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PERROT, Michelle. Minha história das mulheres.

2007

(...) passagem do silêncio à palavra e da mudança de um olha que, justamente, faz a história
ou, pelo menos, faz emergir novos objetos no relato que constitui a história, a relação
incessantemente renovada entre o passado e o presente. (p. 13)

Partiu de uma história das mulheres para tornar-se mais especificamente uma história de
gênero, que insiste nas relações entre os sexos e integra a masculinidade. (p. 16)

Quanto aos observadores, ou aos cronistas, em sua maioria masculinos, a atenção que
dispensam às mulheres é reduzida ou ditada por estereótipos. É claro que falam das mulheres,
mas generalizando. "As mulheres são...", "A mulher é...". A prolixidade do discurso sobre as
mulheres contrasta com a ausência de informações precisas e circunstanciadas. O mesmo
ocorre com as imagens. Produzidas pelos homens, elas nos dizem mais sobre os sonhos ou os
medos dos artistas do que sobre as mulheres reais. As mulheres são imaginadas,
representadas, em vez de serem descritas ou contadas. Eis aí outra razão para o silêncio e a
obscuridade: a dissimetria sexual das fontes, variável e desigual segundo as épocas, da qual
voltaremos a falar mais adiante. (p. 17)

Para escrever a história, são necessárias fontes, documentos, vestígios. E isso é uma
dificuldade quando se trata da história das mulheres. Sua presença é frequentemente apagada,
seus vestígios, desfeitos, seus arquivos, destruídos. Há um déficit, uma falta de vestígios. (p.
21)

Em compensação existe uma abundância, e mesmo um excesso, de discursos sobre as


mulheres; avalanche de imagens, literárias ou plásticas, na maioria das vezes obra dos
homens, mas ignora-se quase sempre o que as mulheres pensavam a respeito, como elas as
viam ou sentiam. (p. 22)

Elas são descritas, representadas, desde o princípio dos tempos, nas grutas da pré-história,
onde a descoberta de novos vestígios das mulheres é uma constante, e chegando à atualidade
nas revistas e nas peças publicitárias contemporâneas. Os muros e as paredes da cidade estão
saturados de imagens de mulheres. Mas o que se diz sobre sua vida e seus desejos? (p. 24)
A correspondência, entretanto, é um gênero muito feminino. Desde Mme. de Sévigné, ilustre
ancestral, a carta é um prazer, uma licença, e até um dever das mulheres. As mães,
principalmente, são as epistológrafas do lar. Elas escrevem para os parentes mais velhos, para
o marido ausente, para o filho adolescente no colégio interno, a filha casada, as amigas de
convento. (p. 28) NESSE TRECHO LEMBREI DA MÃE QUE, em Aopção, ESCREVE AO
FILHO INFORMANDO QUE SUA IRMÃ ARRUMOU UM EMPREGO DE MERETRIZ.

Casamento significa a perda do espaço íntimo. (p. 30)

[Capítulo sobre o Corpo] Alguns dos aspectos que abordaremos em sua historicidade são os
seguintes: as idades da vida de uma mulher; as aparências; a cabeleira como exemplo; a
sexualidade; a maternidade; a prostituição. (p. 41)

Comecemos pelo começo, o nascimento: a menina é menos desejada. Anunciar: "E um


menino" é mais glorioso do que dizer: "E uma menina", em razão do valor diferente atribuído
aos sexos, o que Françoise Héritier chama de "valência diferencial dos sexos". Nos campos de
antigamente, os sinos soavam por menos tempo para o batismo de uma menina, como também
soavam menos para o enterro de uma mulher. O mundo sonoro é sexuado. (p. 42)

A virgindade das moças é cantada, cobiçada, vigiada até a obsessão. A Igreja, que a consagra
como virtude suprema, celebra o modelo de Maria, virgem e mãe. Os pintores da Anunciação,
grande tema medieval, representam o anjo prosternado no quarto da jovem virgem, diante de
seu leito estreito. Essa valorização religiosa foi laicizada, sacralizada, sexualizada também: o
branco, o casamento de branco, no Segundo Império, simboliza a pureza da prometida.
Preservar, proteger a virgindade da jovem solteira é uma obsessão familiar e social. (p. 45)

Pois a violação é um grande risco, porque constitui um rito de iniciação masculina tolerado na
Idade Média: Georges Duby e Jacques Rossiaud descreveram os bandos de rapazes em busca
de presas. Infeliz daquela que se deixa capturar. Torna-se para sempre suspeita de ser uma
mulher fácil. Uma vez deflorada, principalmente se foram muitos os que o fizeram, não
encontrará quem a queira como esposa. Desonrada, está condenada à prostituição. No século
XIX, somente o estupro coletivo é suscetível de punição pelos tribunais. No caso de estupro
cometido por apenas um homem, a jovem (ou a mulher) é quase sempre considerada
complacente: ela poderia ter-se defendido. O estupro é julgado em tribunais correcionais, a
título de "agressão com ferimentos". Será qualificado como "crime" pela lei apenas em 1976.
(p. 45)
Diferenças sociais consideráveis marcam a condição das jovens. A liberdade da jovem solteira
aristocrata, que monta a cavalo, pratica esgrima, tem um preceptor ou uma governanta, como
seus irmãos, e aprende rudimentos de latim, contrasta com a vigilância exercida sobre a jovem
solteira burguesa, educada por sua mãe, iniciada às atividades domésticas e às artes de
entretenimento (o indefectível piano), refinada por alguns anos de estudo ou de colégio
interno e submetida aos rituais de ingresso no mundo social, que visam ao casamento. A filha
das classes populares é posta para trabalhar muito cedo, geralmente em serviços domésticos.
Serviçal de propriedade rural (como a Marie-Claire, natural do Berry, retratada por
Marguerite Audoux), ela é quase sempre exposta a trabalhos pesados e constrangida à
promiscuidade; criada doméstica "para todo serviço" na cidade, é exposta aos riscos da
sedução. Outras são admitidas como aprendizes em oficinas de costura ou numa fábrica. (p.
45-46)

Não é simples manter-se na condição de jovem solteira, com as restrições do corpo e do


coração, quase sem liberdade de escolha quanto a seu futuro, seus projetos amorosos, exposta
à sedução, à maternidade indesejada, impedida de procurar o pai da criança pela lei
napoleônica, relegada à solidão e ao abandono. As jovens solteiras são vítimas de diversos
males: a melancolia, a anorexia — palavra surgida na Inglaterra por volta de 1880 -, que
traduz mal-estar, obsessão pela magreza, mas também recusa da única opção colocada à sua
frente, o casamento. (p. 46)
Ápice do "estado de mulher",o casamento é a condição normal da grande maioria das
mulheres (da ordem de 90% por volta de 1900 na França, um pouco menos na Grã-Bretanha).
A porcentagem seria mais elevada ainda nos países do Islã ou na África, que ignoram o
celibato, instituído pelo cristianismo como via de perfeição. Não é mais o caso no século XIX,
que faz a apologia da maternidade e da utilidade. O celibato é considerado a situação das
"desprezadas", das "solteironas", que serão boas tias (deixando herança) ou intrigantes
temíveis (La Cousine Bette de Balzac). O celibato é uma escolha difícil que supõe uma certa
independência econômica. Entretanto, torna-se mais freqüente no começo do século XX,
sobretudo na Inglaterra, onde redundant women são deploradas, sem se saber o que delas
fazer. (p. 46)
O holismo familiar é total na Idade Média, principalmente na aristocracia, dominada pelas
estratégias da linhagem. O apoio da Igreja foi fundamental, ao instituir o casamento como um
dos sacramentos, ligado, em princípio, ao consentimento dos esposos. Este era mais nominal
do que real, mas contém em germe um reconhecimento da autonomia das mulheres e uma
personalização do casamento. Ocorre uma longa e lenta expansão do casamento por amor,
processo no qual as mulheres do século XIX têm um papel determinante, e cuja apologia é
feita por romancistas como Jane Austen e George Sand. Sinal claro da individualização das
mulheres, e também dos homens, o casamento por amor anuncia a modernidade do casal, que
triunfa no século xx. Os termos da troca se tornam mais complexos: a beleza, a atração física
entram em cena. Um homem de posses pode desejar uma jovem pobre, mas bela. Os encantos
femininos constituem um capital. É claro que o amor conjugai pode existir. Mas é um golpe
de sorte ou o triunfo da virtude. O amor se realiza mais fora do casamento: amplamente
tolerado para os homens, cuja sexualidade seria incoercível, é muito menos tolerado para as
mulheres, cujo adultério é passível de ser levado aos tribunais, enquanto o dos maridos só
pode ser condenado se praticado no domicílio conjugal. (p. 47)

Dependente sexualmente, está reduzida ao "dever conjugai" prescrito pelos confessores. E ao


dever de maternidade, que completa sua feminilidade. Temida, vergonhosa, a esterilidade é
sempre atribuída à mulher, esse vaso que recebe um sêmen que se supõe sempre fecundo. A
esterilidade torna legítimo o ato de repudiá-las: é o que aconteceu a Josephine de Beauharnaís.
(p. 47)

Dependente em seu corpo, ele pode receber "corretivos", como uma criança indócil, pelo
chefe da casa, depositário da ordem doméstica. "Quem ama castiga." Bater na mulher é uma
prática tolerada, admitida, desde que não seja excessiva. Se os vizinhos escutam os gritos de
uma mulher maltratada, não interferem. "O homem deve ser rei em sua casa." (p. 47-48)

A esposa é dependente economicamente, na gestão dos bens (em função do contrato de


casamento e na comunidade), na escolha do domicílio e com relação a todas as grandes
decisões da vida familiar, inclusive quanto à educação e ao casamento dos filhos. (p. 48)

A vida de mulher dura pouco: a menopausa, tão secreta quanto a puberdade, marca o final da
vida fértil, e, por conseguinte, o término da feminilidade segundo as concepções do século
xix: "eu que não sou mais uma mulher", diz George Sand. Não ver mais seu sangue, é sair do
campo da maternidade, da sexualidade e da sedução. (p. 48)

A viuvez atinge necessariamente grande parte das mulheres. E um período bastante


ambivalente, vivido diferentemente de acordo com os meios sociais, as situações de fortuna e
os contratos de casamento. E nesse momento que a relação com o dinheiro mais se diferencia:
a velha camponesa das regiões do sudoeste francês (em Gévaudan, por exemplo), onde
persiste a prática de um direito do filho mais velho, é obrigada à co-habitação e é
marginalizada quando se torna uma boca inútil; a burguesa parisiense de Balzac, que tem uma
boa renda por ser proprietária ou usufrutuária, tem uma vida social, com uma carreira de dama
patronesse adulada e respeitada nas associações dedicadas à beneficência e à caridade. Para
algumas, a viuvez marca um tempo de poder e de revanche." (p. 48-49)

A mulher é, antes de tudo, uma imagem. Um rosto, um corpo, vestido ou nu. A mulher é feita
de aparências. E isso se acentua mais porque, na cultura judaico-cristã, ela é constrangida ao
silêncio em público. Ela deve ora se ocultar, ora se mostrar. Códigos bastante precisos regem
suas aparições assim como as de tal ou qual parte de seu corpo. Os cabelos, por exemplo,
condensam sua sedução. (p. 49-50)

Primeiro mandamento das mulheres: a beleza. "Seja bela e cale-se", é o que se lhe impõe,
desde a noite dos tempos talvez. Em todo caso, o Renascimento, particularmente, insistiu
sobre a partilha sexual entre a beleza feminina e a força masculina. Georges Vigarello12
mostra as modificações do gosto e, principalmente, a valorização das partes do corpo de
acordo com as épocas. Até o século XIX, perscruta-se a parte superior, o rosto, depois o
busto; há pouco interesse pelas pernas. Depois o olhar desloca-se para a parte inferior, os
vestidos se ajustam mais à cintura, as bainhas descobrem os tornozelos. No século XX, as
pernas entram em cena, haja vista à valorização das pernas longilíneas nas peças publicitárias.
Progressivamente, a busca da esbeltez, a obsessão quase anoréxica pela magreza sucedem à
atração pelas generosas formas arredondadas da "bela mulher" de 1900. (p. 50)

A beleza é um capital na troca amorosa ou na conquista matrimonial. Uma troca desigual em


que o homem se reserva o papel de sedutor ativo, enquanto sua parceira deve contentar-se em
ser o objeto da sedução, embora seja bastante engenhosa em sua pretensa passividade. A
Marianne de Marivaux sabe perfeitamente armar suas tramas com graça. As feias caem em
desgraça, até que o século XX as resgate: todas as mulheres podem ser belas. E uma questão
de maquiagem e de cosméticos, dizem as revistas femininas. De vestuário também, daí a
importância da moda, que, num misto de prazer e tirania, transforma modelando as
aparências. Questão de vontade, segundo Marcelle Auclair da revista Marie Claire. Em suma,
ninguém tem o direito de ser feia. A estética é uma ética. (p. 50)

O pêlo mal domesticado sugere a presença inquietante da natureza. Daí a domesticação levada
ao extremo pela peruca, indispensável máscara da sociedade da corte, que, segundo Norbert
Elias, teve o seu papel no processo global de civilização. (p. 51)

Raspar os cabelos de alguém, homem ou mulher, é tomar possessão dele ou dela, é torná-lo
anônimo: os militares são raspados "a zero", por motivos de higiene, mas também de
disciplina; os escravos na Antiguidade são submetidos à tosquia, assim como os prisioneiros.
Nas prisões francesas do século XIX, os detentos reivindicam o direito de conservar a barba e
os cabelos cujo porte diferencia visivelmente os condenados dos acusados. E um dos
primeiros "direitos" reconhecidos a estes últimos na Terceira República. Do mesmo modo, as
mulheres são poupadas da humilhação que seria a raspagem de seus cabelos, que são apenas
cortados, segundo o visconde de Haussonville. Entretanto, as jovens encarceradas são
obrigadas a usar uma touca "da qual nenhum fio de cabelo pode escapar". A disciplina
carcerária passa pela disciplina do corpo, pela ordenação das aparências, dentre as quais a
cabeleira constitui a parte mais sensível. (p. 52)

A representação dos cabelos das mulheres é um tema maior de sua figuração, principalmente
quando se quer sugerir a proximidade da natureza, da animalidade, do sexo e do pecado. Eva
e Maria Madalena são dotadas de espessas cabeleiras que fazem a beleza da estatuária
medieval e da pintura do Renascimento alemão (Dürer, Cranach). (p. 54)

Sinal de virgindade, o véu figura o hímen. O véu da noiva é um véu nupcial que apenas o
marido deve retirar, assim como é ele que deflora o hímen. Significa oblação, oferenda,
sacrifício da esposa. Ou ainda, véu de oblação da religiosa, que, no dia em que professa,
oferece sua cabeleira a Deus e põe o véu para ele. A igreja faz do véu das religiosas uma
obrigação, o selo de sua castidade e de seu pertencimento a Deus, sobretudo a partir do século
IV. A Igreja impõe o véu às religiosas e aconselha-o às demais mulheres; devem, pelo menos,
ter a cabeça coberta. (p. 57)

No século XIX, uma mulher "de respeito" traz a cabeça coberta, uma mulher de cabelos soltos
é uma figura do povo, vulgar; nas feiras, distinguem-se as burguesas que usam chapéu, que
saem às compras, das feirantes que nada usam para cobrir os cabelos. (p. 58)

Posteriormente, voltou-se a atenção para os próprios cabelos. São vários os penteados. Mas
em público, raramente são deixados soltos: na maioria dos casos são presos num coque que só
se desfaz na intimidade do lar, ou mesmo apenas no quarto de dormir. Na noite de núpcias, a
esposa solta os cabelos para o marido, e a partir de então apenas ele terá esse privilégio.
Adorno observa que há, nas mulheres, um fetichismo do penteado. (p. 58)

Como pano de fundo: a tela de Courbet, L'Origine du monde, hoje no Museu d'Orsay. Essa
tela foi pintada para um colecionador de telas eróticas, Kalil Bev, ex-embaixador turco, que a
guardava secretamente sob uma cortina, como um tesouro escandaloso; e escandalosa era ela,
com efeito; nunca ninguém ousara representar a vulva entreaberta de uma mulher. O quadro,
mais tarde, pertenceu ao psicanalista Jacques Lacan. (p. 62)

Primeiramente sobre a representação do sexo feminino. De Aristóteles a Freud, o sexo


feminino é visto como uma carência, um defeito, uma fraqueza da natureza, Para Aristóteles,
a mulher é um homem mal-acabado, um ser incompleto, uma forma malcozida. Freud faz da
"inveja do pênis" o núcleo obsedante da sexualidade feminina. A mulher é um ser em
concavidade, esburacado, marcado para a possessão, para a passividade. Por sua anatomia.
Mas também por sua biologia. Seus humores — a água, o sangue (o sangue impuro), o leite
— não têm o mesmo poder criador que o esperma, elas são apenas nutrizes. Na geração, a
mulher não é mais que um receptáculo, um vaso do qual se pode apenas esperar que seja
calmo e quente. Só se descobrirá o mecanismo da ovulação no século xviii e é somente em
meados do século XIX que se reconhecerá sua importância. Inferior, a mulher o é, de início,
por causa de seu sexo, de sua genitália. (p. 63)

A importância atribuída ao sexo não é a mesma ao longo das épocas. Algumas a minimizam.
Assim ocorre na Idade Média, quando se considera que os sexos são variedades de um mesmo
gênero. O Renascimento, como já foi dito, distingue o "alto" e o "baixo" do corpo, exalta o
alto, nobre sede da beleza, e deprecia o "baixo", animal. (p. 63)

O século xviii, das ciências naturais e médicas, descobre a parte de "baixo", como a do prazer
e da vida. Ele "inventa" a sexualidade, com uma insaciável "vontade de saber" o sexo,
fundamento da identidade e da história dos seres. Sexualiza os indivíduos, em especial as
mulheres, como mostrou, seguindo a linha de Foucault, Thomas Laqueur.37 A mulher é
identificada com o seu sexo, que a absorve e a impregna completamente. "Não há nenhuma
paridade entre os dois sexos quanto à conseqüência do sexo, escreve Rousseau (Émile). O
macho é macho apenas em certos momentos, a fêmea é mulher ao longo de sua vida ou, pelo
menos, ao longo de toda a sua juventude; tudo a liga constantemente a seu sexo, e, para o bom
cumprimento de suas funções, é-lhe necessário ter uma constituição que o propicie":
cuidados, repouso, "vida suave e sedentária". Ela precisa da proteção da família, da sombra da
casa, da paz do lar. A mulher se confunde com seu sexo e se reduz a ele, que marca sua
função na família e seu lugar na sociedade. (p. 64)

Misteriosa, a sexualidade feminina atemoriza. Desconhecida, ignorada, sua representação


oscila entre dois pólos contrários: a avidez e a frigidez. No limite da histeria. (p. 65)
CITAÇÃO PARA A FREIRA E A TORTURA
As mulheres cuja sexualidade não tem freios são perigosas. Maléficas, assemelham-se a
feiticeiras, dotadas de "vulvas insaciáveis". Mesmo quando ficam velhas, fora da idade
permitida para o amor, as feiticeiras têm a reputação de cavalgar os homens, de tomá-los por
trás, o que, na cristandade, é contrário à posição dita natural: em suma, têm a reputação de
fazer amor como não se deve fazer. Diana figura a sexualidade liberada. A feiticeira alimenta
a escuridão das noites de sabá. (p. 66)

A sociedade ocidental promove a assunção da maternidade. Ela é "aureolada" de amor, "o


amor a mais", segundo a expressão de Elisabeth Badinter, que descreve o crescimento do
sentimento maternal a partir do século XVII50 e o da figura da mãe, tanto nas práticas (saúde,
puericultura, educação na infância) quanto na simbólica. Um dos traços mais marcantes da
época contemporânea reside na politização da maternidade, tanto nos Estados totalitários
quanto na República. Esta se encarna na Marianne, mãe dos cidadãos franceses, celebrada por
Zola em seu romance Fécondité. A América inventa o Dia das Mães, nos anos 1920, mas é o
governo de Vichy que promulga uma lei para instituí-lo. Como a função materna é um pilar
da sociedade e da força dos Estados, torna-se um fato social. A política investe no corpo da
mãe e faz do controle da natalidade uma questão em evidência. (p. 69)

O recurso do aborto era muito mais tolerado, pois o feto não representava nada. Parteiras,
curandeiros, médicos clandestinos, prestavam-se a tal prática, mas o faziam às ocultas e em
condições sanitárias quase sempre deploráveis, ligadas à clandestinidade. Era praticado não
somente por mulheres que não eram casadas, mas também por mães de família multíparas que
viam no aborto o único meio de limitar o tamanho de uma família que elas consideram já
suficientemente numerosa. Por volta de 1900, calcula-se que os números sejam muito
elevados. Essa banalização relativa é denunciada pelos médicos demógrafos: o doutor
Bertillon acusa a prática do aborto como a causa da diminuição da população da França
(1912); e também pelos republicanos, como Zola em Fécondité (1899). Disso decorre a
intervenção constante do Estado, alarmado pela baixa da natalidade francesa. Após a
hecatombe da Primeira Guerra Mundial, as leis de 1920 e 1923 reforçam uma repressão que
visa não somente a coibir o aborto, mas também a propaganda anticoncepcional, que tem
muita dificuldade em se fazer ouvir. (p. 71)

Corpo desejado, o corpo das mulheres é também, no curso da história, um corpo dominado,
subjugado, muitas vezes roubado, em sua própria sexualidade. Corpo comprado, também,
pelo viés da prostituição a qual abordarei em seguida. A gama de violências exercidas sobre
as mulheres é ao mesmo tempo variada e repetitiva. O que muda é o olhar lançado sobre elas,
o limiar de tolerância da sociedade e o das mulheres, a história de sua queixa. Quando e como
são vistas, ou se veem, como vítimas? (p. 76)

Nessas condições [de violência no trabalho e em casa], a sexualidade venal seria quase um
progresso se ela se limitasse à remuneração de um "serviço sexual". É esse o princípio — o da
mulher livre num mercado livre — que leva certas feministas a defender o direito à
prostituição. Mas motivada, na maior parte do tempo, pela miséria, pela solidão, a prostituição
é acompanhada de uma exploração, ou mesmo de uma super-exploração, do corpo e do sexo
das mulheres. O que coloca em questão o comércio do corpo das mulheres.
A prostituição é um sistema antigo e quase universal, mas organizado de maneira diferente e
diversamente considerado, com status diferentes e diferentes hierarquias internas. A
reprovação da sociedade é bastante diversa. Depende do valor dado à virgindade e da
importância atribuída à sexualidade. As civilizações antigas ou orientais não têm a mesma
atitude que a civilização cristã, para a qual a carne é a sede da infelicidade e a fornicação é o
maior pecado. (p. 77)

Mundo em expansão, a prostituição diversifica sua oferta. As casas de rendez-vous, mais


refinadas, distinguem-se dos prostíbulos sórdidos, onde as mulheres emendam coitos de cinco
minutos. A maior parte delas vêm do campo e circulam, segundo a idade e a antiguidade, de
um lugar para outro, e também entre Paris e a província. Elas fazem carreira, que pode se
encerrar ou pela idade ou pelo casamento. A reprovação popular à prostituição é, de início,
moderada. No terço final do século XIX, o "tráfico de escravas brancas" amplia o mercado;
das zonas pobres da Europa central, mulheres polonesas e provenientes dos guetos judeus são
levadas para as zonas boêmias das cidades sul-americanas. (p. 79)

Hoje, as feministas continuam divididas entre aquelas que veem na prostituição a suprema
alienação do corpo das mulheres, e recusam considerá-la uma profissão, e aquelas que
defendem o direito das mulheres de dispor de seu corpo, logo, de vendê-lo. Esse debate
recorrente foi particularmente agudo em 2002. A visão da mercantilização do sexo empresta à
obra de Michel Houellebecq alguns de seus tons mais fortes. (p. 80)

O poder dos clérigos e dos príncipes é um poder de homens, misógínos porque convencidos
da impureza e da inferioridade da mulher, e até mesmo de sua "ruindade". Isso explica a
atração dessas mulheres para o que Michel Foucault chama de "contra-condutas", que serão
comentadas a seguir. (p. 88)

Entre aqueles que "não gostam de mulheres que escrevem" estão homens das Luzes, como
Necker, conservadores como Joseph de Maistre, liberais como Tocqueville, republicanos
como Michelet ou Zola. Os dândís e os poetas como Barbey d'Aurevilly, Baudelaire, os
irmãos Goncourt, grandes papas das letras, vão ainda mais longe. Estes últimos diziam, para
explicar a exceção George Sand, que ela devia ter "um clitóris tão grosso quanto nossos
pênis". A verdade é que eles cultivavam a misoginia licenciosa. (p. 98)

É o regime assalariado, principalmente com a industrialização, que, a partir dos séculos


XVIII-XIX, nas sociedades ocidentais, coloca em questão o "trabalho das mulheres". As
mulheres podem, devem, ter acesso ao salário, isto é, receber uma remuneração individual,
deixando a casa, o lar, que era o seu ponto de apoio e a sua utilidade? (p. 108)
Por muito tempo, as mulheres foram camponesas, ligadas aos trabalhos rurais; no período que
precede a Segunda Guerra Mundial, na França, era essa a condição de quase a metade das
mulheres. No mundo, as camponesas são certamente ainda a maioria, se pensarmos na África,
na Ásia e na América Latina. (p. 109-110)

Ora, as camponesas são as mais silenciosas das mulheres. Imersas na hierarquia de sociedades
patriarcais, são poucas as que emergem do grupo, pois se fundem com a família, com os
trabalhos e os dias de uma vida rural que parece escapar à história, sendo mais objeto das
pesquisas dos etnólogos. Assim, não é de espantar que nosso saber sobre as mulheres rurais
nos venha desses pesquisadores. Na França, trata-se da Société d'Ethnologie [Sociedade de
Etnologia] e de sua revista, Ethnologie française. Os museus das artes e tradições populares
mostram seus instrumentos, seu mobiliário, suas roupas e chapéus, inestimáveis testemunhos,
que, no entanto, têm o efeito de fixá-las em posturas e trajes impecáveis, afastados da rudeza
de seu cotidiano. Martine Segalen, Agnès Fine (do Sudoeste da França), Anne Guillou
(Bretanha), Yvonne Verdier... dedicaram-se particularmente ao estudo dos papéis masculinos
e femininos no trabalho e na cultura rural. O livro de Yvonne Verdier, precocemente falecida,
foi um marco. Resultado de uma longa pesquisa feita na Borgonha, em torno da aldeia de
Minot, Façons de dire, façons de faire. La laveuse, la couturière, la cuisinière, la femme qui
aide1 mostra com sutileza o que acontece em torno dessas personagens no funcionamento
cotidiano e na transmissão dos gestos, dos saberes e de uma simbólica fortemente marcada
pelo corpo e pelos líquidos: a água, o sangue, o leite. (p. 110)

Os testemunhos diretos são extremamente raros. Citaremos Marguerite Audoux (Marie-


Claire, 1910), Jakez Elias (Le Cheval d'orgueil 1975). Joêlle Guillais recolheu as memórias de
La Berthe (1988), camponesa do Perche. Alguns romances têm um valor etnológico, como os
de George Sand, uma das primeiras a destacar personagens de mulheres do campo como
Valentine, Jeanne, Nanon e a célebre Petite Fadette. A pintura, quando aborda o mundo rural,
o faz na maioria das vezes de maneira convencional: de Brueghel e Le Nain a Jean-Baptiste
Millet, cujos croquis são melhores do que L'Angelus, e mesmo Van Gogh, com o famoso
quadro Mangeurs de pommes de terre, não estão isentos de bestialidade. Quando se trata da
terra, as representações dominam; os estereótipos, produtos do regionalismo e das ideologias
políticas, florescem. E as mulheres são o suporte privilegiado, nesses casos. E o que se vê no
romance de Zola, La Terre. (p. 110)
A vida das camponesas era regrada pela da família e dos ritmos dos campos. Numa rígida
divisão de papéis, tarefas e espaços. Para o homem, o trabalho da terra e as transações do
mercado. Para a mulher, a casa, a criação de animais, o galinheiro e a horta, cujos produtos,
como Perrette, ela vendia na feira. De acordo com a idade e com a posição na família, elas
trabalhavam no campo por ocasião das colheitas de todos os tipos, de batatas a vindimas,
curvadas sobre a terra ou sob o peso de cargas. A velha camponesa é uma mulher recurvada.
Elas cuidavam do rebanho, das vacas, que vigiavam e ordenhavam, das cabras, cujo leite
servia para fabricação artesanal de queijo, que também era serviço delas. "Sem mulher, não há
vaca, nem leite, nem galinha, nem frango, nem ovo." A camponesa é uma mulher ocupada,
preocupada em vestir (ela fia) e em alimentar os seus (auto-subsistência e confecção das
refeições) e, se possível, trazer para casa um suplemento monetário a partir do momento em
que o campo se abriu para o mercado: mercado alimentar, mercado têxtil. (p. 111)

Por muito tempo aparentemente imóvel, a vida nos campos muda, e a das mulheres também.
Por influência do mercado e das comunicações. Pela industrialização. Pelo êxodo rural. Pela
ação das guerras, principalmente a de 1914-1918, que esvaziou o campo de seus jovens e
transferiu uma parte de suas tarefas e de seus poderes para as mulheres: elas aprendem a
lavrar a terra, gesto viril, e a gerenciar seu negócio. Esses fatores acumulados modificaram o
equilíbrio das famílias e as relações entre os sexos e mudaram a vida das mulheres. (p. 113)

O êxodo rural afetava as mulheres. Não somente porque elas continuavam no campo. Pois
elas também participavam do êxodo. As jovens, pelo menos. Seus pais as colocavam como
criadas em propriedade rural ou como criadas na cidade, por intermédio do vigário, do senhor
do castelo ou de um primo; mas também na fábrica: no Sudeste da França, na região do
Ardèche e do Lyonnais, havia fábricas de seda—filatura e tecelagem — cujo patronato seguia
o modelo de Lowell, vila-dormitório americana (perto de Boston). Essas fábricas-internatos
suscitaram o interesse dos moralistas, que viam nelas um ideal de equilíbrio feminino, e dos
pesquisadores (Armand Audiganne, Louis Reybaud),5 que as descreveram detalhadamente.
As fábricas empregavam as moças desde os 14 anos. Para tranquilizar as famílias camponesas
de onde eram originárias, a supervisão desses internatos foi confiada a religiosas. Foi criada
uma ordem especialmente com essa função. A disciplina era estrita, detalhada em seus
regulamentos, e a prática religiosa era obrigatória. As moças ali permaneciam por muitos
meses sem ir para casa, e suas famílias é que recebiam diretamente o seu salário. Esse
dinheiro a mais era muito apreciado e contribuiu para revalorizar a estima das moças na
economia familiar. (p. 113)

Das mulheres, diz-se que nasceram "com uma agulha entre os dedos". Na verdade, todas elas
aprenderam a costurar: com a mãe, nos ateliês das religiosas. Com uma costureira da aldeia ou
da vila. (p. 122)

De início, as mulheres parecem confinadas. A sedentariedade é uma virtude feminina, um


dever das mulheres ligadas à terra, à família, ao lar. Penélope, as vestais, figuram seus antigos
modelos, as que esperam e velam. Para Kant, a mulher é a casa. O direito doméstico assegura
o triunfo da razão; ele enraíza e disciplina a mulher, abolindo toda vontade de fuga.1 Pois a
mulher é uma rebelde em potencial, uma chama dançante, que é preciso capturar, impedir de
escapar. (p. 135)

As formas de confinamento, de enclausuramento das mulheres, são muitas: o gineceu, o


harém, o quarto das mulheres do castelo feudal retratado por Jeanne Bourin num romance
recente, o convento, a casa de estilo vitoriano, o bordel E preciso proteger as mulheres,
ocultar sua sedução. Cobri-las de véus. "Uma mulher em público está sempre fora de lugar",
diz Pitágoras. "Toda mulher que se mostra se desonra", escreve Rousseau a D'Alembert. O
que se teme: as mulheres em público, as mulheres em movimento. (p. 136)

A dissimetria do vocabulário ilustra esses desafios: homem público é uma honra; mulher
pública é uma vergonha, mulher da rua, do trottoir, do bordel. O aventureiro é o herói dos
tempos modernos;2 a aventureira, uma criatura inquietante. A suspeita pesa sobre os
deslocamentos das mulheres, principalmente das mulheres sozinhas. (p. 136)

A cidade é o risco, a aventura, mas também a ampliação do destino. A salvação. (p. 136)

Decididamente, é tempo [pós 1ª guerra], então, de recolocar as coisas e os sexos em seus


devidos lugares: o que tentam fazer os regimes totalitários (fascismo italiano, nazismo
alemão) e seus sucedâneos, franquismo na Espanha e regime de Vichy na França. Esses
regimes fazem da diferença dos sexos e de sua hierarquia um princípio absoluto. O chefe, o
Führer, é ele, o homem. Esse machismo se baseia, aliás, numa tentativa de sedução. As
mulheres, não raro, sucumbem: pode-se ver, nos "filmes de atualidades", seus rostos
embevecidos quando das manifestações de massa pró-hitlerianas. (p. 144)

Agir no espaço público não é fácil para as mulheres, dedicadas ao domínio privado, criticadas
logo que se mostram ou falam mais alto. Mas elas têm atuado, e de muitas maneiras, as quais
me proponho a abordar. Com freqüência, apóiam-se em seus papéis tradicionais, e aí tudo vai
bem. Foi o que aconteceu nos motins por alimento ou na ação caritativa. Tudo se complica
quando ousam agir como homens. A fronteira do político se revela particularmente resistente.
Na Atenas de Péricles como na Londres de Cromwell ou na Paris da Revolução Francesa. A
política, por muito tempo, foi uma fortaleza proibida.
O motim por alimento, eis o que convém para as mulheres. Guardiãs da casa e da comida, são
elas as eternas responsáveis por essa parte. É o seu dever. Sua missão. Cabe a elas cuidar dos
mantimentos, do preço dos grãos ou do pão, e, com o passar do tempo, de outros alimentos
considerados vitais. (p. 146)

A aristocracia efetua a troca dos bens e das mulheres segundo o interesse das linhagens e pelo
viés dos casamentos abençoados pela Igreja. (p. 151)

O direito ao trabalho, ao salário, aos ofícios e às profissões comporta dimensões que são, ao
mesmo tempo, econômicas, jurídicas e simbólicas, com diferenças sociais evidentes. As
classes populares necessitam do salário das mulheres, mesmo quando o consideram somente
um "trocado". A burguesia delega o lazer, o otium aristocrático, a suas mulheres, vitrines do
sucesso e do luxo dos maridos. "Viver nobremente é viver sem nada fazer", dizia-se no
Antigo Regime. O que não é mais viável no capitalismo. As mulheres, pelo menos, guardarão
ainda esse perfume da corte, esse estilo de vida mundano que cria a distinção. E por isso que
seu eventual "trabalho" é recriminado; ele é sentido como um desconforto, a marca da
decadência da família, uma vergonha social. As mulheres dessa classe tiveram de se esgueirar
no mercado de trabalho, exclusivamente através dos serviços, ocupações adequadas à
feminilidade. (p. 159)

A obtenção dos direitos civis é particularmente difícil nos países católicos em virtude do
papel sacramental do casamento e de uma concepção patriarcal da família, que se perpetua na
laicidade. Entretanto, a igualdade civil é a chave do estatuto individual da mulher. E por isso
que George Sand fazia dessa igualdade um pré-requisito absoluto para a reivindicação da
igualdade política. (p. 160)