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Secretaria Judiciária

TREJAM

Fls.

Poder Judiciário
Tribunal Regional Eleitoral do Amazonas
Acórdão n° 51 ,z0/1€.
Processo n. 1-58.2017.6.04.0025 — Classe 30 (Manaus)
Recurso Eleitoral em Ação de Impugnação de Mandato Eletivo — Eleições 2016
Recorrente: MINISTÉRIO PÚBLICO ELEITORAL
Recorridos: CLAUDIOMAR PROENÇA DE SOUZA
EDSON BENTES DE CASTRO
FRED WILLIS MOTA FONSECA
JOANA DARC DOS SANTOS CORDEIRO
MARIA MIRTES SALES DE OLIVEIRA
CAIO ANDRÉ PINHEIRO DE OLIVEIRA
Advogados: Nazira Marques de Oliveira - OAB/AM 8707
André Nogueira Viana Mota — OAB/AM 9987
João Paulo Gomes Monteiro Barbosa — OAB/AM 8657
Rodrigo Ramos Rodrigues — OAB/AM 6701
Marcelo Ramos Rodrigues — OAB/AM 2831
Cristian Mendes da Silva — OAB/AM A-691
Antônio Coimbra Filho — OAB/AM 3252
Relatora: Juíza Ana Paula Serizawa Silva Podedworny
SADP n. 48/2017

ELEIÇÕES 2016. COTA DE GÊNERO. FRAUDE. AÇÃO DE


IMPUGNAÇÃO DE MANDATO ELETIVO. LITISPENDÊNCIA.
INEXISTÊNCIA. CONEXÃO. PROVIMENTO DO RECURSO.
1. Não há litispendência na hipótese em que a ação precedente
teve sua inicial indeferida por inadequação da via eleita,
principalmente quando as ações, embora ligadas a um fato
comum, possuem finalidades e consequéncias distintas.
2. Presente a conexão probatória, devem ser reunidas e
julgadas em conjunto a AIJE e a AIME propostas com
fundamento similar, de modo a se evitar decisões conflitantes.
3. Recurso a que se dá provimento para cassar a decisão
recorrida e determinar a reunião e o retorno da AIJE e da AIME
para instância de origem, a fim de que sejam processadas e
julgadas conjuntamente.

Acordam os Juízes do Tribunal Regional Eleitoral do Amazonas, por


, e em consonância com o parecer ministerial, pelo
CONHECIMENTO e PROVIMENTO do recurso eleitoral para cassar a decisão
recorrida, determinando a reunião do presente feito com a AIJE n° 1822-
34.2016.6.04.0037, bem como o seu retorno à instância de origem, a fim de que seja
dado regular prosseguimento até decisão conjunta de mérito, nos termos do voto da
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Relatora, que fica fazendo parte integrante a decisão. Sala das Sessões do
Tribunal Regional Eleitoral do Amazonas, e Manaus, 26 julho de 2018.

_
Des. JOÃO D S ABDALA SIMO
idente

Juíza ANA DWORNY

LEO DE FARIA GALIA O


Pro•rador Regio itoral

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Poder Judiciário
Tribunal Regional Eleitoral do Amazonas

Processo n. 1-58.2017.6.04.0025 — Classe 30 (Manaus)


Recurso Eleitoral em Ação de Impugnação de Mandato Eletivo — Eleições 2016
Recorrente: MINISTÉRIO PÚBLICO ELEITORAL
Recorridos: CLAUDIOMAR PROENÇA DE SOUZA
EDSON BENTES DE CASTRO
FRED WILLIS MOTA FONSECA
JOANA DARC DOS SANTOS CORDEIRO
MARIA MIRTES SALES DE OLIVEIRA
CAIO ANDRÉ PINHEIRO DE OLIVEIRA
Advogados: Nazira Marques de Oliveira - OAB/AM 8707
André Nogueira Viana Mota — OAB/AM 9987
João Paulo Gomes Monteiro Barbosa — OAB/AM 8657
Rodrigo Ramos Rodrigues — OAB/AM 6701
Marcelo Ramos Rodrigues — OAB/AM 2831
Cristian Mendes da Silva — OAB/AM A-691
Antônio Coimbra Filho — OAB/AM 3252
Relatora: Juíza Ana Paula Serizawa Silva Podedworny
SADP n. 48/2017

RELATÓRiO

Trata-se de Recurso Eleitoral em Ação de Impugnação de Mandato


Eletivo interposto pe o MINISTÉRIO PÚBLICO ELEITORAL em face de decisão
proferida pelo Juízo da 37a Zona Eleitoral que extinguiu o feito por litispendência,
sob o argumento de que havia sido proposta AIJE com a mesma finalidade, qual
seja, a investigação do alegado induzimento de eleitoras para suprir a cota de
gênero de 30% estabelecida pelo §3°, do artigo 10, da Lei das Eleições.

Sustenta o recorrente que há equívoco na decisão vergastada, tendo


em vista que não há identidade de pedidos entre as ações citadas, uma vez que a
AIJE foi proposta para apurar a irregularidade de candidaturas ao passo que a
presente AIME visa a desconstituir o mandato dos candidatos beneficiados pela
alegada fraude.

Ressalta também que não há identidade de partes entre as ações, o

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que poderia ensejar, no máximo, uma conexão entre elas, razão pela qual pleiteia a
cassação da decisão recorrida com consequente prosseguimento do feito.

Notificados, apenas os recorridos EDSON BENTES DE CASTRO e


LILIANE ARAÚJO DE ALMEIDA ofertaram contrarrazões, sustentando, em breve
síntese, que a litispendência está caracterizada pela identidade de causa de pedir,
não sendo possível o mesmo fato ser julgado duas vezes. Ao final, pleitearam a
manutenção da decisão vergastada.

A Procuradoria Regional Eleitoral reconheceu que a hodierna


jurisprudência do Tribunal Superior Eleitoral, de fato, vem reconhecendo a
litispendência com base apenas na identidade da relação jurídica base, mesmo que
entre partes distintas. Contudo, ressaltou que a finalidade do instituto é evitar o "bis
in idem", o que não é o caso dos autos, tendo em vista a AIJE teve sua inicial
indeferida, estando atualmente em grau de recurso.

Assim, ao seu sentir, o eventual reconhecimento da litispendência no


presente caso pode implicar na possibilidade do mérito não ser apreciado em
nenhuma das ações, o que não pode ser admitido.

Arrematou sua manifestação pugnando pelo desprovimento do recurso,


bem como pela reunião dos processos para julgamento conjunto.

Em seguida, os autos foram incluídos em pauta de julgamento.

É o breve relatório.

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Processo n. 1-58.2017.6.04.0025 — Classe 30 (Manaus)

VOTO

Recurso próprio, tempestivo e manejado por parte legítima, motivos


pelos quais deve ser conhecido.

Na lição de José Jairo Gomes', compreende-se, por quota eleitoral de


gênero, "a ação afirmativa que visa garantir espaço mínimo de participação de
homens e mulheres na vida política do País. Seu fundamento encontra-se nos
valores atinentes à cidadania, dignidade da pessoa humana e pluralismo político que
fundamentam o Estado Democrático brasileiro (CF, art. 1°, II, rll e V)".

Referido autor, citando jurisprudência do TribLnal Superior Eleitoral,


prossegue afirmando que eventual fraude de gênero pode ser investigada tanto na
Ação de Investigação Judicial Eleitoral quanto na Ação de Impugnação de Mandato
Eletivo, senão vejamos:
"Apesar de já ter afirmado não ser "cabível a propositura de representação com
fundamento no art. 96, § 8°, da Lei n° 9.504/97, para questionar o preenchimento dos
percentuais de gênero, à míngua de expressa previsão legal (TSE — AI n° 21.838/RS
— DJe, t. 203, 22-10-2013, p. 60), a jurisprudência tem aceitado que o
reconhecento da fraude de gênero possa ocorrer em sede de ação de
impugnação de mandato eletivo (AIME) e também de ação de investigação
judicial eleitoral (AIJE):
"Recurso especial. Ação de impugnação de mandato eletivo. Corrupção.
F 'aude. Coeficiente de gênero. 1. Não houve violação ao art. 275 do Código
Eleitoral, pois o Tribunal de origem se manifestou sobre matéria prévia ao
mérito da causa, assentando o não cabimento da ação de impugnação de
mandato eletivo com fundamento na alegação de fraude nos requerimentos
de registro de candidatura. 2. O conceito da fraude, para fins de cabimento
da ação de impugnação de mandato eletivo (art. 14, § 10, da
Constituição Federal), é aberto e pode englobar todas as situações em
que a normalidade das eleições e a legitimidade do mandato eletivo são

' GOMES, José Jairo. Direito Eleitoral. 14a ed. rev. atual. e ampl. São Paulo: Atlas, 2018.
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afetadas por ações fraudulentas, inclusive nos casos de fraude à lei. A
inadmissão da AIME, na espécie, acarretaria violação ao direito de ação e à
inafastabilidade da jurisdição. Recurso especial provido. Decisão: O Tribunal,
por unanimidade, deu provimento ao recurso especial, determinando o
retorno dos autos ao TRE do Piauí para, afastando o argumento de
inviabilidade da via eleita, permitir que a ação de impugnação de mandato
eletivo siga seu curso normal e legal, nos termos do voto do Relator." (TSE
—REspen°149/PI—DJe21-0 5,p.2-6)
Em igual sentido, referindo-se, porém, à ação de investigação judicial
eleitoral — AIJE: TSE — REspe n° 24.342/PI — DJe, t. 196, 11-10-2016, p. 65-
66.
Assim, sendo os pedidos nessas ações eleitorais julgados procedentes após as
eleições, a decisão judicial poderá implicar ingentes alterações nos resultados das
eleições anteriormente proclamados, impondo-se a reconfiguração do quadro de
eleitos e a representação partidária na respectiva casa Legislativa".

Portanto, a via eleita não configura óbice à apreciação da questão.

Passa-se, então, a analisar a alegação de litispendência a partir da


análise conjunta dos presentes autos com aqueles da AIJE n° 1822-
34.2016.6.04.0037.

Ab initio, cumpre salientar que não se desconhece que a jurisprudência


do Tribunal Superior Eleitoral vem evoluindo no sentido de reconhecer a
litispendência apenas com base na identidade da relação jurídica-base da AIJE e da
AIME.

Entretanto, compulsando ambos os feitos, verifica-se que o juízo de


origem indeferiu a petição inicial da ação precedente (AIJE) por inadequação da via
eleita e, posteriormente, extinguiu a presente ação (AIME) pela litispendência em
relação à primeira.

Em assim sendo, como houve extinção prematura da ação precedente


por questões processuais (inadequação da via eleita), não há como reconhecer a
litispendência da ação subsequente.

Tal conduta, na prática, como bem pontuou o Ministério Público,


implica na possibilidade de o mérito não ser apreciado em nenhuma das ações, o
que não se coaduna com o instituto da litispendência.

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Noutro vértice, analisando detidamente cada um dos feitos, verifica-se
que a AIJE foi proposta para investigar a suposta utilização fraudulenta de
documentos de eleitoras do sexo feminino com o intuito de registrar candidaturas
para preencher a quota de gênero prevista pelo §3° do artigo 10 da Lei das Eleições.

Em virtude disso, a ação foi intentada em face do partido envolvido e


dos candidatos diretamente relacionados com a conduta, inclusive com pedido de
declaração de inelegibilidade da candidata apontada como responsável pela fraude,
pedido esse que não se repete na AIME.

Em outra vértice, a presente ação visa a impugnar os mandatos de


todos os candidatos eleitos que concorreram por meio do DRAP contaminado, sendo
que alguns deles, como MARIA MIRTES SALES DE OLIVEIRA e CAIO ANDRÉ
PINHEIRO DE OLIVEIRA, sequer figuram no polo ativo da AIJE.

Como vê, apesar de as duas ações estarem ligadas a um fato


comum (irregularidac e do DRAP), as causas de pedir e partes são diversas, com
pedidos e consequências jurídicas distintas.

Na verdade, não se trata de identidade de relação jurídica-base, mas


relação de causa e consequência, ou seja, na AIJE deve ser apurada a existência da
alegada fraude no registro de candidatura e, em momento posterior, na AIME, o
impacto dessa fraude, se comprovada, no mandato dos candidatos eleitos pelo
respectivo partido.

O caso, portanto, é de conexão entre as ações, devendo ambas ser


reunidas a fim de se IENitar a prolação de decisões conflitantes.

Nesse sentido, inclusive, cita-se precedente do Tribunal Superior


Eleitoral sobre caso análogo.
RECURSOS ESPECIAIS. AÇÃO DE INVESTIGAÇÃO JUDICIAL ELEITORAL. AÇÃO
DE IMPUGNAÇÃO DE MANDATO ELETIVO.
Recurso Especial n° 2-54.2013.6.24.0028.
1. O entendimento predominante nesta Corte Superior é no sentido de que não há
litispendência entre a ação de impugnação de mandato eletivo e a ação de
investigação j udicial eleitoral, por se tratarem de demandas com causas de pedir e
objetos distintos. Precedentes: AgR-REspe n° 26.314, rel. Min. Caputo Bastos, DJ de
22.3.2007; REspe n° 26.118, rel. Min. José Gerardo Gross , DJ de 28.3.2007.
2. De acordo com as informações registradas no ac6xlão recorrido, a ação de
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impugnação de mandato eletivo veiculou um fato a mais do que os alegados na
ação de investigação judicial eleitoral. Inexistência de litispendência, tendo em
vista a diversidade das causas de pedir.
3. Salvo nas hipóteses em que houver prejuízo para a regular instrução
processual, cabe ao juízo competente reunir e julgar em conjunto a AIJE e a
AIME propostas com fundamento em fatos idênticos ou similares, de modo que
se evitem decisões conflitantes.
4. Impossibilidade de extinção sem resolução do mérito da AIME na espécie,
tendo em vista a sua precedência constitucional e a inexistência de identidade
da respectiva causa petendi com a da AIJE anteriormente ajuizada.
5. DevolLção dos autos à origem, a fim de que, afastado o fundamento alusivo à
litispendência, se prossiga no julgamento da AIME.
TSE - REspe - Recurso Especial Eleitoral n° 254 - São Joaquim/SC Proc. n ° 2-
54.2013.624.0028. Acórdão de 11/11/2014. Relator(a) Min. HENRIQUE NEVES DA
SILVA)

Pelo exposto, em harmonia com parecer ministerial, voto pelo


CONHECIMENTO e pelo PROVIMENTO do recurso para cassar a decisão recorrida,
determinando a reunião do presente feito com a AIJE n° 1822-34.2016.6.04.0037,
bem como o seu retorno à instância de origem, a fim de que seja dado regular
prosseguimento até decisão conjunta de mérito.

É como voto.

Manaus, 26 de jul de 2018.

Juíza ANA PAU RIZAWA SILVA PODEDWORNY


Relatora