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UNIVERSIDADE ANHEMBI MORUMBI

KAMILA FERRARESI ZANOTELLI

Utilização do Exame Eletrocardiográfico em Equinos de


diferentes raças e modalidades.

São Paulo
2018
KAMILA FERRARESI ZANOTELLI

Utilização do Exame Eletrocardiográfico em Equinos de


diferentes raças e modalidades.

Trabalho apresentado como exigência parcial


para a obtenção de título de Graduação da
Escola de Medicina Veterinária da Universidade
Anhembi Morumbi, sob a orientação do Prof.º Dr.
Neimar Roncati).

São Paulo
2018
KAMILA FERRARESI ZANOTELLI

Utilização do Exame Eletrocardiográfico em Equinos de


diferentes raças e modalidades.

Trabalho apresentado como exigência parcial


para a obtenção de título de Graduação da
Escola de Medicina Veterinária da Universidade
Anhembi Morumbi.

Aprovado em:

Prof. Dr. Neimar Roncatti


Universidade Anhembi Morumbi
Dedico esta, bеm como todas аs minhas
demais conquistas, a minha querida Avó
Maria Eugênia Rodrigues Ferraresi e
amados pais Eliana Ferraresi e Renato
Zanotelli, a quem rogo todas as noites a
minha existência.
AGRADECIMENTOS

Inicialmente gostaria de agradecer ao meus pais Eliana Ferraresi e Renato


Zanotelli pelo incentivo ao meu sonho de ser Médica Veterinária, que sempre me
apoiaram em todas as decisões e buscas par crescimento profissional. Aos meus
irmãos, Marianna Zanotelli e Renato Zanotelli Filho que comemoraram comigo até
mesmo meu primeiro livro de veterinária.
À minha avó, Maria Eugenia por sempre acreditar que eu conseguiria percorrer
por todo esse caminho e sonhar comigo.
Neimar Roncatti, por aceitar ser meu orientador e por ser um exemplo de
profissional. Agradeço especialmente pelas críticas e por me desafiar à realização de
um bom trabalho, e quero que acredite que isso é somente o início.
Fernando Dal Sasso, por me incentivar quando ninguém acreditava que eu
poderia conseguir, por todas oportunidades e horas de paciência me ouvindo. Angélica
Trazzi e Roberto Foz pelo incentivo contínuo durante todo o curso e apoio em todas
questões que levantei neste período.
Natalia Modica por me ajudar durante este trabalho, não tenho palavras para
agradecer sua dedicação em me ajudar nisso e pelo apoio em todas dúvidas que tive.
Cassiano Rios, Leonardo Pereira, Danilo Duarte e Fernanda Jordão pelo auxílio
direcionando meus estudos, dando ideias e me ajudando durante a construção desse
material.
Andrea Mizukami e Marcos Oliveira pela compreensão e apoio oferecido durante
esses meses, me incentivando e possibilitando tempo para realizar o trabalho mesmo
quando estávamos completamente atarefados.
“Todas as pessoas que chegaram onde estão tiveram
que começar por onde estavam. ”

( Robert Louis Stevenson)


RESUMO

A cardiologia na Medicina Veterinária tem se tornada cada vez mais relevante,


especialmente na Medicina Esportiva para equinos, devido saúde e condicionamento
físico desses animais. Sabemos da importância do conhecimento de eventuais
afecções, já que poderá influenciar no prognóstico e tipo de atividade destinado à cada
cavalo. Como objetivo do presente estudo, foi realizada uma revisão de literatura a
respeito do ciclo cardíaco e o eletrocardiograma, sendo o principal método diagnóstico
para identificação de arritmias. Junto à um levantamento de dados de publicações
realizados em um período de 2008 à 2018 que possibilitasse a análise e avaliação de
padrões cardiológicos em diferentes raças de equinos e diferentes modalidades de
atividades, oferecendo conceitos sobre as principais alterações rítmicas em equinos.
Constatamos as principais arritmias presente em equinos utilizados em 11 artigos
avaliados, sendo elas o bloqueio atrioventricular de 2º grau, marcapasso migratório e o
complexo ventricular prematuro, assim como os principais ritmos fisiológicos,
entendendo a relação dos mesmos com o tipo de perfil dos animais avaliados.

PALAVRAS CHAVE: cardiologia; equinos; eletrocardiograma; arritmias


ABSTRACT

Cardiology in Veterinary Medicine has become increasingly relevant, especially in the


Sports Medicine for horses, due to the health and physical conditioning of these animals.
We know the importance of knowing about any affections, since it may influence the
prognosis and type of activity assigned to each horse. The objective of the present study
was to review the literature on the cardiac cycle and the electrocardiogram, being the
main diagnostic method for the identification of arrhythmias. Along with a survey of data
from publications from 2008 to 2018 that allowed the analysis and evaluation of
cardiological patterns in different breeds of horses and different modalities of activities,
offering concepts about the main rhythmic changes in horses. We found the main
arrhythmias present in equines used in 11 evaluated articles, being atrioventricular block
of 2nd degree, migratory pacemaker and the ventricular premature complex, as well as
the main physiological rhythms, understanding the relation of the same with the type of
profile of the evaluated animals
.

KEYWORDS: cardiology; equines; electrocardiogram; arrhythmias


LISTA DE FIGURAS

Figura 1 - Condução elétrica e formação do traçado de ECG ..................................... 19


LISTA DE TABELAS

Tabela 1 - Quantidade de artigos publicados por revista entre os anos de 2008 e 2018.
SP. 2018 ...................................................................................................................... 25

Tabela 2 - Repetições de raças por artigo. SP. 2018................................................... 26

Tabela 3 – Média e desvio padrão das frequência cardíacas entre as raças avaliadas,
em batimentos por minuto. SP. 2018 ........................................................................... 26

Tabela 4 - – Média e desvio padrão da frequência cardíaca de equinos da raça


Mangalarga Marchador, nos grupo 1 a 3 anos, 4 a 10 anos e acima de 10 anos (DINIZ
et al., 2008). SP. 2018 ................................................................................................. 28

Tabela 5 - Frequência cardíaca de potros da raça Quarto de Milha conforme idade e


estudo realizado por Lázaro et al. (2015). SP. 2018 .................................................... 29

Tabela 6 - Frequência cardíaca de equinos da raça Crioula, conforme idade e estudo de


Pascon, et al. (2015). SP. 2018 ................................................................................... 29

Tabela 7 – Frequência cardíaca da raça Mangalarga Marchador e Quarto de Milha. SP.


2018 ............................................................................................................................. 30

Tabela 8 - Média e desvio padrão da frequência cardíaca de equinos das raças Puro
Sangue Lusitano e Puro Sangue Árabe após serem submetidos à exercício. SP. 2018
....................................................................................................................................30

Tabela 9 - Equinos mestiços submetidos à exercício de Polo conforme estudo de Bello


et al., (2012). SP. 2018 ................................................................................................ 31

Tabela 10 - Equinos da raça Puro Sangue Árabe submetidos à exercício de Enduro


Prolongado conforme Dumont et al., (2010). SP. 2018................................................ 31

Tabela 11 - Equinos da raça Puro Sangue Árabe submetidos à exercício de Enduro


Prolongado que foram desclassificados, conforme Dumont et al., (2011). SP. 2018 ...32

Tabela 12 - Média e desvio padrão da frequência cardíaca de diferentes raças de


equinos praticantes de diferentes atividades antes do exercício. SP. 2018 ................. 32

Tabela 13 - Média e desvio padrão da frequência cardíaca de equinos da raça Puro


Sangue Árabe submetidos à exercício de Enduro em diferentes graus de altitude (baixa,
média e alta) conforme Griska et al., (2015). SP. 2018................................................ 33

Tabela 14 - Comparativo de ritmo cardíaco encontrado por artigo. SP. 2018 .............. 34
LISTA DE TABELAS

Tabela 15 - Ritmo cardíaco antes e após atividade física. SP. 2018 ........................... 35

Tabela 16 - Presença de alterações de ritmo cardíaco entre os artigos avaliados. SP.


2018. ............................................................................................................................ 36
SUMÁRIO

1. INTRODUÇÃO ...................................................................................................... 11
2. OBJETIVO ............................................................................................................ 12
2.1 Objetivo Geral ................................................................................................. 12
2.2 Objetivos Específicos...................................................................................... 12
3. REVISÃO DE LITERATURA ................................................................................. 13
3.1 Sistema de Condução Cardíaca ..................................................................... 13
3.2 Métodos Diagnósticos..................................................................................... 15
3.2.1 Auscultação.............................................................................................. 15
3.2.2 Ecocardiorgrama ...................................................................................... 15
3.2.3 Eletrocardiograma .................................................................................... 15
3.2.4 Holter........................................................................................................ 16
3.2.5 Fonocardiografia ...................................................................................... 16
3.2.6 Radiografia ............................................................................................... 16
3.3 Eletrocardiograma e atividade elétrica cardíaca ............................................. 17
3.3.1 Onda P ..................................................................................................... 17
3.3.2 Complexo QRS ........................................................................................ 18
3.3.3 Onda T ..................................................................................................... 18
3.4 Ritmos Cardíacos ........................................................................................... 19
3.4.1 Arritmias Atriais ........................................................................................ 19
3.4.4 Distúrbios de Condução ........................................................................... 21
4. MATERIAL E MÉTODOS ...................................................................................... 23
4.1 Tipo de Pesquisa ............................................................................................ 23
4.2 Coleta de dados .............................................................................................. 24
5. ANÁLISE DOS DADOS ......................................................................................... 25
5.1 Frequência Cardíaca ...................................................................................... 26
5.1.1 Raça ......................................................................................................... 26
5.1.2 Idade ........................................................................................................ 28
5.1.3 Atividade Física ........................................................................................ 29
5.1.4 Condições Ambientais.............................................................................. 33
5.2 Ritmos Cardíacos ........................................................................................... 34
6. CONCLUSÃO........................................................................................................ 38
7. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ...................................................................... 39
11

1. INTRODUÇÃO

O exame cardiológico em equinos vem sendo desenvolvido ano a ano, seu


objetivo é avaliar o funcionamento cardíaco. Sendo que a avaliação cardiovascular
consiste em inspeção das mucosas, pulso, palpação na região precordial, ausculta
cardíaca e exames complementares como o eletrocardiograma e ecocardiograma
(BOMFIM, et al., 2017). O eletrocardiograma (ECG) é um exame que avalia frequência,
condução e ritmo por meio de equipamento que registra fenômenos elétricos.
(YONEZAWA et al., 2014; GRISKA et al., 2015).
As arritmias podem ou não ser fisiológicas, exercendo grande influência o cavalo
atleta de diversos tipos de desempenhos, podendo ocasionar em intolerância ao
exercício (YONEZAWA et al., 2014; REEF et al., 2014). Considerando que é comum que
as arritmias desapareçam durante o exercício, é importante que a avaliação seja feita
antes, durante e após, permitindo avaliar o comprometimento do desempenho atlético
do animal (GRISKA et al., 2015).
As anormalidades cardiovasculares, sejam elas morfológicas ou do ritmo
cardíaco, devem ser minuciosamente acompanhadas e avaliadas, afim de avaliar efeitos
à curto e longo prazo da vida do equino (REEF et al., 2014).
Vale ressaltar que o ECG é um método diagnóstico que deve estar associado ao
exame clínico completo e que arritmias e distúrbios cardiovasculares podem variar de
acordo com a raça e as funções associadas ao animal (DINIZ et al., 2008).
O objetivo desta revisão é compreender de forma mais abrangente a
eletrofisiologia do sistema cardíaco, possibilitando a criação de um mapa conceitual
sobre tolerância cardíaca ao exercício para fins de pesquisas em cavalos atletas.
12

2. OBJETIVO

2.1 Objetivo Geral

Construir um panorama conceitual sobre parâmetros cardiológicos em diferentes raças


de equinos.

2.2 Objetivos Específicos


 Analisar os padrões cardiológicos atuais em diferentes raças de equinos.
 Oferecer pressupostos teóricos conceituais para identificar principais alterações
cardiológicas nos equinos.
13
3. REVISÃO DE LITERATURA

3.1 Sistema de Condução Cardíaca

O coração é uma bomba muscular que contrai e relaxa de forma alternada,


visando distribuir sangue por todo organismo, realizando assim o transporte de
substâncias como oxigênio e nutrientes, além de metabólitos não aproveitáveis, que
devem ser devidamente excretados. Cada tecido do corpo tem uma exigência de
oxigenação e nutrição, devendo essa demanda ser atendida pela circulação
(CUNNINGHAN, 2014).
O Sistema Cardiovascular é de grande importância para a Medicina Equina, por
estar totalmente relacionado ao desempenho atlético desses animais. Distúrbios
cardiovasculares podem levar à queda de desempenho devido a intolerância ao
exercício, se revelando através de arritmias, insuficiência cardíaca, fraqueza, morte
súbita, entre outros (REED; BAYLY, 2000).
Existem três tipos celulares especializados compondo o tecido cardíaco,
responsáveis pela condução e impulso elétrico, sendo elas células nodas, células de
Purkinje e células de transição. As células nodas compõe o nodo sinoatrial e o nodo
atrioventricular, possuindo capacidade de automaticidade, ou seja, despolarização e
repolarização. As células de Purkinje estão presentes no feixe de His e na rede de
Purkinje e são especializadas na condução rápida. Já as células de transição são o elo
entre as células contráteis e as células de Purkinje (YONEZAWA et al., 2013).
A ativação elétrica se inicia no nodo sinoatrial, situado na parede atrial direita na
junção da veia cava superior com o átrio direito, com uma despolarização inicial da célula
cardíaca, que vai do estado de repouso para o de excitação, gerando o potencial de
ação. O impulso percorre para o miocárdio atrial direito e para o átrio esquerdo, através
do feixe de Bachmann. Em seguida, através de uma única conexão, o impulso elétrico
se propaga entre os átrios e ventrículos pelo nodo atrioventricular, situado abaixo do
endocárdio atrial direito. A partir disso o impulso atinge um sistema de condução
especializado, composto pelo feixe de His e ramos esquerdo e direito. A contração irá
ocorrer a partir do sistema His-Purkinje, que distribui o potencial de ação por todo
miocárdio ventricular (YONEZAWA et al., 2013).
Ou seja, no estado de repouso a célula miocárdica atinge um potencial limiar,
abrindo os canais de sódio voltagem-dependentes, aumentando seu influxo por meio de
uma corrente de entrada rápida, resultando na despolarização. Nesse momento, os
canais de sódio se tornam inativos e os canais de potássio se abrem, levando à uma
corrente de potássio para o meio externo que causa pequena repolarização. Na próxima
fase os canais de potássio voltam a se fechar, abrindo os canais de cálcio,
14
controlando o efluxo de potássio e criando uma fase de platô do potencial de ação. Após
um período os canais de cálcio se fecham, tornando a abrir o canal de potássio, levando
à repolarização rápida, retornando a célula ao seu estado de repouso e estabilidade
(YONEZAWA et al., 2013).
As doenças do nodo sinoatrial são incomuns, diferente das arritmias. As
alterações de automaticidade podem ter relação com doenças do miocárdio,
concentrações de eletrólitos e fármacos que afetem essa concentração (YONEZAWA et
al., 2013).
15

3.2 Métodos Diagnósticos

A cardiologia veterinária avançou consideravelmente nas últimas décadas, devido


à importância na Medicina Esportiva para cavalos. Antigamente era comum a utilização
da radiografia que, devido ao porte do equino, não era eficiente na conclusão do
diagnóstico. Atualmente exames como eletrocardiografia, holter, doppler e teste de
esforço funcional, além dos achados laboratoriais, são mais utilizados. Além disso há
importância de se realizar um exame clínico eficaz, juntamente com a avaliação de
dados proveniente de estudos diagnósticos (REED; BAYLY, 2000).

3.2.1 Auscultação

Trata-se de um método clínico que consiste na audição de sons cardíacos


através de um estetoscópio: representado por uma campânula, diafragma, tubo e
adaptadores de ouvido. É avaliado as bulhas cardíacas, frequência, ritmo e possível
presença de sopros, identificando a presença de sons dentro ou fora do padrão de
normalidade (REED; BAYLY, 2000; TILLEY; GOODWIN, 2002).

3.2.2 Ecocardiorgrama

É um método não invasivo de alta sensibilidade e especificidade, no entanto, o


custo e a necessidade de profissional especializado inviabilizam sua utilização em
grande escala (POVOA; SOUZA, 2008). Consiste na utilização de um ultrassom, que
permite a avaliação da forma e da função cardíaca. Pode ser utilizado nas opções:
ecocardiografia M-modal (representação unidimensional), ecocardiografia bidimensional
e ecocardiografia doppler (útil para avaliação do fluxo sanguíneo) (SPEIRS, 1999;
TILLEY; GOODWIN, 2002). Sendo que é importante levar em consideração que os
achados no exame de ecocardiograma devem ser associados aos achados clínicos do
exame físico e outros exames complementares (TILLEY; GOODWIN, 2002).

3.2.3 Eletrocardiograma

Exame realizado com o auxílio de um equipamento chamado eletrocardiógrafo,


que registra a atividade elétrica por meio de colocação de eletrodos em diferentes pontos
na superfície corpórea do animal (YONEZAWA et al., 2014; TILLEY; GOODWIN, 2002).
Os eletrodos se dividem em positivos e negativos, sendo que o exame é obtido através
de impulsos elétricos. Caso o impulso seja direcionado para o
16
eletrodo positivo, irá registrar ondas positivas no traçado do eletrocardiograma. Caso
siga na direção oposta, teremos a presença de ondas negativas, e no caso de
permanecer direção perpendicular ao eletrodo, manterá a onda neutra (TILLEY;
GOODWIN, 2002). Este exame não avalia aspectos morfológicos como tamanho e
forma cardíaca em equinos, devido as características da espécie (SPEIRS, 1999).

3.2.4 Holter

Exame realizado com auxílio do eletrocardiógrafo, com a mesma finalidade de


registro da atividade elétrica, no entanto está vinculado à gravadores de maior
capacidade, que possibilita um exame de longa duração de forma intermitente (GRUPI
et al., 1999).

3.2.5 Fonocardiografia

Consiste no registro dos sons cardíacos através da colocação de microfone e


dispositivo gravador no tórax. É utilizado principalmente para ajudar na identificação de
sopros, pois consegue captar sons de baixa frequência. É interessante que se utilize em
conjunto com o eletrocardiograma, pois isso possibilita compreender a relação entre
som e ritmo elétrico (SPEIRS, 1999).

3.2.6 Radiografia

Método de exame de imagem de comum utilização para visualização da silhueta


cardíaca em humanos e pequenos animais. No entanto, não tem papel determinante na
medicina equina, devido ao tamanho da caixa torácica da espécie, que impossibilita sua
utilização (SPEIRS, 1999). Em animais menores, como potros e em casos de aumento
expressivo do tamanho cardíaco é possível a utilização de radiografia simples lateral,
no entanto devido a limitação é um método pouco utilizado (REED; BAYLY, 2000).
17

3.3 Eletrocardiograma e atividade elétrica cardíaca

O ECG é um método diagnóstico para detecção de alterações elétricas cardíacas,


usado especialmente para avaliação de frequência e ritmo, já que é um exame que não
avalia função e morfologia do miocárdio (REED; BAYLY, 2000).
O coração produz voltagens que são identificadas por eletrodos úmidos
colocados na superfície da pele, estes são registrados possibilitando estudo posterior,
registrando ondas P, Q, R, S e T. Para isso é importante conhecer os valores de
referência do exame eletrocardiográfico de cada espécie, além de conhecer o ciclo
cardíaco para maior compreensão (REED; BAYLY, 2000).
Deve ser feita a avaliação do traçado integralmente, avaliando da esquerda para
a direita e levando em consideração possíveis artefatos. Tal avaliação permite que se
obtenha conclusões a respeito da atividade elétrica cardíaca, avaliando se a sequência
normal das ondas é mantida em todos os ciclos. Caso não seja, é importante que se
avalie qual é a disritmia em questão e quantas vezes ela foi detectada durante o exame,
inclusive algumas arritmias podem aparecer somente após a avaliação de diversos
complexos (SPEIRS, 1999; TILLEY; GOODWIN, 2002).
As arritmias podem ser classificadas de acordo com o local de origem, sendo
sinusais, as que tem origem do nó sinusal; atriais, as que se originam no átrio; juncionais,
com origem no nó sinoatrial ou no feixe de His e ventriculares, que se originam em
qualquer local do ventrículo) (REED; BAYLY, 2000).
A frequência cardíaca pode ser obtida contando o número de grandes quadrados
entre as duas ondas S ou entre as duas ondas R, e dividindo esse número por 300, no
caso de velocidade 25m/s ou por 600 para velocidade de 50m/s (SPEIRS, 1999). O
padrão de normalidade da espécie é de 28 à 44 batimentos por minuto conforme dito
por Reed e Bayly (2000).

3.3.1 Onda P

A condução se inicia na despolarização atrial, que fica registrada no traçado do


ECG como onda P, até o fim da sua despolarização, retomando ao ponto zero no
traçado. Após essa despolarização, o potencial de ação se propaga através do nó
sinoatrial e do feixe atrioventricular, no entanto não gera diferença de voltagem que
possa ser detectada na superfície corpórea (CUNNINGHAM, 2014).
No equino é comum haver alteração da morfologia da onda P, dividindo-se em PI
e PII, recebendo o nome de bífida. A onda PI acontece devido a atividade do átrio direito
em direção crânio-caudal, e PII pela ativação septoatrial e condução em direção
18
do átrio direito para o esquerdo (REED; BAYLY, 2000).
As variações mais frequentes na onda P bífida são: forma A, onde PI e PII são
positivos (+/+), considerada estável nos equinos; forma B, onde PI inicial é negativa e
PII, positiva (-/+), normalmente transitória e forma C,monofásica em arco único positivo
(+), comum em equinos adultos com taquicardia após esforço (YONEZAWA et al, 2014).

3.3.2 Complexo QRS

A próxima voltagem a ser detectada é a que ocorre devido à despolarização


ventricular precoce, que normalmente se alastra da esquerda para direita, através do
septointraventricular, causando a diferença de voltagem que chamamos de onda Q
(CUNNINGHAM, 2014).
Na sequência, a despolarização ventricular causa uma alta voltagem, que é
registrada como onda R. Durante tal despolarização os ramos de feixes esquerdo e
direito conduzem o potencial de ação até o ápice ventricular, onde as fibras de Purkinje
propagam o potencial até as paredes superiores dos ventrículos (CUNNINGHAM, 2014).
A voltagem retorna a zero até se tornar ligeiramente negativa por um período
curto de tempo, onde temos a onda S. Após ficar negativa, os ventrículos ficam
uniformes por um tempo e ocorre um platô do potencial de ação (CUNNINGHAM, 2014).
No entanto, para equinos o início e o final do completo QRS pode não
corresponder ao início e ao final da despolarização ventricular. Isso porque a rede de
Purkinje se distribui de maneira diferente nessa espécie, desta forma ocorre perda de
potencial elétrico já durante a despolarização ventricular (YONEZAWA et al., 2014).

3.3.3 Onda T

A onda T se inicia na repolarização do ventrículo no final do complexo QRS


(REED; BAYLY, 2014). Acredita-se que a onda T é um parâmetro que pode sofrer
adaptação, principalmente no caso de cavalos atletas, devido ao treinamento.
(YONEZAWA et al., 2014).
19

Figura 1 - Condução elétrica e formação do traçado de ECG.

Fonte: Cunningham, 2014.

3.4 Ritmos Cardíacos

O ritmo cardíaco considerado fisiológico é o ritmo conhecido como sinusal e são


explicados pelo impacto da condução do sistema nervoso autonômo no nodo sinoatrial.
É comum o aparecimento de bradicardia sinusal em equinos que estejam em repouso,
assim como a arritmia sinusal, ambos mediados pela ação do nervo vago. A taquicardia
sinusal é conduzida pela via simpática e ocorre em caso de medo ou exercício,
ultrapassando 200bpm/min. Na taquicardia temos um a diminuição do espaço PR,
enquanto na bradicardia temos o aumento deste espaço (REED; BAYLY, 2000; TILLEY;
GOODWIN, 2002).

3.4.1 Arritmias Atriais

São considerados distúrbios “funcionais”, e tratam-se de ritmos que se iniciam no


átrio cardíaco. Podem estar relacionados com hipocalemia, infecções, anemia, cólica,
entre outros, podendo ainda também pode ter relação com lesões estruturais. São as
arritmias mais comumente detectadas (REED; BAYLY, 2000).

3.4.1.1 Complexo Atrial Prematuro

O complexo QRS se dá de forma prematura e menor, antecedido pela onda P,


portanto observamos impulso sinusal precoce quando comparado ao normal. É um
achado comum em animais submetidos a treinamento e pode estar relacionado com
20
intolerância ao exercício, no entanto não costuma ter grande significado clínico e por
isso não costuma ser tratado a não ser que se torne recorrente (REED; BAYLY, 2000;
YONEZAWA et al., 2014).

3.4.1.2 Taquicardia Atrial

Ocorre quando a frequência atrial se encontra rápida e regular, podendo


apresentar-se irregular também, já que a onda P ectópica pode ser bloqueada
fisiologicamente no nodo atrioventricular. Normalmente temos taxas atriais entre 120 a
300bpm (REED; BAYLY, 2000; TILLEY; GOODWIN, 2002).

3.4.1.3 Flutter Atrial

Muito parecido com a taquicardia atrial, no entanto normalmente ultrapassa


300bpm, sendo menos comum também. É caracterizado pós atividade atrial de forma
acelerada e regular, com intervalo RR irregular em face da condução atrioventricular,
além de menor complexos QRS e T em relação as ondas Flutter (REED; BAYLY, 2000).

3.4.1.4 Fibrilação Atrial

A fibrilação atrial é uma arritmia comum habitualmente relacionada com


intolerância ao exercício. No traçado avaliamos presença de onda F e ausência da onda
P, o intervalo RR está irregular. Tem relação direta com desidratação, seja por suor ou
por utilização de furosemida (comum em cavalos atletas) e também por aumento de
massa atrial. Na ausculta encontramos o ritmo de forma irregular com ausência da
quarta bulha (REED;BAYLY, 2000; YONEZAWA et al., 2014).

3.4.2 Arritmias Juncionais

São arritmias que se originam no nodo atrioventricular ou no feixe de His. São


comumente confundidas com arritmias ventriculares, no entanto podem ser identificadas
pelo local de origem. No traçado é mais comum que o complexo QRS seja mais curto e
regular, no entanto também pode se apresentar com aspecto aberrante (REED; BAYLY,
2000).

3.4.2.1 Taquicardia juncional


21
Apresenta o complexo QRS amplo e de forma bizarra, podendo causar
dissociação atrioventricular em caso de permanência do ritmo atrial independente
sobreposto ao ritmo ventricular ectópico (REED; BAYLY, 2000).

3.4.3 Arritmias Ventriculares

Podem estar associadas à doença cardíaca ou à distúrbio sistêmico, como


toxemia ou sepse, sendo comum ter relação com distúrbios gastrointestinais. Para o
diagnóstico devemos primeiro excluir as causas não cardíacas (REED; BAYLY, 2000;
TILLEY; GOODWIN, 2002).

3.4.3.1 Complexo Ventricular Prematuro

Ocorre quando temos despolarização precoce de algum local ectópico do


ventrículo, ou seja, ocorre uma contração prematura acompanhada de pausa
compensatória. O complexo QRS se apresenta anormal, com ausência da onda P e
onda T oposta ao complexo. É comum ser identificado durante ou após a atividade física.
Afeta diretamente o desempenho, levando também há uma taquicardia, principalmente
em cavalos de corrida (REED; BAYLY, 2000; YONEZAWA et al., 2014).

3.4.3.2 Taquicardia Ventricular

Ocorre aumento da frequência cardíaca para valores acima de 100bpm, de forma


regular ou irregular. Pode se apresentar de forma unifocal ou multifocal, sendo que a
multifocal normalmente é irregular. Normalmente é feito acompanhamento quando
identificada este tipo de arritmia, podendo ou não ser letal (REED; BAYLY, 2000)

3.4.4 Distúrbios de Condução

São distúrbios nos tecidos condutores especializados, responsáveis pela


condução do ritmo elétrico, como por exemplo o bloqueio ou condução acelerada
(REED; BAYLY, 2000).

3.4.4.1 Bloqueio de Condução atrioventricular

Podemos subdividir em Bloqueio Atrioventricular (BAV) de primeiro, segundo ou


terceiro grau. O BAV de Terceiro Grau é sua versão mais agressiva e preocupante, onde
não há condução elétrica do átrio para o ventrículo, portanto a onda P nunca
22
apresenta o complexo QRS na sequência. Na BAV de segundo grau isso acontece
eventualmente, podendo ser ou não um quadro grave. E na BAV de primeiro grau ocorre
aumento no intervalo PR ou PQ, sendo considerada uma variação normal (REED;
BAYLY, 2000; TILLEY; GOODWIN, 2002).
23

4. MATERIAL E MÉTODOS

4.1 Tipo de Pesquisa


O presente estudo surge através da pesquisa exploratória retrospectiva da
vertente quantitativa do tipo revisão bibliográfica.
De acordo com Koche (2009) a pesquisa bibliográfica incide em expor uma
problemática, utilizando como base conhecimentos através de teorias publicadas ou
obras semelhantes. O pesquisador irá investigar e aferir as teorias encontradas
permitindo expandir seu aprendizado e esclarecer o problema objeto.
O objeto da pesquisa bibliográfica, portanto, é o de conhecer e analisar
as principais contribuições teóricas existentes sobre um determinado
tema ou problema, tornando-se um instrumento indispensável para
qualquer tipo de pesquisa.
(KÖCHE, 2009, p.122)

Segundo Gil (2010) a pesquisa bibliográfica é constituída através de etapas em


conformidade com vários fatores. O embasamento teórico do pesquisador sobre o
assunto, a origem do problema e a ambição de corroborar a pesquisa são fatores
evidenciados pelo autor.
É possível, no entanto, com base na experiência acumulada pelos
autores, admitir que a maioria das pesquisas designadas como
bibliográficas segue minimamente as seguintes etapas: escolha do tema;
levantamento bibliográfico preliminar; formulação do problema;
elaboração do plano provisório do assunto; busca de fontes; leitura do
material; fichamento; organização logica do assunto e redação do texto.
(GIL, 2010, p.45)
Entretanto, uma linha de pesquisa mais sofisticada Marconi e Lakatos (2007)
mostram a precisão de organizar e esquematizar a pesquisa, facilitando para que exista
uma ordem lógica no estudo. Sendo assim é possível estruturar e alcançar o objetivo da
pesquisa.
24
4.2 Coleta de dados

A coleta de dados ocorreu entre janeiro a fevereiro de 2018. Foram utilizados os


bancos de dados Scientific Electronic Library Online (SciELO) e Literatura Latino-
Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS). Como critério de inclusão
usamos apenas revistas indexadas, como referencial primário e publicados em
português, entre 2008 e 2018.
A pesquisa bibliográfica se iniciou pelo levantamento de dados de publicações
disponíveis na biblioteca virtual em saúde, denominada biblioteca Regional de Medicina
(Bireme). Foram encontrados 11 artigos a partir das palavras chaves: equinos,
eletrocardiograma, cardiologia e holter, nas revistas: Pesquisa Veterinária Brasileira,
Ciência Rural Santa Maria, Biosciencie Journal, Arquivo Brasileiro de Medicina
Veterinária e Zootecnia, Archives of Veterinary Science.
25

5. ANÁLISE DOS DADOS

A partir da busca das palavras-chave supracitadas foi possível identificar o


número de artigos publicados nas revistas indexadas selecionadas (Quadro 1).

Tabela 1 - Quantidade de artigos publicados por revista entre os anos de 2008 e 2018. SP.
2018

2008 2009 2010 2011 2012 2013 2014 2015 2016 2017 2018 TOTAL
Pesquisa Veterinária 1 1 2 4
Brasileira
Ciência Rural Santa Maria 1 1
Bioscience Journal 1 1
Arquivo Brasileiro de 1 1 1 1 4
Medicina Veterinária e
Zootecnia
Archives of Veterinary 1 1
Science
TOTAL 11
Fonte: ZANOTELLI 2018

Na análise dos 11 artigos encontrados, nas 5 revistas indexadas, encontramos 7


raças que foram submetidas a testes eletrocardiográficos, podendo-se avaliar os seus
padrões cardiológicos sendo elas: Mangalarga Marchador, Crioula, Puro Sangue
Lusitano, Brasileiro de Hipismo, Puro Sangue Árabe, Quarto de Milha, além de animais
cruzados. Segundo Mercher et al (2012) o padrão eletrocardiográfico apresenta
variações conforme as raças, devido terem padrões de conformação individuais. Por
esse motivo julgamos importante ter um conhecimento breve sobre cada raça envolvida
neste estudo, entendendo sua origem e para qual tipo de aptidão está destinada
A raça mais utilizada nos artigos consultados foi Puro Sangue Árabe, algumas
pesquisas utilizaram mais que uma raça para seu estudo (Quadro 2). Acredita-se que a
raça Puro Sangue Árabe aparece com maior frequência devido sua utilização em
atividades de enduro, sendo considerada uma modalidade onde encontramos um
grande número de estudos sobre avaliação cardíaca, já que é um animal considerado
apto para atividades que exijam resistência do mesmo (TORRES E JARDIM, 1977).
26

Tabela 2 - Repetições de raças por artigo. SP. 2018

Referência Raça
Diniz, et al., 2008 Mangalarga Marchador
Pascon, et al., 2015 Crioula
Melchert, et al., 2012 Puro Sangue Lusitano
Palma, et al., 2013 Quarto de Milha
Lázaro, et al., 2015 Quarto de Milha e
Mangalarga Marchador
Griska, et al., 2015 Puro Sangue Árabe
Dumont, et al., 2011 Puro Sangue Árabe
Yonezawa, et al., 2009 Puro Sangue Árabe
Diniz, et al., 2011 Brasileiro de Hipismo
Dumont et al., 2010 Puro Sangue Árabe
Bello, et al., 2012 Mestiços
Fonte: ZANOTELLI 2018

5.1 Frequência Cardíaca

5.1.1 Raça

Conforme levantado pelos autores, podemos avaliar a frequência cardíaca obtida


em seus estudos, sendo utilizado animais de diferentes raças e fins econômicos.

Tabela 3 – Média e desvio padrão das frequência cardíacas entre as raças avaliadas, em
batimentos por minuto. SP. 2018.

Mangalarga Crioula Puro Sangue Brasileiro de Puro Quarto de Mestiço


Marchador Lusitano Hipismo Sangue Milha
Árabe
Diniz, et 42,185±1,657 - - - - - -
al., 2008
Pascon, et - 53,22±8,65 - - - - -
al., 2015
Melchert, - - 36,2±6,3 - - - -
et al., 2012
Palma, et - - - - - 53,75±12,33 -
al., 2013
Lázaro, et 45,75±11,11 - - - 54,56±16,18 -
al., 2015
Griska, et - - - - 33,7±2,16 - -
al., 2015
Dumont, - - - - 70,92±4,02 - -
et al., 2011
Yonezawa, - - - - 43,1±5,9 - -
et al., 2009
Diniz, et - - - 40,20±13,33 - - -
al., 2011
Dumont et - - - - 35,85±7,05 - -
al., 2010
Bello, et - - - - - - 37,30±7,28
al., 2012
Fonte: ZANOTELLI, 2018
27
A menor frequência cardíaca encontrada foi 33,7±2,16 no artigo de Griska, et al.
(2015), enquanto o maior valor foi 70,92±4,02 encontrado no estudo de Dumont et al.
(2011), ambos em animais da raça Puro Sangue Árabe, raça habitualmente utilizada
para competições de resistência, hipismo e lazer no geral (NAVIAUX, 1988). Sendo que
no estudo realizado por Dumont et al. (2010), realizado com animais da mesma raça,
também observamos valor reduzido de frequência cardíaca (35,85±7,05), sendo que os
valores de referência de acordo com Reed e Bayly (1998) considerado normais, são 28
à 44 batimentos por minuto. Segundo Dumont et al. (2010), os baixos valores de
frequência podem estar relacionados com o condicionamento físico dos animais, uma
vez que, por se tratarem de atletas de enduro, estão adaptados pelo treinamento e
portanto possuem função cardíaca e vascular mais resistentes.
Apesar de se tratar de animais da mesma raça, no estudo de Dumont et al. (2011),
observamos frequências mais elevadas, isso porque neste estudo os animais não foram
avaliados em repouso, sendo submetidos à exercício físico e desclassificados por
exaustão. Conforme relatado pelo autor, o exame foi realizado imediatamente após a
desclassificação em exame clínico realizado pela equipe veterinária (vetcheck) e os
valores superiores estão relacionados à demanda cardiovascular elevada, fadiga
miocárdica, desidratação e alterações eletrolíticas.
Nos estudos de Palma et al. (2013) e Lázaro et al. (2015), os equinos utilizados
eram da raça Quarto de Milha, e apresentaram valores que ultrapassaram a referência
feita por Reed e Bayly (1998), levantando um questionamento sobre a raça em questão.
De acordo com Naviaux, (1988), está raça é destinada principalmente para corridas de
curtas distâncias.
Na raça Crioula obtivemos o valor de 53,22±8,65 nos estudos Pascon et al.
(2015). É uma raça que apresenta bons resultados em trabalhos rurais, especialmente
na lida com gado. Também utilizado para longas viagens, polo e cavalo militar. No geral
pode ser utilizado para esporte devido características de rusticidade e resistência que
obtiveram por adaptação e seleção natural (PASCON, et alt., 2015; TORRES, JARDIM,
1977).
É possível avaliar dois estudos distintos sobre a raça Mangalarga Marchador,
feitos por Diniz et al., (2008) e Lázaro et al., (2015). Em ambos estudos tivemos valores
muito próximos de frequência cardíaca (42,185±1,657 e 45,75±11,11), sendo que se
trata de uma raça brasileira com a principal função de marcha.
Na raça Puro Sangue Lusitano, são animais destinados principalmente para
esportes pan americanos e olímpicos, devido sua versatilidade e agilidade, e segundo
Melchert et al., (2012) obteve-se o valor de 36,2±6,3. Não sendo valores tão diferentes
dos obtidos por Diniz et al., (2011) em animais da raça Brasileiros de Hipismo, que
28
também possuem muitas aptidões, e são usados principalmente em esportes hípicos.
Enquanto isso, Bello et al., (2012) utilizou animais cruzados (mestiços)
praticantes de polo com valor médios de 37,30±7,28, modalidade que também exige
condicionamento físico.

5.1.2 Idade

Outra característica a ser comparada é a idade. No estudo de Diniz et al. (2008),


foram utilizados 60 equinos, sendo 39 fêmeas e 21 machos. Os animais foram divididos
em três grupos conforme a idade, sendo o grupo I composto por 17 animais de 1 a 3
anos; grupo II, 35 animais de 4 a 10 anos e grupo III, 8 animais acima de 10 anos
(Quadro 4). Observamos que animais mais jovens apresentaram frequência cardíaca
superior aos animais mais velhos. Essa informação se relaciona ao observado por
Palma et al. (2013), onde encontramos maiores valores em potros. O mesmo autor
menciona que essa diferença de valores ocorra devido à mudança de posicionamento
cardíaco conforme a idade, o que pode ser importante clinicamente

Tabela 4 - – Média e desvio padrão da frequência cardíaca de equinos da raça Mangalarga


Marchador, nos grupo 1 a 3 anos, 4 a 10 anos e acima de 10 anos (DINIZ et al., 2008). SP.
2018.

Parâmetro 1 a 3 anos 4 a 10 anos +10 anos


Frequência Cardíaca 46,41±3,94 42,32±1,44 38,80±4,69
Fonte: ZANOTELLI, 2018

. Aos 12 meses de idade, é normal que se apresente valores de frequência


cardíaca mais elevados em relação à animais adultos, esses valores tendem a reduzir
conforme se atinge a maturidade (PALMA et al., 2013).
No entanto, no estudo de Lázaro et al. (2015), apesar de se tratarem de animais
adultos, encontramos valores acima dos de referência, caracterizando quadro de
taquicardia. Conforme Lazaro et al., (2015) citaram em seus estudos, esses valores se
justificam pelo estresse gerado pela contenção e realização do exame, mas apontam
necessidade de estudo mais aprofundado, já que houve intervalo de cinco minutos entre
a contenção e início da realização do exame. Diniz et al., (2008) acreditam que os
animais podem se assustar com a colocação do eletrodo, de modo que, talvez seja
necessário mais tempo para que os valores retornarem à normalidade.
29

Tabela 5 - Frequência cardíaca de potros da raça Quarto de Milha conforme idade e estudo
realizado por Lázaro et al. (2015). SP. 2018

Parâmetro Até 6 meses 7 meses 8 meses 12 meses


Frequência 63±5,29 69,2±15,80 60,5±12,86 53,75±12,33
Cardíaca
Fonte: ZANOTELLI, (2018)

Palma et al. (2013), avaliaram 20 potros, machos e fêmeas da raça Quarto de


Milha. Além dos valores de frequência cardíaca serem realmente mais alto em relação
à animais adultos, segundo os autores também há influência do manuseio dos animais,
sendo o estresse responsável pela elevação da frequência cardíaca. Avaliando o
quadro, identificamos que a frequência cardíaca diminui nos animais com 12 meses.

Tabela 6 - Frequência cardíaca de equinos da raça Crioula, conforme idade e estudo de


Pascon, et al. (2015). SP. 2018

Parâmetro Até 4 anos 5 à 9 anos +10 anos


Frequência Cardíaca 52,86±9,07 51,14±10,86 54,35±7,33
Fonte: ZANOTELLI, (2018)

No estudo realizado por Pascon et al. (2015), foi realizado o exame


eletrocardiográfico em 84 éguas saudáveis da raça Crioula. Os animais foram divididos
em três grupos de acordo com a idade, sendo grupo I com animais até 4 anos; grupo II
animais de 5 a 9 anos e grupo III, acima de 10 anos. Não houve diferença estatística
significante em relação as faixas etárias, como observado por Diniz et al. (2008).
Nesse trabalho, observamos frequência cardíaca elevada, caracterizando
taquicardia. De acordo com os autores esse aumento está relacionado ao tipo de
tratamento desses animais, já que foram utilizadas éguas não domadas submetidas à
sistema extensivo de criação, logo são animais não adaptados à manipulação humana,
o que pode ter gerado estresse.

5.1.3 Atividade Física

Cada raça possui sua conformação, que está diretamente relacionado com a
aptidão esperada, pois terá alguma função econômica especifica. Os criadores
escolhem reprodutores ideais para formação de animais com qualidades para o tipo de
trabalho que irá realizar, afim de prever sua performance. Podemos ter cavalos que se
30
adaptam melhor às atividades de velocidade, sela, trote, marcha, e enfim, para
diferentes tipos de atividades e esportes (TORRES, JARDIM, 1977).

Tabela 7 – Frequência cardíaca da raça Mangalarga Marchador e Quarto de Milha. SP. 2018.

Artigo Raça Frequência cardíaca


Diniz, et Mangalarga 42,3200±1,444
al., 2008 Marchador
Lázaro, Mangalarga 45,75±11,11
et al., Marchador
2015
Lázaro, Quarto de 54,56±16,1
et al., Milha
2015
Fonte: ZANOTELLI, (2018)

No quadro 7 observamos estudos de Diniz et al. (2008) e Lázaro et al. (2015) que
avaliaram animais da raça Mangalarga Marchador, vemos que os valores obtidos
(42,3200±1,444 e 45,75±11,11) nos exames acompanham uma média referencial,
considerada como um padrão pra raça em questão, se mostrando diferente dos valores
obtidos em animais da raça Quarto de Milha. Conforme Lázaro et al., (2015) citam em
seu estudo, isso está relacionado ao tipo de atividade exercida pelo animal. Sabendo
que o tipo de atividade e treinamento atlético pode influenciar nos valores, os autores
ressaltam que o Quarto de Milha normalmente está destinado à atividades de alta
intensidade e baixa resistência, enquanto o Mangalarga Marchador para atividades de
baixa intensidade e alta resistência.

Tabela 8 - Média e desvio padrão da frequência cardíaca de equinos das raças Puro Sangue
Lusitano e Puro Sangue Árabe após serem submetidos à exercício. SP. 2018

Artigo Raça Antes do Após exercício


exercício
Melchert Puro Sangue 36,2±6,3 57,7±11,6
et al., Lusitano
2012
Yonezawa Puro Sangue Árabe 43,1±5,9 88,1±9,9
et al.,
2009
Fonte: ZANOTELLI, 2018

Avaliando os trabalhos de Melchert et al., (2012) e Yonezawa et al., (2009),


identificamos raças distintas, sendo elas Puro Sangue Lusitano e Puro Sangue Árabe,
ambas sendo submetidas a atividades parecidas. Nos estudos de Melchert et al. (2012),
foram utilizados 24 equinos machos da raça Puro Sangue Lusitano, que foram
31
submetidos à treinamento de 15 a 25 minutos de trote e galope, enquanto Yonezawa et
al. (2009) utilizaram 8 éguas, sem nenhum treinamento prévio, da raça Puro Sangue
Árabe. Neste estudo os animais realizaram passo, trote, cânter e galope por 14 minutos
ou até a exaustão, em esteira com inclinação de +7%.
Podemos identificar que os animais da Raça Puro Sangue Árabe iniciam a
atividade já com uma frequência cardíaca superior à outra raça, e também finalizam o
exercício com grande diferença de valores, além de que tais valores não retornaram
rapidamente após 30 minutos de repouso (Quadro 8). Tal diferença pode ser devido a
diferença de condicionamento físico desses animais, já que segundo Melchert et al.,
(2012), os animais utilizados em seu estudo possuem uma rotina de treinamentos
diários, diferente dos animais utilizados por Yonezawa et al., (2009).

Tabela 9 - Equinos mestiços submetidos à exercício de Polo conforme estudo de Bello et al.,
(2012). SP. 2018

Raça Antes do exercício Após exercício


Mestiços 37,3±7,28 74,38±15,06
Fonte: ZANOTELLI, 2018

Bello et al., (2012) avaliaram animais atletas da categoria Handicap de Polo.


Foram utilizados 27 animais cruzados, sendo 13 machos e 14 fêmeas, todos adaptados
ao exercício, recebendo o mesmo manejo e habituados com manipulação. Os animais
foram avaliados antes e após o exercício, onde podemos identificar o aumento da
frequência cardíaca após atividade. Segundo os autores, podemos avaliar o
condicionamento desses animais observando a recuperação da frequência cardíaca
após o exercício. Isso porque caso em 5 a 10 minutos após o término da atividade, a
frequência cardíaca continue a ultrapassar 130bpm, pode representar uma má
recuperação e condicionamento ruim (Bello et al., 2012).

Tabela 10 - Equinos da raça Puro Sangue Árabe submetidos à exercício de Enduro


Prolongado conforme Dumont et al., (2010). SP. 2018

Raça Antes do exercício Após exercício


Puro Sangue Árabe 35,85±7,05 53,78±10,35
Fonte: ZANOTELLI (2018)

Sabendo da importância de avaliar a frequência cardíaca após o exercício,


Dumont et al. (2010) avaliaram esse parâmetro no seu estudo composto por 12 machos
e 8 fêmeas da raça Puro Sangue Árabe. Os animais realizaram o exame
eletrocardiográfico antes e após o exercício de enduro prolongado. Os valores obtidos
após exercício mostraram taquicardia, no entanto com valores reduzidos quando
32
comparado aos estudos de Yonezawa et al. (2009) (88,1±9,9) em animais submetidos
à treinamento de alta velocidade e Bello et al. (2012) (74,38±15,06) em animais
praticantes de polo. Isso indica que os animais utilizados nas atividades de enduro
possuem condicionamento físico e recuperação melhor comparado à estes. Segundo
Dumont et al. (2010), a frequência ainda estava elevada, pois os animais estavam em
fase de recuperação, o que foi considerado normal.

Tabela 11 - Equinos da raça Puro Sangue Árabe submetidos à exercício de Enduro


Prolongado que foram desclassificados, conforme Dumont et al., (2011). SP. 2018

Raça Fêmea Macho


Puro Sangue Árabe 73,5±7,5 70,92±4,02
Fonte: ZANOTELLI, (2018)

Dumont et al., (2011) mostra frequência cardíaca de animais que foram


desclassificados por exaustão, mostrando que possuem frequência cardíaca superior
aos animais utilizados por Dumont et al., (2010), representando recuperação lenta que
está ligado ao baixo desempenho durante a prova de enduro e baixo condicionamento.
De acordo com Larsson et al. (2013) há mudança dos parâmetros devido a perda
eletrolítica, que é comum em cavalos de enduro. Um animal submetido à exercício
máximo e prolongado tem perda de 10-15 litros por hora pelo suor. Podendo chegar a
perdas de 20-40 litros em passeios com mais de 80 quilometros. Desta forma o nível de
desidratação afeta a capacidade de perda de calor pela evaporação, levando a elevação
da temperatura.

Tabela 12 - Média e desvio padrão da frequência cardíaca de diferentes raças de equinos


praticantes de diferentes atividades antes do exercício. SP. 2018.

Artigo Atividade Raça Antes do exercício


Melchert Trote e Galope Puro Sangue Lusitano 36,2±6,3
et al.,
2012
Yonezawa Trote e Galope Puro Sangue Árabe 43,1±5,9
et al.,
2009
Bello et Polo Mestiços 37,30±7,28
al., 2012
Diniz et Salto Brasileiro de Hipismo 40,20±13,33
al., 2011
Dumont Enduro Puro Sangue Árabe 35,85±7,05
et al.,
2010
Fonte: ZANOTELLI, 2018

Comparando frequências cardíacas de diferentes raças e adaptados à


diferentes atividades físicas, antes do exercício, observamos que os animais utilizados
33
por Diniz et al. (2011) apresentaram frequência cardíaca numericamente elevada
comparado à animais praticantes de outras modalidades. Enquanto em animais do
estudo de Dumont et al., (2010) apresentaram menor frequência cardíaca, provando que
o tipo de atividade física influencia no condicionamento físico do animal, já que a
modalidade de enduro exige maior condicionamento e resistência cardiovascular, que
está diretamente relacionado com os valores de frequência cardíaca (DUMONT et al.,
2010; GUNTHER-HARRINGHTON, C. T. et al.).

5.1.4 Condições Ambientais

Afim de identificar outros fatores que possam influenciar nos resultados de


frequência cardíaca, Griska et al. (2015) realizaram um estudo com 40 animais Puro
Sangue Árabe durante a atividade de enduro, em diferentes altitudes.

Tabela 13 - Média e desvio padrão da frequência cardíaca de equinos da raça Puro Sangue
Árabe submetidos à exercício de Enduro em diferentes graus de altitude (baixa, média e alta)
conforme Griska et al., (2015). SP. 2018.

Altitude Frequência cardíaca Frequencia cardíaca


mínima máxima
Baixa 35,9±2,69 144,9±6,01
Média 33,7±2,16 153,8±4,83
Alta 37,9±2,26 175,3±3,06
Fonte: ZANOTELLI, 2018

Os autores observaram maiores frequências, tanto mínima quanto máxima em


altitudes maiores (Quadro 13). Conforme identificamos na tabela, a maior frequência
cardíaca foi registrada em alta altitude, tendo uma influência de 5% em relação, se
tornando significativa.
34

5.2 Ritmos Cardíacos

De acordo com Yonezawa et al. (2014), o ritmo sinusal é o mais encontrado em


equinos, sendo considerado fisiológico, além de comum suas alterações. Neste
presente estudo, encontramos a predominância deste ritmo entre os artigos trabalhados,
confirmando a informação dos autores.

Tabela 14 - Comparativo de ritmo cardíaco encontrado por artigo. SP. 2018.

Artigo Ritmo Arritmia Taquicardia Bradicardia Bloqueio


Sinusal Sinusal Sinusal Sinusal Sinusal /
Sinus Arrest
Diniz, et 61,7% 28,2% 6,7% 1,7% 1,7%
al., 2008
Pascon, et 15,0% 2,5% 82,5% - -
al., 2015
Melchert, 87,5% 4,16% 4,16% - -
et al., 2012
Palma, et 100% - - - -
al., 2013
Lázaro, et - - - - -
al., 2015
Griska, et - - 32% 14%
al., 2015
Dumont, - 7,1% 85,8% - -
et al., 2011
Yonezawa, - - - - -
et al., 2009
Diniz, et 56% 20% 23% 1% -
al., 2011
Dumont et 90% - - 5% -
al., 2010
Bello, et 59,27% 25,92% - 14,81% -
al., 2012
Fonte: ZANOTELLI, 2018

No estudo realizado por Dumont et al. (2011) observamos apenas os valores


obtidos após atividade física, mostrando que o ritmo mais encontrado nesses animais
foi a taquicardia sinusal, como consequência da excitação pelo exercício. No entanto
também foi identificada arritmia sinusal, que segundo os próprios autores, é comum após
o exercício e está relacionada ao tônus vagal alterado.
A arritmia sinusal também foi encontrada por Diniz et al. (2008) com porcentagem
considerada alta para animais em repouso (Quadro 14). Sendo que de acordo com os
autores se deve à condição física desses animais, já que os mesmos não são
submetidos a treinamento atlético prévio, estando relacionado ao sistema nervoso
autônomo.
35
Em estudos realizados por Bello et al. (2012), os autores afirmam que as
bradicardias sinusais estão entres as arritmias mais comumente encontradas,
especialmente em animais atletas em repouso. No entanto, apesar dessa informação,
constatamos uma porcentagem média baixa desta arritmia nos artigos avaliados. As
maiores porcentagens encontradas foram por Bello et al., (2012), em animais de polo e
no estudo de Griska et al., (2015) em animais de enduro (Quadro 14).
O bloqueio sinusal / sinus arrest foi encontrado em um único artigo, e em único
animal deste estudo, apontando ser uma arritmia pouco frequente em equinos, segundo
Diniz et al. (2008).

Tabela 15 - Ritmo cardíaco antes e após atividade física. SP. 2018

Artigo Raça Atividade Ritmo Arritmia Taquicardia Bradicardia


Sinusal Sinusal Sinusal Sinusal
Melchert Puro Antes 87,5% 4,16% 4,16% -
et al., Sangue Depois 16,7% - 83,3% -
2012 Lusitano
Dumont Puro Antes 90% - - 5%
et al., Sangue Depois 20% - 80% - -
2010 Árabe
Fonte: ZANOTELLI (2018)

Podemos comparar os ritmos cardíacos encontrados antes e após o exercício nos


estudos de Melchert et al., (2012) e Dumont et al., (2010), e podemos constatar aumento
relevante de taquicardia sinusal após a atividade física. Segundo estes autores, isso
ocorre, pois, a atividade física leva à estimulação simpática, sendo normal durante o
período de recuperação após o exercício.
Neste mesmo estudo, Dumont et al. (2010) afirma que a bradicardia sinusal
também é considerada fisiológica em animais atletas, devido à elevada atividade
parassimpática quando o animal está em repouso.
36

Tabela 16 - Presença de alterações de ritmo cardíaco entre os artigos avaliados. SP. 2018.

Artigo Bloqueio Bloqueio Marcapasso Assistolia Complexo Complexo


Atrioventricular Atrioventricular Migratório Atrial Ventricular
1º Grau 2º Grau Prematuro Prematuro
Diniz, et X X
al., 2008
Pascon, et
al., 2015
Melchert, X
et al., 2012
Palma, et
al., 2013
Lázaro, et
al., 2015
Griska, et X X X
al., 2015
Dumont, et X
al., 2011
Yonezawa, X
et al., 2009
Diniz, et X X
al., 2011
Dumont et X X
al., 2010
Bello, et X X
al., 2012
Total 2 4 3 1 1 3
Fonte: ZANOTELLI, 2018

. De acordo com este comparativo, identificamos que o Bloqueio Atrioventricular


de 2º Grau é a alteração mais comum. Na sequência temos o Marcapasso Migratório e
o Complexo Ventricular Prematuro (Quadro 16). O Bloqueio Atrioventricular de 2º Grau,
foi encontrado em estudos que abordavam cavalos atletas (em diferentes modalidades).
Segundo o estudo de Diniz et al. (2008) trata-se de uma alteração comum em animais
condicionados quando o exame é realizado em repouso. As alterações desapareceram
após o exercício (MELCHERT et al., 2012; GRISKA et al;. 2015; DINIZ et al., 2011),
confirmando a afirmação feita por Melchert et al. (2012).
Houve também a presença do Bloqueio Atrioventricular de 1º Grau, no entanto de
forma muito reduzida. Este achado foi relatado apenas pelos autores Griska et al., (2015)
e Bello et al., (2012). Nos estudos de Bello et al. (2012) foi identificado em um único
animal, desaparecendo durante o exercício. No entanto, para Griska et al. (2015) foram
identificados 8 animais com bloqueio atrioventricular de 1º grau, o equivalente a 20%
dos animais utilizados nesse estudo, sendo justificado pelos próprios autores pelo tipo
de atividade e altitude na qual os animais foram submetidos, além do condicionamento
dos animais.
Neste mesmo estudo também foram relatados o total de 11 animais com
assistolia, o equivalente à 27,5% dos animais do estudo. Assistolias são pausas do
37
ritmo cardíaco por no mínimo dois segundos (GRISKA et al., 2015) no estudo em
questão houve um animal com pausa de 5 segundos. Segundo Griska et al (2015), a
quantidade e a duração das assistolias estão também relacionados ao condicionamento
físico do animal, sendo que nesse trabalho, o número de assistolias teve uma média de
14,9±3,6, com tempo médio de 1,68±0,40.
Nos estudos de Diniz (2004) foram identificados 6,7% dos animais com
marcapasso migratório, no entanto os autores afirmam se tratar de um achado clínico,
já que os animais não estavam sendo submetidos à treinamento, sendo de baixa
incidência em animais em repouso e mais comum na recuperação após atividade física,
estando de acordo com Dumont et al. (2010), que afirma que a presença do marcapasso
migratório após exercício se deve ao ajuste do sistema nervoso autônomo, portanto
sendo considerado benigno e não afetando o desempenho do animal para esporte.
Apesar de não ter sido encontrado nos estudos avaliados, de acordo com Marly-
Voquer et al (2016) a fibrilação atrial é uma das arritmias cardíacas mais comuns, que
interfer diretamente na perfomance do cavalo.
Segundo estudos de Yonezawa et al. (2009), Dumont et al. (2010) e Bello et al.
(2012), os achados de complexo ventricular prematuro são de baixa incidência, e
ocorrem comumente durante a recuperação após o exercício, sendo considerado
fisiológicos. Ainda segundo Yonezawa et al. (2009), isso ocorre devido ao reajuste do
tônus nervoso. Já o complexo atrial prematuro que foi relatado por Dumont et al. (2011),
apresenta relação com baixo desempenho atlético do animal, havendo necessidade de
maiores investigações.
38
6. CONCLUSÃO

O exame eletrocardiográfico é o exame de eleição para avaliação de ritmo,


distúrbios eletrolíticos, frequência cardíaca e prognóstico. Através deste exame é
possível avaliar em especial os ritmos cardíacos, de bastante importância na Medicina
Equina, sendo que pudemos concluir que o ritmo sinusal é o ritmo considerado
fisiológico em equinos e encontrado com maior frequência entre os animais da espécie.
Sendo as principais variações a bradicardia e taquicardia sinusal.
A bradicardia sinusal aparece frequentemente em cavalos atletas e com bom
condicionamento físico, sendo que ao estímulo e durante a atividade física, se tornou
comum o aumento da frequência cardíaca. No entanto o retorno aos parâmetros de
normalidade é um dos fatores que nos indicam se o animal possui ou não bom
condicionamento físico. Como pudemos ver nos estudos levantamos, animais em
exaustão física obtiveram valores maiores de frequência cardíaca, além de retorno lento
à normalidade.
Também pudemos encontrar as principais arritmias presentes na espécie, sendo
o bloqueio atrioventricular de 2º grau, marcapasso migratório e complexo ventricular
prematuro, estando muitas vezes relacionado ao condicionamento físico e perda
eletrolítica.
Dada a importância ao assunto, ainda se torna necessário maiores pesquisas
dentro da espécie, incluindo a utilização de método contínuo como holter, afim de obter
informações que possam não ocorrer durante o exame eletrocardiográfico.
39

7. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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