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A ação penal

INTRODUÇÃO

A ação penal é um instituto do Código de Processo Penal que garante ao Estado a persecução penal dos
indivíduos que praticam infração penal. Mais do que isso, é a garantia de que o infrator não passará
impune por crimes praticados no seio da sociedade.

Por meio da ação penal, este trabalho irá tratar dos aspectos mais importantes que constituem o estudo
da Ação Penal, seja ela pública condicionada ou incondicionada, seja ela privada exclusiva,
personalíssima ou subsidiária da pública.

Desde aspectos conceituais até quem possui legitimidade para dar início. Características e princípios
também serão estudados.

1. AÇÃO PENAL

1.1 Conceito

O direito à ação penal é o direito concedido ao indivíduo, de natureza penal/constitucional, de acionar


o Estado-Juiz para realizar a aplicação da Lei Penal ao caso real.

Conforme lição de Nestor Távora e Fábio Roques em Código de Processo Penal Comentado (2015, p. 54),
a ação penal é “direito público subjetivo, autônomo e abstrato, com previsão constitucional de exigir
do Estado-juiz a aplicação do Direito Penal Material ao caso concreto para solucionar crise jurídica...”

Possui como finalidade precípua dar base, na vida em sociedade, ao devido processo legal, que
constitui, no seio da sociedade, meio adequado e indispensável para que se sustente a condenação
criminal de algum indivíduo, possibilitando que se atinja o contraditório e a ampla defesa.

1.2 Características

1.2.1 Autonomia

A ação penal não se liga ao direito material. Para cada direito, há uma ação adequada e para a
variedade de crises existe um grande número de tutelas jurisdicionais aptas a resolvê-las.

1.2.2 Abstratividade

O direito de ação não está atrelado ao resultado do processo, podendo ela existir independente deste.

2. PÚBLICA

É a ação penal cuja titularidade pertence ao Ministério Público. Encontra previsão no art. 24 do Código
de Processo Penal - CPP

“Art. 24. Nos crimes de ação pública, esta será promovida por denúncia do Ministério Público, mas
dependerá, quando a lei o exigir, de requisição do Ministro da Justiça, ou de representação do ofendido
ou de quem tiver qualidade para representá-lo.

§ 2o. Seja qual for o crime, quando praticado em detrimento do patrimônio ou interesse da União,
Estado e Município, a ação penal será pública”.

2.1 Princípios

2.1.1 Obrigatoriedade ou compulsoriedade


É necessária a existência de prova da materialidade do crime, combinada com indícios razoáveis de
autoria ou participação e, assim, o Ministério Público é obrigado a oferecer a ação.

2.1.2 Indisponibilidade

Conforme melhor lição dos doutrinadores Távora e Roque, (2015, p. 55), quando se oferece a ação
penal, há sempre a necessidade de o Ministério Público permanecer na relação processual.

No caso de formar sua convicção pela inocência do réu, poderá requerer sua absolvição, mas não
poderá, de fato, desistir da ação penal. Tal entendimento também se aplicará na situação em que
houver recurso interposto pelo MP, já que se trata de consequência natural da ação penal, conforme
veremos no art. 42 do CPP: O Ministério Público não poderá desistir da ação penal.

2.1.3 Indivisibilidade:

Em caso de existir justa causa, é obrigatório que se impute os fatos a todos que serão investigados na
etapa anterior ao processo, sob pena de gerar arquivamento implícito.

Segundo entendimento do STF e do STJ, a ação penal pública se submete ao princípio da divisibilidade,
dando-se a possibilidade de se aditar a denúncia se necessário.

2.1.4 Intranscendência ou da pessoalidade:

Não passam da pessoa do réu, por conta do que está previsto no art. 5º, XLV, da Constituição
Federal/88:

“XLV - nenhuma pena passará da pessoa do condenado, podendo a obrigação de reparar o dano e a
decretação do perdimento de bens ser, nos termos da lei, estendidas aos sucessores e contra eles
executadas, até o limite do valor do patrimônio transferido;”

2.1.5 Oficialidade

A existência deste princípio se dá pelo fato de a ação ser da titularidade de um órgão do Estado, no
caso, o Ministério Público.

2.1.6 Autoritariedade

Esse princípio se dá por conta do Ministério Público, que se constitui numa autoridade capaz de dar
início à ação.

2.1.7 Oficiosidade

Segundo Nestor Távora e Fábio Roques (2015, p.56), a ação penal pública, por caber ao membro do
Ministério Público, se constitui num dever-poder e, assim, só poderá acontecer quando estiver presente
as condições exigiras, tais como representação do ofendido ou requisição do Ministro da Justiça.

2.2 Incondicionada

Na ação penal pública incondicionada, o Ministério Público agirá de ofício, sem provocação, conforme
melhor lição do Código de Processo Penal: Art. 24. Nos crimes de ação pública, esta será promovida por
denúncia do Ministério Público.

2.3 Condicionada

Já a condicionada, prescinde de representação da pessoa que foi ofendida ou de requisição do Ministro


da Justiça, de acordo com o art. 24, do CPP “...mas dependerá, quando a lei o exigir, de requisição do
Ministro da Justiça, ou de representação do ofendido ou de quem tiver qualidade para representá-lo.”

2.4 Condições para a instauração da ação penal pública


2.4.1 Representação (delatio criminis postulatória):

Para que se deflagre a ação em comento, basta manifestação inequívoca de vontade do ofendido para
deflagrar a persecução penal. Não é necessário que haja rigor formal no pedido, pois uma única notícia
à autoridade policial já valida exercício do direito.

Já no caso de morte, quem representará será, conforme o art. 24 do Código de Processo Penal,
preferencial e taxativamente, o cônjuge, ascendente, descendente ou irmão: § 1o No caso de morte do
ofendido ou quando declarado ausente por decisão judicial, o direito de representação passará ao
cônjuge, ascendente, descendente ou irmão.

O prazo da ação será de 6 meses, a partir do momento em que se tem conhecimento do autor ou
partícipe da infração penal. Este prazo será decadencial. Se o representante legal não representar,
ocorrerá a extinção da punibilidade.

É permitido que a vítima se retrate da representação feita desde que esse arrependimento se dê antes
do oferecimento da denúncia. A retratação da retratação da representação, dentro dos 6 meses também
é permitida, se o ofendido não agir de má-fé.

Já no caso da Lei Maria da Penha, os autores Nestor Távora e Fábio Roques dizem que a renúncia só
poderá ser feita até que se receba a denúncia, numa audiência que se designe especificamente com
esse objetivo, desde que presentes o magistrado e o membro do Ministério Público.

O MP, em sua independência funcional, não se vincula à peça informativa, podendo utilizar seu juízo de
privado, nada impedindo que arquive a peça de informação ou que enquadre o fato a tipo penal distinto
do que ficou na representação.

2.4.2 Requisição do Ministro da Justiça

Se faz através de um pedido-autorização, que dá início à ação penal de determinados delitos e


constitui-se numa condição de procedibilidade ou especial da ação.

Não existe prazo decadencial para a requisição ser formulada, só tendo que observar-se o prazo
prescricional da infração penal, conforme o art. 109

Não há prazo decadencial para que haja requisição, assim, poderá ser apresentada a qualquer tempo,
observando, contudo, o prazo prescricional da infração penal.

Segundo segmentos específicos da doutrina processual penal, é possível que se realize a retratação, por
paralelo ao instituto da representação. Já a outra parte da doutrina, defende que não é possível por
gerar uma fragilização do Estado e da figura do Presidente da República.

Acrescenta, ainda, Mirabete, que “embora seja ela um ato administrativo e inspirado por razões de
ordem política, a requisição deve ser um ato revestido de seriedade e não fruto de irreflexão, leviana
afoiteza ou interesse passageiro”.

3. PRIVADA

A ação privada ocorre quando o representante legal ou ofendido é autor. Assim, o ofendido deverá
apresentar queixa-crime, que constitui peça privativa de um advogado, devendo este ser constituído por
procuração com poderes específicos para tanto.

Neste caso, o ofendido deverá oferecer queixa-crime, peça privativa de advogado, que será constituído
por meio de procuração com poderes específicos para tanto.

3.1 Princípios

3.1.1 Oportunidade
A ação penal privada está contida na conveniência ou oportunidade do seu titular ativo, ou seja, vítima
ou quem o represente legalmente, que não serão obrigados a deflagrar a ação penal. A oportunidade
lida com a ação penal antes mesmo de esta ser instaurada.

3.1.2 Decadência:

Segundo lição de Nucci, (2014, p. 161), a decadência significa a perda da opção de o ofendido ou seu
representante ter por instaurar a ação penal privada pelo decurso do tempo de 6 meses.

A decisão, no caso, será de mérito e formará coisa julgada material, que declarará, ainda, a extinção da
punibilidade em relação aos participantes, isto é, autores, coautores e partícipes da infração penal.

O prazo decadencial não se suspende, posterga e nem interrompe, nem se prorroga.

3.1.3 Renúncia

É quando, por declaração da vítima, ela renuncia expressamente, ou pratica um ato no qual se perceba
flagrantemente que não se coadune com a intenção de ver o processamento do delito, também
conhecida como renúncia tácita.

Da renúncia, será prolatada sentença de mérito (coisa julgada material) que declara extinta a
punibilidade em relação aos participantes (autor, coautor ou partícipe) da infração.

Uma vez que a renúncia é ofertada a um, ela se estende aos demais infratores, já que a ação penal
privada é norteada pelo princípio da indivisibilidade, conforme art. 49 do CPP: A renúncia ao exercício
do direito de queixa, em relação a um dos autores do crime, a todos se estenderá.

3.1.4 Princípio da disponibilidade

Quando deflagrada a ação penal privada, a vítima poderá desistir do seu processamento até o trânsito
em julgado da sentença, ressaltando o princípio da oportunidade anteriormente mencionado.

3.1.5 Perdão

Perdão expresso consiste na declaração que a vítima pode fazer por não querer prosseguir com a ação
penal. Já o tácito, é aquele no qual ela age de forma que não dá a entender que quer levar o processo à
frente.

O perdão acarreta uma sentença de mérito que forma coisa julgada material e declara também a
extinção de punibilidade em relação aos infratores.

É necessário que haja a aceitação do destinatário, que pode ser expresso ou tácito, de forma que o
destinatário deve aceitar ou não no prazo de 3 dias. No caso de aceitar, terá que declarar
expressamente. No caso de não aceitar e não declarar que não aceita, o aceite se dará de maneira
tácita.

3.1.6 Perempção

É verificada quando ocorre um desleixo quanto ao impulsionamento da ação, isto é, desídia do autor da
ação em praticar ato necessário ao andamento adequado do processo, vejamos o art. 60 do CPPB:

“Art. 60. Nos casos em que somente se procede mediante queixa, considerar-se-á perempta a ação
penal:

I - quando, iniciada esta, o querelante deixar de promover o andamento do processo durante 30 dias
seguidos;

II - quando, falecendo o querelante, ou sobrevindo sua incapacidade, não comparecer em juízo, para
prosseguir no processo, dentro do prazo de 60 (sessenta) dias, qualquer das pessoas a quem couber
fazê-lo, ressalvado o disposto no art. 36;
III - quando o querelante deixar de comparecer, sem motivo justificado, a qualquer ato do processo a
que deva estar presente, ou deixar de formular o pedido de condenação nas alegações finais;

IV - quando, sendo o querelante pessoa jurídica, esta se extinguir sem deixar sucessor”.

Se houver mais infrações, pode acontecer a perempção quanto a apenas algumas delas. Quanto à
existência de diversos querelantes, a perempção em razão de parte deles não prejudica os demais.

O efeito natural da perempção é a sentença de mérito que forma coisa julgada, declarando a extinção
da punibilização em relação aos praticantes do delito.

3.1.7 Indivisibilidade

Não é possível que ela seja fracionada em relação aos infratores, isto é, a vítima que quiser exercer a
ação penal em relação a um, deverá exercer em relação a todos os conhecidos nas infrações penais.

O Ministério Público atua como custos legis, devendo garantir a obediência da indivisibilidade.

3.1.8 Intranscendência ou da pessoalidade

Os efeitos da ação penal não passam da pessoa do réu.

3.2 Exclusiva

A vítima, seu representante legal e seus sucessores podem ajuizar.

3.3. Personalíssima

Somente a vítima e seu representante legal podem ajuizar (art. 31 do CPP).

3.4 Subsidiária da pública

A vítima, seu representante legal ou sucessores podem ajuizar, desde que, em casos de ação pública, o
Ministério Público não ofereça denúncia no prazo legal. Conforme Guilherme de Souza Nucci, em Manual
de Direito Processual Penal, (2014, p. 170) “quando o ofendido, porque o Ministério Público, sem agir
como deveria, deixa escoar o prazo para o oferecimento da denúncia, age em seu lugar, apresentando
queixa, conforme já exposto”. Está prevista no art. 5º, LIX, da Constituição Federal: será admitida ação
privada nos crimes de ação pública, se esta não for intentada no prazo legal.

CONCLUSÃO

Conclui-se, por meio da realização do trabalho, que as ações penais constituem se em um meio hábil e
fundamental para a deflagração do processo.

É o meio que o Estado tem de apurar adequadamente os casos concretos que foram investigados por
ocasião do Inquérito Policial e dar vazão ao devido processo legal, princípio constitucional tão relevante
no ordenamento jurídico.

É necessário que se realize sempre dentro da lei para resguardar princípios tão importantes quanto o da
indisponibilidade, da autonomia e da oportunidade, por exemplo, que norteiam a deflagração da Ação
Penal.

Ação penal privada e sua importância social


Introdução

Entre as manifestações da soberania do Estado há o jus puniendi, o direito estatal de impor a sanctio
juris a quem infringir as normas penais.

Todavia, em determinados casos, em virtude de bens ou interesses tutelados pelos dispositivos penais,
de cuja natureza referem-se predominantemente particular, não cabe ao ente estatal a iniciativa da
busca da prestação jurisdicional.

Nestes casos, é indispensável a participação da vítima ou de seu representante legal para a imposição
das medidas punitivas ao agente delituoso.

A legitimidade da submissão supra-mencionada da prestação jurisdicional do Estado é contestada por


alguns doutrinadores, de modo que há ordenamentos jurídicos em que não estabelecem esta modalidade
de ação penal.

1. A vingança privada e o jus puniendi do Estado

Nos períodos remotos da humanidade, na ocorrência de alguma conduta considerada delituosa, não
havia Estado para impor uma determinada punição ao infrator.

A vítima era quem deveria punir o agente delituoso, tendo em vista que nesta época aquele era
considerado legítimo a agir e, se preciso, inclusive com o amparo da sua família e até do seu grupo.

Entre as penas impostas, haviam o banimento, caso o agressor fosse membro da mesma tribo, e se
fossem membros de grupos distintos, poderiam resultar em um conflito entre suas tribos.

Em conseqüência da evolução social, o Estado surge para regulamentar as condutas dos cidadãos,
estabelecendo os seus deveres, além dos seus direitos.

Caso o indivíduo venha a desobedecer as normas estatais, estará sujeito à coação do Estado, em face da
lesão ao direito de outrem. Não cabe mais ao ofendido punir o agressor, e sim ao Estado. Portanto,
quando a conservação da ordem jurídica encontra-se ameaçada, este irá intervir na vida individual,
mediante diversos meios.

Em face da ineficácia dos outros mecanismos, como a sanção civil e a administrativa, o Estado utilizará
o jus puniendi, o direito de punir os infratores, considerado uma das expressões da soberania. O jus
liberatis perante a vida individual deixa de ser inabalável, mediante a ação estatal em impor ao
transgressor uma pena em face da sua conduta inadequada.

Entretanto, a imposição penal não é a solução para todas as transgressões. Em determinadas situações
a tutela extrapenal alcança maior eficiência que os dispositivos penais.

Diante das condutas indesejadas socialmente, encontram-se as que, por violarem os bens ou interesses
devidamente tutelados pelo Estado em face da sua relevância, são gravemente punidas, mediante as
infrações penais.

No momento em que alguém pratica alguma conduta tipificada como delituosa, o jus puniendi perde o
seu aspecto abstrato para tornar-se concreto, através da pretensão punitiva.

Todavia, o que torna o Estado legítimo para a aplicação da sanção penal?

O Estado surgiu para suprir as necessidades advindas do convívio social. Diante de condutas que venham
a ameaçar a ordem pública, os bens ou interesses devidamente tutelados pelo Estado, a este compete o
direito de prevenir, e se preciso, reprimir tais atos indesejados.

A partir do momento em que o direito subjetivo do Estado de aplicar a sanctio juris for resistido pelo jus
libertatis do hipotético autor do delito, surge a lide penal.
Para solucionar o conflito de interesses, ou seja, compor o litígio, o Estado utiliza a sua função
jurisdicional mediante o processo. Todavia, a atuação estatal não é através de sentimento vingativo,
como ocorre na vingança privada. Há uma submissão aos preceitos legais da mesma resultando, sem
dúvida, em uma conquista democrática. A auto-limitação do poder punitivo, justifica-se pelo repúdio do
emprego de força, ou seja, a mesma fundamentação que impede o ofendido de utilizar os seus próprios
meios para reprimir o infrator.

Embora o Estado seja o titular do direito de punir, há determinadas condutas ilícitas em que o início da
ação penal fica totalmente a disposição do ofendido. Trata-se da ação penal privada, um tema criticado
em face da limitação do poder estatal de punir, privilegiando a vontade do particular em detrimento da
deliberação do próprio Estado.

2. Peculiaridades da ação penal privada

Visando uma maior compreensão sobre o referido tema, se torna necessário um breve estudo sobre a
particularidade desta ação penal, como o exercício do direito de queixa e a fundamentação dos seus
princípios norteadores.

Tendo em vista que os bens e interesses tutelados pela ação penal privada são predominantemente de
natureza individual, a prestação jurisdicional encontra-se limitada pela participação do particular.
Todavia, o direito de queixa será exercido somente pelo ofendido?

Segundo o art. 30 do Código de Processo Penal, como também o § 2º do art. 100 do Código Penal, a ação
penal privada será promovida pelo ofendido ou por quem tenha qualidade para representá-lo.

Vale salientar também a importância do acesso à justiça a quem não possui condições financeiras de
arcar com honorários advocatícios sem privar-se dos recursos indispensáveis ao próprio sustento e a sua
família, pois o juiz nomeará advogado para promover a ação penal privada, em caso de requerimento da
parte que comprovar a sua pobreza, como consta o caput do art. 32, dispositivo relevante em face da
insuficiência da Defensoria Pública no atendimento à população carente.

O Código de Processo Penal estipulou alguns requisitos sobre a legitimidade da competência do exercício
do direito de queixa.

O ofendido maior de 18 anos e menor de 21 anos pode promover a referida ação, como também o seu
representante legal, conforme o art. 34 do supra-mencionado código. Visando a uma maior repressão às
condutas delituosas, o legislador, sabiamente, autoriza a qualquer um deles a ajuizar com a ação penal
privada, mesmo ocorrendo a oposição do outro.

O menor de 18 anos, ou mentalmente enfermo, ou retardado mental, todavia, não são capazes de
promover a ação, de modo que o seu referido direito poderá ser exercido pelo seu representante legal.
Caso não o tenha, ou se ocorrer divergências de interesses, o juiz nomeará um curador especial, que lhe
competirá a necessidade ou não de ingressar com a queixa, conforme o art. 33 do código em questão.

Na morte do ofendido ou na sua declaração de ausência judicial, conforme o art. 31 do diploma


processual penal, o direito de queixa será transferido ao cônjuge, ascendente, descendente ou irmão.

Caso compareça mais de uma pessoa com direito de queixa, a ordem de preferência inicia-se com o
cônjuge, e posteriormente ao parente mais próximo na ordem determinada no art. 31. Entretanto, se o
querelante desistir da instância ou abandonar, qualquer pessoa na ordem de preferência poderá
prosseguir na ação, segundo determina o art. 36 do referido código processual.

Segundo o seu art. 35, a mulher casada somente exercerá o direito de queixa com o consentimento do
marido, a não ser que esteja separada dele e que a ação em questão tenha como agressor o seu
cônjuge. E no caso deste recusar, o juiz poderá suprir o seu consentimento.

Entretanto, diante dos direitos igualitários estipulados na Constituição Federal de 1988, tal dispositivo
não foi recepcionado pela norma constitucional.

O direito de queixa pode ser exercido também por pessoas jurídicas, conforme o art. 37 do diploma em
questão, sendo, todavia, representados por quem os respectivos contratos ou estatutos designarem ou,
na omissão destes dispositivos, pelos seus diretores ou sócios-gerentes.
Diante das restrições impostas para o Estado exercer o jus puniendi, o oferecimento da queixa possui
prazo decadencial de 6 meses, a contar da data em que tiver ciência da autoria do delito, ou em caso
de ação penal privada subsidiária, do dia em que se esgotar o prazo para oferecimento de denúncia,
conforme dispõe art. 38 do CPP.

Ademais, o representante do Ministério Público possui o prazo de 3 dias para aditar a queixa, a partir da
data em que receber os autos. Caso não se pronuncie, será dado prosseguimento ao feito, como consta
no §2º do art. 46 do código em questão.

É notório que a procedência de uma queixa depende da observância dos dispositivos referentes ao
exercício do jus puniendi. Portanto, será rejeitada, assim como em caso de denúncia, segundo
determina o art. 43 do CPP, quando o fato narrado evidentemente não constituir crime; em caso de
extinção de punibilidade e, por fim, de manifesta ilegitimidade da parte ou falta de condição exigida
legalmente para o exercício da ação penal, salientando ainda, no último caso mencionado, a
possibilidade de impetrar novamente desde que promovida por parte legítima ou satisfeita a condição.

Segundo o art. 44, a queixa poderá ser impetrada por procurador com poderes especiais, desde que
constem no instrumento procuratório o nome do querelado e a menção ao fato criminoso, salvo quando
depender de diligências que devem ser previamente requeridas judicialmente.

Da mesma forma que compete ao ofendido o direito de promover a ação penal privada, aquele também
poderá renunciar este direito. Tal ocorrência encontra-se devidamente protegida pelos princípios da
conveniência e o da disponibilidade que regem esta modalidade de ação penal. Por diversos motivos,
pode o ofendido não desejar a prestação jurisdicional, de modo que é perfeitamente aceitável a sua
renúncia, seja de forma expressa ou tácita.

Entretanto, vale salientar que a renúncia do seu direito de buscar a proteção jurídica deve abranger
todos os infratores. É o que consta no art. 49 do diploma processual penal.

Outro método de extinção é o perdão do ofendido, em que poderá ocorrer após iniciado a ação penal
privada exclusiva, desde que a sentença condenatória não tenha transitado em julgado. Caso a vítima
promova a queixa e posteriormente venha a se arrepender, seria inconveniente a continuação do
processo penal, tendo em vista que a ausência do litígio.

Assim como a renúncia, o perdão abrange todos os infratores. Entretanto, conforme o art. 58 do supra-
mencionado diploma, para que este ocorra é necessário que o agente infrator o aceite, de modo que o
seu silêncio resulta na aceitação tácita.

Além disto, o ofendido poderá abandonar a causa, segundo o art. 60, inciso I e III, do código em
questão.

Diante do exposto acima, nota-se algumas distinções entre a ação penal privada e a pública.
Basicamente, a principal diferença refere-se a sua legitimidade. Desta forma, se for pública, o
representante do Ministério Público deverá atuar, enquanto que, se for privada, caberá ao ofendido ou
quem legalmente o represente o direito de promovê-la ou não.

Esta distinção ocorre em virtude dos princípios que regem estas ações. Na ação penal privada, há o
princípio da disponibilidade e o da oportunidade ou conveniência, competindo facultativamente ao
particular invocar a prestação jurisdicional. E, mesmo que a promova, poderá tanto perdoar o agressor
como também abandonar a lide. Por sua vez, na pública isto não ocorre. O órgão do Parquet deverá
promovê-la, não cabendo em hipótese alguma, dispor a referida ação, em conformidade com o princípio
da indisponibilidade.

A ação penal privada também é regida pelo princípio da indivisibilidade, se tratando da impossibilidade
da queixa referir-se a apenas um ou alguns infratores, quando o delito for cometido por mais agentes.
Mesmo assim, caso o ofendido não cumpra o referido princípio, o representante do Ministério Público,
segundo o art. 48 do diploma processual penal, interferirá, aditando a queixa.

Há divergências sobre a conseqüência e amplitude do mencionado princípio. Alguns doutrinadores


afirmam que a ação penal pública também é regida por este preceito geral. Todavia, há o entendimento
contrário, como o seguinte posicionamento jurisprudencial:
“Não há que se falar em nulidade pelo fato de não ter sido incluído na denúncia outro agressor da
vítima, vez que o princípio da indivisibilidade se aplica às ações penais de iniciativa privada”. 1

Na ação penal pública, caso o Promotor de Justiça deixe de denunciar todos os infratores, a denúncia
poderá ser aditada posteriormente, após a apuração dos fatos.

Por fim, há também o princípio da intranscedência, cuja amplitude abrange tanto a ação penal privada
como também a pública. Trata-se pela limitação da ação em penalizar apenas o infrator.

3. Ação penal privada: o retorno da vingança privada?

A função punitiva estatal deve ser exercida visando a regeneração do autor do delito, como também a
proteção social.

Temendo uma depreciação da finalidade da aplicação do jus puniendi, diversos doutrinadores repudiam
a ação penal privada.

Vários ordenamentos jurídicos consideram a referida intervenção do particular no processo penal como
uma regressão à vingança privada.

Além do direito francês e o mexicano, o sistema italiano também não reconhece tal instituto, embora
seja admitida em alguns delitos que a ação penal seja, de certa forma, subordinada ao ofendido,
podendo inclusive, este extinguir o processo mediante o perdão.

Seguindo o entendimento dos doutrinadores que rejeitam a ação penal privada, o Direito Penal, por
possuir natureza pública, e de evidente e notório interesse social, não deve se submeter à vontade do
particular. Esta, que foi bastante empregada anteriormente, desempenhada por meios vingativos, sem o
menor interesse na reeducação do infrator, deve ser totalmente irrelevante.

É inconcebível que, após toda a evolução socio-jurídica, o Estado venha a permitir o retorno da vingança
privada, sob a dissimulação de uma ação penal.

O Direito Penal é um dos ramos jurídicos de direito público, de extrema importância social. O seu
exercício deve ocorrer somente nos casos em que os demais meios de coação mais brandas, como as
civis e administrativas, são ineficazes. Portanto, a intervenção mínima do direito penal comprova sua
importância na sociedade, de modo que deve ser repelida qualquer submissão do poder estatal em favor
de interesse particular.

Prosseguindo este posicionamento, a ação penal privada é inviável, tendo em vista a limitação
resultante do jus puniendi, expressão da soberania estatal.

Ocorre que tais pensamentos estão incoerentes. Em determinadas condutas ilícitas, em face das suas
características, não cabe ao Estado a busca pela punição ao infrator, e sim ao particular.

Tal fato não se trata de uma regressão do convívio social, que consagra ao Estado o jus
puniendi. Resulta pelas circunstâncias peculiares de determinados bens e interesses tutelados, que
ocasionariam conseqüências desagradáveis aos seus titulares na publicidade dos fatos.

Desta forma, em face da predominância do interesse particular sobre o social, o Estado permite ao
cidadão o direito de invocar a prestação jurisdicional.

A ação penal, em momento algum, deixará de ser pública, tendo em vista que somente a iniciativa será
particular, como ensina o prof. MARCOS DE HOLANDA:

“Antes de mais nada, devemos esclarecer que, de espírito, toda ação é pública, pois sob o encargo do
Estado. A iniciativa da ação aqui ora estudada é que é privada. Não é o particular quem irá fazê-la.
Pelo contrário, ele pede ao Estado-juiz sua procedência”.2

É totalmente inadequada a comparação da vingança privada com a ação penal privada. Naquela, a
própria vítima, e em alguns casos, com o auxílio da sua tribo, irá executar a pena que lhe convier.
Nesta, o particular requer do Estado-juiz a prestação jurisdicional, de conformidade com os dispositivos
legais. Na vingança privada.

Além disto, o representante do Ministério Público acompanhará a lide, embora a sua


participação limite-se a sua função de fiscal da lei, visando o interesse estatal em

solucionar os litígios apresentados em juízo. Segundo o art. 45 do Código de Processo

Penal, o representante do Parquet, aditará a queixa e, se preciso, irá intervir no processo.

4. A importância da ação penal privada na sociedade

Como vimos, a ação penal privada refere-se a condutas ilícitas que afetam predominantemente
interesses individuais, de modo que cabe ao ofendido ou seu representante legal iniciar o processo
penal, em busca da prestação jurisdicional.

Nesta modalidade de ação penal, o direito de punir permanece ao Estado. O ofendido possui apenas a
concessão do direito de promover a inicial que irá desencadear a prestação jurisdicional, que no caso,
chama-se queixa crime ou simplesmente queixa.

Tendo em vista que as partes da lide são os diretamente interessados, é evidente a necessidade da
participação do ofendido ou de seu representante legal nas ações referentes a delitos caracterizados
pela predominância dos danos oriundos de natureza particular.

Isto não significa que tais delitos sejam irrelevantes ao Estado, abandonando o seu direito de buscar
o jus puniendi.

Ocorre que tais condutas delituosas resultam em um escasso dano a sociedade comparado-se aos danos
ao indivíduo. Além disto, a publicidade dos delitos como ocorreria nas ações penais públicas, sem o
consentimento da vítima, resultaria certamente em um constrangimento, tais até em alguns casos, de
maior intensidade do que a própria conduta delituosa.

Caso o jus puniendi do Estado em relação a estes delitos dependessem somente da atuação do
representante do Ministério Público, assim como ocorre nas ações penais públicas, certamente iria
resultar em uma intensa redução no exercício da prestação jurisdicional do Direito Penal. Ora, estes
delitos são praticados geralmente de forma obscura, além de violar predominantemente bens e
interesses individuais, como o adultério e estupro.

Torna-se necessária uma análise sobre os delitos estipulados pelo nosso ordenamento jurídico cujo jus
persequendi in judicio compete ao indivíduo, para analisarmos a legitimidade da participação do
particular na prestação jurisdicional.

Segundo o Código Penal Brasileiro, as ações provenientes de queixa do ofendido são referentes aos
delitos que tenham nas suas disposições, seguinte expressão: “Somente se procede mediante queixa”.

Desta forma, são os seguintes delitos:

a) Dos crimes contra a honra: calúnia, difamação e injúria, arts. 138 a 145, obedecendo as restrições
estabelecidas neste último artigo;

b) Dos crimes da usurpação: os de alteração de limites, usurpação de águas e esbulho possessório, art.
161, §1º, I e II, desde que não haja violência e se refira a propriedade particular.

c) Dos crimes de dano: quando há destruição, inutilização ou deterioração de coisa alheia, com por
motivo egoístico ou com prejuízo considerável para a vítima, como também na introdução ou no
abandono de animais em propriedade alheia, art. 163, caput, parágrafo único, IV e 164 c/c o art. 167.

d) Do estelionato e outras fraudes: na fraude à execução, art. 179 e parágrafo único.


e) Dos crimes contra a propriedade intelectual: os de violação ao direito autoral, usurpação de nome ou
pseudônimo alheio, salvo quando praticados em prejuízo de entidades de direito, arts. 184 a 186.

f) Dos crimes contra a propriedade industrial: contra as patentes, desenhos industriais, marcas, crimes
cometidos por meio de marcas, e outros, contidos nos arts. 183 a 190 e 192 a 195 da lei nº 9.279/96,
tendo em vista que tais delitos eram anteriormente estipulados no Código Penal, nos arts. 187 a 196.

g) Dos crimes contra a liberdade sexual: estupro, atentado violento ao pudor, este mediante violência
ou fraude, posse sexual mediante fraude, sedução, corrupção de menores e rapto, arts. 213 a 225,
obedecendo as restrições do § 1º, I e II do último artigo.

h) Dos crimes contra o casamento: induzimento a erro essencial e ocultação de impedimento para fins
matrimoniais e o adultério, arts. 236 e parágrafo único e art. 240. Estes delitos são os estipulados pelo
nosso sistema como os de natureza privada personalíssima, em que somente o ofendido exercerá o
direito de queixa. E mesmo na morte ou declaração judicial de ausência da vítima, este direito não
poderá ser exercido, resultando na extinção da punibilidade.

Portanto, diante dos delitos supramencionados, é evidente e notório o predomínio do interesse


particular, tendo em vista que tais condutas criminosas realmente atingem especialmente bens e
interesses individuais.

5. Motivos e conseqüências da ação penal privada subsidiária

Conforme o ordenamento jurídico brasileiro, a ação penal privada divide-se em: propriamente dita ou
exclusivamente privada, personalíssima e privada subsidiária da pública, a qual analisaremos adiante em
face da sua singularidade.

As demais ações penais privadas limitam-se aos delitos devidamente consagrados desta natureza, ou
seja, aqueles em que a sua ocorrência violam os bens e interesses individuais, predominando-os em
relação aos da comunidade. Mas, nesta ação, o seu alcance é bem mais amplo, abrangendo qualquer
delito cuja iniciativa da ação penal é de competência do representante do Ministério Público, caso este
negligencie na sua função de promover a denúncia, ultrapassando os prazos, geralmente os
estabelecidos no art. 46 do Código de Processo Penal.

Desta forma, ultrapassado o prazo, caso o indiciado estiver solto, o prazo será de 15 dias e será de 5
dias, se preso, o ofendido ou eu representante legal poderá promover a queixa, competente a substituir
a denúncia do representante do Parquet que não cumpriu o seu dever no período determinado.

Na realidade, a substituição refere-se não somente a omissão do Ministério Público em denunciar no


prazo previsto e sim a ausência da sua manifestação.

Desta forma, a finalidade da referida ação é impedir que a prestação jurisdicional seja prejudicada pela
omissão da participação do representante do Parquet, e não da ausência da denúncia. É o que
estabelece o seguinte entendimento jurisprudencial:

“Quando o titular da ação pede e obtém decisão judicial de arquivamento da representação, não há
lugar para a ação privada subsidiária, pois inexistente omissão do Ministério Público”3.

A autorização da ação penal privada nos delitos de ação penal pública encontra-se amplamente
estabelecida no ordenamento jurídico brasileiro, constando no art. 5º, inciso LVI, da Constituição
Federal de 1988, art. 29 do Código de Processo Penal e no art. 100, §3º do Código Penal.

Todavia, há intensas críticas sobre os termos utilizados pelos legisladores constitucional e infra-
constitucional.

METON CÉSAR DE VASCONCELOS, citado por MARCOS DE HOLANDA é um dos doutrinadores que afirmam o
emprego inadequado da linguagem nestes dispositivos.4

Conforme o referido artigo constitucional, na omissão do representante do Ministério Público em se


manifestar no prazo estabelecido, será admitida ação penal privada nos crimes de ação pública.
Ocorre que a interpretação gramatical deste dispositivo constitucional resulta em um acontecimento
inconcebível, posto que, conforme analisado acima, as ações penais privadas e públicas distinguem-se
principalmente em virtude dos seus princípios, geralmente incompatíveis entre si, sendo impossível a
alteração destes princípios somente pela omissão do representante do Parquet.

Entre as finalidades da diferença entre estes preceitos gerais resultam pelas conseqüências oriundas dos
seus determinados delitos: enquanto que na ação penal privada há o predomínio da violação dos
interesses e bens individuais, na pública a sociedade é diretamente interessada, tendo em vista que o
delito a atinge drasticamente, de modo que os órgãos competentes do Estado deverão agir
imediatamente.

Todavia, mediante a interpretação teleológica compreende-se que o legislador refere-se ao sentido


formal, adjetivo da expressão ação penal privada, ou seja, o instrumento que irá iniciar a ação, e não
ao sentido substantivo, o direito em si da ação.

Dando continuidade ao posicionamento do doutrinador supra-mencionado, a ocorrência desta alteração


da natureza intrínseca da ação, conforme encontra-se no dispositivo, seria o mesmo absurdo que a
iniciativa da ação pena privada pudesse ser exercida pelo órgão do Ministério Público.

Portanto, após o suprimento da omissão do Ministério Público em se manifestar no prazo estabelecido,


mediante a participação do ofendido ou de seu representante legal, a ação obviamente não perde a sua
natureza pública.

Conclusão

É inconveniente o entendimento doutrinário que estipula o repúdio da ação penal privada, concebendo-
a como um retorno a vingança privada.

Estes delitos violam predominantemente bens ou interesses individuais, devem depender da


participação do ofendido ou seu representante legal. A lesão oriunda da conduta criminosa na sociedade
é bem mais atenuada do que em relação as conseqüências ao ofendido. Além disso, a publicidade do
fato delituoso iria constranger a vitima, inclusive atingindo-a na mesma, ou até com maior intensidade
de que o próprio delito

A prestação jurisdicional do Estado nesta modalidade da ação penal não terá iniciativa com a atuação
dos órgãos estatais competentes, e sim, ao particular. Todavia, este não irá julgará, impondo a punição
e muito menos a executará, como ocorre na vingança privada. A iniciativa será exercida pelo particular,
que irá requerer ao Estado o julgamento da conduta que considera delituosa, e este irá deliberar a lide
conforme o estabelecido nos dispositivos legais.

Condições da ação penal e civil: uma breve análise


crítica

INTRODUÇÃO

O presente trabalho propõe uma exposição e análise das condições da ação Penal e Civil levando em
consideração as principais concepções e correntes doutrinárias da processualística jurídica.

Faz-se mister entender o próprio conceito de ação e um breve histórico da tutela jurisdicional para
facilitar o perquirição dos requisitos necessários que compõe as condições de ação, sem as quais não se
instaura a peça inicial.

Em suma, pode-se aludir que havendo conflito de interesses entre partes sem que haja possibilidade de
conciliação, deve-se postular sua pretensão perante o Poder Judiciário, visando à obtenção da tutela
jurisdicional mediante um pronunciamento judicial. Segundo Câmara (2007), a ação invocando a
atividade jurisdicional suscita um processo, que se desenvolve numa série de “atos concatenados
destinados a alcançar a decisão pretendida”.
“As denominadas condições da ação, no processo penal brasileiro, condicionam o conhecimento e o
julgamento da pretensão veiculada pela demanda ao preenchimento prévio de determinadas exigências
ligadas ora à identificação das partes, com referencia ao objeto da relação de direito material a ser
debatida, ora à comprovação da efetiva necessidade da atuação jurisdicional. (PACELLI, 2007, p. 83)”.

As condições da ação são podem ser definidas como requisitos necessários para preferir uma decisão de
mérito. Dessa forma, os vínculos existentes entre o direito de ação e a pretensão supõem uma relação
de instrumentalidade, na qual o exercício da ação está sujeito, em regra, a existência de três
condições: legitimidade de parte, interesses de agir e possibilidade jurídica do pedido. Quando se
percebe a ausência de qualquer das condições da ação resulta na carência da ação, sendo improcedente
a instauração da peça inicial.

Porém alguns outros doutrinadores da processualística civil e penal, ainda atribuem outras
condicionantes à ação, que serão explicitadas no decorrer deste trabalho.

BREVES DEFINIÇÕES E CONSIDERAÇÕES HISTÓRICAS

Nas sociedades primitivas não havia ainda um Estado fortemente estabelecido para exercer a jurisdição,
sendo o direito de punir exercido diretamente pela vítima, por seus parentes ou por sua tribo. Tal
exercício era feito a partir da autotutela ou autodefesa (vigorando a lei “do mais forte”, predominando
assim o interesse de um em detrimento do outro não importando com a justiça dos fatos), e
posteriormente da autocomposição, que consistia em um acordo firmado entre as partes (embora
contivesse a violência, a autocomposição frequentemente implicava em injustiças, pois a parte mais
forte tenderia sempre a conseguir mais vantagens no acordo).

Com o fortalecimento do Estado, a vingança deixou de ser privada e passou a ser pública. Considerando
que a sanção penal restringia ou mesmo extinguia determinados direitos fundamentais do acusado
(como vida, liberdade e propriedade) o Estado limitou o direito de punir, requerendo para si o “jus
puniendi” e condicionando a um procedimento em que eram dadas oportunidades para a defesa do
acusado. Esse procedimento realizado em contraditório denomina-se processo.

Vale ressaltar que o processo deve proporcionar às partes o pleno acesso à justiça, ou, como ressalva
Cintra, Dinamarco e Grinover, deve propiciar “acesso à ordem jurídica justa”. Porém, o acesso à justiça
não se perfaz com a mera possibilidade de ingresso em juízo, mas com o crescente aumento da
admissão de pessoas e causas no processo, sendo-lhes garantida a observância das regras estabelecidas
para o devido processo legal, com participação intensa na formação do convencimento do juiz por meio
do efetivo exercício do contraditório e da ampla defesa.

Pode-se conceituar a ação como "o poder de exercer posições jurídicas ativas no processo jurisdicional,
preparando o exercício, pelo Estado, da função jurisdicional". Segundo Liebman “a ação é o direito
subjetivo que consiste no poder de produzir o evento a que está condicionado o efetivo exercício da
função jurisdicional”.

O termo "direito subjetivo" se refere a interesses contrapostos, ressaltando o fato de que o Estado não
tem um interesse contrário às partes no processo; o poder do Estado consiste na faculdade de obter a
tutela para os próprios direitos ou interesses (quando lesados ou ameaçados), ou para obter a definição
de situações jurídicas quando há conflitos de interesses. Dessa forma, o direito de ação possui caráter
público.

Vale salientar que a ação é o direito de pedir ao Estado a prestação de sua atividade jurisdicional num
caso concreto, e, que a ação se refere à movimentação do processo, podendo ser feita tanto pelo autor
quanto pelo réu.

Após exercer o direito de agir em que o autor solicita a tutela estatal, o órgão jurisdicional deverá
proferir uma decisão sobre a pretensão formulada pelo autor, julgando o pedido e a ação procedente ou
improcedente, baseando-se no mérito da pretensão. No entanto, o direito de ação se subordina a certas
condições, sendo que na falta de qualquer delas, é facultado ao o órgão jurisdicional à dispensa de
decidir o mérito da pretensão.

A verificação das condições da ação é antecedente à decisão sobre o mérito, sendo que se negativo, é
meio de impedimento da apreciação sobre a pretensão. Porém, se o juiz aceitou o mérito, implica que
reconheceu a presença das condições da ação.
Todo processo, seja criminal, civil ou administrativo, ressaltando a sua a sua complexidade própria,
como meio promotor da justiça, é subordinado a tais condições prévias, visando, com isso, disciplinar
o “ius actions” e evitar a realização inútil de atos que compõem o procedimento.

Vale ressaltar, que no processo penal, além das condições genéricas da ação, observa-se também a
existência das condições específicas ou especiais da ação penal. Sendo que, as condições genéricas são
exigidas para qualquer persecução criminal, as específicas somente se exigem para determinados casos
isolados. Dessa forma, ausentes tais condições, genéricas ou específicas, a peça acusatória deverá ser
rejeitada.

CONDIÇÕES DA AÇÃO PENAL E CIVIL

As condições para o exercício legítimo do provimento jurisdicional são, em princípio, as mesmas tanto
no âmbito da justiça criminal quanto no que tange à ação civil. Tais condições referem-se à
possibilidade jurídica do pedido, ao interesse de agir e à legitimidade “ad causam”. Segundo o Art. 3º da
CF, para propor ou contestar ação é necessário ter interesse e legitimidade. Estas são consideradas
condições genéricas, ou, simplesmente, condições da ação. Existem, contudo, alguns requisitos
específicos do Processo Penal que a doutrina denomina condições específicas.

Interesse de agir:

Segundo Dinamarco, o interesse de agir pode ser definido como “utilidade do provimento jurisdicional
pretendido pelo demandante”. Essa condicionante da ação se justifica pelo fato de que o Estado apenas
exerce sua junção jurisdicional quando tal atuação se faz necessária, devendo ser resguardado o
trinômio explicado por Capez.

“Desdobra-se no trinômio: necessidade e utilidade do uso das vias jurisdicionais para a defesa do
interesse material pretendido e à adequação à causa do procedimento e do provimento, de forma a
possibilitar a atuação da vontade concreta da lei segundo os parâmetros do devido processo legal”.
(CAPEZ, 2007, p. 470)

A partir desse trinômio, é importante entender o porquê tais requisitos são pressupostos condicionantes
da ação. A necessidade é inerente ao processo penal, partindo do princípio da impossibilidade de se
impor pena sem o devido processo legal.

A utilidade traduz-se na eficácia da atividade jurisdicional para satisfazer o interesse do autor. Caso
seja percebida a inutilidade da persecução penal aos fins a que se presta, dir-se-á que inexiste interesse
de agir. Entretanto, esse entendimento não é absolutamente pacífico, quer na doutrina, quer na
jurisprudência. Por fim, a adequação reside no processo penal condenatório e no pedido de aplicação de
sanção.

Legitimação para agir:

Em se tratando de legitimidade das partes (legitimatio ad causam) no processo civil, segundo Câmara,
esta pode ser definida como “pertinência subjetiva da ação, em outros termos, pode-se afirmar que têm
legitimidade para a causa os titulares da relação jurídica deduzida” (pg. 129).

“(...) a legitimidade ad causam é a legitimação para ocupar tanto o pólo ativo da relação jurídica
processual, o que é feito pelo Ministério Público, na ação penal pública, e pelo ofendido, na ação penal
privada, quanto no pólo passivo, pelo provável ator do fato, e da legitimidade ad processum que é a
capacidade para estar no pólo ativo, em nome próprio, e na defesa de interesse próprio (...).” (CAPEZ,
2007, p. 471)

Na concepção de Pacelli, em regra tal atividade é privativa do Estado, através do Ministério Público,
porém em situações específicas reserva-se o direito à atividade subsidiária; isto é, quando há a inércia
estatal cabe a iniciativa exclusiva do particular.

- Possibilidade Jurídica do Pedido:

Na concepção de Câmara, ao haveria Possibilidade Jurídica do Pedido “quando o demandante


formulasse em juízo pedido vedado pelo ordenamento jurídico” (pg. 134).
A possibilidade jurídica do pedido é condição na qual se exige que o direito material reclamado no
pedido de prestação jurisdicional penal seja admitido e previsto no ordenamento jurídico positivo. Ao
contrário do Processo Civil, onde esta condição se verifica em termos negativos, no Processo Penal
somente é viável o provimento jurisdicional condenatório expressamente permitido.

O conceito de Possibilidade Jurídica do Pedido, ao ser transposto do campo civil para o penal ofereceu
certas dificuldades (também vivenciadas no campo cívico).

“(...) a doutrina processual penal refere-se à Possibilidade Jurídica do Pedido como a previsão no
ordenamento jurídico da providência que se quer ver atendida. Ausente ela, o caso seria de carência da
ação penal por falta de condição de ação (...)”. (PACELLI, 2007, p. 87)

Porém, vale ressaltar que com a finalidade de não se confundir a análise dessa condição de ação
(Possibilidade Jurídica do Pedido) com o mérito, segundo Capez, a apreciação da Possibilidade Jurídica
do Pedido deve ser observada na causa de pedir (causa petendi), desvinculada de qualquer prova
porventura existente. Cabe ao magistrado analisar se é procedente ou improcedente, ou seja, se o
pedido é concretamente fundado ou não no Direito material.

Paralelo às condições genéricas que vinculam a ação civil, também aplicáveis ao processo penal
(possibilidade jurídica do pedido, interesse de agir e legitimidade para agir), a doutrina atribui a ação
penal algumas condições específicas (condições específicas de procedibilidade):

Condições de Procedibilidade:

As condições específicas de procedibilidade possuem caráter processual referentes à admissibilidade da


persecução penal, sendo fator condicionante do exercício da ação penal.

“A doutrina de um modo geral considera as Condições de Procedibilidade condições específicas da ação


penal (porque somente exigíveis para determinadas ações), enquanto as demais, comuns a qualquer
ação (interesse, legitimidade e possibilidade jurídica), seriam as condições genéricas da ação penal”.
(PACELLI, 2007, p. 89)

No Código Penal podem-se encontrar exemplos destas condições específicas, tais como nos artigos 7°,
§2°, "a" (entrada do agente no território nacional no caso de crime praticado no exterior); art. 145,
parágrafo único (requisição do Ministro da Justiça nos crimes contra a honra praticados em desfavor do
Presidente da República ou chefe de governo estrangeiro); art. 130, §2°, 147, parágrafo único, 151, §4°
e outros (representação do ofendido).

Segundo Mirabete, as condições específicas de procedibilidade podem atuar sobre a ação, o processo ou
sobre o mérito, “dependendo do momento de seu reconhecimento pelo juiz e dos efeitos que a lei lhes
der”.

Vale ressaltar que a ausência de qualquer uma das condições da ação ou de procedibilidade o juiz, no
exercício da função jurisdicional, deixará de apreciar o mérito, declarando o autor carecedor da ação.

Justa Causa:

Segundo o processualista Afrânio Silva Jardim, ainda pode-se enumerar a Justa Causa como quarta
condição da ação. De acordo com o autor a justa causa estaria intrinsecamente ligada à exigência de um
interesse legítimo na instauração da ação e apto a condicionar a admissibilidade do julgamento de
mérito. Haveria, portanto a necessidade da peça acusatória vir acompanhada de um suporte mínimo de
provas, sem a qual a acusação careceria de admissibilidade.

Todavia, observam-se severas criticas a tal condição: se de certa forma amplia o preceito constitucional
do art. 5º, LV, da CF, no que tange a ampla defesa, pois já direciona o caminho percorrido na formação
da “opinio delicti”, bem como tal condição da ação visa também preservar a dignidade e moral do
acusado, visto que se não houver justa causa não terá a ação e consequentemente o indivíduo não será
exposto a nenhum constrangimento.

Porém, questiona-se também o fato de que admitir-se a rejeição da peça acusatória mediante
fundamento da Justa causa, pode favorecer unicamente os interesses persecutórios.
A ação se encontra fundamentada no art. 5°, XXXV da C.F: "a lei não excluirá da apreciação do Poder
Judiciário lesão ou ameaça a direito". Assim, o Judiciário tem a atribuição de examinar todas as
demandas que lhe forem propostas, mesmo que, posteriormente, as considere improcedentes. Dentro
dessa análise, as condições de ação são amplamente exigíveis.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O Código brasileiro optou pela teoria do trinômio, acolhendo de forma expressa, em sua sistemática, as
três categorias fundamentais do processo moderno, como “entes autônomos e distintos que são os
pressupostos processuais, as condições da ação e o mérito da causa”.

Porém, além dessas condições genéricas (interesse de agir, legitimidade e possibilidade jurídica do
pedido, no âmbito da ação penal, outras condicionantes específicas são requeridas. Tais condições da
ação devem ser analisadas pelos juízes quando do recebimento da queixa ou da denúncia, de ofício.

Com isso, apesar das peculiaridades de cada processo, para que a ação seja admissível e permita que o
magistrado forme a relação jurídico - processual proferindo a decisão sobre o “meritum causae”, faz-se
necessário que o “ius actions” esteja amparado dos três requisitos genéricos, bem como no caso da ação
penal, das condições específicas. Ressaltando que, faltando qualquer uma delas, o magistrado deverá
rejeitar a peça inicial, declarando o autor carecedor de ação.

Segundo Câmara, em suas lições sobre Direito Processual Civil, há uma divisão doutrinária sobre a
temática das condições de ação, sendo geradas correntes doutrinárias como a de Liebman que propõe
que a condição de ação deve ser demonstrada, cabendo inclusive a produção de provas para convencer
ao juiz de que todas as condições estão presentes, não podendo assim a extinção do processo sem
resolução do mérito.

Se nessa corrente se fala em adesão às condições da ação, a concepção temática proposta por Watanabe
definida como “Teoria da asserção” na qual a verificação da presença das condições da ação deve ser
feita pelo demandante em sua petição inicial.

Contudo, ao se analisar essas teorias e condicionantes da ação e processualística brasileira, deve-se


sempre procurar fundar-se nos princípios, resguardando o acesso a justiça e garantias fundamentais, e,
visando métodos que garantam mais eficácia ao processo.