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1CDA62EC
Nº 247204/2015 – ASJCIV/SAJ/PGR
Recurso Extraordinário 851108 – SP

Documento assinado digitalmente por RODRIGO JANOT MONTEIRO DE BARROS, em 01/12/2015 18:48. Para verificar a assinatura acesse
Relator: Ministro Dias Toffoli
Recorrente: Estado de São Paulo
Recorrida: Vanessa Regina Andreatta

RECURSO EXTRAORDINÁRIO. TRIBUTÁRIO. REPER-


CUSSÃO GERAL. TEMA 825. ITCMD. SITUAÇÕES COM
CONEXÃO INTERNACIONAL. LEI COMPLEMENTAR
PRÉVIA. NECESSIDADE IMPERATIVA. COMPETÊNCIA
PLENA DOS ESTADOS. EXERCÍCIO IMEDIATO.
IMPOSSIBILIDADE. DESPROVIMENTO DO RECURSO.
1 – Tese de Repercussão Geral (Tema 825): não é
permitido aos Estados-Membros fazer uso de competência
legislativa plena, com fulcro no art. 24, § 3º, da Constituição
e no art. 34, § 3º, do ADCT, ante a omissão do legislador
nacional em estabelecer as normas gerais pertinentes à com-
petência para instituir o Imposto sobre Transmissão Causa
Mortis ou Doação de quaisquer Bens ou Direitos
(ITCMD), nas hipóteses previstas no art. 155, § 1º, III, “a” e
“b”, da Lei Maior, pois imprescindível a edição prévia de lei
complementar, considerados seu papel especial na atribuição
da competência tributária, o patente risco de bitributação
internacional e a baixa densidade normativa da previsão
constitucional.
2 – Parecer pelo desprovimento do recurso extraordiná-
rio.

Trata-se de recurso extraordinário representativo do Tema


825 da Repercussão Geral: possibilidade de os Estados-Membros
fazerem uso de sua competência legislativa plena, com fulcro no
art. 24, § 3º, da Constituição e no art. 34, § 3º, do ADCT, ante a
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omissão do legislador nacional em estabelecer as normas gerais

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pertinentes à competência para instituir o Imposto sobre Transmis-
são Causa Mortis ou Doação de quaisquer Bens ou Direitos
(ITCMD), nas hipóteses previstas no art. 155, § 1º, III, “a” e “b”,

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da Lei Maior.

A irresignação da Fazenda do Estado de São Paulo, calcada


no art. 102, III, alínea “a”, da Carta Magna, volta-se contra acórdão
do Tribunal Estadual que manteve o deferimento da ordem pleite-
ada em mandado de segurança por Vanessa Regina Andreatta, afas-
tada a incidência do Imposto sobre a Transmissão de Bens Causa
Mortis (ITCMD) em relação a apartamento herdado pela impe-
trante, sito na cidade italiana de Treviso, e certa quantia em euros.
Eis a ementa do julgado:

MANDADO DE SEGURANÇA – ADEQUAÇÃO. Evidenciada docu-


mentalmente a questão de fato, adequada a via mandamental.
Existência de direito líquido e certo é matéria de mérito.
Preliminar afastada.
ITCMD. Incidência sobre doação de bem imóvel localizado
no exterior. Descabimento. Exigência constitucional de lei
complementar (art. 155, § 1º, III) ainda não editada. Omissão
legislativa que não pode ser suprida pelos Estados-Membros.
Precedentes. Recursos não providos.

Alega o ente público violação aos arts. 155, I, § 1º, II e III,


“b”, e 24, I, § 3º, da Constituição e ao art. 34, §§ 3º e 4º, do Ato
das Disposições Constitucionais Transitórias. Afirma possuir com-
petência plena para instituir o tributo questionado e as respectivas

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regras de incidência, dado inexistir a referida lei complementar, a

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quem caberia apenas a definição de normas gerais sobre a matéria.

Em contrarrazões, alega a recorrida a inconstitucionalidade


do art. 4º, I, alínea “a”, e II, alínea “b”, da Lei Estadual

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10.705/2000, replicado no Decreto 46.655/2002, já que teria
usurpado a competência federal exclusiva para a edição da lei
complementar sobre a instituição da exação nas hipóteses com co-
nexão internacional, não estando abrangida pela autorização para a
produção de normas supletivas pelos Estados. Entendimento con-
trário, consoante defende, autorizaria que lei ordinária estadual
exercesse o papel de lei complementar nacional, o que não se coa-
dunaria com o desenho constitucional.

Submetido o feito ao Plenário Virtual, foi reconhecida a re-


percussão geral, em pronunciamento assim sintetizado:

RECURSO EXTRAORDINÁRIO. REPERCUSSÃO GERAL. ITCMD.


BENS LOCALIZADOS NO EXTERIOR. ARTIGO 155, § 1º, III, LETRAS
“A” E “B”, DA CONSTITUIÇÃO FEDERAL. LEI COMPLEMENTAR.
NORMAS GERAIS. COMPETÊNCIA PARA INSTITUIÇÃO. É de se defi-
nir, nas hipóteses previstas no art. 155, § 1º, III, letras “a” e
“b”, da Constituição, se, ante a omissão do legislador nacio-
nal em estabelecer as normas gerais pertinentes à competên-
cia para instituir imposto sobre transmissão causa mortis ou
doação de quaisquer bens ou direitos (ITCMD), os Estados-
-Membros podem fazer uso de sua competência legislativa
plena com fulcro no art. 24, § 3º, da Constituição e no art.
34, § 3º, do ADCT.

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Vieram, então, os autos à Procuradoria-Geral da República

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para manifestação.

Esses, em síntese, são os fatos de interesse.

O recurso não merece provimento.

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Inicialmente, cumpre destacar qual o contexto da previsão
constitucional da edição de lei complementar sobre a temática ora
em debate. Eis o disposto no art. 155, § 1º:

Art. 155. Compete aos Estados e ao Distrito Federal instituir


impostos sobre:
I – transmissão causa mortis e doação, de quaisquer bens ou
direitos;
[…].
§ 1º O imposto previsto no inciso I:
I – relativamente a bens imóveis e respectivos direitos, com-
pete ao Estado da situação do bem, ou ao Distrito Federal;
II – relativamente a bens móveis, títulos e créditos, compete
ao Estado onde se processar o inventário ou arrolamento, ou
tiver domicílio o doador, ou ao Distrito Federal;
III – terá competência para sua instituição regulada por lei
complementar:
a) se o doador tiver domicílio ou residência no exterior;
b) se o de cujus possuía bens, era residente ou domiciliado
ou teve o seu inventário processado no exterior; [...]

Cuidadosamente, o constituinte distinguiu as situações em


que desde logo decidiu pela distribuição da competência de cons-
tituição da exação – adotando como critério de partição a situação
do bem (inciso I) ou o local do inventário ou domicílio (II) – da-

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queles em que, por se estar diante de um fato plurilocalizado, seria

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mister a edição de legislação especial para a devida atribuição de
competências.

Nesse contexto, a lei complementar aqui prevista diverge da

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previsão comum de normas gerais de caráter tributário, contida no
art. 146 da Carta Magna e que viabiliza o acionamento, por parte
dos Estados, do art. 24, § 3º, do Texto Maior. Isso porque não pres-
cinde o exercício dessa competência de sua devida distribuição,
por meio de lei de caráter nacional que evite perniciosa redundân-
cia no estabelecimento da exação entre diferentes unidades federa-
tivas.

O sistema tributário delineado em 1988 é avesso à bitributa-


ção a tal ponto que contempla expressamente vedação à criação de
novos impostos com fato gerador ou base de cálculo próprios dos
já constitucionalmente previstos (art. 154, inciso I) e ordena a edi-
ção de lei complementar para dispor sobre conflitos em matéria
tributária. Essa moldura conduz à possibilidade de a União legislar
de forma concorrente, sobre normas gerais, no tocante a tributos
de competência estadual e municipal, para manter o mínimo de
coerência do sistema, emprestando aqui seu aparato legislativo para
a construção de leis nacionais uniformizadoras.

Não deixa de ser verdade, porém, que assumiu o constituinte,


quando contemplou os Estados com a previsão do art. 24, § 3º, o

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risco natural de certas sobreposições enquanto houvesse mora le-

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gislativa federal.

Ocorre que, especificamente no tocante ao ITCMD nas hi-


póteses plurilocalizadas, houve a preocupação de ampliar o papel

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tradicional da lei complementar, dando-lhe incumbência maior do
que apenas dirimir potenciais conflitos.

Tal situação explica-se facilmente pelo contexto envolvido:


trata-se não só das tensões naturais resultante do fracionamento de
soberania na Federação, mas também do conflito com outras sobe-
ranias. A conexão internacional das aludidas hipóteses de incidên-
cia conduz à necessidade de uma diferenciada lei nacional,
preocupada em lidar com as áreas cinzentas de incidência da exa-
ção nos âmbitos interno e externo.

Assim, não podem os Estados valer-se de suposta competên-


cia plena nessas situações, sob pena de autorizar-se fragmentação
legislativa em contexto já reconhecido pela Constituição como
complexo, indo de encontro ao sistema tributário nela delineado.

Subsiste, ainda, um segundo argumento: a baixa densidade


normativa da previsão do tributo no referido dispositivo.

Em casos análogos, a necessidade de prévia lei complementar


já foi reconhecida pela Corte Suprema, notadamente quando dos
debates sobre o extinto Adicional Estadual do Imposto sobre a
Renda. No julgamento do Recurso Extraordinário 136.215 –

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exatamente em razão dos inafastáveis riscos resultantes dos confli-

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tos de competência entre entes tributantes, dada a dificuldade de
definir-se a quem caberia o referido tributo – a Corte Suprema
veio a assentar a necessidade da prévia legislação.

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Configurou-se, a exemplo do presente caso, situação que le-
vava à possibilidade de uma adoção de múltiplos fatores como re-
ferenciais para o recolhimento dos tributos, calcada principalmente
na dificuldade de definição do domicílio dos contribuintes. Assim,
distingue-se a situação do ITCMD da de outras exações, como o
Imposto sobre a Propriedade de Veículos Automotores (IPVA), em
que, como já afirmei por ocasião do parecer no paradigma do
Tema 708 da Repercussão Geral, oferece o constituinte o norte a
ser adotado para a imposição pecuniária: o local do licenciamento.

Resta aos Estados, portanto, valer-se do extenso arsenal de


controle da omissão inconstitucional para buscar a edição do di-
ploma legislativo, solução que equaciona a questão sem importar
em desequilíbrio deletério ao sistema tributário nacional.

Ante o exposto, o parecer da Procuradoria-Geral da Repú-


blica é pelo desprovimento do recurso extraordinário, mantida a
declaração de inconstitucionalidade da legislação estadual.

Por fim, considerada a sistemática da repercussão geral e os


efeitos do presente julgamento em relação aos demais casos que

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tratem ou venham a tratar do Tema 825, propõe a Procura-

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doria-Geral da República a fixação da seguinte tese:

Não é permitido aos Estados-Membros fazer uso de compe-


tência legislativa plena, com fulcro no art. 24, § 3º, da Constituição

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em estabelecer as normas gerais pertinentes à competência para
instituir o Imposto sobre Transmissão Causa Mortis ou Doação de
quaisquer Bens ou Direitos (ITCMD), nas hipóteses previstas no
art. 155, § 1º, III, “a” e “b”, da Lei Maior, pois imprescindível a
edição prévia de lei complementar, considerados seu papel especial
na atribuição da competência tributária, o patente risco de bitri-
butação internacional e a baixa densidade normativa da previsão
constitucional.

Brasília (DF), 27 de novembro de 2015.

Rodrigo Janot Monteiro de Barros


Procurador-Geral da República

JCCR/LCF