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REGIME DE ALTERNÂNCIA E A LEDOC-UNICENTRO

Eduardo Maciel Ferreira (PPGE - Unicentro)1; Dr. Marcos Gehrke (Deped–


Unicentro)2
Palavras-chave: Organização Pedagógica; Licenciatura em Educação do Campo;
Regime de Alternância;

INTRODUÇÃO
Apresenta análises e discussões sobre o Regime de Alternância, elemento
que compõe o formato da Licenciatura em Educação do Campo – LEdoC da
Universidade Estadual do Centro Oeste – Unicentro (2008 – 2013). Esse trabalho é
um resumo da obra completa intitulada “Regime de Alternância: uma experiência na
Licenciatura em Educação do Campo da Unicentro” e publicada na obra “Práticas de
iniciação à Docência: relações entre a licenciatura em educação do campo e a
escola do campo”.
O interesse pelo tema ocorre dada a necessidade em evidenciar aspectos
com relação a esta forma de organização. Inicialmente trazemos elementos gerais,
para posteriormente focarmos em três eixos: (a) aspectos históricos; (b) aspectos
legais e conceituais; (c) limites e avanços desta experiência, neste curso, com base
no instrumento de observação participante (SCHWARTZ; ELSEN, 2003). Ao aporte
bibliográfico, recorremos à autores como Prazeres (2008), Teixeira (2008), Trindade
(2010) e outros.

DESENVOLVIMENTO
As proposições do formato Regime de Alternância apresentam elementos
comuns com a Pedagogia da Alternância, que é realizada nas Escolas Famílias
(EFAs), Casas Familiares Rurais (CFRs) e espaços formativos de movimentos
sociais vinculados à Via Campesina, e é elemento fundamental da Educação do
Campo, especialmente tratando-se dos cursos de nível médio e superior.
Em meados da década de 30, na França, dadas especificidades das
populações rurais desse país, inicia-se a pauta educacional baseada em três

1 Licenciado em Educação do Campo com habilitação para a área de Linguagens e Códigos;


Mestrando em Educação pelo PPGE da Unicentro. Email: themacphisto@gmail.com
2 Doutor em Educação pela Universidade Federal do Paraná; Docente do Departamento de
Pedagogia (Guarapuava) da Unicentro. Email: marcosgehrke@gmail.com
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aspectos principais: as questões psicossociais dos adolescentes; o desenvolvimento
social e econômico de cada região; a formação profissional em atividades agrícolas.
Desse modo, a Pedagogia da Alternância propunha uma organização em que
se alternavam tempos em que os jovens permaneciam na escola e tempos em que
estes ficavam na propriedade com a família, o tempo escola e o tempo família. A
finalidade da proposta era conciliar os estudos com o trabalho na propriedade da
família. Teixeira (2008), verifica que no Brasil, está proposta chega no final da
década de 60, com a fundação de três EFAs. A partir deste período, esse formato
passa a ser desenvolvido e ganhar espaço na educação brasileira por meio de
diversas EFAs e CFRs, conforme afirma Prazeres (2008). Articulados com as
práticas educativas dos diversos movimentos sociais, reunindo experiências, é um
exemplo de prática que objetiva fortalecer alternativas educacionais que atendam as
necessidades e os desafios pautados pelo momento histórico.
O Regime de Alternância é a forma de organização curricular que prevê
etapas presenciais denominadas Tempo Escola e etapas nos locais de origem dos
educandos, o Tempo Comunidade. No caso da LEdoC-Unicentro, o conjunto de duas
dessas etapas, TE seguido de TC, equivaliam a semestres dos cursos de graduação
regulares. Considerando que o TE pressupõe a necessidade de organização coletiva
para realização das atividades, visto que não apenas o período de aula, mas toda a
vida dos educandos, nesse período de tempo, ele é organizado em diversos tempos
educativos (das aulas, aos tempos de estudo, leituras, seminários, oficinas,
atividades culturais, recreação, organização do grupo e espaços, e outros), com
intuito de possibilitar a vivência coletiva e cumprimento das tarefas necessárias.
Os tempos educativos visam contribuir no processo de organização
(acento maior no tempo escola) e auto-organização [sic] dos
educandos (acento maior no tempo comunidade). É um exercício de
aprender a organizar o tempo pessoal e o tempo coletivo em relação
às tarefas necessárias. É um meio para se garantir os fins que se
deseja alcançar, levando-os a gerir interesses, estabelecer
prioridades, assumir compromissos com responsabilidade. Pois
educar o ser humano significa capacitá-lo para utilizar o seu tempo
imediato (ITERRA, 2004, p. 23).

Almeida e Antônio (2008, p. 28) observam que o TE é o período em que “os


estudantes estão juntos na Universidade ou em outro local, onde se desenvolvem e
as aulas e orientações para trabalhos práticos nas comunidades de origem e para o
desenvolvimento de todos os outros tempos educativos”, apresentando assim o
caráter de complementariedade dos tempos educativos, mas a impossibilidade de
tratá-los em separado.

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Essa proposta demonstra não só uma oportunidade de acesso dos sujeitos do
campo à educação, mas seu protagonismo em apresentar a demanda, e alternativas
para sua efetivação.
Nas palavras de Molina e Sá
Ao organizar metodologicamente o currículo por alternância entre
tempo escola e tempo comunidade, a proposta curricular do curso
objetiva integrar a atuação dos sujeitos educandos na construção do
conhecimento necessário à sua formação de educadores, não
apenas nos espaços formativos escolares, mas também nos tempos
de produção da vida nas comunidades onde se encontram as
Escolas do Campo. [...] Esta metodologia de oferta intenciona
também evitar que o ingresso de jovens e adultos na educação
superior reforce a alternativa de deixar de viver no campo, bem como
objetiva facilitar o acesso e a permanência no curso dos professores
em exercício (2012, p. 468)

Trindade (2010), entretanto, afirma que, ainda que a Pedagogia de


Alternância beneficie os sujeitos que estão em uma condição à margem do comum
em nossa sociedade, o torna passível às mesmas condições que o trabalhador
urbano vê em sua perspectiva formativa: a educação como ferramenta de
profissionalização da lógica capitalista.
A partir dessa ótica, a alternância se configura como estratégia capitalista
para os povos do campo, mascarando as contradições sociais vigentes. “Para a
burguesia a educação deve mediar a adequação ao meio e não a transformação
deste” (TRINDADE, 2010, p. 73). Em oposição, podemos observá-la como
ferramenta que, ao ser utilizada pelos Movimentos Sociais, na busca da formação
humana e de sua emancipação, e sinalizam para um projeto de educação e de
sociedade. O desafio da pesquisa é analisar as potencialidades e limitações dessas
experiências.
Do ponto de vista legal, a alternância tem sua possibilidade assegurada pela
Lei Federal 9394/96, artigo 23, na qual:
A educação básica poderá organizar-se em séries anuais, períodos
semestrais, ciclos, alternância regular de períodos de estudos,
grupos não-seriados, com base na idade, na competência e em
outros critérios, ou por forma diversa de organização, sempre que o
interesse do processo de aprendizagem assim o recomendar
(BRASIL, 1996).

Molina destaca ainda alguns outros documentos para respaldar legalmente tal
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proposta:
Diretrizes Operacionais para a Educação Básica nas Escolas do
Campo (Doebec nº 1 e nº 2, de 2002 e 2008 respectivamente),
expedidas pela Câmara de Educação Básica (CEB), do Conselho
Nacional de Educação (CNE); o parecer nº 1, de 2006, também
expedido pela CEB, que reconhece os dias letivos da alternância; e,
mais recentemente, o decreto nº 7.352, de 2010, que dispõe sobre a
Política Nacional de Educação do Campo e sobre o Programa
Nacional de Educação na Reforma Agrária (Pronera) (2012, p. 454).

Assumindo as características mais gerais dos projetos dos cursos de


Licenciatura em Educação do Campo, Pedagogia da Terra e demais cursos de nível
médio organizados na perspectiva da Educação do Campo, a LEdoC da Unicentro
incorpora, entre toda a abrangência disso, a alternância. Avaliamos positivamente tal
proposição, dada a possibilidade de estabelecer uma relação dialética entre teoria-
prática, enquanto elemento fundamental da leitura e apropriação dos conhecimentos
necessários à interpretação e transformação da realidade objetiva. Por outro lado, a
organização curricular do Tempo Escola, em não prever os tempos educativos como
carga horária do curso, atrapalhou o funcionamento do mesmo, descaracterizando
sua intencionalidade pedagógica.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Não pretendemos esgotar o tema, ou mesmo trazer todos os fatores
envolvidos na construção das práticas do Regime de Alternância, mas sim reunir
alguns elementos para introduzir uma abordagem no tema, considerando a
experiência da LEdoC na Unicentro. Destaca-se a diferença entre Pedagogia da
Alternância e Regime de Alternância, sendo que o primeiro rege diversas
experiências de formação na Educação do Campo.
Acreditamos que a organização de um processo formativo, pela alternância,
permite aos sujeitos envolvidos, incorporar, em seu desenvolvimento dimensões
como a técnica, dos conhecimentos científicos, aspectos próprios da formação
humana como a coletividade, a convivência, a solidariedade, troca de experiências
entre outras. Além do auto reconhecimento, enquanto sujeito do campo que,
necessita de organizar e lutar pelos seus direitos.

REFERÊNCIAS

GONÇALVES, A. N. et al (org.). Práticas de iniciação à docência: relações entre a


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licenciatura em educação do campo e a escola do campo. 1ª ed. Guarapuava:
Unicentro, 2014.
SCHWARTZ, Eda; ELSEN, Ingrid. Observação participante: uma metodologia para
conhecer o viver, o adoecer e o cuidar das famílias rurais. Família, Saúde e
Desenvolvimento, v. 5, n. 1, 2003.
PRAZERES, M. S. C. Educação do campo e pedagogia da alternância:
possibilidades educativas para o campo da Amazônia. UFPA – Campus Universitário
de Tocantins – Cametá, 2008. Disponível em <http://dx.doi.org/10.1590/S1517-
97022008000200002>
TEIXEIRA, E. Estudos sobre pedagogia da alternância no Brasil: revisão de
literatura e perspectivas para a pesquisa. Revista Educação e Pesquisa. v. 34 n. 2.
São Paulo, maio/ago, p. 227-242, 2008.
TRINDADE, G. A. O trabalho e a pedagogia da alternância na Casa Familiar
Rural de Pato Branco/PR. Dissertação (Educação no Centro de Ciências da
Educação) Universidade Federal de Santa Catarina. Florianópolis, 2010.
ITERRA – Instituto Técnico de Capacitação e Pesquisa da Reforma Agrária.
Instituto de Educação Josué de Castro: Cadernos do ITERRA. Veranópolis, RS:
ITERRA, 2004.
ALMEIDA, Benedita; ANTONIO, Clésio Acilino; ZANELLA, José Luiz (Orgs.).
Educação do Campo: um projeto de formação de educadores em debate. –
Cascavel: EDUNIOESTE, 2008.
MOLINA, Mônica Castagna. Legislação educacional do campo. In. CALDART, RS; et
al (org.) Dicionário da Educação do Campo. Rio de Janeiro, São Paulo: Escola
Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio, Expressão Popular, p. 585-594, 2012.

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