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Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC

Centro Tecnológico – CTC


Departamento de Engenharia de Produção e Sistemas – DEPS

ESTUDO DA LOGÍSTICA INTERNA DE UMA


CONSTRUTORA

DIOGO DE CARVALHO PADILHA


Universidade Federal de Santa Catarina
dcp.diogo@gmail.com

FELIPE SCHNEIDER NUNES


Universidade Federal de Santa Catarina
felipeschneider91@gmail.com

RODRIGO CARLOS SOARES


Universidade Federal de Santa Catarina
rodrigo.menssana@gmail.com
ESTUDO DA LOGÍSTICA INTERNA DE UMA CONSTRUTORA
STUDY OF INTERNAL LOGISTICS OF A CONSTRUCTOR

RESUMO
Ao longo dos anos a industrialização da construção civil vem avançando, propiciando técnicas
e métodos inovadores para os projetos e execução das obras. Entretanto, estudos apontam que
os cuidados com o fluxo de informações e materiais não vêm tendo a atenção necessária, isto
é, a logística interna das obras normalmente fica em segundo plano, e gestores focam seus
esforços apenas em aspectos técnicos. Em tempos de crise e aumento da competitividade, a
logística tem papel fundamental para gerar vantagem competitiva às construtoras, auxiliando a
reduzir desperdícios, aumentar o giro do estoque e consequentemente diminuir os custos. Logo,
entende-se que, atualmente, para um empreendimento obter êxito é essencial que os fluxos
internos da obra estejam em sincronia. O presente artigo trata deste assunto, foi realizada uma
revisão teórica sobre o tema, englobando os principais autores da logística em geral, bem como
artigos e publicações que abordam a logística especificamente dentro da construção civil. Em
posse desta revisão, foi avaliada a situação atual da logística interna de uma construtora de
médio porte, localizada na região da Grande Florianópolis, Santa Catarina. Através de visitas à
empresa e ao empreendimento atual da mesma, assim como com conversas informais com
funcionários, foi diagnosticado como a logística é tratada dentro da construtora. Os resultados
do estudo mostram que a empresa tem preocupações com as questões logísticas das obras, e
isso pode ter sido um grande diferencial para a mesma sobreviver em meio à crise.

Palavras chave: Logística, Construção Civil, Fluxos Logísticos, Obras Verticais.

ABSTRACT
Over the last few years the industrialization of civil construction has been advancing, providing
innovative techniques and methods for the projects and execution of the works. However,
studies point out that care with the flow of information and materials is not having the necessary
attention, that is, the internal logistics of the works usually falls into the background, and
managers focus their efforts only on technical aspects. In times of crisis and increased
competitiveness, logistics plays a key role in generating competitive advantage for construction
companies, helping to reduce waste, increase inventory turnover, and consequently lower costs.
Therefore, it is understood that, for an enterprise to succeed at present, it is essential that the
internal flows of the work be in sync. The present article deals with this subject, a theoretical
revision on the theme was carried out, including the main authors of logistics in general, as well
as articles and publications that approach logistics specifically within civil construction. The
current situation of the internal logistics of a medium-sized construction company, located in
the region of Grande Florianópolis, Santa Catarina, was evaluated. Through visits to the
company and its current enterprise, as well as informal conversations with employees, it was
diagnosed how the logistics are handled within the construction company. The results of the
study show that the company has concerns about the logistical issues of the works, and this may
have been a great differential for it to survive in the midst of the crisis.

Key-words: Logistics, Civil Construction, Logistics Flows, Vertical Works.


1 INTRODUÇÃO
A construção civil no Brasil vem passando por momentos difíceis nos últimos anos. Segundo o
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE, 2017), desde 2013 a queda do PIB do
setor já soma 14,3%. Em tempos de crise, o mercado fica mais acirrado, e empresas buscam
formas de ganhar vantagem competitiva sobre as concorrentes. E neste contexto, a logística
pode vir como boa alternativa a ajudar as construtoras e empresas do setor a reduzirem seus
custos e desperdícios inerentes nos seus empreendimentos, contribuindo para que os fluxos de
materiais, informações e finanças ocorram de forma mais harmônica.

A presença da logística em canteiros de obras vem sendo objeto de pesquisas mundo a fora, e
é considerada por muitos como fundamental para o êxito total de uma obra. Conforme afirma
Mourão et. al. (2010):

“o estudo das etapas intermediárias da produção ou o estudo dos fluxos físicos


num canteiro de obra são essenciais para o sucesso de um empreendimento
nos tempos de hoje, pois, além de uma competitividade acirrada em termos de
mercado, tem-se também um entendimento bem maior sobre as perdas na
construção civil, seja de material ou pessoal.”

Segundo Coelho (2015), a realidade de um canteiro de obras no Brasil varia muito conforme a
organização e visão da construtora responsável pelo empreendimento. Contudo, de maneira
geral os canteiros são apertados e mal organizados. Dificultando o bom funcionamento logístico
das obras, acarretando em desperdícios, custos desnecessários, entre outros.

O presente artigo aborda as relações da logística com a construção civil, em especial nas obras
verticais. Trazendo um referencial teórico sobre o tema e que contemplem definições
importantes acerca disso. E ainda apresenta um estudo de caso com enfoque em uma construtora
da região da Grande Florianópolis, Santa Catarina, apresentando a cadeia de suprimentos da
empresa e sua rede logística, e descrevendo o sistema de armazenagem, a política de gestão de
estoques e o sistema de transporte da construtora.

Além desta Introdução, o artigo é estruturado em mais 4 seções, são elas: i) uma revisão da
literatura sobre a logística e a construção civil, incluindo a logística reversa; ii) os
procedimentos metodológicos adotados, que por meio de visitas e entrevistas informais a
funcionários da construtora, são apresentadas todas informações referentes à logística da
empresa; iii) a descrição mais detalhada da caracterização dos fluxos internos em uma obra
vertical da empresa foco; iv) por fim, comenta-se sobre os resultados obtidos e a situação atual,
em termos da logísticas aplicada, da empresa.

2 LOGÍSTICA
De uma maneira geral e bem abrangente, segundo o CSCMP – Council of Supply Chain
Management Professionals (antigo Council of Logistics Management – CLM) (2004), a
logística “é uma parte do processo de gestão da cadeia de suprimentos que planeja, implementa
e controla o fluxo direto e reverso e a armazenagem eficiente e eficaz de bens, serviços e
informações relacionadas, do seu ponto de origem até o seu ponto de consumo, de maneira a
satisfazer as necessidades dos clientes”.

No âmbito da logística reversa ROGERS; TIBBEN-LEMBKE (1999) definem a logística


reversa como “o processo de planejamento, implementação e controle eficiente, inclusive de
custos, dos fluxos de matérias-primas, de inventário em processo (estoques), bens finalizados,
e informações relativas a eles, do ponto de consumo para o ponto de origem com o propósito
de recapturar ou criar valor ou ainda dar disposição adequada”.

Dessa maneira, este capítulo apresenta a revisão da literatura abordando e contemplando os


principais tópicos para a realização do presente artigo. Ele está dividido em quatro partes:
Logística na construção civil, logística reversa na construção civil e legislação, a logística
interna do canteiro e projetos de canteiros.

2.1 Logística na construção civil


A logística aplicada à construção civil pode ser segmentada entre logística interna e logística
externa. Sendo que a externa é aquela que se refere à interface comercial da obra, isto é, as
relações com fornecedores, clientes, serviços externos inerentes às obras, entre outros. Já o
conceito de logística interna está relacionado a todo tipo de transporte ou armazenamento que
ocorre no canteiro de obras (COELHO, 2015). Neste trabalho daremos mais ênfase ao estudo
da logística interna nas obras, no entanto, posteriormente apresentaremos a cadeia de
suprimentos da construção civil, bem como a rede logística da empresa cujo estudo foi focado.

A capacidade de monitoramento dos seus desperdícios, seja ele de material ou de tempos


envolvidos nos processos, é de suma importância para as construtoras. Algumas possuem
monitoramento de seus estoques, tanto em canteiros de obras ou nos seus armazéns através de
softwares de gestão. Eles possibilitam um controle mais adequado ao tratar cada material que
entra ou sai da obra, avaliando tanto a logística interna como a externa.

2.2 A Logística reversa na Construção Civil e a Legislação


A lei nº12.305 que institui a política nacional de resíduos sólidos define a logística reversa como
instrumento de desenvolvimento econômico e social caracterizado por um conjunto de ações,
procedimentos e meios destinados a viabilizar a coleta e a restituição dos resíduos sólidos ao
setor empresarial, para reaproveitamento, em seu ciclo ou em outros ciclos produtivos, ou outra
destinação final ambientalmente adequada.

Silva (2007) afirma que:

“A economia com a utilização de embalagens retornáveis ou com o


reaproveitamento de materiais para produção tem trazido ganhos que
estimulam a utilização da logística reversa. Dessa forma, a implantação da
logística reversa revela-se como uma grande oportunidade de se desenvolver
a sistematização dos fluxos de resíduos, bens e produtos descartados – seja
pelo fim de sua vida útil, seja por obsolescência tecnológica ou outro motivo
– e o seu reaproveitamento, dentro ou fora da cadeia produtiva que o originou,
contribuindo para a redução do uso de recursos naturais e dos demais impactos
ambientais.”

De acordo com o Conselho Nacional do Meio Ambiente (CONAMA), a resolução nº307


esclarece e estabelece diretrizes, critérios e procedimentos para a gestão dos resíduos sólidos
da construção civil, disciplinando as ações necessárias de forma a minimizar os impactos
ambientais. Nesse contexto cabe ao município possuir um programa de gerenciamento de
resíduos e que estabeleça diretrizes para o exercício de responsabilidade de seus geradores. O
setor de construção civil tem por obrigação prover de uma forma minimamente tolerante uma
destinação aos seus resíduos ou uma maneira de reutilização.
O atual processo industrial linear, com resíduos da construção civil gerando desperdícios e
impactos ambientais significativos ao ambiente urbano, deve ser substituído por uma logística
circular, de natureza sustentável, na qual os resíduos gerados, segregados por classes, podem
ser novamente incorporados à cadeia produtiva – logística reversa – ou adequadamente
descartados, produzindo benefícios sociais, econômicos e ambientais (BAPTISTA JR;
ROMANEL, 2013).

2.3 A Logística interna do Canteiro


Para Marcondes (2005) a logística interna é aquela que faz parte do canteiro de obras, há a
existência de uma organização do trabalho onde não são os produtos que se movimentam em
relação aos suprimentos e sim os trabalhadores que circundam ao produto principal. Vieira
(2006) define o canteiro de obras como “todo espaço que é destinado para efetivar a execução
de um projeto de concepção de uma obra”.

Um canteiro de obras bem projetado e organizado é questão fundamental para o sucesso de um


empreendimento. “Não há sentido em se falar em qualidade na obra ou produtividade no
processo produtivo quando não se tem planejado o local onde os serviços de construção
acontecem” (SOUZA, 2000).

Quando se pensa no planejamento logístico do canteiro o que se quer, na verdade, é caracterizar


o planejamento do layout e da logística das instalações provisórias, instalações de
movimentação e armazenamento de materiais e instalações de segurança. O planejamento da
logística deve ser integrado ao planejamento do layout. O objetivo principal é garantir o
fornecimento de insumos e de toda infraestrutura necessários para o perfeito funcionamento
dos processos relacionados às instalações de canteiro (VIEIRA, 2006).

Segundo Tommelein (1992), independentemente do tamanho da obra, deve ser realizado um


planejamento criterioso do layout e logística do canteiro para aproveitamento eficiente dos
recursos e, assim, evitar desperdícios.

Logo, pode-se perceber tamanha relevância do cuidado que se deve ter com a logística interna
na construção civil. A atenção com os fluxos e estocagem que ocorrem em um canteiro de obras
é tão grande quanto a parte técnica da obra. Os fluxos internos em um canteiro podem ser
divididos em fluxo de materiais ou físicos e fluxo de informações. Os fluxos físicos internos
são bem relevantes, pois na construção civil existem diversos tipos de materiais, sendo estes
separados por tipo de embalagem e tipo de transporte. Esta movimentação desencadeia um
grande trabalho que deve ser bem gerido ou administrado sempre com o intuito de evitar
desperdícios e tentar agregar valor nas atividades inerentes ao processo (MOURÃO et al.,
2010).

Barbosa et. al. (2007) propõe um modelo de operador logístico para a construção civil diferente
dos moldes da indústria de manufatura, ou seja, se propõe um administrador logístico que
gerencia o canteiro em harmonia com o engenheiro da obra. Isto é, este modelo propõe que
existam dois gestores na obra, sendo que o gerente logístico é aquele que materializa todo o
processo logístico. Esse é quem planeja, implementa e controla todo o fluxo de materiais,
serviços, mão-de-obra e a armazenagem com as respectivas informações associadas. Sendo
assim, é esse gestor que tem a função de toda a gestão de cadeia de suprimentos necessários a
produção, seja de materiais, serviços e mão-de-obra, deixando para o engenheiro de obras a
análise, acompanhamento e o controle das especificações técnicas do projeto. Tal modelo
reforça a relevância da logística interna em um empreendimento.
2.4 Projetos de canteiros
Estudos apontam que no Brasil a preocupação com a elaboração do projeto do canteiro de obras
ainda está longe do ideal, não sendo considerado uma prioridade dentro dos empreendimentos.
Todavia, aos poucos, engenheiros, construtores e empreendedores começam a reconhecer que
um projeto bem desenvolvido, com base em resultados de estudos criteriosos e aplicados,
encaminha o desenvolvimento do projeto de forma muito mais eficiente, com maximização da
produtividade, minimização das perdas e desperdícios e com maior segurança ao trabalhador
(VIEIRA, 2006).

Vieira (2006) aponta fatores relevantes e genéricos que servem para direcionar e encaminhar a
elaboração do projeto do canteiro, são estes:

a) Definição clara das diversas fases do desenvolvimento da obra;


b) Definição dos elementos que devem estar presentes no e suas características;
c) Priorização dos elementos previstos;
d) Análise do relacionamento entre esses elementos pré-definidos;
e) Estudo dos fluxos dos processos previstos;
f) Análise da alocação dos elementos do canteiro;
g) Elaboração do arranjo físico do canteiro; e
h) Avaliação do arranjo físico para cada uma das fases definidas.

Mourão et. al. (2010) relembra um trabalho de Moreira (1996), mostrando que todo
planejamento de arranjo físico tem uma preocupação básica que é tornar mais fácil e suave o
movimento do trabalho, quer esse movimento se refira ao fluxo de pessoas ou de materiais.
Mourão et. al. (2010) define três tipos de arranjos físicos, são estes:

a) Por produto, muito utilizado na manufatura;


b) Por processo, utilizado em algumas indústrias, hospitais e escolas;
c) Posição fixa, onde o fluxo tende a permanecer fixo ou quase fixo, utilizado na
construção civil.

Mourão et. al (2010) destaca que o layout fixo é um dos maiores empecilhos à implementação
de um sistema de administração da produção em uma construção civil. Além disso, é que o
mesmo “produto” raramente é feito mais de uma vez. Mesmo que a construtora se dedique a
fazer somente edifícios, dificilmente repetirá o mesmo projeto.

3 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
Este trabalho busca mapear a cadeia de suprimentos da indústria da construção civil,
identificando os elos à montante e à jusante do setor, bem como a rede reversa. Além disso,
tenta identificar, para a empresa foco, a rede logística, assim como descrever o sistema de
armazenagem, política de gestão de estoques e sistema de transporte inerentes.

Para chegar no objetivo com êxito foram utilizadas fontes secundárias de artigos, trabalhos
científicos, dissertações, literatura, entre outros materiais pertinentes, além da pesquisa primária
na empresa BC. A construtora BC tem seu armazém localizado na cidade de Biguaçu, e seu
setor de vendas e engenharia na cidade de Florianópolis. Pode ser considerada uma empresa de
médio porte, cuja executa edifícios verticais, tanto residenciais como comerciais. Os
empreendimentos da BC localizam-se principalmente nas cidades de São José e Florianópolis,
no entanto, a empresa está disposta a realizar qualquer empreendimento em toda a grande
Florianópolis, desde que veja boas perspectivas de lucro.
3.1 A cadeia de suprimentos da construção civil
Identificar e gerenciar a cadeia de suprimentos na construção civil, conforme já foi mencionado,
refere-se às questões relacionadas à logística externa do setor. Segundo o CSCMP(2005), a
gestão da cadeia de suprimentos pode ser definida da seguinte forma:

“a gestão da cadeia de suprimentos engloba o planejamento e a gestão de


todas as atividades envolvendo busca de fornecedores, compras, transporte e
todas as atividades de logística. Também inclui a coordenação e colaboração
com os parceiros do canal, os quais podem ser fornecedores, intermediários,
prestadores de serviços logísticos e clientes. Em essência, a gestão da cadeia
de suprimentos integra o gerenciamento do suprimento e da demanda dentro
e entre companhias.”

Para Suleman e Zairi (2006), a definição da gestão da cadeia de suprimentos pode ser melhor
ilustrada se considerarmos o exemplo de uma empresa focal e identificarmos as empresas à
montante e à jusante. Lambert e Cooper (2000) ilustra isso de uma forma bem interessante,
mostrando a empresa focal e níveis na cadeia, tanto à montante como à jusante. Tal ilustração
pode ser vista na figura 1.

Figura 1 – Estrutura genérica de uma cadeia de suprimentos [Fonte: Lambert e Cooper, 2000]

Na construção civil, e especificamente na construtora BC, nos níveis à montante estão os


fornecedores de materiais da construção civil (materiais elétricos, porcelanas, tijolo, cimento,
concreto, ferro, entre outros), além dos prestadores de serviços como terraplenagem,
perfuração, aluguel de guindastes. Já à jusante estão imobiliárias e os clientes finais. Além
destes, há ainda a parte da logística reversa, que já foi discutida no item 2.2., fazendo com que
entulhos retornem ao mercado em forma de outros materiais. Para compreender melhor a cadeia
de suprimentos em que a construtora BC está inserida, pode-se ver a figura 2.
Figura 2 – Cadeia de suprimentos da construção civil [Fonte: elaborado pelos autores (2018)]

3.2 A rede logística da empresa em foco


A rede logística é a representação físico-espacial dos pontos de origem e destino dos bens, bem
como dos seus fluxos e demais aspectos relevantes, de forma a possibilitar a visualização do
sistema logístico no seu todo (Alvarenga e Novaes, 1994).

No caso da construtora BC pode-se dividir a sua rede logística entre os fornecedores e as obras.
Analisando o histórico de empreendimentos da empresa percebe-se que todos ocorreram na
região da grande Florianópolis. Até meados da década de 90, a grande maioria dos
empreendimentos ocorreram na região de São José, a partir do final da mesma década, muitas
obras começaram a ocorrer no bairro Estreito, cidade de Florianópolis, se tornando a localização
com maior número de empreendimentos da empresa. E nos últimos quinze anos, a empresa
começou a investir em projetos na região insular da capital de Santa Catarina, com destaque
para região central da cidade. Na figura 3 pode-se ver a rede logística da empresa BC,
representando vários dos empreendimentos já realizados, assim como o armazém e o setor de
engenharia da empresa. Na sequência deste trabalho mostrar-se-á a política de estoques da
construtora e se perceberá que as distâncias entre o local das obras e o armazém da empresa
não são tão relevantes.
Figura 3 – Rede logística da construtora BC, relações entre empreendimentos e armazém da empresa. [Fonte:
elaborado pelos autores (2018)]

Conforme visto na figura 3 e o que foi comentado no parágrafo anterior, percebe-se que os
empreendimentos da construtora estão concentrados em um espaço relativamente pequeno no
mapa, situados em sua maioria na região continental da grande Florianópolis, sendo que nos
últimos anos alguns projetos estão sendo realizados na Ilha de Santa Catarina, em especial no
Centro da cidade. Entretanto, para representar uma rede logística incluindo os fornecedores é
necessário que este mapa seja ampliado, visto que alguns dos fornecedores estão localizados no
interior de Santa Catarina. A rede logística que contempla os fornecedores pode ser vista na
figura 4, neste mapa foram representadas apenas algumas das principais regiões em que
geralmente ocorrem obras da empresa, e não os empreendimentos individualmente como foi
visto na figura 3.

Figura 4 – Rede logística envolvendo fornecedores [Fonte: elaborado pelos autores (2018)]
Conforme já mencionado, a figura YY mostra a rede logística da construtora BC envolvendo
os fornecedores da mesma. Na sequência pode-se ver uma lista com alguns dos fornecedores
da empresa:

a) Madeireira Flor de Napolis – São José


b) Renatec Quadros Elétricos – Biguaçu
c) Cerâmica Felisbino – Jaguaruna
d) Casas da Água – Florianópolis
e) Terra Gil Materiais de Construção – Presidente Getúlio
f) NM compensados – Santo Amaro da Imperatriz
g) Santa Rita – São José
h) Portobello – Tijucas

3.3 Descrição do sistema de armazenagem, política de gestão de estoques e sistema de


transporte da empresa em foco
Consoante ao que já foi mencionado anteriormente, o foco deste artigo é identificar e descrever
as características da logística interna da construtora BC, que será visto posteriormente. Todavia,
nesta seção serão apresentadas, de forma superficial, algumas informações inerentes à logística
externa da empresa. Estas se referem principalmente ao armazém, estoque e sistema de
transporte da construtora.

De acordo com o que foi visto na seção anterior, a empresa possui um armazém próprio e o
mesmo está localizado na cidade de Biguaçu. Não há informações sobre o porquê de a empresa
ter optado pelo armazém neste local, isto é, não se sabe se foram utilizados critérios e métodos
presentes nas literaturas clássicas da logística, como o método do centroide, por exemplo.
Tampouco se tem informações quanto a possíveis estudos que a empresa possa ter realizado
para definir tamanho e outras informações importante sobre o armazém. No entanto, pode-se
dizer que o mesmo está situado em um local estratégico, relativamente próximo aos
empreendimentos e muito perto à BR101, facilitando os fluxos físicos entre a empresa, seus
fornecedores e os empreendimentos.

Como a empresa trabalha com projetos distintos, não há sentido em falar de lote econômico de
compra, ponto de pedido, estoque mínimo, entre outras importantes ferramentas logísticas
presentes em livros, artigos e outros materiais publicados. Isto é, a empresa compra os materiais
necessários para cada empreendimento, os fornecedores têm a missão de entrega-los no local
da obra e em datas pré-estabelecidas, sob pena de multa caso ocorra atraso nas entregas.
Entregas muito antecipadas também não são bem-vindas, isso porque qualquer obra ocorre em
etapas. Por exemplo, não faz sentido algum receber os porcelanatos durante a fase de
terraplenagem (etapa inicial), pois é um tipo de material usado somente no acabamento dos
prédios (etapa final), com valor relativamente alto e facilmente perecível se não for armazenado
da forma correta.

Dessa forma, pode-se dizer que a construtora trabalha com um nível quase zero de estoques,
modelo muito próximo ao sistema Just in Time(JIT). O conceito de JIT pode ser definido como
“produzir bens e serviços exatamente no momento em que são necessários – não antes para que
não formem estoques, e não depois para que seus clientes não tenham que esperar” (SLACK,
2002). Ao comparar essa definição com a política de estoques utilizada pela empresa, percebe-
se claramente que há semelhanças entre os modelos. Porém, apesar de receber quase todos os
materiais diretamente nas obras e em quantidades suficientes para cada empreendimento, a
empresa trabalha ainda com um estoque de segurança de 10% para determinados materiais,
como: elétricos, hidro sanitários, porcelanato, entre outros. Ou seja, além daqueles materiais
que certamente serão utilizados, ainda há uma “reserva”. Esse estoque de segurança tem como
objetivo principal atender possíveis defeitos e/ou falhas que ocorram futuramente durante o
período de garantia dos edifícios (cinco anos após a conclusão). O software utilizado para a
gestão desses estoques é o SIENGE, o mesmo será mais detalhado em seção posterior deste
artigo.

De forma resumida, pôde-se notar que a empresa recebe, em geral, todos seus materiais no local
da obra, inclusive o percentual referente ao estoque de segurança. Posteriormente, o estoque de
segurança e as possíveis sobras de materiais que ocorram são transportados do local da obra até
o armazém. Quando existe a possibilidade, os materiais que sobram em uma obra são realocados
em outras obras. A responsabilidade desses transportes entre os empreendimentos e o armazém
é inteiramente da construtora BC, e a mesma os faz através de caminhões próprios. Enquanto
que o transporte dos fornecedores até os locais de obras é de atribuição dos próprios
fornecedores. O transporte dos resíduos gerados é dever de empresas terceirizadas, contratadas
pela BC para prestar esse serviço, fazendo com que a empresa atenda à legislação e a insira na
cadeia de logística reversa do setor.

4 ESTUDO DE CASO – A LOGÍSTICA INTERNA


4.1 A Empresa
Conforme já foi citado, a construtora analisada é de pequeno/médio porte, localizada na cidade
de Florianópolis. É atuante na área de construção de edifícios residenciais e comerciais de alto
padrão. A empresa investe seus empreendimentos na região central de Florianópolis, e com
foco principal no Bairro Estreito. Apesar de ser uma empresa de pequeno porte, seu setor de
suprimentos, responsável pela aquisição de matérias primas e logística de materiais, é bem
funcional. Com o auxílio do SIENGE, software que centraliza todas as informações referentes
a cadeia de suprimentos (matéria prima, fornecedores e orçamentos) gerando relatórios
direcionados para cada setor, o planejamento e o direcionamento dos materiais são efetuados
de maneira mais otimizada.

Com a utilização do Software, os três elementos principais da logística interna para organização
dos fluxos de materiais e serviços no canteiro (gestão de estoque, fluxo de informações e fluxo
de materiais) são canalizados para apenas um canal. Desta maneira o fluxo de materiais e
informações da Empresa BC é apresentada na Figura 5.
Figura 5 – Fluxo de materiais e informações da empresa BC [Fonte: elaborado pelos autores (2018)]

4.2 Fluxo reverso


Conforme BEZ (2014) a região da Grande Florianópolis gera em torno de 2 milhões de
toneladas de resíduos, provenientes da construção civil, por ano. E essa grande quantidade de
entulhos não tem uma política adequada de descarte, por parte da construtora e do poder
público. Desta maneira, o descarte dos resíduos das construções é feito através de soluções
paliativas onde encarecem o custo final da edificação.

A construtora BC, base desse estudo, utiliza como solução paliativa a contratação de empresas
de papa-entulho, para efetuar a remoção e o descarte dos resíduos que não serão mais utilizados.
As sobras de materiais utilizáveis são direcionadas para outras obras em andamento ou para o
Armazém da empresa localiza na cidade de Biguaçu.
Os materiais/produtos provenientes de sobras de processos industriais, denominados resíduos
industriais, são apresentados pelo fluxo reverso na figura 6.

Figura 6 – Fluxo reverso dos materiais da empresa BC [Fonte: elaborado pelos autores (2018)]

4.3 Definição do canteiro de obra


Atualmente, a empresa está com dois empreendimentos em andamento, um no bairro Estreito
e outro no centro de Florianópolis. Para este estudo de caso focou-se apenas no empreendimento
que ocorre no bairro Estreito. O edifício em questão possui 32.880 m² de área construída, sendo
composto de 4 pavimentos de garagens, térreo e sobreloja comerciais e 15 pavimentos tipo de
uso residencial e está em fase inicial de construção. Nesta fase ocorre a maior movimentação
de materiais, assim sendo, o projeto do canteiro de obras tem que ser bem dimensionado para
evitar desperdícios e movimentações desnecessárias.

A empresa, por ser certificada pela ISO 9001 e pelo PBQP H (Programa Brasileiro da Qualidade
e Produtividade do Habitat), padroniza cada etapa da construção para obter empreendimentos
de qualidade e alto padrão, tanto para os clientes finais como para os trabalhadores na
construção. Por esse motivo, o canteiro de obras é projetado de forma otimizada.

Na logística de um canteiro de obras é necessário levar em consideração alguns pontos


importantes. Conforme SCHALK (1982), o ambiente físico e não físico, o projeto da edificação,
as matérias primas, o processo das atividades, as instalações, os equipamentos, a disposição da
área de trabalho, ou seja, o ambiente físico geral, interferem no trabalho e na produção. Desta
forma o canteiro de obra tem que ser projetado para não obstruir as vias de circulação – de
materiais e pessoas – definindo espaços de recebimento e armazenamento de materiais.

Na sequência podemos visualizar na figura 7, de forma geral, o projeto de canteiro definido


pela empresa BC.
Figura 7 - Projeto de canteiro de obra da empresa BC [Fonte: Construtora BC (2018)]

Toda a movimentação de pessoas e materiais dentro do canteiro apresenta condições favoráveis,


sem quaisquer interferências por parte do estoque. Desta forma, podemos verificar através do
layout do canteiro apresentado pela empresa, que ela atende aos principais princípios conforme
Lopes (1996) de: economia de movimento, fluxo progressivo, flexibilidade, integração, uso de
espaços cúbicos e segurança.

5 CONCLUSÃO
A empresa BC não ficou imune às crises do setor, alguns funcionários relataram que nos últimos
anos aproximadamente 60 trabalhadores foram demitidos. Os mesmos contam que atualmente
a situação tem melhorado, no entanto, muitos empregados ainda estão trabalhando em horário
reduzido (com salário também reduzido). E se hoje a empresa trabalha em média com dois
empreendimentos em paralelo, no passado este número já chegou a cinco. Estes dados ilustram
bem como a crise econômica do país afetou a construção civil, e principalmente, a construtora
BC.

Apesar de várias situações negativas que a empresa tem passado, a BC ainda tem motivos para
“comemorar”. Segundo matéria do Diário Catarinense (2017), entre 2013 e 2016 o número de
construtoras e incorporadoras que declararam falência em Santa Catarina dobrou. A figura 8
ilustra estes dados com um gráfico. Dessa forma, pode-se dizer que a sobrevivência da empresa
em meio à crise é uma grande justificativa para celebrações. De fato, alguns colaboradores da
empresa comentaram que alguns concorrentes diretos da BC declararam falência e não
resistiram ao grave declínio que a construção civil passou.
Figura 8 – Gráfico de pedidos de falência na construção civil em SC [Fonte: Diário Catarinense (2017)]

A grande questão que fica é: qual foi o diferencial da empresa BC para resistir a todas as
atribulações da construção civil? Com certeza não existe apenas uma única explicação, vários
fatores levam uma empresa ao sucesso ou fracasso, e também, não se sabe de que forma
trabalhavam as tantas empresas do setor que fecharam as portas. Porém, podemos salientar o
modo como a BC trata a sua logística interna. Na seção 4 foi visto um exemplo de projeto de
canteiro, e percebeu-se que o layout proposto pela construtora atende os principais requisitos
logísticos presentes na literatura. De maneira geral, notou-se que a empresa tem uma boa
preocupação com a logística interna das obras, realizando projetos de canteiros a fim de facilitar
os fluxos físicos e armazenamento nos empreendimentos. Apesar de não utilizar o modelo
proposto por Barbosa et.al. (2007), citado na seção 2, com dois gerentes na obra sendo um deles
responsável por toda logística interna, a BC consegue gerir muito bem suas obras, permitindo
que a obra ocorra em harmonia. Sendo assim, a logística interna da BC pode ser considerada
como um dos fatores que diferenciou a empresa das demais.

Ao longo de todas as pesquisas realizadas e registradas neste artigo percebemos a importância


da logística na construção civil. A forma como cada construtora trata essa questão pode ser
crucial para o sucesso dos empreendimentos, e consequentemente da empresa em si. Vários
artigos e materiais bibliográficos trazidos na revisão teórica deste trabalho destacam a
importância da logística interna nas obras, e a partir do estudo de caso na construtora BC isso
pôde ser comprovado. Em meio à grande crise do setor, a empresa, que demonstra grande
preocupação com os aspectos logísticos nas suas obras, conseguiu sobreviver e começa a
retomar o caminho para de crescimento. Possivelmente sem estes cuidados, seria mais uma das
tantas empresas do setor que foram à falência.
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