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INTRODUÇÃO

À
PSICOLOGIA
FENOMENOLOGICA
Emest Keen
Buckneil University

INTRODUÇÃO
À PSICOLOGIA
FENOMENOLÓGICA

Tradução:
HELIANA DE BARROS CONDE RODRIGUES
Professora do curso de Psicologia da Universidade Sattfa Ursüla

Capa:
NANCI MONTEIRO

l l IflKRAÍM ftiCAnA
ISBN 85-201-0093-7
(Editor original:
ISBN 0-03-012841-2 Holt, Rinehart and Winston, Inc., New York)

Esta I a edição em português é tradução e adaptação da l .a edição do original


A Primer in Phenomenologicat Psychology, by Emest Keen
Copyright© 1975, by Holt, Rinehart and Winston, Inc.

Este livro não pode ser reproduzido, total ou parcialmente,


sem autorização escrita do editor.

Direitos exclusivos para a língua portuguesa


Copyright© 1979, by Editora Interamericana Ltda.
Rua Coronel Cabrita, 8 — Rio de Janeiro — RJ

Impresso no Brasil — Printed in Brazil


A

Deej e Christa
PREFÁCIO

Há muitas maneiras de praticar a psicologia. Este livro descreve como


fazê-lo fenomenologicamente. É dirigido ao aluno principiante, mas espero
que os colegas que desejam aprender algo sobre psicologia fenomenológica
possam também achar o livro proveitoso. Praticar psicologia fenomenologi;
camente é, paradoxalmente, extremamente fácil e incrivelmente difícil. É
fácil porque somos todos fenomenólogos inatos; todos nós temos experiên­
cias, refletimos sobre elas e as interpretamos, e, ao fazê-lo, vivemos nossas
vidas com maior ou menor proveito. Freqüentemente deixamos de perce­
ber a quantidade extraordinária de discernimento empírico envolvido no
simples fato de viver; um peixe é o último a descobrir a água. Nossa com­
preensão já está aí implicitamente, pronta para ser analisada, articulada e
desenvolvida pela sofisticação psicológica.
As dificuldades da psicologia fenomenológica surgem das complexida­
des que emergem quando abordamos seriamente a investigação da expe­
riência. Talvez os psicólogos (ao menos nos Estados Unidos) ainda não
tenham desenvolvido com muito vigor a psicologia fenomenológica porque
sabemos quão complexas são, realmente, a textura e a estrutura da expe­
riência humana. Se é verdade que os pobres de espírito entram a tropel
onde os anjos têm medo de pisar, podemos estar sendo tolos ao fazer esta
tentativa. Comprometemo-nos, assim, com o que pode parecer uma tarefa
impossível: explorar a experiência humana conforme ela é vivida todos os
dias.
Alguns psicólogos americanos têm feito investidas notáveis no terreno
da experiência subjetiva cotidiana. Para os familiarizados com a psicologia,
incluí um apêndice, relativo à posição da fenomenologia na psicologia ame­
ricana, explicando como a abordagem deste livro se relaciona com as tenta­
tivas bem conhecidas de escrever uma psicologia da experiência. Este
livro, portanto, apresenta uma psicologia fenomenológica e não a aborda­
gem fenomenológica em psicologia.
Este manual tem quatro partes. Na Parte I, abordamos o assunto dire­
tamente. Através da exploração de um único episódio, com menos de uma
hora de duração (Cap. 1), descobrimos que, embora os nossos instrumen­
tos sejam precários, não estamos limitados ao ponto de não podermos dizer
absolutamente nada. Podemos, com uma pequena reflexão, começar a per­
ceber como é estruturada a experiência. Podemos ver por que os aconteci­
mentos da vida diária significam para nós o que significam. Com relativa
clareza e simplicidade, descobrimos que somos capazes de usar conceitos
viii PREFÁCIO

desenvolvidos em uma tradição da filosofia européia. Estes conceitos tam­


bém nos oferecem acesso aos problemas filosóficos mais profundos de
todos os tempos. Isto não precisa amedrontar-nos. Mesmo se desejássemos
explorar os gigantescos problemas da ontologia, não poderíamos fazer nada
melhor do que começar no ponto onde estamos — como psicólogos um
tanto xlesajeitados e atrevidos, tentando compreender a experiência.
Os Caps. 1 e 2 nos engajam numa análise e descrição minuciosas de
experiências ordinárias e muito comuns. O que mais nos interessa são jus­
tamente o cotidiano e o lugar-comum na experiência — as maneiras de ver,
comportar-se e ser, tão profundamente admitidas como certas, que rara­
mente são questionadas. Não temos de nos voltar para experiências culmi­
nantes ou de êxtase para descobrir algo complicado o suficiente para nos
interessar. Uma percepção simples e habitual de qualquer coisa concretiza
os desafios mais complexos e intrigantes que a psicologia pode enfrentar.
Não compreendemos, por exemplo, como uma cadeira que está lá pode ter
uma presença visual para nós aqui, e como ela está lá enquanto o nosso
conhecimento dela está aqui, e como podemos dispor da lembrança dela a
qualquer momento. Apesar disso, temos efetivamente uma compreensão
destes fenômenos, e tal compreensão é o modo pelo qual os fenômenos são
possíveis. Carecemos de uma compreensão científica, mas presumimos
uma compreensão comum. A nossa tentativa neste livro será pensar cienti­
ficamente (no sentido amplo do termo) sobre as nossas vidas diárias.
No Cap. 2, tentamos estabelecer alguns instrumentos conceituais, por
pouco sofisticados que possam ser no momento. Estes conceitos podem
capacitar-nos a descrever a experiência conforme ela é vivida, sem distor-
cê-la neste processo. A finalidade deste capítulo é descrever alguns aspec­
tos básicos da experiência humana, chegando por nossos próprios esforços
de ascensão (ou de aprofundamento) à forma básica de todo o nosso expe-
riènciar: o fato de que ele sempre envolve um mundo. Este desenvolvi­
mento, a partir de alguns aspectos básicos até a forma básica, é recapitu-
lado, em maiores detalhes, nas Partes III e IV.
Na Parte II, interrompemos este desenvolvimento teórico com quatro
capítulos acerca das feições críticas do método. O meu objetivo, aqui, é
convencê-lo de que é possível praticar psicologia fenomenologicamente.
Algumas abordagens, mais uma vez oriundas dos filósofos, são descritas no
Cap. 3, que lida com os temas gerais da compreensão e da comunicação.
*Ao formular estas perspectivas, meramente enunciamos aquilo que todos
nós fazemos mais ou menos automaticamente em nossa compreensão coti­
diana de nós mesmos e dos outros. Como psicólogos, a nossa finalidade é
sempre tomar a experiência diária, na qual a psicologia inevitavelmente
está baseada, e tomá-la tão rigorosa, sistemática e frutífera quanto possí­
vel.
No Cap. 4, descrevemos algumas abordagens que vêm sendo adotadas
em relação a problemas de pesquisa. Estas primeiras tentativas de rigor
fenomenológico em psicologia levam-nos a imaginar como as mesmas
podem ser aperfeiçoadas. O Cap. 5 considera esta questão, enfocando as
PREFÁCIO k
vantagens e dificuldades de perguntar às pessoas o que desejamos saber
delas, em lugar de usar a metodologia mais tradicional de meramente ob­
servar o seu comportamento. No Cap. 6, ampliamos algumas sugestões
para o método clínico. Assim como o Cap. 4, este capítulo é seletivo. Es­
pero ter oferecido uma amostra representativa de técnicas e abordagens.
Na Parte III, fornecemos uma visão mais detalhada de alguns dos pas­
sos, cobertos no Cap. 2, a respeito do desenvolvimento de conceitos. Os
Caps. 7, 8 e 9 lidam, respectivamente, com um aspecto da experiência —
um contexto de significação que é parte da totalidade de toda a experiência
vivida. A seqüência destes capítulos não é importante. O espaço físico e a
sua aparência fisionômica, com relação aos quais nos orientamos corpo­
ralmente, fornecem uma camada de significação para toda a experiência
humana (Cap. 7). Uma identidade pessoal, com um passado e um futuro, é
um segundo contexto implícito do qual a experiência sempre recebe signifi­
cação (Cap. 8). Um terceiro aspecto é a nossa rede de acordos interpes­
soais; freqüentemente sutil, mas poderoso, este contexto nunca está au­
sente da nossa experiência vivida (Cap. 9). Afirmar que a experiência é
sempre física, pessoal e social tem pouca possibilidade de ser surpreen­
dente. Dizer que vamos desmembrar estas sutilezas e relacioná-las aos
dados da experiência vivida pode não apenas ser surpreendente, como
também, talvez, demasiado ambicioso. Mas vamos correr o risco.
Os três capítulos da Parte III podem ser lidos com maior proveito “ ex-
periencialmente” . Ou seja, cada afirmação, cada conceito e cada proposi­
ção devem apontar para a experiência vivida. Os melhores conceitos reali­
zarão isto automaticamente; outros podem requerer que o leitor dirija a
própria atenção para a sua experiência, a fim de tentar fazer a conexão. A
melhor maneira de entender a fenomenologia é começar agora mesmo a ser
um fenomenologista. Para cada exemplo que eu lhe apresenta-, pense em
outros relativos a você mesmo, e pergunte a si mesmo se o meu ponto de
vista descreve a sua experiência conforme ela é vivida por você. Cada capí­
tulo deve sugerir-lhe uma série de possíveis análises fenomenológicas. Ex-
perimente-as; teste os seus limites; frustre-se e permita que a frustração o
impulsione na direção de uma maior clareza a respeito da experiência. Este
livro está escrito para ser superado. O leitor sério realizará este objetivo.
A Parte IV conclui o desenvolvimento da Parte III com o conceito de
“ mundo” , assim como o Cap. 2 encerra-se, numa forma mais preliminar,
com o mesmo conceito. Embora a noção de “ mundo” seja a nossa conclu­
são, talvez seja melhor vê-la como ponto de partida. Quando compreende­
mos o que significa explorar o mundo vivido, estamos prontos para come­
çar a fazer psicologia fenomenológica de modo rigoroso e sistemático, uma
vez que o mundo vivido é também o começo da experiência — sua base e
horizonte fundamental. Para fazer psicologia fenomenológica rigorosa­
mente, devemos penetrar na raiz — ou melhor, no solo — da experiência
conforme ela é experienciada todos os dias por cada um de nós.
, Mais uma vez, esta tarefa é simultaneamente muito fácil e muito difícil.
E fácil ver a experiência desta maneira porque esse é o modo como ela é.
Não há experiência no empreendimento humano que não esteja baseada
x PREFÁCIO

numa percepção fundamental do mundo e do como estamos nele. É difícil


ver a experiência desta maneira porque não estamos acostumados a fazer o
escrutínio das nossas experiências de maneira tão crítica e reflexiva. Mui­
tos aspectos das nossas vidas cotidianas são construídos sobre suposições
inquestionadas (alguns dizem inquestionáveis). Geralmente, o que as expe­
riências significam para nós é tão óbvio que não sentimos a necessidade de
entender as fontes e as formas destas significações. Mesmo a ciência natu­
ral, uma das mais impressionantes realizações humanas, não questiona a
experiência (na qual também ela está baseada) com rigor sistemático. A
tentativa da fenomenologia de fazer exatamente isto promete ser uma con­
tribuição não apenas à psicologia, mas também a toda a ciência. Neste
livro, entretanto, concentramo-nos na psicologia.
Este manual é também escrito de tal modo que pode ser lido em dois
níveis distintos. Os textos apresentados nos capítulos contêm tão poucas
referências quanto possível a outros autores e a suas divergências, a fim de
desenvolver as idéias que utilizo. Os alunos principiantes podem ler o livro
ignorando totalmente as notas de rodapé. As únicas desvantagens deste
procedimento são, em primeiro lugar, que as idéias que não são original­
mente minhas possam parecer sê-lo e, em segundo lugar, que os problemas
mais amplos e questões adicionais que o leitor crítico possa colocar não são
considerados. Há notas, ao final do livro, para o leitor que deseje superar
estas desvantagens. É mencionada a posição histórica dos principais con­
ceitos, são resumidas brevemente as principais contribuições da fenomeno­
logia e fornecidas numerosas referências. Finalmente, foram consideradas
nas notas as questões que o leitor mais crítico possa formular.

Lewisburg, Pennsylvania E.K.


Outubro I974
SUMÁRIO

PREFÁCIO .................................................................................................................... vii

PARTEI INTRODUÇÃO .................................................................................... 1

1. Uma menina de cinco anos muda de idéia ............................................ 3


2. Comportamento e ser-no-mundo .......................................................... 16

PARTE II MÉTODO ............................................................................................ 25

3. Compreensão e comunicação ................................................................. 27


4. Técnicas de pesquisa ................................................................................ 34
5. Desenvolvimento metodológico *................... ...................................... 42
6. Métodos clínicos ...................................................................................... 50

PARTE IO ALGUNS HORIZONTES UNIVERSAIS ........................................ 59

7. Fisionomia do campo .............................................................................. 61


8. O self no tempo ........................................................................................ 67
9. Acordos interpessoais .............................................................................. 75

PARTE IV CONCLUSÃO .............................................. ...................................... 81

10. O mundo .................................................................................................... 83


11. Comentários finais .................................................................................... 91

APÊNDICE ................................................................................................... . 95

Apenas para psicólogos: O lugar da psicologia fenomenológica ............... 97

NOTAS ..................................................................................................................... 107

REFERÊNCIAS ....................................................................................................... 133


xii SUMÀRIo

ÍNDICE ONOMÁSTICO ......................................................................................... 141

ÍNDICE REMISSIVO .............................................................................................. 143


PARTE
I
INTRODUÇÃO
CAPÍTULO 1

UMA MENINA DE CINCO ANOS


MUDA DE IDÉIA*
Observemos minha filha de cinco anos. Ela está pondo cuidadosamente, numa
grande sacola de papel, seu pijama, sua escova de cabelo e sua boneca predileta.
Depois de terminar essa arrumação, espera impacientemente pelo telefonema de sua
amiga para dizer que terminou o jantar e que podem agora começar a passar a noite
juntas. Chega o telefonema. Ela está impaciente e alegre quando põe o casaco. Em
seguida apossa-se da sacola com um dos braços e de minha mão com o outro, a fim
de caminhar até a casa da amiga, situada duas casas abaixo na rua. As duas meni­
nas dão risadinhas quando se vêem, e juntas correm para o quarto de dormir.
Três quartos de hora mais tarde recebemos uma chamada telefônica da mãe da
amiga. Minha filha esteve chorando incontrolavelmente durante meia hora e quer
voltar para casa. Não há razão aparente para tal comportamento; tudo o que ela é
capaz de dizer é que quer voltar para casa. Quando a trago de volta suas lágrimas
diminuem, e quando cruzamos a porta da frente, sorri largamente. Está satisfeita
de estar em casa mesmo que a mandemos direto para a cama, e não chora mais,
nem exige um lanche ou uma estória. Vai dormir.
Estas são as grandes linhas do episódio que nos ocupará neste capítulo, e deve­
remos voltar a ele muitas vezes no decorrer do livro. Compreendemos o que acon­
teceu aqui? O comportamento de minha filha me confundiu; não esperava que isto
acontecesse. Vamos percorrer novamente os acontecimentos, complementando al­
guns detalhes e tentando reduzir nossa confusão.
Como podemos entender este episódio? O cuidado de minha filha ao arrumar
suas coisas parece ter estado ligado a uma certa atitude, disposição e expectativa. A
colocação dos objetos na sacola pode ter sido acompanhada pela imagem de que
logo iria retirá-los na casa da amiga. Pode também ter sido uma imitação do ato de
empacotar que tinha assistido os pais realizarem. Ou talvez estivesse pensando em
manter as coisas arrumadas, conforme a mãe lhe tinha ensinado a fazer com sua
cômoda. Qualquer que fosse a coisa específica em que pudesse ter pensado en­
quanto colocava as coisas na sacola — e podem ter sido todas essas coisas — a
primeira parte da noite teve um certo sabor, um gosto de antecipação, de examinar
com impaciência um futuro de diversão e prazer.

*Este capítulo foi publicado originalmente numa versão ligeiramente diferente, sob o mesmo título, no
Journal o f Phenomenological Psychology, 1973, 3, 161-171. Humanities Press, Inc., New Jersey.

3
4 INTRODUÇÃO

E então as coisas mudaram. Talvez, enquanto desarrumava a sacola, tenha pen­


sando nos pais, distantes duas casas, passando alegremente sem ela. Talvez a dis­
tância entre as casas se tenha avultado como assustadoramente grande. De qual­
quer forma, a antecipação de alguns minutos atrás estava morta, e sua experiência
presente era muito diferente.
Ela pode ter-se lembrado de sua rotina usual da hora de dormir: um lanche, uma
história, o beijo de boa noite da mãe, em seguida o aconchego sob as cobertas de
uma cama quente e familiar. Estar com sua boa amiga de algum modo não era tão
seguro nem tão confortável quanto a lembrança da própria cama. Tudo que pôde
exprimir das lágrimas foi que queria ir para casa.
E então, depois de voltar para casa, uma terceira disposição ou atitude diferente
parece ter tido lugar. Ela olhou rapidamente para dentro do seu quarto, a seguir
correu para a cama e desapareceu de maneira agradecida sob as cobertas, sem pedir
qualquer coisa mais, e satisfeita por estar em casa. Foi dormir rápida e facilmente.
Parece que não lhe ocorreram nem antecipações do que aconteceria depois, nem
lembranças do que costumava acontecer. Estava apreciando o momento presente
justamente conforme era. Estava bom. Sua solidão de há alguns minutos antes não
vigorava mais.
Não conhecemos, é claro, os detalhes precisos da experiência dela durante os
três estágios da noite. Tudo que temos realmente para ir adiante é seu comporta­
mento, nos momentos em que nos deu a conhecer seus desejos através da lingua­
gem e da ação. Entretanto, se pudéssemos conhecer tais detalhes, não acharíamos
seu comportamento misterioso ou intrigante. Por mais perplexos que pudéssemos
estar no início, todos os movimentos e todas as palavras fariam sentido para nós
caso pudéssemos conhecer os pensamentos e sentimentos que os acompanhavam.
Como podemos conhecer tais pensamentos e sentimentos? Como podemos chegar a
entender seu comportamento?
Se não fôssemos psicólogos, simplesmente estabeleceríamos como explicação
que ela mudou de idéia. Porém, porque somos psicólogos, solicitamos de nós mes­
mos e da nossa psicologia que sejamos capazes de compreender o que estava en­
volvido em sua mudança de idéia. O que mais devemos poder conjecturar a respeito
da experiência, de forma a poder compreendê-la melhor?

TEMPO

Durante a operação de arrumar os objetos na sacola, minha filha estava cheia de


antecipação quanto ao pernoite. Colocar os objetos cuidadosamente na sacola tinha
uma certa significação para ela, e podemos perceber em seu comportamento alguma
coisa dessa significação. Ela perguntava a si mesma de maneira audível quando a
amiga telefonaria. Queria estar pronta a tempo. Tudo que experienciou aconteceu
contra o pano de fundo de sua antecipação. E o pano de fundo das expectativas de
um pernoite agradável fez com que as coisas significassem o que positivamente
significaram para ela. Estava vivendo a antecipação, mesmo enquanto arrumava a
sacola; estava vivendo no futuro, voltada para esse rumo e o futuro, penetrou o
presente, dando-lhe direção e significado.
Depois que estava na casa da amiga, mudou de idéia. Sua experiência mudou.
Tudo que pôde dizer foi que queria voltar para casa. Estava ela com medo de que
alguma coisa acontecesse na casa da amiga? Provavelmente não, pois tinha estado
lá durante o dia muitas vezes e sempre parecera gostar. Se estava com medo de
que algo pudesse acontecer, o medo não estava presente enquanto arrumava as
coisas na sacola. Para dizer a verdade, não parece ter sido o futuro aquilo que deu
um a MENINA DE CINCO ANOS MUDA DE IDÉIA 5
sabor à sua experiência depois que mudou de idéia; ao contrário, pareceu ter sido o
passado. Sua casa. Lembrou-se dela e quis estar lá. A segurança e a familiaridade
pareceram chamá-la de volta. Olhou para a amiga, para o quarto, para sua sacola, e
eles não significaram mais para ela um pernoite agradável; ao invés disso, significa­
ram uma versão inferior da maneira como ela geralmente ia dormir. Parece que seus
pais, que não estavam fisicamente presentes, estiveram todavia psicologicamente
presentes. A lembrança deles tomou a ausência física intolerável. O passado, não o
futuro, forneceu o pano de fundo para a experiência dos acontecimentos e estes
assumiram uma significação muito diferente. Realmente, a estrutura de sua expe­
riência foi muito diferente nesse estágio. Estava vivendo suas recordações; estava
vivendo de novo no passado e era esta a direção para a qual estava voltada. De
maneira muito eficiente, produziu o comportamento que conseguiria uma aproxi­
mação de tal passado.
Ambas as experiências, viver no futuro e viver no passado, foram perceptivel-
mente diferentes daquela ligada ao modo como experienciou seu quarto e sua cama
depois de voltar para casa. O presente, em sua presença imediata, não é penetrado
nem pelo futuro nem pelo passado, mas é completo em si mesmo, conforme ele é, e
ela foi absorvida nele.
Uma série de perguntas continua sem resposta acerca do episódio com minha
filha, como o porquê de sua experiência ter mudado conforme mudou. Por que ela
mudou de idéia? Antes de mencionar essa questão, entretanto, devemos realmente
compreender, tão bem quanto pudermos, o que eia estava experienciando. O que
realmente mudou foi a qualidade de sua experiência, a significação da mesma. E
uma boa quantidade de trabalho descritivo tem de ser feita antes que possamos
discernir o que as coisas significavam para ela, à medida que atravessava as fases
da noite.
Um problema crítico para os psicólogos, quando tentam fazer tal trabalho des­
critivo, é que não existe uma linguagem bem desenvolvida em termos da qual se
possa tomar clara a descrição. Sabemos que os acontecimentos significam coisas
para as pessoas e sabemos que aquilo que os acontecimentos significam determina
suas reações. Mas não sabemos muito acerca da origem ou produção da própria
significação.1
Em nossas tentativas descritivas esforçamo-nos por mostrar como os aconteci­
mentos da noite foram significativos em virtude dos panos de fundo contra os quais
apareceram. Além disso, tentamos mostrar como diversas regiões temporais —
passado, presente e futuro — forneceram tais panos de fundo. Antes de minha filha
sair de casa, a sacola (por exemplo) era experienciada contra o pano de fundo de
suas antecipações impacientes e significava uma noite agradável. Depois da menina
estar na outra casa por algum tempo, a mesma sacola foi experienciada contra o
pano de fundo de suas recordações afetivas do lar. Significou uma versão desagra­
davelmente inferior da maneira como usualmente ia dormir.
Viver no futuro é uma avaliação da significação do presente em termos de nos­
sas antecipações. Viver no passado é uma avaliação da significação do presente em
termos de nossas recordações. Em tais experiências, o passado e o futuro permeiam
literalmente o presente; alastram-se de modo absoluto e preenchem as próprias sig­
nificações e percepções dos acontecimentos correntes. Tais fenômenos experienciais
nao são aleatórios; têm uma estrutura definida, e essa estrutura se revelaria como
ordenada, se ao menos pudéssemos conduzir nosso trabalho descritivo bastante
longe para percebê-la claramente.
E importante ver que quando regiões temporais são o pano de fundo, futuro e
passado penetram o presente de maneiras muito mais complicadas do que aquelas
6 INTRODUÇÀO

que já descrevemos. A antecipação de minha filha de um pernoite agradável foi


baseada em recordações, tais como os bons momentos em que tinha estado com sua
amiga e aquilo de que se lembrava quanto ao quarto dela, no qual antecipava dor­
mir. O que ela estava antecipando apareceu em sua experiência contra o pano de
fundo daquilo que ela relembrava: acontecimentos contra o pano de fundo de
antecipações e antecipações contra o pano de fundo de recordações — uma estru­
tura complexa mas inteiramente relevante para nossa tarefa de compreender seu
comportamento no primeiro estágio da noite (ver Fig. l).
Quando ela estava chorando, querendo voltar para casa, sua recordação do lar
fez com que a sacola, a cama e o quarto parecessem solitários, estranhos, inoportu­
nos. Mas a recordação de casa emergiu apenas em virtude de um pano de fundo
adicional de antecipação — ir dormir em tal quarto estranho. Ela tinha estado no
quarto muitas vezes, antes e não o achara insuportável. Mas saber que deveria ir
para a cama ali fez com que o quarto aparecesse como um lugar vazio, um lugar
frio, em contraste com a lembrança de sua própria cama quente em casa. Ela não
teria recordado a própria cama senão em função da antecipação prévia de dormir

Figura 1. Estrutura da Experiência Temporal na Primeira Fase da Noite. Acontecimentos tais


como arrumar a sacola têm significação em virtude da antecipação de um pernoite agradável,
que é o contexto experiencial, ou pano de fundo para a atividade. Antecipações, por seu
turno, aparecem contra o pano de ftindo da recordação da diversão anterior com amigos, a
qual fornece às antecipações sua significação.
UMA MENINA DE CINCO ANOS MUDA DE IDÉIA 7

nesta outra. Acontecimentos contra o pano de fujido de recordações e recordações


contra o pano de fundo de antecipações também fornecem uma estrutura complexa,
esquematizada na Fig. 2.
É difícil dizer o que veio primeiro, o que começou tudo — o passado enquanto
recordado ou o futuro enquanto antecipado. Em verdade, na experiência, em con­
traste com a seqüência de eventos físicos no tempo físico computado por relógios, o
futuro (enquanto antecipado) pode preceder o passado (enquanto recordado). Eis
uma das diferenças entre o mundo da experiência e o mundo conforme interpretado
segundo as tradições das ciências físicas.
Como se esses fatos de experiência não fossem já assuntos suficientemente
complicados, devemos mencionar que algumas recordações são antecipadas
(“ sempre me lembrarei de minha cama na volta a casa”) e que algumas antecipa­
ções são recordadas (“ lembro-me de como esperei ansiosamente por isto” ). Como
podemos descobrir uma maneira de colocar ordem nas complexidades aparente­
mente intermináveis da experiência humana? Por agora vamos tomar como estabe­
lecido que a significação de acontecimentos conforme aparecem em nossa expe-

Figura.2. Estrutura da Experiência Temporal na Segunda Fase da NOite. Acontecimentos tais


como inspecionar o quarto da amiga têm a significação atribuível à recordação da própria
casa, a qual, em contraste com a percepção do quarto da amiga, oferece aconchego, familiari-
ade e segurança. Tal recordação, no entanto, salienta-se apenas em virtude do pano de fundo
adicional de antecipação quanto à possibilidade de permanecer no quarto da amiga toda a noite.
8 INTRODUÇÃO

riência é profundamente influenciada pelo contexto temporal no qual ocorrem. A


expressão “ panos de fimdo” de antecipação e recordação é meramente uma ma­
neira de indicar como esses contextos temporais penetram na estrutura de significa­
ção — não como pontos focais, mas como um campo contra o qual figuras apare­
cem, como ocorre na percepção visual.

ESPAÇO

Vamos novamente observar a noite de minha filha, desta vez em termos do pano
de fundo do espaço experiencial. Vejamos se podemos descobrir mais a respeito do
que os acontecimentos significaram para ela. Enquanto concentrada na colocação
dos objetos na sacola, estava calmamente falando consigo mesma. Sua fisionomia
foi passando por uma série de expressões, como se participasse de uma conversa.
Subitamente, percebeu que eu a observava, sua “ conversa” parou e ela me deu um
grande sorriso — apenas um pouco embaraçada pelo fato de que eu a tivesse estado
observando. Aqui podemos perceber dois espaços distintos, dentro dos quais ela
“ encenou” sua experiência, um após o outro. Em primeiro lugar, a colocação de

Figura 3. Campo Social no qual a Fantasia Teve Lugar. Observe que a atividade de minha
filha está orientada para o outro em uma exibição. No seu campo experiencial, o outro em
fantasia está apreciando sua atividade e fazendo comentários sobre ela. Tal atividade é, por-
tanto, social, embora nenhum outro real esteja incluído. Minha filha não percebe que a estou
observando, e não sou parte integrante do campo.
UMA MENINA DE CINCO ANOS MUDA DE IDÉIA 9
objetos na sacola ocorreu dentro de um espaço ocupado por ela mesma, pela tarefa e
por pelo menos uma outra pessoa, presente para ela, mas não para mim. O “ outro
em fantasia” pode ter sido sua amiga, sua mãe, ou até seu futuro marido. Não
saberíamos quem era ele a não ser que ela nos dissesse, mas é claro que estava
construindo suas ações de acordo com um campo social, um espaço estruturado
por (1.) ela mesma enquanto desempenhando uma tarefa, (2.) a própria tarefa como
um espetáculo para outro, e (3.) o outro como uma audiência e um comentarista em
fantasia de seu desempenho. Estava muito envolvida na dinâmica deste espaço
quando subitamente notou que eu a observava (ver Fig. 3).
Ela era pequena demais para estar autoconsciente da fantasia como nós esta­
mos, mas, logo que me percebeu observando-a, o contexto especial dos aconteci­
mentos, e em decorrência a significação deles, mudaram abruptamente. Estava um
pouco embaraçada — porque a vi tendo a fantasia. Tomei-me um outro em sua
experiência, e o espaço estava agora ocupado por (l.) ela como aquela que há
pouco tinha sido observada sem o saber, (2.) os acontecimentos, incluindo tanto as
ações como a fantasia, e (3.) eu mesmo, o observador (ver Fig. 4). Ela pode ter
pensado que eu conhecia o conteúdo de seu outro espaço, ou pode possuir um
10 INTRODUÇÃO

sentido Sólido da própria privacidade de pensamento e saber que é capaz de es­


conder coisas de mim. Mas isto não importa muito porque confia em mim e não
aprendeu ainda a envergonhar-se de sua imaginação.
Esses dois espaços muniram os acontecimentos da experiência dela com algu­
mas das significações que eles tiveram para ela. Foram como contextos ou cenas
nos quais os acontecimentos tiveram lugar. Esses espaços foram temporários, no
entanto, e apareceram contra um último plano mais amplo, o do espaço delimitado
geograficamente pelas duas casas e ocupado por dois grupos: sua família em seu lar,
e a amiga e a família da mesma na outra casa. Se não fosse em função desse espaço
mais amplo ou de algo semelhante, teria sido totalmente sem significação colocar
coisas na sacola, esperar o telefonema, e assim por diante.
Enquanto esperava o telefonema, as duas casas ergueram-se como pólos opos­
tos num campo bipolar. Sua própria casa representava a rotina comum, desinteres­
sante, e a perspectiva de lá permanecer por mais um minuto parecia desagradável.
Duas portas distantes, em contraste, estavam os aposentos reluzentes da casa da
amiga, onde a diversão teria lugar. Ela pôde sentir a atração pela outra casa en­
quanto permanecia na própria, olhando para a porta e para o telefone, depois va­
gando ao redor inutilmente, manuseando as coisas familiares (ver Fig. 5).

Figura 5. CampO Espacial na Primeira Parte da NOite. A atração da casa da amiga é simboli­
zada pela seta, a qual, por seu turno, atravessa a trajetória antecipada de movimento de minha
filha. As antecipações incluíam provavelmente a travessia dessa distância e obedeciam à atra­
ção ambiental conforme estruturada em sua experiência. Os sinais + e - indicam o mesmo
vetor. Este diagrama é simplesmente invertido para a segunda parte da noite.
um a MENINA DE CINCO ANOS MUDA DE IDÉIA 11
Sabemos que depois que estava na outra casa por algum tempo, os valores dos
pólos nesse campo bipolar se inverteram. A casa da amiga tomou-se estranha e a
própria casa foi “ o lar” . A atração exerceu-se na direção oposta. Quando pergun­
tamos por que ela “ mudou de idéia” , devemos especificar o que mudou em sua
' ‘idéia” antes que possamos aprofundar a questão. Uma das coisas que se modifi­
caram foi a estrutura do espaço que incluía as duas casas. A atraente tomou-se sem
atrativo, e a sem atrativo tomou-se atraente. A experiência da casa da amiga, logo
que chegou lá, deu-se contra o pano de fundo do espaço conforme originalmente
estruturado. Mais tarde, sua experiência da mesma casa foi completamente trans­
formada. Os aposentos reluzentes brilharam de modo diverso; pateceram diferen­
tes, produziram sensação diferente e tiveram uma significação diferente. Tal dife­
rença foi possível porque a estrutura do espaço contra o qual foram experienciados
tinha sido invertida. Os aposentos que haviam sido notáveis promessas de diversão
tomaram-se território estranho. Não pareceram diferentes para mim, mas tiveram,
na experiência dela, uma presença que foi o que foi apenas em razão da estrutura
do espaço inteiro se ter modificado.
Ou a estrutura do espaço mais amplo mudou porque os cômodos da casa da
amiga chegaram a parecer diferentes? Isto não é, penso eu, uma questão de causali­
dade, na qual uma mudança tenha causado a outra. A mudança de sua “ idéia” foi
uma mudança de todas essas coisas de uma só vez. O decisivo é que acontecimen­
tos, objetos e pessoas chegaram a significar algo diferente para ela; a origem da
significação na experiência é o contexto em cujos limites aparecem acontecimentos,
objetos e pessoas: é o pano de fundo que permite que eles se destaquem e sejam
experienciados. Ao compreender a mudança de idéia dela, estamos, portanto, pro­
curando compreender a mudança de significações, e, ao compreender a mudança de
significações, procuramos articular os contextos experienciais de acontecimentos,
dos quais as significações emergem.
Estamos ainda a certa distância da compreensão do porquê da mudança de
idéia, mas certamente estamos mais próximos do que estávamos quando, a princí­
pio, ficamos confusos acerca da questão, porque sabemos algo a respeito do que
mudou. Mudaram significações e mudaram junto com a mudança da estrutura in­
teira da experiência, e em razão dela. Podemos dizer, em particular, que a menina
substituiu uma orientação pelo futuro por uma orientação pelo passado e, final­
mente, pelo presente, e podemos dizer que os valores de atração e repulsão num
espaço bipolar se inverteram.
A fim de atingir uma compreensão do porquê da mudança de idéia, é freqüente­
mente útil indagar por que propomos tal questão. A pergunta nos parece importante
porque o comportamento de minha filha foi diferente da maneira como nos vemos a
nos mesmos nos comportando. Eu não faria planos com outras pessoas e depois,
por razões que sei que permaneceriam misteriosas para elas, mudkria de idéia e as
desapontaria. Tal comportamento não é polido. Parte da importância da pergunta
vem de uma impressão de uma diferença entre minha filha e eu mesmo. De modo
geral, minha atenção não se prende ao comportamento dos outros quando ele é
similar ao meu. Talvez devêssemos, no entanto, como psicólogos, estar tão interes­
sados no comportamento “ compreensível” como no “ intrigante” .
Mas qual é a diferença entre minha filha e eu mesmo? A descortesia de seu
comportamento não a impressiona; ela não experiência seu comportamento como
escortes. Por que não? Porque, caracteristicamente, estrutura suas experiências de
orma diferente daquela em que estruturo as minhas. Sua maneira de experienciar-
se a si mesma no espaço e no tempo “ permite” tais mudanças de opinião, enquanto
a min a não. A diferença é dupla, temporal e espacial. Primeiro, a temporal: minhas
12 INTRODUÇÃO

antecipações de diversão teriam feito a experiência mais divertida do que foi para
ela. Minhas antecipações recordadas (“ lembro-me de como esperei por isto”) te­
riam colorido minha visão dos aposentos esperados, munindo minha experiência de
mais lastro do que aquele que foi acessível a ela. Além disso, eu ficaria “ envergo­
nhado de mim mesmo” por mudar de idéia, o que obviamente não ocorreu com ela.
Antecipar o fato de que eu relembraria o incidente (recordações antecipadas) e con­
tinuaria a me envergonhar dele me teria desencorajado de comportar-me conforme
ela o fez. Logo, tanto em relação às recordações antecipadas como às antecipações
recordadas, as significações em minha experiência teriam sido mais estáveis. Essas
complexidades adicionais — a relevância das recordações antecipadas e das anteci­
pações recordadas — podem ser produtos da maturação natural ou ser devidas à
aprendizagem, e podem representar uma diferença crítica entre as estruturas expe-
rienciais de uma criança de cinco anos e as de um adulto2 (ver Fig. 6).
Entretanto, mesmo que eu me tivesse permitido a mudança de significações que
minha filha experienciou, provavelmente não teria agido como ela. Teria sido mais
Sensível à descortesia do ato e ao desapontamento que causaria nos outros. Eu me

Figura 6. Antecipações do Adulto. Esta estrutura experiencial adulta inclui, no pano de fundo
antecipatório (B) dos acontecimentos (A), uma antecipação, da recordação de minha vergonha
no caso de mudar de idéia; é, portanto, menos suscetível de inverter-se ao arranjo da Fig. 2 do
que o foi para minha filha. Também inclui, no pano de fundo da memória (C) de antecipações
(B), uma recordação de como esperei ansiosamente pelos acontecimentos, o que também for­
neceria mais estabilidade à estrutura.
UMA MENINA DE CINCO ANOs MUDA DE IDÉIA 13
teria “ envergonhado de mim mesmo” e a vergonha emerge de um campo interpes­
soal. A segunda diferença entre a minha própria estrutura experiencial e a de minha
filha é, pois, espacial.
A vergonha, conforme usualmente compreendida, requer um outro a cujos olhos
nos sentimos julgados. Tal experiência nos engaja necessariamente em um espaço
que é, de alguma maneira, diferente daquele de minha filha. Na vergonha, o espaço
no qual a experiência ocorre e o contexto que lhe permite significar o que significa
são intensamente interpessoais. Os acontecimentos dos quais nos envergonhamos
acontecem num espaço no qual há pelo menos uma outra pessoa, cujo julgamento é
levado em conta — caso contrário, não os experienciaríamos como vergonhosos.3
Não é que minha filha, na idade de cinco anos, seja incapaz de se envergonhar.
Alguns anos atrás ela era incapaz disso, mas agora é capaz do embaraço suave que
percebi quando me descobriu espiando sua fantasia; esse embaraço envolve um
contexto espacial semelhante ao da vergonha (ver Fig. 4).
Mas ela não estava envergonhada de ter mudado de idéia como o fez. Tal espaço
não era um contexto relevante para sua decisão de mudar de idéia e não determinou
a significação da mesma.
Por conseguinte, não é a ausência e sim a relativa fraqueza dessa estrutura expe­
riencial que faz minha filha diferente de mim e da maioria dos outros adultos. Sob
circunstâncias especiais, se tivéssemos tentado, por exemplo, fazê-la envergonhar-
se do que havia feito, teria experienciado vergonha. Mas naquela ocasião isto não
ocorreu. Talvez o aspecto marcante a aprender desse episódio não esteja tão ligado
à experiência dela quanto à nossa própria experiência de adultos. Não existe prati­
camente nada na experiência adulta diária que não derive algumas de suas significa­
ções de um contexto de espaço interpessoal. Intimamente todo o nosso comporta­
mento ocorre dentro de um contrato ou acordo, explícito ou implícito, e estamos
constantemente cientes de tal contexto à margem de nossa experiência. Na ver-*
dade, os acontecimentos significam para nós, como adultos, aquilo que significam,
em grande parte por causa desse pano de fundo interpessoal contra o qual eles se
sobressaem como acontecimentos, experiências etc.4
A experiência de crianças de cinco anos não tem verdadeiramente tal caráter, e
percebemos então como a “ mudança de idéia” de minha filha foi possível, para ela,
de um modo como não o seria para nós, adultos. Sua experiência não tem nem a
estabilidade da experiência adulta, emprestada pelas complexidades das antecipa­
ções recordadas e das recordações antecipadas, nem a estabilidade fornecida por
um contexto mais ou menos constante, de contratos e acordos interpessoais, no
qual o ponto de vista do outro é parte daquilo que os acontecimentos significam
para nós e no qual supomos que o ponto de vista do outro é estável.
Podemos, entretanto, ser mais específicos ao dizer alguma coisa sobre o porquê
da mudança de idéia de minha filha, se formos capazes de perceber a mudança
dentro do contexto de como ela estrutura sua experiência em geral. Sabemos, a
partir de outro comportamento, que ela se compreende a si mesma como uma
jovem versão da mãe (ela brinca com bonecas, louças, e assim por diante). Embora
essa perspectiva seja importante do ponto de vista da abusiva onipresença do trei­
namento de papéis sexuais, nossa perspectiva principal aqui é que sua mãe é um
adulto que faz planos, inclusive para divertir-se, e a seguir os põe em prática.
Quando a mãe planeja, faz isso, é claro, dentro de uma estrutura experiencial adulta,
incluindo o caráter contratual do qual falamos e a complexidade das recordações
antecipadas e antecipações recordadas, que a tornam apta a sustentar uma estabili-
e experiencial de tipo adulto. Nas várias imitações do comportamento materno
re ízadas por minha filha, inclusive o plano de um pernoite agradável, ela não
14 INTRODUÇÃO

possui tais estruturas experienciais de sustentação. Possui, todavia, um conheci­


mento de criança de cinco anos sobre o que é tal planejamento e, da mesma forma
como imita ao brincar de boneca e de comidinha, procura ser como a mãe ao fazer
planos.
Tal imitação é antecipação em sua mais ampla escala. Há uma orientação para o
futuro fundamentalmente integrada na compreensão que minha filha tem de si
mesma como uma jovem versão da mãe. Tal viver-no-futuro de modo geral forne­
ceu um pano de fundo temporal básico, contra o qual o episódio inteiro foi expe-
rienciado por minha filha e foi significativo para ela. Foi um contexto que esteve
por trás daquele contexto original de viver-no-futuro ligado ao momento em que
esperava o telefonema. Um contexto que envolve nossa própria definição de nós
mesmos é, realmente, um contexto básico. Portanto, parte da significação de seu
plano inteiro era que se estava tomando uma menina crescida ou, ainda de maneira
mais séria, um adulto como seus pais (ver Fig. 7).

Figura 7. Estrutura mais Ampla da Experiência do Episódio como um Todo. Este diagrama
simplesmente coloca a Fig. l num contexto mais amplo, o qual nos habilita a ver outras
significações dos acontecimentos para minha filha. A arrumação da sacola e outros aconteci­
mentos da primeira parte da noite (A) adquiriram parte de sua significação porque ocorreram
contra o pano de fundo de antecipar o fato de fazer e realizar planos (B), que era significativo
em virtude da recordação a respeito de como a mãe faz e realiza planos (C). Tal recordação,
por sua vez, foi significativa porque minha filha antecipa ser um adulto como a mãe (D).
UMA MENINA DE CINCO ANOS MUDA DE IDÉIA 15
No momento em que minha filha mudou de idéia, ficou claro que, quanto a
todos os aspectos envolvidos, ela se havia superestimado. Em sua substituição
temporal da orientação pelo futuro pela orientação pelo passado e em sua substitui­
ção espacial das atrações centrífugas pelas centrípetas, o contexto subjacente de
significações, tomar-se adulta, passou a ser irrelevante. Em seu lugar o passado
surgiu como o determinante das significações e, na verdade, como outra parte da
compreensão implícita que ela possuía de si mesma: “ Eu sou uma criança.” Tal
mudança ocorreu, e ela mudou de idéia, podemos agora dizer, porque se havia
superestimado. Felizmente, o “ tornar-se adulta” não é a única forma de autocom-
preensão disponível para ela. Quando a experiência não pôde sustentar a antecipa­
ção de um pernoite agradável, ela não ficou oprimida e obliterada pelo fracasso.
Estava bastante contente por ser uma meninazinha. Como todas as crianças estava
à frente de si mesma, mas não totalmente empenhada no avanço.
Ao menos na época não estava. Numa ocasião futura quando o crescimento se
tiver tomado ainda mais importante do que apenas como pano de fundo para de­
terminar a significação dos acontecimentos e quando o espaço interpessoal da ver­
gonha se tiver tornado um contexto mais constante em sua experiência, um maior
número de coisas pode entrar em jogo. O fracasso será mais custoso, porém o
sucesso mais provável, depois que o senso contratual se tiver tornado uma parte
mais estável de sua experiência, depois que as complexidades das antecipações
recordadas e das recordações antecipadas a tiverem suprido de mais lastro para a
estabilidade das significações e depois que sua autodefinição como uma menina­
zinha se tornar menos disponível como uma ordem de significação dentro da qual
possa compreender-se a si mesma.
É interessante notar que, embora nossa análise fenomenológica nos tenha dado
uma noção bastante boa do motivo por que minha filha mudou de idéia e daquilo
que mudou quando ela o fez, não descobrimos realmente nada que já não soubés­
semos. No entanto, no início do estudo estávamos confusos de uma forma que não
é a que se apresenta agora. O fato de que eu já “ soubesse” tudo que está escrito
aqui revela-se em meu impulso de tentar corrigir a situação embaraçosa criada pelo
incidente: o impulso de dizer coisas tais como “ que irão pensar os vizinhos?” ;
“ como você fez sua amiga se sentir?” (o contexto social do comportamento e da
experiência); “você vai lamentá-lo amanhã!” (recordações antecipadas); “uma hora
atrás você mal podia esperar!” (antecipações recordadas); “ você não quer ser uma
menina crescida?” ; “ não seja um bebê!” (autodefinições como contextos produto­
res de significação). Este impulso visava a fazê-la ver a questão da mesma maneira
que eu, sabendo implicitamente que ela a experienciava de maneira diferente. Sa­
bíamos tudo isso, mas não sabíamos o que sabíamos, nem que o sabíamos. Por essa
razão estávamos confusos.5
A fenomenologia não fomece novas informações de maneira idêntica àquela pela
qual a ciência faz recuar as fronteiras do conhecimento. Sua tarefa é menos dar-nos
novas idéias do que tomar explícitas aquelas idéias, suposições e pressuposições
implícitas com base nas quais sempre nos comportamos e experienciamos a vida.
Sua tarefa é revelar-nos exatamente o que já sabemos e que o sabemos, para que
possamos estar menos confusos sobre nós mesmos. Fosse ela dizer-nos algo que
nao soubéssemos, não nos estaria dizendo qualquer coisa sobre nós mesmos, e
portanto não seria importante.6
CAPÍTULO 2

COMPORTAMENTO E
SER-NO-MUNDO
A partir da análise realizada no Cap. 1, é evidente que a psicologia fenomenoló­
gica procura elucidar nossa experiência. A experiência consciente é uma parte crí­
tica da psicologia de seres humanos.1 Uma maneira de clarificar a experiência é
procurar o que os acontecimentos significam para nós. Ao responder a essa ques­
tão, descobrimos que a experiência consciente tem uma certa estrutura. Na ver­
dade, poderíamos dizer que a “ estruturação” da experiência é a significação da
experiência. Uma experiência carente de estrutura seria uma experiência sem signi­
ficação. A estrutura da experiência é mais ou menos implícita, mas é absolütamente
decisiva quanto às significações que os acontecimentos têm para nós. Ou falando de
maneira mais acurada, já que significação é estrutura, devemos dizer que a signifi­
cação está mais ou menos implícita na experiência. A psicologia fenomenológica
procura articular explicitamente a estrutura e a significação implícitas da experiên­
cia humana.
A fim de pôr tal tarefa em prática, devemos descrever a experiência.2 Qualquer
descrição focaliza apenas aquilo que seus termos permitem, e, portanto, a escolha de
termos descritivos é crítica para nossa tarefa. No Cap. 1 foi usada uma série de
termos e relações. Vamos examiná-los primeiro e, em seguida, introduzir outros
termos que podem ajudar a cumprir nossa tarefa. Como podemos descrever a estru­
tura da experiência?
No Cap. l dissemos que os acontecimentos aparecem na experiência contra um
pano de fundo. Os fenomenologistas chamam tal pano de fundo de horizonte.3 Esse
pano de fundo, ou horizonte, não é, em geral, o foco de nossa atenção, embora seja
claramente decisivo quanto àquilo que as coisas significam para nós. Minha filha
não teria esperado o telefonema da amiga tão impacientemente se ele já não tivesse
adquirido alguma significação. A significação que tinha estava baseada na antecipa­
ção dela de um pernoite agradável. Estamos, por conseguinte, dizendo que as ante­
cipações podem (sempre?) fornecer significação como pano de fundo ou horizonte.
Também as recordações podem ser vistas (sempre?) como um horizonte que dá
significação a eventos correntes, como quando chegamos a entender a segunda
parte da noite de minha filha. Além disso, todo horizonte tem um horizonte; isto é,
um horizonte significa o que significa apenas em virtude do pano de fundo contra o
qual aparece. A antecipação por minha filha de um pernoite agradável foi uma ante­
cipação de diversão somente porque ela possuía recordações de momentos de di­
versão com a amiga, recordações que forneceram alguma significação a sua anteci­
pação.
16
COMPORTAMENTO E SER-NO-MUNDO 17
Quando prestamos atenção a nossa experiência diária, percebemos que algumas
vezes ela tem um foco muito nítido, como ocorre quando estamos lendo um livro.
Há outros momentos de divagação não disciplinada, em que captamos negligente­
mente isto e aquilo no ambiente auditivo e visual, e em seguida passeamos por
recordações e antecipações — aparentemente de modo aleatório. A maior parte de
nossa experiência situa-se em algum lugar entre esses dois extremos. Qualquer que
seja o grau de focalização, nosso experienciar é um processo de dar significação a
acontecimentos — às vezes acontecimentos do ambiente, às vezes de nossas pró­
prias mentes. Se pudermos compreender como isso acontece, poderemos colocar
em ordem os acontecimentos aparentemente aleatórios da consciência. Na verdade,
a experiência é ordenada, mas a estrutura e a ordem da experiência são difíceis de
descrever. No trabalho descritivo que fizemos anteriormente, usamos o termo pano
de fundo ou horizonte, e dissemos que há pelo menos duas espécies de horizonte: o
temporal e o espacial. Existem certamente outros, e a totalidade deles opera simul­
taneamente. Os acontecimentos sempre significam muitas coisas ao mesmo tempo
para nós, tal como a visita de minha filha à casa da amiga significou um pernoite
agradável, uma recapitulação de experiências prévias de diversão, uma obediência
às atrações e repulsões do espaço ambiental, e o ser uma “ menina crescida” que
poderia fazer planos e levá-los a cabo tal como seus pais — para mencionar apenas
algumas.
Como estão relacionados uns com os outros os vários horizontes, as diversas
significações de nossa experiência? No Cap. 1 a estruturação temporal da experiên­
cia parecia existir lado a lado com a espacial. Além disso, um horizonte espacial
que emergia das atrações e repulsões do ambiente parecia existir lado a lado com o
horizonte espacial estruturado por contratos, obrigações, expectativas interpes­
soais, e assim por diante. Finalmente, havia o horizonte que refletia como minha
filha compreendia a si mesma como uma pessoa: primeiramente como uma jovem
versão de adultos que fazem planos e os põem em prática, e posteriormente como
uma menina satisfeita por ser criança.
Todas essas significações estão organizadas de alguma maneira. Qual é o princí­
pio dessa organização? Qual é a estrutura global da experiência? Podemos colocar a
questão de outra forma, perguntando quais são as relações entre os horizontes. Se
todo horizonte tem um horizonte, onde termina tudo isto? Qual é o horizonte último
do ser humano, contra o qual todos os outros estão organizados, e em cujo contexto
todos os acontecimentos fazem sentido para nós?4 Os filósofos de linha fenomeno-
lógica escreveram freqüentemente sobre o solo de significação. Presumivelmente,
se estivesse claro o solo de significação, o princípio de organização dos horizontes
seria mais fácil de apreender.
Ao tentar descrever a estrutura global da experiência devemos prestar atenção
na própria experiência. Como parece ser a experiência em si mesma? Quando me
sento à escrivaninha, o espaço à minha frente está cheio de objetos familiares. O
aposento se expande à minha frente de modo ordenado. Isto é, o livro sobre a
escrivaninha é o livro que tenho tentado entender há dois dias. Jaz ali, cheio de
significações para mim — tais como a recordação de seu conteúdo, o sentido que
possuo de onde ele se situa em relação ao meu próprio trabalho, e o sentido de mim
mesmo como tendo um trabalho, parte do qual é entender o livro. Outros livros se
33X1 “a parede. Têm um lugar no aposento e este tem um lugar em minha vida.
o ografias de meus filhos estão situadas sobre minha escrivaninha. São meus fi­
os, e eu, o pai deles. O fato de conhecê-los toma suas fotos parte de uma expe-
nencia significativa do aposento. Lembro-me de quando eram menores e antecipo o
a em que serão mais velhos. Esses horizontes temporais se fundem com o hori­
18 INTRODUÇÃO

zonte espacial do tampo da escrivaninha no qual se situam para formar um todo


significativo. Alguns lápis, com os quais antecipo escrever Sobre o livro que deverei
ler, dispõem-se temporal e espacialmente à minha frente. A experiência inteira é um
todo ordenado, cujos horizontes temporal e espacial são aspectos analiticamente
diferenciáveis. A experiência conforme vivida absorve todos os horizontes que dis­
cutimos na unidade de meu ser-em-meu-escritório.5 Nos diagramas de horizontes,
isolamos analiticamente alguns para exame. A experiência vivida sintetiza6 todos
na minha presença concreta no aposento e na presença dele para mim.
Tal experiência vivida deve ser nosso guia na compreensão de outras pessoas e
daquilo que as coisas significam para elas. Embora possamos analiticamente isolar
horizontes e diagramá-los em camadas, todas as camadas estavam integradas, por
exemplo, na experiência de minha filha do interior de sua casa durante a primeira
parte da noite. O aposento se expandia à frente dela então, conforme se expande à
minha frente agora. Significou tudo aquilo que dissemos que significou, mas não
apareceu à maneira de camadas ou diagramas e sim como o interior de sua própria
casa. A experiência é criativa; sintetizou todos os horizontes que mencionamos,
mais a presença objetiva de mesas, cadeiras, telefones e pessoas, num campo signi­
ficativo estendido à frente de minha filha, dentro do qual ela se moveu de acordo
com o propósito ou a intenção que tinha dentro do campo. Um campo é um espaço
perceptual, imediatamente presente, sempre significativo, com camadas de signifi­
cação, que integra horizontes múltiplos em um momento presente coerente de ser-
em-um-campo.
Mas devemos procurar um pouco além por horizontes mais básicos se desejar­
mos perceber por que o ser-em-um-campo de minha filha foi o que foi naquela
noite. Descobrimos que a noção implícita que tinha de si mesma foi um horizonte
mais fundamental do que suas recordações e antecipações específicas. Tal hori­
zonte forneceu às antecipações e recordações as significações delas. Ele foi, com
certeza, um horizonte mais implícito, no qual ela, por si mesma, não pensaria. Do
mesmo modo, para mim, uma camada de significação ao escrever estas frases é o
sentido implícito de quem sou eu e de onde estou situado em minha história de vida.
Escrever estas frases não significaria a mesma coisa que significa para mim se eu
me compreendesse como um adolescente ou como um advogado. Podemos dizer
que somos capazes de Compreender o que algo significa para alguém somente se
podemos perceber o entendimento implícito da pessoa quanto a quem é ela, enten­
dimento que é um horizonte crítico contra o qual os acontecimentos aparecem a
essa pessoa e recebem suas significações.
Portanto, o horizonte ao qual minha filha pensa pertencer também deu sua signi­
ficação à experiência dela do seu próprio campo. Quando pensamos a respeito dos
campos dentro dos quais nosso comportamento ocorre e para os quais está direcio­
nado, notamos que a vida diária é uma seqüência de campos contemporâneos. Nós
nos movemos de aposento para aposento, do interior para o exterior, de um grupo
de pessoas a outro, deste à situação de estarmos sozinhos. Esses campos são espa­
ciais, mas seus espaços estão organizados em nossa experiência parcialmente de
acordo com quem pensamos ser. Se sou um professor e passeio no grêmio estudan­
til de uma universidade, minha percepção do interior desse prédio, especialmente
quanto a seu aspecto interpessoal e social, é influenciada pelo meu entendimento de :
mim mesmo como sendo um professor. Se você é um estudante e passeia no gabi-
nete de um professor, para você o espaço do gabinete estará estruturado de maneira
diferente do modo como está para ele. Atrás da escrivaninha está o lugar dele; j
outras cadeiras são para você. A fisionomia do ambiente desse aposento produz
COMPORTAMENTO E SER-NO-MUNDO 19

atrações e repulsões definidas. Parece inoportuno sentar na cadeira dele; se ele está
censurando você, a porta de saída atrai. Você pode sentir a atração fisicamente.

MUNDO

O fato de ser quem se pensa ser num campo deve receber esclarecimentos adi­
cionais. A Fig. 5 do Cap. 1 mapeia geograficamente o campo de minha filha; as
Figs. 3 e 4 mapeiam o aspecto interpessoal dos campos, e podemos ainda descrever
o senso que minha filha tem de si mesma como uma menina pequena que esta
crescendo, como uma espécie de campo temporal. Tais campos são horizontes, mas
estão também organizados de alguma maneira na experiência. Não nos tomamos
pessoas totalmente diferentes quando nos movemos de um ambiente para outro, de
um contexto interpessoal para outro ou de um entendimento de nós próprios como
pessoas em crescimento para outro. Um horizonte mais básico do que qualquer
campo particular é este nível mais elevado de organização dos campos em um
mundo. Ou melhor, o mundo é onde somos de maneira mais fundamental. Minha
orientação para o mundo é o horizonte mais básico do qual derivo significações
para minha experiência. Quem sou eu no mundo determina quais campos serão
relevantes, o que significarão para mim e como influenciarão as significações dos
acontecimentos em minha experiência.7
Minha orientação para o mundo está implícita em minha experiência, assim
como outros horizontes, e ainda mais do que eles. Embora seja o horizonte mais
básico de minha vida, raramente é posto em questão, focalizado ou descrito.
Quem-eu-sou-no-mundo é a gigantesca pressuposição sobre a qual repouso, no sen­
tido de que minha experiência seja de alguma maneira significativa para mim.8
Mesmo quando questiono quem sou eu no mundo, ainda sustento a identidade de
uma pessoa-no-mundo que está procurando o próprio lugar. O mundo está sempre
aí; se fosse embora de alguma maneira, a experiência naufragaria numa desordem
sem significação e se tomaria caótica. Isso raramente acontece à maioria de nós.9
Voltemos ao episódio ocorrido com minha filha e vejamos como a noção de
mundo nos pode levar mais longe na compreensão do mesmo. Ao final do Cap. i
pudemos perceber que todas as significações inerentes a suas antecipações e recor­
dações e a seus campos espaciais estavam baseadas numa autocompreensão implí­
cita dela mesma como uma menina pequena que estava crescendo. A primeira parte
da noite, na qual ela estava cheia de antecipação de divertimento, foi também uma
determinação de crescimento segundo a maneira pela qual ela entendia isso. A se­
gunda parte da noite, na qual estava cheia de recordações de casa, foi uma determi­
nação de ser uma menina pequena.10 Ambas essas determinações foram postas em
funcionamento num contexto mais amplo, e ainda mais implícito, de sua auto­
compreensão como nossa filha, amiga de sua amiga, residente em uma casa, visi­
tante em outra, irmã de seu irmão, filha do vizinho de seus vizinhos e assim por
diante. Ou melhor, seus pais, sua amiga, sua casa, a outra casa, seus irmãos, os
vizinhos — todos esses elementos são parte de seu mundo. Esses elementos con-
textuais formam um todo, um padrão de coerência, dentro do qual os acontecimen­
tos são inteligíveis para ela. Todas as significações que pudemos perceber significa­
ram o que significaram para ela porque já se entendia como ser-no-mundo. A sacola
que arrumou, os aposentos que viu, os caminhos que atravessou, as pessoas com
^UH*m ^fteve ^oram todos acontecimentos significativos porque ela é mentalmente
s ia, humana e está de posse de uma compreensão de si própria como ser-no-
n o. O ser-no-mundo é o contexto ou horizonte final e mais amplo do qual ela
20 INTRODUÇÃO

depende; compreender suas percepções e ações no contexto de ser-no-mundo é


compreender o episódio em seu sentido mais básico, humano e vital.
Se recebo um livro e desejo entender o que está acontecendo em minha percep­
ção, devo olhar para essa percepção e tentar compreender as significações inerentes
a ela. Não percebo cor, forma e assim por diante numa desordem sem significação.
Experiencio o livro que descansa sobre a mesa a um metro de distância, ao meu
alcance e “ chamando-me” a abri-lo, o que é possível porque minhas mãos estão
livres e estou confortavelmente instalado numa cadeira, situada em frente à escri­
vaninha, ao lado da janela, no andar de cima de minha casa, um quarteirão abaixo
do meu local de trabalho e assim por diante. Todos esses aspectos são relevantes, e
mesmo realmente essenciais para a percepção do livro. Não poderia percebê-lo num
espaço vazio, divorciado de mim mesmo e de meus propósitos — de meu ser-no-
mundo. Todo esses elementos são aspectos do horizonte do mundo, e é na verdade
impensável para mim o fato de ter uma experiência consciente do livro sem ter
também um mundo em que o situar, dentro do qual ele seja um acontecimento
significativo. Embora eu o construa, a estrutura de meu mundo particular, minhas
tarefas e propósitos são necessários para que de algum modo haja um livro. Não há
livro sem-mundo. De maneira similar, quando minha filha erigiu seu mundo na fei­
tura de planos, o pijama e a escova de cabelo apareceram em seu campo perceptual.
Não estavam “ apenas lá” ; ao contrário, eram parte de seu mundo de antecipação
conforme o tinha estruturado no tempo. Tinham significação. Não há também pi­
jama sem-mundo.
Devemos compreender minha filha, suas percepções e suas ações nesse sentido
porque ela compreende a si mesma nesse sentido. Na verdade, experienciar um
acontecimento em alguma relação com o mundo que conhecemos é o que geral­
mente queremos dizer, de alguma maneira, quando falamos em “ compreensão” . É
claro que a compreensão de minha filha é, para ela, implícita. Podemos fazê-la
explícita para nós e dizer que realmente a compreendemos, mas nós mesmos já a
compreendíamos implicitamente antes de começar a análise. Já sabíamos algo do
que estava acontecendo logo que ouvimos a estória pela primeira vez. Compreen­
demos seu desejo de visitar, seu desejo de voltar, porque também nós, como minha
filha, temos um senso implícito de ser-no-mundo. Porém ao tomar explícita a com­
preensão que estava implícita, libertamo-nos de uma sensação de confusão, despra-
zer ou o que mais possa ter motivado nossa exploração.

COMPORTAMENTO
Se compreendemos o mundo como um horizonte fundamental e entendemos
que minha filha compreende a si mesma como ser-no-mundo, que podemos dizer
agora sobre seu comportamento? Tanto as percepções como as ações dela foram
expressões de seu ser-no-mundo.11 Compreendê-la desta maneira é compreendê-la
naqueles modos em que ela é essencialmente semelhante a qualquer outra pessoa.
Todas as pessoas têm um ser-no-mundo. Para compreender minha filha em sua
particularidade, devemos compreender seu mundo singular e como ela está nele de
modo singular. Como podemos entender seu mundo singular? O mundo é um com­
plexo de significações inter-relacionadas para minha filha, para mim e para todos
nós. Especificar, como nos propomos a fazer, alguns dos horizontes que tomaram
os acontecimentos significativos para ela e algumas das formas nas quais ela cons­
truiu seu campo no tempo, é começar a pintar um retrato de seu mundo singular. O
mundo no qual nós mesmos nos achamos é sempre significativo, e interpretar nos­
COMPORTAMENTO E SER-NO-MUNDO 21

sas percepções e ações como expressões de nosso ser-no-mundo é compreender


percepções e ações conforme elas são — em seu estado permanentemente significa­
tivo.
Em meio à rica complexidade do comportamento, especialmente do comporta­
mento humano, a tarefa da compreensão é monumental. De fato parece impra­
ticável até o momento em que nos damos conta de que, mesmo sem disciplina e
treino, o mais ingênuo de nós já compreende em grande medida. Incontáveis com­
portamentos são por mim observados a cada minuto em que estou com pessoas, e
esses comportamentos são imediatamente inteligíveis para mim. Sentir que não
compreendo é um fato suficientemente raro para provocar uma atitude consciente
de tentativa de solução de problemas, uma intenção de fazer-me retornar à com­
preensão.

Quando iniciamos nossa análise, tanto compreendíamos como não. Compreen­


díamos que minha filha é um ser-no-mundo particular (embora não a tivéssemos
chamado assim) — isto é, compreendíamos que ela compartilha conosco um am­
biente comum e o interpreta de modo semelhante a nós mesmos. Sabíamos que
aqueles acontecimentos significavam algo para ela — embora não estivéssemos exa­
tamente seguros quanto àquilo que então significavam. Sabíamos que ela organiza
suas percepções do momento num campo perceptual com muitas significações —
embora não estivéssemos seguros a respeito de como suas percepções estavam or­
ganizadas. Sabíamos que ela organiza tais significações numa definição coerente de
si própria enquanto alguma parte do mundo — embora não estivéssemos exata­
mente certos a respeito de como precisamente tudo isso parecia a ela, ou pelo
menos não pensávamos nisto explicitamente. Sabíamos, em geral, que ela é uma
pessoa, e compartilha conosco todas essas coisas porque todas as pessoas o fazem.
É nisto que as pessoas são semelhantes. Sabíamos que ela é um ser-no-mundo.

Mas estávamos também confusos em função de seu comportamento específico.


Mesmo eu estava um pouco surpreso. Não sabia exatamente como ela interpretava
os acontecimentos, caso contrário não teria ficado intrigado. A investigação do
Cap. 1 visava a aguçar a precisão de nossa compreensão já existente. Intencionava
tomar as expressões comportamentais de seu ser-no-mundo e compreendê-las em
termos de seu ser-no-mundo particular, e compreender seu ser-no-mundo particular
em termos de suas expressões.
Quando estamos compreendendo outras pessoas, aquilo que compreendemos é
seu ser-no-mundo. Ver o comportamento alheio de alguma outra maneira é dar-lhe
uma significação que ele não possui. Vê-lo no contexto errado é compreender mal.
Se aceno em sua direção chamando-o e você me compreende como fazendo um
gesto de deboche, verá meu gesto como sendo de deboche e me compreenderá mal.
Se espera que eu acene para você chamando-o e eu realmente faço um gesto de
deboche, então verá o movimento como sendo de chamada ou ficará surpreendido.
Se isto ocorrer, não será pelos próprios movimentos musculares, mas em razão de
sua significação, que é levada em conta em termos de meu ser-no-mundo. Isto é,
terá de modificar sua noção de como você se situa em meu mundo. Neste nível,
terá aprendido algo. De modo similar, porque eu esperava que minha filha apre­
ciasse uma noite agradável, fui surpreendido por seu comportamento. Aprendi al­
guma coisa e aprendi porque pude ver seu comportamento em termos da significa­
ção do mesmo. O que aprendi foi algo acerca da forma pela qual ela estrutura o
Próprio mundo — acerca de como ela está-no-mundo.
22 INTRODUÇÃO
COMPORTAMENTO INCONSCIENTE
Algumas vezes meu próprio comportamento me surpreende. Ocasionalmente o
campo operante que ele expressa é diferente da maneira pela qual me represento,
pela qual represento meu ser-no-mundo para mim mesmo. Ocorre com maior ou
menor freqüência que aquilo que estamos fazendo e aquilo que pensamos estar
fazendo sejam diferentes. O paciente histérico que vomita qualquer comida prepa­
rada por sua mãe, embora não o faça com a comida preparada por qualquer outra
pessoa, pode não saber que está expressando algo acerca do campo relativo à pró­
pria. Na verdade sua intenção consciente pode ser amar totalmente a mãe; ofendê-
la pode ser a última coisa que deseja. O menino pré-adolescente que molha a cama
pode estar bem pouco ciente do campo operante dentro do qual esse comporta­
mento é inteligível, e ele e o urologista podem concordar com o fato de que haja
algo errado com seu aparelho urinário. Dado que tal comportamento “ incons­
ciente” é onipresente, a experiência para a qual devemos apelar a fim de
compreendê-lo pode facilmente não ser aquela do nível mais superficial de idéias
altamente articuladas que possuímos a respeito de nós mesmos. Na verdade, a ex­
periência é matizada, com muitos horizontes operando simultaneamente. Nossa re­
presentação verbal ou explícita pode ser algo inexata ou grosseiramente enganosa;
não obstante, o campo implícito, mas operante, controlará nossas percepções e
ações.12
O comportamento de minha filha provavelmente a surpreendeu — embora ela se
recordasse fracamente de suas antecipações enternecedoras depòis que mudou de
idéia. No episódio vemos uma seqüência de campos, em lugar da presença simultâ­
nea de dois campos opostos, conforme ocorre na situação do menino que vomita a
comida preparada pela mãe (amor pela mãe/òdio pela mãe). Suponha que minha
filha fosse mais velha, recordasse suas antecipações, necessitasse sair-se a contento
no contrato interpessoal e fizesse um grande investimento em sua identidade en­
quanto “ em crescimento” — mesmo que ainda houvesse a irresistível urgência de
voltar para casa naquela noite. Também ela teria achado necessário “ ficar doente”
(desenvolver vômitos, dor de estômago ou algo dessa ordem) a fim de ir para casa.
Tal manobra, comum em pessoas mais velhas, teria facultado a ela mesma e aos
outros o reconhecimento de sua representação “ oficial” de si mesma, permitindo-
lhe simultaneamente expressar seu ser-no-mundo como ele realmente era.13

QUE É FAZER PSICOLOGIA FENOMENOLOGICAMENTE


Vamos resumir o que dissemos a respeito do comportamento. Afirmamos que o
comportamento é uma expressão do ser-no-mundo. Com isto quisemos dizer que o
modo como cada um está-no-mundo controla o seu comportamento, que o ser-
no-mundo é aquilo que é revelado no comportamento, que aquilo que compreende­
mos quando entendemos o comportamento é o ser-no-mundo que ele expressa, e
que é apenas no contexto do ser-no-mundo que o comportamento é inteligível para
nós. Essas quatro proposições descrevem alguma coisa da abordagem global da
psicologia fenomenológica.
Nossa análise do episódio ocorrido com minha filha é uma tentativa de especifi­
car a estrutura de seu ser-no-mundo. O comportamento que observamos nos outros
é sempre interpretado de algum modo por nós. Interpretando-o em termos do ser-
no-mundo de uma pessoa, adquirmos uma compreensão melhor — ou ao menos
diferente — em relação às interpretações usadas por outras espécies populares de
psicologia, lnterpretando-o fenomenologicamente estamos expandindo, ao torná-lo
COMPORTAMENTO E SER-NO-MUNDO 23
explícito, o que já fazemos na experiência diária. Estamos usando nossas interpre­
tações espontâneas de forma mais disciplinada.
Que instrumental interpretativo adicional adquirimos ao longo do percurso? Uma
análise fenomenológica de qualquer segmento de comportamento pode ser realizada
por qualquer pessoa que esteja desejando tentar compreender. Podemos perguntar,
em primeiro lugar, pela estrutura da experiência do tempo do indivíduo. O pano de
fundo imediato daquilo que os eventos significam para ele são as antecipações ou as
recordações? Está ele, em seu comportamento, vivendo primariamente no futuro ou
no passado? Seja qual for o pano de fundo imediato, possui uma significação para o
indivíduo em função de horizontes adicionais de natureza temporal — recordações
e antecipações. Entender esses horizontes e a maneira como estão inter-relaciona-
dos é uma parte essencial da compreensão do comportamento de alguém.
Podemos perguntar, em segundo lugar, sobre as atrações e repulsões fisionômi­
cas do ambiente imediato do indivíduo. Como é seu campo perceptual e comporta-
mental, dentro do qual suas ações estão orientadas, estruturadas? Onde estão as
atrações e repulsões? Em termos do espaço comportamental concreto de uma ação
particular, tal pergunta fornece apenas uma descrição do comportamento. Mas o
comportamento se torna revelador naquilo que o movimento físico expressa. Tam­
bém temos de formular o que está sendo expresso e este empreendimento nos en­
gaja numa investigação relativa a quem o indivíduo pensa que é dentro desse
campo, quanto o campo concreto tem de influência sobre quem ele pensa que é e
quanto quem ele pensa que é influencia a aparência do campo concreto.
O mapeamento espacial do campo comportamental não é, na verdade, indepen­
dente de nossa primeira indagação quanto à experiência do indivíduo relativa ao
tempo. Seu espaço comportamental será interpretado em termos de uma antecipa­
ção de um lugar futuro nesse espaço, de uma recordação de um lugar passado, ou
de ambas. Ou seu comportamento pode estar visando a uma reestruturação do es­
paço: o indivíduo pode mover fisicamente as coisas de um lado para outro, er­
guendo barreiras e abrindo canais de comunicação visuais ou auditivos com outros
elementos nesse espaço.
Também podemos usar a noção de um campo comportamental de modo menos
concreto e mais metafórico. Minha filha pode ter desejado mo ver-se “ para mais
perto” de sua amiga não apenas fisicamente como ainda emocionalmente. O fato de
se mover para perto da amiga fisicamente pode ter sido uma maneira de mover-se
emocionalmente em direção a sua mãe — se, por exemplo, esta a tivesse levado a
crer que ela (mãe) a amaria mais, se ela (filha) fosse passar toda a noite com a
amiga.
Pensar espacialmente, portanto, também não é independente de uma terceira via
de questionamento: acerca de contratos interpessoais, acordos, conflitos, desejos
de ajudar ou ser ajudado e de ferir ou ser ferido por outros. Podemos perceber com
maior clareza estes horizontes em nosso próprio comportamento, mas se prestar­
mos atenção também o veremos no comportamento de outrem. Vemos tais horizon­
tes automática e implicitamente, é claro; é de grande utilidade na compreensão do
propno comportamento e na do de outrem dispor de alguns conceitos que sejam
capazes de atrair estes horizontes implícitos para um foco explícito. Explicaremos
detalhadamente alguns desses conceitos no Cap. 9. No momento, limitar-nos-emos
a listar algumas perguntas que devemos propor. Em direção a quem o comporta­
mento em questão está orientado? Freqüentemente uma ação executada na pre­
sença de diversas outras pessoas combina uma série de mensagens de uma só vez.
omo o comportamento expressa uma modificação ou solidifica o status quo de
acordos já existentes entre as pessoas? Mesmo entre estranhos num elevador já
24 INTRODUÇÃO

existe sempre algum acordo, sobre o que certo comportamento significará e sobre a
maneira como certas ações confirmarão o anonimato já existente, enquanto certas
outras o modificarão criando simpatia, atração sexual, competição e assim porj
diante.
Tendo perguntado sobre os horizontes temporais, espaciais e interpessoais que
controlam as percepções e ações de uma pessoa particular numa situação particu-.
lar, fizemos já alguns julgamentos interpretativos a respeito do como esse indivíduo
vê o mundo e o seu lugar nele. Teremos necessitado supor uma série de coisas a
respeito de seu ser-no-mundo. Quanto melhor o conhecemos, menos temos de pres­
supor e mais podemos dizer que “ sabemos” . Todas as nossas interpretações resul­
tarão num padrão que é uma variante singular de nossa compreensão já existente
daquilo em que consiste o fato de ser uma pessoa. A finalidade de nossa análise é
perceber esse padrão tão claramente quanto possível. O comportamento do indiví­
duo é nosso dado; sua significação, nossa busca. Seu padrão é para nós inteligível
se e somente se estamos capacitados a reunir tudo no conjunto coerente de seu
ser-no-mundo. O comportamento nos diz como o indivíduo vive em seu mundo.
Revela-nos a estrutura de seu mundo na própria experiência dele. Toma público o
que é teoricamente privado: sua experiência. Expressa essa rede de significações
que o mundo é para ele. Já é inteligível em certa extensão; uma análise fenomeno­
lógica pode tomá-lo mais inteligível.
Em síntese, para compreender um segmento de comportamento, em primeiro
lugar devemos ver esse comportamento no contexto do campo perceptual imediato
da pessoa. Podemos analisar esse campo descrevendo uma série de horizontes que
esta experiência do campo sintetiza. Em segundo lugar devemos ver esse campo
no contexto do mundo da pessoa: como ela o constrói e qual o seu lugar nele.
Quanto mais dados tivermos, mais pessoal se poderá tornar nossa compreensão do
indivíduo — em maior grau o poderemos conhecer em sua singularidade. Final­
mente, esse processo de compreensão é uma articulação do que já compreendemos
implicitamente. O comportamento pessoal do indivíduo, nos fala, e nós o com­
preendemos como uma fala sua — como uma expressão de seu ser-no-mundo. O
objetivo da psicologia fenomenológica é abrir à nossa compreensão tantas camadas
dessa expressão quantas pudermos.
PARTE
n
MÉTODO
capítulo 3

COMPREENSÃO
E COMUNICAÇÃO
Ao considerar a metodologia da investigação psicológica, o fato singular mais
importante é que tanto nós, os investigadores, como aqueles que investigamos
somos seres-no-mundo. Somos* experienciadores que dão e recebem significação.
Os processos e estruturas que investigamos na experiência alheia são essencial­
mente os mesmos processos e estruturas que constituem a própria investigação.1
Aspiramos a compreender algo, o que significa que visamos a tomar sua significa­
ção evidente para nós. Depois de compreender algo, procuramos comunicar aos
outros o que compreendemos. Essa é a essência da ciência em seu sentido mais
amplo.
O problema metodológico é: Como podemos fazer com que um acontecimento
se revele em sua significação constituída de múltiplas camadas?2 A fim de revelar as
inúmeras significações de um acontecimento, devemos chegar a perceber clara­
mente as experiências dos participantes, cujas intenções e percepções são as signi­
ficações dos eventos. Neste caso, compreendemos. Uma vez que o acontecimento
e sua significação sejam entendidos, desejamos tomá-los claros para alguém mais.
Devemos ser capazes, por conseguinte, de expor nossa experiência de forma que
possa ser claramente percebida por esse alguém. Em ambos os passos deste pro­
cesso, a mesma tarefa se apresenta. Na compreensão quero recriar a experiência de
minha filha na minha própria experiência, e na comunicação desejo que você recrie
minha experiência (da experiência dela) na sua experiência. Como podemos atingir
uma comunicação sistemática e rigorosa?
Sabemos que este processo não é impossível, já que diariamente compreende­
mos outras pessoas e nos comunicamos com elas de modo a sermos entendidos. O
difícil é sermos sistemáticos e rigorosos, superar a não compreensão e a ausência
de comunicação, corrigir os mal-entendidos e a comunicação equívoca. Mesmo
sendo a ciência uma extensão dos processos mais naturais do homem, não basta à
psicologia abarcar apenas o experienciar comum. O experienciar usual é um acon­
tecimento miraculoso, e devemos ter nele nossos fundamentos, mas está também
sujeito ao erro, à mentalidade estreita, à tendenciosidade e aos preconceitos. A
psicologia fenomenológica não é apenas o uso do senso comum, é um refinamento
deste, e aspira à abertura onde o senso comum é fechado, ao discernimento daquilo
que o senso comum não atinge e à clareza onde o senso comum é confuso. Entre­
tanto, estamos certamente aferrados à experiência, tal como no uso do senso co­
mum, na qualidade de fonte original e final de nossa compreensão.
27
28 MÉTODO

Quando vejo minha vizinha, a Sra. Smith, dirigir-se raivosamente a outra pessoa,
não necessito descobrir que ela está irritada por procedimento metódico. Sei disto
imediatamente.3 Posteriormente, ao observar, prestar atenção e fazer perguntas à
Sra. Smith, posso descobrir alguma coisa acerca do motivo por que está zangada.
Ela me diz seu ponto de vista, como o mundo lhe parece e de que modo a pessoa a
quem se dirigiu raivosamente aparecera dentro desse mundo. Também esta narra­
tiva não requer intervenção metodológica; acontece espontaneamente e o rigor é a
única coisa que a metodologia pode acrescentar. Um conhecimento prolongado com
a Sra. Smith tomar-me-ia inclusive capaz de compreender como o esquema de
mundo que engendrou sua raiva chegou a ser conforme é.
Ao comunicar a você o que compreendo a respeito da Sra. Smith, falo-lhe dela
da mesma maneira como qualquer um de nós falaria a uma outra pessoa de uma
terceira: como ela se comporta, o que pensa e sente e como vê o mundo. Quanto
mais sistemáticas e detalhadas forem as observações dela para mim e as minhas
para você, menos deveremos preencher lacunas com adivinhações, inferências e
generalizações, sejam nossas ou de outras pessoas.
Há muitos indícios metodológicos importantes nesta descrição. Primeiramente,
enquanto investigador, tenho de aprender como ajudá-la a falar e devo aprender
como ouvir. A recriação da experiência dela na minha ocorre quando ela faia e eu
escuto. Em segundo lugar, na qualidade de comunicador, tenho de aprender como
falar e como ajudar você a ouvir. A recriação da minha experiência na sua ocorre
quando falo (ou escrevo) e você escuta (ou lê). Todos estes processos são elementa­
res, são o estofo de nossa compreensão habitual uns dos outros do modo como a
atingimos na vida diária com maior ou menor sucesso. Mas estes processos podem
ser realizados bem ou mal, sistemática ou casualmente, com rigor ou de forma
tendenciosa.
Quando digo que sei algo sobre a Sra. Smith, isto significa que ela está presente
em meu campo de consciência. Quando digo que a conheço, estou afirmando que
minha relação com ela está estruturada de acordo com certos padrões socialmente
d.efinidos como conhecimento, que são diferentes de padrões tais como medo, amor
e ignorância. No entanto, todos estes padrões são aspectos de meu ser-no-mundo.
Aquilo a que em geral chamamos de conhecimento é uma parte bastante especiali­
zada de meu ser-no-mundo. Ocorre dentro do contexto mais amplo de minha rela­
ção total com minha vizinha, relação que por sua vez ocorre dentro do contexto
mais amplo do meu e do nosso ser-no-mundo.4
Visto que meu conhecimento da Sra. Smith tem um contexto especial e único,
não posso comunicar a você o que sei sem expor, também, outros contextos — meu
ser-no-mundo, meu campo e minha relação total com ela. Divorciar o que sei de
seus contextos empobreceria tal conhecimento e o tomaria falso. Produziria uma
comunicação errônea e conduziria a uma má compreensão. A fim de evitar a comu­
nicação errônea, eu teria de deixar que você conhecesse também meu afeto, medo
ou simpatia quanto a ela. Neste caso, o que eu dissesse a respeito da Sra. Smith
seria mais compreensível para você. Quando falamos com alguém sobre uma ter­
ceira pessoa, invariavelmente fazemos isto de maneiras sutis: usando figuras de
linguagens, tons de voz, gestos e posturas. Escrever para que você leia nunca é tão
completamente comunicativo como falar-lhe diretamente. Não é impossível manejar
este conteúdo contextual, mas ele é, em geral, razoavelmente casual e não explici­
tado. Constitui, também, o estofo dé nossa compreensão e comunicação usuais e
tem de ser realizado de modo rigoroso.
Abordando esta idéia de outra maneira, meu conhecimento da Sra. Smith reflete
inevitavelmente uma certa perspectiva — a minha. Não posso dizer nada a você
COMPREENSÃO E COMUNICAÇÃO 29

sobre ela sem, simultaneamente, dizer algo sobre mim mesmo e sobre minha pers­
pectiva. No discurso diário, compreendemos este ponto espontaneamente, embora
de maneira não formalizada. Não há, por exemplo, narração que não seja motivada,
e a motivação é comunicada juntamente com o conteúdo oficial. E inevitável tal
acompanhamento; não há conhecimento isento de perspectiva.
Um dos aspectos verdadeiramente surpreendentes de nossa experiência usual é
o fato de podermos compreender as perspectivas alheias sem qualquer esforço ex­
plícito. Todavia algumas vezes, é claro, também compreendemos mal, em virtude
da perspectiva não ter sido tomada clara pelo locutor ou não ter sido apreendida
pelo ouvinte.5 Portanto, uma parte crítica da compreensão usual e uma parte ainda
mais crítica da psicologia fenomenológica, que visa a aperfeiçoá-la, é ser capaz de
estar atento às perspectivas e de tomá-las claras para os outros. O fato de que você
possa transcender os limites de sua própria perspectiva e compreender a minha é a
base de toda comunicação de conhecimento e compreensão. Quanto mais cada um
de nós o fizer, mais seremos capazes de compreender. Aqueles que não podem
transcender esses limites são tão raros que os colocamos em instituições sob os
rótulos de “ psicopatas” e “ retardados mentais” .
Estivemos falando sobre conversas, narrativas e escuta como se fôssemos limi­
tados à conversação e à expressão verbal. Embora na verdade escutemos o que
uma pessoa diz, também prestamos atenção no que ela não diz, e de algum modo
“ escutamos” seus gestos, posturas e tom de voz.
Embora certamente usemos palavras que expressam o que pretendemos, tam­
bém falamos através do que excluímos, dizendo coisas em certos momentos ao
invés de em outros e através de nossa expressão facial geral. A comunicação se
inicia e é compreendida em muitos níveis ao mesmo tempo. Freqüentemente é útil,
quando queremos descobrir o que algum comportamento significa, perguntar à pes­
soa que se comporta o que ela pretende com seu comportamento. Porém nem
sempre é necessário perguntar para compreender, nem o que a pessoa diz é a única
coisa que compreendemos depois de conversar com ela.
Voltando outra vez ao exemplo do Cap. 1, tenho uma perspectiva da perspectiva
de minha filha quanto a ela mesma e ao mundo. Você tem uma perspectiva de
minha perspectiva da perspectiva de minha filha. Parece que em cada um destes
elos da cadeia alguma coisa se deve perder. Você não compreende o comporta­
mento de minha filha tão bem quanto eu porque não estava lá e não viveu junto com
ela como eu vivi. Não compreendo minha filha tão bem quanto ela compreende a si
própria porque, não importa quanto tempo e esforço eu empregue nesta compreen­
são, não posso ser minha filha, logo nunca apreenderei realmente sua experiência
na minha própria. Este fracasso é sem dúvida um problema: o caráter perspectivo
do conhecimento, uma vez que reconheçamos sua ocorrência inevitável, deve-nos
manter modestos. No entanto, com base no que eu disse, você compreende algo
Sobre minha filha e preenche as lacunas com as idéias usuais que possui sobre como
devem ser as meninas pequenas. E eu compreendo algo da experiência dela daquela
noite, apesar dela ter proferido muito poucas frases no decorrer da mesma.
Preenchi as lacunas com o que cheguei a conhecer sobre ela observando seu cres­
cimento, da posição vantajosa de ser o pai. A mãe, que conversa com ela um pouco
mais do que eu, possui um ponto de vista diferente. E todos nós temos pontos de
vista diferentes do dela. Deste ponto de vista, é assombroso que, afinal de contas,
compreendamos algo sobre minha filha.
Mas não estou encerrado em minha posição; posso ver minha filha do ponto de
Vlsta materno. Você não está trancafiado no seu ponto de vista. Tem uma irmãzinha
e chegou a pensar que tal comportamento em crianças de cinco anos prova que são
30 MÉTODO
garotas mimadas que sempre conseguem o que querem; logo, terá de reformular tal
perspectiva restrita ao ler este livro. Ajusto minha própria perspectiva sabendo o
que pensa minha mulher; minha filha ajusta a dela sabendo o que pensamos todos
nós. Compartilhamos nossas perspectivas distintas e chegamos a ter algo de pers­
pectiva comum, ou, para ser mais preciso, nosso mundo comum se toma cada vez
mais comum e claro quando conversamos uns com os outros.6
Um grande auxílio para ser capaz de compreender é aumentar o número de
pontos de vista que posso adotar. Cada um deles, cada conjunto de idéias preesta-
belecidas sobre como são meninas pequenas, e cada teoria psicológica, atrai alguns
aspectos do acontecimento para o foco e obscurece outros. Um psicólogo de linha
fenomenológica tenta perceber um acontecimento de tantas maneiras diferentes
quanto possível, aspira a tomar explícitas tantas significações diversas quanto pos­
síveis e visa a organizar uma compreensão em tomo do contexto de significação
mais básico: o ser-no-mundo.7
Há três estratégias gerais que podemos adotar como auxílio na tarefa: a redução
fenomenológica, a variação imaginária e a interpretação. Vamos explicá-las em
termos de um exemplo simples. Suponha que você esteja em meio a um grupo de
pessoas saindo de um cinema e ouve a seguinte conversa bem a seu lado:

Rapaz: Gostou do filme?


Moça: Foi bom; gostei.
Rapaz: Isto é ótim o. . . Da última vez que levei uma garota ao cinema ela não
gostou do filme e passei por maus momentos.
Moça: Puxa, isso é ruim à beça.
Rapaz: É mesmo; imagino que ela pensou que eu era um completo idiota para
levá-la àquele filme.
Moça: Não sei. . . Hm m . . . Você pensa assim?
Rapaz: Ela nem mesmo deixou que lhe desse um beijo de boa noite.
Moça: Oh! (Pausa) Sabe de uma coisa? Não gostei do filme.

Talvez a moça seja uma boa fenomenologista, embora provavelmente não muito
rigorosa. À medida que a conversa progride, os comentários do rapaz revelam cada
vez mais plenamente a significação verdadeira da pergunta inicial. Está pergun­
tando ostensivamente se a moça gostou ou não do filme. Enquanto ela entende que
isso é o que ele deseja saber, responde à pergunta inicial em termos de sua signifi­
cação mais óbvia. Porém em seguida presta atenção ao que mais ele diz e descobre
que a primeira pergunta não significa apenas o que pensava a princípio. Estava
realmente indagando se ela gostava ou não dele, tomando-se evidente que a razão
da pergunta não se ligava ao bem-estar dela e sim à questão de ser ele ou não um
idiota a seus olhos. Um momento mais tarde, a moça descobre que a razão pela
quai o rapaz quer saber se ela pensa ser ele um idiota é devido ao desejo real de
perguntar se será afetuosa com ele. À luz da nova informação sobre as várias signi­
ficações que a pergunta inicial possui para ele, ela decide modificar a resposta à
mesma. Está dizendo, no último comentário: “ Não, não sinto carinho por você.”
Ambos estão compreendendo bem mais do que desejam dizer explicitamente.
Para chegar simplesmente a este ponto da análise, tivemos que escutar, prestar
atenção, pensar e interpretar fenomenologicamente. A redução fenomenológica é
um modo de prestar atenção. O fato de ter porventura pensado que o aconteci­
mento mostra o quão facilmente as mulheres mudam de idéia ou como os rapazes
sempre estragam os relacionamentos afetivos por falar demais indica uma perda do
ponto principal. Para identificá-lo, tivemos de pôr de lado o que Edmund Husserl
COMPREENSÃO E COMUNICAÇÃO 31

chamou “ atitude natural” — preconcepções acerca daquilo que o acontecimento


significa__e de nos abrir ao acontecimento tão plenamente quanto possível. A
redução fenomenológica é uma abertura consciente e ativa de nós mesmos ao fe­
nômeno e n q u a n to fenômeno. Dizer que queremos vê-lo enquanto fenômeno é afir­
mar que desejamos divorciá-lo de nossas idéias acerca da mudança de opinião das
mulheres ou do fato dos rapazes falarem demais. Não queremos ver o aconteci­
mento como um exemplo desta ou daquela teoria que possuímos; queremos vê-lo
como um fenômeno por si mesmo, com sua própria significação e estrutura. Qual­
quer pessoa poderia ouvir as palavras que foram ditas; ter prestado atenção nas
significações conforme emergiram eventualmente do acontecimento como um todo
é ter assumido uma atitude de abertura ao.fenômeno em sua significação inerente. É
ter “ colocado entre parênteses” nossas respostas às partes isoladas da conversação
e ter permitido que o acontecimento emergisse como um todo significativo.8
Ter reconhecido o ponto característico do acontecimento também é ter prati­
cado a variação imaginária. Isto é, há muitas maneiras de ver o acontecimento e
tivemos de vê-lo do ponto de vista da moça e do ponto de vista do rapaz, a fim de
atingir, de algum modo, o ponto principal. Cada ponto de vista é um horizonte
possível — o ser-no-mundo dele enquanto orientado para obter algo dela e o ser-
no-mundo dela enquanto chegando a reconhecer esse fato. Não estava inicialmente
claro o que ele estava pretendendo, nem mesmo que ele estava pretendendo alguma
coisa. Poderia estar sugerindo que ficassem para ver o filme novamente ou que
conversassem sobre filmes que ambos tivessem visto — ou mesmo preenchendo o
tempo vago com um bate-papo a fim de evitar um silêncio embaraçoso enquanto
aguardavam para sair do cinema. Todas essas possibilidades refletem maneiras de
prestar atenção; em nossa imaginação podemos fazer variar os diferentes horizontes
até que “ o ponto” se tome claro. É mesmo possível que um ou ambos os membros
do casal estivessem operando num espaço que incluísse você — que eles quisessem
que você escutasse. Alguns desses horizontes são reveladores, outros não. A varia­
ção imaginária consiste em imaginar a aparência do fenômeno contra o pano de
fundo de horizontes variados na tentativa de apreender o que significa o fenômeno
total.
Nossa análise conduziu à conclusão de que o ponto principal envolvia um mo­
tivo de sedução do adolescente. Tal conclusão é uma interpretação: Uma interpre­
tação é uma articulação de significações conforme emergem no fenômeno quando
considerado como um fenômeno. Ela é de tão boa qualidade quanto o são as signifi­
cações disponíveis para o intérprete enquanto experiencia o fenômeno. Cada teoria
psicológica é um esquema interpretativo: um conjunto de conceitos usados pelos
observadores a fim de tomar inteligível o que observam. Algumas teorias são mais
ricas em possibilidades interpretativas do que outras, más nenhuma teoria é isenta
de limitações. Ao ver um fenômeno de uma maneira, impedimo-nos de vê-lo de
outra forma.9
O que distingue uma interpretação fenomenológica são suas suposições, assim
como seus procedimentos. Em primeiro lugar, supomos que quando as pessoas
agem ou são influenciadas, já experienciam a ação como sendo significativa. Inde­
pendentemente do que possamos pensar sobre o acontecimento, estamos obrigados,
numa análise fenomenológica, a descrevê-lo em termos de suas significações para
os Participantes. Deve haver, portanto, alguma maneira de lidar simultaneamente
com significações múltiplas, ou camadas de significação. Nos Caps. 7-9 descreve­
remos três camadas de significação que estão sempre presentes em todo aconteci­
mento que envolva pessoas.
32 MÉTODO

Esta discussão nos conduz a um problema. É essencial o requisito de sermos


sistemáticos: deve haver alguma rotina que nos capacite a tom ar uma investigação
fenomenológica semelhante a outra investigação fenomenológica. Interpretar todo
acontecimento em termos das espécies de horizonte descritas ao final do Cap. 2,
por exemplo, dotaria a investigação fenomenológica de um procedimento ordenado
visando a garantir que nenhum aspecto decisivo fosse deixado de fora. No entanto,
se tal procedimento fosse adotado, estaríamos forçando o acontecimento a se en­
quadrar em categorias já existentes e negando sua presença e significação singula­
res; tal procedimento nos fecharia os olhos à constelação de significações conforme
estas são sintetizadas, na realidade, em nossa experiência. Por vezes um ou outro
horizonte predomina absolutamente sobre os outros. A redução fenomenológica se
toma importante nesse contexto, pois é um procedimento planejado para nos fazer
retomar à experiência conforme ela é experienciada; é uma postura a partir da qual
apreendemos a experiência vivida conforme ela é vivenciada.
A psicologia fenomenológica tem de produzir interpretações sistemáticas em
lugar das informais e causais, mas tem também de permanecer abertas ao aconteci­
mento em sua estrutura e presença únicas, evitando enquadrá-lo segundo alguma
teoria que exclua outras perspectivas. A redução fenomenológica e a variação ima­
ginária são estratégias planejadas para nos assegurar de que nossa interpretação é
fiel ao acontecimento em sua própria presença em nossa experiência. A experiência
vivida, em sua abertura plena, é o critério de adequação de uma interpretação. Não
pode haver outro.
Finalmente, existe a tarefa de comunicar nossa interpretação dentro de sua
perspectiva própria. Devemos ter em mente que na comunicação com os outros
estamos sempre transmitindo nossa compreensão e que esta está sempre baseada
em uma perspectiva. Não há fatos que não sejam vistos através de uma perspectiva
e de uma compreensão interpretativa daquilo que está sendo descrito. A fim de
tomar rigoroso o processo de comunicação, a ciência invariavelmente insistiu na
necessidade do comunicador descrever não apenas o acontecimento, como também
os procedimentos que o conduziram a uma interpretação particular. Numa investi­
gação psicológica formalizada, há em primeiro lugar uma descrição cuidadosa do
método, assim como do trabalho prévio que sugeriu as principais categorias inter-
pretativas subjacentes ao estudo. Na tradição científica a questão da perspectiva é
levada a sério.
Diferentemente das ciências físicas, no entanto, a psicologia lida com significa­
ções, intenções, sentimentos e idéias — o estofo da experiência, que não pode ser
quantificado sob pena de distorção. Ao medir objetos físicos posso confrontar
muito facilmente minhas observações com as de outras pessoas. Na interpretação
do comportamento a situação é diferente. Como posso saber, quando recrio a expe­
riência da Sra. Smith na minha própria, que o estou fazendo corretamente? Não
posso saber; na verdade, posso estar mais ou menos certo, visto que não sou a Sra.
Smith, de que não recriei a experiência dela completamente. Mas experiencio o
experienciar dela de algo, e o que experiencio não é necessariamente incorreto por­
que é incompleto. Realmente, em minha experiência, tenho uma perspectiva da
experiência dela, e isto é tudo que possuo. Nunca percebemos a totalidade de coisa
alguma, simultaneamente de todos os pontos de vista — nem mesmo de objetos
físicos. Sempre conhecemos coisas a partir de nossas perspectivas próprias. Mesmo
quando conhecemos a perspectiva da Sra. Smith, fazemo-lo a partir da nossa.10
A comunicação fenomenológica através da escrita, da fala ou de outro meio,
assim como os procedimentos rotineiros de relato das ciências físicas, deve transmi­
tir não apenas o que foi compreendido, como também a perspectiva a partir da qual
COMPREENSÃO E COMUNICAÇÃO 33
foi compreendido. Quando algo é compreendido apenas de forma interpretativa,
como na psicologia, devem ser expostos os fundamentos dessa interpretação, os
contornos de significação na experiência do investigador. A redução fenomenoló­
gica, a variação imaginária e a interpretação são formas de tornar claras para o
investigador as suas próprias significações. O fato de descrever a operação das
mesmas no próprio projeto de pesquisa toma-as claras para o leitor ou ouvinte.
Portanto, escrever fenomenologicamente é bastante árduo, e toda análise fenome­
nológica é uma auto-análise em certo sentido. Tal é o preço (e a recompensa) do
rigor.
CAPÍTULO 4

TÉCNICAS DE PESQUISA
Qualquer discussão sobre técnicas de pesquisa em psicologia fenomenológica
deve ser necessariamente inacabada e sugestiva, ao invés de definitiva. Há diversas
razões para isto. Primeiramente, a psicologia fenomenológica se encontra num está­
gio inicial de desenvolvimento. A fenomenologia como uma filosofia tem apenas
uma centena de anos; como um movimento cultural, é ainda mais jovem, e bastante
limitada à Europa. No cenário psicológico americano, há fenomenologistas há cerca
de uma ou duas décadas somente.1 Em segundo lugar, ao contrário de outras meto­
dologias, a fenomenologia não pode ser reduzida a um conjunto de instruções do
tipo “ livro de receitas” . Ela é antes uma abordagem, uma atitude, uma postura de
investigação com certo conjunto de objetivos. A amplitude das técnicas que podem
ser usadas para desenvolver essa atitude é, na verdade, muito grande, e até o mo­
mento apenas poucas delas foram experimentadas. Em terceiro lugar, o método
utilizado em um projeto de pesquisa não é necessariamente apropriado para outro.
Cada projeto apresenta seus próprios problemas, objetivos e limitações. Por defini­
ção, praticamente, o uso do mesmo método em dois problemas diferentes viola a
atitude fenomenológica — atitude que visa a ir ao encontro dos fenômenos em seus
próprios termos, e não a comprimi-los no molde das pressuposições.
O objetivo de qualquer técnica é ajudar o fenômeno a revelar-se de forma mais
completa do que o faz na experiência usual. Este objetivo pode ser formulado como
constituindo a tentativa de revelar tantas significações quanto possível, e suas rela­
ções mútuas, no momento em que o fenômeno se apresenta na experiência. A frase
revelar-se de forma mais completa significa revelar camadas de significação. No
aparecimento usual de um acontecimento, suas significações estão presentes em
nosso ato de experienciar este aparecimento, mas estão implícitas e obscuras.
Dividiremos nossa discussão segundo três espécies de problemas de pesquisa
que um psicólogo deveria procurar compreender: interpretação do acontecimento
único, singular; interpretação do indivíduo único, singular; e interpretação de um
processo psicológico geral ou repetitivo. Haverá por certo outras espécies de pro­
blemas que os psicólogos poderiam enfrentar fenomenologicamente — envolvendo
uma instituição, um grupo social, um tipo de personalidade, um relacionamento, e
assim por diante. Porém a maior parte desse trabalho permanece algo a ser desen­
volvido.?

O ACONTECIMENTO ÚNICO, SINGULAR


Naturalmente qualquer coisa pode ser computada na qualidade de um aconteci­
mento, desde uma expressão facial singular que dura só um instante, até a ocorrên-
TÉCNICAS DE PESQUISA 35
cia do Nazismo na Alemanha. Esta categoria consiste em acontecimentos- tais que
cada um deles ocorre apenas uma vez, num certo contexto especial, temporal e
pessoal, e não pode acontecer novamente. A compreensão de acontecimentos pas­
sados pode ser útil na de eventos similares atualmente presentes, mas tal investiga­
ção não é explicitamente comparativa, pois a comparação necessariamente reduz
um fenômeno àqueles aspectos que apresenta em comum com outros fenômenos e
fracassa em revelar a singularidade.3 O Cap. 1 oferece um exemplo de análise não
comparativa. O episódio entre o rapaz e a moça no Cap. 3 é outro exemplo. Um
acontecimento semelhante pode ocorrer novamente, mas investigar esse evento em
sua similaridade com outros acontecimentos requer que escolhamos aqueles a que
se assemelha, o que por sua vez exige uma análise prévia do acontecimento em sua
unicitiade.4
É verdade, no entanto, que a análise de acontecimentos únicos, singulares,
pode-nos ajudar a compreender outros acontecimentos. Na análise do comporta­
mento de minha filha descobrimos alguns horizontes e estruturas que são univer­
sais. Posteriormente, descobrimos alguns horizontes que estão sempre presentes
sob certas circunstâncias (como a infância), e não sob outras. A lógica desta espécie
de compreensão não é a mesma empregada na generalização a partir de um
exemplo; mais precisamente, haverá certos horizontes que estarão sempre aí na
experiência humana e os descobrimos para onde quer que nos voltemos. A noção
de que não existe experiência humana que não esteja envolvida em contextos espa­
ciais, temporais e interpessoais dificilmente é idêntica à afirmação, por exemplo, de
que crianças de cinco anos de idade sempre mudarão de idéia como fez minha filha.
Esta última é uma generalização duvidosa; a primeira, não.
Todo psicólogo profissional está familiarizado com pelo menos um exemplo se­
melhante de obtenção de conhecimento. O Committee on Scientific and Professio­
nal Ethics and Conduct of the American Psychological Association foi encarregado
da tarefa de formular princípios a fim de dirigir a ética da prática profissional
(A.P.A., 1967). Já existia algum “ senso ético” compartilhado; a tarefa foi codificá-
lo para referência futura. A abordagem da comissão foi descrita como “ uma abor­
dagem de análise de conteúdo, empírica, indutiva, utilizando os incidentes críti­
cos” , que tornaria possível, com base em experiência acumulada, “ extrair do có­
digo original um conjunto de princípios mais gerais” (p. vii). Os incidentes críticos,
por si mesmos únicos, têm propriedades estruturais que são universais. Os univer­
sais surgirão invariavelmente, mas apenas se permitirmos que o incidente se revele
plenamente. Este trabalho difícil não é, em princípio, metodologicamente distinto
da investigação fenomenológica de acontecimentos únicos, singulares.
Ao nos depararmos com um acontecimento único, singular, com o propósito de
compreendê-lo, nossa primeira tarefa é permitir que o fenômeno apareça como um
fenômeno (redução fenomenológica). Há duas modificações de atitude quase opos­
tas nesta espécie de observação: precisamos despir o acontecimento das significa­
ções com as quais inicialmente o apreendemos e localizar essas significações como
um meio de identificar o acontecimento conforme ele aparece na experiência vivida.
Ou melhor, compreendemos um acontecimento em muitos níveis diferentes ao
mesmo tempo. A fim de nos tomamos explicitamente conscientes das muitas ma­
neiras em que vivemos a experiência do mesmo, devemos ir sistematicamente além
das significações mais óbvias, afastá-las para que outras nuances de significação
Possam vir à luz. Tal processo é analítico e, como em qualquer análise, os elemen­
tos isolados não devem ser considerados por si mesmos, exceto para os propósitos
análise. Sua importância real deve ser considerada no contexto da experiência
Vlyida, que é total, unitária e integrada.
36 MÉTODO

Se você passeia na sala antes da aula e vê o professor escrevendo no quadro um


esquema da exposição que vai fazer, apreende o acontecimento imediatamente em
muitos níveis simultâneos: identificando a sala como sala de aula e identificando a
sala de aula como possuindo certo papel em sua educação, a qual tem certo papel
em sua vida; identificando o homem como um professor, a quem você conhece em
diversos contextos — pessoal, profissional, assim como pela reputação e pela úl­
tima exposição que fez; identificando o ato como parte do modus operandi dele, na
antecipação de algo que todos esperam que aconteça em um minuto ou dois; identi­
ficando o contexto do que ele escreve como aquilo sobre o que ele havia dito que
falaria hoje. Todos esses horizontes são parte de sua experiência vivida do aconte­
cimento. Contudo, há outros. Os movimentos do professor expressam uma certa
confiança, uma certa atitude displicente quanto ao tema, diferente das incertezas
em que você se encontra quanto à possibilidade de obter uma boa nota nessa maté­
ria; o movimento de um lado para outro que ele executa é uma sinfonia de contra­
ção e relaxamento muscular, dotado de um certo tempo e de um certo andamento,
que expressam a atitude dele quanto a você, ao trabalho, à confusão em que você
se encontra quanto a essa matéria — uma atitude ou estilo que algum dia pode ser
a sua, caso você deseje que assim Seja ou caso isso esteja sob seu controle. Outros
alunos entram na sala e exibem múltiplos indícios da própria experiência: um olhar
intrigado de um que faltou à última aula; outro do aluno que sempre parece con­
fuso; um gesto de “já vamos nós outra vez” da parte de um amigo cuja discussão
recente com o professor o levou a detestar tudo que este faz; uma garota pegando
um espelho e olhando os dentes — ela é negligente porque já se tomou perita no
assunto, não tem preocupações, ou está agindo assim justamente para ocultar a
própria confusão? Em seguida a atividade coletiva da sala muda, passando de mo­
vimentos desorganizados, aleatórios, individuais, a uma atenção grupai coletiva e
organizada, anunciando que algo ocorrerá em conjunto. Você percebe que este pa­
drão é uma parte da rotina mais ampla, entendida por todos; é uma tradição não
apenas desta universidade como daquelas de todo o mundo, que estão estruturadas
pelos papéis de professor e aluno, conferencista e ouvinte — uma matriz dentro da
qual você mesmo se identifica agora, recordando o quanto desejou ser parte dela e
antecipando que não mais o será logo que se formar ou se desligar. Ao refletir-se na
poeira da janela, o sol ilumina aquele lado da sala e raios de luz penetram até a
parede oposta; alguns alcançam o ombro do professor por um instante, como se ele
fosse atingido por fogo cruzado. Ele não jpercebe isto e a analogia não seria estabe­
lecida por ele, que nunca pensa em termos militares. Os sons do giz no quadro-ne-
gro são entrecortados por outros sons de cadeiras rangendo, fragmentos de con­
versa; os sons do giz continuam enquanto os outros cessam, anunciando que o
grupo volta a atuar coletivamente.
Assim é o material da experiência vivida. Os horizontes temporal, espacial,
sócio-cultural, interpessoal, corporal e ideativo operam todos simultaneamente para
produzir a experiência vivida conforme você a vivência. Toda ela já é compreen­
dida por você, mas implicitamente, apenas. É a matriz de seu ser-no-mundo, que é
ö solo a partir do qual seu próprio comportamento emerge e tem fundamento e
significação. Todos esses horizontes estão de algum modo envolvidos com seu es­
tado de humor particular, a partir do qual você se comporta como resposta a essa
aula. Está entediado, fascinado, confuso, curioso, deprimido e assustado, simulta-
nea e seqüencialmente, em alguma espécie de ordem experiencial que você recorda
ter sido seguida antes e antecipa que volte a ocorrer novamente. Este aconteci­
mento, como qualquer outro que possamos desejar entender, é,de fato, sempre
compreendido, embora não de maneira clara, rigorosa ou explícita. Tomar a expe­
TÉCNICAS DE PESQUISA 37
riência vivida, mesmo em sua forma mais trivial e de lugar-comum, e operar nela
com a redução fenomenológica, a variação imaginária e a interpretação é ingressar
numa aventura excitante, na conclusão da qual estamos mais conscientes, harmoni­
zados de modo mais perspicaz com a vida, mais compreensivos quanto a nós mes­
mos e aos outros, menos limitados por convenções e menos atormentados por esta­
dos de humor inexplicáveis.

Ö INDIVÍDUO ÚNICO, SINGULAR


A interpretação de um indivíduo único, singular, pode perfeitamente começar
com a análise de uma experiência única, singular, desse indivíduo. Quando chega­
mos a conhecer uma pessoa, aglutinamos nossas experiências dela e permitimos
que os diversos contextos nos quais a experienciamos se desvaneçam no esqueci­
mento. É uma atitude sábia, portanto, entrecortar a análise de um indivíduo com
análises de episódios singulares ocorridos com ele a fim de manter claramente em
mente o material contextual. Os psicólogos clínicos fazem isto implicitamente se
percebem, e quando percebem, que vêem seus clientes apenas no contexto muito
especial de seus consultórios — um contexto que condiciona tanto as experiências
dos psicológos como as de seus clientes. Em outras palavras, embora a descrição
de um indivíduo tenda a focalizar a experiência vivida dele, é essencial que nos
mantenhamos em contato íntimo com a nossa própria experiência, através da qual o
conhecemos.
Muitas técnicas de entrevista têm sido descritas de forma detalhada. Qualquer
uma delas pode-se tomar fenomenológica, dependendo de como atentamos para
uma pessoa. Em geral, desejamos estar atentos a horizontes, perceber os panos de
fundo que fazem com que a experiência signifique para alguém o que significa. A
atenção aos horizontes pode ser comparada a uma inferência do tipo “ para ver X
desta maneira, ele deve ver Y dessa outra” . Essa forma de inferência lógica não é
um mau modelo de escuta por horizontes, na medida em que se mantenha próxima
da experiência vivida e evite a extrapolação de um retrato organizado em tomo da
lógica, em vez de em tomo da experiência com todos os seus paralogismos e apa­
rência ilógica absoluta. O apoio organizacional da escuta fenomenológica é sempre
o como alguém é-no-mundo.
Se pudermos ver o que e por que as coisas significam para um indivíduo, em
termos de seu estilo e experiência estruturada, então por certo estaremos vendo
uma pessoa em sua unicidade. Novamente é aconselhável notar que de todas as
maneiras fazemos isto automaticamente, embora de modo informal e casual. Nossa
tarefa é sermos rigorosos.
Como o indivíduo “ teúiporaliza” ? Há um certo andamento, um tempo de sua
vida que se retarda ou acelera de acordo com seus próprios interesses e desejos.
Ele se põe em alguma relação com um futuro e um passado. Como se orienta em
geral? Em situações específicas? Para trás ou para a frente? Com maior probabili­
dade, para ambos. Em que padrão?
Como “ espacializa” ? Qu^js são a textura e a estrutura de seu campo neste
exato momento? Onde estão as atrações e repulsôes do espaço? As barreiras e
desafios? Por que significam o que significam para ele? Onde ele se coloca em
relação às coisas? Que coisas se destacam e por quê?
Como “ corporaliza” ? Sente-se à vontade com seu corpo? Este segue direções
diferentes das que ele deseja? A postura desse indivíduo é congruente com o que
38 MÉTODO

ele diz ou emite uma mensagem com palavras e outra com o corpo? Qual é o padrão
de suas mensagens corporais? Qual é o conteúdo das mesmas e para que parte do
mundo do indivíduo estão orientadas?
Que acordos interpessoais o constrangem? Quais o liberam? Ele é fiel a tais acor­
dos? Suspeita deles? Sente-se solitário sem eles? Como se move na matriz de acor­
dos culturalmente determinados a fim de chegar a acordos pessoais com você? Com
os amigos? Com estranhos? Por que tais acordos são importantes para ele?
Todas essas indagações podem ser feitas separadamente, mas as respostas ne­
cessitam ser integradas, do mesmo modo como o indivíduo as integra num estilo
coerente de ser-no-mundo. Algumas perguntas revelarão temas mais importantes do
que outras; não basta percorrer a lista mecanicamente. As respostas integram-se
num padrão que é o do indivíduo. Queremos descrevê-lo em sua unicidade.
Vale a pena notar que todas estas perguntas podem ser formuladas — e respon­
didas — sem que se tenha necessariamente de falar com a pessoa que desejamos
compreender. É claro que a conversa é a melhor maneira de descobrir o que que­
remos saber, e é por meio dela que entendemos nossa família, nossos amigos e
conhecidos. Nem sempre, entretanto, é possível conversar, e neste caso temos de
descobrir como a observação do comportamento, a leitura de documentos, e assim
por diante, podem igualmente fornecer compreensão. Jean Piaget (1954) relata que
uma criança, no primeiro ano de vida, seguirá com os olhos um objeto que façamos
lentamente girar em torno dela. Até uma certa idade, permanecerá procurando pelo
õbjeto que tenha passado para trás dela na direção em que este tiver desaparecido;
mais tarde, ela se voltará e antecipará o aparecimento do objeto do outro lado.
Piaget interpreta tal mudança no comportamento através da aquisição, por parte da
criança, de uma orientação espacial de 360 graus. É uma inferência fácil de fazer,
do comportamento para a experiência, e nós a fazemos diariamente. Seu franzir a
testa expressa sua dúvida, o fato de distender os músculos denuncia a sua fadiga, o
fato de constantemente olhar para a porta revela que está esperando pela chegada
de alguém (ver Allport e Vemon, 1933).
Agora, é claro, que também os erros são bastante comuns neste tipo de inferên­
cia, mas são em geral descobertos, o que atesta o quão bem compreendemos, afinal
de contas. Na vida diária, estas “ inferências” dificilmente são mesmo inferências
em sentido estrito. À medida em que se acumulam dados de vários tipos, estes
formam um padrão que começa a tomar forma. Como os indivíduos constantemente
têm um comportamento e uma experiência padronizados, e como os padrões expe-
rienciais e comportamentais são inevitavelmente congruentes, a impressão que
temos de estilo ou orientação em relação ao mundo de outras pessoas conforme
aparece em suas experiências, obtida pela mera observação do comportamento, tem
grande possibilidade de ser correta— se nos tivermos mantido receptivos aos dados
comportamentais conforme nos são oferecidos, evitando classificar antes do tempo
aquilo que poderiam indicar sobre uma pessoa.

UM PROCESSO PSICOLÓGICO GERAL


Descreveremos dois projetos de pesquisa tirados de publicações recentes para
exemplificar algumas técnicas que podem ser usadas para estudar processos psico­
lógicos gerais: um estudo sobre a raiva (Stevick, 1971) e um sobre a empatia (Lauf-
fer, 1971). Na primeira investigação, o pesquisador entrevistou trinta adolescentes
do sexo feminino, começando pela pergunta: “ Tente lembrar-se da última vez em
que ficou com raiva e diga-me o que puder sobre a situação, o que você sentiu, fez
ou disse.” As entrevistas gravadas não tinham um final previamente delimitado,
TÉCNICAS DE PESQUISA 39
foram não diretivas e visavam a uma descrição o mais completa possível por parte
do Sujeito. Uma vez transcritas as entrevistas, seus dados foram condensados e
sumariados pelo investigador, cuja pergunta reiterada era: “ Que tipo de comporta­
mento é para você a raiva?” Emergiu uma descrição sumária da raiva para cada
sujeito, a qual incluía as propriedades situacionais ou de campo da experiência, a
resposta corporal, a tendência comportamental e o propósito desta tendência con­
forme experienciado.5
O investigador seguiu então uma rotina sugerida por P. R. Colaizzi (1973), a fim
de submeter a uma verificação os resultados do primeiro procedimento. Tal rotina
incluía seis etapas. A primeira foi a avaliação de cada afirmação de cada protocolo
em termos de sua significação para a descrição da experiência da raiva. A segunda,
gravar todas as afirmações relevantes. A terceira etapa consistiu em interpretar
reflexivamente estas afirmações a fim de determinar-lhes a significação, visando a
listar cada expressão não repetitiva. O quarto passo foi relacionar e agrupar ex­
pressões de significação. O quinto, sintetizar as expressões de significação de todos
os protocolos em uma única descrição ampla da raiva. O sexto, refletir sobre esta
descrição fundamental, com o propósito de atingir a estrutura fundamental. É óbvio
que este procedimento requer uma grande dose de julgamento por parte do investi­
gador a cada momento. O critério de tais julgamentos é, como tem de ser, a expe­
riência vivida do investigador, a qual, como estabelecemos antes, é sempre uma
compreensão da experiência alheia, se bem que implícita. Naturalmente a rotina
não inclui salvaguardas seguras contra as tendenciosidades: também isto deve ser
julgado pelo tribunal da experiência vivida. E. L. Stevick convida-nos a comparar
nossas experiências vividas com a descrição que se segue.
A raiva é a experiência de ser puxado para o mundo por um outro importante, mas
irracional e inflexível, que impede minha ação, posse ou relação com algo de relevância
pessoal.
O corpo, na raiva, é um corpo querendo-explodir-para-fora, um corpo capturado pelo
desejo de mudar o mundo que não atende a seus pedidos. Este desejo de mudar o mundo
pode realmente explodir para fora em comportamento observável, atípico, ou pode estár
presente sob a forma de um desejo desse tipo de comportamento.
O comportamento é um empuxo para a frente, com freqüência um comportamento
ineficaz e sem direção, mas que é a tentativa do corpo para mover o mundo e o outro.
O outro, na raiva, transforma-se num outro despersonalizado, não “minha mãe, meu
pai ou amigo1', mas simplesmente o outro que está no caminho. Do mesmo modo o
próprio agente da raiva fica até certo ponto não realizado; é um “não-eu” que se põe a
caminho para realizar um projeto “necessário". Tal transformação do self e do outro, ou
da relação, nunca é completa, e na medida em que a relação real no mundo permanece
presente à consciência junto com o mundo mágico, transformado, o comportamento
retém racionalidade e restrições.
A consciência das rupturas do self no modo e na realização da raiva começa a tirar
afguém dessa forma de presença afetiva.
A raiva pode ser diferenciada do medo por seus efeitos mobilizadores no comporta­
mento corporal, e da impaciência e do agravo, os quais têm como objetos coisas, pessoas
menos importantes ou pessoas impedindo interesses menos importantes. É distinta do
mau-humor, da depressão ou da mágoa, que se referem mais a uma tonalidade subjetiva
de sentimentos do que a um modo de agir no mundo e sobre ele.6 (1971, págs. 143-44).*

Em nosso segundo exemplo, o estudo sobre a empatia realizado por M. Lauffer


(1971), o investigador entrevistou cerca de vinte estudantes universitários por um

*Este trecho de Stevick é reproduzido com a permissão da editora de Duquesne Studies in Phenomenologi-
Cfl/ Psychology: volume I, por A. Giorgi et al. Humanities Press, Inc., New York.
40 MÉTODO
período de uma a duas horas cada um. A entrevista seguiu-se a uma tarefa, na qual
os sujeitos ordenaram por postos aqueles que mais gostariam de ajudar dentre uma
série de oito famílias de grupos minoritários que estavam com alguma espécie de
problema. Cada uma dessas famílias foi descrita em um breve parágrafo; os sujeitos
as ordenaram e, a seguir, o pesquisador envolveu cada um dos participantes numa
conversa acerca de sua experiência da tarefa, de suas razões para atribuição de
posições e de como essas razões eram justificadas em seu mundo de opinião. As
entrevistas foram gravadas.
Em seguida, o investigador escutou muitas vezes cada entrevista e tentou formu­
lar uma apreciação compreensiva da estrutura do mundo de cada sujeito. Foram
construídos diagramas do espaço de vida, aplicaram-se vários instrumentos concep-
tuais a fim de discriminar tipos e foram devidamente anotadas as impressões ime­
diatas do próprio investigador sobre os sujeitos, incluindo uma ordenação intuitiva
inicial dos mesmos conforme o quanto pareciam ser empáticos e as espécies de
empatia que pareceram surgir nos dados.
O resultado mais notável do estudo está na natureza da captação intuitiva da
empatia por parte do investigador conforme esta se tornou manifesta pelo exame
dos dados. A que estava o investigador respondendo? Como “ conhecemos” a em­
patia? Como nós, de alguma maneira, sabemos algo a respeito dos outros, respon­
demos a eles e ficamos impressionados por eles na experiência diária? Pela refle-
xãò, tornou-se claro que o aspecto crítico de uma pessoa empática é sua habilidade
para experienciar os pontos de vista dos outros. Isto atende em grande parte à
nossa definição comum. Entretanto, foi descoberto, além disso, que alguém é rela­
tivamente capaz ou incapaz de fazê-lo, dependendo da estrutura de seu mundo. O
ser-no-mundo empático pode ser descrito como multicentrado, possuindo outros
centros de significação e origem de motivação que são quase tão vividos quanto os
do próprio self. Algumas pessoas vivem num mundo cuja estrutura é antes como
um espaço com uma única fonte luminosa no centro. Todos os acontecimentos são
visíveis apenas à luz desse centro e tudo o mais está numa escuridão sombria. Uma
pessoa empática, por outro lado, vive num espaço com muitas lâmpadas, cada uma
das *quais ilumina um setor um pouco diferente de cada objeto e fornece uma pers­
pectiva possível a partir da qual se pode perceber um padrão de acontecimentos.
Mais precisamente, “ ver” outras pessoas como centros de iluminação implica
uma orientação quanto a elas na qual seus pontos de vista são tão válidos como os
meus próprios. Tal “ visão” , característica do sujeito empático, ou tal esquema de
mundo, implica portanto respeito pelos outros e, além do mais,, uma consciência
viva das capacidades alheias para sentir dor, ansiedade e assim por diante.
As limitações da metáfora das lâmpadas são óbvias, ainda que ela chegue perto
da estrutura do mundo à qual toãos somos sensíveis quando usamos o termo empa-
tia na vida diária. Independentemente do termo que usamos, entretanto, o estudo
de Lauffer tornou claro que somos de fato sensíveis à estrutura da experiência dos
outros. E não apenas os psicólogos, é claro, são sensíveis a esta estrutura; todas as
pessoas são. Esta estrutura é a “ coisa” crítica que “ conhecemos” ; porém não sa­
bemos realmente o que sabemos ou como o sabemos naqueles momentos em que
nos encontramos confiando em outra pessoa para ensinar a nossos filhos ou para
participar de nossos problemas.
É claro que todas as técnicas descritas neste capítulo são trabalhosas e ainda
deixam questões importantes sem resposta.7 O desenvolvimento continuado da psi­
cologia pode dar forma aerodinâmica a algumas dessas coisas de difícil manejo, mas
é claro que não existem vias curtas e diretas para o procedimento geral descrito no
Cap. 3. Naturalmente, a adequação de um método também depende do propósito
TÉCNICAS DE PESQUISA 41
original da investigação. Sempre que desejarmos algo além da espécie de com­
p r e en sã o que pode ser fornecida com essas técnicas, deveremos talvez perguntar
por que desejamos esta coisa particular a mais, e se ela é valiosa ou não. Tais
q u e s tõ e s complexas sobre valores terão de ser referidas aqui.
CAPÍTULO 5

DESENVOLVIMENTO
METODOLÓGICO
Precisamos examinar as próximas etapas no desenvolvimento de uma metodolo­
gia fenomenológica. Fazer psicologia fenomenologicamente não é só uma espécie
pioneira de trabalho quanto à exploração de novos aspectos da temática da psicolo­
gia, como também, e ainda com maior importância, isso requer inventividade e
habilidade consideráveis para desenvolver métodos apropriados. Mais uma vez re­
petimos que a finalidade de qualquer técnica é ajudar os fenômenos a se revelarem
de forma mais completa do que a que ocorre na experiência usual. Em termos
amplos, o fenômeno que pretendemos compreender é o ser-no-mundo das pessoas.
Dissemos que nossa abordagem dessa temática deveria seguir-se a uma exploração
daquilo que as coisas significaram para as pessoas, o que nos conduz a explorar os
horizontes de significação e o modo pelo qual estão organizados, na experiência de
alguém, na forma de um mundo coerente e de um sentido de si próprio enquanto
parte desse mundo. Como podemos atingir nosso objetivo em termos concretos,
operacionais?
Começaremos pela análise de um estudo sobre as práticas de educação de crian­
ças em famílias de classe baixa e iremos submetê-lo à crítica de um ponto de vista
fenomenológico. Em seguida, tentaremos ver o que poderia ter sido realizado, al­
ternativamente, na coleta, interpretação e relato dos dados. Finalmente, tentaremos
generalizar nossas sugestões em termos de uma estratégia mais geral do que tal
estudo particular, porém mais específica do que as recomendações do Cap. 3.

UM ESTUDO TRANSCULTURAL

Algumas das significações de qualquer comportamento são extraídas de um con­


junto preestabelecido de significações, isto é, da cultura do indivíduo. Só seremos
capazes de aprender com clareza tais significações se as buscarmos de forma espe­
cífica. E devemos fazê-lo de dois pontos de vista. Primeiramente, devemos ver o
que os acontecimentos significam para os participantes; algumas dessas significa­
ções serão culturais. Quando o observador compartilha da formação cultural dos
participantes (região, herança religiosa, classe social, raça, definições do mundo),
então essa compreensão é menos difícil, mesmo automática, e ele precisa unica­
mente tomá-la explícita. Quando o observador difere dos participantes quanto à
formação cultural, então a apreensão dessas significações é bem mais difícil, em­
bora não seja impossível.
42
DESENVOLVIMENTO METODOLÓGICO 43
Em ambas as instâncias, no entanto, para ver com clareza precisamos também,
c o m o observadores, fazer o escrutínio de nossa própria visão. Esse é o objetivo da
red u ção fenomenológica, da variação imaginária e da interpretação. Essa espécie de
rigor metodológico define uma segunda maneira pela qual precisamos buscar e de­
vemos compreender a importância da cultura no comportamento quando realizamos
uma análise fenomenológica.
Em uma investigação dos padrões familiares de criação e educação de crianças
em classes sociais baixas, E. Pavenstedt (1965) descreveu um padrão que denomi­
nou “ desorganizado” :

A característica predominante nestes lares era o fato das atividades serem determina­
das pelo impulso; a constância estava completamente ausente. A mãe podia ficar na
cama até o meio-dia, enquanto as crianças também eram mantidas deitadas ou corriam ao
redor sem supervisão. Embora as famílias algumas vezes tomassem café da manhã ou
almoçassem em conjunto, não havia padrão para coisa alguma. Os pais freqüentemente
não discriminavam entre as crianças. Um genitor, enraivecido pelo comportamento de
um filho, foi visto batendo em um outro que estava mais próximo. Raramente havia
comunicação verbal. As regras eram indefinidas ou pairavam no ar de forma incompleta.
Freqüentemente as repreensões eram exaltadas e raivosas... Quando as crianças supera­
vam a primeira infância, os pais pouco diferenciavam entre os próprios papéis e os das
crianças. As necessidades dos pais eram tão prementes e tão freqüentemente satisfeitas
quanto as dos filhos. Havia uma forte competição pela atenção dos adultos. (Pavenstedt,
1965, págs. 94-95.)

Observemos este trecho. A dificuldade não está no fato de que a descrição seja
extremamente interpretativa ou dificultada por julgamentos de valor que condenam
tal ponto de vista, pois toda descrição é interpretativa e emerge de uma perspectiva
valorativa particular do percebedor. A dificuldade presente nesta descrição provém
do fato de a interpretação não ser rigorosa e de parecer estar completamente implí­
cito o papel dos valores daquela que percebe na perspectiva e na interpretação. Tal
fracasso em reconhecer o papel dos valores conduz a observadora a ver claramente
algumas coisas e a obscurecer outras. Uma análise fenomenológica poderia certa­
mente aperfeiçoar este estudo.
“ A característica predominante nestes lares era o fato das atividades serem de­
terminadas pelo impulso...” Esta caracterização emerge das categorias teóricas de.
“ impulso” e “ controle” (“ instinto” e “ ego” , na terminologia de Sigmund Freud).
O comportamento que Pavenstedt viu pareceu-lhe impulsivo em lugar de contro­
lado. Aqui a dificuldade reside em Pavenstedt tomar o fato de permanecer na
cama até o meio-dia e de não vigiar os filhos como sendo impulsivo, enquanto
oposto a controlado ou padronizado, quando tal comportamento tem obviamente
ambas as características. Em lugar de ser expressivo de um impulso para ficar na
cama de modo não controlado e não padronizado, este comportamento é clara­
mente um padrão, controlado e submetido a regras, embora sejam regras diferentes
daquelas do observador. A diferença é cultural. A afirmação seguinte, “ a constân­
cia estava completamente ausente” é simplesmente errônea. A observadora não
pôde ver qualquer constância, mas os pais e os filhos certamente sim. Poderíamos
dizer que nossos padrões de classe média são “ melhores” ou “ mais saudáveis”
Para crianças; é um julgamento de valor que podemos fazer. Mas a observadora não
vê um padrão menos saudável; ela apenas vê a ausência* de padrão — a ausência de
um padrão de classe média.
“ A mãe podia permanecer na cama até o meio-dia enquanto as crianças também
eram mantidas deitadas ou corriam ao redor sem supervisão.” Esta descrição* rela­
44 MÉTODO

tivamente neutra é menos sujeita a objeções. Observamos que deveria conduzir a


uma conclusão diferente daquela da primeira frase de Pavenstedt, pois descreve um
padrão diferente e não a ausência de um padrão. Não seria grandemente aperfei­
çoada por uma consideração quantitativa do quanto a mãe ficava na cama ou de
quantos minutos as crianças ficavam sem supervisão, a não ser que pensássemos, o
que não é meu caso, que Pavenstedt distorce grosseiramente os fatos. Além de
tudo, aquilo que buscamos é o padrão e a maneira pela qual este padrão é experien-
ciado pelos participantes — e não freqüências de comportamento isoladas da expé-
riência de alguém.
“ Embora as famílias algumas vezes tomassem café da manhã ou almoçassem em
conjunto, não havia padrão para coisa alguma.” Pavenstedt não procurava um pa­
drão, logo não viu nenhum. Procurava o que poderia causar distúrbios psicopatoló-
gicos, e descobriu uma ausência daquilo que ela implicitamente supunha determinar
saúde mental: padrões de classe média. O fato de que as regras para saúde mental
sejam também regras de classe média praticamente não precisa ser mencionado e,
embora tais valores possam ser também nossos valores, podemos perceber aqui a
possibilidade de imperialismo cultural. Estas pessoas não são como nós, e conse­
qüentemente são doentes. Não é que a pobreza esteja desvinculada do sofrimento
humano; porém, aplicado a grupos culturais, o enfoque de Pavenstedt nos conduz a
ver apenas ausências e não aquilo que está presente, a supor que tais ausências
conduzem à doença mental e a sentir uma obrigação moral de mudar padrões sem
perguntar se podemos ou não estar destruindo padrões que não podemos ver por
superposição dos nossos próprios — tudo em nome da criação da ordem em lugar
do caos.1
“ Os pais freqüentemente não discriminavam entre as crianças. Um genitor, en­
raivecido pelo comportamento de um filho, foi visto batendo em um outro que es­
tava mais próximo.” Este par de frases, constituído de uma interpretação da estru­
tura experiencial do genitor seguida de um dado concreto, está razoavelmente esta­
belecido. Mais uma vez, uma consideração estatística do quão freqüentemente
ocorreu esse comportamento não é tão importante quanto o fato de captar clara­
mente a maneira pela qual o genitor percebe.
“ Raramente havia comunicação verbal. As regras eram indefinidas ou pairavam
no ar de forma incompleta. Freqüentemente as repreensões eram exaltadas e raivo­
sas.” Estas frases também fornecem observações importantes, na medida em que
reconheçamos que a frase “ indefinidas ou pairavam no ar de forma incompleta” se
refere à experiência da pessoa que está sendo dirigida. Isto é, podemos ver se a
ordem paterna foi entendida por uma criança através da observação da expressão
facial da mesma, assim como de sua postura e comportamento. Se a ordem “ pai­
rava no ar” , esperamos que a investigadora nos esteja dizendo que assim era para a
criança, o que é uma conclusão possível de ser alcançada por um observador. Es-
peraiíios que Pavenstedt não nos esteja dizendo que ela não entendeu, mas sim que
a criança não o fez.
“ Quando as crianças superavam a primeira infância, os pais pouco diferencia­
vam entre os próprios papéis e os das crianças. As necessidades dos pais eram tão
prementes e tão freqüentemente satisfeitas quanto as dos filhos.” Mais uma vez a
primeira frase é uma interpretação e a segunda fornece os dados de apoio. A se­
qüência que vai dos dados a uma leitura literal da interpretação parece provável
nesta situação. Os dados são quase quantitativos, mas a significação real das sen­
tenças para a autora e para o leitor não envolve a freqüência do comportamento e
sim a interpretação de um padrão e daquilo que significa crescer em tal padrão.
Bem, o fato de que a diferenciação entre os papéis adulto e infantil seja uma coisa
PESENVOLVIMENTO METODOLÓGICO 45

boa não é evidente. Minha opinião aqui não é de que as crianças não sejam mais
vulneráveis do que os adultos: elas o são. Porém, satisfazer as crianças em lugar
dos adultos rião conduz automaticamente à saúde mental.2 A autora não diz o que
tenta dizer. Ela parece realmente querer afirmar que a experiência paterna estava
estruturada em tomo das próprias necessidades, a expensas da sensibilidade às ne­
c e s sid a d e s dos filhos. Tal maneira de falar pode parecer envolver uma pequena
diferença de vocabulário, mas é provavelmente mais fiel à experiência da própria
autora; descreve algo mais crítico do que o fato de se os pais pedem ou não indul­
gência para suas próprias necessidades e apresenta o que está acontecendo de modo
melhor do que a linguagem dos papéis parental e filial — papéis que podem variar
enormemente sem produzir Psicopatologia.
“ Havia uma forte competição pela atenção dos adultos.” Esta frase descreve
um padrão interpessoal complexo de percepções mútuas. Se reconhecermos que o
conteúdo crítico da frase lida com a maneira como as pessoas se vêem umas a
outras, então a sentença é uma síntese apropriada, que nos leva a perceber aquilo
que Pavenstedt percebeu e que provavelmente descreve o que e como os próprios
participantes perceberam.
O objetivo deste exercício inteiro não é argumentar que devemos purificar nos­
sas percepções de seu caráter perspectivo: de nossos valores e razões para realizar
o estudo. Na verdade isto não pode ser feito; não há conhecimento isento de pers­
pectiva. O principal ponto, ao ;nvés disso, refere-se ao fato de podermos perceber e
escrever mais rigorosamente ou menos, e ao fato de a redução fenomenológica, a
variação imaginária e a interpretação oferecerem à psicologia uma rota para esse
rigor que nos pode conduzir para além do folclore da isenção de perspectiva cultu­
ral.

ALGUNS APERFEIÇOAMENTOS METODOLÓGICOS

O método de Pavenstedt incluiu entrevistas com membros da família, observa­


ção dos mesmos no lar e ensino às crianças na escola maternal. Estas rotinas não
rigidamente sistemáticas deveriam ter produzido resultados melhores do que os que
foram produzidos. No entanto, falar com pessoas ou, alternativamente, estar atento
a elas e observá-las, pode ser mais bem feito ou menos. Em grande parte isso
depende do modo como estamos atentos e observamos — a que estamos atentos e o
que observamos. Uma abordagem fenomenológica da atenção e da observação pre­
tende compreender os acontecimentos em termos da significação que já possuem
em seu cenário natural. Não foi esse o enfoque de Pavenstedt. Os acontecimentos
que observou não foram conduzidos a falar por si mesmos. Pavenstedt deveria ter
visto as significações que tais eventos tinham em seu cenário natural, na experiên­
cia de seus sujeitos. Como não explorou explicitamente essa experiência, a signifi­
cação natural dos acontecimentos não ficou clara. Ela impôs suas próprias signifi­
cações culturalmente imperialistas aos acontecimentos. Fracassou em deixar que
eles se revelassem por si próprios com suas significações já existentes na experiên­
cia dos sujeitos.3 Como poderia ter procedido de melhor maneira?
Suponha que você estivesse observando uma família e notasse que a mãe per­
manece na cama até o meio-dia e que as crianças correm ao redor sem supervisão.
Sua primeira reação ao comportamento desta mãe não seria automaticamente tra­
duzida num relato relativo a impulsividade, ausência de controle ou de padrões.
ESSa é uma significação do acontecimento — talvez a significação que seria perce­
bida por qualquer genitor de classe média “ consciencioso” . Porém a significação
mais relevante do acontecimento deveria ser descoberta nas experiências da mãe e
46 MÉTODO

dos filhos: sua significação “ natural” em seu cenário “ natural” . Como se pode
discernir a significação natural do acontecimento, e o que ela tem a ver com o
retrato mais amplo de quem estas pessoas pensam que são naquilo que elas pensam
ser o mundo (seu ser-no-mundo)?
A resposta óbvia a tal pergunta é simplesmente: perguntando às pessoas envol­
vidas. Isso não é, entretanto, tão fácil como parece, Certamente Pavenstedt fez
perguntas e ouviu as respostas; é nisto que consiste uma entrevista. Tudo depende
de qual é a pergunta, de como é formulada, de como tem lugar a escuta da resposta
e de qual é o contexto mais amplo da conversação — diagnóstico, exame, exposi­
ção, ajuda, investigação e assim por diante. Os psicólogos têm-se preocupado se­
riamente, de tempos em tempos através das décadas, com a tarefa de perguntar às
pessoas o que querem saber a respeito delas. Sigmund Freud foi um especialista
nessa tarefa óbvia e a totalidade da teoria psicanalítica está baseada num escrupu­
loso programa de escuta cuidadosa. Os psicólogos clínicos a partir de Freud têm, é
claro, seguido seus procedimentos em certa medida. Jean Piaget foi certamente um
dos entrevistadores mais habilidosos de nosso século; escrupulosamente perguntou
às crianças por que pensavam conforme pensavam e produziu nossa melhor teoria
do desenvolvimento cognitivo. Mais recentemente, Robert Coles (1967, 1971) tem
tido notável sucesso na prática da psicologia com base meramente na escuta sensi­
tiva e habilidosa. A. Esterson (1972) também nos oferece uma notável demonstra­
ção.
Embora possamos descobrir tais exemplos, de modo geral os psicólogos têm
chegado a ser enormemente céticos quanto aos assim chamados relatos verbais, ou
melhor, quanto àquilo que as pessoas dizem. A observação do comportamento che­
gou, enquanto técnica metodológica, a ser preferida à de perguntar e escutar, e
faremos bem em examinar a fonte de tal ceticismo. Apenas se superarmos essas
objeções tradicionais estaremos aptos a fazer psicologia desta maneira sem cair nas
armadilhas óbvias que estragaram, por exemplo, o estudo de Pavenstedt.
As três críticas mais comuns quanto ao perguntar e escutar como técnicas de
pesquisa são, em primeiro lugar, o argumento de que aquilo que ouvimos está tão
crivado das tendenciosidades subjetivas do indivíduo, que tem muito pouco valor
para a psicologia como ciência; em segundo lugar, que uma boa parte do que ocorre
na produção do comportamento não é consciente e que as pessoas não conhecem
realmente, como demonstrou Freud, suas próprias mentes; e finalmente, que aquilo
que as pessoas dizem aos psicólogos antes representa o que pensam que os psicólo­
gos querem ouvir do que qualquer outra coisa. Tomemos cada uma dessas críticas
como parte de nossa busca de uma metodologia viável.4
Ao contrário da segunda e da terceira críticas, a primeira se dissolve imediata­
mente logo que recordamos que são precisamente as “ tendenciosidades subjeti­
vas” , isto é, o modo como as pessoas experienciam os acontecimentos e os seus
horizontes de significação, que queremos explorar. Tais relatos “ tendenciosos”
realmente têm valor quando aspiramos à verdade sobre as assim chamadas tenden­
ciosidades.
A segunda crítica é mais instrutiva. Lidamos com o problema da motivação
inconsciente no Cap. 2, estabelecendo uma distinção entre conhecimento implícito
e explícito. Freqüentemente não estamos explicitamente conscientes do motivo por
que fazemos ou percebemos coisas de maneiras particulares, porém certamente
“ sabemos” em certo sentido como o fazemos, do contrário não o faríamos. Esta
observação, entretanto, não soluciona o problema substantivo de como trazer à
consciência explícita, para que possa ser relatado, esse conhecimento implícito que
com tanta freqüência guia nossa experiência. De fato, o “ inconsciente” , como é
DESENVOLVIMENTO METODOLÓGICO 47

tradicionalmente compreendido, não está longe daqueles fatores que mais nos inte­
ressam, os fatores de horizontes da experiência. Esses estão pressupostos de ma­
neira tão básica e acrítica pela maior parte das pessoas, que indagar sobre eles
algumas vezes faz pouco sentido. Não poderíamos perguntar simplesmente a uma
das mães da pesquisa de Pavenstedt: “ Que horizontes de significação condicionam
sua visão de mundo e sua identidade pessoal de tal modo que você fracassa em ser
sensível naquilo em que fui treinado a ser sensível em relação às crianças?” Tere­
mos de voltar muitas vezes, à medida que nossa metodologia se desenvolve, à ques­
tão de como persuadir pessoas a descrever aspectos da própria experiência aos
quais não estão acostumadas a prestar atenção.
A terceira crítica é talvez ainda mais instrutiva, pois as pessoas realmente dizem
aos psicólogos aquilo que pensam que estes desejam ouvir. Toda a estrutura dos*
papéis do psicólogo e sujeito é uma estrutura de examinador e examinando, espe­
cialmente em nossa cultura, e o mais honesto de nós não poderia resistir à tentação
de dizer coisas que agradassem ao “ examinador” ou nele determinassem uma boa
impressão a nosso respeito. Não é simplesmente uma questão de dizer a verdade.
Há sempre uma quantidade de coisas verdadeiras que dizemos sobre nós mesmos.
Uma vez que tenhamos decidido não mentir ao examinador, ainda lhe diremos
aquelas coisas que parecem ser de maior interesse para ele.
Se pudermos superar a segunda e a terceira críticas, e somente então, estaremos
aptos a progredir por intermédio da técnica óbvia de perguntar às pessoas o que
queremos saber delas. Uma vez que disponhamos de uma abordagem para pergun­
tar e escutar que ofereça alguma esperança de enfrentar tais críticas, poderemos
estar numa posição adequada para ampliar nossos procedimentos, da entrevista a
outras estratégias de observação.

O SUJEITO COMO CO-PESQUISADOR

Como compreendemos os outros na vida diária? Ouvimos e interpretamos seus


“ relatos verbais” acerca do que estão pensando e das razões para fazê-lo e baliza­
mos uma boa parte de nossas vidas na justeza desse procedimento. Também espe­
ramos que os outros levem a sério o que dizemos e em geral podemos dizer quando
não o fazem — e nesse caso nos sentimos insultados. Desejo partilhar o que posso
de minha experiência privada com aquelas pessoas de quem gosto, em quem confio
e que desejam conhecer-me. Tais relacionamentos são comuns, porém muito dife­
rentes daquele entre experimentador e sujeito — eu me teria sentido de forma dife­
rente com relação a Pavenstedt, a qual estabelecia julgamentos de forma severa de
acordo com seus conceitos de saúde e doença mental. A natureza do relaciona­
mento entre pessoas tem, obviamente, um efeito poderoso sobre o que é escutado e
Sobre o que é dito.
Pavenstedt teria tido dificuldades para iniciar relacionamentos confiáveis com
Seus sujeitos. É bastante difícil atravessar fronteiras de classe social e raça; o rela­
cionamento entre examinador e examinando é ainda mais cheio de suspeita e pre­
caução. Já que um psicólogo não deixa de ser um psicólogo quando faz pesquisas, a
dificuldade apontada na terceira crítica parece praticamente insuperável. No en­
tanto, pesquisadores habilidosos têm conseguido fazê-lo, e o tema que tem orien­
tado tais relacionamentos em pesquisa tem sido fazer do sujeito um co-pesquisa-
dor.6 Essa espécie de relacionamento pode ser mais bem discriminada através de
um exame fenomenológico — quais são os horizontes de significação intrínsecos ao
Próprio relacionamento? O que se requer é um acordo claro sobre o que está sendo
visto, o motivo por que isso está sendo visto e o que será feito com a informação.
48 MÉTODO

Tais acordos não são auxiliados por contratos por escrito, e freqüentemente nem
mesmo por contratos verbais. A base crítica de um tal acordo são os indícios sutis
aos quais somds todos sensíveis quando conversamos com outras pessoas. A única
maneira de convencer alguém de que você está de boa-fé é estar de boa-fé. Fazer
uma boa pesquisa psicológica exige uma certa habilidade e uma atitude que não é
encontrada com maior freqüência entre os psicólogos do que entre a população em
geral.7
Uma vez que um pesquisador tenha superado as dificuldades mais óbvias do
relacionamento dentro do qual os dados são obtidos, deve descobrir um meio de
evocar descrições de seu co-pesquisador que o informem sobre aquilo que deseja
saber, sem dizer a seu co-pesquisador o que este deve dizer.8 Que formas de intera­
ção favorecem tal resultado?
Ao meditar sobre este problema cheguei praticamente à conclusão de que o que
é necessário não é o desenvolvimento de técnicas de pesquisa, mas ao invés disso o
desenvolvimento de pesquisadores. O próximo passo no desenvolvimento metodo­
lógico da psicologia fenomenológica talvez deva envolver uma concentração não em
como obter dados e sim em como treinar pesquisadores a serem sensíveis, capazes
de autocrítica e desejosos da verdade. Se um pesquisador busca a verdade de forma
genuína, quererá saber como as pessoas realmente são e não tentará meramente
confirmar sua hipótese favorita. Se um pesquisador é capaz de autocrítica, será
capaz de examinar sua própria experiência, de praticar a variação imaginária e de
prestar atenção nos fenômenos enquanto fenômenos, suspendendo seus juízos
prévios.9 Se um pesquisador é sensível, escutará os horizontes das percepções
alheias conforme lhe são relatados. Este argumento conduz simplesmente à conclu­
são de que treinar pesquisadores é equivalente a ensinar-lhes a “ ser fenomenológi-
cos” no sentido das estratégias gerais descritas no Cap. 3.
Porém tínhamos esperanças de ser mais específicos neste capítulo. Já dissemos
que a atenção aos horizontes não difere muito da questão de caráter lógico “ o que
deve ser verdadeiro quanto ao ser-no-mundo alheio para que me diga isso, con­
forme o diz, neste instante?” Tal influência pode ser feita conscientemente. Mas
devo estar também consciente do fato de que a mesma espécie de compreensão
acerca de meu comportamento está ocorrendo na mente do outro, embora provavel­
mente de modo não tão explícito ou cuidadoso. Não posso perguntar a uma mãe por
que ela fica na cama até o meio-dia e esperar descobrir os horizontes de seu mundo,
pois ela bem pode ouvir a pergunta como uma acusação, compreendendo errada­
mente meus horizontes, mas revelando os horizontes de como entende no momento
nosso relacionamento. Esse acontecimento me revelaria que ela não está sendo uma
co-pesquisadora, assim como alguém que é testado não o é frente a uma autoridade
de julgamento. Que tipos de respostas da minha parte poderiam aumentar sua con­
fiança? Posso captar o aumento, caso ocorra? Posso convencê-la de que estou de
fato interessado unicamente na maneira pela qual ela vê o mundo e de que não
pretendo julgá-la? O que a convence, e o que isso me diz acerca da forma como ela
vê o mundo?
Uma vez que ela se tenha decidido a ser uma co-pesquisadora, ainda que de
forma vacilante, posso validar sua confiança pedindo-lhe para explicar mais deta­
lhadamente nos momentos em que não compreendo, permitindo-lhe saber o que
realmente desejo entender. Posso descrever o que penso que ela quer dizer e
convidá-la a corrigir qualquer imprecisão. Posso deixá-la saber quando na verdade
compreendo; posso expressar minha aspiração de respeitar o seu relato como sendo
a verdade. Posso suspender o juízo moral; ela saberá quando eu o fizer. Posso
oferecer algumas de minhas próprias experiências e de minha compreensão das
DESENVOLVIMENTO METODOLÓGICO 49
mesmas, solicitando que ela as compare com suas próprias experiências e com­
preensão delas. Há uma lista infindável de atividades concretas que posso executar,
algumas mais úteis do que outras. No entanto, o que realmente fará diferença, não
será unicamente o que eu disser, porém também quem e como eu sou, pois ela o
lerá, explícita ou implicitamente, em tudo que eu disser.10
A conclusão desta linha de pensamentos consiste em afirmar que é usualmente
possível convencer as pessoas a confiar em nós se somos de fato dignos de con­
fiança. A “ técnica” crucial que nos permite realizar pesquisas viáveis nesta linha é
ser uma determinada espécie de pessoa.
Não é provável que tal desenvolvimento metodológico pareça convincente
quando estabelecido de maneira tão simples. Trata-se realmente de um assunto muito
complexo. Fazer pesquisa psicológica deve ser a cada passo tão provocante quanto
fazer psicoterapia — um desafio não apenas à nossa ingenuidade no planejamento
da coleta de dados, como também à nossa capacitação para despertar confiança
naqueles que desejamos compreender — e então justificar essa confiança.
O verdadeiro teste de tais estratégias não consiste no fato de parecerem ou não
convincentes quando estabelecidas aqui. O teste está no trabalho e nos resultados
dos pesquisadores. A mais impressionante demonstração recente desta estratégia é
o trabalho de Jules Henry (1971), um antropólogo que passou as horas da manhã de
cerca de uma semana com cada uma de seis famílias, relatando então o que viu e
como interpretou o que viu.
O estudo não necessita de publicidade; fala por si próprio.11 No entanto, alguns
comentários sobre a metodologia de Henry podem esclarecer o difícil problema de
como proceder. Em primeiro lugar, Henry manteve anotações elaboradas daquilo
que as pessoas faziam, do que ele fazia, do que elas pareciam estar sentindo e do
que ele estava sentindo. Em segundo lugar, leu seus próprios dados muitas vezes,
examinou-os minuciosamente e classificou-os de acordo com uma variedade de
perspectivas, mantendo-se sempre crítico a respeito das próprias tendenciosidades
de percepção e de relato, variando as interpretações, abordando o material dos
pontos de vista antropológico, filosófico, sociológico, psicanalítico e outros. Em
terceiro lugar, permitiu que cada perspectiva iluminasse vários aspectos dos dados
até que as pessoas que estava estudando emergissem como pessoas. Perspectivas
múltiplas sempre criam o problema do como relacionar as perspectivas umas às
outras. Para Henry, esse problema foi resolvido pelo simples fato da dona de casa
que estava descrevendo não ser uma entidade múltipla com segmentos antropológi­
cos, filosóficos, sociológicos e psicanalíticos. Pelo fato dela ser uma pessoa, coe­
rente e inteira; a multiplicidade das percepções de Henry nos garante um retrato
pleno e rico; mas nunca é permitido a essa multiplicidade ter prioridade sobre a
coerência do ser-no-mundo de seu sujeito.
Se quisermos apreciar as dificuldades, assim como as possibilidades das estraté­
gias gerais descritas no Cap. 3, nada poderemos fazer de melhor do que nos benefi­
ciar de uma leitura crítica do estudo de Henry.
CAPÍTULO 6

MÉTODOS CLÍNICOS
Quais são os objetivos da psicologia clínica? O diagnóstico e tratamento de indi­
víduos cujos problemas vitais parecem esmagadores. É certo que uma resposta
como esta é correta de acordo com as tradições profissionais, mas ela origina outras
interrogações. O que está envolvido no fato de ver os problemas vitais de alguém
como esmagadores? A resposta mais óbvia gira em torno desse verbo metafórico
ver. A vida parece intolerável. O fato de que alguém veja coisas de certa maneira ou
viva parecendo de certa maneira tem algo a ver com o ato de experienciar. Todos
os conceitos discutidos nas Partes I e III elaboram o que está envolvido no ato de
experienciar.
Podemos, portanto, reformular os objetivos da psicologia clínica numa forma
mais precisa. O procedimento de diagnóstico é aquele em que um indivíduo pode
chegar a perceber mais claramente o modo pelo qual vê as coisas, a maneira como o
mundo lhe parece. O procedimento de tratamento é aquele em que uma pessoa é
capaz de descobrir maneiras alternativas de ver as coisas, de interpretar o mundo e
de ser-no-mundo.1

MARIE, UMA MULHER ATORMENTADA

Suponha que Marie, uma mulher de vinte anos, apareça no consultório de um


psicólogo clínico buscando ajuda para um problema pessoal que lhe parece insu­
perável. Relata que tem estado namorando um colega de escola, Jim, por muitos
meses, que se apaixonou por ele e ele por ela, mas que no momento está obcecada
pela idéia de que ele está gostando de outra pessoa ou encontrando-se com outras
mulheres. Acredita quando ele reafirma seu amor por ela, mas as suspeitas conti­
nuam a voltar, e começou a vigiá-lo e nunca parece deixar de precisar das expres­
sões de lealdade por parte dele, que cada vez são mais solicitadas. Jim está ficando
impaciente com ela; ela sabe que está sendo irracional, mas não é capaz de conside­
rar as coisas como são. Quando compelida a esclarecer o que deseja de diferente,
só é capaz de dizer que deseja “ estar segura em relação a ele” , embora saiba que
não há motivo razoável para não estar tão segura quanto a situação autoriza.
Se você fosse o psicólogo clínico a quem Marie estivesse solicitando ajuda, o
que faria ou deveria fazer? A tarefa primeira e central seria compreendê-la e ajudá-
la a se compreender. Em termos do que estabelecemos quanto aos objetivos da
psicologia clínica, isto significa ajudá-la a perceber com maior clareza o modo pelo
qual está vendo o mundo e as opções que existem no sentido de ver o mundo e
ser-no-mundo.
50
MÉTODOS CLÍNICOS 51
Neste capítulo, descreveremos de maneira breve algumas abordagens clínicas
adequadas a estes objetivos e o modo pelo qual poderiam ser úteis a Marie. Em
seguida, abordaremos a avaliação psicológica.

TEORIAS EM PSICOTERAPIA

Carl Rogers (1942v 1961) faz recomendações específicas quanto à criação de um


campo terapêutico ótimo, e assim procede com base no modo pelo qual com­
preende a personalidade em geral. Vamos descrever primeiramente essa compreen­
são da personalidade, que emergiu do trabalho terapêutico com indivíduos e da
observação de tal processo com uma atitude que tem algo de fenomenológica.
De acordo com Rogers, as facetas mais importantes de uma pessoa pertencem
unicamente a ela. Duas pessoas podem apresentar desempenhos que, do exterior,
parecem ações idênticas ou similares, porém o aspecto mais importante de qualquer
ação é aquilo que significa para o indivíduo. A significação de acontecimentos que
se iniciam ou estão em curso deve ser considerada do ponto de vista da pessoa que
os inicia ou os mantém. A perda de uma pessoa amada, portanto, não significa a
mesma coisa para qualquer pessoa que passe por isso, e qualquer ato de revolta que
se possa seguir não significa a mesma coisa para todas as pessoas que reajam dessa
maneira. O centro de significação reside dentro de cada um de nós2, e, se desejo
entender você, devo saber o que suas perdas e suas revoltas significaram para você.
De acordo com os conceitos de Rogers (1951), o mundo experiencial próprio do
indivíduo fórma um sistema e seu organismo forma um outro sistema; ocorre uma
Psicopatologia quando os dois sistemas trabalham com propósitos opostos. Se, por
exemplo, meu comportamento de revolta posterior à perda de uma pessoa amada
significa para mim apenas o fato de que^estou procurando o que quero e mereço,
estou-me iludindo por excluir a raiva corporal, do organismo, da interpretação que
faço de mim mesmo. Há muitas ocasiões nas quais temos interesse em não encarar
alguma coisa que realmente sentimos. Logo, é fácil ver a ampla aplicabilidade da
abordagem rogeriana na compreensão de uma pessoa com problemas.
A tarefa terapêutica é trazer as significações implícitas, como o fato de sentir
raiva, à consciência explícita. Portanto, o resultado mais importante da terapia, de
acordo com Rogers, é a auto-aceitação. Inerente a todos os problemas pessoais
existe uma rejeição de alguma parte de nós, a qual é real demais para ser ignorada,
mas inaceitável demais para ser admitida — inaceitável porque todos nós nos preo­
cupamos em manter nossos conceitos de nós mesmos.3
Todas as recomendações de Rogers aos terapeutas são planejadas para criar
uma situação na qual possa ter lugar a auto-aceitação. O primeiro requisito é de que
o terapeuta aceite incondicionalmente o paciente. Tal aceitação cria um campo no
qual o cliente se sente igualmente compreendido e aceito. Muitas das situações de
nossa vida diária se apresentam de tal forma que nelas somos aceitos, mas tememos
o fato de que não o seriamos caso fôssemos realmente compreendidos. Ou se apre­
sentam de tal modo que nelas somos compreendidos, e por conseguinte não somos
aceitos (pelos pais, professores, amigos). O campo terapêutico de Rogers, em sua
textura e estrutura, parece convidar a manifestar o pior que temos para oferecer,
testando assim a noção de que não somos realmente aceitáveis do modo como so­
mos. A atmosfera é de confiança, responsabilidade, calor e segurança, sustentada
pela consideração incondicional do terapeuta.
52 MÉTODO

No exemplo de Marie, Rogers tentaria compreender os aspectos únicos do modo


pelo qual ela vê o mundo e a si mesma dentro dele. Não suporia que o “ ciúme” é
sempre a mesma coisa, mas, pelo contrário, buscaria o padrão de significações que
caracteriza a experiência de Marie na qualidade de experiência única. No entanto,
suporia que Marie também estava experimentando outros sentimentos, os quais po­
deriam participar de seu sistema orgânico, mas que não têm lugar no conceito habi­
tual que ela possui de si mesma. Por exemplo, Marie poderia muito bem estar “ de­
primida” , bastante culpada e aborrecida consigo mesma — no sentido em que suas
respostas corporais com freqüência reproduziam aquelas próprias de sua mãe no
momento em que o pai havia abandonado a família, há anos atrás. Embora a mãe
tivesse ficado manifestamente “ deprimida” e culpasse a si própria pela partida do
marido, Marie sempre se viu como alegre e autoconfiante. Por conseguinte, não é
capaz de se imaginar como a mãe na situação precedente, embora seja de algum
modo semelhante a ela e na verdade tenha sido assim desde que o pai partiu.
Os sentimentos que Marie tem sobre si mesma, tais como o medo de que não
possa sustentar um relacionamento com um homem, são também sentimentos que
não pode admitir para si mesma. Tais “ sentimentos” não estão apenas “ dentro de”
Marie; eles permeiam a maneira pela qual ela vê o mundo e se relaciona com ele.
Porém suas percepções explícitas de si própria e de Jim não permitem que tais
significações “ inaceitáveis” se tomem claras, pois está empenhada em não ser
como a mãe. Está portanto fechada para aspectos importantes da própria experiên­
cia. Está apavorada com o fato de que aquilo que aconteceu com a mãe possa
acontecer com ela, mas o que não vê propriamente é que na realidade é semelhante
à mãe e sabe que o é, num nível de experiência obscuro para ela mesma. Seus
sentimentos de ser indigna de amor, de merecer ser abandonada, de fracassar onde
pensa que a mãe fracassou estão escondidos da compreensão explícita que tem de si
mesma e do mundo, porém apesar de tudo estão implicados em todas as percepções
que tem de Jim quando este ocasionalmente lança olhares para outra mulher.
A terapia rogeriana forneceria uma arena interpessoal na qual Marie não preci­
saria mais manter seu conceito de si própria como alegre, autoconfiante e, em úl­
tima análise, diferente da mãe. Facilitada pela aceitação positiva incondicional de
Rogers, poderia começar a explorar suas percepções de Jim, de si mesma e da mãe
— sabendo que ao menos seu relacionamento com Rogers não entraria em colapso
caso se abrisse mais profundamente à própria experiência. Poderia mesmo chegar a
entender melhor a mãe, a aceitar que a vida desta não era um fracasso total, a ver
que o fato de se assemelhar à mãe não era uma tragédia completa e a entender que
sua percepção de Jim envolvia horizontes de significação quanto aos quais não pre­
cisava ficar apavorada, nem ser totalmente crédula. Mais do que tudo isso, chegaria
a aceitar os próprios sentimentos de desvalorização simplesmente como sentimen­
tos que possuía, não como aspectos de si própria dos quais se deveria envergonhar
ou como sinais de que não teria valor.
De acordo com George Kelly (1955), assim como para Rogers, é o ponto de vista
individual que conta. Mas Kelly elaborou uma teoria diferente para entender esse
ponto de vista. Um constructo é uma categoria de significação por meio da qual
construímos a nós mesmos e ao mundo. Os constructos de uma pessoa são organi­
zados através das tentativas dela para entender e controlar seu mundo, e essa orga­
nização constitui um mapa pessoal do mundo. De acordo com Kelly, a essência da
terapia é revelar modos alternativos de construir o mundo. Tal processo nos faculta
opções para movimento dentro do espaço pessoal que tinham sido encobertas pela
maneira pela qual o indivíduo vê as coisas.
MÉTODOS CLÍNICOS 53
A melhor maneira de entender o que significa para Kelly um constructo é obser­
var a forma engenhosa pela qual estabelece os constructos de um indivíduo. Su­
ponha que eu lhe forneça três itens, uma bicicleta, uma motocicleta e um automó­
vel, e lhe peça para classificar dois deles como semelhantes e diferentes do terceiro.
Para completar a tarefa, você poderia usar critérios tais como ter duas rodas, ter
motor e ser algo que sua família possui. Pode ser que não tenha preferência por
qualquer um dos três grupamentos possíveis. No entanto, se eu lhe pedir que faça
uma lista das seis pessoas mais importantes de sua vida e que realize a mesma
tarefa uma vez para cada um dos grupamentos possíveis de três pessoas dentre
essas seis, obterei uma boa noção.das categorias destacadas de significação (cons­
tructos) que controlam a construção de seu espaço social. Além do mais, embora a
tarefa pareça muito intelectual, a tonalidade emocional de nossa experiência vivida
estará em jogo exatamente como ocorre na construção habitual que fazemos do
mundo.
Suponha que Marie viesse a participar do exercício de classificar dois semelhan­
tes e um terceiro diferente em cada combinação possível de três pessoas dentre
exatamente quatro pessoas: o pai, a mãe, o namorado e ela mesma. Os resultados
bem poderiam ser similares aos do quadro seguinte.

*
mãe mãe
pai Jim
Jim pai

mãe mãe
pai eu
eu pai

pai Jim
Jim pai
eu eu

mãe Jim
Jim mãe
eu eu

O que ela teria feito aqui seria usar o critério único da idade em todas as situações,
tendo sido a tarefa realizada de modo muito mecânico e sem sutileza. Kelly enten­
deria que tal abordagem da tarefa é, em certo sentido, simplesmente óbvia, mas, em
outro sentido, pouco representativa da maneira pela qual Marie vê as pessoas. Uma
segunda realização da tarefa poderia estar baseada no critério mecânico de sexo. Se
Marie viesse a realizar a tarefa outra vez de forma mecânica, Kelly lhe pediria para
a realizar ainda uma terceira vez, não necessariamente, com resultados diferentes,
porém usando critérios diferentes. Que critérios ela escolheria? Eventualmente
abandonaria critérios superficiais como altura, peso e compleição — se insistisse
54 MÉTODO

em usá-los — e teria de focalizar aspectos de como os indivíduos aparecem para ela


e daquilo que significam para ela, aspectos que são mais de horizonte e menos
focais. Por exemplo, poderia classificar seu pai e Jim como semelhantes e diferentes
de sua mãe com base no que chamaria de “ independência” . O que “ independên­
cia” significa para ela e por que as pessoas têm tal significação? Quem mais possui
essa significação? Ela vê a si mesma como independente?
O efeito desse exercício é, claramente, abrir Marie a uma consciência explícita
dos horizontes de significação que, embora implícitos, estão percorrendo sua vida e
restringindo repetitivamente o modo pelo qual ela constrói o mundo. Critérios tais
como “ eles não gostam de mim” ou “ eles me põem nervosa” emergirão na quali­
dade de aspectos relevantes do modo pelo qual ela percebe pessoas importantes e
de dimensões cruciais de sua vida experiencial. A ordem e o padrão de sua vida
experiencial e de seu comportamento interpessoal chegarão a um foco vivido e ela
aprenderá o que já sabe, mas não Sabe que Sabe. Aprenderá como Sabe o que pensa
que sabe e o verá como encravado em seu estilo perceptual.
A característica global do exercício de Kelly é, finalmente, esclarecer que exis­
tem maneiras alternativas de perceber pessoas — ou melhor, de construir o mundo
e, conseqüentemente, de estruturar aquele espaço interpessoal dentro do qual vi­
vemos e nos movimentamos todos os dias. Poderia ter sido fácil dizer a Marie que
ela não precisava ver o namorado como ela via o pai, mas dizer simplesmente isso
teria tido pouco efeito. Seria como dizer a uma pessoa deprimida que não precisava
ficar deprimida. No entanto, quando tal percepção se revela como parte de um
padrão, do padrão de Marie, de seu mundo perceptual e experiencial, e quando ela
vê o que e como percebe, então essa escolha de como ver o namorado é uma
questão muito diferente. Temos aqui quase uma rotina que pode ensinar as técnicas
da redução fenomenológica e da variação imaginária (Cap. 4) a fim de perceber mais
claramente o que, como e por que vemos do modo como vemos.
A estrutura de nosso mundo vivido envolve muito mais do que constructos in­
terpessoais. Uma análise mais completa do mundo de alguém está contida na psico­
logia de Ludwig Binswanger (1953, 1958b, 1963). As formas básicas da existência
humana são descritas por Binswanger em termos de três mundos diferentemente
estruturados, ou paisagens, que fornecem os horizontes para nosso ser pessoas de
algum modo: o mundo do ar, o mundo debaixo da terra e o mundo sobre a superfí­
cie da terra. Não diríamos que conhecemos esses mundos; eles formam o contexto
estrutural dentro do qual nosso conhecer (ou sentir, agir ou ser) tem lugar. São
horizontes.
O mundo do ar é uma paisagem definida na qual algumas Vezes somos total­
mente e na qual sempre somos em parte. São inúmeras as possibilidades. Os limites
estão ausentes. O tempo corre velozmente, partindo rapidamente em direção ao
futuro, fazendo surgir imagens gloriosas do que poderia ser. O idealismo é reali­
dade. A sensação corporal de voar como voa um pássaro, livre das restrições terre­
nas, de jovialidade e de energia sem limites, combinada com uma disposição oti­
mista desenfreada e com a cognição de fantasia utópica, todas essas sensações pro­
duzem, juntas, um mundo em que nosso ser-no-mundo paira com a criatividade e a
espontaneidade da própria vida.
A estrutura do mundo debaixo da terra, que está subjacente a uma forma dife­
rente de ser-no-mundo, é de necessidades. O tempo passa de modo estável e ine­
xorável, e a passagem do tempo conduz apenas ao envelhecimento, ao escoamento
da vitalidade, ao apodrecimento, ao enferrujamento ou à decomposição em simples
matéria inerte. O self do indivíduo é pesado, como um corpo em sua intransigência
ponderosa, pesada, substancial. A disposição é de tipo pessimista. A escuridão da
MÉTODOS CLÍNICOS 55
sepultura, a umidade do túmulo, o confinamento sufocante de estar debaixo da terra
— sem lugar, sem espaço, sem liberdade, sem movimento — caracterizam esse
mundo. Estamos presos, e é impossível escapar dos confmamentos da necessidade.
A única mudança que o tempo traz é a deterioração progressiva a partir de dentro e
o esmagamento por um peso inexorável a partir de fora.
Esses dois mundos são os mundos de cada um de nós quando estamos em certos
estados de humor. O que é um humor? Experiencialmente, não é um estado de
coisas fisiológico; é uma maneira de ser-no-mundo.
O mundo que se ergue, ou galga a superfície da terra, é o mundo da ação
prática. Todos nós devemos de algum modo conciliar o vôo da imaginação com o
domínio do possível, com os limites da finitude humana e com o domínio do ne­
cessário. No mundo da superfície da terra, tomamos o possível e o temperamos
com o necessário e tomamos o necessário e o vitalizamos com o possível. O ser
humano no mundo transforma ambos: devo morrer algum dia, mas estou vivo hoje:
hoje estou vivo, mas morrerei algum dia; meu amor por você é ilimitado, mas devo
despender tempo realizando o trabalho do mundo; devo despender tempo fazendo o
trabalho do mundo, mas esse trabalho e esse mundo se fazem significativos por meu
amor ilimitado por você. Em sua análise de Ellen West, Binswanger demonstra que
essas três formas de existência humana têm uma presença correta no mundo expe-
riencial de todos nós.
Voltando ao exemplo de Marie, vemos que a abordagem de Binswanger não é
uma técnica para revelar horizontes implícitos#de experiência; ao contrário, é uma
teoria relativa a horizontes que estão universalmente presentes na experiência hu­
mana. É uma filosofia do homem, dos estados de humor e da terapia. Implica que a
situação existencial seja uma das possibilidades dentro de uma estrutura de neces­
sidades, de opções dentro de limites. Em qualquer dado momento, as possibilidades
podem constituir tudo o que aparece, enquanto que, em outro momento, podem
aparecer apenas as necessidades — de acordo com nosso humor. Porém os humo­
res são paisagens, mundos completos que, em suas formas extremadas, bloqueiam
ou as possibilidades ou as necessidades, ficando a outra opção como a única que
existe. Recobrar a perspectiva das possibilidades dentro de uma estrutura de neces­
sidades não é voar solto no ar, nem prostrar-se abaixo do solo; é ser um ser hu­
mano, fiel à situação existencial na quál tanto as aspirações como as prostrações
são fatos da vida. Marie, na verdade, tem algum controle sobre sua vida, e de forma
mais evidente sobre si mesma, mas não tem realmente controle total sobre as coisas
que lhe aconteceram ou lhe podem acontecer. Nem o sonho de total segurança com
Jim nem o pesadelo da inevitabilidade da traição constituem a história completa.
Além do mais, não é apenas o futuro com Jim que está em pauta. Seu ser e seu
mundo inteiros estão expressos no relacionamento problemático. Dos “ outros"’ de
Kelly, Binswanger generaliza para o “ mundo” .
Existem, é claro, muitas outras formas fenomenológicas ou quase fenomenoló-
gicas de fazer Psicoterapia.4 A. Barton (1974), entretanto, usou a fenomenologia
não como uma técnica, uma finalidade ou uma filosofia da terapia, mas como um
instrumento de pesquisa. Ao descrever o espaço, o tempo e os acordos que real­
mente ocorrem nas terapias de Freud, Carl Jung e Carl Rogers, Barton mostrou que
todo terapeuta tem uma teoria, e que esta opera de certos modos cruciais em toda
Psicoterapia. Ela estrutura os gestos e posturas do terapeuta, demarca as possibili­
dades e as necessidades da relação terapêutica, e da vida, em última instância. E ela
oferece uma ordem na qual o paciente inicialmente experiencia a desordem. A
“ teoria” não é aqui um conjunto de proposições articuladas, embora estas sejam
importantes; a “ teoria” é vivida pelo terapeuta e, em última análise, pelo paciente,
56 MÉTODO

como uma visão da vida e da verdade que pode fazer com que problemas aparente­
mente insolúveis se tomem compreensíveis e tratáveis.
Como tanto o paciente quanto o terapeuta freqüentemente não estão conscientes
do que Barton chama “ o poder-transformador-de-ter-uma-teoria” , tendem, no calor
da ação terapêutica, a negligenciar o fato de que a “ realidade” , com relação à qual
estão tão vivamente de acordo, é uma questão de perspectiva e não uma realidade
“ objetiva” . Um estudo fenomenológico como o de Barton revela aquilo que a “ ati­
tude natural” da maioria dos terapeutas e pacientes não pode revelar — que exis­
tem muitas percepções viáveis da vida e da verdade em nossa cultura, as quais
podem aperfeiçoar aquela que o paciente de início traz para a terapia. O auxílio
crucial de todas as terapias está em ajudar o paciente a descobrir uma abordagem
viável, e não em chegar a uma “ verdade objetiva” sobre as relações humanas e o
comportamento.
Colocada em outros termos, a fenomenologia habilita Bartoh a adotar certa ati­
tude (a redução fenomenológica), que por sua vez o habilita a ver a psicoterapia de
forma mais clara do que esta é vista na atitude natural. Isto é, a maioria dos tera­
peutas está comprometida com teorias particulares, visões da vida e da verdade, e
estilos de levar em conta as exigências do viver e do fazer face ao que deve ser
enfrentado. Esse comprometimento não é uma coisa má — na realidade é uma parte
crucial da própria terapia. Porém leva o terapeuta a supor que sua versão da reali­
dade corresponde àquilo que é “ realmente real” . Esta suposição é exatamente o
que Edmund Husserl definiu com*o “ a atitude natural” .
Perceber, no caso de Marie, como ela percebe o mundo, e, no caso de Barton,
como os terapeutas percebem o mundo, é, em ambas as situações, adotar uma pers­
pectiva especial a fim de fazer o escrutínio da vida experiencial de todos os dias. A
perspectiva especial é a “ redução fenomenológica” ; e nossa vida experiencial diá­
ria é conduzida com base na “ atitude natural” . Em essência, Barton está tentando
fazer para os psicoterapeutas o que estes tentam fazer para seus clientes: tomar
claros os horizontes de significação que estão imersos na experiência diária. Natu­
ralmente, seja no trabalho com pacientes, seja naquele com terapeutas, o fenomeno-
logista depara-se com uma tarefa difícil. A única razão para tentar cumpri-la re­
pousa, de algum modo, na convicção de que os horizontes de significação na expe­
riência de uma pessoa contêm os fatores cruciais que devemos compreender caso
desejemos entender o comportamento humano.
No entanto, ao mesmo tempo a fenomenologia também é, em outro sentido,
uma teoria, uma visão, e um estilo. O que a toma diferente é sua consciência do
poder transformador, e mesmo do papel central da teoria, visão e estilo. Ela não
entende qualquer destes fatores como proposições sobre a verdade objetiva. Está
voltada para o modo pelo qual estes três fatores se tornam vividos, tanto pelo pa­
ciente como pelo terapeuta, e considera que a mudança no modo pelo qual alguém
^-no-mundo é a essência da psicoterapia.
Enquanto estilo terapêutico, a fenomenologia também visa a aplicar direta e
especificamente este insight relativo ao papel central da teoria, visão e estilo à vida
diária — aquilo que Rogers, Kelly e Binswanger tentariam fazer por Marie. Esta
focalização no ser-no-mundo do paciente, conforme é por ele vivido todos os dias,
afasta-se bastante das visões mais especializadas de outras terapias e tenta trabalhar
precisamente com quem o próprio paciente é e com o modo como o é. Também
encoraja o paciente, bastante explicitamente, a concentrar-se nesse mesmo nexo
crucial — o modo como ele é todos os dias — em lugar de dirigir-lhe a atenção para
as “ realidades” provocativas, mas esotéricas, das terapias tradicionais.
MÉTODOS CLÍNICOS 57
DIAGNÓSTICO PSICOLÓGICO
Que espécie de compreensão poderia emergir caso Marie fosse aconselhada por
seu médico a se submeter àquilo que ela pensa dever ser a visão de raios X de um
psicólogo? C. T. Fischer (197l) comparou tal situação com uma fenomenologia da
invasão de privacidade e concluiu que essa rotina bem poderia produzir uma pos­
tura temerosa e defensiva, se não raivosa e ofendida. Esta postura, em todos os
seus aspectos, é freqüentemente tomada como constituindo os esperados sinais de
Psicopatologia. Talvez a testagem psicológica seja uma profecia auto-realizada; tal­
vez seja, em primeiro lugar, uma má idéia.
Entretanto, se mantivermos em mente que o diagnóstico é na realidade uma
tentativa de esclarecer aquilo que as coisas significam para alguém, neste caso a
rotina não precisa ser de submissão ao diagnóstico. Pode ser uma oportunidade
para aprender algo sobre o modo como se vê o mundo, junto com uma pessoa que
possui alguns instrumentos para trazer à luz os pontos de vista pessoais. Há, por­
tanto, certos tipos de coisas que o psicólogo pode fazer para transformar uma situa­
ção apavorante numa situação cooperativa, na qual tanto o psicólogo como o
cliente têm o objetivo comum de compreender melhor o cliente. Fischer (1970) su­
gere, em primeiro lugar, que o indivíduo que está sendo avaliado e o psicólogo
devem previamente entrar em acordo sobre o motivo pelo qual ambos estão lá, o
que desejam extrair da experiência e como procederão; em segundo lugar, que o
psicólogo deve explicar suas impressões e convidar o cliente a comentá-las,
modificá-las, expandi-las e relacioná-las com o que julgar importante; em terceiro
lugar, que o psicólogo deve escrever seu relato numa linguagem que o cliente possa
compreender, pedindo a seguir que este o leia, dite suas reações e explique sua
visão dessas questões importantes — estas contribuições destinam-se a ser coloca­
das em apêndice ao relato escrito ou, melhor ainda, a fazer parte dele; e em quarto
lugar, que a pessoa avaliada deve ser a única a decidir quem deve ter acesso ao
relato.
Esta abordagem do diagnóstico psicológico não dá apenas segurança à pessoa de
que seus direitos legais e morais serão respeitados; também toma sua experiência
vivida de modo sério o bastante para tomá-la o tribunal de qualquer desacordo.5
Focaliza as significações dos acontecimentos, tanto nos materiais de testagem
quanto no mundo diário da pessoa, assim como a forma pela qual estão organizadas
em seu ser-no-murido total.

UMA PSICOLOGIA CLÍNICA FENOMENOLÓGICA


Depois de nossa breve aproximação à psicoterapià e ao diagnóstico, vamos ten­
tar clarificar, em termos do presente livro, algumas idéias sobre a psicologia clínica
fenomenológica em geral. Dissemos no Cap. 4 que a atenção aos horizontes é uma
parte crucial da compreensão de uma pessoa individual. Esta estratégia foi descrita
como algo que o investigador pode fazer, e foi aproximada do processo de inferên­
cia lógica. Em nossa discussão presente da psicologia clínica, fica claro, em pri­
meiro lugar, que ela é também algo que o cliente pode aprender a fazer por si
próprio e, em segundo lugar, que, para ele, fazer isso não envolve qualquer coisa
semelhante a uma inferência, mas, ao contrário, é uma abertura de si mesmo à
própria experiência vivida.
Os objetivos críticos da psicologia clínica podem ser atingidofe auxiliando pessoas
a chegar a um contato intenso com a própria experiência vivida.6 Como a psicologia
clínica pode chegar a fazer isto? A estruturação cuidadosa do campo terapêutico,
58 MÉTODO

conforme sugerido por Rogers, de modo a produzir auto-aceitação, é uma aborda­


gem útil. O estabelecimento sistemático dos constructos interpessoais operantes de
Kelly é outro. A tentativa de Binswanger de focalizar as paisagens universais da
experiência vivida oferece ainda outra maneira de ajudar o cliente a prestar atenção
nos horizontes da própria experiência. Na abordagem do diagnóstico realizada por
Fischer, o indivíduo que está sendo avaliado aprende tanto quanto o psicólogo a
respeito de sua própria experiência vivida. Podemos também dizer que uma explo­
ração sistemática da fisionomia do campo, de alguém no tempo e do tempo em
alguém, e dos acordos interpessoais (Caps. 7-9) pode ser uma abordagem de nossa
tarefa. Todas estas técnicas clínicas são planejadas para facultar ao indivíduo o
acesso à experiência conforme experienciada.
PARTE
m
ALGUNS
HORIZONTES
UNIVERSAIS
CAPÍTULO 7

FISIONOMIA
DO CAMPO
O comportamento deve ser sempre entendido no contexto do campo perceptual
dentro do qual ocorre. Um campo perceptual, recordamos, deve ser descrito em
termos da experiência vivida, porque é esta que, estruturando-se a si própria, in­
tegra todas as significações nas quais estamos interessados. Podemos analisar um
campo experiencial em horizontes e em horizontes de horizontes, como fizemos no
Cap. 1, e podemos vinculá-lo ao contexto mais amplo do ser-no-mundo, como foi
feito no Cap. 2. No entanto, um campo tem seu próprio nível de organização. Essa
organização pode ser mais bem examinada através da descrição da fisionomia do
campo!1
A fisionomia de um campo é uma parte poderosa de nossa experiência. Podemos
observá-la com facilidade em nossa própria experiência, e, com alguma prática,
somos também capazes de “ vê-la” na experiência de outra pessoa.2 Suponha que
você caminha pelo interior de um auditório. Pode observar as fileiras de cadeiras
segundo uma espécie de ordem centrada no palco. O cenário consiste em um con­
junto de linhas e em uma demarcação do espaço tal que somos “ atraídos em dire­
ção” ao pódio da plataforma. Se o auditório estiver vazio, haverá nele um clima de
cidade fantasma.
Fisionomicamente, um auditório é bastante diferente quando está cheio de pes­
soas que esperam com impaciência a chegada de um conferencista famoso. Talvez
haja ainda alguma coisa faltando, mas desapareceu a atmosfera lúgubre, fantasma­
górica. Quando cheio, o auditório anuncia um futuro imediato que aguardamos.
Quando vazio, adquire uma qualidade intemporal que dá à experiência um sabor
sinistro. A atmosfera plena, de expectativa, é ainda diferente daquela que se dá no
mesmo auditório imediatamente depois da conferência, quando todas as pessoas
estão saindo. Tal campo perceptual tem um movimento que nega a força direcional
do próprio aposento, que nos empurra em direção ao palco. Claro que o movimento
é compreensível para nós, em virtude da experiência temporal de “ ter ouvido a
conferência” , e essa dimensão temporal impede que os dois Vetores contraditórios
da fisionomia constituam uma anomalia. Se chegamos às 20 horas, pensando que a
conferência começará nesse horário, e descobrimos que todas as pessoas estão
saindo (porque ela realmente começou às 19 horas), nossa percepção fisionômica é
anômala. Nosso horizonte temporal dè expectativa não permite então que o movi­
mento de saída faça sentido imediatamente.
Essas experiências, assim como centenas de outras experiências diárias seme­
lhantes, demonstram como os horizontes temporal, espacial e interpessoal estão
61
62 ALGUNS HORIZONTES UNIVERSAIS

sintetizados na fisionomia de um campo. Porém essas experiências particulares são


apenas exemplos. Até certo ponto, são provavelmente compartilhadas por todos
nós, e conseqüentemente não nos informam sobre a maneira pela qual as pessoas
experienciam fisionomias diferentes, até mesmo num aposento comum. Para algu­
mas pessoas, todo aposento é um auditório no qual todos estão orientados para o
palco no qual elas se encontram. Para outras, um aposento cheio de pessoas não é
um palco, a não ser que algo aconteça e o tome tal coisa. Uma modificação fisio­
nômica como esta ocorre quando, por exemplo, cometemos uma gafe em uma festa,
ou quando o coordenador de uma reunião subitamente nos pede para comentar o
problema do grupo naquele momento. Alguns de nós dispõem as coisas de modo a
fazer com que tais mudanças aconteçam. Podemos responder à fisionomia ficando
cronicamente embaraçados, ou conscientes de nós mesmos, ou fascinados pelo
palco e exibicionistas. As diferenças entre o meu campo fisionômoco e o seu, e
entre o que eu e você podemos fazer para manipulá-las, dependem da estrutura
mais ampla de nossa experiência e orientação para o mundo. Para alguns de nós,
qualquer situação social é uma plataforma, para outros, um embaraço. Estrutura­
mos nossos campos de maneiras que nos caracterizam de forma pessoal. Nós o
fazemos em nossa experiência — percebendo situações de tal e qual maneira. E o
fazemos em nosso comportamento — dando tal ou qual forma às situações, nas
quais nos colocamos, então, comportalmente.3

ESPAÇO CONCRETO E ABSTRATO


Vamos refletir sobre a fisionomia do campo de uma quadra de handball, uma
quadra de tênis ou uma m esa de pingue-pongue. Tal campo percentual-
comportamental requer reações instantâneas e, conseqüentemente, é provável que
nossa compreensão da estrutura do espaço esteja “ em nossos ossos” , ou em nossos
músculos, em nossos corpos. Podemos sentir em nossos corpos quando o espaço
nos atrai para cá ou para lá. Com freqüência respondemos a indícios perceptuais,
tais como os movimentos do adversário, sem pensar sistematicamente nas possibi­
lidades. Tal tendência permite que um adversário esperto nos engane com seu mo­
vimento, sugerindo que vai fazer uma coisa e fazendo uma outra, e, portanto,
deslocando-nos de posição. Ao jogar contra um adversário malicioso, aprendemos a
ignorar suas sugestões e a evitar responder de modo prematuro. Tal aprendizagem
envolve uma transformação em nosso campo perceptual, que vai de uma estrutura
espacial concreta, estabelecida pelos movimentos preliminares do adversário, a
uma estrutura abstrata de possibilidades — até que ele se tenha comprometido na
rebatida da bola. Quando os movimentos preliminares indicam que ele vai rebater a
bola para um certo lugar, esse lugar nos atrai e nos movemos em direção a ele. A
atração em direção a tal parte preferencial da quadra é a estrutura estabelecida por
nossa percepção dos movimentos preliminares. Depois que aprendemos a ignorá-
los, a quadra inteira permanece um espaço de possibilidades idênticas, um espaço
hipotético que só se toma real quando o adversário se compromete ao rebater a
bola.
A distinção entre os espaços abstrato e concreto é muito importante para a
compreensão da fisionomia de um campo e do papel da mesma em nosso compor­
tamento. Há anos um paciente com lesão cerebral chamado Schneider se tomou
famoso através de A. Gelb e K. Goldstein (1931), que publicaram uma análise deta­
lhada de seu comportamento. Schneider demonstrava uma certa espécie de com­
preensão espacial: era capaz de atingir, com a mão direita, um mosquito pousado
em seu braço esquerdo. Tal ato bastante concreto demonstrava a compreensão de
um campo concreto de movimento que também estava presente na habilidade do
FISIONOMIA DO CAMPO «3
paciente para atender ao telefone que tocava, quando este estava presente em seu
campo visual, e para manipular ferramentas corretamente. Gelb e Goldstein chama­
ram de greifen, que significa “ segurar” ou “ tocar” , a essa espécie de comporta­
mento, que é uma apropriação corporal do espaço em termos bastante concretos.
Em contraste, Schneider era incapaz de apontar seu braço esquerdo com o dedo
indicador direito quando lhe solicitavam que o fizesse. Tal comportamento, cha­
mado pelos pesquisadores de zeigen, que significa “ mostrar” , ocorre num espaço
experiencial diferente daquele espaço corporalmente concreto do “ segurar” ou
“ tocar” . “ Mostrar” requer a construção de um espaço abstrato, tridimensional, no
qual há esquerda e direita, braços e dedos, e a possibilidade de acompanhar esse
mapa abstrato de correspondências entre comportamento motor e instruções. O
espaço envolvido no ato de “ mostrar” não é vivido por nós no sentido corporal
pelo qual experienciamos uma quadra de tênis ou manipulamos concretamente obje­
tos significativos como ferramentas. De modo semelhante, Schneider não era capaz
de realizar os movimentos hipotéticos de pegar o telefone ou de representar o uso
de ferramentas quando estes não estavam concretamente presentes. Tais habilida­
des exigem a formulação de um espaço hipotético que não está assinalado por obje­
tos presentes visualmente nem está na verdade submetido ao ato concreto de segu­
rar. Compare a experiência de atos concretos que realizamos distraidamente, como
coçar uma parte do corpo, e a de apontar para a narina esquerda com o quinto dedo
da mão direita, e você perceberá a diferença entre greifen e zeigen.
O espaço abstrato é o espaço da possibilidade. Em imaginação, posso construir
possibilidades que habitualmente não são reais, mas para fazê-lo devo abstrair do
espaço visual concreto, ou situação, certos princípios constantes ou regularidades
que definem os limites dentro dos quais pode haver variação, e imaginar então uma
variação que não esteja concretamente presente. O espaço concreto, em contraste,
está limitado à realidade. Na medida em que meu espaço permaneça concreto,
posso pegar um telefone real, mas não um telefone possível. Não existe “ telefone
possível” no espaço concreto; apenas aqueles objetos para os quais me posso orien­
tar em termos corporais e motores estão num espaço concreto.
Ao jogar handball ou tênis, precisamos de reações instantâneas. Porém, para
jogar esses jogos bem, devemos ir além do espaço concreto fisionomicamente dado
e manter a quadra inteira como um campo de possibilidades até que nossos adver­
sários realmente se comprometam na rebatida da bola. Do contrário seremos apa­
nhados pelos movimentos preliminares, tapeações, gestos e posturas planejadas
para nos iludir. Schneider teria sido provavelmente um péssimo jogador de tênis,
pois sua habilidade para sustentar um espaço hipotético frente aos indícios sensíveis
que revestem um campo fisionômico estava impedida por sua lesão cerebral. As
possibilidades não apareciam para ele, apenas as realidades. As possibilidades exi­
gem um espaço hipotético, um espaço abstrato, uma conceptualização do campo
que possa ultrapassar o espaço imediato, concreto e fisionômico de um campo
perceptual-comportamental.
A distinção entre espaço concreto e abstrato também é útil na compreensão das
ilusões óticas. Na ilusão de Müller-Lyer, duas linhas horizontais de tamanho igual
parecem ser de diferentes tamanhos (ver Fig. 8). Podemos medir as linhas e chegar
a saber, conceitualmente, que são do mesmo tamanho. No entanto, elas continuam
a parecer diferentes, em termos fisionômicos.
Quando dizemos que as figuras de Müller-Lyer possibilitam uma ilusão, quere­
mos dizer que não há correspondência entre aparência e conhecimento. A diferença
aparente é uma experiência das figuras; ela as “ localiza” no espaço fisionômico das
coisas conforme nos aparecem. O fato de sabermos que as figuras são as mesmas é
64 ALGUNS HORIZONTES UNIVERSAIS

> <
< >
Figura 8. A Ilusão de Miiller-Lyer.

uma experiência delas diferente, que as “ localiza” no espaço abstrato da medida


linear. Tanto conhecer o mundo como deixá-lo aparecer são maneiras de nos orien­
tar para o mundo. Alguns de nós suspeitam muito das aparências e tentam conhecer
o máximo que podem antes de se envolver com as coisas. Outros acreditam que o
conhecimento é menos valioso do que a capacidade de apreciar as aparências. Ou­
tros ainda tentam usar as aparências sistematicamente a fim de conhecer, usar o
conhecimento para captar as aparências, e assim por diante. Todas as pessoas têm
um estilo que as caracteriza enquanto pessoas. Uma das diferenças entre as pessoas
é o modo pelo qual articulam aquilo que conhecem com aquilo que aparece.
A constância dos objetos é outro problema semelhante. Vejo um carro como
tendo o mesmo tamanho durante o tempo em que se aproxima de mim, embora a
imagem do carro se tome maior à medida que ele chega mais perto. Nessa situação,
todos aprendemos a evitar a aparência fisionômica e a viver predominantemente
através daquilo que sabemos. Ou melhor, sabemos conceptualmente que o carro
não cresce à medida que se aproxima, mesmo que isto pareça ocorrer.5 O mesmo
fenômeno fisionômico retoma com maior intensidade, entretanto, quando olhamos
do alto de um edifício de vinte e cinco andares, a partir do qual os carros nos
aparecem como brinquedos. Tal retomo sugere que algumas vezes nosso campo
está estruturado por coordenadas espaciais abstratas (sabemos que o carro é do
mesmo tamanho) e que outras vezes está estruturado fisionomicamente (mesmo
quando sabemos que as linhas são do mesmo tamanho, elas continuam a parecer
diferentes).
As categorias abstrato e concreto também são aplicáveis à nossa experiência do
tempo. Uma conferência tediosa toma uma hora “ mais longa” do que uma confe­
rência estimulante — em termos fisionômicos. Fazemos planos de acordo com
horas e semanas concebidas matematicamente, as quais existem em um futuro que
ainda não está aqui. Abstratamente, o tempo é uma linha; o agora é um ponto nessa
linha. Movemo-nos inelutavelmente ao longo da linha; o passado já se foi, o futuro
ainda não está aqui. Concretamente, nossa experiência oscila da recordação à ante­
cipação, não sendo o “ presente” nem um ponto numa linha nem um movimento
numa direção única, e sim uma rica aglutinação de passado e futuro. Mesmo que
possamos, em imaginação, ocupar o passado ou o futuro, sabemos que estamos ape­
nas no presente. Podemos experienciar concretamente uma recordação, assim
como podemos experienciar o carro ficando cada vez maior à medida que se apro­
xima de nós, porém estamos também orientados para o que sabemos abstratamente
— que a recordação está atrás de nós e que o carro é do mesmo tamanho.
A interação entre esses dois tipos de campos em nossa experiência perceptual
não é simples. Nem sempre é uma vantagem viver aquilo que sabemos abstrata­
mente, em lugar do que aparece concretamente. Nem é realmente possível viver
apenas de acordo com o que sabemos abstratamente, pois o que sabemos de modo
abstrato é sempre abstraído daquilo que aparece concretamente. Na verdade, o
conhecimento conceituai abstrato sempre se refere à experiência concreta, do con­
FISIONOMIA DO CAMPO 65
trário não tem significação. A significação do que conhecemos é sempre fundada
nos campos concretos de nossa experiência, a qual é, por seu lado, organizada no
mundo para o qual estamos orientados. A equação 2 -l- 2 = 4 é uma afirmação
abstrata sem significação, a não ser que se refira a algo vivido pessoalmente por
nós.6

A VOLTA À EXPERIÊNCIA VIVIDA


Certamente poderíamos refletir a respeito da relação entre os espaços abstrato e
concreto e tentar formular, em termos Conceituais, o modo pelo qual cada um deles
influencia o outro, e assim por diante.7 É importante perceber que, embora este
problema possa ser importante teoricamente, também pode ter algo de artificial. A
solução é surpreendentemente simples e só pode ser atingida em se renunciando ao
problema conceituai e em se retomando aos dados — os dados da experiência vi­
vida. A experiência vivida não é abstrata nem concreta; tem simultaneamente
ambas as características, sempre integradas por nós. Nossos próprios conceitos de
“ abstrato” e “ concreto” são abstrações. Perguntar acerca de como estão relacio­
nados é supor que são fenômenos separados. Não existe realmente o problema de
uma “ relação” , pois a separação é, em primeiro lugar, analítica — útil para alguns
propósitos, mas não característica da maior parte da experiência conforme vivida
por nós na vida diária.
O espaço fisionômico que devemos abordar é, portanto, o espaço vivido que se
apresenta em nossa experiência vivida. O campo de que falamos deve ser exami­
nado, em sentido próprio, naquilo que ele é, e não dividido de acordo com nossas
noções teóricas. Somos tentados a compreender o campo como uma exposição ou
espetáculo. Tal modo de ver o campo não é aquele que apreciamos na experiência
vivida. Ser-no-mundo não é um processo de observação passiva; é ação e desem­
penho próprio. Os campos que desejamos examinar não se assemelham ao que
vemos numa tela de televisão; são o espaço aberto e nós estamos neste espaço. Ele
nos rodeia. Um campo, conforme conhecido através da experiência vivida, é um
espaço no qual nos movimentamos, manipulamos coisas, as tocamos, viramos, e
nos movemos em tomo delas. Sabemos o que sabemos do campo em virtude de
nossa participação nele. Conhecemos o campo de acordo com nossos propósitos,
nosso movimento intencional e nossas operações sobre ele. Nossa relação para com
o campo é mais do que visual. É também mais do que tátil ou auditiva. Todos esses
aspectos são sintetizados por nós, na qualidade de pessoas fazendo coisas. O
campo se apresenta como um conjunto de possibilidades consideradas por nós de
acordo com nossos propósitos. O campo é, antes de tudo, comportamental e expe­
riencial.8
A maior parte de nosso comportamento é envolvida por planos e reflexões pre­
liminares com referência aos fatos. Esses atos cognitivos são, certamente, uma
fonte importante de significações para nosso comportamento. No entanto, planos e
reflexões são abstratos. Envolvem a consideração de possibilidades, futuro e pas­
sado. O comportamento é aquele momento de nossa experiência em que articula­
mos abstrações numa presença concreta. Ao contrário dos planos, que podem ser
hipotéticos, o comportamento é real. Ele fixa um evento, na inelutável passagem do
tempo, com uma permanência e uma finalidade concretas. É freqüentemente pú­
blico e se torna “ objetivo” , estando aí para ser observado pelos outros.
Comportar-se, em contraste com as atividades abstratas de planejar e refletir,
é realizar um comprometimento irrevogável.
66 ALGUNS HORIZONTES UNIVERSAIS

Voltemos ao episódio ocorrido com minha filha, descrito no Cap. l, para ver o
que estas conclusões implicam. É possível refletir sobre a relação entre a com­
preensão abstrata que minha filha possuía do espaço entre as duas casas e a pre­
sença visual que esse espaço tinha para ela. Porém nem o espaço abstrato nem o
visual eram o espaço no qual ela estava. O espaço vivido de minha filha tanto
possuía aspectos geométricos quanto aspectos visuais, os quais podem ser por nós
observados cada um por sua vez, mas não havia, na experiência dela, o problema
de relacioná-los. A fisionomia do campo naquele momente, que desejamos ser ca­
pazes de “ ver” ou “ compreender” , era principalmente comportamental. Ela es­
tava em nossa casa, sentindo a atração em direção à porta. A significação da porta
ao fundo da sala, que se erguia entreaberta, não era geométrica, nem era a de um
padrão visual interessante que lhe chamava a atenção. A significação da porta es­
tava baseada no ato pretendido de sair para alcançar a casa da amiga. Mais tarde,
minha filha estava na casa da amiga9, e, não vendo a casa na televisão ou através de
um binóculo. Aquele espaço a rodeava, a envolvia, a enchia de uma presença es­
tranha que fez com que seu comportamento de planejamento (a arrumação da sa­
cola) se tornasse irreal e desconhecido. Quando a experiência vivida mudou de
caráter, os planos se tomaram irrelevantes. Algo mais teve lugar, e a porta da casa
da amiga começou a atrai-la como a de nossa casa havia feito uma hora antes, mas
com um sentido de urgência bem diferente, como observamos no Cap. 1.
O aposento no qual me encontro agora tem um espaço geométrico que com­
preendo quando tento fazer uma planta do mesmo. Também posso relacionar a
presença visual dele a tal espaço conceptual, levando em conta minha localização.
Porém eu o apreendo como um espaço vivido fundamentalmente através de meu
comportamento: a cadeira está onde me sento, a mesa sustenta meus papéis e xí­
cara de café, as janelas destinam-se a que se olhe por elas — um buraco é para ser
cavado. A estrutura do campo fisionômico integra o que sabemos abstratamente ao
fabrico da significação de nossa experiência, tão seguramente quanto integra outros
horizontes. A presença imediata do mundo para mim, e a minha para ele, é uma
maravilhosa síntese de significações relativas a horizontes temporais, espaciais, in­
terpessoais, abstratos, visuais e táteis, organizados em torno de um propósito com­
portamental que é básico para minha experiência vivida.
CAPÍTULO 8

O SELF NO TEMPO
Tudo o que faço, todo o meu comportamento, tem algo a ver com meu self. Na
qualidade de um self, possuo uma identidade: um nome, uma família, um papel
profissional e um número de seguro social. Mas possuo também um passado e um
futuro; eles são parte de meu self tanto quanto meu nome. Sei quem sou (agora)
porque sei quem fui (no passado) e quem serei (no futuro). Conhecer meu passado e
futuro e saber quem sou. Já que tudo quanto faço tem algo a ver com meu self, tem
também alguma coisa a ver com meu passado e meu futuro.1
Tudo o que faço tem relação com o meu passado em dois sentidos. Em primeiro
lugar, o passado está ligado ao que faço no sentido da causalidade física. É óbvio,
por exemplo, que aquilo que faço está relacionado com o fato do alimento que
ingeri ontem me ter fornecido energia, hoje, para o fazer. Porém uma segunda e
mais importante relação entre mim e meu passado está ligada ao fato de que eu
recordo. Recordar, ao contrário das causas anteriormente citadas, é algo que faço
agora mesmo; é uma apropriação consciente do passado num self e numa identi­
dade. Não há self que não recorde uma história, pois recordar uma história pessoal
é ser um self. E não há passado sem um self, sem uma recordação contemporânea,
mesmo que inadequada, que reúne milhares de fragmentos num todo coerente,
construindo um contexto de autoconhecimento dentro do qual a experiência pre­
sente, incluindo as recordações específicas, faz sentido.
De modo similar, tudo o que faço tem algo a ver com o futuro em dois sentidos.
Fisicamente, meu corpo está submetido às leis da causalidade, de modo que o fato
de torcer hoje meu tornozelo fará com que eu esteja mancando amanhã. Porém,
mais importantes do que as causas e os efeitos mecânicos são meus planos, receios,
esperanças, desejos — antecipações em geral. De modo diverso do claudicar de
amanhã, a antecipação é algo que realizo agora mesmo; é a apropriação consciente
de um futuro em um self e em uma identidade. Ser um self é antecipar um futuro
pessoal. Não há self sem isto, por vago que possa ser. Ninguém deixa de perceber
que estará em algum lugar amanhã e no próximo ano. Mesmo que o self não saiba
onde estará, sua vida neste momento está baseada na suposição de que tem um
futuro.2
Minha história e futuro, conforme os considero agora, são o quem e o como
sou-no-mundo. Poderíamos dizer que meu passado e futuro influenciam meu ser-
no-mundo (A-*B) e que meu ser-no-mundo influencia meu futuro e passado
(B—>A). Porém essa é uma maneira inadequada de falar, pois meu futuro e meu
passado são minhas antecipações e recordações e meu ser-no-mundo é o conjunto
de minhas antecipações e recordações; logo, A = B. Somos nossas histórias e futu­
67
68 ALGUNS HORIZONTES UNIVERSAIS

ros conforme os consideramos agora.3 Ser-no-mundo é um “ futuro, tornado pre­


sente, no processo de estar sendo” , como apontou Martin Heidegger. O conceito
de self conforme o utilizamos aqui refere-se à forma como consideramos nosso
passado e futuro. Tal consideração é matéria de recordação e antecipação; parte de
seu conteúdo é explícita, mas uma boa parte está implícita. Como outros horizon­
tes, é pressuposto, situa-se na franja quanto a nosso foco de atenção, embora seja
decisivo para a significação de eventos em nossa experiência.
A experiência de ser um self no tempo é bastante complexa. Neste momento,
possuo um sentido de mim mesmo. O que está envolvido nisto? Na Fig. 9, recordo
minha infância (1) e antecipo que deverei morrer (2). Quando eu era criança, ante­
cipava arranjar um emprego (3) e agora recordo a obtenção do mesmo (4); também
me lembro da antecipação de conseguir um emprego (5). Minha recordação de
como antecipei arranjar um emprego (5) é comparada à minha recordação de conse­
gui-lo (4), e, ou este correspondeu a minhas expectativas, ou estou algo desapon­
tado. Fiz planos de aposentadoria quando obtive meu emprego (6). Agora me re­
cordo de quando os fiz (7) e faço outros novos (8). Lembrar-me-ei de os ter feito (9)
e, quando estiver morrendo, recordarei esta lembrança (10). Antecipo agora a ma­
neira como recordarei a lembrança dos planos de aposentadoria que estou fazendo
agora (11).
Nem todos estes horizontes são igualmente importantes para a forma como me
compreendo em meu emprego. Mas todos são, implicitamente, parte de minha
compreensão. Ocasionalmente algum deles se toma crucial, como pode ser o caso
da noção de que, quando me aposentar, ficarei espantado com a tolice de meus
planos de aposentadoria anteriores. Parte de minha motivação para modificá-los
neste momento refere-se ao fato de que não desejo olhar para trás e me ver como
tendo sido tolo (12). Este processo consiste na antecipação da recordação de uma
antecipação (13). O diagrama é complexo o bastante para indicar quão complexo é,
na verdade, ser um self no tempo. Também fica claro que o diagrama é simples
demais; tivesse eu incluído meu casamento, o nascimento de meus filhos, os casa­
mentos de meus filhos, minha agilidade física de outrora, seu decréscimo e sua
deterioração atuais, e as centenas de outros tópicos que são importantes para o
sentido que possuo de mim mesmo, e o diagrama rapidamente se teria tomado de
difícil manejo. Vamos tentar simplificar toda esta complexidade para poder enten­
der um self no tempo.

SER CULPADO
Consideremos o caso da Sra. Downs, cujo ser-no-mundo está sobrecarregado
pela culpa. Todas as vezes que expressa raiva quanto aos filhos, pondera sobre a
maneira como os feriu. Quando brinca com eles, está certa de não lhes estar dando

um emprego

Figura 9. Representação esquemática de ser um self no tempo.


O SELF NO TEMPO 69
o amor e liderança que merecem. Todos os episódios alegres são recordados pesa­
rosamente porque ela não fez tal e tal coisa. O julgamento que faz de si mesma é
muito severo, pois seu seif é aquilo que recorda, e aquilo que recorda consiste em
seus fracassos, reais e imaginados. Recorda-se ela de todas as coisas ruins porque
seu ser-no-mundo é culpado? Ou seu ser-no-mundo é culpado porque ela se
lembra apenas das coisas ruins? Nenhuma seqüência causal é correta; ser culpado
é uma maneira de recordar, e recordar as coisas ruins é uma maneira de ser-no-
mundo, isto é, ser culpado.4
Porém a Sra. Downs também antecipa que continuará a fracassar. Freqüente­
mente evita brincar com os filhos porque antecipa que os irá desapontar ou decep­
cionar. O estilo de viver no futuro da Sra. Downs não constitui, para ela, um des­
dobramento de possibilidades novas e interessantes. Ela espera, ao contrário, uma
repetição do passado. A culpa da Sra. Downs é a maneira como ela é, e permeia
suas antecipações, assim como suas lembranças. Seu self e o que ela antecipa, e o
que ela antecipa é que irá fracassar outra vez.
A culpa da Sra. Downs caracteriza seu ser-no-mundo. Sua percepção de campos
concretos é colorida pela expectativa de que se tornarão palcos de fracassos poste­
riores. Seu mundo é povoado por coisas que a fazem lembrar-se daquilo que la­
menta e a apavoram apresentando o que receia — possibilidades de fracasso. A
culpa é, portanto, uma maneira de ser-no-mundo. É uma apropriação do passado na
qual recordamos fracassos anteriores, o que nos conduz a antecipar que continua­
remos a recordar fracassos passados, o que nos leva a recordar a antecipação de
fracassos futuros, o que nos conduz a antecipar a recordação da antecipação de
fracassos futuros.
A primeira recordação da Sra. Downs dos fracassos do passado requer o hori­
zonte de sua antecipação de fracassos futuros, e sua primeira antecipação de fra­
cassos futuros requer o horizonte da recordação de fracassos passados. Ela só la­
menta com base no temor e só teme com base no que lamenta. Cada um precisa do
outro, e cada um produz o outro. Ambos são requeridos pelo fato de ela ser culpada
e requerem que seja culpada. Lamentar é uma maneira de recordar e recear é uma
maneira de antecipar: juntas, engendram o ser culpado, que é uma forma de ser-
no-mundo.
Este processo não é tão complexo como parece. Ser um self é recordar um
passado pessoal e antecipar um futuro pessoal. Ser culpado é uma maneira de ser
um self. Esquematicamente, pode ser representado desta forma:

Ser Culpado
recordar: lamentar fracassos passados
antecipar: temer fracassos futuros

SER SENTIMENTAL
Consideremos agora a situação do Sr. Pinky, cujo ser-no-mundo é sentimental.
Ele recorda o passado através de lentes cor-de-rosa e vê os acontecimentos presen­
tes como pobres imitações de uma existência idílica de anos anteriores. Sua esposa
adquiriu rugas, engordou e, comparada à maneira como ele se lembra dela, tomou-
se bem pouco romântica, e mundana. Ele é incapaz de rir das piadas que ela faz a
respeito do próprio peso; há coisas demais em jogo para que possa rir. A presença
dela o faz recordar de como tudo fora glorioso, de quão elegante ele se apresentava
e de como ela estava bonita no dia do casamento. Tudo isso está terminado agora;
muita coisa mudou nos vinte anos que passaram juntos. A comunidade decaiu, os
70 ALGUNS HORIZONTES UNIVERSAIS

preços subiram e mesmo os espetáculos de televisão se tornaram violentos e sem


beleza. Poderíamos dizer que o Sr. Pinky vive no passado, mas isto não constitui
toda a história.
O sentido que o Sr. Pinky tem do futuro é duplo. Por um lado, está resignado ao
fato de que ele e a mulher continuarão a ficar mais velhos e menos atraentes, e de
que a vida se repetirá em sua mediocridade monótona comum. Porém, ao mesmo
tempo, o Sr. Pinky tem fantasias ricas e gloriosas sobre o modo como ambos pode­
riam perder peso, como ele poderia ficar'entusiasmado pela secretária ou como
poderiam descobrir urânio no quintal, tornando-se milionários. Estas fantasias
ocorrem com o espírito de “ se ao menos fosse verdade. . . ” . Ele reconhece que não
se tomarão verdadeiras. São meros desejos, constituindo uma maneira do tipo
conto de fadas para tomar toleráveis os desapontamentos atuais através de vivên­
cias num futuro artificial e idealizado.
O sentimentalismo do Sr. Pinky constitui o como ele é-no-mundo. Os campos
perceptuais concretos são coloridos por suas recordações e desejos. São belas repe­
tições de seu passado idílico, palcos para sua fantasia futura ou, mais comumente,
desapontamentos, porque fracassam em ser ambas as coisas. A recordação do Sr.
Pinky é reminiscência, sua antecipação é desejo, seu ser-no-mundo é sentimental.
Quando ele tece reminiscências sobre o self que costumava ser, certo conteúdo é
focalizado e outro conteúdo cai no esquecimento. Ele e sua história idílica. Mas as
imagens e o conteúdo também aparecem contra o pano de fundo de um sentimento
do presente — e em contraste com ele — enquanto desinteressante e feio.5 Como
na fantasia, suas antecipações o engajam numa existência irreal que corre paralela a
um estado de coisas real. Ser sentimental por vezes obscurece este sentido do pre­
sente. Ele preferiria não o encarar. Está continuamente desapontado com a vida,
mas continua vivendo, encobrindo o desapontamento em benefício do sentimenta­
lismo.
Ser sentimental é uma apropriação do futuro na qual antecipamos idílios futuros,
o que nos leva a recordar a antecipação de idílios futuros, o que nos conduz a
antecipar a recordação da antecipação de idílios futuros.
A recordação do Sr. Pinky dos idílios passados requer o horizonte de seu desejo
de idílios futuros, e seu desejo de idílios futuros requer o horizonte de sua recorda­
ção de idílios passados. Só temos reminiscências com base no desejo e só deseja­
mos com base em reminiscências. Cada um requer o outro, e cada um produz o
outro. Ambos são requeridos pelo ser sentimental e requerem ser sentimental. Ter
reminiscência é uma forma de recordar, e desejar é uma maneira de antecipar; jun­
tamente constituem o ser sentimental, uma maneira de ser-no-mundo. Esquemati-
camente, pode ser representado deste modo:

Ser Sentimental
recordar: ter reminiscências sobre idílios passados
antecipar: desejar idílios futuros

IDENTIDADE E LIBERDADE
Em contraste com objetos, que não experienciam, o modo como sou-no-mundo
dá forma à minha história. Quando estou lamentando coisas passadas, certos aspec­
tos de minha história emergem para me definir; a partir da coleção inteira de frag­
mentos recordados, alguns formam a Gestalt do self, enquanto outros caem no es­
quecimento. Quando estou tecendo reminiscências, em contraste, certos outros as­
pectos de minha história se tomam salientes e sustentam meu ser assim, pois me
o SELF NO TEMPO 71
fornecem um self diferente para ser. No decorrer de um único dia, posso ser mais
de um self, cada um deles produzindo e sendo produzido por um padrão de recor­
dações. No entanto, através dos dias e dos anos, mantenho unidos certos aspectos
de minha história que estão sempre presentes, esteja eu lamentando ou tecendo
reminiscências. Estes elementos estáveis aparecem como fatos biográficos, e minha
relação com eles é um ato de reapropriação neutra. Formam seja qual for o self
estável que está sempre presente, através das vicissitudes do pesar e da reminis-
cência. São um lastro de identidade contínua, e me apego a eles como me apego à
minha identidade. Nasci em tal e qual cidade, de certo país, freqüentei determina­
das escolas e fiz isto e aquilo no curso de muitas décadas. Recordo estes itens,
sempre recordei e recordarei. O padrão dos mesmos muda um pouco durante os
anos; a escola secundária que freqüentei não é tão importante agora como o foi em
outro momento, mas a estabilidade destes fatos é importante quanto à minha habili­
dade para saber quem sou eu. Estes fatos biográficos são, no entanto, um mero
esqueleto de meu self. A maneira como me lembro deles pode estar cheia de pesar
ou de reminiscência. Suas significações podem variar, na dependência de eu estar
lamentando ou tecendo reminiscências.
Nas situações da Sra. Downs e do Sr. Pinky, as maneiras de recordar o passado
desenvolveram-se numa espécie de pesar crônico e reminiscência crônica, respecti­
vamente. Eles poderiam mudar estas maneiras de recordar, e, portanto, mudar as
significações destes fatos biográficos se, e somente se, cada um modificase seu
ser-no-mundo usual. Na verdade, o fato da Sra. Downs recordar seu passado de
modo diferente representaria, para ela, ser menos culpada. Para o Sr. Pinky, o fato
de recordar diversamente seu passado significaria ser menos sentimental.
As circunstâncias sob as quais digo ou sinto que sei quem sou estão voltadas
para o futuro. Quando estou incerto acerca do futuro, sobre o que fazer a seguir ou
mais tarde, isto se deve ao fato de estar incerto acerca de quem sou e quem tenho
sido. Tanto a Sra. Downs como o Sr. Pinky estão demasiado certos acerca de quem
têm sido. Sabem qual é seu passado e qual é seu futuro. Carecem de nossa incer­
teza mais comum. Tal incerteza é essencial para a liberdade e expressa uma espécie
de fluidez e flexibilidade na relação de cada um com seu passado. É a ausência
desta incerteza que torna fixa a história da Sra. Downs e do Sr. Pinky — e o futuro
dos mesmos. Esta espécie de fixidez pode aparecer quer como uma compulsão
patológica para repetir, quer na forma de um medo de repetir aquilo que é lamen­
tado, como no caso da Sra. Downs. Pode ainda surgir como uma certeza inquestio-
nada da repetição, ou como um desejo de repetir aquilo que é reminiscência, como
no caso do Sr. Pinky. Ao temer e desejar, a Sra. Downs e o Sr. Pinky estão restrin­
gindo o futuro pela restrição do passado; eles se aferram ao passado e, assim, redu­
zem a incerteza, mas, em conseqüência, concebem-se respectivamente como cul­
pada e sentimental, sem liberdade para se tomar aquilo que não têm sido, ou para
terem sido aquilo que não esperam se tornar.
Naturalmente, a Sra. Downs e o Sr. Pinky são extremos. Limitaram a própria
liberdade de maneiras claras e desnecessárias. Ser culpado ou ser sentimental são
formas que não têm, necessariamente, de permear nosso ser-no-mundo do modo
como acontece com eles. Porém todos temos algo da Sra. Downs e do Sr. Pinky;
todos somos, em algum grau, culpados e sentimentais. Ao tentar descrever o ser-
no-mundo ou o self no tempo, estabelecemos certa terminologia para falar sobre
isso. Caracterizamos dois modos de ser-no-mundo e descrevemos maneiras típicas
de recordar e antecipar para cada um deles, maneiras de ser nosso passado ou
nosso futuro:
72 ALGUNS HORIZONTES UNIVERSAIS

Ser Culpado
recordar: lamentar
antecipar: temer
Ser Sentimental
recordar: tecer reminiscências
antecipar: desejar

Esta lista não é, obviamente, exaustiva quanto às formas de recordar ou antecipar,


ou sobre os modos de ser. No entanto, como todos somos até certo ponto culpados
e Sentimentais, as descrições nos ajudam a ver como estas posturas têm um inte­
resse relativo a quem somos no tempo.
Vamos descrever uma terceira maneira de ser-no-mundo, que é também univer­
sal, logo típica de cada um de nós em graus variados. Queremos descrever o que
está envolvido em ser livre, ser prático, ser “ saudável” (como freqüentemente di­
zemos em nossa cultura). Denominaremos reapropriação esta maneira de recordar,
e esperança esta forma de antecipar. Assim como desejo e reminiscência implicam
um no outro, do mesmo modo que temor e pesar, o mesmo ocorre com esperança e
reapropriação. O ser no futuro (esperança) e o ser no passado (reapropriação) cons­
tituem horizontes um para o outro; cada um requer o outro e por este é requerido.
O passado e o futuro que vivemos são, cada um deles, parte do outro na estrutura
do experienciar humano. Ambos são aspectos de nosos ser-no-mundo, que é ser um
self no tempo.
Em primeiro lugar, a esperança é uma maneira de viver no futuro de forma
aberta. Na esperança, o futuro não está limitado ou restringido pelo passado; mi­
nhas antecipações não são repetições; um futuro divisado é um produto criativo,
não a reprodução de aspectos de meu passado. Nem a Sra. Downs nem o Sr. Pinky
podem criar neste sentido.
Em segundo lugar, a esperança conduz a um futuro contínuo com o presente no
sentido prático. As decisões que tomo neste momento são significativas em virtude
de sua relação prática com um futuro entendido como possível, embora não inevi­
tável. A esperança contrasta com os temores da Sra. Downs no sentido de que esta
não sente a importância das próprias decisões. Tudo seria sempre igual. A espe­
rança contrasta com o desejo do Sr. Pinky porque é prática e comportamental,
motivando a ação no mundo público. Nem a Sra. Downs nem o Sr. Pinky podem
tomar decisões com a idéia de segui-las no plano comportamental e de que este
comportamento fará alguma diferença quanto a quem e como cada um deles é.
Em terceiro lugar, a esperança cria um futuro contra o horizonte de um passado
expandido, um passado cuja riqueza e complexidade renovam continuamente as
significações e opções relativas ao futuro, enquanto o temor e o desejo produzem
um futuro contra o horizonte de um passado que se vai tornando progressivamente
mais estreito e bem definido, progressivamente restringido em termos de conteúdo.
Algumas vezes, portanto, vivemos esperançosamente no futuro, o que significa, em
primeiro lugar, que divisamos algo novo no futuro; em segundo lugar, que algo
ocorrerá em decorrência de medidas práticas que podemos tomar agora; em terceiro
lugar, que isto fornecerá um novo ponto de vista para considerar a significação de
nosso próprio passado.
A esperança também implica uma certa maneira de viver no passado, isto é, de
reapropriação. Em primeiro lugar, a reapropriação consiste em apossar-se de um
passado aberto. Nela, o passado não está restrito a um conteúdo temático do tipo
O SELF NO TEMPO 73
idílios e fracassos, e os acontecimentos biográficos que são trazidos à presença não
têm significação permanente de idílios ou fracassos, mas podem mudar de significa­
ção com novas interpretações e perspectivas. Na reapropriação, portanto, estou
criando continuamente um novo passado que não está limitado por antecipações
temerosas ou desejantes. Em contraste, o passado da Sra. Downs sempre significa
fracasso e, conseqüentemente, ela não pode antecipar esperançosamente um futuro,
pois está cheia de temor. O passado do Sr. Pinky é sempre idílico, logo o futuro só
pode significar repetição fantasiosa ou desapontamento.
Em segundo lugar, a reapropriação traz à luz um passado que, num sentido
prático, é contínuo com o presente. Nem o pesar nem a reminiscência têm esta
continuidade prática. As decisões tomadas neste momento pela Sra. Downs e pelo
Sr. Pinky podem ser significativas com relação a seus passados lamentados ou de
reminiscência, mas a continuidade não é de caráter prático; é de caráter fantasioso.
É irreal, no caso da Sra. Downs, fazer penitência por um passado lamentado, se
excluirmos o temor da repetição, e o mesmo ocorre com a restrição ritualística do
Sr. Pinky a um passado de reminiscências, se excluirmos o desejo de repetição. Em
contraste, as decisões tomadas agora com relação a um passado reapropriado se
tomam significativas porque mudarão a soma total de meu passado no futuro e
farão o melhor possível com o que não puder ser mudado, o que implica, com
efeito, modificação; construirão o passado, ao invés de tentar anulá-lo ou repeti-lo.
Em terceiro lugar, a reapropriação cria um passado contra o horizonte de um
futuro expandido y um futuro cuja abertura prometei uma recriação contínua da signi­
ficação do passado, enquanto o pesar e a reminiscência produzem um passado
contra o horizonte de um futuro que, sendo temido ou desejado, se toma progressi­
vamente mais estreito e restringido em seu conteúdo temático. Algumas vezes, por­
tanto, vivemos no passado reapropriado, o que significa, primeiramente, que a sig­
nificação do passado está sujeita a mudança, mesmo que os eventos em si mesmos
sejam coisa passada; em segundo lugar, que nossas decisões constroem o passado,
mas não tentam anulá-lo ou repeti-lo; e, em terceiro lugar, que tal passado fornece
um ponto de vista a partir do qual o futuro pode continuar a se expandir.
Ser livre ou saudável (ou como quer que chamemos) é caracterizado pela refor­
mulação criativa de significações à medida que nos modificamos, o que nos deixa,
portanto, num estado constante de fluxo entre o que fomos, somos e nos estamos
tornando.6 Também constrói esta modificação constante do passado de uma ma­
neira prática, evitando as fantasias de penitência nascidas do temor ou pesar e as
fantasias de repetição, nascidas do desejo ou da reminiscência. O caráter horizontal
do passado e do futuro, com cada um deles constituindo um horizonte para o outro,
contribui para uma abertura contínua de possibilidades tanto no passado como no
futuro. Quando minhas antecipações se tornam mais esperançosas, aparecem mais
opções em meu futuro, o que fornece um horizonte contra o qual se toma possível
um maior número de interpretações do passado. E, quando minha recordação se
toma predominantemente reapropriação, aparecem mais interpretações do passado,
fornecendo um horizonte contra o qual se toma possível um maior número de op­
ções futuras.
Não é razoável rotular todas as experiências de pesar e reminiscência como
“ patológicas” , pois elas são inevitáveis na experiência humana. Todavia, devemos
também observar que elas nos comprometem não apenas com um passado, como
também com um presente e um futuro, na verdade com um self no tempo, um
ser-no-mundo. Qualquer pessoa será-no-mundo em uma variedade de maneiras du­
rante um período de tempo. O que chamamos “ psicopatológico” é uma questão de
identidade própria, ou self no tempo. Há uma tendência naquelas pessoas assim
74 ALGUNS HORIZONTES UNIVERSAIS

rotuladas para ter um centro de gravidade da própria identidade no pesar ou na


reminiscência ou em ambos, para se fechar numa autodefinição que não possibilita
redefinição e, portanto, sensação de liberdade. Se a tarefa psicoterapêutica com
relação ao futuro é transformar o desejo e o temor em esperança, também é trans­
formar o pesar e a reminiscência em reapropriação. E como o passado e o futuro
são mutuamente horizontais, estas duas transformações devem ocorrer, e realmente
ocorrem, juntas. Aquilo que é transformado de maneira mais essencial não é o
passado, nem o futuro, enquanto isolados, e sim o ser-no-mundo de alguém, que o
passado e o futuro constituem.
A sensação de liberdade que podemos ter é sempre limitada. Posso construir meu
passado de várias maneiras, cada uma delas criando um passado um pouco dife­
rente no futuro. Porém não sou livre para inventar meu passado de modo extrava­
gante7 sem ficar iludido quanto a quem sou. Minha filha, que estava esperançosa
(de acordo com nossa definição ampla) durante a primeira parte da noite, tornou-se
desejosa; mudou sua identidade, de alguém “ em crescimento” , para a identidade
mais sentimental de “ menina pequena” . Ao contrário do Sr. Pinky, ela pode impor
sua vontade. As crianças são, talvez, mais livres para fazer esta espécie de coisas,
quando se superestimam, do que os adultos, porque esperamos menos consistência
das crianças e porque as experiências destas quanto ao self estão menos estabiliza­
das. Decidir quão livres devemos ser a este respeito requer um julgamento de valor,
mas por certo podemos recomendar a flexibilidade de minha filha em lugar da infle­
xibilidade da Sra. Down e do Sr. Pinky. São pessoas infelizes que não podem modi­
ficar o sentido de si mesmas num grau suficiente para justificar inconsistências
comportamentais do tipo produzido por minha filha. Por outro lado, os adultos que
se comportam como minha filha correm o risco de serem vistos como infantis, in­
consistentes, sem consideração pelos outros e de difícil convivência. Se a Sra.
Down e o Sr. Pinky são extremos de um self extremamente bem definido, neste caso
um adulto que se comporte como minha filha se aproxima do extremo oposto, de
um self definido de forma demasiado vaga para ser capaz de sustentar acordos
interpessoais, tema para o qual vamo-nos voltar neste instante.
CAPÍTULO 9

ACORDOS
INTERPESSOAIS
Ao recordar mais uma vez o episódio descrito no Cap. 1, descobrimos que o
comportamento de minha filha, por ocasião da mudança de idéia, não foi histriô­
nico; não foi uma produção dramática por amor à produção dramática. Na verdade,
seu choro foi em parte produzido porque queria voltar para casa e possuía certa
compreensão de que chorar e dizer que queria voltar resultariam em lhe ser permi­
tido voltar para casa. Seu comportamento tinha a intenção de produzir o resultado
que produziu, e, neste sentido, foi um espetáculo projetado para os olhos dos ou­
tros. Porém a mensagem crítica “ quero ir para casa” foi franca e verdadeira. Por
outro lado, posso afirmar com confiança que nem sempre minha filha é tão direta.
Seguramente há vezes em que chora quando está com os irmãos não porque esteja
machucada, apavorada ou ansiosa para que seus desejos sejam satisfeitos e sim
porque sabe que o choro atrairá para ela alguma atenção por parte dos pais, ou
talvez possa ser usado como uma arma contra os irmãos ao trazer os pais para
perto, pondo-os do seu lado. Em outros termos, a fisionomia do quarto da amiga foi
tal que ela não poderia ficar lá, logo chorou para voltar para casa. Em outros mo­
mentos seu campo está estruturado com uma audiência definida, e chorar se toma
uma técnica manipulativa, que responde a um espaço político no qual aspira mera­
mente a obter aliados — um campo e um movimento nesse campo muito diferentes
daqueles característicos da noite em que mudou de idéia.
Ao situar sua experiência, ao observar seu comportamento, é por vezes fácil e
por vezes difícil fazer um julgamento sobre a estrutura interpessoal de seu campo.
Uma advertência segura é vê-la chorar apenas enquanto a mãe a pode ouvir, e, logo
que esta está fora do alcance, vê-la parar de chorar e recomeçar a brincar — bem
menos perturbada do que o choro me teria levado a crer. Em outros momentos,
posso tratar seu choro como se fosse meramente uma técnica manipulativa num
espaço de aliados e lealdades, quando ele é na verdade uma expressão de dor ou de
susto. Interpreto erradamente o espaço e o vejo como histriônico, quando na ver­
dade é franco, direto. Em outros momentos cometo o erro oposto, porque penso
que está machucada ou assustada: sou apanhado num dispositivo histriônico e me
deixo manipular num jogo de poder no qual ela deseja reunir suas forças com as
minhas contra os irmãos. Embora cometamos tais erros mais ou menos freqüente­
mente, nossas respostas ao choro de nossos filhos são sempre determinadas por tais
julgamentos. O choro significa X ou Y, segundo a maneira pela qual interpretamos
as fisionomias dos espaços de nossos filhos, estando tal interpretação baseada, por
sua vez, no modo como entendemos o ser-no-mundo deles.
75
76 ALGUNS HORIZONTES UNIVERSAIS

Há também, é claro, situações intermediárias. É certamente verdadeiro, com


relação às pessoas mais velhas, que tanto as significações diretas como as histriôni-
cas podem estar presentes simultaneamente. Posso, por exemplo, comportar-me
como se estivesse apavorado a fim de atingir alguma outra finalidade (como obter
simpatia) e estruturar então meu campo perceptual de uma maneira apavorante. Ou,
caso meu modo de atuar característico seja ficar com raiva, posso chegar a ver meu
campo como ofensivo, provocador de raiva e justificador da raiva. Aqui meu campo
fisionômico se acomoda a um campo político. Minha raiva possui ambas as signifi­
cações ao mesmo tempo: uma significação num espaço entre mim e o que me tor­
nou raivoso, outra significação num espaço entre mim e uma outra pessoa que está
intimidada por minha raiva ou simpatiza com ela. Tais complicações são mais a
regra do que a exceção, especialmente na experiência adulta. Podemos ver como o
campo fisionômico integra e sintetiza aqueles horizontes que separamos para
análise. E também podemos ver como ele participa de um “ estilo” mais amplo, ou
rnodus operandi, que compreendemos como ser-no-mundo.1
O propósito deste capítulo é estabelecer alguma espécie de' terminologia, com a
qual possamos entender o comportamento em termos de seus horizontes interpes­
soais. Falaremos de “ acordos” como uma maneira de descrever aquelas com-
preensões implícitas e informuladas compartilhadas por pessoas que se deparam
umas com as outras. Com freqüência tais acordos vêm à luz de forma mais vivida
quando são violados. Todos nós conhecemos pessoas que parecem estar “ em outro
comprimento de onda” , cujos julgamentos sobre o comportamento apropriado e
conveniente são diferentes dos nossos.
Tais acordos podem ocorrer de forma bem restrita, como num grupo de duas
pessoas que venha existindo durante algum tempo, e podem não ter nada a ver com
um grupo mais amplo (“ John pode ter dito X, mas estou certo de que não violaria
nosso relacionamento violando nossa confiança”). Ou podem ocorrer numa escala
mais ampla, como em uma família (“ um Rockefeller não faria isso” ), numa “ pane­
linha” ou grupo social (“ todos sabem o que você pode esperar de um Sigma
Qui”). Outros ainda são étnicos, e mesmo nacionais.2 Naturalmente os grupos me­
nores e seus acordos são mais acessíveis a uma análise específica.

DÍADES
Suponhamos que minha reação a minha filha na noite em que mudou de idéia
tivesse sido dizer: “ Ora, venha cá, você não quer voltar para casa. Você quer
ficar.” Qual teria sido a mensagem essencial? Eu lhe teria dito que não acreditava
em seus protestos. Ter-lhe-ia dito que conhecia suas idéias melhor do que ela
mesma. Teria desqualificado seus desejos expressos e asseverado que aquilo que
ela pensava sentir não era o que realmente sentia. Teria dito que qualquer que fosse
o ser-no-mundo que estivesse desempenhando, não era real o desejo de voltar para
casa. Tal atitude, caso eu a assumisse e mantivesse, teria cortado a habilidade pró­
pria de minha filha para acreditar em sua experiência pessoal.
Todos fazemos isso com nossos filhos de tempos em tempos, contudo também
permitimos que “ tenham seu caminho” , sigam seu sentido imediato das coisas e,
portanto, lhes transmitimos a mensagem “ a menina pequena que você desempenha
é realmente você” ou “ sua experiência imediata é digna de crédito e válida e deve
ser respeitada como se apresenta” . Tal resposta, que está próxima da que expressei
após alguma hesitação inicial e sentimentos de contrariedade, é uma confirmação.
Estabelece o acordo, não apenas para deixar que a criança seja quem está sendo,
como também para confirmar essa identidade, para confirmar a experiência da qual
é derivada, para aceitar e aprovar quem ela estava sendo naquela situação.
ACORDOS INTERPESSOAIS 77
Algumas vezes confirmamos outras pessoas, outras vezes não, na dependência
de vermos ou não seus comportamentos como francos, o que por sua vez depende
do fato de acharmos ou não que o ser-no-mundo expresso no comportamento é real
e, caso o seja, do fato dele ser ou não tolerável para nós. O fato de ter negado a
minha filha a confirmação de seu ser uma “ menina pequena” a teria habilitado a
recuperar sua identidade precedente como “ em crescimento” e talvez tivesse sido a
melhor resposta paterna. Nunca saberemos. Mas todos sabemos o que significa ser
confirmado ou desconfirmado. Você se vê como um aluno brilhante; um professor
pode confirmar ou desconfirmar seu julgamento e a legitimidade da experiência em
que o mesmo está baseado. Todos tivemos a experiência de alguma de nossas pre~
tensões ter sido desconfirmada em razão do fato de uma outra pessoa, que quería­
mos convencer, de alguma forma nos ter deixado saber que não estava convencida.
Freqüentemente oferecemos confirmação ao outro, com a expectativa implícita
de que nossa oferta será retribuída. Permiti que minha filha fosse uma menina pe­
quena e tal generosidade a obrigou a confirmar meu sentido de mim mesmo como
sendo seu pai. Se você convence um professor a concordar que você não é muito
esperto, ele pode garantir essa pretensão em troca da confirmação que você faz da
visão que ele tem de si próprio como incrivelmente inteligente. Uma esposa pode
pretextar que é fraca, pois isto lhe permite evitar certas espécies de responsabilida­
des, e pode ser capaz de persuadir o marido a concordar com essa definição, caso
concorde em confirmar a pretejisão dele de ser uma pessoa muito forte. Um rapaz
pode desempenhar o papel de “ profundamente problemático” e evocar confirma­
ção por parte da namorada, em troca da confirmação da visão desta quanto a si
mesma como alguém que presta assistência ao profundamente problemático.
Tais acordos são freqüentemente muito restritos, específicos de um relaciona­
mento particular; podem refletir fantasias bastante pessoais ou papéis definidos pela
cultura. Na medida em que envolvem pretensões, cada parte fica restrita a uma
visão do outro que é estática e depende da ignorância da evidência contrária. Tais
acordos são chamados conivências; “ são sentidos” como uma compreensão mútua
na qual se pode acreditar, contudo também “ são sentidos” como constrangedores.
Para o marido “ muito forte” , decidir que não é tão forte e solicitar mais força da
mulher é tentar mudar e, ao mudar, violar o acordo. Muitos relacionamentos en­
tram em crise porque um ou outro membro decide, por alguma razão, mudar e
mudar sua visão do outro. Ficamos mais intensamente conscientes de tais acordos
quando eles se rompem.
A conivência ocorre quando duas pessoas concordam em confirmar as preten­
sões uma da outra.3 A experiência de ter minha pretensão confirmada é também uma
experiência de estar obrigado; posso sentir a obrigação de retribuir o favor quando
alguém confirma minha pretensão. Se me conformo ao acordo implícito, uma estru­
tura espacial definida é estabelecida entre mim e a outra pessoa. Podem-se apreen­
der regras, implícitas e informuladas — e mesmo informuláveis. Certas reações se
tornam legitimadas, outras não. Fico obrigado, por exemplo, a continuar a ignorar a
evidência contrária que contradiga a pretensão do outro e a evitar comportamentos
que contradigam de modo demasiado sério minha própria pretensão. Uma das habi­
lidades cruciais que todos aprendemos ao crescer é como estabelecer e manter tais
acordos. Devemos ser sensíveis àquilo que o outro deseja que pensemos; devemos
ter cuidado para não falar demais, pois dizer ò informulado é uma violação, e 'de­
vemos saber como deixar o outro conhecer quais de nossas pretensões são impor­
tantes para nós.
Enquanto o fato de ver confirmada uma imagem de mim mesmo que, na ver­
dade, não o deveria ser, me dá a experiência de obrigação, o fato de ser desconfir-
78 ALGUNS HORIZONTES UNIVERSAIS

mado por outra pessoa me dá a experiência da vergonha. Por certo uma das armas
disponíveis quando desejamos ferir alguém é a evocação da vergonha. Mas a expe­
riência de apresentar minha pretensão para confirmação e de não a receber não tem
obrigatoriamente de ser um sentimento súbito de que algo está rompido. Quando
pela primeira vez encontramos uma pessoa que recusa confirmação, é mais
provável que cheguemos a sentir apenas uma vaga sensação de fracasso por nossa
inabilidade para estabelecer contato, para “ conseguir passagem” em sua direção.
Algumas vezes respeitamos essa recusa (como quando temos algum sentido de que
nossa pretensão é realmente uma pretensão) e algumas vezes evitamos encontros
futuros. Algumas vezes ambas as coisas ocorrem.
Se a confirmação é recusada quando não estamos fingindo ou não temos cons­
ciência de que estamos, podemos sentir dor. Esta é uma estranha espécie de dor
social, não devida a algo errado em nossos corpos e sim a algo errado em nossos
relacionamentos. A estrutura que fornece o horizonte para tal dor não é nossa sen­
sação de bem-estar físico, mas nossa sensação de bem-estar social. A dor social
pode ser, em cada detalhe, tão dolorosa quanto a física.
A experiência de não fingir e ser confirmado é a experiência de ser compreen­
dido. Gostamos das pessoas com as quais deixamos de lado o fingimento e que,
apesar disso, nos aceitam. Confiamos nelas porque sentimos que confiam em nós.
Parecem-nos genuínas e nos sentimos genuínos com relação a elas. Sabemos que
sabem o modo pelo qual nos aparecem e o modo como sentimos que aparecemos a
elas. O fato de ser confirmado em nosso self não-pretensioso é sempre uma questão
relativa ou aproximativa, pois um desmascaramento total quanto às pretensões é,
na verdade, incomum. Porém a experiência de confiar e receber confiança no con­
texto da confirmação não pretensiosa mútua é o esteio da moral e do relaciona­
mento humanos. Todos nós já experienciamos algo dessa espécie; todos nós dese­
jamos mais experiências assim.

GRUPOS MAIS AMPLOS


O espaço social em que nos movemos está estruturado de acordo com grupos
mais amplos do que os relacionamentos diádicos. O pequeno grupo prototípico, e
talvez o mais poderoso, é a família primária.4 Dificilmente se poderia dizer que
todas as famílias são semelhantes, embora seja possível identificar alguns horizon­
tes quase universais, porque são parte da experiência de ser membro de uma famí­
lia. Ser membro de uma família envolve freqüentemente uma obrigação que não
difere da conivência. Uma família não é uma coleção aleatória de indivíduos; é um
grupo que possui acordos muito definidos. O acordo mais importante consiste em
nos identificarmos todos como membros. Em termos operacionais tal requisito sig­
nifica que todos concordamos em esperar acordos uns dos outros. Uma família é
um grupo de pessoas que concorda em que haja acordos. É este acordo quanto a
que haja acordos, mais do que os próprios acordos, o que mantém a família unida.
A maior ameaça à coesão familiar não deriva dos desacordos ou das versões dife­
rentes a respeito dos acordos, mas de desafios à existência dos próprios acordos.5
Na verdade, dizer que não há acordos é dizer que não há família, mas apenas uma
coleção de indivíduos. “ Discordo de tudo que você diz, mas você ainda é meu pai”
é uma afirmação menos ameaçadora do que “ concordo com algumas coisas que
você diz (ou com todas elas) mas isso não é grande coisa; também concordo com
Sr. Smith” . A primeira expressa um acordo sobre quem as pessoas são uma para a
outra; a segunda o nega. Formular a última frase, com o que ela quer dizer, é
proclamar que não há família para mim; é violar o acordo que faz da família uma
família.
ACORDOS INTERPESSOAIS 79

Muitas famílias (e outros pequenos grupos) também têm acordos com determi­
nado conteúdo, que é mais ou menos importante, e certos rituais para a confirma­
ção continuada da existência da família. Para algumas, as refeições em conjunto são
sagradas como expressão do comprometimento mútuo continuado; para outras, me­
ramente manter os outros informados de uma maneira casual (embora suficiente­
mente “ atenciosa” ) é suficiente. O conteúdo dos acordos ocasionalmente resulta
em mitos elaborados e algumas vezes os rituais (tal como as refeições) são desem­
penhos concretos desses mitos (tal como a noção de que os pais são a fonte de
todas as coisas boas e saudáveis).
Grupos pequenos e coesos podem ser bastante tirânicos. A recusa em desempe­
nhar os rituais, o desacordo explícito quanto ao mito ou, em especial, a negação de
que haja acordos estão sujeitos a séria represália. Quanto mais os membros da
família dependem da existência e continuidade da mesma para sustentar as próprias
identidades, mais vingativamente responderão aos membros desviantes. Embora
possa parecer mais fácil ser cruel com estranhos, algumas das crueldades mais vi­
ciosas emergem dentro de pequenos grupos de pessoas que se conhecem muito
bem, pois quando essas pessoas tentam manter o grupo unido estão protegendo o
próprio sentido de quem elas são.6
Os mitos e rituais familiares podem ter por foco certa divisão implícita do tra­
balho. Os papéis se desenvolvem como versões localizadas de papéis definidos cul­
turalmente,7 e as pessoas interpretam o comportamento umas das outras contra o
pano de fundo das expectativas de papéis. Porém nem só o trabalho é dividido e
organizado. O poder, o amor, o êxtase, a tolerância e outras utilidades interpessoais
são distribuídos de acordo com um padrão particular para uma família particular, e
este padrão é seguido pelos membros da família. “ John é o estudioso, Jim, o delin­
qüente; Sally é sua filha e Jane é minha filha” . Tal distribuição não é formulada, é
claro, mas se Jim tentar desempenhar o papel de John estará violando o acordo e
talvez ameaçando o sentido que os membros da família possuem quanto a quem
são.
Compreender os mitos e rituais familiares, assim como a natureza dos acordos
existentes numa família particular, é obviamente crítico para compreender o com­
portamento que ocorre na presença da própria família. Quando presentes, os acor­
dos constituem um horizonte poderoso na experiência individual e, a fim de enten­
der o que significa, para os vários membros, o comportamento na família, devemos
compreender os acordos. Porém, mesmo fora do cenário familiar, carregamos co­
nosco nossos mitos e rituais familiares. A família na qual crescemos permanece,
pois, importante em termos das espécies de acordos em que entramos e naquilo que
significam para nós. De modo similar, um pequeno grupo, tal como uma “ pane­
linha” social na escola ou universidade — com seus acordos, mitos e rituais — é
muito importante quando tentamos compreender o comportamento que ocorre em
presença desse grupo. Porém, tal como a família, o pequeno grupo contribui com
alguma coisa para nossa habilidade de formar e sustentar aqueles acordos implícitos
que mantêm a coesão da vida social.
Ao compreender fenomenologicamente o comportamento, portanto, podemos
focalizar a atenção nos acordos interpessoais como uma espécie de horizonte que é
sempre relevante. Mas esse horizonte dificilmente pode ser separado do espaço
físico contemporâneo à sua fisionomia, conforme discutido no Cap. 7, ou do fato de
ser um self no tempo longitudinal, como foi discutido no Cap. 8. Um espaço físico
contemporâneo é uma fisionomia intensamente colorida por acordos interpessoais,
como quando sentimos a atração em direção a uma pessoa que amamos ou a repul­
são quanto a alguém que não nos confirme. O fato de ser um self no tempo é
80 ALGUNS HORIZONTES UNIVERSAIS

colorido pelas mesmas espécies de acordos; a Sra. Downs por certo fez acordos
implícitos com outras pessoas a fim de confirmar sua culpabilidade, talvez tirando
partido de sua disposição para ver os outros como inocentes e bons. A relação entre
todas essas espécies de horizontes é intrincada e complexa. Talvez fosse ainda mais
exato dizer que não existem tais relações, porque esses horizontes não estão, em
geral, separados em nossa experiência vivida.
A experiência vivida é conforme é, e devemos sempre retomar a ela a fim de
compreender o comportamento. Nossa experiência sintetiza com consumada criati­
vidade8 as espécies de horizontes que aqui discutimos em separado. A relação entre
o nível dos acordos interpessoais e o do espaço fisionômico, por exemplo, não é
muito bem apreendida por palavras tais como influenciado e colorido. Um nível não
causa o outro, nem é uma “ espécie de causa” do outro, como esses termos suge­
rem. Um forma um horizonte para o outro; fomece o pano de fundo contra o qual o
outro nível pode ser, para nós, significativo. Posso dizer, por conseguinte, que um
ato impulsivo da Sra. Downs (por exemplo, uma tentativa de suicídio) tem signifi­
cação contra o pano de fundo de seu campo fisionômico (talvez ela perceba um
obstáculo a ser superado). Esse campo é conforme é apenas na experiência dela
contra o pano de fundo dos acordos interpessoais (talvez uma promessa que tanto
ela como a outra pessoa não esperem que ela consiga manter), mas tais acordos são
conforme são em sua experiência unicamente contra o pano de fundo de seu ser no
tempo (“ tenho sido e sempre serei um fracasso” ). Além do mais, esse arranjo par­
ticular de horizontes, que reflete de modo mais vivido as significações do ato, pode
ser diferente num outro momento, em outro lugar, com outro ato. Uma análise
fenomenológica não pode ficar limitada unicamente a uma lista de níveis de signifi­
cação; deve revelar um retrato da estrutura da experiência de um acontecimento
em sua unicidade. O termo mais geral de que dispomos, o qual é sempre o horizonte
mais básico de significação na experiência humana, é o ser-no-mundo. A estrutura
única do ser-no-mundo de alguém difere de pessoa para pessoa e também (embora
menos) de momento para momento. Os níveis do espaço, do tempo e das outras
pessoas são sempre parte do ser-no-mundo, mas nunca desempenham exatamente o
mesmo papel. Nos Caps. 7-9 descrevemos horizontes universais, porém o lugar dos
mesmos numa análise fenomenológica deve ser determinado pela estrutura de cada
um deles na experiência (ou, podemos dizer, pela estrutura da experiência no acon­
tecimento), e não por uma teoria preconcebida.9
PARTE
lv
CONCLUSÃO
CAPÍTULO 10
O MUNDO
Inevitavelmente, quando indagamos acerca das “ relações” entre os horizontes
universais descritos na Parte III, defrontamo-nos com um quebra-cabeças concep-
tual que não pode ser solucionado a nível conceptual. Os três horizontes — espaço,
tempo e outras pessoas — podem ser ditos universais porque o comportamento e a
experiência estão sempre orientados dentro de um contexto físico, pessoal e social.
Mas constituem horizontes isoláveis ou contextos apenas para propósitos analíticos.
Não precisam ser relacionados conceptualmente, porque ocorrem ao mesmo tempo
na experiência, e desejamos que nossos conceitos sejam verdadeiros com relação à
experiência.
Cada um destes horizontes é um aspecto do mundo, mas o mundo não é uma
soma destas partes. É o horizonte mais fundamental dentro do qual estes horizontes
se podem fazer visíveis na análise fenomenológica, contra o qual aparecem, a partir
do qual foram abstraídos e em virtude do qual existe, de algum modo, experiência.
Portanto, o mundo não é um conceito fácil; é tão fundamental para a experiência
que é muito difícil colocá-lo em questão e, assim, perceber sua importância. Já no
Cap. 2 oferecemos algumas sugestões sobre a natureza do mundo. Queremos agora
fornecer mais detalhes acerca deste horizonte de horizontes.

O MUNDO COMO EXPERIÊNCIA


Se você está passeando numa cidade na qual se encontra há apenas poucos dias,
fixa pontos de referência para não se perder. O parque está sempre à sua esquerda
ou atrás de você, quando você dobra à direita. O arranha-céu do outro lado do
parque é visível de qualquer ponto. E a partir dele você pode encontrar a Market
Street, onde fica a principal linha de ônibus. Se por acaso você vagueia por uma
parte da cidade onde o arranha-céu não é visível e fica confuso pelo fato de ter
dobrado à direita uma ou duas vezes (ou teria sido uma vez à direita e depois à
esquerda?), então algo se modifica. Os edifícios que estavam sendo mapeados por
você anteriormente, localizados num espaço orientado, agora aparecem numa espé­
cie de presença não localizada. No entanto, aquele edifício vermelho está entre o
azul e o prateado, mesmo que você não saiba mais onde eles estão situados com
relação ao arranha-céu. Se você se apavora quando se perde, mesmo a seqüência
azul, vermelho e prateado dos edifícios perde o poder de orientação, e você tem a
sensação assustadora de ruas sem fim, cada uma delas conduzindo a algum lugar
sem significação. É um sentimento desagradável, que você tenta solucionar. Tenta
se achar, pois estar perdido é inquietante. Deseja saber como encontrar aquela linha
principal de ônibus.
83
84 CONCLUSÃO

Uma experiência como esta demonstra de forma suficientemente clara as varia


ções na aparência e significação dos edifícios e das ruas, de acordo com as varia­
ções do “ arcabouço” espacial em que os colocamos. Porém, mesmo em nosso
suave desconforto por estarmos temporariamente perdidos, há ainda um padrão
de referência que permite que edifícios e ruas tenham significação. Você sabe que
está temporariamente perdido porque não foi muito longe e sempre pode perguntar
o caminho a alguém. A experiência está, portanto, encravada num padrão de refe­
rência temporal que permanece confiável e promete que você será capaz de se
achar novamente. Você percebe que, ao andar em volta dos edifícios azul, ver­
melho e prateado, eles aparecem, da esquerda para a direita, na seqüência
prateado-vermelho-azul, já que você se encontra no outro lado. Também o espaço,
embora não esteja mais ancorado em seu conhecimento do lugar onde passa a linha
de ônibus, permanece consistente. Além do mais, as pessoas se movimentam, indo
e vindo dos lugares de uma forma familiar. Então, qual o problema de estar per­
dido? Nada há de extraordinário a esse respeito.
Suponha, entretanto, que você descubra que qualquer que seja o ponto a partir
do qual vê os edifícios, eles sejam sempre, da esquerda para a direita, azul, ver­
melho e prateado. Eles devem estar se movendo. Óu então o movimento que você
faz no espaço não está tendo mais o efeito comum na experiência visual. Suponha
que quanto mais depressa você caminhe em direção ao policial, mais distante ele
fique, mesmo que permaneça parado. Suponha que está ficando mais cedo ao invés
de mais tarde, que é de fato um dia diferente, que está nevando onde antes o sol
brilhava. Suponha que as pessoas, em lugar de se dirigir aos lugares de maneira
familiar, estão todas olhando para você, cochichando umas com as outras, trocando
ocasionalmente risos contidos.
Estar perdido é uma coisa; a maior parte do mundo permanece consistente,
apesar de tudo. As coordenadas de significação espacial, temporal e social ainda
estão intactas, e o mundo continua a fazer sentido. Entretanto estas outras expe­
riências constituem algo mais. As coordenadas espacial, temporal e social não são
mais confiáveis. O mundo, na forma da qual geralmente dependemos para nos si­
tuar, se dissolve. Quando estas coordenadas se dissolvem, o mundo se dissolve;
quando o mundo se dissolve, nossa habilidade para nos situar se dissolve e, com
ela, a rede de significação na qual confiamos tão tranqüilamente (mas, de fato,
desesperadamente).
Todavia, mesmo estas experiências são apavorantes, diferentes e estranhas por­
que as comparamos com um padrão recordado de coerência. Mesmo no centro
deste pânico, o mundo ainda existe implicitamente — em sua ausência. Não há
experiência absolutamente sem mundo, e, intrinsecamente, não há mundo (no sen­
tido fenomenológico) absolutamente sem experiência.
Edmund Husserl (1970) chamou o “ mundo” de Lebenswelt, o “ mundo da vida”
ou mundo vivido. Este mundo não é um lugar estranho no qual estamos jogados
aleatoriamente, hostil à nossa sobrevivência e indiferente à nossa experiência. Ele é
o mundo da existência diária: coisas familiares, aposentos, ruas, pessoas e ativida­
des. É o mundo da apropriação por seres humanos, interpretado e moldado, em sua
própria presença, em acordo com quem somos — mesmo que o fato de sermos
alguém seja interpretado e moldado em acordo com a presença já dada do mundo.
É o mundo em que vivemos, mas o mundo é mais que um lugar; é uma expe­
riência. Como experiência, não está dentro de nossas cabeças (meramente “ subje­
tivo” ) nem fora de nós (meramente “ objetivo” ). A experiência vincula um orga­
nismo a seu ambiente, é o canal de comunicação entre eles, o modo pelo qual cada
um deles tem uma presença para o outro. O mundo me está presente porque expe-
O MUNDO 85
riencio e a experiência está aí porque o mundo já existe. Logo, o mundo não é
apenas uma experiência; o mundo é a própria experiência.
O mundo, assim como a experiência, não está “ lá fora” (meramente “ obje­
tivo” ), neutro e sem significação. Ao contrário, em minha experiência diária des­
cubro o mundo pleno de significações, significações que estão sempre presentes,
que não foram criadas por mim e não são meramente subjetivas, mas não são tam­
bém separadas de mim e meramente objetivas.1 Eu estou no mundo, mas em vir­
tude da experiência também o mundo está em mim; o mundo e eu nos interpenetra-
mos. Sou quem eu sou unicamente por causa do mundo, e o mundo é quem é o que
é apenas por minha causa, por causa de você e do restante dos seres conscientes
que se apropriam dele.

O MUNDO COMO UM PROBLEMA ONTOLÓGICO


Quando pensamos no episódio ocorrido com minha filha, descrito no Cap. l,
não sabemos que objetos se destacaram no campo e se tomaram partes salientes de
sua mudança de idéia. Talvez todos os objetos tenham parecido diferentes, e o
próprio caráter do campo se tenha modificado. Simultaneamente (tanto como causa
quanto como efeito, embora estes termos não sejam muito apropriados), o sentido
que ela possuía de si própria mudou, de um adulto planejador incipiente para uma
menina pequena. Seu mundó mudou de um conjunto de significações que sustenta­
vam seu crescimento para um conjunto de significações que sustentavam sua com­
preensão de si própria como menina pequena. As significações do campo imediato,
de tempo e espaço, de objetos e pessoas, de si mesma e do mundo mudaram todas
de uma só vez. Todas elas são aspectos do mundo, aquele contexto de significações
dentro do qual campo, objetos, pessoas, self e assim por diante possuem significa­
ções. Quando dizemos que ela mudou de idéia, queremos dizer que seu mundo
mudou.
Neste momento, podemos focalizar a atenção naquilo que mudou, ou podemos
estar interessados naquilo que permaneceu idêntico. Ela ainda se identificava como
minha filha, identificava as casas como a casa deles e a nossa, o tempo como hora
de ir para a cama, e assim por diante. Ela mudou de uma forma de se compreender
como uma versão em crescimento de um adulto planejador para uma menina pe­
quena aninhada em cobertas protetoras em sua própria casa, mas permaneceu en^
volvida no mesmo mundo, com a mesma identidade. Não estava convencida, de
forma amnésica ou insana, de ser alguma outra pessoa. A uniformidade através do
episódio, a estabilidade do complexo do mundo, de identidade, campo e objeto é
tão notável quanto a mudança. É menos provável que percebamos esta consistên­
cia, pois chegamos a esperá-la e assumi-la quanto a minha filha, a qualquer outra
pessoa e a nós mesmos. No entanto, se queremos explorar e compreender a expe­
riência humana, esta uniformidade é tão impressionante, na qu'alidade de dado,
quanto a mudança.
O trabalho fenomenológico descritivo sempre traz à luz horizontes que permi­
tem que um fenômeno apareça e seja experienciado. A procura de horizontes de
horizontes nos conduz, em última instância, de volta ao mundo, que está sempre
presente, pleno de significação, fornecendo o contexto, ou estrutura, dentro do qual
emergem experiências significativas. Quando estamos impressionados com a unifor­
midade, a continuidade e a universalidade da experiência — bem como a estabilidade
da identidade e do mundo durante o episódio com minha filha — estamos intimados
a formular a pergunta “ como é possível que de algum modo haja mundo, experiên­
cia e significação?” É uma questão profunda sobre o ser de algo ou sobre o ser em
86 CONCLUSÃO

geral. Quando os filósofos abordam esta questão, estão explorando a ontologia, o


estudo do ser.2
Nossas explorações do episódio, por outro lado, foram menos ontológicas e mais
onticas. Estivemos mais preocupados com esta pessoa particular do que com os
seres humanos em geral e, além disso, mais preocupados com um episódio particu­
lar de mudança do que com seu ser-no-mundo característico em geral. No entanto,
tivemos de nos referir à compreensão geral que ela possuía de si mesma para tomar
lúcido o episódio específico e tivemos de nos referir a fatos ontológicos do mundo
para tomar lúcida a compreensão geral que ela possuía de si mesma. As questões
ontológicas do ser em geral nunca estão longe da superfície quando começamos a
explorar os meandros de uma situação humana particular.3

A COMUNALIDADE DO MUNDO
Suponha que você veja dois jogadores de tênis cansados e suados deixando a
quadra e entrando num bar do outro lado da rua. Este comportamento observado
tem para nós uma referência bastante clara e uma série de contextos imediatamente
evidentes. Compreendemos o comportamento porque a significação do mesmo, do
ponto de vista dos participantes, é bastante inambígua. Compreendemos o ritual
social de beber em conjunto depois de jogar tênis em conjunto, o campo visual da
rua e a qualidade convidativa do bar, a sensação física de estar com calor e com
sede, e assim por diante. Todos estes aspectos são imediatamente compreensíveis
e, embora possamos estar errados (talvez eles estejam realmente indo assaltar o
proprietário), dependemos de tais compreensões, algumas mais e outras menos
elaboradas, em nossas vidas diárias. Tais compreensões dependem das significa­
ções compartilhadas dos rituais sociais, dos bares e da sede. Temos estas significa­
ções em comum com os jogadores de tênis.
Suponha que você é um dos jogadores. Vê a fadiga de seu amigo e o seu descon­
forto, assim como os sente você próprio, e se oferece para pagar-lhe uma cerveja
gelada. Espera que ele aceite, decline polidamente ou insista em pagar uma para
vocé também; não espera que ele se enfureça, ignore o oferecimento ou tire a roupa
e plante bananeira. As expectativas que você possui são conhecidas por ele, e você
sabe que ele sabe que você as tem. Elas são parte de um conjunto compartilhado de
regras de etiqueta que nos habilitam a conviver com outras pessoas todos os dias.
Suponha que você fosse eu, o pai de minha filha, e que recebesse o chamado
telefônico avisando que sua filha estava chorando há meia hora depois da chegada à
casa da amiga, impacientemente antecipada. Nesta situação, suas expectativas te­
riam sido violadas, como as minhas o foram, e você reconheceria haver alguma
coisa incompreensível. Por que ela mudou de idéia?
O próprio fato de formular esta pergunta, no entanto, estaria baseado numa
compreensão previamente compartilhada relativa à antecipação de sua filha. Cha­
mar o ocorrido de “ mudança de idéia” é compreender, em primeiro lugar, que ela
queria ir e, em segundo lugar, que queria voltar para casa. Tanto o querer ir como o
querer voltar são compreensíveis; você pode não saber por que ela mudou de idéia,
mas sabe o que significam o querer ir e o querer voltar. Compartilha com ela uma
série de significações do espaço (o lar e o fora do lar) e do tempo (o recordar, o
querer neste momento, o antecipar e assim por diante). Além disso, a comunalidade
de compreensão que você tem com sua filha é nitidamente demonstrada pelo fato de
que você pergunta por que ela mudou de idéia logo que a compreensão é rompida.
Você fica confuso logo que a comunalidade desaparece.
o MUNDO 87
Percorrendo nossa experiência diária, constituindo sua própria base, existe um
conjunto de significações comumente conservado, coletivamente organizado no
mundo, compartilhado implicitamente com outros, e absolutamente decisivo para
sermos quem e como Somos. O mundo — espacial, temporal, interpessoal, compar­
tilhado, já existente — está na base de toda nossa compreensão de nós mesmos e
dos outros. Na maior parte, as características fundamentais do mundo nos são da­
das, ficamos “ viciados” nelas na qualidade de uma estrutura de significação para
nossa vida inteira, antes que possamos refletir criticamente sobre o que e como são
elas. O mundo já existe,4
O que já existe em nossa experiência consiste em mais do que meros objetos,
como entidades físicas ou fragmentos luminosos e escuros, duros e macios, doces e
amargos. O sempre existente é um conjunto de significações, uma totalidade de
referência dentro da qual tudo o mais faz sentido. Posso compreender os jogadores
de tênis, minha filha, ou você — mas apenas como parte de uma compreensão já
existente no mundo. E sei que a compreensão prévia que possuo é, em aspectos
essenciais, a mesma compreensão prévia que possuem você, minha filha e os sua­
dos jogadores de tênis. O mundo nos é comum, mesmo que nossas perspectivas
possam diferir e nos tornem pessoas diferentes.5
Freqüentemente supomos que nossas mentes sejam compartimentos privados,
que os outros só conhecem na medida em que decidimos compartilhar com eles
seus conteúdos.6 Reconhecemos que partilhamos um mundo comum com outras
pessoas, mas parecemos também pressupor que esta comunalidade é o resultado da
partilha de nossos conteúdos mentais com os outros. Também a suposição oposta é
possível: a comunalidade do mundo não é o resultado do compartilhar experiências;
é a base para fazê-lo. Meu mundo não é como o seu, porque compartilhamos nossa
privacidade; foi sempre como o seu, e é apenas em virtude desta similaridade prévia
que se torna possível compartilhar perspectivas privadas.
Podemos perguntar como é possível estarmos certos desta posição e, também,
se ela é ou não importante.
Os dados que conduzem a esta conclusão advêm da análise fenomenológica. Os
conteúdos de minha experiência têm uma comunalidade com os seus porque o mundo
(aproximadamente sinônimo de experiência) me é dadô na qualidade de nosso
mundo comum (aparece desta forma em minha experiência), Da mesma maneira, o
mundo é, também, dado a você. Ambos supomos, portanto, que nos referimos ao
mesmo mundo e esta suposição comum permite que nos comuniquemos. Isto cons­
titui a base para nossa comunicação e não o resultado dela.
A importância desta conclusão não é menor do que a postura ontológica que
assumimos ao falar, de algum modo, sobre comunicação. A tensão entre nossa ex­
periência diária e nossas construções teóricas sobre a mesma, conforme apontado
especialmente no Cap. 3, surge de uma postura ontológica não submetida à crítica
fenomenológica. O tema (das “ outras mentes” ) é complexo demais para ser abor­
dado aqui, porém é mais do que uma questão puramente acadêmica, e a noção
fenomenológica de um mundo comum, sempre já dado, aponta diretamente para

VARIAÇÕES NO MUNDO
Nossa análise do episódio de minha filha é um exemplo do modo de fazer psico­
logia fenomenologicamente. Estivemos claramente engajados em uma dupla tarefa:
a descrição do mundo particular de minha filha e a descrição dos universais do
mundo de acordo com os quais podemos entender o ser-no-mundo particular da-
88 CONCLUSÃO

quele episódio. Focalizar nossa atenção no papel do mundo nas experiências parti­
culares é a melhor maneira para nos tornarmos sensíveis à influência penetrante do
mundo em todos os seres humanos. Consideremos, por exemplo, a experiência dos
humores.
Meu mundo difere de dia para dia; freqüentemente expressamos tal fato dizendo
que experienciamos diferentes humores. Quando examino a experiência de diferen­
tes humores, descubro que o que expresso pelo termo “ humor” é uma variação na
aparência do mundo.7 Recentemente soube de uma experiência de um aluno, que se
tinha apaixonado por uma garota durante um congresso de uma semana em uma
cidade que jamais tinha visitado antes. A cidade adquiriu, para ele, uma qualidade
mágica — diferente de qualquer outra em que houvesse estado. As árvores eram
mais verdes, o céu mais azul, as edificações mais esplêndidas, e assim por diante.
Em certo momento durante a semana, perguntou à garota o que se iria tornar o
relacionamento dos dois. Ela respondeu com o sentimento convencional e pouco
comprometedor de que o futuro não contava e de que estava apenas apreciando o
presente. Não era isto que ele sentia, e ficou desapontado com a resposta, embora
pretextasse concordar e prosseguir dentro da visão convencional dela. Durante a
hora e meia seguinte, antes que ele finalmente explodisse num acesso de raiva e
praticamente arrancasse uma viga de uma parede, experienciou o mundo de ma­
neira muito diferente. As árvores e o céu se tornaram sem vida, as edificações,
feias; as pessoas lhe pareceram temerárias e imprevisíveis, enquanto antes tinham
parecido amigáveis e tranqüilas. A magia da cidade tinha desaparecido, certamente,
mas não hoüvera um retorno a uma cidade neutra. A ordem e o sentido que tinham
permeado a cidade, as pessoas e os acontecimentos desapareceram. A cidade se
tornara um lugar estranho, pouco convidativo e hostil.
Todos nós já experienciamos estas mutações fisionômicas. Durante períodos ex­
tremos, é fácil perceber que os acontecimentos são mágicos ou hostis contra o pano
de fundo de uma paisagem inteira que é mágica ou hostil. O mundo se modifica e os
acontecimentos tomam significações diferentes. Que devemos fazer quanto a esta
diferença? Ainda mais relevantes para o tema, entretanto, são as significações de
acontecimentos surgidas quando não estamos experienciando extremos de humor.
O mundo tem uma aparência característica e é, do mesmo modo, uma rede de
significações para a vida diária. Sua fisionomia pode não nos chamar a atenção,
visto que é tão comum; o peixe é o último a descobrir a água. Mas esta fisionomia
não é menos poderosa para estruturar e fornecer significação aos acontecimentos
do que aquela característica dos estados extremos de humor.
Em nossa psicologia fenomenológica ôntica, em outras palavras, visamos a che­
gar a uma compreensão de diferentes indivíduos, assim como de diferentes humores
no mesmo indivíduo. Uma descrição do mundo do indivíduo é tão apropriada para a
primeira tarefa quanto para a segunda. Ludwig Binswanger (1958a) descreveu uma
série de pacientes em termos de seus mundos. Vamos recapitular algo da descrição
de Binswanger na qualidade de ilustração. Uma mulher de vinte e um anos estava
sujeita a ataques de ansiedade cada vez que alguém mencionava saltos ou sapatos
— realmente um sintoma intrigante. Porém ela havia experienciado sua primeira
ansiedade e sensação de desfalecimento na idade de cinco anos, quando seu salto
ficara preso nos patins e fora separado do sapato. A análise de suas fantasias suge­
riu que a separação da mãe, talvez mesmo o trauma do nascimento, fora uma parte
importante da sua história. Mas dizer que o trauma do nascimento, ou mesmo o
acidente dos patins, teria causado o sintoma, é inadequado e falso. As fantasias
anteriores e posteriores ao acidente dos patins já traziam o tema da ansiedade de
O MUNDO 89
separação. Binswanger propõe “ investigar o esquema de mundo que possibilitou
essas fantasias e fobias em primeiro lugar” .

O que funciona como chave para o esquema de mundo de nossa pequena paciente é a
categoria de continuidade, de conexão contínua e refreamento. Isto impõe restrição,
simplificação e esgotamento tremendos do “conteúdo do mundo” , da totalidade extre­
mamente complexa dos contextos de referência da paciente. Tudo que faz o mundo signi­
ficativo é submeter à regra desta categoria única que, sozinha, sustenta seu “mundo” e
seu ser. É isto que causa a grande ansiedade acerca de qualquer ruptura de continuidade,
qualquer lacuna, divisão ou separação, ato de ser separado ou dividido. Por isto a sepa­
ração da mãe, experienciada por todos como a separação-arquetípica da vida humana,
chegou a se tomar tão prevalente que qualquer acontecimento de separação servia para
simbolizar o temor de separação da mãe e para convidar e ativar aquelas fantasias e
sonhos diurnos (1958a, pág. 203).
Binswanger acrescenta que esta teoria não é uma “explicação” no sentido cau-
sal. O esquema de mundo que depende da continuidade não é a causa, mas a condi­
ção de possibilidade para as fantasias, os temores e os ataques de ansiedade. Ele
acrescenta que

o incidente dos patins assumiu sua significância traumática porque, nele, o mundo subi­
tamente mudou de fisionomia, mostrou-se pelo ângulo da subitaneidade, de algo total­
mente diferente, novo e inesperado. Para isso não havia lugar no mundo desta criança:
não poderia entrar em seu esquema de mundo; ficou, como estava, sempre do lado de
fora; não poderia ser dominado (1958a, pág. 204).

O esquema de mundo em que todas estas experiências estão baseadas “ não tem de
ser ‘consciente*, mas não o devemos chamar ‘inconsciente’ no sentido psicanalí-
tico” . Ou melhor, é um horizonte, conforme descrito no Cap. 2.
Um segundo paciente sofria toda espécie de preocupações somáticas, fobias
quanto ao que poderia fazer e quanto ao que poderia ser feito com ele. Foi diagnos­
ticado como um “ esquizofrênico polimorfo” em virtude da combinação aparente­
mente desconcertante de sintomas, a maior parte dos quais o conduzia a um com­
portamento notavelmente bizarro. Binswanger observa:
Enquanto que em nosso primeiro caso tudo aquilo (alles Seiende) apenas era acessível
num mundo reduzido à categoria da continuidade, neste caso o mundo é reduzido à
categoria mecânica de força e pressão. Portanto, não ficamos surpresos em perceber que
nesta existência e em seu mundo não há estabilidade, que sua corrente de vida não flui
calmamente, mas que tudo ocorre por solavancos e sobressaltos, dos gestos e movimen­
tos mais simples à formulação de expressões lingüísticas e à tomada de decisões cogniti­
vas e volitivas. Tudo que se refere ao paciente é irregularmente recortado e ocorre
abruptamente, prevalecendo o vazio entre os solavancos e empurrões isolados (1958a,
pág. 207)*.

O mundo de um terceiro paciente estava “ reduzido às categorias de familiari­


dade e desconhecimento — ou estranheza” . Este paciente “ estava constantemente
apavorado por um poder hostil furtivo e mesmo impessoal” . Estas experiências
mais tarde proliferaram em delírios de perseguição. Como nos outros casos, os
delírios não eram eventos aleatórios de uma mente enlouquecida, mas, ao contrário,
articulavam seu mundo concretamente. Ao mesmo tempo, seus delírios (ou qual­

*Estes trechos de Binswanger são reproduzidos com permissão do editor de Existente: A New Dimension in
Psychiatry and Psychology, publicado por Rollo May, Emest Angel e Henri F. Ellenberger/° 1958 por
Basic Books, Inc., Publishers, New York.
90 CONCLUSÃO

quer experiência) só poderiam ocorrer com base em um esquema de mundo que


fornecia a base, o contexto, as condições de possibilidade para estas experiências.
Os humores e os estilos de vida individuais não são os únicos aspectos elucida­
dos por um estudo fenomenológico do mundo. Consideremos também as situações.
Todos sabem que a “ atmosfera” é muito diferente numa festa de aniversário, em
um julgamento de assassinato e num funeral — embora cada uma delas se possa
assemelhar às outras duas sob certas circunstâncias..Nestes cenários, somos atraí­
dos para um “ humor coletivo” — aquele que mais nos toca em virtude da sensibili­
dade individual ao mesmo e da tendência de todos nós para contribuir para essa
atmosfera, uma vez envolvidos nela, comunicando-a aos outros. Sei de um psico-
logo fenomenológico que está tentando descrever a atmosfera da Psicoterapia, com
pacientes diferentes em diferentes estruturas. Este esforço promete uma contribui­
ção substancial à literatura psicoterapêutica. Outros exploram o “ mundo virtual”
de um romance ou outra peça de arte. A sensibilidade literária será proveitosa, e
com isso ficaremos em maior harmonia com a vida.
Em cada um destes tipos de estudos, as possibilidades para uma psicologia fe­
nomenológica estão apenas vislumbradas. Em cada um deles, nova versão do “ mé­
todo fenomenológico” terá de ser arquitetada, embora as estratégias gerais do Cap.
3 permaneçam como guias valiosos. Camadas múltiplas de significação serão
apreendidas e descritas, e tornar-se-á vivida a sua coerência em totalidades expe-
rienciais. Na base de todas estas descrições estarão “ mundos” a serem apreciados
e o “ mundo” para ser compreendido.
CAPÍTULO 11
COMENTÁRIOS FINAIS
Lembro-me de uma aula, na qual dois professores e dez alunos, que tinham
chegado a se conhecer e a se gostar, voltaram mutuamente a atenção para os outros
enquanto indivíduos; vieram à luz comentários sobre o comportamento e estilo de
cada um, e todos desfrutamos de um elevado senso de respeito recíproco, assim
como nos tomamos mais sinceros em nossas observações. Um certo aluno não
havia estudado muita coisa do material, mas todos gostavam dele em função da
habilidade que possuía em ser espirituoso, apontando nossos disparates ocasionais
quando seguíamos temas profundamente filosóficos. Disse-lhe algo sobre esse
efeito; temia que fosse um cumprimento bastante malicioso, mas eu pretendia isso.
Todos olharam para ele, esperando outro de seus famosos comentários. Ele fez uma
pausa e em seguida disse: “ É melhor que você tenha cuidado. Eu poderia algum dia
dizer algo realmente brilhante.”
Foi engraçado, mas sério também. A observação foi uma resposta à atmosfera
amigável dos trabalhos com um tema caracteristicamente inesperado. O aluno con­
seguiu, primeiro, manter sua postura de frivolidade jovial; segundo, reconhecer que
não havia dito nada brilhante anteriormente; terceiro, fazer uma piada sobre como
seria no futuro; e quarto, solicitar respeito pela pessoa que era, mesmo que fosse
diferente do restante de nós.
O momento passou com uma boa risada, mas merece ser preservado como um
exemplo do quanto pode ser criativo o comportamento humano. Houvesse ele tido
tempo para pensar em algo a dizer que alcançasse todos aqueles resultados; hou­
vesse ele identificado cada uma das diversas significações do que estava aconte­
cendo na sala, do que lhe tinha sido dito e do que significava para todos nós olhar
para ele com expectativa; tivesse ele recordado todos os sentimentos que experi­
mentara em relação ao curso e às pessoas que o freqüentavam; e tivesse ele plane­
jado quais os tipos de relacionamento que gostaria de manter no futuro, não teria
surgido com um comentário melhor. Na verdade, sua reação espontânea combinou
em um instante todos esses motivos, significações, recordações e planos. Assim é o
comportamento geralmente. Necessitamos realmente captá-lo em sua plena com­
plexidade e abundância de significações se queremos compreendê-lo.
Iniciamos a Parte I com uma análise fenomenológica da mudança de idéia de
minha filha numa certa noite. Voltamos a esse episódio muitas vezes, a partir de
muitos ângulos diferentes, visando identificar as significações dele em sua plena
riqueza e complexidade. O aspecto surpreendente é que o episódio tenha tantas
significações. Porém ele não é mais surpreendente do que qualquer outro episódio
que tenha ocorrido a mim ou a você há cinco minutos atrás ou que nos venha a
91
92 CONCLUSÃO

acontecer amanhã. A maior parte de nosso comportamento é pelo menos tão com­
plexa quanto isso, e a maioria de nós já o entende em sua complexidade,
embora não explicitamente. Nada é tão trivial que não mereça uma análise fenome­
nológica, pois tudo o que fazemos envolve todos os níveis e camadas de quem
somos.
O comportamento é uma expressão de quem somos no momento, de quem
fomos e seremos com o correr do tempo; é também uma resposta a um campo
fisionômico que está em fluxo constante, embora segundo um padrão; também re­
presenta nossa participação em acordos interpessoais múltiplos, passados, presen­
tes e futuros. O comportamento é o ato de tomar público quem somos; pode ema­
nar de um nexo privado de pensamentos e sentimentos secretos, mas nossa privaci­
dade não pode permanecer, e realmente não permanece, totalmente confidencial.
Uma pessoa pode-nos iludir durante uma pequena parcela de tempo, mas uma ilu­
são a longo prazo é tão rara que sempre a consideramos um acontecimento extraor­
dinário, não porque sejamos fenomenologistas treinados, mas porque somos feno-
menologistas não adestrados, e sempre compreendemos mais do que pensamos
sobre nós mesmos e sobre os outros. Contudo, enquanto esta compreensão perma­
nece implícita e não é submetida a um escrutínio rigoroso, estamos propensos a
encobri-la com teorias vistosas porém simplórias que ignoram a vida conforme a
vivemos realmente. Nós, humanos, somos na verdade capazes de ignorar a vida
conforme realmente a vivemos.
Mas somos também capazes, como nenhuma outra espécie, de dispensar aten­
ção explícita ao comportamento em sua riqueza e complexidade. Uma psicologia
adequada é aquela que revela a nós mesmos a nossa experiência vivida, em lugar de
encobri-la com explicações globais de acordo com as quais tudo significa a mesma
coisa.
Mas a psicologia é uma ciência extremamente jovem. A psicologia fenomenoló­
gica o é ainda mais. Se você prestou atenção à minha advertência do Prefácio e
tentou realizar algum trabalho analítico enquanto prosseguia na leitura, deve ter
provavelmente descoberto que compreender o comportamento não é tão fácil como
muitos dos exemplos podem tê-lo feito parecer. Antes de tudo há a tarefa de estar
aberto à própria experiência. Essa abertura requer uma disciplina bastante inco-
mum, visto que aprendemos, durante anos de treinamento, a ignorar grande parte
da mesma. Que sensação produz estar em tal ou qual situação? Muitas situações
são por nós “ processadas” segundo uma espécie de eficiência intelectual que nos
barra o acesso à percepção clara daquilo que já compreendemos, e que devemos
compreender para sermos incluídos entre as pessoas mentalmente sadias de nossa
cultura. A maior parte de nós neste planeta descobrirá o caminho para a sepultura
sem chegar sequer a um acordo com a própria vida. Isso é triste, certamente, mas
está longe de ser necessário. Enquanto seres humanos, não possuímos apenas a
habilidade notável de sintetizar horizontes na experiência e de articular a experiên­
cia no comportamento de maneira imediata; possuímos também a habilidade ainda
mais extraordinária de chegar a saber o que estamos fazendo, por que motivo e com
que efeito — mas apenas se tentarmos ir além daquelas significações estereotipadas
tão correntemente oferecidas pela nossa cultura, apenas se puderemos nos discipli­
nar no sentido de uma postura reflexiva e crítica, apenas se formos curiosos.
Uma segunda dificuldade, uma vez que estejamos em contato mais vivido com
nossa experiência vivida, é enunciar o que nela descobrimos. Este problema é, em
termos amplos, uma questão de linguagem. Podemos afirmar que nosso trabalho na
Parte III foi principalmente o estabelecimento de uma linguagem: alguns termos
descritivos com os quais operar e algumas tentativas de relacioná-los conceituai-
COMENTÁRIOS FINAIS 93
mente sem violentar os dados da experiência vivida.1 Mais uma vez, a extrema
juventude de nossa ciência se evidencia. Potencialmente existe um número infinito
de maneiras de isolar e rotular os vários níveis de significação na experiência hu­
mana; nem todos são igualmente úteis, acurados ou reveladores da vida conforme a
vivemos. Esses critérios só podem ser encontrados na experiência vivida; nosso
empreendimento se toma naturalmente circular nesse sentido. Todavia, ele não é
incontrolável, infundado, carente de base. Nem pode a descrição ser arbitrária ou
uma mera questão de preferência. A teoria psicológica deve ser fundada no único
lugar no qual, afinal de contas, toda significação pode ser fundada: na experiência
diária. Se conceitos tais como mundo, fisionomia, culpa, conivência e assim por
diante não falarem de nossa experiência, ou se obscurecerem diferenças experien-
ciais permanentes e importantes, terão de ser reformulados.
Algumas das dificuldades, mas absolutamente não todas elas, podem ser reduzi­
das pela própria psicologia, que é um corpo de literatura e um programa para cria­
ção de mais literatura. Como estudantes de psicologia temos o direito de explorar a
literatura existente para que nos possamos tornar mais transparentes para nós
mesmos, e temos a obrigação de criar literatura adicional e de melhor qualidade
para nossos filhos.

PSICOLOGIA FENOMENOLÓGICA E OUTRAS PSICOLOGIAS2


É provavelmente um erro dividir as diversas psicologias de forma tão radical
entre aquelas que visam a prever, ou a controlar o comportamento, e aquelas que
aspiram a compreender pessoas. A maior parte dos psicólogos pretende ambas as
coisas. A psicologia fenomenológica está num dos extremos desse contínuo, na me­
dida em que não visa a prever ou a controlar o comportamento e em que dirige o
seu foco de atenção exclusivamente à tarefa de compreender. Há psicologias ex­
tremadas na outra direção, como por exemplo a de B. F. Skinner (1953, 1972). (É
curioso o fato de que os skinnerianos e os fenomenologistas tenham um fundamento
significativamente comum, que freqüentemente se opõe ao do restante da disciplina.)3
O argumento fenomenológico afirma que, se desejamos compreender pessoas, de­
vemos abordar a tarefa com métodos e conceitos que sejam gerados exclusivamente
para esse fim. Na medida em que a psicologia moderna adotou métodos e conceitos
da física, ela está limitada a compreender apenas aqueles aspectos do homem que
são compartilhados pelos objetos físicos. Na medida em que adotou métodos e con­
ceitos da biologia, está limitada a compreender aqueles aspectos do homem que são
compartilhados pelos organismos em geral. A psicologia fenomenológica visa a
compreender as pessoas enquanto pessoas; esta é uma das razões pelas quais ela
põe seu foco de atenção na experiência.
Há outras psicologias que visam a compreender as pessoas enquanto pessoas,
tais como a assim chamada psicologia humanística ou personologia.4 De modo se­
melhante à psicologia fenomenológica, a personologia reconhece que as pessoas por
certo têm coisas em comum com os objetos físicos e com os organismos em geral.
Portanto, essas outras espécies de psicologia não são carentes de valor em suas
tentativas de entender as pessoas. Porém, à maneira de Willie Sutton, que disse que
roubava bancos “ porque é neles que está o dinheiro” , os fenomenologistas e per-
sonologistas aspiram a uma abordagem mais direta. Se queremos compreender pes­
soas, então devemos estudar pessoas, e arquitetar conceitos e métodos apropriados
para esse estudo. É evidente que os psicólogos de linha fenomenológica tentam ir
mais além do que os personologistas nesse programa.
Os psicólogos não indagam com muita freqüência por que finalmente queremos
ter uma psicologia, o que queremos dizer quando afirmamos que “ compreende-
94 CONCLUSÃO

mos” algo e o que está em jogo quando comunicamos nossa compreensão. Em


função da psicologia fenomenológica emergir de uma tradição filosófica diferente da
das ciências físicas e biológicas, suas respostas a essas questões são freqüente­
mente diferentes daquelas da corrente principal da psicologia americana. Contudo,
a psicologia fenomenológica se eleva ou declina por seus próprios méritos, en­
quanto um tipo de psicologia, não estando subjugada à associação com filósofos
renomados e influentes.
Não que esta espécie de psicologia nada deva a Edmund Husserl, Martin Hei­
degger, Jean-Paul Sartre e Maurice Merleau-Ponty. Ela é mais seguramente uma
criação deles do que minha. Isto também não significa que possamos dispensar as
idéias desses pensadores na busca de uma psicologia fenomenológica, especial­
mente em seus pontos de partida filosóficos básicos. Quer dizer, no entanto, que é
possível para alunos principiantes pensar fenomenologicamente, fazer fenomenolo­
gia e, por certo, compreender o que a psicologia tenta compreender de modo inci­
sivo e penetrante.
Apesar da validade da psicologia fenomenológica estar em função do confronto
com questões usualmente não colocadas em que nos engaja e do fato de nos condu­
zir a explorar temas com os filósofos, seu mérito mais básico é abrir nossos olhos e
mentes à experiência vivida. Esta é também sua tarefa mais básica. Na verdade,
essa recomendação resume o trabalho de todos os fenomenologistas. Tentei, estou
certo de que com êxito irregular, promover o progresso dessa tarefa com este livro.
Se não estivermos abertos à experiência vivida do mundo, teremos realmente uma
psicologia estranha. Naturalmente, trabalhar com “ o subjetivo” e com aconteci­
mentos únicos causa problemas — alguns dizem que insuperáveis. Isso é um exa­
gero.
É provavelmente significativo que a psicologia fenomenológica apareça num
certo momento de nossa história cultural. Embora ela simplesmente se ajuste às
reservas correntes quanto à ciência e à tecnologia, deve elevar-se ou declinar com
base em seus próprios méritos e não por sua associação com sentimentos antitecno-
lógicos populares.5
Devemos nos abster de prometer demasiado. Creio, sim, firmemente, que uma
abordagem fenomenológica em psicologia possa realçar o vínculo dos problemas
mais básicos de nossa disciplina com questões morais,6 pela adoção de uma atitude
apreciativa em lugar de manipulativa, e pela incorporação dessa atitude em sua
própria urdidura. Mas está longe de ser evidente que esta espécie de psicologia
possa ser algum dia algo mais do que uma voz minoritária, ou parecer adequada
numa cultura que define a adequação em termos tecnológicos.
No entanto, escrevo este livro com uma esperança: a de que possamos, como
uma cultura, como uma disciplina e profissão, e como indivíduos, chegar a reco­
nhecer que os fenômenos que estudamos significam muitas coisas e que podemos
chegar a entender as inúmeras camadas e nuances de significação inerentes ao
comportamento humano. A psicologia fenomenológica não é mais do que a explici­
tação rigorosa da nossa experiência de todos os dias. Não é mais desejável do que a
experiência diária é importante. Porém, visto que todo conhecimento só tem signifi­
cação em relação com a vida conforme vivida no dia-a-dia pelas pessoas, esta
importância e desiderabilidade são absolutas.
APÊNDICE
APENAS PARA PSICÓLOGOS:
O LUGAR DA
PSICOLOGIA
FENOMENOLÓGICA
Em 1890, William James definiu pela primeira vez a psicologia para os america­
nos. Ela deveria ser a ciência da vida mental. E com a idéia de que deveria existir
tal ciência, apoiado na erudição, boa vontade e visão de James, o povo ganhou uma
perspectiva inteiramente nova de si próprio. De início, apenas um pequeno número
de estudiosos compreendeu o que era a psicologia, mas seus esforços diligentes
para estabelecer a nova ciência produziram, eventualmente, em poucas décadas,
um novo centro de gravidade para estudos de graduação e uma nova maneira, para
os americanos, de pensar sobre eles próprios. Milhões de americanos tornaram-se
um pouco menos homens do que eram antes: objetos voluntários de uma nova ciên­
cia, uma nova ciência na qual eles mesmos — nós mesmos — poderiam também ser
os cientistas. Nosso século é aquele no qual o autoconhecimento humano assumiu
uma forma única e penetrante, e o advento da psicologia americana foi uma das
causas desta mudança na vida mental que os próprios psicólogos estudam.
James consolidou e americanizou pequenas partes do autoconhecimento psico­
lógico que se tinha desenvolvido na Europa e na Inglaterra. Deu-lhe uma amplitude
que não excluía qualquer aspecto daquilo que somos, do mais minúsculo detalhe dç
nosso cérebro e do pensamento mais secreto a nosso respeito aos acontecimentos
maiores e mais públicos perpetrados pelo homem. A própria noção de psicologia
expunha a amplitude total de quem somos por nosso próprio escrutínio. O nasci­
mento da psicologia americana, com o Principies ofPsychology, de James, condu­
ziu a incríveis desvios e transformações em nossas definições de nós mesmos. Têm
havido continuidades debaixo de descontinuidades debaixo de continuidades — a
história da psicologia já é tão complexa que ministrar um curso sobre a mesma, por
exemplo, oferece tantas possibilidades quanto uma autodefinição pessoal. Alguns
dizem que esta ciência está na infância, outros que é adolescente, outros ainda que
está madura. O que dizemos do progresso da psicologia depende daquilo que imagi­
namos que James tenha criado.
No início de seu desenvolvimento, a psicologia americana foi predominante­
mente importada. O pensamento de Wilhelm Wundt foi importado da Alemanha
pela Comell University de E. B. Titchener, Ivan Pavlov, da Rússia, pela Columbia
97
98 APÊNDICE

University de John Watson, e Alfred Binet, da França, pela Stanford University,


mas, em cada uma destas circunstâncias, o produto importado foi americanizado.
Mais tarde vieram Sigmund Freud e a psicologia da Gestalt, contra o pano de fundo
de Charles Darwin, que havia sacudido a Inglaterra e os Estados Unidos no século
anterior, e de James, que nos havia preparado para estas importações ao inventar
um novo americano para a psicologia — um nòvo “ homem” como objeto de um
autoconhecimento psicológico. Ninguém sabia bem, nem Sabe, aonde está indo a
psicologia. No entanto, o fato de que ela está indo adiante parece uma afirmação
segura para o futuro previsível.
A psicologia fenomenológica é outro componente na lista das importações da
Europa. Como as anteriores, já havia precursores nesta ou naquela região da psico­
logia americana cultivada para consumo local. E, assim como as importações ante­
riores, está destinada a ser americanizada, assim como a enriquecer o autoconhe­
cimento americano que a incorporará. A natureza exata desse enriquecimento,
neste ponto, é bem pouco clara. Permanece um problema o modo como ela real­
mente atuará no caótico mercado das idéias. Mas talvez seja importante notar que
os psicólogos fenomenológicos possuem alguma visão deste futuro. Devemos esta­
belecer nossas intenções e compartilhar abertamente nossas esperanças com as au­
toridades estabelecidas do autoconhecimento psicológico americano, os psicológi­
cos acadêmicos. Cada idéia nova é, em certo sentido, uma ameaça às velhas idéias
e a história da psicologia neste país é uma fábula fascinante de negociações entre os
homens a respeito de qual será a linguagem de nossa autocompreensão.
De modo mais específico, que contribuição pensamos que a fenomenologia
possa fornecer ao rico conglomerado de idéias que caracteriza presentemente a psi­
cologia acadêmica americana? Parece-me que existem quatro níveis em que a feno­
menologia entra nesta matriz e desejo tentar descrever, neste breve ensaio, as for­
mas pelas quais a fenomenologia pode trazer uma contribuição.

FONTE DE HIPÓTESES

Através de sua metodologia de ciência natural, a psicologia tem estado, já há


algumas décadas, no ramo da verificação de hipóteses. De onde vêm estas hipóte­
ses? De palpites, intuições, adivinhações disciplinadas e leitura criativa de desco­
bertas anteriores. Os desenvolvimentos mais inovadores em psicologia têm sido
produzidos por psicólogos que olharam para os fenômenos que desejavam com­
preender, em seguida olharam outra e ainda outra vez, fazendo perguntas tais como
“ o que deveria ser verdade para que isso acontecesse?” De modo não pouco fre­
qüente, os psicólogos usam sua própria experiência como uma fonte de palpites.
“ Como eu reagiria se estivesse nesta situação?”
Todos estes processos, que nunca são incluídos na conta da metodologia psico­
lógica, são fenomenológicos num sentido informal e assistemático. As reduções fe-
nomenológicas, variações imaginárias e interpretações têm sido sempre o capital de
giro de cientistas criativos, mas estes não as explicitaram de forma detalhada como
procedimentos metodológicos. No nível mais simples de contribuição, a fenomeno­
logia pode fornecer uma descrição clara e algum rigor metodológico a este estágio
crucial, e tão negligenciado, do processo científico.
Mais especificamente, a preocupação da fenomenologia é a experiência. Como
esta desempenha um papel em praticamente qualquer comportamento, as descober­
tas dos fenomenologistas podem ajustar-se ao paradigma já existente da psicologia
científica como uma fonte de “ variáveis intervenientes” . Uma variável interve-
niente é um acontecimento presumido que ocorre dentro do organismo, entre um
APENAS PARA PSICÓLOGOS 99
input de estímulo e um output de resposta. Tais processos “ internos” não são dire­
tamente visíveis e não são, portanto, abordáveis pela ciência convencional, embora
sejam provavelmente aspectos críticos da produção do comportamento. A expe-
riencia é, precisamente, uma de tais “ variáveis intervenientes” , quando apreendida
a partir do ponto de vista da ciência natural.
Muitos psicólogos hipotetizaram variáveis intervenientes para explicar as rela­
ções observáveis entre estímulos fornecidos a um organismo e respostas emitidas
por ele. As do teórico da aprendizagem Clark Hull (1952) constituem inferências
lógicas quase puras e, portanto, não são particularmente fenomenológicas. Em con­
traste, aquelas do teórico da aprendizagem E. C. Tolman (1966) são altamente fe­
nomenológicas em conteúdo, e o método de Tolman consistia abertamente em per­
guntar: “ Como eu me comportaria se estivesse nesta situação?” O livro de Fritz
Heider, The Psychology o f Interpersonal Relations (1958), representa uma tentativa
elaborada de compreender a experiência conforme experienciada, e praticamente
cada capítulo deu origem a um subcampo da psicologia social contemporânea. Os
psicólogos da Gestalt estavam evidentemente inspirados em algumas peculiaridades
da experiência subjetiva para criar parte de nossa literatura psicológica mais exci­
tante. Kurt Lewin (1935) deve ser mencionado, igualmente, nesta linha. Snygg e
Combs (1949) e MacLeod, é claro, apresentaram-se a si próprios como fenomenolo-
gistas e levantaram muitas hipóteses.
Nenhum destes psicólogos foi um fenomenologista no sentido bastante estrito
em que os fenomenologistas usam atualmente este termo, ainda que todos fossem
fenomenológicos no ponto crucial em que “ compreenderam” o comportamento:
antes de o demonstrar experimentalmente. Naturalmente, palpites que emergem de
uma especulação fenomenológica assistemática e informal nem sempre são corretos
no sentido em que a ciência natural entende “ correção” . Portanto, esta espécie de
“ fenomenologia” necessita de um método científico de verificação. Porém, ao
mesmo tempo, a ciência precisa desta espécie de fenomenologia como uma fonte de
hipóteses. Precisa da fenomenologia não só para fornecer novos enfoques criativos
para antigos problemas, como também para fornecer conteúdo teórico relativo ao
modo como as pessoas realmente vivem. Uma psicologia fenomenológica bem de­
senvolvida fornecerá aos psicólogos científicos, que preferem fundir seus trabalhos
nos moldes da ciência experimental, idéias teóricas sobre o modo como as pessoas
realmente vivem, tomando o trabalho experimental mais incisivo, relevante e útil.
Deixe-me oferecer um exemplo mais específico do que quero dizer, embora o
trabalho de qualquer dos psicólogos mencionados esteja cheio de tais exemplos.
Suponha que desejemos saber que espécies de fatores determinam a atração inter­
pessoal. A pesquisa sobre este tópico tem mostrado que podemos prever o quanto
um sujeito será atraído por uma pessoa, conhecendo algumas das características
deste sujeito, seus traços de personalidade, e assim por diante. Podemos também
prever, com algum grau de precisão, com base nas características da pessoa para
quem o sujeito é atraído. Isto é, certas pessoas são mais atraentes do que outras.
Reunindo estas duas espécies de informações podemos prever qualquer atração in­
dividual com maior precisão do que se conhecêssemos apenas um dos preditores.
Mas há ainda outra variável que influencia o grau de atração em qualquer situação
particular, a situação dentro da qual duas pessoas se encontram (Frankel, 1973). O
sujeito A encontrando a pessoa B não sentirá a mesma atração num bar, numa
igreja, na floresta, ou em uma orgia. Se o sujeito vê a situação como assustadora,
desafiadora, confortável, tensa, ou coisa parecida, o grau de atração que sente será
afetado. Porém, que aspectos da situação fazem diferença? A maneira com que o
sujeito percebe a situação é importante, mas, como podemos saber exatamente o
100 APÊNDICE

que ele percebe numa situação como sendo importante? Quais as “ dimensões” da
situação? Isto é, quais as “ situações prototípicas” ?
Nossa lista, que inclui “ assustadora” , “ desafiadora” , e assim por diante, dis­
crimina as diferenças situacionais relevantes? Faz-se necessária uma fenomenologia
das situações, para fornecer ao experimentador uma idéia de como as fazer variar
na testagem de suas predições.

UM VEÍCULO PARA O HUMANISMO

A ciência natural será amplamente centrada em tomo de um método e é inde­


pendente de outras tradições do pensamento ocidental que são frutíferas para a
psicologia. O humanismo é uma de tais tradições. Por “ humanismo” , expresso
simplesmente aquela linha de pensamento que começa com a premissa de que de­
vemos compreender pessoas em termos apropriados para pessoas, em lugar de em
termos emprestados da física ou da biologia. Esta tradição não é igualmente rele­
vante ou útil para qualquer dos ramos da psicologia, mas é certamente importante
para a psicologia clínica e para o estudo da personalidade, do comportamento
“ anormal” , e assim por diante. Nestes campos, o humanismo tem marcado sua
presença na psicologia através dos trabalhos de Carl Rogers, Gordon Allport, Rollo
May, George Kelly, Clark Moustakas, Abraham Maslow, Sidney Jourard e muitos
outros.
Um ponto de vista humanístico coloca a consciência no centro do conceito de
homem, pois esta domina a vida do homem de forma mais dramática do que, talvez,
a de qualquer outro organismo. O comportamento do homem é menos mecânico,
menos previsível, menos uma função direta do ambiente e mais dependente de
como ele percebe o mundo em geral e sua situação imediata em particular.
Ao focalizar a experiência do paciente, assim como seu comportamento, os psi­
cólogos estão sendo tanto fenomenológicos como humanísticos. Uma psicologia fe­
nomenológica bem desenvolvida fornecerá uma teoria do que significa ser uma pes­
soa (em lugar de uma coisa, ou um organismo). Tal teoria tomará a tradição huma-
nística capaz de ter uma presença mais coerente e rigorosa na psicologia americana.
A preocupação humanística com as pessoas na qualidade de seres que têm expe­
riências é o campo comum dos psicólogos humanísticos e fenomenológicos. Eles
fazem contribuições mútuas, porém atualmente o humanismo, apesar de sua in­
fluência óbvia na psicologia clínica, carece de um método, de uma teoria coerente e
de uma fundamentação explícita em dados rigorosos. As finalidades do humanismo
(compreender e ajudar pessoas) são manifestamente diferentes das finalidades cien­
tíficas (previsão e controle), porém a psicologia humanística atual assemelha-se
mais a uma preocupação moral afixada à psicologia científica por suas aplicações
clínicas do que a um programa discriminável.
Em suas aplicações clínicas* a psicologia não pode simplesmente sobrepor um
padrão de referência característico da ciência natural à tarefa clínica, sob pena de
excluir alguma coisa. Tentativas tais como o esforço de B. F. Skinner para resolver
tecnologicamente os problemas humanos criam um profundo desconforto entre os
humanistas, o qual é mais comumente formulado em termos de escrúpulos morais
do que como um desafio intelectual. Este último aspecto precisa ser desenvolvido
para dar substância ao primeiro. A psicologia fenomenológica pode, portanto, ser
um veículo intelectual para a resposta humanística às tecnologias como a de Skin­
ner, por intermédio do desenvolvimento futuro da teoria do homem como ser expe-
rienciante. Se os humanistas desejam argumentar que devemos compreender a ex­
APENAS PARA PSICÓLOGOS 101
periência para compreender os pacientes, então é necessário entender realmente a
experiência, em lugar de meramente apresentar o argumento. É necessário tornar o
argumento convincente para oferecer uma compreensão coerente. A psicologia fe­
nomenológica oferece esta esperança.

UM PARADIGMA

Thomas Kuhn (1962), em seu estudo das revoluções científicas, isolou um nível
da ciência denominado “ paradigma” . Um paradigma é um complexo de suposições,
maneiras de ver e de pensar, que está subjacente às teorias e modelos. A ciência,
em sua evolução, pode descobrir inúmeros fatos sem modificar as teorias, porém
estas se desenvolvem, em última instância, como resultado dos fatos. De modo
similar, inúmeras teorias e modelos podem vir à luz sem uma mudança de para­
digma, mas estes realmente se modificam em pontos cruciais da história da ciência.
Tais mudanças nos paradigmas (“ revoluções” ) não apenas mudam a percepção de
fatos e teorias de modo que aquilo que não parecia importante anteriormente se
toma importante agora. As mudanças paradigmáticas também redefinem o conhe­
cimento considerado útil, as espécies de questões formuladas, os critérios daquilo
que se considerará como soluções, e, em certo sentido, os objetivos da ciência.
A psicologia americana experimentou uma de tais dramáticas revoluções entre
os anos de 1915 e 1930, quando os próprios objetivos da psicologia mudaram, pas­
sando da busca de átomos elementares da mente (“ estruturalismo” de Titchener) a
uma busca das leis e princípios que pudessem habilitar os psicólogos a prever e
controlar o comportamento (“ behaviorismo” de Watson). Outras inovações em
psicologia — da parte de Freud, de Jean Piaget, dos psicólogos da Gestalt, do neu-
ropsicólogo D. O. Hebb, dos psicólogos cognitivistas (com estudos de processa­
mento de informação), dos etologistas e de Skinner (tecnologia operante) — foram
aproximadamente radicais, ao menos em intenção, mas não foram de fato tão pene­
trantes e “ revolucionárias” quanto o behaviorismo de Watson. A concepção watso-
niana provocou uma genuína mudança de paradigma; sem dúvida, os psicólogos
mencionados discordaram da teoria de Watson, mas operaram amplamente dentro
de seir paradigma. Tendo os participantes da postura de Watson na principal cor­
rente da psicologia americana concordado que é importante entender apenas aque­
les fatores psicológicos que afetam o comportamento, a definição de compreensão
ficou sendo a habilidade para prever e controlar o comportamento.
A psicologia fenomenológica, em seus momentos mais ambiciosos, aspira a es­
tabelecer um novo paradigma para a psicologia. Este novo paradigma envolverá
uma modificação quanto a quais fatos e teorias são importantes: que perguntas for­
mular, quais respostas considerar como tais e, em geral, quais os objetivos da ciên­
cia.
Bem, a situação atual da psicologia americana é de um tal pluralismo que uma
ampla mudança de paradigma com a magnitude da watsoniana é provavelmente
impossível. Os psicólogos nunca concordariam quanto àquilo para que mudar, visto
que já há desacordo profundo sobre a partir de que estaríamos mudando. Portanto,
a presença mais modesta da psicologia fenomenológica na qualidade de “ uma fonte
de hipóteses” e “ um veícuk) para o humanismo” é uma previsão histórica mais
provável. Entretanto, para que mesmo estas espécies de influências possam ter
algum efeito, devemos supor um desenvolvimento maior da psicologia fenomenoló­
gica que o existente atualmente. Este desenvolvimento, por seu tumo, contará com
um desenvolvimento posterior de um paradigma — uma elaboração dos problemas
102 APÊNDICE

importantes e o desenvolvimento de um método para solucioná-los. Como os psicó­


logos fenomenológicos não estão satisfeitos com o status pré-paradigmático cor­
rente de seu trabalho, o paradigma a desenvolver será tão diferente da corrente
principal atual da psicologia como o paradigma watsoniano foi diverso do estrutura-
lismo de Titchener. O destino deste paradigma e a compreensão psicológica que
emergirá dele serão questões para gerações futuras de psicólogos.
Do ponto de vista de um paradigma fenomenológico, a previsão e o controle do
comportamento não são objetivos particularmente importantes, nem critérios de
conhecimento; um fenomenologista não concordaria que “ conhecemos” ou “ com­
preendemos” algo apenas quando o podemos prever e controlar. A verificação do
conhecimento será talvez mais uma questão de um acordo, baseado no fato de o
modo como entendemos a nós mesmos já ser conhecimento. Ou melhor, nós na
verdade já nos compreendemos de algumas formas particulares, e esta autocom-
preensão é uma parte do modo como realmente somos.
Tentemos elaborar este ponto difícil, mas crucial. No decorrer de um dia, eu me
comporto todo o tempo. A psicologia me oferece conceitos que me possibilitam
compreender meu próprio comportamento. Ele é, por exemplo, uma seqüência de
respostas a uma seqüência de estímulos, ou uma descarga de energia psicodinâmica
canalizada através de uma rede de mecanismos de defesa do ego. Estas teorias são
parte do modo como eu (e todos os outros americanos) me compreendo. Também
me compreendo, no entanto, como me esforçando por um futuro particular ou evi­
tando um futuro particular, como satisfazendo preferências, cumprindo obrigações,
provando coisas a pessoas, resistindo a tentações, demonstrando coragem, afir­
mando meus direitos, e assim por diante. Nada nesta linguagem é conforme à lin­
guagem da teoria psicológica, embora constitua aquilo que fabrica minha autocom-
preensão não-teórica. A fim de trazer à luz minha teoria psicológica, devo traduzir
estas palavras em termos psicológicos.
Tal tradução é claramente reducionista, mas alegramo-nos de pagar esse preço
para ter uma ciência. A alternativa a essa redução tem sempre parecido constituir
um mero relato da corrente da consciência — poesia, literatura, inspiração ou con­
fissão, mas não psicologia. O paradigma fenomenológico repousa na suposição de
que este nível da compreensão diária, não-teórica, pode constituir a temática da
psicologia porque não é aleatório, desordenado ou inestruturado. A tarefa consiste
meramente em descobrir uma maneira de articular explicitamente essa ordem e essa
estrutura já existentes. A psicologia fenomenológica visará, pois, a tornar claro o
modo pelo qual somos enquanto viventes e experienciadores de pessoas. Não atin­
gimos esta compreensão, porque a psicologia não tem tido esta finalidade, nem a
teoria e a linguagem para tal. E quando a obtivermos, ela nos revelará de tal modo
que saberemos que é verdade.
Se esta promessa soa como mágica, isto ocorre em parte porque estamos acos­
tumados a pôr à prova o conhecimento pelo antigo paradigma. Porém este antigo
paradigma não aborda a questão de como vivemos realmente nossa experiência e,
na verdade, não o poderia fazer com seu método. Com importância ainda maior, no
entanto, devemos perceber que nossa compreensão daquilo que significa ser um ser
humano já desfruta de um acordo extraordinário. Porém, visto que não foi formu­
lada, tem permanecido ao nível de uma suposição não investigada. A psicologia
fenomenológica deverá formular este nível de nossa experiência. Esclarecerá nossa
compreensão atualmente obscura de sermos quem e como somos apenas com base
no fato de haver um mundo e, além disso, um mundo com tal e qual caráter, com­
partilhado com outros, que se estende no espaço e muda com o tempo. Toda esta
complexidade constitui um padrão de significação dentro do qual interpretamos
APENAS PARA PSICÓLOGOS 103
nossa experiência diária. E estas significações estão disponíveis para escrutínio e
crítica — mas somente depois que um paradigma tiver sido desenvolvido.
O paradigma fenomenológico procurará revelar-nos a nós mesmos. Ele nos dirá
o que realmente já sabemos e o modo como já vivemos, em lugar de empurrar para
trás as fronteiras do conhecimento à maneira das ciências físicas. No entanto,
mesmo já sabendo o que nos dirá, não sabemos que o sabemos. Não possuímos
uma compreensão clara e articulada de quem somos e de como somos quem somos
e, portanto, não percebemos, a não ser de modo vago e assistemático, quais são
nossas opções. Talvez M. Foucault (1970) estivesse certo quando sugeriu que o
“ homem” (conforme o conhecemos) fora inventado no século XVIII e que nos
estávamos aproximando do momento em que “ ele” desapareceria e emergiria uma
nova compreensão de nós mesmos.

UMA RESPOSTA À CRISE

Os psicólogos têm com freqüência entendido sua ciência como prática, abor­
dando problemas sociais e empurrando o curso da história em direção a um modo
de vida mais razoável e humano. Os notáveis desastres sociais e políticos deste
século ocorreram contra o pano de fundo do autoconhecimento psicológico, e os
americanos tiveram uma sensação de que poderiam intervir inteligentemente para
tornar a vida melhor. Mesmo que este século não ofereça crises mais graves do que
as dos anteriores, estas parecem assim porque nos sentimos mais aptos a responder
de forma inteligente. A tecnologia comportamental de Skinner (1970) é simples­
mente o exemplo mais óbvio desta atitude.
A partir de seu próprio começo no trabalho inicial de Husserl, a fenomenologia
também foi vista por seu autor como uma resposta a uma crise peculiarmente mo­
derna. O próprio Husserl não foi muito claro a respeito dessa crise até o fim de sua
vida, na obra póstuma The Crisis o f European Sciences and Transcendental Phe-
nomenology (1970). Sua compreensão particular da crise está baseada nos contor­
nos e suposições amplas do pensamento moderno a partir do século XVI. A versão
um pouco diferente de Martin Heidegger (1962) de nossa situação sugere um erro de
2.000 anos. Outros fenomenologistas vêem o problema de forma diferente.
Em geral, os fenomenologistas percebem a crise como mais profunda e com­
plexa do que os outros psicólogos americanos. Não compartilham do otimismo tec­
nológico de Skinner, mas ultrapassam também a noção do psicólogo de que a agres­
são seja meramente inata. Tendem a abordar a história humana ao nível das suposi­
ções básicas para as tradições e consciência coletiva da sociedade. Esta abordagem
tem conduzido a uma variedade de interpretações que bem podem parecer especu­
lativas e irrelevantes para o estilo mais prático dos psicólogos americanos, mesmo
em suas tentativas de enfrentar a crise.
Mas algumas destas suposições históricas muito profundas são diretamente rele­
vantes para os psicólogos. De forma mais óbvia, nossas tradições nos colocaram na
situação peculiar em que fatos e valores estão radicalmente separados uns dos ou­
tros.
Esta separação entre fatos e valores no pensamento moderno tem uma impor­
tância imediata para os psicólogos na aplicação de sua ciência aos assuntos huma­
nos. Quem é mentalmente doente? Que é saúde mental? Qual o preço do confor­
mismo humano? Como pode este preço ser contrabalançado com os perigos do
desvio comportamental? Estão estas “ questões de valores“ excluídas definitiva­
mente do escopo de nossa ciência? Como podem elas ser separadas sem que nós
mesmos fiquemos divididos enquanto psicólogos? Como podem possivelmente ser
104 APÊNDICE

estas questões relacionadas sistematicamente, dada uma tradição intelectual que


insiste em separá-las? Podemos libertar-nos desta cisão tradicional que impregna
totalmente nossa própria linguagem e pensamento? Ou estamos condenados a de­
senvolver uma tecnologia mais e mais refinada para atingir finalidades, deixando a
questão das finalidades mesmas ser decidida como matéria de gosto, poder político
e acidente histórico?
Já abordei o problema da contribuição dã fenomenologia à psicologia neste nível
em um outro trabalho (Keen, 1972), e não vou repetir isso aqui. No entanto, é
importante observar que a fenomenologia tem, neste nível, a presença de um mo­
vimento ou tradição cultural na história das idéias, assim como a tem nos níveis de
paradigma, de teoria do experienciar humano e de fonte de hipóteses científicas no
modelo naturalista.

FAZENDO PSICOLOGIA FENOMENOLOGICAMENTE

Dado que sua psicologia ainda é pré-paradigmática em ampla escala, o psicólogo


fenomenológico experimenta algum desgosto e embaraço quando um colega lhe
pergunta simplesmente: “ O que você faz?” Em parte, o que fazemos depende de
em qual dos quatro níveis de aplicação estamos interessados. Mas cada nível de­
pende, como anteriormente apontamos, do desenvolvimento de um paradigma mais
explícito e comunicável. Acho que se deve fazer uma tentativa, mesmo neste
estágio inicial, para responder a pergunta.
O objetivo da psicologia fenomenológica é revelarmo-nos à nossa compreensão
explícita. Devemos fazê-lo observando-nos, a nós mesmos e um ao outro. Tal ob­
servação — do self e de outros — pode aproximar-se das metodologias introspec­
tiva e comportamental, respectivamente. O trabalho fenomenológico não está limi­
tado a qualquer das duas, mas as pressupõe, depende delas e as usa. Além da
observação própria e alheia, o trabalho fenomenológico inclui reflexão disciplinada
sobre nossa própria observação. Naturalmente, os bons cientistas sempre refleti­
ram, mas isto nunca se tornou um método com uma finalidade própria, questões
próprias, soluções próprias e um procedimento ordenado para passar de um a
outro.
Mais particularmente, o objetivo da psicologia fenomenológica é revelar à nossa
compreensão explícita aquilo que já compreendíamos implicitamente. Conforme
mencionamos anteriormente, nossa compreensão diária, vivida, de nós mesmos,
não é abordada por nossas teorias psicológicas. Sempre que converso com uma
outra pessoa, por exemplo, compreendo o que eu digo do ponto de vista dela (ma­
neira pela qual sei o que dizer) e sei implicitamente que ela faz o mesmo com
relação a mim. Juntamente, estabelecemos uma rede intrincada de acordos, não
apenas sobre aquilo a que se referem nossas elocuções lingüísticas, como também
sobre que expressões são apropriadas, em que circunstâncias, por que razões, e
assim por diante. Ou, de forma mais precisa, e muito importante, nós não estabele­
cemos estes acordos, pois eles já existem. São parte do sistema de nossas vidas e
das vidas de quaisquer pessoas que já tiveram, de algum modo, uma conversa.
Estes acordos podem ser especificados? É necessário ou compensador especificá-
los? Como podemos abordar esta tarefa?
Os acordos podem ser especificados, mas apenas se os investigarmos através de
uma reflexão disciplinada. Não é necessário fazer-se isto para lidar com o mundo
diário, mas o é para compreender como lidamos com o mundo diário — ou como
fracassamos em lidar com ele. É desejável investigar apenas até o ponto em que é
desejável dispor de tal compreensão. Os fenomenologistas compartilham esse valor
APENAS PARA PSICÓLOGOS 105
com muitos não fenomenologistas, mas ele não é abraçado por psicólogos que
orientam seus trabalhos pelas finalidades exclusivas de previsão e controle do com­
portamento.
A própria reflexão disciplinada não é fácil de descrever e é este, é claro, o
problema paradigmático. Ele não pode, por certo, ser reduzido a instruções do tipo
“ livro de receitas” . Voltando a nosso exemplo da conversa, como sabemos o que
nossas elocuções parecem e significam para os outros? É claro que, por vezes,
erramos neste julgamento, e isso nos impressiona, porém a reflexão disciplinada
nos leva a perceber o quão notável é o fato comumente inexpressivo de que o
façamos tão bem.
Como o fazemos? De algum modo, nossa experiência de nós mesmos ao conver­
sar com outros possui certas qualidades que não têm sido investigadas com muita
intensidade. Localizo o outro num espaço físico que é entendido como estando
dentro da amplitude de minha voz e sei que ele faz o mesmo com relação a mim.
Contudo, também me localizo, e ao outro, numa espécie de espaço psicológico no
qual somos transparentes um para o outro. Em minhas conversas diárias, suponho
que os conteúdos de minha experiência são comunicáveis ao outro e os dele a
mim, que compartilhamos uma intenção de nos revelar um ao outro, que esta inten­
ção se encaixa em um espaço psicológico (ou experiencial) de minha vida mais
ampla, que é diversa, mas que tem superposição com a do outro, que esta superpo­
sição contém um conceito compartilhado do mundo, que esse mundo também pa­
rece diferente a partir das duas perspectivas, que posso conduzir o outro a entender
minha perspectiva (dentro de limites) e que posso entender a dele — se concorda­
mos em fazer esta tentativa. Mesmo que não concordemos em tentar, compreende­
remos inevitavelmente um ao outro em certa medida. Por que compreendemos
tanto? Porque esse é o caráter da experiência humana. A experiência não é efêmera
e inefável; é estruturada a cada minuto de acordo com um espaço no qual já sabe*
mos que um espaço físico compartilhado será um espaço experiencial comparti­
lhado, embora com aspectos únicos de acordo com nossas perspectivas distintas.
Não estou sozinho no mundo e nunca supus que estivesse. A experiência humana
tem esse caráter, na medida em que é realmente humana.
Falando em termos de desenvolvimento, a aquisição deste caráter interpessoal
da experiência ocorre provavelmente muito cedo, embora saibamos, a partir do
trabalho de Piaget, que provavelmente haja um desenvolvimento ordenado desde o
primeiro sentimento empático no relacionamento com a mãe até as habilidades so­
fisticadas para mentir e para antecipar as conclusões alheias, assim como outros
adornos da experiência diária dos adultos. Por mais fascinante que seja a questão
do desenvolvimento, minha preferência é pela compreensão inicial das estruturas
experienciais nas quais ocorre o desenvolvimento — e aqui penso, como fenomeno-
logista, que a limitação das investigações de Piaget ao pensamento lógico, que é
uma das estruturas da experiência, mas não a única, não oferece uma psicologia
fenomenológica muito completa. As estruturas da experiência humana que tornam
possível minha vida diária são muito mais elaboradas do que as operações formais
— mesmo se intercalarmos a perseveração de operações concretas e de cognição
pré-operacional. Os trabalhos de Freud, H. S. Sullivan e George Kelly também são
sugestivos.
Estas teorias parecem mais incompletas do que errôneas. Cada uma delas con­
tribui com uma parte, mas o todo é mais do que a soma das partes, ao menos no
que se refere à experiência. E ir além desta afirmação para caracterizar o que surge
na teoria fenomenológica vai além de nosso propósito aqui. Nossa ênfase principal
está simplesmente em que tais investigações não precisam ser carentes de funda­
106 APÊNDICE

mento, estar além da possibilidade de acordo ou fora do âmbito da psicologia; os


fenomenologistas estão trabalhando para especificar o paradigma que possa trazer
tudo isto à luz.

CONCLUSÃO

Qual é então o “ lugar” da psicologia fenomenológica em meio à complexa rede


de idéias que constituem a psicologia acadêmica americana? Cada um dos níveis
que discutimos foi mais ambicioso, de mais longo alcance e mais visionário do que
os anteriores. O primeiro pode ser previsto com confiança, pois já é um fato estabe­
lecido da história. Porém a operação neste nível se expandirá e se tornará mais
importante com o desenvolvimento da própria psicologia fenomenológica. A opera­
ção ao segundo nível já está clara em alguns sentidos, mas depende também do
desenvolvimento continuado do próprio trabalho. O terceiro nível, do paradigma,
virá a se realizar. A questão de sua importância para a psicologia não será prova­
velmente decidida pela atual geração de psicólogos. O quarto nível é aquele sobre o
qual apenas os tolos fazem previsões, mas podemos esperar que, como uma ma­
neira de pensar, a fenomenologia contribuirá para que possamos escapar de nossa
crise cultural — se há uma crise exse vamos escapar dela.
Eu me descubro pensando sobre o que acharia o William James de 1890 da
psicologia acadêmica de hoje. As inúmeras inconsistências e contradições da pró­
pria psicologia de James ainda estão conosco. Nós as vemos de forma um pouco
diferente hoje em dia, mas elas são, com toda probabilidade, mais do que meras
contradições em teoria psicológica; ao contrário, são contradições do pensamento
ocidental em geral — talvez mesmo paradoxos da própria existência humana. Hus­
serl aparentemente se impressionou mais com James do que o inverso, mas a feno­
menologia, assim como a psicologia, percorreu um longo caminho desde que algum
deles dois escreveu seus trabalhos embrionários. O agora é um momento excitante,
quando os sucessores de ambos falam um ao outro a partir da posição de vantagem
constituída por aquele autoconhecimento americano peculiar que é a psicologia
acadêmica.
NOTAS
CAPÍTULO 1
‘Um dos poucos estudos psicológicos deste problema é o de E. T. Gendlin (1962).
2Tem havido bem poucos estudos fenomenológicos sobre crianças. O trabalho de Maurice
Merleau-Ponty (1964a) é uma notável exceção. O psicólogo mais importante e sagaz especiali­
zado em crianças é, provavelmente, Jean Piaget, que com freqüência é fenomenológico em
método e conteúdo, embora não explicitamente. Uma boa fonte de consulta sobre o volumoso
trabalho piagetiano é o livro de J. H. Flavell (1963). Uma crítica do trabalho de Piaget do
ponto de vista fenomenológico pode ser encontrada em B. Levi (1972). Para uma apreciação
da visão do próprio Piaget sobre a fenomenologia e outros empreendimentos filosóficos, veja
Piaget (1971).
3Muitos psicólogos diferenciaram a vergonha da culpa exatamente desta maneira (por exemplo,
Lynd, 1961). Podemo-nos sentir culpados sozinhos; a culpa é uma questão de autojulgamento.
Por outro lado, a presença de outras pessoas, seja real, imaginada ou implícita, é uma parte
inerente da experiência da Vergonha; o outro é o juiz, e o self, o réu. Do ponto de vista do
desenvolvimento, a culpa provavelmente deriva da vergonha; a criança é sensível à desapro­
vação parental antes que aprenda a desaprovar-se a si mesma. Mesmo a culpa adulta prova­
velmente inclui Sempre algo de vergonha, pois também me sinto culpado porque sei que outras
pessoas importantes me julgariam mal.
Tais distinções e descrições são uma parte importante da psicologia fenomenológica. Aju­
dam a tomar claro o caráter estrutural da experiência diária. A “estrutura" se refere, neste
caso, ao pré-requisito espacial implícito para a experiência: a vergonha ocorre num espaça
interpessoal. O arranjo de panos de fundo temporais é também um exemplo de estrutura. A
experiência é sempre estruturada; o espaço e o tempo são duas (mas não as únicas duas)
estruturas que caracterizam a experiência humana.
4Este caráter social é um terceiro aspecto universal da experiência humana. A fisionomia do
espaço físico (conforme aparece na Fig. 5), a estrutura dos panos de fundo temporais (con­
forme aparece nas Figs. 1 e 2) e a estrutura das relações sociais (conforme mostrada nas Figs.
3 e 4) são os três “horizontes universais" que serão discutidos detalhadamente nos Caps. 7, 8
e 9, respectivamente. Conforme ficará explicitado posteriormente, nada há de sagrado quanto
a estes três horizontes, e, na verdade, na própria experiência eles não ocorrem como aspectos
separados.
5P6de valer a pena abordar aqui uma questão levantada por um aluno quando terminou de ler
o Cap. 1. “ Eu o li. Entendi o que você diz; mas ainda não sei por que ela mudou de idéia.
Apesar de tudo que você disse, ainda não acho que o tenha explicado de modo que eu possa
dizer que entendi — que entendi realmente." Esta espécie de resposta vem de estudantes
bastante inteligentes. Minha reação habitual é perguntar que tipo de explicação parece estar
faltando, que espécies de coisas precisaríamos saber a fim de entender realmente o motivo
pelo qual minha filha mudou de idéia.
Estamos agora, pela primeira vez neste livro, face a face com uma questão filosófica difí­
cil: o que é compreender? O aluno mencionado tinha alguma idéia do que ocorria quando
107
108 NOTAS

compreendia algo. Geralmente, a compreensão envolvia o conhecimento de um padrão ou


seqüência de eventos antecedentes que causavam o evento em questão. “Por que ela mudou
de idéia?” significava, para este aluno, “o que determinou que ela mudasse de idéia conforme
o fez ?” O estudante está, é claro, bastante certo quando afirma que não há resposta para esta
pergunta neste capítulo. E também está correto ao dizer que o capítulo realmente não explica
nada; não explica nada àqueles para quem “compreender” significa saber o que causa a ocor­
rência de um evento.
Se chove e desejamos saber por que está chovendo, provavelmente ficaremos certos de
que compreendemos por que está chovendo quando entendemos a física da condensação da
água e dos padrões de temperatura, além do modo pelo qual se aplicam à chuva de hoje. Por
que está chovendo? A resposta está num padrão de eventos antecedentes que, quando ocor­
rem, sempre produzem chuva. Se conhecemos a meteorologia, então compreendemos. Com
base neste sentido de compreensão das coisas, o Cap. 1 não nos diz por que minha filha
mudou de idéia.
A causalidade é a maneira pela qual compreendo algumas coisas, mas não a forma pela
qual compreendo todas as coisas. Não é a maneira pela qual compreendo o que o aluno quer
dizer quando expressa sua crítica. Minha compreensão de pessoas não é análoga à minha
compreensão da temperatura. Não considero a objeção que o aluno fez como sendo o efeito
de um padrão de causas, as quais poderiam ser uma fundamentação científica e uma leitura do
capítulo. Apreendo o que ele está dizendo por saber o que ele exprime, e não por saber o que
causou a emergência desse comportamento neste momento. Ele sabe o que quero dizer com
esta afirmação, e podemos dizer que nos “compreendemos” mutuamente.
É tentador estabelecer, de modo vago, que as duas espécies de compreensão são funda­
mentalmente diferentes e que a fenomenologia visa à última, ao invés de à primeira, a qual é o
objetivo da psicologia tradicional. Esta polaridade é útil temporariamente, talvez, porém na
verdade é simples demais, como mostraremos na Parte II.
6Esta afirmação implica em que não haja nada a respeito de nós mesmos que já não saibamos
(embora possamos não saber que o sabemos). Tal afirmação vai contra todas as espécies de
fatos sobre o corpo e a mente humanos, que muitas pessoas nunca conheceram nem conhece­
rão. No entanto, se estes fatos são relevantes para suas vidas e são fatores em seu comporta­
mento, as pessoas devem conhecê-los em algum nível, a fim de comportar-se como o fazem.
Este dilema pode ser resolvido pela distinção entre conhecimento explícito e implícito,
estendendo-se o último aos processos orgânicos dos quais não estamos conscientes (conforme
se reflete na afirmação “Meu estômago sabe quando digerir comida”). Tal solução é cons­
truída sobre uma metáfora básica para a compreensão do corpo, muito diferente da metáfora
mecanicista predominante na medicina moderna. Não podemos discutir aqui este assunto com
as filosofias da ciência e do conhecimento, mas apenas concordar com o fato de que a psicolo­
gia fenomenológica desafia algumas suposições fundamentais do pensamento científico e as
coloca em questão. O problema inteiro reaparecerá em conexão com os processos mentais
inconscientes no Cap. 2.

CAPÍTULO 2
'Esta afirmação é discutível, é claro. Nas primeiras décadas deste século os psicólogos prati­
camente só lidavam com a experiência consciente. Sua psicologia era bastante frustradora, em
virtude dos argumentos doutrinários a respeito de quais seriam os blocos de construção fun­
damentais da consciência. As doutrinas fundamentais foram, primeiramente, o empirismo bri-
tânico, que argumentava dever a consciência ser entendida em termos das partes elementares
de seu conteúdo — sensações, imagens e afeições — e, em segundo lugar, a protofenomeno-
logia alemã de F. Brentano e da escóla de Würzburg, que argumentava serem os atos, e não
os conteúdos, a textura constituinte da consciência (ver Brentano, 1874, e Titchener, 1966,
para afirmações originais; boas fontes secundárias são Boring, 1950, e Heidbreder, 1933). A
frustração consistia em não parecer existir maneira de resolver esta controvérsia, que envolvia
concepções muito diferentes sobre a natureza do homem e sobre a maneira pela qual o conhe­
cemos.
CAPÍTULO 2 109
Nos EUA, John Watson (1924), o mais famoso dos behavioristas, resolveu o problema ao
redefinir a psicologia de modo que a experiência consciente não fizesse parte dela. Embora
esta perspectiva fosse combatida pelos psicólogos da Gestalt (Koffka, 1935; Köhler, 1947) e
outros, o behaviorismo tem sido a principal força da psicologia americana. Seu mais recente e
claro representante é B. F. Skinner (1953, 1972); no entanto, muitos psicólogos que discordam
de Skinner ainda sustentam que a psicologia pode prosseguir sem referência à experiência
consciente.
A opinião predominante hoje em dia nos EUA assemelha-se, provavelmente, à seguinte:
“A experiência consciente pode desempenhar um papel importante em alguns comportamen­
tos, mas não pode ser investigada diretamente porque é subjetiva, privada e não pode ser
avaliada pelos métodos da ciência objetiva. Tudo o que sabemos acerca da experiência cons­
ciente é, portanto, indireto — uma inferência a partir do comportamento. E, visto que os
experimentos, previsões e outras rotinas da ciência natural estão prosseguindo sem explora­
ção direta da experiência, a perda não deve ser grande demais.” Esta perspectiva pode ser
discutida em todos os pontos. Para uma avaliação mais profunda, ver A. Giorgi (1966, 1970a,
1970b), J. A. Beshai (1971), S. Strasser (1963), Merleau-Ponty (1964c) e o Apêndice deste
livro.
Uma exceção a esta visão predominante supõe que a consciência é importante na medida
em que afeta a maneira pela qual o sujeito é condicionado (Grings, 1973). Esta postura não é,
na verdade, muito diferente daquela de Watson e Skinner, pois a consciência se toma mera­
mente uma outra variável de laboratório e não um fenômeno com seus próprios direitos, valo-
rizável enquanto foco de estudo.
Entrementes, um segmento de opinião sobre o papel da experiência em psicologia, menos
importante, embora proeminente, é representado pelos teóricos da atribuição (Jones et al.,
1972). Os atribuicionistas descrevem sua teoria como um setor restrito de um estudo mais
amplo relativo a como as pessoas percebem o mundo. Sua contribuição particular consiste em
trazer à tona as percepções Causais de nossa experiência diária. Tais percepções causais estão
presentes, argumentam eles, porque os homens têm uma orientação do tipo realidade-e-
controle. Mas existem também outras posições. A teoria da dissonância (Festinger, 1957), as
teorias da consistência (Abelson et al. 1968) e as teorias da expectância (Rotter, 1966) existem
lado a lado com a teoria da atribuição. Cada uma delas descreve um aspecto da experiência
humana.
A tarefa de descrever a experiência como um todo, dentro do qual cada uma destas teorias
assume uma especialidade determinada, permanece algo a ser desenvolvido. No passado, os
psicólogos da Gestalt abordaram esta tarefa; Kurt Lewin (1935, 1936) e Fritz Heider (1958)
fizeram muitas sugestões válidas que poderiam ser úteis nesta tarefa. Entretanto, o sentimento
corrente entre os trabalhadores destes campos parece ser o de que uma teoria geral é prema­
tura neste momento. Os fenomenologistas, por outro lado, preferem trabalhar partindo da
experiência como um todo para atingir então suas partes especificáveis, cada uma delas já
podendo ter, então, um contexto claro e um lugar na totalidade, em função do quadro geral
com o qual começam. Portanto, eles não apreciariam esta afirmação feita pelos teóricos da
atribuição: “A ‘significação’ do evento e a reação subseqüente [de alguém] à mesma são
determinadas, em grau relevante, pela causa atribuída” (Jones et al., 1972, p. xi). Para um
fenomenologista, esta afirmação está exatamente às avessas; a “ significação” constitui o fator
principal, mais amplo, contextual; a “causa atribuída” é derivada. Esta diferença de estilo
entre atomistas e holistas recapitula uma querela antiga entre Demócrito e Anaxágoras, dis­
puta que é ainda mais óbvia, em psicologia, na controvérsia entre os behavioristas e os gestal-
tistas deste século.
2Considero a descrição como a tarefa primária para toda psicologia. Ela é freqüentemente
contraposta à “explicação” , com base na noção de que primeiro descrevemos um fenômeno e
posteriormente o explicamos. Portanto, a explicação é vista como o objetivo final da ciência;
constitui a clarificação das condições necessárias e suficientes para a produção do evento —
de forma pouco precisa, aquilo que o causa. Em meu vocabulário, entretanto, a explicação é
um tipo especial de descrição, que descreve eventos em termos de uma seqüência causa-
efeito. Há outras descrições talvez mais importantes, outras formas de descrever que focali­
zam eventos de outras maneiras. Dizer o que alguma coisa significa para o homem que for­
mula a pergunta é uma destas outras maneiras. O resultado não é um esquema das condições
110 NOTAS

necessárias e suficientes no sentido causai, e sim uma interpretação. Todas as descrições,


inclusive as explicações, são de algum modo interpretações. Uma explicação nos oferece uma
certa interpretação; diz o que algo significa, dentro da estrutura do querer saber o que causou
o evento, geralmente de modo a que possamos produzi-lo ou evitar que ocorra. É possível, e
talvez até desejável, querer compreender acontecimentos por razões diferentes daquela rela­
tiva ao controle sobre os mesmos. Veja Beshai (1971).
3O conceito de horizonte, inicialmente formulado por Edmund Husserl (1958), é bem mais
amplo do que estamos expondo aqui. De modo geral, tanto Husserl como Martin Heidegger
situam-se na tradição kantiana na medida em que, como Kant, perseguem seus objetivos inda­
gando quais as pré-condições para que algo seja possível. Esta espécie de pergunta exibe uma
similaridade superficial como a busca de causas ou explicações conforme descrito na nota 2.
Mas as diferenças são monumentais. Indagar sobre a possibilidade de que o ser seja, e de que
seja de tal modo que certos seres o possam reconhecer, é descrever a situação em que nos
encontramos enquanto seres humanos. É uma parte da procura ontológica. Indagar sobre as
condições necessárias e suficientes de um evento particular é fazer uma pergunta bem mais
reduzida, embora não se possa desprezar sua importância prática. Heidegger denomina esta
última indagação empreendimento Ontico, em lugar de empreendimento ontológico. A relação
entre ambas está longe de ser simples e será discutida no Cap. 10.
De qualquer forma, a horizontalidade se refere ao fato de que a experiência humana para
um pano de fiindo ou superfície que torna a experiência possível. A experiência aponta para
uma rede de significações já existentes que tem seu foco não tanto em coisas físicas, mas em
seu padrão de ordem, o qual formulamos implicitamente no ato de sermos, de algum modo,
conscientes no sentido humano do termo. Há muitos de tais padrões ou ordens (horizontes)
inerentes à experiência humana; nos capítulos da Parte III, abordamos muitas de tais ordens.
Conforme é discutido na Parte IV, o mundo é o horizonte fundamental.
4Não temos intenção de responder a esta pergunta. Heidegger, em Being and Time (1962), diz
que o tempo é o horizonte de horizontes fundamental, que não há padrão de significação que
supere o tempo como ordem última da experiência humana, do ser humano e do Ser em geral.
Max Scheler (1954) e Martin Buber (1958) chegam a um outro como o horizonte fundamental.
Maurice Merleau-Ponty (1962) descreve a natureza da experiência humana de tal modo que o
corpo emerge como o horizonte fundamental. Paul Ricoeur (1967, 1970) põe o foco no sím­
bolo. Jean-Paul Sartre (1956) apóia-se na diversidade absoluta das coisas em si mesmas con­
forme emergem, não afetadas por nossa consciência. Todas estas descrições são, é claro,
supersimplificações — meros slogans para indicar as direções assumidas por nossos predeces-
sores filosóficos. O ponto importante aqui é que nossa psicologia, um empreendimento ôntico,
depende em última instância de nossa postura ontológica. No entanto, começar com uma
descrição de nossa postura ontológica como passo preliminar na investigação da experiência
tomaria esta obra um tipo de livro bem diferente — do meu ponto de vista, ilegível, se não
impossível de escrever. Devemos perceber que nós (e todos os psicólogos) estamos tomando
liberdades quanto à questão ontológica e prosseguindo, apesar de tudo. O efeito deste reco­
nhecimento nos deveria tomar modestos quanto a nossas conclusões. Veja também o Cap. 10
para uma discussão das questões ontológicas e de sua relação com a psicologia.
5A expressão com hífens “ ser-em-meu-escritório” é uma tentativa um pouco inadequada para
combinar, em um único termo, o termo verbal para o processo de ser e o termo nominal para
o locus do ser. A experiência aqui descrita é, claramente, tanto meu ser lá como meu ser lá.
No próximo parágrafo, a mesma construção aparece na expressão “ ser-em-um-campo” e,
mais tarde, falaremos de modo ainda mais geral em “ ser-no-mundo” . Todas estas expressões
com hífens vêm diretamente da literatura fenomenológica alemã, e freqüentemente confun­
dem, quando não ofendem, os leitores americanos.
Tentei usar termos americanos familiares sempre que possível, e ocasionalmente utilizei
“estilo” e “orientação para o mundo” quando considerei que eram tão bons quanto seus
correspondentes germânicos. No entanto, não há como escapar do fato de que novas idéias e
novas maneiras de pensar exigem novos termos que, por vezes, fazem distinções anterior­
mente inexistentes e, por outras, combinam coisas vistas anteriormente como distintas. Em
todas as expressões “ser-em” estamos combinando ser e locus, sujeito e objeto, consciência e
coisa, porque, na experiência, eles de fato ocorrem juntos. Sua separação em nossa linguagem
CAPÍTULO 2 111
é o resultado de termos hipostasiado estes dois aspectos de uma unidade anterior, o resultado
da tradição ocidental, que faz destas abstrações realidades separáveis, violando a unidade da
experiência conforme experienciada e, portanto, forçando-nos a usar expressões com hífens
para descrever com precisão a experiência. Veja também o Cap. 7, nota 9.
60 termo “ sintetiza” pode ser enganador, caso implique serem as unidades fundamentais da
experiência as partes, consistindo o todo da mesma numa mera reunião ou combinação das
partes. O oposto está mais próximo na verdade: a unidade da experiência é fundamental e
original. A separação em partes é o resultado de uma análise reflexiva e sempre envolve
abstração. A unidade precede a análise, e o concreto precede o abstrato, tanto lógica como
empiricamente.
7Ao irmos do “campo” ao “mundo” , seguimos um caminho conveniente para a nossa com­
preensão, mas bem diferente da maneira pela qual o conceito de “ mundo” se desenvolveu na
história da fenomenologia. Uma recapitulação breve dessa história pode contribuir para nossa
compreensão do termo “mundo”. Husserl (1958, I960, 1968) passou toda a sua vida investi­
gando o nexo de interação entre a consciência, que conhece, e o objeto, que é conhecido. Seu
pensamento tomou o rumo de uma filosofia transcendental, na qual postulou um ego transcen­
dental, ou sujeito absoluto, não muito diferente do de Kant. Tal orientação parece perpetuar
os dualismos mente-corpo e mente-mundo, mas as descobertas de Husserl abriram caminho
para que os fenomenologistas subseqüentes superassem completamente o ego transcendental e
os dualismos. Uma destas descobertas foi a de que a percepção, a mera consideração cons­
ciente de um objeto, sempre envolve um horizonte ou um fundamento e contexto, dentro do
qual os objetos se tornam manifestos. Atualmente é óbvio que tal horizonte influencia profun­
damente o que vemos quando apreendemos um objeto. Husserl divisou o horizonte fundamen­
tal dentro do qual, ou em virtude do qual, poderia haver, de algum modo, experiência cons­
ciente. As várias direções que sua filosofia tomou nas primeiras décadas deste século foram,
todas, tentativas para clarificar de que modo essa consciência pode chegar a alguma espécie
de contato com um objeto.
Na década de 30, depois que os nazistas o retiraram de seu posto na Umversity of Frei-
burg, o qual foi então assumido por Heidegger, Husserl chegou a uma formulação (1970)
semelhante à de “ mundo”, que Heidegger havia estabelecido anteriormente, nos anos 20: o
conceito de Lebenswelt. Tanto Husserl como Heidegger (1962), assim como os fenomenologis­
tas posteriores, descobriram que a experiência do “mundo” é o horizonte para qualquer expe­
riência particular. Além disso, descobriram, em primeiro lugar, que o horizonte do mundo é,
na experiência comum, implícito e difícil de formular e, em segundo lugar, que o horizonte do
mundo é, não apenas essencial, mas está fundamentalmente presente em qualquer percepção.
Nunca percebemos um objeto no vácuo, mas unicamente através de uma orientação que exibe
as dimensões de nosso “ mundo vivido” , mesmo que os meandros do próprio mundo vivido
sejam tão sutis que o tomem praticamente invisível em nossa abordagem usual da experiência.
Para uma boa exposição histórica de toda esta situação, veja H. Spiegelberg (I960).
Conceitualmente, somos tentados a perguntar se este “ mundo vivido” é o mundo objetivo,
que existe quer existamos ou não, ou o mundo subjetivo, que é totalmente relativo à nossa
apreensão pessoal. Tal escolha parece uma opção forçada, dentro de nossas formas tradicio­
nais de pensar; este “ mundo” deve ser objetivo ou subjetivo, ou ambos. Os fenomenologistas
tentam romper com a tradição que força tal escolha e procuram falar sobre “o mundo” como
sendo tão objetivo quanto subjetivo — e como não sendo nem objetivo, nem subjetivo.
O mundo, para o qual o comportamento está dirigido, e dentro do qual deve ser compreen­
dido, não é um mundo subjetivo. Quando vejo você atirando um dardo num alvo, você não
está visando a um alvo subjetivo; está visando ao alvo que existe para nós dois, a doze pés de
distância de você, e a vinte de mim. Porém ele não é, também, um alvo meramente objetivo,
pois de meu ângulo convida a arremessar de certa maneira, com uma certa inclinação e força,
que está limitada à minha perspectiva e é irrelevante para a sua (ver Cap. 10). Mas, além
disso, seu arremesso do dardo emerge do seu ser-no-mundo, que exibe algumas diferenças
quanto ao meu ser-no-mundo, assim como algumas similaridades. Se você está frustrado se­
xualmente, digamos, o comportamento de arremessar o dardo pode ter uma força e um sabor
diferentes daqueles do meu comportamento, se não estou na mesma situação. Aquilo que você
está trazendo para a situação, no entanto, não é um “motivo” localizado em algum lugar
112 NOTAS

dentro de você; pelo contrário, é uma estrutura de mundo que fornece ao alvo, ao dardo e à
atividade uma certa significação e coloração, características de seu ser-no-mundo particular.
Se desejo compreender as nuanças de seu arremesso de dardo ou sua relação com uma ter­
ceira pessoa, tenho de entender seu mundo na estrutura dele próprio, seu ser-no-mundo. Se
quero compreender o comportamento de um rato faminto num labirinto, devo entender o
mundo do rato; a forme não é tanto um “motivo” dirigindo-o do interior, mas sim uma estru­
tura de mundo particular ou maneira de ser-no-mundo. Ver L. Binswanger (l958a), E. Straus
(1963) e Merleau-Ponty (1964c) para discussões relevantes relativas aos animais.
Este conceito de “ mundo” é semelhante ao de K. Koffka (1935), um psicólogo da Gestalt,
que o chamou “meio comportamental” , enquanto oposto ao “meio geográfico” . O meio com­
portamental é o meio do ponto de vista do organismo que se comporta, e o meio geográfico é
o meio do ponto de vista de um observador externo neutro. Obviamente, o primeiro é mais
importamente para entender o comportamento. Como afirma Koffka, “apenas aqueles movi­
mentos do organismo que ocorrem num meio comportamental devem ser chamados compor­
tamento” (p. 32). Ou melhor, movimentos que não estão orientados por um mundo percebido,
tais como o fato de ser movido pelas ondas quando se nada no mar ou de ser levado pelo
vento, não são absolutamente Comportamento.
De modo geral, os positivistas poderiam argumentar que nunca podemos saber qual é o
mundo percebido ou meio comportamental, pois este é privado e subjetivo. Devemos, por­
tanto, construir nossa ciência com base no mundo real, no meio geográfico, que é público e
objetivo. Poderíamos, na verdade, lançar a crítica oposta a esta distinção. Nunca podemos
saber qual é o mundo real, o meio geográfico. A perspectiva “neutra” a partir da qual atingi­
mos o meio geográfico, o mundo real, não é realmente neutra. É parte de nossa perspectiva
científica ou coletiva. Embora isto possa ser diferente do “mundo” fenomenológico ou do
meio comportamental, a significação da distinção muda, de uma diferença entre “ subjetivo” e
“fantástico” versus “objetivo” e “real”, para uma distinção entre perspectivas diferentes. É
reduzido, portanto, a uma distinção entre privado e público. Argumentaremos no Cap. 10 que
os mundos “ subjetivos” são profundamente compartilhados e no Cap. 7, nota 3, que a priva­
cidade da experiência tendeu a ser superenfatizada pelas tradições filosóficas anglo-america-
nas.
80 termo “ suposição” pode ser enganador, se tomado apenas no sentido cognitivo. Quem-
eu-sou-no-mundo é, claramente, uma questão de meu ser, e não apenas de minha cognição.
Veja também o Cap. 8, nota 2.
9Uma maneira de apreciar a influência profundamente integradora do mundo, na qualidade de
contexto para nossa experiência,é experienciar seu desaparecimento. Algumas reações a dro­
gas e crises psicóticas podem fornecer esta experiência (Keen, 1970, Cap. 12) e podemos
ocasionalmente experienciar o enfraquecimento desta influência integradora quando contem­
plamos as estrelas, o espaço cósmico, o tempo cósmico, e assim por diante.
10A metáfora do “desempenho” , assim como outros termos operantes usados no texto (ence­
nação, representação, representação de papel, interpretação), tem um certo sabor voluntarís-
tico que sugere — embora certamente não solucione — temas filosóficos profundos, comple­
xos demais para serem abordados aqui. Estas metáforas dramatúrgicas foram introduzidas em
psicologia por Erving Goffman (1959) e ampliadas por Eric Beme (1964) e B. M. Braginski, D.
D. Braginski e K. Ring (1969). Eles focalizam a importância relativa da motivação constrange­
dora ou sincera, versus desempenho de um papel, texto, parte, mito e assim por diante. Sus­
tentam, pois, a noção de que o comportamento humano nunca é motivado de forma simples
ou única, fato que toma o trabalho fenomenológico sobre este aspecto muito mais urgente.
“ Outra formulação desta visão do comportamento em geral seria caracterizar o comporta­
mento como referencial. O comportamento se refere a algo além dele mesmo. Há dois senti­
dos nos quais esta afirmação é verdadeira. Em primeiro lugar, do ponto de vista da pessoa que
se comporta, o comportamento é intencional e propositivo; nós significamos algo através dele
— ele está orientado em direção a alguma coisa em nosso mundo. Em segundo lugar, do ponto
de vista do observador que interpreta o comportamento, este se refere àquela rede de signifi­
cações e propósitos que o motivam. Para John, seu punho cerrado significa um impulso para
atacar. O comportamento aponta para algum aspecto enfurecedor do mundo. Para nós, o punho
CAPÍTULO 2 113
cerrado de John significa que ele está com raiva. O comportamento aponta para a raiva. No
fim, estas duas referências do mesmo comportamento se fundem numa única. Quando inter­
pretamos o comportamento como uma expressão de raiva, simultaneamente interpretamos a
raiva como uma resposta a algum aspecto enfurecedor do mundo. Esta espécie de interpreta­
ção surge automaticamente na vida diária. Na qualidade de fenomenologistas, aspiramos
a torná-la explícita e rigorosa. Naturalmente, os dois estágios de nossa interpretação (que ö
punho cerrado significa primeiramente raiva e que a raiva se deve a tal ou qual coisa) estão
sujeitos a erro, mas não somos impotentes para percebê-lo. A questão das interpretações
errôneas será retomada no Cap. 3.
É bom lembrar também que A. Schütz (1967) chama nossa atenção para a ambigüidade
presente no fato de chamar um ato de “expressão” . Alguns atos pretendem comunicar algo a
outras pessoas; outros comunicam sem que o ator pretenda fazê-lo; outros ainda não preten­
dem comunicar e não o fazem. Estas distinções são importantes numa análise fenomenológica
particular, mas não afetam a formulação que apresentamos aqui. Ver também o Cap. 9.
12O tema dos motivos e do comportamento inconscientes está sujeito a surgir em qualquer
psicologia que tome a experiência consciente como ponto de partida. Por certo, os eventos
para os quais tanto Ivan Pavlov como Sigmund Freud dirigem nossa atenção são importantes e
devem ser reconhecidos e tomados em consideração. O evento pavloviano é discutido de
modo mais conveniente no Cap. 7 e o evento freudiano no Cap. 8. Por agora, deixem-me
acrescentar alguma coisa ao que aparece no texto. A “resposta condicionada”, que ocorre
sem a intervenção da consciência, e o “desejo inconsciente” , que nos motiva sob formas que
não conhecemos, podem não ser eventos inteiramente diferentes, embora os rótulos e as teo­
rias a partir dos quais são observados nos ofereçam, na verdade, interpretações muito distin­
tas. Há uma diferença adicional quanto à dimensão: uma resposta condicionada é uma unidade
de análise muito pequena, uma parte específica do comportamento que é segregada de seu
contexto de vida e estudada por si mesma, enquanto que um desejo inconsciente nos engaja
numa teoria da orientação total de alguém quanto à vida, através da história de vida desse
alguém. Mas a similaridade destes dois pontos de vista aparece a partir de um ponto de vista
fenomenológico. Em cada instância, uma ação é perpetrada no contexto de algum estímulo ou
situação significativa. O fato de que a significação não seja clara não toma sem significação a
ação ou o estímulo. A tarefa consiste em descobrir a significação. Pavlov e Freud tentaram
fazê-lo em suas teorias sobre a significação, a origem da mesma e o modo pelo qual ela opera
em nossas vidas. As duas teorias são muito diferentes, mas possuem uma maquinaria concei­
tuai em comum, a qual opera fora da experiência consciente. É fácil ver esta ação crucial na
experiência, mas para o fazer devemos ver a experiência como horizontal, isto é, como apon­
tando para além de seu foco específico de ateúção, para seus panos de fundo ou horizontes, os
quais são trazidos para o foco explícito unicamente por meio do trabalho fenomenológico.
Estes horizontes são uma parte da experiência no sentido de que é a sua presença o que toma
a experiência o que ela é. O fato de que alguns destes horizontes não sejam explicitamente
conscientes se toma pouco surpreendente se percebermos a experiência em seu caráter de
possuir múltiplas camadas e significações. O fato de que seja difícil perceber claramente algu­
mas das camadas não é surpreendente para qualquer pessoa que tenha tentado desenvolver
um trabalho fenomenológico. Sobre todo este problema, veja também W. Fischer (1971) F. H.
Lapointe (1971) e diversos artigos em A. E. Kuenzli (1959).
Em 1940, Wolfgang Köhler desenvolveu todo este tema da seguinte maneira:
A experiência humana comum, sozinha, não é um material com o qual se possa construir uma ciência
da psicologia. Técnicas indiretas revelam muitas relações funcionais que determinam os conteúdos e o
curso dos eventos mentais. Estes fatos de dependência funcional freqüentemente estão fora do âmbito
da consciência imediata; e parece importante perceber que mesmo a ocorrência de relações experien-
ciadas e compreensíveis na vida emocional e no pensamento está relacionada a fatores que, do mesmo
modo, só são acessíveis indiretamente. Não é exagero, creio eu, dizer que qualquer investigação
psicológica, sem exceção, alcançará mais cedo ou mais tarde um estágio no qual deverá tentar des­
vendar tais relações funcionais ocultas (p. 42).

Esta objeção de Köhler, cujo trabalho na psicologia gestaltista é, sem dúvida, uma contribui­
ção importante à psicologia fenomenológica, é decerto compartilhada por muitos psicólogos,
dos freudianos aos behavioristas. É, portanto, muito importante responder à mesma. A obje­
114 NOTAS

ção repousa numa distinção entre métodos “diretos” (como na fenomenologia) e métodos
“indiretos” . Os primeiros são destinados à investigação da experiência, os últimos à investi­
gação de fatores que não são dados na experiência — o germe que faz minha cabeça doer, a
lembrança esquecida que me faz odiar meu patrão, e assim por diante.
Assim como no caso do germe e de outros fatores físicos, incluindo meu organismo fisioló­
gico em geral, algo totalmente remoto quanto à minha consciência dá forma e condiciona
minha experiência, e deve ser considerado tem eum dos fatores causais que lhe estão subja­
centes. Tais relações funcionais constituem uma parte da psicologia e não são acessíveis à
investigação fenomenológica. Mas sua relevância para o comportamento é acessível à investi­
gação fenomenológica, se é que afetam de algum modo a experiência. Exceto no caso do
pequeno número de tipos de comportamento totalmente automáticos, como os reflexos, tais
relações funcionais sempre afetam, na verdade, a experiência.
O exemplo da lembrança esquecida é menos claro, pois a lembrança “esquecida” não é
realmente esquecida. Sua presença não é explícita; sua presença se mostra apenas como hori­
zonte de significação em minha experiência de meu patrão. Mas dizer que não pode ser explo­
rada diretamente é limitar a exploração direta à consciência focal e excluir antes do tempo
uma exploração dos horizontes.
13A neurose e a hipocrisia têm alguma coisa desta espécie em comum. Suponha que Mary
ache desagradáveis as arremetidas sexuais do marido, mas ao invés de lhe dizer isso ou tentar
encontrar, com ele, uma maneira pela qual possa ser menos repulsivo, simula fadiga, doença e
dor para excusar-se da obrigação de expressar amor sexualmente. Eventualmente, chega
mesmo a se sentir cansada e doente e sofre padecimentos e dores quando ele inicia seus
avanços. O fato de chamar este comportamento de neurótico ou hipócrita depende de nos
colocarmos numa postura de diagnóstico ou de julgamento.
Na realidade, estes dois rótulos são a mesma coisa; a linguagem diagnostica é freqüente­
mente, se não sempre, um veículo indireto e disfarçado para julgamentos de valor (Keen,
1972; Szasz, 1970)._De fato, quando os apreciamos fenomenologicamente, o comportamento
sujeito a diagnóstico é muito semelhante ao de Mary. Mary sente algo, mas como as normas
de casamento não permitem que se expresse abertamente, diz outra coisa, e, eventualmente
chega a crer no que diz em lugar daquilo que sentia originalmente. Da mesma forma, a socie­
dade condena e sente repulsa por aquelas pessoas que são suficientemente diferentes, mas,
como as normas de nossa cultura não nos permitem, em geral, expressar abertamente estes
sentimentos (espera-se que tenhamos simpatia pelos mentalmente enfermos), dizemos coleti­
vamente outra coisa" (ou pedimos aos médicos que o digam) e eventualmente chegamos a
acreditar no que dizemos em lugar daquilo que originalmente sentíamos. Em ambas as situa­
ções, perde-se a clareza entre as pessoas. Tal processo é tão comum, a nível individual e
social, que deveria ter sido mencionado anteriormente. Na verdade, essa é a melhor interpre­
tação para aquilo que Freud chamou de “ motivos inconscientes” — um conceito que, quando
visto sob esta perspectiva, não é contraditório com uma análise fenomenológica.

CAPÍTULO 3
'Este aspecto não tem sido particularmente importante na psicologia americana tradicional,
porque grande parte dessa psicologia age como se as pessoas não fossem pessoas, e sim
objetos que podem ser estudados com os mesmos métodos que um físico emprega ao abordar
a natureza. As rotinas da física foram, de fato, quase que identificadas com a própria ciência.
O método interpretativo de Sigmund Freud e o “humanismo” americano, conforme praticado
por Gordon Allport, Abraham Maslow, Carl Rogers, Rollo May e outros, fornecem uma visão
alternativa, na verdade uma tradição alternativa em psicologia. A. Giorgi (1970a) sumariza
esta tradição e também argumenta que a mudança de nossos métodos, dos da física para os da
psicologia humanística, em função da natureza do que estudamos, não desqualifica a psicolo­
gia como ciência. Sua visão de uma ciência humana é uma formulação tardia da Geisteswis-
senschaft (em contraste com a Naturswissenschaft) no pensamento alemão do século passado.
2A questão metodológica chave é suficientemente diferente das preocupações metodológicas
tradicionais, de modo que talvez seja adequado estabelecer uma comparação. É um erro polari­
zar tão agudamente a fenomenologia e a ciência natural, pois elas têm muitas coisas em
CAPÍTULO 3 115

comum, e a polarização tende a conduzir os profissionais de cada uma delas a rejeitar um


importante campo comum. No entanto, esta questão metodológica pode ser comparada à
questão científica tradicional: como podemos evitar tendenciosidades subjetivas e chegar à
verdade objetiva? Podemos abordar a situação como sendo do tipo em que quanto mais aber­
tos estivermos, como cientistas, aos fenômenos em sua unicidade e seus diversos níveis de
significação, menos certos ficaremos de nossas conclusões. Por outro lado, quanto mais con­
vencidos ficarmos de nossas conclusões, mais teremos de focalizar significações específicas e
mensuráveis dos fenômenos com exclusão de todos os outros.
Os diferentes objetivos — apreciação de significação de múltiplas camadas e descoberta da
verdade objetiva — têm como campo comum o fato de desejarmos ver COm Clareza, no en­
tanto, se é mais importante definir com clareza em termos de significação de múltiplas cama­
das ou em termos de verdade objetiva — esta é a questão. Devemos escolher a verdade
objetiva, mesmo se esta violar a significação de múltiplas camadas, ou a significação de múlti­
plas camadas, mesmo se esta violar a verdade objetiva? Para quem a verdade objetiva é im­
portante? Há relevância no fato dela ser significativa? Para quem a significação de múltiplas
camadas é importante? Importa se ela é objetivamente verdadeira? Com que propósitos visa­
mos à verdade objetiva? Com que propósitos aspiramos à significação de múltiplas camadas?
Quais destes propósitos são o nossO propósito? Estas questões não parecem conduzir a uma
decisão categórica entre a fenomenologia e a ciência natural, ao menos neste estágio de nossa
discussão.
3Para um argumento persuasivo que sustenta esta alegação, veja Wolfgang Köhler (1947) e F.
From (1971). Köhler também oferece (no Cap. 7 de seu livro), uma explicação interessante
deste fenômeno. Argumenta, de acordo com os princípios da psicologia da Gestalt, que há um
isomorfismo natural entre “desenvolvimento dinâmico na experiência subjetiva” e “formas de
comportamento percebido” (p. 136). Também apresenta muitos exemplos similares em seu
estudo dos chimpanzés (1925). Embora sua explicação (“ isomorfismo”) esteja sujeita a um
sério questionamento, o fato de que leve o fenômeno suficientemente a sério para tentar
explicá-lo constitui uma contribuição substancial à psicologia.
4Martin Heidegger formulou este aspecto da seguinte maneira: “conhecer é uma espécie de
ser que é parte do Ser-no-mundo” (1962, p. 88).
5Observe que esta definição de erro não é a comum — inclusão de tendenciosidade subjetiva
— mas é, ao contrário, estabelecida como falta de clareza quanto a essa “tendenciosidade” .
Como “não há conhecimento isento de perspectiva” (proposição com a qual a maior parte dos
cientistas concorda), como podemos purificar o conhecimento de perspectiva e tendenciosi­
dade? Se isso é impossível, o que se toma, neste caso, a aspiração à verdade objetiva? Toda­
via, a inclusão de uma perspectiva em todo conhecimento não exclui a Compreensão mútua.
Uma vez que as pessoas se compreendam mutuamente, podem também concordar que cada
uma delas possui parte da verdade e que nenhuma delas possui toda a verdade. A inclusão da
perspectiva só exclui o acordo se alguém alega que a sua perspectiva é melhor que a de
qualquer outro.
6A comunalidade de nosso mundo não é apenas o resultado de nossas experiências comparti­
lhadas. Também é o campo ou base desse compartilhar. O mundo comum está aí em primeiro
lugar; nossa partilha é seu fruto, em vez do oposto. Este tema é abordado no Cap. 10.
7Esta linha de pensamento e aquela abordada na nota 5 tendem a sugerir que a perseguição da
verdade objetiva quase não vale a pena se, de algum modo, implica alguma perda em termos
de significação. Mas há, na verdade, um outro lado. Embora todo conhecimento envolva
perspectiva, há uma perspectiva que não só pode ser Compreendida por outros, como também
exatamente Compartilhada por outros. Isto é, há uma maneira de fazer psicologia na qual não
apenas falo a vocês sobre a Sra. Smith a partir de meu ponto de vista, como também descrevo
esse ponto de vista — de modo que você tanto pode Compreendê-lo como reproduzi-lo. Esta
abordagem requer que eu purifique minhas observações de qualquer coisa de pessoal, tudo
que seja meu, de modo que a informação que você receba de mim seja acerca da Sra. Smith, e
não sobre o modo como eu, pessoalmente, a percebo; de forma mais precisa, esta informação
refere-se a como percebo a Sra. Smith — de tal modo que permita a qualquer pessoa adotar
minha perspectiva e ver precisamente do mesmo modo. Esta estratégia é a dos testes psicoló­
116 NOTAS

gicos: o testador deixa o próprio teste, que pode ser usado por qualquer pessoa treinada para
fazê-lo, realizar a apreensão essencial. O próprio testador meramente relata os resultados.
Não temos, portanto, conhecimento livre de perspectiva, pois o teste é uma perspectiva, mas
não possuímos apenas um conhecimento meramente pessoal, inverificável, idiossincrático.
Talvez este ganho valha a pena, valha mesmo a pena o bastante para sacrificar algumas das
camadas de significação que estão envolvidas no programa fenomenológico. Talvez saiamos
ganhando em conhecer relativamente pouco sobre a Sra. Smith (por exemplo, podemos não
saber o quanto ela está cronicamente raivosa) se pudermos saber o que sabemos com certeza;
talvez o sacrifício de uma compreensão mais profunda dela enquanto ser-no-mundo seja vá­
lido, na medida em que possamos ganhar um grau de certeza que não pode ser atingido atra­
vés de uma abordagem baseada na esperança de que você seja capaz de ver a Sra. Smith com
clareza apenas se eu o fizer e descrever minha perspectiva de modo suficientemente profundo.
Nossa visão deste assunto depende claramente daquilo a que se destina o conhecimento.
Se quero prescrever medicamentos psiquiátricos à Sra. Smith, é importante saber se devo ou
não receitar tranqüilizantes. Estou disposto a sacrificar muitas nuanças acerca daquilo que os
acontecimentos significam para ela e de como ela é-no-mundo, desde que saiba o que preciso
saber para prescrever a medicação. Por outro lado, se estou tentando conduzi-la a uma melhor
compreensão de si própria, então o índice de raiva que emerge de um teste psicológico é
relativamente sem significação fora do contexto da maneira pela qual ela é-no-mundo, mesmo
que eu esteja relativamente seguro quanto a esse índice e outros semelhantes.
Consideradas desta maneira, as perguntas da nota 2 ficam reduzidas à alternativa entre
querermos conhecer a Sra. Smith porque desejamos modificá-la através de alguma espécie de
tratamento do tipo drogas (o assim chamado modelo médico) ou porque queremos conduzi-la
a uma compreensão de si própria. Este tema complexo foi abordado em outro trabalho (Keen,
1972). Veja também o Cap. 6, nota 1.
*A redução fenomenológica foi estabelecida na qualidade de estratégia metodológica por Ed­
mund Husserl (1958, pp. 31-32, passim). Uma explanação particularmente lúcida é oferecida
por R. M. Zaner (1970). Maurice Merleau-Ponty (1962) comentou: “A lição mais importante
que a redução nos ensina é a impossibilidade de uma redução completa” (p. xiv). Na verdade,
a não ser que aceitemos o idealismo de Husserl, parece que Merleau-Ponty está .certo. Ele
prossegue comentando:
. . . a reflexão radical conduz a uma consciência de sua própria dependência de uma vida irrefletida
que constitui sua situação inicial, imutável, dada de uma vez por todas. Longe de ser, como tem sido
afirmado, um procedimento da filosofia idealista, a redução fenomenológica pertence à filosofia exis­
tencial; o ser-no-mundo de Martin Heidegger só surge contra o último plano da redução fenomenoló­
gica (p. xiv).
Os psicólogos modernos certamente concordariam que não nos podemos purificar totalmente
de nossas preconcepções; logo, estamos obrigados a examiná-las como horizontes de nossa
própria experiência. Em nossa consideração da redução fenomenológica, não analisamos este
ponto com muita profundidade, mas podemos descobrir na realização da redução fenomenoló­
gica que a “ significação inerente” não está “lá fora” mas, ao contrário, no fenômeno, o que
requer, para o seu eventual aparecimento, o nosso próprio ser-no-mundo.
Para uma excelente descrição do processo de exame de nossos próprios horizontes, uma
descrição que toma vivido o vigor e o esforço extraordinários envolvidos em tal processo,
veja A. Esterson (1972). A Parte I do livro de Esterson é uma análise de uma família com uma
filha esquizofrênica. Esta análise esclarece as possibilidades inerentes à análise fenomenoló­
gica e o modo como ela aperfeiçoa o pensamento psiquiátrico tradicional. A Parte II é uma
descrição de seu método fenomenológico, na qualidade de “dialético” . Este termo se refere
tanto à natureza interpessoal do conhecimento (que emerge do diálogo) como também a uma
oscilação sistemática (para usar a adequada expressão de Radnitzky, 1970) entre a imersão
num campo de ação interpessoal e a reflexão neutralizada, autocrítica, culminando em uma
nova “totalização” criativa da visão de alguém quanto aos outros. A descrição de Esterson
quanto à sua metodologia e resultados de seus trabalhos credencia pouco a noção de que a
fenomenologia seja casual ou produza resultados casuais.
•Esta afirmação é uma outra maneira de dizer que todo conhecimento envolve perspectiva.
Pensa-se às vezes, é claro, que a espécie de ciência que visa à verdade objetiva está de algum
CAPÍTULO 4 117
modo ultrapassando este problema. Como uma abordagem fenomenológica contém uma série
de suposições, ela encobre, assim como revela. Enquanto as ciências naturais, procurando
excluir o erro e se aproximar da verdade tanto quanto possível, desenvolveram técnicas elabo­
radas para aumentar a certeza, a fenomenologia, visando a minimizar os limites da perspec­
tiva, desenvolveu técnicas elaboradas para completar nossa visão das várias camadas de signi­
ficação.
10Esta afirmação é enganadora, se tomada como implicando em que todos começamos num
estado de consciência privada e compartilhamos partículas e pedaços apenas de vez em
quando. No Cap. 10 deveremos frisar que a comunalidade do mundo é dada, não obtida pelos
seres humanos; está sempre presente, mesmo através de culturas radicalmente diferentes.
Conhecemos a Sra. Smith e sua perspectiva porque todos somos seres-no-mundo. Nossa co­
munalidade anterior com ela é tão impressionante, na qualidade de dado, quanto nossas dife­
renças. Nossa compreensão da unicidade da Sra. Smith é sempre uma variante de nossa com­
preensão de nós mesmos e das pessoas em geral como seres-no-mundo.

CAPÍTULO 4
!Para uma consideração definitiva desta situação histórica, ver J. J. Kockelmans (1971) e
especialmente H. Spiegelberg (1960, 1972).
2Um rápido levantamento do trabalho fenomenológico que tem sido feito na psicologia pode
ser obtido através de relativamente poucas fontes. O Journal of Phenomenological Psycho­
logy, publicado na Duquesne University, tem apenas poucos anos de existência. Outras cole­
tâneas representativas são as de A. Giorgi, W. Fischer e R. Von Eckartsberg (1971), E. Straus
(1964, 1966), M. Natanson (1973) e Spiegelberg (1972). Uma coletânea mais antiga é a de A. E.
Kuenzli (1959). Esta lista não leva em conta a literatura filosófica (o trabalho de Merleau-
Ponty, 1962, 1964b, 1964c, é bastante psicológico) ou a volumosa literatura européia, da qual
algumas traduções estão incluídas em R. May, E. Angel e H. Ellenberger (1958). J. Lyons
(1961) nos oferece uma útil bibliografia comentada de outras fontes dispersas aqui e ali.
3Saber se o fato de pôr ou não ênfase nos aspectos comuns é sempre redutivo, consiste num
problema filosófico difícil, complicado demais para discutir aqui. O próprio Edmund Husserl
provavelmente discutiria comigo sobre minha maneira de abordá-lo no texto.
4Esta linha de pensamento implica que sempre interpretamos eventos únicos, singulares, antes
ou durante o processo de comparação e que devemos interpretá-los da melhor maneira possí­
vel. Com relação a este ponto, pode ainda ser questionado o porquê de nosso desejo de
compreender um evento em sua unicidade. Na verdade, a ciência preditiva depende de even-
tos que não sejam únicos; sua finalidade é estabelecer generalizações sob as quais possamos
classificar um evento único, a fim de o compreender. Tal compreensão parece ser suficiente,
mesmo que a unicidade do acontecimento seja perdida.
Novamente estamos aqui lançados na questão de a que se destina o conhecimento ou
compreensão, o que levanta o problema de nossos propósitos — a natureza de nosso estilo
enquanto cientistas ou psicólogos, em primeiro lugar. Tais questões são pessoais e morais,
antes que psicológicas, e não são consideradas comumente como estando incluídas na provín­
cia da psicologia, per se.
Vale a pena assinalar, entretanto, que quando o psicólogo se dedica às vidas das pessoas,
mesmo para modificá-las, é difícil evitar a questão moral — talvez para a disciplina como
disciplina, assim como para seus práticos individuais. O argumento moral de que a psicologia
tem a obrigação de compreender alguns eventos em sua unicidade, tal como o caso de um
determinado paciente, pode ser estabelecido com base nas tradições morais ocidentais que
todos, provavelmente, subscrevemos (a integridade e dignidade do indivíduo, por exemplo).
5Este procedimento é semelhante ao que Giorgi (1966) chamou “explicitação” , que ele des­
creve:
. . . se a significação [do fenômeno] deve ser compreendida, isto é mais bem feito através de um
processo que, na falta de um termo melhor, pode ser chamado explicitação, isto é, o processo de
tomar explícito, ou tematização do locus de qualquer fenômeno dado dentro de seu horizonte.
118 NOTAS

Sempre que um fenômeno aparece, o faz dentro de um certo horizonte ou contexto, e o horizonte
dado impiicitamente com o fenômeno não é irrelevante para a compreensão do fenômeno. Pelo con­
trário, o horizonte é essencial para a compreensão do fenômeno porque o papel que este desempenha
dentro do contexto, mesmo que seja reconhecido apenas implicitamente, é um dos determinantes da
significação do fenômeno. (Gerwitsch, 1964). (1971, pp. 41-42).

Mais especificamente, podemos reduzir dados de entrevista a “ unidades intencionais” , que


são aspectos autodeflnidos, autodelimitados, da experiência do sujeito. T. F. Cloonan (1971)
usou este método na investigação da tomada de decisão.
6Podemos perguntar qual o valor de tal descoberta. Por que os psicólogos despendem tempo e
esforço para chegar a tais descrições? À parte o valor que podemos atribuir às mesmas em
virtude de sua semelhança com a arte, tais descrições são críticas para as suposições teóricas
da psicologia, como aquela da relação entre corpo e mente. E. L. Stevick (1971) afirma:
Como indica Schächter, a excitação fisiológica e uma certa situação são componentes essenciais
da emoção. N o entanto, este estudo revela que tanto a consciência da situação como o papel da
excitação fisiológica são bem diferentes das conclusões de Schächter. Em virtude de suas pressuposi­
ções filosóficas, o corpo é, para Schächter, um mero organismo fisiológico; ele aceita o fato de que tal
corpo está excitado na emoção porque tem evidências experimentais para prová-lo. Seus estudos
utilizam drogas para assegurar a presença desta excitação; ele ignora ou exclui que, na emoção, a
excitação é auto-iniciada, e assim passa por cima, completamente, da questão crucial — como o
corpo fica excitado? Supondo uma separação corpo/mente, Schächter identifica consciência com re­
flexão e pensamento. Portanto, interpreta as respostas de seus sujeitos à situação de raiva ou euforia
na qualidade de cognições.
Este estudo revela, entretanto, que a emoção é uma resposta de uma pessoa em seu todo a uma
situação que é vivida antes de ser refletida, e a excitação fisiológica é parte da maneira na qual o
sujeito vivência a emoção; a excitação é o modo afetivo do corpo. Na raiva, a excitação é algo que
empurra o sujeito para fora, num comportamento explosivo, expansivo (p. 145).
Veja também o Cap. 7, nota 8.
Este trecho de Stevick é de Duquesne Studies in PhenOmenolOgiCal Psychology: Volume /,
por A. Giorgi et al, e é reproduzido com permissão de Humanities Press, Inc., New York.
7A questão não respondida mais importante que ocorrerá ao leitor crítico é, quase certamente,
a da verificação. Fizemos repetidamente referência à idéia de que o julgamento dos desacor­
dos entre intérpretes deve ter lugar no tribunal da experiência vivida. Mas experiência vivi-
dade de quem? Se o investigador A diz X e o investigador B diz Y ao interpretar um aconte­
cimento e se ambos estão descrevendo acuradamente as próprias experiências, como, neste
caso, eu e você poderemos decidir.se X ou Y é a verdade? Estaremos novamente limitados às
disputas pré-behavioristas, como aquela entre W. Wundt e F. Brentano, sem dispor de forma
alguma para fazer qualquer progresso?
Esta pergunta impõe uma pergunta anterior: Por que, em primeiro lugar, quereríamos rotu­
lar X como “verdadeiro” e Y como “falso”? X é verdadeiro para A e Y, para B. O que é
verdadeiro para mim e para você? Porém esta linha de pensamento parece tomar o caráter
perspectivo tão a sério que o reduz a um puro relativismo; se tal relativismo radical é dado,
fica difícil ver por que deveria eu me importar com o fato de seguir o trabalho de A e B ou por
que eles os publicaram.
Esta conclusão lógica é verdadeira por algum tempo, mas não é descritiva do que normal­
mente acontece. A e B provavelmente não diferem de forma absoluta. Provavelmente pos­
suem uma boa margem de superposição. Minha descrição da empatia conforme esta aparece
em minha experiência não é diferente da de M. Lauffer. Ela vê a empatia a partir de um
ângulo, eu a partir de outro, você de um outro ainda, mas todos vemos a mesma coisa. Ne­
nhum de nós está totalmente errado. Podemos aprender uns com os outros a apreciar a empa­
tia, a raiva, ou a tomada de decisão de várias perspectivas e, assim, enriquecer a nossa pró­
pria. Este conceito de conhecimento é diferente, por certo, da noção de “verdade objetiva”,
na qual a questão da verificação surge em primeiro lugar. Talvez seja um conceito de conhe­
cimento que se ajuste mais de perto que qualquer outro à nossa situação enquanto psicólogos.
Ou talvez seja preferível, em virtude de nossa resposta à questão sobre o para que do conhe­
cimento. Quando estamos reduzidos a esta pergunta, é claro, somos lançados de volta às
pessoas que nós somos, enquanto indivíduos e enquanto psicólogos, face às ambigüidades
morais e ontológicas.
CAPÍTULO 5 119
Esta linha de pensamento conduz, naturalmente, a uma noção bem diferente quanto àquilo
que a psicologia, como uma disciplina, pode ser. J. Lyons (1970) explica detalhadamente al­
guma coisa quanto a esta noção (assim como outros autores) quando descreve a relação entre
um pesquisador psicológico e seu sujeito na qualidade de uma relação cooperativa, em lugar
da forma usual de “observador-observado” . Os dados da psicologia se podem tomar um
“conjunto de percepções informadas que são apropriadas para o nível diário de compreensão
em comunidade” em lugar de descobertas altamente técnicas, incompreensíveis e esotéricas
de uma pseudofísica instrumental elaborada. Lyons assinala que “o conjunto de percepções
informadas mais útil e esclarecedor tem sido aquele dos vultos literários de talento da nossa
cultura” . Aconteceu na história da psicologia que os psicólogos tentassem adaptar os métodos
da física ao estudo das pessoas, fazendo as mudanças necessárias em virtude da mudança de
tema, mas preservando o antigo conceito de rigor. Não é evidente qualquer motivo pelo qual,
a não ser por acidente histórico, os psicólogos não possam adaptar os métodos da literatura ao
estudo das pessoas, fazendo as mudanças necessárias para atingir algum grau de rigor, mas
preservando o antigo conceito de articulação do ser-no-mundo das pessoas. Um conjunto de
“próximos passos” menos visionário e algo mais concreto para a pesquisa fenomenológica-
psicológica é sugerido por Giorgi (1970b).

CAPÍTULO 5
‘O tema do imperialismo cultural é, e tem sido sempre, um problema nas ciências sociais.
Nossa história cultural está permeada de exemplos de como, em nossa própria percepção,
estamos amplamente inconscientes quanto a seus fundamentos, que vão de antigas noções de
“responsabilidade do homem branco” (ver Van der Post, 1955, para uma consideração parti­
cularmente sensível), passando pelos antropólogos evolucionistas (ver Hofstadter, 1944), a
práticas contemporâneas de saúde mental (ver Szasz, 1970). O exemplo mais vivido desta
espécie de percepção culturalmente imperialística pode ser encontrada nas justificativas ofi­
ciais para a guerra, principalmente para a guerra do Vietnã. Aqueles que viram a obrigação
americana de salvar o Vietnã do Sul do Vietnã do Norte não foram cruéis em qualquer sentido
simples; não sabiam o que ou como estavam vendo. Nosso tratamento imperialístico daquelas
minorias que têm (ou tinham) culturas viáveis (como os índios americanos) não é uma exceção
na história do homem. O estudo de E. Pavenstedt é motivado pelos sentimentos mais nobres,
tais como o desejo de eliminar o sofrimento psicológico da pobreza, mas suas percepções são,
também, imperialísticas. Também seu trabalho não é uma exceção na história das ciências
sociais.
É válido acrescentar que a fenomenologia não tem o interesse exclusivo de evitar imperia­
lismo cultural, nem a virtude exclusiva de evitá-lo. Toda ciência deve fazer esta tentativa, e
ouvi falar de (mas não vi) estudos fenomenológicos alemães sobre os judeus na década de 30
que são pecadores primários a este respeito. É pena que estes estudos não tenham sido tradu­
zidos para que pudéssemos discriminar, com sua ajuda, a boa da má fenomenologia.
2É digno de nota que A. S. Neill (1960), respondendo à tendência de nossa cultura de ser
violentamente patemalístifca com as crianças, chegue exatamente à conclusão oposta. Bem, o
contexto é importante aqui; as famílias de Pavenstedt eram pouco superprotetoras e patema-
lísticas. Mas insistir que minhas necessidades, como pai, sejam satisfeitos, dificilmente pode
ser visto como patogênico. Tudo depende do que comunico a meus filhos quando faço isto. A
questão real não é o comportamento per se, mas sua significação para as crianças. Solicitar
indulgência para minhas necessidades pode comunicar um sentido de igualdade entre nós
quanto a alguns aspectos cruciais, ou pode comunicar que eu absolutamente não me importo
com as crianças. A questão crítica é, provavelmente, se me preocupo ou não com elas e se
posso tomar vivida essa preocupação na experiência infantil.
3Este fracasso é extraordinariamente comum nos estudos psicológicos com seres humanos.
Muitos experimentadores em psicologia social tentam manipular a significação que certas ex­
periências terão para os sujeitos, manipulando aspectos dos próprios experimentos. Dar ins­
truções, dizer a um sujeito que o experimento é sobre X, aborrecê-lo, apavorá-lo, fazê-lo
sentir-se desta ou daquela maneira ao dar-lhe coisas para fazer ou fazer coisas com ele são,
120 NOTAS

todas, técnicas para controlar as significações de seu comportamento. A estratégia alternativa


de perguntar-lhe o que seu comportamento significa tem sido relativamente ràra porque, pri­
meiramente, é difícil (na ausência de uma teoria da significação e da experiência) saber o que
fazer com tais dados e, em segundo lugar, porque o experimentador está freqüentemente mais
interessado em confirmar a hipótese de que as condições X conduzem ao comportamento Y
do que em compreender a experiência de seus sujeitos ou porque, em outros termos, eles se
comportam como o fazem. Este assunto será retomado posteriormente.
No entanto, é claro que significações de pequena monta podem ser manipuladas de forma
experimental e que tais manipulações imitam, ocasionalmente, a vida real. Por exemplo, o
paradigma de S. E. Asch (1958), no qual os sujeitos fazem um julgamento num contexto no
qual os dados perceptuais lhe dizem uma coisa e outras pessoas lhe dizem outra, não é dife­
rente de certas situações sociais nas quais se produz conformidade. Difere delas, no entanto,
porque o sujeito nunca esquece que é um sujeito num experimento psicológico, e unicamente
a significação desse fato pode influenciar amplamente o comportamento, em termos de como
ele se sente a respeito de si próprio. O trabalho recente em psicologia social do experimento
está começando a enfrentar este problema (por exemplo, Rosenthal, 1966; Ome, 1962). Alter­
nativas ao paradigma experimental não estão tão bem estabelecidas quanto as críticas ao
mesmo.
4Uma fonte de ceticismo que não discutiremos no texto deve ser mencionada aqui, e consiste
na tendenciosidade historicamente condicionada da psicologia behaviorista de considerar
como sem importância o que a pessoa diz, mesmo que isto indique o que ela está experien-
ciando, porque a experiência não é uma parte importante da temática da psicologia. Embora
raramente vejamos uma afirmação tão atrevida quanto a de John Watson (1924), os psicólogos
estão ainda inclinados a desconfiar em princípio, da fugidia questão da consciência e dos
relatos verbais que a expressam. Na época em que Watson escreveu, o exame da consciência
estava amplamente limitado às rotinas infrutíferas de E. B. Titchener, e, portanto, quando
Watson rejeitou categoricamente a consciência como objeto, isto foi como uma rajada de ar
fresco. Quase não precisaria dizer que me parece, entretanto, que o bebê foi jogado fora junto
com a água do banho, e que os psicólogos evoluíram dentro da postura peculiar, ainda comum
atualmente, de acreditar nos relatos verbais de suas esposas, filhas e amigos — repousando
tranqüilamente, de fato, nestes relatos, em virtualmente cada faceta da vida diária—, mas de
desconfiar profundamente deles no laboratório. Esta peculiaridade contribuiu para a irrele­
vância que a psicologia moderna possui para a vida diária.
3A manipulação experimental da significação, tal como no experimento de Asch (1958), pode
perfeitamente ser estabelecida como uma forma de perguntar e escutar. Ela é, claramente,
uma via indireta. Asch não pergunta a seus sujeitos se eles se conformam ou não, e por que o
fazem; pelo contrário, ele os põe numa situação na qual realmente se conformam, e tenta
imaginar por que o fazem através da manipulação de certas variáveis tais como as instruções,
o tamanho do grupo, a unanimidade dos aliados, e assim por diante. (Asch na verdade inter­
roga seus sujeitos depois de tudo, mas esse procedimento nunca contribuiu como uma parte
sistemática dos dados.) Asch “pergunta” sobre conformidade, a seguir “escuta” as respostas
no comportamento do sujeito. Tais rotinas expressas não superam os problemas dos papéis do
examinador e do examinado. Um sujeito nunca esquece que ele é um sujeito e que se está
comportando nesse papel, o que influencia seu comportamento.
tíLyons (1970, 1963) descreveu detalhadamente esta estratégia. Um crítico amigável me cha­
mou a atenção para o fato de que o método que aparentemente tenho em mente já foi inven­
tado e amplamente desenvolvido e usado por antropólogos culturais, ao menos desde o tempo
de Bronislaw Malinowski. Reconheço imediatamente que este comentário é absolutamente
verdadeiro em um sentido. A “observação participante” , uma técnica de obtenção de dados
que requer que o observador participe da realidade social que está observando, a fim de poder
observá-la propriamente, tem muito a oferecer à psicologia. Numa tentativa, que durou onze
horas, de encontrar referências úteis para o leigo ao longo destas linhas, descobri material
demais para recomendar. No entanto, o artigo de L. J. Goldstein (1947) é bastante caracterís­
tico. O estudo de Leon Festinger (Festinger, Riecken e Schächter, 1956) oferece um exemplo
semelhante em psicologia social, assim como o de William F. Whyte (1943).
CAPÍTULO 5 121
A controvérsia sobre a observação participante aplica-se ao método fenomenológico de
uma maneira muito particular. Por um lado, Malinowski argumentava que a pesquisa sobre o
comportamento humano devia “apreender o ponto de vista do nativo, sua relação com a vida,
para captar sua visão de seu mundo” (referido em Kardiner e Preble, 1961), ainda que um
trabalhador de campo em antropologia, em uma cultura estrageira, não possa deixar inteira­
mente de carregar sua própria cultura nativa. Além do mais, deve ter em mente certas catego­
rias de análise que não são nativas da cultura que está estudando, se pretende produzir um
estudo sobre essa cultura, em vez de um estudo que meramente expresse essa cultura.
Por outro lado, embora a “participação’' total não seja nem possível nem desejável em
antropologia, alguma participação, mesmo que vicariante, é certamente necessária para com­
preender com certa profundidade o que se está observando.
Este dilema, bastante vivido para os metodologistas da antropologia, cujo alvo é a cultura,
parece ainda mais imperioso para um fenomenologista, cujo alvo é o ser humano. Não há
maneira de “ sair da situação humana” para estudá-la, não há como atingir a perspectiva de
Deus. Assim, Maurice Merleau-Ponty (1962) diz que “a lição mais importante que a redução
[fenomenológica] nos ensina é a impossibilidade de uma redução completa” . Disto não se
segue que não tenhamos possibilidade de aperfeiçoar a “atitude natural”. Toda investigação
humana de seres humanos é, forçosamente, “observação participante” e, assim, o desenvol­
vimento desta técnica pelos antropólogos exerce uma fascinação inevitável sobre o investiga­
dor humano do ser humano.
Quanto à obtenção de dados, de informantes conforme realizada por observadores partici­
pantes, recomendo o estudo de Jules Henry (1971) como um modelo. O trabalho de Mali­
nowski (1948) e Margaret Mead (1935) é, por certo, sugestivo do ponto de vista metodológico.
7Talvez seja importante distinguir a idéia do “ sujeito como co-pesquisador” da estratégia de
pesquisa introspeccionista, pré-behaviorista, de W. Wundt e E. B. Titchener. A introspecção,
enquanto técnica, requer um treinamento intensivo e, quando tal treinamento é possível,
idéias elaboradas sobre aquilo que deve ser descoberto. Os desacordos eram, em certa época,
resolvidos pela decisão do introspeccionista “mais especializado” , que estabelecia qual era a
verdadeira forma da mente. As técnicas fenomenológicas podem chegar, por vezes, ao mesmo
destino. No entanto, em contraste com os experimentos de Titchener, a compreensão diária,
base de toda pesquisa, é o foco de atenção dos fenomenologistas; não é desrespeitada como o
era pelos introspeccionistas. Este fato faz uma diferença importante nessa argumentação. De
qualquer forma, também o introspeccionista era um co-pesquisador, e o sentido de uma tarefa
em comum com o experimentador era também uma parte importante dessa rotina. A dife­
rença, no entanto, está em que a presente estratégia não depende de um treinamento rigoroso
do sujeito. De fato, é exatamente a experiência diária, em seu estado natural e espontâneo,
que visamos a explorar e descrever.
8Este problema foi solucionado por Freud através da técnica da livre associação, numa rotina
extensa e laboriosa, sem dúvida um procedimento impressionante. A partir de Freud, uma
série de outras estratégias emergiram, despendendo menos tempo, mas ainda se aproximando
de nosso objetivo. Carl Rogers (1942), trabalhando em uma relação especialmente planejada
para ajudar pessoas (ver Cap. 6), repetia os pensamentos do cliente em palavras um pouco
diferentes, levando-o a corrigir cada comunicação em cada passo do caminho. S. Jourard
(1964, 1971) explorou sistematicamente as condições e técnicas de autodescobrimento e fez
muitas sugestões válidas sobre a maneira de superar esta dificuldade. F. Deutsch e W. F.
Murphy (1955), escrevendo sobre uma técnica de entrevista mais diretiva dentro da tradição
psicanalítica, argumentam que duas perguntas — “O que você quer dizer?” e “Como sabe?”
— habilitam um entrevistador a evocar o relato experiencial necessário, sem necessidade de
dizer às pessoas o que dizer. O metodologista original nesta linha foi, sem dúvida, Sócrates.
Este método de perguntar ao sujeito o que queremos saber não foi usado no episódio
descrito no Cap. 1, e a visualização de seu uso naquela circunstância traz à luz uma série de
problemas com o método.
9R. M. Zaner (1970) oferece um argumento particularmente convincente de que tal suspensão
é possível. Afirma que este teria sido, todo o tempo, o ideal de Edmund Husserl. Merleau-
Ponty, em seu ensaio “Phenomenology and the sciences of man” (in Merleau-Ponty, 1964b)
122 NOTAS

oferece uma demonstração igualmente lúcida de que os avanços críticos da ciência sempre
seguiram este padrão, ao invés da teoria da indução herdada de John Stuart Mill.
I“Geralmente é menos chocante admitir que as pessoas nos compreenderão se não tentarmos
enganá-las do que admitir que provavelmente não compreenderão quando tentarmos enganá-
las. A última suposição está implícita nos experimentos nos quais os propósitos estão ocultos;
a primeira, numa conversação honesta como a que estamos descrevendo aqui. E também mais
fácil supor que as pessoas serão honestas quando confiam em nós do que supor que seus
comportamentos sejam reveladores de como elas são quando não confiam — em situações tais
como as que ocorrem quando as tentamos enganar, e as tentamos enganar através da ijléia de
que não as estamos tentando enganar.
IIUm colega referiu-se a este estudo como “jornalístico” — indicando sua depreciação pela
falta de uma metodologia científica mais tradicional da parte de Henry. A observação é inte­
ressante, os jornalistas desfrutam de uma longa tradição em relatar-nos o que não podemos
ver e continuam a ter um poder social considerável. Ao mesmo tempo, esse grupo contém,
talvez, alguns dos melhores e dos piores cientistas (no sentido amplo de investigação e relato).
A respeito dos melhores poderíamos provavelmente dizer que seu trabalho é semelhante ao de
Henry pela atenção escrupulosa ao que experienciam, pela atitude reflexiva crítica e pela
comunicação de retratos cuidadosamente elaborados. Os piores podem ser verdadeiramente
assustadores como propagandistas, mas a ciência tradicional não é a única correção para tais
defeitos. Uma outra seria tornar-se um bom jornalista e isto requer, tal como o trabalho de
Henry, uma atitude que se aproxima da fenomenológica. Veja o Cap. 4, nota 7, e Lyons (1970)
quando este fala do output próprio da psicologia como um “conjunto de percepções informa­
das que são adequadas para o nível diário de compreensão em comunidade” .

CAPÍTULO 6
‘Esta visão da psicologia é algo controvertida. Para uma discussão das relações entre a psico­
logia tradicional, o chamado modelo médico, e a psicologia fenomenológica, veja Keen (1972).
Podemos dizer, em geral, apoiados no Cap. 3, nota 7, que o modelo médico é incompatível
com uma abordagem fenomenológica da psicologia clínica. O modelo médico implica, primei­
ramente, um relacionamento de papéis no qual “médico” e “paciente” são papéis permanen­
temente atribuídos, fixando e contendo as significações que possa ter a experiência na situa­
ção clínica; em segundo lugar, a percepção do “problema” como algo que vai mal nos proces­
sos internos do paciente (ou na “ mente” deste); em terceiro lugar, a operação sobre o pa­
ciente à maneira em que um médico “põe em ordem” o corpo de alguém — sem a necessidade
de que o paciente compreenda os intrincados aspectos do tratamento. Nem todos os psicote-
rapeutas que trabalham em seus consultórios operam segundo todos estes aspectos do modelo
médico; de fato, eles os violam com liberdade. Mas o modelo médico consiste no centro de
gravidade da tradição psiquiátrica e é vividamente representado numa série de práticas co­
muns, tais como a administração de drogas, eletrochoque, psicocirurgia e algumas visões da
modificação de comportamento. É interessante que os praticantes da modificação de compor­
tamento aleguem haver superado o modelo médico (Bandura, 1969). Fizeram-no quanto a
certos aspectos, mas em outras a modificação de comportamento é um exagero da tradição
psiquiátrica — por exemplo, nas definições de papéis.
2Pode ser importante observar que nem todos os fenomenologistas estariam de acordo com a
afirmação de que o centro de significação reside em cada um de nós. Jean-Paul Sartre poderia
aceitar tal maneira de estabelecer as coisas; Martin Heidegger, especialmente em seu último
trabalho, a rejeitaria completamente.
30 fato de operar na vida a serviço de um autoconceito é certamente inevitável, mas, ao se
tomar rígido, nos aproxima das posturas da Sra. Downs e do Sr. Pinky (discutidas no Cap. 8).
Rogers não foi o único a observar este aspecto dos problemas pessoais. Veja também Karen
Homey (1950) e Keen (1970), por exemplo.
4A lista poderia ser praticamente interminável, e, portanto, nos limitaremos a alguns dos psi­
cólogos que pertencem de forma mais óbvia à tradição fenomenológica, que abordaram expli­
citamente a psicoterapia e que possuem trabalhos publicados em inglês. V. E. Von Gebsattel,
CAPÍTULO 7 123
R. Kuhn e H. Ellenburger têm relevantes ensaios publicados em R. May, E. Angel e Ellen-
burger (1958). M. Boss (1958, 1963) adota de forma mais óbvia uma abordagem heideggeriana
à Psicoterapia. Poucos ensaios ou F. J. J. Buytendijk estão disponíveis em inglês, mas seu
estudo da dor (1962) é um ensaio fenomenológico extremamente importante. Binswanger
(1963) e Van den Berg (1973) têm casos excelentes publicados em inglês. J. F. T. Bugental
(1965), May (1967), A. Burton (1967) e Keen (1970) são americanos que adotaram uma abor­
dagem fenomenológica da Psicoterapia. R. D. Laing (1967, Í969) oferece muitos insights rele­
vantes. Outros artigos sobre terapia podem ser encontrados no Journal of Phenomenological
Psychology, no Review of Existential Psychology and Psychiatry e no Journal of Existential
Psychiatry.
50 testador e o cliente nem sempre, naturalmente, têm de concordar, e as percepções do
testador também fazem parte do relato. Se o testador diz que o cliente se preocupa muito com
sua adequação enquanto homem, por exemplo, e o cliente não vê as coisas dessa maneira,
mas, ao contrário, percebe seus problemas como financeiros, ocupacionais e assim por diante,
então, em primeiro lugar, as percepções e interpretações do cliente quanto a suas próprias
preocupações são, pelo menos, tão importantes quanto as do testador e, em segundo lugar,
gostaríamos de saber quais os tipos de dados que poderiam conduzir este último à conclusão
obtida, face ao desacordo do cliente. Aquilo que ele, o testador, quer dizer por meio de tal
interpretação deve por certo ser esclarecido e o testador, o cliente e o leitor do relato se
beneficiarão, todos, a partir de tal esclarecimento. Vale a pena observar que “o tribunal da
experiência vivida” empregado nesta situação não nos leva aos problemas de verificação dis­
cutida no Cap. 4, nota 7, pois se pode garantir que as pessoas têm diferentes perspectivas e
que cada uma delas é válida e importante. Esta situação, com todas as suas vantagens,
poderia predominar em toda psicologia que lida com seres humanos se estivéssemos interes­
sados em fazer com que ela predominasse. Os psicólogos clínicos podem argumentar que se
perderia algo. É válido perguntar o que se perderia.
6É claro que alguns dos objetivos da psicologia clínica conforme ela está agora definida não
seriam atingidos deste modo. A manipulação do comportamento, seria bem menos simples,
talvez impossível, através desta abordagem. O fato deste objetivo parecer ou não crítico de­
pende de valores (deveríamos ou não manipular pessoas para o seu próprio bem, independente
do fato delas compreenderem ou não?) e abordagens (o modelo médico ou outro). Também a
ciência da verdade objetiva sobre a natureza da psique não floresceria (se é que já o fez) e
teríamos de substituí-la pelo “conjunto de percepções informadas apropriado para o nível de
compreensão coletiva” que nos é dado correntemente pelos peritos em literatura e jornalismo
em nossa cultura. O fato de podermos ou não nos decidir por isso, em lugar de pelo conheci­
mento orientado por especialistas de uma ciência técnica, também depende de nossos valores
e abordagens (ver Cap. l 1).

CAPÍTULO 7
'O conceito de campo tem uma história longa e diferenciada em psicologia. O teórico do
campo por excelência foi Kurt Lewin (1935, 1936), cujo conceito de campo é uma combinação
do conceito de Umwelt do biólogo J. von Uexküll, ou ambiente conforme percebido por um
organismo, da teoria de campo em física, como na teoria eletromagnética desenvolvida nos
séculos XlX e XX e de observação psicológica sagaz, a qual o convenceu de que o ponto de
vista do protagonista do comportamento é crucial para a compreensão da ação. A Fig. 5 do
Cap. 1 é típica do modo de pensar de Lewin, embora ele freqüentemente se tomasse mais
abstrato. Costumava usar um pequeno número de conceitos, como vetor, valência, barreira,
canal e pólos positivo e negativo para descrever todas as situações nas quais o comportamento
tem lugar. Esta estratégia teórica possui a vantagem da grande generalidade e a desvantagem
da perda de unicidade de uma situação, que o conceito de fisionomia permite. Muitos psicólo­
gos americanos foram altamente influenciados por Lewin, especialmente no estudo dos pe­
quenos grupos. Edward Tolman (1966), ao contrário da maioria dos lewinianos, foi simulta­
neamente um behaviorista cujo trabalho experimental foi feito principalmente com ratos. O
conceito de “mapa cognitivo” de Tolman aponta para o campo experiencial do rato e ganhou
124 NOTAS

legitimidade dentro do behaviorismo quando Tolman o chamou “variável interveniente” , ne­


cessária para explicar a relação observada entre estímulo e resposta — os apoios mensuráveis
de toda a teoria behaviorista. Embora Tolman também não estivesse interessado em uma
fisionomia do campo, do mesmo modo que Lewin e os fenomenologistas, e ao contrário de
outros behavioristas, estava convencido de que o ponto de vista do agente é importante na
compreensão do comportamento.
2Esta afirmação não é literalmente verdadeira, mas nossa habilidade natural para perceber a
partir do ponto de vista alheio é um dos fatos básicos da psicologia humana que .não foi
suficientemente apreciado, talvez em virtude da tradição empirista no pensamento ocidental, a
qual afirma que “conhecemos” apenas o que nos é dado através dos órgãos dos sentidos.
Compreendo obviamente a experiência dos outros durante todo o tempo, sem que esta com­
preensão tenha emergido de um canal sensorial discreto. Este tema foi discutido em relação
com a metodologia no Cap. 3.
3A diferença entre as duas maneiras pelas quais estruturamos nossos próprios campos por
nossa própria iniciativa não é tão grande como parece. Quando da percepção de situações de
determinada maneira, estamos presumivelmente operando numa esfera puramente privada,
objetiva. Mas ambas as esferas estão longe de ser puras. Nossa experiência presumivelmente
privada está geralmente “escrita em nossa face” — e sobre nossas posturas e gestos. Pode­
mos ter segredos, mas é difícil mantê-los. Nosso comportamento presumivelmente público
reporta diretamente a nossa experiência (Cap. 2, nota 11) na m ente de qualquer espectador.
Quando entro numa situação cautelosamente, impudentemente, temerosamente, ou de alguma
outra maneira, estruturo-a enquanto uma totalidade, e não primeiro como um espetáculo vi­
sual e depois como um campo comportamental. Minha presença perceptual e minha presença
comportamental na situação são da mesma espécie, mutuamente integradas, tão profunda­
mente que a distinção analítica entre percepção e comportamento parece questionável.
De modo geral, as distinções entre público e privado, objetivo e subjetivo, comportamento e
experiência são estabelecidas de modo demasiado rígido na tradição da psicologia americana.
O fato de que tenhamos tradicionalmente feito esta distinção de forma tão estrita denuncia
nosso débito com a ontologia implícita à maior parte do pensamento ocidental, que Martin
Heidegger tentou claramente superar. A ontologia privatista e subjetivista dificulta a per­
cepção do modo como compreendemos uns aos outros na vida diária. Ao inquirir sobre
os fundamentos da possibilidade da experiência diária, ao procurar os horizontes da experiên­
cia dentro dos quais esta chega a ser significativa, descobrimos um nível de significação evi­
dentemente social; ver Caps. 9 e 10.
Se a consciência fosse primariamente privada, e tomada pública apenas ocasionalmente
quando a expuséssemos explicitamente a outrem, neste caso nossa experiência de outras pes­
soas se assemelharia mais a uma pilha de discos do que ao relacionamento, à empatia e à
compreensão que caracterizam a vida diária. Além do mais, a consciência é pública não ape­
nas no sentido de ser difícil guardar segredos; é pública também no sentido de que membros
da mesma cultura sempre compartilham expectativas, normas e conceitos de papel. Estes
aspectos compartilhados de nossa consciência não são meramente adicionados a uma cons­
ciência que seria, sob certos aspectos, privada; fornecem a estrutura de significações dentro
da qual localizamos nossa própria privacidade.
Portanto, o comportamento é mais explicitamente público e objetivo do que a maneira pela
qual vemos subjetivamente as situações, mas esta é uma distinção relativa. Público e privado
são dois pólos de um continuum, a maior parte da atividade crítica está em algum lugar entre
eles. Além do mais, este continuum é menos uma questão de realidades metafísicas do que de
grau de explicitação e grau em que são consideradas socialmente justificadas.
4Para um estudo fenomenológico mais profundo da ilusão de Müller-Lyer, veja R. J. Alapack
(1971). Alapack pediu a diversos sujeitos para descrever as figuras, sem lhes dirigir a atenção
para a questão do tamanho, e pôde demonstrar que nossa relação com as mesmas é mais
complexa do que a “ilusão” comum que criam. Particularmente, o método de Alapack foi
semelhante àqueles descritos no Cap. 4 (ver especialmente a nota 5) e ele concluiu que nossa
Orientação corporal é um aspecto de nossa experiência, verificando as conclusões de Maurice
Merleau-Ponty (1962).
CAPÍTULO 7 125
5Há uma complicação significativa neste ponto. O carro se torna físionomicamente maior
quando se aproxima? Talvez pudéssemos argumentar que a fisionomia do tráfego é tão forte­
mente influenciada por nosso conhecimento que o carro é do mesmo tamanho, que o carro
não parece maior quando se aproxima. Talvez sejamos tentados a dizer que ele se toma
físionomicamente maior unicamente porque sabemos que sua imagem em n9ssa retina se
toma maior. Não há resposta absoluta para esta questão, nenhuma fisionomia absoluta que
seja ingênua quanto ao que sabemos sobre as relações espaciais do mundo. Da próxima vez
que percorrer um corredor, observe o fluxo das paredes, teto e porta diantes de você, ele
pode-se tomar fantástico. É esta experiência “mais natural” ou “mais fundamental” do que
nossa experiência ordinária de nos movermos do lugar A para o lugar B? É aconselhável
tomar-se sensível à fisionomia como a do corredor misterioso, mas nosso termo “fisionomia”
deve referir-se igualmente a ambas as experiências. Um “caminho” de A para B não é pura­
mente conceituai e não fisionômico; meramente tem uma fisionomia diferente.
6Esta afirmação é, na verdade, muito controvertida filosoficamente, pois é possível argumen­
tar que os números constituem um contexto de significação perfeitamente coerente sem refe­
rência a qualquer coisa que experienciemos no mundo. Nossa visão aqui é mais “existencial” ,
isto é, estabelecemos que nossa existência concreta no mundo é, inevitavelmente, o funda­
mento de toda significação.
7Pode ser útil esclarecer as relações entre as distinções abstrato versus concreto e público
versus privado. Eles se superpõem, mas estão longe de ter significações idênticas; podemos
ver como se interceptam no quadro seguinte.

público privado

abstrato 1 3

concreto 2 4

A célula 1 contém aquelas significações compartilhadas que estão encravadas na linguagem. É


claro que abstrações da experiência (como na linguagem) são mais fáceis de compartilhar do
que a experiência imediata, que é uma ancoragem intransigentemente privada na experiência
única do indivíduo único. A célula 2 não está* no entanto, vazia; compartilhamos a ilusão de
Müller-Lyer, a experiência do teatro vazio e muitas outras experiências fisionômicas muito
concretas. Esta partilha indica que, embora a experiência esteja ancorada na unicidade do
indivíduo, dificilmente a poderíamos dizer exclusiva, mesmo em sua concretude. A célula 3
também não é uma célula vazia, embora comumente as abstrações sejam sociais. A célula 4
destina-se ao que é, intransigentemente privado e concreto: as experiências místicas que são
indescritíveis, por exemplo.
8O teórico que melhor descreve nossa orientação comportamental no espaço é Merleau-Ponty.
Tal orientação propositiva no espaço é freqüentemente corporal, e Merleau-Pönty é também o
teórico que tem preferência quanto à fenomenologia do corpo. Em seu principal trabalho teó­
rico, The Phenomenology of Perception (1962), elabora a compreensão de Schneider, ante­
riormente mencionado neste livro. Seu comentário sumariador sobre a questão que estamos
abordando refere-se à nossa relação com o “campo” e ao modo pelo qual o corpo está impli­
cado:
Se o espaço corporal e o espaço externo formam um sistema prático, o primeiro constituindo o
fundo contra o qual os objetos, na qualidade de objetivos de nossa ação, se podem destacar. . . fica
claro que é através da ação que a espacialidade de nosso corpo passa a existir, e uma análise de nosso
próprio movimento nos deve habilitar a chegar a uma melhor compreensão do.mesmo. Ao considerar
o corpo em movimento, podemos ver melhor como ele habita o espaço (e, além disso, o tempo)
porque o movimento não está limitado a uma submissão passiva ao espaço e ao tempo, ele os assume
ativamente, ele os admite em sua significância básica .. .(p. 102).
126 NOTAS

Nossa orientação corporal no espaço é tão fundamental que tendemos a não lhe dar a
devida atenção, especialmente quando refletimos sobre seres humanos, a maior parte dos
quais constroem a vida mais através de idéias do que de relações físicas. Entretanto, ao olhar
mais de perto a experiência, vemos que ela revela que esta espécie de horizonte está sempre
presente e é essencial para a significação dos acontecimentos. É freqüentemente muito cru­
cial, como quando certos tipos de situação nos emocionam. A emoção é uma resposta corpo­
ral, assim como ideacional. Ela é, por certo, sintetizada na experiência concreta e aparece na
forma de propriedades fisionômicas do campo.
Talvez as descrições mais elaboradas da experiência emocional em seu aspecto corporal
sejam dadas por Jean-Paul Sartre (1956). Para outro exemplo da integração de significações
corporais na experiência, veja o estudo de E. L. Stevick (1971) sobre a raiva, relatado no Cap.
4. O estudo de Stevick também esclarece como uma abordagem fenomenológica da emoção
toma óbvio o clássico “problema corpo-mente”:

Os estudos tradicionais da emoção abordam o corpo como um objeto no mundo, ignorando a


forma como ele é vivido pela consciência. Estes estudos observam e medem as mudanças provocadas
pela emoção, sem nunca solucionar o problema de como ou por que estas mudanças ocorrem, e como
e por que são questões importantes a considerar, precisamente porque o corpo é, para eles, um orga­
nismo separado da “ mente” . Porém os dados deste experimento mostram sujeitos que descrevem seu
corpo como aquele que viveu, e através do qual viveram, a raiva. Partindo desta pressuposição, o fato
de que o corpo vai se impregnando com a raiva até que explode espontaneamente para preservar sua
habilidade, a qual é sua própria existência no mundo, não é mais um problema ou mesmo um tema
para o psicólogo, (p. 147)

W. Fischer (1970) também integrou a significação corporal e outras na experiência da ansie­


dade. O problema corpo-mente é talvez o melhor e mais incômodo exemplo, no pensamento
ocidental, do fato de estabelecer uma distinção analítica, averiguar os elementos distinguidos,
e considerar, então, impossível descrever as relações entre as partes analiticamente separa­
das. Assim como em nossa distinção deste capítulo entre experiência “abstrata” e “con­
creta” , a solução do problema das “relações” é voltar à experiência vivida da qual as partes
foram abstraídas, na qual não encontramos absolutamente uma “relação entre partes separa­
das” , mas um todo integrado com organização própria e não devedora de nossas abstrações
conceituais.
9Como demos ênfase à noção de ser nO espaço, é bom notar que Martin Heidegger (1962)
destacou de modo decisivo o quanto de significação porta a palavra “em” . O ser-no-mundo é
uma expressão com hifens que indica uma unidade experiencial, da qual “ homem” e
“ mundo” são abstrações. Portanto, o “em” não é o mesmo que usamos quando dizemos que
o charuto está na caixa. “Não há coisa tal como o fato de estarem Tado a lado* uma entidade
chamada ‘Dasein' e outra entidade chamada ‘mundo” *(p. 81). Os objetos estão lado a lado e
este é o sentido em que o charuto está na caixa — o sentido de proximidade física. Dizer que
estamos “no” mundo ou “no” campo é descrever uma espécie de relacionamento muito dife­
rente ou, tal como antes, a noção de “relacionamento” estará submetida à pressuposição de
que partes analiticamente separadas (homem e mundo) são separadas e devem ser concei-
tualmente relacionadas. Assim, o termo “em” não é meramente físico (charuto na caixa) nem
reflete uma relação entre homem e mundo. O “em” de Heidegger, e também o nosso, é uma
expressão da presença experiencial do mundo para o homem, uma presença tal que cada um é
um horizonte do outro e nunca faz sentido separado do outro. Sou-no-mundo no sentido de
que estou aberto para o mundo (o que é diferente da forma pela qual o charuto está na caixa),
mas estar aberto não é uma caracterização de mim mesmo e de minha relação com alguma
coisa “lá fora” ; esta abertura ou “transparência” é pré-requisito para que haja, de algum
modo, experiência. Nesta linha de pensamento podemos ver, primeiramente, o retomo à ex­
periência conforme experienciada, em lugar de conforme conceptualizada, entre homem e
mundo e, em segundo lugar, uma busca dos pré-requisitos que devem ser articulados, em
lugar de uma construção de abstrações em teoria. As duas maneiras de pensar caracterizam a
filosofia fenomenológica e distinguem-se das maneiras mais tradicionais de pensar; ver Cap. 2,
nota 5.
CAPÍTULO 8 127
CAPÍTULO 8
1De um ponto de vista heideggeriano, esta afirmação é muito débil. Mais precisamente, dize­
mos que o Dasein (termo de Heidegger para a presença humana, que tipicamente é referida
pelo enganador termo abstrato “homem” — ver Cap. 7, nota 9), é uma temporalização, uma
feitura de tempo, uma marcação de tempo. O tempo não é algo “lá fora” , “no” qual estamos;
é uma atividade do Dasein — na verdade a atividade mais fundamental do Dasein e, portanto,
o horizonte mais fundamental da experiência humana. Este tempo não é uma escolha voluntá­
ria. Não temos escolha entre temporalizar ou não; é inevitável que o façamos. O tempo, como
o mundo, está integrado naquela unidade experiencial que constitui nosso primeiro dado e,
assim como o mundo, foi abstraído para consideração especial no pensamento ocidental. Em
virtude desta tradição, que criou o “problema” da “relação” entre tempo e self, devemos
agora trabalhar nosso caminho de volta à unidade da experiência, a fim de começar de novo.
Este capítulo tem como objetivo reintegrar self e tempo, mas não queremos manter em se­
gredo o fato de que eles já são da mesma espécie na experiência e que, se pudermos nos abrir
à experiência conforme experienciada, o trabalho conceituai deste parágrafo e dos seguintes
se toma desnecessário.
2Esta expressão, “a suposição de que ele tem um futuro” pode ser enganadora se “ suposi­
ção” for tomada em seu sentido puramente cognitivo. A maneira fenomenológica mais própria
de abordar esta noção reconheceria que o futuro penetra o presente (em lugar de ser uma
suposição ou premissa dele). O presente não está separado do futuro, mas é, mesmo agora,
uma presentificação ou um fazer presente o futuro. O vocabulário do texto, menos difícil,
porém fenomenologicamente menos preciso, foi selecionado por questões de simplicidade.
3Esta linha de pensamento pode ser enganadora se “é” e “ são” forem reduzidos, neste silo­
gismo, a um mesmo signo, denotando mera igualdade. Do ponto de vista lógico, este procedi­
mento é suficientemente correto. Mas, na perspectiva fenomenológica, dizer “ nós somos
nossas histórias e futuros” é dizer mais do que estabelecer que “nós” e “nossas histórias e
futuros” são expressões idênticas. Na verdade, a frase também estabelece que vivemos nossas
histórias e futuros; apropriamo-nos deles e os desempenhamos. O verbo “ser” indica algo
bem distante da mera equivalência lógica; indica ser enquanto ser-no-mundo. Tal como a
palavra “em”, no capítulo anterior, palavras simples podem ter muita significação quando
usadas para descrever a experiência conforme experienciada, em lugar de indicar meras con­
junções lógicas. Esta dificuldade é inerente à leitura da literatura fenomenológica e só é supe­
rada por uma leitura de tipo fenomenológico.
4Esta conceptualização de culpa pode parecer, de início, muito diferente de outras mais clás­
sicas, como a de Sigmund Freud. De acordo com Freud, a culpa pode invadir minha vida em
virtude de um episódio ou situação há muito esquecida, pela qual me senti, enquanto criança
— da maneira como as crianças consideram as coisas —, culpado. A masturbação e a desa­
provação parental ou os desejos edipianos de possuir a mãe com exclusividade, com fantasias
de retaliação paterna, exemplificam tal situação (ver Freud, 1961). De acordo com nossa pre­
sente formulação, eu pareceria ter de ‘‘recordar” conscientemente tais eventos para me sentir
culpado. Há um século, aproximadamente, a experiência psicanalítica desaprova tal alegação.
De fato, o termo “esquecimento” ou “repressão” da recordação é, na verdade, apenas uma
maneira de dizer que muitos horizontes de nossa experiência contemporânea são difíceis de
focalizar e de enunciar. Quando realmente “recordamos” , como no insight psicanalítico, isto
não é tanto um ato de tomar consciente*algo que era “inconsciente” , e sim o ato de atingir
uma enunciação de um horizonte da experiência contemporânea e uma apreensão explícita de
uma das premissas de todas as nossas experiências de vida. Este processo não é o de desen­
terrar um fato do passado, mas o de trazer à luz as significações de nossas experiências
contemporâneas, permitindo que sejam reinterpretadas. Nem só os psicanalistas entenderam
desta maneira a psicanálise; veja também H. Fingarette (1963). A mais completa interpretação
fenomenológica do trabalho de Freud é a de P. Ricoeur (1970).
Literatura fenomenológica adicional sobre a culpa pode ser encontrada em Martin Buber
(1957), G. Haigh (196l) e Emest Keen (1966). Também pode ser útil observar que a noção de
culpa, no texto, possui uma relação particular com a noção ou “ ser culpado” de Heidegger
(1962). Este chamaria nossa descrição de “exemplificação existente” do estado “existencial”
128 NOTAS

mais primordial de ser culpado. A relação entre “existente” e “existencial” é a mesma que
existe entre “ôntico” e “ontológico”, conforme discutido no Cap. 10.
5Veja o “ romance” ou os “ momentos perfeitos” de Antoine em Náusea, de Jean-Paul Sartre
(1959).
6Talvez seja importante destacar que esta noção de saúde é muito mais sartreana que heideg-
geriana. Na verdade, Heidegger fala de uma “repetição” ontologicamente dada, que é um
limite essencial no futuro.
7O termo “extravagância” foi usado pela primeira vez por Ludwig Binswanger (1963) para
referir-se àquela espécie de autodefinição que não tem consideração pelo que é dado. A inte­
ração entre o que é dado e necessário, por um lado, e o que é aberto e possível, por outro, é
um dos problemas mais antigos e complicados da história da filosofia. Nenhuma posição ex­
trema é adequada; a liberdade total está tão longe da condição humana como o determinismo.
Existe aqui o perigo de mais uma vez fazer de uma parte abstraída da experiência vivida (fazer
uma escolha ou ser compelido por fatores fora de controle) o paradigma para a condição
humana. Tendo visto que tanto a liberdade como o determinismo são característicos da expe­
riência humana e tendo solidificado e tornado absolutas ambas as interpretações,
encontramo-nos agora às voltas com o “problema” da “relação” entre os dois. Não há “ solu­
ção” para este problema a nível conceituai. A resposta fenomenológica, como sempre, é o
retomo à experiência vivida, onde encontramos os dois aspectos da experiência humana já
integrados, e horizontais um para o outro. Percebemos nossa liberdade porque esta se destaca
de nossas limitações, e percebemos nossa determinação porque ela se sobressai de nossa
liberdade. Entretanto, podemos acrescentar que mesmo esta descrição, que é verdadeira em
certa medida, ainda polariza liberdade e determinismo, como se fossem aspectos separados da
experiência. Em minha vida diária, procedo à luz de um ser-no-mundo que é, simultanea­
mente, tanto livre como determinado. Não submeto cada aspecto da experiência a uma cate-
gorização cognitiva e calculo o grau de minha liberdade antes de realizar cada ação. Já sei
como as possibilidades e necessidades estão organizadas e procedo de acordo com isso. O fato
de que este saber esteja sujeito a mudança, como na psicoterapia, que pode liberar a Sra.
Downs e o Sr. Pinky, indica meramente que o ser-no-mundo está num estado de fluxo cons­
tante. Um terapeuta pode ver as possibilidades de mudança (contra as necessidades de ser
obrigado a ser quem se é) de forma um pouco diferente daquela em que a Sra. Downs ou o Sr.
Pinky as vêem. Eles não serão persuadidos por seus argumentos, mas podem chegar a adquirir
uma visão mais próxima da do terapeuta se chegarem a perceber claramente os horizontes das
próprias experiências e o modo como as significações dos eventos se desenvolveram, como
sedimento, ao longo dos anos. Tal mudança, no entanto, não é meramente intelectual; é uma
mudança na própria estrutura da experiência e, portanto, no caráter do ser-no-mundo de cada
um deles.

CAPÍTULO 9
‘Ver Cap. 2, nota 13.
2Muitos acordos interpessoais são especificações de acordos já existentes, presentes na socie­
dade mesmo antes que nos engajemos nela: o fenômeno dos papéis. Havia um papel de pai
antes que eu me tomasse pai, um papel de marido antes que eu fosse um marido, um papel de
aluno antes que eu fosse um aluno, um papel de criança de classe média do Meio-Oeste antes
que eu fosse uma criança de classe média do Meio-Oeste, e assim por diante. Mesmo sabendo
que o fenômeno dos papéis tem sido a província da sociologia e da psicologia social, devemos
reconhecer que a estrutura dos papéis e das expectativas, que constitui nossa organização
social (ou cultural), fornece inevitavelmente um horizonte para muitos acordos interpessoais
que não têm lugar dentro deste contexto. Na verdade, existe uma psicologia social fenomeno­
lógica (Von Eckartsberg, 1971; Schütz, 1967, 1970; Kwant, 1965) que foi deixada de fora neste
livro, mas que não devemos ignorar se queremos ter um estudo fenomenológico de algum
comportamento que seja leal às significações como estas de fato aparecem em nossa experiên­
cia. A “ microssociologia” de Erving Goffman é muito útil para o trabalho fenomenológico
(1959, 1961, 1971). Veja também o provocante livro de M. Natanson (1970).
CAPÍTULO 9 129
Podemos dizer, em geral, que nossa focalização em significações e horizontes não mudaria
numa sociologia fenomenológica. Muitas significações são compartilhadas, são primariamente
propriedade de um grupo e pertencem aos indivíduos somente na medida em que estes são
membros do grupo. Na verdade, a partilha de significações coletivas é uma medida de integra­
ção, e os membros do grupo que sabem implicitamente (por vezes explicitamente) quem está
“dentro” ou “fora** de um grupo estão respondendo ao grau em que o indivíduo compartilha
as significações coletivas. No entanto, as significações não são apenas compartilhadas; tam­
bém são históricas. Dizer “um Rockefeller não faria isso” é fazer referência a uma tradição.
Uma tradição é uma história compartilhada dentro da qual tem lugar a experiência individual,
assegurando sua significação comum ou coletiva. A tradição já está sempre presente; é um
horizonte da experiência nos indivíduos, e é neste sentido que podemos chegar a conhecê-la
se queremos estudá-la e tomá-la explícita. Parte daquilo que sabemos implicitamente quando
somos membros de uma tradição é que outros na tradição compartilham conosco estas signifi­
cações. Uma sociologia fenomenológica pode tomar claro todo este material.
3A confirmação aparece no trabalho de R. D. Laing (1969), mas este a tomou de Martin Buber
(1958). A conivência também é tomada de Laing (1969). O termo pretensão não foi usado
antes neste sentido, ao menos que eu saiba. A idéia inteira não é diferente da noção dejogo de
Eric Beme, que se tomou famoso há poucos anos por seu best- seller Games People Play
(1964), e que foi perpetuada na lista dos best-sellers por Vm Okay — Youre Okay, de .T. A.
Harris (1967), e Born to Win, de M. James e D. Jongeward (1971). A popularidade deste tipo
de psicologia entre o público em geral está começando a rivalizar com a popularidade de
Sigmund Freud meio século atrás, embora a mística de Freud nos anos 20 (Anderson, 1967) e
seu impacto duradouro sobre nossa cultura (Rieff, 1959) possivelmente não sejam igualados
novamente. Para uma análise desta situação, veja Emest Keen (1972).
40 estudo de famílias floresceu na década passada nas profissões de psiquiatra e psicotera-
peuta. Alguns exemplos da literatura atual são V. W. Eisenstein (1956); I. Boszormenyi-Nagy
e J. L. Framo (1965); T. Lidz, S. Fleck e A. Comelison (1965); J. G. Howells (1971); G. H.
Zuk (1971); A. Ferber, M. Mendelsohn e A. Napier (1972); Laing e A. Esterson (1970); Ester-
son (1972) e o volume do grupo para o Adiantamento da Psiquiatria, Treatment ofFamilies in
Conflict (1970).
5Veja Laing (1967), para uma compreensão da família como “uma negociata de proteção mú­
tua” .
6Veja Laing e Esterson (1970), para exemplos deste “caráter vingativo”. Seus sujeitos, como
muitas famílias, não tentam ferir os desviantes conscientemente. Na verdade, o oposto é fre­
qüentemente verdadeiro quanto a suas representações explícitas de seus próprios motivos.
Este caráter vingativo é “inconsciente”, termo pelo qual indicamos que o comportamento res­
ponde a uma situação cuja significação vem de horizontes dos quais não estamos cônscios em
termos focais. É claro que estes horizontes, no entanto, estão estabelecidos em nossa expe­
riência num nível implícito.
7Ver Cap. 9, nota 2.
8Ver Cap. 2, nota 6.
9Uma complicação final para este capítulo inteiro: as relações interpessoais são vistas aqui
amplamente como uma questão de “fazer acordos”. Esta posição implica em que uma moti­
vação humana fundamental é preservar a própria identidade. Se isto é verdade, põe em ques­
tão a comunalidade já dada do mundo, sobre a qual argumentaremos no próximo capítulo. Se
a perspectiva implícita neste capítulo fosse desenvolvida até sua conclusão, a comunalidade
do mundo não seria sempre dada e sim uma conivência universal, um negócio universal, um
consentimento comum de jogar o mesmo jogo. O fato de que haja indivíduos que se furtem
deste acordo universal (nós os chamamos “psicóticos”) tende a sustentar esta visão, mas esta
questão é uma daquelas consideradas absolutamente fundamentais pela fenomenologia (cha­
madas “ontológicas” no Cap. 10) que devem, por enquanto, permanecer em debate. Mesmo
assim fica claro neste ponto o quanto questões ontológicas aparentemente obscuras têm rele­
vância em questões psicológicas muito vividas, tais como a natureza da psicose, das relações
interpessoais, e assim por diante.
130 NOTAS

CAPÍTULO 10
‘Estas afirmações negativas — que o mundo não é meramente subjetivo, nem meramente
objetivo — são expressões de uma visão filosófica, na verdade metafísica, que é distinta do
idealismo e do realismo, respectivamente (ver também Cap. 2, nota 7). Estas duas posições
metafísicas historicamente relevantes conduzem a contradições e finalmente a compreensões
errôneas em filosofia e especialmente em psicologia. A fenomenologia não é a única filosofia
que tenta orientar um trajeto entre idealismo e rçalismo, mas é a mais recente e a que se
desenvolveu paralelamente à psicologia modema. Por esta razão ofereceu à psicologia mo­
derna e dela recebeu mais contribuições do que ocorreu com outras filosofias metafísicas.
Algumas filosofias, é claro, como o positivismo lógico, são igualmente recentes e têm muito a
ver com a psicologia, mas tentam explicitamente evitar a metafísica. Se isto é ou não possível,
constitui questão de um debate filosófico extenso que, por vezes, constitui o conteúdo latente
das discussões entre psicólogos, como no trabalho organizado por T. W. Wam (1964).
2Na qualidade de psicólogos, estamos menos interessados nesta questão e em outros proble­
mas relativos à universalidade da experiência do que nas variações. As mudanças na expe­
riência de minha filha chamam mais nossa atenção do que as permanências. Estamos mais
interessados na forma pela qual as pessoas diferem umas das outras do que na maneira pela
qual se assemelham. Gigantescos problemas universais têm sido tradicionalmente estudados
pelos filósofos, e os psicólogos têm estado mais inclinados a supor que o ser simplesmente é,
que as coisas simplesmente são, e que a experiência simplesmente é — e a inquirir sobre
questões menos especulativas e mais práticas, trabalhando a partir destas suposições.
No entanto, a variação entre pessoas ou da mesma pessoa de momento a momento sempre
ocorre dentro de certos limites. O fato de que todas as pessoas experienciam um mundo — e
este já está presente, pleno de significação, fornecendo uma totalidade referencial dentro da
qual as experiências fazem sentido — este fato não é irrelevante para a psicologia. Além do
mais, o mundo não é universal para nós por sua mera presença; ele sempre se faz presente em
termos de espaço, tempo, identidade' própria e outros universais da experiência humana. A
especificação destes universais da experiência humana, e do modo como se ajustam mutua­
mente no empreendimento humano de ser-no-mundo, é um aspecto ontológico da psicologia.
3Ver Cap. 9, nota 9.
4Dizer que o mundo já existe pode parecer levantar a questão de sua procedência — não em
termos de cosmos, mas em termos de psicologia. Ou melhor, aparentemente é verdade que o
mundo não está presente para o feto, mas que ele está presente para mim agora. Entre o
momento presente e aquele quando eu era um feto, o mundo chegou a ser para mim. Como
isto acontece? Jean Piaget (1929, 1954) nos oferece as observações mais sensíveis sobre o
desenvolvimento da consciência no indivíduo, mas estas observações não justificam a comu­
nalidade do mundo, o fato de que o mundo em que eu vivo seja essencialmente similar àquele
em que você vive. Há uma noção do senso comum de que você e eu obviamente chegaremos a
viver mundos semelhantes porque existe, afinal de contas, apenas um mundo físico “real”,
“lá fora”. O mundo do qual falamos, entretanto, e cuja comunalidade nos impressiona não é
simplesmente uma coleção de objetos comuns. Mais importante que isso, ele é também um
conjunto já existente de significações, uma totalidade referencial dentro da qual o comporta­
mento e a percepção, na qualidade de referenciais específicos, são significativos. Logo,
desenvolvemo-nos psicologicamente num mundo significativo já existente. Desenvolver-se é
aprender esta totalidade referencial, tanto quanto adquirir objetos perceptuais específicos.
A natureza sempre já presente do mundo levou Martin Heidegger, em seu último trabalho,
a um estudo da linguagem, pois esta é responsável por grande parte de nossa referência com­
partilhada e pode fornecer a estrutura para o restante. O estudo da linguagem neste sentido
não é meramente a comparação de linguagens diferentes e do modo pelo qual elas categorizam
diferentemente o mundo (Whorf, 1956) mas também o estudo da linguagem per se como o
agente constituinte do haver referência e, de algum modo« uma totalidade de referência (o
mundo).
5Se eu viesse de uma cultura diferente, onde não houvesse nem tênis nem cerveja, neste caso
haveria algumas significações não compartilhadas por mim, e eu não compreenderia o com­
portamento dos jogadores conforme compreendo. Seguramente muitas significações são rela­
CAPÍTULO 11 131
tivas à cultura. Porém, eu saberia que este (aparentemente) estranho comportamento tinha
significações; compreenderia que eu não compartilhava essas significações. A experiência do
comportamento dos outros como intrigante me conduz unicamente para fora de sua cultura,
não exclui a compreensão de que eles têm uma cultura. Nunca suponho que os aborígines
africanos, cuja cultura eu não compreendo, sejam autômatos ou bambus que se movem aleato­
riamente ao vento. Compreendo que cada um deles é um ser-no-mundo, o que é este processo
de ser, e o que é o mundo como um cenário no qual se é. Nunca perco meu sentido fundamen­
tal de ser-no-mundo e, portanto, nunca perco o mundo como aquilo que tenho em comum com
os outros, mesmo quando reconheço (e contra que padrão reconheço) nossas diferenças mais
superficiais.
6Esta suposição e as que se seguem no texto são opostas à tradição britânica da filosofia
empirista (conforme praticada, por exemplo, por John Locke, George Berkeley e David
Hume). Esta tradição filosófica permeou os modos pelos quais representamos nossas mentes
para nós mesmos e certamente está subjacente à maior parte da psicologia americana. A fe-
nomenologia propõe um desafio direto a esta tradição e a estas suposições e apela, para con­
firmação, à experiência conforme experienciada e não à experiência conforme tradicional­
mente a explicamos a nós mesmos.
7Há uma forte tendenciosidade no pensamento ocidental no sentido de localizar tal variação
dentro de mim mesmo (a noção por exemplo, de que os humores são meramente o resultado
experimental de variações glandulares) e de supor que o mundo em sua presença objetiva é
constante. Nosso conceito do mundo refere-se ao mundo da experiência, e que, portanto, não
é nem objetivo nem subjetivo no sentido tradicional. Dizer que “a beleza está nos olhos do
espectador” viola a experiência conforme ela é experienciada. Minha experiência da beleza a
coloca não em meus olhos ou em minha mente, mas no mundo. De modo similar, dizer que
um dia cinzento e depressivo ocorre em virtude de uma mudança em mim mesmo também
viola os dados experienciais os quais ditam que num dia cinzento o mundo pareça desinteres­
sante, sem colorido e deprimente.
Esta tendenciosidade “ subjetivista” do pensamento ocidental é tão forte que realmente
pode ser difícil para nós retomar à experiência e apreciá-la conforme é. Mas o fato experien-
ciai consiste em que o mundo mude nos humores. Criar uma psicologia dos humores com base
neste fato experiencial certamente vai contra nossa maneira tradicional de pensar sobre a
mente e o corpo. Em lugar de eventos corporais causando eventos mentais (o formato comum)
diríamos fenomenologicamente que o corpo também expressa nossa mudança de mundo:
corpo e mente, devemos recordar, são abstrações a partir do dado original do ser-no-mundo.

CAPÍTULO 11
!Há uma complicação significativa no “estabelecimento de uma linguagem” sem “ violar os
dados da experiência vivida” . Quando já existe uma linguagem para os dados da experiência
vivida, o estabelecimento de uma nova linguagem necessariamente a violentará. Esta questão
é significativa para a linguagem de toda a ciência social; Martin Heidegger parece ter sido um
dos poucos eruditos, talvez ao lado de Ludwig Wittgenstein, que viu a linguagem natural
como fundamental do ponto de vista ontológico.
2Veja o Cap. 2, nota 1, para um esclarecimento adicional da relação entre a psicologia feno-
menológica e outras psicologias. Veja também o Apêndice deste livro.
3Três aspectos comuns imediatamente se destacam. Primeiramente, a ênfase skinneriana no
controle ambiental do comportamento, especialmente do ambiente contemporâneo (para dis­
tinguir Skinner do “ambientalismo” em geral, como aquele de John Watson), assim como o
ponto de partida fenomenológico no ser-no-mundo, colocam a pessoa diretamente na situa-
ção, não podendo ser ela realmente separada do seu cenário imediato, caso desejemos
compreendê-la. Em* segundo lugar, a tendência skinneriana para estudar um organismo de
cada vez, supondo que algo central para o fato dele ser como é feossa ser obtido, semelhante à
suposição fenomenológica de que o exame da própria experiência é importante, evita a teoria
excessivamente indutiva da verdade, que conduz tantos psicólogos a computar médias e visar
a resultados estatísticos. Em terceiro lugar, a suposição skinneriana de que o comportamento
132 NOTAS

é “emitido” em lugar de meramente provocado, assim como a ênfase da fenomenologia na


intencionalidade, atribui iniciativa e atividade ao organismo, em lugar de inércia e passivi­
dade.
Cada um destes três pontos também esclarece diferenças importantes quanto a linguagem e
estilo entre as duas psicologias, e a natureza histórica e teórica complexa destas próprias
questões solicita uma análise profunda que não pode ser fornecida aqui.
4Para uma descrição lúcida da personologia de Gordon Allport, Abraham Maslow e H. A.
Murray, veja S. R. Maddi e P. T. Costa (1972). Veja o Apêndice deste livro para um enfoque
um pouco diferente deste tópico.
5Carl Rogers (1973) sugeriu que mantenhamos aberta a possibilidade de outras “realidades”
além daquela ordinariamente considerada em nossa experiência moderna, bem programada,
consciente. Aponta para experiências paranormais extraordinárias, especialmente aquelas de
Carlos Castaneda (1971) como evidência de que não devemos ser tão rígidos quanto a nossas
preconcepções da realidade. Acho que este apelo, embora nobre, deve ser refinado e restabe­
lecido em dois sentidos. Em primeiro lugar, não acho que precisemos ir às experiências para­
normais como as de Castaneda a fim de descobrir mistérios que nos possam entusiasmar. Não
conheço qualquer psicologia até hoje que tenha dado ao fenômeno mais simples da percepção
humana uma explicação adequada. Independentemente do quão sofisticados nos tenhamos
tomado sobre a mecânica dos órgãos perceptivos e do cérebro, não abordamos o fato extraor­
dinário de que a percepção é experiência, em lugar de uma interação simplesmente mecânica
de coisas. Em segundo lugar, as “outras realidades” que presumivelmente são atingidas sob
circunstâncias especiais de ingestão de drogas e êxtase religioso não são realmente diferentes
da experiência diária, caso possamos, ao menos, prestar atenção à experiência conforme ex-
perienciada, em lugar de entendê-la sempre em termos de nosso padrão de referência racio-
nal-funcional, newtoniano. O mundo newtoniano não é, por certo, o mundo da experiência;
nunca o foi. Meramente nos convencemos de que a realidade é conforme nossos modelos
disseram que deveria ser, embora a experiência comum contradiga esta afirmação todos os
dias.
6Para uma visão dos profundos problemas morais com que a psicologia se defronta hoje, veja
Keen (1972).
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ÍNDICE ONOMÁSTICO
Abelson, R. P., 109 Foucault, M., 103
Allport, G. W., 38, 100, 114, 132 Framo, J. L., 129
Anaxagoras, 109 Frankel, S., 99
Anderson, M., 129 Freud, S., 46, 98, 101, 105, 113, 114, 121, 127, 129
Angel, E., 117, 123 From, F ., 115
Asch, S. E., 120
Gelb, A., 62
Bandura, A ., 122 Gendlin, E. T., 107
Barton, A ., 55-56 Gerwitsch, A., 118
Berkeley, G., 131 Giorgi, A., 109, 114, 117,
Berne, E., 112, 129 Goffman, E., 112, 128
Beshai, J. A ., 109, 110 Goldstein, K ., 62 ,
Binet, A ., 98 Goldstein, L. J., 120
Binswanger, L ., 54-55, 88-89, 112, 123, 128 Grings, W. W., 109
Boring, E. G., 108
Boss, M., 123 Haigh, G., 127
Boszormenyi-Nagy, I., 129 Harris, T. A., 129
Braginski, B. M-, 112 Hebb, D. O., 101
Braginski, D. D., 112 Heidbreder, E., 108,
Brentano, F., 108, 118 Heidegger, M., 68, 94, 103, 110, 111, 115, 122, 124,
Buber, M., 110, 127, 129 126
Bugental, J. F. T., 123 Heider, F ., 109
Burton, A ., 123 Henry, J., 49, 121
Buytendijk, F. J. J., 123 Hofstadter, R., 119
Homey, K., 122
Casteneda, C., 132 Howells, J. G., 129
Cloonan, T. F., 118 Hull, C., 99
Colaizzi, P. R., 39 Hume, D., 131
Coles, R., 46 Husserl, E., 84, 94, 103, 106, 110, 111, 116, 121
Combs, A. W., 99
Comelison, A ., 129
Costa, P. T., 132 James, M., 129
James, W., 97-98,. 106
Jones, E. E ., 109
Democritus, 109 Jongeward, D., 129
Deutsch, F., 121 Jourard, S., 100, 121

Eisenstein, V. W., 129 Kant, E., 110


Ellenberger, H. F., 117, 123 Kardiner, A., 121
Esterson, A., 46, 116, 129 Keen, E ., 104, 114, 116, 122, 127, 129, 132
Kelly, G., 52-54, 100, 105
Ferber, A., 129 Kockelmans, J. J., 117
Festinger, L., 109, 120 Koffka, K., 109,112
Fingarette, H., 127 Köhler, W., 109, 113, 115
Fischer, C. T., 57 Kuenzli, A. E., 113, 117
Fischer, W., 113, 117, 126 Kuhn, R., 123
Flavell, J., 107 Kuhn, T., 101
Fleck, S., 129 Kwant, R. C., 128

141
142 ÍNDICE ONOMÁSTICO
Laing, R. D., 123, 129 Rieff, P., 129
Lapointe, F. H ., 113 Ring, K., 112
Lauffer, M., 38 Rogers, C., 51-52, 100, 114, 121, 132
Levi, B., 107 Rosenthal, R., 120
Lewin, K., 99, 109, 123 Rotter, J. B., 109
Lidz, T., 129
Locke, J., 131
Lynd, H. M., 107 Sartre, J. P., 94, 110, 122, 126, 128
Lyons, J., 117, 119, 120, 122 Schächter, S., 118, 120
Scheler, M., 110
Schütz, A., 113, 128
MacLeod, R., 99 Skinner, B. F., 93, 100, 103, 109
Maddi, S. R., 132 Snygg, D., 99
Malinowski, B., 121 Socrates, 121
Maslow, A., 100, 114, 132 Spiegelberg, H ., 111, 117
May, R., 100, 114, 117, 123 Stevick, E. L., 38, 118, 126
Mead, M., 121 Strasser, S., 109
Mendelsohn, M., 129 Straus, E., 112, 117
Medeau-Ponty, M., 94, 107, 109, 110, 112, 116, 121, Sullivan, H. S., 105
125 Szasz, T. S., 114, 119
Mill, J. S.,
Moustakas, C., 100
Titchener, E. B., 97, 101, 108, 120, 121
Murphy, W., 121 Tolman, E., 99, 123
Murray, H ., 132

Van den Berg, J. H. 123


Napier, A., 129 Van der Post, L., 119
Natanson, M., 117, 128 Vemon, P. E., 38
Niell, A. S., 119 Von Eckartsberg, E., 117, 128
Von Gebsattei, V. E., 122
Von Uexküll, J., 123
Ome, M., 120

Wann, T. W., 130


Pavenstedt, E., 43-47, 119 Watson, J„ 98, 101, 109, 120, 131
Pavlov, I., 97, 113 Whorf, B. L., 130
Piaget, J., 38, 46, 101, 105, 107, 130 Whyte, W. F., 120
Preble, E., 121 Wittgenstein, C., 131
Wundt, W., 97, 118, 121
Radnitzsky, G., 116
Ricoeur, P., 110, 127 Zaner, R. M., 116, 121
Riecken, H. W., 120 Zuk, G. H ., 129
ÍNDICE REMISSIVO
ABSTRAÇÃO, corpo e mente, 126 na(o), espaço, 62-66, 125
espaço e tempo, 65, 126-127 raiva, 39, 118
Abstrato, espaço, 62-64, 126-127 Criatividade, 17-18, 9J
Antecipação, como apropriação do futuro, 67 Crise, fenomenologia como resposta, 103-104
de recordações, 12 Culpa, 68-69, 127-128
e, culpa (temor), 68-69 Cultural, imperialismo, 44, 119
liberdade (esperança), 72
e self, 67-74 DECISÃO, tomada, 118
sentimentalismo (desejo), 69-70 Descrição, 16, 109; ver também Explicação, Inter­
no exemplo de uma criança de cinco anos, 5-9 pretação, Compreensão
Atenção (ou escuta), 39-40 Desejo, 70
Atribuição, teoria, 109 Díades, 76-78
Auto-aceitação, 51

BEHAVIORISMO, 109-110, 120; ver também Con­ EMOÇÃO, 126


dicionada, resposta Empatia, 39-40
Espaço, abstrato e concreto, 62-65, 126
CAMPO, 123 no exemplo de uma criança de cinco anos, 8-11
fisionômico, 61-66 social, 78-80
social, 9-10, 12-14, 17 Esperança, 72-74
Causalidade, e, explicação, 88-89, 109 Estrutura da(e)(o), experiência, 16, 107
o futuro, 67 mudança de experiência, 11
passado, 67 tempo, 6-8
percebida, 109; ver também Liberdade e determi­ Expectância, teoria, 109
nismo Experiência, atitude quanto à, em psicologia, 109
Centrada no cliente, terapia, 51-53 como, critério de conhecimento, 38, 64-65, 92-93,
Clínica, psicologia, fenomenológica, 57-58 131
métodos, 50-57 fundamento de significação, 124-125
objetivos, 50, 57, 100, 122-123 síntese, 17, 36-37, 111
Comportamento, como, comprometimento irrevo­ universais, 34-35
gável, 65 Explicação, 109; ver também Descrição, Interpre­
expressão do ser-no-mundo, 20-21, 91-92 tação, Compreensão
enquanto caracterizado pela objetividade, 65 Explicitação, 117
criativo, 91-92 Extravagância, 128
inconsciente, 21-22, 113-114
Compreensão, 19, 27, 28, 29, 35, 93-94, 108-109; ver FAMÍLIAS, 78-79
também Descrição, Explicação, Fenômeno, 116
Interpretação Fenomenológica, psicologia, abordagem global, 22,
Comunicação, 27-33 24, 27-28, 32, 93, 117-118
Condicionada, resposta, 113; ver também Behavio- como, fonte de hipóteses científicas, 98-100
rismo paradigma, 101-103
Confiança, 47-48, 51, 78 resposta à crise, 103-104
Confirmação, 76 veículo para o humanismo, 100-101
Conhecimento, 27-28, 34-35, 108, 118 e, ciência natural, 32, 114-115
e aparência, 63-64 introspecção, 121
Conivência, 77 jornalismo, 122
Consciência em psicologia, 108-109 terapia centrada no cliente, 50-51
Consistência, teoria, 109 redução, 30-31, 35, 54, 56, 116-117, 121
Corpo, e mente, 118, 125-126, 131 Física, ciência, 32; ver também Natural, ciência
143
144 ÍNDICE REMIssIVO

Fisionomia do, campo, 61-66 sentimentos acerca, 69-74


mundo, 87-89 Perspectiva, 28-30, 32-33, 112, 116
Futuro, como antecipação, 67 Pesar (ou lamentação), 69
efeito de causa, 67 Pessoais, constructos, 52-54
e self, 67-74 Possibilidade, 54-55
sentimentos acerca, 69-74 condições, 89-90
e espaço abstrato, 63
GERAL, e particular, 34-35 Pretensões, 77
processo psicológico, 38-39 Privacidade, como base para ontologia, 124
Gestalt, psicologia, 98, 99, 101, 109-110, 115 e significações compartilhadas, 124
Greifen e Zeigen, 63 invasão, 57
Psicológica, testagem, 57
HORIZONTE, 16-18, 54-55, 89, 110-111 Psicopatologia, 73
Humanística, 93, 100, 114 Psicoterapia, 51-56, 57-58, 128
Humores, 88, 131
RAIVA, 38-39
IMAGINÁRIA, variação, 30, 31, 54 Reapropriação, 71-74
Inconsciente, comportamento, 21-22, 89, 113-114 Recordações, de antecipações, 12
Interpessoais, aconios, 75-80 no exemplo de uma criança de cinco anos, 5-9,
Interpretação, 30, 31, 110; ver também Descrição, ver também Memória
Explicação, Compreensão Reminiscência, 70
Introspecção, 121
SCHNEIDER, 62-63
LIBERDADE, 70-74 Self, 13-15, 18
e determinismo, 128 e passado e fiituro, 67-74
Linguagem da fenomenologia, 16, 126-127 Sentimentalismo, 69-70
Livre, associação, 121 Ser, culpado, 68-69, 127-128
sentimental, 69-70
MEMÓRIA, como apropriação do passado, 67 Ser-no-mundo, 16-23, 110
de antecipações, 12 e comportamento, 16-24
e, culpa (pesar), 68 o mundo, 19-20, 111
liberdade (presentificação), 73-74 ser-em, 126
self, 67-74 Significação, 5
sentimentalismo (reminiscência), 69-70 camadas, 31
no exemplo de uma criança de cinco anos, 5-9 e estrutura, 16
Metafísica, 130 mudança, 11
Método, clínico, 50-58 na redução fenomenológica, 35
desenvolvimento do futuro, 42-49 Social, campo, 9, 12-14, 75-80, 107
instrumentos fenomenológicos clássicos, 30-31 dor, 78
técnicas de pesquisa, 34-37 psicologia, abordagem fenomenológica, 75-80,
Motivos, 111-112 128-129
Müller-Lyer, ilusão, 63-64 de experimentos, 119
Mundo, 19, 83-90, 111-112 experimentos, 120-121
como, experiência, 83-84 Sujeito como co-pesquisador, 47-49, 121
horizonte fundamental, 110
problema odontológico, 85-86 TEMOR, 69
comunalidade, 86-87 Tempo, abstrato e concreto, 64
enquanto social, 116-117 adulto e infantil, 12-13
objetivo e subjetivo, 84, 111, 130 e, causalidade, 67-68
variações, 87-90 self, 67-74
no exemplo de uma criança de cinco anos, 5-9
NATURAL, atitude, 31, 56, 121 visão de Heidegger, 126-127
ciência, atitude quanto à consciência, 109 Transcultural, estudo, 42-49
e fenomenologia, 97-98, 114-115, 116
objetivos, 100; ver também Física, ciência ÚNICOS, eventos, 34-37
indivíduos, 37-39
OBJETO, constância, 64 Universais, 35, 107
Ontologia, 85 86, 110, 128
VERBAIS, relatos, 46, 120
PAPÉIS, 79, 112, 128 Vergonha, 12, 78, 107
Paradigma, fenomenologia, 101-103 Verificação, 118-119
Participante, observação, 120 da adequação da interpretação, 31
Passado, como causa e como recordação>, 67 na testagem psicológica,. 123
e self, 67-74 pela experiência vivida, 38, 65, 92-93, 131

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