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3a E D I Ç Ã O

P S I C O L O G I A D A S A Ú D E
Uma Abordagem Biopsicossocial

Richard O. Straub
University of Michigan, Dearborn

versão impressa
desta obra: 2014

Tradução:
Ronaldo Cataldo Costa

Revisão técnica desta edição:


Beatriz Shayer
Psicóloga. Especialista em Neuropsicologia.
Doutora em Psicologia pela Universidade de Brasília.

2014

Straub_Iniciais_Versão Eletrônica.indd 3 19/11/2013 09:23:12


Capítulo 15 A psicologia da saúde
As lições mais importantes hoje e amanhã
da psicologia da saúde
Lição 1: Fatores
psicológicos e sociais

N
interagem com a
biologia na saúde
Lição 2: Promover e
manter a saúde é nossa
em sempre fui interessado em saúde. Como muitos estudantes, quando en-
responsabilidade
Lição 3: Estilos de vida trei para a Universidade de Columbia no outono de 1979, era abençoado com uma mente
insalubres são mais e um corpo saudáveis que considerava óbvios. Eu raramente fazia exercícios, comia muita
difíceis de mudar do
que de prevenir
fast-food, dormia pouquíssimo e até comecei a fumar cigarros – para “enfrentar” com o
Lição 4: A avaliação e o estresse da pós-graduação, racionalizava. Também não me interessava pela contribuição
manejo adequados do que a psicologia poderia dar para a compreensão da saúde. Meu horário de aulas e de
estresse são essenciais
para a boa saúde pesquisa era voltado para aprender teoria, neurobiologia e cognição.
Os desafios futuros da Porém, as coisas começaram a mudar quando decidi me especializar e estudar psico-
psicologia da saúde logia social aplicada com o professor Stanley Schachter. Sua abordagem diferenciada de
Desafio 1: Aumentar o
pesquisa estava abrindo novos caminhos no estudo das emoções, da obesidade e do vício.
tempo de vida saudável
para todas as pessoas Ao contrário da maioria de seus colegas, Schachter sempre se concentrava no contexto
Desafio 2: Reduzir as mais amplo em que os comportamentos sociais estavam inseridos. Em nenhum aspecto
discrepâncias de
saúde e aumentar a
isso é mais evidente do que em sua tentativa de entender os processos biológicos envol-
compreensão a respeito vidos em fenômenos aparentemente sociais, como o aumento no consumo de cigarros
dos efeitos do gênero, em festas ou em resposta ao estresse. Grande parte do campo emergente da psicologia da
da cultura e do status
socioeconômico sobre saúde se baseia no trabalho de Schachter. Comecei a enxergar um caminho mais claro
a saúde para as contribuições que esperava fazer para a humanidade. A psicologia, para mim,
Desafio 3: Atingir o tornou-se uma ferramenta para promover a saúde.
mesmo nível de acesso
a serviços de saúde À medida que meus interesses profissionais mudavam, meus interesses pessoais tam-
preventiva para todas bém. Lembro de um seminário em que Stan, que também estava tentando parar de fu-
as pessoas
mar, perguntou-me quando eu travaria a batalha contra o vício em nicotina. “Por que
Desafio 4: Ajustar o foco de
pesquisa e intervenção você não aplica o que aprendeu aqui em sua própria vida?”, perguntou. Então, comecei
para maximizar a a fazê-lo e tenho tentado me manter fiel ao desafio de Schachter desde então. Foi difícil,
promoção da saúde
com abordagens
mas parei de fumar muitos anos atrás. Também comecei a fazer exercícios, seguir uma
baseadas em evidências dieta mais nutritiva e manter um padrão mais saudável de sono. À proporção que sur-
Desafio 5: Ajudar giam novas descobertas de pesquisa, tentei incorporá-las na maneira como lido com o
na reforma do
atendimento de saúde estresse; os esforços que faço para manter conexões sociais fortes e positivas com as pessoas
Conclusão e como avalio os fatos a meu redor.
Minha esperança é que este livro tenha despertado seu interesse pelo campo da psico-
logia da saúde – para alguns de vocês como profissão, e para todos como uma ferramenta
para promover sua própria saúde e a saúde das pessoas por quem você se preocupa!
CAPÍTULO 15 A psicologia da saúde hoje e amanhã 431

A
psicologia da saúde percorreu um longo caminho desde que a American
Psychological Association foi reconhecida em 1978. O objetivo deste capítulo
é fazer uma retrospectiva – revisar o que foi realizado ao longo da trajetória – e
olhar à frente, para os desafios mais prementes do futuro. Embora nos concentremos
nas contribuições dos psicólogos da saúde para vários objetivos relacionados com a
saúde, é importante lembrar que eles não estão trabalhando sozinhos. Os médicos e
todos os outros profissionais da saúde trabalham juntos para alcançar essas metas.

As lições mais importantes da psicologia da saúde

A
ciência da psicologia da saúde ainda está em sua infância, e suas contribuições
ainda estão se desdobrando. Desse modo, há ainda muito trabalho a fazer.
Mesmo assim, praticamente todos os psicólogos da saúde concordam que
houve lições aprendidas nas últimas três décadas que todos nós devemos seguir.

Lição 1: Fatores psicológicos e sociais


interagem com a biologia na saúde
Como já vimos, para muitas doenças, a hereditariedade desempenha um papel pe-
queno, pois nem todas as pessoas com a mesma vulnerabilidade genética acabam por
desenvolver doenças. Bactérias, vírus e outros microrganismos causam algumas do-
enças, mas o fato de ser exposta não garante que a pessoa fique doente. O estresse, as Boa saúde significa mais que
emoções negativas, os recursos de enfrentamento, os comportamentos saudáveis e bons genes Josephine Tesauro e
sua irmã compartilham de genes
vários outros fatores afetam a suscetibilidade a doenças, a progressão da enfermidade idênticos, mas não de saúde
e a velocidade da recuperação (quando isso ocorre). idêntica. Aos 92 anos, Josephine
O comportamento, os processos mentais, as influências sociais e a saúde estão ainda é saudável e ativa na
intimamente conectados. Essa é a mensagem fundamental do modelo biopsicossocial comunidade – ela trabalha em
meio expediente em uma loja
da saúde. Mesmo aqueles que apresentam genes “vigorosos” e sistemas imunes saudá-
de presentes e vive de forma
veis podem ficar doentes se tiverem comportamentos de risco, viverem em ambientes bastante independente. Sua irmã,
sociais e físicos insalubres e desenvolverem um estilo emocional negativo e praticarem que não compartilha de seu estilo
técnicas inadequadas de manejo do estresse. de vida fisicamente ativo, sofre
de demência e incontinência,
já substituiu uma parte do
Comportamentos prejudiciais à saúde e alienação social quadril e perdeu a maior parte
da visão. Os psicólogos da saúde
As evidências são claras: comportamentos prejudiciais à saúde, como os atos de fumar são fascinados por estudar as
e beber, a má nutrição e a inatividade, causam, ou pelo menos aceleram, a ocorrência diferenças de estilo de vida que
poderiam afetar essa disparidade
de doenças. Por exemplo, pesquisas extensivas eliminaram qualquer dúvida de que tão drástica entre gêmeas
o tabagismo esteja causalmente relacionado com o câncer de pulmão e que o uso idênticas.
do álcool esteja associado com doenças do fígado e mortes em acidentes de trânsi-
to. De maneira semelhante, uma dieta pobre em fibras e rica em
gorduras aumenta o risco de uma pessoa desenvolver doenças
cardiovasculares e algumas formas de câncer. E, é claro, uma vida
Eric Schmadel/Tribune-Review

sedentária aumenta o risco de doenças cardiovasculares e cer-


tos tipos de câncer e resulta em um funcionamento imunológico
mais fraco.
Inúmeros estudos sugerem que fatores psicossociais tam-
bém possam afetar o desenvolvimento e a progressão de doenças
432 PA R T E 5 Procurando tratamento

que variam de um simples resfriado a condições crônicas como as doenças cardiovas-


culares, o câncer e a aids. Entre os fatores psicossociais que afetam a saúde cardiovas-
cular, estão status socioeconômico, gênero, raça, trabalho, estresse crônico e agudo,
apoio social versus isolamento, raiva e depressão (Kuper et al., 2006). O impacto des-
ses fatores muitas vezes se iguala ou excede o de aspectos de risco mais tradicionais,
como a hipertensão, o diabetes e até mesmo o tabagismo (O’Keefe et al., 2004; Stans-
field et al., 2004).
Os fatores psicossociais também estão relacionados com a expectativa de saúde.
Como um exemplo específico, estudos prospectivos demonstram que o apoio social
reduz o risco de mortalidade, independentemente de outros aspectos, como o gênero
e a etnia. Lisa Berkman e colaboradores (2004) investigaram uma amostra de 16.699
trabalhadores franceses, obtendo um escore de integração social para cada participan-
te, com base em sua situação conjugal, contatos com amigos e parentes, participação
em igrejas e em outros grupos. Durante um acompanhamento de sete anos, e após
fazer um ajuste para idade, tabagismo, consumo de álcool, índice de massa corporal
(IMC) e sintomas depressivos, homens com escores baixos de integração social tive-
ram um risco 2,7 vezes maior de morrer do que os com escores altos; para as mulhe-
res, a taxa foi de 3,64 vezes.
Os pesquisadores ainda não podem afirmar de forma inequívoca exatamente
por que a integração social protege contra doenças crônicas. Por enquanto, as hipóte-
ses mais válidas propostas incluem as seguintes: o apoio social pode proteger contra os
efeitos do estresse sobre o corpo; pode influenciar de forma positiva comportamentos
associados com doença (como fazer exercícios e dietas); e pode afetar diretamente os
mecanismos físicos subjacentes relacionados com doença. Em favor da hipótese dos
mecanismos físicos, pesquisadores observaram que a integração social apresenta cor-
relação negativa com diversos marcadores inflamatórios de doenças cardiovasculares
(Ford et al., 2006; Loucks et al., 2006). De maneira interessante, as pessoas também
esperam viver mais tempo quando percebem um forte apoio social e emocional em
suas vidas (Ross e Mirowsky, 2002). Por consequência, muitos hospitais recomendam
com vigor – e em alguns casos até exigem – que os pacientes se inscrevam em grupos
de apoio social durante o período de recuperação após cirurgias de risco.

Estresse
Desde as pesquisas pioneiras de Hans Selye sobre o estresse (ver Cap. 4), evidências
têm-se acumulado de que a má administração do estresse tem um efeito negativo
sobre a saúde, de forma direta e indireta – aumentando o risco de muitas doenças
crônicas, alterando a progressão dessas doenças e prejudicando a eficácia do trata-
mento (Booth et al., 2001; Stansfield et al., 2004) (Fig. 15.1). No decorrer dos últimos
30 anos, psicólogos da saúde delinearam as várias consequências possíveis da forma
como a pessoa responde a problemas cotidianos, demandas ocupacionais, estressores
ambientais e outros eventos e situações difíceis. Hoje entendemos muitos dos meca-
nismos fisiológicos pelos quais o estresse afeta a saúde de forma adversa e aumenta
a probabilidade de doenças. Por exemplo, o estresse mal-administrado pode resultar
em elevação na pressão arterial e nos níveis séricos de colesterol (Rau, 2006).
Alguns dos achados mais impressionantes da psicologia da saúde concentram-
-se na função imunológica. Por exemplo, o estresse psicológico temporário, incluindo
fazer provas escolares e acadêmicas e outros problemas do dia a dia, pode reduzir a
função imunológica (Robles et al., 2005), sobretudo em pessoas que possuem pouca
capacidade de enfrentamento e naquelas que potencializam o impacto de estressores
possíveis e os avaliam como incontroláveis. Além disso, o estresse crônico, como o
decorrente de desastres naturais ou de cuidar de um cônjuge com o mal de Alzhei-
mer, pode diminuir a imunocompetência (Haley et al., 2010; Kiecolt-Glaser e Gla-
ser, 1995). Esses achados fazem parte do campo crescente da psiconeuroimunologia.
CAPÍTULO 15 A psicologia da saúde hoje e amanhã 433

ESTRESSE

Efeitos indiretos do estresse sobre


Efeitos indiretos mediados pelo Efeitos fisiológicos diretos
o comportamento
comportamento Elevação na pressão arterial
Menor adesão ao tratamento
Aumento nos atos de fumar, beber e usar Elevação no colesterol sérico
Aumento na demora em buscar
substâncias Redução na imunidade
atendimento
Má nutrição Aumento na atividade
Menor probabilidade de buscar
Perturbação do sono hormonal
atendimento
Sintomas ocultos

Figura 15.1
Quando temos uma sensação calma de estar no controle, tendemos a uma reação
Efeitos diretos e indiretos
emocional e fisiológica comparável. Quando sentimos raiva ou medo ou uma sensa- do estresse sobre o processo
ção de impotência por acreditarmos que alguma situação esteja fora do controle, ten- de doença. O estresse
demos a nos excitar emocionalmente e, em consequência, nossa resposta fisiológica é afeta diretamente a saúde,
mais drástica. Visto sabermos que reações como essas, se repetidas e crônicas, podem elevando a pressão arterial e o
promover doenças, é importante que aprendamos a controlar nossos pensamentos e colesterol sérico e diminuindo
a imunidade. Seus efeitos
reações emocionais. indiretos incluem reduzir a
adesão terapêutica e aumentar
o tabagismo e uma variedade
Lição 2: Promover e manter a de outros comportamentos
saúde é nossa responsabilidade insalubres.
Fonte: Baum, A. (1994). Behavio-
ral, biological, and environmental
Nossa sociedade está se tornando cada vez mais consciente em relação à saúde. Como interactions in disease processes.
resultado, mais pessoas compreendem que a responsabilidade por sua própria saúde Washington,
DC: NIH Publications.
não está apenas nas mãos de profissionais da saúde, mas que elas mesmas têm um
papel fundamental em seu bem-estar geral.
Como nação, por exemplo, os norte-americanos se tornaram bem-informados
sobre os riscos do tabagismo, do abuso de substâncias, da má nutrição e da vida se-
dentária. Também se sabe que o estresse, o temperamento emocional e a qualidade
dos relacionamentos interpessoais e recursos de enfrentamento são importantes fa-
tores na saúde. Aprendemos sobre a importância de fazer exames regulares, aderir ao
tratamento receitado e buscar exames para detecção precoce de várias doenças crôni-
cas, em especial se a idade, o gênero, a raça ou a etnia nos colocam no grupo de “alto
risco” para essas condições. Atualmente, ao contrário dos últimos 20 anos, as pessoas
podem investigar a respeito de questões de saúde e se comunicar com profissionais da
saúde, por meio dos recursos computadorizados da telemedicina.
Essa consciência não garante que elas seguirão o curso de ação mais saudável.
Uma série de revisões de progresso intermediárias rumo aos 467 objetivos da Healthy
People 2010 demonstra um avanço ambíguo para os norte-americanos. Os resultados
são os seguintes:

n Tendências piores na porcentagem de indivíduos obesos e com sobrepeso e pouca


ou nenhuma mudança no status da maioria dos objetivos de consumo alimentar,
atividade física e boa forma.
n Um declínio continuado nas três principais causas de morte (doenças cardíacas,
câncer e acidente vascular encefálico [AVE]). Isso pode se dever, em parte, ao uso “Eu costumava dizer à equipe
reduzido de tabaco e a uma mudança modesta em padrões alimentares para um da campanha: ‘Se vocês
teor menor de gordura saturada e nada de ácidos graxos trans. apenas me deixarem dormir
e fazer exercícios, consigo
n Estabilização no número de novos casos e na taxa de mortalidade em decorrência continuar, mas se eu começar
da aids. a falhar em um dos dois,
n Maior uso de serviços de saúde preventivos e de detecção precoce, incluindo papa- haverá consequências’.”
nicolau, mamografias e imunização infantil. Senador Bill Nelson (D-FL)
434 PA R T E 5 Procurando tratamento

n Aumento contínuo na expectativa de vida.


n Declínio contínuo na taxa de mortalidade infantil.

Os norte-americanos claramente tiveram alguns ganhos em relação a seus hábi-


tos de saúde. Ainda assim, o relatório também observa que quase 1 milhão de mortes
nos Estados Unidos a cada ano é prevenível:

n O controle do uso excessivo e por menores de idade de álcool poderia evitar 100
mil mortes decorrentes de acidentes automotivos e outros ferimentos relaciona-
dos com o álcool.
n eliminação da posse pública de armas de fogo poderia evitar 35 mil mortes.
A
n A extinção de todas as formas de uso de tabaco poderia evitar 400 mil mortes de-
correntes de câncer, AVE e doenças cardíacas.
n Uma melhor nutrição e programas de exercícios poderiam evitar 300 mil mortes
decorrentes de doenaçs cardíacas, diabetes, câncer e AVE,
n A redução de comportamentos sexuais de risco poderia evitar 300 mil mortes de-
correntes de doenças sexualmente transmissíveis (DSTs).
n O acesso pleno à imunizações para doenças infecciosas poderia evitar 100 mil mortes.

Está bastante claro que estilos de vida insalubres são muito mais difíceis de mu-
dar do que de prevenir. Embora as intervenções voltadas ao estilo de vida costumem
ter êxito inicialmente, muitas pessoas “caem do trem”. Ex-fumantes, ex-alcoolistas,
participantes de programas de emagrecimento e novatos em programas de exercícios
em geral têm recaídas e retornam a seus velhos hábitos, um problema que deve conti-
nuar a ser foco de atenção para futuros psicólogos da saúde.

Lição 3: Estilos de vida insalubres são


mais difíceis de mudar do que de prevenir
Nutrição adequada, boa forma, consumo de bebida responsável e administração sau-
dável do peso corporal, estresse e relacionamentos sociais são desafios para toda a
vida que devem começar bastante cedo. A maioria dos fumantes, por exemplo, adota
o hábito durante a adolescência, normalmente antes de terminar o ensino médio.
Porém, como já vimos, prevenir o ato de fumar, assim como evitar certas atividades
sexuais de risco, é um desafio desanimador. Muitas pessoas, sobretudo os jovens, são
mais influenciadas pelas “recompensas” imediatas do cigarro – o “barato” estimulante
da nicotina, a autoimagem de fazer algo que parece maduro ou talvez rebelde – do que
por preocupações com consequências de longo prazo para a saúde.
Prevenir que maus hábitos de saúde se desenvolvam em primeiro lugar con-
tinua a ser uma alta prioridade da psicologia da saúde. Novas pesquisas devem in-
vestigar as intervenções mais eficazes e eficientes para atingir o maior número de
pessoas no local de trabalho, em escolas e universidades e na comunidade. A imple-
mentação de programas de imunização comportamental, como aqueles cujo alvo são
adolescentes mais propensos a participar de atividades sexuais de risco, abuso de
substâncias e comer demais ou de menos, também continuam a crescer. Para alguns
comportamentos de saúde, as intervenções devem focalizar indivíduos “em risco”
ainda mais jovens. Entre estas, estão programas pediátricos de “pai-bem/criança-
-bem”, projetados para ensinar aos novos pais como minimizar os riscos de aciden-
tes no lar e de carro e como iniciar seus pequenos em uma vida alimentar saudável
e boa forma cardiovascular.
CAPÍTULO 15 A psicologia da saúde hoje e amanhã 435

Lição 4: A avaliação e o manejo adequados do


estresse são essenciais para a boa saúde
Uma das contribuições mais importantes da psicologia da saúde na área do estresse e
da saúde foi a resolução da controvérsia em relação ao caráter interno ou externo do
estresse. Pesquisas revelaram com clareza que os dois estão corretos: o estresse é uma
transação na qual cada um de nós deve ajustar-se continuamente aos desafios do coti-
diano. Conforme vimos nos Capítulos 4 e 5, cada um dos eventos estressantes da vida
pode ser avaliado como um desafio motivador ou um obstáculo ameaçador. Consi-
derar os estressores da vida desafios que podemos enfrentar nos ajuda a manter um
senso de controle e minimiza o impacto sobre nossa saúde. Aprender a administrar o
estresse que encontramos é crucial para o nosso bem-estar físico, psicológico e emo-
cional. Pesquisas mostraram os benefícios de muitas estratégias específicas: manter
o estresse em níveis administráveis; preservar os recursos físicos seguindo uma die-
ta equilibrada, fazendo exercícios e bebendo de forma responsável; estabelecer uma
rede social para combater o estresse; aumentar a hardiness psicológica; compartilhar
sentimentos quando algo está incomodando; cultivar um senso de humor, reduzir
comportamentos hostis e emoções negativas; e aprender a relaxar.

Os desafios futuros da psicologia da saúde

A
maioria dos desafios da psicologia da saúde parte de duas grandes agendas de
pesquisa. A primeira é o relatório Healthy People 2000, do U.S. Departament
of Health and Human Services, que, como já vimos, esboçou as maiores prio-
ridades da nação para promover a saúde e prevenir doenças entre todos os cidadãos
norte-americanos. O relatório baseou-se nas melhores avaliações de um grande gru-
po de especialistas em saúde da comunidade científica, de organizações profissionais
de saúde e do mundo empresarial. Os 467 objetivos do relatório foram organizados
em duas metas amplas:

n Ajudar pessoas de todas as idades a aumentarem a expectativa de vida e melhora-


rem sua qualidade de vida.
n Eliminar disparidades de saúde entre grupos socioeconômicos e étnicos variados.

A segunda agenda de pesquisa, produzida pela American Psychological Associa-


tion (APA) em colaboração com os Institutos Nacionais de Saúde (NIHs) e 21 outras
sociedades profissionais, concentra-se mais especificamente no papel da psicologia da
saúde na reforma do sistema de saúde. Publicado em 1995, Doing the Right Thing: A
Research Plan for Healthy Living identificou quatro tarefas da pesquisa no novo milê-
nio, das quais surgem os cinco desafios que iremos discutir nesta seção.

Desafio 1: Aumentar o tempo de


vida saudável para todas as pessoas
O envelhecimento rápido da população chama nossa atenção para um desafio cru-
cial: desenvolver intervenções eficazes que proporcionem aos adultos mais velhos
manterem ou melhorarem o nível de funcionamento, pelo maior número de anos
possível.
436 PA R T E 5 Procurando tratamento

Equipe inspiradora de pai e


filho Dick Hoyt foi inspirado por
seu filho adolescente Rick, que
tem deficiências congênitas, a
treinarem e competirem juntos
em uma corrida de caridade. Rick
adorou a experiência e falou a seu
pai que, pela primeira vez, não
se sentia deficiente – enquanto
voava em sua cadeira de rodas,
projetada especialmente para
a ocasião. Depois disso, a dupla
participou de centenas de outras
competições atléticas – incluindo
maratonas e triatlos – nos últimos
30 anos.

AP Photo/Chitose Suzuki
A vida saudável é uma combinação da expectativa média de vida e da qualidade
de vida. O desafio da psicologia da saúde é aumentar o número de anos de vida sau-
dáveis, ou o número médio de anos que a pessoa pode esperar viver em plena saúde
– um índice da idade biológica em vez da idade cronológica – com uma compressão da
morbidade – que se refere à redução da quantidade do tempo que as pessoas passam
incapacitadas, doentes ou convivendo com a dor.
Atingimos um certo nível de sucesso, mas existe espaço para muito mais melho-
ras. De modo geral, a expectativa de vida saudável global ao nascer para mulheres e
homens combinados atualmente é de apenas 57,7 anos, 7,5 anos a menos que a ex-
pectativa de vida total ao nascer (Population Health Metrics, 2010). Essa discrepância
entre a expectativa de vida e os anos-bem é ainda maior quando comparamos grupos
socioeconômicos diversos e outros países do mundo. Um status socioeconômico mais
baixo está associado a uma expectativa média de vida mais curta e menos anos-bem.
Ao redor do mundo, a porcentagem de expectativa de vida perdida para a incapaci-
dade varia de menos de 9% nas regiões mais saudáveis para mais de 14% nas menos
saudáveis.

Desafio 2: Reduzir as discrepâncias de saúde e aumentar


a compreensão a respeito dos efeitos do gênero, da
cultura e do status socioeconômico sobre a saúde
Historicamente, as diversas medidas de saúde mostram diferenças substanciais entre
grupos étnicos e sociodemográficos variados, assim como entre os gêneros. Por exem-
plo, a expectativa média de vida para os afro-americanos tem aumentado desde 1950,
mas permanece bem inferior à de indivíduos euro-americanos (National Center for
Health Statistics, 2010). Questionar as pessoas quanto a sua saúde revela diferenças
ainda maiores por grupo étnico, conforme apresentado na Figura 15.2. As razões para
essas discrepâncias sem dúvida são complexas, mas podem incluir o acesso desigual
ao atendimento de saúde, a suscetibilidade genética a determinadas doenças e as di-
ferenças em estilo de vida.
CAPÍTULO 15 A psicologia da saúde hoje e amanhã 437

Os efeitos negativos da etnia e da pobreza sobre a saúde podem resultar de fa-


tores como má nutrição, ambientes lotados e sem saneamento, atendimento médico
inadequado, eventos estressantes da vida e percepções subjetivas de que os estresso-
res ambientais estão além da capacidade do indivíduo de enfrentá-los. Outro fator
é o uso menos eficaz de exames de saúde em determinados grupos. Por exemplo,
as mulheres afro-americanas esperam mais tempo do que as brancas para buscar
atendimento de saúde para sintomas nos seios, e as mulheres mais velhas, que em
geral têm um risco maior de câncer de mama, são menos propensas a procurar
atendimento preventivo.
Entretanto, disparidades entre grupos étnicos na saúde não são totalmente atri-
buíveis às condições sociais em que as pessoas vivem. Os hispano-americanos costu-
mam apresentar escores iguais ou melhores que os euro-americanos na maioria das
medidas de saúde, com uma taxa de mortalidade menor do que estes para doenças
cardíacas, câncer de pulmão e AVE. Isso é paradoxal devido às altas taxas de hiper-
tensão, obesidade e uso de tabaco entre os hispano-americanos. Alguns pesquisadores
acreditam que esse fato intrigante reflita um atraso na aculturação, já que a mesma
tendência pode ser encontrada em todos os grupos de imigrantes: à medida que ado-
tam o estilo de vida norte-americano, os imigrantes acabam desenvolvendo os mes-
mos padrões de doenças e mortalidade.
Outro fator importante é a educação. Independentemente da etnia, as pessoas
que alcançaram níveis mais altos de educação formal vivem mais tempo e têm uma
saúde geral melhor do que as que possuem menos instrução, talvez porque as que ti-
veram menos anos de educação em geral tenham mais probabilidade de participar de
comportamentos insalubres, como o hábito de fumar, e seguir uma dieta com teores
elevados de gordura do que aquelas que possuem mais anos de educação.
Os psicólogos da saúde não conseguiram explicar as razões para as discrepân-
cias, pois, até pouco tempo atrás, o que eles sabiam sobre saúde e doença derivava
de pesquisas concentradas de modo desproporcional em sujeitos brancos, do sexo
masculino e relativamente saudáveis. Os psicólogos da saúde começaram a ampliar o
escopo de suas pesquisas de maneira a incluir um conjunto mais diverso de sujeitos de
pesquisa e, em alguns casos, a enfocar de forma específica os grupos pouco estudados.
Por exemplo, observaram que mulheres e homens têm características e vulnerabili-
dades psicológicas, sociais e biológicas muito diferentes e que, portanto, diferem em
suscetibilidade a diversas doenças e em reações frente ao estresse. O mesmo parece
ocorrer com muitos grupos étnicos e raciais diferentes.
Fica clara a necessidade de muitas pesquisas antes que os psicólogos da saúde Figura 15.2
possam explicar com confiança por que existem discrepâncias de saúde entre os gru- Qualidade da saúde por grupo
étnico e gênero. Ao descrever
sua saúde, uma porcentagem
20
surpreendentemente alta de
todos os grupos étnicos usou
18 Homens
os termos “razoável ou fraca”.
Mulheres
16 Com exceção dos nativos
norte-americanos, as mulheres
SAÚDE FRACA OU RAZOÁVEL
PORCENTAGEM QUE RELATA

14
têm mais probabilidade do que
12 os homens de descrever sua
saúde em termos negativos.
10 Ainda mais indicativas são as
diferenças entre os grupos
8
étnicos, com os brancos
6 apresentando visão mais
positiva de sua saúde e os
4 nativos norte-americanos sendo
os menos positivos.
2
Fonte: National Center for Health
0 Statistics (1999). Healthy people 2000
Brancos Afro-americanos Hispano- Ásio-americanos Nativos norte- review. Hyattsville, MD: Public Health
-americanos -americanos Service.
438 PA R T E 5 Procurando tratamento

pos que tradicionalmente são subestudados. Uma tentativa para preencher a lacuna
está sendo proporcionada pela Women’s Health Initiative (WHI), um estudo de saúde
nacional de longo prazo concentrado na prevenção de doenças cardíacas, câncer de
mama e de colo e reto, e da osteoporose em mulheres após a menopausa. A WHI
(2006), que focaliza os efeitos do ambiente social e de características individuais sobre
a saúde (Fig. 15.3), inclui três componentes: um teste clínico randomizado e con-
trolado de 64.500 mulheres, testando o impacto de uma dieta com baixos teores de
gordura, terapias de reposição hormonal e suplementação com vitamina D-cálcio;
um estudo observacional de outras 100 mil mulheres, examinando os determinantes
biológicos e psicológicos dessas doenças crônicas; e um grande estudo avaliando oito
programas-modelo diferentes de educação/prevenção em comunidades espalhadas
pelos Estados Unidos.

Desafio 3: Atingir o mesmo nível de acesso a


serviços de saúde preventiva para todas as pessoas
Conforme vimos no decorrer deste livro, muitas minorias e norte-americanos pobres
de todas as etnias e raças têm acesso limitado ao atendimento preventivo de saúde. E
existe uma concentração desproporcional de certos grupos de minoria em bairros insa-
lubres. Essas são algumas das razões por que as minorias e os pobres tendem a ter mais
problemas de saúde e uma taxa de mortalidade maior. Em 2009, mais de 50 milhões de
norte-americanos (por volta de 1 em cada 6) não tinham qualquer forma de seguro de
saúde (Wolf, 2010), fazendo cada dia ser um lançar de dados com relação a sua saúde.
A psicologia da saúde enfrenta o desafio constante de compreender e remover barreiras
que limitam o acesso ao atendimento de saúde e assistência em sua retirada.
Os Estados Unidos estão em pior situação do que outros países industrializados
no que tange a tornar o atendimento de saúde disponível para todos os seus cidadãos.
Embora tenha o sistema de saúde mais caro do mundo, o país não é o melhor (Fig.
15.4). Por exemplo, os Estados Unidos ocupam apenas a 21a posição em mortalidade
infantil no mundo, a 16a em expectativa de vida para mulheres e a 17a para homens.
Figura 15.3 Com relação a seu desempenho geral em oito medidas de saúde, o sistema de saúde
Características norte-americano está em 37o lugar entre os Estados membros da Organização Mun-
sociodemográficas e dial da Saúde (World Health Report, 2000). Como já vimos, uma razão para esses
qualidade de vida relacionada resultados baixos é a grande disparidade nas condições ambientais em que os norte-
com a saúde em mulheres.
Um objetivo da Women’s Health
-americanos vivem.
Initiative (WHI) é compreender Ressaltando o impacto dessa disparidade em condições ambientais, a Save the
os fatores que contribuem para Children’s YouthNoise recentemente publicou seu relatório intitulado Ten Critical
a saúde de mulheres após a
menopausa e avaliar a eficácia
de intervenções práticas para
prevenir as principais causas de
Características sociodemográficas
morbidade e mortalidade em
mulheres mais velhas. Ela espera
realizar isso em parte testando
o modelo apresentado aqui, o
Ambiente social Diferenças individuais
qual sugere que os efeitos do
ambiente social e disposições
Comportamentos
individuais influenciem a saúde de saúde
da mulher por meio de seus
comportamentos relacionados
com a saúde e resultados
biológicos intermediários. Resultados biológicos intermediários
Fonte: Matthews, K. A., Shumaker,
S. A., Bowen, D. J., Langer, R. D.,
Hunt, J. R., Kaplan, R. M. et al. (1997).
Women’s Health Initiative: Why Now?
What Is It? What’s New? American Qualidade de vida com relação à saúde
Psychologist, 52, 101–116.
CAPÍTULO 15 A psicologia da saúde hoje e amanhã 439

Threats to America’s Children, o qual apresenta as seguintes ameaças: pobreza, falta


de atendimento de saúde, abuso de substâncias, crime e perigos no ambiente, abuso e
negligência no lar, cuidado infantil inadequado, escolas deficientes, gravidez adoles-
cente e pais ausentes (YouthNoise, 2010). É óbvio que cada uma dessas ameaças, seja
de forma direta ou indireta, tem um impacto poderoso sobre a saúde das crianças.
Enquanto certas pessoas tiverem acesso a um atendimento de saúde de qualida-
de, mas outras não, teremos um sistema de saúde estratificado nos Estados Unidos:
um atendimento de última geração para aqueles que puderem pagar por seguro de
saúde e atendimento abaixo dos padrões mínimos (ou nenhum) para o resto das pes-
soas. A reforma do sistema de saúde continua sendo um desafio permanente – para a
psicologia da saúde e para a agenda política nacional.

Desafio 4: Ajustar o foco de pesquisa e


intervenção para maximizar a promoção da
saúde com abordagens baseadas em evidências
No passado, a psicologia da saúde seguia o caminho da biomedicina, concentrando-
-se na mortalidade em vez da morbidade. Mesmo quando enfatizavam a prevenção,
os psicólogos da saúde tendiam a enfocar as doenças crônicas que eram as principais
causas de morte. Embora a redução da mortalidade continue sendo uma prioridade,
a psicologia da saúde também deve dedicar maior atenção para problemas como a
artrite, que tem um impacto mínimo nas taxas de mortalidade, mas substancial sobre
o bem-estar dos idosos.
Um desafio relacionado é colocar mais ênfase em comportamentos e fatores que
favoreçam a saúde e que possam retardar a mortalidade e reduzir a morbidade. No
passado, os psicólogos da saúde dedicavam uma grande parte de sua pesquisa ao es-
tudo de fatores de risco de doenças crônicas e uma quantidade de tempo menor para
aprender sobre comportamentos que promovam a saúde e que ajudem as pessoas
a se prevenirem contra o desenvolvimento de doenças. O movimento da psicologia
positiva está começando a abordar esse desequilíbrio, à medida que os pesquisadores
prestam mais atenção em promover indivíduos, famílias e comunidades e locais de
trabalho saudáveis.
Um desafio constante para a psicologia da saúde é o uso de abordagens basea-
das em evidências por meio da documentação da eficácia de suas intervenções. Essa
questão foi recentemente trazida à tona uma vez que continua o debate sobre o nível
Figura 15.4
Custos do atendimento de
Estados Unidos saúde no mundo. Os Estados
Canadá
Unidos possuem o sistema de
saúde mais caro do mundo,
Alemanha mas não o melhor. O Reino
Unido e o Canadá – ambos os
França quais possuem uma medicina
socializada – estão acima dos
Suécia
Estados Unidos na qualidade
Itália
geral de seus sistemas de saúde,
mas gastam menos dinheiro por
Japão ano. Assim, melhorar o sistema
de saúde enquanto custos são
Reino Unido cortados, é um dos desafios
mais prementes para os norte­
Espanha
‑americanos como nação.
Fonte: Dados de Health systems:
Turquia
Improving performance, by World He-
0 1.000 2.000 3.000 4.000 alth Report, 2000, June 2000 (Table
1, pp. 152–155). Geneva, Switzerland:
TOTAL DE GASTOS EM DÓLARES INTERNACIONAIS World Health Organization.
440 PA R T E 5 Procurando tratamento

em que as intervenções psicológicas devem receber a cobertura de seguros de saúde


privados. É possível que mesmo a mais animadora das novas intervenções – se tiver
apenas o apoio de estudos fracos e mal conduzidos – receba a mesma reação cética dos
profissionais da saúde que muitas terapias complementares e alternativas enfrentam
(ver Cap. 14). Para complicar o quadro da pesquisa, estudos verdadeiros de prevenção
primária muitas vezes levam décadas para ser concluídos e exigem um financiamento
caro e de longo prazo. Felizmente, o U.S. Centers for Disease Control and Prevention
tem demonstrado um interesse considerável na pesquisa continuada sobre interven-
ções comportamentais.
Apesar dos sucessos da psicologia da saúde, muito permanece por ser feito antes
que os objetivos do Healthy People 2010 sejam alcançados em sua totalidade. Ainda
que os psicólogos da saúde continuem a eliminação das disparidades de saúde entre
os vários grupos socioculturais, o enfoque em relação a buscar uma melhor saúde
mudou dos grupos especiais para todos os norte-americanos.

Desafio 5: Ajudar na reforma do atendimento de saúde


Ao longo da história, o atendimento de saúde nos Estados Unidos enfrentou três pro-
blemas fundamentais: ele é caro demais; nem todos os cidadãos têm acesso igual a
atendimento de qualidade; e seus serviços muitas vezes são usados de maneira inade-
quada. Por muitos anos, pesquisadores previam uma grande revolução no sistema de
saúde norte-americano. Entre as questões que necessitam ser abordadas, estão o aces-
so universal ao atendimento de saúde, benefícios abrangentes obrigatórios, redução
de custos, qualidade, responsabilização e a mudança de ênfase da prevenção secundá-
ria para a prevenção primária. Embora a lei da reforma do sistema de saúde de 2010,
aprovada pelo Congresso, aborde muitas dessas questões, infelizmente o serviço de
saúde nos Estados Unidos continua a se concentrar muito mais no caro atendimento
de internação (e outros esforços de prevenção secundária) do que na prevenção pri-
mária e na promoção da saúde, que têm menos custo e maiores benefícios.
Melhorar o atendimento de saúde enquanto os custos são cortados está entre
as necessidades mais urgentes. Uma das mensagens mais fundamentais da psicologia
da saúde é que a prevenção e a promoção ou manutenção da saúde devem ter um
papel tão importante no sistema de saúde quanto o tratamento de doenças possui
atualmente. O atendimento de saúde deve ser definido de forma mais ampla, para que
não se concentre apenas nos serviços prestados por médicos, enfermeiros, clínicos e
hospitais. Muitos psicólogos da saúde enfatizam a importância de os pacientes assu-
mirem a responsabilidade por seu próprio bem-estar, enquanto também reconhecem
os importantes papéis desempenhados pela família, pelos amigos e pela comunidade.
O atendimento de saúde mais eficaz deve reconhecer que escolas e locais de oração e
de trabalho são importantes para promover a saúde e devem se tornar parte da rede
de serviços interconectados no sistema de saúde da nação.
O importante papel dos psicólogos em melhorar a saúde física aprimorando os
resultados de tratamentos já foi estabelecido. Isso levou a um aumento significativo
no número de psicólogos que trabalham em cenários de atendimento geral de saúde.
Infelizmente, contudo, as iniciativas recentes para reduzir os custos do atendimento
de saúde podem ameaçar essa tendência. Entre os administradores hospitalares e le-
gisladores, os serviços psicológicos e a prevenção primária, muitas vezes, são conside-
rados opcionais ou até mesmo uma ornamentação. A atual política de saúde coloca
maior ênfase em prevenir novos episódios de uma doença em pessoas que já estão
doentes (prevenção secundária) do que em evitar o começo de uma patologia em
primeiro lugar (prevenção primária). A prevenção secundária baseia-se no modelo
biomédico (da doença) tradicional e costuma envolver diagnósticos médicos, medica-
mentos, cirurgias e outros procedimentos que são cobertos por seguros de saúde. Em
CAPÍTULO 15 A psicologia da saúde hoje e amanhã 441

comparação, a prevenção primária é apoiada em um modelo comportamental, em


vez de um modelo de doença, e em geral não envolve diagnósticos porque não existe
uma doença para se diagnosticar.
Ainda que a legislação possa mudar os rumos futuros do atendimento de saúde,
a inclinação recente para um modelo comportamental da doença não apenas é uma
pena, como também é contraproducente, já que os programas de prevenção secun-
dária frequentemente são caros e podem produzir pouco ou nenhum benefício men-
surável. Uma maneira de estimar os benefícios de ações preventivas é com medidas
combinadas da expectativa de vida e qualidade de vida. Os anos de vida ajustados
por qualidade (QALYs – quality-adjusted life years) podem ser usados para calcular a
eficácia de custo de vários esforços de prevenções primária e secundária. Por exemplo,
um tratamento farmacêutico, um procedimento médico de triagem ou uma inter-
venção comportamental que melhore a qualidade de vida em meio (0,5) para duas
pessoas resultará no equivalente a 1 QALY durante o período de um ano. Pesquisa-
dores estimam que o pequeno benefício de fazer mamografias regulares em mulheres
de 40 a 49 anos de idade (aumentando a expectativa de vida em apenas 2,5 dias a um
custo de 676 dólares por mulher) significa um custo de 100 mil dólares para 1 QALY
completo (Salzmann et al., 1997). Em comparação, pesquisadores verificaram que a
prática regular de exercícios produz 1 QALY por 11.313 dólares – um gasto muito
mais modesto em relação a muitas intervenções biomédicas de prevenção secundária
(Hatziandreu et al., 1988).

Intervenções psicossociais
Psicólogos da saúde exercem uma ampla variedade de atividades, incluindo treinar fu-
turos médicos e enfermeiros sobre a importância dos fatores psicossociais na adesão
do paciente ao tratamento e em sua recuperação, além de intervirem diretamente para
ajudar pacientes que estejam enfrentando procedimentos difíceis e se adaptando a uma
doença crônica (Tab. 15.1 a seguir). As intervenções cobrem cada domínio da saúde.
No domínio biológico, o tratamento é projetado para a alteração direta de certas res-
postas fisiológicas envolvidas na doença. Exemplos são o relaxamento para reduzir a
hipertensão; a hipnose para aliviar a dor; e a dessensibilização sistemática para reduzir a
náusea que costuma ocorrer em antecipação à quimioterapia. No domínio psicológico,
os psicólogos da saúde aplicam tanto intervenções cognitivas quanto comportamentais.
As cognitivas incluem inoculação do estresse para reduzir a ansiedade decorrente de
um procedimento médico iminente, terapia cognitivo-comportamental (TCC) para de-
pressão e controle da raiva voltada a pacientes hostis com doenças cardiovasculares. As

Tabela 15.1
Exemplos das intervenções de tratamento da psicologia da saúde
1. Dessensibilização de temores de tratamentos médicos e odontológicos, incluindo agulhas, anestesia,
parto ou procedimentos de ressonância magnética.
2. Tratamento para aumentar o enfrentamento ou controle da dor, incluindo dores crônicas nas costas,
cefaleias ou queimaduras graves.
3. Intervenções para controlar sintomas como vômitos decorrentes da quimioterapia, coceiras de
neurodermatites ou diarreias de síndrome do intestino irritável.
4. Grupos de apoio para doenças crônicas, reabilitação cardíaca, pacientes HIV-positivo ou famílias de
doentes terminais.
5. Treinamento para superar deficiências físicas após traumas, retreinamento cognitivo após AVEs ou
treinamento para usar dispositivos protéticos de forma eficaz.
6. Consultas e desenvolvimento de programas relacionados com adesão do paciente (p. ex., auxílio
especial para idosos ou unidades de internação para crianças diabéticas dependentes de insulina).
Fonte: Adaptada de Belar, C. E. e Deardorff, W. W. (1996). Clinical health psychology in medical settings: A practitioner’s guidebook.
Washington, DC: American Psychological Association.
442 PA R T E 5 Procurando tratamento

abordagens comportamentais envolvem ensinar técnicas para melhorar a comunicação


entre paciente e profissional da saúde, desenvolver um programa de mudança compor-
tamental para modificar hábitos prejudiciais à saúde e ajudar a treinar pacientes em
habilidades de automanejo, como injeções diárias de insulina. E as intervenções sociais
abrangem estabelecer grupos de apoio para famílias de doentes terminais e conduzir
exercícios de dramatização com crianças para “inoculá-las” socialmente contra a pres-
são que sofrem de seus pares para comportamentos de risco.
Essas intervenções psicossociais geram uma economia significativa de custos,
particularmente quando usadas para preparar pacientes para cirurgias e outros pro-
cedimentos médicos que produzem ansiedade (Novotney, 2010). Indivíduos ansiosos
demais, quando enfrentam hospitalizações e procedimentos invasivos como cirurgias,
muitas vezes experimentam uma desintegração de suas habilidades de enfrentamento
normais. Treinamento de relaxamento, exercícios pós-cirúrgicos, técnicas de distra-
ção e estratégias para aumentar o controle podem reduzir a duração da hospitalização
e a necessidade de medicamentos para aliviar a dor, bem como a ajudar a prevenir
comportamentos perturbadores dos pacientes. As intervenções psicossociais também
são percebidas como eficazes e desejáveis pelos pacientes e suas famílias (Arving et al.,
2006; Martire, 2005).
O desafio da contenção de custos deve continuar visto a probabilidade de doen­
ças cardiovasculares e câncer – condições crônicas relacionadas com a idade que são
extraordinariamente caras para tratar – permanecerem as principais causas de morte
por algum tempo. A ênfase da psicologia da saúde na prevenção, se empregada de
forma ampla, ajudaria a conter gastos gerais, apesar do custo inicial do pessoal adi-
cional de saúde. Uma das melhores formas de conter esses custos é ajudar as pessoas
a melhorarem seus comportamentos de saúde para evitar a doença e auxiliar aqueles
que adoecem a se recuperarem o mais rápido possível.

Atendimento misto (cooperativo ou integrado)


Como mais um testemunho do papel futuro da psicologia da saúde a fim de ajudar os
esforços para conter os custos do sistema de saúde, a Human Capital Initiative lançou
um apelo pelo uso maior do atendimento misto (também chamado de atendimento
cooperativo ou atendimento integrado; ver Cap. 12). Esse modelo interdisciplinar, no
qual equipes de tratamento abordam doenças a partir de perspectivas biológicas, psi-
cológicas e socioculturais, representa uma grande promessa de melhorar a interven-
ção terapêutica enquanto simultaneamente reduz os custos (Tab. 15.2).
O sucesso do atendimento misto reflete a aceitação crescente da psicologia da
saúde pela biomedicina tradicional nos últimos 25 anos – uma tendência que deve
continuar no futuro (Novotney, 2010). Um sinal dessa aceitação é o aumento substan-
cial no número de psicólogos que trabalham em faculdades de medicina e centros de
saúde acadêmicos – a maior área individual
Tabela 15.2 de colocação profissional para psicólogos
Redução na frequência de tratamento com atendimento misto nos últimos anos (APA, 2006). Entre 1960 e
2006, a psicologia cresceu de uma média de
Número total de consultas ambulatoriais - 17% dois psicólogos por faculdade de medicina,
Consultas para doenças menos importantes - 35% para quase 30 (APAHC, 2006). Os psicólo-
Consultas pediátricas para doenças agudas - 25% gos tornaram-se membros fundamentais de
Consultas para asma aguda - 49% equipes clínicas e de pesquisa multidisci-
Consultas para pacientes com artrite - 40% plinares em muitas especialidades médicas,
Duração média de estada em hospital para pacientes cirúrgicos - 1,5 dia incluindo consultórios de família, pediatria,
Cesarianas - 56% reabilitação, cardiologia, oncologia e aneste-
Anestesia epidural durante o parto - 85% sia. Outro sinal é o papel crescente dos enfer-
Fonte: Doing the right thing: The human capital initiative strategy (report). (1994). Washington, DC:
meiros em prestar serviços psicológicos. Um
American Psychological Association, p. 16. número cada vez maior de enfermeiros está
CAPÍTULO 15 A psicologia da saúde hoje e amanhã 443

obtendo graus avançados em psicologia, e a enfermagem esta-


beleceu o National Institute for Nursing Research (NINR), que
se concentra em estudos controlados de variáveis psicológicas
na enfermagem.
De modo paradoxal, à medida que o atendimento mé-
dico se tornou mais especializado e mais complexo, também
começou a ampliar seu escopo, incorporando aspectos mais
complementares e alternativos da cura. O treinamento de re-

The Photo Works


laxamento, a visualização guiada e alguns aspectos espirituais
das tradições não ocidentais de cura são cada vez mais aceitos
por programas de atendimento administrado, pois esses mé-
todos normalmente não são caros e, ainda assim, costumam ser eficazes para ajudar
os pacientes a enfrentarem uma variedade de sintomas relacionados com o estres- Atendimento misto Quando
equipes interdisciplinares de
se. Vistos os crescentes custos médicos, a razão custo-eficácia dessas intervenções não tratamento abordam doenças a
pode ser ignorada. partir de perspectivas biológicas,
psicológicas e socioculturais,
o tratamento muitas vezes é
Reforma internacional melhor; e o custo, reduzido.

Conforme já foi visto, existe uma grande variabilidade na prevalência de determi-


nadas doenças no mundo inteiro. A pobreza, a falta de atendimento de saúde e a
ignorância geralmente contribuem para uma incidência maior de doenças infecciosas
nos países em desenvolvimento do que nos países desenvolvidos. Por exemplo, assim
como o hábito de fumar continua a diminuir nos Estados Unidos, sua prevalência está
aumentando em partes do mundo em desenvolvimento.
A psicologia da saúde pode tomar a dianteira em conduzir as mensagens de
milhares de estudos das nações desenvolvidas para outras partes do mundo nas quais
problemas de saúde semelhantes estão apenas começando a surgir. Todavia, a trans-
missão de informações pode fluir em ambas as direções. Os psicólogos da saúde po-
dem ajudar a reformar o sistema de saúde norte-americano auxiliando os legisladores
a compreender aspectos que outros países dominam melhor. Por exemplo, todos os
cidadãos canadenses são cobertos por algum provedor de seguro de saúde subsidiado
pelo governo. Embora os médicos trabalhem como provedores de serviços indepen-
dentes em consultórios e clínicas privados, assim como nos Estados Unidos, suas ta-
xas são fixadas por negociações regulares com o governo da província em que atuam.
Assim, os médicos não podem cobrar mais por seus serviços do que o preço estipu-
lado no acordo.
Como outro exemplo, considere um aspecto do sistema australiano: clínicas
para o bem-estar do homem e da mulher. O objetivo dessas clínicas é promover a saú-
de total do homem e da mulher, focalizando o bem-estar, em vez de apenas a doen­
ça. Essas clínicas gratuitas, que são mantidas por profissionais da enfermagem, são
encontradas por todo o país e se concentram em educação, avaliação e administração
sem medicamentos de problemas de estresse pessoal e familiar.

Conclusão

A
perspectiva da psicologia da saúde como profissão é promissora. O campo
fez avanços impressionantes em sua breve história, mas há muito mais a
aprender. Os futuros psicólogos da saúde enfrentarão muitos desafios en-
quanto trabalham para melhorar a saúde individual e da comunidade e ajudar a
reformar o sistema de saúde. Espero que seu entendimento crescente da psicologia
da saúde seja tão motivador para você – pessoal e profissionalmente – quanto tem
sido para mim.
444 PA R T E 5 Procurando tratamento

Revisão sobre saúde

Responda a cada pergunta a seguir com base no que querem que você compartilhe o que aprendeu
aprendeu no capítulo. (DICA: Use os itens da Sínte- sobre o futuro do atendimento de saúde, especial-
se para considerar questões biológicas, psicológicas mente como ele será influenciado pelo trabalho dos
e sociais). psicólogos da saúde. O que você dirá a eles? Quais
1. Depois de ler este livro, identifique algumas ma- pesquisas você leu que sustentam seu pensamento?
neiras que, conforme seu entendimento, pode- 3. Após concluir esta disciplina em psicologia da
riam melhorar sua saúde, relacionadas com seus saúde, você decide continuar nessa área em sua
componentes biológicos, psicológicos e sociais carreira. Qual subcampo dessa ciência escolhe-
ou culturais. ria: professor, cientista/pesquisador ou clínico
2. Alguns de seus amigos sabem que você está cur- (ver Cap. 1)? Identifique um objetivo que espe-
sando uma disciplina em psicologia da saúde. Eles raria alcançar na carreira que escolheu.

Síntese
As lições mais importantes da psicologia da Os desafios futuros da psicologia da saúde
saúde
Desafio 1: Aumentar o tempo de vida saudável para to-
Lição 1: Fatores psicológicos e sociais interagem com a das as pessoas
biologia na saúde Desafio 2: Reduzir as discrepâncias de saúde e aumentar
Lição 2: Promover e manter a saúde é nossa responsa- a compreensão a respeito dos efeitos do gênero, da
bilidade cultura e do status socioeconômico sobre a saúde
Lição 3: Estilos de vida insalubres são mais difíceis de Desafio 3: Atingir o mesmo nível de acesso a serviços de
mudar do que de prevenir saúde preventiva para todas as pessoas
Lição 4: A avaliação e o manejo adequados do estresse Desafio 4: Ajustar o foco de pesquisa e intervenção para
são essenciais para a boa saúde maximizar a promoção da saúde com abordagens
baseadas em evidências
Desafio 5: Ajudar na reforma do atendimento de saúde