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CONTAGEM DOS PRAZOS PARA

PAGAMENTO NO CUMPRIMENTO DE
SENTENÇA E NA EXECUÇÃO

1. PRAZO MATERIAL E PRAZO PROCESSUAL

§1.º Geralmente, a doutrina leciona ser processual aquele prazo que, previsto na lei processual,
destina-se a regular a prática de atos no processo. As consequências do respeito ou do desrespeito
aos balizamentos trazidos nesta modalidade de prazos dizem respeito, prioritariamente, ao
processo. À guisa de exemplo, pode-se listar como prazos indubitavelmente processuais os
seguintes: prazo para contestar; prazo para recorrer; prazo para se manifestar sobre documentos e
provas em geral etc.

§2.º Lado outro, a doutrina costuma adotar um critério de definição negativo para os prazos
materiais, ou seja, define-se prazo material como todo aquele que não é processual. Essa definição é
demasiadamente falha e incorre em equívocos claros de metodologia científica. Porém, é acolhida
por grande parte da doutrina e jurisprudência pátria. A ilustrar, sugerem-se materiais os prazos
prescricionais, decadenciais etc.

§3.º A contagem dos prazos processuais, após a vigência do CPC/2015, dá-se na forma regulada
pelo art. 219: “Na contagem de prazo em dias, estabelecido por lei ou pelo juiz, computar-se-ão somente os dias
úteis. Parágrafo único. O disposto neste artigo aplica-se somente aos prazos processuais”.

§4.º Já a contagem dos prazos materiais segue os parâmetros eleitos no art. 132, caput, do
CC/2002: “Salvo disposição legal ou convencional em contrário, computam- se os prazos, excluído o dia do começo,
e incluído o do vencimento”.

§5.º Eis o problema: da leitura dos dispositivos acima, bem como da análise dos ensinamentos
doutrinários a respeito do tema, não é possível concluir, com segurança, qual é a natureza dos
prazos para pagamento dispostos na legislação processual (v.g., art. 523 do CPC/2015 e art. 829 do
CPC/2015). Busca-se, pois, apontar qual é o estado da arte com relação ao tema: os prazos para
pagamento são processuais, contando-se tão somente em dias úteis; ou materiais, computando-se em dias corridos? É
o que se investigará.
2. O ATUAL CENÁRIO DA DISCUSSÃO ACERCA DA NATUREZA DO
PRAZO PARA PAGAMENTO NO PROCESSO DE EXECUÇÃO “LATO
SENSU”

§6.º Chama-se de processo de execução lato sensu o módulo processual destinado a dar a quem
tem direito tudo aquilo a que faz jus na exata medida de seu direito. É a fase de realização do direito
consolidado no título executivo, seja ele judicial (cumprimento de sentença), seja ele extrajudicial
(execução stricto sensu).

§7.º No art. 523, caput, do CPC/2015 há a seguinte previsão: “[n]o caso de condenação em quantia
certa, ou já fixada em liquidação, e no caso de decisão sobre parcela incontroversa, o cumprimento definitivo da
sentença far-se-á a requerimento do exequente, sendo o executado intimado para pagar o débito, no prazo de 15
(quinze) dias, acrescido de custas, se houver”. Já o art. 829 do codex enuncia: “[o] executado será citado para
pagar a dívida no prazo de 3 (três) dias, contado da citação”.

§8.º Como se nota, a leitura dos arts. 523 e 829 do CPC/2015 não fornece adminículos bastantes
para que se possa compreender a natureza do prazo ali disposto. Isso porque não há menção, nos
dispositivos, à maneira de contagem do prazo, tampouco há qualquer outro remissivo que leve o
intérprete literal a crer tratar-se de um prazo processual ou material. Deve-se, pois, progredir aos
métodos hermenêuticos mais avançados (sistemático e teleológico, em especial) sem lograr sequer
um guia mínimo, diretivo, na letra da lei.

§9.º Nessa quadra, Sérgio Shimura adverte que “a despeito de a intimação se dar na pessoa do
advogado, é certo que o ‘pagamento’ em si configura ato de natureza material, tanto que se o
executado efetuar o pagamento, depositando integralmente a divida em juízo, sem a intervenção de
seu patrono, o ato e reputado valido para fins de extinção do processo (art. 924, II)”.1 Pontua,
ademais, que “cuidando-se de prazo para ‘pagamento’, em rigor não ha atividade
preponderantemente técnica ou postulatória a exigir a presença – indispensável – do advogado.
Depende quase que exclusivamente da vontade ou situação do próprio executado”.2 Daí a razão pela
qual o jurista conclui que “a contagem do prazo de 15 dias não pode considerar apenas nos dias
úteis”.34

§10. O Superior Tribunal de Justiça, em julgado prolatado sob a égide do Código de 1973,
chegou a aduzir que “o prazo a que faz menção o art. 475-J do CPC [atual art. 523 do CPC/2015], porque diz

1 SHIMURA, Sérgio Seui. In: WAMBIER, Teresa Arruda Alvim; et al. Breves comentários ao novo Código de Processo Civil. 2 ed.
São Paulo: Revista dos Tribunais, 2016, p. 1427.
2 SHIMURA, Sérgio Seui. In: WAMBIER, Teresa Arruda Alvim; et al. Breves comentários ao novo Código de Processo Civil. 2

ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2016, p. 1427.


3 SHIMURA, Sérgio Seui. In: WAMBIER, Teresa Arruda Alvim; et al. Breves comentários ao novo Código de Processo Civil. 2

ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2016, p. 1427.


4 NEVES, Daniel Amorim Assunção. Manual de Direito Processual Civil – Volume Único. 8ª Edição – Salvador: Ed.

JusPodivm, 2016. p. 1.124; AMARAL, Guilherme Rizzo. Comentários às alterações do novo CPC. Ed. Ver, atualizada e
ampliada. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2016. P. 310; Procurar mais gente na doutrina.
respeito a pagamento e, consequentemente, extinção de obrigações, tem natureza preponderantemente (se não
exclusivamente) material, sendo imprópria, inclusive, a digressão sobre se é prazo peremptório ou dilatório”. 5

§11. Em outra margem, Cassio Scarpinella Bueno adverte que “[o] art. 523, equivalente ao art. 475-J
do CPC de 1973, prescreve que o executado, sempre a pedido do exequente (art. 513, § 1o), deve ser
intimado para pagar o débito em quinze dias – úteis, porque se trata de prazo processual (art. 219,
parágrafo único) – sob pena de multa (caput)”. Mais à frente, confirmando o entendimento de
alhures, pontifica o autor que o art. 829, caput, do CPC/2015 “reserva para o executado o prazo de
três dias úteis para paga- mento, prazo este que tem início com a própria citação e não com a
juntada, aos autos, do mandado respectivo cumprido” (BUENO, Cassio Scarpinella. Novo Código de
Processo Civil anotado, 3ª ediçãom, 3rd edição. Editora Saraiva, 2017. p. 509 e 720).6

§12. Endossando a posição de Cassio Scarpinella Bueno, o Centro de Estudos Judiciários do


Conselho da Justiça Federal, na oportunidade da I Jornada de Direito Processual Civil, aprovou
enunciado com a seguinte redação: “Conta-se em dias úteis o prazo do caput do art. 523 do CPC” (Enunciado
n. 89). A discussão da matéria foi atribuição da comissão da temática de “Execução e Cumprimento
de Sentença”, presidida pelo Ministro do STJ Ribeiro Dantas; com coordenação científica de Araken de
Assis e Eduardo Arruda Alvim; participação dos especialistas Alberto Camiña Moreira, Darci Ribeiro, Ivan
Nunes Ferreira e Patricia Miranda Pizzol; e secretariado executivo exercido por Marcos Teixeira Junior e
Otávio Augusto Buzar Perroni. Com o posicionamento cristalizado no enunciado, a I Jornada houve
claro indício de superação do entendimento até então dominante (a saber: no sentido da natureza
material do prazo), traçando novo rumo hermenêutico à discussão do tema.

§13. O Superior Tribunal de Justiça (STJ), então, no REsp 1.693.784/DF, julgado em 28.11.2017, DJe
de 05.02.2018 (Informativo de Jurisprudência do STJ n. 619), afirmou, em obter dictum, que o prazo do art.
523 do CPC/2018 é processual, merecendo, pois, contagem em dias úteis. É o que se lê no seguinte
trecho do julgado: “[t]al regra de cômputo em dobro deve incidir, inclusive, no prazo de quinze dias úteis para o
cumprimento voluntário da sentença, previsto no artigo 523 do CPC de 2015” (g.n.). Nas informações
adicionais ao referido precedente, divulgadas pela Corte da Cidadania na página de
acompanhamento processual do feito (disponível em:
http://www.stj.jus.br/SCON/jurisprudencia/toc.jsp?livre=201702101787.REG.), a mudança da
jurisprudência torna-se ainda mais sensível, confira-se: "[o] diploma de 2015 introduziu inovação ao
determinar o cômputo dos prazos processuais (contados em dias) em dias úteis, e não mais em dias corridos (artigo
219). Sob essa ótica, o lapso quinzenal para o pagamento voluntário do débito executado - uma vez considerado prazo
processual (e não material) - é contado em dias úteis, consoante atestado pela I Jornada de Direito Processual Civil
do Conselho de Justiça Federal, realizada entre os dias 24 e 25 de agosto deste ano". Na jurisprudência superior,
portanto, a questão tende a se estabilizar, malgrado a polêmica remanesça viva no meio acadêmico.

5 REsp 1205228/RJ, Rel. Ministro LUIS FELIPE SALOMÃO, QUARTA TURMA, julgado em 21/02/2013, DJe 13/03/2013. Procurar mais
julgados
6 Pesquisar mais doutrinadores com esse posicionamento.
3. DA CONCLUSÃO PROPOSITIVA

- De um lado, falar que é material criaria uma duplicidade de contagem de prazos pouco operacional
(os primeiros quinze dias, para pagar, contados em dias corridos; posteriormente, os outros quinze
dias, para impugnar, contados em dias úteis).

- mas não há como negar a natureza material

- Assim, a melhor saída seria qualificar, legalmente, o prazo como material, mas, também por lei, dar
a ele tratamento diferenciado, contando-o em dias úteis.

- a questão merece ser pacificada por meio de recurso repetitivo.

Dos Prazos , Atos Processuais


Ano: 2017
Banca: FCC
Órgão: DPE-PR
Prova: Defensor Público
Resolvi certo

Sobre os prazos no Código de Processo Civil, é correto afirmar:

a) O cumprimento definitivo da sentença, no caso de condenação em quantia certa, far-se-á


mediante requerimento do exequente, sendo o executado intimado a pagar o débito em quinze
dias úteis.
b) Os litisconsortes que tiverem diferentes procuradores, desde que de escritórios distintos,
terão prazos contados em dobro para todas as suas manifestações, tratando-se de autos físicos.
c) O prazo para resposta, em caso de citação por edital, inicia-se quando finda a dilação
assinalada pelo juiz, ainda que em dia não útil.
d) Considera-se dia do começo do prazo o dia subsequente à data em que efetivamente o
oficial de justiça realizou a citação com hora certa.
e) O prazo para cada um dos executados embargar, quando houver mais de um, conta-se a
partir da juntada do respectivo comprovante de citação, ainda que cônjuges ou companheiros.

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