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Cásina

Título original: Casina

© desta tradução: Aires Pereira do Couto e Edições 70, lda.

Capa: F.B.A.

Depósito Legal n° 249573/06

Impressão, paginação e acabamento:


M anuel A. P acheco
para
EDIÇÕES 70, LDA.
Outubro de 2006

ISBN 10: 972-44-1308-8


ISBN 13: 978-972-44-1308-9

EDIÇÕES 70, Lda.


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de procedimento judicial.
Plauto
Cásina

Introdução, tradução do Latim e notas de


Aires Pereira do C o u to

Professor da Faculdade de Letras


da Universidade Católica Portuguesa
INTRODUÇÃO
Enredo

O enredo desta comédia gira em tomo da rivalidade entre o velho


Lisidamo e o seu filho Eutinico, apaixonados, ambos, por uma jovem
criada, Cásina, que Cleóstrata, a mulher de Lisidamo, recolhera na
rua e educara no seio da sua família. É esta moça - que dá o nome à
peça - que está no centro de toda a acção, ainda que não apareça em
cena. Ambos a queriam ter como amante e, para tal, cada um deles
arranjou um estratagema para conseguir os seus intentos: o pai propôs
que ela se casasse com o seu feitor Olimpião; o filho pretendia dar
Cásina em casamento ao seu escudeiro Calino (*)· Um e outro
desejavam, com este casamento de conveniência, gozar discretamente
dos favores da jovem. Mas o pai, ao aperceber-se das intenções do
filho, resolveu desem baraçar-se do rival, enviando-o para o
estrangeiro. Na peça, o conflito entre pai e filho pela posse de Cásina
é sentido como uma batalha entre dois exércitos, pelo que não é de
estranhar que as metáforas militares sejam recorrentes em toda a
comédia(2). A primeira delas surge logo no prólogo e situa a acção
num verdadeiro campo de batalha, onde cada um deles prepara às
escondidas as suas legiões (50-51).
É precisamente neste ponto que tem início a peça. Oficialmente, a
rivalidade existente era entre os escravos Olimpião e Calino, mas

(') Sobre Calino, enquanto escudeiro (armiger), veja-se W. Anderson (1983) 11-21;
G. Chiarini (1978) 109-111.
(2) Sobre as imagens militares na Cásina, veja-se G. Chiarini, ibidem, 108-111;
G. F. Franko (1999) 2-5. Nas pp.13-14, Franko apresenta, em apêndice, o elenco de
todas as alusões militares na comédia.
Cleóstrata, descobrindo as intenções do marido, resolveu defender
os interesses do filho e apoiar o casamento de Cásina com Calino.
Como Lisidamo e Cleóstrata não conseguissem chegar a acordo sobre
quem deveria ser o futuro marido de Cásina, decidiram, para resolver
de vez a questão, que a jovem fosse sorteada entre os dois escravos.
Assim aconteceu, e a sorte sorriu a Olimpião, o candidato de Lisidamo.
Cleóstrata ficou encarregada de preparar a boda, mas Lisidamo
tratou logo do pós-boda: Olimpião iria para a quinta com a sua noiva,
mas antes disso Cásina seria conduzida a casa do vizinho Alcésimo,
que tratou de fazer com que esta estivesse deserta, para que Lisidamo
aí pudesse gozar, desde logo, dos favores de Cásina. Mas as coisas
não correram como o velho esperava. É que Calino, ao descobrir a
tramóia, foi contai' tudo a Cleóstrata, que, com a ajuda da vizinha
Mírrina e da criada Pardalisca, urdiu um plano para estragar a festa
ao velho: disfarçou Calino de noiva e fê-lo passar por Cásina. Este
não se fez rogado e encarnou uma Cásina bruta e violenta. A situação
revelou-se extremamente embaraçosa para Olimpião e Lisidamo, que
saíram de casa de Alcésimo enganados e ridicularizados. Por fim,
Cleóstrata lá acabou por perdoar ao marido e ficámos a saber que
Cásina era, afinal, filha dos vizinhos, e, por isso, uma cidadã livre.
Deste modo poderá casar com Eutinico, o filho de Lisidamo, que embora
nunca tenha aparecido em cena, acabou por ser o vencedor (3) da luta
travada pela posse de Cásina.

Estrutura

Plauto adaptou esta comédia - como ele próprio refere nos vv.31-
-32 do prólogo - a partir de um modelo de Dífilo, intitulado
Clerumenoe (O s que tiram à sorte’), em latim Sortientes, devido ao
sorteio que os dois pretendentes à mão de Cásina - Olimpião e Calino

O A vitória de Eutinico faz jus ao significado etimológico do seu nome, precisamente


“o vitorioso”. A propósito dos significados etimológicos dos nomes das personagens
plautinas, veja-se M. L. López (1991).
- fazem(4). Ainda que a comédia grega não tenha chegado aos nossos
dias, parece não haver dúvidas de que Plauto adaptou com liberdade
o seu original, apresentando apenas o que lhe convinha para uma
farsa. Terá suprimido a cena final do reconhecimento e excluído o
jovem Eutinico do elenco das personagens; é ainda possível que a
cena da noiva travestida possa ter sido uma livre reelaboração de
Plauto.
A estrutura da Casina é complexa mas cativante. A acção
desenrola-se através de uma sucessão de cenas que alternam partes
cantadas com partes recitadas. Trata-se da comédia plautina com o
maior número de cantica (38% do total dos versos), repartidos por
três blocos: um primeiro (vv. 144-251) em que cantam Cleóstrata,
Mírrina e Lisidamo; um segundo (vv.621-758) protagonizado por
Pardalisca, Lisidamo e Olimpião; e um terceiro (vv.815-962) por
Pardalisca, Lisidamo, Olimpião, Mírrina e Cleóstrata (5).
A acção é contínua e começa com uma disputa entre Calino e
Olimpião, que ocupa a cena única uo acto I (vv.89-143) e que, desde
logo, nos introduz no tom geral desta aventura desbragada e nos
adverte para o facto de o essencial da história recair sobre uma
rivalidade amorosa pela posse de Cásina. O acto II (vv. 144-514) é
composto pelo confronto de Cleóstrata e de Lisidamo e pela tiragem
à sorte do futuro marido de Cásina. O acto III (vv.515-758) mostra
Cleóstrata, avisada por Calino, a assumir-se como senhora da intriga
e a congeminar uma farsa que vai provocar efeitos sucessivos, num
ritmo que, em aceleração gradual, vai arrastar e envolver Lisidamo
num verdadeiro turbilhão. O acto IV (vv.759-854) é particularmente
breve, mas brilhante com o canto himeneu e o cortejo nupcial que dá
a Lisidamo a ilusão de ter sido o grande vencedor da contenda, mas a
verdade é que ele está a ser manobrado por Cleóstrata como um
verdadeiro fantoche. Este acto começa com uma cena de acalmia

(4) Alguns autores, como F. Arnaldi e E. Paratore, defendem que o título original da
comédia de Plauto sempre foi Casina, enquanto outros, como F. Leo, F. Delia Corte e W.
T. MacCary - Μ. M. Willcock, consideram que Sortientes era o título primitivo e que
Casina foi o título dado aquando da reposição da peça. Cf. J. R. Bravo (51998) 412.
(5) Cf. B.-A. Taladoire (1956) 229-231; G. E. Duckworth (1994) 370.
(vv.759-779) em que Pardalisca faz o ponto da situação, sem deixar
de aliciar o público com a promessa de um momento de especial
diversão, no qual o guarda-roupa vai desempenhar um papel funda­
mental no efeito cômico, desde logo pela forma ridícula como o feitor
Olimpião está vestido para a boda: “com uma coroa na cabeça, vestido
de branco, bem arranjado e todo pimpão” (vv.767-768), segundo as
palavras de Pardalisca. Mas o melhor ainda está para vir com o disfarce
burlesco de Calino, travestido de Cásina (vv.769-772)(6). O acto IV
vai concluir-se com uma cena (vv.815-854) de grande farsa e de
movimento rápido, que se acalma um pouco no momento em que
Lisidamo e Olimpião entram em casa com a falsa noiva. Mas esta
acalmia é enganadora, pois o movimento recrudesce no acto V, que
começa com a explosão mal contida das mulheres, na cena I - que
antecipa a comicidade das cenas seguintes, prometendo-se uma risada
pegada, daquelas que só acontecem muito raramente (vv.857-858) e
continua na cena II com o aparecimento de Olimpião, que, em estado
de desvario, vai narrar as desventuras por que passou durante a grotesca
noite de núpcias. Olimpião começa então a narração no verso 907,
narração que vai ocupar o resto da hilariante cena II, marcada,
infelizmente, por várias lacunas no texto, mas que, apesar dessa
condicionante, continua a deixar transparecer toda a sua comicidade,
conseguida através de várias alusões mais ou menos obscenas, em
que se conjugam o travestismo e a homossexualidade. Na cena III,
também Lisidamo, julgando estar sozinho, se lamenta das suas
desventuras nupciais, em que foi vítima da sua própria presunção
inebriante, numa atitude plangente que contrasta com a sua fogosidade
inicial. Em suma, o acto V (vv.855-1018) é a parada final (7) - especta-
cular pela sua musicalidade, que se acentua à medida que o ritmo
cômico acelera - , na qual Lisidamo e Olimpião aparecem ridicu­
larizados e envergonhados perante as promotoras desta grande farsa.
E até os aplausos finais são, em consonância com o burlesco de uma
peça particularmente licenciosa, solicitados de uma forma repleta de
humor.

(6) Sobre o travestismo de Calino, veja-se B. Gold (1998) 17-29.


(7) O acto V é aquele que maior número de lacunas apresenta nos manuscritos.
A cena final tem sido muito discutida. Fica claro, desde o prólogo,
que Plauto excluiu a cena com que terminava o original grego - o
reconhecimento de Cásina como filha do vizinho - resumindo-a a
apenas quatro versos. Na versão plautina, o reconhecimento de Cásina
já pouca importância tem, o realce é, todo ele, dado à desilusão e
humilhação do velho Lisidamo, cujas frustrações, tratadas numa ópera
bufa plena de fantasia burlesca, contribuíram de sobremaneira para
que esta peça resultasse na mais licenciosa e ousada das comédias
plautinas.

Personagens

Oito personagens e várias figuras mudas (criadas, no v.165 sqq.;


cozinheiros, a partir do v.720; e tocadores de flauta, depois do v.798)
compõem esta comédia que apresenta, como é habitual em Plauto,
tipos “binários”: dois velhos (Lisidamo e Alcésimo); duas matronas
(Cleóstrata e Mírrina) e dois escravos (Olimpião e Calino). O jovem
Eutinico, o filho de Lisidamo e de Cleóstrata, e Cásina - a moça que
dá o nome à peça(8) e que foi educada em casa de Lisidamo e de
Cleóstrata e que está no centro de toda a acção - não aparecem em
cena. \
Lisidamo aparece, em consonância com o significado do seu nome
- “o que repudia esposas” - , como um velho libidinoso, que,
apaixonado por Cásina, rivaliza no amor com o seu filho. A disputa
pela posse de Cásina é, para Lisidamo, uma verdadeira batalha, por
isso não é de estranhar que na sua linguagem encontrem os
frequentemente o recurso a imagens militares: são postas na sua boca
15 alusões de cariz militar(9). No momento em que a sorte dita que
deve ser Olimpião a casar com Cásina, o júbilo de Lisidamo é tal que,

(8) Sobre as várias interpretações etimológicas para o nome Cásina, veja-se M. L.


López (1991) 56-58.
C) Estas 15 alusões representam quase metade do total de imagens militares presentes
na peça, o que faz de Lisidamo, como já reconheceu G. Chiarini, (1978) 108, o principal
responsável pela coloração bélica da peça.
qual adulescens amans (10), fica inebriado e incapaz de se aperceber
da esparrela que lhe estavam a preparar, e na qual acabou por cair
sem se dar por isso. A burla de que é alvo no final da peça é motivo de
cômico, sobretudo pelo contraste entre a sua fogosidade inicial e a
sua atitude plangente na parte final, quando sai de casa de Alcésimo
espancado e despojado.
Alcésimo surge como o tipo de velho tolerante e complacente,
disposto a ajudar o seu amigo Lisidamo, fazendo deste modo jus ao
significado do seu nome - “o que ajuda”. Vê-se envolvido na história
apenas porque, condescendente, assum iu uma dissim ulada
cumplicidade em relação aos caprichos amorosos de Lisidamo.
Cleóstrata, cujo nome significa etimologicamente “a glória do
exército”, aparece efectivamente como uma mulher de armas,
autoritária, severa e vingativa. Segura de si, não cede às insistências
do marido nem se deixa enganar pelas suas falsas simpatias. É ela
que, no papel de seruus callidus (u) - o verdadeiro estratega da
comédia plautina -, é a indiscutível condutora da acção e age com
um fim bem determinado: vingar-se do seu infiel e dissoluto marido
e evitar que ele concretize os seus propósitos.
Mírrina, a amiga e vizinha de Cleóstrata e esposa de Alcésimo,
tem um nome cujo significado - “a que cheira a mirra” - se adequa às
suas características, já que aparece em cena com ar distinto e
autoritário (vv. 165-171) e reúne em si grandes virtudes (vv. 182-183).
O escravo Olimpião, o feitor de Lisidamo responsável pela quinta
da família no campo, é um fraco de carácter, fraqueza que contrasta
com o seu nome, etimologicamente altissonante. Deixa clara a
antipatia que nutre pela patroa quando, recorrendo a uma metáfora
de âmbito venatório, compara o patrão a um caçador, por passar a
vida, dia e noite, com uma cadela - a sua mulher (vv.319-320).
Diferente é o escravo Calino, o escudeiro de Eutinico. O seu nome,
que em grego significa “freio”, adequa-se à forma como domina o
seu rival Olimpião (vv.360-361) e o velho Lisidamo (vv.963-967).

(10) Acerca de Lisidamo no papel de adulescens amans, veja-se B. Williams (1993)


33-59, em especial as pp. 47-49.
(") Cf. G. F. Franko (1999) 4.
Pardalisca, a atrevida criada de Cleóstrata, apresenta um
comportamento que faz jus ao seu nome - “pequena pantera”.
Em plano claramente secundário surge Citrião, o cozinheiro que
está ao serviço de Lisidamo, que tem um nome cujo significado -
“panela” - se relaciona directamente com o seu ofício.

Cômico

Embora a Casina seja, no seu todo, uma peça marcada por uma
exuberante explosão de humor incontido, apresentado num evidente
crescendo cômico, podem, ainda assim, distinguir-se três momentos
que sobressaem pela sua vivacidade e que são os mais cômicos e os
mais importantes para o desenvolvimento do enredo. Referimo-nos
aos momentos da tiragem à sorte (vv.353-423), da falsa informação
da loucura de Cásina (vv.621-718), e, sobretudo, ao das núpcias e das
suas conseqüências (vv.815-1018), momento-chave que se inicia com
os cômicos conselhos de Pardalisca à noiva e que, após várias
peripécias, acaba com a surra que Calino, disfarçado de Cásina, dá
nos seus pretendentes, coroando da única forma possível, dada a
natureza do argumento cômico, este momento nupcial. Toda esta
sucessão de cenas relacionadas com as núpcias deu origem a um
espectáculo cujo desenlace é tanto mais cômico quanto Lisidamo se
julga cada vez mais dono da situação.
A com icidade desta peça, resultante essencialm ente do
desentendimento que separa Lisidamo e Cleóstrata, é conseguida
através de um cômico de linguagem marcado pelo uso de neologismos
(vv.797; 968), superlativos cômicos (v.694), expressões estrangeiras
(vv.728-30), jogos de palavras (vv.493-498: 511-514; 851; 853),
comparações inesperadas (vv.124-125; 720-721), metáforas variadas
(vv.319-329; 720-723), equívocos (vv.495; 497), obscenidades
(vv.327; 362; 455; 810; 914; 921-922 e de um modo geral a segunda
cena do acto V), narrações burlescas (v.879 sqq.), tons despropositados
e desadequados (vv.621-626), etc.
Este cômico de linguagem é complementado por um abundante
cômico de situação, composto por uma pseudo-sedução de Lisidamo
quando este faz de marido apaixonado (vv.228-234), por agressões
físicas - Olimpião e Calino infligem-se, à vez, uma surra, sob as
ordens respectivas de Lisidamo e de Cleóstrata - (vv.404-408), uso de
disfarces - Calino como falsa noiva -, de cenas de engano e de troça
(vv.621-667 sqq.; 894 sqq.), suposições erradas sobre a sanidade men­
tal de uma personagem - Pardalisca - (vv.639-640), inversões de
situações (vv. 733-741; 993 sqq.), etc. As cenas de disputa surgem
também como excelentes meios de provocar cômico de carácter,
sobretudo os estados que resultam do medo: a cobardia, em Lisidamo
(751 sqq.), e o desvario simulado de Pardalisca (v.621 sqq.) que
provocou o desvario real de Lisidamo. Também a excitação erótica
(v.452 sqq.) é fonte de cômico, assim como o é a cena em que Lisidamo,
ao ver aproximar a sua mulher, esfrega desesperadamente a cabeça
para limpar o perfume que lhe tinham deitado na cabeça (v.238)(12).

Data

A Casina é uma das poucas comédias plautinas cuja data de


composição é praticamente consensual. De facto, a alusão, feita no
v.980, à proibição das Bacanais, estabelecida em 186 a. C., sugere
que a peça terá sido escrita pouco tempo antes da morte de Plauto, o
que faz desta peça provavelmente a última comédia do Sarsinate.
Corrobora esta ideia o facto da Casina ser a comédia de Plauto com
maior número de cantica (13), uma característica própria das peças de
maior amadurecimento da arte plautina.
O êxito da peça, a mais licenciosa das comédias plautinas, foi
indubitável, de tal forma que a peça teve direito a uma reposição
alguns anos depois, talvez por volta de 165-155 a. C , já que, como se
diz no prólogo, os espectadores mais idosos puderam ver a primeira
representação, mas os mais novos não(14).

C2) Veja-se, em B.-A. Taladoire (1956) 167 sqq., outros exemplos de recursos cômicos
presentes na Casina.
C3) Como já referimos, as partes cantadas desta peça ocupam 38% do total dos
versos. Cf. G. E. Duckworth (1994) 370 e n.21.
(14) Cf. W. Beare (1934) 123-124; MacCary-MacCary-Willcock (1976) 99.
Fortuna

Entre as imitações modernas da Casina, podemos indicar várias


comédias italianas do século XVI: Clizia, de N. Maquiavel; IIRagazzo,
de L. Dolce; Errore, de B. Gelli; e I Rivali, de G. M. Cecchi. Também
II Marescalco, de P. Aretino, retoma da Casina a cena da “noiva
travestida”.
Ainda que de forma mais vaga, a influência desta comédia plautina
ter-se-á feito sentir noutras peças, como The Merry Wives ofWindsor,
de W. Shakespeare; e Epicoene or The Silent Woman de Ben Jonson.
Também em Le Marriage de Figaro, de P. de Beaumarchais,
podemos encontrar ecos da Casina.
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1 21
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ARGUMENTO (5)

Dois escravos da mesma casa pretendem casar com a mesma


companheira de escravidão. Um defende os interesses do velho amo,
o outro os do seu filho. A sorte favorece o velho; mas este acaba por
ser enganado, pois em vez da rapariga trazem-lhe um jovem escravo,
um malvado, que bate no amo e no feitor. O jovem amo casa com
Cásina, reconhecida como cidadã livre.

(15) Em acróstico, no original latino.

29
PRÓLOGO

Saúdo-vos, magníficos espectadores, a vocês que têm a maior estima


pela Boa Fé, e a Boa Fé(16) por vocês. Se é verdade o que eu disse,
dêem-me um claro sinal (Sugere que batam palmas.) para que eu saiba
que vocês me são favoráveis logo desde o começo. Os que bebem vinho 5
velho e os que gostam de assistir a comédias antigas são, na minha
opinião, pessoas sensatas. Dado que vos agradam as obras e as palavras
antigas, é natural que as comédias antigas vos agradem mais do que as
outras. De facto, as comédias novas que agora se estreiam são muito 10
piores do que as moedas novas. Nós, depois que ficámos a saber, pelo
mmor popular, que vocês desejavam ardentemente assistir a peças de
Plauto, pusemos em cena uma sua antiga comédia, que os mais velhos
de entre vocês já aplaudiram, mas que os mais jovens, tenho a certeza, 15
não conhecem. Vamos, no entanto, dar o nosso melhor para que a
conheçam. Esta comédia, quando foi representada pela primeira vez,
superou todas as outras. Nessa época vivia a fina-flor dos nossos poetas
que agora já partiram para o lugar que nos espera a todos. Mas, embora 20
ausentes, eles continuam, no entanto, a ser-nos úteis, como se estivessem
presentes (l7).

(16) A Fides era uma antiga divindade romana que tinha um templo no Capitólio,
junto do de Júpiter. Esta divindade poderá ter sido a personagem que recitara o prólogo,
pelo menos na sua redacção original. Mas esta referência à Fides pode entender-se como
forma de captatio beneuolentiae do público com a qual o actor do prólogo pretende
conseguir dos espectadores um compromisso de boa disposição ao longo de toda a obra.
Cf. J. R. Bravo (51998) 417.
(17) O conteúdo dos versos 5-20 deixa claro que terão sido escritos para uma reposição
póstuma da peça.
A todos vocês, peço-vos encarecidamente que tenham a bondade
de prestarem atenção à nossa companhia. Afastem do vosso espírito
25 as preocupações e as dívidas; que ninguém receie o seu credor. É dia
de jogos, também é dia de festa para os banqueiros. Tudo está calmo,
os alcíones(18) andam à volta do foro. Eles são espertos estes
banqueiros: durante os jogos não exigem nada a ninguém, mas depois
dos jogos não dão nada a ninguém.
Agora, se os vossos ouvidos estão desocupados, prestem atenção:
30 quero dizer-vos o título desta comédia. Em grego, esta comédia chama-
-se Clerumenoe(>9)\ em latim Sortientes. Dífilo escreveu-a em grego,
em seguida escreveu-a em latim Plauto, o de nome de cão(20).
35 Aqui (.Aponta para a casa de Lisidamo.) vive um velho casado,
que tem um filho. Este vive juntamente com o pai nesta casa. Ele tem
um escravo que está de cama, doente..., ou melhor, para não mentir,
que está deitado na cama. Este escravo viu, há já dezasseis anos, uma
40 menina ser exposta de manhãzinha. Ele dirige-se de imediato para
junto da mulher que a estava a expor e pede-lhe que lha dê. Consegue
convencê-la, pega na criança e leva-a directamente para casa; entrega-
45 -a à sua senhora e pede lhe que cuide dela e a eduque. A sua senhora
assim fez, educou-a com muito carinho, como se fosse sua própria
filha, ou quase. Quando a moça atingiu a idade de poder agradar aos
homens, o tal velho daqui apaixona-se perdidamente por ela, e o
50 mesmo acontece com o seu filho. Agora, cada um deles, pai e filho,
prepara às escondidas as suas legiões, um contra o outro. O pai
encarregou o seu feitor de a pedir em casamento, na esperança de, se
ela lhe for concedida, ter com quem passar as noites fora de casa, às
55 escondidas da mulher. O filho, por seu lado, encarregou o seu escudeiro
de a pedir em casamento; sabe que, se ele o conseguir, terá o objecto
do seu amor dentro da sua própria casa. A mulher do velho apercebeu-
-se de que o seu marido andava apaixonado, por isso toma o partido

(ls) A palavra latina Alcedonia foi formada por Plauto por analogia com outros nomes
de festivais gregos como Dionysia, Aphrodisia ou Eleutheria. Cf. MacCary-Wi 1Icock
(1976) 101. Os dias dos alcíones, que eram os sete dias anteriores e posteriores ao solstício
de Inverno, caracterizavam-se por uma calma absoluta no mar.
(19) “Os que tiram à sorte”.
(20) A palavra plautus cra usada para significar “cão de orelhas longas”.
do filho. Mas o velho, ao aperceber-se de que o seu filho amava a 60
mesma moça e que era um obstáculo para si, mandou o rapaz numa
missão ao estrangeiro. A mãe, que está a par de tudo, defende os
interesses do filho, apesar da sua ausência. Quanto ao rapaz, não
esperem que, hoje, nesta comédia, ele regresse à cidade: Plauto não o 65
quis; cortou uma ponte que estava no seu caminho.
Acredito que haja agora aqui alguns que estejam a dizer entre si:
“Meu Deus do céu, mas o que é isto? Um casamento entre escravos?
Uns escravos vão casar-se ou vão pedir alguém em casamento? E 70
algo de novo, que não acontece em parte nenhuma do mundo.” Mas
eu digo-vos que isso acontece na Grécia e em Cartago, e aqui na
nossa terra, na Apúlia(21), onde os casamentos entre escravos até
costumam ser celebrados com maior pompa do que os das pessoas
livres. Se alguém não acreditar nisto e quiser apostar comigo uma 75
jarra de vinho com mel, eu aceito, desde que o juiz seja cartaginês,
ou sobretudo grego, ou, por minha causa, da Apúlia. Então? Não
dizem nada? Estou a ver que ninguém tem sede.
Mas voltemos àquela moça que tinha sido exposta, aquela que os 80
escravos desejam, com tanto empenho, para esposa. Vai descobrir-se
que ela é honesta e livre, nascida de cidadãos atenienses; e, na verdade,
ela não fará nada de vergonhoso, pelo menos nesta comédia. Depois,
uma vez acabada a peça, se alguém lhe der dinheiro, palavra que eu 85
acredito que ela casará de imediato, não esperará pelos auspícios.
É tudo. Passem bem, boa sorte, e vençam pelo vosso verdadeiro
valor, como fizeram até aqui.

(2I) Em Roma, o casamento entre escravos não era permitido, era um exclusivo de
pessoas de condição livre (cf. Varrão, Vida rural 1.17). Sobre eventuais casamentos
entre escravos na Grécia, em Cartago e na Apúlia, não se sabe nada de concreto. Cf.
MacCary-Willcock (1976) 107; H. D. Jocelyn (1988) 17-24.
ACTOI

CENAI

(OLIMPIÃO CALINO)

OLIMPIÃO
Será que não vou poder estar sozinho quando me apetecer, para 90
falar e pensar nos meus assuntos, sem te ter por testemunha? Porque
é que tu, c’os diabos, andas atrás de mim?

CALINO
Porque estou decidido a seguir-te sempre, para onde quer que vás,
como se fosse a tua sombra. E mais, até te juro que se quiseres ir para
a forca, estou disposto a seguir-te. A partir disto, conclui se, com as 95
tuas maquinações e às escondidas, vais conseguir roubar-me Cásina
para casares com ela, como pretendes.

OLIMPIÃO
O que é que tu me queres?

CALINO
Que é que estás para aí a dizer, meu descarado? Por que razão
andas a vaguear na cidade, ó feitor de meia tigela?

OLIMPIÃO
Porque me apetece.
CAUNO
Porque não estás no campo, no teu domínio? Porque não tratas
antes do trabalho que te foi confiado, e deixas de meter o nariz nos
assuntos da cidade? Vieste até aqui para me roubares a minha noiva.
Vai para o campo, vai enforcar-te no teu território.

OLIMPIÃO
Eu não me esqueci das minhas obrigações, Calino. No campo eu
deixei à frente dos negócios uma pessoa que tomará bem conta deles,
apesar da minha ausência. Eu logo que tenha conseguido aquilo que
me trouxe aqui à cidade, isto é, casar com aquela que tu amas
perdidamente: a bela e meiguinha Cásina, a tua companheira de
escravidão, quando eu a tiver levado comigo para o campo, como
minha esposa, ficarei para sempre no campo, no meu domínio.

CALINO
Tu, casares com ela? Prefiro, c’um raio, enforcar-me a vê-la em
teu poder.

OLIMPIÃO
Ela é mesmo minha, por isso já podes enfiar a corda no teu pescoço.

CALINO
Ó desenterrado dum monte de esterco, achas que ela é tua?

OLIMPIÃO
Já vais ver.

CALINO
Maldito sejas!

OLIMPIÃO
Vou fazer-te sofrer de tantas maneiras no dia do meu casamento,
se eu for vivo!
CALINO
O que é que me vais fazer?

OLIMPIÃO
O que é que eu te vou fazer? Em primeiro lugar vais ser tu a levar
a tocha diante da jovem esposa(22); [em seguida, para que sejas sempre
um cretino e uma nulidade (23)... ]; depois, quando vieres para a quinta, 120
ser-te-á dada uma ânfora e um caminho a seguir, uma fonte, um
caldeiro e oito potes; e se eles não estiverem sempre cheios, encho-te
eu de chicotadas. Farei com que, à força de acarretares água, fiques
tão curvado que se vai poder fazer de ti uma retranca. E depois, se, no 125
campo, não comeres um monte de feno ou terra como uma minhoca,
por muito que desejes provar alguma coisa, juro-te que nunca o Jejum
em pessoa jejuou tanto como o que eu te vou impor a ti no campo.
Depois disto, quando estiveres estafado e esfomeado, faremos com 130
que, de noite, durmas como mereces.

CALINO
O que é que vais fazer?

OLIMPIÃO
Vais ser fechado com segurança no postigo, de lá poderás ouvir
quando eu a beijar, quando ela me disser: “meu amorzinho, meu
querido Olimpião, minha vida, meu torrãozinho de açúcar, minha 135
alegria, deixa-me beijar os teus olhinhos, meu amor, deixa-me amar-
-te, por favor, ó alegria da minha vida, meu pardalito, meu pombinho,
meu coelhinho”. Enquanto estas coisas me forem ditas, tu, patife,
vais revolver-te como um rato no meio da parede. Agora, para que tu 140
não reclames o direito de me responder, vou para dentro; estou farto
da tua conversa.

C22) Depois da boda, a esposa era acompanhada a casa do marido por três jovens. Um
deles ia à frente levando uma tocha.
(23) Alguns editores consideram este verso interpolado, pois é evidente que estamos
na presença de uma lacuna no texto. Cf. MacCary-Willcock (1976) 114.
CALINO
Vou atrás de ti. Aqui, pelo menos, tenho a certeza de que nao farás
nada sem que eu esteja como testemunha.

ACTO II

CENA I

(CLEÓSTRATA PARDALISCA)

CLEÓSTRATA (Aos escravos que estão em casa.)


*45 Fechem as despensas e tragam-me o anel. Eu vou aqui ao lado, a
casa da minha vizinha. Se o meu marido quiser alguma coisa de mim,
vão lá chamar-me.

PARDALISCA
O velho amo tinha dito que lhe preparássemos o almoço.

CLEÓSTRATA
Psiu! Cala-te e vai-te embora. Não o preparo, nem se vai
150 cozinhar nada hoje. Visto que ele está contra mim e contra o seu
filho por causa dos seus caprichos amorosos, aquele depravado,
155 vou fazê-lo passar fome e sede, vou vingar-me desse apaixonado
com injúrias e com más acções. Eu juro que o vou atormentar bem
com as minhas bocas; vou fazer com que ele leve a vida que
merece, este velho com os pés para a cova, provocador de escân-
160 dalos, covil de devassidão. Agora vou ali, a casa da minha vizinha,
queixar-me dos meus infortúnios.
Mas a porta rangeu, e é ela mesma que vem a sair. Ora bolas!
Não escolhi a melhor altura para vir aqui.
CENA II

MÍRRINA CLEÓSTRATA

MÍRRINA (Às suas escravas.)


Criadas, acompanhem-me à casa ao lado. Eh, vocês aí, alguma 165
está a ouvir o que eu digo? (Sem ver Cleóstrata, e apontando para
a casa dela.) Eu estarei ali, se o meu marido ou alguém procurar
por mim. É que quando fico sozinha em casa, o sono atrapalha-me
as mãos. Não mandei que me trouxessem a roca? 170

CLEÓSTRATA
Olá, Mírrina.

MÍRRINA
Olá. Mas, diz-me lá, porque estás tão triste?

CLEÓSTRATA
É como costumam estar todas as que estão mal casadas. Em casa 175
ou fora dela têm sempre muitos motivos de desgosto. Eu ia mesmo
a tua casa.

MÍRRINA
Por acaso também eu ia a tua casa. Mas o que é que te faz andar
agora tão desgostosa? Pois tudo o que te causa desgosto a ti, 180
também me perturba a mim.

CLEÓSTRATA
Eu bem sei que sim; pois não há nenhuma outra vizinha de
quem, merecidamente, eu goste mais do que de ti, nem que tenha
tantas qualidades que eu gostaria de ter para mim.

MÍRRINA
Também eu gosto muito de ti, e por isso quero saber o que se passa. 185
CLEÓSTRATA
O meu marido trata-me muito mal em casa.
\
y
MÍRRINA
Hein!?

CLEÓSTRATA
O que é que se passa?

MÍRRINA
Diz lá outra vez, por favor, (é que eu não percebi muito bem
quais são as tuas queixas).

CLEÓSTRATA
O meu marido tem me tratado muito mal, e não tenho possibi­
lidade de fazer valer os meus direitos.

MÍRRINA
É espantoso, se estás a dizer a verdade; pois são os homens que
habitualmente não conseguem fazer valer os seus direitos junto das
suas mulheres.

CLEÓSTRATA
Mais ainda, ele pretende, contra minha vontade, dar ao seu feitor
uma jovem escrava que me pertence e que foi criada à minha custa;
mas é ele próprio que está apaixonado por ela.

MÍRRINA
Por favor, conta-me tudo. Podes falar à vontade, já que estamos
aqui sozinhas.

CLEÓSTRATA
Assim é.
MÍRRINA
Donde é que te apareceu essa rapariga? É que uma mulher
honesta não deve ter nenhum pecúlio às escondidas do marido; e 200
aquela que o tem não o obteve de forma correcta: ou o roubou ao
marido ou o arranjou através do adultério. Eu acho que tudo o que
é teu pertence ao teu marido.

CLEÓSTRATA
Tu, em tudo o que dizes, estás sempre contra a tua amiga.

MÍRRINA
Cala-te, parva, e escuta-me. Não te oponhas ao teu marido; 205
deixa-o estar apaixonado; deixa-o fazer o que lhe apetecer, visto
que a ti não te falta nada em casa.

CLEÓSTRATA
Estás maluca? É que o que estás para aí a dizer vai contra os teus
próprios interesses.

MÍRRINA
Ó parva, tu tens é que evitar sempre que o teu marido te diga 210
aquela expressão.

CLEÓSTRATA
Que expressão?

MÍRRINA
Mulher, põe-te a andar(24).

CLEÓSTRATA
Psiu! Cala-te.

(24) / foras, mulier era a fórmula de divórcio com que o marido podia repudiar a
esposa.
MÍRRINA
O que é?

CLEÓSTRATA (Apontando para Lisidamo, que se aproxima.)


Olha!

MÍRRINA
Quem é que estás a ver?

CLEÓSTRATA
Vem ali o meu marido. Entra, despacha-te, anda, por favor.

MÍRRINA
Como queiras. Vou-me embora.

CLEÓSTRATA
215 Mais tarde, quando tivermos mais tempo, eu e tu, então falarei
contigo. Agora, adeus.

MÍRRINA
Adeus.

CENA III

LISIDAMO CLEÓSTRATA

LISIDAMO (Sem ver Cleóstrata.)


Eu acredito que o amor supera todas as coisas, até as mais
maravilhosas, e não é possível referir algo que tenha mais condi­
mento e mais encanto. Eu admiro-me é com o facto de os cozinhei-
220 ros, que usam tantos condimentos, não utilizarem precisamente
este que é superior a todos os outros. De facto, tenho a certeza que
um prato onde o amor entre como condimento agradará a qualquer
um, e nenhum pode ser saboroso e agradável se não lhe for
misturado o condimento do amor. Com ele, o fel, que é amargo.
tornar-se-á mel; o homem mal-humorado ficará afável e tolerante. Eu
cheguei a esta conclusão mais por experiência própria do que por ter
ouvido dizer; é que eu, desde que estou apaixonado por Cásina, ando 225
com muito melhor aspecto (25) e até supero em elegância a própria
Elegância. Procuro todos os perfumistas e onde quer que haja um
perfume agradável, esfrego-me com ele, para lhe agradar; e acho que
lhe agrado. Mas a minha mulher atormenta-me, porque continua viva.
(.Avistando Cleóstrata.) Estou a vê-la ali de pé, com cara de poucos
amigos. Tenho de me dirigir a esta grande mula com doçura. (A
Cleóstrata.) Minha querida esposa, meu amor, como estás?

CLEÓSTRATA
Vai-te embora e tira essa mão.

LISIDAMO
Então, minha querida Juno, não há razão para estares tão aborre- 230
cida com o teu querido Júpiter. Para onde é que estás a ir agora?

CLEÓSTRATA
Deixa-me.

LISIDAMO
Espera.

CLEÓSTRATA
Não espero.

LISIDAMO
Mas então eu vou contigo.

CLEÓSTRATA
Mas, tu estás bom da cabeça?

(25) No verso 225, que é bastante incerto, optámos por seguir a lição de MacCary-Willcock.
LISIDAMO
Claro que sim. Como te amo!

CLEÓSTRATA
Não quero que me ames.

LISIDAMO
Não o podes impedir.

CLEÓSTRATA
Matas-me.

LISIDAMO (À parte.)
Oxalá estivesses a dizer a verdade.

CLEÓSTRATA (Que ouvira o que Lisidamo dissera em aparte.)


Nisso que estás a dizer acredito eu.

LISIDAMO
Olha para mim, minha jóia!

CLEÓSTRATA
Tua jóia? Claro, assim como tu és a minha. Mas, donde vem este
cheiro a perfume?

LISIDAMO (À parte.)
Ai! Estou perdido. Desgraçado de mim, estou a ser apanhado com
a boca na botija. De que estou à espera para limpar a cabeça com o
manto? Que o bom Mercúrio (26) te arruine, perfumista, por me teres
vendido estes perfumes! (Mostra vontade de se ir embora.)

(26) Mercúrio era, para os Romanos, essencialmente o deus do comércio.


CLEÓSTRATA
Eh tu, meu inútil, mosquito de cabeça branca! É com custo que
me contenho de te dizer tudo o que mereces. Não te envergonhas de, 240
na tua idade, velho caquéctico, andares pelas ruas todo perfumado?

LISIDAMO
Juro-te que foi porque estive a ajudar um amigo que estava a
comprar perfumes.

CLEÓSTRATA
Como foi rápido a arranjar uma desculpa! Não tens vergonha de
nada?

LISIDAMO
De tudo o que tu quiseres.

CLEÓSTRATA
Em que bordel é que te andaste a rebolar?

LISIDAMO
Eu, num bordel?

CLEÓSTRATA
Eu sei mais do que tu pensas.

LISIDAMO
O que é que queres dizer com isso? O que é que tu sabes?

CLEÓSTRATA
Que não há, entre todos os velhos, nenhum que seja mais
depravado que tu. Donde vens, meu inútil? Onde é que estiveste? Em 245
que bordel estiveste metido? Onde é que estiveste a beber? Estás c’os
copos, c’os diabos! Olha só para o teu manto, como está amarrotado!
LISIDAMO
Que os deuses nos castiguem, a mim e a ti, se entrou hoje uma
gota de vinho na minha boca!

CLEÓSTRATA
Não, faz antes como te agrada: bebe, come, esbanja tudo o que tens.

LISIDAMO
250 Basta, mulher! Já chega; cala o bico, já gritaste demais. Guarda
um pouco do teu discurso para que possas brigar comigo amanhã.
Mas, diz-me uma coisa: já estás mais calma e decidiste fazer o que
o teu marido quer que se faça, em vez de estares sempre no contra?

CLEÓSTRATA
Em relação a quê?

LISIDAMO
Perguntas? Em relação à nossa escrava Cásina, que eu quero que
255 seja dada em casamento ao nosso feitor - um escravo às direitas,
junto do qual ela terá tudo o que é necessário: lenha, água quente,
comida, roupa, e poderá educar os filhos que der à luz - em vez de
ser entregue àquele escravo inútil e escudeiro de meia tigela, um
homem que hoje, como pecúlio, não tem um chavo.

CLEÓSTRATA
260 Palavra que me admiro de tu, na tua idade, não te lembrares de
quais são as tuas obrigações.

LISIDAMO
Como assim?

CLEÓSTRATA
É que se agisses correctamente e como deve ser, deixarias que
fosse eu a ocupar-me das minhas escravas, já que é obrigação minha.
LISIDAMO
Mas, c ’os diabos, porque é que fazes tanta questão de a dar a um
escudeiro?

CLEÓSTRATA
Porque devemos, na verdade, ajudar o nosso filho único.

LISIDAMO
Mas, por muito único que ele seja, ele não é mais filho único
para mim do que eu pai único para ele; é mais justo que seja ele a 265
ceder-me o que eu quero do que eu a ele.

CLEÓSTRATA
Cheira-me que tu, meu caro, andas a arranjar lenha para te
queimares; estou a pressenti-lo.

LISIDAMO
Eu?

CLEÓSTRATA
Sim, tu. Porquê toda essa lábia? Porque é que tens tanto
interesse no assunto?

LISIDAMO
Para que ela seja dada em casamento a um escravo às direitas e
não a um escravo malandro.

CLEÓSTRATA
E se eu conseguir convencer o feitor a, em atenção a mim, cedê- 270
-la ao outro?

LISIDAMO
E se eu também conseguir do escudeiro que ele a ceda ao outro?
E acredito que o vou conseguir.
CLEÓSTRATA
Combinado. Queres que, em teu nome, eu diga ao Calino que
venha cá fora? Tu tentas convencê-lo a ele; eu, por outro lado,
tentarei convencer o feitor.

LISIDAMO
Está bem, pode ser.

CLEÓSTRATA
Ele estará aqui num instante. Agora vamos ficar a saber qual de
nós os dois é mais convincente. (Entra em casa.)

LISIDAMO
Que Hércules e todos os deuses a castiguem, agora que eu posso
falar à vontade. Eu, desgraçado de mim, ando a ser torturado pelo
amor, e ela, como que de propósito, opõe-se a mim. A minha
mulher deve suspeitar daquilo que eu ando a tramar, por isso é que
ela está, de propósito, a tomar o partido do escudeiro.

CENA IV

LISIDAMO CALINO

LISIDAMO (Vendo sair de casa Calino.)


Que todos os deuses e deusas dêem cabo dele!

CALINO (Tendo ouvido as palavras de Lisidamo.)


De ti...(27) A tua mulher disse que me estavas a chamar.

LISIDAMO
Sim, eu mandei chamar-te.

(27) O texto latino tem implícito um equívoco a que Plauto recorre algumas vezes
(cf. Amphitruo 741; Miles gloriosus 286).
CALINO
Diz lá o que é que me queres.

LISIDAMO
Primeiro eu quero que fales comigo sem franzires a testa. É
tolice mostrares cara de poucos amigos àquele que mais poder tem
sobre ti. Há já muito tempo que eu te tenho por bom rapaz.

CALINO
(À parte.) Percebo. (Em voz alta.) Se pensas assim, porque não 285
me libertas?

LISIDAMO
É precisamente o que eu quero, mas de nada serve eu desejá-lo
se tu não me ajudares a concretizá-lo.

CALINO
Eu só queria saber o que é que queres de mim.

LISIDAMO
Escuta, eu vou dizer-to. Eu prometi ao nosso feitor dar-lhe
Cásina em casamento.

CALINO
Mas a tua mulher e o teu filho prometeram-ma a mim.

LISIDAMO
Eu sei. Mas o que é que tu preferes agora: seres solteiro e livre, 290
ou casado e continuares escravo toda a vida, tu e os teus filhos? A
escolha é tua; destas duas possibilidades, opta pela que quiseres.

CALINO
Se eu fosse livre, teria de viver à minha custa; agora vivo à tua.
Quanto a Cásina, uma coisa é certa: não a cederei a ninguém.
LISIDAMO
Vai lá dentro e diz à minha mulher que venha imediatamente
aqui, à porta de casa; e traz contigo para aqui uma urna com água
e as sortes (28).

CALINO
Boa ideia.

LISIDAMO
Eh pá, eu vou já pôr termo a este assunto de uma forma ou de
outra. Já que não consigo obter nada pela persuasão, pelo menos
vou tirar à sorte. Eu vingar-me-ei então de ti e dos teus partidários.

CALINO
Mas é a mim que a sorte vai sorrir.

LISIDAMO
É claro que sim, para morreres torturado.

CALINO
Ela vai casar comigo; podes tramar o que te apetecer e como
qui seres.

LISIDAMO
Desaparece da minha vista!

CALINO
Tu nem me podes ver; mas eu, no entanto, continuarei a viver.
{Entra em casa.)

(2R) A urna (sitella) era um vaso bojudo e de abertura estreita, utilizada nos escrutínios
na antiguidade clássica. A urna era enchida com água e nela eram introduzidas as sortes
(pedras ou pequenas peças de madeira pesada devidamente marcadas).
LISIDAMO
Eu não sou um desgraçado? Não está tudo contra mim? Já receio
que a minha mulher tenha conseguido convencer Olimpião a não se 305
casar com Cásina. Se isso aconteceu, aqui o velho está arrumado.
Se não conseguiu, então ainda me resta uma pequena esperança no
sorteio. Se a sorte também me for desfavorável, farei da minha
espada um colchão e atirar-me-ei para cima dela. (Vendo Olimpião
a sair de casa.) Mas eis ali o Olimpião, vem mesmo a calhar.

CENA V

OLIMPIÃO LISIDAMO

OLIMPIÃO (Continuando a falar para Cleóstrata, que tinlia


ficado dentro de casa.)
Não, senhora, nem que me enfies num forno quente e aí me 310
deixes torrar como um pão tostado, não conseguirás de mim o que
pretendes.

LISIDAMO (À parte.)
Estou salvo; pelo que estou a ouvir, ainda há uma esperança.

OLIMPIÃO
Porque procuras dissuadir-me com a promessa da liberdade,
senhora? É que mesmo se tu não o quiseres e o teu filho também
não, eu posso, apesar de vocês e contra a vontade de ambos, tornar- 315
-me livre por uma ninharia.

LISIDAMO
Que é isso? Com quem é que estás a discutir, Olimpião?

OLIMPIÃO
Com aquela com que tu estás sempre a discutir.
LISIDAMO
Com a minha mulher?

OLIMPIÃO
320 Tu chama-la mulher? O que tu pareces é um caçador, já que é
com uma cadela que passas, dia e noite, a vida.

LISIDAMO
O que é que ela quer? O que é que ela te está a dizer?

OLIMPIÃO
Está a pedir-me, a suplicar-me que não case com Cásina.

LISIDAMO
E tu, o que é que lhe respondeste?

OLIMPIÃO
Disse-lhe que até ao próprio Júpiter eu diria que não, se ele mo
pedisse.

LISIDAMO
Que os deuses te conservem, para meu bem!

OLIMPIÃO
325 Ela, agora, está a ferver por todo o lado; está-me cá com uma raiva!

LISIDAMO
Caramba, eu queria mesmo era que ela se rachasse ao meio!

OLIMPIÃO
Caramba, penso que isso já está feito, se é que tu és bom em
alguma coisa(29). Mas, caramba, a verdade é que já ando farto dos

(29) Equívoco obsceno.


teus amores; a tua mulher tornou-se minha inimiga, o teu filho meu
inimigo, as pessoas de casa minhas inimigas. 330

LISIDAMO
Que é que isso te importa? Desde que este Júpiter (,A ponta p a ra
si p ró p rio .) te seja propício, não precisas de te importar com esses
deuses de meia tigela.

OLIMPIÃO
Tudo isso é uma grande treta! Como se tu não soubesses que os
Júpiteres humanos morrem de repente. Mas, e se tu um dia morres, 335
meu Júpiter; quando o teu reino tiver passado para as mãos dos
deuses menores, quem é que virá em auxílio das minhas costas, da
minha cabeça ou das minhas pernas?

LISIDAMO
Para ti as coisas correrão melhor do que imaginas, se conseguir
mos que eu vá para a cama com Cásina.

OLIMPIÃO
Eh pá! Não me parece que isso seja possível; é que a tua mulher 340
está fortemente empenhada em que ela não me seja dada em
casamento.

LISIDAMO
Mas eu vou fazer o seguinte: vou meter as sortes na urna e
sortearei entre ti e Calino. Tal como estão as coisas, penso que é
necessário mudar de armas.

OLIMPIÃO
E se a sorte for diferente do que queres que aconteça? 345

LISIDAMO
Não sejas de mau agoiro! Eu confio nos deuses, vamos ter
esperança nos deuses.
OLIMPIAO
Eu não daria um chavo por essas palavras. É que todos os
mortais confiam nos deuses, mas, no entanto, eu já vi muitos dos
que confiavam nos deuses ficarem desiludidos.

LISIDAMO
350 Psiu! Cala-te lá por um instante.

OLIMPIÃO
Que é que queres?

LISIDAMO
Vem ali o Calino a sair de casa com a urna e as sortes; agora é
que nós vamos dar início à batalha decisiva.

CENA VI

CLEÓSTRATA CALINO LISIDAMO OLIMPIÃO

CLEÓSTRATA (Saindo de casa com Calino.)


Diz-me lá, Calino, o que é que o meu marido quer de mim.

CALINO
O que ele quer mesmo é ver-te morta a arder fora das portas da
cidade(30).

CLEÓSTRATA
355 Eu creio que é mesmo isso que ele quer.

(30) Em Roma, a cremação dos cadáveres era feita fora dos muros da cidade.
CALINO
Mas eu cá não creio, tenho a certeza.

LISIDAMO (À parte.)
Tenho em casa mais especialistas do que pensava; até tenho um
adivinho. (A Olimpião.) E se levantássemos o estandarte e fôsse­
mos ao encontro deles? Segue-me. (À sua mulher e a Calino.) O
que é que andam a fazer?

CALINO
Está aqui tudo o que pediste: a tua mulher, as sortes, a urna e eu
próprio.

OLIMPIÃO
Na minha opinião tu és o único que estás a mais.

CALINO
Eh pá! Isso é o que te parece a ti. Eu agora sou o teu aguilhão 360
e estou a espetar-te o coraçãozito; já estás a suar de medo, canalha.

LISIDAMO
Cala-te, Calino.

CALINO
Mete-lhe uma rolha(31)·

OLIMPIÃO
Antes a ele, que está habituado a dá-lo.

(5I) Calino diz: comprime istum, expressão que significa habitualmente “fazer calar”
mas que pode também ter um segundo sentido obsceno: “violar”. É este equívoco obsceno,
que procurámos manter na tradução, que justifica o comentário de Olimpião.
LISIDAMO (A C alino.)
Põe aqui a urna; dá-me cá as sortes. (A todos.) Prestem atenção.
(A C leóstrata.) Na verdade, eu pensava que podia, minha querida
365 esposa, obter de ti que Cásina me fosse dada como esposa, e ainda
o continuo a pensar.

CLEÓSTRATA
Que ela te seja dada a ti?

LISIDAMO
A mim, claro... Oh!... Não era isso que eu queria dizer. Eu
queria dizer “a mim” e disse “a ele”, por tanto a desejar para
mim... Que caramba! Tenho estado para aqui só a dizer asneiras.

CLEÓSTRATA
Podes ter a certeza que sim, e também a fazê-las.

LISIDAMO
A ele... Não, caramba, a mim... Uf, finalmente retomei o
caminho certo, mas custou.

CLEÓSTRATA
370 Bolas! Tu enganas-te muitas vezes!

LISIDAMO
Isso acontece quando se deseja muito alguma coisa. Mas pedi­
mos-te, eu e ele, em virtude dos teus direitos...

CLEÓSTRATA
Que é que querem?

LISIDAMO
Já te vou dizer, minha doçura: é acerca de Cásina, quero que
faças o favor de a conceder ao nosso feitor.
CLEÓSTRATA
Isso era o que tu querias! Mas não o faço, nem penso vir a fazê-lo.

LISIDAMO
Então eu vou tirar à sorte entre os dois.

CLEÓSTRATA
Quem to impede?

LISIDAMO
Eu creio, com razão, que este processo é o melhor e o mais justo. 375
Em suma, se acontecer o que queremos, ficamos felizes; mas se
acontecer o contrário, suportá-lo-emos com resignação. (A
Olimpião.) Toma lá a tua sorte. Vê o que está escrito.

OLIMPIÃO
O um.

CALINO
Não é justo que lhe tenham dado primeiro a ele do que a mim.

LISIDAMO (A Calino.)
Toma lá esta, se quiseres.

CALINO
Dá cá. Espera; acabei de me lembrar de uma coisa. Vê lá se não 380
há outra sorte dentro da água.

LISIDAMO
Sacana, pensas que eu sou como tu?
CLEÓSTRATA (Olhando para a urna.)
Não há nenhuma. Fica descansado.
\
jOLIMPIÃO
Oxalá eu tenha a sorte e a felicidade de conseguir...

CALINO
Uma grande sova.

OLIMPIÃO
Tenho a certeza, c’um raio, que é a ti que isso vai acontecer;
conheço bem a tua piedade. Mas espera um pouco. Essa tua sorte
é de choupo ou de abeto?

CALINO
O que é que isso te importa?

OLIMPIÃO
E que eu receio que flutue na água.

LISIDAMO
Muito bem, abre os olhos. Agora atirem os dois para aqui as
sortes. Pronto. Mulher, mistura-as.

OLIMPIÃO
Não confies na tua mulher.

LISIDAMO
Tem calma.

OLIMPIÃO
É que eu tenho a certeza que ela vai enfeitiçar as sortes, se lhes
tocar.
LISIDAMO
Cala-te.

OLIMPIÃO
Eu calo-me. Peço aos deuses...

CALINO (Interrompendo Olimpião.)


Que hoje te ponham a coleira e a forqueta de condenado ao
pescoço.

OLIMPIÃO
Que eu tenha a sorte... 390

CALINO (Interrompendo de novo Olimpião.)


De seres pendurado pelos pés.

OLIMPIÃO (Irritado.)
E tu que sejas assoado de tal forma que os teus olhos te saiam
pelo nariz.

CALINO
De que tens medo? Já devias ter preparada a corda para te
enforcares.

OLIMPIÃO
Estás perdido.

LISIDAMO
Prestem ambos atenção.

OLIMPIÃO
Eu calo-me.
LISIDAMO
E agora, Cleóstrata, para que tu não digas ou suspeites que eu
tratei disto com má fé, vou permitir-te o seguinte: tira tu a sorte.

OLIMPIÃO (A Lisidamo.)
Dás cabo de mim!

CALINO
Mas ele sai a ganhar (32).

CLEÓSTRATA (Ao seu marido.)


Agradeço-te.

CALINO (A Olimpião.)
Peço aos deuses que a tua sorte tenha fugido da urna.

OLIMPIÃO
A sério? Como tu próprio és um escravo fugitivo, queres que todos
te imitem.

CALINO
Oxalá a tua sorte se desfaça no momento do sorteio como dizem
que aconteceu com a dos Heraclidas(33).

32 Calino dá ao perdis me proferido por Olimpião o sentido de “levas-me à ruína”, o


que justifica o seu comentário.
33 Alusão ao sorteio que os descendentes de Hércules (Cresfontes, Témeno e
Aristodemo) decidiram fazer para repartirem entre si o Peloponeso, dividindo-o em três
regiões (Argos, Lacedemónia e Messénia). Cresfontes, que ambicionava ficar com
Messénia, que seria atribuída à última pedra que saísse no sorteio, colocou na uma, em
vez de uma pedra, um torrão, que se desfez, permitindo, desse modo, que saíssem primeiro
as pedras dos irmãos.
OLIMPIÃO
Tu próprio é que vais ficar desfeito com as vergastadas que, de 400
imediato, te vão aquecer as costas.

LISIDAMO
Presta atenção a isto, Olimpião.

OLIMPIÃO (.Apontando para Calino.)


Se este erudito mo permitir.

LISIDAMO
Oxalá a sorte e a felicidade rne acompanhem.

OLIMPIÃO
Sim, e a mim também.

CALINO
Não.

OLIMPIÃO
Sim, caramba!

CALINO
Não, caramba, antes a mim!

CLEÓSTRATA (A Olimpião.)
Ele vai vencer; tu vais levar uma vida de desgraçado.

LISIDAMO (A Olimpião.)
Parte a cara a esse tipo odioso; vamos, de que estás à espera?

CLEÓSTRATA
Livra-te de lhe pores a mão em cima.
OLIMPIAO
405 Dou-lhe um murro ou um estalo?

LISIDAMO
Faz como quiseres.

OLIMPIÃO (Batendo em Calino.)


Ora toma lá!

CLEÓSTRATA
Com que direito lhe estás a bater?

OLIMPIÃO
Foi o meu Júpiter que mandou.

CLEÓSTRATA (A Calino.)
Dá-lhe também tu nos queixos, como ele te fez. (Calino agride
Olimpião.)

OLIMPIÃO
Estou perdido; estou a ser agredido aos murros, Júpiter!

LISIDAMO
Com que direito lhe bateste?

CALINO
Foi a minha Juno que mandou.

LISIDAMO
Temos que aguentar, pois embora eu ainda esteja vivo, a minha
mulher é que manda.
CLEÓSTRATA (Apontando primeiro para Calino, que está ao seu
lado, e depois para Olimpião, que está ao lado de Lisidamo.)
Tanto direito tem de falar este como esse.

OLIMPIÃO
Por que razão é que ele está sempre a dar cabo dos meus votos?

LISIDAMO
Calino, aconselho-te a teres cuidado, podes apanhar uma sova.

CALINO
Avisas-me mesmo na hora certa, depois dele me ter esmurrado a cara.

LISIDAMO
Vamos, mulher, tira lá agora as sortes; vocês estejam atentos. (Ã
parte.) Estou com tanto medo que nem sei onde estou. Estou perdido.
Até parece que tenho o coração inchado. Desde há muito que ele não
pára de saltar. O esforço é tal que me dá cabo do peito.

CLEÓSTRATA
Já tenho uma sorte.

LISIDAMO
Tira-a para fora.

CALINO (A Olimpião.)
Já estás morto?

OLIMPIÃO
Mostra. É a minha!

CALINO
Estou perdido.
CLEÓSTRATA
Perdeste, Calino.

LISIDAMO
Os deuses ajudaram-nos, Olimpião, estou contente.

OLIMPIÃO
Foi um prêmio pela minha piedade e pela dos meus antepassados.

LISIDAMO
Vai, entra, mulher, e prepara a boda.

CLEÓSTRATA
Farei como mandas.

LISIDAMO
Sabes que daqui até à quinta para onde ela vai ser levada é longe.

CLEÓSTRATA
Eu sei.

LISIDAMO
Vai, entra, e embora isso te seja desagradável, trata, no entanto, de tudo.

CLEÓSTRATA
Está bem. (Entra em casa.)

LISIDAMO
Vamos nós também para dentro; vamos fazer com que se apressem.

OLIMPIÃO
Eu é que te estou a atrasar? {Apontando para Calino.) Bem, na presença
dele não quero dizer mais nada. {Lisidamo e Olimpião entram em casa)
CENA V II

CALINO

CALINO (Sozinho.)
Se agora eu me enforcasse, estaria a perder o meu tempo, e para 425
além do tempo, ainda teria a despesa da corda e daria uma alegria aos
meus inimigos. Para que é que isso é necessário se, na verdade, já sou
um homem morto? Fui vencido pela sorte; Cásina vai casar com o
feitor. Mas não é tanto o facto de o feitor ter vencido que agora mais
me custa, mas sim que o velho tenha procurado com tanto empenho 430
que ela não me fosse dada a mim e que casasse com o outro. Como
ele estava agitado, como andava numa fona, o desgraçado, como
pulava de alegria quando o feitor venceu! Eh pá, vou retirar-me daqui;
estou a ouvir a abrirem a porta. São os meus caros amigos que estão 435
a sair. Daqui, às escondidas, eu vou armar-lhes uma cilada.

CENA VIII

OLIMPIÃO LISIDAMO CALINO

OLIMPIÃO (A Lisidam o, sem ver C alin o .)


Deixa só que ele venha para o campo; eu recambio-te o tipo para
a cidade com uma forqueta de condenado, como um carvoeiro(34).

LISIDAMO
Assim é que se deve fazer.

OLIMPIÃO
É isso mesmo que eu vou tratar de fazer.

(M) A furca era um objecto formado por duas estacas de madeira unidas em forma de
V que era utilizado como instrumento de tortura mas que também servia para transportar
cargas. Era o que acontecia com os carvoeiros que fabricavam o carvão nas florestas e o
transportavam para a cidade numa forqueta.
LIS1DAMO
440 Eu queria mandar Calino ir às compras contigo, se ele estivesse
em casa, para juntar à tristeza do nosso inimigo mais esta adversidade.

CALINO (Â parte.)
Vou recuar até à parede, vou imitar o caranguejo; tenho de ouvir a
445 conversa deles sem que me vejam. É que se um deles me atormenta,
o outro tortura-me. (R eferindo-se a O lim pião.) Olha só como ele vem,
vestido de branco (35), aquele patife, aquele cofre de aguilhadas. Adio
a minha morte; está decidido, vou enviá-lo primeiro a ele para o
Aqueronte(36).

OLIMPIÃO
450 Estás a ver como tenho sido complacente contigo! O que tu mais
desejavas, fiz com que o conseguisses: hoje estará contigo a tua
amada, às escondidas da tua mulher.

LISIDAMO
Cala-te; assim os deuses me abençoem como eu mal posso conter os
meus lábios de te cobrir de beijos pelo favor que me fizeste, meu querido.

CALINO (A parte.)
455 O quê!? Cobri-lo de beijos? Um favor? Teu querido? Eh pá! Acho
que ele quer mesmo é comer o feitor.

OLIMPIÃO
Então, agora gostas de mim?

LISIDAMO
É claro que sim, caramba, mais do que de mim próprio. Posso
abraçar-te?

(35) Olimpião aparece já na qualidade de noivo e, por isso, está vestido de branco.
(36) O Aqueronte é o nome de um rio dos Infernos, por vezes utilizado, por extensão,
com o significado de mundo dos mortos.
CALINO (Ã parte.)
O quê!? “Abraçá-lo”?

OLIMPIÃO
Podes.

LISIDAMO
Quando te toco, até me parece que estou a lamber mel!

OLIMPIÃO (Rechaçando Lisidamo.)


Desanda, ó maricas! Afasta-te das minhas costas.

CALINO (Á parte.)
É este, é este o motivo por que fez dele seu feitor! E também a 460
mim, há algum tempo, quando tinha ido ao encontro dele, ele queria
fazer de mim seu mordomo debaixo da porta de entrada.

OLIMPIÃO
Como fui sim pático hoje contigo, que grande prazer te
proporcionei!

LISIDAMO
De tal modo que, enquanto for vivo, vou querer-te mais do que a
mim próprio.

CALINO (Ã parte.)
Caramba, tenho a impressão que hoje estes dois vão enlaçar os 465
pés; sem dúvida que este velho costuma andar atrás de homens
barbudos.

LISIDAMO
Como vou hoje cobrir de beijos Cásina! Que bons momentos vou
passar às escondidas da minha mulher!
CALINO (À parte.)
470 Oh! Agora é que eu, fmalmente, estou a ir pelo bom caminho: é ο
proprio velho que está perdido de amores por Cásina. Apanhei os
tipos.

LISIDAMO
Caramba, que vontade tenho de a abraçai· e de a beijar já.

OLIMPIÃO
Deixa que se faça primeiro o casamento. Porque estás, c’os diabos,
com tanta pressa?

LISIDAMO
É que estou apaixonado.

OLIMPIÃO
Mas não creio que isso possa ser feito hoje.

LISIDAMO
Pode, se pensares que amanhã podes obter a liberdade.

CALINO (À parte.)
475 Agora é que tenho mais que nunca de ser todo ouvidos; eu vou,
com muita pinta, matar dois coelhos com uma só cajadada.

LISIDAMO (Apontando para a casa de Alcésimo.)


Aqui, em casa do meu amigo e vizinho, está preparado um lugar
para mim. Eu confiei-lhe toda a história da minha paixão e ele
prometeu albergar-me em casa dele.

OLIMPIÃO
480 E a mulher dele? Onde estará?
LISIDAMO
Tive uma ideia brilhante. A minha mulher vai convidá-la para nossa
casa por causa do casamento, para que lhe faça companhia, a ajude, e
passe a noite com ela. Eu sugeri-lhe isso e a minha mulher prometeu-
me que o ia fazer. A vizinha dormirá aqui e farei com que o marido
saia de casa. Tu levarás a tua mulher para o campo; mas o campo será 485
aqui {Aponta p a ra a casa do vizinho.), durante o tempo em que eu
estiver a celebrar as minhas núpcias com Cásina. Depois, amanhã,
antes do amanhecer, tu leva-la daqui para o campo. Não achas uma
belíssima ideia?

OLIMPIÃO
Genial.

CALINO (À parte.)
Vamos, maquinem à vontade; juro que vos vai sair caro serem tão
espertalhões.

LISIDAMO
Sabes o que tens que fazer, agora? 490

OLIMPIÃO
Diz lá.

LISIDAMO
Toma esta bolsa. Vai às compras, despacha-te; mas quero do bom
e do melhor: alimentos apetitosos, tão apetitosos como ela própria.

OLIMPIÃO
Está bem.

LISIDAMO
Compra uns choquinhos, umas lapas, umas lulinhas, uns
moluscozinhos.
CALINO (À parte.)
Antes uns triguinhos(37), se tiveres juízo.

LISIDAMO
495 Umas solhas...

CALINO (À parte.)
Porque não antes uns tamancos (38), para te bater com eles nessa
cara, velho sem-vergonha?

OLIMPIÃO
Não queres linguados (39)?

LISIDAMO
Para que os quero, quando tenho a minha mulher em casa? Ela já
me chega como linguado; é que ela nunca se cala.

OLIMPIÃO
Quando chegar ao mercado, em função da variedade de peixe
500 existente, eu verei o que poderei comprar.

LISIDAMO
Tens razão; vai. Não quero que se olhe à despesa, compra em
abundância. Quanto a mim, tenho que ir ter com o meu vizinho, para
que ele trate de fazer o que lhe pedi.

(37) Lisidamo usa a palavra hordeias, nome dado a uma espécie de molusco
desconhecido. No entanto, Calino relaciona a palavra com hordeum (cevada) e sugere
ironicamente que Lisidamo mande comprar triticeias, um neologismo formado a partir
de triticum (trigo), por analogia com hordeias.
O Lisidamo usa a palavra soleas que pode significar “solha” mas também “sandália”,
por isso, uma vez mais, Calino ironiza com o jogo de palavras.
(w) A palavra latina lingulaca pode significar “linguado” (peixe) ou “linguareiro”, o
que vai permitir o jogo de palavras presente na resposta de Lisidamo.
OLIMPIAO
Então, vou já embora?

LISIDAMO
Sim. (Saem.)

CALINO (Sozinho.)
Nem que me oferecessem três vezes a liberdade, eu poderia deixar 505
de aprontar hoje, a estes dois, uma valente lição, e de ir imediatamente
denunciar toda esta tramóia à minha patroa. Acabo de apanhar os
meus inimigos em flagrante delito. E se agora a minha patroa estiver
disposta a cumprir a sua obrigação, a causa é toda nossa; vou passar
a perna aos tipos com muita pinta. O dia está a correr favoravelmente 510
para o nosso lado: de vencidos passámos a vencedores. Vou entrar,
para que eu, agora, condimente à minha maneira o prato que outro
cozinheiro condimentou, para que aquilo que estava preparado não
esteja preparado, e que esteja preparado aquilo que não estava
preparado.

ACTO III

CENA I

LISIDAMO ALCÉSIMO

LISIDAMO
Agora, Alcésimo, vou ficar a saber se és verdadeiramente meu 515
amigo ou meu inimigo; agora é que se vai tirar a prova, agora é que é
o momento decisivo. Censuras-me por eu estar apaixonado, poupa-
-me disso; “com os teus cabelos brancos”, “já não é para a tua idade”,
poupa-me também disso; “tens mulher”, também disso me podes
poupar.
ALCÉSIMO
520 Eu nunca vi ninguém tão perdidamente apaixonado como tu.

LISIDAMO
Faz com que a tua casa fique desocupada.

ALCÉSIMO
Até já está decidido, c’os diabos, enviar todos os meus escravos e
escravas para tua casa.

LISIDAMO
Oh, óptimo, és mesmo esperto! Mas trata de fazer o que o melro
canta na sua canção: faz com que cada um venha com a sua comida,
como se fossem a Sútrio(40).

ALCÉSIMO
525 Não me vou esquecer.

LISIDAMO
Perfeito. Agora é que eu vejo finalmente que nenhum decreto é
mais sensato do que tu. Trata de tudo, eu vou dar um salto ao foro;
volto já.

ALCÉSIMO
Boa viagem.

LISIDAMO
Faz com que a tua casa tenha uma língua.

O No início do século IV a. C., depois da ocupação de Roma pelos Gauleses, Camilo


reuniu em Sútrio, na Etrúria, os soldados que restavam do exército romano, ordenando-
-lhes que cada um levasse consigo os seus víveres. Este episódio deu origem ao refrão de
uma canção popular que se ensinava aos melros. Ao relembrar este refrão, Lisidamo sugere
que os escravos de Alcésimo, ao irem para sua casa, devem levar consigo comida.
ALCÉSIMO
Para quê?

LISIDAMO
Para que me convide, quando eu vier.

ALCÉSIMO
Eia! Tu mereces um bom castigo! Andas a gozar demasiado.

LISIDAMO
De que me serviria estar apaixonado, se eu não fosse esperto e
gozão? Mas tu trata de fazer com que eu não tenha de andar à tua 530
procura.

ALCÉSIMO
Estarei sempre em casa.

CENA II

CLEÓSTRATA

CLEÓSTRATA (Saindo de sua casa.)


Era então por isso, c’os diabos, que o meu marido me pedia com
tanta insistência para que eu me apressasse em ir buscar a minha
vizinha para aqui: para que tivesse a casa livre para levar para lá
Cásina. Agora é que não a vou buscar de maneira nenhuma, para que
esses depravados, esses bodes velhos, não possam ter um lugar livre. 535
Mas lá está ele a sair de casa, o pilar do senado, o defensor do
povo, o meu caro vizinho, aquele que oferece um lugar livre ao meu
marido. Palavra que ainda que ele fosse comprado por uma medida
de sal, mesmo assim não seria barato.
CENA III

ALCÉSIMO CLEÓSTRATA

ALCÉSIMO (Sem se aperceber da presença de Cleóstrata.)


Estou admirado de ali da vizinhança ainda não terem vindo buscar
540 a minha mulher. Há já algum tempo que ela está pronta, esperando
em casa que a venham buscar. (Vendo Cleóstrata.) Mas ali está a
vizinha, tenho a certeza que a vem buscar. Olá, Cleóstrata.

CLEÓSTRATA
Olá, Alcésimo. Onde está a tua mulher?

ALCÉSIMO
Ela está lá dentro à espera que a vás buscar; é que o teu marido
pediu-me que eu a deixasse ir para tua casa para te ajudar. Queres que
a chame?

CLEÓSTRATA
Deixa-a estar; não vale a pena, ela deve estar ocupada.

ALCÉSIMO
Ela não está a fazer nada.

CLEÓSTRATA
545 Não importa; não a quero aborrecer. Vou ter com ela mais tarde.

ALCÉSIMO
Não estão a preparar uma boda em vossa casa?

CLEÓSTRATA
Sim, estou a preparar.
ALCÉSIMO
E então não precisas de ninguém para te ajudar?

CLEÓSTRATA
Tenho em casa gente que chegue; quando a boda tiver terminado,
então eu irei ter com ela. Agora adeus, e dá-lhe cumprimentos meus.
(Entra em casa.)

ALCÉSIMO (Sozinho.)
E agora o que é que eu vou fazer? Desgraçado de mim, fiz uma
figura bem triste por culpa daquele maldito bode desdentado que me 550
meteu nesta embrulhada. Ando a oferecer os serviços da minha mulher
a gente de fora como se fosse para lamber pratos. Que sacana! Ele
disse-me que a mulher dele viria buscar a minha; e ela diz que não
precisa dela. Eh pá, seria de admirar se a minha vizinha não suspeitasse
já de alguma coisa. Mas, por outro lado, pensando bem, se ela se 555
tivesse apercebido de alguma coisa, ter-me-ia pedido explicações.
Vou entrar para pôr o meu navio de novo em seco(41). (Entra em
casa.)

CLEÓSTRATA (Regressando de casa.)


Este já foi enganado com muita pinta. Como andam agitados os
pobres velhos! Agora eu queria que aparecesse aquela nulidade, aquele
decrépito do meu marido, para também o enganar a ele, depois de ter 560
gozado o outro. Eu quero mesmo é provocar uma desavença entre os
dois. Mas ali vem ele; quem o vê assim com ar sério, até parece um
homem às direitas.

(4I) No latim in puluinaria. Puluini era, por analogia com as almofadas que se põem
na cama, o nome dado aos suportes de madeira colocados em terra, onde se prendiam os
barcos durante o Inverno. Plauto compara o lugar onde os barcos estão ancorados com o
leito (puluinarium).
CENA IV

LISIDAMO CLEÓSTRATA

LISIDAMO (Sem ver Cleóstratci.)


Na minha opinião é uma grande tolice um homem apaixonado ir
565 para o foro num dia em que tem à disposição a sua amada. E foi essa
a tolice que eu fiz. Perdi o dia ficando lá especado como assistente de
um parente meu. Palavra de honra que eu até fiquei contente por ele
ter perdido o processo, para que não me tenha convocado hoje para
570 seu assistente impunemente. É que, na minha opinião, quem solicita
a assistência de alguém deve antes perguntar e informar-se se essa
pessoa a quem se solicita a assistência está com cabeça para isso ou
não. Se ela disser que não, então que deixe ir para casa essa pessoa
que não está com cabeça para essas coisas. Mas está ali a minha mulher
575 diante de casa. Ai, desgraçado de mim! Receio que ela não esteja
surda e tenha ouvido o que eu disse.

CLEÓSTRATA (À parte.)
Ouvi, caramba, para desgraça tua.

LISIDAMO (À parte.)
Vou aproximar-me. (A Cleóstrata.) Que andas a fazer, minha jóia?

CLEÓSTRATA
Estava à tua espera, caramba.

LISIDAMO
580 Já está tudo preparado? Já levaste a vizinha para nossa casa para
ela te ajudar?

CLEÓSTRATA
Fui buscá-la, como tinhas dito; mas aquele teu camarada, o teu
melhor amigo, enxofrou-se, não sei porquê, com a mulher; e, quando
eu ia buscá-la, ele disse que ela não podia vir.
LISIDAMO
Tu tens um enorme defeito: és pouco simpática.

CLEÓSTRATA
Não é próprio das mães de família, mas sim das cortesãs, meu 585
caro marido, ser simpática com os maridos das outras. Vai tu buscá-
-la; eu vou para dentro, quero tratar daquilo que é necessário fazer,
meu caro marido.

LISIDAMO
Despacha-te lá, então.

CLEÓSTRATA
Está bem. (À p a rte.) Palavra que eu vou pregar-lhe um susto. Eu 590
hoje vou atormentá-lo bem, este apaixonado. (E ntra em casa.)

CENA V

ALCÉSIMO LISIDAMO

ALCÉSIMO (Saindo de casa, sem ver L isidam o.)


Vou ver se o nosso galã já regressou do foro, aquele abantesma
que me enganou a mim e à minha mulher. Mas ali está ele diante da
sua casa. (A L isidam o.) Eh pá, ia mesmo ter contigo.

LISIDAMO
Eh pá, eu também ia ter contigo. Que é que andas para aí a dizer,
homem de meia tigela? O que é que te mandei fazer? O que é que te 595
pedi?

ALCÉSIMO
Que é que se passa?
LISIDAMO (Irônico.)
Que bem me deixaste a tua casa vazia! Que bem enviaste a
tua mulher para minha casa! Então não vês que por tua causa estou
perdido, eu e a ocasião?

ALCÉSIMO
Vai-te lixar! Tu é que tinhas dito que a tua mulher ia buscar a
minha.

LISIDAMO
Pois ela afirma que a foi buscar e que tu disseste que não a deixavas vir.

ALCÉSIMO
Mas até foi ela própria que me disse que não precisava da sua
ajuda.

LISIDAMO
Mas até foi ela própria que me mandou ir buscá-la.

ALCÉSIMO
Mas pouco me importa.

LISIDAMO
Mas dás cabo de mim.

ALCÉSIMO
Mas ainda bem.

LISIDAMO
Mas ficarei à espera o tempo que for necessário.

ALCÉSIMO
Mas eu desejo...
LISIDAMO
Mas...

ALCÉSIMO
Aborrecer-te.

LISIDAMO
Mas eu é que vou ter o prazer de o fazer. Não serás tu a dizer mais
um “mas” do que eu.

ALCÉSIMO
Mas, c’um raio, que os deuses dêem cabo de ti de uma vez por
todas.

LISIDAMO
Então e agora? Vais deixar ir a tua mulher para minha casa? 610

ALCÉSIMO
Leva-a e vai para o diabo com ela, com a tua, e também com a tua
amante. {Num tom mais calmo.) Vai-te embora e não te preocupes
com isso; eu vou já dizer à minha mulher que atravesse pelo jardim e
que vá ter com a tua.

LISIDAMO
Agora sim, estás a portar-te como um verdadeiro amigo! {Alcésimo 615
entra em sua casa.) Sob que presságio me foi concedido este amor
ou que ofensa fiz eu alguma vez a Vénus, para que surjam tantas
demoras e obstáculos aos meus amores? Ui! Céus, que gritaria é esta 620
em minha casa?
CENA VI

PARDALISCA LISIDAMO

PARDALISCA (Saindo de casa de L isidam o.)


Estou perdida, estou perdida! Estou morta, completamente morta.
Com o medo, o meu coração parou de bater; todo o meu corpo,
desgraçado de mim, treme. Não sei onde procurar ou obter ajuda,
625 socorro, protecção ou refúgio. Que coisas tão estranhas e
extraordinárias acabo de ver ali dentro! Que incrível e inaudita
audácia! (F alando p a ra dentro de casa.) Tem cuidado, Cleóstrata;
afasta-te dela, por favor, não vá ela, enfurecida como está, fazer-te
algum mal. Arranca-lhe a espada, que ela está fora de si.

LISIDAMO (À p a rte.)
630 Mas o que é que se passa? Porque é que esta saiu tão bruscamente
de casa, a tremer e cheia de medo? ( C ham ando-a .) Pardalisca!

PARDALISCA
Estou perdida! Donde vem o som que chega aos meus ouvidos?

LISIDAMO
Vira-te e olha para mim.

PARDALISCA
Oh! Meu querido amo...

LISIDAMO
O que é que tens? Porque estás cheia de medo?

PARDALISCA
Estou perdida.
LISIDAMO
Como, estás perdida?

PARDALISCA
Estou perdida, e tu também estás perdido.

LISIDAMO
Oh!? Estou perdido? Como assim?

PARDALISCA
Desgraçado de ti!

LISIDAMO
Diz antes desgraçada de ti.

PARDALISCA
Segura-me, por favor, para que eu não caia.

LISIDAMO
O que quer que seja, diz-mo imediatamente. 635

PARDALISCA
Segura-me pelo peito; por favor, faz-me vento com a capa.

LISIDAMO
Receio que esteja a acontecer algo de mal, a não ser que esta se 640
tenha enfrascado com vinho puro(42).

O Plauto usou uma perífrase: meraco... flore Liberi (com a flor pura de Libero)
para designar o vinho puro. Libero era uma antiga divindade latina, mais tarde identificada
com Baco.
PARDALISCA
Segura-me pelas orelhas, por favor.

LISIDAMO
Vai para o diabo que te carregue. Maldita sejas tu, o teu peito, as
tuas orelhas e a tua cabeça! Se tu não me dizes imediatamente o que
645 se passa, seja o que for, racho-te já a cabeça com este bastão, maldita
víbora, que até agora tens estado sempre a gozar comigo.

PARDALISCA
Ó meu querido amo!

LISIDAMO (Irônico.)
O que é que queres, minha querida escrava?

PARDALISCA
Estás muito irritado.

LISIDAMO
Ainda não viste nada. Mas, seja o que for, diz-me lá o que se
passa, e resume-o em poucas palavras. Que rebuliço foi esse lá dentro?

PARDALISCA
650 lá vais saber, escuta. Há pouco, aqui dentro, em nossa casa, a tua
escrava começou a comportar-se de forma horrível e pavorosa, de um
modo que não é digno da educação ática(43).

LISIDAMO
O que é que se passa?

(43) A educação ática caracterizava-se pela discrição, pela moderação e pelo decoro,
e era objecto de orgulho para os Atenienses.
PARDALISCA
O temor paralisa-me a língua.

LISIDAMO
Mas afinal posso ficar a saber por ti o que se passa?

PARDALISCA
Já to vou dizer. A tua escrava, aquela que tu queres dar em 655
casamento ao teu feitor, ela, lá em casa...

LISIDAMO
O quê lá em casa? O que é que se passa?

PARDALISCA
Está a imitar a má educação das más mulheres, ela está a fazer
terríveis ameaças ao seu marido; a vida...

LISIDAMO
O quê?

PARDALISCA
Ai!

LISIDAMO
O que se passa?

PARDALISCA
Ela diz que lha quer tirar. Uma espada... 660

LISIDAMO
Hein!?
PARDALISCA
Uma espada...

LISIDAMO
O que é que tem a espada?

PARDALISCA
Ela tem uma.

LISIDAMO
Ai, desgraçado de mim, porque é que ela tem uma espada?

PARDALISCA
Ela anda a perseguir toda a gente pela casa e não permite que
ninguém se aproxime dela. Estão todos escondidos debaixo das arcas,
debaixo das camas e, com medo, não dão um pio.

LISIDAMO
Estou perdido e arrumado! Que tipo de mal é que a atingiu tão de
repente?

PARDALISCA
Ela está maluca.

LISIDAMO
Eu acho que sou o mais desgraçado dos homens.

PARDALISCA
E se soubesses o que ela disse hoje!

LISIDAMO
Eu quero muito sabê-lo. O que é que ela disse?
PARDALISCA
Ouve. Ela jurou, por todos os deuses e deusas, que há-de matar 670
aquele que se deitar com ela esta noite.

LISIDAMO
Ela vai matar-me?

PARDALISCA
Mas por acaso isso diz-te respeito a ti?

LISIDAMO (E m baraçado .)
Oh!

PARDALISCA
Que tipo de negócio é que tens com ela?

LISIDAMO
Enganei-me; eu queria dizer o feitor.

PARDALISCA
Tu sabes mudar de caminho. 675

LISIDAMO
Então e a mim, ela também me ameaça?

PARDALISCA
Ela está mais furiosa contigo do que com qualquer outro.

LISIDAMO
Porquê?
PARDALISCA
Porque queres dá-la em casamento ao Olimpião. E ela diz que não
680 vai permitir que se prolongue até amanhã nem a tua vida, nem a dela,
nem a do seu marido. Foi isto que me mandaram vir aqui dizer-te,
para que tenhas cuidado com ela.

LISIDAMO
Eh pá, desgraçado de mim, estou perdido.

PARDALISCA (À parte.)
Bem que o mereces.

LISIDAMO (À parte.)
685 Não há nem nunca houve um velho apaixonado tão desgraçado
como eu.

PARDALISCA (Para o público.)


Eu estou a gozá-lo com muita pinta! Pois tudo o que eu acabei de
lhe dizer é pura mentira. A minha ama e a vizinha é que inventaram
esta história; e mandaram-me vir enganá-lo.

LISIDAMO
Olha lá, Pardalisca!

PARDALISCA
O que é?

LISIDAMO
É...

PARDALISCA
O quê?
LISIDAMO
É uma coisa que te quero perguntar.

PARDALISCA
Estás a atrasar-me. 690

LISIDAMO
E tu estás a afligir-me. Mas Cásina ainda tem a espada?

PARDALISCA
Tem; até tem duas.

LISIDAMO
Como, duas?

PARDALISCA
Ela diz que com uma vai matar-te a ti, com a outra o feitor.

LISIDAMO (À parte.)
Sou o mais morto de todos os vivos. Vou pôr uma couraça; penso 695
que é o melhor para mim. (A Pardalisca.) E a minha mulher? Não foi
ter com ela? Não a desarmou?

PARDALISCA
Ninguém se atreve a aproximar-se dela.

LISIDAMO
Que tente convencê-la.

PARDALISCA
Está a tentar. Mas ela garante que não largará as espadas de modo
nenhum, a não ser que tenha a certeza de que não a vão casar com o
feitor.
LISIDAMO
700 Pois bem, já que ela não quer, vai casar-se hoje mesmo contra a
sua vontade. Na verdade, por que razão é que eu não haveria de pôr
em prática aquilo a que me propus: que ela case comigo... com o
nosso feitor, queria eu dizer

PARDALISCA
Enganas-te bastantes vezes.

LISIDAMO
705 O temor paralisa-me a língua. Mas, por favor, diz à minha mulher
que lhe suplico que a tente convencer, por meio de súplicas, a largar
a espada para que eu possa voltar a casa.

PARDALISCA
Eu vou dizer.

LISIDAMO
E suplica-lhe também tu.

PARDALISCA
Vou suplicar-lhe eu também.

LISIDAMO
Mas suplica-lhe de forma persuasiva, como costumas fazer.
710 Ouve í44): se o conseguires, dou-te umas sandálias, um anel de
ouro, para pores no dedo, e muitas outras coisas.

PARDALISCA
Eu vou tentar.

C4) Omitimos a interrogação que aparece na edição de Ernout.


LISIDAMO
Faz com que consigas.

PARDALISCA
Vou imediatamente, a não ser que me queiras mais alguma coisa. 715

LISIDAMO
Vai e trata do que te disse. ( Vendo regressar Olimpião
acompanhado dos cozinheiros.) Finalmente, o meu ajudante está de
volta das compras. Traz uma comitiva com ele.

CENA VII

OLIMPIÃO LISIDAMO CITRIÃO

OLIMPIÃO (A Citrião e apontando para os seus ajudantes.)


Ó ladrão (45), trata de manter as tuas garras debaixo dos estandartes. 720

CITRIÃO
Mas porque é que dizes que eles são as minhas garras?

OLIMPIÃO
Porque tudo aquilo em que tocam, roubam-no imediatamente; e
se lho vais tirar, eles rasgam-te imediatamente. Assim, para onde quer
que eles vão, onde quer que estejam, causam um duplo prejuízo a
quem os contrata.

CITRIÃO
Oh, anda lá!

(45) Alusão à reputação dos cozinheiros, que tinham fama de, sempre que surgia a
oportunidade, roubar tudo o que podiam nas casas onde trabalhavam.
OLIMPIÃO ( Vendo L isidam o.)
Eh pá, de que estou à espera para pôr a minha capa elegantemente,
como um senhor, e ir ao encontro do meu amo?

LISIDAMO
725 Olá, meu bom homem.

OLIMPIÃO
Reconheço que o sou.

LISIDAMO
Novidades?

OLIMPIÃO
Tu estás apaixonado, eu estou cheio de fome e de sede.

LISIDAMO
Vens muito elegante.

OLIMPIÃO
Oh, hoje... (Lacuna.)

LISIDAMO
Espera aí, ainda que te repugne.

OLIMPIÃO (A fa sta n d o -se .)


Arre! A tua conversa cheira-me mal.

LISIDAMO
Porquê?

OLIMPIÃO (A fa sta n d o -se .)


Porque sim.
LISIDAMO
Mas paras ou não?

OLIMPIÃO ( C ontinuando a caminhar.)


A verdade é que tu m ’a sso m es(Ab).

LISIDAMO
Eu vou é dar-te une bonne rossée, acho eu, se não paras. 730

OLIMPIÃO
P a rZ e u sl Importas-te de te afastar de mim, se não queres que eu
vomite agora?

LISIDAMO
Espera.

OLIMPIÃO (F ingindo não conhecer L isidam o .)


O que é? Quem é este homem?

LISIDAMO
Sou o teu amo.

OLIMPIÃO
Que amo?

LISIDAMO
Aquele de quem tu és escravo.

(46) Em grego, no original latino. O mesmo acontece nos versos 729 e 730. Optámos
por traduzir as palavras gregas do original por expressões francesas (tradução de Emout)
para, deste modo, mantermos a presença de uma língua estrangeira.
OLIMPIAO
735 Escravo, eu?

LIS IDAMO
Sim, e meu.

OLIMPIAO
Eu não sou um homem livre? Lembra-te lá, lembra-te lá.

LISIDAMO
Pára e fica aqui.

OLIMPIAO
Larga-me.

LISIDAMO
Eu é que sou teu escravo.

OLIMPIAO
Assim está bem.

LISIDAMO
740 Por favor, meu Olimpiãozinho, meu pai, meu patrono.

OLIMPIAO
Ora aí está, agora sim estás a ser sensato.

LISIDAMO
Sou todo teu.

OLIMPIAO
Para que é que eu preciso de um escravo tão mau?
LISIDAMO
Então e agora? Quando é que me fazes reviver?

OLIMPIÃO
Só quando o jantar estiver pronto.

LISIDAMO (A pontando p a ra os cozinheiros.)


Então estes que entrem.

OLIMPIÃO (A os cozinheiros.)
Depressa, entrem rapidamente e despachem-se. Eu já entro. 745
Preparem-me um jantar que seja farto. Mas quero coisas que sejam
finas e delicadas; nada de bredos à moda bárbara(47). (A Lisidam o.)
Ainda aí estás? Vai, por favor.

LISIDAMO
Eu fico aqui.

OLIMPIÃO
Por acaso há mais alguma coisa que te retenha? 750

LISIDAMO
Dizem que lá dentro Cásina tem uma espada para nos matar, a
mim e a ti.

OLIMPIÃO
Eu sei. Deixa-a ter. São tretas. Eu conheço-as bem, elas não são
boas reses. Mas anda, vem comigo para casa. 755

(47) Significa “legumes à moda romana”, um prato considerado insípido pelos


Romanos.
LISIDAMO
Eh pá, mas eu tenho medo que me aconteça algum mal. Vai só tu;
vê primeiro o que se está a passar lá dentro.

OLIMPIÃO
É-me tão preciosa a minha vida a mim, como a tua a ti. Mas, vem
comigo.

LISIDAMO
Se tu o ordenas, lá terei que ir contigo. (Entram.)

ACTO IV

CENA I

PARDALISCA (Saindo de casa de Lisidamo e dirigindo-se ao


público.)
760 Palavra de honra que eu creio que nem em Nemeia, nem em
Olímpia, nem em qualquer outra parte se realizam jogos tão divertidos
como os jogos que estão a decorrer lá dentro, à custa do nosso velho
amo e do nosso feitor Olimpião. Andam todos numa azáfama pela
765 casa toda. O velho grita na cozinha, incita os cozinheiros: “Então, é
para hoje ou quê? Sirvam lá, se é que têm alguma coisa para servir?!
Despachem-se; o jantar já devia estar pronto.” O feitor, por seu lado,
anda a passear com uma coroa na cabeça, vestido de branco, bem
arranjado e todo pimpão. Por sua vez, a minha ama e a vizinha estão
770 no quarto a preparar o escudeiro para o darem em casamento, no
lugar de Cásina, ao nosso feitor. Mas elas disfarçam na perfeição,
como se não soubessem nada do que se vai passar. Também os
cozinheiros dão o seu melhor, fazendo o que é necessário para que o
775 velho não jante: viram as panelas, apagam o lume com água; fazem
tudo isto a pedido delas. O que elas querem mesmo é obrigar o velho
a sair de casa de barriga vazia, para que elas próprias, sozinhas, encham
as suas panças. Eu conheço bem aquelas duas comilonas; elas são
capazes de comer um navio de carga cheio de comida. Mas a porta
está a abrir-se.

CENA II

LISIDAMO PARDALISCA

LISIDAMO (Saindo de casa e falando para a sua mulher, que


ficara dentro de casa.)
Se querem a minha opinião, mulher, acho que devem jantar quando 780
o jantar estiver pronto; eu jantarei no campo. É que eu quero
acompanhar os recém-casados ao campo para que ninguém rapte a
noiva - eu conheço bem a maldade dos homens. Façam o que mais
vos agradar. Mas apressem-se em mandar-me rapidamente os noivos, 785
para que ainda possamos chegar de dia. Eu estarei de volta amanhã; e
amanhã, mulher, eu terei a minha parte da boda.

PARDALISCA (À parte.)
Está a acontecer o que eu tinha previsto; as mulheres obrigam o
velho a sair de barriga vazia.

LISIDAMO (Vendo Pardalisca.)


O que é que tu fazes aqui?

PARDALISCA
Eu vou onde a minha ama me mandou. 790

LISIDAMO
É mesmo verdade?

PARDALISCA
A sério.

LISIDAMO
O que é que andas aqui a espiar?
PARDALISCA
Não ando a espiar nada.

LIS IDAMO
Vai-te embora. Tu andas aqui a perder tempo, enquanto os outros,
lá dentro, andam atarefados.

PARDALISCA
Eu vou.

LISIDAMO
Põe-te já daqui para fora, malvada das malvadas. (Pardalisca entra
em casa.) Ela já se foi embora? Agora já se pode falar do que quer
795 que seja. Aquele que ama, mesmo que tenha fome, não quer comer
nada. Mas vem ali, com a coroa e o archote, aquele que é meu aliado,
meu companheiro, meu co-marido, meu feitor.

CENA III

OLIMPIÃO LISIDAMO

OLIMPIÃO
Vamos, flautista, enquanto preparam a saída da noiva, enche toda
esta praça com uma suave melodia para celebrar o meu himeneu.

OS CANTORES
800 Hímen, Himeneu, ó Hímen! í48)

LISIDAMO
Como estás, meu salvador?

(4S) Ritual da cerimônia do casamento. O cortejo nupcial cantava um refrão no qual


se invocava Himeneu, o deus grego do casamento.
OLIMPIAO
Eh pá, não estou muito bem, estou cheio de fome.

LISIDAMO
Pois eu estou apaixonado.

OLIMPIÃO
Pois a mim, isso, c’um raio, pouco me importa; a ti o amor faz a
vez da comida, a mim já há muito tempo que as minhas tripas roncam
por causa do jejum.

LISIDAMO
Mas porque é que aquelas molengonas estão a demorar tanto? Até 805
parece de propósito; quanto mais pressa tenho, menos se avança.

OLIMPIÃO
E se eu entoasse de novo o himeneu, para ver se elas vêm mais
depressa?

LISIDAMO
Acho bem; e eu vou ajudar-te nestas nossas núpcias comuns.

LISIDAMO E OLIMPIÃO
Hímen, Himeneu, ó Hímen!

LISIDAMO
Eh pá, desgraçado de mim, estou perdido; até posso rebentar a
cantar o himeneu, mas do mal com que eu desejava rebentar(49), não 810
surge nenhuma oportunidade.

(49) O verbo rebentar (dirrumpi), neste segundo caso, é usado com sentido obsceno.
OLIMPIÃO
Caramba, tu, se fosses um cavalo, serias indomável.

LISIDAMO
Porque dizes isso?

OLIMPIÃO
És muito fogoso.

LISIDAMO
Já alguma vez me experimentaste?

OLIMPIÃO
Deus me livre! Mas a porta rangeu; estão a sair.

LISIDAMO
Eh pá! Os deuses querem a minha salvação. O perfume de Cási-
na(50) já se sente ao longe.

CENA IV

PARDALISCA CALINO CLEÓSTRATA OLIMPIÃO LISIDAMO

PARDALISCA (A Calino, disfarçado de noiva.)


815 Levanta um pouco os pés para transpores a soleira (51), minha
querida noiva. Começa esta viagem de forma auspiciosa, para que

(5n) Os manuscritos apresentam a forma masculina Casinus, aludindo ao escudeiro


Calino, que Cleóstrata e Mírrina disfarçaram de Cásina. Alguns editores atribuem estas
palavras, ditas em aparte, a Calino ou a Pardalisca, e com elas teria início a cena seguinte.
Optámos por seguir Ernout, atribuindo a fala a Lisidamo, mas traduzindo o masculino
pelo feminino, de modo a que estas palavras possam fazer sentido na boca de Lisidamo.
Sobre esta questão, veja-se o longo comentário feito a este passo por MacCary-
-Willcock (1976) 186-187.
(51) Costume romano, segundo o qual a noiva era muitas vezes levada ao colo quando
transpunha a soleira da porta de casa, de modo a evitar que ela tropeçasse na soleira,
porque isso seria um mau presságio.
domines sempre o teu marido, para que o teu poder seja superior ao
dele, para que mandes no teu marido e sejas sempre vitoriosa, e que 820
a tua voz e a tua autoridade prevaleçam sempre; que seja o teu marido
a vestir-te e tu a despojá-lo. De noite e de dia, trata de enganar o teu
marido, não te esqueças, por favor.

OLIMPIÃO
Caramba, mal dê um passo em falso, por mais pequeno que seja, 825
apanhará de imediato uma valente coça.

LISIDAMO
Cala-te.

OLIMPIÃO
Não me calo.

LISIDAMO
Porquê?

OLIMPIÃO
Uma malvada dá más lições a outra malvada.

LISIDAMO
Vais fazer com que se estrague o que eu tinha arranjado: é mesmo
isso que elas pretendem, é isso que elas querem, que o plano vá todo
por água abaixo.

PARDALISCA
Vamos, Olimpião, já que queres uma esposa, recebe esta das nossas 830
mãos.

OLIMPIÃO
Dêem-ma lá então, se é que ma vão dar hoje como esposa.
LISIDAMO (Ao cortejo.)
Voltem para casa.

PARDALISCA
Por favor, trata-a com delicadeza, é que ela é virgem e inexperiente,

OLIMPIÃO
Assim será. Adeus.

LISIDAMO
Vão, vão embora.

CLEÓSTRATA
Então, adeus. (Entra em casa com Pardalisca.)

LISIDAMO
835 A minha mulher já foi embora?

OLIMPIÃO
Ela está em casa; não tenhas medo.

LISIDAMO
Bravo! Agora, finalmente, eu estou livre, caramba.
(À suposta noiva.) Meu coraçãozinho, meu docinho, minha
primaverazinha!

OLIMPIÃO
Eh pá! Tu vê lá se tens juízo, tem cuidado; ela é minha.

LISIDAMO
Eu sei; mas eu sou o primeiro a ter o usufruto.
OLIMPIÃO
Segura nesta tocha.

LISIDAMO (A bra ça n d o a suposta noiva.)


Não, prefiro segurar nesta. Vénus omnipotente, quanta felicidade
me concedeste, ao concederes-me a possibilidade de a ter. O que
corpinho delicado.

OLIMPIÃO {Aproxim ando-se da suposta noiva.)


Minha mulherzinha... Mas o que é isto?

LISIDAMO
O que é que se passa?

OLIMPIÃO
Pisou-me o pé, como se fosse um elefante.

LISIDAMO
Cala-te, por favor. Nem uma nuvem é tão suave como o é o peito
dela.

OLIMPIÃO {Aproxim ando-se de novo da suposta Cásina.)


Ah, meu deus, que maminha mais linda!... Ai, desgraçado de
mim!

LISIDAMO
O que é que se passa? 845

OLIMPIÃO
Bateu-me no peito, não com o cotovelo mas sim com um aríete.
LISIDAMO
850 Mas tu, também, por favor, porque é que a tratas assim, de forma tão
dura? Ela, comigo, é delicada, porque a trato delicadamente(52). Ai!

OLIMPIÃO
O que é que aconteceu?

LISIDAMO
Meu deus! Como ela é valente, a miúda! Quase me deitou ao chão
com uma cotovelada.

OLIMPIÃO
E porque ela quer ir para a cama.

LISIDAMO
Então, porque não vamos?

OLIMPIÃO (À suposta Cásina.)


Vai, minha lindinha, vai lindamente. (Entram em casa de Alcésimo.)

ACTO V

CENAI

CLEÓSTRATA MÍRRINA PARDALISCA

MÍRRINA
855 Depois de nos termos tratado à grande lá dentro, saímos para a rua
para assistirmos aqui aos jogos nupciais. Palavra de honra que nunca

(52) O texto latino apresenta um jogo de palavras entre belle hanc tracto (trato-a
delicadamente) e non bellum facit (não me faz a guerra), que não conseguimos reproduzir
na tradução.
na minha vida ine ri tanto, e penso que no resto da minha vida não
voltarei a rir-me tanto.

PARDALISCA
Gostaria de saber o que Calino anda a fazer, no papel de recém-
-casada(53), com o seu marido.

MÍRRINA
Nunca nenhum poeta urdiu um engano mais astucioso do que este, 860
que foi, habilmente, urdido por nós.

CLEÓSTRATA
Agora, o que eu queria mesmo era ver o velho voltar com cara de
parvo, pois não existe nenhum velho mais depravado do que ele, a
não ser que se considere mais depravado aquele que lhe empresta a 865
casa. (Lacuna.) (54) Agora, Pardalisca, quero que fiques aqui de plantão,
para fazeres troça do primeiro que saia daqui.

PARDALISCA
Fá-lo-ei com gosto, como é costume. (Lacuna.) 870

CLEÓSTRATA
Daqui verás tudo o que fazem lá dentro. (Lacuna.) ... atrás
de mim, por favor.

MÍRRINA
E aí poderás dizer-lhes mais à vontade o que te apetecer.

PARDALISCA
Cala-te; a vossa porta rangeu.

(53) No texto latino aparece a forma masculina nouom nuptum.


(54) A partir deste verso, e até ao final da comédia, o texto apresenta várias lacunas e
é frequentemente incerto.
CENA II

OLIMPIÃO CLEÓSTRATA MÍRRINA PARDALISCA

OLIMPIÃO (Saindo de casa de A lcésim o, sem ver as m ulheres.)


875 Nem sei para onde fugir, nem onde me esconder, nem como ocultar
esta vergonha. Que vexame tão grande o meu amo e eu passámos
com estas nossas núpcias! E agora que vergonha eu sinto, até estou
com medo. Que figura ridícula fizemos ambos! Mas eu, que toleira,
agora até faço uma coisa nova: sinto vergonha, eu que, antes, nunca
tinha sentido vergonha. ( Voltando-se p a ra o público.) Prestem atenção,
enquanto eu vos conto o que me aconteceu; vai valer a pena ouvirem.
880 E que as confusões por que eu passei lá dentro são engraçadas de
ouvir e de contar.
Mal introduzi a noiva em casa, levei-a directamente para o quarto.
Mas estava lá tão escuro como num poço. Enquanto o velho não chega,
eu digo-lhe: “deita-te”. Instalo-a, ponho-lhe umas almofadas, acaricio-
-a, lisonjeio-a, para consumai' o matrimônio antes do velho. (Lacuna.)
885 Começo logo a abrandar, porque... (lacuna.) Olho para trás com alguma
frequência para que o velho não... (lacuna. ) Como preliminar da relação
sexual, começo por procurar dar-lhe um beijo. (Lacuna.) Ela afastou-
-me a mão e, na verdade, não permitiu que eu lhe desse um beijo.
890 Então, cada vez tenho mais pressa, cada vez tenho mais vontade de me
atirar para cima de Cásina. Quero antecipar-me ao velho neste serviço.
Vou fechar a porta para que o velho não me surpreenda.

CLEÓSTRATA (A Pardalisca.)
Anda lá, vai ter com ele.

PARDALISCA (A O lim pião.)


Diz-me lá, por favor, onde está a tua jovem esposa?

OLIMPIÃO (À parte.)
895 Eh pá, estou perdido! Descobriu-se tudo.
PARDALISCA
O melhor é contares tudo por ordem. O que é que se passa lá
dentro? Que faz Cásina? Ela é sufrcientemente dócil?

OLIMPIÃO
Tenho vergonha de o dizer.

PARDALISCA
Conta tudo por ordem, como tinhas começado.

OLIMPIÃO
Eh pá, tenho vergonha! 900

PARDALISCA
Vamos, coragem. (Lacuna.) Depois que foste para a cama... quero
que contes a partir daí; o que é que se passou? (Lacuna.)

OLIMPIÃO
(Lacuna.) É um escândalo.

PARDALISCA
Assim, aqueles que ouvirem terão cuidado para não fazerem o
mesmo. (Lacuna.)

OLIMPIÃO
Dás cabo de mim.

PARDALISCA
Porque não continuas?
OLIMPIAO
905 Quando (lacuna ) avançando por baixo. (Lacuna.)

PARDALISCA
O quê?

OLIMPIÃO
Caramba!

PARDALISCA
O quê?

OLIMPIÃO
Caraças!

PARDALISCA
(Lacuna.) O que é?

OLIMPIÃO
Oh! Era enorme; (lacuna) tive medo que tivesse uma espada e
comecei a procurá-la (lacuna.) Enquanto procuro para ver se ela tem
910 uma espada, agarro no punho. Mas quando começo a reflectir, concluo
que não era uma espada que ela tinha; pois teria de ser fria.

PARDALISCA
Explica-te.

OLIMPIÃO
Mas tenho vergonha.
PARDALISCA
Não seria uma raiz?

OLIMPIÃO
Não.

PARDALISCA
Talvez um pepino?

OLIMPIÃO
Não, caramba, não era seguramente nenhum tipo de legume. O
que eu sei é que, o que quer que fosse, nunca nenhuma moléstia o
tinha atingido. O que quer que fosse, era enorme.

PARDALISCA
Mas, afinal, o que é que se passou? Conta lá, tintim por tintim. 915

OLIMPIÃO
Então dirijo-lhe as seguintes palavras: “Cásina, por favor, minha
mulherzinha, por que razão me desprezas assim, sendo eu teu marido?
É que eu, que te desejei tanto, não mereço, de modo algum, que me 920
trates assim.” Ela não diz uma palavra e, com o vestido, tapa aquilo
que faz com que vocês sejam mulheres. Quando vejo aquela passagem
tapada, peço-lhe que me deixe passar pela outra. Eu quero, para me
virar, apoiar-me no cotovelo (lacuna.) Resmunga alguma coisa (la­
cuna) levanto-me para a (lacuna) e a (lacuna.) 925

MÍRRINA
Ele conta com muita graça (lacuna.)
OLIMPIAO
Um beijo (lacuna.) E então uma barba, que mais parecia espinhos,
930 picou-me os lábios. Quando eu, de seguida, me pus de joelhos, ela
espeta-me com os pés no peito. Eu caio da cama, de cabeça; ela salta-
-me em cima e esmurra-me a cara. Depois disso, sem dizer uma
palavra, saio a fugir nesta figura que estás a ver, para que o velho
bebesse pela mesma taça por que eu bebi.

PARDALIS CA
Óptimo. Mas onde está a tua capita?

OLIMPIÃO
Deixei-a lá dentro.

PARDALISCA
935 E então? Foram bem enganados?

OLIMPIÃO
E merecidamente. Mas a porta rangeu. Não será ela a vir aí atrás
de mim?

CENA III

LISIDAMO OLIMPIÃO CLEÓSTRATA MÍRRINA PARDALISCA

LISIDAMO (Saindo de casa de A lcésim o, sem capa e sem bastão,


e ju lg a n d o esta r sozinho.)

Eu até estou a arder de tanta vergonha, nem sei o que fazer nestas
circunstâncias, nem como vou olhar para a cara da minha mulher.
940 Estou perdido. Todos estes actos vergonhosos estão diante dos olhos
de todos; pobre de mim, estou completamente perdido. (Lacuna.)
Estou a ser apanhado pelas goelas com a boca na botija. (Lacuna.)
Não sei como me vou desculpar perante a minha mulher. {L a cu n a .)
Fiquei sem capa, pobre de mim. {L a c u n a .) Núpcias clandestinas. {La- 945
c u n a .) Penso que (la c u n a ) o melhor para mim é (la c u n a ) ir para dentro
ter com a minha mulher e pôr à sua disposição as minhas costas pela 950
ofensa que lhe fiz. { D ir ig in d o -se a o s e s p e c ta d o r e s .) Mas há aqui
alguém que queira ocupar o meu lugar? Agora o que é que hei-de
fazer? Não sei, a não ser que imite os maus escravos e fuja de casa. É 955
que não há nenhuma salvação para as minhas costas, se voltar para
casa. Podem dizer que são tretas; mas, caramba, não me agrada ser
espancado, ainda que tenha merecido o castigo. Vou dar à sola e pirar-
-me imediatamente daqui.

CLEÓSTRATA
Eh! Fica onde estás, ó apaixonado. 960

LISIDAMO
Estou perdido. Estão a chamar-me. Vou fazer de conta que não
ouvi e ponho-me a andar.

CENA IV

CALINO LISIDAMO CLEÓSTRATA MÍRRINA


PARDALISCA OLIMPIÃO

CALINO {S a in d o d e c a sa d e A lc é s im o .)
Onde estás, tu que pretendes imitar os costumes marselheses(55)?
Se queres seduzir-me, agora é uma boa ocasião. Volta, se quiseres, 965
para o quarto. {M u d a n d o d e to m .) Estás perdido, caramba! Vamos,
vem para aqui imediatamente. Acabo de arranjar, fora do tribunal,
um árbitro que será justo contigo. {M o stra o b a s tã o d o velh o .)

(55) Os Marselheses tinham fama de ser homossexuais.


LISIDAMO
Estou perdido, este tipo vai esfolar-me o lombo com o cacete.
(.Mudando de direcção.) Tenho de ir por aqui; é que por ali vai-se ao
encontro de um quebra-costelados.

CLEÓSTRATA (.Aparecendo diante de Lisidamo.)


Desejo-te um bom dia, ó apaixonado.

LISIDAMO
Só me faltava esta! A minha mulher a aparecer no meu caminho.
970 Agora estou entre a espada e a parede e não sei por onde fugir. Por
um lado há lobos, pelo outro cães; o lobo traz consigo um cacete; é
mau presságio! Eh pá, acho que eu, agora, vou mudar aquele velho
provérbio(56). Vou por aqui; espero que o presságio canino seja mais
favorável.

CLEÓSTRATA (Com sarcasmo.)


Como estás, bígamo? Meu querido marido, donde vens nesta
975 figura? O que fizeste do bastão e da capa que trazias?

PARDALISCA
Tenho a certeza que os perdeu enquanto te enganava com Cásina.

LISIDAMO
Estou perdido.

CALINO
Então, não vamos para a cama? Eu sou Cásina.

(56) O provérbio dizia que na escolha entre cães e lobos dificilmente haveria salvação.
LISIDAMO
Vai-te lixar.

CALINO
Já não me amas?

CLEÓSTRATA
Vamos, responde: o que foi feito da tua capa?

LISIDAMO
Foram as Bacantes, mulher, juro-te...

CLEÓSTRATA
As Bacantes?

LISIDAMO
Sim, juro-te que foram as Bacantes, mulher...

MÍRRINA
Ele sabe que o que está a dizer são tretas. Pois é claro que agora já 980
não há festas das Bacantes(57).

LISIDAMO
Esqueci-me. Mas no entanto as Bacantes...

CLEÓSTRATA
O que é que têm as Bacantes?

(57) Alusão à interdição em Itália, em 186 a.C., das Bacanais, no âmbito do culto de Baco.
LISIDAMO
Se isso nao é possível...

CLEÓSTRATA
Caramba, estás com medo!

LISIDAMO
Eu? Juro-te que não.

CLEÓSTRATA
Mas é que estás muito pálido.

LISIDAMO
(Lacuna.) O que (lacuna.)

CLEÓSTRATA
985 Ainda me perguntas? (Lacuna.)

OLIMPIÃO
991 E ele, pobre de mim, ainda me difamou com as suas poucas-
-vergonhas.

LISIDAMO
Não te queres calar?

OLIMPIÃO
Não, caramba, não me calo. É que foste tu que me suplicaste
insistentemente para que eu pedisse Cásina em casamento com vista
a poderes amá-la.
LISIDAMO
Eu fiz isso?

OLIMPIÃO {Irônico.)
Não, foi Heitor, o troiano... 995

LISIDAMO
Oxalá ele tivesse dado cabo de ti. {Às mulheres.) Eu fiz tudo isso
que vocês dizem?

CLEÓSTRATA
Ainda perguntas?

LISIDAMO
Eh pá, se eu, na verdade, o fiz, fiz mal.

CLEÓSTRATA
Agora volta para dentro de casa; eu reavivo-te a memória, se não
te lembrares de alguma coisa.

LISIDAMO
Eh pá, penso que é melhor acreditar no que vocês dizem. Mas, ó 1000
mulher, perdoa lá desta vez ao teu marido. Mírrina, intercede junto
de Cleóstrata. Se alguma vez, daqui em diante, eu fizer amor com
Cásina ou apenas planear fazê-lo, ainda que não faça amor com ela,
se alguma vez, daqui em diante, eu voltar a fazer tal coisa, dou-te
ordem, mulher, para me pendurares e me dares umas vergastadas.

MÍRRINA
Eu acho que ele deve ser perdoado, a sério.
CLEÓSTRATA
1005 Vou fazer como queres. E há agora um outro motivo pelo qual vou
conceder-te esse favor menos contrariada: é para não alongarmos mais
esta comédia já bastante longa.

LISIDAMO
Já não estás zangada?

CLEÓSTRATA
Já não.

LISIDAMO
Estás a falar a sério?

CLEÓSTRATA
Estou.

LISIDAMO
Ninguém tem uma mulher mais encantadora do que a que eu tenho.

CLEÓSTRATA (A Calino.)
Vamos, devolve-lhe o bastão e a capa.

CALINO
1010 Toma, se te agrada. Mas, a verdade é que a mim foi-me feita uma
grande e infame injúria. Casei com dois homens e nenhum deles me
fez o que se costuma fazer às recém-casadas.
O DIRECTOR DA COMPANHIA (58)
Espectadores, vamos contar-vos o que se vai passar lá dentro. Vai
descobrir-se que Cásina é filha do nosso vizinho e ela casar-se-á com
Eutinico, o filho do nosso amo. Agora é justo que dêem, com as vossas 1015
palmas, a merecida recompensa aos actores, que bem a merecem.
Quem o fizer terá sempre, às escondidas da esposa, a amante que
quiser. Mas aquele que não bater palmas com toda a força que puder,
a esse, no lugar da amante, ser-lhe-á colocado um bode perfumado
com água de sentina.

(58) Há dúvidas sobre a identidade da personagem que recita o epílogo, identificada


com Ω nos manuscritos. Ao lado da hipótese do director da companhia, surgem outras
como o cantor ou o próprio Calino.