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EXPRESSÕES E EXPERIÊNCIAS

Nº 159
EDITORIAL DEZ | 2015

O tabu da fila Expressões e Experiências


• Contos de espera 2

O tema principal desta edição tem tudo a


ver com o direito à saúde e a qualidade
do acesso e da atenção no SUS, discussão
ampliação e mais resolutividade da atenção
básica, maior e melhor cobertura nas espe-
cialidades e na oferta de procedimentos e
Editorial
• O tabu da fila 3
central da 15ª Conferência Nacional de exames complementares, organização das
Saúde. Verdadeiro tabu, as filas existentes redes de atenção às urgências e emergên- Cartum 3
no âmbito da saúde são o combustível cias, aumento dos investimentos públicos
preferido para as críticas ao sistema público, nas unidades públicas de alta complexida- Voz do leitor 4
embora ocorram também no setor privado. de, entre outras medidas.
A reportagem não requenta denúncias, Equacionar as filas implica investir no Súmula 5
nem justifica, evidentemente, negar ou SUS e reorganizá-lo. Oferta de serviços de
retardar o acesso a quem precisa de cui- acordo com as necessidades demandadas Radis Adverte 5
dados básicos, tratamento especializado – inclusive nas unidades conveniadas, regio-
Toques da Redação 9
ou intervenções de urgência. Buscamos nalização e regulação do acesso às diversas
compreender e analisar as diferentes situa- complexidades da assistência, classificação
Crime ambiental
ções, com foco na melhoria dos serviços e de risco, uniformidade e transparência de
na garantia dos direitos. critérios, mudanças culturais, humanização • Vale do caos 10
Laís Jannuzzi* No local, todos parecem se conhecer e o clima é de descontração, O fenômeno das filas já foi estudado das relações e melhor comunicação com o
mesmo que haja pessoas que enfrentam problemas graves, como em diversas áreas. Traz a ideia da igualda- usuário completam a receita. Uma aborda-
os corredores do Instituto de Pediatria e Puericultura Diana Vicente da Costa, que acompanha o filho Cauã, há sete de de condições entre pessoas de classes gem complexa e que exige recursos, mas
Martagão Gesteira (IPPMG), no campus do Fundão meses na luta contra um linfoma. Entre uma história e outra, ela sociais diferentes, pelos critérios de prece- necessária para evitar o drama das filas que
da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), é se mostra confiante de que em breve o filho não precisará mais dência ou necessidade. Isso gera respeito, não andam.
possível encontrar futuros engenheiros, arquitetos, de tratamento. mas também reações dos que se sentem Nesta edição, há uma síntese da Capa
jornalistas e médicos, todos eles com um simples melhores ou mais espertos que os outros. tragédia humana, material, cultural, eco- • A medida da fila 12
objetivo: promover alegria e conhecimento, incen- Evoca prioridades, mas também privilégios nômica, social e ambiental sem prece-
tivando o hábito da leitura e ajudando a amenizar o sofrimento CONCORRÊNCIA COM CELULARES ou “jeitinhos” para burlar a ordem. dentes, iniciada com o rompimento de
• A fila anda 18
das crianças e adolescentes atendidas na unidade. São os Alunos Nas outras alas do hospital, o jaleco colorido do contador Na saúde, haver uma ordem no aten- uma barragem de rejeitos da mineradora • Glossário 20
Contadores de Histórias da UFRJ, que desde 2008 dedicam parte desperta a curiosidade dos novos pacientes e desperta o sorriso dimento é essencial. A fila é necessidade e Samarco, em Mariana, Minas Gerais, e • Da pressa à longa espera 21
de seu tempo a narrar fábulas e aventuras aos pequenos pacientes daqueles que já sabem que ele é sinônimo de mais uma história. sintoma, um indicador de como funciona o que contaminou e está compactando o • A fila invisível do transplante 25
que circulam por todo o perímetro hospitalar, principalmente Basta a “tia” ou o “tio” sentarem e abrirem o livro que as crianças sistema. Há filas que asseguram, outras que Rio Doce até a sua foz, no Espírito Santo. • Transparência ameniza espera 26
aqueles que esperam nas filas. logo se aglomeram ao seu redor. Nem sempre os contadores limitam o acesso. E a falta de acesso é uma Temos que reconhecer, aqui, o esforço dos • Entrevista - Alexandre Marinho:
Como em todas as unidades de saúde, há diversos tipos de contam com a atenção total das crianças desde o início — já situação desesperadora para as pessoas, principais jornais do país, desde o primeiro "Ninguém tem a pretensão de zerar a fila" 28
espera no IPPGM: por atendimento, por consulta, por tratamen- que enfrentam a concorrência de celulares e tablets. Giovana, de porque interfere em seu cotidiano e pode dia, para minimizar em suas manchetes e • Informação contra imagem negativa 29
to, e até por boas notícias de cura. Enquanto os adultos (pais, oito anos, só largou o celular para descobrir o mistério sobre qual levar ao agravamento de enfermidades e coberturas a responsabilidade da minera-
mães, tios e avós) formam extensas filas na entrada e corredores animal afundou o barco sobre o qual tia Elana falava. risco de morte. Ouvimos usuários, pesqui- dora e de suas controladoras, a brasileira Debates na Fiocruz
de uma manhã cinzenta, as crianças aproveitam para explorar Juliana Santiago, estudante de Serviço Social na Universidade sadores, gestores e profissionais de saúde Vale e a anglo-australiana BHP Billiton, • Entre a democratização e a incerteza 30
o ambiente. Amizades feitas e desfeitas com a maior facilidade; Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), é uma das mães que sobre os vários aspectos desta realidade. neste incontestável crime ambiental. A • A saúde na encruzilhada 33
o parapeito que contorna o gramado se transforma em corda elogia o trabalho dos contadores. Ela conta que costuma passar Subfinanciamento do sistema, falta de mídia confirma, assim, seu compromisso
bamba de proporções circenses. o dia inteiro no hospital quando leva a filha às consultas e que planejamento, oferta subdimensionada e prioritário com os negócios empresariais, Serviço 34
É neste cenário que trabalham os alunos. Cada contador sua maior dificuldade é estar atenta à burocracia do atendimento mal direcionada à demanda social, forma- em detrimento do jornalismo.
cumpre uma carga horária voluntária de duas horas semanais, e ao mesmo tempo prestar atenção no que a filha está fazendo. ção inadequada e falta de investimento na Pós-Tudo
depois de uma capacitação de um mês, que inclui palestras sobre “Aqui não tem um espaço seguro, um parquinho para as crianças força de trabalho estão na raiz de algumas Rogério Lannes Rocha • O que o direito à comunicação tem
assuntos variados — como infectologia hospitalar, psicologia do se distraírem. Eu sempre tento trazer alguém comigo. Geralmente situações críticas. Especialistas defendem Editor-chefe e coordenador do programa Radis a ver com você? 35
paciente e do contador e enfermagem — além de uma oficina quem me acompanha é a minha mãe ou meu marido. Tenho
sobre literatura infantil e de contação de histórias. Durante o medo de sequestrarem a minha filha, qualquer um pode entrar”.
processo, os contadores também são orientados para não se Juliana fala da importância do trabalho dos contadores de
CARTUM
deixarem abater emocionalmente com os problemas dos pe- histórias, destacando que são capazes não só de distraírem as
quenos pacientes. crianças, mas também deixarem os responsáveis mais tranquilos.
Capa Arte de Felipe Plauska sobre
Integrante do projeto, Elana Andrade, estudante de Mas lamenta que eles não estejam sempre no hospital. Regina foto de Sérgio Eduardo de Oliveira
Engenharia Ambiental, conta que no início se sentia mal quando Fonseca, coordenadora dos contadores, admite o problema: “É
se deparava com alguns casos, mas com o tempo compreendeu, difícil estabelecer uma rotina de horários para os alunos. Cada
com a ajuda dos alunos, e também das crianças, que a jornada um tem sua própria grade de disciplinas, que a cada semestre é RADIS . Jornalismo premiado
COMUNIDADE MINÉRIO NÃO SE BEBE/FACEBOOK

dos que buscam a saúde, embora as vezes difícil, é necessária modificada”, justifica. Ela explica que o projeto também investe pela Opas e pela A s foc-SN
e positiva. “Algumas crianças passam por um tratamento difícil, na motivação dos contadores por meio de um sistema de apa-
mas estão lutando. E isso não é ruim. Aprendi a ser mais forte drinhamento entre os participantes, e também a promoção de
ao observar esse processo”, diz a universitária, destacando que a eventos especiais em épocas como Páscoa, Dia das Mães, Festa
experiência a tornou uma pessoa mais paciente e mais disposta Junina, Dia das Crianças e Natal. Mesmo assim, reconhece que é
a entender os outros. impossível cobrir todo o volume de atendimento do IPPMG. “O
Enquanto aguarda ser chamado para mais uma sessão de projeto teria que ser muito maior do que ele realmente é para
quimioterapia, o menino Pedro pede a contadora Elana que pegue isso acontecer”.
o livro de adivinhações, que ele já conhece de cor. Ele responde
com entusiasmo a todas as perguntas, arrancando risos de outros. *Estágio Supervisionado

[ 2 ] RADIS 159 • DEZ/2015 RADIS 159 • DEZ/2015 [ 3 ]


VOZ DO LEITOR SÚMULA
De olho na leitura! de algumas matérias. Estaremos mais a continuidade na qualidade de

S
ou assinante
d a R a d i s e,
atentos para que a diagramação das
matérias continue possibilitando a lei-
tura clara de nosso conteúdo.
reportagens, que sempre trouxeram os
d e s af i o s p o s to s a o s p rof i s s i o n ai s
compromissados com a temática saúde.
Começa a 15ª CNS!
como educadora,
aprecio os textos
e assuntos abor-
Sugestões de pauta
E mais ainda, um conteúdo excepcional
para que profissionais multipliquem,
estudem e se atualizem em defesa do
F im da conta-
gem regres-
siva. Começa a
oficialmente pela presidenta Dilma Roussef
(15/12/2014), Radis vem publicando uma
série de reportagens sobre o assunto. A
anos); 17% não informaram. A esses deve-
rão se somar outros participantes durante
a Marcha em Defesa do SUS, ato político
dados a cada edi-
ção. Alguns deles
levo para infor-
O lá! Sou acadêmica do cur so de
Enfermagem e contemplada com a
assinatura da revista Radis há cerca de
Sistema Único de Saúde.
• Rosangela Oliveira Gonzaga de Almeida,
Rio de Janeiro, RJ
15ª Conferência
Nacional de
Saúde (CNS)
cada edição, o leitor pode ler matérias de
cobertura e entrevistas sobre os rumos do
debate a partir dos temas que envolvem
que acontece ainda na tarde do primeiro
dia da Conferência, na Esplanada dos
Ministérios, em defesa da democracia, da
mar ou para pro- um ano. Adoro os temas abordados, e que, de 1º a 4 de os oito eixos temáticos da Conferência: participação e das políticas públicas. No
duzir pequenos gostaria de sugerir uma edição falando dezembro, reúne Direito à saúde, garantia de acesso e site oficial do evento, você pode conferir
debates em sala
de aula. Parabéns
pelo trabalho. Gostaria de aproveitar a
sobre cálculo renal. Obrigada!
• Cleis Nunes dos Santos, Maceió, AL G ostaria de parabenizá-los pelo ex-
celente trabalho desenvolvido nes-
tes 25 anos! Sou assinante há bas-
em Brasília profis-
sionais, gestores e
usuários do SUS para dis-
atenção de qualidade; Participação social;
Valorização do trabalho e da educação
em saúde; Financiamento do SUS e re-
toda a programação (http://conferencia-
saude15.org.br/)

oportunidade para sugerir que avalias- tante tempo! A revista que aborda cutir o tema: “Saúde pública de qualidade lação público-privado; Gestão do SUS e
sem uma possível alteração em artigos
futuros. Possuo alto grau de miopia e
algumas imagens de fundo impedem uma
Q ueria pedir que em breve pudessem
abordar o tema fosfoetanolamina.
Desde já, obrigado.
as ameaças do SUS está muito boa
e é muito importante que as notícias se-
jam propagadas!! Não podemos permitir
para cuidar bem das pessoas: direito do
povo brasileiro”. O evento é um chamado
para abordar a saúde de um ponto de vista
modelos de atenção à saúde; Informação,
educação e política de comunicação do
SUS; Ciência, Tecnologia e Inovação no
leitura clara. Como exemplos posso citar • Ricardo Junior de Amorim, Santana do este descaso e afronta aos nossos direi- amplo, abrangendo questões contempo- SUS; e Reformas democráticas e populares
os artigos “Cavaleiro da Simplicidade” e Manhuaçu, MG tos!! Sou enfermeira, trabalho atualmente râneas como a violência, o preconceito do Estado.
“Ameaça de Peso” (Radis 157). A imagem na Vigilância Epidemiológica do estado de racial, o uso de agrotóxicos, os dilemas do Na edição de julho (nº 154), o relator-
de fundo dificultou bastante minha lei- Santa Catarina e sou defensora do SUS!!! financiamento e a privatização, como des- -geral da 15ª, professor do Departamento
tura. Como bons exemplos, destaco na
mesma edição as páginas 16, 17, 18 e 19,
que ficaram claras e tinham cor de fundo
G ostaria que fizessem uma matéria ex-
pondo a importância do enfermeiro
e do técnico de enfermagem, mostrando
Parabéns!!!
• Carmen Lúcia Alves da Silva, Imbituba, SC
tacou a presidenta do Conselho Nacional
de Saúde, Maria do Socorro de Souza,
ainda na edição de março da Radis (1/3).
de Saúde Coletiva da Universidade de
Brasília (UnB) e ex-secretário-executivo
do Conselho Nacional de Saúde, Márcio
sólida. Obrigada! o quanto trabalhamos e ninguém reco- O momento da Conferência é mais Florentino, disse que o tema de 2015
• Paula Neves, Registro, SP nhece nosso valor, o nosso papel na
sociedade e como somos importantes na
saúde, já que somos os profissionais que
G ostaria de agradecer imensamente
pelo período em que pude me manter
atualizada através desse valioso mecanis-
do que oportuno. Desde o início deste
ano, enquanto aconteciam as conferências
distritais, municipais e estaduais de saúde,
parte da constatação de que nos últimos
27 anos houve expansão da cobertura
do SUS, avanços na descentralização e

N a Radis 157 (edição de outubro), a ma-


téria “Legado de Mujica para a saúde”,
publicada em página em branco e na azul,
ficamos dia e noite com os pacientes.
• M aísa Matias Pereira, Conselheiro
Lafaiete, MG
mo de comunicação em saúde, que em
muito enriqueceu minha atuação como
enfermeira da Saúde Pública. Como me
também se intensificava uma crise política
e econômica que acabou por favorecer
uma pauta conservadora e antidemocrá-
melhora de indicadores. “Na medida em
que se expandiu quantitativamente a rede,
começam a aparecer gargalos de qualida-
tem leitura difícil, por conta do fundo co- aposentei, peço o cancelamento de minha tica no país e uma série de ameaças ao de”, disse (Radis 154). De acordo com o
lorido e das letras muito pequenas. Sugiro Cleis, sua sugestão foi anotada; assinatura. Creio que o meu exemplar da SUS. Em um manifesto lançado durante a relator, a qualidade deve ser definida pelo
escolher uma cor que não dificulte a leitura Ricardo, tratamos da polêmica em torno Radis pode agora ser mais útil a um profis- reunião do pleno do Conselho Nacional de tipo de relação que se estabelece “entre
ou aumentar o tamanho das letras. São da fosfoetanolamina na edição 158, sional da ativa. Parabéns a todos da Fiocruz Saúde (12/11), quando foi criada a Frente o sistema de saúde e a coletividade, ou
muito bonitas, mas o reflexo da luz sobre mas voltaremos ao assunto; Maísa, já pelo excelente trabalho de divulgação e em Defesa do SUS — AbraSUS, está dito com cada paciente individualmente”. Tem
as páginas coloridas, nesse papel de qua- publicamos diversas matérias sobre a obrigada pelos 14 anos em que pude beber com todas as letras que “a situação do SUS a ver com acesso, de um lado, e equidade,
lidade, atrapalha a leitura. Obrigado pela enfermagem — As mais recentes foram dessa rica fonte de informações. é dramática” e que “seu colapso pode afe- de outro. “Ofertar atenção a partir das
atenção e agradeço antecipadamente. publicadas nas edições 148 e 154 — • Rosemary Francisco Maia, Santa Rita do tar as condições e a qualidade da atenção necessidades do sujeito e da comunidade”.
• José das Graças de Oliveira, Dores do mas sempre estaremos atentos às no- Passa Quatro, SP à saúde de 200 milhões de brasileiros”. O São esperados em torno de cinco mil

ILUSTRAÇÃO: SERGIO EDUARDO OLIVEIRA


Turvo, MG tícias relacionadas à profissão. Confira documento aposta na Conferência como participantes para o evento. Em sua página
em nosso site! Obrigado, Rosangela, Carmen e o espaço de unidade da luta institucional, na rede social Facebook, a organização
Paula e José, agradecemos o seu Rosemary. É muito bom saber que social e popular em defesa do SUS e su- divulgou (17/11) o percentual por faixa
retorno! É muito importante contar não estamos sozinhos na defesa do gere eixos de ação para resolver a curto etária dos 2.834 delegados e delegadas
com a ajuda de nossos leitores para
Radis agradece SUS! Rosemary, agradecemos sua boa prazo os problemas do subfinanciamento eleitos para representar as 27 unidades
que possamos fazer a Radis cada vez
melhor. Reconhecemos os problemas
que resultaram na dificuldade de leitura
A d m i ro o t r ab alh o da s e q u i p e s
que, desde 1991, acompanho na
leitura da Radis. Pude testemunhar
vontade e a convidamos a continuar
nos acompanhando pela internet. Um
grande abraço!
(veja o Manifesto na íntegra: http://goo.
gl/PMdASE).
Desde que a 15ª CNS foi convocada
da federação na Conferência Nacional: 40
a 50 anos (23%); 50 a 60 (22%), 30 a 40
(21%); 10% (mais de 60 anos); 8% (até 30

EXPEDIENTE
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é uma publicação impressa e online da
Fundação Oswaldo Cruz, editada pelo Programa
Administração Fábio Lucas e Natalia Calzavara
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Radis Adverte
Radis de Comunicação e Saúde, da Escola /RadisComunicacaoeSaude
(suporte) e Fabio Souto (mala direta)
Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (Ensp).
Presidente da Fiocruz Paulo Gadelha Estágio Supervisionado Laís Jannuzzi USO DA INFORMAÇÃO • O conteúdo da
Diretor da Ensp Hermano Castro (Reportagem) e Juliana da Silva Machado revista Radis pode ser livremente reproduzido,
(Administração) acompanhado dos créditos, em consonância com
Editor-chefe e coordenador do Radis
Rogério Lannes Rocha
a política de acesso livre à informação da Ensp/
Fiocruz. Solicitamos aos veículos que reproduzirem “Só a participação cidadã é
Subcoordenadora Justa Helena Franco Assinatura grátis (sujeita a ampliação de ou citarem nossas publicações que enviem
Edição Adriano De Lavor
Reportagem Bruno Dominguez (subedição),
cadastro) Periodicidade mensal | Tiragem 93.700
exemplares | Impressão Rotaplan
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capaz de mudar o país”.
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Elisa Batalha, Liseane Morosini, Luiz Felipe


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Documentação Jorge Ricardo Pereira, Sandra Av. Brasil, 4.036, sala 510 — Manguinhos, Do sociólogo e ativista dos Direitos Humanos Herbert de Souza, o Betinho (1935-1997)
Benigno e Sérgio Eduardo de Oliveira (Fotografia) Rio de Janeiro / RJ • CEP 21040-361

[ 4 ] RADIS 159 • DEZ / 2015 RADIS 159 • DEZ / 2015 [ 5 ]


Conferência define “comida de verdade” Redes e ruas contra a violência à mulher
A carta política da 5ª Conferência importância da Conferência não só para

FOTO: MDS

FOTO: MARCELO CASAL JR / ABR


Nacional de Segurança Alimentar e o Brasil, mas para todo o mundo: “Já
Nutricional (CNSAN), que aconteceu entre tivemos os períodos coloniais na história
3 a 6 de novembro em Brasília, estabele- e, hoje, vivemos uma colonização das
ceu oficialmente o conceito de “comida de comidas”, criticou. “Os alimentos com
verdade” — aquela que valoriza o direito químicos são tóxicos e vazios de nutrien-
à alimentação e a agricultura familiar tes. Eles [a indústria] estão adicionando
agroecológica — e destacou que esta é “a coisas que nunca foram alimentos para
salvaguarda da vida e do planeta, é saúde, nós. Portanto, nos oferecem um alimento
justiça socioambiental e direito humano”. falso”, alertou.
Durante o evento, a presidenta Dilma A presidente do Conselho Nacional
Rousseff lançou o Pacto Nacional pela de Segurança Alimentar e Nutricional
Alimentação Saudável, na mesma semana (Consea), Maria Emília Pacheco, afirmou
em que a ministra da Agricultura, Kátia que “a comida de verdade é uma visão
Abreu, pediu publicamente o “empenho para o futuro”. Ela defendeu a comida
no combate ao preconceito contra os como patrimônio, alimentação de qua-
agroquímicos”, algo totalmente contradi- lidade, sem agrotóxicos e sem transgê-
tório com o que organizações e movimen- nicos, e a função social da terra, consi-
tos sociais defenderam na Conferência. derando o grande legado dos indígenas.
O fato é que o lançamento do Plano “O livro Alimentos regionais brasileiros,
Nacional de Agroecologia e Produção lançado pelo Ministério da Saúde, vem
Orgânica (Planapo), tão aguardado pela valorizar as tradições e manejos susten-
sociedade civil, não ocorreu. Esses foram táveis, conhecimento construído pelos
alguns destaques dados pela cobertura povos tradicionais”, apontou, como pu-
feita pelo Fórum Brasileiro de Soberania e blicou o Fórum Brasileiro de Soberania
Segurança Alimentar e Nutricional (www. e Segurança Alimentar e Nutricional
fbssan.org.br). O fórum registrou a par- (4/11). A aprovação de leis que liberam a
ticipação do ministro da Saúde, Marcelo comercialização das sementes chamadas
Castro, que afirmou em seu discurso que terminator, assim como a atuação dos
o foco do Brasil, depois de vencer a fome,
é lutar por uma alimentação saudável e
em quantidade adequada, informando
grandes conglomerados de empresas que
controlam a produção, a pesquisa, os ma-
quinários agrícolas, a terra, as sementes,
“M eu corpo, minhas regras”. “Ser mãe
é uma escolha”. “Punir o estupro,
não as mulheres”. “Meus filhos não serão
no El País Brasil (31/10). “Pílula fica, Cunha
sai”, diziam outros cartazes e faixas.
As manifestações vêm ganhando
os homens porque normalmente não
acontece na frente deles. Se uma menina
está acompanhada pelo pai ou pelo irmão
sobre a parceria que o governo firmou a distribuição e o consumo de alimentos machistas”. Cartazes com frases como corpo e se transformando em uma ação quando está andando na rua, dificilmente
com a indústria no intuito de reduzir a não se enquadram nessa visão de futuro essas tomaram as ruas de diversas cidades permanente na defesa de uma agenda um homem vai mexer com ela – isso vai
quantidade de sal nos alimentos. proposta pelo Consea. Questões como a do Brasil durante o mês de novembro, feminista para o país. Paralelamente às acontecer quando estiver sozinha.”
O site da Articulação Brasileira do manutenção da rotulagem dos transgêni- quando milhares de mulheres organizaram discussões no Congresso Nacional, outros Na esteira do #primeiroassedio,
Semiárido (www.asabrasil.org.br) desta- cos, além da regulação da publicidade di- marchas contra o projeto de lei 5.069, que episódios têm contribuído para levar às outras campanhas também entraram em
cou (4/11) a participação da ativista e física rigida às crianças, foram apontadas como limita o atendimento às vítimas de violência ruas cada vez mais mulheres e homens de cena, a exemplo de #agoraéquesãoelas,
indiana Vandana Shiva [já entrevistada passos importantes para concretizar essa sexual e torna crime induzir ou auxiliar uma todas as idades. No final de outubro, uma em que diversos homens cedem espaços
pela Radis, na edição 121, de outubro de proposta. Em relação à obesidade, Maria gestante a abortar, dificultando o acesso participante do reality show MasterChef das suas colunas em grandes jornais e por-
2012], reconhecida em todo o mundo pela Emília saudou como positivas a Estratégia ao aborto legal para vítimas de estupro Júnior, na Band, apesar de ter apenas 12 tais na internet para que mulheres ativistas
defesa das sementes como patrimônio da Intersetorial de Prevenção e Controle da (ver Radis 158). anos, passou a ser vítima de comentá- feministas falem da sua luta. O portal do
humanidade e pela luta contra as grandes Obesidade, coordenada pela Câmara A deputada Erika Kokay (PT-DF) rios de teor sexual explícito: “Sobre essa Governo Federal e a Unicef, órgão ligado à
corporações da indústria alimentícia. Em Interministerial de Segurança Alimentar criticou a proposta argumentando que as Valentina, se tiver consenso, é pedofilia?”, ONU, também reforçaram suas campanhas
sua fala, Vandana fez críticas severas e Nutricional (Caisan) e o Guia Alimentar mulheres vítimas de estupro poderão ser indagava um usuário no Twitter, provocan- contra a violência sexual, principalmente
às grandes corporações que dominam para a População Brasileira, lançado pelo penalizadas porque não terão acesso à pí- do repulsa mas também outros comentá- na infância.
o mercado alimentício e ressaltou a Ministério da Saúde. lula do dia seguinte, informou o G1 (21/10). rios igualmente sórdidos. Até o fechamento desta edição,
Para ela, as mulheres pobres serão ainda Diante da repercussão do caso, o co- muitas marchas estavam agendadas
mais prejudicadas, já que a medida não vai letivo feminista Think Olga lançou a cam- para continuar acontecendo pelo Brasil.

Decreto protege amamentação impedir que os abortos continuem acon-


tecendo. “As mulheres ricas conseguem
panha #primeiroassedio, hashtag citada
mais de 2,5 mil vezes apenas no primeiro
Somente em 18 de novembro, 30 mil
participantes se reuniram na Marcha das
recorrer a clínicas no exterior. As pobres dia em que foi criada (22/10). Por meio Mulheres Negras, em Brasília. Enquanto

A inda durante a Conferência, a presidenta Dilma Rousseff assinou o decreto 8.552, que regulamenta a Lei 11.265, de 2006, que
restringe a publicidade de produtos que possam interferir na amamentação, como leites artificiais, papinhas, fórmulas, mamadei-
ras e chupetas. A medida busca estimular o aleitamento materno e assegurar o uso correto desses produtos. A legislação determina
continuarão correndo risco de vida ao ten-
tar um aborto clandestino”, afirmou. Em
princípio, os atos que se espalharam pelo
dela, diversas mulheres compartilharam
no Twitter relatos dos primeiros abusos ou
assédios que sofreram. “O assédio acaba
isso, o PL 5.069 segue à espera de votação
no plenário da Câmara. Se aprovado, irá
para o Senado, antes de ser sancionado
também que as embalagens desses produtos não podem conter fotos, desenhos e textos que induzam o uso. Fica proibido, por país eram contra o PL 5.069, já aprovado sendo invisibilizado por dois motivos. O pelo Executivo. “Impedir a aprovação deste
exemplo, utilizar palavras como “baby”, “kids”, “ideal para o seu bebê”, entre outros, bem como personagens de filmes, desenhos na Comissão de Constituição e Justiça e de primeiro é que, ao reclamarmos dele, projeto é fundamental para assegurar os
ou simbologias infantis. As embalagens devem trazer a idade correta para o consumo e, no caso de chupetas, mamadeiras e bicos, Cidadania da Câmara (21/10), mas acaba- sobretudo quando crianças, ouvimos que direitos das mulheres, e legalizar o aborto
é preciso informar sobre os prejuízos que o uso desses materiais pode causar ao aleitamento materno. ram se voltando também contra o presiden- é normal, que homem é assim, que ‘ele é urgente para garantir que mais nenhuma
O site Criança e Consumo (http://criancaeconsumo.org.br), comemorou a assinatura do decreto, publicado no Diário Oficial da te da Câmara e autor do projeto, Eduardo estava bêbado’, que estávamos com certa mulher seja silenciada, ameaçada, perse-
União no dia 4/11 como uma “importante vitória”, informando que os estabelecimentos terão um ano a partir da publicação para se Cunha (PMDB-RJ), envolvido em muitas roupa e por isso não devemos reclamar”, guida e morta por decidir sobre seu próprio
adequarem às novas medidas. Caso descumpram a lei, as empresas poderão sofrer interdição, além de multa que pode chegar até R$ denúncias de corrupção e pivô da maioria disse Luíse Bello, gerente de conteúdo corpo”, alertaram Helena Zelic e Sarah de
1,5 milhão. O decreto determina também que os órgãos públicos da área de saúde, de educação e de pesquisa e as entidades asso- das pautas conservadoras em tramitação do coletivo Think Olga à Revista Fórum Roure, da Marcha Mundial das Mulheres,
ciativas de médicos pediatras e nutricionistas auxiliem na divulgação de informações sobre a alimentação de lactentes e de crianças. no Congresso, como apontou reportagem (22/10). “E isso vai ficando invisível para em El País Brasil (12/11).

[ 6 ] RADIS 159 • DEZ / 2015 RADIS 159 • DEZ / 2015 [ 7 ]


TOQUES DA REDAÇÃO

Direito de resposta regulamentado OMS relaciona Em um novembro marcado por

FOTO: #NÃOFECHEMMINHAESCOLA
duros golpes — da violência que

carnes processadas ceifa vidas dentro e fora do Brasil, e

O direito de resposta, garantido pelo arti-


go 5º da Constituição brasileira, voltou
a ter uma lei própria para tratar do assunto,
da Comunicação (FNDC), o veto da presi-
denta atende à vontade das empresas de
radiodifusão, mas ainda assim a lei deve e câncer
da irresponsabilidade que condena
à morte um rio e seu ecossistema — um
lampejo de esperança se faz ver em São
que pôs fim ao vazio legal deixado pela re- ser encarada como uma vitória diante do Paulo, onde estudantes de escolas públi-
vogação da Lei de Imprensa (de 1967), em “conservadorismo nas ruas e no Congresso cas se organizaram em um movimento
setembro de 2009, pelo Supremo Tribunal Nacional” — afirmou em notícia divulgada contrário à “reorganização” proposta pelo
Federal (STF). A nova legislação determina na página do FNDC (12/11). governo do estado — e que prevê o fecha-
que aquele que se sentir ofendido pelo con- Em editorial publicado em 25 de mento de várias unidades. Reunidos sob o
teúdo divulgado, publicado ou transmitido outubro, O Estado de S. Paulo qualificou lema #nãofechemminhaescola, os alunos
pelos veículos de comunicação social pode o projeto de lei de autoria do senador criaram páginas de compartilhamento de
exercer o direito de resposta, mas a regra Roberto Requião (PMDB-PR), que ainda informações nas redes sociais e ocuparam
não vale para comentários realizados por tramitava no Congresso, de “nitidamente dezenas de escolas, em algumas delas
usuários nas páginas da internet. inconstitucional”. O texto afirmava que a se responsabilizando pela limpeza, por
A lei foi sancionada pela presidenta liberdade de imprensa implica em emitir pequenos consertos e até pela produção
Dilma Rousseff, que vetou o parágrafo “opiniões fortes, às vezes duras, tantas ve- da merenda escolar — como aconteceu
que afirmava que o ofendido poderia zes incômodas”. Diz ainda que isso não deve na Escola Estadual Salvador Allende (foto),
requerer o direito de resposta ou retifica- ser motivo para abrir espaço para quem se na zona leste da capital. Defendem a ma-
ção pessoalmente nos veículos de rádio e sentiu ofendido “ver publicada gratuita- nutenção do seu direito à educação com
televisão, como noticiou a Agência Brasil mente sua opinião e visão dos fatos”. Na responsabilidade e aprendem, desde cedo,
(12/11). O texto determina que a resposta
deve ser exercida no prazo de 60 dias e o
ofendido pode pedir que seja divulgada no
visão do jornal, conceder ou não a resposta
é uma decisão da empresa jornalística. Mas
nenhum veículo de imprensa mencionou
A Organização Mundial da Saúde (OMS)
publicou relatório afirmando que o
consumo de carne processada — como
a exercitar a cidadania!

mesmo espaço, dia da semana e horário que a criação de uma nova regulamenta- bacon, salsichas e presunto — causa câncer
do agravo. Para Bia Barbosa, membro do ção para este direito constitucional estava e que a carne vermelha é “provavelmente Ameaça religiosa Prevenção (de custos) Proteção não é
Coletivo Brasil de Comunicação Social entre as propostas aprovadas durante a cancerígena”. Segundo o documento, 50
preconceito
(Intervozes) e da Coordenação Executiva
do Fórum Nacional pela Democratização
I Conferência Nacional de Comunicação
(Confecom), ocorrida em 2009.
gramas de carne processada por dia, o
equivalente a duas fatias de bacon, au- M ais uma ameaça ao princípio do
Estado Laico — garantido pela “S aúde precisa mudar o modelo”,
advogam representantes da saúde
mentam a chance de desenvolver câncer
colorretal em 18%; para cada 100 gramas
Constituição Federal — está sendo ges-
tada no Congresso Nacional. No início de
privada. Em evento corporativo no come-
ço de novembro, gestores de hospitais, D ifícil concordar com a defesa da mi-
nistra da Agricultura Kátia Abreu do

Emergência por causa da Microcefalia de carne vermelha, de vaca, carneiro ou


porco, o risco é elevado em 17%, apesar
novembro, deputados aliados do presiden-
te da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ),
operadoras de convênios médicos e
fornecedores de tecnologia defenderam
uso de “agroquímicos”. Ela afirmou, em
novembro, seu empenho em combater
de a OMS admitir que as evidências disso aprovaram em comissão especial parecer o resgate de premissas da OMS — leia-se o que diz ser “preconceito” contra os

O Ministério da Saúde decretou estado


de emergência (11/11) por causa de um
surto de microcefalia, doença que atinge
16/11 aponta a ocorrência de 399 casos em
2015, em sete estados. O zika é da mesma
família do vírus da dengue, porém menos
ainda são limitadas.
Conforme publicou o site de notícias
BBC Brasil (28/10), a organização também
favorável a PEC 99/2011, que autoriza as
igrejas a questionarem regras e leis junto
ao Supremo Tribunal Federal. Caso a pro-
privilegiar a saúde, e não a doença. Este
alinhamento tardio (e oportunista) tem
razões econômicas: “o uso exagerado da
produtos. “Só venceremos preconceito
contra agroquímicos se nos unirmos
à ciência”, declarou a ministra. Radis
recém-nascidos. O diretor do Departamento agressivo, e foi identificado pela primeira vez reforçou o alerta em relação à carne posta seja aprovada no plenário da Câmara tecnologia no setor de saúde que traz im- lembra que os próprios cientistas usam
de Vigilância de Doenças Transmissíveis, no Brasil em abril de 2015. “Tivemos uma vermelha, de forma mais branda do que e no Senado, as religiões terão direito de pactos expressivos nos custos”, justificou o termo “agrotóxicos”, em estudos que
Cláudio Maierovitch, e o coordenador do circulação importante do vírus no Brasil no em relação aos embutidos, pela falta de interpelar diretamente o STF com Ações um empresário.“Nosso público é formado confirmam seus os efeitos nocivos à saú-
Programa Nacional de Controle de Dengue, primeiro semestre, coisa que aconteceu pela provas mais contundentes. A carne pro- diretas de Inconstitucionalidade (ADI) e ou- principalmente por pessoas que usavam o de e ao ambiente, como já descrito na
Giovanini Coelho, informaram que os casos primeira vez na nossa história”, acrescentou cessada é aquela que é modificada para tros recursos, hoje prerrogativas de alguns SUS e agora têm um plano de saúde pela reportagem “Chuva de veneno” (Radis
de contaminação por zika vírus registrados Maierovitch. Ele disse que a relação entre estender o tempo em que ela pode ficar setores dos três poderes. Os defensores da primeira vez. Nosso desafio é educar”, 153) e aprofundado no Dossiê Abrasco
no primeiro semestre são a principal hipóte- o zika vírus e a microcefalia é “inédita no na prateleira ou para alterar seu sabor. Os proposta alegam preconceito contra “ar- declarou executivo de um grupo de saúde (http://goo.gl/8kgDcA), lançado em
se para explicar o aumento da ocorrência de mundo” e não consta na literatura científica. principais métodos para isso são a defu- gumentos de ordem religiosa”, que seriam com 3 milhões de usuários de planos de 2015. Não dá para confundir precon-
microcefalia na região Nordeste, registrou o “Nossos cientistas devem nos ajudar a provar mação, o processo de cura ou a adição preteridos pelos científicos. saúde. Prevenção, sim, mas de custos! ceito com proteção.
jornal O Dia (17/11). essa causa e efeito”, declarou. de conservantes.
Conforme noticiou o Portal Fiocruz Primeiro estado a identificar o aumen- Carnes processadas incluem ba-
(18/11), o Instituto Oswaldo Cruz (IOC/ to nos casos de microcefalia, Pernambuco con, salsichas, linguiças, salame, carnes Portal Diabetes Canal premiado Mais paz, menos Rivotril
Fiocruz), por meio do Laboratório de tem o maior número de ocorrências — 268 curadas ou salgadas e presunto, além
Flavivírus, concluiu diagnósticos que cons-
tataram a presença do genoma do zika vírus
em amostras relativas a duas gestantes da
bebês diagnosticados até o fechamento
dessa edição. Também foram registrados
44 casos em Sergipe, 39 no Rio Grande
de carnes enlatadas e molhos à base de
carne. Químicos cancerígenos podem se
formar no processamento da carne, como
4 15 milhões de pessoas vivem com
diabetes no mundo e a perspectiva
é de que esse número aumente para
O repór ter Eduardo Souza, o cine-
grafista Alexandre Prado e o as-
sistente de câmera Jurandir Ferreira,
E m 2007, o consumo brasileiro de
clonazepam, o princípio ativo do
Rivotril, era de 29 mil caixas por ano.
Paraíba, cujos fetos foram confirmados com do Norte, 21 na Paraíba, 10 no Piauí, 9 no compostos N-nitrosos e hidrocarbonetos 6 42 milhões até 2040, divulgou a da equipe do Canal Saúde, conquis- Em 2015, este número subiu para 23
microcefalia através de exames de ultrasso- Ceará e 8 na Bahia. O ministério informou aromáticos policíclicos. Cozinhar a carne Federação Internacional de Diabetes taram o prêmio Cândido Jornalistas. milhões, divulgou a Agência Nacional
nografia. “Vocês podem perguntar se isso ainda, (17/11), que não recebera, até aquele a altas temperaturas, especialmente no (14/11). Relatório da instituição informa A re p o r t a g e m p re m i a d a, s o b re o de Vigilância Sanitária ( A nvisa). O
fecha a correlação entre as duas coisas, e momento, dados de outras unidades da churrasco, também pode produzir quí- que são 12 milhões no Brasil, o que re- programa de rádio Maluco Beleza crescimento sugere que pode haver
minha resposta é: ‘quase’. Estamos sendo federação que apontassem uma escala- micos perigosos. “O relatório traz a con- presenta 6,2% da população adulta do (cujos locutores e produtores s ão uso excessivo e desnecessário do me-
bastantes cautelosos, mas não se encontrou da de microcefalia em recém-nascidos, solidação de algo que já se sabia. Faz um país. De olho nas estatísticas, a Fiocruz usuários de ser viços de saúde men- dicamento no país, sugeriu o Jornal da
nenhuma outra causa até o momento”, embora outros estados também tenham alerta para a população em larga escala. lançou uma área específica em seu tal), foi veiculada no Canal Saúde na Ciência (4/11). Em 2009, o excesso do
esclareceu Cláudio Maierovitch. registrado casos de zika vírus. Em 18/11, a Podemos entender que esse documento portal, com informações diversas sobre E strada, na edição sobre “Taboão uso já havia sido identificado em pes-
A microcefalia é condição rara em que o pasta enviou orientações a todas as secre- vem dizer: não exagere!”, recomendou a diabetes, incluindo o link para a edição da Serra e Campinas” (5/10). Quem quisa feita em parceria do Hospital das
bebê nasce com o crânio do tamanho menor tarias estaduais de saúde sobre o processo nutricionista clínica Jaqueline Müller, mes- de outubro da Radis, que discute o conce de o prêmio é o s er v iço de Clínicas e OMS, que elencou, entre as
do que o normal. Altera o desenvolvimento e de notificação, vigilância e assistência às tre em Ciência pela Faculdade de Saúde tema em sua reportagem de capa. Para S a ú d e D r. C â n d i d o F e r r e i r a , e m razões para o “sucesso de vendas” do
encurta o tempo de vida da criança. Boletim gestantes. Houve orientação, depois can- Pública da Universidade de São Paulo, em acessar o Portal, navegue em http://bit. Campinas (SP) que destaca as me- remédio o seu baixo preço e a cultura
epidemiológico com dados reunidos até celada, de eviar-se a gravidez. declaração à Radis. ly/1YewXpv lhores matérias sobre Saúde Mental.  de automedicação que existe no país.

[ 8 ] RADIS 159 • DEZ / 2015 RADIS 159 • DEZ / 2015 [ 9 ]


CRIME AMBIENTAL

Taquaras. Em 2007, foi a vez da empresa Mineração Rio Pomba


Cataguases despejar 2 bilhões de litros de bauxita no rio Muriaé,
também em Minas Gerais. Em 2014, outro rompimento aconteceu
na cidade de Itabirito (MG) e a empresa — Herculano Mineração
— culpou a natureza e alegou um fenômeno geológico raro como
causa. A recorrência dessas tragédias mostra que as razões não
estão na natureza, mas sim em uma atividade econômica preda-
tória. “As empresas nem mesmo sabem os danos que os rejeitos
podem causar. Vivemos em um contexto de desconhecimento
quase total sobre seus impactos”, define Marcelo.
Segundo ele, a mineração cresceu sem a devida fiscalização
e capacitação de profissionais. “O Brasil voltou 200 anos atrás:
Pimentel, apresentou um laudo da Companhia de Saneamento de voltamos a ser um país agrícola e de mineração”, considera, ao
Minas Gerais (Copasa) negando a existência de metais pesados, apontar que esse modelo de desenvolvimento tem impactos sobre
como chumbo, na água (Brasil de Fato, 16/11). o meio ambiente e a saúde da população. Ele explica que outro
Como o engenheiro geofísico Marcelo Araújo explicou à efeito nocivo da atividade é a nuvem de poeira lançada no ar por
Radis, o rejeito de minério de ferro não possui substâncias tóxicas caminhões e maquinários, que aumenta os riscos de doenças pul-
em grau elevado, o que não significa que não tenha riscos para monares nas cidades próximas. Além disso, a mineração tem um
a natureza. Esse lixo ficará depositado no rio e no solo durante gasto elevado de água. “Com a crise hídrica, essas empresas estão
um longo período, até ser dragado e disposto de forma adequa- sofrendo pressão para diminuir seu consumo de água”, conta.
da. “O mais grave é que esse material foi disperso no ambiente, Também Bruno avalia que o sistema de monitoramento
Rompimento de barragem em Mariana alerta para numa região muito vasta, potencialmente chegando até a foz do de barragens é muito frágil. Sob responsabilidade da Fundação
rio e atingindo o ecossistema marinho”, analisa. Segundo ele, o Estadual do Meio Ambiente de Minas Gerais (Feam), o relatório
impactos negativos da atividade mineradora predatória rejeito também contém substâncias que não deveriam estar na de 2014 apontou as barragens da Samarco em Mariana (Fundão,
água potável, como resíduos de óleo e graxa das máquinas e Germano e Santarém) como seguras. “As empresas também não
caminhões utilizados na extração. fazem bons estudos de impacto ambiental”, destaca.
Já Bruno Milanez explica que a avalanche de barro que
Luiz Felipe Stevanin vazou das barragens pode ter se juntado a outros materiais no
DESASTRE NATURAL?
alertam os pesquisadores Léo Heller e Zélia Profeta, da Fiocruz caminho. É o caso do alto índice de arsênio verificado na água,

“O
Minas, em artigo publicado em O Globo (12/11): essa é a principal que não estava inicialmente nos rejeitos, mas pode ter se unido Logo após o ocorrido, a imprensa chegou a citar a ocorrência
rio? É doce. A Vale? Amarga.” Os versos do poeta marca de eventos como esse, que se repetem nos últimos quinzes à lama ao longo do percurso. Essa substância é considerada ex- de abalos sísmicos na região, o que poderia ter gerado o rompi-
mineiro Carlos Drummond de Andrade repercuti- anos e revelam os efeitos negativos da mineração. tremamente tóxica. Segundo a Organização Mundial da Saúde mento. A interpretação de que se trata de um “desastre natural”
ram nas redes sociais após o rompimento de duas (OMS), o limite máximo de arsênio permitido é de 0,010 mg/L — portanto, diminuindo a responsabilidade humana — foi dada
barragens da mineradora Samarco, subsidiária da em água para consumo humano. Mas na amostra coletada após pela própria presidência da república, ao assinar um decreto (13/11)
LAMA VENENOSA
Companhia Vale do Rio Doce, e são um sinal dos danos da ativi- o rompimento, esse valor era de 2,6 mg/L. “O que preocupa são que autoriza as vítimas a utilizarem recursos do Fundo de Garantia
dade mineradora predatória sobre a saúde e o meio ambiente. A Ainda não é possível precisar o impacto ecológico dos 62 os impactos na vida da população ribeirinha, que consome peixe por Tempo de Serviço (FGTS), como ocorre em tragédias naturais.
lama com rejeitos de ferro e outros metais vazou das barragens de milhões de litros de lixo em forma de barro que inundou o rio e água do rio”, alerta Bruno. Porém, em entrevista coletiva (9/11), o integrante da coordenação
Fundão e Santarém, no distrito de Bento Rodrigues, em Mariana Doce. Logo após a tragédia, em matéria em O Globo (6/11), a Para o rio Doce, que representa a quinta maior bacia hidro- do Movimento dos Atingidos por Barragem (MAB), Joceli Andriolli,
(MG), e atravessa mais de 850 quilômetros nos estados de Minas Samarco tentou amenizar os impactos alegando que a lama não gráfica brasileira, esse pode ter sido o decreto de morte. Com o afirmou que a entidade possui documentos com indícios de va-
Gerais e Espírito Santo até chegar à foz, no Atlântico. No percurso, é tóxica. A empresa chegou a ser considerada como “vítima do assoreamento de seu leito, a dinâmica de cheias e inundações zamento em mais de 100 pontos na barragem que se rompeu.
roubou a casa de mais de 500 pessoas e pode deixar sem água rompimento” pelo secretário de Desenvolvimento Econômico de pode ser totalmente alterada. “Na medida que essa lama for se Segundo o ativista, essas informações foram encaminhadas ao
meio milhão de brasileiros em 23 cidades. Minas Gerais, Altamir Rôso. Como noticiou o portal Brasil de Fato depositando, o rio vai ficar mais raso, com impacto para as co- Ministério Público e são mais uma prova de que a culpa não é da
“A suspensão momentânea ou mesmo a simples restrição (7/11), ele ainda defendeu que os licenciamentos ambientais para munidades ribeirinhas. Quanto mais perto de Bento Rodrigues, natureza. A negligência e o descaso das mineradoras foram mais
do abastecimento de água gera efeitos para a saúde pública, pois o setor são muito rígidos e a fiscalização poderia ser transferida maior a chance disso acontecer”, explica Bruno. Ele ainda esclarece uma vez revelados no episódio em que a prefeitura de Governador
as pessoas passam a ter condições de higiene precárias, levando da mão do Estado para a iniciativa privada. que a camada de lama, que possui baixa penetração de água, vai Valadares teve que descartar 280 mil litros de água remetidos pela
ao risco de doenças”, avalia o engenheiro geofísico Marcelo Mas para os desabrigados, as famílias de desaparecidos e a endurecer com o tempo. “Com isso, a água da chuva vai escorrer Vale: o líquido estava contaminado com querosene. Como já previa
FOTO: FRED LOUREIRO / SECOM - ES

Araújo, do Departamento de Saneamento e Saúde Ambiental população que se serve da água do rio, a realidade é outra: um por cima, diminuindo a capacidade de irrigação do solo”, pontua. Drummond, essa é uma “dívida eterna”.
(Ensp/Fiocruz). Já para o professor de Engenharia de Produção laudo de análise da lama, realizada no trecho do rio no município
da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Bruno Milanez, a de Governador Valadares (MG), a pedido do Serviço Autônomo
MINAS DE POLUIÇÃO
recuperação da região vai ser muito difícil. “Mesmo recolocar as de Água e Esgoto de Baixo Guandu, no Espírito Santo, constatou SAIBA MAIS
pessoas no local vai ser muito complicado, porque o solo pode se na água a presença de ferro, manganês, arsênio, bário, chumbo, 2001. Em Macacos, distrito de Nova Lima, na região me-
tornar praticamente infértil”, explica. O descaso, a ineficiência e níquel, zinco, alumínio, cromo e cobalto em índices bem acima do tropolitana de Belo Horizonte, uma barragem da Mineração Rio • “As caras da injustiça ambiental” (Radis 148): http://www6.ensp.fiocruz.br/radis/
revista-radis/148/reportagens/caras-da-injustica-ambiental
a incompetência técnica das empresas chamam a atenção, como aceitável. Mas o próprio governador de Minas Gerais, Fernando Verde se rompeu matando cinco pessoas e assoreando o córrego

[10] RADIS 159 • DEZ / 2015 RADIS 159 • DEZ / 2015 [11]
– P
or favor, onde fica o fim da fila? A per- Saúde Pública da Universidade de São Paulo (Usp),
gunta não é apenas retórica e deveria ser Marília Louvison, é compreender a gênese de cada
de fácil resposta. Normalmente, com o uma delas. A fila de atendimento de urgência e
indicador ou um movimento de cabeça, emergência, por exemplo, pressupõe que o usuário
seu interlocutor vai sugerir que você se seja atendido em poucas horas reconhecendo que
dirija à extremidade oposta ao início. Lá, casos mais graves deverão ser identificados e ganhar
onde a fila faz a curva, o tempo demora a passar e prioridade (veja matéria na página 21).
a espera costuma ser fatigante. Mas por mais longa As filas de atendimento ambulatorial, por
que pareça, a fila ainda é a maneira mais eficaz e sua vez, têm internamente urgências relativas,
democrática de organizar uma demanda — desde que precisam ser adequadamente caracterizadas
que siga um ordenamento, obedeça critérios e, no e acolhidas nas unidades de saúde, enquanto as
caso da saúde, leve em conta a situação de risco filas de demandas eletivas, principalmente cirúr-
dos usuários. Do contrário, o fim da fila pode ser gicas, dependem acima de tudo de organização e
apenas o começo do problema. transparência para que toda a população conheça
No Brasil, o acesso aos serviços de saúde ainda os tempos de espera (veja o que prevê o sistema de
é desordenado. Na atenção básica e, principal- regulação na página 18). “De qualquer forma, é fun-
mente, na média e alta complexidades, raramente damental não naturalizarmos a espera nos serviços
se pode precisar ao certo o lugar que uma pessoa públicos de saúde e conhecermos quem realmente é

ILUSTRAÇÃO DIGITAL SOBRE FOTO DE PAULO FEHLAUER


ocupa na fila. O Ministério da Saúde esclarece que a parte dessa fila e quais as suas necessidades”, suge-
única lista de espera para procedimentos do Sistema re Marília, que também é integrante do Conselho da
Único de Saúde (SUS) regulada nacionalmente é Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco).
a de transplantes, ficando sob responsabilidade Para a professora, pior que esperar na fila é esperar
da Coordenação Geral do Sistema Nacional de na fila errada. “Os problemas relativos às filas devem
Transplante (veja matéria na página 25). As demais ser conhecidos e compartilhados com a sociedade,
— seja para atendimentos em postos e hospitais além de servir de sentinela para as respostas das
de urgência e emergência, seja para exames, agen- políticas públicas e para o planejamento e gestão
damento de consultas com especialistas ou ainda dos sistemas de saúde”, acrescenta.
para cirurgias eletivas — ficam a cargo dos gestores
locais que são, de acordo com a Constituição, os
responsáveis pela execução dos serviços no SUS. 27.951
Isso não é tão simples e faz com que, em Imagine uma fila de 7 mil pessoas. Ou 12 mil.
alguns estados e municípios, a prestação de servi- Ou mesmo 25 mil pessoas. Em maio de 2012, uma Usuários aguardam
ços esteja melhor organizada havendo obstáculos campanha para incentivar a doação de órgãos, a AB ainda apresenta, em determinadas regiões, que demandam ampliação de oferta em todo o vacinação contra a febre
apenas pontuais, enquanto noutros, a situação seja promovida pela Santa Casa de Misericórdia de uma baixa resolutibilidade, o que ocasiona encami- país e que a distribuição da capacidade instalada amarela no Terminal
mais grave. Como avalia a vice-presidente do Centro São Paulo, substituiu as senhas em diversos locais nhamento dos pacientes para níveis mais complexos de serviços de maior complexidade se traduz em rodoviário do Tietê, em São
Brasileiro de Estudos de Saúde (Cebes), Carmen de espera, como padarias e supermercados, pelo do sistema, ampliando assim a demanda a estes importantes desigualdades no uso e acesso de Paulo: problema maior das
Teixeira, apesar de adotar entre seus princípios número real da fila para receber um órgão — serviços, que muitas vezes ficam sobrecarregados”, serviços de saúde”, completa. filas ainda é na atenção
constitucionais a universalidade, o sistema público 27.951 pessoas, à época. O moço no açougue pondera a pesquisadora do Cebes, Carmen Teixeira. básica
de saúde brasileiro ainda não garante o acesso a não acreditou ao ver que teria de esperar 19.393 O atual presidente do Conselho Nacional de
toda a população em razão de uma série de fatores pessoas à sua frente — isso, se estivesse na fila de Secretarias Municipais de Saúde (Conasems), Mauro “AQUÉM DA FILA”
de caráter estrutural, a exemplo do subfinancia- transplante à espera de um rim; foi com alívio que Junqueira, concorda. “Hoje, boa parte das filas é Para Lenir Santos, doutora em saúde pública e
mento, da oferta insuficiente de serviços e da má descobriu que sua senha real para o pãozinho era consequência de uma atenção básica ainda não especialista em direito sanitário, mais do que normal,
distribuição entre as diversas regiões do país. “Por a de número 104. resolutiva, que não resolve 80% da demanda”, diz a fila é necessária em um sistema de saúde. “Mas
conta disso, a existência de longas filas de espera Quando o assunto é saúde, a demanda vai ser Mauro, secretário de saúde de São Lourenço (MG), precisa haver uma compatibilidade entre a espera
é mais sentida em alguns tipos de serviços, sendo sempre maior do que a oferta, explica a professora acrescentando que considera necessário investir e o risco de agravo”, ela diz. “Fila é uma forma de
menor em outros, o que depende também do grau Marília Louvison. “Mas não podemos ter a visão fortemente em formação médica e capacitação ordenar a espera e isso traz um senso de organização
de desenvolvimento e da infraestrutura do sistema simplista de que basta aumentar a oferta para pernanente das equipes. Para ele, a atenção bá- e de respeito”. O problema é quando não se cumpre
em cada estado e em cada município brasileiro”, construir um equilíbrio na utilização dos serviços sica é prioritária para ordenar e diminuir as filas. o que determina o decreto 7.508, de 2011, que
acredita Carmen. Mas do de saúde. Os ‘gargalos’ estão relacionados tanto A formação profissional adequada ao modelo estabelece que o acesso ao SUS deve ser definido
ponto de vista da população à demanda quanto à oferta que precisa se apro- público também é citada pela professora Lenir. por ordem cronológica. “É comum a pessoa ir a um
“Hoje, boa parte das filas é ou do usuário do sistema, diz ximar das necessidades da população”, pondera. Ela indaga: “Como garantir um modelo público serviço de saúde e retornar sem saber com precisão
a professora, é de se esperar A organização e funcionamento de um sistema fundado na atenção básica como principal porta a data e horário de seu atendimento. Outro proble-
consequência de uma atenção que o grau de tolerância de saúde público, universal, integral e gratuito, e ordenadora do acesso, sem pessoal capacitado ma é, na data marcada, ir à consulta e retornar sem
seja baixo. “Principalmente, principalmente em um país de dimensões conti- para esse exercício?” atendimento porque neste dia o médico não está
básica ainda não resolutiva, que quando quem espera para nentais como o Brasil, é complexa. Mas, na opinião Além dos problemas relacionados à atenção ou determinado equipamento quebrou, sem que a
ser atendido numa fila está da pesquisadora do Instituto de Direito Sanitário básica, subfinanciamento e formação médica, a pessoa tenha sido comunicada antecipadamente”,
não resolve 80% da demanda” vivendo uma situação de Aplicado (Idisa), Lenir Santos, é preciso enfrentar, conselheira da Abrasco, Marília Louvison, aponta condena, afirmando que, por falta de uma ordem
sofrimento”, acrescenta. de uma vez por todas, o desafio de organizar as ainda como fator que agrava as condições das filas na espera por atendimento à saúde, no Brasil “ainda
Se uma fila nunca é filas no SUS. Para ela, não se trata de acabar com na saúde o processo de envelhecimento popula- estamos aquém das filas”. Para Lenir, muitas vezes
aceitável para quem sofre e precisa acessar os as filas, mas de ordenar as demandas, encaminhar cional em toda a América Latina, que se traduz há um estado de pré-fila que pressupõe uma desor-
serviços, é importante levar em conta os diferentes prazos razoáveis em relação aos agravos e construir em uma verdadeira revolução da longevidade e ganização e não uma ordem, sob controle de quem
tipos de fila para poder gerenciá-las. Uma coisa são metas para superação e melhoria. acaba por ampliar o desafio do incremento das é responsável pelos serviços.
as filas nas portas de serviços de saúde para aten- Todos os especialistas ouvidos por Radis consi- condições crônicas, que demandam cuidados ao Andressa de Farias tem 38 anos e está há

15
dimento imediato, outra, são as filas virtuais que deram que o grande nó do problema permanece na longo de toda a vida. Some-se a isso também os mais de um ano na fila à espera por uma cirurgia
se caracterizam como listas de espera para agen- atenção básica, cuja expansão através da Estratégia desafios relacionados à violência e às doenças bariátrica. Com problemas de saúde que a impedem
damento, classificadas por algum critério. O mais de Saúde da Família ainda não atingiu a totalidade emergentes. “Não podemos deixar de considerar de trabalhar fora de casa, dá aulas particulares
importante, segundo a professora da Faculdade de da cobertura populacional pretendida. “Além disso, que temos ainda importantes ‘vazios assistenciais’ enquanto conta os dias para fazer a operação. No RADIS 159
DEZ 2015
SAIBA MAIS início de novembro, foi encaminhada pelo posto se a cirurgia é realmente necessária para o caso de uma série de fatores, não só da gravidade do relacionadas à melhoria das condições de vida e
de saúde Aluísio Amâncio da Silva, que fica em de Gisele. “Minha filha respira ofegante e a gen- problema mas também da consciência que o usu- linhas de cuidado.
Associação brasileira de
Santa Cruz, bairro onde mora no Rio de Janeiro, te fica esperando sem saber quando vai poder ário possa ter, tanto da natureza de sua demanda Para Lenir, é necessário organizar o SUS de
Transplante de Órgãos
(ABTO)
para agendar o procedimento cirúrgico no Hospital resolver, se vai operar, se não vai. Da última vez quanto do conhecimento sobre a oferta dos servi- forma sistêmica, em regiões de saúde, que tenha
• www.abto.org.br/abtov03/ Federal dos Servidores do Estado. Chegou às 11h20 me informaram que a prioridade é de quem está ços, e também do nível de percepção quanto aos entre suas metas rever sua configuração a fim de
da manhã de uma terça-feira acompanhada da filha com mais urgência e que nós temos que esperar”, seus direitos de cidadão. alcançar o compromisso de ser resolutiva em 95%
Campanha de doação de
e foi atendida rápido — em menos de 10 minutos, conta. “Mas até quando?” das necessidades de saúde de sua população. Além
órgãos realizada pela Santa
Casa de São Paulo: “Ticket estava no guichê. Demorada foi a conversa com a disso, ela considera imprescindível aumentar o fi-
atendente, que tentava explicar por que ainda não ENTRADAS E SAÍDAS nanciamento da atenção básica e rever o conteúdo
de espera”
• https://goo.gl/n4uV6c seria possível marcar a cirurgia. NA FILA DE ESPERA Quando assumiu a gestão do Ministério da da média complexidade. “Quando falamos que o
Grupo Brasileiro de
Andressa custou a entender — ou não queria “Próximo!” Em uma fila, ouvir essa expressão Saúde, o ex-ministro Alexandre Padilha reconheceu SUS é sistêmico nos referimos as suas interligações,
Classificação de Risco acreditar. Só ali ela descobriu que, por conta de é um lenitivo. Numa manhã de outubro, no setor que as filas na saúde são um problema. À época, interdependências, suas redes de serviços; e não há
• http://gbcr.org.br/ uma hérnia, a guia para a marcação da cirurgia ambulatorial do Hospital dos Servidores do Estado chegou a propor a criação de um indicador nacio- sistema em rede sem o necessário suporte da infor-
na verdade deveriam ser duas. Resultado: teria (HSE) do Rio de Janeiro, a fila anda rápido. Dona nal de qualidade de acesso aos serviços de saúde. mática”, diz. Cada usuário deve ser portador de uma
Política Nacional de
Humanização
que voltar para o início: ir outra vez ao posto de Márcia Fagundes chegou às 8h30 para uma con- “O indicador mostrará a realidade e poderemos ‘chave’ que possibilite abrir seu prontuário em qual-
• www.saude.gov.br/huma- saúde de origem e conseguir uma segunda guia, sulta com um gastroenterologista, conseguiu a estabelecer metas e melhorias”, declarou, em quer serviço e conhecer seu histórico terapêutico. E
nizasus informação que ela não recebeu quando esteve senha de número 8, o que faz dela a primeira a ser entrevista ao jornal O Globo, em janeiro de 2011, isso somente a informática pode garantir. Mas esse
no posto pela primeira vez. À Radis, ela disse que atendida no turno da tarde, a partir de meio-dia. sugerindo o desenvolvimento de um mapa sanitário sistema ainda não existe a contento e isso também
Decreto 7.508, de 28 de
junho de 2011
perdeu 200 reais com o táxi e que não voltaria ao Enquanto espera, ela telefona para desmarcar a nacional que permitiria uma comparação entre as é um fator complicador na organização do SUS”.
• http://goo.gl/AZA3mq posto. “Agora, vou atrás do meu direito na justiça”, academia, mas está acomodada em uma das ca- necessidades da população e o padrão de ofertas
decidiu, visivelmente contrariada. deiras enfileiradas no andar térreo do HSE, vendo do SUS. Dois gestores e quatro anos depois, o
Relatório da Câmara dos
Problemas como esse enfrentado por a TV, ligada em um desses programas matinais de Ministério da Saúde, através de sua assessoria de PÚBLICO X PRIVADO
Deputados 2014
• http://goo.gl/BSZyXJ Andressa acabam ampliando o tempo de espera entretenimento. “Aqui até que está tranquilo. Vim imprensa, não soube informar se a ideia chegou a Na maioria dos serviços de saúde de acesso
e o desconforto dos usuários nas filas da saúde. na semana passada, já fiz exames, hoje peguei os ser encaminhada. universal, há filas. O fenômeno não é exclusividade
Relatório do Tribunal de Para se ter uma ideia, a falta de comunicação resultados e agora aguardo para mostrar à médi- Os entrevistados de Radis reconhecem que brasileira, tampouco restrito ao serviço público.
Contas da União 2013
entre médicos e usuários ou orientações incor- ca”, elogia. muitos projetos e iniciativas vêm sendo realizados Ocorre também em consultórios, laboratórios, clíni-
• http://goo.gl/6Uwrbt
retas sobre marcação de consultas, realização de Sérgio Roberto não teve a mesma sorte. seja na atenção básica, seja na atenção hospitalar cas e hospitais do setor privado. Segundo Carmen,
exames e locais para retirada de medicamentos Apesar do atendimento ter sido rápido, também ou na atenção especializada, para minimizar o são apenas lógicas diferentes do mesmo problema.
Pesquisas estão entre as demandas mais frequentes leva- descobriu só no guichê que não seria possível problema das filas. Mas também consideram que Para a pesquisadora, os determinantes das filas são,
“A economia das filas no das à Defensoria Pública do Estado, informou a marcar uma consulta para a mãe dele com um os desafios ainda são inúmeros. Para Marília, a em grande parte, semelhantes aos dois modelos,
Sistema Único de Saúde coordenadora de Fazenda otorrino. Sérgio havia levado classificação de risco, por exemplo, que define isto é, a existência de uma oferta menor que a de-
(SUS) brasileiro”, de P úb lic a da D efens o r ia todos os documentos, iden- cores e tempo de espera máximo recomendado em manda. “É importante enfatizar que esta ‘demanda’
Alexandre Marinho
Pública do Estado do Rio tidade, CPF, comprovante de cada caso, aplicada tanto em hospitais quanto em muitas vezes é superdimensionada, tanto no setor
• http://repositorio.ipea.gov.
br/handle/11058/1595
d e J a n e i ro, S a m a nt h a na maioria dos serviços de saúde residência. Mas a paciente centrais de regulação de agendamentos eletivos, público como no privado, na medida que a atenção
Monteiro. “Muitas vezes deveria ter sido encaminhada contribui para o conhecimento da população. A médica contemporânea privilegia a utilização de
“Essa vez que não chega:
fila e drama social no
o paciente que procura de acesso universal há filas. o pela Clínica da Família da re- professora considera fundamental a publicização tecnologias diagnósticas e terapêuticas em grande
a Câmara já está com a gião onde mora, no Catumbi. dos critérios de classificação e do tempo previsto escala e com muita intensidade”, diz.
Brasil”, de Alberto
Junqueira
consulta marcada, mas por fenômeno não é exclusividade “Mas como, se a minha mãe para qualquer espera. “Nesse sentido, é preciso A diferença, de acordo com a professora, está
• www.maxwell.vrac.puc-rio. falta de informação, acaba nunca consegue atendimento avançar para filas únicas, territorialmente definidas no fato de, no âmbito do sistema público, estes ser-
br/21533/21533_1.PDF perdendo o atendimento”, brasileira, nem restrita ao lá?”, indaga, mas a pergunta em função da complexidade e oferta e ainda, in- viços estarem concentrados, em grande parte, nas
exemplifica a defensora fica sem resposta. formatizadas e visibilizadas, permitindo que todos mãos do setor privado contratado e conveniado, o
“Avaliação do complexo
regulador do sistema pública que vem atuando serviço público Próximo dali, no setor conheçam o andamento da fila, como tem sido que acaba penalizando mais o usuário do sistema
público municipal de em casos de judicialização que atende crianças e ado- feito no acesso a órgãos de doadores para trans- público. “Outro aspecto que pode ser comparado
serviços de saúde”, de envolvendo filas em saúde lescentes, Jéssica Machado, plantes”. Marília cita ainda a organização das redes diz respeito ao uso que os serviços privados fazem
Janise Braga Barros no Rio de Janeiro. 16, aguarda aquela que seria de atenção, a pactuação regional e a organização das chamadas ‘amenidades’, ou seja, o conforto
• http://goo.gl/HVvupd “Como o SUS é descentralizado, sem haver a sua décima sexta consulta em cinco anos. Jéssica de processos de regulação do acesso no SUS como das salas de espera, a marcação por telefone, a
“A superlotação dos regra clara para todos os entes, não há um banco tem um problema de anemia crônica e, a cada ida caminhos que vêm sendo trilhados para a resolução entrega de resultados de exames pela internet e
serviços de emergência de dados sistematizado para todo o sistema”, ao Hospital, se prepara para “passar o tempo”. do problema. (veja matéria sobre regulação no outros pequenos mecanismos que facilitam a vida
hospitalar como evidência aponta Alexandre Marinho, economista do Na mochila, pacote de biscoito e frutas. Sentada SUS na página 18) do usuário e fazem com que sua percepção sobre
de baixa efetividade Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), confortavelmente, parece habituada a situação. Carmen cita como experiência positiva a o serviço privado seja melhor do que a que tem
organizacional”, de Roberto
Bittencourt
autor de um estudo sobre o tema (veja entrevista “Hoje, tive que perder a avaliação do colégio”, conta Política Nacional de Humanização, que pretende com relação ao serviço público”, aponta. (A.C.P.)
• http://goo.gl/yvqC4q na página 28). De acordo com Alexandre, faltam a garota que cursa o 1º ano do ensino médio, no promover um melhor relacionamento entre usuá-
critério, transparência e ciência. “Para a população, colégio Vila de Cava, em Nova Iguaçu. Naquele dia, rios e prestadores de serviços, atuando portanto
“Comportamento em as consequências são terríveis”. em nível micro e propondo a organização das
chegara às 10 da manhã. “Já precisei sair de casa às
filas de espera – uma
abordagem multimétodos”,
A diarista Ana Paula Santana não sabe dizer 4h, para ser atendida ainda pela manhã e não ficar redes integradas de atenção à saúde. “Para solu-
de Fábio Iglesias que lugar ocupa na fila de espera da saúde. Há no último lugar da fila. Mas hoje vou ser atendida cionar o problema das filas, entretanto, é preciso
• http://repositorio.unb.br/ mais de um ano, ela aguarda a realização de um à tarde”, diz à Radis. “Minha mãe queria sair mais um esforço muito maior em termos do planeja-
handle/10482/3651 exame de cateterismo para a filha Gisele, de 21 cedo. Mas perdi a hora”. mento e da programação da oferta de serviços que
anos. A garota nasceu com uma série de proble- Na fila, enquanto esperam, compartilham leve em conta a análise da situação de saúde da
mas em decorrência de uma rubéola contraída histórias, fazem amigos, trocam informações. população de cada território e das tendências que
pela mãe durante a gestação. Aos 7 anos, passou As queixas são voltadas, na maioria das vezes, se apresentam, em termos epidemiológicos”, diz,
por uma cirurgia para a colocação de uma válvula para a “burocracia do sistema” ou “falhas de acrescentando que, nesse sentido, seria preciso
cardíaca que, segundo Ana Paula, já não responde comunicação”. Para a vice-presidente do Cebes, reverter a lógica que privilegia a racionalização

17
às necessidades da filha. A notícia da provável ci- também professora do Instituto de Saúde Coletiva da oferta em função da disponibilidade de recur-
rurgia foi dada ainda em 2014, mas até agora ela da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Carmen sos, avançando-se para uma programação que
não passou pelo cateterismo, que vai determinar Teixeira, o grau de tolerância e aceitação depende considere as necessidades de saúde da população
RADIS 159
DEZ 2015
A FILA ANDA
Saiba como funciona o atendimento e a importância
da atenção básica para o sistema

E m caso de suspeita de qualquer problema de


saúde, o usuário do SUS — ou seja, qualquer ci-
dadão — deve procurar a Unidade Básica de Saúde
por usá-lo ou não —, e está integrado com outros
bancos de dados gerenciados pelo Ministério, como
o Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde
(UBS) mais próxima da sua casa. Conhecida como (CNES) e o Sistema de Gerenciamento da Tabela
posto de saúde, ou centro municipal de saúde ou de Procedimentos (SIGTAP), entre outros. Alguns
clínica da família, a UBS é a instância da Atenção estados e municípios optam por utilizar diferentes
Básica, principal porta de entrada para o sistema. Ali sistemas, como é o caso de Minas Gerais, onde se
acontecem consultas, vacinações, alguns exames e usa o SUS Fácil. O que provoca as filas desordena-
procedimentos simples como aferição de pressão e das, aflição nos usuários e falta de comunicação é,
distribuição dos principais medicamentos. quase sempre, resultado de um mau gerenciamento
As outras entradas possíveis no sistema de da informação, avaliam especialistas. É para evitar
saúde são as emergências — nos hospitais ou este desencontro que existe o Complexo Regulador.
ambulatórios —, e a fila “virtual” para transplante
de órgãos (que só é feito pelo SUS, mesmo quando
o paciente tenha realizado todo o atendimento e ATENÇÃO BÁSICA COMO REGULADORA
tratamento prévio no sistema privado). “A atenção Informatizar e usar o SisReg, o SUS Fácil ou
básica é a ordenadora do sistema, e ela poderia re- outro programa próprio é um passo importante na
solver efetivamente 80% ou mais dos problemas de gestão. No entanto, não é a panaceia para acabar regulador lida com uma ficha no sistema, e não Municipal de Saúde de Ribeirão Preto, enfrentou
saúde da população sem precisar encaminhar para com a demora acima do aceitável no atendimento, com uma pessoa. Ele depende da qualidade da resistência quando tentava implantar uma lógica
uma consulta com especialista”, avalia Janise Braga na opinião da médica Janise Braga Barros. Em sua informação prestada pelo médico da atenção básica para reduzir as filas. “Fomos bombardeados, porque
Barros, professora do Departamento de Medicina tese de doutorado “Avaliação do complexo regu- quando preenche um encaminhamento”, explica é preciso dar total transparência à implementação
Social da USP de Ribeirão Preto. lador do sistema público municipal de serviços de Ronaldo Zonta, médico de família do Departamento de um complexo regulador”, explicou.
Quando um profissional da atenção básica saúde”, defendida na pós-graduação em Saúde de Atenção Básica da Secretaria Municipal de Saúde Para a pesquisadora, que aprofundou sua
encaminha um usuário para um especialista, um Pública na Escola de Enfermagem da Universidade de Florianópolis. experiência profissional em regulação na sua
exame ou um procedimento, o setor de marcação de São Paulo (Usp), em Ribeirão Preto, ela ob- “O profissional tem que o olhar a referência pesquisa de doutorado, o gestor tem que olhar
de consultas utiliza uma central de regulação. servou que organizar a regulação da assistência [o encaminhamento] não como um papel, mas para a capacidade instalada. É a administração
Existem também centrais de regulação de vagas em implica organizar o modelo de atenção. “A base tentar enxergar a pessoa por trás do papel”, acon- pública quem deve definir o que o prestador vai
hospitais, de leitos de UTI, do complexo regulador é o selha Janise. Ela reforça que a atenção básica é fazer, orienta Janise. Segundo ela, isso nem sempre
de distribuição de medica- mapa assistencial — mapear a reguladora do sistema e não pode ser só uma acontece. “Muitos prestadores têm interesse apenas
mentos especiais e outras, e quantificar os recursos encaminhadora. Para isso, esta “porta de entrada” naqueles procedimentos que são mais lucrativos.
mais específicas, como de “Quanto mais desorganizada disponíveis, na rede própria do sistema tem que ser capaz de resolver até mais Alguns grupos se organizam para drenar a demanda
oncologia. A lógica que rege e conveniada, e cruzá-los de 80% dos problemas. “Acho que está desem- de procedimentos mais interessantes economica-
quem é atendido primeiro a regulação, mais vai com a demanda. Ela conta penhando melhor essa função nos últimos anos”, mente”, argumenta. Ela cita como exemplo a área
e quem fica para depois é que na sua cidade, Ribeirão opina. Segundo a pesquisadora, existe um aspecto de cirurgia vascular: “A colocação de um stent [Um
chamada tecnicamente de existir o chamado acesso Preto, o acesso não estava pedagógico que precisa ser trabalhado com a aten- stent coronário é um tubo minúsculo, expansível
regulação da assistência. É organizado. “Até 2005, era ção básica. “Quanto pior o preenchimento da guia, e em forma de malha, feito de um metal como o
por meio de um complexo personalizado” ordem de chegada para com pobreza de informação, mais difícil fica para aço inoxidável ou uma liga de cobalto, que pode
regulador que o SUS pro- tudo. A ordem de chegada é o complexo regulador qualificar o risco”, explicou. ajudar a reduzir o bloqueio ou estreitamento de
move o cruzamento dos comum, mas não é um bom Ronaldo dá um exemplo de Florianópolis: “Nos úl- uma artéria] é mais interessante para prestadores
recursos existentes — profissionais na atenção critério, porque permite que casos menos graves timos dois anos, foi feito um estudo e observamos privados do que a remoção de varizes ou cirurgia
básica, especialistas, exames, procedimentos, leitos, passem na frente de outros que necessitariam de que 70% dos encaminhamentos para mastologia de hérnia, procedimentos para os quais a tabela
cirurgias, medicamentos e transplantes — com a maior rapidez”, explicou ela à Radis. eram inadequados — ou por falta de dados ou do SUS paga menos”, avalia. Por este motivo, a
demanda da população e determina o caminho Para entender porque ordem de chegada porque eram casos que poderiam ter sido resolvidos fila para os procedimentos “mais baratos” tende
que o usuário deve percorrer no atendimento, às não é o critério mais eficaz, basta imaginar como na própria atenção básica”. a ser mais negligenciada, em função do interesse
vezes com menos, às vezes com muitos percalços. funciona o atendimento nas emergências. Nelas, do prestador. “Muitas vezes, a recontratualização
(ver gráfico na página 19) todos têm pressa para serem atendidos; o que no de prestadores pode ser necessária para organizar
É o complexo regulador que identifica onde entanto caracteriza a prioridade de atendimento é INTERESSES ECONÔMICOS a regulação, e isso pode ferir interesses”, analisa.
estão as vagas disponíveis e determina quem terá a classificação de risco, de acordo com a gravidade. Janise destaca outro importante aspecto. Na
prioridade sobre elas. O sistema define onde será Os usuários passam por uma triagem e recebem prática, o complexo regulador tem também gran-
feito o atendimento, a partir de critérios como pulseiras, cujas cores indicam em que ordem rece- de potencial de ser um observatório do sistema. INFORMAÇÃO X JUDICIALIZAÇÃO
proximidade com a residência do paciente e berão os cuidados. (ver matéria sobre Emergências “Quanto mais desorganizada a regulação, mais Se no “balcão de atendimento” se encontram
complexidade do caso. Uma das ferramentas que na página 21). Já em relação a especialidades, vai existir o chamado ‘acesso personalizado”, res- os sistemas de informação e os profissionais de

19
opera esse cruzamento de informações é o Sistema procedimentos, leitos e cirurgias, a classificação de saltou ela. Por “acesso personalizado” entenda-se saúde, no final da fila, ou tentando descobrir em
Nacional de Regulação, o SisReg (ver glossário na risco não é presencial, e depende de informação a maneira tradicional e antiética de burlar a fila de que fila entrar, estão os usuários, muitas vezes per-
página 20), disponibilizado pelo Ministério da Saúde de qualidade para que o profissional regulador espera por intermédio de uma pessoa influente. Ela didos e desesperançados. O trabalho de Samantha
para estados e municípios — que podem optar possa avaliar quem merece prioridade. “O médico conta que, nos anos em que trabalhou na secretaria Monteiro, defensora pública do estado do Rio de RADIS 159
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Janeiro, faz com que ela encontre esses usuários procuram uma Unidade de Pronto Atendimento
“perdidos”: “Basicamente tudo começa com algu- (UPA) numa situação de emergência, mas a es-
ma falha de comunicação na unidade de saúde.
Geralmente é dito para o paciente que não tem
vaga, ou que estão tentando marcar uma consulta;
o paciente vai até a unidade duas ou três vezes, não
trutura não prevê aquela situação. “Um exemplo:
otorrino. Dificilmente você vai conseguir um aten-
dimento em otorrino numa UPA; você terá que ser
levado para um hospital com essa especialidade”.
DA PRESSA À LONGA ESPERA
encontra vaga e fica angustiado com a demora e a Para Samantha, é por isso que as pessoas correm
falta de resposta efetiva”, descreve. “Há situações para a porta dos grandes hospitais. “As pessoas
em que o paciente que procura a Defensoria já está tentam várias portas de entrada, vão onde for ne- Urgências e emergências enfrentam o desafio
com a consulta marcada, mas não é informado e cessário para conseguir atendimento adequado. Se
acaba perdendo”, lamenta. não conseguir em nenhuma das portas, o cidadão de lidar com as filas fora e dentro dos serviços
Samantha atua com quatro outros defenso- busca a via judicial”, analisa.

S
res na Câmara de Resolução de Litígios em Saúde A defensora considera que “nós no sistema”
(CRLS), no Rio de Janeiro, órgão que representa devem ser resolvidos pelos gestores, mas avalia ão nove horas da manhã de uma terça-feira de No mesmo instante em que Bárbara conseguia
a união de várias entidades e poderes públicos que a judicialização é inevitável em algumas situ- novembro. Bárbara Beraldo, 32 anos, acabou atendimento em Saracurana, uma ambulância do
visando à mediação dos casos que envolvam a ações. Como nos casos em que usuários necessi- de ser atendida na Emergência do Hospital Corpo de Bombeiros trazia um acidentado para ser
saúde da população. “Para evitar a judicialização, tam de medicamentos ainda não incorporados às Estadual Adão Pereira Nunes, em Duque de socorrido como caso de emergência grave. Em situ-
buscamos meios alternativos de acesso à saúde e listas do SUS. “O paciente já experimentou outras Caxias, município da Baixada Fluminense, no Rio de ações como infarto, acidente vascular cerebral (AVC)
nos aprofundamos um pouco mais nos problemas alternativas de tratamento e sua única saída é Janeiro. Moradora do bairro de Saracuruna — nome ou ainda em traumas graves de trânsito, não há tempo
da regulação de vagas”, explica. Ela afirma que a aquela medicação, ainda não é oferecida pelo pelo qual a unidade também é conhecida —, Bárbara para esperar. Esses atendimentos são classificados com
lista dos entraves para os usuários que procuram a SUS, mas com uso e comercialização já autorizados sofreu uma torção no tornozelo em casa e a cor vermelha. Porém, quando faltam leitos e pro-
defensoria é grande: “Por haver mais de um sistema pela Anvisa”. Samantha observa que os remédios procurou o hospital, onde recebeu fissionais, a assistência imediata e resolutiva
de regulação [no estado do Rio de Janeiro], não são grandes geradores de demanda na Justiça, uma pulseira amarela, que indica- é prejudicada, aponta o professor da
existe uma fila única, nem um quantitativo de vagas entre eles aqueles indicados para doentes renais va que seu caso era urgente, Universidade Católica de Brasília,
necessárias. As pessoas não têm acesso a todas crônicos, as insulinas análogas e os colírios para mas não grave. Pela regra, Roberto José Bittencourt, respon-
as vagas. É por isso que nem podemos detectar glaucoma. Quanto às consultas, a maior parte ela poderia esperar até 60 sável pelo Núcleo de Evidências
quando um paciente fura fila”, argumenta. das demandas não atendidas são em neurologia minutos, mas foi aten- para Tomada de Decisão
Segundo a defensora, não existe controle e e oftalmologia, diz, a partir da sua experiência. dida em dez. Como em Políticas de Saúde do
transparência, nem se sabe se todos os critérios Ela defende a criação de uma central única de há carência de outros Distrito Federal.
médicos estão sendo observados na ordem de regulação no estado, que inclua vagas para UTI. ser viços na região “Superlotação mata.
espera dos pacientes. “Também existem problemas “Nossa intenção é fazer com que estado e mu- onde mora, ela re- Em muitos casos a in-
de comunicação dos médicos com os usuários, ao nicípio conversem sobre as vagas existentes. É a corre ao hospital com tervenção tem que ser
não orientar corretamente sobre os locais em que melhor forma de estabelecer um fluxo comum para a certeza de que vai imediata e a superlotação
podem retirar medicamentos ou fazer exames”, que todas as pessoas possam ter acesso a todas resolver seu problema, impede que isso aconte-
acrescenta. Há, ainda, casos de pessoas que as vagas”, orienta.(E.B.) ainda que demore um ça”, sentencia. Para ele,
pouco mais. Erguido às o desafio das emergências
margens do cruzamento não é apenas a porta de en-
de duas importantes vias trada, mas dar continuidade à

GLOSSÁRIO
de acesso — a Rodovia assistência dos pacientes que já
Washington Luís e a Rio-Magé receberam o primeiro atendimento.
—, o hospital de Saracuruna é a É o exemplo de pessoas com doenças
única opção de atendimento para ca- crônicas descompensadas, como diabetes
sos de média e alta complexidade na região. e hipertensão, ou que exigem tratamentos comple-
Alta complexidade — Procedimentos no SUS que envolvem tecnolo- dimensionamento da capacidade instalada e da demanda populacional; Sem referências de atenção básica, Bárbara conta que xos, como AVC, infarto ou acidentes de trânsito. “O
gia e custo elevados, garantindo a assistência à saúde de modo integrado pactuação entre gestores e prestadores; desenvolvimento de protocolos já trouxe os filhos para serem atendidos na unidade, infarto agudo do miocárdio tem um limite de tempo
com a atenção básica e a média complexidade. Exemplos: tratamento de assistenciais e implementação complexos reguladores. mesmo que tivessem que esperar. “A emergência pelo para uma intervenção ser bem sucedida, pois existe
câncer, cuidados em traumato-ortopedia, cirurgias cardiológicas, assis- menos é uma porta de entrada para o SUS”, relata. uma janela terapêutica de três horas para agir”, cita.
tência a pacientes com obesidade (cirurgia bariátrica), transplantes etc. Sistema Nacional de Regulação (SisReg) — ferramenta online de O desconhecimento sobre qual caminho seguir
gerenciamento da rede de saúde, que vai da rede básica à internação para obter o atendimento adequado, o déficit no
Classificação de risco — Forma de organizar o atendimento dos hospitalar, para administrar as vagas disponíveis e verificar a instituição número de leitos e a falta de assistência resolutiva SUPERLOTAÇÃO
pacientes nos serviços de saúde, estabelecendo uma ordem de acordo mais adequada para cada paciente considerando critérios como regio- próximo de casa são alguns dos entraves que geram
com potencial de risco, agravos à saúde ou grau de sofrimento. O sistema nalidade (proximidade com a casa do usuário) e a complexidade de as filas nos serviços de urgência e emergência, como Cada emergência possui um número de leitos
mais comum é o Protocolo de Manchester, que utiliza as cores vermelha cada caso. Foi desenvolvido e disponibilizado pelo Ministério da Saúde apontam os especialistas ouvidos pela Radis. “Se bem definido, com macas e pontos de oxigênio.
(atendimento imediato), laranja (espera de até 10 minutos), amarela (1 e é prerrogativa da gestão municipal ou estadual se utilizar deste ou de houvesse um sistema em que as pessoas tivessem Porém, com freqüência, esses serviços funcionam aci-
hora), verde (2 horas) e azul (4 horas). sistemas próprios para a regulação da assistência. acesso às portas de entrada corretas, as filas das ma de sua capacidade, aponta Roberto. Esse cenário
urgências e emergências seriam diminuídas”, apon- é o mesmo constatado pelo relatório do Tribunal de
Complexo regulador – estrutura que operacionaliza as ações da Urgência e emergência — Serviços organizados pela Rede de Atenção ta Alexandre Marinho, economista do Instituto de Contas da União (TCU) de 2013, que analisou a as-
regulação do acesso ao sistema. Engloba o conjunto de profissionais às Urgências e Emergências, de acordo com a Portaria 1.600 de 2011 Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA). “O problema sistência hospitalar do SUS em 116 hospitais federais,
e sistemas de informação que operam a regulação da assistência. O (que reformulou a Política Nacional de Atenção às Urgências). Abrangem das filas está em todas as regiões do país, mas atinge estaduais e municipais de todo o Brasil. De acordo
complexo regulador é composto por uma ou mais centrais de regulação, os componentes: promoção, prevenção e vigilância; atenção primária principalmente os hospitais de alta complexidade, com o documento, em 64% das unidades visitadas, os
como a Central de Regulação de Urgência (que inclui o Samu), Central de (Unidades Básicas de Saúde); Unidades de Pronto Atendimento (Upas) e ou- que têm mais leitos e emergências mais robustas”, próprios gestores relataram que a taxa de ocupação
Regulação de Internações, Central de Regulação Ambulatorial, Central tros serviços 24h; Samu 192; atendimento hospitalar; e atenção domiciliar. analisa Gisele O’Dwyer, pesquisadora da Escola da emergência é sempre maior do que a capacidade
Nacional de Regulação da Alta Complexidade, entre outras. Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca (ENSP/ prevista, isto é, a superlotação é permanente. Já em

21
Fontes: Fiocruz). A demora para a realização de procedi- outros 19% dos hospitais, essa situação acontece com
Regulação da assistência (ou regulação do acesso) – Diretrizes para Implantação de Complexos Reguladores - http://goo.gl/F6LnoM; mentos pode ser o limite da vida em casos em que frequência e, segundo os entrevistados, somente em
Articulação e integração de mecanismos que permitam aos gestores Regulação Médica das Urgências e Emergências - http://187.17.2.102/fhs/ não há tempo para esperar. 6% dos estabelecimentos isso nunca ocorre.
regular as ações e serviços de saúde, por meio de ações tais como media/files/samu/manual_de_regulacao_medica_das_urgencias.pdf RADIS 159
DEZ 2015
A superlotação e as filas das emergências são de grande porte em diferentes estados do país e sem capacitação para esse trabalho. “Em muitos como as capitais. Porém, ela não pode ser vista
a realidade principalmente de grandes hospitais, constataram que existem dois “gargalos” nesses casos, o administrador da fila é o segurança ou o como substituta de hospital. “A Upa tem que ter
registrou ainda o relatório. Segundo o documen- serviços: uma fila para entrar e outra para sair. policial de plantão no hospital”, ressalta Alexandre porta de saída. Não dá para o paciente ser atendido
to, um dos motivos é que a população obtém Segundo o parecer, a primeira aparece na Marinho, economista do IPEA que estudou o lá e não conseguir ir adiante no sistema”, conside-
um atendimento mais resolutivo em comparação porta: as grandes esperas por atendimento, que problema das filas em saúde. Essa triagem deve ra. Para ela, o ideal seria vincular essas unidades
com outras unidades, de médio e pequeno porte. geram desconforto para as pessoas. Já a segunda ser feita por um médico ou profissional da área à atenção básica e aos hospitais especializados:
“Assim, as emergências hospitalares são um cami- vem com a dificuldade para dar solução aos casos de enfermagem, como aponta o Grupo Brasileiro o seu papel seria diminuir as filas, ao atender
nho mais curto, muitas vezes o único, para alcançar de usuários que já conseguiram ser atendidos. de Classificação de Risco (GBCR), responsável as urgências. Uma mudança importante que ela
o atendimento de saúde”, diz o texto. Situações de O estudo mostrou que faltam serviços de apoio pela adoção no Brasil do sistema conhecido como considera foi a criação da
pacientes mantidos nos corredores por falta de lei- adequados, como a realização de exames comple- Protocolo de Manchester. especialidade de Medicina
tos acontecem com frequência em 47% das unida- mentares e a transferência para leitos de terapia de Emergência, que teve
des visitadas, de acordo com os próprios gestores. intensiva (UTI) ou unidades de pacientes crônicos.
SEM PRIORIDADE
seu reconhecimento com- Para diminuir as filas, o ideal
“O resultado é que se gera uma ‘fila’ também para pleto somente esse ano:
FILA DUPLA
sair do serviço”, completa o texto, coordenado pelo Ainda eram nove horas da manhã de 10 “Os médicos que atuam nas seria uma atenção básica
deputado Arnaldo Jordy (PPS-PA). de novembro quando Alípio Antonio chegou à emergências são de espe-
O paciente que procura os serviços de urgên- porta da emergência do Hospital de Saracuruna. cialidades diversas, mas é capaz de atender pacientes
cia e emergência pode se deparar com duas filas. A Depois de ser atropelado por uma moto, em importante a existência de
primeira é aquela que organiza o atendimento na CLASSIFICAÇÃO DE RISCO junho, acidente que perfurou um dos pulmões, profissionais capacitados crônicos e receber pequenas
entrada e define os casos que precisam ser atendi- O vermelho é a cor da emergência. Nas uni- ele foi atendido e operado na unidade. Mas após para lidar com esse tipo de
dos imediatamente. “Grande parte desses pacientes dades que já adotaram a chamada “classificação receber alta, continuou sentindo dores fortes atendimento”, avalia. urgências, dizem especialistas
são de menor complexidade, que deveriam estar de risco”, os pacientes devem receber assistência nas costas. Morador de Duque de Caxias, ele já Gisele lembra ainda
sendo atendidos em outras portas do sistema, caso imediata, pois correm risco de morte. Em seguida, buscou assistência na UPA e no posto de saúde que o tempo de perma-
houvesse acesso e resolução”, explica Roberto. Em na escala de prioridades, aparecem as cores laran- perto de sua casa, mas o único exame feito nas nência na Upa não deve ser
seu relatório, o TCU estimou que mais da metade ja, amarelo, verde e azul. O laranja vai para casos unidades — o raio X — não foi suficiente para o maior do que seis horas. “Quem precisa de inter-
das pessoas que chegam às emergências poderiam muito urgentes em que a espera pode ser de até diagnóstico. Como soube pela própria médica do nação também necessita de uma complexidade
ter seus problemas de saúde resolvidos nas unida- dez minutos; já os pacientes classificados com posto que em Saracuruna havia o exame de que de exames e procedimentos que estão além do
des de atenção básica. amarelo podem aguardar até uma hora, enquanto precisa — a ressonância —, ele decidiu arriscar papel da Upa”, ressalta. Nas situações em que há
Depois da primeira assistência, é que aparece o verde pode esperar até duas e o azul até quatro. atendimento na emergência da unidade. necessidade de internação hospitalar, aparece um
a segunda fila: a espera para obter um leito de in- De acordo com o relatório do TCU, três em cada A tentativa, porém, não deu certo: seu caso dos principais entraves que geram as filas nas urgên-
ternação, para os casos em que há necessidade de quatro hospitais analisados utilizam a classificação não se enquadrava em uma situação de urgência e cias e emergências: a falta de leitos. Segundo ela,
hospitalização. “Esse tipo de fila não é muito visto, de risco para organizar a fila da emergência. emergência, mas sim em atendimento ambulatorial. a estimativa é que faltem 300 mil leitos no Brasil.
pois são os pacientes que já estão dentro da emer- No Brasil, essa forma de colocar ordem na Como Alípio, outras pessoas buscam os grandes De acordo com o Cadastro Nacional dos
gência, mas é muito grave: ocorre principalmente espera do atendimento foi popularizada a partir hospitais para resolver problemas de saúde que Estabelecimentos de Saúde (CNES), em 2013,
pela insuficiência de leitos existente no Brasil”, das Unidades de Pronto Atendimento (Upas). Mas poderiam ter sido atendidos na atenção básica. o Brasil possuía 2,51 leitos por mil habitantes,
considera Gisele. “São pacientes que estão em de acordo com Gisele, o paciente tem que ser visto Para Gisele, o paciente que mais sofre na fila das enquanto a média dos países da Organização
macas, idosos com fraturas, doentes crônicos em imediatamente para ocorrer a classificação de risco. emergências é aquele com pequenas urgências. “A para Cooperação e Desenvolvimento Econômico
crise ou pessoas que precisam de uma intervenção “A fila de espera só é admissível se não colocar em pessoa que chega na ambulância, atropelada ou (OCDE) era de 4,8 a cada mil. Como aponta o
mais intensa”, explica Roberto. risco a vida do paciente, por isso precisa estar den- vítima de um acidente vascular ou infarto acaba relatório do TCU, a oferta de leitos no SUS vem
O problema das filas nos serviços de ur- tro de critérios médicos”, avalia. Ela aponta ainda sendo priorizada, mas os usuários com doenças sofrendo uma redução desde 2010: entre esse ano
gência e emergência também recebeu atenção que essa ordem deve ser revista constantemente, crônicas sofrem mais com a espera no SUS”, explica. e 2013, houve uma diminuição de 11.576 leitos de
da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da pois os casos que aparentam ser menos urgentes É o caso das pessoas com câncer avançado que não internação e complementares.
Câmara dos Deputados, que publicou um relatório podem se tornar mais graves ao longo da espera. conseguiram acessar os serviços anteriormente, e
em 2014 sobre a situação dos hospitais do SUS. Os A classificação também ajuda a superar situ- não fizeram exames de rotina necessários para a
parlamentares realizaram visitas em oito unidades ações em que a fila é organizada por profissionais prevenção. “Quando chegam a urgência, o caso já A FILA VAI AO TRIBUNAL
é muito grave”, analisa. Na avaliação de Gisele, o Se o paciente não encontra acesso em um
problema acaba vindo parar na emergência. serviço de saúde, existe a busca pela solução
judicial: reivindicar na justiça o direito garantido
pela Constituição. Porém, para evitar o excesso de
REDES DE URGÊNCIA casos de judicialização envolvendo filas em saúde,
Urgência e emergência não é somente hos- um convênio entre União, o estado e o município
pital. Responsável por pesquisas que avaliam o do Rio de Janeiro criou a Câmara de Resolução de
funcionamento desses serviços no Brasil, Gisele ex- Litígios em Saúde. A ideia é buscar soluções alter-
plica que as chamadas redes de urgências possuem nativas que possam garantir o acesso aos usuários
FOTOS: SÉRGIO EDUARDO DE OLIVEIRA • ARTE: FELIPE PLAUSKA

vários componentes que devem atuar de maneira do SUS. “Antes de judicializar, é preciso entender
integrada. “A urgência começa com a prevenção, por que um paciente de determinada unidade de
inclui a atenção básica e abrange também a aten- saúde está enfrentando problema, como acesso
ção pré-hospitalar, que é aquela que vem antes a medicamento, se é por falta de informação ou
do hospital”, explica. Como exemplo, ela cita as orientação”, explica Samantha Monteiro, coorde-
Unidades de Pronto Atendimento (Upa) e o Serviço nadora de Fazenda Pública da Defensoria Pública
de Atendimento Móvel de Urgência (Samu). A rede do Estado do Rio de Janeiro.
também inclui a atenção recebida nos hospitais e Para a defensora, o maior dilema vivenciado
depois de passar por eles, como a reabilitação e a no acesso à saúde é a fila invisível, como a espera
atenção domiciliar. por leitos de internação, consultas ou cirurgias espe-

23
Segundo Gisele, a Upa cumpre um papel cializadas. “Essa fila que não se vê assusta mais do
importante em regiões em que existem vazios assis- que a fila na porta do hospital”, aponta. Ela explica
tenciais ou com grande concentração populacional, que, nessas situações, perde-se o controle de quem
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espera, há quanto tempo espera e até mesmo da flexibilidade da demanda por saúde é que os servi-

A FILA INVISÍVEL DO TRANSPLANTE


gravidade de cada caso. Ainda segundo Samantha, ços precisam lidar com a incerteza; e para isso, só
não existe uma fila única e um quantitativo exato de há um caminho, como aponta Alexandre Marinho:
quantas vagas são necessárias. planejamento (veja entrevista completa na página
Para resolver esse problema, a Defensoria 28). Um dos principais desafios é a falta de equipes
Pública do RJ recomendou a criação de uma central ou o pouco estímulo dado aos profissionais de car-
única de regulação no estado, para gerenciar as reira no SUS. “Não há incentivo para os servidores
vagas em todas as especialidades. Em junho deste públicos da saúde e, em razão disso, essas pessoas O tempo de espera por um órgão está condicionado
ano, a central única começou a operar em fase de optam por ter outros vínculos para compensar a
teste, abrangendo algumas especialidades. A gestão renda”, considera. Resultado: faltam profissionais à permissão das famílias dos doadores
é estadual, mas os serviços oferecidos abrangem para atender nas urgências e emergências.
as três esferas de governo (veja matéria sobre a
regulação no SUS na página 18).
SAÍDAS PARA A FILA
D ezoito mil pessoas aguardam transplantes no
Brasil, em uma fila invisível que pode durar dias ou
anos. O engenheiro eletrônico Dinael Wolf, 44 anos,
O Brasil é o segundo país com maior número
de transplantes no mundo, atrás apenas dos Estados
Unidos. A diferença é que, aqui, não é preciso pagar
aguardou quatro meses até receber um novo rim, em nenhum custo. O SUS oferece assistência integral ao
RAIZ DO PROBLEMA Ainda segundo Alexandre, a espera prejudica 2006, no Centro Médico de Campinas. “O processo paciente transplantado: exames preparatórios para a
Para enfrentar o problema das filas e da su- a saúde, pois a demora pode exigir a repetição de foi rápido em vista do que temos hoje, com média cirurgia, procedimento cirúrgico, acompanhamento e
perlotação das emergências, faltam financiamento, exames vencidos ou ainda levar à perda de confiança nacional de espera por um órgão de aproximadamen- medicamentos pós-transplantes. O Sistema Nacional
profissionais e tecnologia. Essa é a avaliação de entre profissionais e pacientes ou até mesmo ao te 5 anos”, avalia ele. A espera foi curta porque de Transplantes (SNT) é considerado o maior sistema
Roberto Bittencourt, que estudou e trabalhou dire- abandono do tratamento. Já para Gisele O’Dwyer, Dinael encontrou na própria família um público de transplantes do mundo. Instituído
tamente nessa área. Segundo ele, esse é um dilema os serviços de saúde deveriam funcionar de maneira doador compatível com ele — um em 1997, o SNT é a instância responsável
vivido em todas as regiões do país. “A marca do integrada, cada qual atendendo um nível de espe- irmão. “Enquanto estava na fila, pelo controle e pelo monitoramento
SUS é a superlotação sistêmica”, afirma. Para ele, cialidade. “Para uma pessoa com um transtorno precisei passar por sessões de dos transplantes de órgãos, de teci-
a incapacidade de atender as demandas de saúde comum, como diarreia ou febre, o ideal seria que ela hemodiálise para estabilizar dos e de partes do corpo humano,
da população brasileira se deve ao que chamou de fosse atendida pela atenção básica e não obrigada meu corpo e presenciei com atribuições que abrangem
“estrangulamento” do sistema. “O SUS não está a ser dirigir para as emergências”, explica. Para que perdas de amigos que desde a gestão política de todo
adequadamente financiado para atender o direito à isso aconteça, unidades como as Upas deveriam estar estavam aguardando o processo ao credenciamento
saúde da população”, completa. vinculadas à atenção primária. por um órgão”. das equipes e hospitais habi-
Além de ter estudado o tema em seu doutora- Na visão de Roberto, o ideal seria uma atenção A rapidez com que litados para a realização das
do na Ensp/Fiocruz, concluído em 2010, Roberto foi básica extremamente resolutiva, capaz de atender a fila anda depende do cirurgias.
subsecretário de Atenção à Saúde do Distrito Federal em “duas portas”. Segundo ele, uma porta deveria órgão a ser transplanta- Em 2006, pesquisa do
entre 2011 e 2014. A partir de sua experiência, ele estar voltada para os pacientes crônicos (diabetes, hi- do e da compatibilidade economista do IPEA Alexandre
relata que, por causa das equipes reduzidas, as emer- pertensão etc.), que necessitam de acompanhamen- entre doador e paciente. Marinho estimou que o tempo
gências davam conta de atender os pacientes graves, to para evitar descompensações, e a outra receber os Todos que precisam entram de espera por um transplante
com risco de vida, mas os casos menos urgentes ou casos de pequenas urgências, com assistência em 24 em uma lista de espera única ultrapassava um ano e podia atingir
que deveriam ser atendidos na atenção básica tinham horas. “As duas portas não deveriam competir, mas de acordo com órgão ou tecido quase nove, no caso do fígado, e mais
que lidar com a longa espera. “As próprias equipes funcionar de modo integrado. Essa medida reduziria a ser transplantado. O atendimento de 11 anos para rim. Em atualização de
se recusavam a atender esses casos na emergência, muito o problema das filas no pronto-socorro e nos é por ordem de chegada, considerados 2010, identificou-se que no ano anterior os dias
pois argumentavam que eram pacientes que neces- grandes hospitais”, considera. Roberto explica que o critérios técnicos, geográficos e de urgência. de espera variaram de 76 dias para um coração e 837
sitavam de atendimento ambulatorial especializado atendimento ao paciente urgente não pode “espre- “A existência desta lista única assegura a seriedade dias para um rim. A ABTO aponta que, no primeiro
e não emergencial”, conta. mer” a capacidade de cuidar dos casos crônicos, pois e a transparência de todo o processo. Acredito nos trimestre de 2015, o número de transplantes renais
A solução encontrada foi encaminhar os casos a gravidade desses problemas pode acabar fazendo critérios e transparência”, opina Dinael. caiu 7,6% — 20,3% com doador vivo e 3,4% com
menos graves para consultas ambulatoriais, mas nem com que eles retornem às emergências. Há 18.818 pessoas aguardando por um rim, doador falecido. Assim, a taxa de transplante renal
sempre isso era possível por falta de equipes e de “Soluções existem, mas exigem investimentos por exemplo, segundo o Registro Brasileiro de com doador vivo foi a menor dos últimos 20 anos.
vagas. Ele também destaca outras medidas impor- na saúde pública que não conseguimos visualizar Transplantes, veículo oficial da Associação Brasileira Mantiveram-se praticamente estáveis os transplantes
tantes, como a atenção domiciliar (que presta assis- em curto prazo”, avalia, citando os cortes na saúde de Transplante de Órgãos (ABTO), do primeiro tri- hepáticos (queda de 0,7%) e cardíacos (queda de
tência ao paciente em casa e evita a hospitalização, realizados em 2015. Também Gisele lembra que, mestre de 2015. O engenheiro da Companhia de 1%). Os transplantes de pâncreas (queda de 24%) e
liberando vagas para quem precisa ficar internado) e como o trabalho em saúde é muito complexo, as Saneamento Ambiental do Distrito Federal Haroldo de pulmão (aumento de 19%) apresentaram maiores
o aumento no número de leitos de retaguarda (que estratégias demoram a fazer efeito. “Como o pro- Rodrigues da Costa, 50 anos, já esteve nessa fila. variações. Os de córneas também diminuíram (7%)
dão suporte aos procedimentos). blema é muito grande, a fila não pode ser resolvida “Não aguardei muito pelo transplante. Tenho oito e têm fila zero em vários estados, em parte devido à
Nos serviços que funcionam 24 horas, a fila na sem planejamento”, conclui. Já para quem aguarda irmãos e todos se prontificaram a serem doadores”, diminuição da indicação de transplante pelo uso de
segunda-feira costuma ser maior do que no sábado. um atendimento na porta, garantir o cuidado digno conta ele, que lembra exatamente do dia em que novas lentes, de acordo com o relatório. 
Por essas e outras características que mostram a e integral é o mais urgente. (L.F.S.) recebeu um novo rim — 10 de setembro de 1997, Quem já recebeu um órgão entende a im-
no Hospital São Paulo. A espera durou nove meses. portância de que a fila de transplantes seja curta.
“Minha caminhada foi amenizada pela atitude de Transformado em triatleta depois da cirurgia, Dinael
minha família. Passava por uma situação difícil, mas afirma que o transplante fez com que repensasse seus
havia apoio. Sempre a visão de uma luz no fim do valores e encontrasse no esporte uma maneira de pre-
túnel”. servar a saúde. “Ser atleta é um detalhe que utilizamos
No caso de transplantes de outros órgãos, como para celebrar a segunda chance que foi proporcionada,
coração, a velocidade da fila está condicionada à per- pois sem transplante nada disso seria possível”, diz ele,
missão das famílias dos doadores. O transplante por que foi um dos responsáveis pela delegação brasileira
doação ao Estado pode ser feito somente depois de nos Jogos Mundiais de Atletas Transplantados, em
constatada a morte cerebral e do consentimento dos Mar del Plata, na Argentina. Haroldo também virou

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familiares. “A taxa de recusa familiar à doação persiste atleta depois do transplante e, integrando a delegação
como o principal obstáculo para a efetivação da do- brasileira no mundial, trouxe uma medalha de prata
ação”, afirma o presidente da ABTO, Lucio Pacheco. para casa. (B.D.)
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TRANSPARÊNCIA AMENIZA ESPERA

ILUSTRAÇÃO DIGITAL SOBRE FOTO DE FERNANDO STANKUNS


Apesar de incômodas, filas são vistas como sinônimo
de qualidade de serviço e local de interação

A s pessoas que estão em filas de unidades de saú-


de, consultórios médicos, bancos, agências loté-
ricas, supermercados, cinemas e eventos culturais,
O psicólogo também indica que há casos em
que a fila, para além de sua finalidade, funciona
como palco de interesses e interações, principalmen-
entre tantos outros lugares, são cordiais, tolerantes te entre os mais jovens. “Em casa noturna, shows
e pacíficas. Apesar de se sentirem incomodadas com ou lançamentos de filmes, é na fila que as pessoas
o tempo de espera, elas não reclamam ou gostam socializam; às vezes sequer entram na casa de es-
de brigar por seus direitos, revela o psicólogo Fabio petáculos ou no restaurante. É um comportamento
Iglesias, professor do departamento de Psicologia mais frequente entre os jovens”, sinaliza. No caso Usuários do metrô
Social e do Trabalho da Universidade de Brasília dos idosos, ele recomenda maior foco no atendi- sob qual critério, elas começam a utilizar boa parte IGUALDADE DE CONDIÇÕES aguardam a sua vez na porta
(UnB). Autor da tese “Comportamento em filas de mento presencial do que nos recursos tecnológicos, das chamadas táticas do jeitinho brasileiro”, relata da estação Anhangabaú,
espera: uma abordagem multimétodos”, defendida já que as interações sociais são mais limitadas para o pesquisador. Ele citou como exemplo a fila de A ideia de que a pessoa já entra na fila segura em São Paulo: nas filas,
em 2007, um dos poucos estudos que se debruçam quem está na terceira idade. “Os idosos têm mais adoção, considerada injusta e não confiável pelas de que tem gente furando também é defendida por brasileiro é tolerante e evita
sobre o tema das filas no país, ele afirma que, mesmo possibilidade de interagir por meio da fila. Eles fazem pessoas que entrevistou. Segundo ele, as pessoas Alberto Junqueira, mestre em Ciências Sociais pela conflitos, diz especialista
quando algum “penetra” fura a ordem estabelecida, questão de estar na fila, vão ao banco mais de uma relataram que a fila está sempre sendo furada, Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro
quem está à espera prefere deixar a fila andar e fingir vez se preciso, e aproveitam para conversar com fato que as autoriza burlar o sistema. Outro ponto (PUC-Rio). A partir de pesquisa que deu origem à dis-
que nada viu — ou, no máximo, chamar a atenção atendentes e com o segurança”, exemplifica. Na registrado pela pesquisa diz respeito aos tumultos e sertação “Essa vez que não chega: fila e drama social
do fura-fila sem entrar em debate. contramão desse movimento, Fabio identifica que os aglomerados ocorridos no início de filas, próximas no Brasil”, ele constatou que a fila mobiliza valores
Para o pesquisador, o que acontece na fila não bancos continuam a criar sistemas mais ergonômicos aos guichês. Fabio identificou que, para ter acesso fundamentais da identidade sociocultural brasileira.
condiz com o que acontece fora. “Embora tenhamos e mais rápidos, incentivando o home banking — imediato, as pessoas lançam mão de estratégias nem “A fila coloca todos em igualdade de condições,
um país com altos índices de agressão e com taxas para que o cliente não precise ir até a agência. “Os sempre cordiais. Diante de uma indicação ou ameaça o que é um exemplo de sociedade democrática”,
de homicídio inaceitáveis, no aspecto relacional, no idosos não gostam de usar caixa eletrônico. Não de que não será atendida, a pessoa abandona a fila afirma. Ele advoga que o brasileiro não gosta de fila
micromundo das interações, nós evitamos o confli- porque não sabem. É que muitos deles não abrem e engrossa o tumulto. não somente por acreditar que está sendo “passado
to”, explicou à Radis, observando que as filas são mão desse contato”, afirmou, ressaltando que esse Para contornar esse tipo de problema, o para trás”, mas também pelo nivelamento que torna
uma organização social indissociável da vida urbana. comportamento também foi observado em salas de pesquisador faz algumas recomendações para seus integrantes anônimos, anulando características
“A fila é um sistema social dotado de valores, normas espera de consultórios médicos. gestores de serviços de atendimento ao público: pessoais que poderiam facilitar o acesso ao que
e princípios de justiça que revela comportamentos. o consumidor não lida bem com recursos que procuram. “A fila é justa por ser consensual e demo-
Esta é uma maneira justa de organizar um coletivo”, “tapeiam” o tempo de espera. “O tiro pode sair crática. Todo mundo enxerga dessa forma. Não é só
assegurou. Segundo ele, ainda que seja invisível — TÉCNICAS DE INTRUSÃO pela culatra para quem coloca uma TV para a espera que incomoda, mas a própria ideia de ser
como a fila de espera para doação de órgãos ou Durante a investigação, ao observar pessoas que a pessoa na fila tenha a impressão que o igual aos outros”, comenta. Em sua avaliação, o viés
de adoção — há uma lógica própria que rege a fila furando filas, Fábio percebeu que, de modo geral, tempo passa mais rápido. Mesmo que o tempo democrático se caracteriza pela ordem de chegada e
e que é conhecida por quem está nela: o primeiro a reação de quem está à espera é muito baixa. Sua seja menor, quem está esperando percebe que o fura-fila representa o que desvirtua a regra.
a chegar deve ser o primeiro a ser atendido. Além análise mostrou que, apesar de muitas pessoas tem uma intenção ilegítima por trás daquele Alberto entende que a fila é uma solução
disso, Fabio lembrou que o atendimento prioritário já afirmarem que não admitem a ação de penetras, recurso”, indicou. Além disso, justificar a de- imperfeita e eventualmente precisa de correções.
foi incorporado como regra e, em casos de doença, na hora em que a intrusão ocorre as reações não mora, dando uma previsão do tempo de espera “Acaba pegando a fila só quem precisa, quem não
os atendimentos de urgência, que quebram a ordem correspondem ao discurso. “Há uma distância en- e indicando a posição que o usuário ocupa na tem outros meios de acesso”, argumenta, associando
já estabelecida, não são vistos como injustos. tre o que o brasileiro fala e o que realmente faz”. fila são estratégias bem aceitas. “Isso permite a prática ao “jeito brasileiro”. Em relação ao acesso,
A pesquisa de Fabio derruba o mito de que Fábio revela ainda estratégias sutis de reclamação: que a pessoa examine e decida se permanece ele cita a discussão sobre cotas como um exemplo
brasileiro gosta de fila. “Não é bem assim. A fila a pessoa faz comentários ou, no máximo, dá um ou não na fila, qual é o seu nível de urgência, de uma medida tomada por sociedades que buscam
existe em qualquer lugar do mundo. Mesmo em toque leve nos ombros. “As pessoas usam muitos qual a disponibilidade que tem e quanto tempo promover a igualdade. “Embora sejam situações
países desenvolvidos há filas”, diz. Segundo ele, o recursos para dissimular a intrusão para que a vítima pode ficar ausente”. Ele alerta também para uma diferentes, os valores mobilizados são os mesmos”,
que marca a diferença entre a atitude dos brasileiros não reaja, não faça nada”, comenta. Entre estas particularidade dos serviços de saúde (público argumenta. Já no que diz respeito à saúde, ele des-
e de outras culturas é que lá fora provavelmente há “técnicas” estão falar ao celular, fingir distração e ou particular): a pessoa já tem a sensação de taca que iniciativas que “quebram” a ordem da fila,
menor tolerância por um longo tempo de espera. até simular dúvida se a fila que se procura é aquela que o atendimento vai ser realizado em horário com o intuito de facilitar o acesso aos casos mais
“Em outras sociedades, as pessoas reclamam e são mesmo. “O método mais clássico é o pedido de diferente do marcado. “Os profissionais fazem graves, são práticas que visam corrigir desigualdades
mais exigentes. Elas estão mais conscientes dos seus informação. A pessoa faz uma pergunta, engata vários agendamentos ao mesmo tempo. E nin- e antecedem a formação da própria fila. “Pessoas
direitos como consumidores”, indicou. Por outro uma conversa e acaba entrando na frente da fila. guém consegue manter o que foi marcado”, diz. com situações de saúde diferentes demonstram
lado, participantes da pesquisa de Fábio relatam que Muitas vezes o intruso tem sucesso, o que gera uma Segundo ele, essa é uma marca típica da cultura desigualdade anterior à fila”, explica. Ele constatou,
vêem a fila como um sinal de qualidade do serviço. alta tolerância em toda a fila”, considera. brasileira, caracterizada como policrônica, frente ainda, que as filas em que as pessoas estão por
“Muitas vezes quem está na fila entende que vale a A pesquisa demonstrou que o que mais in- a maior parte das culturas de países desenvolvi- obrigação são as que geram mais incômodo. “A ideia
pena sacrificar o acesso imediato em prol de uma comoda quem está na fila é a falta de informações dos, que são monocrônicas. “Por aqui, compro- de poder optar ou não por uma fila é importante no

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qualidade maior. É por isso que um serviço sem fila sobre o tempo de permanência. “Se o sistema não missos são marcados ao mesmo tempo, e aí os sentimento que a pessoa tem a respeito da fila”, diz
será menos procurado do que aquele que tem fila de é transparente, não indica qual a posição ocupada horários vão sendo encaixados. Desse jeito, as ele. É por este motivo que, no caso de a pessoa estar
espera. Isso vale para restaurante ou para um médico na fila, qual o ritmo que ela está andando, a frequ- pessoas perdem a confiança no sistema da fila e na fila para tratar de alguma doença, a tendência é
que é difícil de marcar consulta”, argumentou. ência com que as pessoas estão sendo atendidas e vão tentar furá-lo. É um efeito cascata”, resume. classificá-la como ruim e desconfortável. (L.M.) RADIS 159
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ENTREVISTA ALEXANDRE MARINHO

“NINGUÉM TEM A PRETENSÃO INFORMAÇÃO CONTRA IMAGEM NEGATIVA


DE ZERAR A FILA” E m 2011, matéria da Radis alertava para o fato
de que o SUS, mesmo sendo um dos maiores
sistemas de saúde pública do mundo, ainda era
do Jornalismo (Projor), entidade que mantém o
Observatório da Imprensa, a jornalista Angela
Pimenta explica que é tarefa da mídia, por sua
desconhecido da população brasileira (O SUS que natureza, “vigiar” os poderes públicos e tratar, so-

N ão dá para resolver o problema das filas em saúde com


amadorismo. Essa é a convicção de Alexandre Marinho,
economista do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada
não se vê, edição 104). A reportagem registrava que
setores complexos como controle de qualidade de
alimentos e remédios, cobertura vacinal, distribuição
bretudo, do que não dá certo. “Por que as filas são
constantes? Há atrasos no atendimento? O SUS tem
dado seu recado, minimamente?”, questiona, citan-
(Ipea), dedicado a estudar as consequências sociais e de medicamentos antirretrovirais e financiamento de do o escritor Millôr Fernandes (1923-2012), quando
econômicas desse problema no SUS. Segundo ele, não há transplantes acabavam invisíveis diante de problemas disse: “Jornalismo é oposição; o resto é armazém
pretensão de zerar todas as filas, porque a demanda sempre referentes ao acesso — quase sempre representados de secos e molhados”. Angela também avalia que
será maior do que a oferta, mas é preciso criar mecanismos pela imagem das longas filas. Naquele momento, as filas “constantes” da saúde precedem a criação
para a gestão do problema, que garantam o acesso à saúde especialistas apontaram para as questões políticas, do SUS. “A questão da carência na saúde pública
como um direito para toda a população. financeiras e técnicas que comprometiam a imagem é histórica”, analisa, orientando que a cobertura
que a população fazia do SUS, avaliando que esta negativa pode ser revertida com a divulgação de
O que gera o problema das filas no SUS? era bastante influenciada pela cobertura negativa dados relevantes sobre aquilo que dá certo.
Primeiro, é preciso lembrar que o problema das filas dada pelos meios de comunicação. Neste contexto, Por outro lado, Angela acredita que o dese-
em saúde é universal. Existem filas inclusive em países do as filas apareciam como imagens concretas de uma quilíbrio na cobertura da saúde reflete algo que é
norte europeu, na Suécia, na Noruega, na Inglaterra. Nos alardeada ineficiência do sistema — o que, se sabe, estrutural, e se apresenta com a assimetria e a desi-
Estados Unidos existem filas para alguns procedimentos, não corresponde a sua totalidade. gualdade existentes no país. Ao mesmo tempo em
como transplantes. Isso não é “privilégio negativo” do Brasil. Mas o que motiva a recorrência das filas da que se tem ilhas de excelência na área de pesquisa e
O que talvez seja um ponto negativo em destaque no país saúde no noticiário brasileiro? Notícia ruim vende de tecnologia médicas no país, é possível encontrar
é a maneira como esse problema tem sido tratado ao longo mais? Ombudsman do jornal O Povo, de Fortaleza, crianças estudando em condições precárias — ou
de anos. Falta critério e transparência. O que faz ter fila é a a jornalista Tânia Alves opina que as filas no SUS mesmo fora das salas de aula. “Não há como o su-
incapacidade de fazer com que a oferta de serviços atenda se tornam notícia pela história das pessoas, “que cesso dos transplantes justificar a existência de filas

ILUSTRAÇÃO DIGITAL SOBRE FOTO DE ACERVO PESSOAL


totalmente a demanda. Não é possível prever exatamente geralmente não têm onde reclamar”, pelo tempo injustas”, argumentou, esclarecendo que não é papel
como a demanda e a oferta vão acontecer, porque existe a que esperam por atendimento e, também, por da imprensa fazer propaganda sobre o sistema de
imprevisibilidade. Caso haja situações em que a capacidade desinformação. “A falta de informação segura saúde. Para ela, a melhor maneira de progredir neste
de atendimento é sistematicamente abaixo da necessidade, para os pacientes sobre como funciona o sistema, debate, fugindo da política rasteira de culpabilização,
vai haver fila. Tem mais gente procurando o serviço do que a que em sua essência é muito bom, gera dúvidas. é trabalhar com dados consistentes: “As filas não são
capacidade de atender. Dúvidas podem resultar em denúncias. E denúncias exclusividade do SUS. Estão nas ruas, nos bancos,
podem se transformar em notícia de jornal quando na saúde privada. São mais um sintoma da enorme
Até que ponto a fila é aceitável como uma forma de apuradas devidamente”, explica. Ela admite que as desigualdade que existe no país”, adverte.
organizar o sistema? notícias ruins chamam mais atenção, embora avalie Verônica concorda que a informação de qua-
O problema é a espera desnecessária e desconhecida que o exagero de pautas negativas também possa lidade é importante para se reverter o potencial
pelos agentes, ou seja, quem busca atendimento público no cansar o leitor. “Acredito que a formação do jorna- negativo das filas para a imagem do SUS na mídia.
Brasil não sabe quanto tempo vai demorar. A única coisa que lista, de onde ele veio e como ele enxerga o mundo Ela discorda, no entanto, que a população corrobore
se sabe é que vai demorar muito. O que é agravante, porque O segundo remédio são os mutirões (de cirurgias, de consultas podem influenciar sua maneira de pautar”, analisa. com esta imagem: “Quem acha o SUS ruim é quem
além da espera, existe a incerteza. etc.). O mutirão é muito bom para quem está na fila naquele Para a jornalista Verônica Almeida, repórter busca atendimento médico uma única vez. O usuário
momento, mas por que não ampliar o atendimento de modo especial do Jornal do Commercio, do Recife, a fila constante critica, mas sabe que a saúde pública dá
Como a fila pode prejudicar o acesso à saúde? permanente? Além disso, ele tem um atrativo político muito se transforma em notícia quando extrapola o limite de 10 a zero nesses planos privados de cobertura
Quando a gente fala em fila em saúde, não necessaria- grande para o gestor de plantão, pois os políticos alardeiam da rotina e se desdobra em protesto. “E quando a limitada. Na hora H é o SUS, ou melhor, os estrutu-
mente é a fila que você fica em pé esperando. A fila tem um que reduziram a fila. Mas aumentos esporádicos na capacidade mídia tem espaço para isso, é claro”, disse à Radis. rados serviços públicos que respondem e resolvem”,
custo. Se você tem um problema sério de saúde, o quadro de atendimento não afetam a oferta a longo prazo. Como o Ela explica que se dá destaque sempre que a situa- argumenta, lembrando que as filas invisíveis são as
pode ficar mais grave. Como não há informação de quando mutirão não ataca as questões estruturais, o problema vai ção deixa de ser aceitável — pelo menos do ponto piores, já que sua ordem de funcionamento não é
e mesmo se vai haver atendimento (não estamos nem falando voltar no futuro. de vista jornalístico. Verônica exemplifica: casos de transparente, abrindo brecha para irregularidades.
de qualidade), as pessoas acham que a solução está no siste- pessoas que entram em filas na madrugada, passam As filas sempre irão existir, opina Verônica, escla-
ma privado e optam por ter a garantia de um plano de saúde Quais os caminhos para reduzir as filas e ampliar o horas em uma unidade de saúde e voltam a casa sem recendo que falta decisão política e mobilização
(quando podem pagar), mas essa não é a saída. Incentivar a acesso? conseguir pelo menos marcar uma consulta; ou de social para que suas condições se tornem aceitáveis.
iniciativa privada para diminuir as filas do SUS é uma confissão Ninguém tem a pretensão de zerar a fila para tudo. Como usuários que são impedidos de receber atendimen- Para Verônica, Tânia e Angela, é possível re-
pública de que a Constituição não está sendo cumprida e fere os recursos públicos são limitados, o Estado teria que retirar to por profissionais não qualificados para decidir verter a situação e imprimir uma marca positiva ao
o princípio da equidade, deixando à margem boa parte da recursos de outras áreas, a ponto de gerar uma oferta muito quem precisa de cuidados urgentes. “Já presenciei sistema, desde que haja um investimento maior em
sociedade brasileira. acima da demanda. Porém, é possível administrar o problema. um vigilante, em tom grosseiro, definir quem fica e comunicação. “A marca SUS não é bem divulgada
Hoje temos um sistema de saúde que não gera informação quem deixa fila. Um vigilante pode definir quem vai pelos gestores. Está sempre tímida na porta dos
Como o problema tem sido tratado no Brasil? de modo adequado para gerenciar a questão. Um corpo de ou não ser atendido?”, questiona. Tânia corrobora, serviços, nos eventos e nas campanhas. Além disso,
Para resolver a fila, o remédio são dois clássicos. Primeiro gestores públicos deveria ser encarregado de encaminhar a explicando que “fila aceitável” é aquela na qual o é preciso que as assessorias de imprensa também
, colocar mais gente, geralmente mais médico, mas há carên- gestão das filas a médio e longo prazo, como tem sido feito usuário sabe que está andando e tem certeza de façam uma avaliação do seu trabalho. Poucas pro-

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cias de profissionais em todas as áreas. O grande problema é com os transplantes. Não é apenas com mais médicos que vai que será atendido, seja esta grande ou pequena. A movem uma boa divulgação das conquistas do SUS
a ausência de uma carreira de profissionais na área de saúde se resolver o problema de fila no Brasil, esse é um problema inaceitável? “A que não anda”, diz a jornalista. e ajudam a diminuir as arestas e os conflitos com
capazes de lidar de forma adequada com o problema das filas. multidisciplinar. (L.F.S.) Presidente do Instituto para o Desenvolvimento os usuários”, orientou Verônica. (A.D.L)
RADIS 159
DEZ 2015
DEBATES NA FIOCRUZ

FOTOS: PETER ILICCIEV


Entre a O pesquisador também considera que fal-
tou articulação com vários setores, como o em-
presariado, que poderiam ter dado sustentação
ao governo. Ele apontou que esse segmento

DEMOCRATIZAÇÃO
poderia ter apoiado as políticas promovidas
pela presidenta, sem no entanto ter exigido
contrapartida em investimentos. Segundo
Fabiano, essa falta de articulação explicaria o
clima de “mau humor” em relação ao gover-
no, a partir de 2013, que também teria sido

e a incerteza
motivado pelo “esvaziamento” do Conselho
de Desenvolvimento Econômico e Social
(Ceds), criado em 2003 pelo presidente Lula,
com a finalidade de “assessorar o Presidente
da República na formulação de políticas e
diretrizes específicas, e apreciar propostas
de políticas públicas, de reformas estruturais
Pesquisadores avaliam momento atual do e de desenvolvimento econômico e social
que lhe sejam submetidas pelo Presidente da
país e alertam para avanço conservador República, com vistas à articulação das relações
e ameaças aos direitos sociais de governo com representantes da sociedade”
— como está descrito na Lei nº 10.683.
“O Ceds foi um importante instrumento
de articulação entre Estado e sociedade no
Liseane Morosini governo Lula, sobretudo na crise de 2008 e

A
2009. Ele foi fundamental para que os atores
análise dos principais elementos da crise política e os desdobramentos da transição econômicos designados para seguir as políti-
entre o período de luta pela democratização e o momento atual, cujas características cas de iniciativa do Executivo participassem
ainda não estão claras, estiveram no centro do debate de estreia da série Futuros do da negociação dessas políticas. O conselho
Brasil, promovida pelo Centro de Estudos Estratégicos da Fiocruz (CEE-Fiocruz), no ajudou o presidente Lula a enfrentar muitos
início de outubro, no Rio de Janeiro. A partir do tema O Brasil de 2015: um momento entre desafios”, afirmou o pesquisador. Segundo
dois ciclos?, os professores e pesquisadores Fabiano Santos e José Maurício Domingues, do ele, o resultado desse isolamento, já pode ser
Instituto de Estudos  Sociais e Políticos (Iesp/Uerj) definiram o momento atual como bas- visto nas perdas enfrentadas pelo governo
tante confuso. De saída, o coordenador do CEE-Fiocruz, Antonio Ivo de Carvalho ressaltou Dilma no Congresso, a partir de 2013. Para
sua perplexidade diante do atual cenário brasileiro. “Estamos vivendo a escalada de uma Fabiano, esse contexto permitiu que o PMDB
agenda conservadora, como há muitos anos não se via no país, desenterrando propostas se fortalecesse, e Eduardo Cunha, seu líder à
que atingem tópicos caros a nós, como o direito à saúde”, declarou, fazendo referência ao época, passasse a ser o “vocal dos interesses
que denominou “bancada BBB” [numa referência aos políticos financiados pelos setores do empresariado”. Para o cientista político,
ruralista (boi), de armamentos (bala) e evangélico (Bíblia)] que, segundo ele reúne 75% a derrota na eleição das mesas diretoras do
dos parlamentares da Câmara. Congresso, em 2014, fez com que o governo
Fabiano dos Santos registrou sua preocupação diante das ameaças que sofrem passasse a governar sem o Legislativo. “Ao per-
os direitos sociais garantidos pela Constituição de 1988, e considerou que o primeiro der na eleição do congresso, a vitória de Dilma
governo da presidenta Dilma Rousseff representa “uma quebra no tempo”; pensar nesse nas urnas em 2014 foi uma quase derrota. Mas
momento é importante para entender a situação atual. Segundo ele, até 2013, os índices o governo não fez essa leitura e não observou
de popularidade e confiança no governo eram semelhantes aos registrados pelas gestões a nova correlação de forças, nem rearticulou
anteriores, de Lula. “Isso sinalizava que a sociedade se encontrava em relativa normali- o Conselho, tentando montar uma base de
dade”, avaliou. Depois desse período, houve queda na popularidade de Dilma, cenário sustentação societal, com trabalhadores,
pouco alterado no ano eleitoral. No final de 2014 e durante o ano de 2015, os protestos empresariado rural e urbano, setor financeiro
e as manifestações anti-Dilma por todo o país mostraram o descontentamento da socie- e setor público”, resumiu.
dade em relação ao governo, descreveu. Em sua análise, Dilma recebeu o governo numa Para Fabiano, o governo continuou a
situação incômoda, conseguiu “empurrar” seu primeiro mandato, mas não obteve sucesso se relacionar de forma burocrática com o
no segundo. “Ela promoveu a redução significativa da taxa de juros e levou à frente uma Congresso, enviando medidas provisórias e
política tarifária agressiva de contenção, com intervenção no câmbio e incentivos fiscais. E proposições, sem antes se articular com a
mudou significativamente os princípios que balizavam os governos anteriores”, observou sociedade e com as lideranças partidárias. O
Fabiano, avaliando que a proposta não foi bem-sucedida. “A taxa de crescimento do país pesquisador também observou que, pela pela
foi medíocre e com inflação crescente”, explicou. primeira vez desde Collor, o governo começou

Antônio Ivo (acima) alertou para a escalada


de uma agenda conservadora; José Maurício
(centro) apontou o início de um novo ciclo,
pós crise; Fabiano (ao lado) destacou falta de
articulação entre Governo e Congresso

[30] RADIS 158 • NOV / 2015


A SAÚDE na encruzilhada

Pedro (ao lado) vê disputa


entre agendas neoliberal e
social; Denise alerta para
privatização da Saúde, e
Noronha propõe cenários
para auxiliar a gestão do SUS

P ara discutir os possíveis cenários para a Saúde num horizonte


móvel em médio e longo prazos, colaboradores da rede Brasil
Saúde Amanhã, grupo multidisciplinar de pesquisa que investiga e
propõe caminhos para o país e o setor, reuniram-se no seminário

FOTOS: PETER ILICCIEV


“Brasil Saúde Amanhã: horizontes para os próximos 20 anos”,
que aconteceu em setembro no auditório do Museu da Vida, no
campus da Fiocruz, no Rio de Janeiro. Para o pesquisador José
Carvalho de Noronha, coordenador executivo da rede, prever o
futuro do sistema de saúde no país representa um “macrodesafio”
O debate da série Futuros
— com desdobramentos, barreiras e meios de superação — para
do Brasil foi promovido
pelo Centro de Estudos a perder sistematicamente votações nominais. “A sem que uma nova agenda tenha se colocado em o qual o grupo propôs três cenários possíveis: um, otimista e
Estratégicos da Fiocruz taxa de derrotas no Congresso aumentou, caracte- seu lugar”, avaliou. possível; outro, pessimista e plausível; e um terceiro, “inercial” e
rizando algum mau funcionamento”, disse. A partir Mesmo reconhecendo que o PT tem enormes provável. “Os cenários de referência para a continuidade do tra-
deste cenário, defendeu o pesquisador, ocorre uma virtudes, ele criticou a tendência ao “hegemonis- balho de prospecção estratégica”, definiu, explicando que estão
junção de crise econômica e política, que se retroa- mo”. “Ele só negocia se tiver a cabeça de chave”, organizados em torno de seis eixos temáticos: desenvolvimento
limentam e provocam sobretudo uma “sensação de afirmou. Segundo o pesquisador, o partido en- e saúde; perfil demográfico; organização e gestão do sistema de Pessimista, Denise Gentil, pesquisadora do Instituto de
desgoverno”. “É preciso arrumar a casa”, receitou. velheceu rapidamente e perdeu a capacidade saúde; financiamento; força de trabalho; e complexo econômico Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ),
Para ele, o país se encontra em uma encruzilhada de organizar a sociedade. Em sua visão, quando e industrial. Segundo ele, o trabalho do grupo visa não apenas considerou que é difícil reverter a tendência de privatização em
fascista, que pode inclusive fazer com que o próprio Lula chegou ao poder, a sociedade já estava criar imagens de futuro, mas auxiliar a gestão estratégica do SUS curto prazo. Para ela, a aposta na saúde privada se intensificou,
governo corte os gastos sociais. “Eu penso no assal- desmobilizada, mas de uma forma ou de outra e definir diretrizes e recomendações para que se conquiste um a partir de 2011. “É difícil se colocar em oposição a essa maré se
to à Carta de 1988, principalmente no que toca às ainda havia diálogo, situação que não repetiu cenário desejável para o país. não há apoio dentro do Estado”, declarou. Para ela, tal cenário
conquistas e avanços sociais”, lamentou. com Dilma Rousseff. José Maurício disse enxergar O professor Alcides Silva de Miranda, da Universidade só será revertido em longo prazo, caso a saúde pública seja
hoje o esgotamento do governo Dilma e o início Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), previu que, futuramente, privilegiada. “Se esse período de transição resultar na vitória das
de um novo ciclo histórico no Brasil. “Acho que a haverá uma tensão entre dois cenários para o SUS: um deles forças mais conservadoras, radicalmente à direita, a saúde pública
NEVOEIRO À VISTA
derrota política foi anterior, pois o governo não inercial, mais pessimista, e outro alternativo, mais alinhado com vai desaparecer ou ficar muito parcial”, avaliou, prevendo que,
Do ponto de vista estrutural, José Maurício conseguiu dialogar com os movimentos sociais em seu ideário. Ele afirmou que, a partir de análise histórica de nove nesse caso, devem ocorrer grandes reformas na Constituição de
Domingues considerou que “não está fácil navegar 2013”. Sem querer arriscar alguma possibilidade, anos feita pela rede, é possível observar que está em curso a 1988, que garantiu o direito à saúde.
nesse nevoeiro” — que, segundo ele, acontece um o cientista político declarou não ter certeza se a migração de serviços públicos para o privado. “Percebemos que Em contraposição, Pedro Rossi, pesquisador do Centro de
momento de crise, entre o fim de um processo e o direita chegará ao poder. Ele avalia que, de um ocorre a transferência de prerrogativas de gestão pública e de Estudos de Conjuntura e Política Econômica da Universidade de
início de outro. “A crise é complicada porque não lado, pode ocorrer “um novo ciclo liberal conser- autoridade sanitária do Estado brasileiro para agências, sendo Campinas (Unicamp), é otimista em relação às perspectivas futuras
sabemos por onde seguir”, disse, lembrando que, vador” e, de outro, surgir “uma organização de feitos agenciamentos junto a esferas privadas ou a empresas em longo prazo. “Infelizmente no curto prazo há o avanço da
no governo Collor, havia uma luz indicando um esquerda e centro-esquerda interessante”, com a estatais que estão sendo criadas”. Caso prevaleça essa tendência, pauta conservadora e neoliberal. Eu guardo um otimismo de que
caminho. “Apesar de tudo, um curso progressista reorganização de vários partidos e novas coalizões. assegurou, futuramente os serviços de saúde vão operar sob a a luta é capaz de transformar a sociedade”, declarou. Segundo
se mantinha. Naquela época, o PT se mostrava E alertou: “É muito difícil sustentar essa política, lógica de “governança procedimental”, e não de direção política, ele, a disputa atual se dá principalmente entre a agenda neoliberal
uma alternativa, que não é o caso agora”. Para essa ideia de que se vai fazer o superávit primário e “para a produção e consumo de serviços biomédicos” — o que e a social. “Não acho que o neoliberalismo varra para baixo do
José Maurício, há um ciclo que começa no final dos e esculachar os programas sociais. Nem tanto o será desfavorável para a consolidação do sistema. “Isso rompe tapete as conquistas sociais recentes. Vai haver muita resistência.
anos 1970 e vai até 2012. Ele lembrou que foram Bolsa Família, que é um programa relativamente com o princípio da integralidade, retira do Estado e dos gover- Mas eles estão na frente de batalha e conquistam alguns avanços.
momentos marcados por mobilizações e por um barato e não deve ser mexido, mas saúde, educa- nantes algumas prerrogativas de gestão de autoridade sanitária”, O que precisamos fazer é mobilizar socialmente”, recomendou.
processo significativo de luta pela democratização: ção, previdência, que estão em pauta entre os li- argumentou, destacando que o quadro é “complicado e difícil”. Pedro salientou que é preciso dizer qual proposta de sociedade
houve a luta por eleições diretas, a formação berais conservadores, golpistas ou não”. Todo esse Para romper esta tendência, o pesquisador clamou por uma embasa cada agenda. “O avanço liberal não é apenas de medidas
da Assembleia Constituinte, a promulgação da processo, segundo o pesquisador, “vai demandar “arquitetura integral” para o SUS. “Não o SUS de puxadinhos técnicas, é uma outra sociedade que está sendo proposta. Temos
Constituição de 1988 e a eleição de governos muita inteligência, muita abertura. No novo ciclo, e penduricalhos, numa arquitetura totalmente dispersa como que dizer que o modelo social é um modelo dinâmico do ponto de
progressistas. “As potencialidades daquela agenda não adianta se aferrar às certezas do ciclo que se acontece agora, mas um SUS que seja único e diverso, e que vista do crescimento econômico também. A saúde, por exemplo,
política e as forças políticas de apoio se esgotaram, concluiu recentemente”, orientou. opere sob a égide do direito público”, recomendou. mobiliza recursos em várias áreas”, declarou. (L.M.)

[32] RADIS 158 • NOV / 2015 RADIS 159 • DEZ / 2015 [33]
PÓS-TUDO
SERVIÇO

PUBLICAÇÕES

Mineração em debate Dias de fúria


O que o
O M
DIREITO À COMUNICAÇÃO
livro Diferentes formas de ais de 1 milhão de brasileiros já participou de um ato ou uma
dizer Não: experiências de tentativa de linchamento, aponta o sociólogo José de Souza
resistência, restrição e proibi- Martins, no livro Linchamentos: a justiça popular no Brasil
ção ao extrativismo mineral, (Contexto, 2015). O pesquisador, que se dedicou por mais de três
organizado por Julianna Malerba,
retrata impactos da extração de
recursos minerais em diferentes
décadas ao estudo do fenômeno no país, iniciou sua investiga-
ção ainda nos anos 1970, quando
acompanhou conflitos e tensões nos
tem a ver com você?
países, destaca o tratamento pri- movimentos sociais no interior do
vilegiado concedido às atividades país, especialmente na fronteira ama-
extrativas no Brasil e os crescen- zônica, identificando surtos de saques *Raquel Dantas sobre o direito à cidade, também vai ser difícil algum programa

A
tes impactos ambientais por ela e práticas de justiçamento popular. de TV querer saber o que um jovem da periferia pensa sobre a
induzidos, e demonstra que a Somou a estes casos a observação do comunicação é algo tão natural que dificilmente per- violência e a redução da maioridade penal. O silenciamento de
atividade em larga escala tem pro- noticiário jornalístico e três estudos de cebemos as várias limitações que se apresentam a nós, alguns grupos ou indivíduos é uma forma de criminalização. É
duzido desigualdade e violado direitos em todo o mundo. Além campo, realizados no interior de São cidadãs e cidadãos, no seu exercício. Afinal, estamos nos negar o direito à expressão e negar o direito à própria cidadania.
disso, o livro mapeia as estratégias das comunidades afetadas, Paulo, no oeste de Santa Catarina e comunicando a todo instante. Talvez por isso seja difícil, O acesso à informação é outro aspecto caro numa socieda-
organizações e movimentos sociais para resistir às violações, à no sertão da Bahia. Martins defende a princípio, identificar a comunicação no rol dos direitos básicos de que respeita os cidadãos e zela por sua participação política.
contaminação e à devastação ambiental provocada pela mine- que os números indicam que o lincha- e fundamentais. A noção de direito denota algo que precisou ser Infelizmente, grandes grupos — que possuem praticamente todos
ração e extração de petróleo. Disponível em http://fase.org.br/ mento se tornou num ato cotidiano caracterizado como tal para que pudesse ser garantido a todas os meios — falam a partir de um mesmo patamar social, econô-
pt/acervo/biblioteca/9420/ conjugado no plural: dias de fúria. e todos. Ou seja, um aspecto da vida social que claramente co- mico, e até com lentes políticas muito semelhantes. Como saber
loca em cheque a dignidade e a justiça entre os cidadãos se for algo que está fora dessas zonas de interesse? Ok! Mas a internet
Discriminação na saúde Direito dos oprimidos reservado a uns e a outros não. Apesar de ser um desses direitos, dá a possibilidade de acesso livre às informações. Mas quem disse
a maior parte de nós não compreende a comunicação como tal. que o acesso é fácil? Você sabia que metade dos brasileiros não

N o volume 24, de setem-


b r o d e 2015 , a r e v i s t a
Epidemiologia e Serviços de
E m visita ao Rio de Janeiro no mês de outubro, o sociólogo
português Boaventura de Souza Santos lançou o livro O
Direito dos Oprimidos (Cortez,
E, consequentemente, não identifica como ele pode ser violado.
Você pode pensar que liberdade de expressão e acesso à
informação caracterizam o direito à comunicação; e ficar tranquilo
tem acesso à internet? E até quem paga um plano de internet caro
sabe que o seu acesso é bem aquém do que deveria ser. Fora isso,
nosso uso da rede está dominado por grandes empresas como
Saúde aborda a discriminação 2014)., primeira versão em português considerando que esses dois aspectos são facilmente resolvidos o Google e o Facebook que monitoram por onde navegamos,
nos serviços de saúde, cuja função da sua tese de doutorado defendida se você consegue falar o que pensa e tem meios de comunicação armazenam nossos dados, e ainda limitam o que temos acesso
seria zelar pelos direitos humanos na Universidade de Yale, Estados aos quais pode recorrer. Tudo bem se não houver barreiras para pelo nosso poder de compra e pelo ranking de coisas que foram
e garantia a equidade, advertem Unidos. O estudo é resultado do pe- isso. Mas você fatalmente tem. Liberdade de expressão é um pagas para estarem em destaque. O mundo é muito mais plural
pesquisadores. Também nesta ríodo em que Boaventura viveu na co- termo lindo e essencial do que a nossa timeline.
edição, a publicação traz uma munidade do Jacarezinho, no Rio de para qualquer sociedade A não ser que você
análise exploratória de experiên- Janeiro. “Estudei, fundamentalmente, que se preze democráti- seja amiga ou mesmo
cias de discriminação relacionadas a forma como a comunidade resolvia ca. No entanto, ela está dona de um grande ve-
aos serviços de saúde em duas os litígios, os problemas e os conflitos bem além da capacidade ículo de comunicação, o
capitais do Sul do Brasil, além de normalmente mediante a associação natural do alcance das seu direito à comunica-
revisão narrativa sobre gênero, estigma e saúde, com reflexões de moradores. Falo de um direito nossas vozes. Por quê? ção também está sendo
a partir da prostituição, do aborto e do HIV/aids entre mulheres. paralelo, informal, não reconhecido Porque nossas diferentes violado. Não é verdade
Disponível em http://goo.gl/x15LL2 pelo Estado", explicou o autor. visões de mundo, nossas que temos igualmente

ILUSTRAÇÃO CONTEXTOLIVRE.COM.BR
múltiplas características acesso a variados meios,
EVENTOS culturais, nossos diversos e que estes nos oferecem
grupos sociais, todos de- informação de qualidade;
13º Congresso da Associação Latinoamericana 4ª Conferência Nacional de Políticas vem estar representados ou que há pluralidade
de Investigadores da Comunicação (Alaic) para as Mulheres nos meios de comunica- de vozes e informação
ção de massa. variada sobre o que é

O evento terá como tema “Mais di-


reitos, participação e poder para as
mulheres”, que será discutido a partir
Devemos ter me-
canismos para expressar
nossas opiniões no mes-
de interesse público;
que estejamos usando
o potencial da internet
de eixos temáticos: o primeiro trata da mo patamar de alcance em prol da evolução da
contribuição dos conselhos dos direitos desses grandes meios. Só que você talvez não consiga espaço sociedade e do bem comum; que as comunidades rurais e as
da mulher e dos movimentos feministas nos já existentes. Podemos ter conhecimentos técnicos para periferias estejam se apropriando do direito à comunicação; que
e de mulheres para a efetivação da montar uma TV ou uma rádio, por exemplo, mas talvez nos falte a mulher negra consiga se defender do racismo e machismo das

S ob o tema “Sociedade do conhecimento e comunicação:


reflexões críticas da América Latina”, o encontro discutirá,
entre ouras questões, o papel da educação nas reflexões sobre
igualdade de direitos e oportunidades
para as mulheres em sua diversidade
e especificidades; o segundo aborda
grana. E o principal: se não formos política ou economicamente
influentes, o Estado não nos dará autorização para que tenhamos
nosso próprio veículo. Ou vamos enfrentar muita burocracia e
propagandas de cerveja. Em tudo isso a informação tem um po-
tencial de grande impacto: transformar consciências. Conhecer é
deixar de ser alheio a algo. Quando se trata de alguma coisa que
a sociedade do conhecimento, a relação entre esta sociedade e as estruturas institucionais e políticas tempo para conseguir uma autorização para montar uma rádio lhe diz respeito, é ter nas mãos a possibilidade de agir, reivindi-
o desenvolvimento, acesso ao conhecimento e valorização das públicas desenvolvidas para as mulheres no âmbito municipal, comunitária. Se tentarmos sem permissão, vai ter polícia levando car. E reivindicar é nada mais do que exercitar a cidadania. Essa
práticas sociais e culturais, além do papel das políticas públicas de estadual e federal, o terceiro analisa o sistema político com par- equipamento, multa e até prisão. A tentativa de exercer o direito ilusão do conhecimento que nos deixa alheio ao nosso direito à
saúde, ciência e tecnologia e dos estados nacionais diante de um ticipação das mulheres e igualdade, e o quarto trata do Sistema de falar, nesses casos, é tratada como crime. Mas quando um comunicação sempre servirá a alguém.
modelo com fortes intervenções dos setores industriais e privados. Nacional de Políticas para as Mulheres. veículo de grandes proporções (como a maioria) comete um erro,
como criminalizar publicamente alguém sem que tenha cometido Comunicadora Popular do FCVSA/ASA pela Cáritas Regional Ceará
Data 5 a 7 de outubro de 2016 Data 15 a 18 de março de 2016 de fato um crime, essa pessoa não tem mecanismos para fazer e integrante do Intervozes - Coletivo Brasil de Comunicação Social.
Local Cidade do México, México Local Brasília, DF com que o veículo seja responsabilizado. Assim como um mo- Texto na íntegra publicado no site da Articulação do Semiárido (Asa).
Info http://goo.gl/uC3sck Info http://www.spm.gov.br/4cnpm/ rador de rua, muito provavelmente, não será ouvido pelo jornal Disponível em http://goo.gl/7d0GDm 

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