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Há algum tempo comecei a treinar Karatê Shotokan Tradicional.

Nunca havia treinado antes,


minha vida toda foi entrando e saindo de dojos de Karatê “esportivo”, também Shotokan. Uma
das primeiras lições que aprendi no Tradicional e que me marcou foi a orientação de que,
diferentemente do esportivo, que o golpe tem que “parar” antes de realmente atingir o
adversário (num movimento de puxada de braço chamado hikitê), aqui deveríamos deixar a
energia do golpe fluir até o fim, buscando “acertar alguém que estivesse atrás do adversário”.

Depois de algum tempo sem praticar periodicamente o Karatê, me submeti a esse novo método,
a essa escola diferente. Em pouco tempo de prática, numa aula em que só eu compareci, o
Sensei decidiu fazer um kumitê, uma luta. Minha memória pode estar me pregando uma peça,
mas a primeira coisa de que eu me lembro na luta foi de ter levado um soco bem dolorido no
estômago. Foi quando eu decidi colocar mais energia nos meus golpes, para “estar à altura” do
Sensei, enquanto “combatente” naquela luta.

Foi quando recebi um soco na boca. Não foi o primeiro soco que levei no rosto na minha vida
adulta, então não foi nenhuma tragédia. Na verdade, encarei como um desafio, para que eu
investisse ainda mais energia. Assim, consegui aplicar um chute lateral nas costelas do Sensei,
que revidou com um golpe no meu maxilar, que me fez entregar os pontos. Ele ainda me
perguntou se eu havia me machucado, eu disse que não.

Claro que havia machucado. Mas eu estava orgulhoso. Cheguei em casa contando vitória para
minha esposa: “levei dois socos na cara, pra acordar”, contei, e completei, feliz: “mas também
consegui acertar um bom chute”.

Pois bem. Na aula de hoje, a técnica a ser praticada era um soco direto no adversário, que
deveria praticar a defesa e o contra-ataque. Pratiquei com um colega menos graduado e foi tudo
bem. Quando achei que meu soco de contra-ataque não ia alcançar, desferi um chute no lugar.
Sinceramente, não pensei que haveria qualquer problema nisso. E então, as duplas trocaram e
fui treinar com o Sensei. Seu estilo de contra-ataque era diferente, ele recuava mais que o outro
colega, desferia seu contra-golpe depois de uma finta, depois que minha defesa já havia se
precipitado. Comecei a me cansar. Em um dado momento, quando era minha vez de contra-
atacar, desferi também um chute, por pensar que um soco não alcançaria. O chute entrou, mas
não acredito que tenha sido forte, foi um chute “esportivo”. Ainda assim, fui advertido
verbalmente, pois a ordem não era desferir chutes, mas socos.

Em seguida, o exercício continuou, e o Sensei começou a entrar socos cada vez mais fortes.
Interpretei como uma forma de dizer que eram socos que eu deveria desferir, e com energia,
com kimê. Tentei imprimir essa energia que eu achava que estava sendo exigida de mim. E aí
levei um forte soco nas costelas que quase me fez arregar. O exercício, entretanto, continuou e,
já cansado, para não apanhar, contra-ataquei com dois ou três socos, para impedir que uma
resposta viesse, como havia acontecido segundos antes. A resposta veio mesmo assim, na
entrada seguinte: levei um soco na boca que me cortou o lábio pelo lado de dentro. Mesmo
sendo instado a continuar o exercício, pedi para parar, porque havia me machucado. Até então,
eu não entendia direito o que estava acontecendo.

Só fui tomar pé da situação quando, num discurso exaltado, o Sensei me acusou de entrar com
violência não só na aula de hoje, mas naquela outra, da qual tanto tinha me orgulhado. Comecei
a entender o meu erro, uma pena que tenha sido tarde demais: ao terminar sua fala, o Sensei
me expulsou do dojo. Voltei para casa aos prantos, tentando entender o que havia acontecido.
E acho que aprendi uma importante lição, que agora desejo compartilhar.
Muitas pessoas acreditam que violência se “combate” com violência. Um exemplo recente é o
caso do indivíduo que atacou o carro de outro com um taco de baseball por conta de uma
pequena batida, para em seguida se tornar alvo de tiros de pistola por parte daquela que era
previamente sua vítima. Quando você responde uma violência com outra, na verdade você está
“convocando a pessoa para a guerra”. Isso significa dizer que um ato de violência, ainda que
involuntário, se respondido por outro ato de violência, inicia um ciclo que vai se intensificar até
causar uma situação de ruptura irreversível. Por isso, um dos princípios do Karatê ensina a
“conter o espírito de agressão”.

Do alto de minha mais pura ignorância, eu interpretava os golpes do Sensei não como a punição
que na verdade eram, mas como desafios para fazer dos meus golpes ainda mais poderosos.
Mal sabia eu que isso só fazia piorar a punição que eu estava a receber. Pode parecer piegas,
mas eu me lembrei da passagem do Evangelho em que Jesus ensina a “dar a outra face”.

Conta o cânone que alguns discípulos de Jesus acreditavam que a dominação e a violência do
Império Romano deveriam ser combatidas na mesma moeda, com suor, guerra e sangue.
Entretanto, o Império Romano era a maior potência bélica da época. Eles não seriam nunca
derrotados pela ação de um pequeno grupo de insurgentes, mas muito pelo contrário: a
violência por parte desses insurgentes seria a justificativa necessária para seu extermínio, ou
seja, a violência produziria ainda mais violência. Por isso, “dar a outra face”, na interpretação
que fiz, significaria “não dê a seu adversário uma razão para te agredir ainda mais”.

Com os ignorantes – aqueles que não sabem ou não percebem o que estão fazendo – isso é
especialmente verdade. Olhem meu exemplo: por ser ignorante, em vez de aprender a lição e
parar com a violência, eu produzia ainda mais violência, que resultava em mais punição, até o
ponto de ser expulso. Assim, mesmo ao ser morto, Jesus suplica “perdoai-os, Senhor, eles não
sabem o que fazem”.

De maneira que o próprio título deste texto é uma pegadinha: violência não se “combate”.
Porque “combater” já é um ato de violência e, assim, ela nunca acaba. Se somos contra a
violência, a melhor forma de não vivê-la mais é deixando de ser violentos. Já dizia a sabedoria
popular: “quando um não quer, dois não brigam”. Quando finalmente entendi essa lição,
comecei a pensar em todas as vezes que fui violento com alguém. E não digo apenas sobre socos,
chute e pontapés; estou me referindo a todas as formas de violência. Das vezes que agredi
alguém verbalmente; das vezes que fui indelicado com alguém que eu julgava equivocado em
alguma questão; das vezes que eu não tive paciência com algum aluno ou alguém que tinha algo
a aprender comigo. Mesmo as vezes em que eu fui violento comigo mesmo, não aceitando meus
próprios erros, dificuldades e ignorâncias.

Agradeço profundamente ao Sensei por essa importante lição, possivelmente a última que
aprendi com ele. Mas é algo que pretendo levar para toda a minha vida.

E obrigado também a você que leu, por me permitir compartilhar.