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Gabriela Camargo de Oliveira

A SEGUNDA GERAÇÃO DE LATINO-AMERICANOS NA


CIDADE DE SÃO PAULO: A QUESTÃO DO IDIOMA

Gabriela Camargo de Oliveira*

Embora São Paulo receba imigrantes provenientes de todo o mundo, a


partir principalmente da década de 1970 podemos observar um aumento
na entrada de imigrantes latino-americanos, especialmente bolivianos,
paraguaios e peruanos. Os imigrantes latino-americanos têm construído
suas vidas na cidade, estabelecendo residência, constituindo famílias
e tendo filhos em São Paulo. Filhos estes que levantam a questão das
gerações, sobretudo da segunda geração, que pode ser definida como
a geração de filhos dos imigrantes adultos, que nasceram ou chegaram
ainda novos ao país receptor. Compreender como a segunda geração
tem se inserido na cidade e que relações mantêm com a comunidade
local é fundamental para entender os efeitos da imigração para a
sociedade. Portanto, este estudo busca explanar como vive a segunda
geração latino-americana em São Paulo e suas experiências na cidade,
destacando a questão do idioma.
Palavras chave: segunda geração, migração internacional, idioma.

Presença latino-americana em São Paulo: 1940-2010


A “nova” imigração de latino-americanos em São Paulo teve seu
começo a partir da década de 1950, com a entrada de estudantes bolivianos
e peruanos que vieram se especializar no país, por meio de acordos bilaterais
entre o Brasil e esses países. De acordo com Silva1, a partir de então, nas
décadas de 1960 e, principalmente, a partir da década de 1970, a imigração
intra-regional começou a se intensificar tanto por razões políticas quanto por
razões econômicas.

*
Doutoranda em Demografia, Núcleo de Estudos de População/NEPO, Universidade Estadual de
Campinas. Bragança Paulista - SP/Brasil.
1
SILVA, Sidney A. Faces da latinidade: hispano-americanos em São Paulo.

REMHU - Rev. Interdiscipl. Mobil. Hum., Brasília, Ano XXII, n. 42, p. 213-230, jan./jun. 2014 213
A segunda geração de latino-americanos na cidade de São Paulo: a questão do idioma

Essa mudança no fluxo imigratório pode ser atribuída, entre outras coisas,
à presença maciça de regimes militares na região e ao bom desenvolvimento
da economia brasileira em relação aos outros países da América Latina naquele
período2. Na década de 1980, a recessão econômica e pressão inflacionária
fizeram parte do cenário econômico de grande parte dos países da região, que
assistiram o índice de desemprego e pobreza aumentar de forma brutal.
Esse panorama, dentre outros fatores, contribuiu para incrementar as
históricas imigrações latino-americanas, que até então estavam bem mais
circunscritas às áreas de fronteira. O país passou, então, a fazer parte dos
movimentos imigratórios regionais na América Latina3.
Segundo Patarra4, os fluxos imigratórios latino-americanos se
destinaram, principalmente, para duas áreas: as regiões de fronteira e as
regiões metropolitanas, em especial São Paulo e Rio de Janeiro. Nessa etapa,
esses imigrantes vieram, em sua maioria, em busca de trabalhos que não
exigissem muita qualificação ou documentação.
Ressalte-se que, embora, a cidade de São Paulo continue a se projetar
como o polo da imigração internacional no país, recebendo imigrantes
provenientes do mundo inteiro, os volumes da imigração com origem na
América Latina vêm se destacando dentre os demais. O maior fluxo até
1990 foi de argentinos, chilenos e uruguaios. A partir de então até os dias
de hoje pode-se observar uma maior entrada de bolivianos, paraguaios e
peruanos, como podemos observar na Tabela 1 abaixo. Segundo dados do
Censo Demográfico IBGE de 2010, na cidade de São Paulo residiam 21.680
bolivianos, 4.699 argentinos, 3.864 chilenos, 3.170 paraguaios, 2.949
peruanos e 1.475 uruguaios.

A maior parte dos imigrantes latino-americanos em São Paulo veio


com o objetivo de trabalhar nos ramos de confecções, comércio e serviços5.
O ramo da costura se tornou o principal entre os latino-americanos devido
ao processo de substituição de mão-de-obra coreana pelos bolivianos e,
mais tarde, pelos demais sul-americanos6.

2
Ibidem.
3
PATARRA, Neide Lopes e BAENINGER, Rosana. Mobilidade espacial da população no Mercosul:
metrópoles e fronteiras.
4
PATARRA, Neide. Migrações internacionais e integração econômica no cone Sul: notas para discussão.
5
SILVA, op. cit.
6
FREITAS, Patrícia Tavares de. Imigração e experiência social: o circuito de subcontratação
transnacional de força-de-trabalho boliviana para o abastecimento de oficinas de costura na
cidade de São Paulo.

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Gabriela Camargo de Oliveira

TABELA 1
País de nascimento dos Imigrantes no Estado de São Paulo
Países selecionados da América Latina, 1940 a 2010
Período Argentina Bolívia Chile Paraguai Peru Uruguai

1940 7.121 81 201 572 80 825


1950 6.775 176 225 951 109 994
1960 7.597 1.516 626 1.625 355 1.332
1970 7.998 3.111 817 2.203 505 1.884
1980 11.130 4.322 11.163 2.753 886 3.783
1991  10.743  6.462 13.034   3.299  1.651 3.964
2000  9.736  10.222 10.947  4.143  2.926 3.914 
2010 8.566  27.754  8.879   6.032  4.868  3.041

Apesar do crescente aumento da imigração latino-americana para São


Paulo, não temos ainda hoje um número consolidado sobre o volume do fluxo,
podendo apenas estimar o tamanho desse contingente a partir da comparação
entre os números oficias e extraoficiais. Entretanto, independente das
diferenças entre os números oficiais e os estimados, é fato que a comunidade
latino-americana na cidade de São Paulo é grande e vem crescendo cada
vez mais, demonstrando um movimento imigratório de fluxo constante. Essa
comunidade vem se estabelecendo na cidade ao longo dos últimos 40 nos e
atualmente é presença marcante nos bairros centrais de São Paulo.
A nova face do fenômeno imigratório internacional em São Paulo - dada
a temporalidade de seu fluxo - já se revela na permanência dos imigrantes
latino-americanos, que têm construído suas vidas na cidade, permanecendo,
constituindo famílias e tendo filhos na metrópole. Nesse contexto, emerge a
questão da segunda geração de imigrantes latino-americanos na cidade.

A segunda geração: definições conceituais


A segunda geração pode ser definida como a geração de filhos dos
imigrantes adultos, que nasceram ou chegaram ainda novos ao país receptor.
Conforme definido por Waters, Kasinitz, Mollenkopf, “(…) A segunda
geração e a geração 1.5 – gerações imigrantes... ou seja, pessoas cujos pais
eram imigrantes, mas que nasceram ou foram substancialmente criadas nos
Estados Unidos”7.

Tradução livre do trecho: “(...) second- and ‘1.5’ - generation immigrants... that is, people whose
7

parents were immigrants but who themselves were born or substantially raised in United States”
(KASINITZ, Philip; MOLLENKOPF, John H.; WATERS, Mary C. Worlds of the second generation, p. 1) .

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A segunda geração de latino-americanos na cidade de São Paulo: a questão do idioma

Logo, a segunda geração é constituída por crianças que nasceram


no país receptor e tinham ao menos um dos pais de origem estrangeira,
enquanto a geração 1.5 são as crianças que nasceram no país de origem
e migraram com seus pais, realizando parte de sua socialização no país de
destino, enquanto crianças ou adolescentes.
Portes8, no seu estudo sobre imigrantes latino-americanos nos Estados
Unidos distinguiu três categorias: 1) as “crianças imigrantes”, 2) as “crianças
de imigrantes” e 3) “crianças nativas”:
(…) três categorias distintas: crianças imigrantes, crianças
de imigrantes e crianças nativas de pais nativos. A primeira
categoria inclui jovens que nasceram no exterior e vieram para
os Estados Unidos após a infância para serem criados aqui. A
segunda inclui as crianças nascidas nos Estados Unidos de pais
imigrantes e as crianças nascidas no exterior mas que vieram
ainda muito novas (algumas vezes chamadas de geração 1.5).
A terceira categoria, crianças nativas de pais nativos, representa
a vasta maioria do total e dos adolescentes9.

Portes, Halles e Fernandez-Kelly10 incluem a segunda geração em suas


pesquisas uma vez que os estudos sobre a segunda geração de imigrantes
seriam tão importantes quantos os de primeira geração, dado que os efeitos
de longo prazo da imigração numa sociedade seriam determinados mais
pela segunda geração do que pela primeira.
O motivo que nos levou a voltar nossa atenção para os filhos
foi a constatação de que os efeitos de longo prazo da imigração
na sociedade norte-americana seriam determinados menos
pela primeira do que pela segunda geração11.

Para esses autores, os imigrantes de primeira geração seriam flutuantes,


ora no país receptor ora no país de origem, estariam na sociedade, mas não
fariam parte dela; já os filhos desses imigrantes estariam para ficar no país, como
cidadãos. Além disso, seria a segunda geração a determinar a manutenção ou
não de práticas culturais originárias. Assim, os autores enfatizam que estudar

8
PORTES, Alejandro. The New Second Generation.
9
Tradução livre da autora: “(...) three distinct categories: immigrant children, children of immigrants,
and native-born children of native parentage. The first category includes youth who are born abroad
and come to the United States after early infancy to be raised here. The second includes native-born
children of immigrant parents and children born abroad who came at a very early age (sometimes
called the 1.5 generation). The third, native-born children of native parentage, represents the vast
majority of both the total and adolescent populations” (Ibidem, p. ix).
10
PORTES, Alejandro; HALLEY, William; FERNANDEZ-KELLY, Patricia. Filhos de imigrantes nos
Estados Unidos.
11
Ibidem, p. 13.

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a segunda geração de imigrantes é tão importante quanto estudar a primeira


geração. Ademais, seria preciso compreender como a segunda geração tem se
inserido na sociedade receptora e que relações mantêm com a comunidade
local para entender os efeitos da imigração para a sociedade.
Imigrantes de primeira geração sempre foram um grupo muito
flutuante, hoje aqui e amanhã já de partida, na sociedade,
porém não ainda parte dela. Em contraste, seus filhos nascidos
e criados nos Estados Unidos estão nesse país, sem a menor
dúvida, para ficar e, como cidadãos, estão inteiramente
habilitados a ter “voz” no sistema político norte-americano (no
sentido do termo utilizado em Hirschman [1970]). Portanto,
o decurso de sua adaptação determinará, mais do que outros
fatores, no longo prazo, o destino dos grupos étnicos gerado
pelos imigrantes de hoje12.

Segundo Portes et alii13, seria preciso entender o processo de assimilação


da segunda geração de imigrantes na sociedade receptora. Para os autores, no
caso dos EUA a hipótese da assimilação uniforme não se aplicaria totalmente
à “nova segunda geração”14, uma vez que a assimilação não estaria ocorrendo
nos mesmos moldes da assimilação das correntes imigratórias anteriores.
Logo, teria havido mudanças nas formas de assimilação: desde os primeiros
estudos sobre assimilação de imigrantes e ao contrário do que aconteceu com
a segunda geração de imigrantes do pós-Primeira e Segunda Guerra Mundial, a
“nova segunda geração” não estaria sendo assimilada ao mainstream de forma
uniforme como foi a segunda geração do fluxo imigratório europeu.
(...) a imagem de uma trajetória de assimilação uniforme não
dava conta do que efetivamente estava ocorrendo. Em vez
disso, o processo havia se tornado segmentado em vários
percursos distintos, alguns levando a trajetórias ascendentes,
outros, a trajetórias descendentes15.

Para os autores, esse fato se deve a uma variedade de fatores


na sociedade que são diferentes hoje do que eram anteriormente e às
diferenças étnico-culturais dos novos imigrantes. Fatores como o contexto
social da sociedade receptora, composição familiar, preconceito, barreiras
educacionais, características fenotípicas, políticas públicas para imigrantes e
outros, fazem com que a assimilação ocorra de forma “segmentada”.
12
Ibidem.
13
Ibidem.
14
O termo “nova segunda geração” se refere à segunda geração do fluxo migratório pós-1965
para os Estados Unidos, que é predominantemente latino e asiático. Diferenciando-se do termo
segunda geração, muitas vezes associado ao fluxo imigratório europeu do começo do século 20
para os Estados Unidos.
15
Ibidem, p. 14.

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A segunda geração de latino-americanos na cidade de São Paulo: a questão do idioma

A “assimilação segmentada”16 pode ser definida como assimilação


em alguns setores específicos da sociedade, como em setores minoritários
e não em sua totalidade: “(…) Assimilação segmentada descreve os vários
resultados de diferentes grupos de jovens de segunda geração e argumenta
que o modo de incorporação da primeira geração é responsável pelos
diferentes acessos da segunda geração às oportunidades e redes sociais”17.
Para Portes e Zhou18 a “assimilação segmentada” retrata as diferentes
formas de inserção na sociedade de recepção.
Ao em vez da uniformidade relativa da sociedade, que ditam
os caminhos comuns de integração por meio dos costumes e
preconceitos, hoje em dia nós observamos diversas formas de
adaptação. Uma delas replica o retrato honorável do crescimento
da aculturação e da paralela integração dentro da classe média
branca; a segunda leva diretamente para o caminho oposto em
direção à pobreza permanente e assimilação nos segmentos
minoritários da sociedade; ainda, a terceira associa rápido
avanço econômico com preservação deliberada dos valores e
laços de solidariedade da comunidade imigrante19.

Segundo os autores, a “nova segunda geração” estaria vivendo um


conflito de adaptação tanto de ordem cultural como social; entre a pressão dos
pais para que mantenham laços fortes com a comunidade étnica e os desafios
de ingressar num mundo não-familiar e frequentemente hostil. Segundo os
autores, as condições econômicas e sociais na época dos fluxos imigratórios do
pós-Primeira e Segunda Guerra Mundial eram bem diferentes das confrontadas
pelos imigrantes atuais. Esse processo, nos EUA, teria deixado para os novos
imigrantes uma lacuna entre as atividades de baixa remuneração geralmente
exercida por eles e as atividades profissionais bem remuneradas que requerem
ensino superior, geralmente exercida pelas elites nativas20.
Deste modo, hoje, os novos imigrantes teriam menos chances de
mobilidade na sociedade receptora dos que tinham os imigrantes dos
16
KASINITZ, MOLLENKOPF, WATERS, op. cit.
17
Tradução livre da autora: “(...) segmented assimilation describes the various outcomes of different
groups of second-generation youth and argues that the mode of incorporation for the first generation
gives the second generation access to different types of opportunities and social networks” (ibidem,
p. 7).
18
PORTES, Alejandro e ZHOU, Min. The new second generation: segmented assimilation and its
variants.
19
Tradução livre da autora: “Instead of a relatively uniform mainstream whose mores and prejudice
dictate a common path of integration, we observe today several distinct forms of adaptation. One
of the replicates the time-honored portrayal of growing acculturation and parallel integration into
the white middle-class; a second leads straight in the opposite direction to permanent poverty and
assimilation into the underclass; still a third associates rapid economic advancement with deliberate
preservation of immigrant community’s values and tight solidarity” (ibidem, p. 90).
20
Ibidem.

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Gabriela Camargo de Oliveira

fluxos anteriores. Esse fator, associado a outros, como preconceito e falta


de oportunidades educacionais, poderiam estar resultando em uma
“assimilação descendente”, ou seja, nos grupos minoritários do mainstream,
dentro das subculturas, ao contrário do que ocorreu com os descendentes
dos imigrantes europeus que tiveram uma “assimilação ascendente”. Mas
segundo Portes e Zhou21, na realidade, a situação ainda não se tornou tão
polarizada, logo seria possível observar a assimilação em diversos segmentos
da sociedade. Mas mesmo assim seria necessário compreender as trajetórias
que resultam em assimilações tão distintas, compreender como e o porquê
dessas distintas assimilações para entender os resultados da integração da
segunda geração na sociedade de acolhimento.
No Brasil, também temos uma “nova segunda geração”, ou seja, os
descendentes da nova corrente imigratória recente para o país. Mas apesar de
vários estudos22 já terem sido realizados sobre a primeira geração desses imigrantes,
pouco se conhece sobre a realidade da segunda geração. Contudo, conhecer
a segunda geração de imigrantes se faz importante para a compreensão do
fenômeno migratório em suas diversas faces e suas consequências a longo prazo
para a sociedade brasileira. Para tal, esse estudo faz uso de duas metodologias,
uma quantitativa e outra qualitativa. Para observar de forma quantitativa o
grupo em questão, foram analisadas as informações dos microdados do Censo
Demográfico 2000, a partir da reconstituição domiciliar e da identificação dos
indivíduos. Com objetivo de aprofundar o conhecimento do grupo também
foram realizadas entrevistas - a partir de questionário semi-estruturado - com
adolescentes da segunda geração de latino-americanos, que frequentavam a
escola e estavam matriculados entre o nono ano do ensino fundamental e o
terceiro ano do ensino médio. Além disso, também foram realizadas entrevistas
em profundidade com os pais de alguns dos alunos pesquisados.

Segunda geração de latino-americanos: o caso paulista


O fluxo imigratório latino-americano para São Paulo data de pelo menos
40 anos atrás e um contingente expressivo de famílias imigrantes se formou na
cidade de São Paulo, fato associado ao próprio fenômeno migratório em si, ao
processo de reunificação familiar e a formação de novas famílias. Famílias essas
compostas de várias gerações, incluindo a geração 1.5 e a segunda geração.
Segundo estudos recentes23 a segunda geração da corrente imigratória
de latino-americanos para o país é presença marcante na cidade de São
21
Ibidem.
22
SILVA, op. cit.; FREITAS, op. cit; PAIVA, Odair C. A imigração de latino-americanos para São Paulo
(Brasil): dois tempos de uma mesma história.
23
OLIVEIRA, Gabriela C. A segunda geração de latino-americanos na Região Metropolitana de São

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A segunda geração de latino-americanos na cidade de São Paulo: a questão do idioma

Paulo, principalmente nas regiões centrais e em algumas escolas públicas


que chegam a ter até 50% dos seus alunos de origem estrangeira.
Apesar disso, pouco se sabe sobre essas crianças e adolescentes, tanto em
termos quantitativos como em termos qualitativos devido à indocumentação
característica do fluxo. Fato ainda mais agravado uma vez que parte considerável
da segunda geração é brasileira e, portanto, considerada nas fontes oficiais
como tal, mascarando a origem familiar estrangeira. No entanto, a formação
da segunda geração de imigrantes latino-americanos pode ser observada nos
microdados do Censo Demográfico 2010, conforme gráfico 1 a seguir24.
GRÁFICO 1
Segunda geração de imigrantes latino-americanos - RMSP 2010
30000

25000

20000

15000

10000

5000

Argentinos Bolivianos Chilenos Paraguaios Peruanos Uruguaios


Total de imigrantes Total de filhos Geração 1.5 Segunda geração

Fonte: Fundação IBGE, Censo Demográfico de 2010 – Amostra expandida. Tabulações especiais.

Analisando o gráfico é possível notar que a segunda geração compunha


a maior parte dos filhos presentes em domicílios de origem imigrante. No
caso da imigração argentina foi possível observar que o total de filhos somou
3.467 indivíduos (2.865 da segunda geração e 602 da geração 1.5). Já no
caso da imigração de bolivianos foi possível notar um total de filhos foi de
11.853 (8.607 da segunda geração e 3.246 da geração 1.5), enquanto para
os domicílios de origem chilena observamos a presença de 4.671 filhos
(397 da geração 1.5 e 4.274 da segunda geração). No caso dos paraguaios

Paulo; MAGALHÃES, Giovanna Mode. Fronteiras do direito humano à educação: um estudo sobre
imigrantes bolivianos nas escolas públicas de São Paulo.
24
Com objetivo de observar a presença da segunda geração de latino-americanos na cidade de
São Paulo, a metodologia adotada foi a análise dos microdados da amostra expandida do Censo
Demográfico 2010. Para análise dessa segunda geração foi realizada a reconstituição domiciliar
desses imigrantes com o objetivo de captar, a partir do Censo Demográfico de 2010, as famílias
com presenças de filhos nascidos no país estrangeiro e filhos nascidos no Brasil.

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somaram-se 2.295 filhos (301 da geração 1.5 e 1.994 da segunda geração),


enquanto para os domicílios peruanos foram registrados 1.535 filhos (1.222
da segunda geração e 313 da geração 1.5). Finalmente, no caso dos uruguaios
o número de filhos foi de 1.790 (95 da geração 1.5 e 1.695 da segunda
geração).
Logo, diante desse cenário podemos observar, ao menos de forma
ilustrativa, a importância quantitativa da segunda geração no fluxo imigratório
para São Paulo. Porém como captar, observar e compreender de forma mais
aprofundada a segunda geração na cidade de São Paulo? Com esse objetivo
foi escolhida a escola como espaço privilegiado de contato e observação da
segunda geração. Essa escolha se deve a três motivos: o primeiro decorrente
da constatação da numerosa presença de estrangeiros no sistema de ensino,
tanto público como particular, principalmente em determinadas regiões da
cidade de São Paulo, que podem ser observadas a partir das informações
do Censo Escolar 2010. O segundo, porque a escola é sem dúvida o local,
além da casa, no qual as crianças e adolescentes passam a maior parte de
seu tempo. Terceiro, porque a escola ainda é hoje um importante espaço de
socialização de crianças e jovens25.
Portanto, diante do crescente aumento de matrículas de alunos
estrangeiros no sistema de ensino se faz necessário analisar de forma mais
aprofundada a presença desses estrangeiros nas escolas paulistas. Com esse
objetivo foram realizadas entrevistas qualitativas com a segunda geração e a
geração 1.5 de alunos matriculados entre o nono ano do Ensino Fundamental
e o terceiro ano do Ensino Médio na escola alvo da pesquisa26.

25
Berger e Luckmann define o processo de socialização “(...) como a ampla e consistente introdução
de um indivíduo no mundo objetivo de uma sociedade ou de um setor dela. A socialização
primária é a primeira socialização que o indivíduo experimenta na infância, em virtude do qual
se torna membro da sociedade. A socialização secundária é qualquer processo subsequente que
introduz um indivíduo já socializado em novos setores do mundo objetivo de sua sociedade”
(BERGER, Peter e LUCKMANN, Thomas. A construção social da realidade, p. 169).
26
Pesquisa realizada no primeiro semestre de 2011, em uma escola estadual localizado no bairro
Campos Elíseos, na cidade de São Paulo/SP. Em relação à forma de pesquisa escolhida para a
segunda geração foi a entrevista qualitativa a partir de um questionário semiestruturado fechado. Tal
escolha se deveu aos seguintes motivos: o primeiro deles está relacionado ao objetivo de alinhar a
metodologia de pesquisa com a teoria escolhida para a compreensão da segunda geração seguindo,
portanto, os mesmos caminhos de pesquisa inicialmente propostos por Portes (op. cit.); o segundo
motivo está relacionado ao tamanho do grupo a ser pesquisado, que impossibilitava a realização de
entrevistas em profundidade com todos os indivíduos em questão. Para a realização da pesquisa
foram aplicados 437 questionários na escola-alvo, nos alunos que cursavam entre a oitava série do
Ensino Fundamental II e o terceiro ano do Ensino Médio, presentes nos dias da pesquisa. Dos 437
questionários aplicados 75 foram de segunda geração, ou seja, 17% do total. Além disso, também
foram realizadas entrevistas em profundidade com alguns pais desses alunos pesquisados.

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A segunda geração de latino-americanos na cidade de São Paulo: a questão do idioma

Na pesquisa diversos assuntos foram abordados, dentre eles


questões sócio-demográficas e de identificação como local de nascimento,
nacionalidade dos pais, idade, tempo de residência no Brasil e questões mais
amplas e subjetivas como conhecimento da língua espanhola, frequência da
utilização do espanhol, educação, trabalho, relações pessoais, identidade e
discriminação, entre outras que já foram abordadas em artigos anteriores. E
são precisamente as questões sobre conhecimento e habilidade na língua
portuguesa e espanhola que esse artigo irá tratar.

A segunda geração: caracterização e vivências


Dentre os 75 alunos de segunda geração captados, 29 eram do sexo
masculino e 46 eram do sexo feminino. Destes, 26 eram da segunda geração
de fato, ou seja, nascidos no Brasil, e 49 eram da geração 1.5, nascidos
no exterior. Sendo a geração 1.5 constituída, em ordem decrescente, de
bolivianos, paraguaios e peruanos. No que diz respeito à idade da segunda
geração, a maior parte dos entrevistados tinha entre 13 a 15 anos; fato esse
que se deve principalmente ao grupo entrevistado em questão e à série que
frequentavam, uma vez que a maior parte dos entrevistados frequentava o
nono ano do Ensino Fundamental.
Dentre as muitas variáveis pesquisadas o idioma foi uma variável
fundamental na pesquisa devido à sua importância no cotidiano desses
jovens e à sua função social na interação com a sociedade. Segundo Portes
e Rumbaut27, a manutenção do idioma de origem é fundamental entre os
imigrantes, sendo dentre todos os legados transmitidos entre as gerações o
mais importante. No entanto, seria o mais difícil legado a se transmitir devido
a forças opostas, como a demanda da sociedade para que os imigrantes se
assimilem linguisticamente.
No que concerne ao idioma falado pela segunda geração, entre o total
dos entrevistados a maioria falava ou sabia falar a língua do país de origem
dos pais, o espanhol. Fato que demonstra que a maior parte da segunda
geração e da geração 1.5 de latino-americanos tem contato com o idioma
de origem e afirma ter algum grau de conhecimento no mesmo. Embora
não seja possível estabelecer se são indivíduos bilíngues ou apenas retém o
conhecimento do idioma. Dentre os que responderam que falavam o idioma
do país de origem, no caso o espanhol, foram registrados diversos graus de
habilidade no idioma, conforme é possível observar no gráfico 2.

PORTES, Alejandro e RUMBAUT, Rubén G. Legacies: the story of the immigrant second generation.
27

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Gabriela Camargo de Oliveira

GRÁFICO 2
Segunda geração de latino-americanos, segundo grau de habilidade no idioma
de origem* - São Paulo - 2011

Grau de habilidade no idioma de origem


25

20

15

10

0
Falar Escrever Ler

NENHUM POUCO RAZOÁVEL BOM ÓTIMO

Fonte: Projeto temático “Observatório das Migrações em São Paulo/Segunda geração


de latino-americanos em São Paulo”. UNICAMP/NEPO/FAPESP/CNPq, 2011.
*Estudantes da rede pública de ensino entrevistados.

Em relação à capacidade de falar o idioma espanhol a maioria dos


entrevistados relatou ter um nível bom ou ótimo, sendo minoria aqueles
que tinham baixa habilidade no idioma. Já em relação à habilidade de
escrever o cenário é similar ao anterior, ou seja, mais da metade afirmou ter
uma capacidade de escrita boa ou ótima. No entanto, podemos observar
que uma parcela considerável dos entrevistados afirmou ter um grau de
habilidade de escrever baixo ou nenhum. Em relação à capacidade de ler
no idioma de origem, assim como para o falar e o escrever, também a maior
parte dos indivíduos afirmou ter uma boa ou ótima habilidade na leitura
do espanhol. Demonstrando que a maior parte dos jovens pesquisados
tinha não apenas algum grau de conhecimento do idioma, mas também
alguma capacidade de se comunicar, escrever e ler. Fato resultante tanto
da vivência da geração 1.5 antes de migrar para o Brasil, mas também da
manutenção, ao menos parcial, da língua materna no Brasil. Manutenção
essa, segundo Portes e Rumbaut, que é importante tanto em termos culturais
como em termos práticos. Segundo os autores, perder a língua de origem
seria como perder parte de si que está diretamente ligada com a identidade
e a herança cultural. Além disso, a perda do idioma de origem poderia tornar
a comunicação entre as gerações mais difícil, resultando na diminuição da
autoridade dos pais28. No entanto, esse não parece ser o caso da segunda
geração de latino-americanos pesquisada.

Ibidem.
28

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A segunda geração de latino-americanos na cidade de São Paulo: a questão do idioma

Em relação à habilidade da geração 1.5 na língua portuguesa, foi


possível observar que apenas poucos entrevistados afirmaram ter um
baixo grau de habilidade para falar, escrever, ler e entender o português,
conforme podemos observar no gráfico 3, pois a grande maioria informou
ter um bom ou ótimo grau de habilidade. Esse resultado pode ser atribuído,
a princípio, a dois fatores: o primeiro, o tempo de residência no Brasil, uma
vez que os entrevistados que moram há mais tempo no país afirmaram
ter maior conhecimento da língua; o segundo, a inserção dos mesmos na
escola, que obrigatoriamente insere essas crianças e adolescentes num
espaço monolíngue, forçando a ter contato diário com a língua portuguesa.
Ademais, segundo Portes e Rumbaut29, existiria uma pressão social para que
os estrangeiros assimilem o idioma nativo, tanto por razões instrumentais
como por razões simbólicas. A assimilação linguística seria vista como um
sinal de boa vontade dos imigrantes em buscar aceitação dentro do novo
país, deixando a lealdade com o país de origem no passado. Por isso é
considerada fundamental no processo de assimilação dos imigrantes.
GRÁFICO 3
Segunda geração de latino-americanos, segundo grau de habilidade em Língua
Portuguesa* - São Paulo 2011

Grau de habilidade no português


30
25
20
15
10
5
0
Falar Escrever Ler Entender

POUCO RAZOÁVEL BOM ÓTIMO

Fonte: Projeto temático “Observatório das Migrações em São Paulo/Segunda geração


de latino-americanos em São Paulo”. UNICAMP/NEPO/FAPESP/CNPq, 2011.
*Estudantes da rede pública de ensino entrevistados.

Quando questionados sobre o idioma mais falado em diversas ocasiões,


os entrevistados afirmaram usar as duas línguas. No ambiente da casa, quase
um terço dos entrevistados utiliza as duas línguas, enquanto um terço afirmou
falar mais português e o outro terço mais espanhol. O que demonstra que

Ibidem
29

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Gabriela Camargo de Oliveira

dentro de casa a maior parte dos entrevistados fala o idioma de origem em


algum momento. Já quando questionados sobre qual idioma mais falavam no
dia a dia, a maioria dos informantes afirmou falar mais o português, indicando,
assim, que o idioma de origem é mais restrito às situações familiares como nas
conversas entre pais e filhos: a maioria informou que seus pais conversam com
eles em espanhol ou nas duas línguas enquanto os mesmos respondem, na
maioria dos casos, mesclando o português e o espanhol e apenas um terço usa
exclusivamente o português ao conversar com os pais.
O uso diferenciado dos idiomas e sua combinação ao falar foram
ressaltados também nas entrevistas em profundidade realizadas com os pais
desses adolescentes. Entre os entrevistados30, todos afirmaram conversar em
espanhol com seus filhos, embora os mesmos respondessem em português.
Como é possível observar nas falas a seguir, quando questionados sobre a
língua que era falada em casa:
Eu falo espanhol. Eu nasci em La Paz, fui criado em La Paz e
estudei em La Paz. Eu falo com minha esposa normalmente
o espanhol, falo com meu filho em espanhol, pergunto em
espanhol, porém ele responde em português. Quer dizer que
ele entende o espanhol, mas responde em português. Bom por
um lado, eu falo pra ele porque aqui com a gente você não fala
em espanhol e ele responde que é porque fala errado, pronuncia
errado, tudo bem, mas aqui estamos entre nós, pratica né.

Já outro entrevistado afirmou conversar nas duas línguas com os filhos,


já que os filhos mais velhos falam espanhol enquanto o mais novo fala apenas
português.
Eu falo os dois. É porque a G. sempre fala português para nós,
às vezes ela não entende o que eu falo em castelhano então
tenho que falar português. Ela fala: mãe, não entendi. Então
tem que repetir em português. Mas ela só fala em português.
As minhas duas outras filhas falam castelhano e português.

Outro entrevistado afirma não se preocupar com o fato dos filhos não
falarem espanhol quando questionado sobre o assunto: “Não. Eu tenho canal
da Bolívia, mas também não chama atenção. Tampouco nunca proibi não
falar espanhol. Porque eles nunca conseguiram falar, eu falo mais espanhol
com eles, mas eles não falam”.
Isso demonstra como a língua do país de origem é presente no dia
a dia dos adolescentes entrevistados, mesmo que tenham dificuldades em

Foram realizadas entrevistas qualitativas em profundidade com alguns pais dos alunos pesquisados
30

no mesmo período da realização da pesquisa na escola.

REMHU - Rev. Interdiscipl. Mobil. Hum., Brasília, Ano XXII, n. 42, p. 213-230, jan./jun. 2014 225
A segunda geração de latino-americanos na cidade de São Paulo: a questão do idioma

comunicar-se na língua dos pais. Portanto, mesmo com as dificuldades


linguísticas que os entrevistados enfrentam para se comunicar na língua dos
pais, o espanhol ainda permanece como idioma fundamental entre o grupo
em questão.
Para além da esfera da casa e da família, metade dos entrevistados
relatou falar outro idioma além do português ao conversar com os amigos
enquanto a outra metade afirmou falar apenas português. Quando
perguntados sobre a frequência ao falar outro idioma além do português no
dia a dia a maioria relatou falar cotidianamente outro idioma. Isso demonstra
que esses adolescentes recorrem ao uso do idioma de origem em diversos
momentos, ao menos no uso de algumas palavras, não só em casa, embora
metade deles relate falar apenas português ao conversarem com amigos.
Portanto, foi possível observar certo grau de manutenção do
idioma de origem, principalmente na esfera familiar. Manutenção essa
que segundo Portes e Rumbaut31 pode ser considerada como positiva, se
tornando uma habilidade a mais frente às crescentes demandas por força
de trabalho com conhecimentos em mais de um idioma. No entanto, parte
significativa da segunda geração não tinha habilidade para falar o espanhol
ou seu conhecimento era demasiado restrito para que de fato possam ser
considerados bilíngues. Logo a grande maioria dos entrevistados pode ser
considerada como linguisticamente assimilada à sociedade brasileira, mesmo
dentre aqueles que chegaram a menos de um ano no Brasil, fato resultante,
provavelmente, da rápida assimilação linguística dentro do ambiente escolar.

Considerações finais
Dentre as muitas questões levantadas no debate sobre a segunda
geração de imigrantes, o idioma e seus usos foi o tema principal deste artigo.
Conforme ressaltam Portes e Rumbaut32, a manutenção do idioma de origem
é uma característica importante na vida dessas crianças e adolescentes,
podendo impactar de maneira positiva ou negativa no processo de integração
com a sociedade receptora. Conforme a análise dos resultados observados a
partir da pesquisa qualitativa, foi possível observar que a segunda geração de
latino-americanos pesquisada mantém o uso do idioma espanhol, embora o
grau de habilidade seja bastante variado. Faz-se uso do mesmo diariamente
e principalmente nas relações familiares, enquanto o uso do português se
faz mais presente em outras ocasiões do dia a dia. Infelizmente não foi
possível estabelecer se o grupo estudado era de fato bilíngue. No entanto,

Ibidem.
31

Ibidem.
32

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Gabriela Camargo de Oliveira

constatou-se que o idioma espanhol tem parte significativa da vida dos


mesmos, principalmente na relação entre pais e filhos. Contudo, parece haver
uma relação direta entre o tempo de residência no Brasil e a habilidade no
idioma espanhol, ou seja, a diminuição da habilidade no idioma conforme
o aumento do tempo de residência no Brasil. Cabe lembrar, ademais, que
as análises ensejadas nesse artigo são apenas observações iniciais, sendo
necessário aprofundar melhor o conhecimento tanto em relação à questão
da manutenção do idioma de origem, quanto das outras questões que giram
em torno do debate da segunda geração de imigrante.
Logo, esse artigo teve também como objetivo aprofundar a discussão
sobre o tema da segunda geração de imigrantes e trazer elementos para
pensar o grupo em questão e sua vivência e experiências na cidade de São
Paulo. Para tal, usou do recorte a questão do idioma. Partiu-se do pressuposto
que o entendimento da segunda geração se faz essencial para compreender
o fluxo de latinos americanos para São Paulo e principalmente para o
entendimento do fenômeno migratório em suas diversas faces, considerando
que, para além dos impactos da primeira geração de latino-americanos em
São Paulo, também devemos analisar a questão de um ponto de vista mais
amplo, levando em considerações ambas as gerações.
Assim sendo, podemos perceber que ao restringirmos os estudos
migratórios apenas às questões relacionadas às primeiras gerações
empobrecemos o entendimento das comunidades migrantes e do fenômeno
migratório em si. Além disso, deixamos de compreender como a segunda
geração se relaciona com a sociedade de acolhimento, no caso a cidade de
São Paulo. Relação essa que tem encontros e desencontros, passando entre a
aceitação e a discriminação dos grupos imigrantes latino-americanos.
Entretanto, para entender essa relação muitos elementos precisam
ser analisados. No caso da segunda geração latino-americana em São Paulo
os elementos que mais se sobressaíram foram relacionados à questão da
autoidetificação, da discriminação e do idioma. No entanto, as análises aqui
apresentadas precisam ser mais aprofundadas para que possam ser feitas
conclusões a respeito da assimilação da segunda geração, trazendo, portanto,
por ora, apenas subsídios para começar a entender o processo.
Ademais, outro desafio se impõe: o grupo em questão ainda é novo,
composto majoritariamente de crianças e adolescentes. Portanto, analisar
sua assimilação não seria eficaz uma vez que a mesma ainda não se
estabeleceu de fato na sociedade, não terminou seus estudos e ingressou no
mercado de trabalho, não possibilitando observar seu processo assimilatório
na sociedade brasileira. Além disso, o tempo de exposição dessas crianças

REMHU - Rev. Interdiscipl. Mobil. Hum., Brasília, Ano XXII, n. 42, p. 213-230, jan./jun. 2014 227
A segunda geração de latino-americanos na cidade de São Paulo: a questão do idioma

e adolescente à sociedade brasileira ainda é pequeno e os processos de


assimilação vivenciados e observados encontram-se apenas nas fases iniciais.
Logo, podemos apenas buscar os elementos iniciais para entender esse
processo e seus desafios.
Mas supondo que a maior parte dessas crianças não retorne ao
país de origem, elas realizarão a maior parte de sua socialização no
Brasil. Todavia, por se tratar de uma população de origem estrangeira,
principalmente em relações as raízes culturais, embora a maior parte tenha
nacionalidade brasileira, estas crianças e adolescentes poderão enfrentar
problemas de inserção na sociedade brasileira e conflitos relacionados à sua
autoidentificação. Desafios e conflitos esses que devem ser analisados para
compreender como se dá a relação entre a segunda geração e a sociedade
paulistana e brasileira. Portanto, vale ressaltar que ignorar a bagagem cultural
da segunda geração classificando-os como brasileiros, em primeiro lugar, é
negar seu direito à descendência cultural e nacional e, em segundo lugar,
ignorar os desafios enfrentados por eles no dia a dia, na convivência com
seus pares nacionais, como no caso da escola. Diante disso, faz-se imperativo
compreender mais profundamente a segunda geração, tanto para melhor
entender seu papel dentro do fenômeno migratório como seu papel na
formação das comunidades estrangeiras em São Paulo.
No que tange a escola, é fato que essas crianças são presença marcante
nas escolas do centro de São Paulo. Isto nos leva a pensar que a questão
imigratória vai muito além de se compreender a inserção dos imigrantes em
si, mas também a integração de seus descendentes brasileiros e bem como
as consequências dessa imigração para a sociedade brasileira. Isto nos leva a
pensar na necessidade de políticas educacionais que contemplem o devido
aproveitamento dessas crianças no sistema escolar, minimizando conflitos e
harmonizando as diferenças. No entanto, o objetivo desse trabalho foi mais
no sentido de encontrar caminhos para entender o processo de assimilação
da segunda geração e não compreender o processo de assimilação em si.

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Abstract
The second generation of Latin-Americans
in the city of São Paulo and the issue of language
Although São Paulo receives immigrants hailing from all over the world, we
are able to observe an increase in arrivals of Latin-Americans, especially
Bolivians, Paraguyans, and Peruvians, principally after the 1970s. Latin-
American immigrants have constructed their lives in the city, establishing
homes and forming families. Their children face the issue of being a part of
the second generation, which can be defined as the collection of individuals
born after the initial arrival of their parents into Brazil. Comprehending
how the second generation has established itself in São Paulo through
relationships maintained with local communities is fundamental to
understanding the effects of immigration on society. Therefore, the study
strives to explain the life and experiences of second generation Latin-
Americans in São Paulo, highlighting the issue of language.
Keywords: second generation, international migration, language.

Recebido para publicação em 24/02/2014.


Aceito para publicação em 20/05/2014.
Received for publication on February, 24th, 2013.
Accepted for publication on May, 20th, 2013.

ISSN impresso: 1980-8585


ISSN eletrônico: 2237-9843

230 REMHU - Rev. Interdiscipl. Mobil. Hum., Brasília, Ano XXII, n. 42, p. 213-230, jan./jun. 2014