2007 na Terra Santa em tempos bíblicos,
pelo acadêmico israelense, Amihai muito mais do que se acreditava, até
Mazar, professor do Instituto de então, confirmando a denominação
Arqueologia da Universidade de “terra que emana leite e mel”,
Hebraica de Jerusalém, colocou um tantas vezes mencionada no

51 SETEMBRO 2015
MEIO AMBIENTE

O tema é crucial para Yossi


Slavsky, chefe do Departamento
de Cultivo do Ministério de
Agricultura e do Serviço de
Desenvolvimento e Extensão
Rural. Como responsável pelo
setor, ele não está apenas
preocupado pelo fato de haver
inúmeros tipos de grãos produzidos
pelo país que dependem da
polinização. Tais grãos constituem
um terço da produção israelense.

Em um artigo publicado na edição


de janeiro de 2015 da revista
israelense “Eretz”, Slavsky e outros
especialistas, incluindo acadêmicos e
Tanach1, a Bíblia. Diz, ainda, pelas Dados alarmantes apicultores, analisam a situação.
suas pesquisas, que a apicultura
era amplamente praticada na Por que esse interesse aparentemente Em muitos países a situação
Antiguidade, onde o mel tinha repentino sobre o início da é preocupante, inclusive nos
aplicações religiosas e medicinais, apicultura, em Israel, e que espécies Estados Unidos. Em maio desse
além de alimentares, e a cera era havia na região, na Antiguidade? ano, um relatório preliminar do
usada na fabricação de moldes e Porque, como outros países, Israel Departamento de Agricultura
como superfície de escrita. também se encontra, hoje, ameaçado americano apontou para o fato
da extinção de suas abelhas. Na de que os apicultores do país
Outra descoberta que realidade, estudiosos já afirmam que, perderam 42% de suas colônias de
surpreendeu os arqueólogos atualmente, não mais se encontram abelhas no ano passado, a segunda
foi a de que as abelhas do apiário em Israel espécie ou subespécies da maior perda anual registrada até
de Tel Rehov não eram as chamadas época de Sansão e que, a continuar hoje.
abelhas sírias, comuns em Israel a tendência mundial atual de morte
até algumas décadas atrás. Eram de abelhas, estas não mais poderão As abelhas são importantes
abelhas do gênero Apis Anatolia, ser encontradas sequer em fazendas polinizadores de culturas-chave para
oriundas da Turquia, e que israelenses. os EUA, como amêndoas e maçãs.
produzem de cinco a oito vezes mais
mel que as “sírias”, sendo também
mais fáceis de criar para
uso comercial, e mais tranquilas.

Foram tais características que,


segundo Mazar, possibilitaram
a construção de um apiário em
uma cidade como era Tel Rehov na
época bíblica.

1
O Tanach é composto de 24 livros. Esta
palavra simboliza o conteúdo desses livros
e contém a inicial de cada grupo de livros:
Torá, Nevi’im (Profetas) e Ctuvim
(Escrituras Sagradas). voo das abelhas (doron zucker)

52
REVISTA MORASHÁ i 89

1 2

1 e 2. acomodando as abelhas para facilitar a polinização (adva ofir e yossi slavsky)

As causas desse colapso ainda não Varroa destructor é considerado, a e importaram abelhas da Itália.
estão completamente explicadas principal praga que afeta as abelhas. Estas, além de produzirem
pela ciência. Várias teorias foram Esse ácaro ataca as colmeias, onde maiores volumes de mel, são mais
formuladas e os ambientalistas se reproduzem, e abre as portas para tranquilas e mais fáceis de criar,
culpam o uso indiscriminado de um vírus que infecta as abelhas. O com capacidade de se adaptar tanto
agrotóxicos. O presidente norte- ácaro foi responsável pelo colapso a altas quanto baixas temperaturas.
americano, Barak Obama, já de colmeias no Havaí, no Canadá e, O processo de substituição das
anunciou um plano para tentar também, em Israel. abelhas sírias pelas italianas levou
reverter o quadro, com medidas cerca de 80 anos e levou à extinção
que incluem a redução do uso de Situação atual das abelhas sírias em Israel,
pesticidas, entre outras. em Israel principalmente a partir da década de
1980, quando foram dizimadas pela
De acordo com Slavsky, “Abelhas A moderna indústria de apicultura praga Varroa.
produtoras de mel estão morrendo em Israel se baseou nas chamadas
em grande número, nos últimos abelhas sírias e suas subespécies, que Israel possui atualmente cerca de
anos, por razões que continuam mal sobreviveram ao longo de milhares 500 apicultores, instalados das
compreendidas. Ácaros, parasitas, de anos na região, adaptando- Montanhas do Golã ao deserto
doenças, pesticidas e poluição e se às condições climáticas e às
diminuição da área verde foram plantas locais. Desenvolveram um
apontados como culpados pelo sistema de defesa que lhes permitiu
Distúrbio do Colapso das Colônias sobreviver a predadores e à ação do
(DCC), que tem causado uma homem, bem como às intempéries
dizimação na população mundial climáticas, como secas e fortes ondas
de abelhas. O DCC espalhou-se de calor. Esta capacidade espalhou-
rapidamente pelos Estados Unidos as pelas terras de Israel, onde
e Europa, nos últimos anos, não criaram colmeias, com uma abelha
deixando praticamente nenhum rainha e enxames de trabalhadoras.
país com sua população de abelhas Sua agressividade e irritabilidade,
intacta... O colapso das colmeias que garantiram sua sobrevivência,
coloca em risco não só as abelhas, no entanto, tornaram-nas menos
mas toda a cadeia de alimentos, já atraentes para os apicultores.
que as lavouras de grãos e frutas
dependem da polinização”. Ainda Assim, em 1914, os produtores as abelhas destas colmeias no sul de
israel morreram sem razão aparente
de acordo dom Slavsky, o ácaro resolveram fazer uma experiência (yossi slavsky)

53 SETEMBRO 2015
MEIO AMBIENTE

verdes em função do crescimento


urbano e ocupação humana – levou
a uma experiência que parece
estar dando certo em Israel. O
caso é citado por Sima Kagan, da
Organização Israelense de Pesquisa
Agrícola (Israel Agricultural
Research Organization – ARO),
apesar das restrições iniciais.

Como em muitos países de


regiões desérticas, os apicultores
de Israel enfrentam dificuldades
porque a grande maioria das
plantas nativas floresce somente na
primavera. Isso significa que,
em outras estações, as abelhas
de Aravá. Segundo Hertzel Avidor, envolvido em várias atividades da têm que ser alimentadas com
diretor executivo do Departamento cadeia produtiva, com a fabricação soluções de açúcar ou transportadas
de Mel de Israel, cerca de 100 deles de 11 tipos diferentes de mel natural a lugares do país onde as flores
então envolvidos com atividades vendidos em todo o país, incluindo ainda não caíram – o que é
comerciais, possuindo milhares mel de abacate, eucalipto, ameixa, muito caro. Mas um trabalho
de colmeias, enquanto os demais entre outros. Durante a primavera, o conjunto do Dr. David Brand,
são pequenos produtores. No total, apiário executa tarefas de polinização chefe do departamento florestal
há cerca de 100 mil colmeias em em campos de abacate, kiwis e do Keren Kayemet LeIsrael (KKL);
Israel, com uma média anual de lichias. Dr. Dan Aizikovich, professor
produção de 3 mil toneladas de mel da Universidade de Tel Aviv;
– 30 quilos por colmeia ao ano. Experiência de sucesso e do Departamento do Mel,
A demanda interna, no entanto, encontrou a solução: eles
é maior, algo em torno de 4 mil Um dos problemas mencionados transplantaram para Israel um tipo
toneladas anuais, pois o consumo por Slavsky – a diminuição das áreas de eucalipto australiano que floresce
médio per capita é de meio quilo por o ano todo.
ano. As colmeias estão espalhadas em
cerca de 6 mil instalações por todo o As primeiras mudas foram trazidas
país e estão sob supervisão direta do em 1998. Depois de dois anos
Departamento de Mel. de experiências, os professores
israelenses iniciaram a produção.
A cadeia produtiva das abelhas Desde então, mais de cem mil
inclui a criação em separado de árvores foram distribuídas
abelhas rainha, para serem colocadas anualmente aos apicultores – um
em colmeias onde são fertilizadas total de dez milhões nos últimos
pelos machos, que morrem em dez anos. Segundo a previsão do
seguida. Todas as demais tarefas Dr. Brand, do KKL, a produção
nas colmeias são desempenhadas de mel israelense vai aumentar
pelas fêmeas. Noga Reuven, significativamente...
apicultora da Galilee Flowers Apiary,
em Mitzpe Manot, na Galileia
Ocidental, é responsável por cerca
de 650 colmeias, que produzem BIBLIOGRAFIA
mel, e centenas de outras para apiário galilee flowers, em mitzpe Revista Eretz, The Magazine of Israel, Nº
criação de rainhas. Este apiário está manot (avital hershkovitz) 149. Jan-Fev 2015

54
PERSONALIDADE

Lloyd Blankfein
e o “Sonho Americano”
Ao falar aos formandos de 2013 do LaGuardia College,
Lloyd Blankfein perguntou-lhes “Quais as chances de um
garoto dos conjuntos habitacionais de moradias populares
do Brooklyn dirigir uma das maiores instituições financeiras
do mundo” – E ele mesmo respondeu: “Nunca se sabe. Essa
imprevisibilidade é o que a vida tem de bom!”

L
loyd Blankfein é a concretização do três anos, sua família mudou-se do Bronx para
“Sonho Americano”. O garoto judeu o Brooklyn, também em busca de melhores condições
que cresceu no Brooklyn, nos conjuntos de vida. A família se instalou numa das Linden Houses
habitacionais de Nova York, e vendeu – conjuntos habitacionais da parte leste de Nova York,
amendoins e cachorros-quentes no o Brooklyn. Linden Houses é um complexo de 19
Yankee Stadium, tornou-se o Chief Executive Officer, edifícios inaugurados em 1957, com 1.600 apartamentos.
o CEO, do Grupo Goldman Sachs, um dos mais Na época, a maioria dos moradores eram judeus.
prestigiados cargos no mundo financeiro. Quando,
em 2006, Henry Paulson, então CEO da Goldman Seu pai, Seymor Blankfein, após perder o emprego
Sachs, foi nomeado para o cargo de secretário do como motorista de uma padaria, trabalhou em uma
Tesouro no governo de George W. Bush, Lloyd agência de correios. Trabalhava à noite, pois o salário
Blankfein tomou seu lugar. Paulson disse, na época, para o turno da noite era 10% mais alto.
que não havia ninguém mais adequado para assumir Em uma de suas entrevistas, Blankfein disse ter
tal função. Em 2014 Blankfein supervisionava cerca de certeza de que “nos últimos anos de sua vida,
US$ 915 bilhões em fundos de investimentos e meu pai, fazia algo que uma máquina faria melhor
32.900 funcionários. De acordo com a revista Fortune, e de forma mais eficiente. Mas a agência de correio
na ocasião ele era o CEO mais bem pago de Wall Street manteve-o na função até que se aposentasse”.
e a Forbes o apontou como sendo o 27º indivíduo
mais poderoso do mundo, logo após o primeiro-ministro Sua mãe trabalhava como recepcionista em uma
Binyamin Netanyahu. Neste ano de 2015 entrou empresa de alarmes contra roubos. Ele recorda que,
para a lista dos bilionários do mundo. na época, “todas as famílias que eu conhecia lutavam
para sobreviver. Eu pensava que todo pai judeu dirigia
Sua vida um caminhão ou trabalhava no correio. Não conhecia
ninguém cujo pai fosse médico, advogado ou coisa
Lloyd nasceu em 1954, no Bronx, em uma família parecida... O único judeu que eu conhecia que usava
judaica de poucos recursos. Em 1957, quando ele tinha terno era o rabino”.

55 SETEMBRO 2015
PERSONALIDADE

sofisticados que sabiam de quem


deveriam ser amigos. Não era
de Blankfein. Ele era bolsista e
precisava trabalhar na lanchonete
da universidade para se sustentar.
Fez amizade com jovens que
compartilhavam seu modesto
background, e que até hoje estão
entre seus melhores amigos. Muitos
se lembram de seu senso de humor
e sua incrível memória. Terminou o
Harvard College, com especialização
em História, e logo em seguida foi
aceito para a Escola de Direito de
Harvard, de onde se formou em
1978.

Quando Blankfein era adolescente, Aluno aplicado, era adorado pelos Carreira
a área do Brooklyn onde ele morava professores. De acordo com o extraordinária
entrou num processo de deterioração Rabino Abner German, “aos 12
econômica e a segurança tornou-se anos, ele era um menino brilhante”. Blankfein não se encontrou, de
questão primordial. Duas gangues No entanto, Blankfein costuma imediato. Logo após se formar,
haviam praticamente tomado conta afirmar que seu bom desempenho entrou como associado no escritório
da escola onde estudava e ele guarda na escola não foi porque era “algum de advocacia Donovan, pequeno e
muitas lembranças da violência da tipo de gênio”, mas porque queria ter tradicional, onde ficou por alguns
época, quando era forçado a correr sucesso, enquanto a maioria dos seus anos. Mas não estava feliz, não era
para pegar o ônibus, ou quando a colegas de classe não pareciam dar a o que ele queria fazer. Decidiu,
polícia baixava na escola para acabar mínima para os estudos. Ele credita então, deixar a firma Donovan e
com a confusão. ao seu rabino a sua participação entrar no mundo das finanças, que
nos programas extracurriculares lhe parecia mais interessante do
Educação patrocinados pela Federação Judaica que o Direito. Quando disse à sua
local e nas colônias de férias judaicas. futura esposa, Laura Jacobs, moça
Lloyd estudou em escolas públicas judia, de família tradicional de
e na escola judaica B’nai Israel de Ao participar dessas atividades, ele Nova York, que estava mudando de
Nova York, perto de onde morava. começou a entender que havia um área, ela ficou preocupada, pensando
Participou de um programa no mundo “além de East New York”. que não teria a vida confortável com
Ensino Fundamental que permitia Isso foi fundamental para sua a qual sonhara. Mas ele seguiu em
que os alunos fizessem três anos em decisão de cursar uma faculdade. frente, começando a operar com
dois, pulando a 8ª série. Ele poderia A Universidade de Harvard commodities, negociando com ouro
ter-se formado aos 15 anos, mas recrutava os melhores alunos na em barras. Eles se casaram em 19 de
preferiu permanecer mais um ano na Thomas Jefferson High School. junho de 1983 e tiveram três filhos:
escola, e foi o melhor aluno de sua Imediatamente detectou Blankfein, Alexander, Jonathan e Rachel.
turma, em 1971. aceitando-o para lá estudar.
Ofereceram-lhe um misto de ajuda Blankfein procurou emprego em
Enquanto cursava o Ensino Médio, financeira e bolsa de estudo, que várias empresas, entre as quais,
para ganhar algum dinheiro lhe permitiu frequentar o curso. Morgan Stanley, Dean Witter e
trabalhou como salva-vidas e como Ao chegar em Harvard, encontrou Goldman Sachs. Mas nenhuma dela
vendedor de amendoins, cachorro- um ambiente intimidador. Viu- o contratou. Acabou entrando na
quente e refrigerantes no Yankee se rodeado de jovens ricos, filhos J. Aron & Company, uma pequena
Stadium, no Bronx. Lloyd era um de pessoas proeminentes, com firma do setor financeiro, onde
jovem charmoso e inteligente. sobrenomes famosos. Eram jovens acabou sendo um dos principais

56
REVISTA MORASHÁ i 89

responsáveis pelo sucesso da em rendimentos. “Lloyd fazia tudo a credibilidade de Buffet. Todas as
empresa. A firma foi posteriormente funcionar”, segundo Paulson. suas inteligentes ações para proteger
comprada pela Goldman Sachs. Por a Goldman Sachs só serviram para
isso, Blankfein costuma dizer que Em junho de 2006, quando Paulson enfurecer o Governo.
entrou no Grupo Goldman Sachs deixou o cargo na Goldman Sachs A empresa conseguiu sair da crise
“pela porta dos fundos”. para se tornar secretário do Tesouro intacta e, ainda por cima, registrando
durante a Administração Bush, lucros.
Desde o início, ele concebeu Blankfein tornou-se o CEO. Embora
uma transação lucrativa de $100 não fosse o “herdeiro natural”, Jornalistas, advogados e membros
milhões – na época, a maior desse Paulson disse que não havia ninguém do governo, no entanto, criticaram
tipo que a Goldman Sachs já tinha melhor do que Blankfein para o duramente a política da empresa.
negociado. Aí a carreira de Blankfein cargo. Era o 11º a assumir tal posição A Goldman Sachs tornou-se um
deslanchou rapidamente. Ele parecia nos 140 anos de vida da empresa. símbolo de tudo que havia de
ter um sexto sentido sobre quando A companhia já era, então, uma errado nos bancos, em Wall Street,
levar os investidores a carregar mais incrível máquina de fazer dinheiro. nas corporações e até mesmo no
risco em suas carteiras ou quando capitalismo. O grupo foi acusado de
tirar o pé do acelerador, de uma só Em 2007, Blankfein recebeu o ganhar bilhões de dólares enquanto
vez. Em 1988, Blankfein foi um dos astronômico salário de US$ 68,5 pessoas comuns estavam perdendo
36 homens (nem uma única mulher) milhões, estabelecendo um recorde suas casas durante a crise. Em
que foram nomeados sócios- para um CEO na Wall Street. resumo, a GS foi castigada pelo
solidários. Daí até o topo foi só um Durante a crise financeira, em presidente Obama, acusada pela SEC
pulo. 2009, ganhou US$ 9,8 milhões, e processada por inúmeros clientes.
despertando ressentimentos em A empresa fez um acordo com a SEC
Em 1994, Blankfein foi escolhido Washington e em outros segmentos no valor de $ 550 milhões.
para dirigir a J. Aron e, três anos da sociedade americana, que
mais tarde, para co-presidente do responsabilizavam Wall Street pela No entanto, apesar das críticas,
business de investimentos em renda crise financeira. Blankfein entrou na história da
fixa da Goldman. Goldman Sachs e será lembrado por
Quase no auge da crise, em setembro ter conseguido liderar com sucesso a
Quando, em 1999, a Goldman Sachs de 2008, Warren Buffet investiu empresa através de alguns dos meses
abriu o capital da empresa, muitos US$ 5 bilhões na Goldman Sachs. mais difíceis de sua longa história.
dos executivos, potenciais rivais de Na época, Blankfein afirmou que
Blankfein, deixaram a firma, ficando o negócio não apenas traria para a O segredo do sucesso
o campo livre para sua ascensão firma o caixa necessário, mas também
profissional. O Conselho de Pessoas próximas a Blankfein o
Administração, especialmente Hank descrevem como um indivíduo dono
Paulson, então CEO do Grupo, de uma combinação incomum de
estava cada vez mais impressionado humildade e autoconhecimento,
com sua atuação. duas características que não são,
geralmente, associadas aos executivos
Paulson descreveu sua tenacidade, de sucesso de Wall Street. Ele é
ambição e maneira de gerenciar conhecido por ser espirituoso e
os negócios, afirmando: “Lloyd autodepreciativo, atitudes que,
mostrou estar pronto para assumir de modo geral, desarmam os que
grandes responsabilidades”. Paulson poderiam considerá-lo intimidador.
e Blankfein passaram a trabalhar Além disso, encobrem o fato de
juntos – o primeiro viajando e que, por trás do sorriso, há uma
buscando clientes, o segundo mente extremamente ágil e rápida.
assumindo cada vez mais o controle Não há dúvida de que ele possui
operacional da empresa. Ano após um talento especial para ganhar
ano, a companhia ganhava bilhões Lloyd Blankfein e Jamie Dimon dinheiro, qualidade que não passou

57 SETEMBRO 2015
PERSONALIDADE

despercebida entre os escalões mais Unidos. O objetivo do programa é


altos da empresa. criar oportunidades econômicas que
permitam maior acesso à educação,
Hank Paulson revelou as razões que capital e serviços de apoio às
o levaram a escolhê-lo como seu empresas. Lloyd Blankfein, Warren
sucessor: “O que acabei vendo nele Buffett e Michael Porter, professor
– algo que me fez admirá-lo – era da Harvard Business School, são os
o fato de que ele se “alimentava”, presidentes do Conselho Consultivo
vivia em função da empresa e dos do programa.
mercados. Ele era por natureza blankfein e sua esposa, laura
rápido e muito inteligente. Mas isso Blankfein faz parte, também, dos
pode ser superestimado, porque há conselhos de várias instituições
uma infinidade de executivos muito se misturar à turma do pregão ou importantes em Nova York, como a
brilhantes que não são bons, ou que deixando recados pelo voice-mail Sociedade Histórica e a Fundação
se metem em problemas, ou não têm para funcionários que se tenham Robin Hood. Atua em vários
discernimento. O que logo me atraiu destacado. projetos e programas de arrecadação
nele foi uma insegurança positiva. de fundos, doando altas somas.
Sem nenhum sentido de direito Jud Sommer, ex-diretor dos assuntos
adquirido. Nenhuma arrogância. governamentais da GS, atribui o Sua esposa Laura, formada em
Lloyd sempre foi consciente de seus sucesso profissional do Blankfein Direito, é extremamente ativa em
pontos fracos e queria melhorar. não apenas à sua “pura capacidade obras sociais. A Fundação Lloyd
( ...) Os bons líderes precisam de mental”, mas a seu altíssimo QI. e Laura Blankfein está envolvida
autoconhecimento para reconhecer “Ele é um homem interessante, em vários projetos e doou uma
suas fraquezas e a capacidade de apaixonado por História e ótimo média anual de US$ 1,3 milhão na
crescer. E eu ficava vendo o Lloyd colega de trabalho, pronto para uma última década. Entre as principais
ficar cada vez melhor...”. piada sempre que o ambiente fica instituições que recebem sua ajuda
carregado”, afirmou Sommer em está a UJA Federation, a instituição
Para Blankfein o segredo de seu entrevista. judaica cujo objetivo é ajudar
sucesso na Goldman Sachs foi, os necessitados, fortalecendo a
simplesmente, sua habilidade de Seus amigos também o descrevem comunidade judaica mundial.
adaptação a novas situações, novas como sendo “engraçado e envolvente.
circunstâncias e novas pessoas. O tipo de pessoa com quem a gente Além de doar altas somas, Blankfein
“Sempre tive muita confiança quer jantar. E ainda é casado com a participa ativamente na arrecadação
em minha capacidade de avaliar sua primeira mulher”. de fundos para várias entidades da
uma situação e as pessoas e tentar comunidade judaica americana.
entendê-las e o que queriam dizer e Retorno à comunidade Certa vez, durante um evento, disse:
em que contexto”, diz. “Muitos de vocês não conhecem
A Goldman Sachs, seja por uma família judaica que está lutando
Embora atualmente sua fortuna filantropia, seja para melhorar para se sustentar. Vocês não os veem,
seja avaliada em torno de 1 bilhão sua imagem, é uma das maiores mas ele estão por aí. Há milhares de
de dólares, Blankfein nega que seja corporações filantrópicas do país, famílias nesta situação a três milhas
movido pelo desejo de riqueza ou tendo doado desde 2008 mais de daqui”.
status. E fica muito impaciente com US$ 1,6 bilhão.
o clichê do “garoto esforçado do BIBLIOGRAFIA
conjunto habitacional de Brooklyn”. Como CEO, Blankfein ajudou a http://fortune.com/2011/04/21/
lançar o projeto “10.000 Pequenos where-blankfein-came-from/
Apesar de seu sucesso, ele é descrito Negócios”, uma iniciativa http://forward.com/articles/188678/
como um homem relativamente filantrópica lançada em novembro goldman-sachs-ceo-credits-rabbi-and-
simples, conhecido por sua de 2009 que disponibilizou jewish-organiz/#ixzz3HTCVlhuS
disponibilidade. É visto descer do US$ 500 milhões para auxiliar vários http://nymag.com/news/business/
seu escritório no 41o andar para pequenos negócios nos Estados lloyd-blankfein-2011-8/index1.html

58
ISRAEL

WIZO, 95 anos
AJUDANDO O PRÓXIMO
A Women International Zionist Organization, a WIZO tão
nossa conhecida, completou 95 anos em julho de 2015. Desde
o seu surgimento tem desenvolvido projetos para melhorar
a vida da população em Eretz Israel e, hoje, atua em parceria
com o Ministério de Bem-Estar e Desenvolvimento Social, na
realização de projetos voltados a atender crianças, jovens
e mulheres em situação de risco e condições precárias.

I
nstituição criada por no Fundo das Nações Unidas integrantes se autodenominam)
mulheres, na qual estas para a Infância (UNICEF) e na da WIZO perceberam que a
representam a sua essência e Comissão Social e Econômica das educação deveria ser a chave para o
alma, a WIZO Mundial Nações Unidas (Ecosoc). desenvolvimento e a transformação
é uma organização na sociedade israelense e no mundo.
apolítica que está presente em A WIZO nasceu da preocupação Nesse processo, a mulher, por sua
50 países, com mais de 250 mil de um grupo de mulheres inglesas posição na constelação familiar, seria
voluntárias engajadas em atividades em relação à situação enfrentada o elemento multiplicador de novos
ligadas ao bem-estar, integração pela parcela feminina na Terra de conhecimentos, hábitos e atitudes.
e desenvolvimento de crianças, Israel, decididas a atuar em prol da
adolescentes, jovens e mulheres no melhoria das precárias condições Ativa em vários países através de
Estado Judeu. da população que ali vivia. Fundada núcleos locais, que trabalham em
no dia 11 de julho de 1920, foi sintonia com as diretrizes traçadas
Em 2008, a Organização foi inspirada pelos sentimentos de pela coordenação mundial sediada
agraciada com o Prêmio Israel em solidariedade e amor ao próximo em Israel, a WIZO é responsável por
reconhecimento pelo trabalho na e, acima de tudo, pelo movimento mais de 800 projetos implantados
promoção do bem-estar social. sionista que proliferava na Europa em Israel. Seu objetivo hoje, como
Trata-se da mais alta honraria no seio das comunidades judaicas. no passado, é o avanço do status
outorgada pelo governo israelense da mulher, bem-estar de todos os
a pessoas e entidades que se Desde então, ano após ano, a segmentos que compõem o universo
sobressaem em seu campo de ação entidade foi crescendo, ganhando israelense e o incentivo à educação
ou que contribuem para a cultura força e ocupando um espaço maior judaica em Israel e na Diáspora,
do país. E está entre as poucas na área de Responsabilidade Social sempre inspirada pelos ideais
congêneres que têm representação de Israel. Desde o início, as chaverot sionistas que defendem a igualdade
na Organização das Nações Unidas, (companheiras, nome como as de oportunidades para todos.

59 SETEMBRO 2015
ISRAEL

Os primeiros passos Diáspora, através de suas lideranças, fundamental para a criação da


acompanhavam atentamente e com WIZO. Como delegadas de uma
A ideia de reestabelecer o Lar grande preocupação a situação do Comissão Sionista que fora a Eretz
Nacional Judaico após dois mil Yishuv, como era então chamada Israel para conhecer de perto o
anos de exílio parecia grandiosa no a comunidade judaica na Terra de contexto local, defrontaram-se com
início do século 20. Ainda assim, Israel. Esforços constantes eram uma realidade chocante, pois, com
o movimento sionista crescia, em feitos para melhorar a vida da o fim da 1ª Guerra Mundial, a
várias capitais europeias, envolvendo população, seja através do envio de situação do Yishuv, que já era difícil,
cada vez mais adeptos da ideia de recursos financeiros ou através de só fez piorar. A das mulheres, em
que o povo judeu só poderia realizar- programas de voluntários que lá especial, era catastrófica.
se totalmente como povo caso se passavam períodos esparsos. Mas as
reorganizasse como Estado livre e dificuldades eram muitas, tanto pela Esse grupo de mulheres, cujos
independente em Eretz Israel, sua ameaça dos vizinhos hostis, quanto maridos estavam profundamente
terra ancestral. Ao término da 1ª pelas epidemias, falta de alimentos e, envolvidos no movimento sionista,
Guerra Mundial e com a derrota também, de preparo dos habitantes acreditava que deveriam, elas
da Alemanha, a coordenação do para enfrentar tantas adversidades. também, ter uma participação mais
movimento que, até então estava O ideal, no entanto, não esmorecia. efetiva e igualitária na luta pelo
nesse país, passou para a Grã- retorno a Sion. Parte delas já estava
Bretanha, sob a liderança de Chaim Uma visita feita à região em 1918 envolvida em conquistas sociais, na
Weizmann, que viria a se tornar o pelas esposas de proeminentes Inglaterra, como o direito ao voto,
primeiro presidente do moderno líderes sionistas que viviam na Grã- entre muitas outras.
Estado de Israel. Bretanha, entre as quais Rebecca
1 Sieff, esposa de Israel Sieff, secretário Assim, após a visita à Terra de
A concretização de tal objetivo político do movimento sionista; Israel, elas já não tinham dúvida
ainda permanecia distante, Vera Weizmann, esposa do sobre qual o caminho a seguir:
como um sonho de realização presidente do movimento Chaim unir-se para trabalhar em prol
quase impossível. Os judeus da Weizmann; e Edith Eder, foi dos carentes, ajudando, assim,
na implantação das bases que
permitiriam a formação de um
Estado Judeu, sólido e igualitário.
Sob a liderança determinada de
Rebecca Sieff, Vera Weizmann e
Romana Goodman, fundaram, em
1918 mesmo, o Comitê Feminino da
Federação Sionista Britânica. Alguns
meses depois, em 12 de janeiro
de 1919, realizaram a sessão de
fundação da Federação das Mulheres
Sionistas, semente da futura WIZO
Britânica, atual Wizo do Reino
Unido.

A Federação das Mulheres Sionistas


foi o primeiro passo em direção
à WIZO Mundial, criada em
julho de 1920. Rebecca Sieff e as
demais ativistas acreditavam que
as mulheres deveriam trabalhar em
uma organização própria, através
da qual pudessem desenvolver todo
Vera e Chaim Weizmann, Herbert Samuel, David Lloyd George, Ethel Snowden e
Philip Snowden o seu potencial, fortalecendo-se

60
REVISTA MORASHÁ i 89

2
1. Treinamento para participação das mulheres na agricultura. Anos de 1920 e 1930. 2. Programas especiais para a absorção
de novos imigrantes. Década de 1960

umas às outras, em parceria com os companheiras acreditavam que


homens, mas não dependendo de destacar a importância da mulher
suas decisões ou prioridades. e o valor da sua contribuição, em
Na reunião de fundação da nova resposta às necessidades locais, era
entidade feminina, Rebecca Sieff fundamental para a formação da
apresentou uma plataforma com sociedade israelense. O primeiro
os projetos a serem desenvolvidos. passo para isso seria conscientizar
Um plano ousado, que demandaria o Yishuv sobre a importância da
coragem, determinação e muitos participação da mulher, incluindo-a
recursos, naquela época ainda nos movimentos e nas decisões, pois,
demasiadamente escassos. Nada, no muitas vezes, elas se viam como
entanto, poderia deter essa iniciativa, elementos de menor importância.
que tinha como objetivo criar uma
sociedade sionista, humanista, Desde o início, a WIZO se pautou
baseada em oportunidades iguais, pela flexibilidade e capacidade
focada na educação e no bem-estar de se adaptar às necessidades do
das mulheres, crianças e jovens, em momento, características que se vêm
cooperação com as comunidades da mantendo desde então e que têm
Diáspora. garantido o seu fortalecimento e
continuidade. Foram consideradas
Nesse processo, as mulheres seriam áreas prioritárias a educação e
uma ferramenta fundamental através formação de crianças, jovens e
da educação e do treinamento, mulheres em diferentes segmentos;
que lhes permitiriam desenvolver economia doméstica; legislação;
habilidades para atuar da melhor saúde e serviços sociais – todas estas
forma possível no Estado a ser áreas completamente negligenciadas Vera Weizman em visita a uma creche
formado. Rebecca Sieff e suas na então Palestina. da wizo, em rehovot. 1946

61 SETEMBRO 2015
ISRAEL

Em 1921, foi realizado o primeiro Gradativamente, cada vez mais


congresso da instituição, em mulheres e crianças procuravam as
Carlsbad, no qual se definiu um duas clínicas.
plano de ação com as seguintes
metas, considerando as necessidades Os recursos para tais projetos
do Yishuv em Eretz Israel: o eram escassos e dependiam da boa
estabelecimento de um lar para vontade de quem tinha maiores
meninas imigrantes; escola agrícola posses, pois as atividades das
para meninas; fornecimento de clínicas incluíam não apenas a
equipamentos para uma escola distribuição do leite e o atendimento
de meninas em Haifa; creche aos pacientes, mas também a
para recém-nascidos cujas mães limpeza dos estábulos produtores,
trabalhavam e um centro para a pasteurização, o controle
idosos. de qualidade e o preparo das
mamadeiras seguindo as diretrizes
Iniciativas de base REBECCA SIEFF, na SUA JUVENTUDE dos médicos. Além de receber o leite,
as mães eram orientadas sobre como
É importante destacar que a garantir sua saúde e a de seus filhos.
WIZO começou sua atuação em A iniciativa rapidamente
parceria com outras instituições mostrou-se positiva, pois, para Foram criados comitês para
que já atuavam em Eretz Israel, receber o leite, as mulheres distribuição de roupas, centros para
entre as quais a Organização frequentavam o local mais crianças abandonadas, círculos de
Médica Hadassah, presente assiduamente do que anteriormente. costura, entre outros. É importante
principalmente em Jerusalém e Este programa de distribuição destacar que um dos diferenciais do
arredores. Outras instituições de leite tornou-se conhecido trabalho desenvolvido pela WIZO,
criadas em Eretz Israel também como Tipat Chalav (Gota de em Eretz Israel, desde o início,
diretamente ligadas à questão da Leite) e, em função da demanda, caracterizou-se pela preocupação
mulher tornaram-se parceiras da mais uma clínica foi aberta na em, mais do que apenas suprir as
WIZO em função dos objetivos entrada do Hospital Hadassah. necessidades da população carente,
comuns, entre as quais: a Associação
de Mulheres, criada em 1917; a
Liga das Mulheres para Igualdade
de Direitos em Eretz Israel, em
1919; e a Organização das Mulheres
Hebraicas, em 1920.

No dia 3 de junho de 1921,


foi aberta a primeira clínica da
WIZO, na Cidade Velha de
Jerusalém, para atender gestantes
e mães de recém-nascidos, quando
se constatou que um dos principais
problemas era a falta de leite
materno, consequência direta da
desnutrição das parturientes e mães.
Era preciso que consumissem leite
de vaca, mas a maioria não tinha
condições de comprá-lo. Deu-se
início, então, a um programa de
distribuição de leite nas clínicas
Cursos na área de saúde no Instituto Pedagógico de Biologia, em Tel Aviv.
pediátricas. Década de 1930.

62
REVISTA MORASHÁ i 89

dar-lhe as condições para que a Escola para Economia do Lar,


pudesse se estruturar e desenvolver dirigida por Maise Shohat. Ali eram
para então seguir seu caminho. ministradas aulas para cultivo de
Seguindo este conceito, o trabalho vegetais e flores, criação de abelhas
de assistência social não faz caridade e gerenciamento do lar. Ao longo
e, sim, dá ao indivíduo o que lhe das décadas de 1920 e 1930, a
é de direito como membro da WIZO uniu-se a outras instituições
comunidade. Não é filantropia, para a formação de mulheres na
mas auxílio construtivo. O objetivo área agrícola como, por exemplo, o
não é aumentar cada vez mais o apoio dado a uma fazenda em Mula,
número de assistidos, ao contrário, Rachel (Cohen) Kagan e sua cunhada
criada em 1926 com 17 alunas. Um
é reduzir este universo através do Dra. Helena S. Kagan, na abertura da dentre muitos outros projetos que
creche. wizo-jerusalém, 1955
desenvolvimento de ferramentas receberam o apoio da instituição
que permitam ao indivíduo ocupar foi a implantação de hortas
seu lugar na sociedade de forma de-obra. Este projeto contribuía domésticas nas casas e pequenos
independente. Assim começou a para a concretização da visão da edifícios erguidos em Tel Aviv, nas
WIZO a trabalhar e assim continua instituição de encorajar a mulher a décadas de 1920 e 1930. A partir
até hoje. ser independente e produtiva, em de 1930, a WIZO começou a atuar
qualquer área. diretamente na área da educação
Durante as duas primeiras décadas, formal, investindo na formação de
a WIZO investiu, também, Como disse, certa vez, Rebecca professores a partir da pré-escola,
na capacitação de mulheres Sieff: “O sonho de nossos sonhos com ênfase em agricultura.
na agricultura, não só com a é ver um fazendeiro judeu, com a
implantação de escolas para meninas, mulher ao seu lado, ambos treinados Apoio aos refugiados
inicialmente, e posteriormente para para trabalhar na agricultura da
rapazes, mas com um programa Terra de Israel”. Para que o sonho Com a eclosão da 2ª Guerra
de monitores itinerantes que se transformasse em realidade, foi Mundial e no seu decorrer, as
visitavam os diferentes povoados e aberta uma escola chamada Maon representações WIZO foram
assentamentos para treinar a mão- (Lar) que, mais tarde, tornou-se destruídas uma a uma, na Europa:

1 2
1. Apoio e incentivo às pequenas indústrias caseiras. Anos 1940-1950 2. Aulas em laboratórios na aldeia Wizo Nahalal, 1953

63 SETEMBRO 2015
ISRAEL

1 3

1. comemoração de purim em uma


das creches em israel 2. INTEGRação
com OS NOVOS IMIGRANTES
3. COMEMORAÇÃO DE YOM HAATZMAUT
EM UMA DAS CRECHES EM ISRAEL
4. MANTENDO AS TRADIÇÕES JUDAICAS
2 4 5. TOVA BEN-DOV e RIVKA LAZOVSKY

102 na Polônia, 23 na Bulgária, A instituição tem tido uma e vindos de famílias com
69 na Transilvânia. A WIZO participação importante em todos dificuldades. Atua, também, junto
Mundial, que tinha 110 mil os momentos da história de Israel, a pessoas portadoras de deficiência
membros antes do conflito, contava utilizando a experiência adquirida através de diversos programas
apenas com 55 mil membros após ao longo de décadas para aprimorar assistenciais. Possui 29 centros
a 2ª Guerra Mundial. Apesar do seu desempenho. Foi fundamental de aconselhamento jurídico e
baque sofrido, a instituição não na absorção dos judeus etíopes e psicológico voltado para as questões
desistiu de seus objetivos e, após soviéticos nas décadas de 1980 da mulher, um disque-denúncia
a tragédia da Shoá, a Organização e 1990. Mais recentemente, tem funcionando 24 horas por dia para
resgatou sobreviventes, tirando-os da atuado, entre outros projetos, atendimento a mulheres vítimas
Europa e lhes fornecendo recursos para melhorar as condições das de violência e maus-tratos, além
para que fossem adiante em Eretz populações do sul do país, sob de administrar abrigos femininos
Israel. constantes ataques de mísseis. e centros de prevenção e apoio às
vítimas da violência doméstica.
A aprovação da Lei do Retorno Atualmente, a WIZO mantém
pelo Parlamento israelense, em 173 creches em 76 cidades Mantendo sua tradição de investir
1950, garantiu a todos os judeus israelenses, acolhendo mais de permanentemente na capacitação
o direito de retornar à terra de 52 mil crianças de seis meses a da mulher, oferece cursos específicos
seus antepassados. Entre 1948 e dez anos em suas instituições, de treinamento e programas de
1952, 648 mil judeus fizeram aliá, oferece creches para os cinco maiores liderança a essa população. Um
a maioria vinda do Leste Europeu hospitais do país e em bases da dado importante revela o perfil
– sobreviventes do Holocausto, e, Força Aérea, além de possuir a da instituição quanto à educação:
também, do Norte da África, Iêmen única creche blindada na região em termos numéricos, a WIZO é
e do Oriente Médio, dobrando a de Sderot, sul de Israel, área sob o a organização que mais contrata
população do jovem país. No recém- frequente alvo de mísseis. Mantém, profissionais nessa área em todo o
criado Estado Judeu, a WIZO ainda, 54 Centros de Juventude que Estado de Israel. À frente da WIZO
começou a atuar na absorção de atendem mais de 22 mil jovens. Mundial, como presidente, brilham
imigrantes, jovens em situação de Organiza o maior programa em seu trabalho, atualmente,
risco e busca de igualdade de direitos anual de Bar e Bat Mitzvá, em Israel, Tova Ben-Dov e Rivka Lazovsky,
para as mulheres. para adolescentes imigrantes como presidente executiva.

64
COMUNIDADES

Judeus de Sefarad

A saga dos judeus na Espanha acabou tragicamente em


1492, quando os Reis Católicos determinaram que nenhum
deles poderia mais viver em seus domínios. Mais de 200 mil
tiveram que decidir entre se converter ou deixar o país. Uma
extraordinária civilização foi abruptamente desarraigada,
mas não desapareceu, pois os judeus expulsos levaram seus
conhecimentos, sua sabedoria e tradições para outras terras.

H
oje, após 553 anos, a Espanha decidiu ser conhecimento da língua e cultura árabe, assim como
hora de corrigir aquilo que, nas palavras das línguas latinas e o hebraico, os judeus espanhóis se
do Ministro da Justiça espanhola, Alberto tornaram emissários das atividades científicas e culturais
Ruiz-Gallardón, tinha sido “o maior erro da da Espanha islâmica no restante da Europa.
história espanhola”.
A erudição e sede pelo conhecimento dos judeus
A história dos judeus em Sefarad, como é chamada sefaraditas iam muito além de sua excelência nos
a Espanha em hebraico, foi longa e rica, marcada campos da Torá, do Talmud e da língua hebraica.
por épocas áureas e outras de terror, à medida que Incluíam, harmoniosamente, todos os outros ramos
romanos, visigodos, muçulmanos e cristãos se sucediam do conhecimento humano. Para os sefaraditas,
no poder. Foi durante o domínio muçulmano o judeu “ideal” combinava uma fé absoluta nas
omíada que floresceu, em Sefarad, uma comunidade Leis e preceitos judaicos, vivo interesse por sua
judaica famosa, tanto por sua sabedoria e teologia e filosofia e elevado apreço pela cultura
conhecimentos quanto por sua importância geral e ciências naturais. Sábios e eruditos judeus
econômica e política. Em terras ibéricas surgiram vários eram, também, grandes médicos, poetas, filósofos,
dentre os maiores sábios e poetas de toda a história matemáticos, cartógrafos e astrônomos, além de servir
judaica. os califas e príncipes como ministros, vizires e generais.
Suas contribuições à civilização mundial foram tão
Sob os califas omíadas, enquanto os judeus que significativas que nos influenciam até o presente dia.
viviam sob o domínio cristão eram sistematicamente
perseguidos, a comunidade judaica de Sefarad floresceu, Morashá não poderia relatar em uma única edição, ainda
tornando-se o mais importante centro cultural e religioso que resumidamente, a história dos judeus de Sefarad,
do mundo judaico e produzindo milhares de obras, suas contribuições ou suas mais importantes figuras.
seja no campo da filosofia e teologia judaica seja em Optamos, portanto, por dividir essa história em períodos
todos os ramos da ciência e da literatura. Graças a seu que serão publicados nas próximas edições.

65 setembro 2015
COMUNIDADES

a Ponte Romana, Córdoba, Espanha,

Primeiros eram rotineiras expedições para a Apesar das especulações sobre o ano
assentamentos Península. Ainda no Tanach , no em que os judeus se estabeleceram
versículo 20 do Livro de Ovadia, o na Península Ibérica, sabe-se, com
Os primórdios da vida judaica em profeta menciona Sefarad quando certeza, que lá havia inúmeros deles
Sefarad são envoltos em lendas. De se refere aos “judeus exilados de quando a região fazia parte dos
acordo com as tradições dos judeus Jerusalém”. Segundo uma tradição domínios de Roma. Os romanos
ibéricos, suas raízes na Península que perdura até hoje, algumas das haviam invadido a Península,
Ibérica remontam à época do rei famílias aristocráticas do Reino por volta de 220 AEC, e, no início
Salomão. Por volta de 970 antes de Judá, ao serem deportadas do 1º século EC, estava sob seu
da Era Comum (AEC), após o rei pelos babilônios no século 6 AEC, domínio toda a Hispânia, nome
selar uma aliança com Hiram, rei de assentaram-se no litoral da Espanha. com o qual os romanos designavam
Tiro, mercadores judeus, a bordo de a Península Ibérica. Após a derrota
embarcações fenícias, tornaram-se judaica durante as Guerras judaico-
ativos comerciantes nas terras que romanas (70 e 135 EC),
circundavam o Mar Mediterrâneo, os Imperadores Vespasiano e
estabelecendo entrepostos em suas Adriano para lá despacharam
margens e chegando até a Península milhares de prisioneiros judeus. Uma
Ibérica. E, ainda segundo uma estimativa, considerada “exagerada”
tradição, Adoniram, emissário e pelos historiadores, chegou a avaliar
general do rei Salomão, foi enterrado em 80 mil o número de judeus
em Murvierdo. De acordo com prisioneiros enviados à Hispânia
o Tanach1, já no século 10 AEC nesse período. Outros milhares
fugiram de Eretz Israel, buscando
refúgio em Sefarad, e, nas décadas
1
O Tanach é composto de 24 livros. Esta
seguintes, houve uma substancial
palavra simboliza o conteúdo desses livros
e contém a inicial de cada grupo de livros: imigração judaica tanto vinda do
Torá, Nevi’im (Profetas) e Ctuvim
Portão do Palácio de La Isla, Cáceres. norte da África quanto do sul
No palácio, localizado na Juderia
(Escrituras Sagradas). Nueva, havia uma sinagoga europeu.

66
REVISTA MORASHÁ i 89

Moedas judaicas encontradas em O domínio visigodo


Tarragona são prova da existência
dos primeiros assentamentos A administração romana
judaicos. Fontes judaicas, como manteve-se na Hispânia até o
o Midrash Leviticus Rabá 29:2, início do século 5, quando a região
mencionam uma “volta da Diáspora” foi invadida por bárbaros. Em 419
da Espanha no ano 165 EC. Porém, os visigodos conquistaram grande
a mais antiga prova concreta da parte da Península. Mantendo o
presença judaica na Península é uma nome Hispânia, o poder dominante
lápide datada por volta do 2º século, estabeleceu, em Toledo, o centro
com inscrições em hebraico, latim político do seu novo reino.
selo pessoal de nahmânides, séc. 13.
e grego, encontrada em Tortosa. inscrição: “mosé ben najman gerondi” O período visigodo, que duraria
O texto hebraico diz “Paz para três séculos, foi marcado por
Israel... Esta é a tumba de Meliosa, agitação política, para não dizer uma
filha de Yehuda e (?) Miriam (..)”. o Concílio de Elvira, o primeiro verdadeira anarquia.
Outra lápide datada do século 3, entre todos os que viriam a
foi encontrada em Adra, à leste de seguir. Entre os cânones adotados Os séculos em que os judeus viveram
Granada, pertencente ao túmulo estava a proibição de cristãos se sob domínio visigodo estão entre os
de uma criança de nome Annia casarem com judeus, viverem mais obscuros da história judaica.
Saomónula. A inscrição em latim a com eles ou comerem juntos. As Sabemos que em Sefarad vivia uma
identifica como sendo uma Judaea determinações de Elvira revelam comunidade integrada e afluente.
(menina judia). tanto o reconhecimento por parte Até Recaredo se tornar rei, em 586, a
da Igreja do tamanho e importância vida dos judeus não sofreu mudanças
Seguramente, no final do século 3, da comunidade judaica, quanto drásticas. Até então os visigodos
era grande o número de judeus o fato de que os judeus já eram praticavam o arianismo, uma forma
em várias partes da Hispânia, vistos pela Igreja como “nocivos“. de cristianismo considerado herético
especialmente nas regiões de Os bispos viam com preocupação o pela Igreja Católica, por negar a
Granada, Córdoba e Sevilha, fato de estarem bem integrados na
ao Sul, Toledo e Barcelona, ao Norte. sociedade e de manterem relações
Achados arqueológicos revelam que amigáveis com os cristãos. interior do palácio de la isla, cáceres

os judeus viviam em comunidades


prósperas e organizadas. No período No entanto, apesar do fortalecimento
romano, sua vida era relativamente da Igreja na Hispânia e no resto
tranquila, pois o judaísmo era do mundo romano, já que o
uma religio licita – religião lícita, cristianismo se tornara, em 313, a
permitida. Cada comunidade podia, religião oficial do Império através do
entre outros, estabelecer sinagogas, Édito de Constantino, os cânones
cemitérios, cobrar impostos, não possuíam força legal e os judeus
bem como manter tribunais para e cristãos continuaram a coexistir em
julgar disputas entre os membros harmonia na Ibéria Romana. Mas,
da comunidade. Mas, a situação a Europa estava prestes a passar por
foi-se modificando à medida que grandes mudanças.
o Cristianismo, que no final do
século 3, já era uma força poderosa No final do século 4, o Império
no Império Romano, passou a ser Romano foi definitivamente
adotado pela população hispano- dividido em dois: o do Ocidente,
romana. cuja capital era Roma, e o do
Oriente, o Império Bizantino. O
No início do século 4, a Igreja na Império Romano do Ocidente não
Hispânia estava suficientemente sobreviveria às invasões dos bárbaros
fortalecida para convocar, em 303, nos séculos seguintes.

67 setembro 2015
COMUNIDADES

Trindade, e não viam os judeus


como um elemento “perigoso” para a
sociedade.

O fato de os governantes visigodos


não terem conseguido estender
sua autoridade muito além de
Toledo seria determinante na
decisão de Recaredo de adotar o
Cristianismo normativo da Trindade
(Catolicismo). Ao se converter, ele
passou a controlar a Igreja Católica
com representantes espalhados por
todo o reino, já que era prerrogativa
dos reis nomear bispos e convocar os
Concílios em Toledo. Em teoria, ao
controlar a Igreja, os reis visigodos
controlariam toda a Hispânia.

Em 589, Recaredo convocou o 3º


Concílio de Toledo, dando início ao típico pátio interno de córdoba, no bairro judaico
domínio católico na Península. Um
objetivo do Concílio era eliminar
a influência judaica na população pais, que eram impedidos de deixar o batismo”. Portanto, cabia à Igreja
cristã. Entre outros, os judeus não país. Muitos conseguiram fugir, mas forçar os criptojudeus a se
podiam ocupar cargos públicos, grande parte da população judaica – tornarem cristãos de fato. Para
tampouco se casar com cristãos. mais de 90 mil, viram-se forçados à a Igreja, os judeus secretos já
Ele também proibiu os judeus de conversão. Centenas morreram em representavam uma ameaça ainda
possuírem escravos cristãos, e, num atos de Kidush Hashem. Porém, a maior do que os que nunca haviam
segundo momento, de contratar maioria desses conversos, chamados sido batizados. Medidas cada vez
cristãos para serviços pagos. em hebraico de anussim (coagidos), mais severas foram adotadas em
mantinham sua identidade judaica relação a qualquer “judeu batizado”
Os dois séculos que se seguiram em segredo. Nascia em solo que fosse descoberto tendo “uma
figuram entre os períodos mais espanhol o criptojudaísmo, uma recaída”. Entre outros, lhe seriam
difíceis na história judaica e foram prática que seria adotada, no futuro, tirados seus filhos, que seriam
um prenúncio ameaçador das por milhares de judeus que foram
futuras políticas espanholas contra forçados a se converter.
os judeus. E concílio após concílio
realizado em Toledo, promulgavam Dez cânones do 4º Concílio,
decretos antijudaicos, com crescente convocado, em 633, diziam
ferocidade. respeito a judeus e
criptojudeus. Apesar dos
Em 616, o 3º Concílio determinou bispos reconhecerem
que todos os judeus que se a imoralidade e
recusassem a se converter fossem ilegalidade das
punidos com 100 chibatadas. Se conversões forçadas,
teimassem em não aceitar o batismo, determinaram que os
teriam seus bens confiscados e judeus batizados não
seriam expulsos do Reino. Os poderiam retomar
resultados foram devastadores. sua fé “por causa da
Crianças judias eram tiradas de seus natureza imutável do

68
REVISTA MORASHÁ i 89

entregues a um monastério para Não é de se estranhar que os judeus


serem criados como “verdadeiros recebessem os invasores muçulmanos
cristãos”. como libertadores. Uma nova era de
muitas realizações tem início para os
Em 638, o 6o Concílio determinou judeus de Sefarad ao passar da esfera
que a punição para os conversos de domínio cristão para o domínio
que não seguissem os cânones islâmico.
da fé cristã seria a fogueira ou o
apedrejamento. E o 9o, realizado no A invasão islâmica
ano de 654, trouxe a obrigatoriedade
por parte de todo cristão de vigiar os A expansão muçulmana, iniciada
conversos como forma de garantir após a morte de Maomé, atingiu
que realmente haviam abandonado os a Península Ibérica no início do
costumes judaicos. As bases da futura século 8. Na época, a monarquia
Interior de uma sinagoga.
Inquisição espanhola estavam sendo “Sister Hagadá”. Séc. 14. Barcelona
visigótica estava enfraquecida pelas
traçadas. lutas internas. De acordo com muitos
historiadores, entre as facções em
No entanto, apesar de todos os As medidas adotadas pelo rei Egica luta estaria o filho do falecido rei,
esforços, os reis visigodos não (687–702) foram especialmente não conformado pelo seu
conseguiram converter os judeus cruéis. Entre outros, declarou afastamento do poder. Esta facção
em massa nem tampouco extirpar escravos todos os judeus, batizados apelou ao governador omíada, da
o criptojudaísmo. Além da Coroa ou não, dando-os “de presente” aos Ifríquia2, Musa ibn Nusair, que
não ter muito controle sobre as cristãos. Crianças judias com mais intercedesse na guerra civil. Este
terras além de Toledo, muitos de sete anos (certas fontes afirmam último enviou o General Tarik
dos nobres visigóticos prestavam que menores, também) foram tiradas ibn Ziyad à península. O objetivo
pouca atenção às leis da Igreja e de seus pais para serem criadas mouro3, porém, não era apenas
necessitavam dos serviços dos judeus como cristãs, para, no final, serem interceder na luta interna, mas
para dirigir suas propriedades e escravizadas. tomar a península.
feudos. Consequentemente, os judeus
que viviam distantes de Toledo
desfrutavam de um grau maior de
liberdade do que os que habitavam
aquela cidade ou as outras de grande
porte, onde a autoridade da Coroa
ou a presença da Igreja eram muito
fortes.

Os últimos reis visigodos adotaram


medidas cada vez mais perniciosas.
Tentaram, novamente, forçar
os judeus a aceitar o batismo,
ameaçando-os com a expulsão.

2
Território da região norte do Norte de
África, parte do Império Islâmico.

3 Mouros ou sarracenos foram povos


oriundos do Norte de África, praticantes
do Islã, invasores da região da Península
Ibérica, Sicília, Malta e parte de França,
durante a Idade Média.

69 setembro 2015
COMUNIDADES

Em 30 de abril de 711, chefiando população judaica, Sevilha tornou- leis islâmicas ditavam a vida de
um exército de 12 mil homens, em se conhecida como “Villa de Judíos” todos. O Islã permitia que judeus e
sua maioria composto por berberes (Cidade dos Judeus). Estes se cristãos lá vivessem na condição de
norte-africanos, Tarik desembarcou estabeleceram também, nas zonas dhimmis, assim como em qualquer
no rochedo que, posteriormente, foi agrícolas, pois não era raro receberem outra parte do mundo islâmico. Isto
chamado de Jabal Tarik (“monte de dos invasores propriedades agrícolas implicava aceitar a supremacia do Islã
Tarik”), que hoje é conhecido como pertencentes a cristãos em fuga e se submeter ao Estado muçulmano
Gibraltar. diante do avanço mouro. que, em troca, garantia-lhes a vida, a
propriedade e o direito de praticar sua
Divididos, os visigodos foram Não há dúvida de que os judeus religião. Em contrapartida, tinham
facilmente vencidos, em julho, na cooperaram com os invasores que cumprir uma série de obrigações,
Batalha de Guadalete (em Jerez de la muçulmanos, pois sua chegada conhecidas como o Código de Omar,
Frontera), no primeiro embate entre colocara um fim às violentas cujo rigor variava ao bel-prazer e
visigodos e muçulmanos. Sabe-se perseguições sofridas sob os de acordo com os interesses dos
que havia inúmeros judeus vindos visigodos. É preciso ressaltar, porém, governantes. Em teoria, os dhimmis
do norte da África lutando em Jerez, que eles não “convidaram” os mouros viviam em constante risco, já que
sob o comando de Kaula al-Yahudi, a invadir a região, nem “entregaram- a al-Adhimma apenas suspendia
general judeu nomeado por Tarik. lhes” a Espanha. Tais acusações temporariamente o “direito” do
perniciosas foram disseminadas conquistador de matar o conquistado
Os invasores avançavam pelos cristãos durante a Idade Média e de lhe confiscar a propriedade.
rapidamente. Em 712, as forças de para “explicar” a queda da Península
Musa ibn Nusair se juntaram às Ibérica em mãos dos invasores Mesmo sendo considerados cidadãos
de Tarik. Prosseguindo em direção muçulmanos, como resultado da de segunda classe, para os judeus de
ao Norte, os invasores capturaram “traição e perfídia judaica”. Andaluz a vida era bem melhor do
Toledo e Córdoba, em outubro do que havia sido sob os visigodos. Entre
mesmo ano; Saragoza, em 714; e Apesar de os muçulmanos serem a chegada dos mouros, em 711, e a
Barcelona, em 720. No decorrer de uma minoria em Al-Andaluz, e invasão dos almorávidas, em 1086,
dez anos, os mouros assumiram o grande parte da população ser não houve uma política antijudaica –
controle de uma parte substancial da composta de cristãos e judeus, as ainda que o relacionamento entre as
Península, que chamaram de Al- autoridades muçulmanas e os judeus
Andaluz ou Andaluzia, e que passou não fosse perfeito.
a fazer parte do imenso Império
Islâmico, controlado pela dinastia O Califado Omíada
Omíada. Não conseguiram, porém, em al-Andaluz
dominar parte do noroeste da atual
Espanha e parte do norte do que é Em 750, uma nova dinastia islâmica,
hoje Portugal, que permaneceram em os abássidas, tomou o poder aos
mãos dos reis cristãos. omíadas, passando a governar o
vasto Império Islâmico. Ao fazê-lo,
De acordo com cronistas os abássidas procuraram eliminaram
muçulmanos, grande parte da todos os príncipes omíadas. Apenas
população cristã fugira antes da Abd-al-Rahman conseguiu escapar,
chegada dos mouros, ficando apenas refugiando-se, inicialmente, no norte
os judeus. Enquanto os invasores da África, e, em momento posterior,
prosseguiam em suas conquistas, em Al-Andaluz.
as cidades eram deixadas a cargo
de judeus que atuavam como uma Após rapidamente derrotar seus
milícia. As cidades de Córdoba, opositores ele assume o poder. Funda,
Málaga, Granada, Toledo e Sevilha em 756, o Emirado Omíada de Al-
foram confiadas aos cuidados dessas “bessamin” em bronze usado na
Andaluz, tendo Córdoba por capital.
milícias. Devido à sua grande havdalá, séc. 13, Al-Andaluz O emirado floresceu comercial e

70
REVISTA MORASHÁ i 89

culturalmente durante o século 8,


apesar das insurreições instigadas
pelos abássidas e as incursões
militares dos francos e de forças
cristãs do Reino das Astúrias.

Para os habitantes da Al-Andaluz, o


século 10 foi um período de grandes
avanços culturais e econômicos.
Enquanto o resto do continente
europeu afundara na ignorância e
no obscurantismo, no longo período
de trevas imposto pela Igreja,
em Al-Andaluz floresceu uma
civilização altamente sofisticada e
requintada, baseada em uma cultura
cosmopolita e secular. Esse período
de florescimento cultural imprimiu
uma marca profunda na civilização
ocidental e nos judeus espanhóis, que
iriam criar as bases de uma cultura
inigualável.

Em 929, Abd al-Rahman III elevou


folha do keter de damasco, 1260. manuscrito sobre pergaminho. burgos. toledo
o emirado ao status de califado
e cortou os vínculos políticos
com Bagdá. O califa, cuja mãe Apaixonado pela filosofia, poesia, sucessores não exerceram nenhuma
era europeia, foi um governante teologia e ciências seculares, discriminação opressiva contra os
extraordinário. De acordo com a Abd al-Rahman III estimulou e judeus. Pelo contrário, estes eram
tradição, sua grandeza havia sido patrocinou o conhecimento sob considerados um segmento útil
profetizada por um sábio judeu, que todas as formas e em todas as áreas. e leal da população, sendo tratados
se tornara um de seus conselheiros. Sem medir esforços, recrutou sábios, com dignidade e respeito. Sua
poetas, filósofos, historiadores cultura e riqueza fizeram com que
Sob seu reinado, Al-Andaluz e músicos muçulmanos e não os califas os indicassem para cargos
atingiu seu apogeu, tornando-se muçulmanos. Ele tornou o califado importantes. Inúmeros judeus
a primeira economia urbana e um proeminente centro de educação tornaram-se conselheiros, astrólogos,
comercial a florescer na Europa, islâmica, ultrapassando Bagdá. Criou secretários de estado de califas e
depois da queda do Império bibliotecas ímpares, importando príncipes.
Romano. Com uma população de livros de Bagdá e de outros locais.
mais de 500 mil habitantes e perto No século 10, Córdoba possuía Livres para exercer qualquer
de 60 mil palácios, a Córdoba do cerca de 70 bibliotecas, sendo que atividade cultural ou econômica,
século 10 rivalizava em opulência na do califa, que abrigava 500 os judeus ingressaram em vários
cultural e econômica com Damasco mil manuscritos, trabalhavam setores da economia, incluindo o
e Bagdá. Abd al-Rahman III pesquisadores, tradutores e comércio, as finanças e as profissões
construiu hospitais, instituições encadernadores. liberais. Atuavam principalmente
de pesquisa e centros de estudos, no comércio de seda e seus
criando uma tradição intelectual e Para os judeus, o reinado de inúmeros empreendimentos
um sistema educacional que fizeram Abd al-Rahman III foi o início da contribuíram para a prosperidade
da Espanha islâmica um centro Idade de Ouro da cultura judaica, do reino. Tornaram-se médicos
de referência pelos quatro séculos uma época de grandes realizações. famosos, poetas ilustres, filósofos,
seguintes. Abd al-Rahman III e seus astrônomos, cartógrafos de renome.

71 setembro 2015
COMUNIDADES

Generoso patrono, Ibn Shaprut


trazia a Córdoba sábios talmúdicos,
filósofos, poetas e médicos judeus.
Incentivou o estudo da Torá, do
Talmud, do hebraico. Fundou uma
ieshivá para formação de rabinos, que
ficou a cargo do Gaon Moses ben-
Hanok (Enoch), permitindo assim
aos judeus espanhóis não terem que
depender dos Gaonim da Babilônia
em questões referentes à lei judaica.

É preciso ressaltar, contudo, que nem


tudo era “dourado”, nesse período.
Não há dúvida que judeus espanhóis
viviam melhor do que qualquer
outra comunidade judaica da
Europa cristã, mas a vida judaica na
Espanha muçulmana não era imune
interior da sinagoga de córdoba
às ameaças decorrentes dos perigos
inerentes à sua condição de dhimmis
e à dinâmica da política islâmica.
Podendo assumir cargos públicos, e sábios e eruditos judeus gozavam Tampouco foi a Idade de Ouro
destacaram-se na administração de privilégios e honras parecidos um período de total tolerância e
pública e desenvolveram habilidades aos dispensados aos estudiosos compreensão entre as comunidades
políticas e diplomáticas. muçulmanos. No século 10, das três religiões que lá viviam. No
Sefarad – e não mais a Babilônia – tocante à população judaica, mais
Em pouco tempo, Sefarad atraiu passou a ser o maior centro cultural do que tolerância, havia na Espanha
milhares de judeus de outras partes judaico do mundo, sinônimo de moura o reconhecimento, por parte
do Oriente Médio e da África do sabedoria e conhecimento, o local das autoridades, da “utilidade” dos
Norte. A comunidade judaica de Al- onde surgiram alguns dos maiores judeus e a tendência dos governantes
Andaluz tornou-se a mais populosa sábios de toda a história judaica. de ignorar as exigências mais
e próspera fora da Babilônia. Havia rigorosas da lei islâmica quanto ao
comunidades em não menos de 44 Um dos homens que mais tratamento que lhes tocava.
cidades, muitas com suas próprias contribuíram para o florescimento
ieshivot. As de Córdoba, Granada, da cultura judaica foi Hasdai Os Taifas
Sevilha, Lucena e Toledo eram as Ibn Shaprut (915-970), líder da
mais importantes. comunidade judaica de Córdoba O califado de Córdoba continuou,
e Nasi de todo os judeus ibéricos. de modo geral, a exercer uma
A partir do momento que o califado Médico extraordinário, tornou-se hegemonia em Al-Andaluz até
se tornara independente de Bagdá, um dos homens de confiança o final do século 10, sendo que
os laços que prendiam os judeus de Abd-al-Rahman III. praticamente desabou em 1008,
sefaraditas às autoridades gaônicas Dotado de grande capacidade sendo formalmente abolido em 1031.
começaram a se afrouxar e os judeus de organização e de estadista e
espanhóis se tornaram independentes fluente em hebraico, árabe A ausência de um poder central
do protecionismo religioso e e idiomas de origem latina, Ibn permitiu o estabelecimento, em Al-
intelectual da comunidade judaica da Shaprut conduzia as negociações Andaluz, de uma série de pequenos
Babilônia. entre o califado e os impérios estados islâmicos, chamados Taifas.
bizantino e germânico e, também, Esses principados variavam em
Os judeus de Sefarad incentivavam com inúmeros governantes espanhóis extensão, recursos e poder competiam
o estudo e o saber em todas as áreas, cristãos. militarmente entre si. Entre 1010 e

72
REVISTA MORASHÁ i 89

1080 formaram-se aproximadamente Almeria, Huesca, Toledo, Córdoba, multidão furiosa muçulmana –
30 que acabaram sendo consolidados Saragoza e Lucena. após assassinar o vizir Joseph Ibn
em 9 maiores. Os mais ricos e Naghrela, filho de Rabi Samuel ha-
poderosos, Toledo, Sevilha, Badajós O grande talmudista, Rabi Isaac Naguid – matou 4.000 judeus.
e Granada, mantiveram em seus Alfasi, que trocou Fez por Sefarad,
domínios a tradição dos omíadas de tornou-se Rosh Ieshivá (diretor) da O domínio almorávida
patrocinar as artes e as ciências. Ieshivá de Lucena, em 1089. O mais
famoso dentre seus inúmeros alunos As lutas entre os diferentes reinos
Para a população judaica de foi o Rabi Yehuda Halevi, autor da taifas tornou evidente a inabilidade
Al-Andaluz, com a queda dos obra Kuzari. Médico e filósofo, é dos inúmeros governantes da
califas omíadas, tornaram-se mais considerado um dos maiores poetas Espanha islâmica em manter
evidentes os perigos inerentes à hebraicos. Rabi Isaac Alfasi foi, uma unidade política. Os reinos
sua condição de dhimmis. Ao longo também, professor do Rabi Joseph cristãos vão-se aproveitar da divisão
da primeira metade do século 11, ibn Migash (o Ri Migash). Saragoza muçulmana e da debilidade de
embora houvesse alguns episódios foi o lar do filólogo, gramático e cada taifa individual em tentar
de hostilidade, eles não foram poeta Shlomo ibn Gabirol e de Rabi subjugá-los.
totalmente discriminados. Bahiya ibn Pakuda.
A participação judaica nas atividades Num primeiro momento, a
profissionais, administrativas e A ausência de um poder central submissão foi unicamente
governamentais, iniciada durante representava um grande perigo para econômica, forçando os governantes
o califado, manteve-se ao longo os judeus de Sefarad, pois permitia das taifas a pagarem tributos anuais
do período taifa. Os governantes, a extremistas religiosos cometerem de não agressão aos monarcas
relativamente tolerantes, haviam atos de violência contra os judeus. cristãos. Mas, percebendo que os
sabiamente acolhido os financistas, Em Granada, o fato de judeus muculmanos não resistiriam a seus
conselheiros em questões econômicas ocuparem posições importantes nas avanços militares, iniciaram uma
e políticas, escritores e poetas, cortes provocou o descontentamento campanha de reconquista de terras
cientistas e médicos judeus. Um do resto da população. aos mouros. Em 1085, Afonso VI,
número significativo de judeus de Leão e Castela, aproveitando
ocupou cargos importantes nas Em 30 de dezembro de 1066, essa o pedido de ajuda do rei taifa de
diversas cortes, até mesmo o de vizir. mesma cidade foi palco do primeiro Toledo contra um usurpador, sitiou
massacre de judeus em Al-Andaluz esta cidade e aceitou a sua rendição
Os traços característicos entre os desde a sua fundação, em 711. Uma em maio. Com a ocupação de Toledo,
judeus mais proeminentes era a Afonso VI pôde iniciar campanhas
harmonia entre a tradição religiosa militares contra os taifas de Córdoba,
e a cultura secular – o estudo do Sevilha, Badajoz e Granada.
Talmud, junto com a poesia e a
filosofia, e uma mesma proficiência Ao perceber que os reis cristãos se
em árabe e em hebraico. haviam tornado uma ameaça real
para os domínios islâmicos, seus
Um exemplo típico da realização governantes pedem a ajuda aos
do ideal sefardita judaico foi o almorávidas, uma dinastia berbere
poeta e estudioso da Halachá, o fundamentalista do norte da África.
Rabi Samuel ha-Naguid. Líder da O líder dos almorávidas, o emir
comunidade judaica, atuou como vizir Yusuf ibn Tashfin, atravessou, com
e comandante do exército do Reino seu exército, o estreito de Gibraltar
de Granada de 1030 até sua morte, e venceu Alfonso VI na batalha de
em 1056. Zalaca (1086). Os mouros ainda
cercaram Toledo, mas não lhes foi
No século 11 havia em Sefarad possível retomar a cidade. O avanço
comunidades importantes, entre cristão perdeu o ímpeto e só seria
capitel com inscrição bilíngue.
outras, em Sevilha, Denia, Tudela, toledo, séc. 13 retomado na metade do século 12.

73 setembro 2015
COMUNIDADES

O fanatismo religioso e a
incondicional intolerância dos
almôadas, que queriam pôr fim
à corrupção e à lassidão dos
governantes islâmicos em aplicar
as leis do Corão, trouxeram grande
destruição e sofrimento para as
comunidades judaicas do sul da
Espanha.

Sob os almôadas, os judeus foram


perseguidos e segregados. Entre
outros, foram impedidos de negociar
livremente, tiveram seus bens
confiscados, sendo obrigados a usar
interior da sinagoga do tránsito. toledo roupas que os diferenciassem. Eles
viram sinagogas sendo destruídas
e ieshivot fechadas e, sob a ponta
Após derrotar os cristãos, os e diplomática, e, com o tempo, da espada, foram obrigados a se
almorávidas tomam o poder, conseguiram reconquistar um converter – desta vez ao islamismo.
conquistando os diferentes reinos tratamento favorável. Com a subida Muitos judeus, entre os quais
taifas. Cultural e religiosamente ao trono do filho e sucessor de Yusuf, Maimônides, fugiram para a África
menos tolerante que seus Ali, os judeus voltaram a ocupar à procura de governos muçulmanos
predecessores, os almorávidas postos importantes na Corte, tendo mais tolerantes. Outros foram
queriam estabelecer uma nação alguns se tornado importantes para o norte da Espanha, então
onde pudessem aplicar os princípios conselheiros. Córdoba, Sevilha, sob domínio cristão, onde foram
islâmicos. De temperamento Lucena e Granada tornaram-se recebidos de braços abertos.
violento, introduziram na Espanha importantes centros de estudos Muitos dos que permaneceram sob
muçulmana uma intolerância até judaicos. Assim, a primeira metade domínio muçulmano tornaram-se
então desconhecida. do século 12 assistiu o apogeu criptojudeus.
da Idade de Ouro do judaísmo
Sob o regime dos almorávidas, a sefaradita. A maioria de seus grandes As comunidades judaicas do sul da
situação dos judeus se tornou muito expoentes justamente viveram entre Espanha não conseguiram sobreviver
precária, durante certo tempo. Entre os séculos 11 e 12. à intolerância e à perseguição de
outros, Yusuf ibn Tashfin tentou seus novos governantes. Chegava ao
forçar a comunidade judaica de A chegada fim a saga dos judeus de Sefarad, que
Lucena, uma das mais respeitadas de dos almôadas tanto tinham contribuído àquelas
Sefarad, a se converter ao islamismo. terras e ao mundo, sob domínio
Somente o pagamento de uma Os almorávidas não foram capazes muçulmano.
grande soma em dinheiro fez com de se manter no poder quando
que ele desistisse. sua expansão militar chegou ao
fim. Com seu enfraquecimento,
Mas, apesar do status vulnerável, os reinos cristãos reiniciaram a BIBLIOGRAFIA
os judeus tinham permissão para Reconquista. Isto fez com que uma Cohen, Malcolm, A Short History of the Jews
permanecer onde viviam e eram nova dinastia berbere do norte da in Spain, eBook Kindle
tolerados. Além de serem fonte de África, os almôadas, fosse chamada, Gerber, Jane S., The Jews of Spain, eBook
vultosos impostos que alimentavam em 1146, para intervir na luta. Kindle
os cofres públicos, eles tinham muito Ferozes guerreiros, eles rapidamente Lowney, Christopher, A Vanished
a oferecer aos novos conquistadores, passaram a controlar grande parte de World: Medieval Spain’s Golden Age of
em particular na área administrativa Al-Andaluz. Enlightenment, eBook Kindle

74
CARTAS REVISTA MORASHÁ

Todas as matérias da edição 88 são excelentes, bem


pesquisadas e ilustradas. Queria destacar duas matérias:
“Tisha B’Av e o Holocausto, e sobre a tragédia que aconteceu
em Pompeia poucos anos após a destruição do Templo”.
A primeira me marcou profundamente por me dar maior
compreensão espiritual em relação à Tisha B’Av; a segunda,
além de interessante do ponto de vista acadêmico, fez-me
pensar na retribuição Divina. Muita coincidência.
David Levi
Por e-mail

Gostaria de parabenizar a equipe Recebi a edição 88 da Morashá. Recebi a última edição da


editorial da Morashá pelo excelente Um mero elogio é insuficiente. Morashá com o artigo sobre
trabalho que se renova e aperfeiçoa a Todas as matérias, sem exceção comediantes judeus e gostaria
cada número. Em especial, gostaria alguma, conseguem o prodígio de de mencionar um famoso, que
de elogiar o artigo “Tisha B’Av e o compatibilizar abrangência com foi autor dos personagens
Holocausto”, publicado na edição 88, profundidade. Perdoem o lugar Mandrake, o mágico, e o Fantasma,
por apresentar um insight inovador e comum, mas há tudo para todos (The Phantom em inglês).
surpreendente e servir de inspiração os gostos, desde a forte simbologia Estas histórias em quadrinhos
para que possamos nos conectar com do Tisha B’Av até aspectos jamais foram de autoria de Lee Falk,
um tema tão central do judaísmo. abordados (tanto quanto eu saiba) cujo nome era Leonard Epstein.
É fundamental apresentar às novas sobre a catástrofe de Pompéia, Eu o conheci pessoalmente,
gerações argumentos modernos e passando pela homenagem ao nos anos 1950, quando estudei em
sólidos para que possamos manter Rabino Toaff e pelo “Golem” do uma universidade nos Estados Unidos
nossos jovens conectados e estimular Arnaldo Niskier. Entretanto, para e era membro de uma fraternidade
o orgulho em pertencer ao Povo mim, a cereja do bolo foi a matéria judaica. Ele foi convidado ao
Judeu. Como ressalta o artigo, somos sobre o humor judaico. Em tempos Brasil por Enrique Lipszyc,
“uma alma coletiva” e para mantermos sombrios como o atual, o humor fundador da Escola Pan-americana
nossa chama acessa, necessitamos de talvez represente o mais forte de Arte, e naquela ocasião estivemos
inspiração. obstáculo ao prevalecimento da juntos. Achei interessante mencionar
insanidade geral. mais estes personagens, que na época
Bethina Dana
Por e-mail
eram conhecidos no mundo, inclusive
David Milech
Rio de Janeiro - RJ
no Brasil e, também, em filmes.
Gostaria de parabenizar a equipe e os Gregório Zolko
editores do site e revista Morashá, que O artigo “Cinco mil anos de Por e-mail

são de grande valia e aprendizado para história estão sendo ameacados”,


a comunidade. Sempre que possível leio é um alerta a todos aqueles que
as matérias em sua página na internet. ainda não entenderam que a
preservação da memória de
Shemuel Bernardino qualquer crença ou religião é Errata
Por e-mail
primordial para a sobrevivência
No artigo “Cócegas no Cérebro”,
da civilização humana. A destruição
A revista Morashá sempre nos de Márcio Pitliuk, publicado na
deve cessar imediatamente.
surpreende com suas matérias. edição 88, na pág. 34, a tradução
Morashá mais uma vez cumpre o
A Universidade de Jerusalém correta do título do filme “Quanto
seu papel divulgando estas
celebrando 90 anos- é um orgulho! mais quente melhor” é “Some
atrocidades.
like it hot”. O diálogo mencionado
Matilde e Saúl Rosoky
Claudio Sampaio no mesmo artigo envolve o ator Jack
Israel Belo Horizonte - MG Lemmon e não Tony Curtis.

75 setembro 2015
CARTAS

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