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Sob a direção de

André DESVALLÉES
e François MAIRESSE

Conceitos-chave
de museologia
Conceitos-chave
de Museologia
Conceitos-chave de Museologia

André Desvallées e François Mairesse Editores


Bruno Brulon Soares e Marilia Xavier Cury Tradução e comentários

São Paulo

Comitê Brasileiro do Conselho Internacional de Museus


Conselho Internacional de Museus
Pinacoteca do Estado de São Paulo
Secretaria de Estado da Cultura

2013

C744 Conceitos-chave de Museologia/André Desvallées e François


Mairesse, editores; Bruno Brulon Soares e Marília Xavier
Cury, tradução e comentários. São Paulo: Comitê Brasileiro
do Conselho Internacional de Museus: Pinacoteca do Estado
de São Paulo : Secretaria de Estado da Cultura, 2013.
100 p.
Com a colaboração de: Philippe Dubé, Nicole Gesché-
Koning, André Gob, Bruno Brulon Soares, Wan Chen Chang,
Marília Xavier Cury, Blondine Desbiolles, Jan Dolak, Jennifer
Harris, Francisca Hernández Hernández, Diana Lima, Pedro
Mendes, Lynn Maranda, Mónica Risnicoff de Gorgas, Anita
Shah, Graciela Weisinger, Anna Leshchenko.
ISBN 978-85-8256-025-9
1. Museologia. I. Desvallés, André II. Mairesse, François. III.
Soares, Bruno Brulon. IV. Cury, Marília Xavier.
Conceitos-chave
de Museologia
André Desvallées e François Mairesse
Editores

Bruno Brulon Soares e Marilia Xavier Cury


Tradução e comentários

2013
Com os apoios de

Musée Royal de Mariemont


www.musee-mariemont.be

Comitê Internacional para Museologia do ICOM

Comitê Nacional Português do ICOM

P O R T U G A L

Fotos da capa:

© Auckland Museum, Nova Zelândia


© Pinacoteca do Estado de São Paulo (Eugenio Vieira), Brasil
© National Heritage Board, Singapura
© Museu da Língua Portuguesa (Eugenio Vieira), Brasil

© Armand Colin, 2010


ISBN: 978-2-200-25396-7 (edição francesa)
ISBN: 978-85-8256-025-9 (edição brasileira)
COMITÊ DE REDAÇÃO
François Mairesse, André Desvallées, Bernard Deloche, Serge
Chaumier, Martin Schärer, Reymond Montpetit, Yves Bergeron,
Noémie Drouguet, Jean Davallon.

Com a colaboração de:

Philippe Dubé, Nicole Gesché-Koning, André Gob, Bruno Brulon


Soares, Wan Chen Chang, Marilia Xavier Cury, Blondine Desbiolles,
Jan Dolak, Jennifer Harris, Francisca Hernández Hernández, Diana
Lima, Pedro Mendes, Lynn Maranda, Mónica Risnicoff de Gorgas,
Anita Shah, Graciela Weisinger, Anna Leshchenko (que contribuíram
ativamente com o Simpósio do ICOFOM dedicado a este tema, em
2009, ou leram este documento).

5
APRESENTAÇÃO

A Secretaria de Estado da Cultura fica muito honrada em apoiar


a publicação Conceitos-chave de Museologia em português. Trata-se
de uma importante iniciativa do Comitê Brasileiro do Conselho
Internacional de Museus, que colaborará para o compartilhamento
e a comunicação de conhecimento sobre a teoria museológica para a
comunidade museal brasileira.
O debate no campo museológico no Brasil e no exterior tem se
intensificado extraordinariamente, acompanhando as incessantes
transformações e a visibilidade crescente dos nossos museus. Nesse
contexto, é muito oportuna a disponibilização de uma ferramenta de
referência para profissionais de museus e estudantes de museologia,
que contribua para a reflexão teórica e crítica sobre o mundo dos
museus.
A mobilização resultante da realização da 23ª Conferência
Geral do ICOM no Rio de Janeiro também define um momento
apropriado para o lançamento dessa publicação, agora traduzida para
o português. O excelente trabalho dos tradutores possibilitará não
apenas o importante acesso àqueles que não leem em outras línguas,
mas também o referenciamento para o contexto cultural e social
brasileiro.
O Estado de São Paulo é um significativo recorte desse diversificado
panorama museológico brasileiro. Além dos dezoito museus perten-
centes à Secretaria de Estado da Cultura – dentre eles a Pinacoteca do

7
Estado de São Paulo, parceira desta iniciativa – , o estado abriga mais
de quatrocentas instituições museológicas, públicas e privadas, distri-
buídas em quase duzentas cidades paulistas. A diversidade, a riqueza
e os desafios que cercam esse patrimônio reiteram a necessidade
premente de reflexão sobre os processos museais e a importância
desta publicação.
Agradecemos, mais uma vez, o convite do ICOM Brasil, a parceria
da Pinacoteca do Estado de São Paulo, a dedicação dos tradutores
e a todos que estiveram envolvidos nesse significativo processo, que
culminou nesta tradução.

Marcelo Mattos Araujo


Secretário de Estado da Cultura de São Paulo

8
MUSEOLOGIA E SEUS CONCEITOS NA
L Í N G U A P O RT U G U E S A

O Comitê Brasileiro do ICOM, em parceria com o ICOM Portugal,


tem buscado traduzir para o português importantes edições do ICOM
e de seus comitês internacionais, visando a ampliar o acesso de leitores
de língua portuguesa a conteúdos de interesse no campo da museologia.
A ideia de viabilizar a edição em português de Conceitos-chave
de Museologia, publicado originalmente em outros idiomas pelo
ICOFOM, ganhou força a partir da definição do Brasil como sede
da 23ª Conferência Geral do ICOM, realizada em 2013, no Rio
de Janeiro. O então presidente do ICOM Brasil, Carlos Roberto
Brandão, convidou Bruno Brulon Soares e Marilia Xavier Cury – dois
museólogos brasileiros que atuam junto ao ICOFOM e que haviam
participado de processos relacionados à edição original do livro –,
que logo aceitaram o desafio de traduzir o texto para o português,
voluntariamente. Agradecemos portanto aos colegas brasileiros pelo
árduo trabalho realizado, que certamente muito contribuirá para a
disseminação desse conteúdo para toda a comunidade museológica
lusófona.
Como em outras ocasiões, contamos com a ativa participação do
ICOM Portugal, por meio das colegas Marta Lourenço, Graça Filipe e
Paula Menino Homem, o que possibilitou a realização de uma edição
adequada aos vários países de língua portuguesa. Assim, a tradução
proposta pelos colegas brasileiros ganhou inclusões de novos termos

9
específicos e exaustivas revisões, tanto no Brasil como em Portugal,
salvaguardando as nuances e regras gramaticais próprias dos países
envolvidos. Somos gratos portanto ao ICOM Portugal pela parceria
nesta edição e aos colegas portugueses que a ela se dedicaram.
Registramos um agradecimento muito especial à vice-presidente
do ICOM Brasil, Adriana Mortara Almeida, que coordenou esta
publicação em português e orquestrou todos os contatos bilaterais
entre os colegas brasileiros e portugueses, assim como as demais
tratativas institucionais e editoriais necessárias para sua viabilização.
Destacamos ainda o apoio da Secretaria da Cultura do Estado de
São Paulo, por meio de sua Unidade de Preservação do Patrimônio
Museológico, bem como à Pinacoteca do Estado, por tornarem viável
este projeto editorial. Este livro integra o conjunto de ações de apoio
do Governo do Estado de São Paulo ao ICOM Brasil, por ocasião da
23ª Conferência Geral do ICOM, que abrangeu ainda a realização,
em São Paulo, do importante seminário pós-conferência – o Diálogo
Sul-Sul de Museus – e do intenso programa de estágios de colegas
africanos e latino-americanos em museus paulistas. Agradecemos ao
Secretário da Cultura Marcelo Araújo, às equipes da Secretaria de
Cultura do Estado de São Paulo e Pinacoteca do Estado por esse
significativo apoio.

Maria Ignez Mantovani Franco


Presidente do ICOM Brasil

10
PRÓLOGO

O desenvolvimento de normas profissionais é um dos objetivos


centrais do ICOM, particularmente no que concerne ao avanço,
ao compartilhamento1 e à comunicação de conhecimento para a
ampla comunidade museal do mundo, mas também para aqueles
que desenvolvem políticas em relação ao trabalho em museus, aos
responsáveis pelos aspectos legais e sociais da profissão, bem como
para aqueles aos quais o museu é dirigido e dos quais se espera que
participem e se beneficiem do trabalho realizado nestas instituições.
Lançado em 1993, sob a supervisão de André Desvallées, e com a
colaboração de François Mairesse a partir de 2005, o Dicionário de
Museologia é um trabalho monumental, que resulta de muitos anos
de pesquisa, interrogação, análise, revisão e debate realizados pelo
Comitê Internacional de Museologia do ICOM (ICOFOM), que se
dedica particularmente ao processo de desenvolvimento de nossa
compreensão da prática e da teoria dos museus e do trabalho realizado
por essas instituições diariamente.
O papel, o desenvolvimento e a gestão dos museus modifica-
ram-se enormemente nas últimas décadas. As instituições museais
centraram-se cada vez mais nos visitantes, e alguns dos grandes
museus estão-se voltando, com mais frequência, para os modelos de
gestão empresarial em suas operações cotidianas. A profissão museal
e seu meio transformaram-se inevitavelmente. Países como a China

1 Em Portugal, partilha.

11
conheceram um aumento sem precedentes da presença de museus,
mas há mudanças igualmente importantes acontecendo em espaços
mais restritos, como, por exemplo, nos Pequenos Estados Insulares
em Desenvolvimento (PEID). Estas transformações apaixonantes
desencadeiam discrepâncias crescentes nas especificidades do trabalho
em museus e nos cursos de formação entre diferentes culturas. Neste
contexto, uma ferramenta de referência para profissionais de museus
e estudantes de museologia é ainda mais essencial. Enquanto a
publicação do ICOM e da UNESCO Como Gerir um Museu: Manual
Prático forneceu aos profissionais de museus um manual básico para a
atual prática museal, o Dicionário de Museologia deve ser visto como
uma publicação correlata, fornecendo uma perspectiva complementar
sobre a teoria museológica.
Ao mesmo tempo em que o ritmo de trabalho cotidiano impede
a capacidade do campo museal de parar para refletir sobre seus
fundamentos, há uma necessidade crescente de que os profissionais
de todos os níveis forneçam respostas claras e compreensíveis àqueles
que questionam a relevância do museu para a sociedade e seus
cidadãos. A tarefa essencial do ICOFOM, integrada no seio do projeto
do Dicionário Enciclopédico, oferece, assim, uma desconstrução e
destilação estruturadas do conjunto de conceitos fundamentais que
hoje sustentam nosso trabalho. Embora o Dicionário apresente uma
visão predominantemente francófona da museologia, por razões de
coerência linguística, as terminologias nele condensadas são compre-
endidas e/ou utilizadas por museólogos em diferentes culturas. A
publicação, ainda que não exaustiva, sintetiza décadas do desenvol-
vimento do conhecimento a partir de uma investigação sistemática,
tanto da epistemologia quanto da etimologia do museu, e oferece uma
apresentação aprofundada dos conceitos primários da museologia
atual, com uma visão pragmática elegante, que considera tanto as
redundâncias históricas quanto as controvérsias atuais, investindo
no crescimento e na expansão da profissão. O ICOFOM, os editores
do Dicionário e seus autores trataram com sensibilidade, rigor,
perspicácia e equilíbrio este trabalho de “definição” e de explicação

12
da instituição e de sua prática.
Como uma versão preliminar do Dicionário Enciclopédico
2
completo , esta publicação foi produzida para oferecer ao maior
público possível o acesso às transformações e à evolução dos vários
termos que compõem a nossa linguagem museal, considerando a sua
história e o seu sentido atual. De acordo com o espírito do ICOM,
visando a promover a diversidade e a ampla inclusão, antecipa-se
que, assim como ocorreu com o seu Código de Ética para Museus,
esta publicação irá estimular um extenso debate e a colaboração para
sua continuada revisão e atualização, ao invés de ser deixada nas
estantes. A 22ª Conferência Geral do ICOM3, em Xangai, na China,
marca, portanto, um início apropriado para esta valiosa ferramenta de
referência em museologia. A reunião de profissionais de museus de
todas as nacionalidades constitui precisamente o tipo de ocasião que
dá origem a novas normas e instrumentos de referência como este,
tanto para as gerações atuais quanto para as do futuro.

Alissandra Cummins
4
Presidente
Conselho Internacional de Museus (ICOM)

2 , André; , François (Dir.). Dictionnaire encyclopédique de muséologie.


Paris: Armand Colin, 2011.
3 Realizada em 2010.
4 Presidente do ICOM na gestão 2004-2010.

13
PREFÁCIO

Desde as suas origens, em 1977, o ICOFOM, seguindo as linhas de


pensamento do ICOM, considera que o seu principal objetivo aponta
para a transformação da museologia em uma disciplina científica e
acadêmica destinada ao desenvolvimento dos museus e da profissão
museológica, por meio da investigação, do estudo e da difusão das
principais correntes museológicas.
Surgiu assim, no seio do ICOFOM, um grupo de trabalho
multidisciplinar, concentrado na análise crítica da terminologia
museológica, que localiza as suas reflexões nos conceitos fundamentais
da museologia. Durante quase vinte anos, este grupo, denominado de
Thesaurus, produziu notáveis trabalhos científicos de investigação e
síntese.
Convencidos hoje da necessidade de oferecer ao público um
5
registro de termos museológicos que constitua um verdadeiro
material de referência, decidimos, com o apoio do Conselho Interna-
cional de Museus, tornar conhecida, em Xangai, durante a 22ª
Conferência Geral do ICOM, a presente publicação – que inclui
vinte e um artigos – como uma versão preliminar da publicação do
Dicionário de Museologia.
Gostaríamos de destacar que esta publicação, fase introdutória de
uma obra muito mais ampla, não pretende ser exaustiva, mas apenas
possibilitar ao leitor distinguir entre os diferentes conceitos a que

5 Em Portugal, registo.

14
cada termo se refere, descobrindo novas conotações e suas relações
com o campo museológico como um todo.
Hoje compreendemos que o Dr. Vinoš Sofka não trabalhava
em vão quando, no início do ICOFOM, lutava para transformar
este Comitê Internacional em uma tribuna de reflexão e de debate,
capaz de alicerçar as bases teóricas de nossa disciplina. A bibliografia
internacional resultante retrata fielmente a evolução do pensamento
museológico no mundo há mais de trinta anos.
A partir da leitura dos artigos da presente publicação, fica evidente a
necessidade de se renovar a reflexão sobre os fundamentos teóricos da
museologia a partir de uma perspectiva plural e integradora, ancorada
na riqueza conceitual de cada palavra. Os termos apresentados
inicialmente constituem um exemplo claro do trabalho contínuo
de um grupo de especialistas que foram capazes de compreender e
6
valorizar a estrutura da linguagem – patrimônio cultural imaterial
por excelência – e o alcance da terminologia museológica, que nos
permite reconhecer até que ponto a teoria e a prática se encontram
indissoluvelmente ligadas.
Com o objetivo de afastar-se de caminhos já muito transitados,
cada autor introduziu suas observações onde julgou necessário
chamar a atenção sobre a característica específica de um termo. Não
se trata de construir pontes nem de reconstruí-las, mas de encontrar
outras concepções mais precisas, na busca de novos significados
culturais que permitam enriquecer uma disciplina tão ampla como a
museologia, destinada a afirmar o papel do museu e dos profissionais
de museus no mundo inteiro.
É para mim uma honra e uma grande satisfação, como presidente
do ICOFOM, apresentar esta publicação como uma versão
preliminar do Dicionário de Museologia, obra que constituirá um
marco na extensa bibliografia museológica produzida por membros
do ICOFOM de diversas origens geográficas e disciplinares, unidos
por um ideal comum.
Gostaria de expressar o meu mais sincero reconhecimento àqueles
6 Em Portugal, património.

15
que colaboraram generosamente, a partir de suas diferentes instâncias,
tornando possível a realização destas obras fundamentais, que nos
enchem de orgulho:
- ao ICOM, nosso organismo diretor, por ter entendido, por meio
da sensibilidade de Julien Anfruns, seu Diretor Geral, a importância
de um projeto que foi gerido silenciosamente através do tempo e que
hoje pôde ser concretizado graças à sua intervenção;
- ao conselheiro permanente do ICOFOM, André Desvallées,
mestre dos mestres, iniciador, artífice e força motora de um projeto
que alcançou uma magnitude inesperada e merecida;
- a François Mairesse, que em plena juventude iniciou a sua
trajetória no ICOFOM, aportando o seu talento como investigador e
estudioso da museologia, enquanto coordenava com êxito as atividades
do grupo Thesaurus e que, juntamente com André Desvallées, foi
responsável pela presente publicação e pela preparação da primeira
edição do Dicionário de Museologia;
- aos autores dos diferentes artigos, reconhecidos internacio-
nalmente como especialistas em museologia e em suas respectivas
disciplinas.
A todos aqueles que, de uma maneira ou de outra, contribuíram
para a concretização de um sonho que hoje começa a se converter em
realidade, nosso mais sincero e respeitoso agradecimento.

Nelly Decarolis
7
Presidente do ICOFOM

7 Gestão 2007-2010.

16
INTRODUÇÃO

O que é um museu? Como definir uma coleção? O que é uma


instituição? O que abarca o termo “patrimônio”? Os profissionais de
museus desenvolveram inevitavelmente, em função de seus conheci-
mentos e de sua experiência, respostas a estas questões centrais à
sua atividade. É necessário retomá-las? Nós acreditamos que sim. O
trabalho museal consiste em uma via de mão dupla entre a prática e
a teoria, esta última sendo constantemente sacrificada às mil e uma
solicitações do trabalho diário. Todavia, não se pode ignorar o fato
de que a reflexão constitui um exercício estimulante, mas também
fundamental para o desenvolvimento tanto pessoal quanto do mundo
dos museus.
O objetivo do ICOM, em nível internacional e nas associações
de museus nacionais ou regionais, é, justamente, o de desenvolver
padrões e melhorar a qualidade da reflexão e dos serviços que o
mundo museal oferece à sociedade, a partir do encontro entre profis-
sionais. Mais de trinta comitês internacionais trabalham, cada um
em seu setor, para esta reflexão coletiva, que tem como testemunhos
as notáveis publicações. Mas como se articula este rico conjunto de
reflexões sobre a conservação, as novas tecnologias, a educação, as
casas históricas, a gestão, as profissões, etc.? Como se organiza o setor
dos museus ou, de maneira mais geral, como se organiza aquele que
podemos chamar de campo museal? É a este tipo de questões que
o Comitê de Museologia do ICOM (ICOFOM) se dedica, desde a

17
sua criação em 1977, especialmente pelas suas publicações (ICOFOM
Study Series – ISS8) que estão destinadas a inventariar e sintetizar a
diversidade das opiniões em matéria de museologia. É neste contexto
que o projeto de estabelecer um compêndio de Conceitos-chave de
Museologia, sob a coordenação de André Desvallées, foi proposto em
1993 por Martin R. Schärer, então presidente do ICOFOM. A este
aderiram, oito anos mais tarde, Norma Rusconi9 (que infelizmente
faleceu em 2007) e François Mairesse. Ao longo dos anos, foi estabe-
lecido um consenso para tentar apresentar, em cerca de vinte termos,
um panorama da paisagem variada que oferece o campo museal.
Este trabalho de reflexão adquiriu certa aceleração nos últimos
anos. Diversas versões preliminares dos artigos foram redigidas (nos
ISS e na revista Publics et musées, que depois se tornou Culture et
musées). O que se propõe aqui é um resumo de cada um desses
termos, apresentando de maneira condensada diferentes aspectos de
cada um desses conceitos. Estes serão de fato abordados, de maneira
claramente mais aprofundada, nos artigos que terão entre dez a trinta
páginas cada um, em um dicionário de aproximadamente 400 termos,
a ser publicado como Dictionnaire de muséologie.
Este trabalho se baseia em uma visão internacional do museu,
mantido por numerosas trocas no seio do ICOFOM. Por razões de
coerência linguística, os autores vêm de países francófonos: Bélgica,
Canadá, França, Suíça. Eles são Yves Bergeron, Serge Chaumier, Jean
Davallon, Bernard Deloche, André Desvallées, Noémie Drouguet,
François Mairesse, Raymond Montpetit e Martin R. Schärer. Uma
primeira versão deste trabalho foi apresentada e amplamente debatida
durante o 32o simpósio anual do ICOFOM, em Liège e Mariemont,
em 2009.
Dois pontos merecem ser rapidamente discutidos aqui: a
composição do Comitê de Redação e a escolha dos vinte e um termos.

8 Disponíveis em: http://network.icom.museum/icofom/publications/our-publications/.


9 A Profa. Norma Teresa Rusconi de Meyer foi diretora do Museu de História e Ciências Natu-
rais, Bahia Blanca, Argentina, e ativa participante do ICOFOM e ICOFOM LAM. Sua contribui-
ção encontra-se nas publicações desses comitês.

18
A francofonia museal no ‘concerto’ do ICOM
Por que razão se escolheu um comitê composto quase exclusi-
vamente por francófonos? Muitas razões, que não são apenas
práticas, explicam tal escolha. Sabemos que a ideia de um trabalho
coletivo, internacional e perfeitamente harmonioso representa
uma utopia, uma vez que nem todos compartilham de uma língua
comum (científica ou não). Os comitês internacionais do ICOM
conhecem bem essa situação, que, para evitar o risco de uma Babel,
leva-os geralmente a privilegiar uma língua – o inglês, atualmente
reconhecido como a lingua franca mundial. Naturalmente, essa
escolha do menor denominador comum se opera para o benefício
de alguns que a dominam perfeitamente, e, com frequência, em
detrimento de muitos outros menos familiarizados com a língua de
Shakespeare, que são forçados a se apresentar exclusivamente por
meio de uma versão caricatural de seu pensamento. O uso de uma das
três línguas oficiais do ICOM (o inglês, o francês ou o espanhol) se
provaria inevitável, mas, então, qual delas escolher? A nacionalidade
dos primeiros colaboradores, reunidos em torno de André Desvallées
(que trabalhou durante um longo período com Georges Henri Rivière,
primeiro diretor do ICOM), levou rapidamente à seleção do francês,
mas outros argumentos colaboraram igualmente para tal escolha. A
maior parte dos autores lê ao menos duas das línguas do ICOM, ainda
que não as domine com perfeição. Embora se reconheça a riqueza
das contribuições anglo-americanas para o campo museal, é preciso
sublinhar o fato de que a maior parte de seus autores – com algumas
exceções notórias, como as figuras emblemáticas de Patrick Boylan
ou de Peter Davis – não leem nem o espanhol, nem o francês. A
escolha do francês, ligada, como esperamos, a um bom conhecimento
da literatura estrangeira, nos permite adotar, se não todas as contri-
buições no setor de museus, ao menos alguns de seus aspectos que,
em geral, não são explorados, mas que são de extrema importância
para o ICOM. Somos, entretanto, muito conscientes dos limites de
nossas pesquisas e esperamos que este trabalho dê a outras equipes
a ideia de apresentar, em sua própria língua (o alemão ou o italiano,
entre outras), um olhar diferente sobre o campo museal.
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Por outro lado, certo número de consequências ligadas à
estruturação do pensamento resulta da escolha de uma língua – como
ilustra uma comparação entre as definições do museu pelo ICOM,
de 1974 e de 2007, a primeira originalmente pensada em francês, a
segunda em inglês. Temos consciência de que essa obra não seria
a mesma se houvesse sido escrita originalmente em espanhol, em
inglês ou em alemão, tanto no nível de sua estrutura e na escolha dos
termos, quanto do ponto de vista da perspectiva teórica adotada!
Não surpreende ver que o maior número de guias práticos sobre os
museus são escritos em inglês (como testemunha o excelente manual
dirigido por Patrick Boylan, Como Gerir um Museu: Manual Prático10),
enquanto que estes são muito mais raros na França ou nos antigos
países do Leste Europeu, onde privilegiamos o ensaio e a reflexão
teórica.
Seria, entretanto, muito caricatural dividir a literatura museal
entre uma parte prática, estritamente anglo-americana, e uma parte
teórica, mais próxima do pensamento latino: o número de ensaios
11
teóricos redigidos por pensadores anglo-saxônicos no campo museal
condena totalmente tal visão. Permanece o fato de que certo número
de diferenças existe, e diferenças sempre enriquecem o conhecimento
e a apreciação. Nós tentamos levar em consideração esta perspectiva.
Finalmente, é importante saudar, pela escolha do francês, a
memória do trabalho fundamental de teorização que foi conduzido
por muitos anos pelos dois primeiros diretores franceses do ICOM,
Georges Henri Rivière e Hugues de Varine, sem o qual uma grande
parte do trabalho museal, tanto na Europa continental quanto na
América ou na África, não poderia ser compreendido. Uma reflexão
fundamental sobre o mundo dos museus não pode ignorar a sua
história, do mesmo modo que é preciso lembrar que suas origens estão
ancoradas no século do Iluminismo e que sua transformação (isto é,
sua institucionalização) ocorreu no período da Revolução Francesa,
10 , P. (coord.). Como Gerir um Museu: Manual Prático. Paris: ICOM/Unesco, 2006. Dis-
ponível em: http://www.icom.org.br/Running%20a%20Museum_trad_pt.pdf. Acesso em:
maio de 2012. (Nota dos Autores.)
11 Em Portugal, anglo-saxónicos.

20
mas também que as fundações teóricas, no contexto europeu, foram
elaboradas do outro lado do muro de Berlim, a partir dos anos 1960,
no momento em que o mundo ainda estava dividido em blocos
antagônicos. Ainda que a ordem geopolítica tenha sido comple-
tamente transformada há quase um quarto de século, é importante
que o setor museal não esqueça a sua história – o que seria um absurdo
no caso de um instrumento transmissor de cultura para os públicos do
presente e para as futuras gerações! Todavia, existe sempre o risco de
uma memória curta que, da história dos museus, preserve apenas a
maneira pela qual estas instituições devem ser geridas e os meios de
atrair os visitantes.

Uma estrutura em constante evolução


Desde o início, o objetivo dos autores não foi o de escrever um
tratado “definitivo” sobre o mundo dos museus, um sistema teórico
ideal separado da realidade. A fórmula relativamente modesta de
uma lista de vinte e um termos foi escolhida para tentar enfatizar uma
reflexão contínua sobre o campo museal, com apenas estes marcos
seletos. O leitor não se surpreenderá ao encontrar aqui alguns termos
de uso comum que lhe são familiares, tais como “museu”, “coleção”,
“patrimônio”, “público”, etc., nos quais esperamos que ele descubra
certo número de sentidos ou de reflexões que lhe são menos familiares.
Ele se surpreenderá, possivelmente, ao não encontrar alguns outros
termos, como, por exemplo, o vocábulo “conservação”, que se vê
inserido no verbete PRESERVAÇÃO. Neste termo, entretanto, nós
não retomamos todo o investimento feito pelos membros do Comitê
Internacional de Conservação (ICOM-CC), cujo trabalho se estende
para muito além de nossas pretensões neste campo. Alguns outros
termos, mais teóricos, parecerão, à primeira vista, mais exóticos para
o profissional voltado para a prática em museus, entre eles: “museal”,
“musealização”, “museologia”, etc. Nosso objetivo era, de certo
modo, o de apresentar a visão mais aberta possível daquilo que se
pode observar no mundo dos museus, compreendendo experiências
numerosas, mais ou menos incomuns, suscetíveis de influenciar
21
consideravelmente o futuro dos museus em longo prazo – o que é o
caso, notadamente, dos conceitos de museu virtual e de cibermuseu.
Começaremos indicando os limites desse trabalho: trata-se de
propor uma reflexão teórica e crítica sobre o mundo dos museus
em um sentido amplo – que está para além dos museus clássicos.
Podemos certamente partir do museu, para tentar defini-lo. Está dito,
na definição do ICOM, que se trata de uma instituição a serviço da
sociedade e de seu desenvolvimento. O que significam estes dois termos
fundamentais? Mas, acima de tudo – e as definições não respondem a
esta pergunta –, por que os museus existem? Sabemos que o mundo
dos museus está ligado à noção de patrimônio, mas vai, ainda, muito
além disto. Como evocar este contexto mais amplo? Pelo conceito
de museal (ou de campo museal), que é o campo teórico responsável
por tratar deste questionamento, do mesmo modo em que a política
é o campo da reflexão política. O questionamento crítico e teórico do
campo museal é a museologia, enquanto que o seu aspecto prático é
designado como museografia. Para cada um desses termos não existe
apenas uma, mas várias definições que se transformaram com o passar
do tempo. As diferentes interpretações de cada um desses termos são
evocadas aqui.
O mundo dos museus evoluiu amplamente com o tempo, tanto
do ponto de vista de suas funções quanto por sua materialidade e
a dos principais elementos que sustentam o seu trabalho. Concre-
tamente, o museu trabalha com os objetos que formam as coleções. O
fator humano é evidentemente fundamental para se compreender o
funcionamento dos museus, tanto no que concerne à equipe que atua
no seio do museu – suas profissões, e sua relação com a ética – quanto
ao público ou aos públicos aos quais o museu está destinado. Quais
são as funções do museu? Ele desenvolve uma atividade que podemos
descrever como um processo de musealização e de visualização. De
maneira mais geral, falamos de funções museais que foram descritas
de formas diferentes ao longo do tempo. Baseamo-nos em um dos
modelos mais conhecidos, elaborado no final dos anos 1980 pela
Reinwardt Academie de Amsterdam, que distingue três funções: a

22
preservação (que compreende a aquisição, a conservação e a gestão
das coleções), a pesquisa e a comunicação. A comunicação, ela mesma,
compreende a educação e a exposição, duas funções que são, sem
dúvida, as mais visíveis do museu. Neste sentido, parece-nos que a
função educativa cresceu suficientemente nas últimas décadas para que
o termo mediação lhe seja acrescentado. Uma das maiores diferenças
que se pode apontar entre o trabalho realizado anteriormente em
museus e o dos últimos anos reside na importância que vem sendo
dada à noção de gestão, de modo que, em razão de suas especificidades,
somos levados a tratá-la como uma função do museu. O mesmo se
percebe em relação à noção de arquitetura de museu, cuja importância
crescente leva a uma transformação do conjunto de outras funções.
Como definir o museu? Pela abordagem conceitual (museu,
patrimônio, instituição, sociedade, ética, museal), por meio da reflexão
teórica e prática (museologia, museografia), por seu funcionamento
(objeto, coleção, musealização), pelos seus atores (profissionais,
público), ou pelas funções que decorrem de sua ação (preservação,
pesquisa, comunicação, educação, exposição, mediação, gestão,
arquitetura)? Diversos são os pontos de vista possíveis, sendo
conveniente compará-los na tentativa de melhor compreender um
fenômeno em pleno desenvolvimento, cujas transformações recentes
não são indiferentes para ninguém.
No início dos anos 1980, o mundo dos museus conhecia uma onda
de mudanças sem precedentes: por muito tempo considerados como
lugares elitistas e distintos, os museus passaram a propôr uma espécie
12
de coming out , evidenciando seu gosto por arquiteturas espetaculares,
pelas grandes exposições chamativas e amplamente populares, e com
a intenção de se tornarem parte de um determinado tipo de consumo.
A popularidade do museu não foi negada, seu número pelo menos
dobrou no espaço de pouco mais de uma geração, e os novos projetos
de construção – de Xangai a Abu Dhabi, no limiar das mudanças
geopolíticas que o futuro pronuncia – vêm se mostrando ainda mais
impressionantes. Com efeito, uma geração depois, o campo museal

12 Expressão mantida como no original em francês.

23
ainda está em vias de se transformar: se o homo turisticus parece ter
substituído o visitante como alvo principal do marketing dos museus,
não podemos deixar de nos interrogar, todavia, sobre as perspectivas
deste último. O mundo dos museus, como o conhecemos, ainda
terá um futuro? A civilização material, cristalizada pelo museu, não
está em vias de conhecer, ela mesma, mudanças radicais? Nós não
pretendemos responder aqui a questões deste tipo, mas esperamos
que aqueles que se interessam pelo futuro dos museus, ou, de maneira
mais prática, pelo futuro de seu próprio estabelecimento, encontrem
nestas páginas alguns elementos capazes de enriquecer a sua reflexão.

François Mairesse e André Desvallées

24
MUSEOLOGIA – UMA DISCIPLINA,
MUITOS CONCEITOS, INÚMERAS
APLICAÇÕES
CONSIDERAÇÕES SOBRE A TRADUÇÃO DOS
CONCEITOS-CHAVE DE MUSEOLOGIA

Uma tradução requer atenção e esta deve ser redobrada quando se


trata de um texto conceitual com viés acadêmico, pois, no plano das
ideias, inúmeras abordagens são possíveis, nos distintos contextos,
considerando a origem de um dado artigo, onde a tradução se faz e
onde ela deve fazer sentido. Fazer uma tradução é, portanto, encontrar
o sentido dos termos entre os falantes de uma dada língua, e, no caso
presente, entre os atores de um campo de conhecimento ainda em
construção. No caso da tradução dos Conceitos-chave de Museologia,
a dificuldade ampliou-se tendo em vista, além das questões inerentes
à tradução de textos acadêmicos, o fato de a museologia ser uma
disciplina em formação, em processo, como tantas vezes mencionado
no âmbito do ICOFOM e do ICOM.
A museologia está se construindo como campo de conhecimento
em distintas localidades – núcleos de formação e pesquisa em vários
países – e instituições museais que constituem o universo de sua
aplicação, instituições estas marcadas por seus contextos sociocul-
turais. Ela vem ganhando importância e se renovando como uma
(possível) ciência humana que ainda carece de maior precisão termino-
lógica, para assim ser reconhecida nas interfaces com outras ciências
– e esta é uma realidade tanto brasileira, como mundial.
O Comitê de Redação dos Conceitos-chave de Museologia levou
em consideração a diversidade dos contextos culturais nos quais a
museologia se faz e suas particularidades, de modo que na Introdução

25
os autores “jogam” com palavras usando o termo “francofonia” – ao
se referirem à fala francesa – e “francófonos” – para cercar a origem
de seus colaboradores: Bélgica, Canadá, França e Suíça. O comitê
se explica mencionando, o que reconhecemos, a dificuldade de um
trabalho desta envergadura com participantes de diversos países e
com diferentes línguas maternas, mesmo considerando que as línguas
oficiais do ICOM sejam três: inglês, francês e espanhol. Sem, contudo,
conseguir se justificar, o comitê adotou um procedimento que,
pragmaticamente falando, resultou na obra que ora apresentamos no
contexto brasileiro e português. Um dos argumentos dos autores é
que nem todos falam todas as línguas oficiais do ICOM (nem todos
falam espanhol, por exemplo, ou, talvez, nem todos falem francês,
como eventualmente gostariam), como se o problema fosse esse e
como se a realidade dos atores que compõem o ICOM fosse simples.
O que queremos dizer é que o texto original em francês, que aqui
nós traduzimos para o português, representa uma “francovisão”
que, na tradução, nos gerou alguns pontos de hesitação, resultantes
da distância cultural que enfrentamos. Dessa forma, gostaríamos de
registrar13 o nosso mais profundo respeito pelos nossos colegas e pelo
árduo trabalho que realizam, do mesmo modo que manifestamos
o nosso compromisso com o que realizamos no Brasil há décadas.
Nesse sentido, recorremos muitas vezes a extensas notas de rodapé
– que aqui nos abstivemos de identificar uma a uma como “Nota
dos Tradutores”, pois todas o são, com exceção de uma identificada
como “Nota dos Autores” –, com a preocupação de que o leitor fosse
informado de que há outras visões e que, no Brasil, construímos uma
museologia alicerçada e situada cultural e socialmente. Também nos
preocupamos que esta publicação fosse um referencial para ser usado
criticamente, evitando-se meras repetições de termos que, como
procuramos dizer, correspondem à visão de um outro contexto.
Dessa forma, convidamos os leitores a uma leitura crítica,
refletindo sobre seus museus e sobre a melhor maneira de participar
dos processos museais, da mesma forma que queremos estimular os

13 Em Portugal, registar.

26
estudantes e pesquisadores a se debruçarem sobre a difícil tarefa, mas
extremamente necessária, de conceituação e definição de termos que
ajudem ao desenvolvimento da museologia.

Bruno Brulon Soares


Museólogo
Vice-presidente do ICOFOM

Marilia Xavier Cury


Museóloga
Docente em Museologia, Museu de Arqueologia e Etnologia,
Universidade de São Paulo

27
A
ARQUITETURA nou, ele mesmo, o desenvolvimento
da noção de museu. Assim, a forma
s. f. – Equivalente em francês: architecture;
do templo com cúpula e fachada
inglês: architecture; espanhol: arquitectura; ale-
mão: Architektur; italiano: architettura.
com pórtico colunado impôs-se ao
mesmo tempo em que se impôs a
A arquitetura (museal) define-se da galeria, concebida como um dos
como a arte de conceber, de projetar principais modelos para os museus
e de construir um espaço destinado a de Belas Artes, e que deu origem, por
abrigar as funções específicas de um extensão, aos termos galerie, galleria,
museu e, mais particularmente, as de Galerie e gallery, respectivamente na
uma exposição, da conservação pre- França, na Itália, na Alemanha e nos
ventiva e ativa, do estudo, da gestão e países anglo-americanos.
do acolhimento de visitantes. Ainda que a forma das constru-
Desde a invenção do museu ções museais tenha, geralmente, se
moderno, a partir do final do século centrado na salvaguarda das cole-
XVIII e início do XIX, e, parale- ções, ela evoluiu na medida em que
lamente, a partir da reconversão se desenvolveram novas funções.
de antigos prédios patrimoniais, Deste modo, pela busca de soluções
desenvolveu-se uma arquitetura para uma melhor iluminação das
específica que, especialmente pelas exposições (Soufflot e Brébion, 1778;
suas exposições temporárias ou de 15
14 J.-B. Le Brun, 1787 ), para a melhor
longa duração , vincula-se às con- distribuição das coleções pelo edifí-
dições de preservação, de pesquisa cio do museu (Mechel, 1778-1784),
e de comunicação das coleções. Esta e para melhor estruturar o espaço de
arquitetura ficou evidente tanto nas exposições (Leo von Klenze, 1816-
primeiras construções desse tipo 1830), tomou-se consciência, no
quanto nas mais contemporâneas. O início do século XX, da necessidade
vocabulário arquitetônico condicio- de se reduzir as coleções permanen-

14 No texto original, “exposição permanente”. Embora ainda usado no Brasil, assim como em
Portugal, o termo atualizado é “exposição de longa duração”, para evitar a conotação de
permanência. Adotaremos este termo daqui em diante.
15 Referências obtidas no Dictionnaire encyclopédique de muséologie (Paris: Armand Colin),
2011: . [1793], Paris, RMN, 1992 (édition et
postface par Edouard Pommier).

29
tes. Com esse objetivo foram criados podiam se especializar, colocando-se
espaços de reservas técnicas, fosse a serviço de vários museus, depois as
sacrificando salas de exposição, fosse reservas técnicas implantadas fora
utilizando espaços de subsolo, fosse dos espaços de exposição.
pela construção de novos edifícios. O arquiteto é aquele que concebe
Por outro lado, tentava-se, o máximo e planeja17 um edifício e dirige a sua
possível, neutralizar o ambiente execução; mais amplamente, aquele
expositivo, sacrificando-se uma que produz o “envelope” em torno
parte ou a totalidade dos elementos das coleções, da equipe do museu e
de decoração histórica existentes. do seu público. A arquitetura, nesta
A invenção da eletricidade facilitou perspectiva, toca o conjunto dos
estas melhorias, permitindo que os elementos ligados ao espaço e à ilu-
modos de iluminação fossem com- minação no seio do museu, aspectos
pletamente repensados. aparentemente secundários, que aca-
Novas funções apareceram bam se revelando determinantes para
durante a segunda metade do século a significação pretendida (ordenação
XX, conduzindo, especialmente, a cronológica, visibilidade para todos,
modificações arquiteturais maiores: neutralidade do fundo, etc.). Os
multiplicação das exposições tempo- prédios de museus são, então, con-
rárias, permitindo uma distribuição cebidos e construídos segundo um
diferente das coleções entre os espa- programa arquitetural definido pelos
ços de exposição de longa duração e responsáveis científicos e administra-
os das reservas técnicas; desenvolvi- tivos do estabelecimento. Entretanto,
mento de estruturas de acolhimento, as decisões sobre a definição do pro-
espaços de criação (ateliês pedagó- grama e dos limites da intervenção
gicos) e áreas de descanso, o que se do arquiteto nem sempre se distri-
deu particularmente com a criação buem desta maneira. A arquitetura,
de espaços multiuso; e desenvolvi- como arte ou como método para
mento de livrarias e restaurantes, a construção e implantação de um
além da criação de lojas para a venda museu, pode ser vista como uma obra
de produtos derivados. Contudo, completa, que integra todo o meca-
paralelamente, a descentralização nismo do museu. Esta perspectiva,
por reagrupamento e por subcon- por vezes defendida por arquitetos,
tratação de algumas funções dos pode ser considerada apenas quando
museus demandou a construção ou a o programa arquitetônico leva em
instalação de espaços especializados conta todas as questões e reflexões
autônomos: primeiramente os ateliês museográficas, o que não costuma ser
de restauração16 e laboratórios, que o caso na maioria das instituições.

16 Em Portugal, utiliza-se restauro, como também no Brasil.


17 Em Portugal, planeia (forma pouco adotada no Brasil).

30
Pode acontecer de os programas valorização da coleção; finalmente,
dados aos arquitetos incluírem o ainda precisa ser levado em conta o
design interior, atribuindo a estes conforto dos diferentes visitantes.
últimos – se nenhuma distinção for Esta problemática já foi ressaltada
feita entre as instalações gerais e a pelo arquiteto Auguste Perret: “Para
museografia – a possibilidade de um navio navegar, este não deve ser
uma “liberdade criativa” que, mui- projetado de modo muito diferente
tas vezes, se dá em detrimento do de uma locomotiva? A especificidade
museu. Alguns arquitetos são espe- de um edifício de museu recai sobre
cializados na realização de expo- o arquiteto, que será inspirado por
sições e se tornam cenógrafos ou sua função para criar tal órgão” (Per-
“expographes”18. Raros são aqueles ret, 1931). Um olhar sobre as cria-
que podem reivindicar o título de ções arquitetônicas atuais permite
“muséographes”19, a menos que sua perceber que se a maior parte dos
prática e sua formação incluam este arquitetos leva em conta as exigên-
tipo de competência. cias do programa do museu, muitos
continuam a privilegiar o objeto belo
As dificuldades atuais da arqui-
em detrimento do bom instrumento
tetura museal repousam sobre o
museológico.
conflito lógico existente entre, de
um lado, os interesses do arquiteto DERIVADOS: ARQUITETURA DE INTERIOR, PROGRAMA
(que hoje é valorizado pela visibi- DE ARQUITETURA.
lidade internacional deste tipo de 20
CORRELATOS : DECORAÇÃO, ILUMINAÇÃO,
construções), e, de outro, aqueles EXPOGRAFIA, MUSEOGRAFIA, CENOGRAFIA, PROGRAMA
que estão ligados à preservação e à MUSEOGRÁFICO.

18 Como não há correspondentes no Brasil e em Portugal, manteremos os termos e


muséographe como no original em francês. Nesta publicação, aparece, também,
em e em . Muséographe é tratado nos verbetes , -

19 Os autores usam aqui entre aspas. Acreditamos que seja para distinguir enfa-
ticamante do muséographe
amplas que aquela para o desenho de exposições. No Brasil não existem estas duas deno-
minações. O especialista em exposições é o designer

conservador e o educador de museu, para citar dois exemplos.


20 Em Portugal, .

31
C
COLEÇÃO trariamente a uma coleção, não há
seleção e raramente há a intenção de
s. f. – Equivalente em francês: collection;
se constituir um conjunto coerente.
inglês: collection; espanhol: colección; alemão:
Sammlung, Kollektion; italiano: collezione, Seja ela material ou imaterial, a
raccolta. coleção figura no coração das ativi-
dades de um museu. “A missão de
De modo geral, uma coleção pode ser um museu é a de adquirir, preser-
definida como um conjunto de obje- var e valorizar suas coleções com o
tos materiais ou imateriais (obras, objetivo de contribuir para a salva-
artefatos, mentefatos, espécimes, guarda do patrimônio natural, cul-
documentos arquivísticos, testemu- tural e científico” (Código de Ética
nhos, etc.) que um indivíduo, ou um do ICOM, 2006). Sem designá-la tão
estabelecimento, se responsabilizou explicitamente, a definição do museu
por reunir, classificar, selecionar e pelo ICOM permanece essencial-
conservar em um contexto seguro e mente ligada a um princípio tal que
que, com frequência, é comunicada confirma a opinião já antiga de Louis
a um público mais ou menos vasto, Réau: “Compreendemos que os
seja esta uma coleção pública ou pri- museus são feitos para as coleções e
vada. que é preciso construí-los, por assim
Para se constituir uma verdadeira dizer, de dentro para fora, mode-
coleção, é necessário que esses agru- lando aquilo que contém a partir do
pamentos de objetos formem um conteúdo” (Réau, 1908). Essa con-
conjunto (relativamente) coerente e cepção não corresponde, todavia, a
significativo. É importante não con- certos modelos de museus que não
fundir coleção e fundo, que designa, possuem coleções ou àqueles em que
na terminologia arquivística, um a coleção não se situa no coração do
conjunto de documentos de todas seu projeto científico. O conceito de
as naturezas “reunidos automatica- coleção está, ainda, entre aqueles que
mente, criados e/ou acumulados, são, no mundo dos museus, os mais
e utilizados por uma pessoa física facilmente disseminados, mesmo se
ou por uma família em exercício de privilegiamos, como veremos abaixo,
suas atividades ou de suas funções.” a noção de “objeto de museu”.
(Bureau Canadien des Archivistes, Entretanto, vamos enumerar três
1990). No caso de um fundo, con- conotações possíveis para este con-

32
ceito, que variam, essencialmente, conservateur21 ou a equipe do museu
de acordo com dois fatores: por um não são colecionadores, estes últimos
lado, a natureza institucional da cole- sempre estabeleceram laços estreitos
ção, e, por outro, a natureza material com os conservateurs. O museu deve
ou imaterial dos seus suportes. normalmente desenvolver uma polí-
1. Em razão da banalização do tica de aquisição – é o que sublinha
uso do termo “coleção”, tentativas o ICOM, que prevê o mesmo para a
frequentes vêm sendo feitas para política de coleta. Ele seleciona, com-
diferenciar uma coleção de museu de pra, coleta, recebe doações. O verbo
outros tipos de coleção. De maneira “colecionar” é pouco utilizado, por-
geral (já que este não é o caso para que está muito diretamente ligado
todos os estabelecimentos), a coleção ao gesto do colecionador privado e
– ou as coleções – do museu se apre- seus derivados (Baudrillard, 1968)
senta(m) tanto como a fonte quanto – isto é, o colecionismo e a acumu-
como a finalidade das atividades do lação, chamados pejorativamente
museu percebido como instituição. de “collectionnite”22 , no contexto
As coleções podem, assim, ser defi- francês. Nesta perspectiva, a coleção
nidas como “os objetos coletados do é concebida simultaneamente como
museu, adquiridos e preservados em o resultado e como a fonte de um
razão de seu valor de exemplaridade, programa científico visando à aqui-
de referência, ou como objetos de sição e à pesquisa, a partir de tes-
importância estética ou educativa” temunhos materiais e imateriais do
(Burcaw, 1997). É nesta perspectiva homem e de seu meio. Este último
que podemos evocar, por vezes, o critério, entretanto, não permite
museu como a institucionalização distinguir o museu da coleção pri-
da coleção privada. É preciso notar, vada, na medida em que esta última
entretanto, que mesmo quando o pode ser reunida com um objetivo

21 Mantivemos o termo em francês conservateur, como no original, pois este pode apresentar
-
nadas situações o seu uso se assemelha ao do museólogo no Brasil. Em Portugal usa-se o
termo “conservador”, embora em determinadas situações o seu uso também se assemelhe
ao de “museólogo”. Na versão em inglês deste trecho encontramos conservateur como cura-
tor, o que poderia nos levar a traduzir o termo como “curador”. No entanto, há, no Brasil,
diferentes concepções de curadoria e, consequentemente, de curador. Uma delas entende
curadoria como pesquisa de coleção e curador como o pesquisador de coleção e, em con-

curadoria como o processo que integra todas as ações em torno da coleção ou do objeto
museológico: aquisição, pesquisa, conservação, documentação, comunicação (exposição
e educação). Nesse sentido, todos aqueles inseridos nesse processo são curadores. No
Dictionnaire encyclopédique de muséologie (Paris: Armand Colin), 2011, p. 581, André Des-
vallées e François Mairesse apresentam o termo “curador” (Curator com o verbete -
) como o pesquisador de coleção que poderá assumir posição diretiva na instituição.
22 Optamos por não traduzir.

33
perfeitamente científico, do mesmo definição de museus do ICOM –, ela
modo que, por vezes, o museu chega está circunscrita no local em que se
a adquirir coleções privadas desen- encontra. Krysztof Pomian define
volvidas, eventualmente, com uma a coleção como “todo conjunto de
intenção pouco científica. É, então, objetos naturais ou artificiais, man-
o caráter institucional do museu tidos temporariamente ou definitiva-
que prevalece para circunscrever mente fora do circuito de atividades
o termo. Segundo Jean Davallon, econômicas, submetido a uma pro-
num museu “os objetos são sempre teção especial em um lugar fechado,
elementos de sistemas ou de catego- mantido com este propósito, e
rias” (Davallon, 1992). Logo, entre exposto ao olhar” (Pomian, 1987).
os sistemas ligados a uma coleção, Pomian define, assim, a coleção por
além do inventário escrito, que é a seu valor simbólico, na medida em
exigência primordial de uma coleção que o objeto perde a sua utilidade
museal, outra obrigação essencial é a ou o seu valor de troca para se tornar
da adoção de um sistema de classifi- portador de sentido (“semióforo”
cação que permita descrever e locali- ou portador de significado) (ver
zar rapidamente qualquer item entre OBJETO).
os milhares ou milhões de objetos (a 3. A evolução recente do museu –
taxonomia, por exemplo, é a ciên- e, especialmente, a tomada de cons-
cia que classifica organismos vivos). ciência sobre o patrimônio imaterial
Os usos modernos da classificação – atribuiu um novo valor ao caráter
foram amplamente influenciados mais geral da coleção, fazendo com
pela informática, mas a documen- que aparecessem novos desafios. As
tação de coleções permanece uma coleções mais evidentemente ima-
atividade que requer um saber espe- teriais (de conhecimentos locais, de
cífico e rigoroso, fundado na cons- rituais e mitos na etnologia, bem
tituição de um thesaurus capaz de como de performances, gestos e ins-
descrever as relações entre diversas talações efêmeras em arte contem-
categorias de objetos. porânea) incitam o desenvolvimento
2. A definição da coleção pode de novos dispositivos de aquisição.
igualmente ser vista segundo uma Por vezes, a mera composição mate-
perspectiva mais geral, que inclui rial dos objetos torna-se secundária,
tanto as coleções privadas quanto os e a documentação do processo de
museus, mas que toma como ponto coleta23 – que sempre foi importante
de partida a sua suposta materiali- na arqueologia e na etnologia – agora
dade. Partindo do princípio de que se torna a informação de maior
a coleção constitui-se essencialmente importância, a qual acompanhará
de objetos materiais – como era o não apenas a pesquisa, mas também
caso, muito recentemente, para a os dispositivos de comunicação com

23 Em Portugal, recolha.

34
o público. A coleção do museu sem- (segundo o modelo ECR de Lasswell,
pre teve de ser definida em relação 1948). Esse conceito é tão geral que
à documentação que a acompanha e não está restrito aos processos huma-
pelo trabalho que resultou dela, para nos portadores de informação de
ter a sua relevância reconhecida. caráter semântico, mas encontra-se
Esta evolução levou a uma acepção também nas máquinas, tanto quanto
mais ampla da coleção, como uma no mundo animal ou na vida social
reunião de objetos que conservam (Wiener, 1948). O termo possui duas
sua individualidade e reunidos de acepções usuais, que encontramos
maneira intencional, segundo uma em diferentes níveis nos museus, que
lógica específica. Esta última acep- variam se o fenômeno for recíproco
ção, a mais aberta das que foram cita- (E C R) ou não (E C R). No pri-
das, engloba tanto as coleções mais meiro caso, a comunicação é dita
específicas quanto as coleções tra- interativa, no segundo ela é unilate-
dicionais dos museus, mas também ral e dissipada no tempo. Quando
coleções de testemunhos da história a comunicação é unilateral e opera
oral, de memórias ou de experimen- no tempo, e não apenas no espaço,
tos científicos. é chamada de transmissão (Debray,
DERIVADOS: COLETA (BR), RECOLHA (PT), 2000).
24 No contexto dos museus, a comu-
COLECIONAR, COLECIONADOR, COLECIONISMO.
nicação aparece simultaneamente
CORRELATOS: AQUISIÇÃO, ESTUDO,
PRESERVAÇÃO, CATALOGAÇÃO, DOCUMENTAÇÃO,
como a apresentação dos resultados
PESQUISA, CONSERVAÇÃO, RESTAURAÇÃO, EXPOSIÇÃO,
da pesquisa efetuada sobre as cole-
GESTÃO DE COLEÇÕES, VALORIZAÇÃO DE COLEÇÕES, ções (catálogos, artigos, conferên-
25 cias, exposições) e como o acesso
ALIENAÇÃO, RESTITUIÇÃO.
aos objetos que compõem as cole-
ções (exposições de longa duração e
COMUNICAÇÃO informações associadas). Esta pers-
pectiva vê a exposição não apenas
s. f. – Equivalente em francês: communication; como parte integrante do processo
inglês: communication; espanhol: comunicación; de pesquisa, mas, também, como ele-
alemão: Kommunikation; italiano: communica-
zione.
mento de um sistema de comunica-
ção mais geral, compreendendo, por
A comunicação (C) é a ação de se vei- exemplo, as publicações científicas.
cular uma informação entre um ou Esta é a lógica que prevaleceu no sis-
vários emissores (E) e um ou vários tema PPC (Preservação – Pesquisa
receptores (R), por meio de um canal – Comunicação)26 proposto pela
24 No Brasil e em Portugal, é outro derivado.
25 No Brasil e em Portugal, encontramos outros correlatos como , ,
, , , .
26 Em francês, PRC (Préservation – Recherche – Communication); em inglês, PRC (Preservation –
Research – Communication).

35
Reinwardt Academie de Amsterdam, do ICOM para os museus, a comuni-
que inclui no processo de comuni- cação museal aparecia como a parti-
cação as funções de exposição, de lha, com os diferentes públicos, dos
publicação e de educação exercidas objetos que fazem parte da coleção,
pelo museu. bem como das informações resultan-
1. A aplicação do termo “comu- tes da pesquisa efetuada sobre esses
nicação” aos museus não é óbvia, objetos.
apesar do uso que o ICOM faz dela 2. Podemos definir a especifici-
em sua definição de museu ado- dade da comunicação, a partir de
tada até 2007, que determina que o como esta é praticada pelos museus,
museu “adquire, conserva, estuda, em dois pontos: (1) ela é geralmente
comunica e expõe o patrimônio tan- unilateral, isto é, sem possibilidade
gível e intangível da humanidade de resposta da parte do público
e de seu meio ambiente, para fins receptor, cuja extrema passivi-
de educação, estudo e lazer.” Até dade foi fortemente enfatizada por
a segunda metade do século XX, a McLuhan, Parker e Barzun (1969),
função principal de um museu era o que não quer dizer que o visitante
a de preservar as riquezas culturais não deseje se envolver, de maneira
ou naturais acumuladas, podendo interativa ou não, neste modo de
eventualmente expô-las, sem que comunicação (Hooper-Greenhil,
fosse formulada explicitamente 1995); (2) ela não é essencialmente
uma intenção de comunicar, isto verbal, e não pode ser comparada
é, de fazer circular uma mensagem com a leitura de um texto (Davallon,
ou uma informação a um público 1992); diferentemente, ela opera pela
receptor. Se, nos anos 1990, nós nos apresentação sensível dos objetos
perguntávamos se o museu era, de expostos: “Como sistema de comu-
fato, uma mídia27 (Davallon, 1992; nicação, o museu depende, então,
Rasse, 1999), é porque a função de da linguagem não verbal dos obje-
comunicação do museu não apa- tos e dos fenômenos observáveis.
recia a todos como evidente. Por Ele é, antes de tudo, uma linguagem
um lado, a ideia de uma mensagem visual que pode se tornar uma lin-
museal só surgiu muito tarde, espe- guagem audível ou tátil. Seu poder
cialmente com as exposições temáti- de comunicação é tão intenso que,
cas nas quais prevaleceu, por muito eticamente, sua utilização deve ser
tempo, a intenção didática; por uma prioridade para os profissionais
outro, o receptor permaneceu por de museus” (Cameron, 1968).
muito tempo desconhecido e apenas 3. De maneira mais geral, a comu-
recentemente se desenvolveram os nicação foi-se tornando progressi-
estudos de visitação e as pesquisas de vamente, no fim do século XX, o
público. Na perspectiva da definição princípio motor do funcionamento
27 Em Portugal, um média.

36
do museu. Neste sentido, o museu são. A falta crônica de interatividade
comunica de maneira específica, por na comunicação nos museus con-
meio de um método que lhe é pró- duz ao questionamento sobre como
prio, bem como utilizando todas as tornar o visitante mais ativo, solici-
outras técnicas de comunicação, tando a sua participação (McLuhan,
correndo o risco, talvez, de investir Parker e Barzun, 1969). Poderíamos,
menos em suas características mais certamente, remover as legendas ou
específicas. Diversos museus – pelo mesmo os contextos narrativos para
menos os maiores – possuem um que o público construa, ele mesmo,
departamento de relações públicas, a sua lógica no percurso de uma
ou um “departamento de progra- exposição, mas isso ainda não torna
mas públicos”, que desenvolve as a comunicação interativa. Os únicos
atividades destinadas a comunicar lugares onde certo grau de interati-
e a atingir os diversos setores do vidade foi desenvolvido (tais como o
público, que são mais ou menos bem Palais de la Découverte ou a Cité des
definidos, por meio de atividades Sciences et de l’Industrie, em Paris, ou
clássicas ou inovadoras (eventos, o Exploratorium de São Francisco,
encontros, publicações, animações por exemplo)28 tendem a parecer
“extramuros”, etc.). Neste contexto, mais com os parques de lazer, que
os importantes investimentos feitos multiplicam as atrações com cará-
por muitos museus em seus sites na ter lúdico. Parece, entretanto, que
internet constituem uma parte sig- a verdadeira tarefa do museu é a da
nificativa da lógica comunicacional transmissão, entendida como uma
destas instituições. Como resultado,
comunicação unilateral no tempo,
têm-se as várias exposições virtuais
com o objetivo de permitir a cada
ou ciberexposições (domínio no
um se apropriar da bagagem cultural
qual o museu pode apresentar uma
que assegura a sua humanidade e sua
expertise real), os catálogos digitali-
inserção na sociedade.
zados, os fóruns de discussão mais
ou menos sofisticados, e as diversas CORRELATOS: AÇÃO CULTURAL, EXPOSIÇÃO,
incursões dessas instituições nas EDUCAÇÃO, DIFUSÃO, MEDIAÇÃO, MÍDIA, MEIO DE
29
redes sociais (YouTube, Twitter, COMUNICAÇÃO, ACESSO AO PÚBLICO, TRANSMISSÃO.

Facebook, etc.).
4. O debate relativo aos méto-
dos de comunicação utilizados pelo
museu levanta a questão da transmis-

-
cioná-los.
29 Acrescentaríamos derivados em uso no Brasil, tais como: , ,
. Os correlatos brasileiros e portugueses seriam: , ,

37
E
EDUCAÇÃO uma apropriação e um reinvesti-
mento personalizado. Ela é a ação de
s. f. (do latim educatio, educere: guiar, con-
desenvolver um conjunto de conhe-
duzir para fora de) – Equivalente em francês:
éducation; inglês: education; espanhol: educa-
cimentos e de valores morais, físicos,
ción; alemão: Erziehung, Museumspädagogik; intelectuais, científicos, etc. O saber,
italiano: istruzione. o saber-fazer, o ser e o saber-ser for-
mam os quatro componentes centrais
De uma maneira geral, a educa- do domínio da educação. O termo
ção significa a implementação dos “educação” vem do latim educere
meios necessários para a formação [conduzir para fora de, ou seja, para
e o desenvolvimento de pessoas e de fora da infância], o que supõe uma
suas próprias capacidades. A educa- dimensão ativa do acompanhamento
ção museal pode ser definida como nos processos educativos de trans-
um conjunto de valores, de concei- missão. Tem ligação com a noção de
tos, de saberes e de práticas que têm despertar, que visa a suscitar a curio-
como fim o desenvolvimento do visi- sidade e a conduzir os indivíduos à
tante; como um trabalho de acultura- interrogação e ao desenvolvimento
ção, ela apoia-se notadamente sobre de reflexões. A educação, particu-
a pedagogia, o desenvolvimento, o larmente a informal, visa, então, a
florescimento e a aprendizagem de desenvolver os sentidos e a tomada
novos saberes. de consciência. Ela é um processo
1. O conceito de educação deve de desenvolvimento que pressupõe
definir-se em função de outros ter- mudança e transformação, ao invés
mos, sendo o primeiro deles a “ins- de condicionamento ou repetição,
trução”, que “é relativa ao espírito e noções que ela tende a opor. A for-
é entendida como os conhecimentos mação do espírito passa, então, por
que adquirimos e pelos quais nos uma instrução que transmite saberes
tornamos hábeis e sábios” (Toraille, úteis e uma educação que os torna
1985). A educação está associada transformáveis e suscetíveis de serem
ao mesmo tempo ao coração e ao reinvestidos pelo indivíduo em bene-
espírito, e diz respeito aos conheci- fício de sua humanização.
mentos que pretendemos atualizar 2. A educação, em um contexto
em uma relação que coloca os sabe- mais especificamente museológico,
res em movimento para desenvolver está ligada à mobilização de saberes

38
relacionados com o museu, visando ser evocadas para criar sutilezas e
ao desenvolvimento e ao floresci- enriquecer essas abordagens. As
mento dos indivíduos, principal- noções de animação e de ação cul-
mente por meio da integração desses tural, bem como a de mediação são
saberes, bem como pelo desenvolvi- correntemente evocadas para carac-
mento de novas sensibilidades e pela terizar o trabalho com os públicos
realização de novas experiências. “A no ato de transmissão do museu.
pedagogia museal é um quadro teó- “Eu te ensino”, diz um professor;
rico e metodológico que está a serviço “Eu te faço aprender”, diz o media-
da elaboração, da implementação e dor (Caillet e Lehalle, 1995) (ver
da avaliação de atividades educativas MEDIAÇÃO). Essa distinção reflete
em um meio museal, atividades estas a diferença entre um ato de forma-
que têm como objetivo principal a ção e uma tentativa de sensibiliza-
aprendizagem dos saberes (conheci- ção, levando o indivíduo a terminar
mentos, habilidades e atitudes) pelo o trabalho pela apropriação que fará
visitante” (Allard e Boucher, 1998). dos conteúdos propostos. O pri-
A aprendizagem é definida como meiro subentende uma coação e uma
“um ato de percepção, de interação obrigação, enquanto que o contexto
e de integração de um objeto por um museal supõe a liberdade (Schouten,
sujeito”, o que conduz a uma “aqui- 1987). Na Alemanha, fala-se mais em
sição de conhecimentos ou ao desen- pedagogia, que se chama Pädagogik,
volvimento de habilidades ou de e quando se fala em pedagogia no
atitudes” (Allard e Boucher, 1998). seio dos museus, se diz Museumspä-
A relação de aprendizagem refere- dagogik. Esta diz respeito a todas as
-se à maneira própria do visitante de atividades que podem ser propos-
integrar o objeto de aprendizagem. tas em um museu, indistintamente
Ciência da educação ou da formação da idade, da formação e da origem
intelectual, se a pedagogia se refere social do público em questão.
principalmente à infância, a noção de
didática, por sua vez, é pensada como DERIVADOS: CIÊNCIAS DA EDUCAÇÃO, EDUCAÇÃO
CONTINUADA, EDUCAÇÃO INFORMAL OU NÃO FORMAL,
a teoria da difusão de conhecimen- EDUCAÇÃO MUSEAL, EDUCAÇÃO PERMANENTE,
tos, uma maneira de apresentar um EDUCAÇÃO POPULAR, SERVIÇO EDUCATIVO.
30
saber a um indivíduo seja qual for a
sua idade. A educação é mais ampla e CORRELATOS: AÇÃO CULTURAL, ANIMAÇÃO,
APRENDIZAGEM, DESENVOLVIMENTO, DESPERTAR,
visa à autonomia da pessoa. DIDÁTICA, ENSINAR, ENSINO, FORMAÇÃO, INSTRUÇÃO,
Outras noções relacionadas podem MEDIAÇÃO, PEDAGOGIA, TRANSMISSÃO.

30 No Brasil e em Portugal, os derivados seriam, para além dos referidos:


e . Os correlatos são: , , -
, , .

39
ÉTICA pela referência a um mundo caótico
e desordenado, relegado ao acaso
s. f. (do grego èthos: hábito, caráter) – Equiva- e desprovido de qualquer orienta-
lente em francês: éthique; inglês: ethics; espa- ção estável. Diante desta desorga-
nhol: etica; alemão: Ethik; italiano: etica. nização universal, cada um é o juiz
Em geral, a ética é uma disciplina daquilo que lhe convém (Nietzsche,
filosófica que trata da determina- Deleuze), e é o indivíduo que decide
ção de valores que irão guiar a con- por si mesmo aquilo que é bom ou
duta humana tanto pública quanto mau. Entre essas duas posições radi-
privada. Longe de ser um simples cais, que constituem a ordem moral
sinônimo, como se tende a acre- e a desordem ética, uma via inter-
ditar atualmente, a ética opõe-se à mediária é concebível na medida em
moral, na medida em que a escolha que é possível que os homens entrem
dos valores não é mais imposta por em acordo livremente para reconhe-
uma dada ordem, tratando-se, dife- cer o conjunto de valores comuns
rentemente, de uma livre escolha do (como o princípio do respeito pelo
sujeito ativo. A distinção é essencial ser humano). Este é um ponto de
quanto às suas consequências para o vista ético, e é ele que, globalmente,
museu, na medida em que ele é uma rege a determinação dos valores nas
instituição, isto é, um fenômeno con- democracias modernas. Essa distin-
vencional e sujeito a revisão. ção fundamental condiciona ainda
A ética, no seio do museu, pode hoje a divisão entre dois tipos de
ser definida como o processo de dis- museus ou dois modos de funcio-
cussão que visa a determinar os valo- namento. Alguns, muito tradicio-
res e os princípios de base sobre os nais, como certos museus de Belas
quais se apoia o trabalho museal. É Artes, parecem inscrever-se em uma
a ética que engendra a redação dos ordem pré-estabelecida: as coleções
princípios apresentados nos códigos aparecem como sagradas e definem
de deontologia dos museus, como uma conduta modelo por parte de
aquele proposto pelo ICOM. diferentes atores (museólogos e
1. A ética visa a guiar a conduta do visitantes) e um espírito cruzado na
museu. Na visão moral do mundo, a execução das tarefas. Por outro lado,
realidade é submetida a uma ordem outros museus, talvez mais atentos
que decide o lugar que cada indi- à vida concreta das pessoas, não se
víduo ocupa. Essa ordem constitui consideram como submetidos a valo-
uma perfeição que todo ser deve res absolutos e os reexaminam recor-
lutar para alcançar, buscando reali- rentemente. Estes podem ser museus
zar perfeitamente a sua função – o mais voltados para a vida concreta,
que se conhece como virtude (Pla- como os museus de antropologia,
tão, Cícero, etc.). Por outro lado, a que buscam apreender uma reali-
visão ética do mundo é sustentada dade étnica geralmente flutuante, ou

40
os museus ditos “de sociedade”31, cio da sociedade e de seu desenvol-
para os quais as interrogações e vimento (questão que diz respeito às
as escolhas concretas (políticas ou aquisições e à alienação de acervos).
sociais) vêm antes do culto às cole- (3) Os museus mantêm referências
ções. primárias para construir e aprofun-
2. Se a distinção entre ética e moral dar conhecimentos (deontologia da
é particularmente clara em francês, pesquisa ou da coleta de testemu-
em espanhol, e mesmo em português, nhos). (4) Os museus criam condi-
o termo em inglês tende a gerar certa ções para fruição, compreensão e
confusão (ethic se traduz por ético, promoção do patrimônio natural e
mas também por moral). Assim, o cultural (deontologia da exposição).
código de deontologia do ICOM (5) Os recursos dos museus possibili-
(2006) (Código de deontología, em tam a prestação de outros serviços de
espanhol) é traduzido como Code of interesse público (questão de exper-
ethics em inglês32. Trata-se, entre- tise). (6) Os museus trabalham em
tanto, de uma visão claramente pres- estreita cooperação com as comuni-
critiva e normativa que se exprime dades das quais provêm seus acervos,
pelo código (e que encontramos, assim como com aquelas às quais ser-
de maneira idêntica, nos códigos da vem (restituição de bens culturais).
Museums Association da Grã-Bre- (7) Os museus funcionam de acordo
tanha ou da American Association com a legislação (referente ao quadro
of Museums33). Sua leitura, estrutu- jurídico). (8) Os museus atuam com
rada em oito capítulos, apresenta as profissionalismo (referente à conduta
medidas de base que permitem um adequada da equipe de profissionais
desenvolvimento (supostamente) e aos conflitos de interesse).
harmonioso da instituição do museu 3. O terceiro impacto do conceito
no seio da sociedade: (1) Os museus de ética sobre o museu reside na
preservam, interpretam e promovem sua contribuição para a definição da
o patrimônio natural e cultural da museologia como ética museal. Nesta
humanidade (recursos, estes, institu- perspectiva, a museologia não seria
cionais, materiais e financeiros para concebida como uma ciência em
a abertura de um museu). (2) Os construção (Stránský, 1980), já que o
museus mantêm acervos em benefí- estudo do nascimento e da evolução

-
tanto, difere do termo “museus de sociedade”, por ter sido proveniente de uma tradição
museológica distinta da francesa, estando mais diretamente ligado à “museologia social”
praticada e debatida no contexto português e na Mesa Redonda de Santiago do Chile, em
1972. O termo francês “museus de sociedade”, por sua vez, foi usado, a partir de meados

como museus de arte e que não tinham coleções de Belas Artes.


32 No Brasil denominou-se Código de Ética do ICOM. Em Portugal, Código Deontológico do ICOM.
33 Atualmente, American Alliance of Museums.

41
do museu escapa tanto aos métodos forma abreviada ‘expo’34 – designa
das ciências humanas quanto aos das ao mesmo tempo o ato de expor coi-
ciências naturais, na medida em que sas ao público, os objetos expostos, e
o museu é uma instituição maleável e o lugar no qual se passa a exposição”
passível de ser reformulada. Todavia, (Davallon, 1986). Tendo origem no
como ferramentas da vida social, os termo em latim expositio, o termo
museus demandam que sejam feitas (que no francês antigo, no início do
escolhas infinitas para determinar o século XII, era exposicïun) possuía,
seu uso. E aqui, precisamente, a esco- a princípio e ao mesmo tempo, o
lha dos fins aos quais se irá submeter sentido figurado de explicação, de
este conjunto de métodos é, em si exposto, o sentido literal de uma
mesma, uma ética. Nesse sentido, a exposição (de uma criança abando-
museologia pode ser definida como nada, ainda usado em espanhol no
ética museal, já que é ela que decide termo expósito), e o sentido geral de
aquilo que deve ser um museu e os exibição. A partir do século XVI, a
fins aos quais ele deve estar subme- palavra francesa exposition tinha o
tido. É nesse quadro ético que se faz sentido de apresentação (de merca-
possível para o ICOM elaborar um dorias) e, depois, no século XVII, ela
código de deontologia para a gestão passou a designar abandono, apre-
de museus – sendo a deontologia a sentação inicial (para explicar uma
ética comum a uma categoria socio- obra) ou a situação (de um edifício).
profissional e servindo de quadro No século XVIII, na França, a pala-
metajurídico. vra exhibition, referindo-se a exibi-
CORRELATOS: DEONTOLOGIA, FINS, MORAL, ção de obras de arte, tinha o mesmo
VALORES.
sentido em francês e em inglês, mas
o uso francês da palavra exhibition
para se referir à apresentação de arte,
EXPOSIÇÃO mais tarde, seria conferido ao termo
exposition. Atualmente, os termos
s. f. (do latim : exposto, explicação) exposition (em francês) e exhibition
– Equivalente em francês: ; inglês: (em inglês) têm o mesmo sentido do
; espanhol: ; alemão: termo em português “exposição”,
Austellung; italiano: esposizione, mostra.
que possui o mesmo radical do pri-
O termo “exposição” significa tanto meiro, e aplicam-se tanto ao conjunto
o resultado da ação de expor, quanto de coisas de naturezas variadas e for-
o conjunto daquilo que é exposto e mas distintas, expostas ao público,
o lugar onde se expõe. “Partamos de quanto às próprias coisas expostas e
uma definição de exposição empres- ao lugar onde acontece essa manifes-
tada do exterior e que nós não elabo- tação. Nesta perspectiva, cada uma
ramos. Esse termo – bem como a sua dessas acepções pode definir conjun-

42
tos até certo ponto diferentes. ao conjunto das interações específi-
1. A exposição, entendida tanto cas no seio deste espaço, ou, ainda,
como o conteúdo quanto como o ao conjunto de representações que
lugar onde se expõe (do mesmo este pode evocar.
modo em que o museu aparece 2. Como o resultado da ação de
como a função, mas também como expor, a exposição apresenta-se
o edifício), não se caracteriza pela atualmente como uma das principais
arquitetura desse espaço, mas pelo funções do museu que, segundo a
lugar em si mesmo, visto de maneira última definição do ICOM, “adquire,
geral. A exposição, quando aparece conserva, estuda, expõe e transmite
como uma das características do o patrimônio material e imaterial
museu, constitui assim um campo da humanidade”. De acordo com o
nitidamente mais vasto, uma vez que modelo PPC35 (da Reinwardt Aca-
ela pode ser desenvolvida por uma demie), a exposição faz parte da fun-
instituição lucrativa (mercado, loja, ção mais geral de comunicação do
galeria de arte) ou não. Ela pode ser museu, que compreende igualmente
organizada em um lugar fechado, as políticas educativas e de publica-
mas também a céu aberto (parque ou ção. A partir deste ponto de vista, a
rua) ou in situ, isto é, sem deslocar exposição aparece como uma carac-
os objetos (como no caso de sítios terística fundamental do museu, na
naturais, arqueológicos ou históri- medida em que este é desenvolvido
cos). O espaço de exposição, nesta como o lugar por excelência da apre-
perspectiva, define-se, então, não ensão do sensível pela apresentação
somente pelo conteúdo ou por seus dos objetos à visão (visualização),
suportes, mas também pelos seus “mostração” (o ato de demonstrar
utilizadores – visitantes ou membros como prova), e ostensão (como uma
da equipe de profissionais da institui- forma de sacralização de objetos por
ção –, ou seja, as pessoas que entram adoração). Por meio deste processo,
nesse espaço específico e participam o visitante é colocado na presença de
da experiência geral dos outros visi- elementos concretos que podem ser
tantes da exposição. Logo, o lugar exibidos por sua própria importân-
da exposição apresenta-se como um cia (como no caso de quadros ou relí-
lugar específico de interações sociais, quias), ou por evocarem conceitos
em que a ação é suscetível de ser ava- ou construções mentais (a transubs-
liada. É isso que propicia o desen- tanciação, o exotismo). Se o museu
volvimento de pesquisas de público pode ser definido como um lugar
ou de recepção, assim como a cons- de musealização e de visualização,
tituição de um campo de pesquisa a exposição aparece, então, como
específico ligado à dimensão comu- a “visualização explicativa de fatos
nicacional do lugar, mas igualmente ausentes pelos objetos, assim como

35 Preservação – Pesquisa – Comunicação.

43
dos meios de apresentação, utiliza- dos como expôt37. Em tal contexto,
dos como signos” (Shärer, 2003). não se trata, com efeito, de recons-
Suportes como a vitrine ou molduras, tituir a realidade, que não pode ser
que servem como separadores entre transferida a um museu (um “objeto
o mundo real e o mundo imaginário autêntico”, em um museu, já é um
do museu, são apenas marcadores de substituto da realidade e uma expo-
objetividade, que servem para garan- sição tem a função de abrir e propor
tir a distância (para criar “um dis- imagens análogas a essa realidade),
tanciamento”, como dizia Berthold mas de comunicá-la por esse dispo-
Brecht sobre o teatro) e para assina- sitivo. Os expôts em uma exposição
lar que estamos em um outro mundo funcionam como signos (semiologia),
de artifício, de imaginação. e a exposição se apresenta como um
3. A exposição, quando enten- processo de comunicação, na maior
dida como o conjunto de coisas parte do tempo unilateral, incom-
expostas, compreende, assim, tanto pleto e suscetível a interpretações
as musealia, objetos de museu ou divergentes. O termo “exposição”,
“objetos autênticos”36 , quanto os usado nesse sentido, difere do termo
substitutos (moldes, réplicas, cópias, “apresentação”, na medida em que o
fotos, etc.), o material expográfico primeiro corresponde, se não a um
acessório (os suportes de apresen- discurso físico e didático, então, ao
tação, como as vitrines ou as divi- menos, a um amplo complexo de
sórias do espaço), os suportes de itens colocados à vista, enquanto
informação (os textos, os filmes ou o segundo pode evocar a exibição
os multimídias), como a sinaliza- de bens em um mercado ou loja de
ção utilitária. A exposição, nessa departamento, que pode se dar de
perspectiva, funciona como um modo passivo, ainda que em ambos
sistema de comunicação particular os casos um especialista (cenógrafo
(McLuhan, Parker e Barzun, 1969; ou designer de exposições) seja
Cameron, 1968), fundado sobre os necessário para se alcançar o nível
“objetos autênticos” e acompanhado de qualidade desejado. Esses dois
de outros artefatos que permitem ao níveis – a apresentação e a exposi-
visitante melhor identificar a sua sig- ção – permitem precisar as diferen-
nificação. Nesse contexto, cada um ças entre cenografia e expografia. No
dos elementos presentes no seio da primeiro caso, o cenógrafo parte do
exposição (objetos de museu, substi- espaço e tende a utilizar os expôts
tutos, textos, etc.) podem ser defini- para mobiliar esse espaço, enquanto
36 Coisas verdadeiras. Ver .
37 No Dictionnaire encyclopédique de muséologie (Paris: Armand Colin), 2011, p. 601, André
Desvallées e François Mairesse apresentam o termo como uma unidade elementar
da exposição, a exemplo do usado na língua inglesa. O termo não tem tradução para
português e aqui será mantido em francês. Ver, também, o verbete
.

44
no segundo, o designer de exposi- (exhibition) podia ser utilizado em
ções ou museólogo parte dos expôts francês e em inglês para designar
e realiza pesquisas sobre o melhor exposições de pintura. Todavia, o
modo de expressão, a melhor lingua- sentido da palavra, de certa maneira,
gem para fazer com que eles falem. degradou-se ao longo do tempo, em
Essas diferenças de expressão tive- francês, e ela passou a designar as
ram variações ao longo das diversas atividades que apresentam caráter
épocas, segundo o gosto e a moda, e nitidamente ostentatório (as “exibi-
em função da importância respectiva ções esportivas”38, por exemplo) aos
dos agentes que operam no espaço olhos da sociedade na qual se desen-
(decoradores, designers, cenógrafos, volvem as exposições. Este também
museólogos, arquitetos). Tais varia- é o caso dos derivados exibicionista
ções se dão, ainda, em função das e exibicionismo, em português, que
disciplinas e da finalidade de pes- se referem, de maneira ainda mais
quisa. O campo muito vasto consti- específica, a atos indecentes. É,
tuído pelas respostas formuladas à então, nesta perspectiva que a crítica
questão do “mostrar” e do “comuni- das exposições se faz de forma mais
car” permite o esboço de uma histó- virulenta, já que ela rejeita aquilo
ria e de uma tipologia de exposições que, segundo ela, não advém de uma
que se pode conceber a partir das exposição – e, por metonímia, da
mídias utilizadas (objetos, textos, atividade de um museu – mas de um
imagens em movimento, ambientes, espetáculo, com um caráter comer-
recursos digitais; exposições “mono- cial muito acentuado.
midiáticas” e “multimidiáticas”), a 5. O desenvolvimento das novas
partir do caráter lucrativo ou não da tecnologias e do design por com-
exposição (exposição de pesquisa, putadores popularizou a criação de
exposição blockbuster, exposição museus na internet e a realização
espetáculo, exposição comercial), de exposições que podem ser visita-
a partir da concepção geral do das na tela ou por meio de suportes
muséographe (expografia do objeto, digitais. Mais do que utilizar o termo
da ideia ou do ponto de vista), etc. “exposição virtual” (que designa,
A toda essa gama de possibilidades mais precisamente, uma exposição
ainda é possível acrescentar a impli- em potência, isto é, uma resposta
cação, cada vez mais marcante, do potencial à questão do “mostrar”),
visitante-observador. preferimos os termos “exposição
4. Em francês, o termo exposition digital” ou “ciberexposição” para
distingue-se parcialmente do termo evocar essas exposições particula-
exhibition, tendo este último, atu- res que se desenvolvem na internet.
almente, um sentido pejorativo. Estas oferecem possibilidades que
Em torno de 1760, o mesmo termo não permitem exposições clássicas

38 Em Portugal, desportivas.

45
de objetos materiais (agrupamentos DERIVADOS: CIBEREXPOSIÇÃO, DESIGN DE
de objetos, novos modos de apresen- EXPOSIÇÃO, EXPÔT, EXPOGRAFIA, EXPOGRAPHE,
39
tação, de análise, etc.). Mas se, por EXPOLOGIA, EXPOR.
enquanto, elas são apenas concor- CORRELATOS: ABERTURA, AFIXAR,
rentes das exposições com objetos APRESENTAÇÃO, APRESENTAR, CATÁLOGO DE
reais nos museus clássicos, não é EXPOSIÇÃO, CENOGRAFIA, CENÓGRAFO, COMUNICAÇÃO,
impossível, por outro lado, que o seu CONCEITO DA EXPOSIÇÃO, COORDENADOR DE
desenvolvimento influencie os méto- EXPOSIÇÃO, DECORADOR, DEMONSTRAÇÃO, DIORAMA,
dos atualmente empregados no seio DISPOSITIVO, ESPACIALIZAÇÃO, ESPAÇO, ESPAÇO
desses museus. SOCIAL, EXPOSITOR, FEIRA, GALERIA, INSTALAÇÃO,
MEIOS, MENSAGEM, METÁFORA, MÍDIA, MOLDURA,
MONTAR, MOSTRAÇÃO, MOSTRAR, OBJETO DIDÁTICO,
PROJETO EXPOSITIVO, REALIDADE, REALIDADE FICTÍCIA,
REALIZAÇÃO, RECONSTITUIÇÃO, RECURSOS DE
APRESENTAÇÃO, REPRESENTAÇÃO, SALA DE EXPOSIÇÃO,
40
SALÃO, VISITANTE, VISUALIZAÇÃO, VITRINE.

39 Como termo derivado, no Brasil, usa-se também tal qual


. Os correlatos usados no Brasil: , ,
, , , , , -
, . Em Portugal, os termos relacionados são idênticos, à exceção de -
, que não existe.
40 Alguns dos correlatos, aceitos no Brasil e em Portugal, são: , -
, , , ,
, , e ,
, .

46
G
GESTÃO Tradicionalmente, o termo utili-
zado para definir esse tipo de ativi-
s. f. (do latim gerere: encarregar-se de, adminis-
dade do museu é “administração”
trar) – Equivalente em francês: gestion; inglês:
management; espanhol: gestión; alemão: (do latim administratio: serviço,
Verwaltung, Administration; italiano: gestione. ajuda, manejo), mas este se refere,
de maneira mais geral, ao conjunto
A gestão museológica, ou admi- de atividades que permitem o fun-
nistração de museus, é definida, cionamento do museu. O tratado
atualmente, como a ação de conduzir
de museologia de George Brown
as tarefas administrativas do museu
Goode (1896), intitulado Museum
ou, de forma mais geral, o conjunto
Administration, privilegia aspectos
de atividades que não estão dire-
ligados ao estudo e à apresentação
tamente ligadas às especificidades
das coleções, bem como uma visão
do museu (preservação, pesquisa
e comunicação). Nesse sentido, a geral do museu e sua integração na
gestão museológica compreende sociedade, em detrimento da gestão
essencialmente as tarefas ligadas aos cotidiana. Legitimamente derivada
aspectos financeiros (contabilidade, da lógica da função pública, admi-
controle de gestão, finanças) e jurídi- nistrar significa assegurar o funcio-
cos do museu, à segurança e manu- namento de um serviço público ou
tenção da instituição, à organização privado, assumindo a responsabi-
da equipe de profissionais do museu, lidade de impulsionar e controlar
ao marketing, mas também aos pro- suas atividades. A noção de serviço
cessos estratégicos e de planejamento (público) – que pode ser vista com
gerais das atividades do museu. O a conotação religiosa de um sacerdó-
sentido do termo management41, de cio – está estreitamente associada à
origem anglo-saxônica, mas também administração.
utilizado em francês, é similar ao de Conhecemos a conotação buro-
“gestão”. As linhas diretrizes ou de crática do termo “administração”
“estilo” de gestão traduzem certa desde que este foi aproximado dos
concepção do museu – particular- modos de funcionamento dos pode-
mente no que se refere à sua relação res públicos. Não surpreende, então,
com o serviço para o público. que a evolução geral das teorias eco-

47
nômicas dos últimos 25 anos, privi- vistas como auxiliares – tiveram uma
legiando a economia de mercado, incidência real sobre o desenvolvi-
tenha resultado no uso recorrente mento de outras ações do museu, ao
do conceito de gestão, utilizado por ponto de desprezarem, por vezes, as
muito tempo no seio das organiza- atividades ligadas à preservação, à
ções com fins lucrativos. As noções pesquisa e até mesmo à comunica-
de comercialização e marketing ção.
museológico, assim como o desen- A especificidade da gestão
volvimento de instrumentos comer- museológica, estando articulada com
ciais pelos museus (na definição de as lógicas contraditórias ou híbri-
estratégias, na tomada de conheci- das do mercado, por um lado, e dos
mento dos públicos/consumidores, poderes públicos, por outro, arti-
no desenvolvimento de recursos, cula-se igualmente com a lógica da
etc.) transformaram consideravel- dádiva (Mauss, 1923), uma vez que
mente o museu. Assim, alguns dos ela perpassa a circulação de obje-
pontos mais conflituosos em matéria tos, de dinheiro ou de doações, bem
de organização da política museoló- como as ações das sociedades de ami-
gica são diretamente condicionados gos dos museus. Ainda que doações
pela oposição, no seio do museu, e atividades voluntárias sejam consi-
entre uma lógica de mercado e uma deradas frequentemente de maneira
lógica mais tradicionalmente regida implícita, este aspecto vem sendo
pelos poderes públicos. O resul- menos investigado a partir do seu
tado tem sido o desenvolvimento impacto sobre a gestão museológica
de novas formas de financiamento em médio e longo prazos.
(diversidade de lojas nos museus, DERIVADOS: GESTÃO DE COLEÇÕES, GESTOR.
organização de atividades paralelas,
parceiros institucionais, etc.) e par- CORRELATOS: ADMINISTRAÇÃO, AMIGOS,
AVALIAÇÃO, BLOCKBUSTERS, CONSELHO
ticularmente as questões ligadas à
ADMINISTRATIVO, DIREITO DE ENTRADA, DIRETOR,
instauração da cobrança obrigatória
ESTRATÉGIA, INDICADORES DE EFICIÊNCIA,
de entrada, até o desenvolvimento LEVANTAMENTO DE FUNDOS, MANAGEMENT, MARKETING
de exposições temporárias populares DE MUSEU, MISSÃO, MUSEU PÚBLICO/PRIVADO,
(blockbusters)42 ou a venda de partes ORGANIZAÇÃO SEM FINS LUCRATIVOS, PLANIFICAÇÃO,
do acervo. Cada vez com mais fre- PROJETO, RECURSOS HUMANOS, TRUSTEES,
43
quência, essas ações – inicialmente VOLUNTARIADO.

como temporária “massiva”, termo técnico da Comunicação que melhor deter-


mina o seu alcance em certos debates.
43 No contexto brasileiro e português, encontramos outros correlatos: , ,
, , , , ( em
Portugal), , , , à exceção de , que não tem
aplicabilidade no contexto museológico português.

48
I
INSTITUIÇÃO anglo-saxônico) demonstra que, para
além das divergências, um acordo
s. f. (do latim institutio: convenção, estabeleci-
mútuo e convencional entre os cida-
mento, disposição, arranjo) – Equivalente em
francês: institution; inglês: institution; espanhol:
dãos de uma sociedade constitui uma
institución; alemão: Institution; italiano: istitu- instituição.
zione. Este termo, uma vez que associado
De modo geral, a instituição designa ao qualitativo geral de “museal”45
uma convenção estabelecida por um (no sentido comum de “relativo ao
acordo mútuo entre os homens, e museu”), é frequentemente utilizado
logo arbitrário, mas também histo- como sinônimo de “museu”, princi-
ricamente datado. As instituições palmente para evitar a repetição do
constituem elementos diversificados termo. O conceito de instituição é,
criados pelo Homem para solucio- entretanto, central no que se refere
nar os problemas colocados pelas à problemática do museu, na qual se
necessidades naturais vividas em apresentam três acepções precisas.
sociedade (Malinowski, 1944). De 1. Existem dois níveis de ins-
modo mais específico, a instituição tituições, segundo a natureza da
designa notadamente o organismo necessidade a que satisfazem. Esta
público ou privado estabelecido necessidade pode ser biológica e pri-
pela sociedade para responder a uma meira (necessidade de se alimentar,
determinada necessidade. O museu de se reproduzir, de dormir, etc.),
é uma instituição, no sentido em ou pode ser secundária e resultante
que ele é um organismo regido por de exigências da vida em sociedade
um sistema jurídico determinado, (necessidade de organização, de
de direito público ou direito pri- defesa, de saúde, etc.). A estes dois
vado (ver os verbetes GESTÃO ou níveis correspondem dois tipos de
PÚBLICO). O fato de o museu estar instituições que são restritivas de
ligado à noção de domínio público formas diferentes: a refeição, o casa-
(a partir da Revolução Francesa) ou mento, a habitação, de um lado, o
àquela de public trust44 (no direito Estado, o exército, a escola, o hospi-

44 Optamos por manter a expressão em inglês, como consta no original em francês.


45 No Brasil é recorrente o uso de “museológico” (como instituição que pratica atividades
“museológicas”).

49
tal, de outro. Como resposta a uma distingue-se do museu concebido
necessidade social (aquela da relação como estabelecimento, lugar parti-
sensível com os objetos), o museu cular, concreto: “O estabelecimento
pertence à segunda categoria. museal é uma forma concreta de ins-
2. O ICOM definiu o museu como tituição museal” (Maroevi , 2007).
uma instituição permanente, a ser- Podemos notar que a contestação
viço da sociedade e de seu desenvol- da instituição, ou a sua negação pura
vimento. Nesse sentido, a instituição e simples (como no caso do museu
constitui um conjunto de estrutu- imaginário de Malraux [1947] ou
ras criadas pelo Homem no campo do museu fictício do artista Marcel
museal (ver esse verbete), e organi- Broodthaers), não resulta na ruptura
zadas com o fim de que este possa com o campo museal, na medida em
estabelecer uma relação sensível com que este pode ser concebido fora do
os objetos. A instituição do museu, quadro institucional (em sua acepção
criada e mantida pela sociedade, mais estrita, a expressão “museu vir-
repousa sobre um conjunto de nor- tual”, ou museu em potencial – que
mas e de regras (medidas de conser- existe na essência, mas não de fato –
vação preventiva, interdição de tocar dá conta dessas experiências museais
nos objetos ou de expor substitutos à margem da realidade institucional).
apresentados como originais, etc.), É por esta razão que na maio-
elas mesmas fundadas sobre um sis- ria dos países, e principalmente no
tema de valores: a preservação do Canadá e na Bélgica, recorre-se à
patrimônio, a exposição de obras- expressão “instituição museal” para
-primas e de espécimes únicos, a distinguir um estabelecimento que
difusão de conhecimentos científicos não apresenta o conjunto de caracte-
modernos, etc. Sublinhar o caráter rísticas de um museu clássico. “Por
institucional do museu é também, instituições museais entendemos os
portanto, reafirmar seu papel nor- estabelecimentos sem fins lucrativos,
mativo e a autoridade que ele exerce museus, centros de exposição e luga-
sobre a ciência ou as Belas Artes, por res de interpretação, que, à exceção
exemplo, ou a ideia de que ele está “a das funções de aquisição, de con-
serviço da sociedade e de seu desen- servação, de pesquisa e de gestão de
volvimento”. coleções assumidas por alguns, têm
3. Ao contrário do inglês, que não em comum o fato de serem locais de
faz distinção precisa entre os termos educação e de difusão consagrados à
“instituição” e “estabelecimento” (e arte, à história e às ciências” (Obser-
que, de maneira geral, não distingue vatoire de la Culture et des Communi-
o seu uso nos diferentes contextos cations du Québec46, 2004).
geográficos), estes não são sinôni- 4. Enfim, o termo “instituição
mos. O museu, como instituição, museal” pode ser definido, no mesmo
46 Observatório da Cultura e das Comunicações de Quebec.

50
sentido que “instituição financeira” DERIVADOS: INSTITUCIONAL, INSTITUIÇÃO
(o FMI ou o Banco Mundial), como 48
MUSEAL .
o conjunto (uma vez que se trata de
CORRELATOS: DOMÍNIO PÚBLICO,
um conceito plural) de organismos ESTABELECIMENTO, MUSEU VIRTUAL, PUBLIC TRUST.
nacionais ou internacionais ligados
às operações dos museus, tais como
o ICOM ou a antiga Direction des
Musées de France47.

47 Direção de Museus da França. Sucedida, a partir de 2009, pelo atual Service des Musées de
France (Serviço dos Museus da França), a Direction des Musées de France (DMF) era um ser-
viço de administração central do Ministério da Cultura, encarregado da aplicação da política
de museus francesa nos museus nacionais, isto é, nas instituições ligadas ao Estado francês.
48 No Brasil, e em Portugal, também . Mantivemos a tradução
direta do original, para não intervirmos no pensamento dos autores sobre o uso do termo
“museal”.

51
MEDIAÇÃO
M dito de outro modo, uma relação de
apropriação.
s. f. (século XV, do latim mediatio: media-
ção, entremeio) – Equivalente em francês:
1. A noção de mediação aplica-
médiation; inglês: mediation, interpretation; -se em diferentes planos: sobre o
espanhol: mediación; alemão: Vermittlung; ita- plano filosófico, ela serviu a Hegel
liano: mediazione. e a seus discípulos para descrever o
A mediação designa a ação de recon- movimento mesmo da história. Com
ciliar ou colocar em acordo duas efeito, a dialética, a força motora
ou várias partes, isto é, no quadro da história, avança por mediações
museológico, o público do museu sucessivas; uma situação primeira (a
com aquilo que lhe é dado a ver; tese) deve passar pela mediação de
sinônimo possível: intercessão49. seu contrário (a antítese) para pro-
Etimologicamente, encontraremos gredir em direção a um novo estado
no termo “mediação” a raiz med, (a síntese), que retém em si alguma
que significa “meio”, raiz que pode coisa dos dois momentos entrecruza-
ser lida em diferentes línguas (no dos que a precederam.
inglês middle, no espanhol médio, no O conceito geral de mediação
alemão mitte), e lembra que a media- serve também para se pensar a ins-
ção está ligada à ideia de uma posi- tituição da cultura por ela mesma,
ção mediana, a de um terceiro que como transmissão de um fundo
se coloca entre dois polos distantes comum que reúne os participan-
e que age como um intermediário. tes de uma coletividade e na qual
Se esta postura caracteriza bem os eles se reconhecem. Nesse sentido,
aspectos jurídicos da mediação, em é pela mediação de sua cultura que
que alguém negocia a fim de recon- um indivíduo percebe e compreende
ciliar adversários e de alcançar um o mundo e sua própria identidade:
modus vivendi, essa dimensão marca muitos falam então de “mediação
também o sentido que toma essa simbólica”. No campo cultural, a
noção no domínio cultural e cientí- mediação intervém sempre para
fico da museologia. Aqui também a analisar a “apresentação ao público”
mediação se coloca “entre dois”, em das ideias e produtos culturais – sua
um espaço que ela buscará reduzir, apropriação midiática – e descrever a
provocando uma aproximação ou, sua circulação no espaço social glo-

49 Intercessão no sentido de intervenção a favor de partes envolvidas.

52
bal. A esfera cultural é vista como de experiências vividas entre os visi-
uma nebulosa dinâmica em que os tantes na sociabilidade da visita, e o
produtos se integram uns com os aparecimento de referências comuns.
outros e assim se transformam. Aqui Trata-se, então, de uma estratégia de
a mediação recíproca das obras con- comunicação com caráter educativo,
duz à ideia de intermediação, de rela- que mobiliza as técnicas diversas em
ções entre mídias e de tradução pela torno das coleções expostas, para
qual uma mídia – a televisão ou o fornecer aos visitantes os meios de
cinema, por exemplo – tomam as for- melhor compreender certas dimen-
mas e as produções de outra mídia sões das coleções e de compartilhar
(um romance adaptado ao cinema). as apropriações feitas.
Essas criações alcançam os seus des- O termo toca, portanto, a algumas
tinatários por um ou por outro des- noções museológicas relacionadas, a
ses suportes variados que constituem da comunicação e da animação, e,
a sua midiatização. Nessa perspec- sobretudo, a da interpretação, esta
tiva, uma análise pode demonstrar muito presente no mundo anglo-
as numerosas mediações acionadas -saxônico, e particularmente no
por cadeias complexas de agentes contexto dos museus e sítios nor-
diferentes para garantir a presença te-americanos, e que recobre, em
de um conteúdo na esfera cultural e grande parte, a noção de mediação.
sua difusão aos numerosos públicos. Como a mediação, a interpretação
2. Na museologia, o termo “media- supõe uma lacuna, uma distância
ção”, depois de mais de um século, a ser suplantada entre aquilo que é
veio a ser utilizado com frequência, imediatamente percebido e as signi-
principalmente na França e nos paí- ficações subjacentes dos fenômenos
ses francófonos da Europa, onde se naturais, culturais e históricos. Assim
fala em “mediação cultural”, “media- como os meios de mediação, a inter-
ção científica” e “mediador”50. O pretação materializa-se com as inter-
termo designa essencialmente toda venções humanas (o interpessoal) e
uma gama de intervenções realizadas nos suportes acrescentados à sim-
no contexto museal, com o fim de ples disposição (display) dos objetos
estabelecer certos pontos de contato expostos para sugerir suas significa-
entre aquilo que é exposto (ao olhar) ções e sua importância. Nascida no
e os significados que estes objetos contexto dos parques naturais ame-
e sítios podem portar (o conheci- ricanos, a noção de interpretação
mento). A mediação busca, de certo passa, em seguida, a designar o cará-
modo, favorecer o compartilhamento ter hermenêutico das experiências de

50 No Brasil e em Portugal, o termo “mediação” também passou a aparecer com mais fre-

instituições.

53
visita a museus e sítios. Ela também MUSEAL
se define como uma revelação e um
s. m. e adj. (neologismo construído por con-
desvelar que orienta os visitantes à versão em substantivo de um adjetivo que é,
compreensão, depois à apreciação, ele mesmo, recente) – Equivalente em francês:
e enfim à proteção dos patrimônios muséal; inglês: museal; espanhol: museal; ale-
que ela toma como objeto. mão: Musealität (s. f.), museal (adj.); italiano:
museale.
Conclui-se que a mediação com-
preende uma noção central na Sendo considerada como adjetivo
perspectiva de uma filosofia herme- ou como substantivo, a palavra apre-
nêutica e reflexiva (Paul Ricœur, senta duas acepções: (1) O adjetivo
[1986, 1995]51): ela desempenha um “museal” serve para qualificar tudo
papel fundamental no projeto de aquilo que é relativo ao museu,
compreensão de si em cada visitante fazendo a distinção entre outros
– compreensão que o museu facilita. domínios (por exemplo: “o mundo
Com efeito, pela mediação dá-se o museal” para designar o mundo dos
encontro com as obras produzidas museus); (2) Como substantivo, “o
por outros humanos, o que permite museal” designa o campo de refe-
que se atinja uma subjetividade tal rência no qual se desenvolvem não
que promova autoconhecimento e apenas a criação, a realização e o fun-
a compreensão da própria aventura cionamento da instituição “museu”,
humana que cada um vive. Tal abor- mas também a reflexão sobre seus
dagem faz do museu detentor de tes- fundamentos e questões. Esse campo
temunhos e signos da humanidade, de referência se caracteriza pela
um dos lugares por excelência dessa especificidade de sua abordagem e
mediação inevitável que, ao oferecer determina um ponto de vista sobre a
um contato com o mundo das obras realidade (considerar uma coisa sob
da cultura, conduz cada um pelo o ângulo museal é, por exemplo, per-
caminho de uma maior compreensão guntar se é possível conservá-la para
de si e da realidade por inteiro. expô-la a um público). A museolo-
gia pode, assim, ser definida como o
DERIVADOS: MEDIADOR, MIDIATIZAÇÃO, conjunto de tentativas de teorização
MIDIATIZAR. ou de reflexão crítica sobre o campo
CORRELATOS: ANIMAÇÃO, EDUCAÇÃO, museal, ou ainda como a ética ou a
EXPERIÊNCIA DE VISITA, INTERPRETAÇÃO, PÚBLICOS, filosofia do museal.
52
VULGARIZAÇÃO. 1. Sublinharemos agora a impor-
tância do gênero masculino, pois a
denominação dos diferentes campos
51 Referências obtidas no Dictionnaire encyclopédique de muséologie (Paris: Armand Colin),
2011: . , II, Paris, Éditions du Seuil, 1986.
Ricoeur, P. , Paris, Éditions Esprit, 1995.
52 No Brasil e em Portugal, são correlatos e , imprimindo um
sentido crítico que buscamos nos processos de educação em museus.

54
(aos quais pertence o campo museal) nologias), um problema sanitário
distingue-se, tanto no francês quanto (quanto aos riscos à biosfera), um
no português, pelo artigo definido problema político (questões ecológi-
masculino, precedendo um adjetivo cas), etc., mas também um problema
substantivado (ex.: o político, o reli- museal: alguns museus de sociedade
gioso, o social, subentendido como decidiram expor os riscos e as ques-
o domínio político, o domínio reli- tões dos OGM.
gioso, etc.), por oposição às práticas 3. Essa posição do museal como
empíricas que se referem mais comu- campo teórico de referência alarga
mente a um substantivo (e, logo, consideravelmente as perspectivas
diríamos a religião, a vida social, a de reflexão, pois o museu institu-
economia, etc.). É possível, ainda, cional aparece somente como uma
recorrer ao mesmo termo, utilizando ilustração ou uma exemplificação do
o artigo definido feminino (como em campo (Stránský, 1987). Isso aponta
a política). Sendo assim, o campo para duas consequências: (1) não é o
de exercício do museu, compreen- museu que suscitou o aparecimento
dido como uma relação específica do da museologia, mas foi a museologia
homem com a realidade, será desig- que fundou propriamente o museu
nado como o museal. (revolução copernicana53); (2) esta
2. O museal designa uma “rela- acepção permite compreender como
ção específica com a realidade” as experiências que escapam às
(Stránský, 1987; Gregorová, 1980). características tradicionais do museu
Ele ocupa a mesma posição que o (coleções, prédio, instituição) fazem
político e tem o mesmo sentido que o parte do mesmo problema, e torna
social, o religioso, o escolar, o demo- possível que se aceitem os museus
gráfico, o econômico, o biológico, sem coleções, os museus “extramu-
etc. Trata-se, em cada caso, de um ros”, as cidades-museus (Quatremère
plano ou de um campo original sobre de Quincy, 1796), os ecomuseus ou
o qual serão colocados problemas a ainda os museus virtuais.
serem respondidos pelos conceitos. 4. A especificidade do campo
Assim, um mesmo fenômeno poderá museal ou, em outras palavras, aquilo
se encontrar no ponto de cruzamento que caracteriza a sua irredutibilidade
entre diferentes campos ou, falando- em relação aos outros campos vizi-
-se em termos da análise estatística nhos, consiste em dois aspectos: (1)
multidimensional, ele se projetará A apresentação sensível, que distin-
sobre diversos planos heterogêneos. gue o museal do textual gerado pela
Por exemplo, os OGM (organismos biblioteca, que oferece uma docu-
geneticamente modificados) serão mentação transmitida pelo suporte
considerados simultaneamente um escrito (e principalmente impresso: o
problema técnico (para as biotec- livro) e requer não somente o conhe-
53 Coperniciana, em Portugal.

55
cimento de uma língua mas, igual- ao contrário, para teorizar a maneira
mente, o domínio da leitura, o que pela qual uma instituição cria, pela
conduz a uma experiência ao mesmo separação e descontextualização,
tempo mais abstrata e mais teórica. ou pela produção de imagens, um
O museu, por sua vez, não reivin- espaço de apresentação sensível, “à
dica nenhuma dessas aptidões, pois margem de toda a realidade” (Sar-
a documentação que ele apresenta é tre), o que é próprio de uma utopia,
principalmente sensível, isto é, per- ou seja, um espaço totalmente ima-
ceptível pela visão e pela audição, e ginário, simbólico, mas não neces-
mais raramente pelos outros três sen- sariamente imaterial. Esse segundo
tidos – o tato, o gosto e o odor. Tal ponto caracteriza aquilo que pode-
distinção permite a um analfabeto ou mos chamar de função utópica do
mesmo a uma criança retirar sempre museu, já que, por poder transfor-
algum fruto de uma visita ao museu, mar o mundo, precisa ser capaz de
ainda que sejam incapazes de explo- imaginar algo diferente, isto é, pre-
rar os recursos de uma biblioteca. cisa ser capaz de se distanciar dele,
Essa constatação explica, ainda, as razão pela qual a ficção da utopia não
experiências de visitas adaptadas aos é necessariamente uma falha ou uma
cegos, que utilizam os seus outros deficiência.
sentidos (a audição e principalmente DERIVADOS: MUSEALIA, MUSEALIDADE,
o tato) para descobrir os aspectos MUSEALIZAÇÃO.
55
sensíveis do que está exposto. Um
quadro ou uma escultura são feitos CORRELATOS: APREENSÃO SENSÍVEL,
APRESENTAÇÃO SENSÍVEL, CAMPO, MUSEOLOGIA,
para serem vistos em primeiro lugar, MUSEU, REALIDADE, RELAÇÃO ESPECÍFICA.
e a referência ao texto (a leitura de
um painel, quando disponível) se
dá posteriormente e não é, de fato, MUSEALIZAÇÃO
indispensável. Falamos, então, sobre
o museu de “função documental s. f. – Equivalente em francês: muséalisa-
sensível” (Deloche, 2007). (2) A tion; inglês: musealisation; espanhol: muse-
marginalização da realidade, pois “o alisación; alemão: Musealisierung; italiano:
musealizazione.
museu especifica-se separando-se”
(Lebensztejn, 198154). Diferente- Segundo o sentido comum, a musea-
mente do campo político, em que é lização designa o tornar-se museu ou,
possível teorizar sobre a gestão da de maneira mais geral, a transforma-
vida concreta dos homens em socie- ção de um centro de vida, que pode
dade pela mediação das instituições, ser um centro de atividade humana
tais como o Estado, o museal serve, ou um sítio natural, em algum tipo
54 Referências obtidas no Dictionnaire encyclopédique de muséologie (Paris: Armand Colin),
2011: , Zig zag, Paris, Flammarion, 1981.
55 No Brasil e em Portugal, também é um derivado.

56
de museu. A expressão “patrimo- do seu meio, e uma fonte de estudo e
nialização” descreve melhor, sem de exibição, adquirindo, assim, uma
dúvida, este princípio, que repousa realidade cultural específica.
essencialmente sobre a ideia de pre- Foi a constatação dessa mudança
servação de um objeto ou de um de natureza que conduziu Stránský,
lugar, mas que não se aplica ao con- em 1970, a propor o termo musealia
junto do processo museológico. O (ver OBJETO [DE MUSEU] OU
neologismo “museificação” traduz MUSEALIA) para designar as coisas
a ideia pejorativa da “petrificação” que passam pela operação de musea-
(ou mumificação) de um lugar vivo, lização e que podem, assim, possuir o
que pode resultar de um processo e estatuto de objetos de museu.
que encontramos em diversas críti- A musealização começa com uma
cas ligadas à ideia de “musealização etapa de separação (Malraux, 1951)
do mundo”. De um ponto de vista ou de suspensão (Déotte, 1986): os
mais estritamente museológico, a objetos ou as coisas (objetos autên-
musealização é a operação de extra- ticos) são separados de seu contexto
ção, física e conceitual, de uma coisa de origem para serem estudados
de seu meio natural ou cultural de como documentos representativos
origem, conferindo a ela um estatuto da realidade que eles constituíam.
museal – isto é, transformando-a Um objeto de museu não é mais
em musealium ou musealia, em um um objeto destinado a ser utilizado
“objeto de museu” que se integre no ou trocado, mas transmite um teste-
campo museal. munho autêntico sobre a realidade.
O processo de musealização não Essa remoção (Desvallées, 1998)
consiste meramente na transferência da realidade já constitui em si uma
de um objeto para os limites físicos primeira forma de substituição. Um
de um museu, como explica Zbyn k objeto separado do contexto do qual
Stránský [1995]. Um objeto de foi retirado não é nada além de um
museu não é somente um objeto em substituto dessa realidade que ele
um museu. Por meio da mudança de deve testemunhar. Essa transferên-
contexto e do processo de seleção, cia, por meio da separação que ela
de “thesaurização” e de apresenta- opera com o meio de origem, leva
ção, opera-se uma mudança do esta- necessariamente a uma perda de
tuto do objeto. Seja este um objeto informações que se verifica, talvez
de culto, um objeto utilitário ou de de maneira mais explícita, nas esca-
deleite, animal ou vegetal, ou mesmo vações arqueológicas clandestinas,
algo que não seja claramente conce- uma vez que o contexto do qual os
bido como objeto, uma vez dentro objetos são retirados é totalmente
do museu, assume o papel de evidên- evacuado56. É por esta razão que a
cia material ou imaterial do homem e musealização, como processo cientí-

56 Em Portugal, esvaziado.

57
fico, compreende necessariamente o fica condiciona o estudo objetivo e
conjunto das atividades do museu: recorrente da coisa conceitualizada
um trabalho de preservação (sele- como objeto, para além da aura que
ção, aquisição, gestão, conservação), lhe permeia para lhe dar sentido.
de pesquisa (e, portanto, de catalo- Não se trata de contemplar, mas de
gação) e de comunicação (por meio ver: o museu científico não apresenta
da exposição, das publicações, etc.) somente os objetos belos, mas con-
ou, segundo outro ponto de vista, vida à compreensão dos seus senti-
das atividades ligadas à seleção, à dos. O ato da musealização desvia
indexação e à apresentação daquilo o museu da perspectiva do templo
que se tornou musealia. O trabalho para inscrevê-lo em um processo que
da musealização leva à produção de o aproxima do laboratório.
uma imagem que é um substituto da CORRELATOS: APRESENTAÇÃO, COMUNICAÇÃO,
realidade a partir da qual os objetos MUSEALIA, MUSEALIDADE, OBJETO DE MUSEU, OBJETO-
foram selecionados. Esse substituto DOCUMENTO, PESQUISA, PRESERVAÇÃO, RELÍQUIA,
complexo, ou modelo da realidade SELEÇÃO, SEPARAÇÃO, SUSPENSÃO, THESAURUS.
construído no seio do museu, cons-
titui a musealidade, como um valor
específico que emana das coisas MUSEOGR AFIA
musealizadas. A musealização pro- s. f. (derivado do latim museographia) – Equi-
duz a musealidade, valor documental valente em francês: muséographie; inglês:
da realidade, mas que não constitui, museography, museum practice; espanhol:
com efeito, a realidade ela mesma. museografía; alemão: Museographie; italiano:
A musealização ultrapassa a lógica
única da coleção para estar ins- O termo “museografia”, que apare-
crita em uma tradição que repousa ceu pela primeira vez no século XVIII
essencialmente sobre a evolução da (Neickel, 1727), é mais antigo que o
racionalidade, ligada à invenção das termo “museologia”. Ele se apresenta
ciências modernas. O objeto porta- em três acepções específicas.
dor de informação, ou objeto-docu- 1. Atualmente, a museografia é
mento musealizado, inscreve-se no definida como a figura prática ou
coração da atividade científica do aplicada da museologia, isto é, o
museu. Esta é desenvolvida, desde conjunto de técnicas desenvolvidas
o Renascimento, como atividade para preencher as funções museais, e
que visa a explorar a realidade por particularmente aquilo que concerne
meio da percepção sensorial, pela à administração do museu, à conser-
experiência e pelo estudo de seus vação, à restauração, à segurança e à
fragmentos. Essa perspectiva cientí- exposição57. A palavra em si foi, por
57 Em se tratando de uma descrição atual, colocaríamos de outra forma: aquilo que concerne à
administração do museu, à salvaguarda (conservação preventiva, restauração e documen-
tação) e à comunicação (exposição e educação).

58
muito tempo, utilizada em concor- grafia se limite aos aspectos visíveis
rência com o termo “museologia”, do museu. O muséographe59, como
para designar as ações, intelectuais profissional de museu, leva em conta
ou práticas, da responsabilidade as exigências do programa científico
do museu. O termo é regularmente e de gestão das coleções, e busca uma
empregado no mundo francófono, apresentação adequada dos objetos
mas raramente nos países anglo- selecionados pelo conservador. Ele
-americanos, onde a expressão conhece os métodos de conserva-
museum practice é preferida. Muitos ção ou de inventário dos objetos de
museólogos do Ocidente utilizaram, museu. Ele participa da cenografia
por sua vez, o conceito de museolo- a partir dos conteúdos, propondo
gia aplicada para se referir à aplica- uma construção discursiva que inclui
ção prática dos resultados obtidos as mediações complementares que
pela museologia, como ciência em possam auxiliar a compreensão,
formação. além de se preocupar com as exi-
2. A palavra “museografia”, gências dos públicos, mobilizando
em português (assim como técnicas de comunicação adaptadas à
muséographie, no francês), tende boa recepção das mensagens. O seu
a ser usada, com frequência, para papel como chefe ou encarregado de
designar a arte da exposição58. um projeto é, sobretudo, o de coor-
Durante alguns anos, na França, o denar o conjunto das competências
termo expographie (expografia) foi (científicas e técnicas), trabalhando
proposto para designar as técnicas no seio do museu para organizá-las
ligadas às exposições, estejam elas e, por vezes, confrontá-las e arbi-
situadas dentro de um museu ou em trá-las. Outras funções específicas
espaços não museais. De maneira foram criadas para realizar tais tare-
mais geral, aquilo que intitulamos de fas60: a gestão de acervos é muitas
“programa museográfico” engloba vezes conferida aos especialistas em
a definição dos conteúdos da expo- documentação, o chefe de segurança
sição e os seus imperativos, assim é responsável pela segurança e super-
como o conjunto de relações funcio- visão dos espaços, o responsável pela
nais entre os espaços de exposição conservação é o especialista na con-
e os outros espaços do museu. Essa servação preventiva e nas medidas
definição não implica que a museo- de conservação reparadora61 e de

59 Não há termo correspondente no Brasil. No contexto do texto original, o uso mais ade-
quado nos parece ser “museólogo”, embora acreditemos que caibam outros especialistas
na museografia. Com referência ao termo muséographe, ver também nota em ,
e .
60 Outras ações são cabíveis, como a do educador.
61 Em Portugal, conservação curativa.

59
restauração. É neste contexto, e em conservateur liderando o projeto. O
inter-relação com diferentes depar- desenvolvimento do papel de alguns
tamentos, que o muséographe62 se especialistas dentro dos museus
preocupa particularmente com a (arquitetos, artistas, curadores, etc.)
exposição. A museografia63 distin- levou a um refinamento do papel do
gue-se da cenografia, aqui entendida muséographe como intermediário.
como o conjunto de técnicas de orga- 3. Antigamente, e por sua etimo-
nização do espaço expositivo, assim logia, a museografia designava o
como se distingue da arquitetura de conteúdo de um museu. Do mesmo
interiores. Há traços da cenografia e modo que a bibliografia se constitui
da arquitetura na museografia, o que numa das etapas fundamentais da
aproxima o museu de outros métodos pesquisa científica, a museografia foi
de visualização, mas outros elemen- concebida para facilitar a pesquisa
tos também devem ser considera- das fontes documentais de obje-
dos no caso dos museus, tais como tos, com o fim de desenvolver o seu
o conhecimento sobre o público, a estudo sistemático. Essa acepção,
sua apreensão intelectual e a preser- que permaneceu ao longo de todo
vação do patrimônio. Esses aspectos o século XIX, persiste ainda em
fazem dos muséographes (ou expo- algumas línguas, particularmente na
graphes64) os intermediários entre russa.
os conservateurs65, os arquitetos e o DERIVADOS: MUSÉOGRAPHE67, MUSEOGRÁFICO.
público66. Esses papéis variam, no
entanto, e dependem de o museu ou CORRELATOS: ARQUITETURA DE INTERIORES,
CENOGRAFIA, DESIGN DE EXPOSIÇÃO, EXPOGRAFIA,
o espaço da exposição ter ou não um FUNÇÕES MUSEAIS, ORGANIZAÇÃO DO ESPAÇO.
68

62 Pela descrição apresentada, o uso do termo “museólogo” seria apropriado, devido ao cará-
-

64 Não há um correspondente a esta função no Brasil. Ver também verbetes e


.
65 Mantemos o termo conservateur -
nal. Embora na tradução inglesa encontremos curator, o termo mais ajustado seria “pesqui-
sador de coleção”. No entanto, em Portugal existe o termo “conservador”, sendo aplicado

notas em e .
66 Há nesta descrição uma concepção de exposição e um método centralizado no pesquisador
de coleção. Considerando outras concepções, a tradução para “curador” torna-se difícil e
mesmo imprecisa. Sobre “ ”, termo não utilizado no Brasil, ver em .
67 No Brasil, .
68 Outros correlatos para o verbete: , , .

60
MUSEOLOGIA toda profissão museal (como no caso
de Quebec), e, em particular, aos
s. f. – Equivalente em francês: muséologie;
consultores responsáveis por esta-
inglês: museology, museum studies; espa-
nhol: museología; alemão: Museologie,
belecer um projeto de museu ou por
Museumswissenschaft, Museumskunde; ita- realizar uma exposição. Essa acep-
liano: museologia. ção não é privilegiada na França, por
exemplo70.
Etimologicamente, a museologia é “o
estudo do museu” e não a sua prática 2. A segunda acepção do termo
– que remete à “museografia” –, mas é geralmente utilizada em grande
tanto o termo, confirmado nesse sen- parte do meio universitário ociden-
tido amplo ao longo dos anos 1950, tal e aproxima-se da etimologia do
como o seu derivado “museológico” termo que remete ao “estudo do
– sobretudo em sua tradução literal museu”. As definições mais corren-
em inglês (museology e seu derivado temente utilizadas se aproximam
museological) – apresentam cinco daquela que foi proposta por Geor-
acepções bem distintas. ges Henri Rivière: “Museologia: uma
ciência aplicada, a ciência do museu.
1. A primeira acepção, e a mais Ela o estuda em sua história e no seu
disseminada, visa a aplicar, muito papel na sociedade, nas suas formas
amplamente, o termo “museologia” específicas de pesquisa e de conser-
a tudo aquilo que toca ao museu e vação física, de apresentação, de ani-
que remete, geralmente, no dicio- mação e de difusão, de organização
nário, ao termo “museal”. Pode- e de funcionamento, de arquitetura
mos, assim, falar em departamentos nova ou musealizada, nos sítios her-
museológicos de uma biblioteca dados ou escolhidos, na tipologia,
(a reserva técnica ou os gabinetes na deontologia” (Rivière, 1981). A
de numismática), e ainda de ques- museologia opõe-se, de certo modo, à
tões museológicas (relativas ao museografia, que designa o conjunto
museu), etc. É, com frequência, essa de práticas ligadas à museologia. Os
a acepção que se adota nos países meios anglo-americanos, geralmente
anglo-saxônicos e, igualmente, por reticentes face à invenção de novas
influência, em alguns países latino- “ciências”, costumam privilegiar a
-americanos. Assim, nos países onde expressão museum studies, particu-
não existe a profissão específica reco- larmente usada na Grã-Bretanha,
nhecida – ao contrário do que se tem onde o termo museology é, ainda
na França69 com os conservateurs, atualmente, pouco empregado. É
e no Brasil com os museólogos – o indispensável ressaltar que, de modo
termo “museólogo” pode se aplicar a geral, apesar de o termo ter sido

69 Assim como em Portugal.

graduação, é reconhecida e regulamentada.

61
cada vez mais usado no mundo a mente criticada (a vontade de impor
partir dos anos 1950, ele permanece a museologia como ciência e de
sendo muito pouco utilizado por cobrir todo o campo do patrimônio
aqueles que vivem o museu em seu aparece, a muitos, como pretensiosa),
“cotidiano”, permanecendo seu uso não é menos fecunda que os questio-
marginalizado àqueles que veem o namentos que ela pressupõe. Assim,
museu do exterior. Essa acepção, decorre dessa perspectiva a noção de
muito disseminada entre os profis- que o objeto de estudo da museolo-
sionais, passa a ser progressivamente gia não pode ser o museu, sendo ele
imposta a partir dos anos 1960 nos uma criação relativamente recente na
países latinos, suplantando o termo história da humanidade. Foi a partir
“museografia”. desta constatação que foi progres-
3. A partir dos anos 1960, nos sivamente definido o conceito de
países do Ocidente, a museolo- “relação específica do homem com
gia passou a ser progressivamente a realidade”, por vezes designada
considerada como um verdadeiro como “musealidade” (Waidacher,
campo científico de investigação 1996). Assim, podemos definir, sob
do real (uma ciência em formação) a perspectiva lançada inicialmente
e como disciplina independente. pela escola de Brno, em si preponde-
Essa perspectiva, que influenciou rante, que a museologia, como “uma
amplamente o ICOFOM nos anos ciência que examina a relação espe-
1980-1990, apresenta a museologia cífica do homem com a realidade,
como o estudo de uma relação espe- consiste na coleção e na conservação,
cífica entre o homem e a realidade, consciente e sistemática, e na utili-
estudo no qual o museu, fenômeno zação científica, cultural e educativa
determinado no tempo, constitui-se de objetos inanimados, materiais e
numa das materializações possíveis. móveis (sobretudo tridimensionais)
“A museologia é uma disciplina cien- que documentam o desenvolvimento
tífica independente, específica, cujo da natureza e da sociedade” (Gre-
objeto de estudo é uma atitude espe- gorová, 1980). De qualquer modo,
cífica do Homem sobre a realidade, a assimilação da museologia a uma
expressão dos sistemas mnemônicos, ciência – ainda em formação – foi
que se concretiza por diferentes for- progressivamente abandonada, na
mas museais ao longo da história. medida em que nem o seu objeto e
A museologia tem a natureza de nem os seus métodos respondem
uma ciência social, proveniente das verdadeiramente aos critérios episte-
disciplinas científicas documentais mológicos de uma abordagem cientí-
e mnemônicas, e ela contribui à fica específica.
compreensão do homem no seio da 4. A nova museologia influenciou
sociedade” (Stránský, 1980). Essa amplamente a museologia dos anos
abordagem particular, voluntaria- 1980, reunindo primeiro alguns

62
teóricos franceses e, a partir de como a documentação do real pela
1984, difundindo-se internacional- apreensão sensível direta. Tal defi-
mente. Este movimento ideológico nição não rejeita, a priori, qualquer
– baseado num número de precurso- forma de museu, desde as mais
res que, a partir de 1970, publicaram antigas (Quiccheberg) até as mais
textos inovadores – enfatizou a voca- recentes (museus virtuais), uma vez
ção social dos museus e seu caráter que ela tende a se interessar por um
interdisciplinar, ao mesmo tempo domínio voluntariamente aberto a
que chamou a atenção para modos qualquer experiência sobre o campo
de expressão e de comunicação museal. Ela não se restringe, ainda, a
renovados. O seu interesse estava qualquer um daqueles que reivindi-
principalmente nos novos tipos de cam o título de museólogo. Convém
museus concebidos em oposição ao enfatizar, com efeito, que certos pro-
modelo clássico e à posição central tagonistas fizeram desse campo o seu
que ocupavam as coleções nesses domínio de predileção, ao ponto de
últimos: tratava-se dos ecomuseus, se apresentarem como museólogos;
dos museus de sociedade, dos cen- outros, ligados a suas disciplinas
tros de cultura científica e técnica e, de referência e abordando apenas
de maneira geral, da maior parte das pontualmente o domínio museal,
novas proposições que visavam à uti- preferem manter certa distância dos
lização do patrimônio em benefício “museólogos”, exercendo ou tendo
do desenvolvimento local. O termo exercido uma influência funda-
em inglês New Museology, que apa- mental no seio do desenvolvimento
receu no final dos anos 1980 (Vergo, desse campo de estudos (Bourdieu,
1989) e se apresenta como um dis- Baudrillard, Dagognet, Debray, Fou-
curso crítico sobre o papel social e cault, Haskell, McLuhan, Nora ou
político dos museus, gerou certa con- Pomian). As linhas diretrizes de um
fusão na difusão do vocábulo francês mapeamento para o campo museal
(pouco conhecido do público anglo- podem ser traçadas em duas dire-
-saxônico). ções diferentes, seja pela referência
5. Enfim, a museologia, segundo às principais funções inerentes ao
uma quinta acepção aqui privile- campo (documentação, indexação,
giada por englobar todas as outras, apresentação ou ainda preservação,
inclui um campo muito vasto que pesquisa, comunicação), seja consi-
compreende o conjunto de tentativas derando as diferentes disciplinas que
de teorização ou de reflexão crítica o exploram mais ou menos pontual-
ligadas ao campo museal. O deno- mente.
minador comum desse campo pode- É nessa última perspectiva que
ria, em outros termos, ser designado Bernard Deloche sugeriu definir
por uma relação específica entre o a museologia como a filosofia do
homem e a realidade, caracterizada museal: “A museologia é uma filo-

63
sofia do museal, investida de duas permanente, sem fins lucrativos, a
funções: (1) Serve de metateoria à serviço da sociedade e do seu desen-
ciência documental intuitiva con- volvimento, aberta ao público, que
creta; (2) É também uma ética adquire, conserva, estuda, expõe e
reguladora de toda instituição encar- transmite o patrimônio material e
regada de gerar a função documental imaterial da humanidade e do seu
intuitiva concreta” (Deloche, 2001). meio, com fins de estudo, educação
e deleite”. Essa definição substitui,
DERIVADOS: MUSEOLÓGICO, MUSEÓLOGO.
então, aquela que serviu de referên-
CORRELATOS: MUSEAL, MUSEALIA, MUSEALIZAR, cia ao mesmo Conselho durante mais
MUSEALIDADE, MUSEALIZAÇÃO, MUSEIFICAR (TERMO de trinta anos: “o museu é uma insti-
PEJORATIVO), MUSEOGRAFIA, MUSEU, OBJETO DE
tuição permanente, sem fins lucrati-
MUSEU, REALIDADE.
vos, a serviço da sociedade e do seu
desenvolvimento, aberta ao público,
e que realiza pesquisas sobre os tes-
MUSEU temunhos materiais do homem e
s. m. (do grego mouseion: templo das musas) seu meio, que ele adquire, conserva,
– Equivalente em francês: musée; inglês: investiga, comunica e expõe, com
museum; espanhol: museo; alemão: Museum; fins de estudo, educação e deleite”
italiano: museo. (Estatutos de 1974).
O termo “museu” tanto pode desig- As diferenças entre as duas defi-
nar a instituição quanto o estabe- nições, pouco significativas a priori
lecimento, ou o lugar geralmente – uma referência ao patrimônio ima-
concebido para realizar a seleção, terial e algumas mudanças na estru-
o estudo e a apresentação de teste- tura –, testemunham, por um lado,
munhos materiais e imateriais do a preponderância da lógica anglo-
Homem e do seu meio. A forma e as americana no seio do ICOM, e, por
funções do museu variaram sensivel- outro, um papel menos importante
mente ao longo dos séculos. Seu con- conferido à pesquisa no seio da insti-
teúdo diversificou-se, tanto quanto a tuição. A definição de 1974 foi, desde
sua missão, seu modo de funciona- a sua origem, objeto de uma tradução
mento ou sua administração. um tanto livre, em inglês, refletindo
1. A maioria dos países definiu o melhor a lógica anglo-americana das
museu, pelos textos legislativos ou funções do museu, ou seja, aquela da
por meio de suas organizações nacio- transmissão do patrimônio. A língua
nais, de formas variadas. A definição de trabalho mais difundida nos con-
profissional de museu mais conhecida selhos do ICOM, como também na
atualmente continua sendo a que se maior parte das organizações inter-
encontra nos estatutos do Conselho nacionais, é o inglês, e é com base na
Internacional de Museus (ICOM), tradução inglesa que se desenvolvem
de 2007: “o museu é uma instituição os trabalhos que visam à concepção

64
de uma nova definição. A estrutura ICOM é analisada, neste sentido,
particular da definição francesa de como fortemente marcada por sua
1974 enfatizava a função da pes- época e seu contexto ocidental, mas
quisa, presente, de certo modo, também como uma definição muito
como o princípio motor da institui- normativa, visto que o seu fim é
ção. Esse princípio foi relegado, em essencialmente corporativo. Uma
2007, como uma das funções gerais definição “científica” de museu deve,
do museu. assim, distanciar-se de alguns dos
2. Para muitos museólogos, par- elementos aportados pelo ICOM,
ticularmente aqueles que de algum tais como, por exemplo, o caráter
modo foram influenciados pela não lucrativo do museu: um museu
museologia ensinada nos anos 1960- lucrativo (como o Museu Grévin,
1990 pela escola tcheca71 (Brno e em Paris, por exemplo) ainda assim
a International Summer School of é um museu, mesmo que não seja
Museology72), o museu constitui um reconhecido pelo ICOM. É possível,
meio, entre outros, pelo qual se dá assim, definir o museu, de maneira
uma “relação específica do Homem ampla e mais objetiva, como “uma
com a realidade”73, sendo esta rela- instituição museal permanente, que
ção determinada pela “coleção e a preserva as coleções de ‘documen-
conservação, consciente ou siste- tos físicos’ e produz conhecimento
mática, e [...] a utilização científica, a partir deles” (van Mensch, 1992).
cultural e educativa de objetos inani- Schärer, por sua vez, define o museu
mados, materiais, móveis (sobretudo como “um lugar em que as coisas e
tridimensionais) que documentam os valores que se ligam a elas são sal-
o desenvolvimento da natureza e vaguardados e estudados, bem como
da sociedade” (Gregorová, 1980). comunicados enquanto signos para
Antes de o museu ser definido como interpretar fatos ausentes” (Schärer,
tal, no século XVIII, segundo um 2007) ou, de maneira à primeira vista
conceito emprestado da Antiguidade tautológica, o lugar onde se realiza a
grega e a sua ressurgência durante musealização. De modo mais amplo
o Renascimento ocidental, existia ainda, o museu pode ser apreendido
em quase todas as civilizações certo como um “lugar de memória” (Nora,
número de lugares, de instituições e 1984-1987; Pinna, 2003), um “fenô-
de estabelecimentos que se aproxi- meno” (Scheiner, 2007), englobando
mavam mais ou menos diretamente as instituições, os lugares diversos
daquilo que englobamos atualmente ou os territórios, as experiências, ou
com esse vocábulo. A definição do mesmo os espaços imateriais.

71 Em Portugal, checa.
72 Escola de verão Internacional em Museologia.
73 A museóloga brasileira Waldisa Russio Camargo Guarnieri participou ativamente dessa dis-
cussão, adotando essa tendência e inclusive adequando-a.

65
3. Nessa mesma perspectiva, e cial, como uma instituição museal
ultrapassando o caráter limitado do que associa ao desenvolvimento de
museu tradicional, o museu é defi- uma comunidade a conservação, a
nido como um instrumento ou fun- apresentação e a explicação de um
ção concebida pelo Homem em uma patrimônio natural e cultural per-
perspectiva arquivística, de compre- tencente a esta mesma comunidade,
ensão e de transmissão. Podemos representativo de um modo de vida
assim, acompanhando o pensamento e de trabalho, sobre um dado terri-
de Judith Spielbauer (1987), conce- tório, bem como a pesquisa que lhe
ber o museu como um instrumento é associada. “O ecomuseu, [...] sobre
destinado a favorecer “a percepção um território, exprime as relações
da interdependência do Homem entre o homem e a natureza atra-
com os mundos natural, social e esté- vés do tempo e através do espaço
tico, oferecendo-lhe informação e desse território; ele se compõe de
experiência, e facilitando a compre- bens, de interesses científicos e cul-
ensão de si mesmo em um contexto turais reconhecidos, representativos
mais amplo”. O museu pode ainda se do patrimônio da comunidade que
apresentar como “uma função espe- serve: bens imóveis não construídos,
cífica, que pode tomar a forma ou espaços naturais selvagens, espaços
não de uma instituição, cujo objetivo naturais humanizados; bens imóveis
é garantir, por meio da experiência construídos; bens móveis; e bens
sensível, o acúmulo e a transmissão integrados. Ele compreende um
da cultura entendida como o con- centro de gestão, onde estão locali-
junto de aquisições que fazem de zadas as suas estruturas principais:
um ser geneticamente humano, um recepção, centros de pesquisa, con-
homem” (Deloche, 2007). As últi- servação, exposição, ação cultural,
mas definições englobam tanto os administração, abrangendo ainda os
museus que chamamos inapropria- seus laboratórios de campo, outros
damente de “virtuais” (e particular- órgãos de conservação, salas de reu-
mente aqueles que se apresentam nião, um ateliê sociocultural, mora-
em suporte de papel, CD-ROM e dias, etc., percursos e estações para
internet), quanto os museus institu- a observação do território que ele
cionais mais clássicos, incluindo até compreende, diferentes elementos
mesmo os museus antigos, que eram, arquitetônicos, arqueológicos, geoló-
de fato74, mais escolas filosóficas do gicos, etc., assinalados e explicados”
que coleções no sentido habitual do (Rivière, 1978).
termo. 5. Com o desenvolvimento da
4. Essa última acepção remete, informática e do mundo digital se
notadamente, aos princípios do impôs progressivamente uma noção
ecomuseu na sua concepção ini- de museu impropriamente denomi-

74 Em Portugal, de facto.

66
nado de “virtual” (ou cibermuseu Nesse sentido, o museu virtual pode
– noção mais utilizada em francês), ser concebido como o conjunto de
definido de maneira geral como museus possíveis, ou o conjunto de
“uma coleção de objetos digitaliza- soluções possíveis aplicadas às pro-
dos, articulada logicamente e com- blemáticas às quais responde, nota-
posta por diversos suportes que, por damente, o museu clássico. Assim, o
sua conectividade e seu caráter mul- museu virtual, em uma acepção que
tiacessível, permite transcender os não é a do cibermuseu, pode ser defi-
modos tradicionais de comunicação nido como um “conceito que designa
e de interação com o visitante [...]; globalmente o campo problemático
ele não dispõe de um lugar ou espaço do museal, isto é, os efeitos do pro-
real, e seus objetos, assim como as cesso de descontextualização/recon-
informações associadas, podem ser textualização. Tanto uma coleção
difundidos aos quatro cantos do de substitutos quanto uma base de
mundo” (Schweibenz, 2004). Essa dados informatizada constituem um
definição, provavelmente derivada museu virtual. Trata-se do museu em
da noção relativamente recente de seus teatros de operações exteriores”
memória virtual dos computadores, (Deloche, 2001). O museu virtual,
aparece, de certa maneira, como um ao se constituir como uma gama de
contrassenso. Convém lembrar que soluções possíveis para a questão do
o “virtual” não se opõe ao “real”, museu, inclui naturalmente o ciber-
como tendemos a crer de imediato, museu, mas, nessa perspectiva, não
mas ao “atual”. Um ovo é uma gali- se reduz a ele.
nha virtual; ele é programado para DERIVADO: MUSEU VIRTUAL.75
ser galinha e deverá sê-la se nada
se opuser ao seu desenvolvimento. CORRELATOS: COLEÇÕES PRIVADAS, CIBERMUSEU,
EXPOSIÇÃO, INSTITUIÇÃO, MUSEAL, MUSEALIA,
MUSEALIDADE, MUSEALIZAÇÃO, MUSEALIZAR,
MUSEIFICAÇÃO, MUSEOGRAFIA, MUSEOLOGIA,
MUSEOLÓGICO, MUSEÓLOGO, NOVA MUSEOLOGIA,
REALIDADE.

75 Acrescentaríamos, no âmbito brasileiro e português, os derivados , -


, , , .

67
OBJETO [DE MUSEU] OU
MUSEALIA
O ou de “utensilidade”77 (ex.: a ferra-
menta como prolongamento da mão
é uma coisa e não um objeto).
s. m. (do latim : jogar em) – Equiva-
lente em francês: ; inglês: ; espanhol: Um “objeto de museu” é uma
; alemão: ; italiano: coisa musealizada, sendo “coisa”
oggetto. definida como qualquer tipo de rea-
lidade em geral. A expressão “objeto
O termo “objeto de museu” é, por
de museu” quase poderia passar por
vezes, substituído pelo neologismo
pleonasmo, na medida em que o
musealia (pouco utilizado), cons-
museu é não apenas um local desti-
truído a partir do latim, com plural
nado a abrigar objetos, mas também
neutro: as musealia. Equivalente em
um local cuja função principal é a de
inglês: musealia, museum object; fran-
transformar as coisas em objetos.
cês: muséalie; espanhol: musealia;
alemão: Musealie, Museumsobjekt; 1. O objeto não é, em nenhum
italiano: musealia.76 caso, uma realidade bruta ou um
simples item cuja coleta é suficiente
Em sentido filosófico mais ele- para sua entrada no museu, assim
mentar, o objeto não é uma realidade como, por exemplo, se coletam78
em si mesmo, mas um produto, um conchas numa praia. O objeto é um
resultado ou um correlato. Dito de estatuto ontológico que vai englobar,
outra maneira, ele designa aquilo em certas circunstâncias, uma coisa
que é colocado ou jogado (ob-jectum, ou outra, estando entendido que a
Gegen-stand) em face de um sujeito, mesma coisa, em outras circunstân-
que o trata como diferente de si, cias, não constituirá necessariamente
mesmo que este se tome ele mesmo um objeto. A diferença entre a coisa
como objeto. Essa distinção do e o objeto consiste no fato de que a
sujeito e do objeto é relativamente coisa tornou-se uma parte concreta
tardia e própria do Ocidente. Nesse da vida, e que nós estabelecemos
sentido, o objeto difere da coisa, com ela uma relação de simpatia ou
que , ao contrário, estabelece com o de simbiose. Isso se vê particular-
sujeito uma relação de continuidade mente no animismo das sociedades

76 No Brasil e em Portugal, usa-se musealia.


77 Em Portugal não existe este termo. O que mais se aproxima é “funcionalidade”.
78 Em Portugal, recolhem.

68
geralmente chamadas de primitivas: sequência, têm dificuldade em tratar
trata-se de uma relação de “utensi- aquilo que é vivo como tal (Bergson),
lidade”, como no caso de uma fer- pois tendem a transformá-lo em
ramenta adaptada para ter a forma objeto, o que gera, por exemplo, a
da mão. Por contraste, o objeto será dificuldade da fisiologia em relação à
sempre aquilo que o sujeito coloca anatomia. O ponto de vista museal,
em face de si como distinto de si; mesmo se este é, por vezes, colocado
ele é, logo, aquilo de que se está a serviço do desenvolvimento cientí-
“diante” e do qual é possível se dife- fico, diferencia-se pelo ato primeiro
renciar. Nesse sentido, o objeto é de expor os objetos, isto é, de mos-
abstrato e morto, pois fechado em si trá-los concretamente a um público
mesmo, como é evidenciado em uma de visitantes. O objeto do museu é
série de objetos que formam uma feito para ser mostrado, com toda
coleção (Baudrillard, 1968). Esse a variedade de conotações que lhe
estatuto do objeto é reconhecido estão intrinsecamente associadas,
hoje como um produto puramente uma vez que podemos mostrar para
ocidental (Choay, 1968; Van Lier, emocionar, distrair ou instruir. Essa
1969; Adotevi, 1971), uma vez que o operação de “mostração”, para utili-
Ocidente foi responsável por romper zar um termo mais genérico que o de
com o modo de vida tribal e por pen- “exposição”, é tão importante que
sar a lacuna entre sujeitos e objetos cria a distância, faz da coisa o objeto,
pela primeira vez (Descartes, Kant e, enquanto que no desenvolvimento
depois, McLuhan, 1969). científico a prioridade é a exigência
2. Pelo seu trabalho de aquisição, do reconhecimento das coisas em um
de pesquisa, de preservação e de contexto universalmente inteligível.
comunicação, é possível apresentar 3. Os naturalistas e os etnólogos,
o museu como uma das grandes ins- assim como os museólogos, selecio-
tâncias de “produção” de objetos, nam geralmente aquilo que eles já
isto é, de conversão das coisas que intitulam como “objetos” em função
nos rodeiam em objetos. Nessas con- de seu potencial de testemunho, ou
dições, o objeto de museu – musealia seja, pela qualidade das informações
– não apresenta uma realidade intrín- (indicadores) que eles podem trazer
seca, mesmo não sendo o museu para a reflexão dos ecossistemas ou
o único instrumento a “produzir” das culturas que se deseja preservar.
objetos. Com efeito, outros pontos “Os musealia (objetos de museu) são
de vista são “objetificáveis”, como é objetos autênticos móveis que, como
o caso, particularmente, do desen- testemunhos irrefutáveis, revelam
volvimento científico que estabelece os desenvolvimentos da natureza
normas de referência (ex.: as escalas ou da sociedade” (Schreiner, 1985).
de medidas) totalmente indepen- É a riqueza de informações que eles
dentes do sujeito e que, como con- portam que conduziu etnólogos

69
como Jean Gabus (1965) ou Georges mas que entraram na ordem do sim-
Henri Rivière (1989) a lhes atribuir bólico que lhes confere uma nova sig-
a qualificação de objetos-testemu- nificação (o que conduziu Krzysztof
nhos, que eles retêm uma vez que são Pomian a chamar esses “portadores
expostos. Georges Henri Rivière até de significado” de semióforos) e a
utilizou a expressão objeto-símbolo lhes atribuir um novo valor – que é,
para designar certos objetos-teste- primeiramente, puramente museal,
munhos, cheios de conteúdo, que mas que pode vir a possuir valor eco-
poderiam servir para sintetizar toda nômico. Tornam-se, assim, testemu-
uma cultura ou toda uma época. nhos (con)sagrados da cultura.
Essa objetivação sistemática das coi- 4. O mundo da exposição reflete
sas permite estudá-las muito mais a essas escolhas. Para os semiólogos,
fundo do que se elas permaneces- como Jean Davallon, “os musealia
sem em seus contextos de origem são considerados menos como coi-
(campo etnográfico, coleção pri- sas (do ponto de vista de sua reali-
vada ou galeria), mas também pode dade física) do que como seres de
apresentar uma tendência fetichista: linguagem (eles são definidos, reco-
uma máscara ritual, uma vestimenta nhecidos como dignos de serem
cerimonial, uma ferramenta de arar, conservados e apresentados) e como
etc. mudam bruscamente de status suportes de práticas sociais (eles são
ao entrarem no museu. Os artifí- coletados79, catalogados, expostos,
cios da vitrine ou dos expositores, etc.)” (Davallon, 1992). Os objetos
que servem de separadores entre o podem, então, ser utilizados como
mundo real e o mundo imaginário do signos, do mesmo modo que as pala-
museu, são responsáveis por garantir vras de um discurso, quando são
a objetividade, assegurar a distância utilizados em uma exposição. Mas
e nos assinalar que aquilo que nos os objetos não são mais do que sig-
é apresentado não pertence à vida, nos, uma vez que, meramente pela
mas ao mundo fechado dos objetos. sua presença, eles podem ser perce-
Por exemplo, não devemos nos sen- bidos diretamente pelos sentidos. É
tar sobre uma cadeira em um museu por esta razão que vem sendo recor-
de arte decorativa, o que pressupõe rentemente utilizado o termo anglo-
a distinção convencional entre a -americano real thing – traduzido
cadeira funcional e a cadeira-objeto. para o francês como vraie chose80
Os objetos no museu são desfuncio- para designar o objeto de museu
nalizados e “descontextualizados”, apresentado a partir de seu poder de
o que significa que eles não servem “presença autêntica”, isto é, “as coi-
mais ao que eram destinados antes, sas que nós apresentamos como elas

79 Em Portugal, recolhidos.
80 Coisa real, em português, embora seja recorrente o uso de “objeto autêntico”, quer no Brasil
quer em Portugal.

70
são e não como modelos, imagens expõem principalmente modelos).
ou representações de alguma outra Com efeito, a partir do momento em
coisa” (Cameron, 1968). Ela supõe, que os objetos foram considerados
por razões variadas (sentimentais, como elementos de linguagem, eles
estéticas, etc.), uma relação intuitiva permitem construir exposições-dis-
com aquilo que é exposto. O termo cursos, mas não são suficientes para
expôt81 designa os objetos autênticos sustentar tais discursos em todos
expostos, bem como todo elemento os casos. É preciso, então, imagi-
passível de ser exposto (um docu- nar outros elementos de linguagem
mento sonoro, fotográfico ou cine- de substituição. Do mesmo modo,
matográfico, um holograma, uma visto que a função da natureza do
reprodução, uma maquete, uma ins- expôt pretende substituir um objeto
talação ou um modelo conceitual82) autêntico, atribuímos a ele a qua-
(ver EXPOSIÇÃO). lidade de substituto. Este pode ser
5. Uma certa tensão opõe o objeto uma fotografia, um desenho ou um
autêntico ao seu substituto. Neste modelo de objeto autêntico. Assim,
sentido, convém destacar que, para o substituto supostamente se opõe ao
alguns, o objeto semióforo só apa- objeto “autêntico”, mas também não
rece como portador de significado se confunde totalmente, por outro
quando se apresenta por si mesmo lado, com a réplica (como os moldes
e não por um substituto. Por mais de esculturas ou cópias de pintu-
ampla que possa parecer, essa con- ras), na medida em que ele pode ser
cepção puramente realista não criado diretamente a partir de ideias
advém das origens do museu até o ou de processos e não somente pela
Renascimento (ver MUSEU), nem cópia. Segundo a forma do original e
da evolução e diversidade que alcan- segundo o uso que dele deve ser feito,
çou a museologia no século XIX. este pode ser executado com duas ou
Também não leva em conta o tra- três dimensões. A noção de autenti-
balho de certo número de museus cidade, particularmente importante
cujas atividades são essencialmente nos museus de Belas Artes (onde
semelhantes, como por exemplo na se encontram obras-primas, verda-
internet ou sobre suportes duplica- deiras ou falsas), condiciona uma
dos e, mais frequentemente, todos os grande parte das questões ligadas
museus feitos de substitutos, como ao estatuto e ao valor dos objetos de
os museus com acervos de moldes, museu. Notamos, entretanto, que
as coleções de maquetes, os museus existem museus em que as coleções
de cera ou os centros de ciência (que não são compostas de substitutos e

81 , termo sem paralelo no Brasil, por isso não traduzido. Ver também verbete
e no Dictionnaire Encyclopédique de Muséologie (Paris: Armand Colin), 2011, p. 601, André
Desvallées e François Mairesse.
82 Conceptual, em Portugal.

71
que, de uma maneira geral, a política partir de suas próprias pesquisas.
de substitutos (cópias, moldes em Mas diversos problemas se apresen-
gesso ou cera, maquetes ou supor- tam. Em primeiro lugar, os objetos
tes digitais) abre muito amplamente mudam de sentido em seu meio
o campo de exercício do museu e de origem a critério das gerações.
contribui para questionar, do ponto Em seguida, cada visitante é livre
de vista da ética museal, sobre o con- para interpretar aquilo que observa
junto de valores atuais do museu. Por em função de sua própria cultura.
outro lado, segundo uma perspectiva O resultado é um relativismo que
mais ampla, evocada acima, todo Jacques Hainard, em 1984, resumiu
objeto exposto em um museu deve em uma frase que se tornou célebre:
ser considerado como um substituto “o objeto não é a verdade de absolu-
da realidade que ele representa, pois, tamente nada. Polifuncional em pri-
como coisa musealizada, o objeto de meiro lugar, polissêmico em seguida,
museu é um substituto de uma coisa ele só adquire sentido se colocado
(Deloche, 2001). em um contexto” (Hainard, 1984).
6. No contexto museológico, CORRELATOS: ARTEFATO, AUTENTICIDADE,
sobretudo nas disciplinas arqueoló- COLEÇÃO, COISA, COISA REAL, CÓPIA, EXPÔT,
gicas e etnográficas, os especialistas ESPÉCIME, OBJETO TRANSICIONAL, OBJETO FETICHE,
estão habituados a revestir o objeto OBJETO TESTEMUNHO, OBRA DE ARTE, RELÍQUIA,
83
do sentido que eles imaginam a REPRODUÇÃO, SUBSTITUTO.

83 Como correlato no Brasil e em Portugal: .

72
P
PATRIMÔNIO heritage, distinguindo-o de legacy
(herança). Do mesmo modo, a admi-
s. m. (do latim patrimonium) – Equivalente em
nistração italiana, tendo sido uma
francês: patrimoine; inglês: heritage; espanhol:
patrimonio; alemão: ; ita-
das primeiras a conhecer o termo
liano: patrimonio. patrimonio, por muito tempo utili-
zou a expressão beni culturali (bens
A noção de patrimônio designava, culturais). A ideia de patrimônio está
no direito romano, o conjunto de irremediavelmente ligada à noção
bens reunidos pela sucessão: bens de perda ou de desaparecimento
que descendem, segundo as leis, potencial – este foi o caso a partir da
dos pais e mães aos seus filhos ou Revolução Francesa – e, igualmente,
bens de família, assim definidos em à vontade de preservação dos bens.
oposição aos bens adquiridos. Por “O patrimônio se reconhece no fato
analogia, duas formas metafóricas de que a sua perda constitui um
nasceram tardiamente: (1) Muito sacrifício e que a sua conservação
recentemente, a expressão “patri- também supõe sacrifícios” (Babelon
mônio genético”, para designar as e Chastel, 1980).
características hereditárias de um 1. A partir da Revolução Fran-
ser vivo; (2) Mais antiga, a noção cesa e durante todo o século XIX, o
de “patrimônio cultural”, que teria termo “patrimônio” passou a desig-
aparecido no século XVII (Leibniz, nar essencialmente o conjunto de
1690), antes de ser retomada pela bens imóveis, confundindo-se geral-
Revolução Francesa (Puthod de mente com a noção de monumentos
Maisonrouge, 1790; Boissy d’Anglas, históricos. O monumento, em seu
1794). O termo, entretanto, teve usos sentido original, é uma construção
diversos, mais ou menos amplos. condenada a perpetuar a lembrança
Segundo a sua etimologia, o termo, de alguém ou de alguma coisa. Aloÿs
e a noção que induz, conheceu uma Riegl distingue três categorias de
expansão maior no mundo latino a monumentos: aqueles que foram
partir de 1930 (Desvallées, 1995), concebidos deliberadamente para
enquanto o mundo anglo-saxônico “comemorar um momento preciso
por muito tempo preferiu o termo ou um acontecimento complexo
property (referente a bem), antes do passado” [monumentos inten-
de adotar, nos anos 1950, o termo cionais], “aqueles cuja escolha é

73
determinada por nossas preferências da presente Convenção, são consi-
subjetivas” [monumentos históri- derados como ‘patrimônio natural’:
cos], e, enfim, “todas as criações do – os monumentos naturais [...]; – as
homem, independentemente de sua formações geológicas e fisiográficas
significação ou de sua destinação [...]; – os sítios naturais ou as zonas
originais” [monumentos antigos] naturais [...]” (UNESCO, 1972).
(Riegl, 1903). As duas últimas cate- 2. A partir de meados dos anos
gorias irão convergir, essencialmente, 1950, a noção de patrimônio foi
segundo os princípios da história, da consideravelmente ampliada, de
história da arte e da arqueologia, na modo a integrar, progressivamente,
concepção de patrimônio imóvel. o conjunto de testemunhos materiais
Até uma data muito recente, a Dire- do homem e do seu meio. Assim, o
ção do Patrimônio, na França, cujo patrimônio folclórico, o patrimônio
objetivo principal era a preservação científico e, mais recentemente, o
de monumentos históricos, estava patrimônio industrial, foram pro-
dissociada da Direção de Museus gressivamente integrados à noção
da França. Não é raro encontrar, de patrimônio. A definição de patri-
ainda nos dias de hoje, aqueles que mônio no Quebec francófono, por
compartilham dessa diferenciação exemplo, testemunha essa tendência
que é, no mínimo, restritiva. Mesmo geral: “Pode ser considerado como
que mundialmente disseminada, patrimônio todo objeto ou conjunto,
sob a égide da UNESCO, essa é, à material ou imaterial, reconhecido
primeira vista, uma visão essencial- e apropriado coletivamente por seu
mente fundada sobre o monumento, valor de testemunho e de memória
os conjuntos monumentais e os sítios histórica e que deve ser protegido,
que são valorizados, particularmente conservado e valorizado” (Arpin,
no seio do ICOMOS, o equivalente 2000). Essa noção remete ao con-
do ICOM para monumentos his- junto de todos os bens ou valores,
tóricos. Assim, a Convenção sobre naturais ou criados pelo Homem,
a proteção do patrimônio mundial materiais ou imateriais, sem limite de
cultural e natural estipula ainda que: tempo nem de lugar, que sejam sim-
“Para os fins da presente Convenção, plesmente herdados dos ascendentes
são considerados como ‘patrimônio e ancestrais de gerações anteriores ou
cultural’: – os monumentos: obras reunidos e conservados para serem
arquiteturais, de escultura ou de pin- transmitidos aos descendentes das
tura monumentais, [...]; – os conjun- gerações futuras. O patrimônio é um
tos: grupos de construções isolados bem público cuja preservação deve
ou reunidos, [...] em razão de sua ser assegurada pelas coletividades,
arquitetura, [...]; – os sítios: obras quando não é feita por particulares.
do homem ou obras compostas pelo A inclusão das especificidades natu-
homem e a natureza [...]. Para os fins rais e culturais de caráter local con-

74
tribui à concepção e à constituição Imaterial.
de um patrimônio de caráter univer- “Entende-se por patrimônio cul-
sal. O conceito de patrimônio se dis- tural imaterial as práticas, represen-
tingue do de herança na medida em tações, expressões, conhecimentos e
que os dois termos repousam sobre saber-fazer – assim como os instru-
temporalidades sensivelmente dife- mentos, objetos, artefatos e espaços
rentes: enquanto a herança se define culturais que lhes são associados
logo após uma morte ou ao momento – que as comunidades, os grupos e,
da transmissão intergeracional, o em alguns casos, os indivíduos reco-
patrimônio designa o conjunto de nhecem como fazendo parte de seu
bens herdados dos ascendentes ou patrimônio cultural. Esse patrimô-
reunidos e conservados para serem nio cultural imaterial transmitido
transmitidos aos descendentes. De de geração em geração é recriado
certa maneira, o patrimônio se define permanentemente pelas comunida-
por uma linha de heranças. des e grupos em função de seu meio,
3. Depois de alguns anos, a noção de sua interação com a natureza e de
de patrimônio, essencialmente defi- sua história, e lhes confere um senti-
nida sobre as bases de uma concepção mento de identidade e continuidade,
ocidental da transmissão, foi ampla- contribuindo assim para promover
mente afetada pela globalização de o respeito à diversidade cultural e à
ideias, cujo testemunho é o princípio criatividade humana. Para os fins da
relativamente recente do patrimônio presente Convenção, só será levado
imaterial. Essa noção, originária dos em consideração o patrimônio cultu-
países asiáticos (notadamente do ral imaterial conforme os instrumen-
Japão e da Coreia), funda-se sobre tos internacionais existentes relativos
a ideia de que a transmissão, por aos direitos do homem, e de acordo
ser efetiva, repousa essencialmente com a exigência do respeito mútuo
sobre a intervenção humana, da qual entre comunidades, grupos e indiví-
provém a ideia de tesouro humano duos, e de um desenvolvimento sus-
vivo: “uma pessoa que tenha domi- tentável” (UNESCO, 2003).
nado a prática da música, da dança, 4. O campo mais complexo que
dos jogos, de manifestações teatrais constitui a problemática da transmis-
e de ritos de valor artístico e histó- são – o campo patrimonial – induziu,
rico excepcional em seu país, como nos últimos anos, uma reflexão mais
definidos na recomendação sobre a precisa sobre os mecanismos de cons-
salvaguarda da cultura tradicional tituição e de extensão do patrimô-
e popular” (UNESCO, 1993). Esse nio: a patrimonialização. Para além
princípio encontrou repercussão da abordagem empírica, numerosas
mundial recentemente e foi apro- pesquisas atualmente tentam analisar
vado em 2003 na Convenção para a a instituição, a fábrica do patrimô-
Salvaguarda do Patrimônio Cultural nio, como a resultante de interven-

75
ções e de estratégias enfocando a mais potente que o homem inven-
marcação e a sinalização (enquadra- tou é o conceito, instrumento do
mento). A ideia de patrimonialização desenvolvimento do pensamento,
impõe-se também à compreensão do que dificilmente pode ser colocado
estatuto social daquilo que é o patri- em uma vitrine. O patrimônio cultu-
mônio, assim como alguns autores ral, compreendido como a soma dos
se referem à ideia de “artificação” testemunhos comuns à humanidade,
(Shapiro, 2004) para compreender tornou-se objeto de uma crítica forte
a valorização das obras de arte. “O que o aproxima de ser um novo
patrimônio é o processo cultural ou dogma em uma sociedade que perdeu
o resultado daquilo que remete aos suas referências religiosas (Choay,
modos de produção e de negocia- 1992). É possível enumerar as eta-
ção ligados à identidade cultural, à pas sucessivas da formação desse
memória coletiva e individual e aos produto recente: a reapropriação
valores sociais e culturais” (Smith, patrimonial (Vicq d’Azyr e Poirier,
2006). O que significa que, se acei- 1794), a conotação espiritual (Hegel,
tamos que o patrimônio representa 1807), a conotação mística e desin-
o resultado de um processo fundado teressada (Renan, 1882) e, enfim, a
sobre certo número de valores, isso humanista (Malraux, 1947). A noção
implica que são esses mesmos valo- de patrimônio cultural coletivo, que
res que fundam o patrimônio. Tais transpõe ao campo moral o léxico
valores justificam a análise, bem jurídico-econômico, aparece como
como – por vezes – a contestação do suspeita, e pode ser analisada como
patrimônio. parte daquilo que Marx e Engels
5. A instituição do patrimônio chamaram de ideologia, isto é, um
também conhece os seus detratores, subproduto do contexto socioeconô-
aqueles que se questionam sobre mico destinado a servir a interesses
suas origens e a valorização abusiva particulares. “A internacionalização
e “fetichizante” dos suportes da cul- do conceito de patrimônio da huma-
tura que ele sustenta, em nome dos nidade não é [...] apenas falsa, mas
valores do humanismo ocidental. perigosa na medida em que se impõe
No sentido estrito, isto é, no sen- um conjunto de conhecimentos e
tido antropológico, nossa herança preconceitos que têm como critérios
cultural é feita das práticas e do as expressões de valores elaborados a
saber-fazer modestos, e reside na partir de dados estéticos, morais, cul-
aptidão para fabricar instrumentos turais, da ideologia de uma casta em
e para utilizá-los, sobretudo quando uma sociedade na qual as estruturas
esses últimos são cristalizados como são irredutíveis àquelas do Terceiro
objetos em uma vitrine de museu. Mundo em geral e da África em par-
Com frequência, esquecemos que ticular” (Adotevi, 1971). Isto é ainda
o instrumento mais elaborado e o mais suspeito dado que tal categoria

76
coexiste com a natureza privada da e esta seria a razão pela qual ele os
propriedade econômica e parece ser- “adquire, os conserva e notadamente
vir como prêmio de consolação para os expõe”. Essa definição muito
aqueles que não têm acesso a outros formal, que apresentava, de certo
recursos primordiais. modo, o museu como um laborató-
rio aberto ao público, já deixava de
DERIVADOS: PATRIMONIOLOGIA, refletir, provavelmente, a realidade
PATRIMONIALIZAÇÃO.
museal de nossa época, uma vez que
CORRELATOS: BEM CULTURAL, COISA, grande parte da pesquisa, do modo
COMUNIDADE, CULTURA MATERIAL, EXPÔT, HERANÇA, pelo qual ela era efetuada ainda no
HERITOLOGIA, IDENTIDADE, IMAGEM, MEMÓRIA,
terceiro quarto do século XX, trans-
MENSAGEM, MONUMENTO, OBJETO, REALIDADE,
feriu-se do mundo dos museus para
RELÍQUIA CULTURAL, SEMIÓFORO, SUJEITO,
TESTEMUNHO, TERRITÓRIO, TESOURO NACIONAL,
os laboratórios e universidades.
TESOURO HUMANO VIVO, VALOR. Assim, o museu “adquire, conserva,
estuda, expõe e transmite o patri-
mônio imaterial” (ICOM, 2007).
PESQUISA 84 Essa definição reduzida, em vista do
projeto precedente – sendo o termo
s. f. – Equivalente em francês: recherche; inglês: “pesquisa” substituído por “estudo
research; espanhol: investigación; alemão: do patrimônio” –, não deixa de
Forschung; italiano: ricerca.
apontar esse ponto essencial para o
A pesquisa consiste na exploração funcionamento geral do museu. A
de domínios previamente definidos, pesquisa figura entre as três funções
tendo em vista o avanço do conheci- do modelo PPC (Preservação – Pes-
mento que possuímos e a ação que se quisa – Comunicação) proposto pela
pode exercer sobre esses domínios. Reinwardt Academie (van Mensch,
No museu, a pesquisa constitui o 1992) para definir o funcionamento
conjunto de atividades intelectuais e do museu. Ela aparece, ainda, como
de trabalhos que têm como objeto a um elemento fundamental para pen-
descoberta, a invenção e o progresso sadores como Zbyn k Stránský ou
de conhecimentos novos ligados às Georges Henri Rivière, assim como
coleções das quais ele se encarrega para diversos museólogos do Leste
ou às suas atividades. Europeu, como Klaus Schreiner.
1. Até 2007, o ICOM apresentava Rivière, por sua vez, ilustrou per-
a pesquisa, no quadro de sua defi- feitamente, no Museu Nacional de
nição do museu, como o princípio Artes e Tradições Populares, e mais
motor de seu funcionamento, tendo precisamente pelos seus trabalhos
o museu o objetivo de realizar pes- sobre o Aubrac, as repercussões
quisas sobre os testemunhos mate- do programa de pesquisa científica
riais do Homem e da sociedade, sobre o conjunto de funções do
84 Em Portugal, o termo mais utilizado é “investigação”.

77
museu e, notadamente, sobre sua liza os cientistas e as disciplinas exte-
política de aquisição, de publicação riores à museologia (física, química,
e de exposições. ciências da comunicação, etc.), com
2. Com a ajuda de mecanismos o objetivo de desenvolver instrumen-
do mercado – que favorecerem as tos museográficos (entendidos aqui
exposições temporárias em detri- como técnica museal): materiais e
mento das de longa duração –, uma normas de conservação, de estudo ou
parte da pesquisa fundamental foi de restauração, pesquisas de públi-
substituída pela pesquisa aplicada, cos, métodos de gestão, etc. O ter-
particularmente no que diz res- ceiro tipo de pesquisas, que podemos
peito à preparação de exposições qualificar aqui como museológicas
temporárias. A pesquisa, no qua- (como ética do museal), pretende
dro do museu ou ligada a ele, pode produzir uma reflexão sobre as mis-
ser dividida em quatro categorias sões e o funcionamento do museu
(Davallon, 1995), que dependem do – particularmente pelo conjunto
fato de esta ser parte integrante do dos trabalhos do ICOFOM85. As
funcionamento da instituição (e sua disciplinas mobilizadas são essen-
tecnologia) ou de produzir conheci- cialmente a filosofia e a história ou a
mentos sobre o museu. O primeiro museologia tal como foi definida pela
tipo de pesquisas, certamente o mais escola de Brno. Enfim, o quarto tipo
desenvolvido, testemunha direta- de pesquisas que podem igualmente
mente a atividade museal clássica e ser vistas como museológicas (enten-
tem por base as coleções do museu, dido como o conjunto das reflexões
apoiando-se essencialmente sobre as ligadas ao museal), abordam a aná-
disciplinas de referência ligadas ao lise da instituição, particularmente
conteúdo das coleções (história da pelas suas dimensões midiáticas e
arte, história, ciências naturais, etc.). patrimoniais. As ciências mobiliza-
A atividade de classificação, inerente das para a construção desse saber
à constituição de uma coleção e à sobre o museu são, especialmente, a
produção de catálogos, participou e história, a antropologia, a sociologia,
participa longamente das atividades a linguística, etc.
de pesquisa prioritárias no seio do
DERIVADOS: PESQUISADOR, INVESTIGADOR, CENTRO
museu, principalmente nos museus DE PESQUISA EM MUSEOLOGIA.
de ciências naturais (o que é próprio
da taxonomia), mas igualmente nos CORRELATOS: ESTUDAR, PROGRAMA CIENTÍFICO
DO MUSEU, CONSERVADOR, PRESERVAÇÃO,
museus de etnografia, de arqueologia
COMUNICAÇÃO, MUSEOLOGIA.
e também nos museus de Belas Artes.
O segundo tipo de pesquisas mobi-

museus, assim como em universidades, em especial naquelas que mantêm museus universi-
tários, cursos de graduação em museologia ou pós-graduação em museologia.

78
PRESERVAÇÃO um elemento fundamental do modo
de funcionamento da maior parte
s. f. – Equivalente em francês: préservation;
dos museus. A aquisição congrega o
inglês: preservation; espanhol: preservación;
alemão: Bewahrung, Erhaltung; italiano:
conjunto de meios com os quais um
preservazione. museu se apropria do patrimônio
material e imaterial da humanidade:
Preservar significa proteger uma coleta, escavação arqueológica, doa-
coisa ou um conjunto de coisas de ções, troca, compra, e, como não
diferentes perigos, tais como a des- podemos deixar de lembrar, por
truição, a degradação, a dissociação vezes também o roubo ou a pilha-
ou mesmo o roubo; essa proteção é gem (combatidos pelo ICOM e pela
assegurada especialmente pela reu- UNESCO – Recomendação de 1956
nião, o inventário, o acondiciona- e Convenção de 1970). A gestão e o
mento, a segurança e a reparação. regimento86 das coleções constituem
Na museologia, a preservação o conjunto das operações ligadas
engloba todas as operações envol- ao tratamento administrativo dos
vidas quando um objeto entra no objetos de museu, considerando
museu, isto é, todas as operações a sua inscrição no catálogo ou no
de aquisição, entrada em inventá- registro de inventário do museu, de
rio, catalogação, acondicionamento, maneira a certificar o seu estatuto
conservação e, se necessário, restau- museal – o que, particularmente em
ração. Em geral, a preservação do alguns países, lhes confere um esta-
patrimônio conduz a uma política tuto legal específico, uma vez que
que começa com o estabelecimento os objetos entram no inventário,
de um procedimento e critérios de especialmente em museus públicos,
aquisição do patrimônio material e em que esses bens são inalienáveis
imaterial da humanidade e seu meio, e imprescritíveis. Em países como
cuja continuidade é assegurada com os Estados Unidos ou a Grã-Breta-
a gestão das coisas que se tornaram nha, os museus podem excepcional-
objetos de museu, e finalmente com mente alienar objetos, dispondo-os
sua conservação. Neste sentido, o para serem transferidos para outra
conceito de preservação representa instituição, para serem vendidos ou
aquilo que é fundamental para os destruídos. O acondicionamento
museus, pois a construção das cole- em reservas técnicas e a classificação
ções estrutura o seu desenvolvimento também fazem parte das atividades
e a missão do museu. A preservação próprias à gestão das coleções, assim
constitui-se em um eixo da ação como a supervisão da mobilidade
museal, sendo o outro eixo o da difu- dos objetos dentro do museu e fora
são aos públicos. dele. Enfim, as atividades de con-
1. A política de aquisição constitui servação têm por objetivo fornecer

86 Em Portugal, apesar de o termo existir, neste contexto usa-se o termo “administração”.

79
os meios necessários para garantir como objetivo o de melhorar a apre-
o estado de um objeto contra toda ciação, a compreensão e o uso. Essas
forma de alteração, a fim de man- intervenções só são colocadas em
tê-lo o mais intacto possível para as prática quando o bem tiver perdido
gerações futuras. Essas atividades, uma parte de sua significação ou
em sentido amplo, condensam as função devido a deteriorações ou a
operações de segurança geral (pro- alterações passadas. Elas se baseiam
teção contra roubo ou vandalismo, no respeito pelos materiais originais.
incêndios ou inundações, terremotos Comumente tais ações modificam
ou tumultos), as disposições ditas a aparência do bem” (ICOM-CC,
de conservação preventiva, ou seja, 2008). Para conservar o quanto for
“o conjunto de medidas e ações que possível a integridade dos objetos,
têm por objetivo evitar e minimizar os restauradores optam por interven-
futuras deteriorações ou perdas. ções reversíveis e facilmente identifi-
Elas se inscrevem em um contexto cáveis.
ou ambiente de um bem cultural, 2. Em sua prática, o conceito de
porém, mais comumente no contexto “conservação” é comumente prefe-
de um conjunto de bens, seja qual rido em detrimento do de “preserva-
for a sua antiguidade e o seu estado. ção”. Para diversos profissionais de
Essas medidas e ações são indiretas museus, a conservação, que concerne
– não interferem com os materiais ao mesmo tempo à ação e à intenção
e estruturas dos bens. Também não de proteger um bem cultural, seja
modificam a sua aparência” (ICOM- ele material ou imaterial, constitui
-CC87, 2008). Há ainda a conservação o coração da atividade do museu –
curativa, que é “o conjunto de ações o que testemunha o vocábulo mais
diretamente empregadas sobre um antigo usado para definir, na França
bem cultural ou um grupo de bens, ou na Bélgica, a profissão museal,
com o objetivo de interromper um como o corpo de conservateurs, que
processo ativo de deterioração ou aparece a partir da Revolução Fran-
de introduzir um reforço estrutural. cesa. Logo, há muito tempo – ao
Essas ações só são colocadas em prá- longo do século XIX, ao menos – esse
tica quando a existência dos bens é parece ser o vocábulo que melhor
ameaçada a curto prazo, devido à sua caracteriza, nesses países, a função
extrema fragilidade ou rapidez de do museu. É possível assinalar ainda
sua deterioração. Essas ações modifi- que a definição atual de museu do
cam por vezes a aparência dos bens” ICOM (2007) não recorre ao termo
(ICOM-CC, 2008). A restauração é “preservação” para evidenciar as
“o conjunto de ações diretamente noções de aquisição e de conserva-
empregadas sobre um bem cultural, ção. Sem dúvida, nessa perspectiva, a
singular e em estado estável, tendo noção de conservação deve ser vista

87 Comitê Internacional do de Conservação.

80
de maneira mais ampla, compreen- mente objetos patrimoniais imate-
dendo as questões de inventário ou riais, o que acarreta novos problemas
de reserva. Esta última concepção e os compelem a encontrar novas téc-
está ligada a uma realidade diferente nicas de conservação que se adaptem
daquela da conservação (como é a esses novos patrimônios.
entendida no seio do ICOM-CC), CORRELATOS: AQUISIÇÃO, BEM(NS), CESSÃO,
mais claramente ligada às atividades COISA, COMUNIDADE, CONSERVADOR, CONSERVAÇÃO
de conservação e de restauração, PREVENTIVA OU CURATIVA, INVENTÁRIO, GESTÃO DE
como foram descritas acima, do que COLEÇÕES, GESTOR DE COLEÇÕES, REGIMENTO DE
à gestão ou ao regimento de cole- COLEÇÕES, MATERIAL, IMATERIAL, MONUMENTO,
ções. É nesse contexto que se desen- OBRA, DOCUMENTO, OBJETO, PATRIMÔNIO, REALIDADE,
volveu progressivamente um campo RELÍQUIA, RESTAURAÇÃO, RESTAURADOR, SEMIÓFORO,
profissional distinto, o dos arquivis- ALIENAÇÃO, RESTITUIÇÃO, CESSÃO, SALVAGUARDA,
AMBIENTE (CONTROLE AMBIENTAL).
88
tas e gestores de coleções. O conceito
de preservação serve para dar conta
desse conjunto de atividades.
3. O conceito de preservação
PROFISSÃO
tende, ainda, a objetivar tensões ine- s. f. – Equivalente em francês: profession; inglês:
vitáveis que existem entre cada uma profession; espanhol: profesión; alemão: Beruf;
dessas funções (sem contar as que italiano: professione.
concernem às fronteiras entre preser- A profissão define-se, primeira-
vação e comunicação ou pesquisa), mente, em um quadro socialmente
que sofrem críticas frequentes: “A determinado e não por definição do
ideia de conservação do patrimônio acaso. A profissão não constitui um
remete às pulsões naturais de toda a campo teórico: um museólogo pode
sociedade capitalista” (Baudrillard, se intitular um historiador da arte
1968; Deloche, 1985-1989). Nessa ou um biólogo por profissão, mas
ótica mais geral, certo número de ele também pode se considerar – e
políticas de aquisição, por exem- ser socialmente aceito – como um
plo, integra em paralelo as políticas profissional da museologia. Para
de alienação do patrimônio (Neves, que uma profissão exista, ela deve
2005). A questão das escolhas do res- ser definida como tal, e também ser
taurador e, de maneira geral, as esco- reconhecida como tal por outros, o
lhas efetuadas no nível das operações que nem sempre é o caso no mundo
de conservação (o que conservar e dos museus. Não existe uma, mas
o que rejeitar?) constituem, com a várias profissões ligadas ao campo
alienação, algumas das questões mais dos museus (Dubé, 1994), o que sig-
polêmicas da organização de um nifica dizer que existe uma gama de
museu. Enfim, os museus adquirem atividades ligadas ao museu, pagas
e conservam cada vez mais regular- ou não, pelas quais uma pessoa pode
88 No Brasil, acrescentaríamos um derivado: .

81
ser identificada (particularmente no precisas e planos de evacuação para
que se refere à sua condição civil), o público e para as coleções, etc.)
atribuindo-lhe uma categoria social. impôs, gradualmente, ao longo do
Se nos referirmos à concepção século XIX, categorias específicas de
de museologia como é apresentada recrutamento, em particular a de um
nestas páginas, a maior parte dos corpo distinto do restante da equipe
agentes que trabalha em museus está administrativa. Ao mesmo tempo, é a
longe de ter recebido a formação figura do conservateur90 que aparece
devida, e muito poucos podem pre- como a primeira profissão museoló-
tender ser museólogos simplesmente gica específica. Por muito tempo, o
por trabalharem num museu. Exis- conservateur era aquele responsável
tem, portanto, no seio do museu, por todas as funções diretamente
muitos perfis profissionais que relacionadas com os objetos de uma
requerem uma bagagem específica; o coleção, isto é, a sua preservação,
ICTOP89 listou cerca de vinte deles. pesquisa e comunicação (segundo o
1. Muitos funcionários, geral- modelo PPC, da Reinwardt Acade-
mente a maioria, seguem uma car- mie). A formação do conservateur foi
reira que apresenta apenas uma primeiramente associada ao estudo
relação relativamente superficial de coleções (de história da arte, ciên-
com o princípio mesmo do museu cias naturais, etnologia, etc.), mesmo
– enquanto que para o público, eles se ela fosse – como foi o caso ao
personificam o museu. Esse é o caso longo de muitos anos – sustentada
dos guardas ou chefes de segurança, por uma formação mais museológica
da equipe responsável pela super- como aquela fornecida por certo
visão das áreas expositivas de um número de universidades. Muitos
museu, que constituem o principal conservateurs que se especializa-
contato com o público, funcionando ram no estudo de coleções – o que
como recepcionistas. A especifi- permanece incontestado como seu
cidade da supervisão dos museus principal campo de atividade – não
(incluindo medidas de segurança podem se intitular “museólogos”

89 Comitê Internacional do
90 No original em francês temos o termo conservateur, que na tradução direta para o português
seria conservador. No entanto, a tradução direta não corresponde ao sentido dessa posi-
conservateur
França (organizada em níveis), o que não tem correspondente no Brasil, embora possamos

o Dictionnaire Encyclopédique de Muséologie (Paris: Armand Colin), 2011, p, 581. Nessa obra,
os autores Andre Desvallées e François Mairesse apresentam o termo conservateur (curator)
como o pesquisador de coleção que poderá assumir posição diretiva na instituição. Nesse
sentido, optamos por não traduzir a palavra, mantendo-a em francês. No entanto, o termo
e -
nesta publicação.

82
ou muséographes91 (que exercem zado, por extensão (particularmente
a prática museológica), mesmo se no Canadá), para designar a pessoa
na prática alguns deles conseguem que trabalha para um museu e que
combinar esses diferentes aspectos desempenha uma função de chefe de
do trabalho em museus. Na França, um projeto ou de programador de
diferentemente de outros países exposição94. O museólogo diferen-
europeus, o corpo de conservateurs cia-se do conservateur, mas também
é geralmente recrutado por competi- do muséographe95, encarregado da
ção92 e considerando os profissionais concepção e da organização geral do
de uma escola de formação específica museu, das questões ligadas à segu-
(o Institut National du Patrimoine / rança ou à conservação e à restau-
o Instituto Nacional do Patrimônio). ração, passando pela administração
2. O termo “museólogo” pode das salas de exposição, sejam elas
ser aplicado ao pesquisador93 cujo de longa duração ou temporárias.
objeto de estudo está voltado para O muséographe, por suas compe-
uma relação específica entre o tências técnicas, detém uma visão
Homem e a realidade, caracteri- de especialista sobre o conjunto das
zada como a documentação do real modalidades de funcionamento de
pela apreensão sensível direta. Seu um museu – preservação, pesquisa
campo de atividade está essencial- e comunicação – e pode gerir par-
mente ligado à teoria e à reflexão ticularmente (por exemplo, pela
crítica sobre o campo museal, de redação de cadernos de diretrizes e
modo que o seu trabalho não está referências) os dados ligados tanto
limitado ao espaço do museu, e ele à conservação preventiva quanto às
pode atuar também em uma uni- informações comunicadas aos dife-
versidade ou em outros centros de rentes públicos. O muséographe se
pesquisa. Esse termo é também utili- diferencia do expographe96, pois o
termo foi proposto para designar
91 Não há no Brasil esta denominação, por isso a mantemos como no original em francês.

museografia”, ou se a questão se referir às ações do processo de curadoria, aquelas em


torno do objeto museológico (aquisição, pesquisa, salvaguarda e comunicação), a possibi-
-
dores”. Ver também os verbetes e nesta publicação.
92 Em Portugal, concurso.
93 Em Portugal, investigador.
-

95 Neste trecho, a descrição das ações do muséographe corresponde, no Brasil, às ações do


museólogo. Podemos, então, aproximar as duas perspectivas às funções do museólogo –

ou mesmo funções não têm paralelo no Brasil, como . Por isso, evitamos a tradu-
ção direta. Ver também , e .

83
aquele que possui todas as compe- museu, e menos ainda como muséo-
tências para realizar as exposições, graphe. É em um contexto tal que a
estejam elas situadas em um museu figura do “coordenador de exposi-
ou em um espaço não museológico, ção”97 (comumente desempenhada
bem como do “cenógrafo de expo- pelo conservateur, mas, por vezes,
sição” (ou designer de exposição), também por uma figura externa ao
na medida em que esse último, uti- museu) adquire sentido, pois este
lizando técnicas de administração do último concebe o projeto científico
espaço cênico, pode ser igualmente da exposição e assume a coordena-
apto para conceber exposições (ver ção do conjunto do projeto.
MUSEOGRAFIA). Os profissionais 3. Com o desenvolvimento do
de expografia e de cenografia foram, campo museológico, certo número
por muito tempo, aproximados ao de profissionais emergiu progres-
“decorador”, responsável pela deco- sivamente para assumir a sua auto-
ração dos espaços. Contudo, a obra nomia, mas também para afirmar a
de decoração realizada nos espaços sua importância e a sua vontade de
funcionais e que derivam das ativida- participar do destino dos museus. É
des normais da decoração de interio- essencialmente nos domínios da pre-
res difere das intervenções feitas nas servação e da comunicação que pode-
exposições, que advém da expogra- mos observar esse fenômeno. No que
fia. Nas exposições, o trabalho é mais concerne à preservação, é primeira-
o de administrar os espaços a partir mente para o restaurador98 – como
da utilização de expositores como profissional dotado de competências
elementos de decoração, e não tanto científicas, e, sobretudo, de técnicas
o de partir dos expositores para necessárias para o tratamento físico
colocá-los em evidência e assinalar a dos objetos em coleções (para sua
sua presença no espaço. Numerosos restauração, mas também para a
expographes ou cenógrafos de expo- conservação preventiva e curativa) –,
sição caracterizam-se igualmente, em que se impôs a necessidade de uma
primeiro lugar, como arquitetos ou formação altamente especializada
arquitetos de interiores, o que não (por tipos de materiais e de técni-
quer dizer que todo arquiteto de cas), voltada para competências das
interiores possa passar como expo- quais o conservateur99 não dispõe.
graphe ou “cenógrafo” no seio de um Do mesmo modo, as funções ligadas

97 (no original), que, na França, tem o sentido de comissário de expo-


-

como o “pesquisador de coleção” ou o “museólogo”. Traduzimos para “coordenador de


exposição”. Ver o termo no Dictionnaire Encyclopédique de Muséologie (Paris: Armand Colin),
2011, p, 579, de André Desvallées e François Mairesse.
98 Em Portugal, conservador-restaurador.
99 Ou o museólogo, no caso brasileiro.

84
ao inventário, que dizem respeito à nas funções de comunicação e de
gestão das reservas, mas também à mediação do museu.
mobilidade dos objetos, favorece- 5. A esses diferentes profissionais
ram a criação relativamente recente são acrescentados outros, trans-
da posição de gestor de coleções, versais ou auxiliares, entre os quais
responsável pela mobilidade das estão o responsável pelo projeto (que
obras e pelas questões de segurança, pode ser um cientista, bem como
de gestão das reservas técnicas, mas um muséographe), responsável pelo
também, por vezes, de preparação e conjunto de dispositivos para a rea-
montagem de uma exposição (fala-se lização das atividades museais, que
aqui do gestor de exposição). reúne em torno de si especialistas da
4. No que concerne à comunica- preservação, da pesquisa e da comu-
ção, as pessoas ligadas ao serviço nicação, visando a elaborar projetos
educativo, assim como o conjunto específicos, como a realização de
de pessoas interessadas pela ques- uma exposição temporária, a orga-
tão dos públicos, beneficiaram-se da nização de uma nova sala, de uma
emergência de certo número de pro- reserva técnica visitável, etc.
fissionais específicos. Sem dúvida, 6. De modo mais geral, é muito
uma das mais antigas dessas profis- provável que os administradores ou
sões é aquela constituída pela figura gestores do museu, já reunidos em um
do educador encarregado de acom- comitê no seio do ICOM, venham a
panhar os visitantes (geralmente os elencar as especificidades de suas
grupos) nas salas de exposição, forne- funções, distinguindo-se de outras
cendo certo número de informações organizações lucrativas ou não. Eles
ligadas ao dispositivo da exposição desempenham numerosas funções
e aos objetos apresentados, essen- classificadas no nível da administra-
cialmente segundo o princípio das ção, como a logística, a segurança, a
visitas guiadas. A esse primeiro tipo informática, o marketing ou as rela-
de acompanhamento acrescentamos ções midiáticas, que têm sua impor-
a função do animador, encarregado tância cada vez mais evidenciada.
da organização de ateliês e de outras Os diretores de museus (reunidos
experiências que dependem do dis- em associações, principalmente nos
positivo de comunicação do museu, Estados Unidos) apresentam perfis
e aquela do mediador, destinado a que combinam uma ou várias das
servir de intermediário entre as cole- competências evocadas – símbolos
ções e a conduzir o público a se inte- de autoridade no seio do museu, seu
ressar e a instruí-lo sistematicamente perfil (de gestor ou de conservateur,
sobre um conteúdo previamente por exemplo) é comumente apresen-
estabelecido. Além disso, cada vez tado como revelador das estratégias
mais, o responsável pelo site na web de ação do museu.
desempenha um papel fundamental
85
CORRELATOS: MUSEOLOGIA, EXPOLOGIA, cionalmente). Suas regras de funcio-
DESIGNER DE EXPOSIÇÃO, ENCARREGADO DE PROJETO, namento mostram-se de acordo com
CONSERVAÇÃO, MUSEOGRAFIA, CONSERVADOR- as regras gerais dos serviços públicos
RESTAURADOR (PT), RESTAURADOR, EXPOGRAFIA, e, principalmente, segundo o princí-
GESTÃO, ARQUITETO DE INTERIOR, CENÓGRAFO, pio de continuidade (o serviço deve
AGENTE DE ENTRETENIMENTO, GUIA, EDUCADOR, funcionar de maneira contínua e
CONFERENCISTA, ANIMADOR, MEDIADOR, PESQUISADOR,
regular, sem interrupções outras que
AVALIADOR, COMUNICADOR, TECNÓLOGO, TÉCNICO,
100 aquelas previstas por regulamento),
MECENAS, GUARDA, AGENTE DE SEGURANÇA.
o princípio de mutabilidade (o ser-
viço deve se adaptar à evolução das
necessidades do interesse geral e
PÚBLICO qualquer obstáculo jurídico não
s. m. e adj. (do latim : povo, deve se opor às mudanças alcan-
população) – Equivalente em francês: ; çadas nesta ordem), o princípio de
inglês: ; espanhol: igualdade (assegurar a igualdade
; alemão: dos tratamentos para cada cidadão).
Por fim, o princípio de transparên-
O termo possui duas acepções, cia (comunicação de documentos
segundo a forma pela qual ele é relativos ao serviço prestado a cada
empregado, como adjetivo ou como particular que faz uma demanda e
substantivo. respondendo a certas decisões), o
1. O adjetivo “público” – museu que significa que o estabelecimento
público – traduz a relação jurídica museal é aberto a todos ou que per-
entre o museu e o povo do território tence a todos e que está a serviço da
sobre o qual ele se situa. O museu sociedade e de seu desenvolvimento.
público é, em sua essência, a pro- No direito anglo-americano, é
priedade do povo; ele é financiado menos a noção de serviço público e
e administrado por esse último, por mais a de public trust101 (confiança
meio de seus representantes e, por pública) que prevalece, o que se dá
delegação, por sua administração. em virtude de princípios que exi-
É sobretudo nos países latinos que gem um compromisso muito estrito
essa lógica se exprime de maneira por parte dos trustees que o museu,
mais forte: o museu público é essen- geralmente organizado de maneira
cialmente financiado pelo imposto, privada – sob o estatuto de non-profit
suas coleções pertencem ao domí- organisation, cujo conselho adminis-
nio público e seguem a sua lógica trativo é o board of trustees –, destina
(elas são por princípio imprescri- suas atividades a um certo público.
tíveis e inalienáveis, e não podem O museu, particularmente nos Esta-
ser desclassificadas a não ser excep- dos Unidos, refere-se menos à noção

100 No Brasil, inclui-se também .


101 No original em francês as expressões estão em inglês, por isso as mantivemos nessa língua.

86
de “público” e mais à de “comu- dade e de seu desenvolvimento,
nidade”, sendo este último termo aberta ao público” (ICOM, 2006102).
empregado em seu sentido mais É também uma “coleção [...] cuja
amplo (ver SOCIEDADE). conservação e apresentação res-
Esse princípio conduz o museu, ponde a um interesse público, tendo
em todo o mundo, a ver a sua ativi- em vista o conhecimento, a educação
dade exercida, se não sob a égide dos e o deleite do público” (Lei sobre os
poderes públicos, ao menos sempre museus da França, 2002); ou ainda
se referindo como sendo, na maior “uma instituição [...] que possui
parte do tempo, (particularmente) e utiliza objetos materiais, os con-
encarregada destes, o que o leva a serva e os expõe ao público segundo
respeitar certo número de regras das horários regulares” (American Asso-
quais depende a sua administração, ciation of Museums, accreditation pro-
assim como certo número de princí- gram, 1973). A definição publicada
pios éticos. Nesse contexto, a ques- em 1998 pela Museums Association,
tão do museu privado e, a fortiori, a do Reino Unido, substitui o adjetivo
do museu gerido como uma empresa “público” pelo substantivo “povo”.
comercial, deixa supor que os dife- A noção de público associa estrei-
rentes princípios ligados ao domínio tamente a atividade do museu a
público e às características dos pode- seus usuários, mesmo àqueles que
res públicos, citados acima, poderão deveriam se beneficiar de seus servi-
não ser encontrados. É nessa pers- ços, embora não o façam. Os usuá-
pectiva que a definição do museu rios são os visitantes do museu – o
do ICOM pressupõe que se trata de público mais amplo – sobre quem
uma organização sem fins lucrativos, somos levados a pensar em primeiro
e que vários dos artigos do código de lugar, esquecendo que eles nem sem-
ética foram redigidos em função de pre ocuparam o papel central que
seu caráter público. o museu lhes confere hoje, porque
2. Como substantivo, a palavra existem vários públicos específicos.
“público” designa o conjunto de Lugar de formação artística e terri-
usuários do museu (o público dos tório da “república dos sábios” em
museus), mas também, por extrapo- sua origem, o museu só se abriu a
lação a partir do seu fim público, o todos progressivamente ao longo de
conjunto da população à qual cada sua história. Essa abertura, que con-
estabelecimento se dirige. Presente duziu a equipe do museu a se inte-
em quase todas as definições atuais ressar cada vez mais pelos visitantes,
de museu, a noção de público ocupa mas igualmente pela população que
um lugar central no seio do museu: não frequenta museus, favoreceu
“instituição [...] a serviço da socie- a multiplicação de possibilidades

102 A versão lusófona do Código de Ética para Museus está disponível no site do Comitê Brasileiro
do ICOM: http://www.icom.org.br.

87
de leituras de seus usuários, para (esse ponto corresponde, por outro
os quais se voltam novas formas de lado, ao que se intitulou “virada
categorias ao longo do tempo: povo, comercial do museu”, mesmo que as
grande público, público amplo, não- duas ações não se relacionem neces-
-público, público distanciado, impe- sariamente).
dido ou fragilizado, utilizadores ou 3. Por extensão, na questão dos
usuários, visitantes, observadores, museus comunitários e dos ecomu-
espectadores, consumidores, plateia, seus, o público é entendido como
etc. O desenvolvimento do campo toda a população do território no
profissional dos avaliadores de expo- qual eles se inscrevem. A população
sições, que se apresentam em grande é o suporte do território e, no caso
parte como os “advogados” ou os do ecomuseu, ela se torna o principal
“porta-vozes do público”, testemu- ator e não apenas o alvo do estabele-
nham essa tendência atual a reforçar cimento (ver SOCIEDADE).
a questão dos públicos no seio do
funcionamento geral do museu. Fala- DERIVADOS: PUBLICIDADE, GRANDE PÚBLICO, NÃO-
-se assim, essencialmente, a partir do PÚBLICO, PÚBLICO FRAGILIZADO, PÚBLICO-ALVO.

final dos anos 1980, de uma verda- CORRELATOS: UTILIZADORES, CLIENTELA,


deira “virada em direção aos públi- USUÁRIOS, AUDIÊNCIA, ECOMUSEU, POVO, FIDELIZAÇÃO,
cos” da ação museal, para mostrar FREQUENTAÇÃO, POPULAÇÃO, PRIVADO, VISITANTES,
a importância crescente da frequên- COMUNIDADE, SOCIEDADE, ESPECTADORES, AVALIAÇÕES,
cia e da tomada de consciência das PESQUISAS, AVALIADORES, TURISTAS.

necessidades e anseios dos visitantes

88
S
SOCIEDADE se trata da cultura (estando o uso
do termo ainda parcialmente ligado
s. f. – Equivalente em francês: société; inglês:
ao seu sentido literal do desenvol-
society, community; espanhol: sociedad; ale-
mão: Gesellschaft, Bevölkerung; italiano:
vimento agrário, naquela época) ou
do turismo e da economia, como é
o caso atualmente. Nesse sentido, a
Em sua acepção mais geral, a socie- sociedade pode ser entendida como
dade é o grupo humano compre- o conjunto de habitantes de um ou
endido como um conjunto mais ou de vários países, quando não do
menos coerente no qual se estabele- mundo inteiro. É este o caso para a
cem sistemas de relações e de trocas. UNESCO, particularmente, como
A sociedade à qual se dirige o museu o órgão promotor mais comprome-
pode ser definida como uma comu- tido, em escala internacional, com
nidade de indivíduos organizada (em a manutenção e o desenvolvimento
um espaço e em um momento defini- das culturas, o respeito à diversidade
dos) em torno de instituições políti- cultural, assim como com o desen-
cas, econômicas, jurídicas e culturais volvimento de sistemas educativos –
comuns, entre as quais está o museu nos quais o museu é voluntariamente
e com as quais ele constrói a sua ati- categorizado.
vidade. 2. Se, à primeira vista, a sociedade
1. O museu se apresenta para o pode se definir como uma comuni-
ICOM, desde 1974 – após a declara- dade estruturada por instituições, o
ção de Santiago do Chile – como uma conceito de comunidade ele mesmo
instituição “a serviço da sociedade e difere do de sociedade, já que uma
de seu desenvolvimento”. Essa pro- comunidade se apresenta como
posição, historicamente determinada um conjunto de pessoas vivendo
pelo nascimento do conceito de “país em coletividade ou formando uma
em vias de desenvolvimento”, e sua associação, compartilhando certo
qualificação, durante os anos 1970, número de pontos comuns (lin-
como um terceiro conjunto que guagem, religião, costume) sem,
englobava tanto países do Oriente portanto, se reunirem em torno de
quanto do Ocidente, apresenta o estruturas institucionais. De maneira
museu como um agente de desenvol- mais geral, tanto um termo quanto o
vimento da sociedade – tanto quanto outro são diferenciados, sobretudo,

89
em razão de sua dimensão suposta: sociedade e os museus comunitários –
o termo “comunidade” é geralmente desenvolveram-se depois de algumas
mais utilizado para designar os gru- décadas, a fim de sublinhar o laço
pos mais restritos, mas também mais específico que certos museus buscam
homogêneos (a comunidade judaica, estabelecer com o seu público. Esses
a comunidade gay, etc., ou a comu- museus, incluindo tradicionalmente
nidade de uma cidade ou de um os museus etnográficos, apresen-
país), enquanto que o termo “socie- tam-se como estabelecimentos que
dade” é frequentemente evocado no desenvolvem uma relação forte com
caso de conjuntos mais amplos e, a seus públicos, integrando-os no cen-
priori, mais heterogêneos (a socie- tro de suas preocupações. Apesar das
dade desse país, a sociedade bur- congruências na natureza do questio-
guesa). De maneira mais precisa, o namento social inerente a esses dife-
termo community, no sentido em rentes tipos de museus, seu modo
que é regularmente usado nos países de gestão difere, assim como a sua
anglo-americanos, não possui real- relação com os públicos. A nomen-
mente um equivalente em francês, clatura museus de sociedade reúne
pois ele representa o “conjunto de “os museus que compartilham de um
pessoas e instâncias considerando mesmo objetivo: estudar a evolução
diferentes títulos: 1) os públicos, 2) da humanidade em seus componen-
os especialistas, 3) [as] outras pes- tes sociais e históricos, e transmitir os
soas que desempenham um papel marcos e pontos de referência, para
na interpretação (imprensa, artis- o entendimento da diversidade das
tas...), 4) aqueles que contribuem culturas e das sociedades” (Barroso e
com o programa educativo como, Vaillant, 1993). Esses objetivos fun-
por exemplo, os grupos artísticos, dam o museu como um lugar real-
5) [os] depósitos e lugares de con- mente interdisciplinar e podem levar
servação, particularmente as biblio- à formulação, entre outras coisas, de
tecas, os organismos encarregados exposições que tratam de temas tão
de armazenamento, os museus” variados como a crise da vaca louca,
(American Association of Museums, a imigração, a ecologia, etc. O fun-
2002). O termo é traduzido em fran- cionamento do museu comunitário,
cês tanto por collectivité [coletivi- que pode participar do movimento
dade], quanto por population locale mais amplo dos museus de socie-
[população local] ou communauté dade, é mais diretamente ligado ao
[comunidade], ou mesmo milieu grupo social, cultural, profissional
professionnel [meio profissional]. ou territorial que ele apresenta e que
3. Nessa perspectiva, duas cate- é levado a animar103. Comumente
gorias de museus – os museus de gerido de maneira profissional, ele
103 O termo ‘animação’ (‘animation’), recorrentemente usado na França, tem o sentido de ‘dar
vida’ a um museu ou a um patrimônio, e é constantemente empregado para se referir às
atividades realizadas nos ecomuseus.

90
pode também repousar unicamente DERIVADO: MUSEU DE SOCIEDADE.
sobre a iniciativa local e basear-se na
CORRELATOS: COMUNIDADE, MUSEU
lógica das doações. As questões que COMUNITÁRIO, DESENVOLVIMENTO COMUNITÁRIO,
ele debate referem-se diretamente ao PROGRAMA DE DESENVOLVIMENTO, ECOMUSEU,
funcionamento e à identidade dessa IDENTIDADE, PÚBLICO, LOCAL.
comunidade; este é o caso particular-
mente dos museus de vizinhança ou
dos ecomuseus.

91
R E F E R Ê N C I A S 104

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104 Alguns dos autores citados no texto não constam das Referências, na publicação original.
Quando possível, inserimos as referências em notas de rodapé.

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9 788582 560259