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Universidade Católica de Brasília

Pró-Reitoria de Pós-Graduação e Pesquisa


Mestrado em Psicologia

Impacto do trauma e dissociação da consciência na


Personalidade Múltipla: um estudo de caso

Marcello de Abreu Faria

Orientador: Prof. Dr. Roberto Menezes de Oliveira


Co-Orientadora: Profa. Dra. Deise Matos do Amparo

Brasília, DF
2007
ii

Universidade Católica de Brasília


Pró-Reitoria de Pós-Graduação e Pesquisa
Mestrado em Psicologia

Impacto do trauma e dissociação da consciência na


Personalidade Múltipla: um estudo de caso

Marcello de Abreu Faria

Dissertação apresentada ao Programa de


Pós-Graduação em Psicologia da
Universidade Católica de Brasília, como
requisito parcial para a obtenção do título
de Mestre em Psicologia.

Orientador: Prof. Dr. Roberto Menezes de Oliveira


Co-Orientadora: Profa. Dra. Deise Matos do Amparo

Brasília, DF
2007
iii

Impacto do trauma e dissociação da consciência na


Personalidade Múltipla: um estudo de caso

Dissertação defendida e aprovada como requisito parcial para obtenção


do título de Mestre em Psicologia pela Universidade Católica de Brasília, pela
Banca Examinadora composta pelos seguintes professores:

________________________________________________________
Prof. Dr. Roberto Menezes de Oliveira (Orientador)
Universidade Católica de Brasília - UCB

________________________________________________________
Profa. Dra. Deise Matos do Amparo (Co-Orientadora)
Universidade Católica de Brasília - UCB

________________________________________________________
Profa. Dra. Sandra Francesca Conte de Almeida (Examinadora Interna)
Universidade Católica de Brasília - UCB

________________________________________________________
Profa. Dra. Anna Elisa de Villemor-Amaral (Examinadora Externa)
Universidade São Francisco / Faculdade de Psicologia da PUC-SP

Brasília, DF
2007
iv

DEDICATÓRIA

Dedico esta dissertação, Estudo de Caso específico vinculado

à Personalidade Múltipla, aos pesquisadores sérios da

Psicologia e da Psiquiatria que, por ideais comuns e

incomuns, lutam com afinco para diminuírem e reverterem as

situações traumáticas dos seus pacientes, que corajosamente

confiam as suas experiências mais difíceis nas mãos da

ciência e da esperança.
v

AGRADECIMENTOS

A Deus, pela vida e pela contínua oportunidade de viver.

A meus pais, pelo amor, educação, instrução e conscientização sobre a vida. Aos demais
familiares, pelos sinceros laços de afeição.

À Caroline – e às demais personalidades que compõem o psiquismo de sua individualidade


– pela ousadia de enfrentar os impactos traumatizantes de sua vida, e me confiar à
oportunidade de tratá-la profissionalmente, fato que deu novo rumo a minha vida em
termos humanos e acadêmicos.

Ao Dr. Ralph B. Allison e ao Dr. Frank W. Putnam, pelo acolhimento incondicional e


ensinamentos profissionais.

Ao Dr. Roberto Menezes de Oliveira (Orientador) e à Dra. Deise Matos do Amparo (Co-
Orientadora), pelo profissionalismo na condução do processo, pelas valiosas sugestões na
estrutura organizacional desta pesquisa, e principalmente pela coragem de aceitar a
coordenação-supervisão de um Estudo de Caso delicado e complexo, ainda com fortes
preconceitos no Brasil.

Às doutoras Anna Elisa de Villemor-Amaral, Margarida Patriota, Marta Helena de Freitas,


Sandra Francesca Conte de Almeida e Sonia M. Hueb, pelas contribuições científicas que
possibilitaram o enriquecimento desta pesquisa.

Aos pesquisadores da International Society for the Study of Trauma and Dissociation
(Sociedade Internacional para o Estudo do Trauma e da Dissociação), e membros da
ISSDWORLD, lista de discussão internacional, pelas respostas ininterruptas frente a
questionamentos diversos relacionados com a Personalidade Múltipla.

Aos pesquisadores citados neste estudo de caso, bem como àqueles outros anônimos, pela
incansável dedicação em prol do avanço científico e da melhora de seus pacientes.

Ao corpo docente e discente da Universidade Católica de Brasília, pelo profissionalismo,


pela participação e pela seriedade na condução do programa de mestrado.

À CAPES, pela Bolsa de Estudo concedida durante um dos semestres do curso.

À colega Natasha Tamayo, psicóloga, pela revisão do Abstract.

Aos funcionários da Universidade Católica de Brasília, pelo apoio e serviços internos de


alta qualidade.

Por fim, não desejando esquecer ninguém – porque considero a gratidão como um
sentimento que deixa rastros luminosos no caminho de cada um em seu curso ascensional –
agradeço àqueles que minha memória consciente não foi capaz de lembrar.
vi

“O rigoroso determinismo da vida mental (...) não conhece exceção” (Freud,

1910[1909]/1996, p.62).

Então,

“(...) não existe descontinuidade na vida mental” (Brenner, 1973, p.18).


vii

SUMÁRIO

INTRODUÇÃO 1
CAPÍTULO I – CARACTERIZAÇÃO DA PERSONALIDADE MÚLTIPLA
E RELAÇÃO COM TRAUMA E DISSOCIAÇÃO 9
1.1- Casos Clássicos de Personalidade Múltipla 9
1.2- Definições 29
1.3- Classificações e Critérios Diagnósticos Atuais 30
1.4- Sintomatologia 31
1.5- Epidemiologia 33
1.6- Etiologia 36
1.7- Funcionamento da Dinâmica Psíquica 38
1.8- Trauma e Dissociação 40
CAPÍTULO II - MÉTODO 45
2.1- Caracterização do Método 45
2.2- Participante 46
2.3- Instrumentos Utilizados 48
2.3.1- Relato de Sessões Clínicas 48
2.3.2- Produções das Personalidades 49
2.3.3- Escala de Experiências Dissociativas - DES 49
2.3.4- Teste das Pirâmides Coloridas - Pfister 50
2.3.5- Teste de Apercepção Temática - TAT 51
2.3.6- Entrevistas (Clínica, SCID-D e Devolutiva) 51
2.4- Procedimentos para Coleta de Dados 53
2.5- Procedimentos para Análise dos Dados 55
CAPÍTULO III – RESULTADOS: PROCESSOS DISSOCIATIVOS E
TRAUMÁTICOS EM CAROLINE 57
3.1- Elementos Anamnésicos e Relatos Clínicos 57
3.2- As Produções das Personalidades 97
3.3- A Escala de Experiências Dissociativas - DES 104
3.4- O Teste de Pfister 105
viii

3.5- Indicadores do TAT 124


3.6- Entrevistas 137
3.6.1- Entrevista Clínica 138
3.6.2- Entrevista SCID-D 146
3.6.3- Entrevista Devolutiva 152
CAPÍTULO IV – DISCUSSÃO: SINTOMAS, DISSOCIAÇÃO E
TRAUMATISMO 156
4.1- Sinais e Sintomas da Síndrome Dissociativa em Caroline 156
4.2- Dissociação, Co-Consciência e Inter-Relacionamento Psíquico 166
4.3- Trauma e Dissociação nos Testes Projetivos 175
4.4- Trauma e Dissociação na Personalidade Múltipla: Algumas Considerações 201
CONCLUSÃO 204
REFERÊNCIAS 208
ANEXOS 213
ANEXO 1- Termo de Consentimento Informado Livre e Esclarecido 214
ANEXO 2- Produções das personalidades 216
ANEXO 3- Escala de Experiências Dissociativas (DES) 231
ANEXO 4- Entrevista Semi-Estruturada (SCID-D Adaptada) 237
ANEXO 5- Parecer da Dra. Sonia Hueb - 1ª aplicação do Pfister 241
ix

LISTA DE FIGURAS

Figura 1 - Alfabeto marciano de Hélène Smith. 22

Figura 2 - Texto marciano escrito por Hélène Smith. 22

Figura 3 - Desenho do sonho recidivo de Caroline. 62

Figura 4 - Desenho iconográfico de uma das alters de Caroline. 80

Figura 5 - Linguagem secreta de Dalva, uma das alters de Caroline. 82

Figura 6 - Correspondência simbólica da linguagem secreta revelada por Dalva. 83

Figura 7 - Trabalho manual feito na clínica, por Dalva. 86

Figura 8 - Poesia escrita por Dalva em sua linguagem secreta. 106

Figura 9 - Siglas das cores utilizadas por Caroline na primeira pirâmide (alto, centro),
segunda pirâmide (baixo, esquerda) e terceira pirâmide (baixo, direita). 110

Figura 10 - Quarta pirâmide elaborada por Caroline. 110

Figura 11 - Demonstrativo do resultado das cores escolhidas por Caroline, em


porcentagens. 111

Figura 12 - Comparação entre valor obtido, por Caroline, e valor esperado para cada cor. 111

Figura 13 - Siglas das cores utilizadas pela alter Dalva na primeira pirâmide (alto, centro),
na segunda pirâmide (baixo, esquerda) e na terceira pirâmide (baixo, direita). 115

Figura 14 - Demonstrativo do resultado das cores escolhidas por Dalva, em porcentagens. 115

Figura 15 - Comparação entre valor obtido, por Dalva, e valor esperado para cada cor. 116

Figura 16 - Reprodução das pirâmides de Caroline (re-teste). 119

Figura 17 - Demonstrativo do resultado das cores escolhidas por Caroline (re-teste). 120

Figura 18 - Comparação entre valor obtido e valor esperado para cada cor (re-teste). 120

Figura 19 - Principais protagonistas identificados nas histórias narradas por Caroline. 124

Figura 20 - Características dos protagonistas apresentados por Caroline. 125


x

LISTA DE FIGURAS (Continuação)

Figura 21 - Impacto da estimulação global de cada prancha apresentada à Caroline em


relação às características dos protagonistas. 126

Figura 22 - Demonstração gráfica das necessidades apresentadas por Caroline. 127

Figura 23 - Demonstração do impacto global, por prancha, das necessidades de Caroline. 128

Figura 24 - Representação gráfica dos estados interiores e emocionais obtidos. 128

Figura 25 - Demonstração do impacto global, de cada prancha, em relação aos estados


interiores e emoções dos protagonistas de Caroline. 129

Figura 26 - Representação gráfica das dimensões psíquicas obtidas. 130

Figura 27 - Impacto global, por prancha, em termos de dimensões psíquicas. 131

Figura 28 - Forças ambientais dos protagonistas das histórias de Caroline. 131

Figura 29 - Impacto global, por prancha, em relação às forças ambientais. 132

Figura 30 - Interesses dos protagonistas das histórias de Caroline. 133

Figura 31 - Mensagem de Dalva, em sua linguagem secreta, entregue durante a entrevista


clínica. 144

Figura 32 - Inter-relacionamento do funcionamento psíquico de Caroline. 173

Figura 33 - Primeira pirâmide elaborada por Caroline. 177

Figura 34 - Segunda pirâmide elaborada por Caroline. 178

Figura 35 - Pirâmides elaboradas por Dalva. 179

Figura 36 - Terceira pirâmide elaborada por Caroline. 180

Figura 37 - Quarta pirâmide elaborada por Caroline. 181

Figura 38 - Características comuns dos casos clínicos apresentados. 202


xi

LISTA DE TABELAS

Tabela 1 - Critérios diagnósticos para a personalidade múltipla (Código 300.14). 31

Tabela 2 - Agrupamentos sintomatológicos da personalidade múltipla. 32

Tabela 3 - Prevalência da personalidade múltipla (DID) e demais desordens


dissociativas entre populações de pacientes. 35

Tabela 4 - Perguntas e escores obtidos por Caroline - DES. 104


xii

RESUMO

Esta pesquisa investiga o impacto traumático e dissociativo em uma paciente


diagnosticada com o Transtorno de Personalidade Múltipla, um transtorno mental de difícil
diagnóstico devido à sintomatologia diversificada e à sua forte comorbidade. Para este
distúrbio dissociativo – atualmente catalogado como Dissociative Identity Disorder ou
Transtorno Dissociativo de Identidade, anteriormente denominado Multiple Personality
Disorder ou Transtorno de Personalidade Múltipla – existem critérios específicos definidos
no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, e registro na Classificação
Estatística Internacional de Doenças.
No âmago das características da síndrome, que não é um artefato iatrogênico, e cuja
característica essencial é a existência dentro do indivíduo de personalidades distintas, cada
qual dominante num momento específico, encontram-se as chamadas personalidades
alternativas ou alters. Foram identificadas dez personalidades atuando no psiquismo de
Caroline.
O estudo de caso apresenta dois eixos temáticos: um sintomatológico e outro
psicodinâmico. Além disso, abrange a apresentação de diversas fontes de evidência –
textos, poesias, desenhos, trabalhos manuais e bilhetes –, de relatos de caso, de escalas
dissociativas, de entrevistas e de dois instrumentos projetivos: o Teste das Pirâmides
Coloridas e o Teste de Apercepção Temática.
Como resultados sobressalentes, destacamos: a) a associação da personalidade
múltipla com questões traumáticas relativas ao abandono, rejeição, desamparo, abusos e
maus-tratos, fatores desencadeadores da dissociação patológica de Caroline; b) a amnésia, a
despersonalização, a desrealização, a confusão e alteração de identidade como sinais e
sintomas fundamentais no caso; c) a interligação entre as personalidades, bem como as suas
respectivas produções.
Como conclusão, podemos dizer que a essência da personalidade múltipla ou as
condições de sua origem reside em traumas reais do passado que causaram grandes
impactos e foram esquecidos parcialmente pela paciente. Os processos de ab-reação fazem
com que os traumas reais sejam lembrados e reproduzidos, diminuindo a dissociação –
mecanismo de defesa fundamental – ao longo do tempo. Há fixações nas fases da infância e
da adolescência. Há também clivagem do ego com atitudes psíquicas diferenciadas
conforme as realidades distintas de cada alter.
Por fim, como perspectiva futura, o estudo convida outros pesquisadores para novas
investigações no campo da personalidade múltipla.

Palavras-Chave: personalidade múltipla, trauma, dissociação.


xiii

ABSTRACT

This research investigates the traumatic and dissociative impact on a patient


diagnosed with the Multiple Personality Disturbance, a mental disorder of difficult
diagnosis due to the diversified symptomatology and to its strong comorbidity. For this
dissociative disturbance – currently classified as Dissociative Identity Disorder, previously
denominated Multiple Personality Disorder – there are specific criteria defined in the
Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, as well as a register in the
International Statistical classification of Diseases.
In the core of the characteristics of the syndrome, that is not an iatrogenic artifact,
and whose essential characteristic is the existence inside of the individual of different
personalities, each one dominant in a specific moment, there are the alternative
personalities or alters. Ten personalities acting on Caroline’s life were identified.
The case study presents two thematic axes: symptomatical and psycodinamic.
Besides, it embraces the presentation of several evidence sources – texts, poetries,
drawings, manual works and notes –, as well as case reports, dissociative scales, interviews
and two projective instruments: the Color Pyramid Test and the Aperception Thematic
Test.
The following prominent results are highlighted: a) the association of multiple
personality with traumatic subjects linked to abandonment, rejection, helplessness, abuses
and mistreatments as trigger factors of Caroline’s pathological dissociation; b) the amnesia,
the depersonalization, the derealization, the confusion and the identity alteration as signs
and fundamental symptoms in the case; c) the inter-connection among the personalities, as
well as their respective productions.
As a conclusion, we can say that the essence of the multiple personality disorder or
the conditions of its origin, reside in real traumas of the past that caused great impact and
were partially forgotten. The ab-reaction processes cause such traumas to be remembered
and reproduced, reducing the dissociation – fundamental defense mechanism – along the
time. There are fixations in the childhood and the adolescence phases. There is also
cleavage of the ego with differentiated psychic attitudes according to the distinct realities of
each alter.
Finally, as future perspective, the study invites other researchers to new
investigations in the field of multiple personality.

Key-words: multiple personality, trauma, dissociation.


1

INTRODUÇÃO

A personalidade múltipla – transtorno mental de difícil diagnóstico devido à

sintomatologia diversificada e à sua forte comorbidade – atualmente catalogada como

Dissociative Identity Disorder (DID) ou Transtorno Dissociativo de Identidade, anteriormente

denominada Multiple Personality Disorder (MPD) ou Transtorno de Personalidade Múltipla, “só

se tornou um diagnóstico oficial da Associação Americana de Psiquiatria em 1980” (Hacking,

1995, p.17). Para este distúrbio dissociativo, doravante chamado de personalidade múltipla,

existem critérios específicos definidos no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos

Mentais (DSM-IV-TR, 2003), e registro na Classificação Estatística Internacional de Doenças

(CID-10, 1993).

No âmago das características da síndrome, que não é um artefato iatrogênico e cuja

“característica essencial é a existência dentro do indivíduo de duas ou mais personalidades

distintas, cada qual dominante num momento específico” (Hacking, 1995, p.17), encontram-se as

chamadas personalidades alternativas (múltiplas) ou alters. Putnam (1989) afirma “não acreditar

que alguém saiba realmente o que seja uma alter” (p.103) 1. Já Braun (1986) diz “ser qualquer

personalidade ou fragmento [quase alter] emergente com exceção da personalidade host – aquela

que executa o comando do corpo durante um maior percentual de tempo num dado período”

(p.xiii). Para Haddock (2001), as alters são partes dissociadas do self capazes de agir de forma

independente ou de interagir conjuntamente. São partes porque compõem a individualidade do

sujeito, ou seja, o conjunto de suas personalidades.

Atualmente, explicações etiológicas focalizam questões traumáticas severas – sempre

presentes no transtorno, principalmente no período infantil – como sendo o principal fator

1
Todas as citações estrangeiras contidas nesta pesquisa foram traduzidas livremente pelo autor.
2

desencadeador da dissociação anormal da consciência, um mecanismo de defesa resultante de

agressões e abusos físicos-sexuais-psíquicos, responsável pelo encadeamento das emersões-

imersões das múltiplas personalidades. “Se uma pessoa for severamente traumatizada na infância

a ponto de não conseguir elaborar tal experiência, ela poderá dissociar para sobreviver. A DID é

resultante de grave dissociação, levando a criança a compartimentar da consciência partes de si

mesma, experienciando-as como separadas do ego” (Haddock, 2001, p.28). “O abuso infantil

explica a multiplicidade. A maioria dos múltiplos – termo pelo qual são conhecidos os pacientes

portadores de personalidade múltipla –, segundo teorização recente, entrou em dissociação na

infância” (Hacking, 1995, p.66).

Freud (1923/1996), também fez menção à personalidade múltipla:

(...) não podemos evitar conceder nossa atenção, por um momento mais, às identificações

objetais do ego. Se elas levam a melhor e se tornam numerosas demais, indevidamente

poderosas e incompatíveis umas com as outras, um resultado patológico não estará

distante. Pode ocorrer uma ruptura do ego, em conseqüência de as diferentes

identificações se tornarem separadas umas das outras através de resistências; talvez o

segredo dos casos daquilo que é descrito como ‘personalidade múltipla’ seja que as

diferentes identificações apoderam-se sucessivamente da consciência. Mesmo quando as

coisas não vão tão longe, permanece a questão dos conflitos entre as diversas

identificações em que o ego se separa, conflitos que, afinal de contas, não podem ser

descritos como inteiramente patológicos (Freud, 1923/1996, p.43).

Certos múltiplos apresentam alters que parecem destituídas de sintomas psicopatológicos

e que revelam ou manifestam uma organização estrutural própria. São inteligentes, com
3

características físicas, conhecimentos, habilidades, memórias e sentimentos distintos. Algumas

escrevem bilhetes, poesias, desenham, elaboram trabalhos manuais, e são capazes de falar ou

escrever em idiomas diferentes sem que a personalidade original – ou Original Personality,

aquela que se desenvolveu e se dividiu primeiramente, logo após o nascimento, permanecendo

separada do fluxo restante dos processos cognitivos (Braun, 1986) – tenha tido contato

consciente com a língua estrangeira em questão. Outras alters se apresentam doentes, violentas,

perversas e viciosas. Em muitos casos, o psiquismo parece imprimir interpretações sensoriais

diferenciadas no mesmo corpo físico, como cor, sexo e idade. Existem ainda alters que emergem

em estados oníricos e outras que afloram em pleno distúrbio neurológico. Nestes casos, um

psiquismo distinto parece moldar no corpo as interpretações psíquicas que traz quando de sua

emersão temporária. Ao submergir para as zonas do inconsciente, o corpo regulariza-se pelo

psiquismo da personalidade anterior, diluindo os sintomas aflorados provenientes da última

emersão, ou se ajusta a uma nova realidade caso passe a ser controlado por outra personalidade.

O medo da loucura é fator comum nos pacientes múltiplos. A liberação dos aspectos

traumáticos (ab-reações) objetivando processos de fusão e/ou integração – termos que podem ser

considerados sinônimos e equivalentes à amalgamação de duas ou mais alters (Ross, 1989) –

constitui a essência maior do tratamento científico atual, visto que dissolve o impacto do trauma

recalcado e, conseqüentemente, diminui ou cessa a dissociação da consciência.

Apesar da ascensão progressiva homologada pela ciência, a cura definitiva da

personalidade múltipla ainda não foi alcançada. No Brasil, ao contrário de outros países –

continente americano (Canadá, Estados Unidos e Argentina), europeu (Inglaterra, França,

Turquia, Suécia e Rússia), asiático (Israel e Japão), africano (África do Sul) e oceânico

(Austrália e Nova Zelândia) – o campo se apresenta insipiente. Não há congressos que abordem a
4

temática de forma específica, quase nada em termos de pesquisadores dedicados ao assunto e

nenhuma literatura científica original. Portanto, a relevância desta pesquisa justifica-se: pela

carência de informações científicas pertinentes ao tema no âmbito nacional; pela necessidade de

atualização da prática profissional; pela possibilidade de criar programas científico-acadêmicos

que se destinem às necessidades específicas dos pacientes diagnosticados com personalidade

múltipla. Além disso, tenciona despertar a atenção de pesquisadores para este assunto.

Com vista a introduzir essa questão, propomos discutir um caso clínico de personalidade

múltipla, fruto de nove anos de experiência do autor, abordando questões históricas,

sintomatológicas e psicodinâmicas, sobre os seguintes problemas:

1- Como explicar, na personalidade múltipla, a emersão-imersão de diversos estados de

consciência, ou de diversos “eus”, com diferentes habilidades, memórias e sentimentos,

compartilhando um único corpo? Ou seja, por que o sujeito apresenta-se dissociado,

fragmentado, quebrado, faltando nele uma associação cujas lembranças conscientes são

total ou parcialmente inexistentes?

2- Como é a organização estrutural interna do sujeito na personalidade múltipla? Ou seja,

além do plano sintomatológico que indicadores psicodinâmicos caracterizam a

personalidade múltipla?

3- Na personalidade múltipla, a integração das alters, ou dos “eus recalcados”, faz cessar ou

diminuir a dissociação da consciência devido aos processos de ab-reação? Ou,

inversamente, os processos de ab-reação diminuem ou cessam a dissociação da


5

consciência, integrando as alters e, conseqüentemente, resgatando a personalidade

fragmentada?

4- Como é o funcionamento dinâmico e como se dá o processo de elaboração psíquica na

personalidade múltipla?

Dentro do âmbito deste estudo de caso, o objetivo geral desta pesquisa é investigar a

personalidade múltipla e sua relação com o trauma e a dissociação da consciência. Como

objetivos específicos, temos: identificar os sinais e sintomas da personalidade múltipla; descrever

os aspectos traumáticos desencadeadores da personalidade múltipla; identificar e inter-relacionar

as múltiplas personalidades, bem como registrar as produções obtidas por cada uma delas;

descrever os aspectos da dissociação da consciência na personalidade múltipla; e, identificar a

relação entre trauma e dissociação na personalidade múltipla.

Colocadas estas questões, devemos descrever o plano deste trabalho. Esta pesquisa está

organizada em capítulos. No primeiro capítulo registramos a abordagem histórica da

personalidade múltipla selecionando dez casos clássicos do transtorno, devidamente

documentados cientificamente entre os séculos XVI e XX. Adicionalmente, em tópicos

específicos deste mesmo capítulo, apresentamos abordagens sindrômicas e psicodinâmicas do

transtorno. Em termos sindrômicos, enfocamos questões conceituais, diagnósticas,

sintomatológicas, epidemiológicas e etiológicas. Em termos psicodinâmicos, exploramos o

funcionamento da dinâmica psíquica nos múltiplos e fazemos um paralelo bifocal vinculando os

conceitos trauma-dissociação. No segundo capítulo explicamos o método de nossa pesquisa.

Inicialmente caracterizamos o estudo de caso. Posteriormente descrevemos o participante,


6

especificamos os instrumentos utilizados e mencionamos os procedimentos adotados para

alcançar os objetivos traçados. No terceiro capítulo expomos os resultados da pesquisa.

Revelamos informações sobre a história clínica preliminarmente obtida, narramos o processo

psicoterápico desde o seu início, descrevemos alguns relatos de sessões clínicas, mencionamos

aspectos sobre as alters e suas produções, registramos o resultado da Dissociative Experiences

Scale – Escala de Experiências Dissociativas, DES – obtido no ano de 2002, apresentamos os

produtos obtidos com O Teste das Pirâmides de Cores 2 (Pfister) e com o Teste de Apercepção

Temática (TAT), e, por fim, expomos os resultados obtidos com as entrevistas realizadas. No

quarto capítulo apresentamos as discussões dos resultados logrados, associando-as com os

objetivos propostos. Subseqüentemente, apresentamos as conclusões alcançadas, as referências

bibliográficas utilizadas e os anexos.

Tendo em vista tratar-se esta pesquisa de um caso raro de personalidade múltipla, não

havendo muita literatura científica no Brasil, vale a pena antecipar outros termos técnicos

utilizados neste estudo, relacionados com o transtorno apresentado:

a) Acionamento ou Trigger. Processo indireto, espontâneo ou induzido (provocado)

que faz emergir ou imergir uma personalidade. Também pode ser desencadeado por um litígio de

forças mentais entre duas ou mais personalidades que podem, ou não, fazer parte do psiquismo

da paciente (Haddock, 2001; Putnam, 1989; Ross, 1989).

b) Co-Consciência: é o processo de conhecimento unilateral, bilateral ou multilateral

entre as personalidades do psiquismo de uma paciente múltipla (Prince, 1905/1957).

2
Denominação adotada por Justo e Kolck (1976).
7

c) Fragmento: Uma parte do self que carece de uma gama emocional mais

significativa, ou de uma história de vida mais completa, como é o caso das alters. É quase uma

alter (Haddock, 2001).

d) Gap: São lacunas temporais da memória. Espaços de tempo não lineares quando

analisados sob a ótica da realidade concreta e psíquica de uma personalidade que compõe o

psiquismo de uma paciente múltipla (Braun, 1986; Haddock, 2001; Putnam, 1989; Ross, 1989).

e) Inner Self Helper (ISH): Uma fonte de orientação particular, um professor. Ou

seja, uma personalidade auxiliar que contribui com o terapeuta no tratamento da personalidade

múltipla (Allison, 1980).

f) Personalidade de Apresentação: Aquela que se apresenta primeiramente para o

tratamento psicoterápico. Pode ser a própria personalidade original, a personalidade host, uma

alter ou um fragmento (Braun, 1986).

g) Switch: Alternância que ocorre entre personalidades ou fragmentos, ocasionada

por processos de acionamento (Braun, 1986).

Devemos realçar que, para esta pesquisa, a personalidade original, a personalidade de

apresentação e a personalidade host equivalem a uma mesma personalidade, ou seja, a própria

paciente deste estudo de caso, Caroline. Da mesma forma, embora todas as demais

personalidades possuam identificações nominativas próprias – exceção para duas delas conforme

explicado ulteriormente –, enfatizamos tratar-se de contextos encapsulados num mesmo

psiquismo, ou seja, numa mesma individualidade. Assim, por exemplo, quando estivermos

falando de Dalva, Jennifer, Jane, Mayara Sandes, Helen, Elise, Ester e X, estaremos

mencionando personalidades contidas no psiquismo de Caroline.


8

Contribuir com o conhecimento científico na área da personalidade múltipla é projeto de

vida na vida do autor. Este trabalho é a gota d’água inicial...


9

CAPÍTULO I - CARACTERIZAÇÃO DA PERSONALIDADE MÚLTIPLA


E RELAÇÃO COM TRAUMA E DISSOCIAÇÃO
Não sendo possível identificar com exatidão a origem da personalidade múltipla na

história da humanidade, faz-se indispensável encontrar um foco no tempo para iniciar o que

representa a gota d’água de nossa contribuição. Desta forma, a seguir, apresentaremos dez casos

clássicos publicados na literatura científica da personalidade múltipla.

1.1- Casos Clássicos de Personalidade Múltipla

Iniciamos a nossa descrição na metade do século XVII, mais especificamente no ano de

1646, quando “Paracelso apresentou o primeiro caso de MPD envolvendo uma mulher que se

encontrava amnésica perante uma personalidade alternativa que roubou o dinheiro dela”

(Putnam, 1989, p.28).

Em contraposição, Ian Hacking (1991) acredita que o caso apresentado por Paracelso seja

de sonambulismo porque o termo “múltiplo” não era nem conhecido nem difundido naquela

época. Afirmou ele: “Eu gostaria de corrigir um mal-entendido extensamente repetido.... Como

Paracelso morreu em 1541, devemos explicar que houve um engano.... A história de Paracelso

deveria ter sido chamada um caso apropriado de sonambulismo” (p.138). Na visão de Hacking

(1995) o sonambulismo é visto como um precursor da personalidade múltipla.

Apesar da inexatidão dos registros temporais e da falta de consenso entre pesquisadores,

já no século XVI a personalidade múltipla entrava em voga nos meios científicos, embora com

nomenclatura diversa. Um maior consenso sobre o transtorno, com o rigor da ciência, somente

seria alcançado no século XX.

No final do século XVIII, em 1791, Eberhardt Gemelin publicou um caso de mudança de

personalidade. Ellenberger (1970) registrou o caso mencionando que no começo da Revolução


10

Francesa, em 1789, refugiados aristocráticos chegaram em Stuttgart. Impressionada com esta

visão, uma jovem mulher alemã, de vinte anos de idade, mudou repentinamente a própria

personalidade para os modos e maneiras de uma senhora francesa, imitando e falando o francês

perfeitamente e o alemão como se fosse uma francesa. Esses estados, de francês, repetiram-se.

Quando em sua personalidade francesa, a mulher tinha completa memória de tudo aquilo que

tinha dito e feito durante o estado francês anterior. Quando em sua personalidade alemã, ela nada

conhecia da sua personalidade francesa.

Este caso, descrito por Gemelin no final do século XVIII, vem consignar a personalidade

múltipla. Apesar de apresentar uma terminologia ainda pouco específica de mudança de

personalidade, evidencia a presença de um transtorno dissociativo já identificado nos meios

científicos vigentes. Importante frisar que outros autores consideram os registros de Gemelin

como sendo o primeiro caso científico de personalidade múltipla. Como exemplo, citamos Coons

(1986), mencionado mais adiante.

O histórico caso de Mary Reynolds, considerado um dos mais famosos de personalidade

múltipla, foi publicado pela primeira vez por John Kearsley Mitchell em 1815 e ampliado por

William S. Plumer em 1860 (Putnam, 1989). O caso foi mais popularizado com a publicação do

livro The Philosophy of Sleep (A Filosofia do Sono), escrito em 1830. Em 1889, Weir Mitchell

publicou a história de Mary Reynolds em livro mais completo intitulado Mary Reynolds: A Case

of Double Consciousness (Mary Reynolds: Um Caso de Dupla Consciência).

Ellenberger (1970) documentou este caso registrando que na primavera de 1811,

contando dezenove anos, Mary foi encontrada desacordada no campo parecendo ter perdido a

consciência. Recuperou-a brevemente, mas, permaneceu cega e surda durante cinco ou seis

semanas. Sua audição retornou repentinamente e sua visão foi restabelecida gradualmente. Três
11

meses depois, ela foi encontrada em sono profundo que durou muitas horas e do qual despertou

tendo perdido toda a memória e até mesmo o uso da fala. Posteriormente, em uma manhã,

acordou em seu estado natural expressando surpresa à mudança de estação, sem perceber que

algo anormal havia ocorrido com ela. Estas alterações de um estado para outro continuaram

durante quinze ou dezesseis anos. Finalmente cessaram quando ela alcançou trinta e cinco anos,

permanecendo em seu segundo estado sem mudança adicional até sua morte em 1854. As

diferenças entre as duas personalidades eram impressionantes. Em seu primeiro estado, Mary era

quieta, calma, pensativa, depressiva e destituída de imaginação. No segundo era alegre,

extravagante, apaixonada por diversão, com forte tendência para versos e rimas. As duas grafias

diferiam completamente. Cada estado sabia do outro e temia o retorno entre eles por razões

diferentes. Em seu segundo estado Mary considerava o primeiro como lerdo e estúpido. O

segundo estado causava maior preocupação à família pelo fato dela ficar inquieta e excêntrica.

Mary Reynolds também não passou despercebida de Jung (1993). Em tópico específico

relacionado com a mudança espontânea de caráter, ele a citou como sendo o primeiro caso

científico desta natureza:

(...) Encontram-se na literatura muitos casos que apresentam o sintoma de mudança

espontânea de caráter. O primeiro, conhecido através de publicação científica, é o de

Mary Reynolds, dado a público por WEIR MITCHELL. Ocorreu com uma jovem

senhora que morava, em 1811, na Pensilvânia. Após um sono profundo que durou cerca

de 20 horas, havia esquecido completamente todo o seu passado e tudo o que aprendera;

inclusive as palavras que pronunciava haviam perdido seu sentido. Não mais conhecia os

parentes. Aos poucos foi aprendendo novamente a ler e escrever, mas escrevia da direita

para a esquerda. O mais notável, porém, foi a mudança de seu caráter: ‘Em vez de
12

melancólica, agora era jovial ao extremo. Em vez de reservada, era animada e social.

Antes era taciturna e retraída, agora alegre e jocosa. Sua atitude estava total e

absolutamente mudada.... Depois de cinco semanas e após outro sono profundo, voltou ao

estado primitivo, com amnésia quanto a este intervalo. Estes estados se alternaram

durante 16 anos aproximadamente. Os últimos 25 anos, porém, Mary Reynolds os passou

exclusivamente em seu segundo estado (pp.70-71).

Coons (1986) corrobora a seqüência histórica do nosso percurso acrescentando um novo e

fundamental ingrediente ao tema, o abuso infantil, físico ou psíquico, ambos traumáticos. Na

opinião dele, o primeiro caso de múltiplo foi descrito por Eberhardt Gmelin em 1791, enquanto

que o primeiro caso americano, Mary Reynolds, foi registrado em 1815. Enfatizou ainda que a

ligação da personalidade múltipla com o abuso infantil não foi largamente reconhecida até a

publicação de Sybil em 1973.

Hacking (1995) homologa Coons (1986) ao dizer que o abuso infantil explica a

multiplicidade. Segundo ele, essa foi a forma que os múltiplos encontraram para enfrentar o

terror e o sofrimento, geralmente acompanhados de abuso sexual. Neste ponto, enfatizamos a

presença do trauma na infância como fator etiológico determinante no desencadeamento da

personalidade múltipla.

Para Ellenberger (1970), genuinamente, o primeiro estudo objetivo de personalidade

múltipla foi inaugurado na França, em 1836, por Antoine Despine, com a publicação da história

de Estelle L’Hardy, sob a forma de monografia.

Estelle tinha onze anos quando chamou a atenção de Despine. Ellenberger (1970)

registrou que ela era absorvida em devaneios e visões fantásticas, e que esqueceu de um

momento para outro tudo aquilo que estava acontecendo ao seu redor. Sua mãe contou para
13

Despine que Estelle era confortada todas as noites por um coro de anjos, e que durante o sono a

menina prescrevia o próprio tratamento e dieta. Revelou que um anjo consolador aparecia em seu

sono a quem Estelle nomeou de Angeline, e com quem se ocupava em animada conversação. Era

Angeline quem dirigia o tratamento junto a Despine. No início de 1837 Estelle começou a

conduzir uma vida dupla. Em seu estado normal estava paralisada. O movimento mais leve lhe

causava dor intolerável. Amava sua mãe e exigia a presença dela constantemente. Entretanto, no

estado segundo era capaz de caminhar e não tolerava a presença da genitora. Começou

espontaneamente a entrar em estados segundos que se alternavam com o estado normal. A

integração gradual dos dois estados, normal e segundo, aconteceu lentamente. Em junho de 1837

a paciente foi liberada do tratamento. Uma faceta interessante da história de Estelle é a maneira

pela qual a cura foi alcançada. A condição normal dela era de fato a patológica, enquanto que a

condição anormal era a saudável. Despine trouxe esta última para um desenvolvimento pleno

realizando a fusão entre as duas condições e fazendo com que a personalidade saudável

assumisse o controle. Após sua cura, ela passou a maior parte da vida na França. Casou-se em Le

Havre e lá morreu no dia 15 de dezembro de 1862, sem deixar herdeiros.

Fator importantíssimo a ser enfatizado neste caso é que o tratamento de Despine foi

concluído com êxito. A paciente ficou curada e conseguiu desenvolver sua vida com

normalidade a partir de então. Enfaticamente, a personalidade múltipla tinha solução e esta foi

alcançada em 1837 com a integração de dois estados de consciência. Conforme descrito, Estelle

viveu por mais 25 anos com ausência de sintomas, sem recidivas.

Outro ponto não menos importante refere-se a “Angeline”, a personalidade que

direcionou o tratamento de Estelle, conduzindo diretrizes homologadas por Despine. Ela

representa, como definido pela literatura atual, o Inner Self Helper de Allison (1980), ou seja,
14

uma personalidade auxiliar que contribui com o terapeuta no tratamento da personalidade

múltipla. Ou ainda, a

(...) personalidade racional (...), o Hidden Observer ou “observador oculto” (...), que

anota tudo o que acontece com as outras personalidades e que pode ser consultado pelo

terapeuta (Berlinck, Birman, Kahn, & Jacobsen, 1997, p.66).

Além das duas condições especificadas por Despine, Angeline representaria uma outra,

devido à multiplicidade de estados, caracterizando o próprio transtorno dissociativo da

personalidade múltipla.

Um terceiro e último aspecto interpretativo é que Despine considerou as personalidades

ou estados conscienciais como sendo pessoas autônomas e distintas. Curiosamente, e de forma

similar, Ross (1994) chegou à mesma conclusão em caso específico ao fazer as seguintes

considerações: “Trabalhamos com elas [com as alters] como se fossem, literalmente, duas

pessoas distintas que tivessem assuntos não resolvidos entre si.... Penso que alcançamos um

correto equilíbrio no tratamento... e uma integração estável” (p.96).

Segundo Hacking (1995), um outro caso clássico de personalidade múltipla, descrito por

Jules Voisin em julho de 1885, refere-se ao paciente francês Louis Vivet que apresentou oito

estados distintos de personalidade, além de um grande número de estados fragmentários. A

expressão “múltipla personalidade” apareceu na Inglaterra em 1886 explicitamente para

descrevê-lo. Ele nasceu em Paris, em fevereiro de 1863. Era filho de uma prostituta alcoólatra

que o espancava e não lhe dava atenção. Em outubro de 1871 foi acusado de ter roubado algumas

roupas sendo mandado para um reformatório. Depois de quase dois anos foi transferido para uma
15

colônia penal agrícola no noroeste da França. Foi solto em 1881, aos dezoito anos de idade.

Tinha longas crises. Foi sujeito a uma estranha variedade de tratamentos, inclusive magnetos em

várias partes do corpo. Cada composto metálico produzia um estado de personalidade,

relacionado com um sintoma somático distinto e com memórias específicas de um segmento de

vida. Vivet permitiu ser fotografado em seus estados anormais, ditos estados nervosos.

Faure, Kersten, Dinet e Onno (1997), corroborando Hacking (1995), registraram que “o

paciente francês Louis Vivet foi o primeiro a ser explicitamente nomeado como de personalidade

múltipla no final do século XIX” (p.104).

A questão traumática e a dissociação, características proeminentes dos múltiplos, são

muito fortes em Vivet. No que se refere à questão traumática, praticamente toda a sua vida foi

desenrolada com experiências violentas e insatisfatórias. Várias fontes em Vivet indicam que,

desde cedo, ele foi exposto a experiências de vida extremamente opressivas, incluindo abuso

físico, negligência severa, tresvarios, abandono, desamparo e prisão (Faure e cols., 1997).

Um outro clássico que tornou a personalidade múltipla mais conhecida, embora não se

trate de um caso clínico propriamente dito, foi o conto intitulado The Strange Case of Dr Jekyll

and Mr. Hyde, escrito pelo escocês Robert Louis Stevenson, em 1886.

Na história narrada, o doutor Jekyll é um homem normal e respeitado, de conduta

exemplar. Seu monstruoso alter ego, Sr. Hyde – condição segunda –, é uma personalidade

hedonista, cruel, irresponsável, que busca os prazeres carnais. O doutor Jekyll objetivava

permitir a transmutação entre os dois estados ou condições para explicar a convivência do bem e

do mal dentro do ser humano. Porém, dividido e perdendo de forma crescente o controle e o

domínio do segundo estado, ele procura desesperadamente uma forma de resolver o impasse. Ao

mesmo tempo, é cobaia das experiências – realizadas com drogas sintéticas auto-aplicáveis –
16

sem conhecer o alcance dos experimentos. Subjugado pela própria invenção, sem poder refreá-la,

escraviza-se e sucumbe. O autor sintetiza o drama da duplicidade da seguinte forma:

(...) Desse dia em diante me pareceu que somente com um grande esforço, como a

ginástica, e somente sob o estímulo da droga, eu conseguiria manter o aspecto de Jekyll.

A qualquer hora do dia ou da noite, eu era tomado pelos prenúncios da transformação.

Quando eu dormia, ou mesmo se apenas cochilasse um momento em minha cadeira, era

como Hyde que eu despertava (Stevenson, 1886/1989, p.98).

O clássico de Stevenson possui adaptações para o cinema e o teatro. É conhecido no

Brasil como O Médico e o Monstro. A sua relação com a personalidade múltipla não passou

despercebida do meio científico.

Ellenberger (1970), por exemplo, registrou que não menos numerosos foram os romances

inspirados pelo tópico da personalidade múltipla. O maior empreendimento desse tipo de

literatura foi provavelmente o conto de Stevenson, de especial interesse devido à maneira pela

qual foi concebido e escrito. Stevenson declarou ter, durante os anos, desenvolvido uma intensa

vida onírica. Em seus sonhos pequenas pessoas vinham até ele e sugestionavam idéias para os

seus romances. Ele acrescentou que muitos detalhes da história contida no clássico mencionado

foram ditados por essas pequenas pessoas.

O livro de Stevenson abriu campo para uma série de discussões e investigações ainda

inconclusas ligadas à personalidade múltipla, mais especificamente, relacionadas com a questão

da psicofarmacologia. Como já descrevemos antes, muitas alters apresentam sintomatologia

própria, não sentida ou percebida nem pela personalidade original, nem pela personalidade host,

nem pela personalidade de apresentação, ou até mesmo, por outras alters que compõem o
17

psiquismo do paciente. Além disso, o que particularmente chamamos atenção aqui é a ingestão

dos medicamentos prescritos e dos efeitos colaterais dos mesmos, que apresentam ressonância

similar entre as personalidades, podendo, também, afetar seus componentes orgânico-psíquicos

de forma diferenciada (Putnam, 1989; Ross, 1989).

Em 1887, um novo caso foi documentado no meio científico. Eugène Azam publicou um

livro intitulado Hypnotisme, doubleconscience et altérations de la personnalité (Hipnotismo,

dupla consciência e alterações da personalidade), prefaciado por Charcot. Conforme registrado

em Ellenberger (1970), de 1858 a 1893 Azam estudou e acompanhou intermitentemente Félida,

paciente a qual ele cunhou o termo dédoublement de la personnalité [desdobramento da

personalidade].

Hacking (1995), referenciando Félida, enfatizou a questão sintomatológica ao registrar

que a maioria dos casos de desdobramento tinham grotescos problemas corporais. Os mais

dramáticos eram as anestesias e paralisias de partes do corpo, tremores e anomalias dos sentidos,

como restrição de visão, perda de paladar ou olfato. Tais queixas não tinham causa orgânica,

física ou neurológica conhecida.

Ellenberger (1970), citando o próprio Azam, também mencionou que Félida era uma

menina mal-humorada e taciturna. Constantemente se queixava de dores de cabeça e nevralgias.

Quase diariamente tinha uma crise. Repentinamente sentia uma dor aguda nas têmporas

entrando, posteriormente, num estado letárgico por alguns minutos. Quando despertava, era uma

pessoa completamente diferente, alegre, vivaz, as vezes soberba, e livre de doenças. Esta

condição normalmente durava algumas horas e resultava num curto estado letárgico do qual

retornava à personalidade ordinária. Azam declarou que em sua condição normal, Félida era de

inteligência comum, mas que se tornava brilhante na condição secundária. Nesta última, era bem
18

consciente não somente da condição secundária prévia, mas também sobre toda a sua vida. Em

seu estado normal nada conhecia de sua condição secundária exceto o que os outros lhe

contavam. Menos freqüentemente Félida tinha outro tipo de crise o qual Azam chamou de sua

terceira condição: terrível ansiedade com alucinações amedrontadoras.

Hacking (1995), levantando informações sobre a vida de Félida, assinalou que ela, em

1859, tinha um namorado e que ficou grávida no segundo estado sentindo-se contente. No

primeiro estado negava a gravidez. Azam perdeu contato com Félida durante dezesseis anos. Em

1875 ela passava até três meses alegre, no segundo estado, que aos poucos foi se tornando o seu

estado normal. Ao longo do tempo o segundo estado tornou-se o normal, e o anterior ficou cada

vez mais raro. Quando mais velha, o seu estado original havia praticamente desaparecido.

Porém, infelizmente, ela se tornou insuportável. Considerava-se incurável. Tentou suicídio ao

supor que seu marido tinha uma amante.

É importante assentar às dificuldades de um padrão terminológico precário na época de

Félida. O próprio livro de Azam parece conter uma imprecisão no título, visto que o caso em

questão não é de dupla consciência, mas sim, de consciência múltipla. Além das condições

primeira e segunda, pelo menos mais uma, a condição terceira, foi detectada no psiquismo de

Félida conforme descrição feita pelo próprio autor.

Indubitavelmente, foi Sigmund Freud juntamente com Joseph Breuer quem melhor

descreveu a personalidade múltipla no passado segundo os critérios diagnósticos do presente,

registrando explicações minuciosas vinculadas à dissociação mental:

(...) Num mesmo indivíduo são possíveis vários agrupamentos mentais que podem ficar

mais ou menos independentes entre si, sem que um ‘nada saiba’ do outro, e que podem se
19

alternar entre si em sua emersão à consciência. Casos destes, também ocasionalmente,

aparecem de forma espontânea, sendo então descritos como exemplos de ‘double

consciente’. Quando nessa divisão da personalidade a consciência fica constantemente

ligada a um desses dois estados, chama-se esse o estado mental ‘conscience’ e o que dela

permanece separado o ‘inconsciente’ (Freud, 1910 [1909]/1996, p.35).

Os termos dupla consciência, double consciente, divisão da personalidade, divisão da

mente, divisão da consciência, divisão psíquica, splitting da mente, dissociação mental,

dissociação psíquica, dissociação da consciência e absence foram todos utilizados por Freud no

âmbito de sua obra.

Anna O, por exemplo, caso clássico descrito minuciosamente por Freud e Breuer (1893-

1895/1996), é de grande proximidade com os múltiplos. Ela foi apresentada como sendo uma

pessoa que possuía um intelecto poderoso e grandes dotes poéticos que estavam sob o controle

de um agudo e crítico bom senso. Imaginava-se vivendo contos de fada e entregava-se a

devaneios sistemáticos descritos como sendo o seu teatro particular. A sua noção de sexualidade

era surpreendentemente não desenvolvida. Além disso, conseguia ler em francês e italiano,

escrevia com a mão esquerda e empregava letra de forma romana. Os seus diferentes distúrbios

da visão e da audição, as nevralgias, tosses e tremores foram removidos pela fala.

Posteriormente, enfatizando questões vinculadas com mudanças de caráter, características

também encontradas nos múltiplos, Freud (1910 [1909]/1996) registrou que Anna O “(...) exibia,

ao lado de seu estado normal, vários outros de ‘absence’, confusão e alterações do caráter”

(p.35).
20

Alterações diagnósticas não são incomuns no meio científico. Atualmente é relativamente

comum colocar em questão se clientes de Freud são propriamente aquilo que o próprio Freud

dizia que eram (Berlinck e cols., 1997).

Ross (1989), por exemplo, menciona que possivelmente Anna O tinha personalidade

múltipla. Ele justifica a sua opinião citando um trecho de Ernest Jones: “Mais interessante,

porém, era a presença de dois estados distintos de consciência: um bastante normal, o outro de

uma criança malcriada e problemática. (...) Era assim, um caso de dupla personalidade” (pp.31-

32). Ele também cita um excerto do psicanalista contemporâneo Walter Stewart para corroborar

um pouco mais a sua idéia:

(...) [Anna o] desenvolveu uma dupla personalidade. No estado normal, era orientada,

embora, deprimida e ansiosa. Na condição segunda, era abusiva, rebelde, mal-humorada,

e malcriada. A divisão da personalidade era uma tentativa de isolar o aspecto raivoso do

caráter dela (Ross, 1989, p.32).

Ross (1989) realça ainda a possibilidade da multiplicidade de Anna O quando enfatiza ser

ela um caso de tripla personalidade. Conforme mostrado a seguir, ele utiliza as próprias palavras

de Freud e Breuer para exemplificar a sua argumentação:

Não obstante, embora seus dois estados fossem assim nitidamente separados, não só o

estado secundário invadia o primeiro, como também (...) um observador lúcido e calmo

ficava sentado, conforme ela dizia, num canto de seu cérebro, contemplando toda aquela

loucura a seu redor (Breuer & Freud, 1893-1895/1996, p.80).


21

Apesar de alguns pesquisadores outorgarem-se como autoridades pessoais para modificar

diagnósticos clínicos, pretéritos ou atuais, comparando questões sintomatológicas ou

psicodinâmicas, essencial destacar a possibilidade de divergências consensuais, sem que

estejamos pretendendo tomar partido de uns em detrimento de outros. Apenas, tencionamos

registrar interpretações diversificadas de cientistas, contemporâneos ou não.

O caso Hélène Smith, cujo verdadeiro nome era Élise-Catherine Müller, foi publicado

pela primeira vez em 1899. Encontra-se registrado no livro intitulado From India to the Planet

Mars: A Study of a Case of Somnambulism with Glossolalia (Das Índias ao Planeta Marte: Um

Estudo de Caso de Sonambulismo com Glossolalia), escrito por Théodore Flournoy, prefaciado

por C. G. Jung.

Um conceito pioneiro que Flournoy fez uso em seu estudo, diretamente ligado à

problemática da personalidade múltipla, foi o de criptomnésia ou memória escondida. Disse ele:

“Para mim, criptomnésia representa o reaparecimento de certas recordações já esquecidas pelo

sujeito, que acredita ver nelas algo novo” (Flournoy, 1899/1994, p.8).

Interessante registrar que as edições atuais do clássico de Flournoy, dando ênfase ao

contexto contemporâneo, numa tentativa de ajuste de nomenclatura, têm título modificado. Nas

novas versões, o livro está denominado From India to Planet Mars: A Case of Multiple

Personality with Imaginary Languages (Das Índias ao Planeta Marte: Um Caso de Personalidade

Múltipla com Linguagens Imaginárias). Então, o que antes era tido como um misto de

sonambulismo e glossolalia – fenômeno caracterizado pelo comportamento de certos indivíduos

que começam, espontaneamente, a falar línguas desconhecidas, tidas como frutos de dom divino,

mas que, geralmente, são línguas inexistentes (Ferreira, 1999) – passou a ser reconhecido como

um caso de personalidade múltipla e linguagens imaginárias. O fenômeno da glossolalia é muito


22

próximo de outro, denominado xenoglossia, fala espontânea em língua(s) que não foi/foram

previamente aprendida(s) (Ferreira, 1999), podendo fazer parte do quadro característico dos

múltiplos, não somente verbalizando em línguas diversas, como também fazendo uso da escrita.

Tais ocorrências tornam a personalidade múltipla mais enigmática, visto que alguns fatos são

testemunhados com explicações científicas ainda insatisfatórias. Afinal, como pode alguém falar

ou escrever em línguas diversas sem nunca ter aprendido tais conhecimentos? Como explicar

várias alters escrevendo espontaneamente com caligrafias tão distintas e diversificadas entre si?

Hélène Smith fez uso de uma misteriosa linguagem cifrada para falar de Marte. Flournoy

achava que essas palavras chamadas “marcianas” eram provenientes do inconsciente dela. A

seguir, como mostrado nas Figuras 1 e 2, exemplos ilustrativos de uma correspondência

alfabética e de um texto produzidos por Hélène Smith:

Figura 1. Alfabeto marciano de Hélène Smith.

Figura 2. Texto marciano escrito por Hélène Smith.


23

O exemplo de correspondência alfabética mostrado na Figura 1, bem como o texto

marciano exibido na Figura 2 (Flournoy, 1899/1994, pp.130-131), são fatos significativos

vinculados a casos raros de personalidade múltipla, inclusive, envolvendo mudanças de

caligrafia. Trazemos estas ilustrações porque Caroline, sujeito do estudo de caso desta pesquisa,

apresenta aspecto semelhante relacionado com Dalva, uma de suas alters, discutido

detalhadamente mais adiante.

O estudo de Flournoy está estruturado em três grandes grupos ou eixos temáticos aos

quais denominou ciclos. O primeiro, ciclo marciano. O segundo, ciclo hindu. O terceiro e último,

ciclo real. O título do livro se justifica indo das Índias – relativo ao hinduísmo –, ao contexto

verbo-gráfico-marciano, planeta marte, na linguagem de Hélène Smith.

Interessante atentar para uma similaridade com o caso de Estelle L’Hardy. Assim como

esta última apresentava uma personalidade (Angeline) atuante em seu contexto, interagindo-se

diretamente com Despine, Hélène Smith também tinha uma personalidade (Léopold) que

participava de seu contexto interagindo-se com Flournoy. Um capítulo inteiro foi dedicado ao

estudo de Léopold, fato que comprova a importância desta personalidade para o autor. Tais

questões, conforme descrito anteriormente, ligam-se ao chamado ISH, termo cunhado pelo

psiquiatra Ralph B. Allison na década de 1970.

Para finalizar este caso, importante registrarmos duas citações. A primeira atesta certa

característica de normalidade encontrada em Hélène Smith:

Eu estava a ponto de dizer que no estado natural Mlle. Smith é normal. Certas dúvidas me

contêm, e eu me corrijo dizendo que em seu estado ordinário, ela se parece com qualquer

outra pessoa. Com isto quero dizer que afora as lacunas que as emersões espontâneas de

automatismo fazem na vida dela, ninguém suspeitaria, enquanto observando o seu


24

desempenho nas várias tarefas (ou falando com ela sobre todo tipo de assunto), de tudo

que ela é capaz de realizar em seus estados anormais, ou os curiosos tesouros escondidos

nos seus estratos subliminais (Flournoy, 1899/1994, p.31).

A segunda citação relaciona-se com a personalidade Léopold que, em termos hodiernos,

pode ser considerada um ISH. Trata-se de um trecho escrito pelo próprio Flournoy (1899/1994),

também registrado por outro autor conforme mostrado a seguir:

Trata-se de um estado de consciência sui generis, impossível de descrever

adequadamente, que somente pode ser representado pela analogia destes estados curiosos,

excepcionais na vida de vigília normal, mas menos raro em sonhos quando a pessoa

parece mudar de identidade e se torna outra pessoa. Hélène, mais de uma vez, contou ter

tido a impressão de se tornar ou se sentir momentaneamente Leopold. Isto acontece mais

freqüentemente à noite, ou ao despertar pela manhã. Ela tem, inicialmente, uma visão

fugidia do protetor. Então, parece que pouco a pouco ele é submerso nela; ela o sente

dominando e penetrando o seu organismo inteiro, como se ele realmente se tornasse ela

ou ela ele (Flournoy apud Ellenberger, 1970, p.132).

Christine L. Beauchamp, pseudônimo, representa um outro caso clássico de

personalidade múltipla, publicado originalmente por Prince (1905/1957).

Ellenberger (1970) registra que Christine Beauchamp, nascida em 1875, tinha vinte e três

anos quando Morton Prince se familiarizou com ela em 1898. Naquele momento, era uma

estudante da faculdade de New England, uma pessoa educada, muito tímida que passava todo o

tempo lendo livros. Tinha um alto senso do dever. Era diligente, escrupulosa, orgulhosa e
25

reservada. Mostrava uma reticência mórbida para falar sobre si mesma. Sofria dores de cabeça,

cansaço, e uma inibição da vontade, razão porque Prince foi consultado. Prince sabia que a

senhorita Beauchamp tinha perdido a mãe aos treze anos. Estava sempre infeliz em casa. Tinha

sofrido traumas na adolescência, a ponto de fugir de casa em algumas ocasiões. Objetivando

aliviá-la dos sofrimentos Prince experimentou hipnotizá-la. Conseguiu com facilidade. Foi

surpreendido ao notar que, quando hipnotizada, ela exibia dois estados diferentes o qual chamou

B II e B III, dando à personalidade desperta o nome de B I. Considerando que B II era a própria

senhorita Beauchamp reforçada, B III era totalmente o oposto: alegre, vivaz, despreocupada,

rebelde, gaguejando freqüentemente. B I, senhorita Beauchamp em seu estado normal, nada

conhecia das suas duas subpersonalidades. B II conhecia B I, mas não conhecia B III. Por outro

lado, B III, a quem Prince chamou de Chris, escolheu o nome Sally. Ela mostrou desprezo e

desdém por B I a qual achava estúpida. Sally não tinha a cultura da senhorita Beauchamp e não

falava francês. Não demorou muito, Sally manifestou sua existência indiretamente na vida da

senhorita Beauchamp sugerindo palavras e atitudes grosseiras. Foi uma maneira de mostrar-se.

Alguns meses depois, Sally entrou diretamente em cena na forma de uma personalidade

alternativa pública que conhecia tudo sobre a vida da senhorita Beauchamp, enquanto que esta

última era deixada constantemente confundida e embaraçada, nunca sabendo sobre as

brincadeiras constrangedoras que eram feitas com ela de tempos em tempos. Posteriormente,

uma nova personalidade emergiu, B IV, a Idiota. Parecia ser uma personalidade regressiva.

Prince descobriu que a senhorita Beauchamp também tinha sofrido um choque nervoso aos

dezoito anos de idade. Ele obteve sucesso conseguindo integrar todas estas personalidades numa

só, a verdadeira senhorita Beauchamp.


26

Segundo o próprio Prince (1905/1957), várias personalidades se desenvolveram na

senhorita Beauchamp. Na visão dele, tratava-se de um caso de personalidade desintegrada, ou

múltipla, visto que cada personalidade secundária era somente uma parte de um ego normal e

inteiro. A paciente mudava de personalidade de vez em quando, freqüentemente de hora em

hora, e em cada mudança seu caráter era transformado e suas recordações alteradas. Além da

realidade original ou do self normal, o self nascido, o qual ela planejava naturalmente ser, podia

ser qualquer uma dentre três pessoas diferentes. Embora fazendo uso de um mesmo corpo, cada

personalidade possuía características distintas. Uma diferença manifestada por diferentes traços

de pensamento, por diferentes pontos de vista, diferentes convicções, ideais e temperamentos, e

por diferentes aquisições, gostos, hábitos, experiências e recordações. Todas as personalidades

variavam nestes aspectos umas das outras, e da original senhorita Beauchamp. Duas delas não

tinham nenhum conhecimento uma da outra ou da terceira. Na memória de cada uma delas havia

ausências correspondentes aos períodos em que as outras estavam em ação. Repentinamente,

uma ou outra personalidade acordava, deparando-se, sem saber onde estava, ignorando o que

tinha dito ou feito em momentos anteriores. Somente uma das três tinha conhecimento da vida

das outras, apresentando caráter estranho removido das demais em termos de individualidade. As

personalidades iam e vinham numa sucessão rápida e cambiante, nem sempre biunívoca. Às

vezes, B I imergia e B II emergia. Em seguida, B II imergia e B III emergia controlando o corpo.

Posteriormente, esta última adormecia e B I ressurgia dominando novamente o corpo com

vontade própria. Acontecia que a senhorita Beauchamp, em um momento dizia, fazia e planejava

organizar algo para o qual pouco tempo antes contestava fortemente, favorecia gostos que num

momento atrás teria sido detestável aos seus ideais, e desfazia ou destruía o que antes havia

organizado e planejado laboriosamente. A senhorita Beauchamp era um verdadeiro exemplo da


27

criação imaginária de Stevenson, a representação alegórica do lado mau da natureza humana. A

divisão da personalidade era paralelamente intelectual e temperamental.

Prince (1905/1957) foi também quem cunhou o termo co-consciência, registrando que

duas alters podem estar à par uma da outra. Conforme mencionado, ele também foi inovador em

termos de sugestões para alterações de nomenclatura. Embora tenha reconhecido o termo

personalidade múltipla, ele propôs outro, personalidade desintegrada, enfatizando uma separação

da personalidade em diversas partes, uma desagregação ou fragmentação do self que necessitava

ser fundida ou (re)integrada.

Certamente, muitos outros clássicos envolvendo traumas, dissociações e possivelmente a

personalidade múltipla poderiam ser mencionados, tais como: Léonie, paciente cujo caso está

documentado em Janet (1889); Eva, história registrada em Sizemore (1978), que se transformou

num clássico do cinema tendo Joanne Woodward desempenhado o papel principal e ganhado o

Oscar de melhor atriz de Hollywood, em 1957; Sybil, paciente da psicanalista Cornelia B.

Wilbur, descrita em Schreiber (1973), cujo quadro clínico apresentou uma hierarquia contendo

dezesseis personalidades; Henry Hawksworth, paciente múltiplo documentado por Schwarz

(1977); Billy Milligan, serial killer que apresentou vinte e quatro personalidades distintas

identificadas em seu psiquismo e cujo caso está registrado em Keyes (1981).

Não há como identificar precisamente qual foi ou tenha sido o primeiro caso de

personalidade múltipla ao longo da história, que “em vez de estática e estagnada, é dinâmica, em

constante mutação e crescimento; que está sendo aprimorada ou aperfeiçoada sempre que novos

dados são descobertos e concepções errôneas são corrigidas” (Schultz & Schultz, 1992, p.24).

Para finalizar este histórico, gostaríamos de destacar aspectos comuns e incomuns entre

os dez clássicos citados e o estudo de caso pesquisado. Primeiramente, devemos enfatizar que os
28

exemplos científicos apresentados assestam para questões dissociativas e traumáticas vinculadas

à personalidade múltipla. Há mudanças de personalidade, com modificações no curso do

pensamento e da linguagem, registros de alterações mnêmicas, conscienciais e biológicas. Além

disso, mudanças de caráter, de caligrafia, de temperamento e de humor. Adicionalmente, há o

reconhecimento de ISH’s auxiliando os profissionais nos tratamentos biopsicológicos. As

histórias de vida possuem conteúdos dramáticos, com teor elevado de sofrimentos traumáticos.

Algumas alters apresentam fatores cognitivos superiores à personalidade host, bem como hábitos

e costumes diferenciados. O mecanismo de co-consciência e alterações fisiológicas devido a

efeitos colaterais farmacológicos estão presentes em alguns casos.

Conforme mencionado ulteriormente, há uma importante correspondência entre os casos

de Hélèn Smith e de Caroline relacionado com o registro de mensagens iconográficas. Vale

preparar o leitor para um fator exclusivo vinculado ao caso Caroline, resultante da presença de

uma alter (Jennifer), descrita também em tópico ulterior, cuja emersão sempre ocorre em

realidade onírica, diferente da realidade psíquica das demais personalidades, sempre em estados

de vigília.

Necessário, à vista disso, iniciar nova etapa de nossa pesquisa. Uma vez encerrada a

descrição dos principais casos de personalidade múltipla registrados no decorrer da história,

passaremos agora às abordagens sindrômicas (definições, classificações e critérios diagnósticos

atuais, sintomatologia, epidemiologia e etiologia) e psicodinâmicas (funcionamento da dinâmica

psíquica, trauma e dissociação) do transtorno onde retomaremos alguns aspectos contidos no

histórico apresentado.
29

1.2- Definições

A definição citada logo abaixo, retirada de Berlinck e cols. (1997), foi elaborada por

Braun em 1979. Em outro momento, este último autor definiu a personalidade múltipla “como

sendo a demonstração, em uma pessoa, de duas ou mais personalidades, cada uma das quais

possuindo identificação particular, características contínuas e histórias de vida separadas

individualmente” (Braun, 1986, pp.xi-xii).

(...) Um ser humano que apresenta duas ou mais personalidades munidas de

características identificáveis, permanentes e distintas, tendo, cada uma, lembranças

relativamente independentes.... Para o diagnóstico da Personalidade Múltipla, é

necessário também que se possa observar um controle do corpo por uma personalidade

diferente (switching).... A personalidade-anfitriã [host] com freqüência tem ausências,

amnésias ou lapsos de memória. Pode ou não acontecer o mesmo com as demais

personalidades (Berlinck & cols., 1997, pp.64-65).

Para Ross (1994), a personalidade múltipla é “uma pequena menina imaginando que o

abuso aconteceu com outra pessoa” (p. vii). Já para Putnam (1989) a personalidade múltipla

“representa o ponto final das desordens dissociativas.... É ainda uma das condições mentais mais

surpreendentes e incomuns conhecidas. A existência de estados autônomos de personalidades

alternativas, alternando periodicamente no controle do corpo, é fator gerador de intensa

fascinação” (p.26).

Infere-se que novas definições, novas idéias, novos entendimentos e teorias diversificadas

para a personalidade múltipla irão existir. Comumente, a obra de cientistas, filósofos e eruditos é

muitas vezes ignorada ou negada num dado período de tempo, apenas para ser reconhecida
30

posteriormente. Tais ocorrências implicam que a época determina se uma idéia vai ser seguida

ou desprezada, enaltecida ou esquecida. A história científica está repleta de exemplos de rejeição

a novas descobertas e percepções. Mesmo os maiores intelectos foram constrangidos pelo fator

contextual denominado Zeitgeist, o espírito ou clima intelectual de uma época. A aceitação e a

aplicação de uma descoberta pode ser limitada pelo padrão dominante de pensamento de uma

cultura, de uma região ou de uma época, mas uma idéia excessivamente nova para ser aceita num

dado período pode sê-lo prontamente uma geração ou um século depois. A mudança vagarosa

parece ser a regra da evolução científica (Schultz & Schultz, 1992).

1.3- Classificações e Critérios Diagnósticos Atuais

Atualmente, existem duas classificações padronizadas e amplamente utilizadas de doença

mental. A primeira refere-se à chamada Classificação Internacional de Doenças, publicada pela

Organização Mundial de Saúde, em Genebra. Em sua décima atualização, chamada CID-10

(1993), a personalidade múltipla está catalogada com o código F44.8 Outros transtornos

dissociativos [de conversão], um subtópico do código F44 Transtornos dissociativos [de

conversão]. A segunda, não menos importante que a anterior, é o Diagnostic and Statistical

Manual of Mental Disorders (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, DSM),

autorizado pela Associação Americana de Psiquiatria.

Em 1980, na terceira atualização do DSM, pela primeira vez foram organizados critérios

específicos para a personalidade múltipla, tornando-a um diagnóstico oficial da Associação

Americana de Psiquiatria. Atualmente, o DSM encontra-se em sua quarta atualização revisada,

de 2003, que estabeleceu, como mostrado na Tabela 1, os seguintes critérios diagnósticos para a

personalidade múltipla, enquadrada dentro da categoria dos Transtornos Dissociativos:


31

Tabela 1. Critérios diagnósticos para a personalidade múltipla (Código 300.14).

A. Presença de duas ou mais identidades ou estados de personalidade distintos (cada qual com
seu próprio padrão relativamente persistente de percepção, relacionamento e pensamento
acerca do ambiente e de si mesmo).

B. No mínimo duas dessas identidades ou estados de personalidade assumem recorrentemente


o controle do comportamento da pessoa.

C. Incapacidade de recordar informações pessoais importantes, demasiadamente extensas para


ser explicada pelo esquecimento comum.

D. A perturbação não se deve aos efeitos fisiológicos diretos de uma substância (por ex.,
apagões ou comportamento caótico durante a intoxicação com álcool) ou de uma condição
médica geral (por ex., crises parciais complexas). Nota: Em crianças, os sintomas não são
atribuíveis a amigos imaginários ou outros jogos de fantasia.

Nota. Informações retiradas do DSM-IV-TR (2003).

1.4- Sintomatologia

No que se refere à sintomatologia, a personalidade múltipla está também associada a

alterações psicofisiológicas observadas em estudos clínicos ao longo dos anos. Alguns sintomas

conhecidos incluem dores de cabeça, mudanças na voz, dores inexplicáveis ou insensibilidade à

dor, alterações na caligrafia e no estilo de escrever, palpitações, alterações respiratórias,

perturbações gastrintestinais – inclusive bulimia e anorexia nervosa –, respostas alérgicas

incomuns e diferenciadas a medicamentos. Desde 1970 houve um ressurgimento do interesse

científico para o assunto com investigações e estudos sofisticados dos sintomas físicos, tais

como: atividades das ondas cerebrais, fluxo sangüíneo cerebral, refração visual, atividades

musculares, atividades cardíacas e respiratórias (Coons, 1988).

Adicionalmente, como mostrado na Tabela 2, Loewenstein (1991) agrupou o complexo

dissociativo da personalidade múltipla em seis tipos de sintomas:


32

Tabela 2. Agrupamentos sintomatológicos da personalidade múltipla.

1- Sintomas Processo: Relacionam-se com as emersões, características e interações entre as


alters. Refletem o âmago da personalidade múltipla. São eles: atributos e presenças das
alters, sintomas de primeira ordem de Schneider (1977) – inserção do pensamento,
percepção delirante (referindo-se ao corpo), alucinações auditivas (ouvir vozes) –, uso da
linguagem geralmente na 1ª pessoa do plural, alterações no controle executivo do corpo
(switching).

2- Sintomas Amnésicos: Relacionam-se com inabilidades para recordar informações


pessoais relevantes. São eles: blackouts (Time loss), olvidar comportamentos, fugas,
possessões, mudanças inexplicáveis nos relacionamentos, flutuações em hábitos e
conhecimentos, lembranças fragmentárias no histórico de vida, experiências crônicas de
equívocos de identidade, micro dissociações.

3- Sintomas Auto-Hipnóticos: Pacientes múltiplos comumente manifestam fenômenos de


transe de forma natural e genuína. São eles: transe espontâneo, regressão espontânea de
idade, anestesia voluntária (perda ou diminuição da sensibilidade), experiências
extracorpóreas, alterações oculares.

4- Sintomas PTSS (Post Traumatic Stress Symptoms): 98% dos pacientes múltiplos
reportam históricos de traumas infantis severos e reincidentes. São eles: trauma
psicológico, imagens intrusivas, revivificação, flashbacks, pesadelos, acionamentos
(triggers), pânico, ansiedades, entorpecimento, detachment (desligamento, separação).

5- Sintomas Somatoformes: Abrangem distúrbios nos quais os pacientes relacionam


sintomas físicos, mas negam apresentar problemas psiquiátricos. São eles: sintomas de
conversão, dor somatoforme, transtorno de somatização, memória somática (evento
traumático recordado de modo sensório, sem a consciência do paciente sobre a origem do
sintoma).

6- Sintomas da Afetividade: Sintomas afetivos aparentes podem refletir processos


traumáticos severos. São eles: humor deprimido, alterações no humor, pensamentos
suicidas ou tentativas de automutilação, culpa, desamparo, desesperança.

Nota. Informações adaptadas de Loewenstein (1991).

No estudo de caso aqui trabalhado podemos adiantar que os principais sintomas

coincidem com os grupos apresentados por Loewenstein, com prevalência para os Sintomas

Processo.
33

1.5- Epidemiologia

No que se refere à epidemiologia, o interesse científico pela personalidade múltipla tem a

propriedade de se expandir em ondas sucessivas. A primeira onda veio da Europa com Charcot,

Janet, Binet e Freud-Breuer e alcançou os Estados Unidos, basicamente, por intermédio de

William James e Morton Prince. A partir da década de 1930, a personalidade múltipla parecia ter

desaparecido, com exceção para alguns casos dispersos como o de Chris Sizemore, popularizada

no filme As três faces de Eva. O ponto nevrálgico de retorno diagnóstico ocorreu em 1973

quando a psicanalista Cornelia Wilbur e a jornalista Flora Shreiber publicaram Sybil, o diário de

um tratamento de um caso de personalidade múltipla. Psiquiatras como Ralph B. Allison,

Georges Greaves, Richard Kluft e Bennett Braun começaram a se interessar novamente pelo

transtorno, que o extenso livro de Ellenberger (1970), The Discovery of The Unconscious (A

Descoberta do Inconsciente), acabava de reabilitar historicamente (Berlinck & cols., 1997).

Kluft (1999) registrou a questão epidemiológica da personalidade múltipla apresentando

estudos quantitativos efetivados na década de 1990. Como mostrado na Tabela 3, a seguir, apesar

da controvérsia atual em relação à freqüência com que a personalidade múltipla e outras

desordens dissociativas possam ser encontradas em populações psiquiátricas, estudos –

padronizados, fidedignos e válidos, com entrevistas diagnósticas estruturadas – que examinaram

grupos com estes tipos de paciente, em vários países, demonstraram que o transtorno não é

incomum. Entre 4% e 18.6% dos pacientes múltiplos tiveram diagnósticos previamente

equivocados nos três grupos pesquisados – população de pacientes psiquiátricos internados,

população de pacientes universitários internados e não internados e população de dependentes

químicos. Conjuntamente, tais estudos sugerem que a personalidade múltipla não é um


34

transtorno raro, e ocorre em diferentes países a uma mesma taxa percentual aproximada na

população de pacientes psiquiátricos internados, com erros diagnósticos freqüentes.

Rhoades e Sar (2005), corroborando Kluft (1999), registraram perspectivas transculturais

– com pesquisas na Argentina, Austrália, China, França, Alemanha, Havaí, Irã, Israel, Nova

Zelândia, Filipinas, Porto Rico e Reino Unido – relacionadas com questões traumáticas e

dissociativas, com foco na personalidade múltipla.

Segundo Haddock (2001) diferentes partes (alters) se apresentam para tratamento com

diferentes sintomas, fator gerador de confusões diagnósticas. Putnam (1989) e seus

colaboradores encontraram, nos resultados de suas pesquisas, um tempo médio de seis anos e

oito meses para que uma pessoa portadora de personalidade múltipla tenha o seu diagnóstico

estabelecido corretamente.

No Brasil, por meio de nossa revisão bibliográfica, constatamos a inexistência de estudos

vinculados especificamente à personalidade múltipla, fato que constitui uma justificativa

adicional para este trabalho.


35

Tabela 3. Prevalência da personalidade múltipla (DID) e demais desordens dissociativas entre


populações de pacientes.

População de Pacientes Psiquiátricos Internados

Estudo % DID com erros % Outras Desordens


diagnósticos prévios Dissociativas

Canadá:
- Ross e cols. 5.4 20.7
- Horen e cols. 6.0 17.0

Estados Unidos:
- Saxe e cols. 4.0 15.0
- Latz e cols. 12.0 46.0

Países Baixos:
- Boon & Draijer 5.0 –

Noruega:
- Knudsen e cols. 4.7 8.2

População de Pacientes Universitários Internados e Não Internados

Estudo % DID com erros % Outras Desordens


diagnósticos prévios Dissociativas

Turquia:
- Tutkun e cols. 5.0 –

População de Dependentes Químicos

Estudo % DID com erros % Outras Desordens


diagnósticos prévios Dissociativas

Estados Unidos:
- Ross e cols. 14.0 39.0
- Leeper e cols. 5.1 15.4
- Ellason e cols. 18.6 56.9
- Dunn e cols. 7.0 15.0

Nota. Adaptado de Kluft (1999).


36

1.6- Etiologia

Segundo Kluft (1999), no que se refere à etiologia, há certa controvérsia científica se a

personalidade múltipla é uma condição natural ou iatrogênica. Defensores desta última

argumentam que o transtorno ocorre a partir de intervenções sugestivas de clínicos entusiásticos,

nunca acontecendo antes de suas expectativas e intervenções. Outros afirmam que a iatrogenia é

possível desde que o clínico tenha despendido grande esforço intencional para alcançar este

propósito. Certamente, muitos sintomas de personalidade múltipla podem ser criados através de

sugestões ou manipulações experimentais. Sugestões mínimas sobre o sujeito podem induzir

manifestações de comportamento e influências culturais também podem causar impacto

significativo na fenomenologia do transtorno. Embora esteja claro que a fenomenologia da

personalidade múltipla, às vezes, possa responder a pressões sociais e a sugestões, muitas

observações demonstram que o transtorno acontece na ausência dessas influências.

A partir da década de 1970 ocorreu uma retomada de interesses para o reconhecimento da

dualidade abuso-trauma como fator predisponente, explicativo e causal da dissociação

consciencial na personalidade múltipla. O transtorno refez, então, seu espaço, cristalizando-se

em torno da teoria dos efeitos traumáticos sofridos durante o período infantil. Assim, a

psicanálise, como método de investigação da infância, passou a ter uma contribuição singular e

adicional, principalmente quando analisada sob a óptica do real no sujeito, uma vez que as

histórias sedutoras, imaginárias e fantasiosas dos histéricos são fatos concretos nos múltiplos

Atualmente, a prevalência etiológica da personalidade múltipla – transtorno que ainda

possui curiosidades psiquiátricas enigmáticas – relaciona-se diretamente com traumas severos

ocorridos a partir da infância. A causa típica mais proeminente vincula-se a abusos físicos e

emocionais repetitivos (Hacking, 1995; Haddock, 2001; Putnam, 1989; Rich, 2005; Ross, 1989).
37

Segundo Putnam (1989) embora existam diversas teorias para explicar a gênese da

personalidade múltipla, o modelo clínico mais aceitável baseia-se na evidência de que o trauma

infantil repetitivo aumenta capacidades dissociativas que, por sua vez, fornecem a base para o

surgimento e elaboração de estados alternativos de personalidade com o passar do tempo.

Conforme registra Berlinck e cols. (1977), existe certo consenso entre psicólogos e

psiquiatras na atribuição da dupla trauma-dissociação para a personalidade múltipla. Por

traumatismo, entende-se um acontecimento que provoca uma dor ou uma emoção

especificamente paralisante, que impede o sujeito de reagir apropriadamente. Trata-se

geralmente de uma violência emocional, física ou sexual sofrida na infância, causada na maior

parte das vezes por um dos pais. A dissociação, por sua vez, é o mecanismo de defesa

mobilizado pelo sujeito desprotegido para sobreviver à invasão da dor, dos afetos. Diante de tais

sofrimentos a pessoa se dissocia. Faz como se nada tivesse acontecido, como se o acontecimento

traumático não tivesse ocorrido com ela, e sim com outro, com quem não quer ter contato algum,

de quem nada quer saber, que não existe.

Segundo Brenner (1973), Freud reconheceu que em muitos casos, as histórias de

seduções sexuais experimentadas na infância, contadas por suas pacientes histéricas, eram na

realidade, mais fantasias que recordações reais, muito embora as próprias pacientes nelas

acreditassem. Enquanto que na histeria os traumas estão ligados às questões da ordem do

imaginário, das fantasias e do fantasmático, para a personalidade múltipla, existe o fato da

realidade do trauma, fato este responsável pelo desencadeamento da dissociação mental,

resultante da fragmentação do ego em outros estados de ego distintos, as alters, personalidades

alternativas ou múltiplas. Assim, para o pesquisador da personalidade múltipla, a representação


38

do traço criado como marca recalcada no inconsciente representa um fato real, verídico e

traumático, que necessita ser ab-reagido.

Uchitel (2004) analisa esta questão registrando que o abuso, o trauma, em seu caráter

imperativo de realidade, coloca em questão a fantasia. Enquanto a realidade psíquica e a

realidade material mantiverem distinções puras de campos, e a realidade material intervir com o

estatuto perturbador de quem confunde, ela precisará ser negada, desmentida ou relativizada na

sua importância, colocando invariavelmente no lugar a projeção da invenção fantasmática.

Por fim, podemos entender a etiologia da personalidade múltipla como impactos

traumáticos não elaborados satisfatoriamente, que desencadeiam dissociações patológicas.

Finalizada esta abordagem sindrômica onde assinalamos as definições e os critérios para

a personalidade múltipla, bem como registramos alguns aspectos sintomatológicos,

epidemiológicos e etiológicos, partiremos agora para a abordagem psicodinâmica do transtorno.

1.7- Funcionamento da Dinâmica Psíquica

Freud (1912/1996) registrou que o “termo inconsciente (...) designa não apenas as idéias

latentes em geral, mas especialmente idéias com certo caráter dinâmico, idéias que se mantêm à

parte da consciência, apesar de sua intensidade e atividade” (p.281). Em uma importante

exemplificação de que a ciência precisa aprofundar investigações em sua busca para aquisição de

conhecimentos, ele assinalou que

(...) ao invés de concordar com a hipótese de idéias inconscientes, das quais nada

sabemos, é melhor presumir que a consciência pode ser dividida, de modo que certas

idéias ou outros atos psíquicos possam constituir uma consciência separada, que se
39

tornou desligada e separada da massa de atividade psíquica consciente (Freud,

1912/1996, p.281).

Adicionalmente, reforçando a sua exemplificação, Freud (1912/1996) fez referência ao

caso Félida o qual considerou como um notável modelo de personalidade alternada ou dupla, que

contribui muito para demonstrar que a divisão da consciência não constitui imaginação

fantasiosa.

Inferimos que Freud, fazendo menção à alternância entre personalidades, sintetizou o que

poderíamos considerar uma possível explicação teórica para a personalidade múltipla ao

estabelecer que

(...) se os filósofos encontram dificuldades em aceitar a existência de idéias inconscientes,

a existência de uma consciência inconsciente parece-me ainda mais objetável. Os casos

descritos como divisão (splitting) da consciência, como o do Dr. Azam, poderiam de

preferência ser denominados de deslocamento da consciência – essa função ou o que quer

que seja – que oscila entre dois complexos psíquicos diferentes que se tornam conscientes

e inconscientes alternadamente (Freud, 1912/1996, p.282).

Para a compreensão do funcionamento da dinâmica psíquica é preciso investigar o

inconsciente, obtido a partir da teoria da repressão. Segundo Freud (1923/1996), o reprimido é o

protótipo do inconsciente. Há dois tipos de inconsciente: um que é latente, capaz de se tornar

consciente, e outro que é reprimido, incapaz de se tornar consciente.

Importante, então, pesquisar qual a essência da personalidade múltipla, mais

especificamente, as condições de sua origem, a natureza dos seus conflitos, a existência ou não
40

de fixações, a clivagem do ego, os mecanismos de defesa elaborados pelo sujeito, os traços

estruturais da personalidade, as peculiaridades da vida onírica, as incoerências entre as

representações e afetos interligados, as relações entre realidade psíquica e realidade concreta, ou

seja, a relação do sujeito com sua própria realidade, somadas ao embaraço das identidades,

sintomas comuns nos múltiplos.

Ferenczi (1933), por exemplo, explicou a importância das duas realidades mencionadas,

ao registrar que o extraordinário progresso da biologia acarretou uma desvalorização de tudo o

que é psíquico. Para ele, no plano científico, um dos principais méritos de Freud foi o de se ter

corajosamente oposto aos excessos dos fanáticos da objetividade, e o de ter levado em conta a

realidade psíquica simultaneamente com a realidade física.

Afinal, essencial inquirir onde reside a disposição patológica da personalidade múltipla?

Desta forma, o impacto traumático que desencadeia a dissociação da consciência e,

conseqüentemente a personalidade múltipla, será melhor compreendido.

1.8- Trauma e Dissociação

A dupla trauma-dissociação é intrínseca à personalidade múltipla (Putnam, 1989; Ross,

1989; Steinberg, 1994). Essencialmente, não há personalidade múltipla sem a presença de

traumas reais, graves, intermitentes e reincidentes. Tais traumas desencadeiam processos

dissociativos, patológicos em graus diversificados e, conseqüentemente, a emersão de estados

alterados de consciência, personalidades alternativas, egos distintos, alters. Assim, segundo

indicações de vários autores, teremos sempre a seguinte seqüência para o transtorno que

caracteriza a personalidade múltipla: Trauma real Æ Dissociação patológica da consciência Æ


41

Emersão-Imersão de alters (Haddock, 2001; Kluft & Fine, 1993; Putnam, 1989; Ross, 1989;

Steinberg, 1994).

Freud (1893-1895/1996) fez menção ao trauma como sendo a ação patogênica de uma

representação psíquica inconsciente carregada de afeto, ou, de outra forma, “uma lembrança

carregada de afeto que não fora descarregado” (p.119).

Silva (2000), enfatizando indiretamente a dissociação como mecanismo de defesa,

registra que “muitas vezes ‘se desligar’ no momento do trauma ou não estar presente

mentalmente ajuda a pessoa a sobreviver” (p.95).

Uchitel (2004) esclarece a inter-relação da dupla mencionada quando diz que “o trauma

não é assimilado e integrado com o resto dos conteúdos psíquicos. Seu impacto insuportável

cinde ou fragmenta o ego, isola o acontecimento e impede de encontrar, pela representação, uma

metabolização mais saudável” (p.151).

Dentre diversos acontecimentos, o nascimento pode ser considerado um fator traumático.

A primeira teoria sobre o assunto foi elaborada por Otto Rank quando da publicação do clássico

The Trauma of Birth (O Trauma do Nascimento), em 1924.

Freud (1926 [1925]/1996), registrou que Rank fez uma tentativa firme de estabelecer uma

relação entre as primeiras fobias das crianças e as impressões nelas causadas pelo evento do

nascimento. O processo de nascimento é a primeira situação de perigo, e a convulsão que ele

produz torna-se o protótipo da reação de ansiedade.

Mas, diferentemente de Rank e principalmente de Freud, que direcionou o trauma

psíquico para as questões da fantasia, importante reconhecer e registrar a contribuição de

Ferenczi para os contextos concernentes à realidade traumática.


42

Segundo Sanches (2005), Ferenczi passou a insistir na importância de um fator exógeno

na teoria do trauma. A avaliação clínica dos seus pacientes reforçava a hipótese de que

experiências traumáticas reais haviam ocorrido e que não apenas fantasias de sedução e violência

poderiam estar na base de suas perturbações.

Em continuidade, Sanches (2005) também alerta para a postura dos analistas que,

desconsiderando as verdades traumáticas dos pacientes, contribuem negativamente para a

recuperação de suas organizações psíquicas. É imprescindível, então, que o analista considere

como realidade os episódios traumáticos apontados por seus pacientes. Do contrário, duvidando

de sua veracidade, reincidirão em novos processos traumáticos.

O trabalho de Ferenczi (1933) é importante para a compreensão da personalidade

múltipla. Segundo ele, não existe choque nem pavor sem anúncio de clivagem do ego. Uma

aflição extrema e, sobretudo, a angústia da morte tem o poder de despertar disposições latentes.

Além disso, em explicações adicionais que servem de fundamentação ao transtorno, ele registrou

que se os traumas se sucedem no decorrer do desenvolvimento, o número e a variedade de

fragmentos clivados aumentam, e torna-se rapidamente difícil, sem cair em confusão, manter

contato com esses fragmentos, que se comportam todos como personalidades distintas que não se

conhecem umas às outras.

Obviamente, nem sempre processos traumáticos resultam em personalidade múltipla.

Existem outras patologias (fuga dissociativa, amnésia dissociativa, esquizofrenia, transtorno de

personalidade borderline, dentre outros) em que o fator dissociativo está presente sem que,

necessariamente, o diagnóstico da multiplicidade seja efetivado. A distinção sintomatológica

maior está especificamente estabelecida nos critérios definidos no Manual Diagnóstico e

Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-IV-TR, 2003), ou seja, a presença real de duas ou mais
43

alters atuando recorrentemente no controle do corpo, com sintomas amnésicos agudos, sem que

o transtorno se deva a efeitos químicos.

Segundo a International Society for the Study of Trauma and Dissociation (Sociedade

Internacional para o Estudo do Trauma e da Dissociação, ISSTD), dissociação é uma palavra

usada para descrever a falta de conexão entre coisas associadas entre si. Em formas severas a

desconexão acontece nas funções normalmente integradas da consciência, da memória, da

identidade ou da percepção.

Putnam (1989) enfatiza que a dissociação pode ocorrer de forma patológica ou não. Essas

diferentes formas são um continuum de uma dissociação menor do dia-a-dia, tal como um

devaneio, para uma forma patológica, tal como a personalidade múltipla. Assim, a maioria das

definições relacionadas com a dissociação diz respeito, primariamente, a distinguir quando a

consciência de uma pessoa, senso de identidade e comportamento estão suficientemente

dissociados para representar um processo anormal. Pesquisadores (Braun, 1986; Haddock, 2001;

Putnam, 1989; Ross, 1989) têm enfatizado diferentes aspectos do processo dissociativo como

sendo um elemento-chave para determinar se ou não um exemplo particular de dissociação é

patológico. Atualmente, o rompimento ou interrupção das funções integrativas normais também

tem sido um ponto relevante para as definições sobre dissociação.

A personalidade múltipla, conforme menciona Zimerman (1999), deve-se ao fato de

várias representações distintas coexistirem dentro do ego, dissociadas entre si, e que emergem

separadamente na consciência de acordo com determinadas necessidades e circunstâncias.

Assim, podemos correlacionar, de forma dinâmica, trauma como processos psíquicos-

reais, potencialmente capazes de produzir a clivagem do ego e desencadear transtornos

dissociativos distintos, sendo a personalidade múltipla o mais severo deles (Putnam, 1989).
44

Feita esta correlação entre trauma e dissociação com foco na personalidade múltipla, bem

como abordagens relacionadas com o funcionamento da dinâmica psíquica, passaremos agora ao

método de nossa pesquisa.


45

CAPÍTULO II - MÉTODO

2.1- Caracterização do Método

Segundo Turato (2003), a palavra método é originária do latim methodus e do grego

methodos, donde meta significa “através de” e hodos equivale a “caminho/estrada”, significando

etimologicamente um modo de fazer algo ou um caminho através do qual se procura chegar a

algo. Há certo consenso na literatura em dizer que os métodos qualitativos adquiriram status

científico com os trabalhos dos antropólogos, vindo depois a se desenvolver entre os sociólogos

e educadores. Uma outra vertente importante a contribuir com a concepção e a prática do estudo

do homem e, nesta perspectiva, com os métodos qualitativos foi à psicanálise. Para que uma

discussão psicodinâmica seja bem-sucedida e preencha os passos do método científico ela deve

ser antecedida de um momento em que se compreenda o existente.

Conforme menciona André (1986), a experiência direta é sem dúvida o melhor teste de

verificação da ocorrência de um determinado fenômeno.

O Método do estudo de caso refere-se a uma análise intensiva de uma situação particular

(Tull & Hawkins, 1976). É uma inquirição empírica que pesquisa um fenômeno contemporâneo

dentro de um contexto da vida real, quando a fronteira entre o fenômeno e o contexto não é

claramente evidente e onde múltiplas fontes de evidência são utilizadas. Caracteriza-se pela

capacidade de lidar com uma completa gama de evidências – documentos, observações,

artefatos, testes e entrevistas (Yin, 1989).

O estudo de caso é também útil quando um fenômeno é vasto e complexo, onde o corpo

de conhecimentos existente é insuficiente para permitir a proposição de questões causais e

quando um fenômeno não pode ser estudado fora do contexto no qual ele naturalmente ocorre

(Bonoma, 1985).
46

Segundo André (2005) os estudos de caso são valorizados pela sua capacidade de projetar

luz sobre o fenômeno estudado, de modo que o leitor possa descobrir novos sentidos, expandir

suas experiências ou confirmar o que já sabia. Espera-se que o estudo de caso favoreça a

compreensão da situação investigada e possibilite a emersão de novas relações e variáveis

levando o leitor a ampliar suas experiências. Espera-se ainda que desvele pistas para

aprofundamentos ou para futuros estudos.

Assim sendo, com a sustentação teórica embasada na psiquiatria clássica e na abordagem

psicodinâmica, por analisar intensivamente a situação específica de uma paciente, por investigar

e levar luz a um fenômeno complexo – ainda pouco difundido no Brasil – e por lidar com

múltiplas fontes de evidência, o método do Estudo de Caso caracterizou esta pesquisa.

2.2- Participante

Para o presente estudo de caso tivemos um sujeito único, Caroline (nome fictício).

Brasileira, casada, quarenta e sete anos à época de nosso primeiro encontro, escolaridade média

(Ensino Médio concluído ou 2º Grau Completo). Aceitou tomar parte desta pesquisa

homologando a sua participação através do Termo de Consentimento Informado Livre e

Esclarecido (veja Anexo 1) 3. Pela primeira vez foi diagnosticada como múltipla. O diagnóstico

foi feito por nós, de forma progressiva, a medida que os critérios contidos no DSM-IV-TR

(2003), foram sendo percebidos, compreendidos, investigados e comprovados ao longo do

tratamento clínico. Tivemos colaborações, à distância, dos psiquiatras americanos Ralph B.

Allison e Frank W. Putnam, e de colegas da ISSTD na discussão, controle e supervisão do caso.

3
O projeto de pesquisa desta dissertação de mestrado foi submetido ao Comitê de Ética da Universidade Católica de
Brasília na data de 24/10/2006, e aprovado pelo mesmo em 11/12/2006.
47

Antes do início do processo psicoterápico conosco, recebeu o diagnóstico de depressão –

segundo os critérios da Classificação Estatística Internacional de Doenças – nas diversas vezes

que se consultou com psiquiatras. Exames cardiológicos (Eletrocardiograma,

Ecodoplercardiograma, Monitoração Ambulatorial de Pressão Arterial) e neurológicos

(Tomografia Computadorizada) foram realizados ao longo da vida da paciente, com resultados

negativos, caracterizando ausência de comprometimentos orgânicos. Alguns laudos médicos

foram apresentados ao pesquisador 4, pela paciente, com resultados confirmados verbalmente

pelo seu companheiro e por uma de suas filhas quando do processo de anamnese.

Neste caso clínico, até o presente momento, – além da personalidade Caroline – foram

identificadas dez outras personalidades: Dalva, Jennifer, Jane, Mayara Sandes, Helen, Elise,

Ester, Mariana (ISH exclusivo de Ester), X e Supervisor. Esta última – terminologia definida por

nós e concordante com a personalidade –, equivale ao que a nomenclatura científica estabelece

para este tipo de “pessoa”, ou seja, para o ISH que atua globalmente no contexto. A penúltima

personalidade foi definida propositalmente como uma incógnita pelo fato de ainda não ter sido

possível a sua identificação nominativa. Salientamos, então, que todas as personalidades,

exceção para X e Supervisor, foram registradas conforme identificadas por elas mesmas quando

de suas emersões.

As personalidades identificadas acima, bem como o controle intermitente exercido por

elas em relação ao comportamento do sujeito, a incapacidade para recordações importantes

relacionadas com eventos de sua vida – quando em processo dissociativo –, a sua conduta de

abstemia, sem também nunca ter feito uso de drogas ilícitas, somadas a ineficácia de

medicamentos antidepressivos e ansiolíticos prescritos por psiquiatras, fundamentam a inclusão

4
O vocábulo “pesquisador”, quando o sentido se fizer pertinente, refere-se diretamente ao autor deste trabalho.
48

da paciente na descrição dos critérios para o transtorno dissociativo de identidade (DID),

conforme especificado na Tabela 1.

Realçamos a singularidade da paciente por apresentar dois ISH’s distintos, um estando

vinculado especificamente a uma alter (Ester) e o outro atuando de forma integral em relação às

demais personalidades do funcionamento psíquico.

Por fim, mencionamos que a paciente trabalha atualmente como terapeuta alternativa e

ingressou recentemente na faculdade (Pedagogia).

2.3- Instrumentos Utilizados

A seguir, apresentaremos os instrumentos utilizados em nossa pesquisa. Os resultados

alcançados em cada um deles estão registrados e discutidos mais adiante.

2.3.1- Relato de Sessões Clínicas

Segundo Mezan (1998), as informações que entram num relato clínico se deve a

necessidade de dar à narrativa uma conformação legível, e permitir ao leitor acompanhar as

informações necessárias. Quando se escreve sobre um paciente, tal escrito é parte desse paciente,

um diálogo com ele. Assim, o paciente é também um dos mais importantes destinatários do

escrito que lhe diz respeito.

Mezan (1998) também menciona que o relato clínico objetiva o registro de anotações

sobre como o paciente se apresenta, do que ele se queixa, qual é o seu sintoma e o que ele conta

nas sessões. Além disso, aditamos o registro sobre o que acontece durante as sessões clínicas.

O relato de sessões clínicas foi utilizado para esclarecer aspectos antigos e novos do

problema. Gestos, maneirismos, verbalizações e observações foram assinalados. Fizemos uso


49

desta técnica com a finalidade de apresentar questões anamnésicas, sintomatológicas e

psicodinâmicas em termos traumáticos e dissociativos, objetivando analisar e interpretar as

informações obtidas e observadas.

Relatos clínicos foram também utilizados para documentar e analisar ocorrências

fortuitas, eventualidades ou situações circunstanciais de crise, e de emersões e imersões de

personalidades, que ocorreram ao longo da pesquisa.

2.3.2- Produções das Personalidades

Segundo Alvez-Mazzotti e Gewandsznajder (2001), a análise de produções ou de

evidências, ou seja, de documentos utilizados como fontes de informação, pode ser usada tanto

como uma técnica exploratória indicando aspectos a serem focalizados por outras técnicas, como

para a verificação ou complementação dos dados logrados por meio de outras técnicas.

Para o presente estudo de caso foram apresentadas algumas produções elaboradas pelas

diversas personalidades ao longo da vida de Caroline e do tratamento clínico, equivalentes a

documentos ou fontes de informação em formas de poesias, desenhos, bilhetes, trabalhos

manuais, transcrições de fala em língua estrangeira e em língua pátria. Tais produções foram

documentadas e discutidas objetivando realçar e exemplificar características específicas da

personalidade múltipla. Algumas produções das personalidades deste estudo, obtidas ao longo do

processo psicoterápico com Caroline, estão registradas no Anexo 2.

2.3.3- Escala de Experiências Dissociativas - DES

Instrumento (veja Anexo 3) elaborado por Putnam e Carlson (1986). Trata-se de um dos

questionários mais utilizados mundialmente para o rastreamento e a quantificação dos sintomas


50

dissociativos. Contém vinte e oito perguntas cujas respostas equivalem a percentuais que variam

de 0 a 100. O resultado é obtido calculando-se a média aritmética de todas as respostas do

sujeito. Apesar da escala não ser utilizada como instrumento diagnóstico, o escore de 30 é

considerado o ponto de corte acima do qual se pode identificar pacientes com transtornos

dissociativos. Portanto, a DES 5 deve ser usada como instrumento gerador de casos suspeitos de

apresentarem transtornos dissociativos (Fiszman, Cabizuca, Lanfredi, & Figueira, 2004).

2.3.4- Teste das Pirâmides Coloridas - Pfister

Instrumento criado pelo suíço Max Pfister como tese de doutorado em Psicologia à

Sociedade de Psicanálise de Zurique, em 1946. A versão original do teste foi publicada pela

primeira vez na revista Psichologische Rundschau, em 1949. A primeira publicação ocorreu em

1951 (Marques, 1988).

O teste foi introduzido no Brasil, em 1956, por Fernando de Villemor Amaral. Trata-se

de uma técnica valiosa para o diagnóstico da dinâmica emocional e das habilidades cognitivas

das pessoas, que tem se mostrado muito útil tanto na clínica quanto em diversos contextos da

avaliação psicológica. Por exemplo, indica satisfatoriamente que a presença de tapetes furados

ou rasgados na análise conjunta do aspecto formal sugere indícios significativos de perturbação

grave oriunda de dissociações no curso do pensamento (Villemor-Amaral, 2005).

Um parecer de profissional externo (juiz), sem vínculo com esta pesquisa, relacionado

com o Teste das Pirâmides Coloridas (Pfister), foi apresentado (veja Anexo 5).

5
Em setembro de 2004 a Revista Brasileira de Psiquiatria, volume 26, número 3, Órgão Oficial da ABP –
Associação Brasileira de Psiquiatria – apresentou um artigo intitulado “A adaptação transcultural para o português
do instrumento Dissociative Experiences Scale para rastrear e quantificar os fenômenos dissociativos”. Como já
havíamos aplicado a escala (DES) em Caroline, com tradução própria, resolvemos manter o que fizemos no ano de
2002.
51

2.3.5- Teste de Apercepção Temática - TAT

Conforme registra Anastasi e Urbina (2000), testes psicológicos são instrumentos. É

basicamente uma medida objetiva e padronizada de uma amostra de comportamento. Usos

clínicos de testes incluem o exame de pessoas com transtornos emocionais graves e outros tipos

de problemas comportamentais. O valor diagnóstico ou preditivo de um instrumento psicológico

depende do grau em que ele serve como indicador de uma área relativamente ampla e

significativa de comportamento.

O TAT é um método que se destina a revelar ao psicólogo experiente, emoções,

impulsos, sentimentos, complexos e conflitos marcantes da personalidade. Seu principal valor

consiste na capacidade de tornar patentes tendências subjacentes inibidas que o sujeito ou

paciente não deseja aceitar ou que não tem condições de admitir por serem inconscientes

(Murray, 1943/1967).

Nesta pesquisa foi utilizado o conjunto feminino adulto com a seleção das seguintes

pranchas: 1, 2, 3MF, 4, 5, 6MF, 7MF, 8MF, 9MF, 10, 11, 12F, 13HF, 14, 15, 16, 17MF, 18MF,

19 e 20.

2.3.6- Entrevistas (Clínica, SCID-D e Devolutiva)

Empregou-se três modelos de entrevistas nesta pesquisa: entrevista clínica, entrevista

semi-estruturada SCID-D e entrevista devolutiva.

Para Turato (2003), a entrevista clínica é um valioso instrumento de conhecimento

interpessoal, facilitando no encontro face a face, a compreensão de uma série de fenômenos, de

elementos de identificação e construção potencial do todo da pessoa do entrevistado e, de certo

modo, também do entrevistador. Trata-se de um encontro interpessoal, estabelecido para


52

aquisição de informações verbais ou escritas sendo instrumento para conhecimento, para

assistência ou pesquisa.

Conforme Cunha (1993), a entrevista semi-estruturada fornece ao entrevistador mais

liberdade de formular as perguntas e organizar sua seqüência, mas requer, naturalmente, mais

experiência, habilidade e treinamento. O roteiro da entrevista semi-estruturada (veja Anexo 4) foi

adaptado do instrumento denominado Structured Clinical Interview for DSM-IV Dissociative

Disorders (Entrevista Clínica Estruturada para as Desordens Dissociativas do DSM-IV, SCID-

D), reconhecido internacionalmente, embora sem escala de validação no Brasil. Segundo

Steinberg (1994), a SCID-D provê uma fotografia bem definida do sistema de respostas aos

traumas de uma pessoa. Contém perguntas relacionadas com os sintomas requeridos pelo DSM-

IV-TR (2003) para a personalidade múltipla, dentre outras desordens dissociativas. O

instrumento avaliou cinco categorias de sintomas dissociativos: amnésia, despersonalização,

desrealização, confusão de identidade e alteração de identidade. Tais sintomas são, em graus

variados, universalmente vivenciados por pessoas que sofreram exposições a traumas.

Adicionalmente, a SCID-D nos permitiu fazer análises qualitativas e psicodinâmicas do sujeito.

Ainda segundo Cunha (1993), a entrevista de devolução, ou devolutiva, faz parte de um

processo de seqüência temporal onde o psicólogo tem algo a dizer ao sujeito. Ela deve iniciar

com os aspectos menos comprometidos do paciente, portanto menos mobilizadores de ansiedade.

Se for o caso, deve encerrar com as indicações terapêuticas. Caracterizam-se diferentemente,

conforme a faixa etária do entrevistado. No caso de um adulto, é realizada com ele próprio, se

apresenta condições para isso. Uma única sessão para a entrevista devolutiva foi necessária para

informar à paciente sobre os resultados obtidos.


53

2.4- Procedimentos para Coleta de Dados

Em todos os momentos deste trabalho, princípios éticos relativos à pesquisa envolvendo

seres humanos, inclusive aqueles que dizem respeito ao sigilo da paciente, foram obedecidos.

O participante foi selecionado devido a especificidade do quadro clínico apresentado,

sendo diagnosticado gradualmente pelo pesquisador como múltiplo, ou portador do Transtorno

Dissociativo de Identidade (DID). Aceitou livremente (veja Anexo 1) participar da pesquisa e

contribuir ativamente com o pesquisador.

Os dados coletados e apresentados nesta pesquisa ocorreram em duas etapas. A primeira

etapa refere-se às informações obtidas entre o final do ano de 1998 e o primeiro semestre de

2006, que compõem os relatos clínicos advindos dos atendimentos. A segunda etapa vincula-se

aos dados logrados durante a pesquisa em si, ou seja, durante o segundo semestre de 2006.

Válido enfatizar que o tratamento com Caroline ainda está em curso.

Os atendimentos realizados pelo pesquisador ao longo das duas etapas ocorreram em

sessões semanais regulares, exceção para processos de crise justificáveis – inclusive, com

atendimentos por telefone. Em ambas as etapas, os registros clínicos foram efetivados durante as

sessões, alguns na presença da paciente, outros ao final, após o encerramento do contexto

psicoterápico.

Durante a primeira etapa da pesquisa várias sessões foram gravadas pelo pesquisador

com autorização da paciente. Na segunda etapa todas as sessões foram gravadas. A partir desses

registros, descrevemos os relatos clínicos apresentados, bem como demonstramos algumas das

produções elaboradas pela paciente.

Em ambas as etapas da pesquisa, fizemos uso de relatos clínicos e do registro de

produções das personalidades. O grau de dissociação da paciente foi confirmado pela escala
54

DES, aplicada por nós em 2002, durante a primeira etapa da pesquisa, em uma única sessão

clínica. Durante a segunda etapa foram aplicados os testes Pfister e TAT como recursos

psicológicos adicionais objetivando investigações psicodinâmicas e sintomatológicas.

Assim sendo, para a primeira etapa da pesquisa, as informações foram coletadas ao longo

dos anos com o processo psicoterápico. Para a segunda etapa, a coleta de dados foi feita em dez

sessões clínicas previamente estabelecidas conjuntamente com a paciente. Três delas utilizadas

para a realização das entrevistas (clínica, SCID-D e devolutiva), duas para a aplicação do Pfister

– sendo uma para re-teste do instrumento –, e duas para o TAT. Três encontros foram

necessários para atendimentos clínicos emergenciais desencadeados por crises surgidas ao longo

da pesquisa.

As entrevistas clínica e SCID-D foram realizadas por outro pesquisador (juiz). Em alguns

momentos da entrevista clínica estivemos presente. A introdução de um juiz no contexto da

realização das entrevistas foi motivada pela necessidade de participação de um outro pesquisador

que não tivesse acompanhado a paciente clinicamente, portanto, mais livre de conteúdos

transferenciais. Todo o material foi gravado e transcrito posteriormente pelo pesquisador, ou

seja, por nós.

Por fim, enfatizamos que processos de emersões e imersões induzidos, isto é,

dissociações provocadas por acionamentos ou triggers não foram efetivados. Dissociações

espontâneas, passíveis de acontecer independentemente da nossa vontade, foram homologadas

por Caroline, apesar dela, quase sempre, não ter consciência plena do fato. Tais circunstâncias

são intrínsecas à personalidade múltipla. Assinalamos ainda que, quando pertinente, realizamos

intervenções à vista de ab-reações espontâneas e necessárias, ou que se manifestaram no curso


55

do processo psicoterápico, objetivando tratar Caroline e aprofundar investigações relacionadas

com o impacto traumático e dissociativo ocorrido na vida dela.

2.5- Procedimentos para Análise dos Dados

Os dados foram analisados seguindo o agrupamento qualitativo para estudo de caso

clínico, com uma análise intensiva dos diversos dados reunidos na pesquisa a partir dos

diferentes instrumentos utilizados.

No que se refere aos relatos clínicos, obtidos no transcorrer do tratamento, a sua

descrição segue o ordenamento temporal dos atendimentos, e seu agrupamento está de acordo

com a relevância do conteúdo para os objetivos da pesquisa, particularmente para o agrupamento

de informações relativas a anamnese do caso e à ilustração dos processos traumáticos e

dissociativos.

As produções das personalidades (veja Anexo 2), obtidas em ambas as etapas da

pesquisa, foram selecionadas pelo pesquisador com base na relevância dos aspectos traumáticos

e dissociativos identificados no contexto da paciente, e analisadas segundo seu conteúdo.

A escala DES (veja Anexo 2) foi mensurada quantitativamente de acordo com os critérios

apontados por Putnam (1992).

Com a finalidade de analisar aspectos psicodinâmicos, traumáticos e dissociativos, o

TAT foi guiado pelo modelo de interpretação americano (Murray, 1943/1967), e complementado

em Silva (2003). A análise e interpretação do Teste das Pirâmides de Cores foi feita com base

nas informações contidas em Justo e Kolck (1976), Villemor Amaral (1978) e Villemor-Amaral

(2005).
56

Os dados das entrevistas clínicas e devolutiva foram agrupados descritivamente buscando

evidenciar conteúdos significativos para evidenciar o quadro clínico. A entrevista SCID-D (veja

Anexo 4) teve um tratamento específico para a identificação dos sinais e sintomas seguindo as

categorias próprias desse modelo de entrevista.

Durante as duas etapas do tratamento, buscamos descrever o inter-relacionamento do

funcionamento psíquico (Putnam, 1989; Ross, 1989) de Caroline, identificando todas as alters,

fragmentos e ISH’s encontrados até então.

Foi desta forma, com a aquisição das diversas fontes de evidência, com a esquematização

do inter-relacionamento do funcionamento psíquico da paciente, com os registros, as

transcrições, análises e interpretações dos relatos clínicos e das entrevistas, e com os resultados

dos testes psicológicos, que discutimos a questão do trauma e dissociação nesse estudo de caso.
57

CAPÍTULO III – RESULTADOS: PROCESSOS DISSOCIATIVOS E

TRAUMÁTICOS EM CAROLINE

Este capítulo contém os resultados do Caso Caroline considerando os seguintes itens:

apresentação de elementos anamnésicos e de fragmentos dos relatos clínicos, avaliação das

produções das personalidades, da Escala de Experiências Dissociativas, dos testes psicológicos e

das entrevistas.

3.1- Elementos Anamnésicos e Relatos Clínicos

Primeiramente, ao modo do relato de um caso clínico, descreveremos informações

previamente obtidas na primeira etapa da pesquisa, durante o percurso realizado com Caroline

nos anos de tratamento psicoterápico conosco. Este relato justifica-se porque foi a partir deste

processo que identificamos o quadro da personalidade múltipla.

Corria o final do ano de 1998... Caroline nos chegou por indicação de outra paciente. Era

a sua primeira vez num psicólogo. Logo de início, verbalizou: “Estou com muito medo de ficar

louca e de perder a memória. Sempre tive lapsos de memória e intensas dores de cabeça. Fui

muito maltratada pelas pessoas que cuidaram de mim. Também por outras”.

Em sua catarse não manifestava ressentimentos. Exprimia e descrevia seus medos e

sentimentos expondo os agravos sofridos. Ora sorria, ora engolia o choro. Interessante revelar

que tal crise nervosa se apresentava como uma intensa descarga de afetos reprimidos há muito.

Encontrou naquele ambiente uma forma de desabafo, sentindo-se livre para externar seus medos,

suas dores e conflitos.

Já para o final da sessão, disse-nos: “Estou me sentindo melhor, mais leve e tranqüila,

com sono”. A pressão mental diminuiu e a expressão verbal cedeu lugar ao torpor fisiológico.
58

Solicitamos que respirasse profunda e pausadamente. Aceitou o breve relaxamento e

aparentemente adormeceu. Permaneceu nesse estado por alguns minutos. Despertou

espontaneamente. Sorriu. Recomeçou a falar. “Interessante este lugar. Transmite paz, conforto.

Gostei daqui. Talvez eu volte mais vezes”.

Agora, suas reações eram um tanto diferentes. Permanecemos em silêncio, na escuta

clínica, procurando encadear associações a serem melhor analisadas. Atualmente, não

deixaríamos de reconhecer e identificar mudanças naquela nova fala, nas diferenças

fisionômicas, nas expressões da emoção, nos gestos. Entretanto, naquela ocasião, atribuímos tais

alterações como sendo efeitos do breve relaxamento e das descargas psíquicas iniciais.

Diante do resultado satisfatório da intervenção sugerimos a continuidade do processo de

relaxamento, fato que se deu de forma extremamente fácil, simples e direta, sem maiores

esforços. Relaxou novamente, conservando-se neste estado por mais alguns minutos. No segundo

despertar Caroline manteve mais fielmente as atitudes idiossincráticas do princípio, ou seja, os

detalhes próprios do início se mostraram mais fidedignos. Verbalizou-nos: “O que o senhor fez?

Parece que dormi! Como é bom se sentir bem. Lembro-me que lhe dizia estar me sentindo

sonolenta”. Manifestou contentamento com o processo nunca antes experienciado. Encontrava-

se melhor, um tanto refeita das emoções em desgoverno. Foi embora...

No dia seguinte, logo pela manhã, telefonou-nos solicitando novo agendamento.

Tencionava iniciar um processo psicoterápico. Na clínica, foram palavras dela:

“Se soubesses como é difícil falar de mim, reviver situações, invocar imagens que

guardei no fundo de um arquivo, sei que vivo, lá dentro de mim. Talvez seja uma catarse

necessária para queimar ou adocicar fatos e pessoas que de uma forma ou outra foram
59

importantes nesta minha vida. Lembranças! Estas quando invocadas, vejo-me sempre só,

olhando para o céu, sentindo dentro de mim a certeza de existir alguém muito querido

que viria me levar para algum lugar feliz. Timidez! Muita. Por motivos não revelados.

Paixão de adolescente! Este meu ser sonhado. Vontade de apaixonar! Sei que o coração

não tem idade. As emoções são o bem de cada um. Paixão não. Mas, um grande amor.

Daqueles que superam quaisquer barreiras. Tenho sempre necessidade de compreender

as dificuldades das pessoas, não é difícil para mim”.

Durante o ano de 1999 investigamos a vida de Caroline intensamente. Registramos,

inclusive, contextos traumáticos e dissociativos da vida dela desde o seu nascimento sem a

menor noção de que estaríamos lidando com um caso de personalidade múltipla, um transtorno

ainda desconhecido por nós.

A paciente relatou que sua mãe biológica, moça simples do interior de um estado do

nordeste brasileiro, veio para o centro-oeste à procura de melhores oportunidades. Ela empregou-

se como doméstica na casa de um juiz aposentado e viúvo, com filhos já criados, pertencente a

uma família respeitável da cidade. No convívio, ocorreu o consentimento, em segredo, de

intimidades entre patrão e empregada. E, nestas intimidades a gravidez se fez presente. Porém, o

preconceito social culminou com a família tradicional mudando-se de cidade, ficando, sua mãe,

sozinha, na pobreza. Foram palavras dela: “Ela chegou na cidade. Foi trabalhar como doméstica

na casa dele e tiveram não sei lá o quê, o sexo mesmo. Eu acho que fui gerada pelo sexo, não

pelo amor. Quando ele ficou sabendo, mudou de cidade, abandonou-a e ela me teve literalmente

sozinha, no chão”.
60

Continuou dizendo que o cenário do nascimento era de extrema miséria. Apenas uma

choupana construída a beira de um riacho. Um contexto simples, desolado e frio pela ausência do

essencial. Enfatizou que nasceu literalmente no chão, através do esforço solitário de sua mãe,

uma corajosa mulher que conseguiu realizar sozinha o próprio parto.

O motivo do seu abandono não é possível precisar. Talvez a pobreza superlativa de

recursos da genitora, relegada pela importante figura do juiz da cidade que não assumiu o ato

compartilhado, dispensando a doméstica na época da notícia da gravidez. Talvez um ato de amor

materno em desesperança, ou mesmo almejando para a filha um futuro diferente do dela, talvez...

Caroline mencionou ter sido acolhida por duas senhoras de certa idade, professoras da

única escola da redondeza. Segundo informou, eram de recursos escassos e seus únicos haveres

eram os valores morais com os quais ela procurou se identificar. Ambas eram católico-

apostólicas-romanas, congregadas de algumas fileiras dentro da igreja, e seguiam metodicamente

os rituais religiosos. Eram reservadas. Uma viúva (mãe) e a outra solteira (filha). Esta última, sua

madrinha. Não havia figuras de referência masculina no contexto familiar-educativo. Esse papel

era desempenhado pela madrinha.

A doação efetivada com poucos meses após o nascimento nunca foi sentida como um ato

de amor por parte dela. Talvez tenha sido por dó, pela comoção do momento de angústia da

pobre mulher. Talvez algum tipo de impulsividade. Talvez... Mas, conforme relatou, o certo é

que Caroline dizia: “nunca ouvi delas que eu não seria devolvida pelo fato de ser importante,

por já gostarem de mim, por não conseguirem viver sem mim, por já ser parte da família e da

vida familiar-quotidiana. O colo me era muito raro e a comida o necessário à minha

sobrevivência. Elas escondiam a comida de mim. Eu sentia o cheiro”.


61

Caroline também enfatizou que quando tinha dois anos de idade iniciaram processos

sintomáticos de crises febril-emocionais relacionadas mais diretamente com a perda de uma

colega que sempre a acompanhava nos rituais das procissões. Certo dia, “fui levada para ver

minha amiguinha já morta, colocada em cima de uma mesa, pronta para o sepultamento, com as

vestes típicas do cortejo. Não conseguia compreender o porquê da mãe dela chorar tanto sem

colocar a filha no colo. Eu via a menina solitária e imóvel sobre a mesa que ficava justamente

na altura dos meus olhos. Impressionada com o quadro passei a noite e alguns dias em choque

nervoso. Nestes momentos, via a minha colega levantar-se da mesa, chamando-me para ir ao

seu encontro”.

Conforme a paciente mencionou, outro fato singular que marcou profundamente a vida

dela ocorreu quando contava cinco anos de idade. Sua mãe não biológica havia ficado viúva

muito jovem, quando sua filha, madrinha de Caroline, estava com apenas dois anos. Ela e o

marido, quando nos momentos extremos de agonia dele, fizeram juras de amor. Segundos antes

de o companheiro falecer ambos juraram fidelidade eterna. Apertaram as mãos fortemente

permanecendo assim por tempo relativamente longo. Sua mãe sempre conservou a fidelidade

prometida. Segundo Caroline destacou, “essa história de amor verdadeiro me deixou

vislumbrada. Praticamente, durante esta fase, tive a certeza de que um ser especial e exclusivo,

o meu grande amor, viria me proteger e me salvar. Essa certeza passou a ser o meu estímulo de

vida. A história fortaleceu ou fez iniciar sonhos que passaram a representar realidades dentro

de mim”.

“Não sei quando comecei a sonhar porque vivia sonhando acordada”. Conforme

Caroline relatou, com mais ou menos seis anos, começou a ter pesadelos. Acordava suando frio e

com medo. Demorava a ser acalmada saindo dos sonhos para a realidade. Ainda assim, ficava
62

lembrando por muito tempo das imagens perturbadoras um tanto fixas na sua mente. Sonhava

quase sempre caindo de lugares altos, em plena penumbra, ou em noites chuvosas que ventavam

muito, pés descalços, procurando a sua casa que, no sonho, não sabia onde ficava, quase

entrando em pânico. Seus sonhos eram sempre de noite, com poucas luzes, sem cores. As

lembranças dos sonhos traziam uma sensação ruim, de cair de muito alto, quase no escuro, sem

saber quando seria o final da queda. Tal queda nunca chegava ao fim. A seguir, como mostrado

na Figura 3, apresentamos o desenho feito pela paciente, a nosso pedido, retratando o seu sonho

recidivo.

Figura 3. Desenho do sonho recidivo de Caroline.

Caroline dizia que ficava “com medo de dormir e sonhar novamente como sempre

acontecia. Acordava abatida e triste no começo da manhã. Rezava quase ininterruptamente para

que Deus me protegesse porque, na interpretação delas [das duas senhoras], tudo acontecia por

causa deu não ter rezado suficientemente. Deus, então, não era poderoso. Se fosse, não deixaria

que tais acontecimentos continuassem”.

Além disso, a paciente verbalizou: “As pessoas achavam que eu vivia no mundo da lua”.

Em algumas ocasiões, em suas distrações, não percebia quando “personagens” – crianças


63

desconhecidas conforme exemplificou – chegavam, conversavam e solicitavam respostas. Nestas

ocasiões desconhecia fisionomias e não compreendia a linguagem. Tais situações eram

ocorrências normais para ela. Desde antes de adquirir melhor precisão para as idéias próprias,

deparou-se, sem saber explicar, com fenômenos inusitados. Experiências dissociativas,

alterações de consciência, estados segundos e crepusculares, perda de sentido da realidade,

confusões de identidade, lapsos de memória, amnésias e ouvir vozes eram ocorrências típicas,

recorrentes, intermitentes e enigmáticas na vida dela. O invulgar dos demais era o comum dela.

Segundo seu relato: “Eu via ‘pessoas’ chegarem, conversarem entre si, não compreendendo

como aqueles estranhos adentravam minha casa estando as portas fechadas. Auto justificava-me

achando que tais ocorrências se davam durante os meus lapsos”.

A casa dela parecia ser a continuidade da igreja. Estampas de santos, os mais variados,

por quase toda a residência. Segundo a sua ótica perceptiva, dava a impressão de serem olheiros

que a (per)seguiam permanentemente. As duas senhoras faziam orações freqüentes e sentiam-se

ameaçadas com presenças que não viam nem percebiam. Presenças estas reveladas por Caroline,

que também as acompanhava nas orações. Geralmente, pediam proteção contra as tentações do

maligno. Os fenômenos descritos acima continuaram se intensificando. Entretanto, Caroline

passou a segredar o que nela era autêntico e espontâneo. Só que agora acrescentados ao medo do

diabo e da vontade de não querer ver mais nada. Segundo comentou: “Quando aconteciam as

visões, encolhia-me e rezava como havia sido recomendado, tentando me livrar do demônio.

Uma luta íntima constante me deixava conflituosa: Quem era mais poderoso, Deus ou o diabo?”

Segundo seu relato, praticamente, embora tivesse crescido sempre em confronto com

duas realidades, foi a partir dos nove anos que começou a distinguir mais detalhadamente o

processo de divisão da consciência, de split mental que experienciava desde então. Principiou a
64

perguntar por que os outros não viam o que ela via já que tudo era tão real. Com inteligentes

mecanismos começou a testar as pessoas, protegendo-se de julgamentos ou castigos canalizados

para as novenas e compromissos impostos pela igreja na figura do sacerdote, que começou a

freqüentar a casa. Dava seqüência a processos indiretos cujo objetivo era investigar se os demais

estavam vendo o que ela via ou ouvindo o que ela ouvia. Diante da negativa de todos, constatava

que as ocorrências circunstanciais somente eram provenientes do seu campo perceptivo. Aquelas

impressões psíquicas eram interpretações mentais unicamente dela. Fazendo uso desse

mecanismo foi conseguindo sobreviver sem retaliações e preparar-se para situações mais

complexas que não tardariam. As ocorrências não eram verbalizadas diretamente. Eram

camufladas em tons de autenticidade que ela percebia e sentia, nunca deixando de cumprir as

recomendações e imposições das opiniões alheias e próximas. Não obstante, esta conduta

benéfica aos olhos externos não impedia a continuidade dos fenômenos, nem favorecia

explicações sobre os acontecimentos autênticos do mundo íntimo da realidade psíquica dela.

Pelo contrário, desconfiava desde pequena das diferenças existentes entre ela e os demais.

Seu desespero era configurado com idéias recorrentes de suicídio. Segundo seu relato, “o

suicídio, ou a idéia dele, sempre foi uma temática constante em minha vida”. Ciclicamente,

desde a infância, essa fixação ainda ressurge em seu psiquismo, embora com menor intensidade

nos dias atuais.

Em relação aos processos de aprendizagem e à escrita, Caroline relatou: “Sempre fui

muito dispersiva. Tímida a ponto de quase não conseguir erguer os olhos. Apesar disso, na

escola, eu não apresentava dificuldades em relação ao aprendizado, embora, constantemente

distraída e ausente. Minha caligrafia sempre foi muito irregular”. Este último fato, conforme a

paciente destacou, contrariava os professores que davam como castigo escrever frases em
65

páginas seguidas. Talvez professores mais qualificados e atentos às divagações infantis, teriam

constatado nela indícios de natureza invulgar a serem investigados com maior profundidade.

Suas coisas eram, no mínimo, mais impróprias ao comum das crianças. Apesar disso, segundo

informou, sempre procurou ser dócil, compreensiva, cooperadora, responsável, afável e delicada.

Sentia-se, entretanto, diferente.

Num dia, não se recorda o motivo, ainda com nove anos, Caroline relatou que foi

surpreendida com revelações sobre a sua ascendência por meio de uma senhora de cor (sic),

prestadora de serviços domésticos que freqüentava a casa. Vinha em troca de parca comida e

fazia a lavagem da roupa. Achava, entretanto, que não deveria lavar a roupa dela. Que sua

criação não estava correta. Que, para ela, deveriam ser ensinadas as tarefas simples do lar, a fim

de substituí-la. Pelo fato de Caroline demonstrar não gostar de pessoas de cor – motivo não

compreendido por ela mesma ou outras razões inconscientes (a paciente possui tez e olhos

claros, parecendo descendência européia) –, a senhora, que possuía certa intimidade com as

patroas, por sentir rejeição e confrontar origens, de maneira agressiva e de forma constrangedora,

num ato impensado de retaliação, expôs a origem da menina de forma humilhante e reservada.

Falou-lhe não ser ela grande coisa. Precisava saber que a sua procedência era mais humilde que a

dela própria. O que quis dizer, e disse, era que Caroline não tinha nem mãe, nem pai. Era uma

pessoa rejeitada na vida e que, por caridade, vivia naquela casa. No consultório, expressou-nos a

sua dor da seguinte forma: “Quando recebi a notícia sobre a minha ascendência foi como se me

tivessem quebrado em mil pedaços e depois soprado”.

A paciente mencionou sempre ter sido amiga dos livros. Apesar de muito dispersiva,

quando contava doze anos de idade, colocou-se em condições, por concurso seletivo, de

freqüentar um colégio público, tradicional pelo ensino e por capacitados e renomados


66

professores. Seu desconforto aumentou pelo nível social dos estudantes ali reunidos. Famílias

tradicionais e ricas. Todas conhecidas entre si. Não tendo vaidades, nem poder aquisitivo, sentia-

se isolada, desigual. O complexo e a inferioridade aumentaram. Talvez, afirmados pela postura já

recalcada e reservada de sempre.

Um tanto desconfortável, revelou-nos durante as sessões clínicas, que respondia

questionamentos difíceis feitos pelos professores sem se dar conta das respostas verbalizadas.

Como se as respostas saíssem prontas da sua boca sem que tivesse consciência das formulações

expostas. Segundo ela, tal situação automática ou espontânea gerava espanto nos colegas e

admiração nos profissionais. Contou-nos ainda que ocorrências dessa natureza aconteciam

quando os professores notavam devaneios, adicionados a completa ausência dela do ambiente da

classe, deparando-se, entretanto, com o equívoco de suas interpretações originais perante a

desatenção percebida nela, não comprovada, principalmente, quando diante das “saídas”

inteligentes e acima da média elaboradas. Outras vezes, decepcionava os mesmos por nada

compreender do que lhe fora perguntado.

Por volta desse período sua madrinha se casou com uma pessoa bem mais jovem que

fazia uso de alcoólicos, proveniente do mesmo tronco familiar. Vamos chamá-lo Sr. O. Segundo

informações da paciente, era uma pessoa introspectiva e experiente sexualmente. Autoritária,

temperamental, freqüentador de meretrícios e que gostava de festividades e comemorações. “Por

ordem dele, novo comandante da casa, eu fui afastada da mesa durante as refeições por ser

considerada de nível inferior”. Neste ponto, conforme salientou, acentuamos condutas sexuais

conflituosas previamente existentes, sofridas por Caroline. Apesar da opção pela vida conjugal,

antes de se casar, sua madrinha parecia ter relacionamentos homossexuais com uma amiga, velha

conhecida, em ambiente reservado da casa, sob ciência da genitora. Nestas ocasiões Caroline
67

ouvia gemidos incompreensíveis. Confidenciou-nos achar ter sido vítima de algumas situações

constrangedoras tais como acordar sentindo-se apalpada em zonas erógenas. Sobre esses

momentos, Caroline mencionou: “eu permanecia em atitude passiva, fingindo continuar

dormindo, sem compreender comportamentos daquela natureza. Entretanto, não deixava de

ouvir, ao pé do meu ouvido, sussurros indiscretos de prazer por parte da minha madrinha,

provavelmente concernentes a masturbações”.

Confidenciou-nos também não perceber as segundas intenções que lhe eram direcionadas

pelo Sr. O. Sentia um ambiente desfavorável dentro da casa. Recebia dele esbarrões propositais

que afetavam principalmente a região dos seios iniciantes. As datas comemorativas eram regadas

com bebidas diversas, fato não existente antes do casamento. Nestas festividades era comum, por

parte do Sr. O, insistências para que ela ingerisse alcoólicos. Diante de suas permanentes recusas

as represálias se faziam maiores. Disse-nos que em uma dessas circunstâncias, em meio a vários

convidados, o Sr. O lhe ofereceu insistentemente um “refrigerante” já no copo. Sem graça por

estar rodeada de pessoas, ela aceitou desconhecendo tamanha cortesia, totalmente diferente das

outras vezes em que era completamente ignorada. Sentiu-se constrangida a ingerir a bebida ante

a insistência do agressor mal intencionado. Com um fragmento do seu relato, trazemos sua

experiência: “Não me recordo como cheguei ao meu quarto. No despertar, ou no tentar ‘voltar’

que era obrigada, conseguia abrir os meus olhos com dificuldades e sentia mãos em meus seios

e beijos na minha boca. Debatia-me fortemente e caía novamente em torpor. Alguém o

interrompeu, não sei quem, afastando-o de lá e cerrando a porta”. Ainda hoje Caroline afirma

não saber quem foi esse “alguém” salvador. Entretanto, guardou a certeza de uma interferência

superior. Aquela dúvida da existência de Deus começou a abrir espaço para a idéia de uma

proteção divina permanente que tomou forma em sua vida.


68

De acordo com as informações da paciente, válido salientarmos, a partir da adolescência,

outras experiências insólitas ocorridas com ela, algumas vezes, no ambiente estudantil –

experiências similares estão descritas em Watkins e Watkins (1997) no contexto de outra

paciente múltipla. Em dias de exames escolares, após os professores distribuírem as provas,

Caroline preenchia seu nome e adormecia imediatamente. Adormecia sem dormir. De repente,

como num piscar de olhos, acordava assustada ouvindo o coordenador dizendo que o tempo da

prova havia se esgotado. Sobre isso, Caroline comentou: “Para meu espanto, a prova estava

toda respondida, muitas vezes, numa caligrafia estranha a minha. Para mim havia se passado

apenas um segundo, talvez menos. Nada de estranho era verbalizado pelos colegas. Ninguém

percebia nada. Ou, se percebiam nada diziam. Os resultados eram notas excelentes adicionadas

aos elogios dos meus professores. Sentia medo não compreendendo essas ocorrências

contraditórias”. De um lado, o reconhecimento dos professores e das duas senhoras que

atentavam somente para os resultados. De outro, o temor perante circunstâncias desconexas. Tais

experiências dissociativas, bem como outras mencionadas mais adiante, somente nos foram

reveladas em consultório após a formação de vínculo terapêutico satisfatório. A perturbação

resultante da idéia do perigo real ou aparente de ser louca, ou de supor não ser compreendida,

fazia do silêncio a conduta trivial dela. Este medo da loucura continua atualmente, porém, mais

amenizado. É também um sintoma proeminente nos múltiplos.

Declarou-nos ter se casado aos dezesseis anos. Chamemos o seu companheiro de Sr. A,

nove anos mais velho. Essencial retirar o véu de uma realidade matrimonial incomum

mutuamente acordada, conforme Caroline nos explicou. O casamento dela com o Sr. A, desde o

princípio, foi uma união de conveniência recíproca. De um lado, para ela, representava o

afastamento definitivo de um lar perturbado, regido pela desqualificação psicosocioeducativa


69

quase integral de duas senhoras que assumiram espontaneamente a educação de uma criança –

sem que estejamos fazendo pré-julgamentos ou estabelecendo juízos de valor diante contextos

particulares que não podemos precisar com maior profundidade –, e pelo desrespeito crescente

do Sr. O, prestes a cometer outros abusos sexuais, desejoso de saciar os seus instintos. De outro

lado, para o companheiro, havia a impotência sexual revelada na época do noivado, antes mesmo

da lua de mel, não como confidência de uma dificuldade masculina perturbadora, mas como

justificativa para insucessos sexuais que poderiam ocorrer a partir do casamento.

Caroline assumiu para si, expressando no seu relato, que seria uma “união de amizade”,

respeitosa nos demais quesitos de um contexto social e conjugal. Disse-nos também: “Eu estava

em êxtase. Seria uma nova forma de relacionamento. Uma irmandade leal”. Embora casados

pela Lei Civil, compartilhando uma vida em comum, sentia que “estaria salva de apetites

sexuais alheios”. Entretanto, essa fuga tinha razões mais profundas. Simbolizava ainda uma

outra conjuntura fundamental, de fidelidade, demonstrada no seu relato: “Eu havia encontrado a

fórmula ideal para me justificar perante o meu grande amor, aquele que idealizei a partir da

história contada por minha ‘mãe’ quando da agonia do companheiro, o amor que saberia

compreender minhas atitudes e tomadas de decisão momentânea, apenas temporária. Estando

casada, para sobreviver, e continuando pura, estaria mantendo a promessa de continuar fiel ao

ser que representava a razão do meu viver, que representava a presença do ser ausente.

Consolava-me com essa idéia, de que a pessoa conhecida, o ser da minha plenitude, viria. Seria

poderoso e protetor. Lindo, com qualidades únicas e inconfundíveis. Seria um misto de tudo o

que me fizesse falta em questão de carinho, de proteção, de conforto, de amor...”

Mas, o Sr. A, apesar da impotência sexual, não aceitou uma vida conjugal sem

relacionamentos sexuais. No seu relato, difícil de crer, Caroline comentou: “perdi a virgindade
70

quando do nascimento do primogênito. Diante da impotência do meu marido, eu engravidava

por contato, sofrendo atos sexuais violentos com tentativas de penetração incompletas, fato que

aumentava a agressividade dele”, deslocando para ela as próprias insatisfações e

inconformismos.

A paciente também relatou que a convivência conjugal agregada aos processos

traumáticos desde o nascimento fez com que ela se tornasse uma pessoa sem auto-estima e sem

vontade própria, passiva diante da arrogância, da violência e do desprezo do companheiro. Os

estados de insônia, irritabilidade, inquietação e insatisfação, tornaram-se mais aflorados nela.

Dizia: “Os medicamentos antidepressivos e os calmantes eram salvadores e miraculosos para

mim. Fiquei dependente de remédios por muito tempo”.

Caroline nos contou ter consultado diversos especialistas (Neurologistas, Psiquiatras,

Cardiologistas, Ginecologistas e Clínicos-Gerais). Viveu muito tempo sob o efeito de

medicamentos antidepressivos, ansiolíticos e analgésicos. “Nunca fiz uso de cigarros, álcool ou

drogas ilícitas. A depressão sempre foi o diagnóstico comum e permanente dos profissionais que

me atenderam. A maioria deles, principalmente psiquiatras, justificavam ser o meu quadro

negativo causado pela ausência sexual na relação matrimonial. Afirmavam que eu deveria ter

prazer sexual a qualquer custo porque a prática do sexo é fundamental à saúde”. Assim,

receitavam, além dos medicamentos, condutas sexuais ativas, prazerosas e satisfatórias,

obviamente desconhecendo a realidade concreta da vida conjugal dela.

Mencionou ter sido aprovada no vestibular com quase trinta anos de idade. Em verdade,

desejava cursar Psicologia. Mas, por imposição matriculou-se no vestibular para tentar Direito,

determinação do Sr. A. Sendo aprovada, “não pude me matricular na universidade por


71

impedimento dele, intransigente, instável e oscilante”. Desta forma, não pôde fazer o curso

almejado, nem o que tinha direito pela aprovação nas provas.

A compreensão de sua realidade sempre foi muito difícil. Melhor dizendo, quase nunca

conseguiu entender certos fenômenos estranhos à sua lógica. Optava sempre pela conduta da

reclusão e do silêncio com a finalidade de evitar contrariedades e, principalmente, o rótulo de

alienada. Enfatizou: “Pessoas que eu nunca havia visto declaravam com firmeza, de forma

insistente, me conhecerem. Quando criança recebia castigos pelo aparecimento de objetos

estranhos junto aos meus pertences. Objetos estes que eu não sabia a procedência. Eu era capaz

de passear pela natureza e sentir uma vaga impressão de já ter estado naquele mesmo lugar.

Vestidos que nunca comprei apareciam no meu guarda-roupa. Às vezes, deparava-me vestida

com um vestido sem a lembrança de tê-lo vestido. Começava a pintar um quadro e ao retornar à

pintura, em outro momento, achava-a concluída num estilo diferente do meu. Muitas eram as

ocasiões em que eu tinha a impressão de ter acordado sem ter dormido. Às vezes, me deparava

com as unhas pintadas com esmalte vermelho – cor que não gosto – sem me lembrar de tê-las

pintado”.

Enfim, essas experiências dissociativas não eram novidades para ela. Na realidade,

conforme narrou, aconteciam-lhe ciclicamente desde a meninice até onde consegue se lembrar. O

conhecimento das coisas pela vivência prática e pelas observações pessoais, de forma

perturbadora se agravou, afetando-a como nunca antes. As pessoas mais próximas, os membros

do núcleo familiar, afastaram-se emocionalmente dela. Num comportamento indiferente, perante

a sua óptica perceptiva, optaram por considerá-la como uma pessoa passiva, afável e dócil, que

leva a vida com normalidade. Era o seu jeito de ser.


72

Podemos asseverar que ao final deste período, um ano após iniciada a psicoterapia,

Caroline estava um tanto renovada. Não que os lapsos de memória e as dores de cabeça

estivessem eliminados. Ela apenas sabia lidar mais adequadamente com eles. Aceitava melhor as

suas próprias peculiaridades. Em alguns períodos tivemos que fazer atendimentos semanais mais

freqüentes. Nesses encontros havia como uma repetição da sessão original. Afetos eram

externados com necessidades de falar e descarregar pressões angustiantes.

Importante salientarmos que nos momentos circunstanciais de crise, quando algum fator

desconhecido alterava o equilíbrio das emoções dela, somente a descarga verbal com a seqüência

do relaxamento revertia a situação de descontrole estabelecida. Por várias vezes nos

questionamos sobre as razões desses efeitos tão nítidos. À medida que eram apresentados,

vividos intensamente e aparentemente descarregados no decorrer das sessões, gerando alívio,

maior confiança e credibilidade íamos ganhando pelo fortalecimento do vínculo terapêutico.

A princípio, não foram poucas as chamadas telefônicas que recebemos. Nessas ocasiões,

conseguíamos que ela liberasse suas angústias após chorar – quase sempre com resistências – e

nos contasse repetidamente seus medos, apreensões e receios. Após essas verbalizações, algumas

demoradas, sentia-se mais aliviada. Foi mantendo a certeza de poder acreditar na psicoterapia

como meio adequado e eficiente de minimizar dores, sofrimentos e angústias. Constatava a sua

melhora de forma crescente. Problemas de organicidade estavam ausentes, principalmente a

nível cerebral – comprovados com laudos pretéritos e com entrevistas clínicas individuais

realizadas com o Sr. A e com uma das filhas da paciente –, exceção para os processos

depressivos comumente diagnosticados por psiquiatras e clínicos gerais do pretérito. A sensação

de medo e os desconfortos emocionais estavam sob controle, porém, os lapsos de memória, as

ausências, não haviam passado. As dores de cabeça haviam melhorado.


73

Alcançamos o ano de 2000, o começo do aprofundamento da descoberta do quadro

dissociativo da personalidade múltipla... Paulatinamente, durante esse período de tratamento,

fomos percebendo algo incomum. Quase todas as vezes que fazíamos uso da técnica do

relaxamento notávamos o mesmo sono característico da sessão original. Fomos constatando essa

particularidade que tendia a uma repetição contínua. Sempre que fazíamos uso do relaxamento

Caroline literalmente adormecia. Permanecia em estado de sono natural por alguns poucos

minutos tradicionais. De nossa parte, logo que percebíamos o seu desvanecimento, silenciávamos

e aguardávamos. Já estávamos acostumando com aquele tipo de comportamento peculiar. Porém,

tal comportamento começou a ocorrer sem o relaxamento propriamente dito. Algumas vezes ela

chegava, sentava-se, respirava aliviada e adormecia no começo da sessão em períodos não mais

regulares. Outras, no meio. Outras, mais para o final da sessão sem que nada mencionássemos a

respeito do relaxamento.

Tratava-se de um comportamento estranho e atípico. A paciente começava a falar.

Apresentava-se triste e angustiada. De repente, entrava em adormecimento por alguns segundos

ou minutos. Acordava. Verbalizava de forma diferenciada trazendo novas idéias. Adormecia

novamente por mais alguns segundos ou minutos. Acordava. Retomava aos assuntos

verbalizados inicialmente. Não mais fazia menção às idéias novas do segundo estado. Sentia-se

feliz e aliviada. Exemplificamos, a seguir, com um trecho de sessão:

Caroline: “Doutor, devo lhe contar também que hoje acordei angustiada. Tive

novamente aquele sonho que me perturba sempre”. Pesquisador: “Fale-me um pouco

mais sobre isso...” Caroline: Silêncio... Adormecimento... (?) “Vamos mudar de assunto.

Você já viajou de navio? Eu amo o mar. Também adoro cantar”. Pesquisador: Após
74

alguns minutos de diálogo clínico, um novo silêncio... (?) Novo adormecimento da

paciente... Caroline: “O que houve? Estou meio confusa. Mas, sinto-me feliz. Não quero

mais falar sobre aquele sonho repetitivo”.

Quando, porém, ela percebia que de nossa parte algo estava diferente, quando sentia que

não a compreendíamos ou achava que estávamos indiferentes ao que ela havia expressado, o

efeito inverso não tardava a aparecer. Em vez do alívio almejado sobrevinha um grande mal-

estar. Nessas ocasiões, era imensamente difícil terminar a sessão e consentirmos que a paciente

deixasse o consultório naquelas condições, aparentemente pior que chegou. Fomos percebendo

que Caroline não se dava conta desses dois estágios de adormecimento. Para ela, não havia o

registro da “segunda fala”. Não se recordava dela. Perante intervenções vinculadas aos assuntos

que ela havia dito na “segunda fase” da sessão, que na sua realidade psíquica não tinha a menor

lembrança, irritava-se conosco, colocando-se numa postura indiferente, exasperando-se de

maneira contida, fato que agravava o processo e causava o retorno dos medos e receios iniciais.

No decorrer e no aprofundar da psicoterapia fomos percebendo novas diferenças entre os

dois estados. Hábitos e costumes diferenciados. Novos sorrisos, gestos e trejeitos. Outras

memórias, sentimentos, épocas. Importante realçar duas realidades psíquico-concretas

divergentes e recíprocas num mesmo período de tempo. Na nossa realidade, as sessões possuíam

gaps ou lacunas temporais. Para Caroline as sessões transcorriam de forma linear, sem gaps.

Quando lhe falávamos que havia adormecido por duas vezes não acreditava. Averiguamos,

então, dois estados de consciência. Um normal e outro alterado. As verbalizações no segundo

estágio, quando do psiquismo modificado, não eram lembradas e nem registradas por ela. Seria

isso uma divisão da consciência? Será que durante todo esse tempo fizemos uso do método
75

catártico que, nos dizeres de Anna O, segundo Joseph Breuer, era uma verdadeira talking cure

(cura pela fala) ou chimney-sweeping (limpeza de chaminé)?

Conforme relatou, os estados de ausência diminuíram na forma como eram percebidos

por ela. Mas, embora essas dissociações estivessem em menor grau à sua percepção, elas

continuavam a ocorrer em grau crescente. É importante enfatizarmos que tais ocorrências não se

restringiam somente à atividade de consultório. Em algumas ligações telefônicas começamos a

identificar mais claramente que ela não se dava conta dos lapsos de memória, das ausências.

Dialogava conosco alguns assuntos. Parava por alguns segundos. Recomeçava a falar. Parava

novamente para recomeçar segundos depois. Nesses breves espaços de tempo, gaps, sua

memória, sua maneira de falar, o tom da sua voz, os contextos, eram outros, diferentes. Não

revelávamos para ela tais alterações. Ela não as percebia. Por isso não se perturbava tanto.

Aprofundamos as nossas investigações científicas. Foi assim que nos avistamos pela

primeira vez com a Transtorno Dissociativo de Identidade (DID), até esse tempo desconhecido e

ignorado por nós. Existiram, então, quatro processos aleatórios que nos fizeram perceber

gradualmente a dissociação espontânea de Caroline e conseqüentemente chegarmos à hipótese de

que estávamos diante de um caso de personalidade múltipla tal como indicado nos critérios do

DSM-IV-TR (2003).

O primeiro desses processos acontecia no próprio ambiente clínico. Caroline dissociava-

se espontaneamente. Mudava de estados de consciência passando do estado de consciência um

para o estado de consciência dois. Inicialmente, tal fenômeno alternante – switch – era oculto e

obscuro aos nossos olhos inexperientes.

No segundo processo, Caroline dissociava-se fora da clínica. Uma alter assumia o

controle do corpo. Era essa alter, que estava num estado de consciência dois, quem comparecia à
76

sessão. Em nossa percepção limitada era Caroline quem estava em atendimento. Ela, Caroline,

retornava ao comando do corpo somente posteriormente, quando já se encontrava em outro

ambiente, fora da clínica. O retorno ao estado de consciência um também acontecia fora do

ambiente clínico. Fomos percebendo esta situação pelo fato dela nos telefonar desculpando-se

por não ter comparecido à sessão. Justificava estar um tanto confusa não sabendo explicar o

ocorrido.

No terceiro processo, Caroline dissociava-se durante a sessão clínica. Uma alter assumia

o comando do corpo e não se deixava reconhecer, indo embora depois de encerrada a sessão. O

switch, ou seja, a mudança do estado de consciência um para o estado de consciência dois

acontecia na nossa frente, durante o atendimento, e não percebíamos. Posteriormente, a paciente

nos telefonava aflita, sem saber como havia deixado o consultório e retornado à sua residência.

Sua última recordação era de estar sentada na poltrona do consultório em sessão clínica conosco.

O quarto e último processo ao qual fomos percebendo, gradualmente, a dissociação

espontânea da paciente ocorreu quando ela “acordou” em plena sessão clínica, ou seja, quando

ela, de súbito, emergiu sem saber como e surgiu sentada na poltrona em terapia conosco. Em

algumas dessas ocasiões Caroline apresentava-se para a sessão com roupas cujo estilo era muito

diferente do dela. Maquiagem sobressalente. Batom vermelho forte, unhas pintadas com esmalte

vermelho, que ela diz detestar.

Certificamo-nos que alters atuando na posição de protetoras do psiquismo são muito

cuidadosas para permitir aproximações ao terapeuta. Isto, geralmente, leva tempo a fim de que

um paciente confie suficientemente no profissional a ponto de “outras partes” emergirem na

clínica. Os switches, mesmo ocorrendo, são às vezes muito sutis. Freqüentemente o terapeuta não
77

percebe as mudanças, o que em parte, explica as razões pelas quais os múltiplos são tão

facilmente diagnosticados equivocadamente (Haddock, 2001).

Foi praticamente na metade do ano que estamos referenciando, ano 2000, que ocorreu o

nosso primeiro contato, identificável conscientemente, com uma das personalidades que

compõem o psiquismo de Caroline. Estávamos intervindo na revivescência de um contexto

marcante à paciente. A seguir, parte do diálogo que tivemos:

Caroline: “Quando ela me contou sobre a jura de amor eterno ao companheiro tive a

certeza da existência de um ser especial, amado dentro de mim, exclusivo, o meu grande

amor”. Pesquisador: “Compreendo. Poderia me falar um pouco mais sobre este ser

especial?” Caroline: “Doutor, estou me sentindo estranha. Uma sensação esquisita.

Parece que vou desmaiar”. Silêncio... (?): “Olá. Sou Dalva. Não sei como o senhor

consegue entrar aqui na propriedade do meu avô. Mas, porque faz algum tempo que

venho lhe observando, resolvi confiar...”

A partir do ano de 2001 – exceção para Jennifer que também conhecemos em 2000 –,

outras alters foram aparecendo, identificando-se e detalhando os seus contextos específicos. Ou

melhor, fomos sendo capazes de detectá-las a partir de então. Em verdade, elas sempre estiveram

presentes. Éramos nós quem não as via. Desta forma fomos sendo capazes de compreender

Caroline mais profundamente e melhor desvendar as informações relatadas por ela. Além disso,

compreendermos também as produções obtidas na clínica e ao longo da vida dela, bem como as

características, as memórias e os sentimentos das múltiplas personalidades. Frisamos que

diversos contextos de emersões e imersões nem sempre estavam diretamente relacionados com
78

as temáticas clínicas em curso. As personalidades simplesmente surgiam espontaneamente, ou

eram acionadas involuntariamente, falavam de seus contextos, das suas histórias, de suas

lembranças, de seus sentimentos, de seus hábitos e costumes, das suas épocas, das suas dores.

Objetivando realçar um pouco mais os aspectos dissociativos da personalidade de

Caroline, exemplificando uma dessas emersões e imersões, registramos abaixo a transcrição

integral da fala de Supervisor quando da sua apresentação espontânea original.

“Prezado Doutor:

Pela primeira vez estou falando para me identificar diante do senhor facilitando nossa

convivência. Mostrou-nos, durante esse período inicial, competência e interesse em

aprofundar, procurando novas fontes de conhecimentos com o objetivo de ser útil a esse

ser que já sofreu muita incompreensão pela medicina tradicional, que ainda desconhece

essa faceta tão importante e comprometedora da saúde mental, por várias gerações.

Parabenizo-o em suas iniciativas sinceras e com grandes esperanças nos colocamos a

sua disposição para dificuldades atuais e futuras a serem vencidas. Confirmando suas

suspeitas, este caso é chamado na ciência atual como DID ou outra sigla que lhe for

mais adequada. Dificilmente reconhecido e confirmado em diagnóstico, entregamos em

suas mãos, agora seguras, este tesouro como sendo uma primeira experiência. Para

tanto, é necessário estudo, coragem e perseverança, com técnicas apropriadas, sempre

baseadas na ciência e informações atualizadas de fontes fidedignas. Não se assuste com

os acontecimentos surgidos e os que surgirão com o passar do tempo. Aparecerão ainda,

mais adiante, algumas alters, mas todas sob nosso controle para que não ajam incidentes

desagradáveis. Tenha calma e dê credibilidade para essas personalidades como um meio


79

de adquirir confiança entre ambos os lados. Paciente e profissional, profissional e

paciente. Assim sendo, será interessante para uma prévia pesquisa, que sejam

registrados os fatos, os detalhes e as nuances das passagens de estágios, de um estado

para o segundo e vice-versa. Elogiamos sua curiosidade positiva que ajudará a chegar

ao controle ideal da sobrevivência da paciente que no momento se sente segura e

compreendida, e com esses dados quem sabe trazer o refazer da sua integridade mental.

Com ajuda, o paciente aprende a conviver sem desespero por medo da loucura.

Esperamos ter sido claro e se caso necessitar de outras explicações que ainda não

encontrou com seu esforço, espere. Estaremos sempre à sua disposição”.

Vale ressaltarmos, neste ponto, outros tipos de experiências dissociativas inusitadas que

Caroline nos confidenciou corajosamente no ano de 2001. Revelou-nos que, algumas vezes,

acordava de madrugada estando sentada na mesa de seu escritório localizado num pequeno

quarto, em outro cômodo da casa. Ia dormir naturalmente em sua cama. Quando dava conta de si

estava sentada no referido escritório, com dores nos braços e, principalmente, nas mãos. À sua

frente, alguns desenhos ininteligíveis contendo um “monte de símbolos”, conforme enfatizava.

Também poesias e alguns pequenos bilhetes escritos em inglês – Caroline, conforme relatou,

nunca aprendeu idiomas estrangeiros, exceção para o latim durante o ambiente escolar – e numa

outra linguagem desconhecida e incompreensível. Retornava, então, para o seu quarto,

acordando muito cansada quando a manhã já estava alta. Às vezes, quando assumia novamente o

controle de sua consciência, e do corpo físico, percebia que mais de um dia havia se passado. Tal

fato a deixava abalada interiormente. Porém, como ninguém nada comentava, ela permanecia no

silêncio costumeiro. Por razões que não sabe explicar guardou alguns destes desenhos
80

iconográficos ou linguagem secreta. Recorda-se ainda que experiências similares também

aconteciam com ela durante o período da adolescência. A nosso pedido, após um período longo

de sessões, “ela” espontaneamente nos trouxe alguns desses desenhos para análise. Tempos

depois, em consultório, conseguiríamos desvendar o significado dessas elaborações

aparentemente incompreensíveis, bem como a sua origem e procedência. A seguir, como

mostrado na Figura 4, exemplo da primeira folha, total de duas, de um desses desenhos:

Figura 4. Desenho iconográfico de uma das alters de


Caroline.

O ano de 2002 e seguintes foram de continuidade para as identificações das demais

personalidades que compõem o psiquismo da paciente, bem como de aprofundamentos sobre o

tratamento do transtorno da personalidade múltipla. Foi também o começo, de forma mais

planejada e compreensiva, da documentação dos registros das diversas fontes de evidência

produzidas por cada uma delas. Algumas destas produções estão disponibilizadas neste trabalho
81

(veja Anexo 2). Outras, antigas e recentes, estão inseridas de forma contextual na medida em que

os fatos foram acontecendo durante esta pesquisa.

Diante do exposto, como detentor de um caso com aspectos relevantes e originais,

sentimos a necessidade de buscar auxílio no âmbito científico, particularmente na International

Society for the Study of Trauma and Dissociation (ISSTD) – fato que se deu a partir do ano de

2001 –, objetivando essencialmente a exploração mais aprofundada de questões vinculadas à

dissociação da consciência na personalidade múltipla.

A seguir, realçando a singularidade deste estudo de caso, apresentaremos dois relatos de

sessões clínicas que ocorreram em 2003.

Similarmente ao caso de Hélène Smith, documentado por Flournoy (1899/1994), Dalva

demonstra uma faceta excêntrica relacionada com a elaboração de uma linguagem secreta, muito

criativa.

Devemos, entretanto, retomar algumas explicações anteriores. Conforme já mencionado,

no ano de 2001, Caroline nos confidenciou outras experiências interessantes. Numa dessas

experiências, revelou-nos ter acordado tossindo às duas horas da madrugada. Levantou para

beber água e perdeu a consciência, dissociando-se espontaneamente. Quando novamente

retomou o controle consciencial, ou seja, quando readquiriu sua consciência e o domínio do

corpo físico, encontrava-se sentada na mesa de seu escritório. Já eram cinco horas da manhã.

Três horas haviam se passado. Para ela, um piscar de olhos. Sentia muitas dores nas costas e

principalmente nas mãos. Em sua mesa, diante dela, dentre outras coisas, duas folhas com

desenhos. Nada compreendeu. Retornou para a cama e adormeceu.

A primeira folha do desenho corresponde a Figura 4, mostrada anteriormente. A segunda

folha corresponde a Figura 5, exibida a seguir.


82

Figura 5. Linguagem secreta de Dalva, uma das


alters de Caroline.

Nada podemos afirmar sobre a regularidade desses desenhos na vida dela. A maioria

deles Caroline jogava fora. Não sabendo do que se tratava, nem quem os havia feito, desfazia-se

deles não vendo motivos para guardá-los. Assim procedeu muitas vezes, inclusive, durante os

anos de sua mocidade. Quando nos cientificamos destas produções pedimos à paciente que nos

entregasse os desenhos que tinha guardado e os novos que surgissem. Ela relutava. Mas, de onde

vinham tais desenhos, produções ou evidências?

Passaram-se dois anos... Certa vez, em janeiro de 2003, “ela” (Dalva) resolveu

espontaneamente retirar o véu da nossa obscuridade. Talvez pelo vínculo psicoterápico já

estabelecido tenha resolvido continuar confiando em nós. Confidenciou-nos que os desenhos-

símbolos das mensagens correspondiam a uma “linguagem secreta”, um código inventado por

Rony e conhecido somente por eles dois. Praticamente, tudo que ela faz ou escreve está

associado à presença deste ser.


83

Na clínica, escreveu na minha frente, a correspondência mostrada na Figura 6, seguinte,

explicando-nos a relação entre os símbolos e as letras de cada desenho. Importante salientarmos

que nesta sessão Caroline permaneceu dissociada espontaneamente durante quase todo o

processo. E, quando da imersão de Dalva para as profundezas do inconsciente, que para Caroline

representou um tempo cronológico inexistente e uma ocorrência não percebida, ela (Caroline)

continuou sua fala expressando seus pensamentos lógicos do início, como se a interrupção

temporal acontecida não tivesse ocorrido. Aparentemente, aquele espaço de tempo não fez parte

do psiquismo dela, nem foi registrado na sua estrutura mnêmica.

Figura 6. Correspondência simbólica da


linguagem secreta revelada por Dalva.

Foi a partir de então que pudemos iniciar o processo decifrável. Além dos símbolos,

Dalva nos revelou que a leitura das mensagens deveria ser feita verticalmente, de cima para

baixo, da direita para a esquerda. Símbolos especiais eram utilizados para separar cada palavra e

o ponto final. Assim, o símbolo “^” indicava o “separador de palavras” e “ν” indicava o “ponto
84

final”. Revelou-nos ainda que todo o alfabeto havia sido derivado do formato de uma estrela,

mais especificamente, dos vértices e das linhas da Estrela-Dalva, a Estrela da Manhã, o planeta

Vênus. Tratava-se de uma linguagem secreta e íntima para correspondências recíprocas somente

entre ela e Ronaldo, Rony, seu meio-irmão, seu primo, o seu grande amor. Disse-nos também

que o nome dela foi escolhido pelos genitores quando contemplavam o céu. Complementou

dizendo que quando o casal admirava a Estrela da Manhã, sua mãe teve a certeza da gravidez.

Ambos, então, resolveram que o nome da filha seria o mesmo da estrela, Dalva. Foi desta forma

que conseguimos decifrar a mensagem trazida por Caroline, guardada conosco fazia

aproximadamente dois anos. A numeração abaixo, à esquerda, corresponde a cada coluna

decifrada da mensagem, de cima para baixo, da direita para a esquerda. A seguir, linhas de 01 a

17 que correspondem aos dizeres da Figura 4, primeira folha, mostrada anteriormente:

01- A pedido dos nossos pais.


02- Estive andando pelos campos a cavalo
03- nos lugares que passamos juntos. O ven-
04- to frio do outono batia-me no rosto
05- secando as lágrimas da saudade. Saudade
06- calma sem desespero por saber que
07- logo estarás de volta ao nosso lar.
08- Quando chegares verás como o meu diário
09- está repleto de flores e folhas do nosso
10- jardim. Cada dia que passa guardo uma lembra-
11- nça marcando marcando meus apontamentos.
12- As manchas que parecem lágrimas são orvalhos
13- que trago da manhã que se inicia. No aconche-
14- go do nosso ninho encontro o cheiro que te
15- pertence em nossas almofadas. Toco cada
16- livro, cada objeto do teu uso como
17- querendo te tocar.

As linhas de 01 a 07, abaixo, equivalem aos dizeres da segunda folha, Figura 5.


85

01- Assim passo as horas de folguedos quan-


02- do não estou com nossos pais estudan-
03- do ou mesmo medicando os nossos
04- pacientes. Estas palavras são para
05- consolar tuas saudades.
06- Não apresses. O tempo certo
07- virá. Com Carinho.

A seguir, registramos as linhas 01 e 02 correspondentes aos dizeres da Figura 6, feita por

Dalva, em nossa presença, na clínica. O “s” ausente da primeira palavra da primeira linha,

possivelmente, equivale a um equívoco ortográfico.

01- Nosa linguagem.


02- Aprenda meu senhor.

As linhas 03, 04 e 05, contadas verticalmente a partir da direita para a esquerda da Figura

6, mostradas somente no desenho, representam as correspondências alfabéticas, letras e símbolos

do código. Ou seja, cada letra e seu símbolo associado. Foi somente através deste código que

conseguimos decifrar as mensagens contidas nas Figuras 4 e 5 elaboradas por Dalva, bem como

as demais vindouras e algumas outras elaboradas desde a adolescência da paciente, que estavam

conosco.

O segundo relato ocorreu em março de 2003. Como mostrado na Figura 7, seguinte,

apresentamos uma atividade executada quando da emersão de Dalva, em consultório, também

fazendo uso da linguagem dos desenhos. No final do processo dissociativo espontâneo, contou-

nos ser um presente que fez para Rony, conforme decifração do papel de tonalidade rósea situado

no canto inferior direito do porta-retrato, correspondente a “Rony Dalva”. Manifestou o desejo

que entregássemos o presente ao seu grande amor.


86

Figura 7. Trabalho manual feito na clínica,


por Dalva.

Neste dia, Caroline chegou para a sessão clínica regular, cumprimentou-nos, sentou-se na

poltrona, respirou profundamente, fechou os olhos e adormeceu rapidamente. Dissociou-se. Após

alguns segundos, Dalva emergiu. Sorriu educadamente. Cumprimentou-nos. Embora a percepção

espacial dela seja divergente da nossa realidade, neste dia ela olhou para o lado e notou uma rosa

natural que estava num recipiente sobre a mesa. Levantou-se, sentou-se na cadeira e começou o

que tinha em mente. Deixamos. Apenas observamos...

Fazendo uso racional e inteligente de papel, cola e tesoura retirou pétala a pétala da flor,

colou-as, montando o porta-retrato mostrado. Executou a tarefa espontaneamente na nossa

presença por um tempo aproximado de cinqüenta minutos. Ao final, Dalva se levantou da

cadeira, entregou-nos o presente, pediu que o levássemos para Rony. Retornou para a poltrona e

adormeceu.

Caroline emergiu. Perguntou-nos: “O que está fazendo com isso na mão?” Afinal, como

havíamos feito aquela mágica fazendo aparecer um objeto nas mãos sem que ela tivesse visto

inicialmente? Ficou com medo. Percebendo o que ela não percebia e compreendendo o que ela
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não compreenderia naquele momento, objetivando evitar a possibilidade de um transtorno

iminente, decidimos continuar a sessão como se ela tivesse sido iniciada naquele momento, pois

que para a realidade psíquica dela estava apenas começando. O receio de ficar louca certamente

reapareceria e uma crise não tardaria. Assim, deparávamos cada vez mais com os seus processos

dissociativos agudos.

Em 2006, já durante a realização da segunda etapa desta pesquisa, quando Caroline

estava em crise, realizamos três sessões interventivas. Nestas sessões, foram enfocados aspectos

traumáticos trazidos pela paciente em vários momentos do processo clínico. Durante a

psicoterapia, de forma recorrente, por meio de um sonho repetitivo (vide Figura 3), foi possível

estabelecer relações entre este sonho e alguns elementos traumáticos.

O desenho da representação onírica repetitiva de quedas intermináveis em locais escuros,

representava significativa ligação com o nascimento traumático, com a questão da rejeição, com

o desamparo fundamental e com o abandono da paciente, a maneira como ela foi expulsa do

ventre materno, o parto em si, feito pela própria mãe, solitariamente, nascendo Caroline

literalmente no chão. Afinal, vários perigos específicos são capazes de precipitar uma situação

traumática em diferentes épocas da vida. Dentre eles, o nascimento e a perda da mãe como um

objeto (Freud, 1926 [1925]/1996).

Desenvolvendo esta idéia, Bergeret (1998) registra que um impacto sentido pelo sujeito

como frustração significativa (desamparo, abandono, abuso), ou como um risco na perda de um

objeto, resulta no chamado trauma psíquico precoce. Tal trauma, de caráter afetivo,

desempenhará o papel de um desorganizador prematuro na evolução do sujeito. Assim, a

comoção afetiva é fator traumatizante porque o ego não tem capacidade satisfatória para um
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sentido de realidade adequado, podendo resultar, então, num efeito dissociativo na estrutura

psíquica do sujeito.

Voltando ao relado do caso, a paciente, neste momento do tratamento mostrou-se sofrida

e, entre lágrimas, com muita emoção, verbalizou:

“O que me disse desencadeou memórias nunca antes imaginadas (reconhecidas) por

mim. Desde que me contou sobre a ligação [Sonho-Repetitivo X Nascimento-

Traumático] estou revivendo lembranças difíceis, sofridas, com muita angústia. Preciso

conversar. Necessito falar. Pode me ouvir?”

Afirmativamente respondemos, estimulando a paciente para processos de ab-reação

necessários. Eis, então, a fala de Caroline fazendo menção ao seu contexto de poucos meses de

vida, quando buscada pelas duas senhoras que a acolheram:

“A voz da pessoa, do homem – provavelmente amante – que gritava com ela [mãe

biológica], era uma voz que vinha do mato. Parecia que ele vinha de uma floresta,

chegando e gritando agressivamente pelo meio do mato, dizendo palavrões. Sentia no

meu íntimo que eram palavras violentas. Na ocasião, tive a impressão de ouvir o

seguinte diálogo: Mãe Biológica: Leva, leva... Mãe Receptora: Depois você vai querer

de volta! Mãe Biológica: Não. Prometo nunca mais buscar. As duas senhoras partiram,

carregando-me nos braços, uma de cada lado, pulando por cima das pedras do riacho

situado à beira da choupana. O terror da situação me deu pavor. Um apavoramento que

me fazia desejar sair daquela condição”.


89

Tal verbalização de Caroline fez com que buscássemos, em relato clínico pretérito,

associações com um contexto dissociativo da paciente relacionado especificamente com uma de

suas personalidades alternativas (Ester), conforme mostrado mais adiante.

Antes porém, devemos realçar que quase toda vez que processos dissociativos ocorriam

com Caroline, estando ela dirigindo seu carro na cidade, via-se numa floresta tal como na

lembrança relatada logo acima. Entrava em pânico não mais dando conta da sua desorganização

psíquica, dissociando-se em seguida. Ao sair da dissociação, encontrava-se em lugares diferentes

do destino previamente traçado. Assustava-se. Conseguia, entretanto, retornar ao lar vencendo os

estados de ansiedade e angústia.

Somente com o processo associativo realizado durante a segunda etapa do tratamento,

Caroline veio a fazer um insight relacionando o sonho repetitivo com o trauma do nascimento.

De nossa parte, por meio das associações realizadas, descobrimos que a visão repetitiva

da floresta não era propriamente de Caroline, mas de Ester. E, mais importante, que a cena

traumática da separação mãe-filha fez com que o cristal cindisse (Freud, 1933 [1932]/1996), e a

base da personalidade fragmentasse, dando surgimento ao desencadeamento do rompimento da

estrutura mental de Caroline.

Conforme mencionado, nossas descobertas associativas foram pautadas no relato de uma

sessão clínica pretérita vinculada ao contexto presente, agora sendo desvendado. Nesta sessão

pretérita, Ester nos verbalizou:

“Doutor,

infelizmente hoje acordei com uma dor diferente no coração. Não é no coração. É de ter

recordado dos meus pais sendo enterrados e eu enlouquecida querendo que eles me
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ouvissem e falassem comigo. Não podia acreditar que eles estavam me desprezando

desta forma. E ninguém fazia nada para tirá-los daquele sono pesado. Foi quando uma

pessoa disse que eles jamais voltariam ao meu convívio. É claro que não acreditei.

Pensei que todos estavam enganados ou querendo me enganar. Sabia que aquelas

pessoas não eram do agrado de meus pais. Não sabia o porquê das suas presenças em

nossa casa. A capela estava toda enfeitada de flores e um silêncio total que me confundia

cada vez mais. Vi lágrimas nos olhos dos nossos serviçais que desciam de seus olhos

vermelhos. Não me deixaram ficar perto da pessoa que cuidava de mim. Colocaram em

mim um vestido preto que jamais tinha usado e nem daquela cor. Não quero falar o que

aconteceu. Mas na minha mente infantil, não sabia a realidade do que estava

acontecendo: que seria a última vez que os veria e justamente naquela posição,

dormindo, tão bonitos e não se importando comigo. Quando dei conta de mim, estava

escurecendo e ouvindo vozes chamando por meu nome por entre árvores, numa floresta.

Desconheci o lugar. Eram as vozes daquelas pessoas que diziam serem meus primos.

Sem mais esperar, as vozes estavam próximas ao meu ouvido e logo após isto, senti

sacudida por braços fortes e grosseiros chamando pelo meu nome. O susto foi tamanho

que gritei com toda a força dos meus pulmões. Eles me prenderam à força e no meu

pensamento só pensei que eles iriam me enterrar como fizeram com meus pais. Gritei por

meus pais, pelos servos que nos serviam, e nada aconteceu para impedir que me

levassem. Desse dia em diante fiquei trancada neste quarto que muito mal entra os raios

solares e que estão me fazendo ficar com as vistas turvas e com dificuldade quando saio,

até me acostumar com a claridade. Felizmente Mariana apareceu, sendo ela o meu

segredo, o meu anjo, que conversa comigo, que me ensinou a escrever, a cantar e a
91

brincar. Acho que quando eles me ouvem conversando com ela e não a vêem, pensam

contentes que estou enlouquecendo de verdade. Se não fosse ela tenho certeza que não

estaria mais viva e esses salafrários já teriam conseguido o que querem: a minha vida e

os meus bens. Outra coisa: nunca mais vi um serviçal conhecido, mas sempre essa

megera que me traz o que preciso sem dizer uma palavra. Doutor, não quero falar mais

sobre isto. Faz-me sofrer muito. Hoje não quero sair mais. Não quero ver ninguém. Vou

me deitar e tentar dormir para esquecer essa dor que não é no coração, mas é de

coração, de alma”.

Mariana – ISH específico da alter Ester –, também durante a segunda etapa de nossa

pesquisa, em novembro de 2006, fez-nos esclarecimentos adicionais que corroboraram essas

idéias associativas entre o passado do trauma e o presente da dissociação. Disse-nos ela:

“Caro Doutor:

a sua intuição de associar com Ester a lembrança de um homem saindo da floresta é fato

verdadeiro. Quando de sua primeira crise, ao falecimento de seus pais, logo após o

sepultamento deles, ela correu para um bosque que ficava no fundo da propriedade. Foi

lá, depois de várias horas de procura, que a encontraram. Estava exausta de chorar e

quase adormecida. Os primos que no íntimo já demonstravam a ambição contida, vendo-

a naquele estado, deixaram surgir em sua mente, a história da perda da razão. Ela foi

bruscamente acordada e como já estava abalada pela realidade dolorosa, desesperou-se

pensando que iriam enterrá-la viva. Assim começou seu tormentoso crescimento. A cada

dia eles iam favorecendo a notícia de sua loucura. As informações que ela lhe revelou,

tempos atrás [fazendo referência a verbalização anterior de Ester], são de natureza muito
92

traumática e estão realmente relacionadas com outros choques violentos provenientes do

período infantil, sendo alguns de pouco tempo após o nascimento dela. Na ocasião, fiz

com que Ester recordasse as cenas narradas e lhe contasse com suas próprias

palavras relatando os fatos sentidos por ela. Agora a sua compreensão estará mais fácil.

Continue... Mariana” .

Importante, neste ponto, realçarmos a ligação entre as situações traumáticas, de

desamparo e de perigo, como registrou Freud (1926 [1925]/1996):

Os perigos internos modificam-se com o período de vida, (...) mas possuem uma

característica comum, a saber, envolver a separação ou perda de um objeto amado, ou

uma perda de seu amor (...) – uma perda ou separação que poderá de várias maneiras

conduzir a um acúmulo de desejos insatisfatórios e dessa maneira a uma situação de

desamparo (p. 85).

Novas memórias romperam as barreiras inconscientes da paciente. A associação inicial

do sonho repetitivo com o nascimento traumático nos proporcionou outras descobertas.

Continuou Caroline...

“O motivo do abandono [materno] foi a violência. Provavelmente o homem agressivo já

vinha fazendo ameaças. Mataria a filha dela [referindo-se a ela própria] e, certamente,

concretizaria o gesto naquele dia. Talvez, a doação tenha sido um ato extremo, de amor

de mãe, e impulsivo, de aceitação de duas senhoras. Elas duas, na verdade, nunca me

amaram. Depois que fiquei sabendo da minha ascendência, comecei a receber ameaças
93

delas. Como se a pior coisa que pudesse acontecer comigo fosse o retorno para o antigo

lar, representando certamente a morte. Como isso significava um perigo real, as duas

senhoras me apavoravam ciclicamente com as mesmas ameaças de sempre. E, quando

depois de grande, já adolescente, via-me numa péssima situação, sentia muita raiva dela

[mãe biológica]. Afinal, tudo isso foi causado por ela, que me deu para ficar com o

homem dela, agressivo. É como se fosse uma escolha. E, como as que me receberam

sabiam do meu temor, usavam de ameaças com certa freqüência. Nunca fui amada.

Lembro ainda que tinha uma ferida dolorosa na minha nuca. As duas senhoras trataram

dela sem muitos cuidados. Acho que o amante dela [mãe biológica] já havia me agredido

antes. Até hoje tenho a cicatriz atrás da cabeça. Todas essas lembranças afloraram com

o comentário sobre a interpretação do meu sonho repetitivo. Primeiro a floresta na

minha mente. Depois...”

Neste momento percebemos que Caroline interrompeu a verbalização. Intervimos.

Registramos aqui o fragmento da sessão:

Pesquisador: “Não pare. Continue. Dê vazão ao que está vindo em sua mente. Tenha

coragem. Estamos aqui para ajudar você”. Foram essas as nossas palavras. Ela, então,

continuou... Caroline: “Quer saber qual o meu sentimento neste momento? Preciso

muito da sua compreensão. Não me julgue, por favor. Mas, o que me chega é

premeditação sexual com esse homem agressivo...” Pesquisador: “Compreendemos.

Mas, o que isto realmente significa? Seria uma disputa entre você e sua mãe biológica

pelo sentimento de ter sido excluída da vida dela, por causa dele?” Caroline: “Isso me
94

veio agora à mente, neste instante. Deve ser assim... Se você [referindo-se ao homem

agressivo] fez isso comigo, se teve coragem de fazer com que ela [mãe biológica] me

deixasse, eu seria capaz de seduzir você, de conquistar você, de escravizar você...”

Pesquisador: “Você está dizendo que passou pela sua mente uma seqüência progressiva

e planejada de três fatores (vontades ou desejos) em relação ao homem agressivo, a

saber: sedução premeditada, conquista e escravização?” Caroline: “Na verdade, meu

primeiro pensamento foi sexo com ele, depois escravizá-lo, domando-o, dominando-o. E,

por fim, castigá-lo. Aquela vingança. Eu sempre pensei que fui fruto apenas do sexo sem

amor. E, talvez por causa desse pensamento, a única maneira deu castigá-lo seria

através do sexo, para escravizá-lo, vingando-me. Seria uma coisa bruta, ou por eu ser

mulher, ou para castigar ambos [homem agressivo e mãe biológica], porque foi por

causa dele [homem agressivo] que tudo aconteceu. Se ele [homem agressivo] tivesse

trazido proteção...”

Neste ponto, interpretamos que a associação inicial do sonho repetitivo com o desamparo

resultante do trauma do nascimento, conduziu ao cerne da dissociação da personalidade, e

portanto, ao transtorno apresentado por Caroline. No sentido de produzir um processo de

integração, verbalizamos:

“Estamos vencendo repressões, fazendo com que conteúdos psíquicos desaparecidos da

sua consciência retornem para serem sanados. A proteção não dada, ou não recebida, as

escolhas sexuais da sua mãe biológica, o núcleo familiar não constituído, a rejeição, o

desamparo e o descaso sofridos, a vontade de se vingar, de castigar e de escravizar, tudo


95

isso não se refere ao homem agressivo, mas essencialmente ao seu pai. Tudo que você

sofreu e tudo que você passa até hoje são decorrentes da atitude paterna, da atitude e

dos atos do seu genitor, que não quis (aceitou) tomar conta da filha”.

Diante de nossa interpretação, ao ouvir e atentar para a palavra “pai” e para as expressões

“atitude paterna” e “atitude e atos do seu genitor”, Caroline, em meio a uma grande descarga

emocional, raivosa, vociferou:

“Jamais desejei conhecer esse homem [pai biológico] ou procurá-lo. Já deve estar

morto, bem longe. Não acredito que ele me abandonou por causa da família dele. Mas,

pela vergonha de ter escolhido uma pessoa inferior socialmente [ele juiz, ela doméstica],

em todos os aspectos. Não assumiria a filha de uma empregada [ela própria]”.

De alguma forma o nascimento em si e a rejeição parental foram vividos como recusa dos

pais da filiação, gerando angústia, insegurança, abandono, desamparo e ansiedade,

caracterizando o aspecto traumático. Tal aspecto foi real e repercutiu negativamente, em cadeia,

no processo de desenvolvimento de Caroline como um trauma psíquico precoce (Bergeret,

1998).

Foram momentos difíceis na clínica. Mas, de maneira lenta, respeitando os sentimentos

da paciente e compreendendo suas justas repulsas, iniciamos um novo processo, mais

aprofundado, de “humanização das pessoas” que fizeram parte do contexto evolutivo da vida

dela, ou seja, mostramos que sua mãe biológica poderia estar tentando protegê-la, e que suas

mães receptoras, bem ou mal, acabaram cuidando dela. Não podemos assegurar que tal processo
96

tenha sido finalizado. Mas podemos certificar que o lado bom dela, proeminente ao sonho

repetitivo, escuro e trevoso, tem feito dela uma vencedora, uma pessoa que optou pela coragem

do enfrentamento com a opção da superação pela não desistência. Assim, lembramos que esse

quadro clínico apresenta traumas reais que desencadeiam processos dissociativos, dividindo a

personalidade. O processo reverso, ou seja, o caminho da integração, necessariamente, passa

pelas vias das ab-reações, que avivam memórias, sentimentos, angústias e sofrimentos. Os afetos

e memórias são reintegrados à pessoa gradualmente.

Por fim, sintetizando alguns aspectos traumáticos da realidade de Caroline trazidos

durante os atendimentos, que possivelmente redundou em processos dissociativos agudos, temos:

o parto realizado pela sua própria mãe, sozinha, no chão; o desamparo e a rejeição dos pais da

filiação; os maus-tratos constantes das duas senhoras (mãe e madrinha) que a receberam quando

do processo de doação; a revelação abrupta sobre a sua ascendência; os toques nas zonas

erógenas do seu corpo provocados por sua madrinha quando se masturbava; os esbarrões

propositais do Sr. O premeditando tocar em seus seios iniciantes; os beijos na sua boca

planejados pelo mesmo Sr. O que induziu Caroline por meio de substâncias químicas; os atos

sexuais violentos, impostos e frustrados de penetração por parte do Sr. A; a perda da virgindade

quando do nascimento do seu primogênito; e as seduções recebidas quando se consultava com

profissionais da medicina. Tais fatos aqui sintetizados, além de representar traumas reais,

caracterizam impressões negativas e abusos de natureza diversificada, ou seja, abusos físicos,

sexuais, emocionais e psíquicos.

Após esta descrição, advinda do processo terapêutico, passaremos agora a apresentar

algumas produções da paciente que caracterizam as diversas personalidades, ressaltando o

processo dissociativo.
97

3.2- As Produções das Personalidades

Objetivando enfatizar e exemplificar o processo dissociativo de Caroline, principalmente

em termos de suas interpretações psíquicas diferenciadas – épocas, hábitos, costumes, cor, sexo e

idade – atuando num mesmo corpo físico, registramos abaixo uma síntese individual de cada

personalidade identificada durante o processo, ressaltando o tipo de suas produções e algumas de

suas características. Natural que durante todos esses anos de tratamento uma vasta gama de

produções tenham sido obtidas e que uma necessidade de critérios seletivos sejam

implementados. Lembramos que consideramos produções, fragmentos de fala, textos escritos,

desenhos, trabalhos manuais e poemas (veja Anexo 2).

Ressaltamos que até o momento não obtivemos produções concretas relacionadas com

Elise e Helen, ambas, originalmente, emersas em processo dissociativo de Caroline em 2002. A

literatura científica define o termo “fragmento” para identificar personalidades menores não

suficientemente elaboradas para serem consideradas alters (Braun, 1986). Ou ainda, como uma

parte do self que carece de uma gama emocional mais significativa, de uma história de vida mais

completa (Haddock, 2001). Talvez, Elise e Helen sejam fragmentos de Caroline. Importante

dizer que Helen, nas poucas vezes que emergiu, apresentou uma característica singular. Ela é

tetraplégica. Consegue mexer somente os olhos e um pouco a cabeça. Nesses momentos, o corpo

físico de Caroline torna-se hirto e teso. Permanece nesta condição até a imersão de Helen ou

emersão de outra personalidade. Elise, por sua vez, apresenta-se sempre na adolescência.

Pergunta-nos: “De onde o senhor veio?, como chegou até aqui?”. Considera-nos um forasteiro.

Percebe-nos de forma diferenciada das nossas características físicas.

Dalva. Emergiu pela primeira vez em 2000. É a personalidade mais sobressalente.

Sempre gentil e educada. Inteligente, dócil, sensível e reservada. Fala constantemente em Rony,
98

seu primo-irmão, razão exclusiva do seu viver. Afirma residir com sua família na Escócia e já ter

feito várias viagens para aprendizados, com autorização dos pais, principalmente ao Egito e ao

Oriente. Escreve com facilidade. Produz poemas, via escrita ou oral, em uma sucessão

caleidoscópica impressionante. Como num túnel do tempo ela emerge com idades diferenciadas.

Ora está na adolescência, ora na fase adulta. Nunca idosa. Às vezes fala e escreve algumas

palavras num idioma que diz ser céltico. Por exemplo, “Snaf Snif” significando “Eu o amo”.

Suas produções são caracterizadas em formas de poesia, trabalhos manuais, mensagens secretas,

textos transcritos e desenhos. Na sua fala, identifica-se:

“Estou com 16 anos. (...) Sinto o compromisso com Ronaldo em primeiro lugar no meu

coração. Nossos olhos, nossas falas são sempre interessantes. (...) Sei no fundo do

coração, que somos um do outro, ele só tem olhos para mim e eu da mesma forma. (...)

Explico que Rony é meu meio irmão. Somos primos, nascidos no mesmo dia, nossos pais

são irmãos. Ele foi criado por minha mãe, que o ama como se fosse seu filho de

coração”.

Jennifer. Também emergiu pela primeira vez em 2000. Apresenta linguagem quase

sempre triste e melancólica. Ama a vida no mar. Faz parte de uma família de cantores negros

(sic) contratada pelo almirante de um navio para shows regulares aos clientes. Enfatiza sua pele

negra e seus dotes estéticos. Apesar disso, não sabe escrever. Afirma que “alguém” escreve as

mensagens que ela dita. A família sofre discriminações raciais. Ela é a protegida do almirante.

Relaciona-se intimamente com ele. Mas, sente-se infeliz por amar outra pessoa, Steve, que viaja

no mesmo navio de tempos em tempos. Ambos são de cor branca. Jennifer sempre emerge entre
99

as idades de 16 a 24 anos. Quando de suas emersões acredita estar sonhando. Ou seja, quando

conversa conosco sempre está em estado onírico. Esta é uma característica aparentemente

incomum nos múltiplos, detectada pela primeira vez em termos científicos. Quando de suas

imersões, afirma ter que retornar à sua triste realidade. O sonho acaba. Ela irá acordar. Suas

produções são em formas de texto e poesia. Ela se identifica:

“Estou com 20 anos. Steve não está aqui. É noite, após o show. Estamos no convés aonde

eu canto com muita tristeza. Por isso fui tão aplaudida. Você sabe que nossa música

[jazz] significa tristeza. É um choro que vem em forma de canto, quando a nossa alma

chora. Minha mãe está muito doente. Preciso ir. Tenho que acordar”.

Mayara Sandes. Emergiu pela primeira vez em 2001. Diz que seus pais morreram. De

atitudes conflituosas. Ora geniosa, ora maternal e dedicada. Apresenta-se como a mãe adotiva de

três meninas cuja genitora, sua única irmã, morreu no parto da filha caçula. Mayara foi seduzida

na adolescência pelo grande amor da sua vida, uma pessoa dez anos mais velha, irresponsável

(sic), que optou se casar com a própria irmã dela, não cumprindo a promessa conjugal de outrora.

Após a morte da irmã Mayara assumiu espontaneamente a educação das três filhas, por venerar a

irmã e por ser uma forma de se manter ligada ao homem que nunca deixou de amar. Casou-se

com um velho (sic), sem manter relações íntimas, com a finalidade de proteção e segurança

materiais para ela e às filhas. Sente-se solitária com vontade de viver o que nunca se permitiu

desde o trauma do romance não concretizado. Oscila no temperamento. Às vezes, apresenta-se

irritada e nervosa, fatores que refletem instantaneamente em Caroline quando retorna ao

comando do corpo físico. Suas produções são do tipo: bilhetes, recados e textos transcritos.
100

Linguagem ameaçadora, melancólica, maternal e infantil. Apresentamos um fragmento da sua

fala:

“O melhor é você [referindo-se à Caroline] atender meus pedidos em silêncio. Não diga

nada porque tenho ouvidos atentos. (...) Sou solitária palmeira incrustada numa ilha

oceânica deslumbrada pela beleza do céu e a formosura do mar. Mas, sentindo a ilha

afundar, não tendo onde apegar, tendo a dor como companheira. Como podes ajudar?

(...) Acho que as crianças não gostam dessa casa. É muito grande e esse senhor com

quem tive que casar, é um chato! Ainda bem que ele viaja muito e nesses períodos,

ficamos mais ou menos em paz. (...) Amanhã vamos fazer um piquenique. Iremos caçar

borboletas, ver ninhos de passarinhos, colher flores no campo”.

Supervisor. É uma personalidade cujo nome foi escolhido pelo pesquisador devido a sua

fala rebuscada e indicações sobre o processo terapêutico. Emergiu pela primeira vez em 2001.

Apresenta-se como um auxiliar, um professor, um cooperador do conjunto das personalidades,

aquele que estimula, esclarece, direciona e sugere formas de tratamento e abordagens

diversificadas. É o autêntico ISH de Allison (1980). É uma personalidade impressionante em

termos de inteligência e conhecimentos. Demonstra características mais proeminentes do gênero

masculino. Suas produções, similares as de Mariana, são obtidas via transcrições. A linguagem é

sempre séria, de aconselhamento, de estímulo, de esclarecimento, de sugestões:

“Meu prezado Doutor,


101

Tente compreender a desfragmentação da alma para obter a sua cura. Procure se

instruir, buscar cientistas que já comprovaram essa teoria que hoje ainda é muito pouca

conhecida. (...) Não se perturbe se caso ouvir críticas, é natural a crítica. (...) Conheça a

base e siga em frente. Estamos ao seu lado no controle da terapia, que neste caso é

profundamente necessária. Use os recursos que estiver à mão. (...) Quando necessário,

estarei presente”.

Jane. Emergiu pela primeira vez em 2002. É Alegre e vivaz. Adora a natureza e o campo.

Caracteriza-se pela presença de conflitos sobre desníveis sociais. Vive num reino, em terras

distantes, com seus pais. Simples e muito ligada aos genitores e a terra. Ama a agricultura.

Sofrem perseguições. Suas memórias, sentimentos e caráter são exclusivos, também diferentes

de Caroline. Ao mesmo tempo em que sabe ser dócil, mostra-se temperamental e dominante.

Ama intensamente um nobre que reside na corte com a família. Ele trabalha para o rei como

fiscal cobrando impostos das aldeias e vilarejos. Estão de casamento marcado sem que a nobreza

saiba. Suas fontes de evidência foram obtidas via transcrições de sessões clínicas. Esta alter se

apresentou no seguinte contexto:

“Quanto ao seu [referindo-se ao seu amor] afastamento da corte não tenha pressa.

Precisamos de cautela. Se caso alguém da corte tenha inveja da sua capacidade, (...)

pensar que pode ser uma traição da sua parte em abandonar o seu ofício, sofreremos

perseguições implacáveis. (...) São mandadas pessoas (...) para destruir e tomar as

propriedades que depois passaram a ser do Rei. (...) Confio em seu amor e nos nossos

sonhos. Morreria se caso você me abandonasse. As viagens jamais diminuirão o nosso


102

amor. (...) Estarei em nossa janela a esperá-lo. (...) Quero uma educação primorosa. (...)

Quero que sejam como nós dois. Você fidalgo e eu uma amante da terra”.

Alter X. Emergiu pela primeira vez em 2003. Enigmática. Até hoje não se identificou. Daí

ser uma incógnita e ter sido nomeada desta forma. Ora temperamental, ora dócil. Às vezes fala

ou escreve numa linguagem filosófica. Esta personalidade é a única que escreve e fala em língua

inglesa. Apesar de Caroline relatar nunca ter estudado língua estrangeira, exceção para o latim

quando adolescente, os contextos abordados em inglês são afetivos e amorosos. Em português

ela usa um tom filosófico e apresenta temas vinculados à loucura:

“Dear Love – star that sparkles in the same pulsation of my heart: I’m sorry I haven’t

written for so long but think deeply about the words that follow. (…) Then, the spell was

cast… We can be in paradise or delay the inevitable. What do you tell me? In our secret

language: Love”. 6

“A loucura é um surto que se dá no bom senso, que deixa de ser ativo e com isto a

lucidez se perde e quem toma conta das ações é sempre esse monstro que temos contido

dentro de cada um. (...) A loucura pode ser uma fuga, pode ser uma deficiência mental e

pode ser o desamparo de si mesmo. Como controlar algo interno? Com que armas

abater esse monstro insatisfeito e infeliz que habita o ser? Como garantir a plena

lucidez?”.

6
“Meu Amor - estrela que brilha na mesma pulsação do meu coração: Sinto muito demorar tanto para escrever, mas
reflita profundamente nas palavras que seguem. (…) Então, o feitiço foi lançado… Podemos estar no paraíso ou
retardar o inevitável. O que me diz? Na nossa linguagem secreta: Amor”.
103

Ester. Emergiu pela primeira vez em 2003. Semelhante a Jennifer, possui uma linguagem

triste, melancólica, sofrida. Sempre emerge com 17 anos. Apresenta-se como uma jovem

adolescente em tratamento psiquiátrico. Seus pais faleceram em um acidente quando ela estava

com seis anos de idade. É ameaçada constantemente de ser violentada por alguns familiares que

assumiram a sua guarda. Tal fato nunca se concretizou. Por ser considerada doente ninguém

acredita em suas verdades, tomadas como insanidade. Esta alter consegue enxergar Mariana –

também identificada pela primeira vez em 2003 –, que representa o seu ISH exclusivo. Afirma

ser o seu anjo protetor. Ester confia plenamente nela, reconhece a sua autoridade e sabe do seu

poder. As duas mantêm uma relação cordial. Mariana é uma matrona séria e dócil que consegue

reverter situações difíceis, protegendo-a de quaisquer dificuldades ou tentativas inconseqüentes

dos familiares. As fontes de evidência de Ester são em formas de poesia e transcrições. A seguir,

exemplos de duas falas. A primeira de Ester, a segunda de Mariana.

“Quem sabe você me ajuda. Eu quero ficar aqui. Não quero ir para lá, onde estou. Sou

tão infeliz. Fiquei assim quando meus pais morreram. Preciso ficar. Não agüento ir para

lá. Eles querem me matar. A minha única salvação é Mariana”.

“Ester é uma alter sofredora e angustiada que mora dentro de Caroline. O medo a faz

ficar com a euforia doentia. Tem hábitos diferentes e muitas vezes inconseqüentes.

Quando acontecem as crises, fica reclusa e afastada das outras pessoas. Ela é generosa,

amorosa e gentil. Sabe ser obediente quando bem tratada”.


104

3.3- A Escala de Experiências Dissociativas - DES

A seguir, como mostrado na Tabela 4, apresentamos os escores obtidos por Caroline para

as vinte e oito perguntas da Dissociative Experiences Scale (DES), respondidas em setembro de

2002 quando fizemos uso deste instrumento pela primeira vez. O instrumento, de uso

profissional público, foi aplicado, corrigido e interpretado por nós, em colaboração com outros

profissionais internacionais, pesquisadores membros da International Society for the Study of

Trauma and Dissociation (ISSTD) 7.

Tabela 4. Perguntas e escores obtidos por Caroline - DES.


“Número da Pergunta” Æ “Escore”
01 Æ 90 08 Æ 80 15 Æ 40 22 Æ 90
02 Æ 70 09 Æ 20 16 Æ 80 23 Æ 70
03 Æ 60 10 Æ 50 17 Æ100 24 Æ 80
04 Æ 50 11 Æ 80 18 Æ 90 25 Æ 90
05 Æ 30 12 Æ 90 19 Æ 10 26 Æ 90
06 Æ 10 13 Æ 90 20 Æ 80 27 Æ 90
07 Æ 90 14 Æ 80 21 Æ 90 28 Æ 90

Caroline obteve resultado superior a 70 demonstrando indicadores dissociativos muito

acentuados. O resultado foi alcançado calculando-se a média aritmética dos escores obtidos,

mostrados na tabela acima. Resultados iguais ou superiores a 30 – ponto de corte – são

indicadores de processos dissociativos em nível elevado. Nestes casos, sugerem-se investigações

mais aprofundadas, pois a DES não é instrumento diagnóstico para a personalidade múltipla

(Putnam, 1992).

7
Em setembro de 2004 a Revista Brasileira de Psiquiatria, volume 26, número 3, Órgão Oficial da ABP –
Associação Brasileira de Psiquiatria – apresentou um artigo intitulado “A adaptação transcultural para o português
do instrumento Dissociative Experiences Scale para rastrear e quantificar os fenômenos dissociativos”. Como já
havíamos aplicado a DES em Caroline, com tradução própria, resolvemos manter o que fizemos no ano de 2002.
105

A seguir, realçando questões psicodinâmicas, dissociativas e traumáticas, apresentaremos

os resultados alcançados com O Teste das Pirâmides de Cores, cujas aplicações, teste e re-teste,

ocorreram em outubro e novembro de 2006.

3.4- O Teste de Pfister

Durante a construção da primeira pirâmide Caroline efetuou muitas trocas, desistiu das

cores e de suas elaborações várias vezes e fez as seguintes verbalizações: “Não é definitivo,

ainda posso mudar. Deixa-me pensar direitinho. Tem tanta variedade de cor. Eu queria fazer

matiz, mas não estou conseguindo. Misturando amarelo com azul dá verde. Tem tanta cor”.

Após sete minutos ela desfez tudo. Disse-nos: “Apesar de você ter me pedido para fazer uma

pirâmide bonita estou com vontade de fazer uma que representou a minha vida até antes da

terapia – [intenção explícita e específica]. Posso?”, “Como quiser”, respondemos. A partir deste

momento Caroline começou a trabalhar ordenadamente não mais fazendo alterações nem

desistências. Construiu a primeira pirâmide.

Apesar dela ter elaborado a primeira pirâmide com mais de dez minutos, não

consideramos este tempo como demora excessiva. Demos-lhe, então, o segundo esquema

avisando que ainda teria um terceiro, ou seja, que após a elaboração da segunda pirâmide ainda

haveria uma terceira para ser feita. Ao terminar a elaboração da segunda pirâmide Caroline

verbalizou: “Estou me sentindo meio confusa...” Pela experiência de longo curso com a paciente

percebemos que ela estava entrando em processo dissociativo espontâneo. Logo que tapamos a

segunda pirâmide – a primeira já havia sido retirada do campo visual dela – Dalva, uma alter,

emergiu. Cumprimentou-nos e disse-nos: “Ouvi você falar em pirâmides. Já visitei o Egito com

Rony. Já viajamos juntos para lá”.


106

Aproveitamos a ocasião e convidamos Dalva para fazer o teste estando Caroline em

processo dissociativo. Aceitou de bom grado. Novamente, explicamos todo o processo. As

mesmas instruções iniciais foram dadas. Dalva executou a atividade de forma completa. Os

resultados dos protocolos estão registrados mais adiante.

Ao terminar o teste, Dalva nos pediu para escrever. Desejava fazer uma poesia para

Rony. Consentimos. Não escreveu seus sentimentos em escrita poética direta. Fez uso da

linguagem secreta, aquela dos sinais e símbolos que somente os dois (Dalva e Rony) tinham

conhecimento. Conhecendo este processo, revelado tempos atrás pela emersão de Dalva em

psicoterapia, fizemos a decifração do código. Ambos, código e poesia – resultante do mesmo

código –, estão registrados a seguir.

Figura 8. Poesia escrita por Dalva em sua linguagem secreta.

Como já tivemos a oportunidade de explicar, a correspondência alfabética que permitiu a

decifração nos foi revelada em sessão clínica pretérita. A leitura das mensagens é feita

verticalmente, de cima para baixo, da direita para a esquerda. Símbolos especiais são utilizados
107

para separar cada palavra e o ponto final. Todo o alfabeto foi derivado dos vértices e das linhas

da Estrela-Dalva, o planeta Vênus. A decifração feita por nós, equivalente à poesia de Dalva

escrita em código, mostrada na Figura 8, está abaixo. Cada linha numerada corresponde a cada

coluna da poesia, quando lida de cima para baixo, da direita para a esquerda, na linguagem

secreta da alter. Observamos o surgimento de algumas palavras no texto, como: Egito, pirâmide

e hieróglifo. Tratam-se de interessantes associações com os esquemas piramidais do Pfister,

possivelmente responsáveis pela emersão de Dalva via acionamento ou trigger espontâneo.

01- Andanças pelo mundo

02- A liberdade de nossas vidas


03- Conduzida pelo bom destino
04- Do Egito trouxemos lindas
05- Recordações inesquecíveis.
06- As dunas de areias quentes
07- Ao balanço dos incansáveis
08- Camelos mansos e dolentes
09- Vimos pela primeira vez
10- As pirâmides ao sol escaldante.
11- Nos misteriosos escritos
12- Só a eles decifráveis
13- A idéia do nosso hieróglifo
14- Que só a nós seriam entendidos.
15- Rony, nosso amor será durável
16- Tanto quanto as pirâmides
17- Olhando sempre o infinito
18- Sentindo passar as tempestades
19- E os séculos intermináveis.
20- Snaf Snif
21- Dalva

Assim como os testes projetivos revelam algo do sujeito, Dalva, na situação de teste, nos

fez uma revelação inédita nesta sessão clínica. Foi durante a viagem ao Egito que ela e Rony,

admirando toda aquela escrita pictográfica, resolveram compartilhar reciprocamente escritos

sigilosos, ícones simbólicos do casal, e inteligíveis somente aos dois.


108

Após a conclusão da escrita em linguagem simbólica, Dalva imergiu espontaneamente.

Antes, porém, confiou-nos a entrega de sua poesia ao seu grande amor. Assim como chegou,

partiu. Caroline emergiu. Em seu retorno, nada percebeu do acontecido. Nada ficou registrado na

sua estrutura mnêmica. Os quase sessenta minutos transcorridos com Dalva no comando do

corpo representaram uma lacuna temporal (gap) na consciência dela, Caroline. Perguntou-nos:

“Você escondeu as duas pirâmides que fiz. Falta fazer mais uma?”. “Sim”, respondemos

afirmativamente. Demos continuidade, então, à terceira e última pirâmide respeitando a realidade

psíquica e concreta de Caroline. No momento, nada comentamos sobre o processo dissociativo

ocorrido.

Após terminar a terceira pirâmide, Caroline nos pediu para fazer mais uma. Ela disse

desejar “representar algo mais”. Consentimos. Apesar da quarta pirâmide não entrar na

mensuração do teste, por se tratar de uma pesquisa – um estudo de caso científico –, interessante

registrarmos tal fato, mostrando, inclusive, a última elaboração produzida.

Demos continuidade ao processo de aplicação partindo para a fase do inquérito. Neste

momento apresentamos as três pirâmides feitas unicamente por Caroline sem estar dissociada. A

quarta pirâmide elaborada por ela não foi mostrada. As três pirâmides elaboradas, quando da

emersão de Dalva, fizeram parte de um processo à parte, vinculado com o contexto dissociativo

ocorrido. Seria ilógico pedirmos respostas para Caroline diante situações que estiveram ausentes

de sua estrutura consciencial. Ela poderia apresentar certo desconforto emocional, desequilibrar-

se e contaminar a aplicação do teste, comprometendo a atividade e os resultados.

Importante enfatizarmos, sinteticamente, a seqüência ocorrida durante o processo de

aplicação: a) Caroline iniciou a tarefa. Construiu a primeira pirâmide. Construiu a segunda

pirâmide; b) após o término da segunda pirâmide ocorreu um processo dissociativo com


109

Caroline. Dalva emergiu espontaneamente; c) Dalva começou o teste. Fez as três pirâmides

integralmente obedecendo toda a seqüência descrita para o uso da técnica. Escreveu uma poesia

para Rony fazendo uso da linguagem secreta deles. Ficou conosco por quase uma hora. Essa

lacuna temporal não foi percebida conscientemente por Caroline; d) Dalva imergiu

espontaneamente. Caroline Retornou; e) demos continuidade ao teste com Caroline, que nos

pediu para fazer uma quarta pirâmide. A solicitação foi consentida.

Neste ponto, registramos um pouco mais sobre a outra realidade ocorrida, isto é, sobre a

emersão de Dalva. No início, Dalva ficou misturando os quadrículos como querendo selecionar

ou procurar cores desejadas. Quase ao término da última pirâmide, ficou em dúvida da cor lilás

(violeta - Vi1) situada na posição “1a” do esquema. Retirou o quadrículo lilás desta posição.

Ficou reflexiva, com aparente inquietação. Por fim, resolveu manter o mesmo lilás no topo. Ao

final da elaboração das três pirâmides escreveu a sua poesia nos moldes já comentados. Quando

terminou, olhou para nós, sorriu educadamente. Pediu-nos que entregasse seus desenhos (as

pirâmides) e o poema para Rony. Enfatizou-nos que ele compreenderia e se lembraria da viagem

que fizeram juntos ao Egito. Disse-nos ter que ir. Fechou os olhos, suspirou, partiu (imergiu).

A seguir, apresentaremos as análises sintéticas dos protocolos de Caroline e de Dalva,

ambas avaliadas no segundo semestre de 2006.

Primeiramente, em relação aos resultados de Caroline... Como mostrado nas Figuras 9 e

10, abaixo, reproduzimos as quatro pirâmides elaboradas por Caroline.


110

Figura 9. Siglas das cores utilizadas por Caroline na primeira pirâmide (alto, centro),
segunda pirâmide (baixo, esquerda) e terceira pirâmide (baixo, direita).

Figura 10. Quarta pirâmide elaborada por Caroline.

Em continuidade, apresentamos o gráfico demonstrativo do resultado das cores em

porcentagens (Figura 11) e as comparações entre os valores obtidos e os valores esperados 8 para

cada cor (Figura 12). Conforme podemos verificar, há predomínio das cores azul e preta,

significativamente aumentadas. O valor obtido para a cor branca ficou um pouco acima do valor

8
Conforme registrado em Villemor-Amaral (2005), Tabela 4, grupo “Não-Pacientes”. Utilizamos esta mesma
tabela em todas as análises cromáticas apresentadas.
111

esperado para esta cor. Já os valores obtidos para as cores vermelha e amarela ficaram abaixo

dos seus respectivos valores esperados. As cores verde, violeta, laranja, marrom e cinza

apresentaram percentuais obtidos iguais a zero.

Resultados Apresentados

Branco Cinza
11% 0%

Preto
31%
Azul
49%

Marrom
0%

Amarelo Vermelho
7% 2%
Laranja Violeta Verde
0% 0% 0%

Figura 11. Demonstrativo do resultado das cores escolhidas


por Caroline, em porcentagens.

Resultados Apresentados

100
Percentual

75

49
50
31
25 18,1 19,7
13,6 10,8 7 9,5 11 8,3
8,5 4 4,5
2 0 0 0 0 0 2,9
0
Az (VO)
Az (VE)
Vm (VO)
Vm (VE)
Vd (VO)
Vd (VE)
Vi (VO)
Vi (VE)
La (VO)
La (VE)
Am (VO)
Am (VE)
Ma (VO)
Ma (VE)
Pr (VO)
Pr (VE)
Br (VO)
Br (VE)
Ci (VO)
Ci (VE)

% Obtido (VO = Valor Obtido) e % Esperado (VE = Valor Esperado)


p/ cada cor

Figura 12. Comparação entre valor obtido, por Caroline,


e valor esperado para cada cor.

A seguir, registramos informações complementares relacionadas com o inquérito

realizado. Tais informações se justificam por demonstrar que a paciente mantém o senso de

realidade quando ausente de processos dissociativos.


112

Pesquisador: “Qual das três pirâmides ficou mais bonita? Qual você gostou mais? Por

quê?”. Caroline: “A terceira, porque tem um dégradé perfeito. Cores combinadas e

ordenadas”. Pesquisador: “Qual das três pirâmides ficou menos bonita? Qual você

gostou menos? Por quê?”. Caroline: “A segunda, porque dá idéia de prisão. Dá a

impressão que esse amarelo jamais sairá daí”. Pesquisador: “Geralmente, qual a cor

que você mais gosta?”. Caroline: “Azul”. Pesquisador: “Geralmente, qual a cor que

você menos gosta?”. Caroline: “Preta”. Pesquisador: “Aqui no material do teste, qual a

cor que você mais gostou, a sua cor preferida?”. Caroline: “Azul. Esta aqui [referindo-

se ao quadrículo Az2 (azul, tonalidade dois)]”. Pesquisador: “Aqui no material do teste,

qual a cor que você menos gostou?”. Caroline: “Marrom. Esta aqui [referindo-se ao

quadrículo Ma1 (marrom, tonalidade um)]”.

Logo após o inquérito acima, tivemos o seguinte diálogo com a paciente, que evidenciou

aspectos traumáticos pretéritos, transformação de sentimentos negativos e interesse em saber

sobre os seus resultados:

Pesquisador: “Agradeço a sua colaboração e o seu empenho. Para mim é muito

importante o seu bem-estar progressivo. Antes, porém, de finalizarmos, gostaria que

você me respondesse alguns questionamentos adicionais... Algum motivo especial para

você não ter escolhido a primeira pirâmide como a que menos gostou?”. Caroline: “Faz

parte do meu passado”. Pesquisador: “O que você quis representar com a primeira

pirâmide construída quando disse: ‘Apesar de você ter me pedido para fazer uma

pirâmide bonita estou com vontade de fazer uma que representou a minha vida até antes
113

da terapia’. O que significa a cor vermelha no centro, rodeada pelos quadrículos

pretos?”. Caroline: “Eu quis representar o meu passado traumático de muita dor e

sofrimento. Eu estava na escuridão. Ele, o meu passado, está sendo apagado. O

vermelho representa o meu coração, que era preso e sangrava”. Pesquisador: “E, em

relação à quarta pirâmide, você mencionou que queria ‘representar algo mais’ [intenção

explícita e específica]. O que ela significa?”. Caroline: “Significa que todo o meu

sofrimento está sendo transformado em esperança e equilíbrio”. Pesquisador: “Ok.

Caroline. Como você está se sentindo?”. Caroline: “Estou bem”. Pesquisador: “Deseja

fazer alguma pergunta?”. Caroline: “Sim. Gostaria que você conversasse comigo sobre

os resultados. É possível?”. Pesquisador: “Perfeitamente. Teremos um encontro

específico para conversarmos sobre os resultados. Fique tranqüila. Tudo está correndo

bem. Sei que deve estar achando estranho o horário além do previsto. Mas, não se

preocupe. Também falaremos sobre isso. Muito obrigado. Boa noite”.

Em síntese, podemos dizer que em relação às síndromes cromáticas – contraste e fria –,

Caroline apresentou conflitos interiores. Ficou caracterizada como uma pessoa internamente

ansiosa, tensa, que se esquiva ao contato mantendo atitudes frias e distantes em relação ao

mundo exterior. As cores azul e preta significativamente aumentadas, e a cor branca aumentada

discretamente, caracterizaram a paciente como introvertida, que sofreu repressões e que possui

tendência à perda do contato com a realidade. A ausência da cor laranja pode indicar

enfraquecimento estrutural, dissociação. Em relação ao aspecto formal, ela fez uso de estruturas

em mosaico (primeira e quarta pirâmides), tapete furado com tendência a estrutura em manto

(segunda pirâmide) e formação em camadas monocromáticas (terceira pirâmide), o que indica,


114

respectivamente, uma mistura de desenvolvida inteligência e sensibilidade artística, perturbação

proveniente de dissociações no curso do pensamento e manejos defensivos (inibição e

retraimento). O modo de colocação – simétrico para a primeira e quarta pirâmides, ascendente e

direto para a terceira – refletiu uma busca de equilíbrio e de integração que pode ser

conseqüência dos sentimentos de insegurança da paciente. O processo de execução foi

diversificado, ou seja, desordenado no início e ordenado no restante do teste, indicando uma

mescla de ansiedade, insatisfação e instabilidade, com certa vontade de alcançar flexibilidade. A

fórmula cromática obtida – 0 : 1 : 4 : 5 – foi classificada como restrita e instável, indicando

sentimentos de instabilidade controlados por mecanismos inibitórios. As cores por dupla – Az↑

Pr↑, Vd↓ Az↑ e La↓ Vi↓ – indicaram bloqueios e obstáculos ao desenvolvimento emocional,

tendência ao estabelecimento de relacionamentos profundos e autênticos, atitude morosa e baixa

produtividade. Em termos de variação cromática e de matizes, Caroline obteve resultado

rebaixado em relação à média esperada, indicando limitação tensa, sentimentos de insegurança,

inibição e medo de se expor. O tempo de execução foi de 10’13” para a primeira pirâmide, 4’29”

para a segunda, 4’ para a terceira e 2’ para a quarta e última pirâmide elaborada. Concluindo,

considerando os resultados apresentados, trata-se de pessoa com dificuldades psicológicas

acentuadas e com indicadores dissociativos.

Em relação aos resultados obtidos com a emersão de Dalva... Primeiramente, conforme

mostrado na Figura 13, seguinte, registramos as elaborações piramidais da alter.


115

Figura 13. Siglas das cores utilizadas pela alter Dalva na primeira pirâmide (alto, centro),
na segunda pirâmide (baixo, esquerda) e na terceira pirâmide (baixo, direita).

Em continuidade, apresentamos o gráfico demonstrativo do resultado das cores

escolhidas por Dalva, em porcentagens (Figura 14), e as comparações entre os valores obtidos e

esperados para cada cor (Figura 15). Como podemos verificar nessas duas figuras, há predomínio

das cores violeta, azul, vermelha e cinza, significativamente aumentadas. As cores verde, laranja,

amarela, marrom, preta e branca apresentaram percentuais (valores obtidos) iguais a zero.

Resultados Apresentados

Branco Cinza
Preto
0% 7%
0% Azul
Marrom 29%
0%

Amarelo
0%

Laranja Vermelho
0% 20%

Violeta
44% Verde
0%

Figura 14. Demonstrativo do resultado das cores


escolhidas por Dalva, em porcentagens.
116

Resultados Apresentados

100

Percentual
75

50 44
29
25 18,120 19,7
13,6 10,8
8,5 9,5 8,3 7
4 4,5 2,9
0 0 0 0 0 0
0

Az (VO)
Az (VE)
Vm (VO)
Vm (VE)
Vd (VO)
Vd (VE)
Vi (VO)
Vi (VE)
La (VO)
La (VE)
Am (VO)
Am (VE)
Ma (VO)
Ma (VE)
Pr (VO)
Pr (VE)
Br (VO)
Br (VE)
Ci (VO)
Ci (VE)
% Obtido (VO = Valor Obtido) e % Esperado (VE = Valor Esperado)
p/ cada cor

Figura 15. Comparação entre valor obtido, por


Dalva, e valor esperado para cada cor.

A pirâmide que Dalva disse ter mais gostado de fazer foi a primeira. A que gostou menos

foi a terceira. As cores que disse mais e menos gostar no dia-a-dia são azul e marrom

respectivamente. Em relação ao material do teste, as cores que mais e menos gostou foram Vi1 –

ela disse ser esta “a cor da espiritualidade” – e Vd1, ou seja, violeta e verde, ambas de

tonalidade 1.

A justificativa de Dalva para escolher a primeira pirâmide como a mais bonita, atentando

para os aspectos cor e forma, foi: “porque as cores se combinaram e a formação ficou muito

boa”. Já para a terceira pirâmide, escolhida como a menos bonita, realçando necessidades de

liberdade e proteção familiar, ela verbalizou: “Por causa da formação. Dá impressão de falta de

liberdade. Tanto o azul quanto o rosa parecem estar presos e pressionados. Nas outras as cores

estão juntas pela liberdade. Por outro lado, apesar da impressão de falta de liberdade, eu quis

representar três personalidades [intenção explícita e específica]. De certa forma, quis

representar a nossa proteção. O azul tendo significado em Rony e o rosa tendo a mim

representado. Dentro do amparo de nossos pais, representado pela outra cor envolta. Quero
117

deixar claro que a proteção de nossos pais não nos enclausura. Temos as laterais para o nosso

próprio esforço de crescimento”.

Dalva, demonstrando incongruência com a realidade de Caroline, ditou-nos as seguintes

informações quando do preenchimento do protocolo: Nome: “Dalva”. Idade: “32”. Sexo:

“Feminino”. Estado Civil: “Muito bem casada”. Naturalidade: “Escócia”. Grau de Instrução:

[quesito explicado pelo Pesquisador] “Meus pais encontraram mestres para me instruir”. Data:

“Estamos no outono, entrando para o inverno, perto da mudança de estação”.

Sintetizando, em relação à síndrome cromática – esbranquiçada –, Dalva apresentou

enfraquecimento estrutural da personalidade. As cores azul, vermelha, cinza e violeta estiveram

aumentadas com prevalência significativa para esta última, o que indica perturbações na esfera

emotiva. As demais cores mencionadas caracterizaram a paciente como introvertida, sensível,

carente emocionalmente e reprimida afetivamente. A ausência da cor laranja pode indicar

enfraquecimento estrutural, dissociação. Em relação ao aspecto formal, ela construiu as

pirâmides fazendo uso somente de estruturas (simétrica para a primeira pirâmide, escada para a

segunda e mosaico para a terceira), o que indica, respectivamente, capacidade cognitiva

diferenciada, conflitos emocionais, e desenvolvida inteligência. Além disso, suas elaborações

formais também assestam para contextos de divisão ou de dissociação da personalidade. O modo

de colocação (simétrico para a primeira pirâmide, diagonal para a segunda e direta para a terceira

– todos ascendentes) refletiu uma busca de equilíbrio (integração) que pode ser conseqüência de

sentimentos de insegurança. O processo de execução foi ordenado durante todo o teste,

indicando vontade de alcançar flexibilidade. A fórmula cromática obtida – 1 : 2 : 1 : 6 – foi

classificada como restrita e flexível, caracterizando uma “pessoa” cautelosa e inibida, capaz de

se adaptar ao ambiente. As cores por dupla (Az↑ Ci↑, Vm↑ Vi↑, Vd↓ Az↑, Vd↓ Vm↑ e Ci↑ Vm↑)
118

indicaram fechamento em si e introversão, excitação e impulsividade, tendência ao

estabelecimento de relacionamentos profundos e autênticos. Em termos de variação cromática e

de matizes, Dalva obteve resultado rebaixado em relação à média esperada, indicando limitação

tensa, sentimentos de insegurança, inibição e medo de se expor. O tempo de execução foi de

4’18” para a primeira pirâmide, 3’25” para a segunda e 2’50” para a última pirâmide elaborada.

Concluindo, considerando os resultados apresentados, trata-se de “pessoa” com dificuldades

emocionais e com indicadores dissociativos.

Conforme analisado mais detalhadamente em nossas discussões, as elaborações de

Caroline, bem como os resultados apresentados quando da emersão de Dalva indicam um

contexto da multiplicidade, e reforçam características traumáticas da personalidade múltipla.

Como veremos adiante, o trauma, a divisão da personalidade, a dissociação e a necessidade de

integração, apresentaram-se plenos nas elaborações produzidas. Foram esses os resultados

obtidos com a primeira aplicação do Teste das Pirâmides de Cores.

Nos mesmos moldes anteriores, apresentaremos a seguir os resultados obtidos com o re-

teste de Caroline. Exporemos também informações comparativas dos resultados alcançados no

seu teste e no re-teste. Realçamos que o re-teste justifica-se pelo processo dissociativo ocorrido

durante a primeira aplicação do instrumento, cuja ocorrência e procedimentos não estão

contemplados no manual do teste. Adicionalmente, resolvemos acatar a sugestão de um

supervisor externo (juiz), especializado no Pfister, sugerindo-nos nova aplicação (veja Anexo 5).

As elaborações piramidais obtidas no re-teste da paciente estão reproduzidas na Figura

16, seguinte.
119

2ª 3ª
Figura 16. Reprodução das pirâmides de Caroline (re-teste).

O novo gráfico demonstrativo do resultado das cores escolhidas por Caroline, em

porcentagens (Figura 17), e as novas comparações entre os valores obtidos e esperados para cada

cor (Figura 18), estão registrados a seguir. Conforme podemos observar, há predomínio das cores

azul e preta, significativamente aumentadas. O valor obtido para a cor branca ficou um pouco

acima do valor esperado para esta cor. Os valores obtidos para as cores vermelha e verde ficaram

abaixo do valor esperado. As cores violeta, laranja, amarela, marrom e cinza apresentaram

percentuais obtidos iguais a zero.


120

Resultados Apresentados
Preto Branco
27% 11% Cinza
Marrom
0%
0%

Azul
Amarelo
49%
0%

Laranja
Vermelho
0% Violeta Verde 7%
0% 7%

Figura 17. Demonstrativo do resultado das cores


escolhidas por Caroline (re-teste).

Resultados Apresentados

100
Percentual

75

49
50
27
25 18,1 19,7
13,6 10,8 9,5 11 8,3
7 7 8,5 4 4,5
0 0 0 0 0 2,9
0
Az (VO)
Az (VE)
Vm (VO)

Ma (VE)
Vm (VE)
Vd (VO)
Vd (VE)
Vi (VO)
Vi (VE)
La (VO)
La (VE)
Am (VO)
Am (VE)
Ma (VO)

Pr (VO)
Pr (VE)
Br (VO)
Br (VE)
Ci (VO)
Ci (VE)

% Obtido (VO = Valor Obtido) e % Esperado (VE = Valor Esperado)


p/ cada cor

Figura 18. Comparação entre valor obtido e valor


esperado para cada cor (re-teste).

A pirâmide que Caroline disse ter mais gostado de fazer foi a terceira. A que gostou

menos foi a segunda. As cores que disse mais e menos gostar no dia-a-dia são azul e preta

respectivamente. Em relação ao material do teste, as cores que mais e menos gostou foram Az3

(azul, tonalidade 3) e Ma1 (marrom, tonalidade 1).

A justificativa dela para escolher a terceira pirâmide como a mais bonita, salientando

necessidade integrativa, foi: “Porque não sinto conflito nas cores. Não existem conflitos. A

pirâmide está inteira”. Já em relação a segunda pirâmide, escolhida como a menos bonita,

realçando novamente a questão da liberdade, ela verbalizou: “O branco e o azul estão impedindo

a liberdade do verde”.
121

Enfatizamos que antes de iniciar a elaboração da primeira pirâmide, após ficar mexendo

nos quadrículos – como que estudando as cores (tempo de latência = 2’) – Caroline verbalizou:

“Vou repetir a primeira pirâmide que fiz da vez passada [referindo-se à primeira testagem],

acrescentando um pouco mais do vermelho. Será um coração sangrando dentro da escuridão”.

Embora tenhamos classificado a primeira pirâmide do re-teste de Caroline, no aspecto

formal, como sendo uma estrutura em manto fechado, nitidamente, conforme registrado no

parágrafo anterior, ela quis fazer uma representação específica. Ou seja, houve uma intenção

explicitada de representar algo, o que poderia sugerir uma estrutura em mosaico. Apesar disso,

resolvemos permanecer com a primeira classificação, mais adequada segundo o manual do teste.

Em síntese, os indicadores obtidos por Caroline no re-teste demonstraram similaridade

com os da primeira aplicação. Ou seja, cores mais significativas perfeitamente equivalentes,

inclusive, com idênticos valores obtidos para as cores azul (49) e branca (11). Percentuais

zerados para as cores violeta, laranja, marrom e cinza. Além disso, síndromes cromáticas (fria e

de contraste) análogas. Idêntico processo de execução (ordenado) – exceção para a parte inicial

na primeira aplicação –, idêntica classificação para a fórmula cromática (0 : 1 : 4 : 5, restrita e

instável) e idênticas cores por dupla (Az↑ Pr↑, Vd↓ Az↑ e La↓ Vi↓). Ambas as variações

cromáticas e de matizes foram classificadas como rebaixada.

Por outro lado, os aspectos formais elaborados estiveram um tanto discrepantes.

Enquanto que na primeira aplicação Caroline fez uso de mosaicos (primeira e quarta pirâmides) e

camadas monocromáticas (terceira pirâmide), no re-teste ela fez uso de estrutura em manto

fechado (primeira pirâmide) e formação em camadas monotonais (terceira pirâmide). Apesar

disso, as duas pirâmides interpostas (segunda pirâmide de cada aplicação) foram classificadas de

maneira idêntica: tapete furado com tendência à estrutura em manto. O modo de colocação
122

apresentou diferença somente em relação as primeiras pirâmides elaboradas: enquanto que a

classificação foi simétrica no teste, no re-teste, foi em manto. Nas demais, o modo de colocação

foi idêntico: não evidenciado para as segundas pirâmides e ascendente e direto para as terceiras

elaborações. O tempo de execução foi significativamente menor no re-teste, ou seja, 4’42” para a

primeira pirâmide, 3’51” para a segunda e 3’13” para a última pirâmide elaborada, demonstrando

execução da tarefa de forma mais adaptada.

A principal observação, no nosso entender, que sugere convergência de necessidades da

paciente, está registrada na formação em camadas monocromáticas (terceira pirâmide da

primeira aplicação), na estrutura em mosaico (quarta pirâmide da primeira aplicação), e na

formação em camadas monotonais (terceira pirâmide do re-teste). A primeira mencionada reflete

busca de integração. A segunda, um desejo de equilíbrio. A terceira, uma integração plena.

Todas, entretanto, assestam para o desejo da cura, para as reversões traumáticas e dissociativas

identificadas nas elaborações das pirâmides anteriores.

Enfatizamos a não ocorrência de processos dissociativos durante o re-teste. Realçamos,

porém, que após o término desta segunda aplicação, a personalidade denominada por nós como

Supervisor – ISH global do psiquismo de Caroline – emergiu espontaneamente para acentuar

verbalmente as seguintes idéias:

“Dr. Marcello,

Estamos entendendo as suas aplicações de instrumentos técnicos e modernos em sua

paciente. Os resultados estão sendo fidedignos e bastante satisfatórios. As pirâmides

mostraram concordância com a situação real do distúrbio, a vontade da paciente em ser

fiel ao seu estado, as nossas humildes interferências no processo e a dissociação


123

espontânea de uma das alters. Por isto sempre dissemos: os estudos profundos em

benefício da ciência conduzem o cientista sincero a beneficiar não apenas o que lhe

coube ver ou direcionar, mas as inúmeras facetas de doenças diagnosticadas

erradamente ou diagnosticadas apressadamente, por falta de terminologia para os casos

apresentados. Este teste, Pfister, tem veracidade. Foi muito feliz o seu autor pelo seu

trabalho que neste caso em particular foi muito bem sucedido. É claro que terão no

futuro outros estudos mais precisos e menos trabalhosos de serem compreendidos pelos

cientistas que ainda não se interessaram neste momento por esta causa que por ser nova

não foi ventilada uma inteligente discussão. Portanto lhe são permitidas dúvidas e

descrenças diante deste contexto novo ou a nova maneira de encarar um distúrbio que na

verdade não é tão novo assim. Quanto à cliente: as ebulições internas estão mais

apaziguadas, mas continuam a existir ainda com resquícios fortes e temporários. Os

sintomas incomodativos que a paciente reclamava durante quase a vida toda diminuíram

e alguns desapareceram, pela compreensão do distúrbio e a plena confiança depositada

no tratamento. Por fim, continue firme nos seus propósitos, estudando e investindo nas

conquistas científicas. Conte conosco...”

Interessante lembrarmos o fato desta personalidade, Supervisor, conhecer totalmente o

funcionamento psíquico de Caroline. Ele representa a dominância perfeita, sensata e equilibrada

do psiquismo da paciente. Com a imersão de Supervisor, ocorrida espontaneamente da mesma

forma que sua emersão, Caroline retornou se sentindo muito bem. Aliás, todas as vezes que a

“volta” dela é antecedida por esta personalidade, o reflexo de uma sensação de plenitude, de

bem-estar e de paz toma conta integral do seu ser.


124

Por fim, assinalamos que o modelo apresentado para as análises sintéticas do Pfister foi

idealizado por nós, com base na folha de protocolo do instrumento contida no manual do teste,

publicado pelo CETEPP – Centro Editor de Testes e Pesquisas em Psicologia.

3.5- Indicadores do TAT

A utilização deste teste projetivo objetivou investigar aspectos psicodinâmicos

relacionados ao funcionamento psíquico de Caroline, bem como analisar a incidência de

processos dissociativos característicos da personalidade múltipla. Primeiramente, registraremos

os resultados obtidos com o TAT apresentando os indicadores encontrados.

O gráfico abaixo, Figura 19, representa a discriminação dos principais protagonistas

identificados nas histórias narradas por Caroline, que demonstra prevalência para identificá-los

no período infantil, mais especificamente na figura feminina. Somando-se os quatro primeiros

quesitos e comparando-os com o somatório dos quatro últimos, constata-se certa fixação nas

fases da infância e da adolescência.

Síntese da Discriminação dos Protagonistas

Crianças 1

Filha 2

Menina (e/ou Moça) 6


Protagonistas

Menino (e/ou Rapaz) 4

Senhora (Viúva e/ou Avó) 3

Casal 1

Homem 1

Mulher 2

0 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20

Totais Registrados

Figura 19. Principais protagonistas identificados nas histórias


narradas por Caroline.
125

As características mais proeminentes dela, conforme demonstrado no gráfico abaixo,

Figura 20, em ordem decrescente, são: solidão (44) 9, conflituosidade interpessoal (28) e

superioridade (27). Por outro lado, a criminalidade (12) está classificada como a sua

característica menos sobressalente. Uma outra característica cujo escore se aproximou dos

quesitos significativos é filiação grupal (23), demonstrando uma conexão com aspectos de

dependência, de parentesco entre genitor(a), e progenitura (ascendência), e que é, ao menos em

parte, a base da identidade dos novos membros da sociedade e de sua reunião aos diversos

grupos sociais.

Síntese das Características dos Protagonistas

Superioridade 27

Inferioridade 17

Criminalidade 12
Característica

Anormalidade Mental 18

Solidão 44

Filiação Grupal 23

Liderança 16

Conflituosidade (interpessoal) 28

0 10 20 30 40 50 60 70 80 90 100

Escore Total das Vinte Pranchas

Figura 20. Características dos protagonistas apresentados


por Caroline.

Visualizando o gráfico seguinte, Figura 21, verifica-se as pranchas que obtiveram

somatório de estímulos mais impactantes à Caroline em relação às características apresentadas


10
pelos protagonistas. Foram elas: 18MF (Mulher que estrangula) , 15 (No cemitério) e 9MF

(Duas mulheres na praia). Coincidentemente, três pranchas apresentaram escores idênticos (2)

9
Os valores entre parênteses equivalem aos escores obtidos por Caroline no TAT.
10
Os títulos das pranchas, de ambas as séries do TAT, foram retirados de Silva (2003, pp. 11-16).
126

em termos de efeitos coletivos poucos perceptíveis. Foram elas: 1 (O menino e o violino), 5 (A

senhora na porta) e 20 (Só sob a luz).

Impacto das Características dos Protagonistas


(Superioridade + Inferioridade + Criminalidade + Anormalidade Mental + Solidão +
Filiação Grupal + Liderança + Conflituosidade (interpessoal)

40

30
22 23
Escore

20
20 16
13 14
11 10
8 9
10 6
5 5 4 5 5
2 2 3 2
0

13HF
3MF

6MF
7MF
8MF
9MF

12F

17MF
18MF
1
2

4
5

10

11

14
15
16

19
20
Prancha

Figura 21. Impacto da estimulação global de cada prancha apresentada


à Caroline em relação às características dos protagonistas.

Todas as vinte pranchas foram classificadas como vulgares, ou seja, as áreas mobilizáveis

por cada um dos estímulos estiveram presentes. Devemos, entretanto, ressaltar que para os

quadros 13HF (Mulher na cama), 15 (No cemitério), 17 (A ponte) e 20 (Só sob a luz), a

classificação foi pela fidelidade ao estímulo da gravura, e não aos temas comuns que as pranchas

despertam. Assim, enfatizamos que nas quatro histórias referentes aos quadros mencionados,

Caroline “fugiu” completamente ao tema da prancha sem perder o senso de realidade, fato que a

afasta do contexto clínico da psicose.

As informações registradas no gráfico seguinte, Figura 22, demonstram que as três

maiores necessidades de Caroline são: realização (43), afago (38) e proteção (33). Duas outras

necessidades também apresentaram valores significativos. Foram elas: passividade (26) e sexo
127

(25). Por outro lado, todas as formas de agressão resultaram em escores muito pouco

significativos.

Necessidades dos Protagonistas


Afago 38
Agressão: Destruição 2
Agressão: Emocional e Verbal 2
Agressão: Física e Associal 5
Necessidades

Agressão: Física e Social 5


Degradação 5
Dominação 14
Intragressão 10
Passividade 26
Proteção 33
Realização 43
Sexo 25

0 10 20 30 40 50 60 70 80 90 100

Escore Total das Vinte Pranchas

Figura 22. Demonstração gráfica das necessidades apresentadas


por Caroline.

Visualizando o gráfico seguinte, Figura 23, observa-se que quatro pranchas mobilizaram

Caroline em relação ao somatório de necessidades contidas num mesmo quadro. Foram elas: 11

(Paisagem primitiva de pedra), 13HF (Mulher na cama) – estas duas com escore idêntico

equivalente a 22 –, 6MF (Mulher surpreendida – escore 17) e 4 (A mulher que retém o homem –

escore 16). A prancha menos impactante em termos do conjunto dos estímulos das doze

necessidades avaliadas foi a 15 (No cemitério) cujo escore ficou no patamar 3 de um máximo

equivalente a 60.
128

Impacto das Necessidades dos Protagonistas


(Afago + Agressão: Destruição + Agressão: Emocional e Verbal + Agressão: Física e Associal +
Agressão: Física e Social + Degradação + Dominação + Intragressão + Passividade + Proteção +
Realização + Sexo)

60

50

40
Escore

30
22 22
20 16 17
12 12 11
9 10 10 10 9 8
10 6 6 5 6 7 7
3
0

13HF
3MF

6MF

7MF
8MF

9MF

12F

17MF

18MF
1

10

11

14

15

16

19

20
Prancha

Figura 23. Demonstração do impacto global, por prancha,


das necessidades de Caroline.

Em relação aos estados interiores e emocionais Caroline apresentou escore sobressalente

para o quesito mudança emocional (58). Para os itens abatimento e conflito ela obteve resultados

aproximados, escores 55 e 45 respectivamente. Assim sendo, equivale dizer que Caroline

demonstra rebaixamento do humor, conflitos internos e alterações emocionais em grau

significativo. Para uma melhor visualização dos resultados, veja o gráfico abaixo, Figura 24.

Estados Interiores e Emoções dos Protagonistas

Abatimento 55
Estados e Emoções

Conflito 45

Mudança Emocional 58

0 10 20 30 40 50 60 70 80 90 100

Escore Total das Vinte Pranchas

Figura 24. Representação gráfica dos estados interiores e


emocionais obtidos.
129

De outra forma, enquanto que as pranchas 12F (Mulher Jovem e Velha), 14 (Homem na

janela) e 18MF (Mulher que estrangula) obtiveram grau máximo – escore igual a 15 – em termos

de estímulos acumulados num mesmo quadro, as pranchas 1 (O menino e o Violino), 15 (No

Cemitério), 16 (Em Branco), 17MF (A Ponte) e 20 (Só Sob a Luz) não lograram impacto mínimo

em Caroline, ficando todas no patamar nulo em termos de estimulação simultânea para os três

itens avaliados.

Importante realçar quatro outras pranchas que obtiveram escore muito aproximado das

três que alcançaram o grau máximo de 15. Foram elas: 4 (A Mulher que Retém o Homem), 9MF

(Duas Mulheres na Praia), 11 (Paisagem Primitiva de Pedra) e 13HF (Mulher na Cama). Tais

quadros também se referem a estímulos acumulados que conseguiram mobilizar

significativamente Caroline. Ressaltamos que a história da prancha 16 (Em Branco) foi obtida

em processo dissociativo espontâneo, sendo narrada por uma das alters do contexto da paciente.

Mais especificamente, refere-se a Ester. Para uma melhor visualização dos resultados, veja o

gráfico abaixo, Figura 25.

Impacto dos Estados Interiores e das Emoções


dos Protagonistas
(Abatimento + Conflito + Mudança Emocional)

15 15 15
15 14
14 13 13
13 12
12
11 10 10
10
Escore

9
9 8 8
8 7
7
6 5
5 4
4
3
2
1
13HF
1
2

4
5

10

11

14
15
16

19
20
3MF

6MF
7MF
8MF
9MF

12F

17MF
18MF

Prancha

Figura 25. Demonstração do impacto global, de cada prancha,


em relação aos estados interiores e emoções dos protagonistas
de Caroline.
130

Todas as instâncias psíquicas apresentaram escore positivo. Caroline apresenta ideal do

ego significativo indicando que possui metas, expectativas, projetos de vida e sonhos com

intenção de realização. O ego apresenta-se satisfatório, acompanhando a evolução do ideal do

ego, refletindo boa capacidade de mediação, de ponderação e de resolução dos problemas. O

superego é a instância psíquica menos sobressalente. Não há rigidez. Seu resultado, conforme

mostrado no gráfico abaixo, Figura 26, demonstra ausência de conseqüências negativas à

Caroline.

Dimensões Psíquicas dos Protagonistas

Superego 21
Instância Psíquicas

Ideal do Ego 44

Ego 43

-60 -50 -40 -30 -20 -10 0 10 20 30 40 50 60

Resultado das Vinte Pranchas

Figura 26. Representação gráfica das dimensões psíquicas


obtidas.

Em termos de estimulação global e individual, por prancha, referente às instâncias

psíquicas, conforme mostrado no gráfico seguinte, Figura 27, constata-se que somente uma

história alcançou grau máximo para os quesitos ego, ideal do ego e superego. Foi a 6MF (Mulher

surpreendida).
131

Dimensões Psíquicas dos Protagonistas

9
9 8 8 8
7 7 7 7 7
6 6 6
6 5 5
4 4
3 2 2
Escore

1
0

13HF
1

3MF
4

5
6MF

7MF

8MF
9MF

10
12F

11

14

15
16

17MF

18MF
19

20
-3
(-1)

-6

-9

Prancha

Figura 27. Impacto global, por prancha, em termos de


dimensões psíquicas.

Afiliação emocional, perda, proteção e carência representam as forças ambientais mais

sobressalentes no contexto de Caroline. Não há agressão em termos de destruição de

propriedade. As forças ambientais não promovem esse tipo de violência. Para uma melhor

visualização, veja o gráfico abaixo, Figura 28.

Forças do Ambiente dos Protagonistas


Afiliação Associativa 14
Afiliação Emocional 62
Agressão - Destruição de Propriedade
Agressão - Emocional e Verbal 8
Agressão - Física e Associal 5
Forças Ambientais

Agressão - Física e Social 5


Carência 35
Perda 60
Dominação por Coerção 10
Dominação por Indução e/ou Sedução 6
Dominação por Restrição 25
Lesão Física 11
Perigo Físico Ativo 1
Perigo Físico por Falta de Apoio 5
Proteção 45
Rejeição 24

0 10 20 30 40 50 60 70 80 90 100

Escore Total das Vinte Pranchas

Figura 28. Forças ambientais dos protagonistas das histórias de


Caroline.

Visualizando-se o gráfico seguinte, Figura 29, observa-se que a prancha 11 (Paisagem

primitiva de pedra), em termos do somatório de estímulos apresentados conjuntamente,


132

repercutiu fortemente no contexto interno de Caroline. Já a prancha 10 (O Abraço) apresentou o

menor escore (5) em relação às forças do ambiente atuantes nos protagonistas.

Impacto das Forças Ambientais dos Protagonistas

80
70
60
Es c o r e

50
40
40
30
30
19 16 20 20 20
20 15 15 16 17
12 13 13
6
10 8 11 10
10 5
0

13HF
1
2
3MF
4
5
6MF
7MF
8MF
9MF
10
12F
11

14
15
16
17MF
18MF
19
20
Prancha

Figura 29. Impacto global, por prancha, em relação às


forças ambientais.

Do total de vinte histórias somente duas tiveram desfechos desfavoráveis. Foram elas:

9MF (Duas mulheres na praia) e 10 (O abraço). Na primeira, Caroline retratou um pouco da sua

própria história de vida ao narrar: “Apareceu num povoado uma menina. Ela demonstrava ter

vários distúrbios que ninguém entendia. Ela tinha visões, ouvia vozes, e às vezes, saía por causa

destas vozes que a perseguiam constantemente. Um dia ela sentiu desespero, e foi para um lugar

distante. Depois, ela esqueceu como foi que voltou para casa”. Na segunda, história da prancha

10, o sonho (ou a aparição) projetado(a) não conforta, não resolve o desespero narrado. Foram

palavras dela: “Vamos começar falando de uma moça que tinha um noivo. Ele sofreu um

acidente grave. Não resistiu aos ferimentos. Essa jovem entrou em grande desespero e vivia

clamando por ele. Numa noite em seu quarto ela o viu. Saltou da cama e abraçou aquela figura.

No outro dia ela não sabia se era realidade ou se era sonho”.

Os desfechos favoráveis apresentam tendências para as vias da sublimação. Há superação

de dificuldades com grau elevado de sucesso, superação diante ambientes prejudiciais e


133

superação de perdas, sempre com opção pela vida, através do estudo e do trabalho, estes sempre

voltados ou envolvendo a coletividade, o bem comum.

Os temas das pranchas, em sua grande maioria, estiveram correlacionados com as

histórias narradas e suas gravuras, fato que comprovou que Caroline se situa dentro dos padrões

do reconhecimento. Constatam-se temas positivos com ênfase na presença de aspectos ligados a

genitores (pais e mães), a homens e mulheres, a filhos, a crianças (meninos e meninas), a família

e ao período infantil da paciente. Também sobre dificuldades mentais, sobre tentativa de suicídio

com opção pela vida, sobre o ciclo de vida, sobre realidades psíquicas contrastantes e sobre a

superação pela sublimação. Os aspectos negativos vinculam-se ao distúrbio da doença em si e a

presença de quadros alucinatórios.

Conforme demonstrado no gráfico abaixo, Figura 30, constata-se que, dentre dez grupos

de interesses organizados, os três maiores na vida de Caroline são: a) pai, mãe, família e lar; b)

marido e filhos; c) estudo e trabalho. Sendo que, os dois últimos classificados (grupos b e c)

apresentaram igualdade em suas tabulações.

Síntese dos Interesses do Sujeito

Marido e Filhos 5
Deus, Aparições e Morte 3
Pai, Mãe, Família, Lar 10
Vida Fora da Família 1
Interesses

Estudo e Trabalho 5
Cura de Distúrbios 2
Navio 1
Felicidade 2
Comunicação Pela Música 1
Envelhecimento e Amadurecimento 2

0 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20

Totais Registrados

Figura 30. Interesses dos protagonistas das histórias de


Caroline.
134

Concluindo, Caroline demonstra prevalência para identificar os protagonistas no período

infantil, mais especificamente na figura feminina, o que indica certa fixação nas fases da infância

e da adolescência. As suas características mais proeminentes são: solidão, conflituosidade

interpessoal e superioridade. Demonstra ter preservado o senso de realidade e tendência para

reversão de situações traumáticas e impactantes. As suas principais necessidades atuais são:

realização, afago e proteção. Apresenta abatimento, conflitos internos e mudanças emocionais

em grau acentuado. As suas dimensões psíquicas mais atuantes são: ideal do ego, ego e superego,

nesta ordem. No presente, as forças ambientais atuantes sobre Caroline são: afiliação emocional,

perdas e proteção. Demonstra superar dificuldades através do estudo e do trabalho, estes sempre

voltados ou envolvendo a coletividade, o bem comum. Os seus interesses e sentimentos atuais

voltam-se para a família, para marido e filhos, e para o estudo e o trabalho. Considerando os

resultados expostos, Caroline apresenta conflitos emocionais, com tendência a elaborar seus

traumas e conflitos pela via da sublimação.

Por fim, vale enfatizar que ela obteve média aritmética geral igual a 296,95 em relação ao

total de palavras contidas em cada história de ambas as séries do TAT. Tal fato corrobora os

dizeres do manual do teste quando estabelece que a extensão média de histórias produzidas por

sujeitos adultos comporta ao redor de trezentas palavras (Murray, 1943/1967, p.13).

Agora, em relação aos aspectos dissociativos, essencial apontar que durante a aplicação

da 2ª série, mais particularmente na prancha 16, quadro em branco, ocorreu um processo

dissociativo com Caroline. A história contada é de Ester, que emergiu espontaneamente. Logo

em seguida Caroline retornou novamente ao controle do corpo nada percebendo do ocorrido.

Continuamos a aplicação normalmente. Assim sendo, podemos afirmar que de todas as vinte

histórias contadas, somente a da prancha 16 é de uma alter, Ester. Salientamos ainda que após o
135

término do inquérito da 2ª série sucedeu um segundo processo dissociativo com Caroline.

Mariana emergiu espontaneamente.

A seguir, exemplificando a dissociação e a função essencial do ISH, registramos o

diálogo obtido com Mariana após o término do inquérito da 2ª série.

?: “Olá doutor... Vim rapidamente para algumas explicações sobre Ester...”

Pesquisador: “Olá Sra. Mariana. Como vai?”.

Mariana: “Vamos bem. Ester é ainda uma menina-moça e muito esperta. Desde muito

tempo ela tenta se apossar do corpo de Caroline em definitivo. Não se preocupe.

Estamos no caminho certo para sanar esses impulsos”.

Pesquisador: “Ester me disse que a senhora estava presente quando falávamos com ela.

Poderia comentar?”.

Mariana: Sim. Quando vê-la com comportamentos suaves é que estou comandando de

alguma forma as suas atitudes. Mas, nem sempre é possível. Ester, pela vida toda de

Caroline, esteve presente. Muitas vezes por indeterminado tempo. As pessoas estranhas

da convivência de Caroline não lhe interessam. Aceita as críticas como se fossem

normais e responde sempre com bom humor, com certo divertimento da situação,

achando que elas são bobas ou não inteligentes para perceber a sua presença. Isto a

diverte muito e muitas vezes complica um pouco a situação de Caroline”.

Pesquisador: “Às vezes, Ester parece tomar o controle do corpo de Caroline com

facilidade, mostrando a primazia da sua vontade. Caroline não tem percebido esse

processo tão nitidamente!”.


136

Mariana: “Ester é uma pessoa divertida e gosta de brincar. Você viu na história que ela

contou. Isto confunde as pessoas. Enquanto acharem que sejam brincadeiras estará tudo

sob controle. Mas quando começarem a duvidar da sua sanidade, aí começará um

grande problema. Estamos evitando isso, vigiando, estando sempre ao lado de Ester.

Ela, algumas vezes, foge do nosso controle, mas estamos no comando sem grandes

dificuldades, apenas conversando com ela. Algumas vezes ela permanece, apesar de

nossa vontade”.

Pesquisador: “Está tudo correndo bem com Ester?”.

Mariana: “A conversa que teve com ela, se não observou teve conteúdo interessante.

Está tudo bem, não se preocupe, mas fique ciente de toda a situação para não sair do

controle. Enfatizo novamente, a vontade dela de ficar na emersão é grande. Por isso

precisa do meu acompanhamento, para não prejudicar Caroline. Ela já tem uma conduta

de enganar as pessoas que ficam ao redor dela. Quando as pessoas estranham Caroline,

ela diz que é por alegria. E assim ela fica sem ser identificada. As pessoas acostumaram

com essa mudança de comportamento, não se preocupam mais”.

Pesquisador: Ester sabe de Caroline?”.

Mariana: “Ela não sabe exatamente de Caroline. Ela pensa que seja uma porta aberta

em que pode sair e se divertir, apesar de tudo ficar estranho. Mas ela sabe levar essa

diferença sem dificuldade”.

Pesquisador: “Ester disse algo muito interessante: Quando emerge, sabe que alguém

tem que ficar ‘lá’. ‘Lá’ significa o contexto dela. Ela compreende que não pode ficar na

emersão sem que alguém permaneça no contexto dela. E, de alguma forma, sente que o

contexto dela é somente dela”.


137

Mariana: “Não há como fazer substituições”.

Pesquisador: “Inclusive, verbalizou achar que ninguém conseguiria agüentar o que ela

agüenta!”

Mariana: “Sim, ela acha que seria uma saída se alguém pudesse ficar no seu lugar. Ela

tenta de todas as maneiras achar uma saída definitiva e ser feliz. A vontade de

permanecer é muito grande. Só ela tem essa grande vontade, quase violenta e que às

vezes precisamos defender Caroline, dessas atitudes”.

Pesquisador: “Teria outras perguntas...”

Mariana: “Vamos ficar hoje por aqui. Poderemos falar mais em outra oportunidade”.

Pesquisador: “Ok. Agradeço sua atenção”.

Mariana: “Conte sempre conosco. O teste das histórias [TAT] foi satisfatório. Continue

estudando e investindo nas conquistas científicas”.

Após a imersão de Mariana, Caroline retornou nada percebendo do contexto dissociativo

ocorrido. Foram esses os dados obtidos com o TAT. A seguir, apresentaremos os resultados

clínicos alcançados durante as entrevistas com Caroline, que colaborou ativamente durante todo

o processo. Salientamos que, por seu caráter descritivo, a análise qualitativa do TAT será

aprofundada em nossa discussão.

3.6- Entrevistas

Três encontros foram necessários para a realização das entrevistas. Todos eles ocorreram

em dezembro de 2006, em nosso consultório clínico. Registramos a seguir, os resultados obtidos

em cada um desses encontros.


138

3.6.1- Entrevista Clínica

Esta entrevista foi analisada buscando agrupar novos conteúdos – traumáticos e

dissociativos – significativos da paciente para evidenciar o quadro clínico em questão. Devemos

acentuar que esta entrevista, conduzida por outro pesquisador (juiz), durou exatamente duas

horas, um minuto e vinte e oito segundos. Nestes cento e vinte minutos aproximados ocorreram

situações atípicas que há alguns meses não mais vinham acontecendo conosco. Aludimos ao

chamado encadeamento dissociativo, isto é, a oportunidade de conversar com várias

personalidades de forma sucessiva. Elas foram emergindo e apresentando o elo dissociativo

característico da personalidade múltipla. O diálogo inicial, diretamente com Caroline, durou

exatamente cinqüenta e um minutos e vinte segundos. Em seguida, Supervisor emergiu

espontaneamente. Apresentou-se. Ficou atuando por um período de nove minutos e oito

segundos e manifestou o desejo de trazer uma das alters. Foi assim que Dalva emergiu, sendo

acionada diretamente pelo ISH global. Ela ficou ativa no corpo por quinze minutos e trinta e oito

segundos. Durante a conversa, já mais para o final, Dalva entregou uma mensagem escrita na sua

linguagem secreta tradicional, feita na madrugada do mesmo dia da primeira entrevista, com

Caroline dissociada. Pediu que a mesma fosse repassada para Ronaldo. Posteriormente, Ester

chegou alegre e sedutora querendo “ficar para sempre”, conforme verbalizou. Ficou sozinha

com o pesquisador (juiz) por dez minutos e quatro segundos. A pedido dela, fomos chamados. O

diálogo a três durou treze minutos e doze segundos. Por fim, Caroline retornou fechando o ciclo

do encadeamento dissociativo (Prince, 1905/1957). Permaneceu conosco por um período

adicional de vinte minutos. Assim sendo, Caroline ficou em processo dissociativo espontâneo

por cinqüenta minutos e oito segundos. Do tempo total da entrevista, ela ficou ativa no comando

do corpo por um período de uma hora, onze minutos e vinte segundos. O tempo total dos
139

processos de ausência, seqüenciais, foi de cento e dez segundos (37 + 32 + 18 + 23), ou seja, um

minuto e cinqüenta segundos. Equivale dizer que por quase dois minutos Caroline esteve em um

estado de torpor sem que nenhuma personalidade estivesse presente ou atuante no comando do

corpo físico. Dezesseis segundos foram gastos para que adentrássemos a sala quando solicitado

pelo pesquisador (juiz), para falar com Ester.

Em continuidade, apresentaremos algumas falas iniciais de Caroline obtidas durante a

primeira hora da entrevista clínica com o pesquisador (juiz). Estas falas, que complementam a

história de vida traumática da paciente já inicialmente descrita por nós, serão utilizadas nas

discussões.

Em relação à solidão, à maneira como era alimentada, às suas incertezas durante a época

do Natal, Caroline disse:

“Eu tinha muito medo de viver só. Sentia-me muito só. A minha alimentação era o

suficiente para não morrer. Desde pequena, a história do Papai Noel... ‘Ele dava

presentes só para quem tem pai?’, ‘Por que ele dava presentes para tantas crianças?’,

‘Devia ser um Deus.’ Como eu era obrigada a freqüentar igrejas, saía nos altares

procurando o altar do Papai Noel, que era tão poderoso. Eu não ganhava presentes de

natal. O máximo que ganhava era um vestidinho de chita. Minhas roupas eram todas de

segunda”.

No tocante aos maus-tratos, agressões, sofrimentos emocionais, rejeição, desamparo e

abandono, ela verbalizou:


140

“Com mais ou menos três anos falei ‘diabo’ porque um menino vizinho falava esta

palavra e eu achava bonito. Essa mãe que me criou me deu um tapa na boca tão forte

que engoli um dente, nem mole estava. Aquilo sangrou e desceu pela roupa. Ela só

olhando. Nisso vi alguém chegando pelas minhas costas. ‘O que foi isso?’, minha mãe

biológica (acho que era ela) perguntou. Foi a primeira e última lembrança dela. ‘Foi ela

quem bateu na minha boca e arrancou o meu dente’, respondi. ‘Cadê o seu dente?’,

‘Engoli’. Ela virou e falou assim: ‘Dona [nome omitido propositalmente], não está vendo

que é uma criança!’ Ela [mãe de criação] respondeu: ‘Achou ruim, então leva’. O que

aconteceu? Silêncio de ambas as partes. Foi aí que vi que ninguém gostava de mim

porque nem a mãe biológica reagiu e nem a outra também nada fez. Mandou que eu

levantasse e fosse pegar água para lavar a boca e parar de sangrar. Foi um choque. Na

hora a criança não percebe. Somente posteriormente vai codificar. (...) Acho que tinha

veneração por elas [mães receptoras]. À medida que fui recordando, fui percebendo que

nunca fui amada. Fui dada mesmo. Tanto que na minha certidão só tem o nome dela, da

mãe biológica. Elas nunca me puseram no colo. Eu era uma menina muito mal cuidada.

O cabelo vivia despenteado”.

Sobre o seu contexto conjugal e familiar Caroline mencionou:

“Usei o casamento para sair daquela casa. Tiveram que fazer uma outra certidão.

Modificaram o meu nome para eu poder casar, como se eu fosse a irmã de mim mesma.

Alteraram o primeiro nome. O segundo permaneceu. Aumentaram dez anos na minha

idade. Não gostei do nome porque gostava mais do outro, já estava acostumada. (...)
141

Horrorosa a vida conjugal. Agüentei tudo porque não queria ver meus filhos sem pai.

Um pai bom ou ruim, mas que fosse pai deles, que eles se sentissem seguros. Pelo menos

um pai ruim eles tinham. Melhor que não ter nenhum”.

Em relação ao tratamento psicoterápico, a paciente disse:

“Aqui na terapia, ele [pesquisador] foi me explicando como deveria ser o meu

procedimento e que não era loucura. A dor de cabeça passou. Foi muito bom. Foi uma

prova para mim que ele estava no caminho certo. Hoje acontece [dissociação], mas não

como antigamente. Foram oito anos de muita ajuda. Eu devo muito a ele. Atualmente há

um certo controle, uma diminuição. As emersões vêm de forma mais calma. Alguma

coisa aciona ou dispara [trigger] essas emersões. Não sei” .

Neste ponto da entrevista, cujo assunto versava sobre acionamentos ou triggers,

processos dissociativos sucessivos com Caroline começaram a ocorrer espontaneamente,

conforme mencionamos. A seguir, enfatizando a dissociação da paciente, bem como contextos

específicos de realidades concretas e psíquicas diferenciadas, apresentaremos, seqüencialmente,

algumas falas das personalidades que emergiram.

Supervisor foi a primeira personalidade que emergiu dialogando com o pesquisador (juiz)

por quase dez minutos. Após apresentar-se, manifestou o desejo de trazer uma das alters (Dalva).

Foram palavras dele:

“Sou ajudante do doutor [pesquisador]. Sempre dou opinião a respeito dos problemas

com Caroline. Trocamos idéias. Vocês estão no caminho certo. Trata-se de uma coisa
142

muito nova, principalmente neste país. É necessário que isso seja mais discutido por

pessoas como o senhor [pesquisador (juiz)]. Ficamos sempre controlando esses

fenômenos, dizendo para ele [pesquisador] algumas coisas, como deve agir para auxiliar

Caroline. Podemos contornar situações. Vai chegar o tempo em que esse distúrbio será

bastante destrinchado. Muitas vezes ele passa despercebido, e logo que aparece uma ou

duas vezes, levam a pessoa para um hospital psiquiátrico, chamam de crise. (...) Eu

gostaria que você [pesquisador (juiz)] conhecesse uma alter. Não se preocupe. Estamos

no controle. É bem interessante você conhecer. Você já tem muitas qualidades, já está

sabendo, conhece o histórico, conhece as técnicas, é um cientista. O difícil foi ele

[pesquisador] perceber isso tudo”.

Em continuidade, caracterizando o encadeamento dissociativo que mencionamos,

Supervisor imergiu e, num mecanismo de acionamento indireto, fez emergir Dalva, com quem o

pesquisador (juiz) dialogou por mais de quinze minutos. Dalva fez apontamentos sobre o seu

contexto de vida, sua história com Rony, seus contextos familiares e dificuldades de adaptação

com a nossa realidade concreta. Além disso, fez menção a uma mensagem escrita na sua

linguagem peculiar. A seguir, registramos um trecho da fala dela:

“Sou Dalva. Não sei quem é Caroline com quem o senhor disse estar falando. Mas eu

sabia que viria conversar. Falaram-me que eu poderia ter confiança. Vivemos num meio

bastante conturbado. O meu nome foi estudado nas estrelas. Eu e Rony, meu primo-

irmão, viemos no mesmo dia. A mãe do Rony não resistiu e a minha mãe o criou como

filho também. Crescemos juntos, tendo dois pais e uma mãe. Primo-irmão porque somos
143

unidos demais. Moramos na Escócia. Rony faz viagens. Mas, nunca viaja só. Sempre em

caravana para o Oriente. Vai buscar novos conhecimentos, trazer papéis importantes

para estudos. Temos compromissos. Temos que esperar os vinte e dois anos. Estou com

dezenove. Quando ele está distante nos correspondemos. Eu mando um mensageiro que

traz respostas. São viagens longas, difíceis. Às vezes também vou. Meu avô acha que

aprendemos muito com isso. A família toda é unida. Temos hospitais. Os nossos doentes

alcançam a cura. Sempre deixo alguma mensagem para ele [pesquisador] mandar pelo

mensageiro para o Rony. Tenho confiança nele. Fiz uma mensagem para Rony. (...) Essa

película [papel] que existe é tão... A gente escreve com penas. Às vezes, quando

queremos escrever letras mais grossas é um tipo de pena, com letras mais finas outro

tipo de pena. Aqui não acho isso. Procuro e não acho. É muito estranho. Fico olhando

aquilo [caneta]. Escrever com pena é tão elegante”.

A mensagem de Dalva, Figura 31, confiada ao pesquisador (juiz) com o pedido de

repasse à Rony, e sua correspondente decifração feita por nós, estão registradas a seguir.
144

Figura 31. Mensagem de Dalva, em sua linguagem secreta, entregue


durante a entrevista clínica.

1- Bilhete de amor

2- Senhor eterno do meu amor


3- Não te preocupes por nós em vão
4- Amanhã virá alegre e breve
5- Felizes esqueceremos a dor
6- Saudades doídas não serão eternas
7- Na aurora da nossa vida futura
8- Iluminadas por lindas lembranças
9- Felicidades completas por esperanças
10- Diante de fatos construídos
11- Alma gêmea da minha alma
12- Louvaremos nossos pais instruídos
13- Viveremos eternamente unidos
14- Assim como o brilho da nossa estrela
15- Dalva

Após a imersão de Dalva, que se deu espontaneamente, Ester emergiu alegre e sedutora

rogando ajuda, falando de sua realidade psíquica diferenciada, mencionando Mariana e o próprio
145

pesquisador. Ficou mais de dez minutos em diálogo exclusivo com o pesquisador (juiz). Foram

palavras dela:

“Quem sabe você me ajuda. Eu quero ficar aqui. Não quero ir para lá onde estou. Sou

tão infeliz lá e tão feliz aqui. Quando consigo chegar aqui fico feliz. Vivo trancada num

quarto, quase não entra luz. Então, quando a luz bate não consigo enxergar direito.

Estou com vontade de ficar. Quem sabe você pode me ajudar? Prometo ficar boazinha.

Já falei para ele [pesquisador] que vou ficar aqui. Não agüento ficar lá. É tão triste.

Estou lá obrigada. Fiquei assim quando meus pais morreram. Eles [parentes-familiares]

me levaram para vê-los. Quando os vi deitados [mortos] lá sem se mexer fiquei

desesperada. Fui lá... ‘Pai... Mãe... Falem comigo’. Não agüentei vê-los daquele jeito,

imóveis. Tive uma crise. Eles me amarraram. Apossaram da minha casa, dos meus bens e

me trancaram. Quando consigo sair de lá, nesse mundo aqui, fico tão feliz. Não quero

voltar. Preciso ficar. Não agüento ir para lá. Eles querem me matar. Minha única

salvação é Mariana, meu anjo que fica comigo. É tão difícil chegar. É como se eu tivesse

que passar por uma peneira fina. Aqui é que é bom. Vou achar um jeito de fugir.

Antigamente eu o enganava. Mas, ele [pesquisador] ficou esperto. Agora, muito

dificilmente eu o engano”.

Neste momento da entrevista clínica, a pedido do pesquisador (juiz), entramos na sala.

Ester continuou na emersão por mais treze minutos aproximadamente... Disse-nos, então:
146

“Você não tem coração mesmo, doutor [pesquisador]. Sabe como vivo lá. Acha fácil eu

vir e acha fácil eu voltar? Qual você acha mais fácil? Vir ou voltar? Chego tão mal dos

remédios que sou obrigada a tomar. Hoje estou com muita dor aqui [no tórax, apontou a

região cardíaca]. Estou passando muito frio lá. Fico com medo de comer aquela comida

horrorosa. Quero ficar. Vou ficar. Tenho meu noivo. Mas, nem ele pode me ajudar. Por

que será? Qualquer hora você [pesquisador] não vai conseguir. Já sei chegar sem você

ver. Agora, vou aprender a ficar sem você perceber. Vou embora porque a Mariana está

me chamando”.

Neste ponto, Caroline retornou fechando o elo dissociativo. Falamos com Caroline para

não se preocupar porque, para a realidade concreta e psíquica dela, a sua última recordação era

de estar dialogando diretamente com o pesquisador (juiz), antes mesmo dos desconhecidos

processos dissociativos ocorridos com Supervisor, Dalva e Ester. E, de repente, estava

“acordando”, num novo contexto. Inclusive, estando agora, conversando com três pessoas, não

mais com duas somente. Interessante enfatizarmos que ela retornou ao mesmo ponto do diálogo

que estava tendo com o pesquisador (juiz), referente a “acionamentos ou triggers”, fato que

comprova a sua inconsciência perante os contextos dissociativos com as demais personalidades.

3.6.2- Entrevista SCID-D

A segunda entrevista, que também investigou aspectos dissociativos da paciente, durou

aproximadamente sessenta minutos. Foi agrupada, no seu conteúdo, buscando identificar sinais e

sintomas seguindo as categorias especificadas na SCID-D (veja Anexo 4).

a) Amnésia
147

Sobre a existência de grandes gaps mnêmicos Caroline nos verbalizou: “(...) Isso é

comum. Quando percebi, estava lá na mesa; não é sonho, tenho certeza; também não me vi

sair”. Com esta fala ela explica o ocorrido na madrugada do dia da primeira entrevista,

referindo-se a mensagem escrita na linguagem secreta.

Sobre se há horas ou dias que parecem perdidos ou que ela parece não perceber,

respondeu-nos:

“Às vezes sinto que tem uma coisa me puxando. Perco a consciência. Quando retorno,

estou noutra situação. Não vejo o dia correr. Não sei se saí ou não. Não sei se cumpri o

estabelecido. Atualmente tem sido menor. Aquilo me surpreendia. Sentia pânico, medo de

ficar louca, de perder a memória. ‘Que horas são agora?, o que fiz?, não lembro. Será

que fiz?’, só pensava isso. Desde pequena isso acontece. Às vezes eu programava alguma

coisa para sábado e domingo e, quando via, era segunda-feira. Eu não sabia se tinha

dormido ou não. Na época de criança acho que nem via o tempo passar. Só lembrava

quando era castigada por alguma coisa”.

Sobre se há períodos em sua vida em que sente dificuldade de se lembrar de suas

atividades diárias, ou se alguma vez se encontrou em um determinado lugar e não conseguiu se

lembrar como foi até lá ou como esteve lá, respondeu-nos:

“Chega no fim do dia, você vai fazer o seu balanço e vê que nem sabe se fez ou não fez.

Isso me faz ver que fiquei algum tempo fora do ar. Às vezes telefonava para o doutor

[pesquisador] para me desculpar por não ter ido à terapia, e ter vindo. Às vezes ligava
148

querendo saber como tinha chegado em casa. Quando via já estava em casa. Tinha

lapsos de tempo não registrados. Também a ponto deu chegar aqui sem saber como.

Acordar aqui [na clínica]”.

Sobre se já se viu, inesperadamente, longe de sua casa e não conseguiu se lembrar o que

ocorreu antes disso, disse-nos:

“Eu pegava o carro, quando via estava a cento e vinte. Não sabia para onde estava indo.

Quando via estava noutro lugar. ‘O que estou fazendo aqui?’, era terrível. Geralmente

quando dirijo vejo a imagem de uma floresta [fato associado com Ester]. Aquilo me dá

pânico. Não vejo mais nada [dissociação]. Vou parar em locais distantes, não sei como.

Outras vezes, quando dou conta de mim, estou naquele tráfego. ‘Onde estou?’, tenho que

parar, dar um jeito de estacionar, reconhecer o lugar. Não sei como cheguei, se cheguei

agora, se foi ontem. Fico confusa, com medo de acontecer novamente. Uma vez bati o

carro na rua do consultório. Teve engarrafamento. Telefonei para ele [pesquisador] que

foi lá. Depois, ele me contou que foi uma alter que pensava estar guiando uma carroça”.

Sobre se alguma vez se achou longe de casa não podendo se lembrar quem era,

respondeu-nos: “Isso acontecia muito”. A respeito de alguma vez não ter conseguido se lembrar

do seu nome, idade, endereço, ou qualquer outra informação pessoal relevante, disse-nos:

“Muitas vezes. Uma vez fui ao médico. Tinha vinte anos de idade. A moça me perguntou

o nome. Fiquei calada. Realmente não me lembrava. Não lembrava nada. Sentei-me e
149

fiquei sem saber até onde estava. Depois, não sei quanto tempo se passou, consegui dar

meus dados”.

b) Despersonalização

Sobre se ela já se sentiu como se estivesse assistindo a um filme sobre si mesma, de fora

de seu próprio corpo, como se estivesse se vendo de longe, respondeu-nos: “Sim. Às vezes vejo

outras cenas. É como se estivesse assistindo a um filme, mas, comigo. Não gosto”.

Sobre se ela alguma vez teve o sentimento de estar desconectada de si mesma, respondeu-

nos: “Muitas vezes. De repente pareço que perco a identidade. Pareço que fico sem a mente.

Isso faz com que eu fique calada, com medo, dores de cabeça, vontade de chorar”.

Sobre se alguma vez se sentiu como se parte do corpo, ou o corpo inteiro, fosse estranho,

ela disse-nos: “Já. Às vezes eu ia me aprontar e pensava: ‘estou gorda’. Estranhava meu

corpo”.

Sobre se alguma vez sentiu que parte do corpo dela estava desconectada do restante do

corpo, verbalizou-nos: “Não digo partes do corpo, mas a mente. O corpo parece não obedecer à

mente, que está desconectada”.

Sobre se alguma vez se sentiu como se partes (ou a totalidade) do corpo dela

desaparecessem ou fossem irreais, Caroline disse-nos: “Já. Às vezes parece que só tenho a

mente”.

Sobre se já se sentiu como se fosse duas pessoas diferentes, disse-nos ficar, algumas

vezes, extrovertida e brincalhona. Depois, quieta. “Às vezes dá a impressão que não estou

usando a minha vontade”.

c) Desrealização
150

Sobre se já se sentiu como se ambientes familiares ou pessoas que conhecesse

parecessem pouco conhecidas ou irreais, ou não poder reconhecer amigos íntimos, parentes, ou

sua própria casa, Caroline nos respondeu: “Muitas vezes. Na minha casa, às vezes, acho todo

mundo estranho”.

A respeito de alguma vez se sentir como se seu ambiente ou outras pessoas estivessem

diminuindo (ou desaparecendo), verbalizou-nos: “Às vezes sinto que parece que o barulho do

ambiente acaba. Parece que a primeira coisa é o som. Depois as pessoas”.

Sobre se alguma vez se sentiu como se amigos íntimos, parentes ou a sua própria casa

parecessem estranhos, disse-nos: “Às vezes chego em casa, olho para as pessoas e desconheço

todo mundo. Acho que estou no lugar errado, com as pessoas erradas”.

d) Confusão de identidade

Sobre se alguma vez se sentiu como se houvesse uma luta acontecendo dentro dela,

respondeu-nos:

“Às vezes sinto um pouco disso tudo. Muitas vezes eu também me olhava no espelho e

perguntava: ‘Quem é essa?, eu sei que não sou eu, mas quem é ela?’, ‘cadê eu?’, na

procura desconheço a mim mesma. Procurava, então, fazer qualquer outra coisa para

me distrair e não me segurar naquilo”.

e) Alteração de identidade

Sobre se alguma vez se sentiu como se ainda fosse, ou se achou agindo como se ainda

fosse, uma criança, ela verbalizou-nos: “


151

Atualmente a minha netinha fica dizendo assim: ‘Ester, Ester, vamos brincar?’ Fico

olhando para ela, que continua: ‘Você falou que era só eu chamar você de Ester que

você viria brincar comigo. Agora vamos brincar’. Não sei como se deu essa coisa na

cabecinha dela. Não sei se alguém chegou e falou que brincaria com ela. Mas, ela

acredita piamente nisso. Que basta me chamar duas ou três vezes de Ester que eu

brincarei com ela. Às vezes quando vejo estou deitada no chão, na grama, descalça,

suada, de bermuda, brincando. Ela quer que eu faça estrelinha, brinque de pique

esconde, essas coisas. Fico cansadíssima”.

Sobre se alguma vez agiu como se fosse uma pessoa completamente diferente, Caroline

respondeu-nos:

“Às vezes, acho que não estou realizando o que planejei. Por exemplo, ‘hoje vou a tal

lugar’. Mas, tudo me faz não ir. Às vezes vou me aprontar. Esqueço que fui me aprontar.

Às vezes não acho a chave”.

Sobre se alguma vez se referiu a si mesma (ou outras pessoas disseram que ela se referiu

a si mesma) fazendo uso de nomes diferentes, ou se outras pessoas se referem a ela fazendo

menção a nomes diferentes, disse-nos:

“Já. Muitas. Falo que deve ser uma pessoa muito parecida comigo. As pessoas acham

que estou brincando. E quando acham que estou brincando também levo na brincadeira

porque não dá para explicar isso. Às vezes recebo telefonemas perguntando por outros
152

nomes. Não sei como as pessoas descobrem minhas informações. Não sei explicar e

tenho medo das conseqüências. Cheguei a receber ligações de homens perguntando por

nomes estranhos”.

Sobre pertences que pareciam ser dela, mas que, em verdade, não se lembra como os

adquiriu, Caroline nos afirmou ter ocorrido várias vezes em sua vida. Exemplificou dizendo que

certa vez apareceu uma pulseira de ouro em sua casa, quando era pequena. Relembra ter havido

grande

“... celeuma. Forçavam-me a dizer onde foi que arranjei. Quando vi já estava lá na

minha mesinha. Às vezes [já adulta] eu ia ao shopping. Quando chegava notava um

batom, pinturas que não sabia a origem. Coisas que não eram do meu gosto. Não uso

cheque, nem cartão. Só dinheiro. É uma medida de segurança para mim mesma. Eu não

tinha idéia das personalidades. Perguntava-me: ‘Como fiz isso?, como cheguei a fazer

isso?’, são coisas diferentes da minha natureza. Minha madrinha era muito severa. Eu

apanhava muito por coisas que não lembrava ter feito. Era muito castigada. Mais ou

menos com cinco anos, por não mais agüentar a situação, tentei uma forma de suicídio

mastigando comprimidos de Melhoral após conseguir me desvencilhar de um castigo.

Estava amarrada numa cadeira por atos que não pratiquei”.

3.6.3- Entrevista Devolutiva

Esta entrevista teve como objetivo dar um fechamento para o processo de pesquisa com a

paciente. A seguir, relataremos alguns dos conteúdos mais importantes desse encontro.
153

Caroline mostrou-se admirada quando explicamos todo o ocorrido durante a primeira

aplicação do Pfister, principalmente sobre o processo dissociativo com Dalva em que ela esteve

ausente por quase sessenta minutos. Admirou-se com as elaborações piramidais da alter,

achando-as, inclusive, muito superiores as dela. Caroline não consegue compreender que as

alters são partes dela, compondo o arcabouço ou amálgama da sua própria individualidade. Em

sua percepção, trata-se de pessoas distintas, completamente excluídas da vida dela, que não

fazem parte da sua realidade.

Quando comentávamos sobre os processos dissociativos ocorridos durante e após as

histórias do TAT, com Ester e Mariana, Ester emergiu espontaneamente. Lembrou-se da

narrativa imaginada para a prancha 16. Aliás, devemos ressaltar que a nossa própria explicação

do acontecido durante a segunda série agiu como acionamento natural, ou trigger não

intencional, resultando no despertar (emersão) de Ester.

Ester quis escrever uma mensagem para seu noivo. Contou-nos que conheceu o seu

amado em uma de suas andanças. Andanças, ou saídas, equivalem a processos dissociativos em

que ela toma o comando do corpo para viver, assim sempre se justifica. Quando da entrevista

com o pesquisador (juiz), ela também emergiu e fez menção ao noivo. Em sua emersão conosco,

nesta sessão devolutiva, pediu-nos papel e “alguma coisa para escrever”. À medida que

indagávamos a respeito do noivo com a finalidade de colher mais informações, ela ia escrevendo

no papel solicitado. Em um determinado ponto, dobrou o papel e ficou segurando-o sem nada

mais escrever. Não pediu que entregássemos o escrito ao noivo como Dalva sempre faz em

relação às suas produções para Rony. Ester começou a externar, verbalmente, sua vontade de

ficar para sempre. Desabafou angústias relacionadas com o ambiente em que vive, falou

novamente dos efeitos colaterais dos remédios obrigados a ingerir, do maltrato constante de
154

todos de “lá” para com ela, da ambição das pessoas, do desejo de posse perante os bens que lhe

pertencem legalmente e, das intenções e premeditações deles objetivando uma aparente morte

natural dela. Quando, finalmente, fez menção à Mariana, aproveitamos o gancho. Somente,

então, com o auxílio deste ISH específico, cujo diálogo não foi feito diretamente conosco, mas

através das verbalizações indiretas via Ester, como se três pessoas estivessem conversando,

estando uma delas sendo vista e ouvida somente pela outra, não pela tríade, que Ester imergiu e

Caroline retornou.

Logicamente, Caroline estranhou o papel dobrado em sua mão. Entregou-nos. Não

consegue compreender tais acontecimentos integralmente. Trata-se de um processo ainda

enigmático, um tempo aparentemente inexistente à sua consciência. Ela apenas aceita o fato já

devidamente comprovado diante das evidências incontestáveis. E, tais circunstâncias, não mais

são de caráter tão perturbador ao seu contexto íntimo. Pelo contrário, representam elucidações

plausíveis que desvendaram, e ainda desvendam, situações e eventos presentes na vida dela. Ao

desdobrar o papel, deparamo-nos com o seguinte poema:

Meu noivo amado e querido


Quantas saudades de teus beijos
Meu coração dolorido
É todo teu dentro do peito.
Guardo na retina de meus olhos
Teus olhos meus, lindos e meigos.
Passe o tempo que passar
Serei sempre a tua amada
Que em teus braços acorda
E depois não quer mais voltar.
Voltarei sempre que puder
Para ser um dia feliz
E ficar ao teu lado para viver
Toda felicidade desse mundo
Deste mundo em que estás
Mas que um dia eu vou ficar.
Sua Ester.
155

Explicamos o ocorrido, sempre com certa precaução e sutileza, e lemos a mensagem

deixada por Ester ao seu noivo fazia poucos instantes. Caroline demonstra certa preocupação a

respeito deste noivo que ela não sabe quem é. Tem medo das conseqüências que podem trazer à

sua vida, esse comprometimento de noivado com quem ela não sabe de onde ou quem seja.

Enfatizamos mais uma vez que tais ocorrências dissociativas, diminuídas cada vez mais na vida

dela, caracterizam a personalidade múltipla, tendendo a levar o paciente para um estado de

perturbação mental crescente, caso não seja compreendido paulatinamente. Mas, que em relação

a ela, continuamente aclarada, com plenas evidências, inclusive com explicações detalhadas

sobre os processos experimentados durante vários anos, esse não era o caso. Caroline também se

mostrou surpresa quando lhe relatamos sobre o encadeamento dissociativo ocorrido durante a

primeira entrevista. Preocupou-se com a sua imagem perante o pesquisador (juiz), não desejando

receber julgamentos ou atestados de loucura da parte dele.

Por fim, devemos dizer que sempre temos o cuidado para que seja Caroline quem sempre

deixe o consultório. Realçamos que embora ainda ocorram processos dissociativos, os mesmos

diminuíram significativamente em dois quesitos principais: quantidade de dissociações diárias e

tempo de duração em que Caroline esteve dissociada sob o comando ou controle de outra(s)

personalidade(s). São esses os dois fatores mais importantes que atestam resultados satisfatórios

do tratamento ora em curso – e também dos nossos procedimentos –, cujos impactos traumáticos

estão cada vez mais reduzidos. Reduzidos e transformados em boa dose de alegria, esperança e

planos futuros, visto que Caroline deixou para o final uma agradável surpresa. Disse-nos:

“Passei no vestibular...”

Uma vez concluído este capítulo, contendo os resultados de nossa pesquisa, passaremos

agora às discussões dos dados obtidos.


156

CAPÍTULO IV – DISCUSSÃO: SINTOMAS, DISSOCIAÇÃO E

TRAUMATISMO

Neste capítulo discutiremos os dados obtidos com foco nos objetivos propostos no

trabalho. Primeiramente examinaremos os sinais e sintomas da personalidade múltipla com base

nas entrevistas, articulando dados registrados no primeiro capítulo. Em seguida, analisaremos as

produções da paciente, a co-consciência e o inter-relacionamento psíquico entre as

personalidades. Em continuidade, apresentaremos discussões vinculadas aos testes psicológicos

realçando a relação entre trauma e dissociação, e, por fim, faremos algumas considerações sobre

o transtorno.

4.1- Sinais e Sintomas da Síndrome Dissociativa em Caroline

Equiparando-se as duas escalas aplicadas, SCID-D (Steinberg, 1994) e DES (Putnam &

Carlson, 1986), constata-se que a paciente possui tendência acentuada para processos

dissociativos agudos, o que representa um elevado indício para a personalidade múltipla (vide

Tabela 4). A esse fator, associa-se o aparecimento concomitante de alters que representa o

processo dissociativo vivenciado por Caroline.

Os cinco aspectos avaliados pela SCID-D, também descritos em Steinberg e Schnall

(2000), universalmente experimentados por pessoas que tiveram suas vidas sujeitas a traumas,

mesmo em níveis variados, foram identificados em Caroline.

Em termos de amnésia – inabilidade para explicar, pela memória, espaços de tempo

específicos e significativos que passaram (Steinberg & Schnall, 2000) –, primeiro tipo de

sintoma avaliado, Caroline respondeu afirmativamente sobre a existência de horas e dias

perdidos sem o seu registro consciencial. Disse ela: “Às vezes... não vejo o dia correr... Às vezes
157

eu programava alguma coisa para sábado ou domingo e, quando via, era segunda-feira”.

Declarou ainda perceber, sem compreender, a existência de grandes gaps mnêmicos. Intervalos

estes que somente não são registrados conscientemente por ela – “tinha lapsos de tempo não

registrados” –, visto que, conforme Freud (1910 [1909]/1996) declarou: “O rigoroso

determinismo da vida mental (...) não conhece exceção” (p.62), e Brenner (1973) complementou:

“[Então], não existe descontinuidade na vida mental” (p.18), equivalendo dizer que nada é

perdido, tudo é registrado, levando-se em conta as realidades inconscientes que todos temos.

Realçando um pouco mais o fator amnésico significativo de Caroline, com grande

intervalo de tempo onde sua consciência apresenta-se inconsciente, em concomitância com a

emersão de uma personalidade alternativa (Ester), citamos o relato de sua própria experiência ao

brincar com a neta, quando em dissociação. Caroline: “‘Ester, Ester, vamos brincar?’... Não sei

como se deu... Às vezes quando vejo estou deitada no chão, na grama, descalça, suada, de

bermuda, brincando”.

Vários outros exemplos de amnésia identificados nas respostas de Caroline para a escala

SCID-D podem ser apresentados: A mensagem que Dalva escreveu para Rony na madrugada do

dia da primeira entrevista; as idas e vindas dela ao consultório sem saber como lá chegou, ou

como de lá saiu; o fato de se ver, inesperadamente, longe de casa e não conseguir se lembrar o

que aconteceu antes disso; a sua incapacidade para lembrar o próprio nome. Foram falas de

Caroline durante a entrevista SCID-D: “Eu pegava o carro, quando via estava a cento e vinte.

Não sabia para onde estava indo... Quando via estava noutro lugar... Não sei como cheguei [na

clínica], se cheguei agora, se foi ontem... Uma vez fui ao médico... A moça me perguntou o

nome. Fiquei calada. Realmente não me lembrava. Não lembrava nada”.


158

Um dos maiores receios de pacientes múltiplos é a loucura, o medo de enlouquecer, de

estar ficando louco ou dos outros acharem que eles estão, ou são, loucos (Ross, 1989). Com

Caroline, existe ainda um agravante, o medo de perder a memória. Por várias vezes ela repete

esta temática. O fator amnésico é um dos responsáveis por esta sua aflição quando disse: “Perco

a consciência. Quando retorno, estou em outra situação... pânico, medo de ficar louca, de

perder a memória”. Isto vai ao encontro do que mencionamos com Loewenstein (1991), veja

Tabela 2, que em seu agrupamento sintomatológico para a personalidade múltipla definiu os

sintomas amnésicos do tipo: blackouts ou time loss, olvidar comportamentos, lembranças

fragmentárias no histórico de vida, dentre outros, como relacionados à inabilidade para recordar

informações pessoais relevantes, na ausência de qualquer fator orgânico que justifique a presença

de tal comprometimento.

Da mesma forma, os casos clássicos mencionados na primeira parte deste trabalho

evidenciaram significativamente o quesito amnésia demonstrando que este elemento, na ausência

de comprometimento orgânico, é, realmente, sintoma fundamental no transtorno da

personalidade múltipla, conforme descrito nos dois últimos critérios diagnósticos do DSM-IV-

TR (vide Tabela 1). Alguns exemplos: “Paracelso apresentou o primeiro caso de MPD

envolvendo uma mulher que se encontrava amnésica perante uma personalidade alternativa que

roubou o dinheiro dela” (Putnam, 1989, p.28); o caso da jovem mulher alemã, descrito por

Gemelin no final do século XVIII, em 1791, e registrado por Ellenberger (1970): quando em sua

personalidade francesa, a mulher tinha completa memória de tudo aquilo que tinha dito e feito

durante o estado francês anterior. Quando em sua personalidade alemã, ela nada conhecia da sua

personalidade francesa; o histórico caso de Mary Reynolds, de 1815, também registrado por

Ellenberger (1970): Mary foi encontrada em sono profundo, que durou muitas horas e do qual
159

despertou tendo perdido toda a memória e até mesmo o uso da fala; Jung (1993) também

enfatizou questões amnésicas em Mary Reynolds ao registrar: “Após um sono profundo que

durou cerca de 20 horas, havia esquecido completamente todo o seu passado e tudo o que

aprendera” (p. 71); Hélène Smith, nas palavras de Flournoy (1899/1994): “(...) afora as lacunas

que as emersões espontâneas de automatismo fazem na vida dela, ninguém suspeitaria (...) de

tudo que ela é capaz de realizar em seus estados anormais” (p.31); Christine L. Beauchamp, nos

dizeres de Prince (1905/1957): Na memória de cada uma delas havia ausências correspondentes

aos períodos em que as outras personalidades estavam em ação. Repentinamente, uma ou outra

acorda, deparando-se, sem saber onde está, ignorando o que tenha dito ou feito em momentos

anteriores; Félida, caso documentado por Eugène Azam em 1887, mencionado por Hacking

(1995): “Evitava as pessoas porque não tinha idéia do que acontecera durante meses e meses”

(p.184).

Um segundo sintoma dissociativo avaliado pela escala SCID-D, também encontrado no

contexto de Caroline – e na personalidade múltipla – é a despersonalização, isto é, a

experimentação de fatos estranhos, que parecem reais, muito difíceis de serem compreendidos

pela maioria comum, tais como: observar-se estando afastado de si próprio ou ter a sensação de

ser um observador de si mesmo, sentir-se irreal, estranho e desconectado das próprias emoções,

apresentar inabilidade para se reconhecer num espelho, ter percepções distorcidas do próprio

corpo (Steinberg & Schnall, 2000). Sobre experimentações desse tipo Caroline disse: “Às vezes

vejo outras cenas. É como se estivesse assistindo a um filme, mas, comigo”. Afirmou também

que muitas vezes tem o sentimento de se sentir desconectada de si mesma: “De repente pareço

que fico sem a mente. Isso faz com que eu fique calada, com medo, dores de cabeça, vontade de
160

chorar”. E ainda que, algumas vezes, sentia o seu corpo estranho: “Às vezes eu ia me aprontar e

pensava: ‘estou gorda’. Estranhava meu corpo”.

A desrealização representa o terceiro sintoma avaliado pela escala SCID-D. Quer dizer,

algumas pessoas têm a sensação de que o ambiente, ou o mundo ao redor delas é irreal.

Apresentam alterações na percepção visual, sentem que a casa não é familiar e que os parentes

são estranhos (Steinberg & Schnall, 2000). Em relação a este quesito, Caroline afirmou: “Muitas

vezes, na minha casa, acho todo mundo estranho... Às vezes chego em casa, olho para as

pessoas e desconheço todo mundo. Acho que estou no lugar errado, com as pessoas erradas”.

Em relação ao quarto sintoma avaliado na escala SCID-D, confusão de identidade, ou

seja, um sentimento de incerteza, de embaraço, de conflito sobre quem a pessoa é (Steinberg &

Schnall, 2000), Caroline chegou a dizer: “‘Quem é essa?, eu sei que não sou eu, mas quem é

ela?’, ‘cadê eu?’, na procura desconheço a mim mesma”.

Hélène Smith também apresentou confusão de identidade conforme registrou Ellenberger

(1970): “(...) Hélène, mais de uma vez, contou ter tido a impressão de se tornar ou se sentir

momentaneamente Leopold... Ela tem, inicialmente, uma visão fugidia do protetor. Então, parece

que pouco a pouco ele é submerso nela; ela o sente dominando e penetrando o seu organismo

inteiro, como se ele realmente se tornasse ela ou ela ele” (p.132).

No tocante ao quinto e último sintoma passível de avaliação na escala SCID-D, alteração

de identidade, como todos os anteriores, muito identificado em pacientes portadores do

transtorno dissociativo de identidade (DSM-IV-TR, 2003), encontramos falas significativas em

Caroline que confirmaram a nossa assertiva. Esse sintoma se traduz, basicamente, pela pessoa se

encontrar agindo como se fosse uma criança. Ou ainda, ouvir dos outros que foi vista agindo
161

como uma pessoa diferente, ser chamada pelos outros com nomes diferentes do seu, e ter

encontrado pertences desconhecidos em seu ambiente particular (Steinberg & Schnall, 2000).

A respeito de se encontrar agindo como criança, já mencionamos que Caroline narrou sua

experiência com a própria neta de oito anos: “Às vezes... estou deitada no chão, na grama,

descalça, suada, de bermuda, brincando. Ela quer que eu faça estrelinha, brinque de pique

esconde, essas coisas. Fico cansadíssima”. Em relação a outras pessoas dizerem que ela

(Caroline) se referiu a si mesma fazendo uso de nomes diferentes, ou se outras pessoas se

referem a ela fazendo menção a nomes diferentes, afirmou ter ocorrido “muitas vezes... Falo que

deve ser uma pessoa muito parecida comigo... Às vezes recebo telefonemas perguntando por

outros nomes. Não sei como as pessoas descobrem minhas informações... Cheguei a receber

ligações de homens perguntando por nomes estranhos”. Sobre pertences que pareciam ser dela,

mas que, em verdade, não se lembra como os adquiriu, Caroline afirmou ter ocorrido várias

vezes em sua vida. Exemplificou dizendo que certa vez apareceu uma pulseira de ouro em sua

casa quando ela era pequena. Segundo relembrou, disse: “Houve grande celeuma. Forçaram-me

a dizer onde foi que arranjei. Quando vi já estava lá na minha mesinha. Às vezes eu ia ao

shopping. Quando chegava notava um batom, pinturas que não sabia a origem. Coisas que não

eram do meu gosto”. Entendemos que estas experiências penosas compõem ou encapsulam o

processo dissociativo de Caroline.

A jovem mulher alemã do caso publicado por Eberhardt Gemelin em 1791, conforme

descrito por Ellenberger (1970), é também exemplo do sintoma denominado alteração de

identidade, avaliado pelo instrumento SCID-D, quando escrevemos: Ela repentinamente mudou a

própria personalidade para os modos e maneiras de uma senhora francesa, imitando e falando o

francês perfeitamente e o alemão como se fosse uma francesa.


162

Estelle L’Hardy, tratada em 1836 por Antoine Despine, também apresentou sintomas

desta natureza. Conforme já mencionado, Ellenberger (1970) registrou: Em janeiro de 1837,

Estelle começou a conduzir uma vida dupla. Em seu estado normal estava paralisada. No estado

segundo era capaz de caminhar.

Como já tivemos a oportunidade de relatar, Caroline apresenta um fragmento, Helen, que

possui uma característica singular parecida com a paciente de Despine. Ela, quando em suas

raras emersões, manifesta tetraplegia, com ausência integral dos movimentos e fortes dores em

algumas regiões corporais, principalmente na coluna. Além dos sofrimentos sentidos e

externados, demonstra ausência total de sensibilidade sensorial, exceção para os órgãos da face.

O caso de Félida, documentado por Azam (1887), também enfatizado por Ellenberger

(1970), além de registrar alteração de identidade entre as condições ou estados de consciência

apresentados, mostra diferenças significativas no grau de inteligência entre as personalidades.

Conforme mencionado na primeira parte deste trabalho, Félida, repentinamente, sentia uma dor

aguda nas têmporas entrando num estado letárgico por alguns minutos. Quando despertava era

uma pessoa completamente diferente. Em sua condição normal ela era de inteligência comum.

Na condição secundária, tornava-se brilhante. Caroline apresenta tais similaridades em relação

aos fatores cognitivos analisados. Ao mesmo tempo em que há contextos de analfabetismo, como

é o caso da alter Jennifer, existem diferenças significativas em relação ao nível intelectual de

algumas personalidades, como é o caso de Dalva, X e ISH’s, com graus intelectuais mais

elevados.

O Médico e o Monstro, conto escrito pelo escocês Robert Louis Stevenson em 1886, é

outro exemplo de alteração de identidade: “A qualquer hora do dia ou da noite, eu era tomado
163

pelos prenúncios da transformação. Quando eu dormia, ou mesmo se apenas cochilasse um

momento em minha cadeira, era como Hyde que eu despertava” (Stevenson, 1886/1989, p.98).

Devemos realçar que as categorias de sintomas discutidas na SCID-D estão fortemente

inter-relacionadas (Steinberg & Schnall, 2000). Algumas vezes elas se misturam entre si e se

entrelaçam significativamente. Importante, entretanto, constatar que não é possível apontar um

diagnóstico de personalidade múltipla sem a existência conjunta delas.

Além das correlações descritas anteriormente, relacionadas com os casos clássicos

mencionados na primeira parte deste trabalho, é importante sobressair que o agrupamento

sintomatológico da personalidade múltipla, conforme especificado em Loewenstein (1991), vide

Tabela 2, bem como os critérios diagnósticos atuais contidos no (DSM-IV-TR, 2003),

apresentam-se plenos em Caroline.

Desta forma, conforme já exemplificado ao longo desta pesquisa, a paciente apresenta

Sintomas Processo em seu contexto, tais como: atributos e presenças de alters, inserções do

pensamento, ouvir vozes e switching; adicionalmente, Caroline apresenta Sintomas Amnésicos,

tais como: blackouts, time loss, olvidar comportamentos, mudanças inexplicáveis nos

relacionamentos, flutuações em hábitos e conhecimentos, lembranças fragmentárias no histórico

de vida, experiências crônicas de equívocos de identidade e micro dissociações. Em relação aos

Sintomas Auto-Hipnóticos, ela apresenta: transe espontâneo, regressão espontânea de idade,

perda ou diminuição da sensibilidade, experiências extracorpóreas e alterações oculares. No

tocante aos Sintomas PTSS, Caroline apresenta: trauma psicológico, flashbacks, acionamentos

(triggers) e detachment. A paciente também apresenta Sintomas Somatoformes, tais como:

memória somática e dor somatoforme. Por último, devemos dizer que ela apresenta os chamados
164

Sintomas da Afetividade, como: humor deprimido, alterações no humor, pensamentos suicidas,

culpa, desamparo e desesperança.

Enfatizamos que as duas entrevistas realizadas (clínica e SCID-D) também permitiram

que vertentes complementares do caso fossem documentadas. Desta forma, Caroline revelou

aspectos penosos que fizeram parte do seu contexto de vida e que reforçam as suas experiências

traumáticas, bem como os sintomas mencionados em Loewenstein (1991). Exemplificamos

fazendo uso das próprias palavras da paciente: “Eu tinha muito medo de viver só. Sentia-me

muito só. A minha alimentação era o suficiente para não morrer... Eu não ganhava presente de

natal... Minhas roupas eram todas de segunda”. Além disso, maus-tratos e violências como, o

tapa recebido na boca, dado pela mãe receptora na presença da suposta mãe biológica que a fez

engolir o próprio dente, que nem mole estava: “Foi um choque. Na hora a criança não percebe.

Somente posteriormente vai codificar”. A modificação do próprio nome aumentando a sua idade

para poder se casar: “Usei o casamento para sair daquela casa... Tiveram que fazer uma outra

certidão. Modificaram o meu nome para eu poder casar, como se eu fosse a irmã de mim

mesma... Aumentaram dez anos na minha idade. Não gostei do nome”.

Outro fator relevante ocorrido durante a entrevista SCID-D foi o chamado encadeamento

dissociativo, onde o pesquisador (juiz) teve a oportunidade de dialogar com três personalidades,

sendo uma delas o ISH global do psiquismo de Caroline. Tal fato não é raro no contexto da

personalidade múltipla. Conforme demonstramos, ocorrências similares estão descritas em

Prince (1905/1957) quando registramos o caso da senhorita Beauchamp.

Retornando ao encadeamento dissociativo de Caroline, Supervisor nitidamente

demonstrou conhecer as alters, controlar o funcionamento psíquico das personalidades e ajudar

no tratamento de nossa paciente. Além disso, ele demonstrou ter idéia formada sobre o
165

pesquisador (juiz). Foram palavras dele: “Sou ajudante do doutor. Sempre dou opinião a

respeito dos problemas com Caroline. Trocamos idéias... Ficamos sempre controlando esses

fenômenos, dizendo para ele algumas coisas, como deve agir para auxiliar Caroline. Podemos

contornar situações... Eu gostaria que você conhecesse uma alter. Não se preocupe. Estamos no

controle... Você já tem muitas qualidades, já está sabendo, conhece o histórico, conhece as

técnicas, é um cientista”.

Dalva, que foi trazida por Supervisor num mecanismo de acionamento indireto, isto é, a

sua emersão foi provocada internamente pelo ISH global, contou sobre a origem do seu nome,

teceu comentários sobre a sua família, hábitos e costumes. Falou ainda do compromisso

recíproco com Rony e confiou o repasse de uma mensagem secreta para ele. Foram palavras

dela: “O meu nome foi estudado nas estrelas... Moramos na Escócia. Rony faz viagens... para o

Oriente... Temos compromissos... Quando ele está distante nos correspondemos. Eu mando um

mensageiro que traz respostas... Temos hospitais. Os nossos doentes alcançam a cura... Fiz uma

mensagem para Rony”. Ela também comprovou a inexistência de co-consciência bilateral com

Caroline ao dizer: “Sou Dalva. Não sei quem é Caroline com quem o senhor disse estar

falando”.

Por último, antes do término do ciclo do processo de dissociação da dissociação ou do

encadeamento (ou elo) dissociativo (Prince, 1905/1957), que se deu com o retorno de Caroline

ao comando do corpo, Ester manifestou desejos de assumir a sua vida em nossa realidade

concreta e psíquica. Falou de Mariana, tentou persuadir o pesquisador (juiz) para conseguir o seu

intento, e expôs as dificuldades vivenciadas na realidade psíquica e concreta dela. Verbalizou:

“Vivo trancada num quarto... Estou com vontade de ficar. Quem sabe você pode me ajudar?

Prometo ficar boazinha... Quando consigo sair de lá, nesse mundo aqui, fico tão feliz. Não quero
166

voltar... Não agüento ir para lá. Eles querem me matar. Minha única salvação é Mariana, meu

anjo que fica comigo... Vou achar um jeito de fugir... Estou passando muito frio lá... Tenho meu

noivo. Mas, nem ele pode me ajudar... Vou embora porque a Mariana está me chamando”.

Destacamos o controle exercido pelos ISH’s sobre as alters, principalmente nesta última frase de

Ester.

Finalizada esta discussão com base na articulação dos dados contidos na primeira parte

desta pesquisa, com os agrupamentos sintomatológicos da personalidade múltipla (Loewenstein,

1991) e com os critérios diagnósticos para o transtorno (DSM-IV-TR, 2003); e ainda, com base

nas entrevistas (clínica e SCID-D) e nos exemplos de encadeamentos sucessivos de

personalidades demonstrando processos dissociativos agudos de Caroline, passaremos agora a

discussão das fontes de evidência, da co-consciência e do inter-relacionamento psíquico de nossa

paciente.

4.2- Dissociação, Co-Consciência e Inter-Relacionamento Psíquico

Este ponto objetiva discutir as produções obtidas pelas múltiplas personalidades de

Caroline, bem como identificar e inter-relacionar algumas delas visando explicitar o processo

dissociativo. As informações contidas nas produções de Caroline, ou melhor, as produções

provenientes das personalidades que compõem o psiquismo dela, são abundantes. Logicamente,

com vários anos de tratamento clínico, é natural que uma grande gama de fontes de evidência

tenham sido produzidas e documentadas. Entretanto, as nossas análises vinculam-se estritamente

a uma parcela das produções trazidas ao longo dos anos.

Das poesias trazidas por Dalva, podemos reconhecer, em alguns versos, elementos da

realidade dissociativa de Caroline. Ou seja, conforme mostrado a seguir, os diversos poemas de


167

Dalva (veja Produções de Dalva, Anexo 2) admitem o pinçamento de alguns dos seus versos, e a

conseqüente derivação em novos poemas, cujo agrupamento em oitavas refletem aspectos da

realidade dissociativa da personalidade host.

Da minha memória travada,


Não existe tempo, existe esquecer.
Versos de Dalva que,
Não podendo permanecer dividida,
agrupados, refletem
Depois da fragmentação dolorida, Questão Dissociativa
elementos da realidade
Responderei, com tranqüilidade.
dissociativa de Caroline.
Pela necessidade de dissolver,
Enquanto houver memória, ela será eterna,
Unindo o passado e o presente.

Por outro lado, ainda sobre a questão dissociativa, as mensagens escritas na linguagem

secreta de Dalva, demonstradas no capítulo anterior, fazem sobressair o lado enigmático da

personalidade múltipla tal como demonstramos em caso específico da literatura (Flournoy,

1899/1994). Em relação à Caroline, vale lembrar que se trata de um mecanismo cognitivo e

complexo, elaborado com grau elevado de inteligência a partir das linhas e vértices do formato

de uma estrela, totalmente inconsciente à personalidade host, que desconhece e ainda hoje não

compreende o processo de elaboração. Todas essas mensagens em linguagem secreta, exclusivas

de Dalva – também com alusão à familiares, principalmente aos pais –, são direcionadas

amorosamente para Ronaldo que parece respondê-las de alguma forma, visto que o carinho

saudoso de quem se sente amada está sempre presente. Exemplificamos com alguns versos

contidos nas Figuras 4, 5, 8 e 31: “A pedido dos nossos pais...”, “No aconchego do nosso ninho

encontro o cheiro que te pertence...”, “Quando não estou com nossos pais estudando...”, “Alma

gêmea da minha alma... Viveremos eternamente unidos”, “Snaf Snif”. O porta-retrato, Figura 7,

trabalho manual feito por Dalva durante uma sessão clínica, reflete esse amor conjugal contendo

as identificações “Rony-Dalva” em seu conteúdo. Se por um lado as produções de Dalva


168

refletem os processos dissociativos de Caroline, por outro, também ligam-se à conteúdos da sua

história de vida. Podemos evidenciar isso registrando as próprias palavras verbalizadas por

Caroline, relacionadas com pensamentos e devaneios infantis iniciados desde a mais tenra

infância:

“Praticamente, durante esta fase, tive a certeza de que um ser especial e exclusivo, o

meu grande amor, viria me proteger e me salvar. Essa certeza passou a ser o meu

estímulo de vida. A história fortaleceu ou fez iniciar sonhos que passaram a representar

realidades dentro de mim”.

Assim, hipoteticamente, pensamos que esse grande amor que Caroline começou a

idealizar por volta dos cinco anos encontra-se também identificado nas produções de Dalva.

Ainda sobre esse aspecto, as produções de Jennifer, que enfatiza a sua tez negra e cujo nome

próprio, originário do galês, significa “de face branca” (Leite, 1992), também ligam-se ao

contexto imaginário de Caroline. Ela, Jennifer, realiza-se afetivamente quando de suas emersões

em realidades oníricas, conforme mostrado nos poemas “não intitulado”, “Sonhos

Interrompidos” e “Não Desista” (veja Produções de Jennifer, Anexo 2). Nos dois primeiros

poemas ela disse que “enquanto houver saudades, meu amor viverei neste ar em que respiras”.

“É difícil viver de sonhos, sonhos que nos fazem felizes... Dentro desse mundo imaginário...

Valerá viver ou morrer e sonhar?”. No poema “Sonhos Interrompidos” ela também

correlacionou sonhos com o ambiente marítimo que afirma viver ao registrar: “Navio meu

amigo, singra essas águas... [no] mar salgado, agitado, purificado, claro... dentro dos meus

sonhos interrompidos”. Já no poema “Não Desista”, ela praticamente pede para o sonho

continuar, estimulando-se frente a sua situação de vida solitária. Exemplificamos: “Não deixes
169

morrer o sonho... Sonho, sonho meu... [que] enfeitarei com todas as cores... Como nas noites de

plena solidão”. Observamos, então, formas diferentes de lidar com a experiência amorosa. Dalva

vive um amor pleno. Jennifer busca nos sonhos a plenitude do amor. Caroline, em sua realidade

concreta e psíquica, vive um casamento destituído de afeto, não tendo o amor idealizado.

Conforme apresentado nos elementos anamnésicos, a senhora de cor (sic), aquela que

cientificou Caroline a respeito da sua ascendência, provavelmente de forma não intencional, fez

desencadear, desde então, a necessidade de fugir de uma dolorosa realidade concreta através de

uma vida onírica. Possivelmente, a dissociação foi a maneira inconsciente que Caroline

encontrou para suprir a solidão e o desamparo traumáticos, e, conseqüentemente, fazer com que

ela conseguisse continuar vivendo por meio dos processos dissociativos intermitentes na figura

das alters.

Mayara Sandes, a única personalidade que mantém co-consciência bilateral com Caroline

ou seja, a única personalidade que apresenta certo nível de interação consciente com Caroline,

apresenta diferentes formalidades afetivas em suas produções (veja Produções de Mayara

Sandes, Anexo 2). Em uma delas, ela apresenta caráter temperamental e ameaçador – “Amiga

infiel... Não diga nada porque tenho ouvidos atentos” – enquanto noutra é sentimental e infantil

– “Amanhã vamos fazer um piquenique na Colina Azul... Vamos levar... um lindo pato

defumado... Iremos caçar borboletas mortas... Ver ninhos de passarinhos... Colher flores no

campo... Temos muito como nos divertirmos”. Existe ainda uma vertente acentuada em relação

ao cuidar de crianças – “Deixei as meninas na cama e vim lhe dar boa noite”. Aliás, a vida de

Mayara se resume em educar três meninas. Segundo o que observamos em seu relato na clínica,

ela se casou sem amor com um homem dez anos mais velho, sem manter relações íntimas, com a
170

finalidade de proteger e amparar as crianças, que na verdade são filhas de sua irmã com o

homem que sente amar. Trata-se de um ideal romântico.

Podemos verificar algumas correlações entre os relatos de Caroline e a história de

Mayara. Por exemplo, Caroline teve sua idade aumentada dez anos para poder se casar e se casou

com um homem que diz não amar. Outro aspecto é que houve um acordo para este casamento.

Não haveria relações sexuais. Tal acordo não foi cumprido pelo companheiro, Sr. A. Constata-se

em Caroline o desejo de ser cuidada como filha e amada como mulher, sem traumas.

Jane, em seu texto (veja Produção de Jane, Anexo 2), realça o valor da família, o amor ao

cultivo da terra, a boa educação desejada aos filhos e a fidelidade na relação afetiva. Disse ela:

“A única coisa que quero de ti é tua fidelidade... Quero uma educação primorosa, mas quero

que eles [filhos] não deixem de amar a terra e cuidar dela”. Valores morais de Jane também

estão contidos na individualidade de Caroline, fato que comprova a existência de conexões entre

as personalidades. De certa forma, o valor moral que comparece na fidelidade de Caroline foi

retratado quando ela fez menção ao seu atual casamento, que deveria ser uma “irmandade leal”

ou um “união de amizade”, ao dizer: “Estando casada, para sobreviver, e continuando pura,

estaria mantendo a promessa de continuar fiel ao ser que representava a razão do meu viver,

que representava a presença do ser ausente”.

Ester é a alter que mais reflete a realidade traumática de Caroline. As suas falas, as suas

produções, os seus contextos e a sua história de vida são revelados de maneira sofrida. Conforme

os seus relatos, as suas noites são tristes como o próprio título da sua poesia indica (veja

Produção de Ester, Anexo 2). Mas, não somente as noites. Os dias, as semanas, os meses, os

anos... Na sua fala, ela espelha as angústias de Caroline quando diz viver com vontade de ficar

em outro ambiente, pedindo ajuda, prometendo “ficar boazinha”, sentindo-se ameaçada – “eles
171

querem me matar” –, passando frio, querendo um aconchego amoroso – seu noivo – e, por fim,

sendo ajudada por alguém especial (Mariana, um ISH específico) que, conforme conceituou,

representa o “anjo que fica comigo [com ela]” (veja Entrevista Clínica).

Situações similares, relacionadas com a presença de ISH’s, aconteceram com Estelle

L’Hardy (Despine apud Ellenberger, 1970), auxiliada por Angeline, o anjo consolador que

apareceu no sono dela; com Hélène Smith, mais especificamente na figura de Léopold

(Flournoy, 1899/1994); e com Robert Louis Stevenson em sua intensa vida onírica, quando

sugestionado pelas “pessoas pequenas” que o auxiliaram na produção do clássico O Médico e o

Monstro (Stevenson, 1886/1989). De certa forma, Ester, apesar da vida sofrida, de fato tem uma

figura protetora, feminina, na “pessoa” de Mariana. Já Caroline não tem a presença dessa figura.

Ela não sente a mãe e a madrinha como protetoras.

Enfatizamos que algumas das elaborações de Caroline quando em dissociação,

corroboram o conceito de Allison (1980) sobre o ISH, ou seja, a fonte de orientação particular do

terapeuta, o professor que contribui no tratamento da personalidade múltipla. Como exemplo,

citamos um fragmento da fala de Mariana: “Meu jovem Doutor: Ester está com as emoções em

tratamento... Tudo está correndo normalmente... Não se preocupe... Estamos na supervisão...

Estamos contentes com o seu progresso... Continue estudando” (veja Produção de Mariana,

Anexo 2). Citamos ainda um trecho da fala de Supervisor: “Meu prezado Doutor... Tente

compreender a desfragmentação da alma para obter a sua cura... Estamos entendendo as suas

aplicações de instrumentos técnicos e modernos em sua paciente... As pirâmides [Pfister]

mostraram concordância com a situação real do distúrbio... Continue firme nos seus propósitos,

estudando e investindo nas conquistas científicas. Conte conosco” (veja O Teste de Pfister,

Terceiro Capítulo). Assim sendo, parece-nos que os ISH’s também auxiliam a busca do
172

equilíbrio e da cura pelo conhecimento. Conforme indicações de Allison (1980), eles

tranqüilizam a paciente e o próprio terapeuta. Isso foi observado no caso Caroline. Lembramos

ainda que após a emersão deles Caroline demonstra uma sensação de plenitude, de bem-estar e

de paz que toma conta integral do seu ser.

Por fim, Alter X é de difícil interpretação. Lembramos que ela é uma figura enigmática.

De forma similar ao caso da jovem mulher alemã (Gemelin apud Ellenberger, 1970) e de Anna O

(Breuer & Freud, 1893-1895/1996), Alter X consegue falar em outro idioma (inglês). Em suas

emersões apresenta conteúdos afetivos e familiares. Por exemplo: “Dear Love... star that

sparkles in the same pulsation of my heart… Give my regards to your parents… Eternally in love

with you” 11. De outras vezes, escreve de forma filosófica enfatizando o tema da loucura, um dos

maiores receios de Caroline. Exemplificando: “A loucura é um surto que se dá no bom senso...”

(veja Produções de Alter X, Anexo 2).

Com base nos anos de tratamento e nas informações complementares obtidas nesta

pesquisa, identificamos um inter-relacionamento entre as múltiplas personalidades que atuam no

psiquismo de Caroline. A seguir, como mostrado na Figura 32, apresentamos um esquema

demonstrativo deste inter-relacionamento entre as personalidades do caso, bem como a interação

delas com o pesquisador.

11
Querido Amor... Estrela que brilha na mesma pulsação do meu coração... Dê meus cumprimentos a seus pais.
Eternamente apaixonada por você.
173

Figura 32. Inter-relacionamento do funcionamento psíquico de Caroline.

As setas vermelhas da Figura 32 indicam a centralização das informações junto ao

pesquisador. Elas realçam que todas as personalidades, exceção de Mayara Sandes, são

conhecidas de Caroline por via indireta. Ou seja, Caroline somente sabe da existência das

personalidades por nosso intermédio, pois, quando em dissociação, a compreensão dos diversos

contextos se apresentam incompreensíveis à sua realidade psíquica e concreta.

A representação gráfica também demonstra que Supervisor conhece, sem exceções, todas

as personalidades, sejam alters, fragmentos, nós mesmos, a paciente em si e ISH’s secundários

dedicados exclusivamente a uma personalidade, como é o caso de Mariana, que atua diretamente

com Ester. Há uma correspondência biunívoca específica em termos de relacionamento do

Supervisor com as personalidades Dalva e Mariana.

De todas as personalidades, somente Mayara Sandes apresenta co-consciência bilateral

com Caroline de forma intermitente. Este processo está mais bem documentado no bilhete desta
174

alter (veja Produções de Mayara Sandes, Anexo 2). Trata-se de um bilhete litigioso, com

ameaças, que Mayara escreveu diretamente para Caroline. Esta, na época, tinha consciência que

estava registrando e escrevendo um pensamento que não era seu, como se uma força interna à

sua personalidade – proveniente da sua individualidade – e externa a sua vontade comandasse o

seu corpo. Quando ocorre este tipo de co-consciência, uma confusão mental se apresenta na

individualidade de Caroline, com fortes dificuldades íntimas. Uma voz interna, segundo

explicações de Caroline, mistura-se com o seu próprio pensamento. Esta situação somente se

ameniza quando acontece uma concordância bilateral, ou seja, quando a vontade de uma é aceita

pela da outra sem contestações ou discordâncias. Entretanto, quando a vontade de uma

personalidade é imposta em relação ao desejo da outra, há caracterização de um processo de

subjugação instalado, gerador de reflexos somáticos e psicológicos negativos, que repercutem

diretamente na personalidade host, tais como: dores de cabeça, tonturas, alterações no humor,

sentimentos de hostilidade, de desamparo e de desesperança.

Situações semelhantes, porém de extrapolação, que ocorre entre duas ou mais

personalidades, podem gerar desequilíbrios intensos e são responsáveis por distúrbios de alta

gravidade, como a possibilidade de crimes de natureza hedionda. Trata-se do lado mais

patológico da personalidade múltipla como apresentado por Keyes (1981), referindo-se a casos

de Serial Killer.

O esquema mostrado na Figura 32 também revela que conseguimos manter diálogos

diretos com quaisquer personalidades tanto de forma espontânea quanto induzida ou provocada.

Contudo, com a progressão bem sucedida do tratamento, tornou-se patente que os mecanismos

dissociativos tendem a diminuir em proporção direta com a eliminação de ocorrências

traumáticas solucionadas por meio dos processos de ab-reação. Enfatizamos que das dez
175

personalidades até hoje identificadas, somente a metade continua emergindo espontaneamente.

São elas: Mayara Sandes, Dalva, Ester, Mariana e Supervisor. As demais parecem ter

adormecido, sendo despertadas somente pelas vias da indução, ou seja, por acionamentos

(triggers) provocados diretamente por nós. Tais observações corroboram as diretrizes clínicas

atuais que apontam como sucesso maior do tratamento a fusão ou integração das personalidades

(Hacking, 1995; Haddock, 2001; Putnam, 1989; Ross, 1989). À medida que este objetivo vai

sendo atingido, os mecanismos dissociativos vão diminuindo, comprovando que a fragmentação

da pessoa cindida está sendo revertida ou que a pessoa está no caminho da integralidade mental.

Esta é a perspectiva dos clínicos que trabalham com esse transtorno na atualidade (Haddock,

2001; Kluft & Fine, 1993; Putnam, 1989; Rhoades & Sar, 2005; Ross, 1989).

Terminado este tópico onde analisamos algumas produções ou fontes de evidência

resultantes de processos dissociativos com Caroline, bem como registramos interpretações

vinculadas a co-consciência entre as personalidades e ao funcionamento psíquico da paciente,

passaremos agora a discussão da relação entre trauma e dissociação tomando como foco da

discussão os testes psicológicos aplicados.

4.3- Trauma e Dissociação nos Testes Projetivos

Esta discussão visa identificar a relação entre trauma e dissociação na personalidade

múltipla enfocando as interpretações relacionadas com o teste de Pfister e com o TAT,

enfatizando aspectos psicodinâmicos da paciente.

Verdadeiramente, como verificado na literatura científica, não há personalidade múltipla

sem a presença de fatores traumáticos e dissociativos. Ou seja, para que o transtorno seja

desenvolvido num indivíduo, é essencial que esta pessoa tenha sido acometida por traumas reais
176

e severos, reincidentes e intermitentes, que tiveram papel fundamental no desencadeamento da

dissociação consciencial e, conseqüentemente, na fragmentação do psiquismo. Tais traumas, que

podem ser de natureza diversificada nos variados quadros clínicos, não necessariamente irá gerar

uma mesma síndrome. Existem fatores outros, como a capacidade de absorção ou de elaboração

de conteúdos traumáticos, que diferem de pessoa para pessoa, explicando satisfatoriamente as

razões de uma mesma causa não gerar quadros clínicos idênticos (Kluft & Fine, 1993; Putnam,

1989; Ross, 1989; Steinberg, 1994).

Segundo alguns autores da área (Allison, 1980; Kluft & Fine, 1993; Putnam, 1989;

Rhoades & Sar, 2005; Ross, 1989; Steinberg, 1994), eventos traumáticos podem ocorrer em

qualquer fase da vida, desde o nascimento ou desde a mais tenra infância. Entretanto, o

desenvolvimento da personalidade múltipla está diretamente vinculado a traumas ocorridos antes

dos sete anos de idade. A gravidade, duração e proximidade da exposição de um indivíduo ao

evento traumático são fatores determinantes na probabilidade do transtorno. Tais indivíduos

apresentam pontuações significativas em medições da suscetibilidade à hipnose e à capacidade

dissociativa. Além disso, experimentam lacunas de memória (gaps) para a história pessoal tanto

remota quanto recente. O número de personalidades é variável e metade dos casos relatados

inclui indivíduos com dez personalidades ou menos.

Conforme já destacado, a seqüência obrigatória para o desenvolvimento da personalidade

múltipla é:

Trauma Dissociação Alters Personalidade Integração


Real Múltipla

Este esquema estabelece que fatores traumáticos reais geram processos dissociativos.

Estes, por sua vez, fazem emergir alters, característica maior da personalidade múltipla. Esta
177

seqüência ou encadeamento resulta na busca, pela terapia, de um processo reverso, ou seja, num

tratamento curativo para o transtorno, alcançado com a integração da fragmentação do eu, pela

fusão das personalidades dissociadas (Hacking, 1995; Haddock, 2001; Kluft & Fine, 1993;

Putnam, 1989; Rich, 2005; Ross, 1989).

Na primeira aplicação do Pfister, logo na pirâmide inicial, como mostrado na Figura 33,

Caroline enfatizou a sua questão traumática (circundada) numa estrutura em mosaico. Ela

manifestou contextos inconscientes, projetando-se na escuridão, na dor e no sofrimento. A

estrutura elaborada, bem como as cores selecionadas retrataram integralmente o que

hipotetizamos ser os choques violentos vivenciados durante um longo curso de sua vida.

Figura 33. Primeira pirâmide elaborada por Caroline.

Em seguida, na segunda pirâmide – um tapete furado com forte tendêcia à estrutura em

manto –, como mostrado na Figura 34, hipotetizamos que Caroline enfatizou a questão

dissociativa, circundada por nós. Da mesma forma, interpretamos que a base da pirâmide

representada, numa linguagem simbólica, pelo cerne do seu psiquismo, rompeu-se. Nitidamente,

o alicerce de sua estrutura consciencial está desfocado do conjunto. A pirâmide está decepada ou

mutilada indicando, conforme Villemor-Amaral (2005), implicações de fragilidade estrutural e

prováveis alterações de pensamento.


178

Figura 34. Segunda pirâmide elaborada por


Caroline.

Conforme mencionado no capítulo de resultados, neste momento da execução do teste, ou

seja, após a construção da segunda pirâmide, ocorreu um processo dissociativo espontâneo.

Caroline imergiu e Dalva – uma alter – emergiu.

Como mostrado na Figura 35, hipotetizamos as divisões inconscientes elaboradas por

Dalva. A primeira pirâmide (alto, esquerda), em seu aspecto formal, é uma estrutura simétrica; a

segunda (alto, direita) é uma estrutura em escada; e a terceira (baixo, centro) é uma estrutura em

mosaico. Importante enfatizarmos que todas as elaborações de Dalva, no nosso entender,

retrataram divisão ou fragmentação. O resultado obtido por esta personalidade demonstra a

pertinência da seqüência do nosso esquema relativo ao trauma, realçando a questão fragmentária

da personalidade.
179

Figura 35. Pirâmides elaboradas por Dalva.

Adicionalmente, vale destacar o que associamos ser a presença do ISH na primeira

pirâmide de Dalva. Esta personalidade, um professor que auxilia o profissional no tratamento da

personalidade original e que suaviza lítigios entre personalidades (Allison, 1980), está

representada no eixo central, vertical, pela cor cinza. A disposição mostrada representa uma

ênfase aos valores de posição. Salientamos que, conforme registrado por Villemor Amaral

(1978), para

os autores do teste, três posições devem ser consideradas pontos-chaves na execução da

pirâmide: o primeiro seria o vértice ou ápice da pirâmide, que se situa no espaço n.o 1 do

esquema; o segundo, centro ou coração, que ocupa a posição central da pirâmide,

situado no espaço 3b do esquema; e o terceiro, eixo ou base, situado mais precisamente


180

no espaço 5c do esquema. (...) Deixamos, pois, que futuras pesquisas possam lançar mais

luz sobre o estudo dos chamados Valores de Posição (pp. 135-136).

Como não existem outros estudos para comparações, à partir desta pesquisa, sugerimos

cautelosamente que os valores de posição, ápice, centro e base, pelo menos nos casos de

personalidade múltipla, estejam associados à presença do ISH.

Voltando à situação do teste, interrompido naturalmente o processo dissociativo e

espontâneo com Dalva, fato que fez com que Caroline retornasse do seu processo de imersão

sem ter consciência do ocorrido, ela (Caroline) elaborou a terceira pirâmide, como mostrado na

Figura 36. Avaliamos que sua construção assesta para a necessidade (vontade ou desejo) de

integração, objetivo maior do tratamento da personalidade múltipla. Constatamos nesta pirâmide

– formação em camadas, ou estratificada – a busca de uma fusão, que está representada pela

integração monocromática (cor azul), em dégradé. Emoldurado, a questão da integralidade.

Figura 36. Terceira pirâmide elaborada por Caroline.

Por fim, aproveitando a elaboração da quarta pirâmide de Caroline – estrutura em

mosaico –, como mostrado na Figura 37, acentuamos o que hipotetizamos ser a busca do
181

equilíbrio, o desejo das reversões traumáticas e dissociativas. Enfim, a ênfase para a

continuidade do processo de restabelecimento psíquico já vislumbrado na terceira pirâmide.

Figura 37. Quarta pirâmide elaborada por


Caroline.

Conforme Villemor Amaral (1978),

(...) poderíamos dizer que a presença do verde, em geral, nas pirâmides tem uma

conotação muito positiva desde que situado dentro dos padrões de normalidade, ou seja

entre 18% e 20%, aproximadamente, incidindo tais valores percentuais com uma

utilização mais expressiva das tonalidades Vd2 e Vd3, e esta última sobretudo, a qual

passamos a caracterizar como tonalidade padrão (p. 70).

Realçamos que oito quadrículos preenchidos com a cor Vd3 (tonalidade-padrão),

conforme identificado na quarta pirâmide de Caroline, equivale à 18%. E, tal resultado

representa valores normais, dentro da média, consoante registrado em Villemor-Amaral (2005).

Também não devemos deixar de referenciar o que Villemor Amaral (1978) chama de

“análise das pirâmides, em função dos diferentes planos da personalidade”. Segundo este autor,
182

(...) supõe-se que o indivíduo, ao executar o teste, exponha na primeira pirâmide um

aspecto mais externo de sua personalidade – o Ego – tal como se apresenta ou se mostra

em relação ao mundo exterior. A segunda estaria ligada a uma camada intermediária e

portanto corresponderia a uma parte mais ou menos acessível ao indivíduo e cujo

controle, por parte dele, seria parcial. Finalmente, a terceira, que corresponderia à parte

mais profunda da personalidade. Em outros termos: à primeira corresponderiam

características da personalidade que poderiam estar de alguma forma sob controle do

indivíduo, porque conscientes; a segunda, ligada ao pré-consciente, corresponderia aos

aspectos da personalidade cujo controle não estaria bastante ao alcance do indivíduo, mas

que, de um momento para outro, poderia tornar-se consciente; finalmente, a terceira

estaria fora do controle e do alcance do indivíduo e corresponderia ao inconsciente

(Villemor Amaral, 1978, pp. 131-132).

Hipotetizamos que as pirâmides elaboradas por Caroline corroboraram a descrição acima.

Na primeira, ela retratou aspectos traumáticos de sua vida, sendo alguns, atualmente, conscientes

e controlados. Trata-se do aspecto mais externo de sua personalidade representado pela presença

marcante de suas lembranças torturantes. A segunda pirâmide, a faixa pré-consciente do iceberg

ou da montanha de gelo flutuante (Hall & Lindzey, 1978), representada pela camada

intermediária, a parte mais ou menos acessível de Caroline, equivale às alters que emergem em

processos dissociativos cada vez mais sob controle parcial dela. Na terceira e última pirâmide, a

camada mais profunda da paciente – o seu inconsciente –, busca o bem-estar, a descarga das

tensões e da ansiedade. Ou seja, busca o equilíbrio e a integração.


183

Por fim, é válido atentarmos para o “desligar-se do mundo” e analisarmos mais

detalhadamente o tempo de execução de Caroline para as suas elaborações piramidais.

Lembramos que ela construiu a primeira pirâmide em 10’13”. A segunda em 4’29” e a terceira

em 4’. Para a quarta pirâmide levou apenas 2’. Esteve além para os valores medianos do teste,

mas, dentro dos parâmetros aceitáveis para o tempo total de execução. Ênfase maior deve ser

dada ao tempo da primeira pirâmide, fato que caracterizou significativamente o chamado “tempo

psíquico de reação”.

Conforme Villemor Amaral (1978), em relação ao tempo de execução, os valores médios

variam entre 4 e 8 minutos para cada pirâmide e entre 15 e 20 minutos para o total das três

pirâmides. Por ser nova, a execução da primeira pirâmide, em geral, poderá exigir um pouco

mais de tempo que as duas subseqüentes. O tempo psíquico de reação é fator que deve ser levado

em consideração porque há indivíduos cujas reações normais são mais lentas e hesitantes,

enquanto que outros executam habitualmente suas tarefas com maior precisão e rapidez. Por

outro lado, há pessoas muito inseguras e com forte tendência à hesitação, que exigem longo

tempo para executar suas pirâmides. São meticulosas, prudentes e extremamente cautelosas. São

pessoas, via de regra, aparentemente sossegadas, calmas e que se desligam totalmente do mundo,

quando se aplicam a um trabalho as fascina.

Podemos dizer que, em termos psicodinâmicos, Caroline apresenta dificuldades para o

controle das emoções e dos impulsos, demonstra capacidade adaptativa em evolução, e

capacidade relacional em processo de estabilização aceitável. Os distúrbios dissociativos foram

desencadeados por eventos traumáticos severos, ainda não totalmente elaborados

satisfatoriamente pela paciente. Adicionalmente, os dados trazidos pelos registros do tempo


184

psíquico de reação apontam para uma facilidade de desligamento total do mundo, fenômeno

característico da dissociação, comum no quadro clínico da personalidade múltipla.

Além disso, os dados do re-teste, no nosso entender, corroboraram a primeira aplicação

em termos traumáticos, dissociativos e de integração. A primeira pirâmide ressaltou mais

enfaticamente os fatores traumáticos. A segunda manteve a base dissociativa e a estrutura

tendente a manto fechado. O verde (Vd3) substituiu o amarelo (Am1) como se Caroline

estivesse, inconscientemente, querendo superar dificuldades de canalizar e expressar emoções,

passando a ter relacionamentos afetivos e sociais satisfatórios, além de uma esfera de contatos

sadios (Villemor-Amaral, 2005). Por fim, a terceira pirâmide evidenciou mais fortemente a

questão fundamental do desejo de integração, representado pela formação em camadas

monotonais.

São esses os aspectos que mereceram destaques em nossa discussão com o Pfister, ou

seja: a) a seqüência do transtorno segundo o esquema relativo ao trauma e à dissociação; b) o

registro dos valores de posição, bem como as divisões elaboradas nas construções piramidais da

paciente; c) a análise das pirâmides em função dos diferentes planos de personalidade; d) a

caracterização do tempo psíquico de reação quando da elaboração da primeira pirâmide da

paciente, sugerindo facilidade para o desligamento total do mundo. Destaques esses que

contribuem para o reconhecimento crescente do Pfister como técnica projetiva válida e

fidedigna, que também pode trazer contribuições para análise de aspectos específicos na

personalidade múltipla.

Em relação ao Teste de Apercepção Temática (TAT), realçamos que esta discussão não

está organizada seqüencialmente em termos do número das pranchas, mas obedecendo a um

encadeamento analítico lógico de cinco agrupamentos. Trechos de algumas histórias narradas


185

pela paciente estão inseridos exemplificando as nossas interpretações. O TAT de Caroline nos

permitiu fazer estudos quantitativos e qualitativos aprofundados e, conseqüentemente, obter uma

maior compreensão da psicodinâmica da personalidade múltipla.

O primeiro agrupamento do nosso encadeamento lógico refere-se especificamente à

demonstração de conectividades implícitas existentes nos casos de personalidade múltipla. Em

relação a Caroline, esta conectividade ocorreu entre duas alters e um dos ISH’s que atuam no

psiquismo dela, ou seja, vinculou-se ao entrelaçamento de quatro personalidades encapsuladas

nas projeções da paciente.

De início, exemplificamos com exemplos projetivos que a personalidade múltipla,

psicodinamicamente, apresenta partes dissociadas que se ligam entre si. Por exemplo, na prancha

12F (Mulher Jovem e Velha), cuja área mobilizada pelos estímulos também focaliza a relação

mãe-filha e a crítica ou aceitação do modelo materno – uma questão traumática em nossa

paciente –, Caroline iniciou sua história com o nome Ana Maria (protagonista). Aliás, foi a única

história, em todo o teste, que algum personagem recebeu nominação. E, de certa forma, numa

inversão característica de Dalva, que escreve da direita para a esquerda em sua linguagem

secreta, alterando-se a ordem do primeiro nome com o segundo, e aglutinando-se a última vogal

do primeiro nome com a primeira vogal do segundo nome, após a troca posicional, obteremos a

personalidade: Maria + Ana = Mariana. Ou seja, uma resultante equivalente ao ISH específico de

outra alter, Ester. Constatamos, então, um entrelaçamento de quatro personalidades em apenas

um quesito projetivo-nominativo (Ana Maria): Caroline (por ser a personalidade host), Dalva

(pela estratégia de inversão) e Mariana (por ser um ISH específico da alter Ester).

Caroline apresenta uma especificidade rara em termos de documentação científica, isto é,

apresenta dois ISH’s embutidos no psiquismo com atuações diferenciadas. Um deles, restrito e
186

específico de uma alter (Ester), representado por Mariana, e outro global, representado por

Supervisor. Este último com conhecimento e domínio integral sobre as demais personalidades. O

ISH encoberto e desvendado na história da prancha 12F, na figura de Mariana, em termos

hodiernos, pode ser reconhecido no caso de Hélène Smith, registrado por Flournoy (1899/1994),

mais especificamente na figura de Léopold. E também no caso de Estelle L’Hardy documentado

em 1836. Neste último, Angeline representou o ISH que direcionou o tratamento clínico,

conduzindo as diretrizes homologadas por Antoine Despine.

A conectividade existente no psiquismo de um paciente múltiplo indica fragmentação da

personalidade proveniente de contextos traumáticos e dissociativos (Kluft & Fine, 1993; Putnam,

1989; Ross, 1989), ligando-se mais diretamente aos “sintomas processo” identificados por

Loewenstein (1991) e aos três primeiros critérios diagnósticos para o transtorno contidos no

DSM-IV-TR (2003) – (veja Tabela 1).

O segundo agrupamento analítico lógico está relacionado com os seguintes aspectos

experienciados por Caroline: rejeição, abandono, desamparo, solidão e sobrevivência com

necessidades de superação, amparo, proteção e ternura. Adicionalmente, enfatiza o recalque da

sexualidade e a agressividade, bem como o forte efeito de experiências traumáticas reincidentes

(abusos) desencadeadoras de processos dissociativos patológicos.

Ainda em relação a história imaginada para a prancha 12F já mencionada, Caroline

verbalizou: “O marido [pai de Ana Maria] abandonou-a [abandonou a mãe de Ana Maria],

deixando-a só, com todas as responsabilidades”. Trata-se de significativa projeção da paciente

que apresenta fator traumático acentuado relacionado à figura paterna e materna, vinculado a

questões de rejeição, abandono, solidão e desamparo. E, o desamparo, como vimos em

Loewenstein (1991), juntamente com o humor deprimido, alterações no humor, desesperança,


187

pensamentos suicidas ou tentativas de automutilação, é sintoma afetivo que pode refletir

processos traumáticos severos. O sonho recidivo de Caroline, como mostrado na Figura 3, é

exemplo desta falta de proteção, de desamparo. Tal situação desencadeou nela uma timidez

excessiva, “a ponto de quase não conseguir erguer os olhos”, conforme verbalizou. Atualmente,

depois que superou o estágio de inferioridade passou a ser reservada e discreta.

Constatamos, então, o impacto traumático no psiquismo de um indivíduo quando

rejeitado, abandonado, desamparado, com necessidades de amparo e proteção (Haddock, 2001;

Kluft & Fine, 1993; Putnam, 1989; Ross, 1989). Interessante realçar que os dois ISH’s, que no

contexto de nossa paciente também representam personalidades de amparo e proteção, sugerem a

necessidade inconsciente de uma composição familiar de plenitude na presença da figura paterna

(Supervisor), materna (Mariana) e filial (Caroline). Tal contexto relaciona-se com a história de

vida narrada por Ester cuja alegria familiar foi interrompida com o falecimento acidental de seus

pais quando contava apenas seis anos (veja Resultados, Capítulo III).

Corroborando os aspectos traumáticos descritos em relação às figuras paterna e materna,

verificamos que as características mais proeminentes de Caroline são: solidão (44),


12
conflituosidade interpessoal (28) e superioridade (27) , conforme mostrado na Figura 20. O

escore significativo para esta última característica se justifica pelas prolongadas frustrações

sofridas por ela durante toda a vida. Com isso, o orgulho de ter vencido e de ter sobrevivido,

tornou-se um traço marcante nela. Não tinha condições de tomar iniciativa, nem autonomia para

responder por seus atos. Era desprezada por seu companheiro. Atualmente, com suas resoluções

e novos horizontes, sendo sobrevivente desde quando nasceu, o sentimento de superioridade que

estava oculto apresenta-se de forma projetiva.

12
Os valores entre parênteses representam os escores obtidos por Caroline no TAT (veja terceiro capítulo).
188

A sobrevivência de Caroline está bem retratada na história da prancha 11 (Paisagem

Primitiva de Pedra), cujo estímulo frente ao desconhecido também revela atitudes do sujeito

diante de conteúdos inconscientes. Neste quadro, ela sofreu impacto significativo em termos

globais de estímulo conjunto às características mensuradas e forte efeito em relação ao impacto

global das necessidades avaliadas nos protagonistas. Também sofreu impacto acentuado em

relação ao efeito conjunto de estados interiores e emoções apreciadas, e o nível mais elevado em

termos do impacto global das forças ambientais definidas para os protagonistas (veja Figuras 21,

23, 25 e 29). Destacamos que na história desta prancha, Caroline fez referência metafórica ao

terapeuta, ao progresso do tratamento psicoterápico e a sua própria situação atual na terapia.

Disse ela: “Um dia chegou um cientista [pesquisador] e fez dele [do doente mental que sobrevive

= projeção dela mesma] seu único paciente [Caroline é a nossa única paciente múltipla].

Melhorou seu estado mental [progresso do tratamento em si]. Esse distúrbio era apenas

controlado [situação atual]”. Salientamos ainda que a paciente escolheu dois títulos para a

história desta prancha. Foram eles: “O doente mental” e “O sobrevivente”. Aglutinando-os,

obtemos “O doente mental sobrevivente”, fato que retrata o estado atual dela em termos de

melhora do quadro clínico, uma paciente com dificuldade psíquica complexa que sobreviveu

diante ocorrências traumáticas reais e severas, tais como: mau-acolhimento, rejeição, abandono,

desamparo e solidão.

Na história da prancha 5 (A Senhora na Porta), Caroline realçou aspectos inconscientes

de sua acentuada carência afetiva e necessidade de ternura. Terminou sua narrativa dizendo:

“Esse é o papel das mães, das avós, dos parentes que se amam terna e eternamente”.

Nitidamente, encontramos a palavra “terna” embutida na palavra “eternamente”, na ênfase

afetiva. Ou seja, Caroline enfatizou a ternura que não teve.


189

Em continuidade à questão traumática, há recalcamento em relação à sexualidade na

história da prancha 6MF (Mulher Surpreendida). Nesta narrativa Caroline comentou: “Essa

figura é movimento. É um flagrante. É diferente das outras”. No conteúdo desenvolvido, a

solidão resultante da fidelidade ao pai e conseqüente desistência do objeto amoroso está

deslocada aos pacientes, com a tentativa de um bom desfecho no final. Há renúncia à

sexualidade por lealdade ao genitor. Exemplificamos com trechos de fala da paciente: “Ela

[médica] foi trabalhar em uma casa de doentes mentais. A solidão que causava depressão foi

diagnosticando nos seus pacientes. Isso fez com que a vida dela se tornasse produtiva a tantas

pessoas mal compreendidas pelo mundo, que sofriam injustamente, abandonas”. [Além disso,]

“Ela pôde fazer o desejo do seu pai, de não se envolver com este rapaz. Ao mesmo tempo,

guardar dentro do seu coração, todo aquele encanto, todo aquele amor que era verdadeiro e que

ia permanecer com ela para sempre”. Tais fatos demonstram que Caroline está muito presa ao

genitor que ela não conheceu.

Outro recalque sexual pode ser identificado na história da prancha 2 (A Estudante no

Campo). São comuns respostas que tendem a associar o homem da gravura como um objeto de

desejo. Na percepção de Caroline o mesmo foi interpretado como sendo um pai de família.

Foram palavras dela: “Nós estamos falando de uma família rural onde a terra era lavrada,

plantada e colhida com as próprias mãos... No dia da despedida... ela ficou triste... a mãe triste,

o pai triste”.

O fator agressividade, demonstrado por Caroline, ocorre de forma indireta. Uma grande

quantidade de personagens são mortos em função de um ideal. Ela tende a compensar esse fator

sempre em desfechos bons. O índice de perdas é elevado e todas as formas de agressão

resultaram em escores pouco significativos (veja Figuras 22 e 28).


190

Um outro ponto que merece destaque é o acréscimo de personagens nas histórias. Por

exemplo, na prancha 1 (O Menino e o Violino) Caroline acrescentou colegas. Na prancha 3MF

(A Jovem na Porta) ela acrescentou filhos. O acréscimo de pessoas é indicador de dificuldade

para estar sozinha e de uma pessoa que necessita de apoio, de não mais ser desamparada. Estas

informações corroboram os altos índices obtidos para afiliação emocional (62) e proteção (45)

em relação às forças ambientais que agem sobre Caroline (veja Figura 28).

Neste momento, convergimos o impacto traumático causado pela rejeição, pelo

abandono, pelo desamparo e por maus-tratos, à relação de Caroline com as figuras parentais.

Experiências traumáticas severas – principalmente quando associadas às figuras parentais – e,

por conseguinte, alterações perceptivas, prejudicam a compreensão entre o mundo interno e a

realidade externa da pessoa afetada. Como conseqüência teremos alterações conscienciais e

processos dissociativos patológicos, com sintomas amnésicos, ideações suicidas, desesperança,

pesadelos, lembranças fragmentárias no histórico de vida e fragmentação da personalidade (Kluft

& Fine, 1993; Loewenstein, 1991; Putnam, 1989; Rhoades & Sar, 2005; Ross, 1989).

E, lembrando Coons (1986) e Hacking (1995), quando enfatizaram que o abuso infantil

explica a multiplicidade, e que a maioria dos múltiplos entrou em dissociação na infância,

convergimos também, ao contexto de Caroline, o impacto relacionado com os abusos

generalizados da realidade dela, que redundaram ou agravaram processos dissociativos, tais

como: os toques provocados por sua madrinha quando se masturbava; os esbarrões do Sr. O

premeditando tocar em seus seios; os beijos na sua boca planejados pelo mesmo Sr. O; os atos

sexuais violentos por parte do companheiro; e as seduções recebidas quando se consultava com

profissionais da medicina.
191

Assim, sentimentos incessantes de rejeição, abandono, desamparo, solidão; necessidades

constantes de amparo, proteção e ternura; e abusos emocionais, físicos ou sexuais intermitentes,

são intrínsecos à personalidade múltipla e foram averiguados no caso Caroline, no contexto

clínico e na aplicação do TAT.

O terceiro agrupamento de nossa análise refere-se às questões cromáticas e acromáticas

verificadas no TAT, com associações ao contexto de vida traumático da paciente. Neste

particular, constatamos dificuldades afetivas também relacionadas com rejeição, desamparo e

abandono.

Na história da prancha 1 (O Menino e o Violino) Caroline acrescentou os pais na história

e fez menção à cor vermelha do violino dado pelo pai. Fez também referência à uma linguagem

diferente, de partituras. Disse ela: “Ele, [o menino protagonista], se interessou pela música.

Encantou-se ao ver um violino que tinha uma cor diferente. Ele era vermelho. O interesse maior

dele ficou sendo partituras. Partituras de violino. E isso o encantava, aquela nova linguagem

que as partituras estavam lhe dando. Por felicidade, esse violino que ele se interessou foi dado

pelo pai... Ele se tornou um grande compositor que fazia concertos em orquestras sinfônicas

famosas”. Acrescentar os pais na história desta prancha é fato comum, todavia mencionar cor é

fato raro, ou seja, com o acréscimo da cor vermelha ela trouxe o afeto ou a agressividade latente

para o contexto (Chabert & Brelet-Foulard, 2005). O vermelho faz apelo aos afetos fortes e por

vezes violento (Chabert, 2004). O que nos faz pensar em um afeto/agressividade direcionado

para os pais, ou para as figuras masculinas.

Caroline teve ainda alguns choques relacionados com a cor preta, ao escuro das gravuras.

Embora inconscientemente, não deixou de criticar o teste em termos da nitidez das cores ao dizer
192

durante a aplicação da 1ª série: “Essas pranchas são muito apagadas. Elas tinham que ser mais

nítidas. Aposto que é a milésima vez que fazem cópia”.

O quadro da prancha 10 (O Abraço), que tende a favorecer a projeção de relações

heterossexuais gratificantes, é exemplo de choque cromático à cor preta. Neste quadro, Caroline

sofreu forte impacto de estímulos globais em relação aos estados interiores e emocionais (veja

Figura 25). Ela, na história, retratou confusão mental, inclusive não sabendo distinguir se o

contexto projetado era de sonho ou de realidade. No inquérito, ao ser questionada sobre a

inspiração para a narrativa, além da própria gravura, respondeu: “Estão envoltos em negro, um

negro que sobressai mais que as figuras”.

Interessante, neste ponto, fazermos associações com um fato traumático já mencionado

anteriormente, vinculado com questões cromáticas e oníricas. Conforme já salientamos, Caroline

foi surpreendida com a informação sobre a sua ascendência por meio de uma senhora de cor que

achava sua criação inadequada. O sentimento dela, traduzido em palavras quando recebeu a

informação, foi externado da seguinte forma em ab-reação clínica: “foi como se me tivessem

quebrado em mil pedaços e depois soprado”. Equivale dizer, foi como se fragmentassem, como

se dissociassem ou como se dividissem o seu eu em várias personalidades (em mil pedaços).

Muito provavelmente, o surgimento de Jennifer, a alter que realça a sua tez negra e cujo nome

próprio, originário do galês, significa “de face branca” (Leite, 1992), venha desta época. Assim,

principalmente para esquecer a lembrança da ascendência revelada abruptamente, é que Jennifer

sempre emerge em estados oníricos. A sua emersão somente em sonho é uma forma de defesa,

de dissociação, para esquecer a realidade traumática exposta pela tal senhora de cor.

Essencial ressaltarmos a história da prancha 20 (Só Sob a Luz) que, simultaneamente,

apresenta choque cromático à cor preta e vinculações com um “navio de gerações” mencionado
193

por Caroline, também passível de conexões com a história de vida relatada por Jennifer – que faz

parte de uma família de cantores negros contratada pelo almirante de um navio. Em sua

narrativa, Caroline introduz um arrozal e um roseiral desejando retirar o sujeito – proprietário e

cultivador de terras produtivas – do escuro, colocando-o num lugar colorido. Questões maternas

e paternas estão simbolicamente representadas pelo mar/navio e pelas terras cultivadas

(produzindo), respectivamente (Furth, 2004).

A prancha 14 (Homem na Janela) apresentou uma história cuja simbologia esclarece

algumas dificuldades de Caroline. Ela falou em “Cidade de Pedras”, local onde residia um rapaz

solitário – “de vinte e poucos anos, que veio de longe e passou por muitas decepções, inclusive

amorosas” –, prestes a cometer suicídio. A paciente falou ainda, enfaticamente: “Só tem essa

janela para a liberdade dele [do rapaz]... A vida dele até hoje é vazia, escura, sem graça, sem

paz e sem felicidade. E agora, sem objetivo porque tentou todas a portas e elas se fecharam...

Mas, um pedacinho do céu, todo azul, o conteve do suicídio”. A cor azul é reveladora de

introversão e deixa entrever, em geral, esfera interior sombria de conflitos não solucionados

(Justo & Kolck, 1976). É exatamente o estado do rapaz-protagonista da narrativa. Por outro lado,

a tentativa do ato extremado (suicídio) foi revertida pelo desfecho favorável de Caroline ao dizer

que o rapaz “saiu daquela janela na certeza de que ia abrir uma porta e que essa porta o

livraria desse vazio, dessa solidão, dessa depressão. Ele continuaria a lutar até que suas forças

acabassem porque na atualidade ele ainda era jovem e não merecia acabar a sua vida desta

forma”. Em associações cromáticas à realidade de Caroline, o rapaz protagonista da narrativa

estava no escuro, a vida dele era vazia e sem graça, sem paz e sem felicidade. Nas palavras de

nossa paciente, era uma vida “escura, vazia, sombria, negra”. Ela retirou-o de lá, da “escuridão

interna”, conforme salientou. Ou seja, ao finalizar dizendo que “aquele pedacinho de céu todo
194

azul o conteve do suicídio”, ela levou luz ao contexto obscuro dela própria. O céu azul associa-se

à sua questão paterna (Furth, 2004) que, projetivamente, foi responsável pela mudança abrupta

da atitude do rapaz. Interpretamos como sendo a possibilidade de um desejo latente de ser

conhecida pelo genitor, de viver com ele, de ser protegida, cuidada, amparada e amada por ele,

num contexto familiar gratificante.

Em suma, nesse terceiro agrupamento constatamos que a carência afetiva, a agressividade

ou o afeto direcionado aos pais, a depressão e o desejo de ser protegida e amparada, representam

impactos traumáticos significativos em Caroline. Tais fatores foram identificados no TAT da

paciente por meio de suas projeções cromáticas associadas à sua história de vida, que estão em

consonância com os sintomas da afetividade descritos por Loewenstein (1991), proeminentes nos

pacientes múltiplos.

O quarto agrupamento organizado por nós, refere-se aos aspectos dissociativos da

paciente obtidos com os resultados do TAT.

A narrativa da prancha 8MF – história imaginada para este quadro – é um bom exemplo

de fragmentação da personalidade. Há diversos protagonistas, o que nos leva a associá-los ao

transtorno dissociativo da multiplicidade. Foram palavras da paciente: “Os filhos foram

crescendo. Cada um mostrando as suas vontades. O primeiro disse que queria ser o carteiro da

cidade. O segundo, o garoto que toca o sino da igreja. O terceiro, o dono da sorveteria. O

quarto, o pintor da cidade. O quinto, o delegado”. Ao ser questionada com qual dos

protagonistas (filhos) mais se identificou, Caroline respondeu: “Com nenhum deles. Identifico-

me com a mãe... que sonha futuros bons para os filhos”. Ou seja, identifica-se positivamente

com ela mesma. Como se dissesse não mais estar se identificando com as outras mães
195

(receptoras). Pensamos tratar-se da elaboração do trauma refletindo-se no seu bem-estar

progressivo da atualidade.

Em continuidade à análise do aspecto dissociativo, a narrativa da prancha 17MF (A

Ponte) é modelar para elucidar este processo. Na história, há a presença de uma parte boa que

não conhece a parte ruim e vice-versa. Ou seja, um indivíduo, de atitude agressiva, que ficava

debaixo de uma grande ponte (no submundo) e uma moça, “a moça da lua” nos dizeres da

paciente, que ficava sobre a mesma ponte. Caroline finalizou o enredo dizendo: “Essa história

termina pelo hábito desta moça sempre vir, como se fosse uma atração, ver essas águas, e para

ela, despercebido esse submundo que existia logo abaixo a seus pés”.

O não reconhecimento entre as duas partes protagonistas mencionadas realça a

inexistência de co-consciência entre elas. O desconhecimento recíproco entre as personalidades,

bem como a incapacidade para lembrar contextos de vida e situações diversas (amnésia) é

característico de pacientes que apresentam o transtorno dissociativo de identidade (Ellenberger,

1970; Flournoy, 1899/1994; Hacking, 1995; Keyes, 1981; Kluft & Fine, 1993; Loewenstein,

1991; Prince, 1905/1957; Putnam, 1989; Ross, 1989; Schreiber, 1973).

Outra história que realça a personalidade múltipla, principalmente em termos

dissociativos, refere-se à narrativa da prancha 9MF (Duas Mulheres na Praia). Nesta narrativa há

verbalizações com identificações relacionadas com o contexto de vida da paciente.

Exemplificamos com alguns trechos retirados da história contada: “O seu coração vivia sempre

angustiado... Às vezes, ela nem sabia como tinha chegado ali... Nem sabia que horas tinha

voltado para casa, o que tinha feito, o que tinha deixado de fazer... Temia ficar louca... Como se

alguém tivesse a ponto de tomar a sua vida, guiar a sua vida, os seus atos... Nessa confusão

mental que não podia dizer aos outros... Tinha certeza que um grande amor viria buscá-la”. O
196

grande amor referenciado ao final é temática constante na vida das alters de Caroline,

principalmente nas produções de Dalva em relação a Rony, de Jennifer em relação a Steve, de

Ester em relação ao seu noivo, de Alter X em relação ao seu amado quando se expressa em

inglês, e de Jane em relação ao “Senhor do seu destino”, termo usado por ela. Enquanto Caroline

tem receios do amor, as alters amam, correspondidas ou não.

A história da prancha 18MF (Mulher que Estrangula) tem no seu conteúdo elementos que

fazem supor, de forma inconsciente, a quantidade de alters que compõe o psiquismo de Caroline.

E, desta forma, faz sobressair ainda mais o contexto dissociativo da paciente. Disse ela: “Em um

grande casarão existiam moradores que às vezes entravam em conflito. Existia uma senhora...

várias irmãs. Várias eu falo seis... Uma delas bastante diferente ficava trancada em seu quarto...

Estranha no ninho. Fazia tratamentos diversos. Os distúrbios nunca serenaram nela”. Caroline

possui exatamente seis alters em seu psiquismo (Dalva, Jennifer, Jane, Mayara Sandes, Ester e

X).

O aspecto da dissociação, com um contexto cromático embutido, também está

evidenciado na história da prancha 16, “Em Branco”, e conectado diretamente com a alter Ester,

que elaborou a narrativa quando Caroline entrou em processo dissociativo espontâneo. Este foi o

único contexto de dissociação ocorrido durante as duas aplicações do TAT. Nesta história há

uma mãe que cuida dos filhos (três crianças) e, novamente, uma referência à cor vermelha do

afeto ou da agressividade latente (Chabert & Brelet-Foulard, 2005). Exemplificando, novamente,

com alguns trechos retirados da história contada: “... seus cabelos lisinhos... compridos, presos

por uma fita vermelha... Esta história termina quando eles ouvem uma voz que eles conhecem

muito bem, que é a da mamãe deles... ‘filhinhos, está na hora do almoço... a mamãe fez tudo que

vocês gostam de comer... venham logo’”. Em verdade, a narrativa se trata de um reviver infantil.
197

A agressividade latente pode ser interpretada como sendo a raiva de Caroline em relação ao

abandono dos seus genitores que a rejeitaram e não assumiram o ato compartilhado, deixando-a

desprotegida e desamparada.

Numa articulação sintética do TAT com o Teste das Pirâmides de Cores, realçamos que a

dissociação foi demonstrada exemplarmente nos dois instrumentos. Enquanto no Pfister Caroline

construiu bases ocas nas duas pirâmides interpostas e mutiladas, no teste e no re-teste,

selecionando a cor branca para os alicerces, e fazendo emergir a alter Dalva na primeira

aplicação, no TAT Caroline sofreu um processo dissociativo espontâneo fazendo emergir Ester,

única dissociação durante todo o teste, exatamente quando diante da prancha universal 16, “Em

Branco”. Tal fato demonstra a fragilidade estrutural da personalidade de Caroline, a existência de

instabilidade emocional e sua tendência à perda de contato com a realidade (Villemor-Amaral,

2005).

A história da prancha 7MF (Menina e Boneca) também retrata outros indicadores

dissociativos, tais como: distração, imaginação e ausências. Apresenta ainda assuntos de natureza

religiosa, convergentes ao pretérito de Caroline em termos educativos. Exemplificamos com

trechos de fala da paciente: “Ela ficava se imaginando naquelas histórias que tinham pela

Bíblia... Ela era muito pensativa e, às vezes, distraída... Vivia no mundo da lua... Sua mãe tinha

o hábito de ler a Bíblia... Sua mãe sempre religiosa”. Vale lembrar que as mães receptoras de

Caroline eram católico-apostólicas-romanas e que o sacerdote freqüentava a casa regularmente.

Além disso, suas mães seguiam metodicamente os rituais religiosos da igreja (veja Elementos

Anamnésicos, Capítulo III).

Processos dissociativos, com significativo teor amnésico, para a personalidade múltipla,

são desencadeados por fatores traumáticos severos, reincidentes e intermitentes (Braun, 1986;
198

Haddock, 2001; Kluft & Fine, 1993; Putnam, 1989; Rhoades & Sar, 2005; Ross, 1989).

Evidências de amnésia – conforme registrado em todos os casos clássicos (veja Capítulo I), não

ligadas a efeitos fisiológicos de substâncias (DSM-IV-TR, 2003), fazem parte da vida de

pacientes múltiplos. Lembramos que Caroline recebia castigos pelo aparecimento de objetos

estranhos junto aos seus pertences sem saber da procedência deles; vestidos que ela não ganhava

apareciam no seu guarda-roupa; deparava-se vestida com vestidos sem a lembrança de tê-los

vestido; começava a pintar um quadro e ao retornar à pintura constatava um estilo diferente do

seu; em muitas ocasiões acordava com a impressão de não ter ido dormir; deparava-se com as

unhas pintadas de vermelho sem se lembrar de tê-las pintado; programava alguma coisa para

sábado e domingo e, quando via, era segunda-feira (veja Elementos Anamnésicos e Entrevista

SCID-D, Capítulo III).

O quinto e último agrupamento de nosso encadeamento analítico lógico refere-se, mais

enfaticamente, à capacidade de elaboração da paciente pela via da sublimação.

Na prancha 4 (A Mulher que Retém o Homem), por exemplo, Caroline mostrou

inconformismo com as atitudes do cônjuge ao dizer: “Por que você fez isso comigo? Eu procurei

tanto ser uma boa esposa para você”. Esta prancha teve impacto global significativo sobre os

estados interiores, emoções e dimensões psíquicas de Caroline (veja Figura 25). Na história

narrada, a resolução das dificuldades foi feita pela sublimação, pelo cuidar dos outros (crianças).

Disse ela: “Ela [a esposa] se enriqueceu de amor porque dava amor a todas as crianças e

recebia de todas as crianças o amor que supriu o coração dela pela ausência do companheiro,

que ela achava ser o homem ideal da vida dela”.

Duas outras pranchas, além da quarta, apresentaram saídas sublimatórias, realizando-se

Caroline através do trabalho, do intelecto e do estudo. Foram elas: 8MF (Mulher Pensativa) e
199

13HF (Mulher na Cama). Na primeira, 8MF, Caroline finalizou a sua história da seguinte forma:

“Eu desejava outro destino para os meus filhos... Eles resolveram fundar a Associação dos

Jovens Estudantis objetivando reivindicar uma universidade para a cidade”, uma forma de lidar

com a agressividade por meio de uma contribuição social. Na segunda, 13HF, onde encontramos

outro bom exemplo de saída pela via da sublimação e da necessidade de continuidade do

processo psicoterápico, Caroline terminou sua história dizendo: “Ele [o médico-marido]

conseguiu conter suas lágrimas [diante da morte da esposa]. Isso fez com que ele continuasse os

seus estudos na esperança de um dia poder descobrir como salvar as pessoas dessa doença tão

séria que é a Doença de Chagas”. Certamente Caroline ainda se vê um pouco doente. A Doença

de Chagas pode ser um indicador das feridas traumáticas adquiridas, que ainda necessitam

cicatrização adequada.

É importante salientar que a reversão de conteúdos traumáticos por meio de sublimações

é fator recomendado no tratamento da personalidade múltipla. Além disso, a junção das

habilidades, dos talentos adquiridos e dos contextos já sublimados por todas as alters, de forma

que a personalidade integrada esteja disponível para responder, reagir e lembrar, representa um

dos principais objetivos da psicoterapia (Clark, 1993).

É certo que existem vários quadros clínicos com uma psicodinâmica similar ao que aqui

apresentamos para a personalidade múltipla (Bergeret, 1998; Putnam, 1989; Ross, 1989). Apesar

disso, além dos critérios sintomatológicos específicos deste transtorno – veja Tabela 1 –, há dois

fatores psicodinâmicos interligados que o distingue dos demais. São eles: 1) A presença de

traumas reais, intermitentes e reincidentes, com origem a partir de situações de rejeição,

abandono, desamparo, abusos e maus-tratos; 2) A dissociação como mecanismo de defesa mais


200

proeminente fazendo emergir as personalidades alternativas (múltiplas ou alters) e,

conseqüentemente, gerando processos amnésicos agudos.

Concluindo, com o TAT verificamos uma psicodinâmica com fixações nas fases da

infância e da adolescência – Caroline demonstrou tendência a situar os protagonistas no período

infantil-adolescente, mais enfaticamente nas figuras femininas (veja Figura 19) –, dissociações,

dificuldades na afetividade, agressividade indireta e recalque da sexualidade com deslocamentos

e sublimações. Características elevadas de rejeição, abandono e desamparo. Preservação do

senso de realidade com necessidades de amparo, proteção e ternura. Os interesses voltam-se

fortemente para a família. Há uma busca incessante para a integração das personalidades por

meio do processo terapêutico.

Além disso, do ponto de vista teórico, constatamos por meio dos instrumentos projetivos

aplicados, a conectividade existente entre as personalidades da individualidade, bem como a

realidade de aspectos traumáticos (rejeição, abandono, desamparo, solidão, abusos e maus-

tratos), fatores determinantes no contexto de pacientes múltiplos, em particular de Caroline. Tais

indivíduos, que buscam uma integração plena, apresentam pontuações significativas à

capacidade dissociativa (veja Tabela 4) e experimentam gaps mnêmicos acentuados na sua

história de vida, tanto remota quanto recente. Ou seja, neste caso há correlação significativa para

a dupla trauma-dissociação, fator sempre presente na personalidade múltipla como indicam

alguns autores (Ellenberger, 1970; Hacking, 1995; Haddock, 2001; Kluft & Fine, 1993;

Loewenstein, 1991; Putnam, 1989; Rhoades & Sar, 2005; Ross, 1989). O número de

personalidades verificado para o transtorno, embora variável de caso para caso, foi identificado

em Caroline (DSM-IV-TR, 2003).


201

4.4- Trauma e Dissociação na Personalidade Múltipla: Algumas Considerações

Neste item estaremos articulando algumas informações relacionadas com os processos

dissociativos de Caroline desencadeados por fatores traumáticos, e comparando com os casos

clínicos apresentados na literatura.

A personalidade múltipla apresenta uma relação significativa entre trauma e dissociação,

ou seja, entre processos traumáticos e tendências à perda de contato com a realidade. Assim, não

há possibilidade do transtorno ser desenvolvido numa pessoa sem a presença de fatores

traumáticos geradores de dissociações patológicas (Kluft & Fine, 1993; Putnam, 1989; Ross,

1989; Steinberg, 1994).

Para o caso Caroline, os processos traumáticos, dissociativos e integrativos da

personalidade múltipla foram identificados em todos os instrumentos pesquisados. Ou seja,

foram averiguados nos elementos anamésicos, nos relatos clínicos, nas produções das

personalidades, na Escala de Experiências Dissociativas, nos testes projetivos e nas entrevistas

quando apresentamos parte do histórico de vida da paciente. Adicionalmente, eles foram também

verificados nos casos clássicos apresentados.

A emersão e imersão de ISH’s é fator relevante para a conquista do controle emocional e

integração de personalidades, ou seja, para a busca das reversões traumáticas e dissociativas do

contexto de pacientes múltiplos. As duas personalidades, global e específica do psiquismo de

Caroline, atuaram durante todo o processo. Equivale dizer que os dois ISH’s – assim como nos

casos clássicos de Estelle L’Hardy e Hélène Smith, descritos por Ellenberger (1970) e Flournoy

(1899/1994) respectivamente, – estão atuantes no tratamento dela, cujo objetivo maior é a

integração das suas personalidades e, conseqüentemente, a reversão dos seus processos

traumáticos e dissociativos (Allison, 1980; Kluft & Fine, 1993; Putnam, 1989; Ross, 1989;
202

Steinberg, 1994). Desta forma, com o auxílio dos ISH’s, a medida que processos traumáticos são

tratados e revertidos por meio de ab-reações adequadas, processos dissociativos tendem a

diminuir. Como resultado, a individualidade fragmentada converge, gradualmente, para a

individualidade integrada. Isso acontece porque a significativa relação entre trauma e

dissociação, sempre presente na personalidade múltipla, vai sendo descaracterizada e

descontinuada com a progressão bem sucedida do tratamento.

Por fim, conforme demonstrado nesta pesquisa, há uma grande gama de informações

passíveis de emparelhamento com o caso Caroline. Tais informações, correlacionadas com os

casos clássicos de personalidade múltipla documentados no primeiro capítulo, estão

esquematizadas abaixo, como mostrado na Figura 38.

Figura 38. Características comuns dos casos clínicos apresentados.

Conforme apresentado na figura acima, fatores amnésicos e alterações de caráter, com a

presença de alters, são extremamente significativos e fazem parte do contexto de todos os

pacientes múltiplos. Algumas personalidades são capazes de falar ou escrever em idiomas


203

diferentes sem que a personalidade original tenha tido contato consciente com a língua

estrangeira em questão. O mecanismo de co-consciência bilateral, com níveis de interação

consciente entre personalidades, e alterações na escrita – inclusive escrevendo da esquerda para a

direita – estão presentes em alguns casos. A presença de ISH’s, de distúrbios neurológicos

temporários, como a perda da sensibilidade corpórea – sintomas auto-hipnóticos (veja Tabela 2)

–, e de alters que apresentam dotes poéticos, não é fato raro em pacientes múltiplos (Allison,

1980; Braun, 1986; DSM-IV-TR, 2003; Ellenberger, 1970; Flournoy, 1899/1994; Kluft & Fine,

1993; Loewenstein, 1991; Prince, 1905/1957; Putnam, 1989; Ross, 1989). Já a emersão e

imersão de alters em estados oníricos exclusivos, ou seja, personalidades alternativas emergindo

e imergindo somente em contextos de sonho, é fato pouco vulgar. Por fim, fazemos sobressair

que, diferentemente dos casos clássicos mencionados, Caroline apresenta características distintas

que estão englobadas no conjunto de todos os fatores observados.

Com o encerramento deste tópico, passaremos agora à conclusão de nossa pesquisa

enfocando as respostas dos problemas com base nos objetivos propostos, bem como em toda a

seqüência de apresentação que formulamos neste estudo de caso.


204

CONCLUSÃO

A evolução histórica desta pesquisa, as abordagens apresentadas e os resultados

demonstrados, analisados, interpretados e discutidos, sustentam-se em dois eixos estruturais –

um sintomatológico e outro psicodinâmico – com a finalidade de responder os problemas

formulados, com base nos objetivos propostos.

Em termos sintomatológicos a personalidade múltipla apresenta-se bem delineada. Há,

obrigatoriamente, a presença de estados distintos de personalidade, que assumem

recorrentemente o controle do corpo. Porém, com incapacidades de rememoração (amnésia) dos

aspectos pessoais relevantes, sendo que tais perturbações não estão vinculadas a efeitos

fisiológicos externos (drogas). Há ainda despersonalização, desrealização, confusão e alteração

de identidade, regressão espontânea de idade, perda ou diminuição da sensibilidade, flutuações

intelectuais, acionamentos – podendo ser indiretos, espontâneos ou provocados –, pensamentos

suicidas e alterações no humor. Toda esta sintomatologia foi diagnosticada em Caroline.

A essência da personalidade múltipla ou as condições de sua origem residem em traumas

reais do passado – de natureza psíquica, emocional, física ou sexual – que causaram impactos

significativos e foram esquecidos parcialmente pela paciente. Os processos de ab-reação fazem

com que os traumas reais sejam lembrados e reproduzidos, conseqüentemente diminuindo a

dissociação ao longo do tempo.

As emersões e imersões dos diversos estados de consciência, ou do eu fragmentado, com

diferentes habilidades, memórias e sentimentos, são explicadas pela constatação de realidades

traumáticas reais e distintas ocorridas em diferentes contextos de vida, a partir de uma origem

insuportável.
205

Neste estudo de caso, a origem traumática, ou o ponto de partida dissociativo de

Caroline, deu-se a partir de situações (ou de sentimentos) de rejeição, abandono e desamparo.

Adicionalmente, abusos e maus-tratos. Situações ansiogências fortaleceram tais sentimentos

produzindo dissociações e fazendo emergir alters, fragmentos e ISH’s.

Certamente, é muito difícil determinar a origem da emersão de personalidades no

psiquismo de pacientes múltiplos. Entretanto, o mais importante para a conduta do clínico é

saber identificar as personalidades reveladas, sem distinção e sem privilégios de uma em relação

a outra; ouvir e compreender as suas histórias e os seus dramas; saber lidar com os contextos

traumáticos e dissociativos surgidos; levar em consideração os sentimentos externados; efetivar

ab-reações; e apaziguar litígios associados a emersão de cada personalidade, buscando integrar

os aspectos dissociados.

A integração das personalidades vai sendo alcançada em proporção direta com a

diminuição da dissociação. Isso acontece à medida que os aspectos traumáticos reais vão sendo

liberados por meio dos processos de ab-reação e elaboração. Tal fato vem acontecendo com

Caroline, visto que de todas as personalidades até hoje identificadas, somente a metade delas

continua emergindo, sendo duas ISH’s.

Em termos psicodinâmicos, uma temática ainda pouco aprofundada cientificamente, a

personalidade múltipla apresenta a dissociação como mecanismo de defesa fundamental,

fixações nas fases da infância e da adolescência, recalque da sexualidade deslocada pelas vias da

sublimação.

A dinâmica mental está ancorada em uma base de conflitos e traumas reais da paciente.

Há clivagem do ego com atitudes psíquicas diferenciadas para a realidade distinta de cada alter.
206

A vida onírica se apresenta com peculiaridades, retratando desejos inconscientes incompatíveis

com a realidade.

As relações entre realidade psíquica e realidade concreta apresenta grau máximo de

diferenciação quando as personalidades do psiquismo de pacientes múltiplos estão em atuação,

ou seja, quando processos dissociativos estão ativados. Equivale dizer que quando as

personalidades estão em ação, elas trazem hábitos, costumes, épocas, características

completamente diferentes da realidade psíquica e concreta de Caroline, além de memórias e

sentimentos peculiares. Em Caroline, quando ausente de contextos dissociativos, sua relação com

a realidade é normal e aparentemente completa.

O embaraço de identidades está sempre presente quando Caroline encontra-se em

processo dissociativo. Pode haver sintomas de conversão pelo emprego anormal dos afetos e

sentimentos manifestados em algumas personalidades. Sujeitos múltiplos tendem a sentir

solidão, desamparo, rejeição e abandono, características proeminentes de Caroline, que necessita

sentir-se realizada, protegida e amparada com ternura. Os interesses e sentimentos voltam-se

para a família, o estudo e o trabalho.

Os instrumentos utilizados, apresentados e demonstrados nesta pesquisa,

psicodinamicamente, apontam para a existência de traumas reais, processos dissociativos

acentuados e necessidades integrativas factíveis. A relação da dupla trauma-dissociação foi

investigada em Caroline, indicando forte vínculo que ainda precisa ser pesquisado em outros

estudos. Possivelmente, no transtorno apresentado, a dissociação patológica teve como fator

etiológico a presença de traumas reais. Além disso, os sinais da personalidade múltipla,

sintomatológicos e psicodinâmicos, foram relatados e exemplificados; as múltiplas

personalidades foram inter-relacionadas e suas produções documentadas; os aspectos traumáticos


207

da personalidade múltipla foram descritos por meio do histórico e experiências de vida de

Caroline, bem como identificados nos instrumentos psicológicos utilizados; dentre outros fatores,

os aspectos dissociativos, isto é, a maneira como a dissociação da consciência se apresenta na

paciente foi relatada quando mencionamos e exemplificamos os acionamentos espontâneos e

intermitentes, que originaram emersões a partir de ocorrências traumáticas severas.

Como perspectivas futuras, esperamos que este trabalho abra campo para novos estudos e

também convide outros pesquisadores para investigações mais aprofundadas sobre a origem do

ISH, sobre o complexo mecanismo de reversão dos processos dissociativos e de integração plena

das personalidades, sobre o tratamento específico para os múltiplos, sobre validações de

instrumentos no Brasil, sobre a transferência na relação terapêutica, sobre comparações de

quadros clínicos, dentre outros assuntos fascinantes relacionados com a personalidade múltipla.

Realçamos que não há registros de pesquisas científicas, nacionais ou internacionais,

discutindo conjuntamente o teste de Pfister e o TAT em questões concernentes à personalidade

múltipla. Enfim, o projeto de vida na vida do autor começou. A gota d’água caiu e se misturou

no mar do conhecimento científico.


208

REFERÊNCIAS

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213

ANEXOS
214

ANEXO 1

Termo de Consentimento
Informado Livre e
Esclarecido
215

Universidade Católica de Brasília


Pró-Reitoria de Pós-Graduação e Pesquisa
Mestrado em Psicologia

TERMO DE CONSENTIMENTO INFORMADO LIVRE E ESCLARECIDO


Você está sendo convidado a participar de uma pesquisa supervisionada pela
Universidade Católica de Brasília relacionada diretamente com o assunto “Personalidade
Múltipla”. Leia atentamente o que se segue. Quaisquer dúvidas serão respondidas prontamente.
Esse estudo será conduzido pelo psicólogo Marcello de Abreu Faria, (Celular: 99087044), aluno
regular do Curso de Mestrado em Psicologia da Universidade Católica de Brasília, e orientado
pelos Psicólogos-Doutores Roberto Menezes de Oliveira, (3448-7204), e Deise Matos do
Amparo, (3448-7200).
Sua participação será voluntária e documentada tendo por anuência o presente termo,
com ausência de custos, devidamente assinado. O objetivo da pesquisa é “Investigar a
Personalidade Múltipla e sua relação com o Trauma e a Dissociação da Consciência”. A
metodologia adotada será a do “Estudo de Caso”, sendo seu tratamento o fator motivador para o
assunto em questão. Você será entrevistado. A entrevista, bem como as sessões clínicas serão
gravadas. Da mesma forma, você se submeterá a testes homologados pela ciência. O seu
tratamento e a entrevista serão analisados e descritos em profundidade objetivando contribuir
com o avanço do conhecimento científico nesta problemática. Quaisquer referências pessoais que
o identifiquem serão omitidas. Seu nome e identidade serão mantidos em sigilo absoluto. Todo
material obtido será mantido sob a guarda e responsabilidade do pesquisador Marcello de Abreu
Faria. Somente este e os orientadores terão acesso às suas informações para verificação e análise
dos dados. Vale ressaltar que tais informações não terão utilidade para fins judiciais. Perguntas
vinculadas à pesquisa poderão ser feitas diretamente com os pesquisadores. Seus direitos
poderão ser também esclarecidos junto ao Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos da
Universidade Católica de Brasília, via telefone 3356-9000.
Você é livre para optar em não tomar parte desta pesquisa. Da mesma forma, você é livre
para abandoná-la a qualquer momento, sem ônus. Caso você deseje participar, receberá uma das
três vias assinadas deste termo. Sua assinatura, abaixo, indica que este consentimento foi lido,
esclarecido, sendo sanadas todas as suas dúvidas, concordando livremente com os termos
indicados.

Brasília, ___ / ___ / 2____

Assinatura do Voluntário: _____________________ _________________________


Marcello de Abreu Faria
Psicólogo Clínico
CRP 01 / 3280 – DF
216

ANEXO 2

Produções
das
Personalidades
217

PRODUÇÕES DE DALVA

PERDÃO PROTEÇÃO

Perdão só é concedido Como ave tranqüila que voa, sobre


Para aquele que é muito amado Densa neblina, tem certeza de encontrar
Sabemos quando é preciso Seu farto ninho, proteção, calor, amor, carinho.
Por nos sabermos oprimidos Em fuga desenfreada, quando se cansa,
Ele é como uma graça Maltratada, abandonada, com amarras,
Nos conforta e anima Feridas expostas, em seu olhar, encontro
Nos eleva e redime Reconforto, integridade, na esperança reforços
E quem dá se sublima. Estão gravados, na infinita lembrança,
Pode ser falta leve Parábolas, ensinos sábios, consoladores.
Como pode ser grave Nos momentos de dores, quando em erros,
Mas sentirmos perdoados São resgatados, trazidos à tona, aplicados
Nos promove e nos eleva Como bálsamo, curando, regenerando,
Por isso insisto tanto Preparando novo combate, mais
Não pelo peso do pecado Decisivo, determinado, conclusivo.
Mais por sentir na sua alma Nesse vai e vem, somando esforços,
O amor que eleva e acalma Concretizando ações, seguir em
Não se mostre desprovido Frente, no desejo intenso de levar
Deste sentimento dotado Avante, o destino traçado, acompanhado
Ele só se acomoda Da outra metade, talvez rejeitada, não
Nas almas elevadas Compreendida, em tempestades de emoções.
Disto tenho certeza Assim como seu, meu coração saberá esperar
Pois conheço na intimidade Paciente, um dia aprenderá caminhar
Porque da mesma sua essência Só, sem sua companhia e amar
Fomos feitos na Eternidade. Simplesmente, como manda a Lei.
Preenchendo o vazio trazido pela dor de não
Ter, apenas ser, contente de existir.
Dá-me sua mão, sua proteção, coragem de
Entregar, suave, tranqüilamente, desprovida
De mágoa, saudade ou qualquer sentimento,
Este ser que agora, vai se despedir.
Agradecida por ajudar neste ato, retrato
Fidelidade, assumo deveres contínuos, olhar
Com simplicidade as belezas da vida, tão generosa,
Amorosa, exemplificada nas regras pequenas,
Grandes, lendo através dos toques,
Necessidade de amar o próximo.
Humildemente será meu lema,
Obrigada, muito obrigada, meu amor.
218

VENCER AFINAL

Alegria novamente está presente Por fim, compreendi afinal


Quanto esperei ansiosamente sua O verdadeiro amoroso sinal
Resposta, como antigamente, Que o destino nos coloca
Eram hábitos, doce permuta, Frente a frente, sem engano
Constante, instigante. Sem jogo, participando
Envolvendo conhecimentos, Influindo, combinando
Carinho, línguas diferentes. Em situações delicadas
Apenas prazer de guardar comigo Indefinidas, mas aceitáveis
Pensamentos, indagações, versos, Pela necessidade de dissolver
Promessas, fórmulas, descobertas, Aliviar, levantar e amparar
Reflexões, tudo que envolve Na fortaleza do amor maior
Mente saudável, incansável Viraremos mundos, épocas
Em buscas, aperfeiçoando Personagens, ilusões indesejáveis
Os encontrados. Transformando tudo em ondas
Tanto encanto neste ser adorado, Reajustáveis, programadas, elevadas
Recordações como esta lhe chegando, Emancipadas, livres e educadas,
Atravessando compartimento guardado, Neste acontecer, seremos ditosos
Como dizer, o tempo interrompe? Compartilhando com as leis dos cosmos
Não existe tempo, existe esquecer Retribuindo o usufruto concedido
Provocado pela ausência, distanciamento Outrora a nós dado, consentido
Doloroso, que vou vencendo, lutando Por outros também tocados
Contra tudo, situações inexplicáveis Assim como eu ou você
Incompreendidas, por mais faladas, Pelo sinal às vezes incompreendido
Não aceitas ou justificadas, Da grande Sabedoria infinita
Apenas, meu amor é constante, Nos chamando, protegendo e amparando
Nem ausência, imagens, pessoas, nada Sendo apontados, analisados, esperados
Consegue abalar, apenas sofrer no Para o grande momento decisivo
Silêncio obrigatório Da caminhada serena
Imposto ao meu coração. Ladeados, amados, elevados
Vença assim como eu, respondas Finalmente abraçados
Como sempre, esperarei meu amor. Pelos nossos amados
Na vertical, sublimados
Ao encontro do nosso real destino.
Finalmente compreendi.
219

SAUDADE

Por que um sentimento tão profundo Seremos como seres escolhidos


De amor, provoca dentro da alma Ao léu , como grãos confundidos,
sincera, a saudade inconformada No deserto árido infinito, soltos
Da ausência, dolorida, martirizada Depois da fragmentação dolorida
Do ser amado, idolatrado, único. Dos laços amorosos, dedicados
Oh, meu amor, salva-me desta À indiferença absoluta, seremos
Solidão que me enfraquece, Apenas, irmãos em humanidade.
Ou faze-me esquecer por piedade, Escolha entregue em suas mãos
Desta figura que abriu espaço, Se este for o destino traçado
No dia-a-dia, hora-a-hora, sem cansaço Saberei levar com zelo, inconfundível
Na visão interior incontrolada, Serenidade, decisão respeitada, amordaçada,
Revivendo momentos sublimados Guardada, definitiva, seja ela qual for
De grande paz, e concretos fatos. Responderei, com tranqüilidade,
Não podendo permanecer dividida Amém.
Leva-me contigo ao espaço,
Ou abandona-me de vez neste estágio,
Consolando-me, fazendo-me esquecida
Da felicidade alcançada, perdida
Distante, mas que existe no passado
Que poderia ser também apagada,
Da minha memória, travada.
Pela dor que a saudade amarra,
Na lágrima que ensaia e não cai
Tornando o meu peito afogado,
Em desespero, solidão, inconformada.
Atende este pedido, querido,
De quem precisa viver,
Crescer, honrar, fazer, refazer,
Atos prestimosos, formosos,
Como os aprendidos, realizados
Outrora, acompanhados de felicidade
Trazida pelo dever cumprido
Respeitoso, amoroso, descontraído
Proporcionado, pelas almas altruístas,
Exemplificado, vivido por nós, outrora.
Torna-me pura, bondosa, realista
Nesta jornada, prevista
De ser decisiva, ajuda-me a vencer
A nostalgia, de ser só, com esperança de viver
Algum dia, a complacência de merecer
A sua companhia, sem saudade, dor ou despedida.
Ou não mais cruzaremos nossos olhos
220

MORTE AMOR

Se o preço for a morte Olhos brilhantes, carinhosos, falantes,


Entrego a vida nas mãos Faróis incandescentes, transmissores
De quem troca sem ver Possantes, contaminadores, rendo-me
O coração de quem vai. Aos seus encantos.
Se for pequeno este gesto Fala mansa, vibrante, quente, envolvente
Ensina-me ser grande, Como cobertor, na gélida noite da vida
Enfeita de flores roxas, Solitária, entranha-me, pelos ouvidos
sem brilhos, murchas, Esquecidos, de sons e encantamentos,
O vazio que ficará. Mostrando, o vibrar desta pacata vida.
Enquanto o outro, Mãos delicadas, fortes e sensíveis,
Viçoso, tentará ficar, Comanda, gesticula palavras não ditas,
Talvez não se lembrará Mostra-me poder, acolham as minhas,
Quem se foi e não voltará. Frias, soltas, sem dono, como brinquedo
Vazio, nada, sem princípio e fim Jogado no canto, esperando ser
Ficarei ou não ficarei, não importa Aquecida, guardadas entre as suas.
Sem o verbo existir, Sorriso brilhante, largo, descontraído,
Não sentirei saudade, bem Feliz quando aparente, aponta-me o
ou mal-querer de ser ou estar, Caminho da felicidade constante,
Apenas não mais serei ou estarei. Em seus lábios, quero ver,
A magia aflorada, irradiada, do seu ser.
Seu passo, elegante, macio, calmo,
Protetor, acompanhante, leva o
Pensamento junto, não dispersa um
Segundo, concentra tudo a seu redor,
Beleza, alegria, espaço, tempo.
Seu peito largo, amigo, lembra um
Abrigo quente, protetor, no compasso de
Um coração, iluminado, sofrido, não
Amargurado, mas doce, gentil e aberto.
Sua alma, solidária, madura, sensata, sofrida assim
Como a minha, reflete bondade, e outras
Qualidades adquiridas, através das eras
Vividas, aproveitadas, armazenadas,
Trazidas no seu dia a dia, partilhando e
Distribuindo seu encanto, como a mim,
Privilegiada de estar neste caminho, talvez
Breve, ou quem sabe, mas inesquecível,
Enquanto houver memória, ela será eterna,
Guardada, trazida à tona sempre que preciso.
221

DEIXAR VOCÊ APEGO

Deixar você é abandonar parte de mim Há dezenas de séculos, existe,


Ficar incompleta, viver com os escuros. Às vezes, tão bem encaixado
Da alma, reter lágrimas, dores Outras, não valorizado, mas sempre,
Não mais sorrir, ou falar de lembranças doces Sempre presente no íntimo, mesmo
Ficar sem mim é morrer em vida Adormecido no tempo, vibrando
É ser ingrata com Deus Dentro da gente, como centelha brilhante,
Desconhecer o passado, presente Iluminando o caminho, merecendo
Talvez nem ter futuro, Todo cuidado, quando ele é encontrado,
Para que? Dos olhos mal-educados, guardados
Não ser preciso ser apoiada Com carinho, de quem anda esencontrado,
Consolada nos momentos de solidão Sozinho, longe do seu par encantado,
Corroída pela saudade, nada, Pelos seus tristes desatinos.
Não ser nada. Vou ser Por isso minhalma querida, guarde
Como o vento sem destino, Minha chave contigo, como guardo,
Impulsionado pela vontade do A sua comigo, formando um só coração,
Imprevisto, roçando espinhos Lacrando desta vez para sempre,
Geleiras, picos e escarpas. Nossa alma, nosso apego, este
Abismos onde se ouve o próprio É o meu precioso pedido, também,
Gemido, solto sempre em movimento A minha humilde e simples, oração.
Sem retorno, volta, nada.
Seguindo em frente, sem destino,
Encontro, parada ou
Acolhida, perder identidade,
Ser enfim, nada.

PRIMAVERA

A eterna cerejeira está em flor! Intransponível, transbordando de


De tão longe ela nos chegou trazida por mãos delicadas lágrima,
Como relíquia sagrada, para ser celebrada, como marco Amarga, que sente um coração
de um eterno compromisso de amor. iludido e sofredor.
Em seu tronco os nomes de nossos pais conservou Brindemos a Primavera reflorida
Escritos nos seus esponsais com promessas sinceras Rica em perfume e amor, dentro de
de imortal fidelidade, vividas em plena felicidade. nossos corações, muitas vezes
Centenária, generosa, exemplificando distantes
Que os cuidados que vem recebendo recompensa Não pelos nossos desejos, punidos
Retribuindo aos quatro ventos seu perfume embriagador. pelos nossos erros.
Assim como o deles, o nosso amor Diante das eras que passam,
Vem pelo tempo avançando cada dia aperfeiçoando Unindo o passado ao presente,
Vencendo as ilusões douradas, encapando, o recheio de dor. Tornando sem valor, a saudade e
Que são como pontes movediças, sua dor.
222

FILHO

Flores da campina orvalhada


Cultuada sob o sol aquecido
No solo de um coração fertilizado
Em amor igualmente distribuído
Cresceram amparados, longe das tempestades
Produzindo perfumes, em carinhos retribuídos
Dedicando o tempo valioso, em empreitadas
Edificantes, sábias e responsabilidades
Recompensas vieram com naturalidade
Enfeitando os sacrossantos ideais
Produzindo também em escala
Suas flores lindas puras e amoráveis.
Como agradecer ao Pai esta divina dádiva
De não estarem mortas no passado distante
Estas lembranças que aquecem corações
Em lutas, fugas e conspirações
Obrigado, estamos muito reconhecidos
Felizes de ter deste palco participado
Agora não tão distante pela memória
Ouvindo seu eco trazido pela misericórdia
Da benção que a Superioridade nos doa
Perdoa Pai, estes teus filhos
Que peregrina nas lutas íntimas
Ainda presos em pequenos detalhes
Não esquecidos das vitórias alcançadas
Esperando merecer, ganhando respaldo
Para poder correr e ser abraçados
Novamente estabelecer a corrente
Invulnerável, progressiva, forte
Naquela campina ensolarada e fértil.
Participar em outras tarefas puras
Dando seguimentos à já realizadas
Abrindo espaços apropriados
Encaixando novos elementos
Suavizando nossos atritos
Esperando com calma a hora aprazada Merecedores, deste zelo constante
Do reencontro com as flores perfumadas. Cercando sempre nossos passos
Abençoados por terem alcançado Amparando em seus braços
As metas traçadas e cumpridas Representando o Amor Divino
Finalmente livres, felizes Destes dois irmãos, seus destinos, amados.
223

A seguir, registramos um texto de Dalva emergindo na fase adolescente, com 16 anos. Às


vezes, ela emerge na fase adulta.

“Prezado Senhor
Parece-me que nossas curiosidades são do mesmo tamanho, Grande. Dizem ser um sinal
de quem quer amadurecer logo, se obedientes, conseguiremos.
Acho-o bastante interessado em nossos costumes, que é diferenciado das outras famílias,
porque temos uma tradição e um comportamento até certo ponto avançado em termos sociais.
Fomos criados reconhecendo a bondade que a vida nos agraciou, colocados em situações
privilegiadas, em regiões em que os pobres não têm outras perspectivas de melhora, nascem
pobres e morrem pobres e seus destinos são os mesmos... serem escravos dos que têm mais. É
claro que cuidamos dos nossos haveres, é responsabilidade nossa conservar e até multiplicá-los,
mas sem a exploração dos inferiores. Usando das suas habilidades e dando a eles direitos por
outros negados. Isto nos leva algumas vezes sermos olhados com reservas por outros feudais. É
nisto que se baseia a discrição, e até certo ponto, a reclusão da vida social na corte, que não nos
faz falta. Os interesses que nos envolvem são diferentes. Mas também... Com o que conhecemos
não dá mesmo para ser diferente, quero dizer, iguais a eles, sem menosprezá-los.
Estou com 16 anos. Gostei da sua permissão de chamá-lo de você. Fomos criados
sabendo que todos os seres são irmãos e que idade, posição social ou financeira, não são motivos
de diferenciação. Todos merecem respeito como iguais. Mas chamá-lo de você, nos torna mais
íntimos e isto não nos faz menos respeitosos.
As pessoas trazidas para trocarem conhecimentos são escolhidas, em princípio, por nosso
avô, e depois são acrescentadas outras por sugestões dos meus pais. Eles vêm de diversos locais,
do oriente, ocidente, não têm privilégios por isso ou aquilo. Não sei ao certo. Viajam como
podem. Mas até chegarem aqui, uma certeza eu tenho, viajam de navio, depois que chegam, vêm
de carroça para as nossas propriedades.
Sinto o compromisso com Ronaldo em primeiro lugar no meu coração. Nossos olhos,
nossas falas são sempre interessantes. Não cansamos de ficar perto um do outro. Sei no fundo do
coração, que somos um do outro, ele só tem olhos para mim e eu da mesma forma. Somos ambos
lindos, dizem nossos pais. Explico que Rony é meu meio irmão. Somos primos, nascidos no
mesmo dia, nossos pais são irmãos. Ele foi criado por minha mãe, que o ama como se fosse seu
filho de coração.
Acho que respondi suas perguntas. Aqui vão as minhas: O que fazia quando tinha a
minha idade? Era obediente a seus pais? Empregava bem o seu tempo? Visitava doentes?
Gostava de ficar com os mais velhos? Prestava atenção na sabedoria que eles sempre têm? O que
lhe marcou mais quando tinha a minha idade? O de bom e o de mal.
Esperarei sua missiva com bastante curiosidade... Logo...
Respeitosamente,
Dalva”
224

PRODUÇÕES DE JENNIFER

A seguir, poesia não intitulada de Jennifer (transcrita) emergindo em estado onírico. Sua
percepção consciencial ou realidade psíquica é divergente da nossa. Sempre aflora em estados,
para ela de sonhos. Algumas vezes, solicita-nos que repasse suas mensagens ao seu amado,
Steve.

“Poema Sem Título” (Grifo nosso) NÃO DESISTA

Enquanto houver saudades, Não desista meu amor


Meu amor viverei neste ar Nem de ti e nem de mim
Em que respiras. A vida é uma surpresa
Ar que envolve a terra, mar, Jamais deixaremos de existir
Que separa as estrelas, Não deixes morrer o sonho
Algumas quase mortas. De uma poeta que sussurra,
Outras como vaga-lume Implorando um carinho
A procura de seu par. Para que possa continuar a viver.
Seremos como o Sol e a Lua. Sonho, sonho meu
Tu amor, o Sol, Enfeitarei com todas as cores
Noivo da Lua. As nuvens que me levam
Eu amor, rainha da Lua. e te trás a mim,
Sempre tua. Jennifer. Nas noites claras de lua
Como nas noites de plena solidão
Sinta-me em teu coração.
Eu existo, tu existes a vida existe.

SONHOS INTERROMPIDOS

É difícil viver de sonhos Assim a vida que me assusta


Sonhos que nos fazem felizes Fazendo-me pensar em morte.
Logo que a Lua enfeita o céu Leve-me ao porto seguro
Espero cometer meus deslizes Sempre ao rumo norte.
Dentro desse mundo imaginário Lá existe a liberdade dos senhores
Envolvendo o meu bem amado Sobre o povo negro como a noite
Cobri-lo de beijos de mel. Tornando todos iguais
Vida perdida acordada , quanta! Como os rios e os mares.
Desejos inacabados, quantos! Sendo o rio de doces águas
Valerá viver ou morrer e sonhar? Mansas, calmas e escuras
Navio meu amigo, singra essas águas O mar salgado, agitado, purificado, claro
profundas, vai de encontro ao mar E assim misturados, inseparáveis,
Num abraço apertado, estreito, como o meu amor e eu, inesquecíveis
Confundindo suas energias. Dentro dos meus sonhos interrompidos.
Nesta inconstância alternada
225

PRODUÇÕES DE MAYARA SANDES

A seguir, dois bilhetes de Mayara Sandes. O primeiro, ameaçando Caroline. Realça o


conceito de co-consciência bilateral com Caroline. No segundo bilhete, Mayara deixa um recado.

(1) “Amiga infiel:


Não pedi a você que interferisse nas minhas cartas. Onde as colocou? Reponha no lugar
de direito. Preciso contar com a sua fidelidade. Se caso não for possível, procurarei
outros meios e me terá como inimiga. Pode escolher. Não gostaria de prejudicá-la. Mas
tenho armas para isto. O melhor é você atender meus pedidos em silêncio. Não diga nada
porque tenho ouvidos atentos. Não sei se ainda sou sua amiga. MS”

(2) “Deixei as meninas na cama e vim lhe dar boa noite. Tudo está correndo bem. Amanhã
vamos fazer um piquenique na Colina Azul. Vamos levar pão, mel, frutas e um lindo pato
defumado. Iremos caçar borboletas mortas para a coleção. Ver ninhos de passarinhos,
colher flores no campo, algumas ervas raras que só são possíveis nesta época da estação.
Temos muito como nos divertirmos. MS”

PRODUÇÃO DE JANE
A seguir, texto transcrito de Jane:

“Meu Senhor do meu Destino.


Gostaria de fazer algumas sugestões. Fique livre para aceitá-las. Gostaria que
durante o Natal fizéssemos apenas o nosso compromisso de noivado. Teríamos mais
tempo para adquirir as terras e planejar seu uso e aproveitar os trabalhadores que ainda
não tiverem compromissos fixos com outros proprietários. Precisaremos de homens,
animais e apetrechos próprios para a preparação da terra após tão rigoroso inverno.
Quanto ao seu afastamento da corte não tenha pressa. Precisamos de cautela. Se
caso alguém da corte tenha inveja da sua capacidade, ou outro motivo pessoal, pensar que
pode ser uma traição da sua parte em abandonar o seu ofício, sofreremos perseguições
implacáveis, como já aconteceram em outras vilas. São mandadas pessoas de má conduta
apenas para destruir e tomar as propriedades que depois passaram a ser do Rei. Não
vamos correr esse risco. Por isto peço meu amor, que nossos esponsais fique em segredo.
Toda a nossa família nos aconselhará isto. A única coisa que quero de ti é tua fidelidade.
Sei que na corte existem arranjos matrimoniais. Livre-se sempre deles, pelo nosso amor.
Sei que podes encontrar ciladas por essas moças que vivem atrás de se casarem. Usam de
artifícios desonestos para enganar. E como você é uma pessoa maravilhosa, tenho certeza
que precisa de muito cuidado. Confio em seu amor e nos nossos sonhos. Morreria se caso
você me abandonasse. As viagens jamais diminuirão o nosso amor. Pelo contrário.
Estarei em nossa janela a esperá-lo e irei encontrá-lo sempre em nosso lugar preferido.
Outra coisa meu amor... precisamos antes construir nosso lar já na nossa
propriedade. Não precisamos construir ela toda. O corpo principal da casa onde será
nosso lar. Pelos nossos sonhos terão muitos habitantes. Depois vamos acrescentando aos
226

poucos pelas necessidades das atividades que aparecerão. Sobre a Dama de Companhia,
será bom quando nossos rebentos já estivessem conosco. Quero uma educação primorosa,
mas quero que eles não deixem de amar a terra e cuidar dela. Porque já é tradição em
nossa família. Quero vê-los fidalgos finos e trabalhadores, diferentes desses outros
fidalgos que estragam suas vidas, nomes e saúde com vícios. Quero que sejam como nós
dois. Você fidalgo e eu uma amante da terra. Acho que já me estendi muito, amado do
meu destino. Mas espero uma resposta minuciosa da sua parte, respondendo as minhas
sugestões e dando as suas.
Beijos de saudades, meu amor.
Jane”.

PRODUÇÕES DE ALTER X

A seguir, três textos de “Alter X”. Embora dialogue e demonstre características próprias,
nunca concordou em se identificar. Possui a peculiaridade de falar e escrever em língua
estrangeira (inglês) conforme o primeiro texto abaixo. No segundo (transcrição), ela verbaliza
em atitude agressiva. No terceiro, escreve utilizando certo linguajar filosófico.

(1) “Dear Love – star that sparkles in the same pulsation of my heart:
I’m sorry I haven’t written for so long but think deeply about the words that follow...
Your goodness, kindness and maturity, some qualities always present in your way of
being, have proved to me a true, faithful and special friendship. In any case you are very
precious to me. For this reason, I’d like to propose you a mysterious adventure. I am with
the possibility to travel to India, next summer vacation – for one month approximately –
to participate in a secret cult in the city of Bombay. Each participant can take a
companion. Spiritual masters will reveal events of our lives and foresee future
occurrences. I still can’t tell you how I acquired the participation right in this activity.
The total costs were won honestly. You will just toast me with your valuable company. I
believe that this will be a great opportunity for us to confirm the wealth of our ignored
feelings, as well as, to walk in the direction of the future dreams. I understand that, at
first, it seems to be an adventure that causes great fear. However, you shouldn’t forget
that you will be with me and that we will always be together. Then, the spell was cast…
We can be in paradise or delay the inevitable. What do you tell me?
In our secret language: Love.
PS: Give my regards to your parents.
Blessing. (Eternally in love with you)”.

(2) “Cuidado com sua prepotência. O dia em que se conscientizar que você ainda é tão
pequeno como qualquer um, aí sim, quem sabe um dia você será feliz. Andas achando
que é o dono da verdade e que todos são seus inferiores. Quer corrigir o comportamento
das pessoas e suas idéias, mas não se enxerga por dentro. Por dentro você é um lixo. Sabe
usar as pessoas e depois se vangloriar de ações quando boas, e que nunca são somente de
sua pequena mente. Você tem recebido muito mais do que merece. Mas tudo um dia tem
limites. As pessoas mais inteligentes que você já notam suas deficiências. Não se
considere importante. Você acabará em todos os lugares em que for, como você é uma
227

pessoa muito chata, convencida e burra. CUIDADO!... Quanto maior o salto, maior a
queda”.

(3) “A loucura é um surto que se dá no bom senso, que deixa de ser ativo e com isto a
lucidez se perde e quem toma conta das ações é sempre esse monstro que temos contido
dentro de cada um.
Um dia esse monstro cresce, cresce e na euforia de ser livre, faz atos contra a
natureza, em si próprio e de quem estiver na sua rota, por infelicidade. Mostra que todos
os valores que são impostos pela educação e pela civilização que molda o homem de
acordo com suas leis tão diversas nesta adversidade humana, não influem na sua maneira
de ser. Ele é livre.
Esse monstro de vez em quando foge do controle adotado pela conveniência do
medo e do castigo que são impostos. E assim, ambas as partes ficam castigadas e muitas
vezes detidas em ambientes tenebrosos de maus tratos, agonia e sem compreensão. A
ciência e as leis humanas não conseguem distinguir, infelizmente, esse desmembramento
do ser humano. Qualquer um está sujeito a este estado. O ser humano quando acontece
essa divisão, não percebe quando e porque acontece. Para dizer a verdade, nem percebe
essas mudanças. Só quando ele se esconde e a lucidez supera a sua força que se vê os
estragos causados sem a devida vontade.
Nem sempre a lucidez e nem sempre esse monstro. Às vezes os dois suavemente
convivem sem se maltratarem entre si. Quando se está lúcido, consegue fingir "estado
natural", mas não é feliz, pela máscara que cada um se esconde. Quando em crise, depois
de fazer suas "maldades" em atos ou palavras, que às vezes não são suficientes, não o
satisfaz. Está sempre à espreita esperando outra oportunidade para satisfazer seus desejos.
Esses desejos não são apenas para fazer o mal por si só, mas para punir aquilo que dentro
de si o faz amargo. São suas dores, recalques, mágoas que para se livrar ou adormecê-lo é
necessário devido tratamento. Por isto a sua tentativa de permanecer escondido para
assaltar a lucidez. Algumas características dele, do monstro, quando está tentando
submergir, são a euforia, as palavras ferinas, os ódios infundados e depois se caso ele for
realmente forte, os atos destrutivos, provocando dores e sofrimentos a quem estiver na
sua frente. Por isto aquele velho ditado: ‘Conheça-se a si mesmo’.
Ser moeda de dois lados são características do ser imperfeito e infeliz. Essa foi a
herança deixada para a humanidade inteira. Com superação constante desse lado, talvez a
sua extinção, os homens que se conhecerão mais humanos, serão aqueles que se amarem
e se respeitarem. Não acredito que aja semelhante assim. A grande maioria se esconde
atrás de uma máscara, na ilusão que nunca serão descobertos. Alguns não precisam lutar
com todas as armas possíveis. Outros, a sua lucidez é dominada por muito mais tempo,
por esse monstro que habita dentro de si como dois irmãos. Abel e Caim. Prontos para na
primeira oportunidade assaltar e permanecer inconseqüente na sua inconsciência de
vingança e dor.
A loucura pode ser uma fuga, pode ser uma deficiência mental e pode ser o
desamparo de si mesmo. Como controlar algo interno? Com que armas abater esse
monstro insatisfeito e infeliz que habita o ser? Como garantir a plena lucidez?
Deixo essas perguntas para serem respondidas pelo Doutor”.
228

PRODUÇÃO DE ESTER

A seguir, um dos poemas de Ester.

NOITES TRISTES

Noites tristes e escuras


De anjos com suas asas alvas
Que passo neste quarto reclusa
Imóveis, sorrindo desconhecidos
Vendo por entre frestas, a madrugada
Quero virar um fantasma
Em festa, ao concerto dos passarinhos.
Da minha dor sem limites.
Que dias compridos e tristes
Sem corpo ou dor na alma
Esses que passo reclusa,
Chega, chega da vida reclusa
Muda, amarrada tendo por companhia
Sem o brilho, sem alegria
O sopro dos ventos em silvos
E a juventude que clama
Constantes e cortantes
Dentro do peito, pelas asas
Contando histórias tristes
Abertas, lindas voando em liberdade.
Nunca igual, sempre sofrida.
Ester.
Olhando o teto tão alto
Vejo os desenhos esculpidos

PRODUÇÃO DE MARIANA

Em continuidade, exemplo transcrito de um diálogo nosso com Mariana, Inner Self


Helper exclusivo de Ester. A atuação dela está vinculada somente com esta alter.

Pesquisador: Olá Sra. Mariana: Recentemente Ester emergiu. Teve reações extremadas. Ora
estava dócil, ora profundamente irritada. Poderia me explicar as razões?

Mariana: Meu jovem Doutor: Ester está com as emoções em tratamento. Essas alternâncias são
normais quando se está reorganizando um arquivo íntimo. Muitas vezes não são possíveis
controlá-las. Tenha paciência. É a necessidade de se sentir amada e aceita. Quando isto for
sanado, quem sabe, poderá se transformar em uma personalidade estável em seus sentimentos?

Pesquisador: Ester emergiu espontaneamente. Confidenciou-me estar fazendo uso do Chat


(Internet), interagindo-se com pessoas e divertindo-se com elas. Qual a razão dessa necessidade?

Mariana: Essas emersões são as oportunidades onde ela se sente livre para brincar. Mesmo
estando emocionalmente doente, inconscientemente, no fundo Ester deseja e sabe que irá
encontrar o grande amor da vida dela quando estiver equilibrada. É essa a esperança que mantém
sua vida, apesar de que é nessa idade (17 anos) que o vício do suicídio tem maior força contra a
sua vontade. É um tipo de diversão, mas não se preocupe. O maior perigo ela corre quando fica
sedada e indefesa.
229

Pesquisador: Em seguida Ester queixou-se de dores no coração. Disse-me achar ser devido aos
remédios e seus efeitos colaterais. Solicitei que deitasse no estrado. Concordou docilmente.
Percebi que o braço esquerdo dela tombou, parecendo estar à mercê de algum tipo de transfusão
ou medicamento intravenoso, o qual ela me confirmou. Principiou sentir sono. Adormeceu.

Mariana: Trata-se de um tratamento específico que preparamos para ela. Não se preocupe.
Depois falaremos mais...

Pesquisador: Caroline retornou em seguida. Nada sentia em termos de alterações fisiológicas.


Assim como estava bem antes da emersão de Ester, continuou bem quando da imersão dela.
Interessante notar que, desta vez, não aconteceu nenhum tipo de reflexo psíquico-orgânico
(sintomatológico) na personalidade-organismo de Caroline.

Mariana: Tudo está correndo normalmente. Não se preocupe. Estamos na supervisão. Meus
cumprimentos pela conduta tomada. Nós estamos contentes com o seu progresso. Continue
estudando, mas tendo o bom senso de não exagerar. No momento tenho que ir...
Deus te abençoe. Mariana.

PRODUÇÃO DE SUPERVISOR

Com a finalidade de melhor exemplificarmos o que é, realmente, um Inner Self Helper


atuante, que auxilia o profissional de forma direta e global num caso de personalidade múltipla,
agindo também como um professor, registramos a seguir, integralmente, uma fala da
personalidade Supervisor obtida em sessão clínica quando Carolina estava em processo de
dissociação espontânea.

“Meu prezado Doutor,


Tente compreender a desfragmentação da alma para obter a sua cura.
Procure se instruir, buscar cientistas que já comprovaram essa teoria que hoje ainda é
muito pouca conhecida. Chegará o dia que tudo será mais fácil de identificar. Muitas doenças são
diagnosticadas erradamente. Encontrarão recursos técnicos para saná-las, desmistificando a
loucura, a esquizofrenia, a psicose e outras determinações que vão surgindo com causa não
identificada.
Afirmo que o senhor está no caminho certo, apesar de que, mesmo a teoria não está tão
convicta de um processo mais profundo. Este é o seu dever. Aprofundar nos estudos porque tem
em mãos um belo material para estudo, para o seu esclarecimento e para a futura divulgação,
tendo chegado ao final feliz ou não. Esperamos que seja positivo.
Não se perturbe se caso ouvir críticas, é natural a crítica. Principalmente quando se
quebram paradigmas. Conheça a base e siga em frente. Estamos ao seu lado no controle da
terapia, que neste caso é profundamente necessária. Use os recursos que estiver à mão. Deixo as
informações das principais alters, e quando necessário, estarei presente para algumas
modificações. A confiança tem que ser recíproca.
230

No contexto de Jennifer, procure observar em suas falas, a sua realidade. Ela se reporta
de maneira que só consegue se comunicar através do sonho. É a sua maneira de se colocar em
aberto. É como deve ser tratada. É a fuga que ela tem para se expressar livremente, consciente
que está em sonhos. Assim ela se sente protegida das pessoas que a têm como propriedade, como
objeto de desejos e até de admiração. Nestes momentos ela percebe que algo sério vai ocorrer no
seu destino. Tente acalmá-la e dizer que por muito que for doloroso, tudo no final vai acabar
bem. Mas tire a impressão do sofrimento futuro. Faça-a se sentir feliz porque tem os sonhos para
desabafar e que você estará sempre à sua disposição. A confiança em você é muito importante.
Não diga que não é verdade. O primeiro passo para ela se encontrar é pensar que está normal.
Que isto está acontecendo, que a verdade está em sua mente.
Sobre Dalva, é uma graciosa senhora quando aparece como uma senhora e uma linda
jovem quando aparece como jovem. Educação aprimorada, desenvolvida em sua psique, com
grande força mental. E outras qualidades que você irá descobrir com o tempo. Não se assuste.
Tem histórias interessantes, da época que se diz reportar. Converse com ela mostrando interesse
nos assuntos trazidos.
Jane. Uma alter agradável que tem seus conflitos sobre os desníveis sociais que enfrenta.
Mas é uma pessoa extremamente sonhadora e feliz. Sonha acordada embaixo das grandes árvores
que rodeiam sua aldeia. Geralmente são nestas condições que ela emerge. Envolvente e
carinhosa. Ama a vida e quer continuar a ser feliz com a sua própria família quando a formar.
Mayara. É uma menina grande com grandes responsabilidades, algumas boas e outras não
tanto. Não viveu a sua infância. Oscila sempre em ser mulher, jovem ou responsável. Atitudes
conflituosas que precisa da sua compreensão para não deixá-la pior. Tem temperamentos
diversificados, necessitando de compreensão nas suas emersões.
Ester. Sofre a influência do suicídio desde pequena. Entra em crise de perturbação, e a
família a mantém reclusa e amarrada, com tratamentos rigorosos, como a sangria, escuridão e
solidão, amarrada e muitas vezes até tentativas de assassinatos, que são evitados pelo seu “anjo”,
Mariana, que fica visível à sua imaginação, sendo o seu Inner Self Helper (ISH) que deixamos ao
dispor da necessidade da menina solitária. A maior parte da sua condição é privada quase com a
totalidade da liberdade de andar pelos campos, cantar livremente as canções que ainda lembra da
sua infância, sentir o sol na sua pele clara, sem amizades verdadeiras, quase chegando à loucura
caso Mariana não administrasse seu sofrimento, salvando-a de suicídios reincidentes. Fica em
imenso aposento, com janelas altas e gradeadas. Algumas vezes ela escreve, com restos de
carvão da lareira pequena e resguardada, versos nas paredes sobre seu sofrimento. Às vezes com
algum pedaço de papel encontrado nas gavetas de antigos e pesados móveis. Ela é dona da
propriedade e isto faz com que a família se beneficie e prolongue seu estado para se beneficiar de
seus bens. Quando ela emerge, sente-se feliz, livre e risonha, sem entender o processo como se
dá. Resiste, querendo ficar. Luta para ficar e tomar o corpo de Caroline definitivamente. Essas
tentativas são constantes, às vezes imperceptíveis. Usa do meio do computador, sem que
nenhuma delas [das outras alters] perceba o processo. Tem vontade de viver, amar e sair pelo
mundo, às vezes estranhando a paisagem bem diferente da costumeira. É brincalhona quando
está feliz. Grita e chora muito quando se sente infeliz. Os cuidados sobre Caroline são de
observação constante, pois, muitas das vezes, Ester está querendo sobressair. Não se assuste. É
normal. Quem não gostaria de ser livre e feliz? Seu tratamento continuará por algum tempo, mais
que os outros. Ela está doente”.
231

ANEXO 3

Escala de Experiências
Dissociativas - DES
232

DES
(Dissociative Experiences Scale)

Eve Bernstein Carlson, Ph. D. Frank W. Putnam, M. D.

INSTRUÇÕES

Este questionário consiste em vinte e oito perguntas relacionadas com


experiências que você possa ter tido (ou tem) em sua vida diária. Nós estamos
interessados em quão freqüentemente você tem essas experiências. Entretanto, é
importante que suas respostas mostrem com que freqüência elas ocorrem com você
quando isento de influências de álcool ou drogas.

Para responder, determine que grau a experiência descrita em cada pergunta


se aplica a você. Circule o número escolhido para identificar que porcentagem de
tempo (ou de vezes) a experiência mencionada acontece com você.

Exemplo:

0% 10 20 30 40 50 60 70 80 90 100%
Nunca Sempre

Domínio Público. Sem copyright.


233

Data: ___ / ___/ _____ Idade: _______ Sexo: M F ______

1- Algumas pessoas têm a experiência de dirigir ou andar de carro, de ônibus, de metrô, etc. e, de
repente, percebem que não se lembram do que aconteceu durante toda ou parte da viagem (ou do
trajeto). Circule o número que melhor representa o percentual de tempo (ou de vezes) que isso
ocorre com você.

0% 10 20 30 40 50 60 70 80 90 100%

2- Ocasionalmente, algumas pessoas, quando conversando com alguém percebem de forma


repentina, que não ouviram toda a conversa ou parte do que foi dito durante o diálogo. Circule o
número que melhor representa o percentual de tempo (ou de vezes) que isso ocorre com você.

0% 10 20 30 40 50 60 70 80 90 100%

3- Algumas pessoas têm a experiência de se acharem em determinados lugares e não terem nenhuma
idéia de como lá chegaram. Circule o número que melhor representa o percentual de tempo (ou de
vezes) que isso ocorre com você.

0% 10 20 30 40 50 60 70 80 90 100%

4- Algumas pessoas têm a experiência de se encontrarem vestidas com roupas que não se lembram
de tê-las vestido. Circule o número que melhor representa o percentual de tempo (ou de vezes)
que isso ocorre com você.

0% 10 20 30 40 50 60 70 80 90 100%

5- Algumas pessoas têm a experiência de acharem coisas ou objetos novos entre os seus pertences,
porém, não se recordam de tê-los comprado. Circule o número que melhor representa o
percentual de tempo (ou de vezes) que isso ocorre com você.

0% 10 20 30 40 50 60 70 80 90 100%

6- Às vezes, alguns indivíduos são abordados por pessoas desconhecidas que os chamam por nomes
diferentes ou, que insistem em tê-los conhecido anteriormente. Circule o número que melhor
representa o percentual de tempo (ou de vezes) que isso ocorre com você.

0% 10 20 30 40 50 60 70 80 90 100%

7- Ocasionalmente, algumas pessoas têm a experiência de se sentirem paradas diante delas mesmas,
ou assistindo a elas mesmas fazendo alguma coisa e, em verdade, elas se vêem como se
estivessem olhando para outra pessoa. Circule o número que melhor representa o percentual de
tempo (ou de vezes) que isso ocorre com você.

0% 10 20 30 40 50 60 70 80 90 100%

8- Às vezes, é dito para algumas pessoas que elas não reconhecem amigos ou membros de sua
família. Circule o número que melhor representa o percentual de tempo (ou de vezes) que isso
ocorre com você.

0% 10 20 30 40 50 60 70 80 90 100%
234

9- Algumas pessoas acham que não possuem registros de memória (ou lembranças) de alguns
eventos importantes de suas vidas (por exemplo, um casamento, uma formatura, etc.). Circule o
número que melhor representa o percentual de tempo (ou de vezes) que isso ocorre com você.

0% 10 20 30 40 50 60 70 80 90 100%

10- Algumas pessoas têm a experiência de serem acusadas de mentir quando não pensaram que
mentiram. Circule o número que melhor representa o percentual de tempo (ou de vezes) que isso
ocorre com você.

0% 10 20 30 40 50 60 70 80 90 100%

11- Algumas pessoas têm a experiência de se olharem num espelho e não se reconhecerem ou se
verem com fisionomias diferentes. Circule o número que melhor representa o percentual de
tempo (ou de vezes) que isso ocorre com você.

0% 10 20 30 40 50 60 70 80 90 100%

12- Algumas pessoas experienciam sentir que outras pessoas, objetos e o mundo ao seu redor não são
reais. Circule o número que melhor representa o percentual de tempo (ou de vezes) que isso
ocorre com você.

0% 10 20 30 40 50 60 70 80 90 100%

13- Algumas pessoas experienciam sentir que o corpo delas parece não pertencer a elas mesmas.
Circule o número que melhor representa o percentual de tempo (ou de vezes) que isso ocorre com
você.

0% 10 20 30 40 50 60 70 80 90 100%

14- Ocasionalmente, algumas pessoas experienciam lembrar tão fortemente de um evento passado
que elas se sentem como se estivessem revivendo aquele evento. Circule o número que melhor
representa o percentual de tempo (ou de vezes) que isso ocorre com você.

0% 10 20 30 40 50 60 70 80 90 100%

15- Algumas pessoas experienciam não estar seguras se coisas que elas realmente se lembram
aconteceram ou se somente sonharam com elas acontecendo. Circule o número que melhor
representa o percentual de tempo (ou de vezes) que isso ocorre com você.

0% 10 20 30 40 50 60 70 80 90 100%

16- Algumas pessoas experienciam estar em um lugar familiar, porém, acham esse mesmo lugar
estranho e pouco familiar. Circule o número que melhor representa o percentual de tempo (ou de
vezes) que isso ocorre com você.

0% 10 20 30 40 50 60 70 80 90 100%

17- Algumas pessoas, quando assistindo televisão, ou a um filme no cinema, ou quando lendo um
livro, tornam-se tão envolvidas com a história a ponto de ficarem completamente desligadas de
235

outros eventos que possam estar acontecendo ao seu redor. Circule o número que melhor
representa o percentual de tempo (ou de vezes) que isso ocorre com você.

0% 10 20 30 40 50 60 70 80 90 100%

18- Algumas pessoas se tornam tão envolvidas em fantasias ou imaginações a ponto de sentirem que
essas fantasias ou imaginações estão, realmente, acontecendo com elas. Circule o número que
melhor representa o percentual de tempo (ou de vezes) que isso ocorre com você.

0% 10 20 30 40 50 60 70 80 90 100%

19- Ocasionalmente, algumas pessoas notam que são capazes de ignorar algum tipo de dor. Circule o
número que melhor representa o percentual de tempo (ou de vezes) que isso ocorre com você.

0% 10 20 30 40 50 60 70 80 90 100%

20- Às vezes, algumas pessoas ficam a contemplar o céu, sem pensar em nada, não tendo consciência
do tempo ou não percebendo o transcorrer das horas. Circule o número que melhor representa o
percentual de tempo (ou de vezes) que isso ocorre com você.

0% 10 20 30 40 50 60 70 80 90 100%

21- Ocasionalmente, algumas pessoas acham que, quando sozinhas, conversam com elas mesmas em
voz alta ou de maneira intensa, sendo tais conversas lindas ou horrorosas. Circule o número que
melhor representa o percentual de tempo (ou de vezes) que isso ocorre com você.

0% 10 20 30 40 50 60 70 80 90 100%

22- Algumas pessoas acham que em determinada situação poderiam ter agido de forma tão diferente
quando em comparação a uma outra situação similar, a ponto de quase se sentirem como se
fossem duas pessoas diferentes. Circule o número que melhor representa o percentual de tempo
(ou de vezes) que isso ocorre com você.

0% 10 20 30 40 50 60 70 80 90 100%

23- Às vezes, algumas pessoas acham que, em certas situações, são capazes de fazer coisas com
surpreendente facilidade e espontaneidade que normalmente seria difícil para elas fazerem (por
exemplo, esporte, trabalho, situações sociais, etc.). Circule o número que melhor representa o
percentual de tempo (ou de vezes) que isso ocorre com você.

0% 10 20 30 40 50 60 70 80 90 100%

24- Às vezes, algumas pessoas acham que não conseguem lembrar se fizeram alguma coisa ou se
somente pensaram em fazer tal coisa (por exemplo, não sabem se enviaram uma carta no correio
ou se somente pensaram em enviá-la). Circule o número que melhor representa o percentual de
tempo (ou de vezes) que isso ocorre com você.

0% 10 20 30 40 50 60 70 80 90 100%
236

25- Algumas pessoas encontram evidências de terem feito coisas que não se lembram de tê-las feito.
Circule o número que melhor representa o percentual de tempo (ou de vezes) que isso ocorre com
você.

0% 10 20 30 40 50 60 70 80 90 100%

26- Ocasionalmente, algumas pessoas encontram escritos, anotações ou desenhos entre os seus
pertences, que deveriam ter sido feitos por elas, mas não se recordam de tê-los feito. Circule o
número que melhor representa o percentual de tempo (ou de vezes) que isso ocorre com você.

0% 10 20 30 40 50 60 70 80 90 100%

27- Às vezes, algumas pessoas percebem ouvir vozes dentro da sua cabeça dizendo para fazerem
determinadas coisas ou recebendo comentários sobre coisas que elas estejam fazendo. Circule o
número que melhor representa o percentual de tempo (ou de vezes) que isso ocorre com você.

0% 10 20 30 40 50 60 70 80 90 100%

28- Ocasionalmente, algumas pessoas sentem como se estivessem enxergando o mundo através de
uma névoa, de forma que as outras pessoas e os objetos aparecem distantes ou obscuros. Circule o
número que melhor representa o percentual de tempo (ou de vezes) que isso ocorre com você.

0% 10 20 30 40 50 60 70 80 90 100%
237

ANEXO 4

Entrevista
Semi-Estruturada
(SCID-D Adaptada)
238

A) AMNÉSIA

1- Você alguma vez sentiu como se houvesse grandes “gaps” (intervalos) em sua memória?
a. Descreva como foi a experiência?
b. O que faz você ter consciência desses “gaps”?
c. Com que freqüência isso acontece?

2- Há horas ou dias que parecem perdidos ou que você parece não perceber?
a. Por exemplo, vai de 6ª feira para 2ª feira sem a lembrança do sábado e do
domingo?
b. Com que freqüência isso acontece?
c. Qual a periodicidade mais longa que você já esteve ausente?

3- Há períodos em sua vida em que você sente dificuldade de se lembrar de suas atividades
diárias?
a. Se sim, poderia descrever essa dificuldade?
b. Com que freqüência isso acontece?

4- Você alguma vez se encontrou em um determinado lugar e não conseguiu se lembrar


como foi até lá ou como esteve lá?
a. Se sim, poderia descrever o que aconteceu e onde você se encontrava?
b. Com que freqüência isso acontece?

5- Você já se viu, inesperadamente, longe de sua casa (por exemplo: viajando) e não
conseguiu se lembrar o que ocorreu antes disso?
a. Se sim, poderia descrever o que aconteceu? Onde você se encontrava?
b. Que aspecto pretérito você foi incapaz de se lembrar?
c. Com que freqüência isso acontece?
d. Você tinha consciência ou algum motivo para viajar?

6- Você alguma vez se achou longe de casa não podendo se lembrar quem era?
a. Se sim, poderia descrever o que aconteceu e onde você se encontrava?
b. Com que freqüência isso acontece?

7- Você alguma vez não conseguiu se lembrar seu nome, idade, endereço, ou qualquer outra
informação pessoal importante?
a. Qual informação você se esqueceu?
b. Durante esse período, você procurou um médico? O que ele disse?
c. Com que freqüência isso acontece?

B) DESPERSONALIZAÇÃO

8- Já se sentiu como se estivesse assistindo você mesma de fora de seu próprio corpo?
a. Como se estivesse se vendo de longe (ou assistindo a um filme sobre si mesma)?
b. Descreva como foi a experiência?
c. Com que freqüência isso acontece?
239

9- Você alguma vez teve o sentimento de ser estranha a si mesma?


a. Como foi a experiência?
b. Com que freqüência acontece?

10- Você alguma vez se sentiu como se uma parte de seu corpo, ou o seu corpo inteiro, fosse
estrangeiro a você?
a. Como foi a experiência?
b. Com que freqüência acontece?

11- Você alguma vez sentiu que parte de seu corpo estava desconectada (separada) do
restante do seu corpo?
a. Como foi a experiência?
b. Com que freqüência isso acontece?

12- Você alguma vez se sentiu como se parte de seu corpo, ou o seu corpo inteiro,
desaparecesse?
a. Como foi a experiência?
b. Com que freqüência isso acontece?

13- Você alguma vez se sentiu como se partes de seu corpo ou o seu ser integral fossem
irreais?
a. Como foi a experiência?
b. Com que freqüência isso acontece?

14- Você alguma vez se sentiu como se fosse duas pessoas diferentes?
a. Como foi a experiência?
b. Com que freqüência isso acontece?

C) DESREALIZAÇÃO

15- Você alguma vez se sentiu como se ambientes familiares ou pessoas que você conhece
parecessem pouco conhecidas ou irreais?
a. Como foi a experiência?
b. Com que freqüência isso acontece?

16- Você alguma vez se sentiu como se seus ambientes ou outras pessoas estivessem
diminuindo (ou desaparecendo)?
a. Como foi a experiência?
b. Com que freqüência isso acontece?

17- Você alguma vez não pôde reconhecer amigos íntimos, parentes, ou sua própria casa?
a. Como foi a experiência?
b. Com que freqüência isso acontece?

18- Você alguma vez se sentiu como se amigos íntimos, parentes ou a sua própria casa
parecessem estranhos?
240

a. Como foi a experiência?


b. Com que freqüência isso acontece?

D) CONFUSÃO DE IDENTIDADE

19- Você alguma vez se sentiu como se houvesse uma luta acontecendo dentro de você, sobre
quem você é?
a. Como foi a experiência? Poderia descrever essa luta?
b. Com que freqüência isso acontece?

20- Você alguma vez se sentiu confusa sobre quem você é?


a. Como foi a experiência? Poderia descrever essa confusão?
b. Com que freqüência isso acontece?

E) ALTERAÇÃO DE IDENTIDADE

21- Você alguma vez se sentiu como se ainda fosse, ou se achou agindo como se ainda fosse,
uma criança?
a. Como foi a experiência?
b. Com que freqüência isso acontece?

22- Você alguma vez agiu como se fosse uma pessoa completamente diferente?
a. Como foi a experiência?
b. Quando isso ocorreu?

23- Você alguma vez se referiu a si mesma (ou outras pessoas lhe disseram que você se
referiu a si mesma) fazendo uso de nomes diferentes?
a. Quais eram e como você adquiriu esses nomes?
b. Quando tomou consciência que estava usando esses nomes?
c. Quando foi a primeira vez que isso aconteceu e como foi a experiência?
d. Com que freqüência isso acontece?

24- Outras pessoas se referem a você fazendo uso de nomes diferentes?


a. Que nomes são esses?
b. Com que freqüência isso acontece?

25- Você alguma vez achou pertences que pareciam ser seus, mas que, em verdade, não se
lembra como os adquiriu?
a. Que pertences eram esses?
b. Com que freqüência isso acontece?

26- Você alguma vez se sentiu como se estivesse possuída (comandada ou controlada)?
a. Possuída, comandada ou controlada por quem?
b. Como foi a experiência?
c. Quando isso aconteceu?
241

ANEXO 5

Parecer da Dra. Sonia Hueb


1ª aplicação do Pfister
242