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O VOO DA
GATOS BAY

Autor
CLARK DARLTON

Tradução
AYRES CARLOS DE SOUZA

Revisão
ARLINDO_SAN
(De acordo, dentro do possível, com o Acordo Ortográfico válido desde 01/01/2009)
Na Terra, os calendários registram o início de outubro do
ano 3.441. Com isso passaram-se exatamente dez meses, desde o
dia 29 de novembro de 3.440, o dia em que a catástrofe atingiu
todos os seres inteligentes da galáxia.
E continuam reinando miséria e caos na maioria dos planetas
e das bases de apoio planetárias, e continuam chegando pedidos
de socorro do cosmo.
E os poucos homens do Império Solar e de outros povos
estelares que não foram atingidos pela onda de imbecilização,
prestam serviços sobre-humanos, para dominar o caos e para
prover as massas de seus concidadãos imbecilizados com o
necessário para viver.
Porém, Perry Rhodan e 60 companheiros, entre eles Atlan,
Gucky e muitos outros velhos conhecidos, propuseram a si mesmos
uma tarefa ainda mais difícil. Apoiado pela Intersolar, a nave-
capitânia de Reginald Bell, o Administrador-Geral procura
investigar o misterioso “Enxame”, que inexoravelmente penetra
cada vez mais na galáxia, e cujos dirigentes, também misteriosos,
são responsáveis pela modificação da constante gravitacional, e
consequentemente pelo retardamento da inteligência, de âmbito
galáctico.
E enquanto Perry Rhodan, com a Good Hope II, um pequeno
cruzador espacial especialmente equipado, mais uma vez se
encontra nas proximidades do Enxame, continuando a sua caça
por novos conhecimentos e informações (no que ele topa com “o
povo dos escravos”, tomando a bordo de sua nave um bárbaro
imune da Exota Alfa), consumam-se no cosmo e em distantes
planetas muitos destinos trágicos.
Um exemplo disso é O Voo da Gatos Bay...

======= Personagens Principais: = = = = = = =


Tschak-Hoa e Serdag — Comandante e navegador do
cargueiro espacial Gatos Bay.
Cheborparczete Faynybret — Chefe de uma central estelar da
USO.
Hotchka Omolore, Gaddard Pen-Tuku, Morton Kalcora e
Aidala Montehue — Amigos e colaboradores de
Faynybret.
Haigra Whuy — Um agente da USO pede reforma.
Renda Dork — Proprietário de um barco em condições de
navegar no mar.
1
No final do ano 3.440, contagem de tempo terrana, o cargueiro mercante Gatos Bay
encontrava-se em voo de Olimpo para o Setor Azul dos aconenses. O comandante desse
cargueiro era Tschak-Hoa. A bordo da nave, além dele, ainda se encontravam vinte
homens da tripulação, em sua maioria descendente de terranos, que haviam colonizado
grande parte dos planetas habitáveis da Via-Láctea.
Tschak-Hoa estava nesse negócio há tanto tempo que mal se lembrava quando
começara. A nave, ele herdara de seu pai, trabalhava em íntima ligação com os
saltadores. Os parentes, muitas vezes, tinham fofocado que o pai nunca levara as coisas
muito corretamente, tendo frequentemente contrabandeado mercadorias “quentes”.
Quando Tschak-Hoa, ao assumir a Gatos Bay, lhe fizera uma pergunta a respeito o pai
simplesmente sorrira, condescendentemente.
— Essa gente fala demais, meu filho — ele respondera. — Não se importe com
isso. Quando você estiver rico, eles não farão mais perguntas, pois para eles será
indiferente porque você está rico. Eu gostaria, entretanto, de lhe dar um único conselho:
nunca se deixe apanhar, se cometer alguma ação não permitida.
Depois ele se aposentara.
Tschak-Hoa tinha dispensado uma parte da tripulação, o restante ficou com ele.
Alistou gente nova, que conhecia dos tempos de sua juventude no planeta pátrio, depois
voou para Olimpo, o planeta mercantil do Império Solar, para receber sua primeira carga.
Isso já fazia algumas décadas, e sempre ele se lembrara do conselho recebido do
pai. Neste ponto, entretanto, deve ser mencionado que Tschak só muito raramente andava
por vias tortas. Ele preferia assumir cargas perigosas, porém absolutamente legais, como
por exemplo este voo para a região dos aconenses.
Entre aconenses e terranos havia paz. Porém era uma paz incerta e altamente
questionável, pois os descendentes dos aconenses continuavam petulantes e arrogantes
como antes. Eles ainda se sentiam como os troncos de todas as raças humanóides do
Universo, e faziam com que estes o sentissem. Mas, como foi dito — reinava a paz entre
o Império Azul e o Império Solar. E havia comércio.
Cargas, que eram destinadas para Ácon, não eram exatamente as preferidas dos
mercadores, mas eram muito bem pagas. E deste modo não podia deixar de acontecer que
Tschak se especializasse nas mesmas. Ele não temia o perigo mas, de qualquer modo, a
Gatos Bay possuía um possante canhão de proa, e um escudo protetor energético
altamente resistente. A isso juntava-se a propulsão linear, que permitia que a nave
pudesse fugir para o semi-espaço protetor a qualquer tempo, além de proporcionar-lhe
um raio de ação gigantesco.
Tschak ainda podia lembrar-se exatamente do dia em que “aquilo” aconteceu.
Aquilo — o incompreensível, o sinistro, o terrível. E naquela ocasião, ele tivera que
achar que somente ele e sua nave haviam sido surpreendidos, até que, no decorrer de
meses, ele verificara que toda a Via-Láctea tinha sido alcançada pela onda de
imbecilização.
Naquela ocasião ele ainda não sabia nada do Enxame, que vindo do desconhecido
penetrava na galáxia, espalhando uma onda de infantilização.
Ele também nada sabia do caos, que se espalhava por todos os mundos habitados,
fazendo as civilizações ruírem. Ele apenas notou que praticamente todas as ligações de
rádio haviam sido cortadas, e que nenhum dos seus pedidos de socorro havia sido
respondido. No receptor ouviam-se apenas símbolos confusos e frases balbuciadas, sem
sentido, e de vez em quando um sinal claro de pedido de socorro, exatamente como o
dele. Mas nenhuma resposta.
Tudo isso aconteceu há dez meses atrás. Primeiramente aquilo tivera um efeito
relativamente inofensivo...
***
Serdag, o navegador e mais velho amigo de Tschak, entrou na central de comando
da Gatos Bay e sentou-se na poltrona anatômica, diante dos controles. Tschak não lhe
deu atenção, pois acontecia frequentemente que Serdag entrava na central, para
convencer-se do bom funcionamento das instalações.
A nave estava justamente deixando para trás um curto “trecho de recuperação” no
espaço normal. A região dos aconenses ainda ficava a milhares de anos-luz de distância.
Na galeria panorâmica de vídeo podiam reconhecer-se inúmeras estrelas e constelações
estranhas. Bem próximo, ficava um gigantesco sol azul.
Tschak-Hoa disse, depois de algum tempo:
— Vamos ficar três horas no espaço normal. Aliás, você já poderia programar a
próxima etapa linear, pois assim temos mais calma, mais tarde. O que é que você acha?
— Programar...? — perguntou Serdag, como se jamais tivesse ouvido essa palavra
em sua vida. — O que é que você quer dizer com isso?
Tschak sorriu, divertido. A programação de etapas lineares era uma das
especialidades de Serdag. Ele o faria dormindo, se fosse preciso.
— Piada boba — disse Tschak finalmente, quando não houve qualquer reação. —
Você não se lembra de nenhuma melhor?
O navegador sacudiu a cabeça.
— Eu preferiria desenhar.
Por um momento Tschak ficou sem fala. Ele olhou para o seu amigo, que olhava as
telas de vídeo da galeria panorâmica, com uma expressão quase sonhadora no rosto,
olhando o sol-gigante azul que se encontrava bem perto e irradiava um brilho imenso.
— Desenhar?
— Ali — o sol azul — seria um motivo fantástico. O que é que você tem contra o
desenho?
— E o que é que você tem contra a programação da rota?
Tschak respirou fundo.
— O que eu tenho contra! Ora bolas, eu não sei desenhar, é isso que tenho contra!
Tschak olhou-o, espantado. Ele já não sorria mais, pois sentia que Serdag estava
falando sério, por mais impossível que isso fosse. Serdag era um dos melhores
navegadores que ele conhecia.
— Parece que, de repente, você perdeu o juízo, não?
— Não tenho a menor ideia, mas parece que eu jamais em minha vida calculei e
programei uma rota, apesar de saber exatamente que já fiz isso. O que é que isso pode
ser?
Tschak olhou-o, de modo penetrante.
— Nós temos álcool ou narcóticos a bordo?
— Não que eu saiba — mas seria bom. Eu agora bem que gostaria de tomar um
gole.
Tschak olhou-o interrogativamente.
— Por favor, me descreva exatamente como você se sente. Você diz que parece que
nunca calculou uma rota, mas você sabe que já o fez — correto?
Serdag anuiu, solícito.
— Sim, é isso exatamente. Eu simplesmente esqueci tudo.
— E você também sabe que o esqueceu, mas alguma vez sabia?
— Sim.
— Portanto não é uma amnésia, mas uma nítida imbecilização.
— Que diferença existe nisso?
Tschak lembrou um docente, ao retrucar:
— A própria pergunta já prova que tenho razão. Você conhece ambas as noções,
mas não sabe diferenciá-las. imbecilização! — Tschak apontou para os aparelhos de
rádio. — Estranho! Eu tenho a sensação de que você não é o único que repentinamente
perdeu uma parte do seu juízo. O que entra de mensagens radiofônicas malucas é
indescritível!
— Ainda há pouco eu me encontrei com Dusteron, ao vir para cá. Ele me perguntou
se eu já tinha terminado meus deveres de casa, para a escola. Eu pensei que ele estava
fazendo uma piada, e continuei o caminho. Agora eu acredito que...
Tschak ficou sentado muito quieto.
— Você quer dizer que os outros também podem ter sido afetados? — Ele olhou
para as telas de vídeo. — O sol azul...? A gente já ouviu falar de coisas assim. Radiações,
oscilações, ondas...
Serdag olhou-o, sem saber o que dizer.

— A mim você não precisa perguntar — não sei de nada. Você se importaria se eu
fosse dormir?
— Pode ir. Eu preciso refletir. Mande-me Dusteron, se você o encontrar em sua
cabine.
— Faço isso.
Serdag abandonou a central de controles.
Tschak ficou para trás, pensativo. Ele procurava por uma explicação porque, não
apenas o Universo, mas também o seu mais habilidoso navegador, aparentemente tinham
ficado malucos. Na realidade não estavam malucos, mas bem simplesmente
imbecilizados — e nisso havia uma diferença.
Então, Dusteron também!
E o que acontecera com os outros?
No corredor ouviram-se passos. Se fosse Dusteron, pelo menos ele ainda não
esquecera onde ficava a central de comando.
Logo depois das primeiras frases, Tschak teve que verificar que seus piores temores
se haviam confirmado — também Dusteron tinha sido imbecilizado — totalmente
imbecilizado. Parecia até que ele perdera a maior parte de suas recordações.
Tschak mandou-o embora e trancou a central de comando, para refletir mais uma
vez sobre o assunto. Através do intercomunicador, que o ligava com todos os
departamentos e cabines a bordo da Gatos Bay, ele convenceu-se de que era a única
exceção. Todos, exceto ele, estavam imbecilizados.
Ele olhou novamente para as telas de vídeo.
O sol azul? Contra isto falava o fato de que ele captava mensagens de rádio, sem
sentido, de todas as partes da Via-Láctea.
A consequência dessa observação Tschak não tirou, porque simplesmente não
ousava fazê-lo. A conclusão, aliás, era fantástica demais, para ser levada seriamente em
consideração. Não, devia ser alguma coisa com o sol azul gigante, e quanto antes eles se
afastassem dele, melhor seria. Talvez o efeito pudesse retroagir.
Antes que se pusesse a programar, ele mesmo, a próxima etapa linear — uma coisa
que levava pelo menos quinze minutos — ele colocou o intercomunicador em recepção.
Deste modo lhe era possível observar tudo que acontecia dentro da nave. Ele não
dependia da colaboração imediata de sua tripulação, pois a Gatos Bay tinha sido
totalmente automatizada, sob qualquer aspecto. Somente desse modo era possível voar
com uma nave de 120 metros de diâmetro com apenas vinte homens.
A maioria dos seus homens estavam deitados em suas camas e dormiam. Alguns
passeavam pelos corredores, olhavam, perdidos nos seus pensamentos, para cima e
estavam sorridentes consigo mesmos. Com a inteligência, portanto, também tinham
sumido os problemas, com os quais normalmente eles tinham que se ocupar.
— Com estes eu não posso contar mais para nada — declarou Tschak. — Eu acho
que vou voltar, se isso não acabar. Talvez realmente seja apenas o sol azul...
Meia hora mais tarde ele ligou o propulsor linear.
O sol azul desapareceu e com ele ficaram também as muitas estrelas, para trás, no
espaço normal, que a Gatos Bay então deixava. A nave mergulhou numa outra dimensão,
que nada tinha que ver com o continuum normal de espaço-tempo. Aqui reinavam outras
leis, e um espaço não tinha mais nada a ver com o outro.
Tschak esperou até que os instrumentos confirmassem a passagem sem problemas,
depois olhou novamente para as telas do intercomunicador. Com os homens nas cabines e
nos corredores aconteceu uma modificação, de golpe, que confirmou as suspeitas de
Tschak. Apenas a expressão no rosto de Serdag, que estava sentado a uma mesa, já
revelava isso nitidamente. O navegador ergueu-se de um salto, repentinamente, e ficou
parado por um instante — depois sentou-se novamente. Ele sacudiu a cabeça, olhou na
direção da câmera do intercomunicador e deu a entender, por um piscar de olhos, que ele
sabia exatamente o que estava acontecendo agora. Somente um homem medianamente
inteligente podia estabelecer, da extremidade da câmera, se o intercomunicador estava
ligado ou não. Tschak ligou o aparelho de sonorização.
— Então, Serdag, o que há? Você está sentindo alguma diferença?
— É claro que sinto! Eu já estou indo para aí.
— No caminho para cá, dê uma olhada para ver o que está acontecendo com os
outros.
— Vou fazer isso. Até já.
O relatório de Serdag seria supérfluo. Pelo intercomunicador Tschak convenceu-se
de que toda a tripulação voltara aos seus postos, com exceção daqueles homens que não
estavam de serviço. Cada um deles dava a impressão da mais perfeita normalidade.
— Quer dizer que foi realmente o sol azul! — verificou Serdag. — Eu vou anotar,
nos mapas, um aviso correspondente.
— É uma boa ideia. Logo que voltarmos ao espaço normal, vamos tentar conseguir
uma ligação com uma estação da USO. Então estaremos a uma distância de três mil anos-
luz do sol azul.
Serdag pôs-se novamente ao seu trabalho e começou com os preparativos para a
próxima etapa, que entretanto somente poderia ter início depois de uma pausa de
descanso no espaço normal.
O tempo passou, e então um sinal anunciou o término da etapa linear.
Dentro de cinco minutos a Gatos Bay estaria novamente singrando, com velocidade
abaixo da da luz, entre as estrelas novamente visíveis.
— Eu perguntei a Dusteron o que ele pensava, quando falou comigo daquela
maneira tola. Imagine você que o rapaz garante que jamais se encontrou comigo. De
outro modo, entretanto, ele parece estar novamente perfeitamente normal. Foi o sol!
— O que mais poderia ter sido?
Mais três minutos, e então chegara o momento.
Então eles se encontrariam em zona de voo direto para o sistema dos aconenses. O
primeiro contato de rádio com eles então poderia ser feito. A carga da Gatos Bay tinha
sido encomendada, portanto também não haveria perguntas desnecessárias, nem outras
dificuldades.
Mais um minuto.
De repente as estrelas apareceram novamente. Serdag pegou os mapas na mão, para
confirmar a posição pela colocação das constelações. Um pouco sem saber o que fazer,
ele virou os mapas na mão, de um lado para o outro, depois olhou para Tschak.
— Ei, isso não pode ser verdade!
Tschak estava ocupado com os controles da propulsão. Ele desligou os kalups. A
velocidade estava certa, ela ficava um pouco abaixo da da luz.
— O que é que você acha? — Ele ergueu os olhos e encontrou o olhar confuso do
seu amigo. Ele assustou-se. — Você está sentindo aquilo novamente?
Serdag anuiu.
— Nenhuma diferença, maldição! Mas eu sei de tudo! Você compreende isso?
— Esqueceu-se de tudo que sabia?
— Sim, mas eu sei que eu sabia de tudo.
Tschak desistiu de ligar o intercomunicador.
— Com os outros deve ter acontecido a mesma coisa. Eles ficaram imbecilizados
logo que voltamos ao espaço normal. O sol azul não tinha nada que ver com isso. — Ele
refletiu um instante, depois prosseguiu. — Preste bem atenção, Serdag. Ao que parece eu
sou imune e você, em parte pelo menos, também. Não podemos contar com os outros. Eu
posso voar a nave sozinho, se nada acontecer. Você pode me ajudar, se seguir minhas
instruções. Procure conseguir contato de rádio com os aconenses, eu vou me ocupar com
a próxima etapa linear. Depois mandamos uma mensagem informativa para a USO.
Entendeu tudo?
— Espero que sim — disse Serdag apenas.
Tschak observou-o enquanto mais uma vez examinava os mapas. Serdag
comportava-se de modo bastante ajuizado, ainda que um tanto desajeitado e inseguro.
Antes de cada manipulação ele precisava refletir como se fizesse aquilo pela primeira vez
em sua vida. Entretanto conseguiu ligar corretamente o receptor de hiper-rádio. Mas
então, infelizmente, não conseguiu lembrar-se das frequências.
— Passe primeiramente a transmissão — aconselhou Tschak, que queria livrar-se
de sua mensagem para os aconenses. — Eu espero que, pelo menos com eles, tudo ainda
esteja em ordem.
Depois que Tschak programara a rota na direção de Ácon, ele se ocupou da
aparelhagem de rádio. Serdag ficou visivelmente aliviado por ser rendido. Ele sentou-se
na poltrona mais próxima, e ficou observando o seu comandante no trabalho.
Tschak ligou a frequência habitual entre aconenses e terranos e enviou a sua
mensagem. O destino naturalmente ainda ficava a uma distância de alguns milhares de
anos-luz, mas ele sabia que os aconenses possuíam estações de retransmissão bastante
adiantadas, que imediatamente passavam a eles todas as mensagens captadas.
Depois colocou o rádio em recepção.
Uma confirmação correta de sua mensagem ele não recebeu, mas, em contrapartida,
recebeu uma salada radiofônica como antes já recebera do setor terrano da Via-Láctea.
Seis ou oito transmissores estavam na mesma frequência, de modo que Tschak não
conseguia entender nada. Cada uma delas procurava sobrepor-se à outra, em vez de
passar, sensatamente, alguns milímetros para a esquerda ou para a direita.
Finalmente Tschak conseguiu contato com uma nave, que de acordo com os dados
exatos fornecidos, devia estar cerca de duzentos anos-luz distante, e que procurava, com
os propulsores danificados, atingir o planeta mais próximo. Tudo isso Tschak achou
poder decifrar por entre aqueles símbolos confusos. O tradutor vertia tudo que recebia
absolutamente certo. Era totalmente impossível que o erro estivesse do seu lado.
A modificação mental também tinha atingido os aconenses.
Ainda era cedo demais, para formar uma conclusão de validade geral, porém
somente as suspeitas de Tschak já eram suficientes para dar-lhe um calafrio nas costas. E
não havia nenhuma explicação para o fenômeno.
Serdag ergueu-se.
— Eu vou me ocupar com os homens, Tschak. É possível que alguns deles possam
ter alguma ideia maluca.
Tschak sacudiu, resignadamente, a cabeça.
— Se vejo as coisas corretamente, eles não terão ideia alguma, nem mesmo ideias
malucas.
Ele ainda não podia imaginar o quanto estava errado. Entretanto Serdag abandonou
a central de comando, que o comandante trancou por dentro. Ele queria ficar sozinho para
tentar, mais uma vez, concentradamente, um contato com os aconenses. Se não
conseguisse isso, ele pretendia dar meia-volta. Não fazia muito sentido pretender
comerciar com aconenses que tivessem ficado malucos.
Uma hora mais tarde, uma explosão ocorreu na nave.
***
Dusteron chefiava a tropa de homens imbecilizados.
Não era uma intenção malévola, que movimentava a sua ação insensata, era
simplesmente o medo instintivo de não-mais-saber. O próprio Dusteron apenas
imaginava que eles estavam em perigo, e que somente o solo firme de um planeta lhes
poderia dar segurança. E para que eles pousassem num planeta, a propulsão teria que
acabar. Este era o pensamento básico, que não continha quaisquer outras intenções.
Portanto, o propulsor...
Alguns dos homens que ele estimulava para a ação estavam preguiçosos demais,
para se levantarem de suas camas. Eles estavam deitados ali, numa soneca. Um deles
realmente atacou Dusteron, quando este sacudiu-o para acordá-lo. Finalmente, entretanto,
ele conseguiu entusiasmar quatro homens para o seu plano maluco. Eles o seguiram para
os depósitos, se apoderaram de ferramentas e materiais de explosão, e depois se dirigiram
para a casa de máquinas. Era um milagre que Dusteron, no seu estado, ainda conhecia o
caminho.
Ninguém se colocou no caminho deles.
Um dos homens quase pusera fogo no rolo com explosivos, enquanto eles ainda
discutiam onde o mesmo devia ser colocado. A discussão era totalmente sem sentido,
pois nenhum deles sabia mais quais dos geradores ou reatores era importante. Finalmente
entraram em acordo, sobre um possante bloco de metal, em cujo interior ouviam zunidos.
Dusteron tirara os explosivos do outro homem. Dos cinco homens, ele ainda parecia ser o
mais inteligente.
Eles colocaram o rolo com a ignição por tempo embaixo do bloco, de modo que o
efeito principal da força explosiva teria que jogar a massa metálica para cima. Depois
Dusteron apertou o botão de ignição automática por tempo. Ele não tinha a menor ideia
de quanto tempo se passaria antes do material explosivo detonar.
Com toda pressa eles abandonaram a casa de geradores e correram de volta para
suas cabines. No caminho encontraram Serdag.
O navegador imaginou que alguma coisa errada acontecera, quando viu os homens
muito agitados. De pernas muito abertas, ele ficou parado no meio do corredor não muito
largo, procurando detê-los. Alguém atirou uma chave de fendas, e somente a muito custo
Serdag pôde evitar de ser atingido. Antes de estar novamente de pé, os homens
desapareceram na próxima curva do corredor.
Por um momento ele refletiu se devia ir adiante, para verificar se eles tinham feito
alguma bobagem nas casas de máquinas, mas
depois se disse que talvez teria que procurar por
muito tempo, até encontrar alguma coisa. Neste
caso, era melhor tentar arrancar alguma coisa dos
homens. Mesmo se eles ameaçassem com violência.
Portanto seguiu-os com o necessário cuidado.
De longe ainda, ele escutou-os falar. Eles
deviam ter se reunido numa das grandes cabines
coletivas, deixando a porta aberta. Dusteron é que
tinha a palavra. Serdag não prestou atenção no que
ele dizia, apenas estava surpreso de que eles
falavam entre si.
Quando ele entrou no recinto Dusteron
emudeceu e fixou o navegador. Os outros quatro
homens sorriam, encabulados.
— E então? — perguntou Serdag. — O que
foi que vocês fizeram nas casas de máquinas?
Dusteron agora sorriu, não encabuladamente, mas cheio de satisfação.
— O que foi que nós fizemos? Nós tomamos providências para aterrissar. Nós não
temos vontade nenhuma de nos encontrar com os aconenses.
Serdag ficou furioso.
— Vocês ficaram malucos? Nós comerciamos com os aconenses e vivemos disso.
Por que, de repente, vocês não querem mais que voemos até o mundo deles?
— Por isso!
— Bela explicação! — Serdag de repente deu-se conta do que Dusteron dissera. —
O que foi que vocês fizeram? Vocês tomaram providências...
— Sim, tomamos. E logo um bloco de máquinas vai voar pelos ares.
— Uma carga explosiva? — Serdag amaldiçoou o fato de não ter pensado, ainda em
tempo, de trancar as portas dos depósitos. Somente ele e o comandante possuíam as
necessárias chaves positrônicas para isso. — Onde?
— Você bem que gostaria de saber disso, não é?
Serdag ficou furioso com tanta falta de juízo, mas ele também já não estava em
situação de tomar decisões rápidas e lógicas. Caso contrário provavelmente teria sido a
ideia de avisar imediatamente o comandante, que ainda pensava claramente. Entretanto,
ele deu um passo à frente e agarrou Dusteron pela lapela do casaco.
— Abra essa boca, caso contrário você vai ver o que é bom! Onde foi que vocês
colocaram a carga explosiva?
— Deixe-me em paz, seu boca grande! — Dusteron procurou, inutilmente, libertar-
se. Ninguém o ajudou. Seus amigos apenas ficaram olhando e rindo, divertidos. —
Procure você mesmo essa coisa. Mas eu não sei quando a carga vai pelos ares. Quando
isso acontecer nós vamos ter que pousar.
— Sim, bem no meio do cosmo! — Serdag soltou Dusteron.
— Vocês ficaram mesmo totalmente malucos! O mais próximo sistema solar fica a
uma distância de oito meses-luz. Se os propulsores deixarem de trabalhar, nós estaremos
dez meses a caminho, antes de podermos pensar numa aterrissagem.
— É melhor esperar dez meses, que nunca mais poder aterrissar!
Serdag desistiu. Ele saiu para o corredor, depois virou-se rapidamente e bateu a
porta, que trancou-se automaticamente. Com ajuda de sua chave positrônica universal, ele
garantiu-a ainda mais. Do lado de dentro não era mais possível abrir a cabine coletiva.
Rapidamente correu de volta o trecho pelo qual viera. Quando alcançou o lugar
onde encontrara os cinco homens, parou sem saber o que fazer. Ele sabia de que direção
eles tinham vindo, mas também sabia que o corredor se bifurcava diversas vezes. E na
Gatos Bay havia, pelo menos, dez recintos com instalações de máquinas.
Em qual eles tinham estado?
E se ele o encontrasse realmente, ainda restava a pergunta — onde se encontrava a
carga explosiva?
Finalmente ainda havia uma terceira pergunta, ainda mais importante — Quando
ela explodiria?
Ele lembrava-se que as ignições automáticas de tempo tinham sido ajustadas todas
para o mesmo tempo, por assim dizer uma regulagem de segurança. Deviam ser trinta
minutos. Uma meia hora, da qual já se passara, entrementes, uma metade, inutilmente.
Ele ainda tinha dez minutos para encontrar a carga e para desativá-la.
Ele continuou correndo.
O primeiro recinto com geradores e elementos de comutação ele ainda rebuscou
cuidadosamente e com perda de tempo, mas quando ainda lhe restavam só cinco minutos,
desistiu e correu adiante. Os sabotadores estavam imbecilizados. Eles não podiam ter sido
tão espertos para esconder uma carga explosiva tão cuidadosamente que ninguém
conseguisse encontrá-la. Uma verificação superficial certamente seria suficiente.
No segundo recinto também não havia nada, e justamente quando ele pôs os pés na
terceira casa de máquinas, a pressão do ar da explosão jogou-o para trás muitos metros,
atirando-o contra a parede do corredor. Ele não perdeu a consciência, mas ficou chocado,
e caiu ao chão com diversas contusões leves.
Foi apenas uma única explosão. Quando as nuvens de fumaça tinham se desfeito,
Serdag já se recuperara novamente. Ele ainda sentia as dores das contusões, mas
conseguiu pôr-se de pé com muito esforço, segurando-se na parede. Ele procurou
caminhar, e verificou que não quebrara nada. Avisar o comandante agora, ele achou não
fazer sentido. Antes de mais nada ele queria verificar o que ficara danificado.
Por sorte os sujeitos tinham pegado apenas uma carga fraca. Se Dusteron tivesse
sido suficientemente inteligente para pegar um dos explosivos atômicos, as coisas dentro
da Gatos Bay agora estariam bem diferentes — mas era isso mesmo! Se Dusteron tivesse
permanecido inteligente, ele jamais teria tido a ideia de mandar o gerador pelos ares.
Uma situação maluca.
O gerador pertencia aos que alimentavam a propulsão linear com energia. Ainda
havia outros geradores, cuja energia eventualmente poderia ser desviada, mas como é que
dois homens conseguiriam fazer isso sozinhos sem incorrer num grande risco? Um deles
constantemente teria que ocupar a central de comando, e um sozinho...
Tinha pouco sentido.
O mais depressa que pôde, ele correu de volta para Tschak-Hoa, para relatar-lhe a
ocorrência.
Tschak já estava a par de tudo.
— Uma situação miserável! — gritou ele, apontando para os instrumentos de
controle. — É um dano total, que somente pode ser consertado por especialistas. Mas
onde, a bordo da Gatos Bay, agora vamos arranjar especialistas? Além do mais, não
podemos nem mesmo inculpar esses sujeitos, porque eles agiram num estado de
irresponsabilidade. Eu posso prendê-los, mas isso é tudo.
— Isso eu já liquidei — disse Serdag.
Tschak anuiu.
— Sim, eu sei. Eu pude observá-lo, pelo intercomunicador; entretanto não pude
empreender nada. Dê uma olhada nos mapas. Como estão as coisas, se com a velocidade
atual nós continuamos voando?
Serdag tentou reunir o resto de seu juízo ainda funcionando. Sozinho ele não teria
completado os cálculos, mas Tschak o ajudou.
— Oito meses-luz — isso eu já sabia. Precisamos mudar a rota um pouco, sem
elevar a velocidade. Então vamos precisar de dez meses para chegarmos a Graf-Tita.
— O que é isso?
— Um sol amarelo normal com sete planetas. O sistema pertence aos blues. Em
certa ocasião, foi-lhes outorgado durante as negociações com os aconenses. Mais do que
isso eu não sei, mas pormenores maiores se encontram no catálogo. De qualquer modo, o
terceiro planeta — está registrado no mapa — é habitado. Por blues. Se estes nos
acolherão amistosamente, é uma boa pergunta.
— Talvez eles também estejam imbecilizados, e neste caso estamos liquidados.
— Um risco que vamos ter que correr. De qualquer modo, em estando pousados,
será possível consertar os danos. Ou nós desviamos a energia ou reparamos o gerador. A
tripulação, simplesmente trancamos.
Tschak sorriu, atormentado.
— Isso pode ser divertido! Nós dois sozinhos — uma tripulação maluca, e uma
nave como a Gatos Bay! Eu receio que este vai ser o meu voo mais maluco!
— No verdadeiro sentido da palavra! — disse Serdag, convicto.
***
Quando Tschak ficou sozinho resolveu estudar o catálogo. Ele queria saber o mais
possível sobre o planeta no qual ele deveria pousar daqui a dez meses, caso não
acontecesse um milagre, antes disso.
O terceiro planeta chamava-se “Pampas”.
Ele era um pouco maior que a Terra, mas tinha as mesmas condições de gravidade.
Por baixo de uma legítima atmosfera, de oxigênio, ficava um gigantesco mar primitivo,
no qual os três principais continentes estavam embutidos. Em sua maior parte, eles eram
cobertos de fechadas selvas tropicais.
Pampas era habitado pelo povo dos blues dos Tratzschoner, mais ou menos em
número de doze bilhões. Bem no meio das gigantescas florestas virgens eles tinham
erguido modernas cidades de cimento armado, construído espaçoportos e erigido
instalações de defesa automáticas. Eles haviam recuado para este sistema solar desabitado
para se tornarem autônomos, e não terem mais nada com as eternas lutas entre os povos
dos blues, que aumentavam fortemente.
Os outros planetas eram tidos como desabitados, apesar de alguns deles mostrarem
condições de vida.
Uma estrela microscópica abaixo das informações revelou a Tschak que no planeta
Pampas se escondia uma estação secreta da USO.
***
Mais tarde, Serdag anunciou-se. Tschak deixou-o entrar na central.
— Eu também prendi os outros, depois de mandar que se aprovisionassem de
víveres. Por enquanto não precisamos nos preocupar com eles. Você já deu uma olhada
no catálogo?
— Nós temos boas chances, Serdag. Em Pampas encontra-se uma estação da USO.
Naturalmente faltam maiores detalhes. Mas eu estou convencido de que vão nos ajudar.
— Talvez, ou talvez não. A USO tem suas próprias opiniões a respeito de
espaçonaves mercantes de sociedades privadas.
— Besteira! Eles são terranos como nós e têm que nos ajudar!
Serdag continuou cético. Tschak também o era, mas ele não queria tirar a coragem
ao único homem que ficara relativamente sensato na tripulação.
— Dez meses, portanto! — verificou Serdag, depois de mais um exame dos mapas.
— Quando é que vamos proceder à mudança de rota?
— Deixe que eu faço isso. E agora eu aconselharia você a retirar-se para sua cabine
para tentar dormir. Nós vamos ter que nos render, mas por enquanto eu ainda prefiro ter
meu período de sono, sozinho, fechado aqui na central. As instalações de alarme me
acordarão, se alguma coisa não estiver em ordem. Além disso, eu me sinto melhor, se sei
que você está nas proximidades das cabines da tripulação. Você entende isso?
Serdag concordou com este arranjo e prometeu que dentro de dez horas estaria de
volta na central.
Quando Tschak finalmente ficou sozinho, recostou-se na poltrona de comando, e
refletiu sobre a situação. Ela não era propriamente agradável, mas também não era
iminentemente perigosa. A nave corria através do espaço, numa velocidade quase da luz,
e o próximo planeta estava somente oito meses-luz distante — um gigantesco caso de
sorte.
Além disso, ainda havia a possibilidade de tentá-lo pelo hiper-rádio. Talvez ainda
existisse um receptor que não ficara maluco.
O que, na realidade, acontecera?
Por mais que pensasse sobre isso, Tschak não encontrou uma explicação para o
fenômeno. Num círculo de alguns milhares de anos-luz parecia mesmo que não havia
mais uma única inteligência ajuizada. Todos estavam imbecilizados — somente ele não.
Ele, o comandante Tschak-Hoa!
Um acaso?
Por quê?
Também para isso Tschak não encontrou uma resposta. Ele nunca se considerara
um exemplar especial do Homo sapiens, apenas um homem esperto e de grande visão que
cuidava dos seus negócios e entendia alguma coisa de astronáutica. Isso era tudo.
E agora, de repente, ele era o homem mais inteligente da galáxia — um leve
exagero, naturalmente.
Ele calculou a mudança de rota, e executou-a.
Depois ligou todas as instalações de alarma, que o informariam imediatamente, se
dentro ou fora da nave alguma coisa não estivesse em ordem. Com um último olhar de
câmera, ele convenceu-se de que Serdag estava deitado na sua cama e dormia; depois ele
recostou-se novamente na poltrona e fechou os olhos.
***
A Gatos Bay movimentava-se sem propulsão pelo espaço.
Passaram-se meses. Nada de importante aconteceu. Repetidamente Tschak tentou,
com a colaboração de Serdag, conseguir uma ligação de rádio sensata, mas nunca
conseguiu. Ele enviava pedidos de socorro e fazia perguntas através das antenas, mas
quando realmente chegava a receber uma resposta, esta vinha totalmente sem fazer
sentido.
De repente Tschak sentiu-se muito solitário. Se ele não tivesse Serdag, certamente
também teria ficado louco, exatamente como os outros.
A tripulação era um problema em si mesmo. Eles se encontravam numa astronave
globular relativamente grande, a qual, entretanto, em relação ao vácuo que os rodeava,
não era maior que um microscópio átomo. Os homens continuavam trancados e nem
sequer protestavam por isso. Serdag os aprovisionava regularmente com víveres, água, e
de vez em quando com um pouco de álcool.
Porém, certo dia, ele fora desatento.
Eram exatamente três meses depois do começo da catástrofe.
Tschak se trancara na central, enquanto Serdag ia até o depósito de provisões, para
levar comida para a tripulação. Trazendo todo o possível, ele voltou pelo elevador para o
setor das cabines e abriu a primeira porta. Derks estava deitado na sua cama, e piscou
para ele, com cara de sono.
Serdag cometeu um erro formidável, uma vez que esqueceu que também gente tola
é capaz de aprender alguma coisa. Ele mesmo pudera ter essa experiência própria, pois
nos três meses passados, Tschak conseguira fazer de Serdag um homem quase normal
novamente. O navegador tivera que aprender tudo novamente, mas conseguira fazê-lo.
E agora esqueceu que outros também eram capazes disso.
Naturalmente era assim que Derks, cujo quociente de inteligência era
substancialmente inferior que o de Serdag, não ficara normal logo em seguida, mas de
qualquer maneira ele convivia com seu ambiente. Ele estava metido numa cela, como
prisioneiro, que era aprovisionado com tudo que precisava para viver, ficando, fora disso,
solitário. Lá fora, para além da porta, ainda deveria haver outras coisas. Dessas “outras”
coisas, Derks naturalmente tinha suas próprias noções, todas elas erradas. De qualquer
maneira, elas davam asas a seu desejo secreto de investigar por conta própria, o
desconhecido que lhe era negado.
Serdag, que lhe trazia a comida, era seu inimigo natural.
Ele ficou deitado na cama, quando o navegador entrou e colocou a caixa de papelão
com as provisões sobre a mesa. Ele apenas piscou os olhos, com isso revelando que
estava acordado.
— E então, Derks, como vai indo? Como é que você se sente?
— Laia! — fez Derks e sorriu bobamente. — Eu vivo.
— Mais do que isso todos vocês não conseguem fazer, seus cabeças ocas! —
Serdag retirou da caixa a parte de Derks. — Hoje você ganha um gole de rum, meu caro,
mas não me fique logo travesso.
— Não se preocupe — disse Derks. — Por aqui não há nenhuma boneca.
Serdag riu e não deu maior atenção ao seu camarada imbecilizado, que já não era
mais tão bobo, como fazia crer. Ele foi surpreendido de tal maneira com o ataque, que
caiu e bateu com a cabeça contra a parede. Desmaiado, escorregou para o chão.
Derks riu nervoso e rebuscou os bolsos dele, até encontrar a chave universal
positrônica, depois abandonou a cabine — sem entretanto fechá-la — e abriu as portas
das outras cabines.
— Serdag realmente não podia ter imaginado que, em doze semanas, os homens
haviam tido tempo para desenvolverem um código de batidas, com o qual se
comunicavam entre eles.
Eles se reuniram e agora queriam executar definitivamente aquilo que planejavam
há muito tempo. A nave tinha que se tornar incapaz de voar, para que finalmente
pousasse.
E eles tinham a chave que servia para todas as portas.
***
Tschak acordou quando o alarme soou, estridente, por toda a nave.
Ele justamente adormecera e sonhava com um futuro melhor, quando as
campainhas e o golpe mental o fizeram acordar repentinamente. Por um momento ele não
sabia onde estava, mas então a sua memória voltou de golpe.
Alarme!
Um olhar para as telas da galeria panorâmica e convenceu de que a Gatos Bay
estava na rota certa, e que não havia nenhuma nave nas imediações. Portanto lá fora tudo
estava em ordem.
Dentro da nave...?
O intercomunicador foi ligado com o aperto de uma tecla, e Tschak viu
imediatamente o que devia ter acontecido.
Serdag estava caído, desmaiado, no chão de uma cabine. Era a cabine de Derks,
verificou Tschak. Derks entretanto não estava presente. Com isso, o caso estava claro. O
imbecilizado tinha narcotizado o navegador e tinha fugido.
As outras cabines...!
Todas elas estavam abertas e vazias.
Mas apenas a abertura das portas não poderia ter provocado o alarme, se os rapazes
tinham a chave universal. Eles deviam ter tentado abrir uma das fechaduras duplamente
asseguradas. Tratava-se apenas de fechaduras existentes em portas que conduziam a
recintos de importância vital. Como, por exemplo, para os recintos dos propulsores e das
instalações de alimentação de energia.
De golpe, Tschak sentiu-se completamente acordado.
Durante três meses tudo correra bem, e o planeta Pampas ainda estava distante
apenas a três meses de tempo de voo. Mas estes tolos não conseguiam esperar por isso.
Eles queriam pousar agora!
Eles pousariam no inferno, se ele não pudesse intervir logo. Agora não podia contar
com Serdag. O navegador ainda estava inconsciente.
Tschak levantou-se imediatamente e pegou sua pistola de paralisação, que há três
meses sempre estivera pronta para atirar, junto dos controles. Até então ele não precisara
dela, mas agora parecia que teria que usá-la urgentemente.
Ele trancou a central e escondeu a chave positrônica — a segunda que existia a
bordo da Gatos Bay — cuidadosamente sob sua camisa. Depois correu rapidamente para
a parte da nave na qual fora ativado o alarme.
Ele passou pela cabine de Derks e tomou-se o tempo para dar uma olhada em
Serdag. O navegador estava justamente voltando a si novamente. Por sorte ele não sofrera
nenhum ferimento grave.
— Como é que isso pôde acontecer?
Serdag explicou-o, o melhor que pôde.
— Esse sujeito manhoso — concluiu ele, tocando o galo na sua cabeça. —
Mostrou-se tão inofensivo, como se mal soubesse contar até três. Entretanto o sujeitinho,
entrementes, aprendeu a contar até dez. E os outros também, receio eu. Atacou-me
violentamente e desapareceu.
— Você pode me acompanhar?
— Eu vou tentar.
— É melhor que não vá, se isso lhe for difícil. Espere por mim diante da central. Ou
vou até o convés C. Eles devem estar lá.
— Devagar eu vou atrás de você, concorda?
— Está bem. Até mais tarde...
Ele correu até o elevador, que o levou ao convés C, onde estavam instalados os
propulsores. Ele imaginou o que os malucos planejavam, por mais insensato que isso
fosse. Eles queriam pousar, isso era tudo.
Eles não conseguiam pensar o bastante, para poderem ter uma noção de que, com
uma nave totalmente danificada, não se poderia mais pousar de maneira alguma, mesmo
se estivesse pairando diretamente acima de um planeta.
Já de longe ele escutou a confusão de vozes. Derks era o que mais falava. Ele
colocava a sua voz acima da dos outros, e Tschak podia ouvir claramente o que ele dizia:
— Besteira, não foi para isso que trouxe vocês aqui para fora! Já que vamos quebrar
alguma coisa, temos que quebrar a coisa certa. Não vamos fazer a coisa pela metade,
Semmka!
— Você é o chefe! — berrou alguém de volta.
Tschak diminuiu a corrida. Ele queria saber o que os sabotadores planejavam, para
que, da próxima vez, ele pudesse tomar providências em tempo. Ele tinha certeza de que
eles, no seu entusiasmo, não iriam notá-lo imediatamente. Sobretudo Derks, deveria
receber algo do que se lembraria para sempre.
Eles haviam se reunido diante das instalações dos distribuidores. Aqui se reuniam
todas as ligações de comando que eram controlados da central, por um computador. Se
esta parte importante da propulsão deixasse de funcionar, a Gatos Bay, não podia mais
ser manobrada.
Tschak ficou furioso, mas esperou ainda mais e escutou.
— Com a carga explosiva, a coisa, já uma vez, não funcionou direito — opinou um
deles, de má vontade. — Nada é quebrado com isso.
— É só colocar a carga corretamente — ensinou Derks. — E aqui, até mesmo uma
carga fraca é suficiente para paralisar toda a nave. Vá, Semmka, e traga essa coisa. Eu
acabei de destrancar o recinto. Mas, por favor, não aperte, já no caminho, no botão de
ignição automática.
Semmka abandonou o recinto. Quando ele chegou à curva do corredor, Tschak deu-
lhe a carga total do paralisador de raios, e amparou-o, antes que pudesse cair ao chão.
Quase com cuidado, ele deitou-o.
— Muito bem, meu rapaz, agora você, antes de mais nada, vai dormir um pouco.
Aos outros nós vamos ensinar como se toca uma flauta.
Ele esperou e então ouviu os passos. Os outros também os ouviram.
— Semmka está voltando. Ele realmente se apressou.
— Nós não devíamos tê-lo deixado ir sozinho — opinou alguém.
— Besteira! — gritou Derks no meio. — Vocês estão ouvindo que ele já está
voltando.
Mas não era Semmka e sim Serdag. Tschak interceptou-o em tempo.
— Pst, quieto! Eles acham que é Semmka, a quem eles mandaram buscar
explosivos. — Ele apontou para o homem desmaiado. — Eu pude detê-lo ainda em
tempo.
— Foi por isso que a porta estava aberta. Eu já estava ficando desconfiado.
— Venha, Serdag. Nós vamos surpreender esses sujeitinhos. Eles querem paralisar
o distribuidor energético. O que isso significaria, certamente você entende?
A surpresa realmente teve êxito, ainda que não completamente. Quando eles
entraram no recinto, os homens notaram que não se tratava de Semmka, que estava
voltando, e sim o seu comandante e o navegador, que eles achavam ter liquidado.
Também viram que os dois homens estavam armados. Isso, entretanto, não impediu que
eles se defendessem desesperada-mente. Nos fundos, Derks berrou algumas ordens, mas
ninguém se importou com elas. Eles simplesmente correram para cima de Tschak e
Serdag, somente armados com seus punhos.
O feixe energético da pistola paralisadora atingiu-os ainda durante a corrida.
Tremendo, eles caíram ao chão. Alguns foram atingidos por uma dose fraca demais,
rolaram para o lado, e tentaram levantar-se novamente. Um depois do outro, eles foram
paralisados pelos dois homens. Uma carga direta da arma de raios paralisantes garantia
um sono profundo, de pelo menos duas horas.
Quando nenhum deles mais se mexeu, Tschak respirou fundo, aliviado.
— Eles estão aí, caídos, e nós vamos ter trabalho. Temos que carregá-los até suas
cabines.
— Só faltava mais essa! — queixou-se Serdag, apesar de estar supercontente porque
não acontecera nada mais. — Vamos ter trabalho por, pelo menos, meia hora.
— Sim, quanto antes começarmos com isso, melhor.
Eles pegaram, dois de cada vez, pelas pernas, e os arrastaram atrás de si. Isso era
trabalho pesado, mas ia mais depressa.
Quando, depois da quarta viagem, voltaram para o recinto do distribuidor, ainda
havia dois homens caídos ao chão. Serdag ficou parado, como se tivesse batido contra
uma parede. Ele levou a mão à cabeça.
— Ainda há pouco havia três deles aí — verificou ele.
Diante da instalação distribuidora estavam apenas dois desmaiados.
O terceiro faltava.
Era Derks.
Ele devia, entrementes, ter voltado novamente a si. Talvez tivesse sido atingido por
uma porção muito fraca dos raios paralisantes ou então simplesmente fingira ter sido
atingido. Mas então, provavelmente logo teria dado no pé.
— Derks está com a sua chave positrônica — disse Tschak, preocupado.
Eles carregaram os dois últimos homens até suas cabines, depois partiram à procura
do desaparecido Derks. Mas já poucos minutos depois, Tschak teve consciência de que
cometeria um erro terrível, se continuasse procurando. Ele parou.
— Tenho que ir até a central, Serdag. Se esse sujeito, por puro acaso, conseguir
chegar até lá — e ele tem a chave — nós estamos liquidados. Continue a busca sozinho e
me avise quando você o encontrar. Se ele for esperto poderá se esconder na nave durante
semanas, sem que nós consigamos achá-lo.
— Derks é esperto, mas ele nunca foi realmente inteligente.
— Neste caso agora ele não o vai ser, com certeza. Vamos, não perca tempo. Ele é
terrivelmente perigoso.
Eles continuaram caminhando em direções diferentes. Cinco minutos mais tarde
Tschak alcançou a central e verificou, aliviado, que a porta ainda estava trancada.
Portanto Derks não estivera aqui. Provavelmente o susto ainda o fazia tremer, e ele estava
contente por ter encontrado um esconderijo seguro, em algum lugar da nave. Mas mesmo
que fosse assim, a fome logo o levaria a cometer uma bobagem. Com toda certeza ele
então aparecia numa das muitas telas dos monitores de instalação de intercomunicação.
Tschak abriu a porta da central de comando e entrou. Com um olhar ele se
convenceu de que aqui tudo estava em ordem, depois trancou a porta novamente.
No lugar onde ficava a instalação de hiper-rádio ele ouviu um ruído.
Um ruído rangente.
Tschak sentiu um frio na espinha, quando um furioso martelar substituiu o rangido.
Com um salto ele atravessou a central de comando e alcançou a central de rádio da Gatos
Bay. Derks estava com um entusiasmo fogoso, tratando de destruir toda a instalação, com
uma ferramenta pesada. Mesmo quando o raio do paralisador o acertou por trás, ele ainda
golpeou duas vezes, destruindo com isso o resto do transmissor vital. Depois caiu ao
chão.
Tschak tentou ter uma visão geral dos danos. Estava claro que o hiper-rádio não
tinha mais capacidade de transmissão. Talvez ainda fosse possível trabalhar com o
receptor, mas mesmo isso somente poderia ser comprovado com uma tentativa. Parecia
impossível reparar aquilo, pois Derks fizera um trabalho completo.
A central de radiocomunicações lembrava um campo de batalha.
Lentamente Tschak voltou para a sua poltrona de comando, e deixou-se cair na
mesma. O caso era claro. Com a chave positrônica, Derks penetrara na central, e depois
fechara a porta novamente, ordenadamente. Poder-se-ia achar que fora uma sorte que ele
não apanhara uma arma de impulsos energéticos, do pequeno armário embutido, com a
qual ele poderia ter derretido toda a instalação de controles da nave. Então não haveria
mais salvação. Sem a instalação do hiper-rádio, ainda era possível continuar, numa
emergência.
Mesmo assim...!
Tschak chamou Serdag pelo intercomunicador e informou-o do que havia
acontecido. O navegador censurou-se pesadamente, pois afinal de contas tudo começara
porque ele não fora suficientemente atento. Tschak interrompeu sua auto-acusação, e
pediu-lhe que viesse imediatamente para a central. Antes, entretanto, ele deveria
examinar, mais uma vez, as portas das cabines. Os prisioneiros, durante dois dias, não
receberiam nada para comer.
Tschak deixou-o entrar um pouco mais tarde, e entregou-lhe a sua chave
positrônica. Aquilo parecia mais um ato simbólico, com a qual Tschak queria
demonstrar-lhe que ainda confiava inteiramente nele.
— E agora? — perguntou Serdag, depois de ter sentado.
Tschak continuou tranquilo.
— Nada! Nós continuamos o nosso voo e dentro de cinco meses pousamos em
Pampas. Então veremos. Nós, de qualquer maneira, não poderíamos chamar a estação da
USO pelo rádio, pois ela é secreta e se encontra num planeta que não nos pertence.
Entrementes, você poderia examinar se a recepção ainda está funcionando. Se tudo der
errado, nós ainda temos o rádio normal. Mas jamais poderíamos conseguir uma resposta.
— Cinco meses...! — repetiu Serdag, levantando-se. — Cinco meses numa nave
somente ainda capaz de ser manobrada pela metade, trancados juntos com dezenove
semi-idiotas, sem um hipertransmissor, sem propulsão linear... espero que isso dê certo!
— Temos que acreditar nisso — disse Tschak, confiante, apesar de lá no fundo já
estar começando a duvidar.
***
Os cinco meses passaram, e quando, pelo calendário terrano, outubro do ano 3.441
começava, o sol amarelo Graf-Tita surgiu, grande e claro, diante da nave. Ele ainda
estava a uma distância de cinco dias-luz.
Os telerrastreamentos tatearam o terceiro planeta, e depois de uma diminuta
correção de rota, a Gatos Bay caiu na direção do mesmo, com exatidão. A manobra de
frenagem começaria dentro de cinco dias.
A bordo, entrementes, não acontecera nada de significativo. Os presos tinham
permanecido quietos, apesar de terem pedido, frequentemente, para serem soltos. Tschak
ignorara suas promessas, e não se deixara amolecer. Para que se tranquilizassem, ele lhes
profetizara um pouso em Pampas, muito em breve.
Os últimos dias do longo voo transcorreram sem incidentes, como os passados sete
meses. Tschak tinha constantemente ligado o receptor de rádio. Receber uma notícia
sensata pelo hiper-rádio, disso ele já desistira há muito tempo, apesar de já ter recebido,
com certa frequência, pedidos de socorro, que soavam relativamente normais. Mas ele
não tinha qualquer possibilidade de respondê-los.
A uma distância de cinco dias-luz de Pampas, ele passou para o rádio normal, mas
sabia perfeitamente que somente podia captar transmissões procedentes do sistema solar
que tinha à sua frente.
Os blues também estavam imbecilizados.
Suas transmissões de rádio comprovavam isso, nitidamente. Alguns transmissores
tocavam, sem interrupção, a mesma peça musical, durante horas, provavelmente até
durante dias ou mesmo semanas já. Em outras frequências acontecia a mesma coisa.
Durante meia hora Tschak tentou entrar em ligação com os blues, depois desistiu.
Uma única vez ele recebeu uma resposta, mas a mesma estava formulada de maneira tão
confusa que não fazia sentido algum. A julgar por ela, não havia mais nenhum blue
sensato em Pampas.
Ele não conhecia a frequência secreta da estação da USO. Entretanto ele sabia onde
a mesma ficava, mais ou menos. Com um transformador especial, ele tinha possibilidade
de captar transmissões de hiper-rádio com o receptor de rádio normal. Simplesmente teria
que acontecer, captar as transmissões muito próximas, mas por mais que ele se
esforçasse, os alto-falantes continuavam mudos. Ou a estação da USO em Pampas não
existia mais, ou, por razões inimagináveis ela entrara em completo silêncio de rádio.
Depois de cinco dias de voo para o seu objetivo, Tschak ligou a frenagem. A Gatos
Bay diminuiu o seu voo e aproximou-se na mesma rota, de Pampas, o planeta cada vez
mais misterioso dos blues. Na ampliação podia ver-se claramente os três continentes. Ao
lado deles ainda havia inúmeras ilhas, maiores e menores, que aparentemente eram, todas
elas, desabitadas e apenas cobertas de uma mata tropical espessa. Diversos vulcões
podiam ser vistos.
Tschak não sabia onde fora construída a estação secreta da USO, mas achou que
devia estar numa das ilhas desabitadas, uma previsão que mais tarde se mostrou como
verdadeira.
O sol amarelo Graf-Tita ficou para trás, à esquerda, quando a Gatos Bay passou
pelas órbitas dos planetas mais externos. Na horizontal para com a elíptica, a nave
penetrou no sistema, e sua velocidade ficava muito abaixo do da metade da luz. Ela
continuou mergulhando.
Tschak e Serdag aproveitaram o tempo de espera até o pouso definitivo, para fazer a
tele-análise trabalhar. Eles coletaram dados sobre os planetas VII até IV, cujas
características não se encontravam no catálogo. A respeito disso, não se devia deixar de
mencionar aqui, que havia certos regulamentos que tinham sido dados pela Frota Espacial
Solar. Nenhuma nave, nem mesmo as mercantis, devia deixar de anotar estes dados, na
aproximação de um sistema desconhecido, armazenando-os nos seus computadores, para
mais tarde colocá-los à disposição do Departamento Astrológico de Terrânia. Somente
assim era possível completar o mapa galáctico, no decorrer dos séculos de astronáutica
terrana.
— Amanhã vamos atingir a órbita — disse Serdag.
Tschak-Hoa anuiu.
— Sim, se nada se interpor. A frenagem não ocorreu tão limpamente quanto você
talvez imagine. Eu receio que esses sujeitinhos causaram mais danos do que nós
conseguimos descobrir. Mas não se preocupe, nós vamos tentá-lo mesmo assim. E vamos
conseguir.
— O que é que você acha que não está em ordem, Tschak?
— Alguma coisa no distribuidor, Serdag. Nós chegamos quando eles queriam
explodi-lo. Nós impedimos isso. Mas, não sabemos o que aconteceu antes. Se apenas um
dos sujeitos imbecilizados bateu com um martelo, ou outra ferramenta pesada, contra as
instalações de controle, ele poderá ter misturado tudo. Antes de descobrirmos o erro,
estaremos mortos. Portanto vamos confiar em nossa sorte.
— Sorte é o que tivemos sempre até agora — comentou Serdag, seco.
Tschak olhou para as telas da galeria panorâmica.
— Pampas está praticamente ao alcance da mão. Parece verde, portanto o nome
parece estar correto. Mares e florestas, no meio cidades isoladas dos blues. Eu estou
curioso para saber como seremos recebidos — caso nós formos realmente recebidos.
— E eu — opinou Serdag — estou curioso em saber se vamos encontrar a estação
da USO. Os blues dificilmente poderão revelar-nos a sua localização.
— Não podem e não querem, Serdag. Logo vamos saber se teremos uma chance.
Mais trinta horas, aproximadamente, e então chegou a hora.
E a Gatos Bay descia na direção do terceiro planeta do sol Graf-Tita.
Um mundo que ninguém conhecia direito...
2

Treze terranos e nove criaturas não-humanas conheciam a estação da USO, pois a


mantinham ocupada. Há dez meses eles tinham perdido o contato de rádio para Quinto-
Center, o quartel-general secreto da Contra-Espionagem Solar. Sem qualquer contato,
eles estavam presos no planeta dos blues e não podia fazer outra coisa que não esperar,
para ver se alguém vinha buscá-los.
Os habitantes do mundo do jângal não tinham noção de sua existência, e deles
dificilmente eles poderiam esperar ajuda. Muito inequivocamente as transmissões de
rádio recebidas revelavam que, também eles, tinham sido atingidos pela onda de
imbecilização, que ao que tudo indicava tinha inundado toda a Via-Láctea.
Também a equipagem da estação não havia sido poupada, mas ao contrário de
outros grupos, como por exemplo tripulações normais de naves, aqui se tratava, na sua
maior parte, de especialistas com treinamento e capacidades especiais. Dos vinte e dois
membros da estação, cinco tinham ficado normais.
Quando a USO construiu a base de apoio em Pampas, quase ao mesmo tempo
chegaram as primeiras naves com colonos blues, tomando posse do planeta
aparentemente sem dono. Com trabalho e persistência os Tratzschoners conseguiram
conquistar à floresta os espaços necessários para a construção de gigantescos complexos
citadinos. Às margens do gigantesco Mor de Gamos, eles construíram o seu grande
espaçoporto.
Os blues-tratzschoners não se assemelhavam com os homens. Com cerca de um
metro e noventa de altura, magros e graciosos, todo o seu corpo era recoberto de uma
penugem azulada, a qual tinham que agradecer o seu nome. A cabeça era semelhante a
um disco chato, colocada sobre um pescoço de vinte centímetros de comprimento, de
muita mobilidade. Quatro olhos na borda da cabeça-disco, proporcionavam a um blue a
possibilidade de poder olhar para todos os lados ao mesmo tempo, sem ter que se virar.
Como os blues eram excepcionalmente fecundos — eles eram capazes, em
determinadas circunstâncias, a gerar até trinta descendentes no espaço de tempo de um
ano terrano — eles se multiplicavam de uma maneira inconcebível. Os blues estavam
constantemente à procura de planetas apropriados, para poder satisfazer seu natural
ímpeto de expansão.
A “Central Estelar Blue-Sul” ficava numa ilha no meio do Mar de Gamos, a cerca
de seiscentos quilômetros de distância da terra firme mais próxima. O clima era
simplesmente horrível. Reinavam temperaturas elevadas insuportáveis, que entretanto
podiam ser compensados pelas instalações de climatização da estação. A ilha era coberta
de uma floresta muito densa, e no interior da mesma havia diversas cidades de cimento
armado dos Tratzschoner.
A estação ficava abaixo da superfície, bem perto da costa.
Ela ficava dentro dos flancos rochosos de um vulcão ainda em fraca atividade,
excelentemente camuflada e garantida hermeticamente contra radiações energéticas. Em
toda Pampas ainda havia vulcões ativos, pois o planeta ainda era jovem, e seu interior
incandescente. Ninguém jamais teria tido a ideia de supor que existia uma estação secreta
dos terranos em tão grande proximidade de um vulcão.
Esta também fora uma das razões por que a CE-Solar decidira construir aqui a
estação. As naves de aprovisionamento podiam pousar sem serem notadas, e daqui era
possível avançar para o setor relativamente próximo dos blues, para executar voos de
reconhecimento.
A quinze metros abaixo do nível do mar ficava a entrada para a estação. O corredor
para dentro do vulcão estava cheio de água, mas não havia o perigo de que esta água
jamais entrasse em contato com o fogo à espreita. Se isso acontecesse haveria uma
tragédia.
O sistema de cavernas, existentes por natureza, e que fora ampliado artificialmente,
consistia de três andares gigantescos, com uma superfície de trinta e oito mil metros
quadrados. Uma usina atômica, profundamente encravada na rocha, servia de
alimentação energética. Num pavilhão gigantesco ficava o poderoso transmissor de
matéria, de grande potência, o qual, depois da construção da estação, tornava a mesma
independente do reabastecimento através de naves espaciais. Ele era construído de
conformidade com o princípio do portal em arco, e possuía um alcance espantoso.
Era um princípio da USO, tratar com os mesmos direitos, inteligências não-
humanóides, que tinham colocado seus serviços à sua disposição. Somente assim era
possível justificar a confiança que outros povos estavam prontos a dar aos terranos. Visto
dessa forma, a USO e a CE-Solar eram o núcleo de uma consciência cósmica da
Humanidade, que não conhecia mais quaisquer diferenças de raça.
O comandante da Central Estelar Blue-Sul não era um terrano, e sim um
chebopamer com o impronunciável nome de Cheborparczete Faynybret. Esta era uma das
razões por que cada um o tratava por “CheFe” — com a penúltima letra em maiúscula.
O CheFe era, ao mesmo tempo, também o chefe.
A criatura bem-dotada e extremamente inteligente era tida como um bom
criminalista parapsi e excelente físico. A USO não poderia desejar, para si, um
comandante mais capaz e mais confiável para esta importante estação.
O CheFe não fora imbecilizado, nem o haviam sido os dois terranos Hotchka
Omolore, capitão da CE-Solar e engenheiro de transmissores, e o Capitão Gaddard Pen-
Tuku, o especialista de hiper-rádio. Também tinham permanecido normais o blue Haigra
Whuy e uma plofosense, Aidala Montehue, uma cirurgia de transplantes.
Todas as outras criaturas humanas e não-humanas da estação estavam
imbecilizadas, e mesmo o diminuto siganês Morton Kalcora não fora poupado disso. Ele
tinha dez centímetros de altura, tenente da CE-Solar — e entrementes se tornara uma
espécie de mascotezinho para o CheFe.
Na maior parte do tempo ele permanecia num dos bolsos da jaqueta deste, de onde
constantemente dava conselhos mais ou menos supérfluos para o comandante. Nos dez
meses passados haviam notado que ele estava constantemente reaprendendo as coisas, de
modo que quase se podia calcular a hora em que ele estaria novamente perfeitamente
normal.
O CheFe tinha chamado os membros da equipagem que permanecera normal, para
uma conversa. Lá fora, na ilha, tudo permanecia quieto, e no hiper-receptor,
constantemente ligado, também havia uma calma relativa. Haviam chegado alguns
pedidos de socorro, mas os mesmos vinham de naves muito distantes, às quais, de
qualquer modo, seria impossível atender.
Hotchka Omolore, o grande e forte especialista de transmissores, entrou na sala de
conferências. Excepcionalmente ele hoje não penteara os seus cabelos ruivos, o que dava
ao seu rosto, constantemente embirrado, um aspecto pouco amistoso.
Gaddard Pen-Tuku, baixo, magro e de cabelos escuros, era exteriormente o exato
contrário de Hotchka. Ele sorriu, quando o outro terrano se sentou.
— E o senhor acha que hoje a coisa vai dar certo? — quis ele saber, cético.
Hotchka anuiu, aferrado.
— Tem que dar certo, Gaddard! É nossa última chance. Eu examinei tudo mais uma
vez. Eu não vejo nenhuma razão para que tudo não dê certo.
Aidala Montehue, a cirurgiã, entrou no recinto. Ela anuiu amigavelmente para os
dois homens e sentou-se diante deles. Aidala tinha uma figura graciosa e usava o seu
cabelo cortado curto. Ela era bonita, o seu fino perfil lembrava o de uma indiana.
Ninguém, que não a conhecesse, podia supor que ela fosse uma das melhores cirurgias de
transplantes. Antes que Hotchka e Gaddard pudessem prosseguir na sua conversa,
apareceu o blue Haigra Whuy, que há três anos trabalhava para os terranos. Ele saudou-os
cordialmente e também sentou-se.
Agora faltava apenas o CheFe.
— A senhorita hoje, mais uma vez, está especialmente bonita, Aidala — disse
Hotchka. — A senhorita naturalmente também pretende visitar Quinto-Center ainda hoje.
A cirurgia olhou-o interrogativamente, depois sorriu.
— Eu gostaria de ter o seu otimismo, Hotchka. Aliás, o senhor esqueceu-se de
pentear os cabelos.
O engenheiro taurino passou a mão rapidamente pelos cabelos.
— ó, isso não tem importância, minha cara. Mas eu estou muito contente em ver
que a senhorita não tem outras preocupações. Não gosta de mim, assim como estou?
Gaddard riu.
— Ele também não me agradaria com os cabelos penteados. Hotchka não ficou
absolutamente ofendido.
— E eu nem quero agradar ao senhor, seu jongleur de frequências. O principal,
acho que é que eu gosto de mim mesmo.
Aidala sacudiu a cabeça.
— Esses homens! É sempre a mesma coisa com eles. E isso que nós nos
encontramos, visto à luz, metidos na borra. Ou o senhor acha que a tentativa de hoje vai
dar certo?
— Eu preparei tudo da melhor maneira. O transmissor está em ordem, disto não
pode haver dúvidas. — De repente Hotchka não parecia mais tão alegre como antes. —
Mas eu não tenho nenhuma influência sobre a estação receptora em Quinto-Center.
E agora o CheFe entrou na sala. Ele ouvira as últimas palavras do engenheiro de
transmissores e anuiu. Só depois ele sentou-se. Do bolso da jaqueta, Morton Kalcora
olhou para fora e acenou para os outros, como saudação.
— Bom dia! — piou ele com sua voz clara, antes do CheFe o empurrar de volta
para o indicador, para dentro do bolso.
— Certo, Quinto-Center é o principal problema — disse o comandante da estação,
sério, colocando suas mãos em cima da mesa. — Uma boa ligação pelo rádio não existe
mais, desde que tudo parece ter ruído por lá; não recebemos mais reabastecimentos, mas
por sorte nós temos Haigra Whuy. — Ele anuiu cordialmente na direção do blue. — Ele
já nos deu muitas dicas boas, que nos trouxeram víveres e outras mercadorias de uso.
Agora podemos desistir dessas excursões, pois nossas provisões são suficientes outra vez
para alguns meses. — Ele pigarreou. — Nós nos reunimos hoje para efetuar a
quadragésima oitava tentativa de alcançar Quinto-Center, ou pelo menos estabelecermos
uma ligação direta com o mesmo. Antes, porém, eu quero lembrar diversos fatos, que não
devíamos esquecer.
— O que há com os outros? — quis saber Gaddard, e ele evidentemente se referia
aos membros restantes da estação, que estavam imbecilizados. — Nós não podemos
simplesmente deixá-los para trás.
— E claro que não, capitão. Mas apenas nós cinco permanecemos normais não
levando em conta Kalcora, que está aprendendo rapidamente. Nós temos que empreender
a tentativa sozinhos, e se der certo, podemos tornar providências para que também os
outros sejam buscados. Porém seria irresponsável, se quiséssemos tentar executar uma
experiência tão perigosa com eles. Aidala, a senhorita se convenceu de que entrementes
não pode ser feita qualquer desordem?
— Naturalmente, CheFe. As duas mulheres terranas e os oito terranos têm um
relacionamento excelente. Eles lêem, ocupam-se com brincadeiras, jogos, ou então
dormem. Eu acho que ficarão bem guardados.
— E os outros?
— Os dois blues foram tranquilizados por Whu. Eu não creio que eles criarão
dificuldades. Somente Roetel está me preocupando. Nestes últimos tempos ela ficou um
tanto perigosa e mordeu um dos dois blues. Ela está presa numa cabine individual, e
como ela não ficou boba demais para comer, ela o conseguirá.
— Silk?
— Não se preocupe, esse vai muito bem. Fica o dia inteiro na banheira,
preguiçosamente. Eu acho que Silk tem menos preocupações que qualquer um de nós.
Também os dois gentals estão aprovisionados.
— Obrigado — disse o CheFe. Ele olhou suas anotações. — Todos nós sabemos
que os Tratzschoner que ficaram loucos causaram grandes danos, quando executaram
comutações erradas nas suas usinas atômicas. Houve explosões e subsequentemente
erupções vulcânicas. Também o nosso vulcão não foi poupado, nossas três pequenas
naves foram destruídas, nossos víveres se estragaram. Toda ligação com Quinto-Center
foi cortada. Nós ficamos isolados. Mesmo outras estações não responderam mais, de
modo que não temos a menor ideia do que pode ter acontecido. Somente captamos ainda
pedidos de socorro. Gaddard, por favor, faça nos um rápido relatório sobre a atividade de
rádio dos últimos dias.
O especialista em hiper-rádio começou:
— Não há muita coisa para relatar, CheFe. Eu estou com o receptor constantemente
ligado, e me parece que a galáxia está cheia de naves que pairam sem destino, cujas
tripulações não são mais capazes de manipular os controles sensatamente. Um dos
pedidos de socorro veio por rádio comum. Por isso deve tratar-se de uma nave que está
bem próxima de nós, e que talvez já tenha entrado no nosso sistema. Eu respondi na onda
secreta, mas não recebi nenhuma resposta. O homem que transmitia, de qualquer modo,
parecia ser normal, pois o pedido de socorro tinha sido codificado de conformidade com
os regulamentos.
— Quinto-Center?
— Nada!
— Terra?
— Dali mesmo, nada! É como se a Terra não existisse mais!
O CheFe refletiu, depois olhou para o blue.
— E agora o senhor, Haigra. O que é que o senhor tem para comunicar a respeito do
seu povo? O senhor fez uma excursão, há alguns dias atrás. O que é que pôde verificar?
O blue ficou sentado, muito calmamente.
— Caos, calamidades, agitações. Parece que a civilização está querendo naufragar.
Eu encontrei alguns não-imbecilizados. Eles tentavam salvar o que havia para ser salvo.
Se os seus relatos estão corretos, entretanto, não existe mais nem uma só espaçonave
capaz de navegar, nem na ilha nem na terra firme. Pouco depois de minha excursão, bem
nas proximidades uma usina de força foi pelos ares. Alguém deve ter comutado de uma
só vez todas as ligações, e naturalmente houve uma descarga violenta, forçada. Seguiu-se
um tremor de terra, e infelizmente, entre outras coisas, também a nossa saída ficou
obstruída. Eu tinha justamente entrado na estação, quando isso aconteceu. Agora estamos
presos numa armadilha.
— Esta é uma das razões por que estamos tentando abandonar esta estação —
explicou o CheFe. — Não faz muito sentido continuarmos por mais tempo aqui, mesmo
não levando em conta que o vulcão pode ter uma nova erupção, e com isso destruirá todo
o sistema de cavernas. Num caso desses estaríamos irremediavelmente perdidos.
Hotchka, o que há com o pavilhão do transmissor? Haigra me informou que ele está
ameaçado de ruir.
— Eu pude reforçá-lo com a ajuda dos oito terranos, precariamente. Por sorte, os
irmãos ficaram imbecilizados, mas não se tomaram malévolos como Roetel, nossa
gatinha. Eu acho que o transmissor está seguro, pelo menos no momento.
— A que distância está a lava?
— Ainda está seguramente separada por uma parede rochosa, mas não está mais
muito longe. Um desabamento provocaria uma catástrofe.
Morton Kalcora utilizou a pausa na conversa, ergueu a cabeça por cima da borda do
bolso da jaqueta do CheFe e gritou, estridente:
— Mesmo que todos vocês fiquem numa armadilha, eu ainda conseguirei chegar à
superfície! Eu conheço algumas fendas que não são demasiado grandes para mim.
— Silêncio! — disse o CheFe e empurrou-o de volta para dentro do bolso. — Você
ainda poderá ser necessário mais tarde, se tivermos azar com o transmissor. Neste caso,
você poderá nos mostrar um caminho seguro para a superfície.
— Estou curioso para saber — riu o siganês dentro do bolso — como é que vocês
vão se esgueirar atrás de mim!
O CheFe não deu mais atenção ao assunto.
— Vamos iniciar a tentativa dentro de uma hora — anunciou ele. — Nós
procederemos, como já fizemos antes, colocando trajes de combate, para o caso de
sermos recebidos de maneira pouco amistosa, em Quinto-Center. Nunca se pode saber.
Vamos desistir das armas de raios pesadas, mas em contrapartida vamos levar as
pequenas armas de agulha, só que escondidas nos bolsos. Eu espero que não precisemos
usá-las. Dentro de cinquenta minutos nos encontramos no corredor que dá para o
pavilhão do transmissor.
Ele anuiu para eles, levantou-se e deixou o recinto. Por algum tempo ninguém disse
nada, depois Hotchka opinou:
— Esse daí nunca perde o controle! Eu gostaria de ser tão firme como ele. Mas se a
tentativa, também dessa vez, não der certo, tudo fica dependurado em mim.
— Em quem mais? — perguntou Gaddard, malicioso.
Aidala ergueu-se e disse, advertindo:
— Eu acho que não temos mais muito tempo.
Junto com ela, eles abandonaram o salão.
***
O teto do pavilhão do transmissor tinha pelo menos cinquenta metros de altura. O
transmissor erguia-se exatamente no meio, um complexo gigantesco com geradores de
grande potência e geradores de campo. Hotchka fez um sinal aos outros, para que agora
ainda não continuassem em frente. Apesar do seu otimismo, ele sempre ficava
suficientemente cuidadoso, para não colocar ninguém desnecessariamente em perigo.
— Logo que eu tiver ligado a alimentação energética o portal em arco deverá ficar
incandescente. É o sinal da prontidão para a transmissão do transmissor, mas não dá
nenhuma indicação sobre se o transmissor na outra ponta, em Quinto-Center, também
está pronto para a recepção. Eu sugiro, por isso, que antes de mais nada, nós atiremos um
objeto qualquer através do transmissor. Se ele desaparecer e não voltar, também deve
existir um receptor, caso contrário ele seria imediatamente catapultado de volta pelo
campo. Assim evitamos qualquer risco.
— Ótimo — disse o CheFe. — Então vamos experimentá-lo.
Na última tentativa não fora possível colocar o transmissor em arco em
funcionamento. Somente do lado esquerdo se formara o campo, por pouco tempo, e
depois apagou-se novamente.
Desta vez a coisa deu certo.
Hotchka tinha ido até a cabine de comutações e entrara nela. Com poucas
manipulações ele colocou a complicada aparelhagem em movimento. Geradores
começaram a rosnar, e em algum lugar ouviu-se o clique de relês. O fornecimento de
energia teve início. O chão pedregoso do gigantesco pavilhão começou a vibrar. As
primeiras faíscas brilhantemente azuis pularam de polo a polo.
O engenheiro de transmissores abandonou a cabine e voltou para os homens que o
esperavam.
— De agora em diante tudo funciona automaticamente, CheFe. Eu programei o
tempo da experiência em cinco minutos — isso deveria bastar. O tempo corre desde que
o arco está de pé.
— Se um arco estiver de pé! — disse o chefe, acentuando as palavras.
Aidala olhou-o, interrogativamente, mas o comandante não reagiu. Além disso, ele
não sabia se ele o olhava deste modo devido à sua observação, ou do seu aspecto pouco
comum, pois o CheFe realmente não se parecia com uma criatura humana. Porém nisto,
entrementes, todos já se haviam acostumado, e ninguém se importava que o CheFe se
parecia com um...
— Ali!
O arco-portal de energia pura chamejou num vermelho-escuro, emoldurando o Nada
negro por trás dele. Este nada era o espaço pentagonal. Na prática, Quinto-Center
somente ainda ficava a poucos metros de distância da Central Estelar Blue-Sul, caso o
receptor lá estivesse ligado e funcionando.
— Eu vou pegar uma bolsa — disse Hotchka e dirigiu-se para o arco-portal. — Por
favor, fiquem parados ali, esperando.
Ele mantinha a bolsa pronta para se jogada, na mão, enquanto se aproximava do
transmissor. Poucos metros diante do arco-portal chamejante ele parou, flexionou o braço
para trás e então atirou a bolsa bem para dentro do centro do Nada negro, sem luz.
Ela mergulhou e desapareceu.
— Em Quinto-Center eles vão ficar espantados, quando a bolsa cair a seus pés. É
que eu meti nela uma mensagem. De qualquer modo eles agora ficarão informados sobre
o que aconteceu aqui. CheFe, eu devo programar para uma duração maior de tempo,
quando a experiência estiver terminada?
— Duas horas serão suficientes. É melhor deixarmos o transmissor em
funcionamento, para que ele não se desfaça, como na ocasião da décima sétima tentativa.
Além disso...
Mas não consegui terminar o que dizia.
A onda de choque da detonação, primeiramente arrancou Hotchka para o chão. Ele
é quem estava mais próximo do transmissor, e foi o mais atingido pela força da explosão.
Por sorte o chão era liso e sem obstáculos, de modo que ele escorregou alguns metros, e
depois ficou deitado. Ele não estava inconsciente, ergueu-se outra vez rapidamente e
tentou pôr-se em segurança.
O CheFe e os outros jogaram-se, instintivamente, no chão, quando a cabine de
comutações arrebentou e os destroços voaram em diagonal através do pavilhão. Línguas
de fogo se ergueram, enquanto o arco-portal se extinguiu. Do Nada, veio voando a bolsa,
que Hotchka jogara dentro dele, queimada e quase irreconhecível.
E então também o “Nada” não existia mais. O outro lado do pavilhão ficou visível.
Mais um gerador detonou, liberando grandes quantidades de calor. Um dos polos do
transmissor começou a se fundir.
— Hotchka, venha cá! Nós temos que abandonar o pavilhão, não tem mais jeito!
Deveria ser difícil para o engenheiro de transmissores, seguir as instruções do
CheFe, mas não lhe restava outra alternativa. Ele saiu do nicho para o qual fugira, e
correu até os outros.
— O que aconteceu? — perguntou Gaddard.
Hotchka olhou-o, confuso, e não disse nada.
— Vamos sair daqui! — ordenou o CheFe. — Temos que desistir definitivamente
do transmissor. Venham, não faz mais sentido ficarmos aqui.
Eles o seguiram sem retrucar.
A quadragésima oitava tentativa também havia falhado, e ela tinha liquidado de
uma vez por todas com o transmissor, como meio de fuga.
***
Ainda não havia nenhum perigo iminente para a estação. A explosão do transmissor
não mostrara consequências iminentes. O vulcão continuara calmo, apesar de se
mostrarem novas fendas, nas paredes rochosas na direção da montanha. As primeiras
nuvens de fumaça, ainda leves, passaram pelos corredores mais exteriores. Elas ainda
eram engolidas pelas grades de sucção da instalação de regulagem climática.
Para amanhã estava previsto um reconhecimento de Morton Kalcora. O siganês
devia tentar encontrar um caminho para a superfície, que fosse fácil de ser ampliado com
a ajuda dos projetores energéticos.
A estação, de qualquer maneira, tinha que ser evacuada.
Gaddard Pen-Tuku tinha se recolhido à sua central de hiper-rádio.
Gaddard não era apenas um bom radioperador, mas também um dos melhores
especialistas em toda a profissão de hiper-rádio. Diziam dele que, com uma pequena
bateria, um pedaço de arame e um transistor velho, era capaz de construir, em poucos
minutos, um transmissor capaz de funcionar. De qualquer modo certamente não havia
nenhum aparelho de hiper-rádio que ele não fosse capaz de reparar, no menor espaço de
tempo, caso tivesse as necessárias peças de reposição à mão.
A nave, cujos sinais de pedidos de socorro ele captara ontem, o intrigava. Se suas
suspeitas estivessem certas, ela já devia encontrar-se ao alcance do rádio normal. Ele não
pudera determinar a distância exata, uma vez que não houvera nenhum tráfego de rádio
contrário.
Ele ligou a frequência de ontem e começou a procurar, com a maior força de
recepção. Já depois de poucos minutos ouviu, no alto-falante, os típicos impulsos de
aterrissagem, de um cargueiro terrano. O comandante devia ter esquecido de desligar o
rádio automático, que sempre começava a funcionar com impulsos de advertência,
quando uma nave começava com a aterrissagem.
Ele tornaria os blues rebeldes.
Gaddard comutou para transmissão e chamou o cargueiro desconhecido. Pediu ao
comandante que se identificasse e que respondesse. Desta vez ele desistiu
conscientemente de codificar sua mensagem de rádio, ou mesmo irradiá-la pela onda
secreta. A coisa estava dependendo de segundos.
Ao mesmo tempo, os aparelhos de rastreamento começaram a trabalhar. Escondidas
na superfície e nas fendas rochosas do vulcão, ficavam as câmeras e projetores de raios.
Cinco diminutos satélites com câmeras orbitavam Pampas. Um deles, em pouco tempo,
conseguiu apanhar a espaçonave aterrissando, em suas lentes.
Quando Gaddard, pelo menos neste respeito, pôde registrar um êxito, ele notificou o
CheFe.
Na tela de imagem, podia reconhecer-se uma nave espacial globular de cento e vinte
metros de diâmetro, que pouco antes de desligar de sua órbita estável, tinha iniciado a
manobra de aterrissagem. Em diminutas irregularidades podia reconhecer-se que o piloto
manobrava a nave manualmente, portanto não mais confiando no automático de pouso.
Se ele estivesse sozinho, desse modo, estava correndo um grande risco.
Quando o CheFe entrou, Gaddard estava justamente tentado, pela terceira vez,
entrar em contato com a nave estranha. Desta vez ele obteve resposta.
O Comandante Tschak-Hoa respondeu. Na sua voz notava-se o alívio, e sua
primeira pergunta era a respeito de um local de pouso adequado.
Na ilha não havia nenhum.
— Aqui fala a Central Estelar Blue-Sul, radioperador Gaddard Pen-Tuku. Pouse na
costa oriental do continente de formato mais baixo. Ali o senhor reconhecerá um
espaçoporto muito comprido, que no momento não está ocupado. Espere ali, por novas
instruções.
— Por que eu não posso pousar onde o senhor se encontra? Eu já goniometrei o
local onde se encontra.
— Não existe nenhuma possibilidade de pouso. A sua velocidade ainda está alta
demais.
— Algumas aparelhagens não funcionam mais. Eu vou ficar contente se realmente
conseguir colocar esta canoa no chão.
— Justamente! No espaçoporto o senhor tem lugar. Em caso de emergência terá que
pousar dentro do mar. O mesmo é muito baixo ali. O senhor poderá vir para a superfície
no seu traje espacial. Como vai a sua tripulação?
— Eu, com o navegador, somos os únicos que ficamos normais. Os outros, nós
trancamos nas suas cabines.
O CheFe pegou o microfone.
— Aqui fala o comandante da estação. Capitão Hoa, quanto tempo ainda precisa
para aterrissar?
— Duas órbitas, por precaução, depois estamos na hora.
— Ótimo. O senhor permanece em constante contato de rádio conosco.
Rapidamente, quanto à nossa situação: Nós estamos paralisados aqui, enterrados. Nós
estamos tentando chegar à superfície, para alcançá-lo em terra firme. Fique dentro da
nave, em qualquer caso, até a nossa chegada. Deixe os blues em paz e não permita que
ninguém entre na nave. O senhor tem armas?
— Suficientes. Os blues são perigosos?
— Pelo menos, não se sabe exatamente como agirão. Portanto: Cuidado!
— Entendido, comandante!
Gaddard ainda trocou alguns dados com Tschak, depois a nave desapareceu no
horizonte, e a ligação com a estação-satélite piorou.
O CheFe anuiu para Gaddard.
— O senhor permanece em ligação. Eu agora vou instruir meu pequeno amigo
Kalcora, e mandá-lo à superfície. Com os outros eu preparo os projetores energéticos.
Vamos ter que abrir um corredor para a superfície com as armas. — Ele suspirou. — O
cargueiro é nossa última esperança. Ele é, ao mesmo tempo, a última nave em Pampas. O
senhor pode imaginar que vamos ter uma forte concorrência.
— Os blues?
— Sim. As erupções vulcânicas e os tremores de terra, cada vez mais frequentes,
geraram pânico. Todos querem abandonar o planeta. Nós vamos ter muita sorte, se somos
nós, os primeiros da fila...
— Tudo vai dar certo, CheFe — disse o especialista em hiper-rádio, confiante.
O comandante deixou a central de rádio. Para trás ficou Gaddard, um pouquinho
orgulhoso, porque talvez ele tivesse encontrado o caminho para a salvação.
3

Morton Kalcora colocara seu traje de combate e examinou todas as suas funções. A
aparelhagem de voo trabalhava sem problemas, do mesmo modo a de climatização. Com
a arma de raios de impulsos, não maior que a extremidade de uma agulha de crochê, ele
podia matar mesmo um adversário grande. Com ela também podia fundir rochas, caso a
fenda através da qual pensava atingir a superfície, ficasse estreita demais.
O CheFe falou mais uma vez com ele.
— Talvez não seria melhor se você, primeiramente, tentasse chegar ao canal de
água? Este, certamente, não está obstruído e nós, pelo menos, sabemos o que nos espera
no seu fim — ou seja, o mar.
— Primeiramente vou tentá-lo na vertical, para cima — o siganês continuou com o
seu plano original. — Eu conheço uma fenda que até agora não se modificou em nenhum
milímetro. E ela pode ser ampliada.
— Ótimo, faça como quiser. De qualquer modo, boa sorte.
— Até breve — disse Kalcora e ligou a aparelhagem de voo. Ele não tinha
disposição para deixar para trás a pé, o caminho até o seu objetivo. Como um besouro
gigantesco ele pairou através do recinto, para o corredor, e desapareceu na direção do
elevador antigravitacional. Sua excursão começava no teto do terceiro piso da estação.
Ali havia um pequeno buraco no teto. Kalcora aproximou-se dele cuidadosamente, e
desligou a aparelhagem, quando conseguiu agarrar-se firmemente com as mãos.
Habilmente então ele puxou-se para cima e desapareceu dentro do rochedo.
Ele exagerara um pouco, como sempre. Ele conhecia apenas os primeiros dez
metros do corredor para cima, para ele, de qualquer modo um trecho apreciável. Por sorte
o mesmo somente ia cerca de dois metros para cima na vertical, depois o corredor abriu-
se numa verdadeira caverna — pelo menos para as noções de um siganês — e tornou-se
mais baixo. Um ser humano já podia arrastar-se por aqui. Kalcora tinha a impressão de
caminhar através de um gigantesco pavilhão rochoso.
Depois o mesmo ficou novamente mais “apertado”. O corredor, por sorte levava
para longe do vulcão, sempre em diagonal para o alto. Não podia ser mais muito longe
para a superfície, pois Kalcora já sentia um bafo de ar morno. Devia ser dia, lá fora; um
dia claro, quente.
Os arredores do vulcão eram livres de vegetação. Rios de lava enrijecidos,
impediam qualquer crescimento. Como um mar, que repentinamente se transforma em
pedra, pensou Kalcora, quando repentinamente chegou à saída da caverna, vendo-se
sobre um platô. Ele estava contente por não ter bazofiado demais, e realmente ter
alcançado a superfície.
Pelo rádio ele chamou Gaddard, que naturalmente não atendeu porque tinha
trabalho bastante com a Gatos Bay, que logo se aprestava a pousar. Em contrapartida,
atendeu o CheFe, que tinha deixado ligado a aparelhagem de seu traje de combate, que
tirara.
— E então, Morton, o que há?
— Eu estou em cima, de pé, CheFe! Linda vista, se você me pergunta. Daqui nós
podemos desaparecer, sem sermos notados. Ou nós voamos, ou fazemos uma excursão
por mar.
— Os imbecilizados não sabem voar. Onde é que você acha que eles vão pousar, se
os deixarmos sem atendimento? Encontre um caminho, a pé, Morton!
— Está bem. Mas você não precisa preocupar-se, não vai ser difícil para vocês
ampliarem a fenda. Uma hora de trabalho, talvez duas, e então vocês estarão do lado de
fora.
— Quando é que você está de volta?
— Dentro de uma hora.
— Nós esperamos por você.
Kalcora desligou a aparelhagem de rádio.
Ele olhou o rio de lava enrijecida, e refletiu em que lugar seria mais fácil atravessá-
lo, sem o menor risco, sem que alguém caísse numa das muitas fendas, que tinham
ocorrido durante o processo de esfriamento.
***
Tschak-Hoa disse, ao começo da segunda órbita de aterrissagem:
— Serdag, agora a coisa fica séria. Os controles não funcionam sem problemas, e eu
receio que vamos pousar de modo muito duro. Espero que jatos dos freios forneçam mais
frenagem, caso contrário nós queimamos na atmosfera. Eu acho que vamos ter que
prevenir os outros, caso contrário eles ficarão colados nas paredes. Talvez os coloquemos
nas cabines coletivas, onde estão os seguradores. Então não pode acontecer nada.
— Quer que eu faça isso?
— Sim, mas leve um de cada vez. Vá buscar o seguinte somente depois que você
afivelou o seu anterior. Se eles agora bancarem os malucos, nós estamos perdidos.
Entendido?
— Eu vou ter cuidado, não se preocupe.
Serdag realmente procedeu com toda a cautela necessária, mas os homens, de
qualquer modo, ainda tinham juízo suficiente para valorizar mais as suas vidas do que
uma tolice. Voluntariamente eles se deixaram conduzir de suas cabines até a cabine
coletiva, para ali serem afivelados em poltronas embutidas nas paredes. Serdag cuidou
para que eles não pudessem abrir as fivelas, sem auxílio estranho, com uma hábil
transposição das mesmas. Por último ele foi buscar Derks.
— Não me faça bobagens. Nós apenas queremos o melhor para vocês.
— Depois que nós pousarmos, vamos poder sair?
Serdag olhou-o, estupefato.
— Sair? E para onde vocês querem ir?
— Nós estamos pousando num planeta habitado, ou não? Muito bem, nesse caso
queremos sair. A mim ninguém trás mais de volta para a nave.
Serdag sacudiu a cabeça.
— Você está mesmo maluco! O que é que você quer fazer nesse mundo que
pertence aos blues? Você pode ficar satisfeito, se eles não quebram o seu pescoço
imediatamente.
— Mesmo assim queremos sair, Serdag.
— Por mim, se o comandante não tem nada contra. Ele consegue se manter sem
umas cabeças ocas. Mas até que estejamos pousados, mantenha-se quieto, por favor. Se
nós despencarmos, ninguém vai sobrar.
Ele convenceu-se mais uma vez de que todos estavam bem guardados, depois
voltou para a central. Ele estava tão seguro do que fazia, que nem sequer trancou a porta.
A Gatos Bay passava com uma velocidade alta demais bem perto das camadas
superiores da atmosfera, para frear pelo menos um pouco. Em vão Tschak esforçou-se
para aumentar o empuxo dos impulsores de frenagem. Ele tinha que descer mais, se não
quisesse passar por cima da região de pouso planejada.
Para uma terceira órbita já era tarde demais.
— Esses sujeitinhos realmente fizeram alguma coisa no distribuidor — disse ele
para Serdag, quando este entrou na central. — Eles estão bem atados?
— Não há perigo. — Ele apontou para a galeria panorâmica com suas telas de
vídeo. A superfície dos planetas já estava muito próxima. — Nós vamos conseguir sem
uma queda?
— Vamos ter que fazê-lo, se quisermos continuar vivendo.
Serdag silenciou e sentou-se. Ele fez novamente uma ligação com Gaddard, que
poderia ajudá-lo com dados de posição.
— Mais trinta segundos, e então vamos penetrar na atmosfera. Nós vamos parecer
um meteoro. — Tschak bateu furiosamente sobre alguns controles de pressão. — Nada
mais, nem um pio! A inversão das turbinas é fraca demais, além disso vamos precisar de
toda a energia para o resfriamento externo. Eu estou feliz de que pelo menos isso ainda
funciona!
***
— Isso parece muito ruim! — Gaddard anuiu para Hotchka, que tinha entrado na
central de rádio. — Se eles pousarem com essa velocidade, essa bola deles rola até as
montanhas. A metade já está incandescente.
— O piloto deve estar maluco!
— Ou então ele é a única pessoa normal a bordo, quem sabe?
Eles observaram os acontecimentos no monitor de vídeo. Em poucos minutos a
Gatos Bay devia passar por cima da ilha, e então ainda havia seiscentos quilômetros até o
continente. Talvez a melhor solução seria mesmo baixar no mar, para ali, antes de mais
nada, refrescar.
Ninguém ousava fazer um prognóstico correspondente. Como um meteoro, com
rabo de fogo chamejante, a nave passou por cima da ilha e desapareceu na direção oeste.
A altura ainda era de quinze quilômetros. A velocidade ainda era alta demais. Até mesmo
com um pouso dentro da água, o seu invólucro poderia ficar danificado.
— Eu acho que eles vão conseguir — achou Hotchka. — Sempre, naturalmente,
que eles não fiquem fritos antes.
Pouco depois, Gaddard conseguiu nova ligação pelo rádio.
Tschak anunciou que a costa estava à vista, e que a velocidade da nave havia caído
tanto que ela tentava o pouso. As temperaturas estavam suportáveis, e ele não via
qualquer perigo iminente. Somente não ousava garantir que a Gatos Bay poderia partir
novamente. Um reparo era coisa imprescindível.
Depois seguiram-se minutos de medo. Gaddard e Hotchka seguiram cada fase de
pouso. Foi uma sorte que os campos antigravitacionais da Gatos Bay puderam ser
ligados, e Tschak fez isso com muita habilidade, de modo que também eles ainda
contribuíram para uma última frenagem.
Dois apoios telescópicos se partiram, mas os restantes foram suficientes, para não
deixar a Gatos Bay virar.
Ela estava parada!
A propulsão emudeceu.
O Comandante Tschak imediatamente entrou em contato novamente.
— Pousamos! Nós tivemos sorte! — Ele tossiu. — Quando podemos esperá-los, e o
que é que eu devo fazer, se surgirem blues e nos atacarem?
— Nada, absolutamente nada! Não deixe ninguém entrar na nave. Nós estaremos aí
com o senhor o mais depressa possível — dentro de um ou dois dias.
— Ótimo. — Pausa, depois: — Espere um pouco, lá fora no corredor deve ter
acontecido alguma coisa. O meu navegador foi dar uma olhada nos homens, e agora eu os
estou ouvindo. Santo Deus, eles não devem ter pegado Serdag de surpresa novamente...
Ei, o que há, Derks...? Jogue fora essa coisa, está ouvindo? Eu vou fazer com que vocês...
Gaddard ouviu um ruído forte... e depois o silêncio.
Absoluto silêncio de rádio!
Alguém devia ter destroçado a aparelhagem de rádio.
***
Pouco mais tarde, os dedos energéticos fortemente enfeixados começaram a
penetrar no rochedo para desobstruir, a fenda que Kalcora descobrira. O CheFe ordenou a
temperatura mais elevada, para que houvesse uma imediata transformação da matéria
rochosa em gás, para poupar a remoção da massa, que, caso contrário, ficaria rígida.
O problema principal eram os imbecilizados.
Roetel tinha recebido uma coleira e uma corda. Normalmente uma criatura
inteligente, com todas as características da mesma, a imbecilização a havia transformado
num gato, cujos instintos primitivos, dirigidos exclusivamente para o ataque, tinham
novamente aflorado.
Os dois gentals — homens-peixes — conseguiam permanecer por longo tempo em
terra seca, sem sufocar e sem secarem. Eles eram totalmente inofensivos e não
representavam qualquer perigo.
Silk também era inofensivo. Ele vivia na terra com a mesma facilidade que na água.
Nadar no mar, provavelmente lhe daria o maior prazer.
Os dez terranos e os dois blues se mantinham passivamente e à espera. Eles
naturalmente não possuíam mais nenhuma iniciativa própria, mas seguiam, sem
contestações, qualquer instrução dada por aqueles que haviam permanecido inteligentes.
Hotchka e Aidala guardavam os seus protegidos, enquanto o CheFe, com Kalcora
no bolso da jaqueta, foi o primeiro a penetrar no caminho de fuga que fora aberto. A
estação, propriamente dita, tinha sido preparada para explodir. Um sinal de rádio daria o
impulso necessário.
O CheFe penetrou mais ou menos cinquenta metros na fenda alargada, depois fez
uma pausa. Pela radiofonia ele comunicou aos outros que o seguissem cautelosamente.
Kalcora o avisara de que agora o caminho seguia para o alto, muito mais íngreme, mas
que a superfície não estava mais muito longe.
Levou muito tempo até que os outros chegassem à pequena caverna. O CheFe
verificou, com satisfação, de que até Roetel se mantinha mais ou menos tranquila, e ela
ainda não imaginava que o perigo espreitava de um outro lado, totalmente diverso. De
um lado que ele, aliás, nunca teria imaginado.
Os dois gentals cochicharam entre si. Os seus rostos revelavam claramente o quanto
eles se alegravam com o mar. Pois os fugitivos, de qualquer maneira, teriam que
atravessar seiscentos quilômetros de um mar primitivo, para alcançarem a Gatos Bay.
Haigra Whuy aproximou-se do CheFe.
— Os imbecilizados vão nos reter — disse ele.
O comandante o olhou, espantado.
— É claro que vão, mas por que isso agora? O que é que isso tem que ver com
nossa tentativa de conseguirmos uma espaçonave?
— Nós devíamos deixá-los para trás, CheFe. Sozinhos nós chegaríamos mais
depressa ao nosso destino.
— O senhor está querendo dizer que devíamos deixar os nossos amigos indefesos
simplesmente para trás? Mesmo os dois companheiros de sua espécie, aos quais o senhor
está ligado por uma amizade de muitos anos? Isso eu não compreendo. Afinal, um dia ou
dois a mais, não fazem tanta diferença.
— Eu acho que em primeiro lugar devemos pensar em nós mesmos. Nós temos que
sair daqui. A montanha já está rumorejando outra vez.

Isso naturalmente estava certo. Há minutos já eles sentiam o leve vibrar sob os seus
pés, e de muito longe vinha o rumorejar de massas incandescentes de lava, que
procuravam um caminho para a superfície.
— Nós não vamos sem levar nossos amigos — decidiu o CheFe sem maiores
comentários. — E agora vamos em frente, Haigra, então chegaremos mais depressa lá em
cima...
O blue foi em frente e ele sabia que o CheFe não afastaria mais os olhos dele.
Lá na frente vislumbrava-se a luz do dia. Eles tinham
calculado a hora de sua fuga de tal modo, que ainda teriam três
ou quatro horas de luz do dia à sua disposição. Até então, eles
deviam ter alcançado a costa.
Haigra foi o primeiro a encontrar-se sobre a crosta de
lava. Bem lá embaixo, ao oeste, brilhava o mar. O CheFe e
Gaddard se colocaram a seu lado no platô. Lentamente
seguiram-se os outros.
Estava quente. As rochas tinham acumulado o calor de
todo o dia, e parecia apenas ter esperado para agora liberá-lo
novamente. Mais para o norte e para o leste começava a
floresta fechada, por trás ficavam as cidades dos
Tratzschoner. Para o oeste e no sul, ficava o mar.
Roetel fez um movimento brusco e soltou-se.
Aidala, que segurava o gato-do-mato na corda, foi
surpreendida demais, para poder reagir em tempo.
A criatura, impulsionada por seus instintos
primitivos, correu com grandes saltos, por
cima da superfície de lava descendente,
e minutos mais tarde desapareceu na
floresta virgem.
— Deste, pelo menos, nós
nos livramos — opinou Haigra,
satisfeito.
O CheFe não o julgou
digno de uma resposta.
Ele também não tinha
tempo para isso.
Cerca de cem metros adiante, a superfície de lava estarrecida de repente se abaulou
para cima, arrebentou, soltando a lava que a pressionava para sair. O inferno
incandescente saiu de dentro do interior do planeta, para escorrer para a planície. Ao
mesmo tempo seguiu-se um ligeiro tremor, e em diversos lugares da rocha viva abriram-
se fendas novas. Das profundezas veio um trovejar surdo, que aumentou para um
verdadeiro furacão, e quase jogou os fugitivos ao solo. Cada um que ainda sabia
raciocinar, tinha certeza do que acontecera.
Hotchka foi quem falou:
— A estação — ela foi atingida. Água e lava ao mesmo tempo devem ter penetrado
ali — e uma explosão foi inevitável. Eu acho que podemos nos poupar de explodi-la.
— Agora, provavelmente, uma explosão seria perigosa demais — concordou o
CheFe e apontou para o mar, lá embaixo. — Acho melhor tentarmos encontrar o melhor
caminho. Kalcora vai voar adiante e fará os reconhecimentos. Por sorte ele aprende mais
depressa que quaisquer dos outros imbecilizados.
Lentamente eles seguiram o siganês que voava adiante, e que parecia tão diminuto,
que mal se podia reconhecê-lo no ar. Somente o rádio ainda os ligava.
Eles seguiram um caminho natural menor, que não tinha sido atingido pela lava: O
chão era firme e seguro. Ele descaía lentamente para o oeste, e conforme Kalcora
informava, o espinhaço alcançava o mar, numa descida cômoda de apenas um
quilômetro.
Hotchka formava a retaguarda e cuidava para que nenhum dos imbecilizados ficasse
para trás. Eles não haviam recebido trajes de combate, já que não teriam mais tempo para
aprenderem o seu funcionamento. Os dois blues mantinham-se sensatos e disciplinados,
ainda que era necessário indicar-lhes, por duas vezes, qualquer modificação de direção.
Com os dez terranos a coisa era semelhante. Pelos dois gentals e por Silk, Hotchka
praticamente não precisava preocupar-se. Eles farejavam o mar próximo e seguiam os
que iam adiante, sem fazerem a menor tentativa de encurtarem o caminho, por algum
atalho perigoso.
Haigra caminhava um pouco mais devagar, até que o CheFe chegou logo atrás dele.
— Onde devemos encontrar um barco? — perguntou ele, evitando olhar para o
comandante. — O porto fica mais ao norte, e eu acho difícil que nos dariam um barco,
mesmo se pagássemos por ele.
— A costa aqui no sul não é conhecida pelos seus bons pesqueiros? — perguntou o
CheFe. Quando Haigra anuiu, ele prosseguiu: — Muito bem, pode ser que alguém está
tentando pescar. Neste caso, o senhor falará com ele. Ele nos deve deixar o barco, e nós o
levaremos junto para o continente.
— Um pescador? Eles geralmente usam barcos velhos, que dificilmente podem
navegar em mar alto. Existem até barcos a vela ainda. Como é que o senhor pretende
alcançar o continente com isso, sem levar em conta que não pode confiar na sua gente?
Por que o senhor não os deixa para trás? Então tudo seria muito menos complicado.
— Eu já lhe disse que isso está fora de questão, Haigra. Nós vamos ficar juntos.
— As circunstâncias mudaram, CheFe! A mim o senhor não pode mais dar ordens,
pois eu não me sinto mais comprometido com o meu contrato com a CE-Solar. A estação
não existe mais, e meu contrato com os senhores dizia respeito apenas ao meu trabalho
para a estação. Portanto eu vou abandoná-los, logo que tiver uma oportunidade favorável
para isso. O senhor tem objeções?
— Na realidade não, Haigra, ainda que não concorde com o seu modo de agir. O
que é que o senhor pretende fazer, quando nos deixar?
— O meu povo precisa de ajuda, CheFe. Eu faço parte dos poucos não-
imbecilizados. O senhor, CheFe, não precisa de mim com tanta urgência como o meu
povo, o senhor consegue sobreviver também sem mim. O senhor vai encontrar um barco,
vai atravessar o mar e usar a nave espacial para abandonar o nosso mundo, que talvez
esteja condenado à morte. Eu entretanto posso cuidar, aqui, para que não aconteçam mais
descalabros. Se não houver mais explosões e outros tremores subterrâneos, os vulcões
talvez se aquietem novamente — e nada mais acontece. O senhor ainda não consegue
entender o meu ponto de vista, CheFe?
O comandante da estação abandonada caminhou por algum tempo em silêncio, atrás
do blue, que o olhava com os seus olhos traseiros, interrogativamente, quando antes os
mantivera fechados.
— Sim, o senhor tem razão — disse o CheFe, finalmente. — Desculpe-me, eu
naturalmente fui egoísta. Mesmo assim, eu gostaria de lembrá-lo de sua primeira
proposta, para que compreenda o meu ceticismo. O senhor sugeriu que deixássemos os
imbecilizados para trás. Com isso, meu amigo, eu não concordo! Quanto ao que lhe diz
respeito pessoalmente, o senhor está totalmente liberado para suas decisões; eu apenas
lhe pediria para nos acompanhar pelo menos até o mar. O senhor pode nos ajudar muito
na busca de um barco adequado.
***
Renda Dork era pescador desde criança. Ao sul do porto ele morava com seus pais,
numa pequena aldeia, e quando o pai morreu, ele assumiu o seu negócio. Os seus irmãos
o ajudavam na pescaria e vendiam o que pescavam no mercado mais próximo. Outros
irmãos foram às cidades, para ali conseguirem uma ocupação mais rendosa.
Eles possuíam um enorme veleiro, com um motor auxiliar movido a energia
atômica. Quando soprava o vento, Renda gostava de velejar. Muitas vezes ele saía para o
mar alto, tão longe que somente ainda via o cume do vulcão, como um ponto escuro que
pairava no ar, no horizonte. Ele o usava como indicador do caminho de volta para a ilha e
para a aldeia.
E então veio a catástrofe incompreensível e também Renda Dork perdeu a
inteligência. Somente aquilo que estava impresso indelevelmente na sua memória ele não
esqueceu. Ele sabia que sempre saíra para o mar com o seu barco, e portanto ainda o fazia
hoje em dia. Mas somente ainda pescava peixes suficientes para poder viver deles.
Certo dia voltou de sua excursão diária para o pequeno porto e verificou que
ninguém morava mais na aldeia. A toda pressa, sua mãe e seus irmãos haviam
abandonado a sua casa, tendo fugido para a floresta. Não havia nenhum motivo visível
para isso. Também dos outros habitantes da aldeia, Renda não encontrou mais ninguém.
Somente um homem velho ficara para trás. Renda Dork procurou interrogá-lo, mas
não conseguiu descobrir muita coisa. A terra tinha trovejado, afirmou o velho, e então
fumaça pudera ser vista acima do vulcão. Então todos tinham saído correndo, somente ele
ficara para trás, porque não conseguia correr tão depressa como os outros.
Renda Dork procurou encontrá-los na floresta quase impenetrável, mas quando
finalmente encontrou rastros, eles já tinham muitos dias. A chuva logo os apagou e então
o pescador tivera que voltar novamente. Suas esperanças de encontrar alguém novamente
em casa, não se realizaram.
No dia seguinte ele foi até o porto principal ao norte, mas foi enxotado por blues
famintos. Portanto regressou, resignado, para a sua aldeia abandonada. Ele tinha o seu
barco e não morreria de fome.
Totalmente sozinho, viveu assim várias semanas, falando de vez em quando com o
homem velho, e passando a maior parte do seu tempo no barco.
Hoje ele decidiu viajar até o flanco sul do grande vulcão. Ali havia os peixes
grandes, e se ele pescasse apenas um deles, poderia ficar alguns dias tranquilo. Apesar de
sua preocupação com a família desaparecida, começou a gostar da vida novamente.
Uma grande civilização parecia sufocar na onda de imbecilização, a técnica ruía, os
blues se rebelavam, mas Renda não sentia mais nada disso. A vida simples, natural,
estava outra vez com ele, e ele sentia-se bem com ela.
Não tinha mais preocupações, pois o mar lhe dava o que ele precisava para viver.
A nuvem de fumo ainda estava por cima do vulcão, e certa vez Renda pareceu ver
fogo líquido brotar de uma fenda na terra. Ele velejou bastante perto da margem, mas
instintivamente sabia do perigo que o ameaçava vindo do vulcão. Virou a vela e navegou
novamente mar a fora.
Aqui ele sentia-se seguro. Aqui, sabia ele, nada podia acontecer-lhe, e tempestades
quase não havia no Mar de Gamos, mas quando vinha uma, ela podia durar muitos dias,
sem amainar a sua força. Por sorte, esse acontecimento da natureza sempre se anunciava
por grandes formações de nuvens no leste, que então eram levadas para o oeste, pela
rotação do planeta.
Renda Dork não temia a tempestade. Seu pequeno barco navegava muito bem no
mar, e já vencera muito tufão sem sofrer danos.
Ele tinha orgulho do seu barco.
Bastante longe da costa vulcânica ele recolheu as velas e deixou o barco à deriva.
Jogou os anzóis e ficou dormitando naquele dia morno.
No fim da tarde somente, quando o sol já começava a baixar, ele pegou dois peixes
grandes. Puxou um para bordo e o matou. O outro ele meteu num recipiente de arame,
que novamente afundou na água. Assim o peixe continuava vivo, mas não conseguia
mais escapar-lhe. A alguns metros de profundidade ele pairava atrás do barco à deriva.
Alguma coisa zuniu malevolamente.
Renda olhou para cima, para a ponta do mastro. Um inseto grande — talvez mesmo
um pequeno pássaro — rodeou o ponto mais alto do barco, parecendo apenas esperar
para atirar-se sobre Renda. Havia muitas espécies de insetos em Pampas, mas um tão
grande e luzindo prateado, o pescador jamais vira. Ele olhou em volta, procurando uma
arma, caso o bicho fosse atacá-lo.
— Isso não é necessário — disse o inseto com voz piante, mas absolutamente
compreensível no idioma dos blues. — Eu não quero fazer-lhe nenhum mal, meu amigo,
eu apenas queria pedir-lhe um favor. Posso descer?
Renda tinha esquecido de há muito a significação de um tradutor, e aliás tinha muito
que fazer para digerir o fato de que um besouro ou uma mosca gigante sabia falar.
Automaticamente ele mexeu a cabeça-disco, em sinal de concordância.
— Quem é você? — perguntou ele, surpreso.
— Eu sou Morton Kalcora, o siganês — mas isso eu explico mais tarde para você.
Meus amigos e eu precisamos do seu barco, pois precisamos atravessar para o continente.
Você poderá nos levar até lá. Nós pagaremos muito bem por isso.
— Seus amigos?
— É uma longa história, que você agora não entenderia tão depressa, mas durante a
viagem nós teremos tempo suficiente para explicações. Posso dizer aos meus amigos que
você concorda? Dentro de dois ou três dias chegaremos ao destino, e você poderá voltar
ou ficar onde quiser. Você receberá dinheiro de nós, ou víveres. Nós lhe presenteamos
com uma arma de raios de impulsos ou com uma aparelhagem de voo, com a qual você
poderá subir nos ares, como eu. E então, o que é que você me diz?
Renda Dork era imbecilizado, mas deu-se conta logo de que alguém queria alguma
coisa dele, pela qual estava preparado para dar-lhe algo em troca. A vida era bela, mas
monótona. A aventura significaria uma mudança, e não somente isso.
Um aparelho com o qual a gente podia voar...!
— Sim, eu concordo levar vocês até o continente — ele finalmente disse,
aprovando. — Vá buscar os seus amigos!
— Você terá que ir até eles. Estão esperando na margem de uma pequena enseada
pedregosa, logo abaixo do vulcão. Logo a noite vai cair. Nós nos apresentaremos
mutuamente, ficaremos esta noite na enseada, e começaremos a viagem somente amanhã,
quando o sol se levantar. Ice as velas, ou você ainda sabe manejar o motor?
— Eu quase nunca o utilizo — disse Renda, e girou o barco mais uma vez. Ao
mesmo tempo içou as velas. — Dentro de duas horas chegaremos à enseada...
4

Eles estavam sobre um platô intermediário, bem alto, acima do mar. As velas do
barco, que agora fazia viragem, brilhavam à luz do sol, dirigindo-se exatamente na
direção do vulcão. Ao mesmo tempo, a voz estridente de Kalcora saía dos aparelhos dos
trajes de combate:
— Ele vai nos levar para o continente. Eu lhe prometi um traje voador, apesar de, na
minha opinião, ele não poder fazer nada com ele. Bem, mais tarde, talvez, depois que nós
lhe explicarmos tudo exatamente. Ele se chama Renda Dork, é pescador, e deverá aportar
dentro de duas horas na enseada. Eu fico junto dele. O caminho para baixo vocês acharão
sozinhos. Apressem-se.
Haigra olhou para o CheFe.
— Eu acho que agora vocês não precisam mais de mim. Vocês têm o seu barco, que
eu deveria providenciar. Dentro de dois dias vocês estarão em terra firme, e bem perto da
astronave globular. Posso me despedir?
Se o CheFe estava surpreso, ele não o deixou transparecer.
— O senhor pode ir, Haigra, apesar de eu não ficar contente com isso. Alguém com
conhecimentos locais poderia nos ajudar muito. Mas se é realmente o sentimento do
dever que o chama, eu não o deterei. — Ele olhou para fora, para o mar, exatamente para
o leste. — Caso, entretanto, for uma outra coisa, eu quero adverti-lo, Haigra Whuy. Eu
não gostaria de, um dia, termos que nos confrontar como inimigos. Eu espero que tenha
me entendido...
— Certamente, CheFe. Tudo de bom, para o senhor.
Ele ligou a aparelhagem de voo do seu traje de combate, e subiu para os ares. Mais
uma vez ele deu uma volta, depois tomou a rota para o norte, onde ficava a cidade.
Minutos mais tarde desapareceu por cima do teto verde das árvores da floresta.
O CheFe pôs-se em movimento, depois de ter-se certificado de que Hotchka,
Gaddard e Aidala se preocupavam com seus infelizes amigos, que nada entendiam do que
se passava. Apenas os gentals e Silk, praticamente não podiam mais esperar que a marcha
tivesse prosseguimento.
O sol desceu, ao oeste da ilha, para dentro do mar.
Lentamente ficou escuro, mas ainda antes que as estrelas aparecessem, eles
alcançaram, sem incidentes, a enseada junto ao vulcão. Rochas pontiagudas circundavam
um seguro porto natural, que possuía apenas uma entrada estreita. Até mesmo durante as
mais terríveis tempestades um barco poderia ancorar seguramente aqui.
Kalcora devia entrementes ter preparado Renda, pois o pescador não se mostrou
absolutamente surpreso, ao ver nas margens criaturas que lhe eram absolutamente
exóticas. Ele ancorou o barco em águas profundas junto dos rochedos, de tal modo que o
CheFe pôde subir a bordo sem dificuldades.
Ele, somente de longe aparentemente humanóide, de perto não se parecia nem com
um blue nem com um terrano. Mesmo assim, Renda Dork o cumprimentou como a um
velho conhecido. O tradutor do CheFe vertia suas palavras.
— Sejam bem-vindos ao meu barco. Eu vou levá-los para a terra grande, e
certamente vocês manterão sua promessa e me darão um traje voador. Meu barco é
pequeno, e eu espero que todos nós encontremos lugar no mesmo.
Mais difícil era convencer os imbecilizados a abandonarem a terra firme, mas com
muita conversa e um pouco de ajuda, finalmente também isso foi possível. Somente os
dois gentals e Silk desistiram do lugar seco para dormir. Eles se deixaram deslizar,
silenciosamente, para dentro da água, e nadaram mar a fora, deixando a enseada para trás.
Por muito tempo ainda, os que haviam ficado para trás podiam reconhecer as três linhas
duplas paralelas, dentro da água tranquila.
— Será que os veremos outra vez? — perguntou Aidala, baixinho.
Gaddard, que estava parado perto dela, junto à balaustrada de madeira, sacudiu a
cabeça.
— Eles já nos esqueceram agora — disse ele.
***
Com o sol se erguendo nas costas, eles velejaram para o oeste.
Os gentals e Silk tinham aparecido mais uma vez, quando eles manobraram para
fora do porto. Por diversas vezes eles rodearam o barco, dando sons de alegria de si,
como se entendessem o que estava acontecendo. Depois, entretanto, mergulharam e não
reapareceram mais. O elemento natural os reconquistara outra vez, e dificilmente os
deixaria novamente. O seu trabalho para Terra estava terminado.
Renda estava sentado ao leme. Aidala Montehue estava sentada diante dele, num
pequeno barco, tentando conversar com ele. Com a maior simplicidade possível, ela
explicou-lhe o que acontecera e quem eram os fugitivos. Renda parecia entender, apesar
de certamente não compreender tudo. Sua primeira pergunta foi a respeito do traje
voador.
Aidala apontou na direção da escada para a cabine.
— Você vai ganhar o meu traje voador, Renda, logo que alcançarmos a costa. Então
eu não precisarei mais dele. Você precisa colocá-lo e então eu lhe explicarei como ele
funciona. É muito simples. Você vai poder voar. Sem o seu barco, então, você poderá ir
rapidamente de continente a continente para dar uma olhada no seu mundo.
— Para mim será suficiente a ilha. Talvez eu possa sobrevoar a mesma e encontrar
os meus irmãos, se ainda estiverem vivos. Para isso eu queria o traje!
O sol subiu mais, e ficou mais quente. No espaçoso camarote, Hotchka preparou o
peixe pescado por Renda, para uma refeição coletiva. O mar estava liso como um
espelho, e a viagem estava ficando cada vez mais lenta.
O CheFe reuniu-se com Aidala e Renda.
— O motor está em ordem? — quis ele saber do pescador.
— Eu não sei. Há mais de um ano que não o utilizo.
— Está bem, eu tratarei disso. Entrementes você vai recolher as velas.
Gaddard acompanhou o chefe para a diminuta casa de máquinas por baixo do
convés de popa. O recinto estava seco e quente. Eles deixaram a escotilha aberta, para,
pelo menos poderem respirar ar fresco.
O motor em si parecia bom. Gaddard imediatamente começou a examiná-lo. Depois
de algum tempo ele ergueu-se e disse, satisfeito:
— Parece estar em ordem. Por sorte, Renda não tentou usá-lo. Ele não tem um
reator próprio, em contrapartida tem uma excelente bateria atômica, que funciona durante
anos. Logo vamos fazer uma tentativa.
Ele acionou diversos comutadores e depois apertou no botão de partida. O zunido
do interior do bloco gerador ficou mais alto, e no ar fresco que entrava eles se deram
conta de que o barco começara a navegar. Eles treparam para o alto, ao convés.
Renda estava sentado ao leme, boquiaberto, segurando-o firmemente. Sem velas e
sem vento, o barco estava adquirindo velocidade, através da superfície lisa como um
espelho do mar, sempre exatamente para o oeste.
— Deste modo chegaremos amanhã — disse Gaddard, satisfeito. — Renda, quer
que eu tome o seu lugar?
Mas o pescador primeiramente queria gozar bem aquela sensação de navegação
rápida, e recusou, agradecendo. Gaddard não se importou. Deste modo ele podia
interessar-se um pouco mais, pelo motor.
De há muito a ilha vulcânica já sumira atrás do horizonte. Devia haver ainda uns
quinhentos quilômetros até o continente, que agora não era mais um trecho muito grande.
Eles conseguiriam chegar.
Hotchka apareceu na entrada que descia para as cabines.
— Pausa do meio-dia! — gritou ele, ameaçador. — Temos um peixe fantástico!
Com isso, um gole de água fresca, diretamente das fontes do paraíso. Venham, venham,
minha gente, antes que comam tudo!
Renda recebeu sua ração servida ao leme, que ele não queria abandonar de modo
algum. O barco estava viajando bem e tranquilamente, mas mais de uma vez, o
experiente pescador lançou olhares preocupados para o leste. Ali um véu baixo pairava
por cima do horizonte, quase imperceptível, mas sem dúvida alguma presente.
Naturalmente era possível que fossem nuvens de fumaça do vulcão, que se haviam
reunido sobre o mar. Mas também podia ser o primeiro anúncio de um banco de nuvens.
À tarde, as nuvens ficaram um pouco mais escuras.
O CheFe sentou-se ao lado de Renda.
— E então, Renda, o que significa isso? — Ele apontou para o leste. — Vamos ter
tempestade?
— Parece que sim, mas os indícios são diferentes das outras vezes. Não é uma
coberta de nuvens que se eleva por igual, mas apenas uma faixa. Por trás está novamente
azul. Se vier uma tempestade será uma de curta duração. Talvez durante a noite.
— Nós passaremos por ela, sem problemas?
— Com toda certeza, somente as coisas vão ficar um pouco incômodas na cabine.
Somente teremos que cuidar para ficarmos na rota, para que as ondas possam nos
ultrapassar por trás.
O CheFe estava alegre, que o blue aparentemente imbecilizado, ainda era
suficientemente inteligente para dar atenção às mais simples regras de navegação.
A faixa de nuvens alargou-se quanto mais perto chegava. Podia reconhecer-se
nitidamente que ela possuía uma alta velocidade, sendo desfeita por turbilhões, pelo
menos nas suas extremidades.
O mar ainda estava tranquilo, e o sol descia ao encontro do horizonte ao oeste. O
CheFe desistiu do seu plano original de fazer um voo de reconhecimento, com um dos
seus homens normais, no continente. Ele agora precisava ficar a bordo, pois quando a
tempestade os alcançasse, seriam necessárias todas as forças disponíveis para acalmar os
imbecilizados.
Ele não imaginava que alguém aproveitava a tranquilidade, antes da tempestade,
para seus próprios fins...
5

Tschak-Hoa não confiava inteiramente na tranquilidade.


A Gatos Bay tinha pousado, de certo modo, inteira, mas os imbecilizados tinham
invadido a central de comando, deixando também o rádio normal fora de funcionamento.
Naturalmente ele e Serdag tinham conseguido acalmar os homens novamente, mas com
isso não era possível reparar os danos causados. A ligação com a estação da USO estava
definitivamente cortada.
— Muito bem — finalmente ele concordou, porque não tinha outra saída. —
Qualquer um que queira poderá deixar a nave. Mas eu chamo a atenção de vocês, que em
nossa volta só há a floresta virgem. Do alto parecia que o espaçoporto estava diretamente
na costa, mas isso foi uma ilusão de ótica. A costa está a uma distância de cinquenta
quilômetros, e entre ela e nós fica a floresta virgem impenetrável. As estradas de ligação,
que alguma vez existiram, foram reconquistadas pelo mato. Além disso não temos
veículos. O único planador fica comigo, eu não posso entregá-lo a vocês. Portanto, façam
o que quiserem, mas não atentem mais contra a Gatos Bay. Isso está claro?
— Quer dizer que podemos ir? — certificou-se Derks, que mal ainda podia esperar.
— Pelo menos recebemos armas?
— Eu posso dar-lhe três armas de raios de impulsos, para que possam defender-se
dos animais selvagens, que certamente existem no jângal. Mais do que isso não posso
fazer por vocês. Afinal de contas, é decisão própria de vocês de abandonarem a nave, e
vocês podem ficar muito satisfeitos de que eu não registro isso como um motim. Serdag,
entregue-lhes as armas e deixe que saiam da nave. Depois tranque a escotilha externa
novamente.
Isso foi ontem.
Ele e o navegador haviam ficado sentados diante da galeria panorâmica, observando
como os homens, sob direção de Derks e Dusteron, passavam por cima da gigantesca
superfície de cimento armado, na direção dos edifícios baixos, recobertos de cipós e
lianas, atrás dos quais começava a mata virgem. Eles tinham acenado para trás, por
diversas vezes, felizes pela aparente liberdade que haviam reconquistado, depois sumiram
dentro dos edifícios. Ali eles saqueariam, se houvesse alguma coisa para saquear. Depois
seguiriam adiante.
E talvez eles nunca chegariam até a costa, mas seriam engolidos para sempre pelo
jângal insaciável.
Depois de uma noite calma, os dois homens se encontraram na central de comando.
— Eles se foram — disse Serdag. — Eu não vi mais ninguém.
— Eu tenho um outro problema: O que se passa com os homens da USO? Será que
já estão a caminho para cá? Eles querem tomar nossa nave apta para voar. Eles também
são a nossa última esperança, ou você acha que já deveríamos, sozinhos, empreender
alguns reparos? Nós temos as peças de reposição necessárias, para colocar o gerador
novamente em ordem.
— Então vamos começar o trabalho — sugeriu Serdag.
Mais ou menos ao meio-dia apareceram alguns blues na borda do mato. Eles
estavam fortemente armados, e não escondiam que queriam atacar a nave pousada. A
razão estava clara — não havia mais em Pampas nenhuma nave espacial capaz de voar, e
os blues acreditavam que o seu planeta ia acabar. Todos os representantes mais ou menos
capazes de agirem, do seu povo, já haviam fugido, porque não eram mais capazes de
deter e manipular a imbecilização, e agora um resto lastimável procurava pôr-se em
segurança.
A nave dos terranos vinha exatamente na hora certa.
Serdag notou-os quando, na central de comando, olhou para o monitor de vídeo.
Tschak pedira-lhe para que fosse apanhar alguns planos de comutação.
Deviam ser cerca de cem blues que não se davam ao trabalho de se ocultarem.
Desordenadamente eles marcharam, em diagonal, pela pista de partida, e alguns dos blues
agitavam ameaçadoramente suas armas. Só isso já revelava sua imbecilização, pois caso
contrário eles deveriam saber, que em ataque aberto contra a nave, nada poderiam fazer.
Serdag entrou em contato com Tschak, pelo intercomunicador.
— Tschak, aí vêm os sujeitos que querem conquistar a nave. Devo fazê-los correr?
— Blues?
— Naturalmente, blues, talvez uma centena deles. Armados.
— Espere mais um pouco, eu já estou indo. Ainda há tempo?
— Cinco minutos, não mais.
— Vou me apressar. Ajuste o canhão do polo. Com efeito de paralisação.
Serdag tratou disso, do melhor modo que pôde. Era uma sorte que Tschak, nestas
últimas semanas, lhe dera um treinamento completo na utilização dos controles isolados.
Ele aprendeu rapidamente e compreendeu o que já soubera uma vez há dez meses atrás.
Os blues ainda estavam distantes trezentos metros da Gatos Bay, quando Tschak
alcançou a central. Ele anuiu para Serdag.
— Você tem certeza de que eles todos ficaram juntos? Nenhum deles conseguiu,
sem ser visto, chegar para o outro lado da nave?
— Não, eu acho que não.
— Esperemos que não. — Ele assumiu o lugar de Serdag atrás dos controles da
ponte de comando de fogo. — Agora vamos ver se eles sabem correr bem. Eu apenas vou
fazer-lhes cócegas, mais não. Apesar de suas más intenções eu consigo compreendê-los.
Na situação deles, nós agiríamos de modo semelhante, pois eles não podem saber que
nossa Gatos Bay está praticamente sem tripulação, e que nós os levaríamos sem
problemas, se eles se comportassem sensatamente. Atenção, a coisa vai começar...
Os primeiros raios fracos de energia enfeixada abandonaram o canhão do polo,
batendo bem à frente dos blues sobre a superfície de cimento armado, sendo refletidos
por esta, atirando-se por cima das cabeças dos blues que haviam ficado parados, para os
ares. A segunda carga, Tschak ajustou de tal modo que ela passou entre as pernas dos
atacantes surpreendidos. A carga era fraca demais para provocar paralisações de longa
duração, ou mesmo provocar inconsciência. Os blues receberam simplesmente fortes
choques elétricos.
Alguns deles viraram-se para uma fuga, correndo na direção da mata virgem, ao
mesmo tempo em que jogavam fora as suas armas.
Alguns ficaram parados, enquanto outros corriam — na direção da nave. De uma
distância grande demais eles abriram fogo com suas armas manuais.
— Eles não aprendem ou não querem aprender — gritou Tschak, enraivecido. Neste
caso, vamos ter que fazer-lhe umas cócegas um pouco mais fortes. — Ele acionou os
controles e esperou, até que o grosso dos atacantes estivessem exatamente dentro da
cruzeta de mira, depois apertou o botão de fogo. — Alguns vão ter dores de barriga,
receio eu.
Desta vez o efeito do fogo defensivo parecia diferente que antes.
Alguns dos que tinham recebido impactos diretos, jogaram-se ao chão, rolando para
saírem do círculo de efeito do raio energético enfeixado: Se eles conseguiam isso, a dor
passava imediatamente. Agora mostrava-se quem ainda possuía uma centelha de
inteligência e quem não a tinha. Os mais espertos desandaram em fuga, enquanto os
absolutamente imbecilizados renovavam os seus ataques.
Tschak cobriu-os com salvas bem miradas, que naturalmente não feriam ninguém,
mas repetidamente provocavam dores insuportáveis. Também os mais intransigentes
fugiram, enquanto aqueles que tinham saído correndo antes já tinham alcançado a borda
da floresta.
Serdag riu.
— Uma coisa dessas eu ainda nunca tinha visto, Tschak. Atacam com algumas
armas manuais uma nave espacial, da qual não sabem como está equipada, nem quem
está por trás dos controles. Do mesmo jeito poderíamos ter matado a todos.
— Que sentido faz matá-los, quando também obtemos resultados assim? O
principal, afinal, é que eles certamente não voltarão mais.
— Vamos esperar que sim. De qualquer modo vamos ter que ficar à espreita. Aliás,
nós devíamos fechar a eclusa de desembarque. Ela ainda está aberta.
— Por que isso?
Serdag hesitou.
— Desde ontem, já, Tschak. Agora eu me lembro. Eu fiz os outros saírem da nave
por ali, e como o ar fresco me fez bem, eu pensei...
— Não faz sentido você pensar demais, meu caro. Durante a noite, dúzias de blues
poderiam ter se esgueirado para dentro da nave, e nos matariam. — Ele examinou alguns
controles e sacudiu a cabeça. — Tele-acionamento não funciona. Você vai de volta ao
recinto do gerador e espera por mim ali. Não toque em nada. Dentro de uma hora teremos
embutido o novo módulo de reposição, e se nada se interpor poderemos partir. O projetor
linear então deveria funcionar novamente. Somente com a pilotagem individual instalada
a coisa ainda não vai bem. Eu receio que tudo isso foi instalado por mim de um modo um
tanto leigo, mas nós vamos conseguir fazer isso funcionar. Muito bem, então até lá...
Serdag voltou para o interior da nave, onde estavam os recintos dos propulsores,
enquanto Tschak tomava o elevador que o levava para a parte inferior da nave espacial
globular. Ele notou que estava ficando mais quente, quanto mais ele se aproximava da
escotilha aberta. Ela ficava entre os apoios telescópicos na parte inferior da Gatos Bay,
somente poucos metros acima do chão. Por sorte Serdag tinha, pelo menos, recolhido a
escada novamente, de modo que não era fácil para alguém embarcar. Ele teria, no
mínimo, que voar.
Foi um descuido de Tschak, não levar uma possibilidade dessas em consideração.
***
Haigra Whuy deixou-se levar, pela sua aparelhagem de voo, muito longe para o
norte, quase até a cidade, depois mudou de rota e voou para o oeste, ao encontro do
distante continente. O que ele planejava, também poderia ter executado junto com seus
ex-amigos, mas as observações do CheFe o haviam chateado. Naturalmente ele não
pensava em ajudar o seu povo, que estava na miséria. Pensava apenas em si mesmo.
Queria ter a nave pousada dos terranos somente para si, apesar de não ter ainda a menor
ideia do que poderia fazer com ela.
Naturalmente ele também fora treinado como piloto, mas certamente era uma coisa
bem diferente, ter somente uma parte da tripulação, ou então poder contar apenas consigo
mesmo. O seu único pensamento era para a nave, da qual queria apossar-se.
Depois de poucas horas — já era noite — ele alcançou a costa e atravessou algumas
cidades. Ninguém o notou, pois não havia mais nenhuma vigilância aérea. Em quase
todos os lugares viam-se luzes acesas, portanto a alimentação energética ainda
funcionava. Mesmo assim ele não precisava temer uma descoberta. Os imbecilizados
agora tinham outras preocupações.
Agora ele voou novamente para o sul, sempre ao longo da costa. Então viu as luzes
de aproximação do espaçoporto, que ficava a cinquenta quilômetros da costa, bem no
meio da floresta. Ele o conhecia de antigamente, e teve facilidade de orientar-se, não
levando em conta que o negror da noite era interrompido em espaços regulares por outros
fogos direcionais. Haigra Whuy sabia disso, e despreocupadamente modificou a rota mais
uma vez, e voou para o oeste, onde devia ficar o espaçoporto.
Ele o encontrou antes da alvorada, mas levou mais tempo, até que descobrisse a
nave totalmente sem iluminação.
Por quase uma hora ele se manteve no ar, apesar de ter que contar com a
possibilidade de ser rastreado. Então se diria um dos homens da estação e esperaria por
uma oportunidade apropriada, para eliminar o resto da tripulação imbecilizada.
Se ele, entretanto, não fosse notado — tanto melhor!
Lentamente deixou-se descer mais, até que pousou suavemente no polo superior da
Gatos Bay. Desligou o aparelho e se manteve quieto e na expectativa. Na nave nada
parecia se mexer. Estava claro para ele que, da sua posição atual, não poderia empreender
nada, mas talvez o acaso viesse em seu auxílio. Durante duas horas ainda haveria
escuridão.
Pouco antes do sol subir no horizonte, ao leste, ele decidiu tomar a iniciativa. Pelo
menos, na parte inferior da nave, não seria descoberto tão depressa. Se Haigra tivesse
imaginado que teria que enfrentar apenas dois adversários ainda, a sua decisão, um pouco
mais tarde, certamente teria sido diferente. Deste modo, ele deslizou por entre os suportes
telescópicos e pousou no solo, exatamente embaixo do centro da nave espacial globular.
Mais uma vez ele permaneceu quieto, até poder ter certeza de que ninguém o
notara, e somente depois olhou em volta. A luz das estrelas empalidecia visivelmente,
porque clareava no leste. Talvez o CheFe e seus acompanhantes já tivessem saído para o
mar, talvez também não. De qualquer modo eles chegariam aqui tarde demais. Quando
tivesse penetrado na nave, poderia impor suas condições, se é que ele entrasse em
negociações. Mas antes de amanhã, ou depois de amanhã, os terranos não poderiam
chegar aqui.
Ele olhou para cima e descobriu a escotilha de embarque aberta.
Por um momento achou que seu coração ia parar. Ele estava acocorado durante
horas embaixo da nave, imaginando como poderia entrar, e cinco metros acima dele uma
escotilha estava bem aberta.
Não havia meio de chegar no alto, se não se tivesse uma escada. O casco era liso
demais, de modo que também os apoios telescópicos de nada adiantariam, e aliás, um
deles estava a uma distância de pelo menos vinte metros. Portanto lhe restava apenas a
aparelhagem de voo.
Ele ligou-a e esperou que os membros da tripulação estivessem dormindo
profundamente, tendo desligado todos os aparelhos de rastreamentos. O zunido do seu
aparelho naturalmente era inaudível, mas a radiação energética podia ser medida e
goniometrada, por aparelhos sensíveis.
Lentamente ele pairou para o alto, para a escotilha aberta, e para dentro da eclusa de
ar. Imediatamente desligou a aparelhagem novamente, e ficou parado sem se mexer,
espreitando
Não se ouvia nenhum som.
Lá fora apagaram-se as últimas estrelas. Logo subiria o sol, e ele, Haigra Whuy,
tinha conseguido penetrar na nave dos terranos.
Agora restava apenas verificar quantas pessoas se encontravam a bordo. Ele teria
que terminar com elas, antes que chegassem o CheFe com seus acompanhantes. Se eles o
descobrissem aqui, o liquidariam certamente, pois oficialmente ele não fazia mais parte
do seu grupo. Apesar de sua dispensa informal, aos olhos deles, ele devia ser um desertor.
E um mentiroso e um enganador, ainda por cima. Ele refletiu sobre a melhor
maneira de prosseguir. Fazia pouco sentido, logo no início do novo dia, andar pelos
arredores desconhecidos, para recolher informações. Dentro de poucos minutos a
tripulação poderia acordar, e começaria com o serviço. Mesmo imbecilizados eram um
perigo, se o vissem. E pelo menos ao que sabia, ainda permaneciam a bordo, pelo menos
duas pessoas, que ainda tinham o seu juízo original.
Ele olhou em volta, dentro da eclusa de ar, para encontrar um esconderijo, no qual
pudesse ficar as próximas horas, sem correr perigo. Ele decidiu-se pela câmara de
equipamento, logo perto da câmara da eclusa de ar, que com esta era ligada por uma porta
estreita.
Tratava-se de um recinto relativamente pequeno, no qual estavam guardados
ferramentas e trajes espaciais. Como a nave pousara num planeta de atmosfera respirável,
dificilmente haveria perigo de que alguém pusesse os pés nesta câmara. Em Pampas
ninguém precisava de trajes espaciais.
Haigra trancou a porta e procurou um lugar adequado onde pudesse dormir um par
de horas. A arma de raios de impulsos, ele colocou cuidadosamente ao alcance da mão.
Se alguém pusesse os pés no recinto não teria mais tempo para fechar a porta novamente
de fora.
Morreria antes disso.
***
Tschak passou pela eclusa e ficou parado diante da escotilha aberta. A escada havia
sido recolhida, conforme Serdag dissera. O comandante curvou-se para fora do oval, e
olhou para baixo. Não conseguia descobrir nenhum blue. Também não viu quaisquer
rastros, sobre o cimento-armado empoeirado, dos homens que tinham abandonado a
nave.
Tranquilizado, ele voltou para a eclusa. Com poucas manipulações ativou os
controles manuais, e lentamente a escotilha fechou-se. Com um ruído surdo, ela trancou-
se.
Tschak ficou parado. Era uma sensação estranha, essa que lhe viera repentinamente.
Parecia-lhe que estava sendo observado, apesar de ninguém estar dentro da eclusa. Sua
mão deslizou para dentro do bolso do uniforme, e voltou novamente trazendo a arma de
agulhas de raios. Ele a olhou, depois sacudiu a cabeça, de má vontade.
— Besteira, os meus nervos estão brincando comigo — opinou ele, e foi até a
parede para ligar o intercomunicador. A tela de imagem acendeu-se, mas não se podia ver
Serdag. — Ei, Serdag, onde você se meteu?
O navegador apareceu um segundo depois diante da câmera.
— Aqui, Tschak. O que aconteceu?
— Eu fechei a escotilha de desembarque, portanto ninguém mais poderá entrar na
nave. Entretanto, talvez alguém já esteja dentro dela.
— Impossível, nós o teríamos notado!
— É mesmo, nós o teríamos notado? A instalação de alarme não estava ligada. E
nós dois dormimos. E deve estar claro para você, que não vamos poder descobrir o
sujeito tão depressa. Ele pode manter-se escondido durante semanas, se quiser.
— Você confunde suposições com fatos. Acaba ficando maluco também! Tschak,
como é que alguém poderia ter penetrado na nave? Você teria descoberto os seus rastros.
— Eu também não vi os rastros de nossa gente. Mas isso não é uma prova, Serdag.
— Venha logo, nós precisamos terminar a troca. Faltam ainda algumas ligações e
vamos poder partir. O controle do distribuidor está em ordem, você mesmo disse isto.
— Está bem, eu já vou. Mas deixe o intercomunicador ligado. Agora vamos deixá-
lo ligado em toda a nave, para que tenhamos um controle. Está tudo em ordem, além
disso?
— Tudo em ordem, chefe. Estou esperando.
Tschak anuiu e foi até a porta. Quando passou diante da segunda porta, que levava a
câmara de equipamentos, ele parou. Olhou para a superfície lisa e depois para a tela de
vídeo, onde pôde reconhecer Serdag, que o observava atentamente. A sensação de não
estar totalmente sozinho deu-lhe coragem e enxotou os pensamentos sombrios, que
tinham tomado conta dele.
Deu um passo à frente e abriu a porta, com um giro da alavanca da fechadura. Ele a
abriu com um pontapé, e ao mesmo tempo destravou sua arma de raios de
agulha, que apontou para a escuridão que via diante dele. Não podia ver
nada, pois estava na luz da eclusa de ar, um bom alvo para alguém que
estivesse, eventualmente, na pequena câmara.
Bem no fundo, Tschak estava convencido de que ninguém
estava aqui. Jamais ele reagira a “sensações” ou
“imaginações”, ou mesmo se dirigira de acordo com
elas, mas desta vez as coisas pareciam bem diferentes.
Já quando Serdag lhe confessara que deixara a
eclusa de desembarque aberta, fora atingido por
uma estranha sensação. Ele não pudera definir a
mesma, nem mesmo agora, quando o seu
destino se decidia.
Pois quando Haigra Whuy viu a arma de
agulha na mão do terrano, ele apertou no
disparador da sua arma de raios de impulsos.
Tschak-Hoa morreu na eclusa de ar.
***
Serdag foi testemunha da morte do
seu comandante.
Sem nada poder fazer, ele teve que
ver como Tschak foi atravessado e morto
por um fino feixe energético. Mas o
atirador ele não conseguiu reconhecer nos
monitores de vídeo do intercomunicador. Ele se mantinha escondido na escuridão da
câmara de equipamentos, e também não apareceu depois que Tschak caiu ao chão, e
evidentemente estava morto. A porta permanecia aberta.
— Seu patife, seu sórdido assassino! — berrou Serdag, numa raiva e num desespero
incontroláveis. — Por que você o matou, por que? Nós o teríamos levado conosco se
você quisesse, mas agora tome cuidado! Eu vou achá-lo, ainda que tenha que procurar
por você durante anos, dentro da nave. E de dentro da nave, meu caro, você não sai mais!
Eu vou trancar todas as eclusas positronicamente! Você está preso — e eu vou matar
você! Algum dia eu vou matar você, ainda que seja no espaço linear!
Nenhuma resposta seguiu-se.
Serdag correu para o anexo, onde estava o distribuidor. Daqui podiam-se efetuar
determinados comandos, do mesmo modo que da central de comando. Com uma
manipulação ele trancou as escotilhas. Ninguém poderia abandonar ou entrar na nave, se
antes não se tivesse feito o necessário contato positrônico.
O assassino estava preso.
Depois Serdag foi à central de comando, para ir buscar sua arma manual de raios.
Ele sabia onde o invasor permanecia, e se ele não chegasse muito tarde, ainda o agarraria
hoje.
Quando ele literalmente fumigou a câmara de equipamentos, com certeiros
enfeixamentos energéticos, apoiado num ângulo seguro, achou que já chegara mais perto
de seu objetivo, mas quando depois examinou o pequeno recinto, não encontrou nada.
O assassino o havia abandonado em tempo, e encontrara um outro esconderijo para
ficar.
Serdag sabia que, deste modo, começava um mortal jogo de esconde-esconde, mas
ele estava decidido a levá-lo até o seu amargo fim.
6

A tempestade alcançou o barco de Renda, pouco depois da meia-noite.


O pescador e Hotchka tinham amarrado o leme e ficaram no convés, enquanto os
outros tentavam ficar o mais comodamente possível dentro da cabine. O céu ficara negro,
não se via uma única estrela. As primeiras ondas alcançaram o barco e o fizeram cavalgar
em cima delas. Algumas quebravam-se em cima do convés, molhando os dois homens no
leme.
Aidala tentava ininterruptamente acalmar os imbecilizados, que somente entendiam
dificilmente o que se passava a sua volta. Do bolso da jaqueta do CheFe, Kalcora dava
conselhos ininterruptamente, que teriam levado a catástrofes, se tivessem sido seguidos.
O CheFe deixou-o falar, mas quando as primeiras ondas gigantescas rolaram por cima do
barco, e eles precisavam de todas as atenções para não sofrerem danos, ele puxou o zíper
magnético e prendeu o siganês dentro do bolso. Podia-se ouvi-lo, abafadamente,
continuando a sua arenga dentro do bolso fechado.
O CheFe subiu para o convés de popa. Quando a tempestade o agarrou ele teve que
segurar-se em tudo que tinha à disposição, na balaustrada e nas edificações, para não ser
arrancado de cima de bordo. Hotchka e Renda tinham se amarrado. O banco de nuvens
agora estava diretamente em cima deles, mas muito longe no horizonte leste já se podia
reconhecer um brilho claro novamente. A tempestade não duraria mais por muito tempo.
— Como estão as coisas, Renda? — O CheFe teve que berrar com toda a força de
sua voz, mantendo a boca bem próxima dos órgãos de audição do blue, para que este o
entendesse: — Vamos conseguir nos safar?
— Eu acho que sim! — berrou Renda de volta.
O barco continuava singrando bastante bem. A faixa clara no leste ficou
visivelmente mais larga. E se o CheFe não se enganava, a força do vento já estava
amainando um pouco.
— Hotchka, como está se sentindo?
O especialista em transmissores estava calmo.
— É uma coisinha diferente — opinou ele, gritando. — Um bom esporte!
O CheFe riu, como um cabrito, e voltou para a cabine.
Ele comunicou aos outros que em menos de uma hora eles podiam contar com o fim
da tempestade. E foi exatamente assim que aconteceu, porém mal as ondas começaram a
ficar um pouco menores, quando do convés da popa ecoou o grito de alarme de Hotchka.
Gaddard subiu rapidamente, quando o CheFe lhe fez um aceno correspondente. Quando,
dentro de poucos segundos, ele voltou, parecia muito pálido.
— Uma maré de águas-vivas — ou coisa parecida. Ela passará por cima de nós!
— Maré de águas-vivas? O que quer dizer isso? — O CheFe passou por ele e subiu
para o convés. — O que está acontecendo, Renda?
O blue apontou, mudo, para o leste.
A faixa clara no horizonte se alargara e alcançava até o zênite. Mas o CheFe
também viu outra coisa, que antes não estivera ali. Exatamente ali, onde o oceano parecia
se juntar com o céu, havia uma faixa negra, que visivelmente ficava cada vez mais alta, e
era limitada por uma coroa de espumas no alto.
Uma onda de preamar, ainda alguns quilômetros afastada, e pelo menos com vinte
metros de altura, se a impressão não o enganava. Ela teria que enterrar o pequeno barco
sob suas águas. O CheFe teve apenas poucos segundos para tomar uma decisão. Ele
curvou-se para baixo, para junto de Renda.
— A cabine é mais ou menos impermeável?
O blue disse que sim.
— Vocês precisam somente fechar a porta por dentro e prestar atenção para que
também a escotilha para a casa de máquinas esteja fechada. Nós no leme estamos
amarrados, e podemos sustentar a respiração pelo tempo necessário. O ar existente no
barco, novamente nos carregará para cima, como um balão. Não pode demorar mais de
um minuto.
O CheFe examinou os cabos, com os quais os dois se haviam amarrado. Eles
estavam firmes e seguros. Depois trancou a escotilha que ia dar na casa de máquinas e
voltou para a cabine. Da escada, ele olhou mais uma vez para o leste.
A onda sísmica, provavelmente originada por um tremor submarino, tinha ficado
mais e mais alta, com uma velocidade sinistra. Bem no alto, brilhava a espuma branca. A
onda propriamente dita parecia uma parede negra, que se aproximava ameaçadoramente,
trazendo a desgraça consigo. O mar diante dela parecia correr ao seu encontro.
O CheFe não perdeu mais tempo. A onda deveria alcançar o barco em poucos
minutos. Ele saltou para baixo, para dentro da cabine e fechou a porta. Ela consistia de
madeira grossa e suportaria a pressão. Importante apenas era que ela também fosse grossa
nas suas bordas. Mas mesmo se a água penetrasse lentamente, o barco deveria subir mais
depressa do que o recinto se poderia encher.
Por cautela, o CheFe e Gaddard ainda fixaram algumas tábuas em cruz diante da
porta, depois se ocuparam com os imbecilizados. Eles tiveram que se deitar nos beliches
existentes, onde eram amarrados, o melhor possível. Aidala ajudou-os nisso. Só então
houve tempo para olhar para fora, através das pequenas escotilhas laterais.
O paredão negro agora já quase alcançara o barco. Ele parecia da altura de uma
casa, mas já não era mais tão vertical como antes. Ao contrário, a parte dianteira da
parede de água, tinha pelo menos quarenta e cinco graus de inclinação. Portanto, se eles
tivessem sorte o barco ficaria acima da água pelo menos até o começo da zona das
espumas. Em contrapartida havia o perigo de virar. Mas Renda tinha garantido que graças
à grande espadana e da quilha maciça, virar o barco seria impossível, mesmo durante uma
tempestade forte.
Primeiro foi uma sensação de que eles estavam sentados num elevador, que
repentinamente deslizou para cima, depois as massas de água quebraram sobre eles,
brancas e espumantes. Por um instante, o pequeno barco se transformara em submarino,
que simplesmente era arrastado pela grande onda sísmica. Ele não virou, mas lutou para
chegar rapidamente à superfície. Através das frinchas da porta entrou água, mas antes que
a situação pudesse ficar ameaçadora, lá fora, diante das escotilhas, ficou claro novamente.
O barco atingira a coroa de água e escorregou pela parte traseira do paredão de água,
novamente para baixo.
Aqui o mar estava quase tranquilo.
O CheFe abriu a porta e correu degraus acima.
Renda e Hotchka estavam sentados nos seus lugares, tentando ganhar ar. Eles
tinham vencido bem aquele mergulho surpreendente.
Parecia até que a gigantesca vaga marinha tivesse aplainado o mar. Tranquilo e
garantido, o barco deslizou para o oeste. No céu viam-se as estrelas, mas elas já
empalideciam. No leste, anunciava-se o levantar do sol.
— E então, Hotchka, como foi?
— Molhado — retrucou o terrano. — Por tanto tempo, em toda a minha vida, eu
não retive a respiração — mas fora disso foi realmente divertido. Quando vem a próxima
onda?
Novamente o CheFe riu, como um cabrito, e penetrantemente. Hotchka, que se
soltara das cordas, tampou os ouvidos, horrorizado.
— Precisava isso, CheFe? O senhor sabe que eu sou muito sensível.
Renda desfizera os nós do cabo. Ele fez algumas práticas de afrouxamento.
— Basta que um, sozinho, tome conta do leme. Eu vou mandar render vocês dois
por Gaddard. Hotchka, o senhor seca as suas coisas, depois veste o traje de combate. Nós
dois, de manhã, vamos fazer uma pequena excursão.
— Comando de reconhecimento, CheFe?
— Tem razão. Precisamos conseguir certeza sobre o destino da nave.
Pouco mais tarde, Gaddard estava sentado junto ao leme, olhando ininterruptamente
para o oeste, onde logo ele devia ver surgir as terras do continente.
***
Eles voavam pouco acima da superfície da água, que agora já se tinha aquietado
bastante. O banco de nuvens já tinha desaparecido, há bastante tempo, no oeste, e a
tempestade devia ter penetrado no continente.
— Espero que ele não tenha virado a nave — disse Hotchka pelo rádio. — Neste
caso, estamos liquidados.
— Uma nave espacial globular, de cento e vinte metros de diâmetro, não vira tão
facilmente — tranquilizou-o o CheFe, que voava a poucos metros do engenheiro. — Mas
podem ter acontecido outras coisas. Nós mesmos sabemos muito bem o que os
imbecilizados são capazes de perpetrar.
Era uma sensação maravilhosa, voar adiante, sem peso, apenas sustentado por
campos antigravitacionais e propulsão a jato. Por baixo deles estava a superfície azul do
mar, diante deles a faixa escura da terra firme. O barco, abaixo deles, era apenas ainda
um ponto diminuto no infinito.
Mas a ligação pelo rádio funcionava sem problemas.
— Tudo em ordem, Aidala?
— Nós já podemos avistar terra. Dentro de duas ou três horas a alcançaremos.
— Ótimo. Até lá estaremos de volta, e teremos feito o reconhecimento do caminho,
que precisamos tomar, para chegar à espaçonave. Nós vamos chamar a cada meia hora.
A terra aproximou-se rapidamente e logo eles voaram por cima do cinturão do
quebra-mar. A costa, muito íngreme, tinha amortecido a onda sísmica, porém viam-se
claramente grandes rochas isoladas partidas, em águas baixas, que formavam novos
arrecifes. O barco de Renda não teria facilidades para aportar aqui. Talvez mais tarde
ainda houvesse tempo para descobrirem um seguro porto natural, onde pudessem ir a
terra sem perigo.
E então veio a floresta virgem. Algumas estradas ainda podiam ser reconhecidas do
ar, mas eles não viram nem veículos nem blues. Uma vez apenas, Hotchka parecia ter
avistado um grupo de homens ou blues, mas quando eles desceram mais, as criaturas que
andavam eretas desapareceram na mata fechada.
Diante deles surgiu a superfície comprida do espaçoporto, e pouco mais tarde eles
descobriram a nave.
— Talvez dê certo com nossos aparelhos sonoros — achou Hotchka. — Mesmo que
no cargueiro estejam quebrados os aparelhos de rádio, eles pelo menos terão trajes
espaciais com rádios de capacete a bordo. Eu acho que é arriscado demais, simplesmente
chegarmos lá, sem mais nem menos... — Ele hesitou e olhou para o CheFe. —
Especialmente por sua causa, CheFe.
O CheFe riu.
— Oh, sim; está falando devido minha aparência? — Mais uma vez aquela risada de
cabrito, meio divertida, meio condescendente. — Vocês terranos ainda não conseguiram
vencer o seu passado? Palavras, às quais hoje se dão um sentido completamente
diferente, ainda despertam em vocês lembranças de acontecimentos de há muito
esquecidos, que aliás sempre foram mal-entendidos. Vocês se agarram em símbolos que
há muito tempo não são mais aquilo, e que talvez jamais o tivessem sido. Oh, não, eu não
terei considerações com isso, e neste caso especial, de modo algum. Os homens daquela
nave precisam de nós, como nós precisamos deles. Nós faremos com eles um negócio,
que é vantajoso para ambos os lados — e o senhor ainda acha que eu devo me esconder?
— Não foi isso que eu quis dizer, CheFe. Eu pensei apenas nas pessoas dentro da
nave. Eles não o conhecem, CheFe, e quando o avistassem, podiam fazer determinadas
associações de ideias, que naturalmente estariam completamente erradas.
O CheFe não se importou mais com as observações de Hotchka. Ele ligou a
radiofonia novamente e chamou a nave. Pediu o comandante para responder, depois ligou
em recepção.
No fone de ouvidos só se ouvia um crepitar, mais nada.
Eles o tentaram em outras frequências, e para não esquecer nada, o CheFe
transmitia enquanto Hotchka ficava permanentemente em recepção.
Nada. O silêncio continuou.
Se na nave tudo estivesse em ordem, certamente alguém já se teria feito notar,
mesmo sem aparelhagem de rádio. Havia muitos outros meios.
Mas não aconteceu nada.
O CheFe olhou para o relógio.
— Dentro de uma hora nosso barco terá chegado à costa, e até então precisamos
estar de volta, para ajudar os outros no perigoso desembarque. Mas eu não queria sair
daqui sem saber o que aconteceu. Vamos nos aproximar mais da Gatos Bay, talvez ainda
descubramos uma escotilha aberta.
Depois de alguns passos, Hotchka de repente parou.
— Frequência normal, CheFe. Alguém está chamando. Passe para recepção.
Nos seus alto-falantes de capacete, havia uma voz humana um pouco indistinta e
desfigurada. Ela dizia, várias vezes, um nome — Serak ou Serdag — e pedia por
confirmação. Segundos mais tarde o contato foi estabelecido.
O navegador informou, em poucas palavras, o que acontecera; depois concluiu:
— Eu ainda não consegui apanhar o assassino, mas isso não vai demorar. A nave
está a sua disposição. Devo abrir as escotilhas?
— Nós temos que voltar para a costa, e não podemos estar aqui antes de amanhã de
manhã. Mesmo assim, abra as escotilhas, para que o assassino possa escapar. Logo que
ele estiver do lado de fora, poderá liquidá-lo.
— Ele dificilmente vai querer abandonar a nave.
— Mesmo assim, terá que experimentá-lo, Serdag.
Neste momento um outro transmissor se meteu no meio. Era a voz de Haigra Whuy,
que intervinha.
— Naturalmente eu vou ficar na nave, CheFe. E se o senhor quiser alguma coisa
terá que negociar comigo. Está claro?
O CheFe olhou para Hotchka significativamente, depois respondeu, baixinho:
— Então é o senhor, Haigra? O senhor invadiu a nave e matou o comandante. Saia
daí de dentro e desapareça. Nós não vamos condená-lo, apesar de eu ter este direito,
como comandante de uma estação da USO.
O blue riu, zombeteiro.
— Direito, quem é que está falando aqui de direito? Eu tenho a vantagem, e isso é o
direito! Vá buscar a sua gente imbecilizada, se acha que pode ajudá-los. Eu o preveni, por
diversas vezes, mas o senhor não quis me ouvir.
— É que então eu ainda não sabia que é um traidor, Haigra. Tome muito cuidado
comigo!
— Eu o espero amanhã — disse o blue e desligou.
Por um momento o CheFe esperou, antes de dizer:
— Serdag, o assassino do seu comandante é um blue, um ex-membro de nossa
estação. O senhor recebe de mim carta-branca para matá-lo. Ele é um assassino de
sangue-frio. Tenha muito cuidado.
— Não se preocupe — respondeu o navegador. — Amanhã quando chegarem aqui,
a nave lhes pertencerá. Eu não a quero mais. Eu vou ficar aqui, para me ocupar dos meus
camaradas, que estão andando pela floresta.
— Essa será sua decisão própria, Serdag.
— Até amanhã — disse Serdag, e também desligou.
O CheFe e Hotchka ativaram os aparelhos de voo, para voltarem para a costa.
O barco estava justamente se aproximando da zona de rebentação externa.
Serdag era suficientemente esperto para não revelar a sua vantagem pelo rádio, mas
a sua confiança tinha base. Enquanto Haigra falava com o CheFe ele pudera goniometrar
a sua posição.
O assassino do seu amigo Tschak escondera-se numa das cabines da tripulação.
Serdag examinou os monitores de vídeo, mas não era simples para ele, achar
rapidamente o certo. Finalmente, depois de quase uma hora, ele descobriu o blue num
outro recinto. Portanto ele mudara de lugar, por precaução. Ele estava sentado numa das
pequenas cantinas, mexendo no seu traje de combate. Provavelmente havia um defeito,
que ele procurava sanar.
Serdag ficou sentado tranquilamente, observando-o. Diante dele, sobre a estreita
mesa de controle, estava a sua arma de impulsos energéticos, devidamente destravada.
Com ela, quando chegasse o momento, ele mataria o traidor e assassino.
Haigra, ao que ele via, havia terminado o conserto. Ele recostou-se e fechou,
cansado, seus quatro olhos. Sua atitude mostrava claramente que ele pretendia dormir.
Provavelmente, na noite passada não tivera um minuto de repouso.
Serdag esperou, até estar mais ou menos seguro que o blue realmente adormecera,
depois pegou a arma de raios e abandonou a central de comando, depois de havê-la
trancado cuidadosamente.
Ele precisou de quase dez minutos, até chegar à cantina. A porta estava aberta, um
fato que ele não percebera pelo intercomunicador. Isso, na realidade, era muito leviano da
parte do blue, e pela primeira vez Serdag teve a ideia de que estava entrando numa
armadilha, refinadamente colocada.
Ele hesitou.
Um especialista da USO — e isso, afinal de contas, esse Haigra havia sido — não
era tolo, conhecia todos os truques. Ele talvez soubesse que Serdag o havia
goniometrado, e observado pelo intercomunicador. Ele sentou-se na cantina, deixou a
porta aberta, adormeceu aparentemente — e esperou pelo seu adversário, para
surpreendê-lo.
Não comigo, pensou Serdag e apontou a arma de raios para a abertura, através da
qual ele agora teria que passar. Eu finalmente encontrei você, e não tiro mais os olhos de
você. Espere...
O blue não estava mais na cantina. O recinto estava vazio.
Serdag viu-se logrado. O blue fora mais esperto do que ele. Ele escolhera um novo
esconderijo, além disso sabia com certeza que podia ser observado pelo
intercomunicador. E ele se comportaria correspondentemente.
E a isso se acrescentava ainda um outro problema. O blue agora estava em algum
lugar, à espreita, esperando por ele. Serdag não podia saber onde ele esperava...
***
— Existe uma passagem estreita, isso pudemos ver de cima — disse Hotchka para
Renda, que segurava o leme firmemente.
— Um pouco mais para a esquerda, sim, está certo assim. Reduza a velocidade do
motor.
Entrementes, Renda já sabia novamente lidar com o motor. Ele diminuiu a
velocidade do barco, e levou-o para a direção indicada por Hotchka. Entre a arrebentação
branca podia reconhecer-se um lugar calmo. Ali a água devia ser mais profunda, e
portanto menos perigosa.
Aidala, entrementes, estava fazendo um pacote do seu traje de combate. Ela
explicara a Renda as funções da aparelhagem de voo e tinha esperanças de que ele
soubesse manipular o mesmo. De qualquer modo ele receberia o presente que lhe fora
prometido.
A arrebentação ficou para trás, à direita e à esquerda. Era possível ver o fundo do
mar, muitos metros abaixo da quilha. A água, apesar da tempestade noturna, era
incrivelmente clara. Diante da costa rochosa estendia-se uma larga faixa de areia,
coalhada de rochas isoladas. Não seria difícil encontrar um lugar apropriado para o
desembarque.
Cinco ou seis metros distante da margem, a quilha enterrou-se firmemente na areia.
O barco ficou um pouco emborcado. Renda jogou a âncora e desligou o motor. Ele
espreguiçou-se.
— Conseguimos — verificou ele, satisfeito.
— Você ainda tem a viagem de volta diante de si — lembrou-lhe o CheFe, quando
todos estavam reunidos no convés. Ele entregou-lhe o pacote feito por Aidala. — E aqui
está o seu pagamento, Renda. Você pode experimentar o traje voador, logo que
estivermos em terra. E mais uma vez muito obrigado por tudo. E nós esperamos que você
encontre seus irmãos e sua mãe. Tudo de bom, para o seu povo.
— Eu nunca me esquecerei de vocês — prometeu o blue, curvando-se. — Agora eu
sei que aparência exterior de uma criatura tem muito pouco a ver com sua alma, seu
caráter e seus valores interiores. Eu sou grato a vocês — e tudo de bom.
Eles entraram na água pouco profunda e foram até a margem. Mesmo os
imbecilizados não causaram mais problemas.
Eles viram a terra segura, e seguiram, obedientes, todas as ordens.
Encontraram um caminho de subida cômodo, sem perigo, que seguiram. Meia hora
mais tarde eles se viram muito altos, sobre a costa que se estendia quase em linha reta,
olhando para baixo, para a praia, onde Renda estava ocupado com a colocação do seu
traje de combate. Ele não queria esperar com o experimento até chegar à ilha.
— Será que ele vai conseguir? — perguntou Gaddard.
— Nós treinamos muito, mas a técnica de voo propriamente dita naturalmente eu só
pude ensinar-lhe teoricamente — explicou Aidala, um pouco insegura. Na realidade a
manipulação dos controles é fácil até mesmo para uma criança.
Lá embaixo Renda deu alguns passos, ao mesmo tempo que mexia nos controles no
cinturão. De repente ele foi atirado com uma velocidade incrível para o alto, passando
com enorme aceleração bem perto do grupo espantado. Hotchka, que ainda envergava o
seu traje de combate, perguntou:
— Devo ir atrás dele, para que ele não quebre o seu pescoço?
— Espere mais um pouco — disse o CheFe, interessado.
Renda era apenas um pontinho no céu azul ainda, mas depois logo ficou maior
novamente. Em voo controlado, ele aproximou-se do costão íngreme, ainda deu algumas
voltas, mostrando com isso que começava a dominar a técnica de voo. Lentamente ele
desceu mais, voou ora mais depressa ora mais devagar, depois pousou habilmente perto
do grupo dos seus espectadores.
— Excelente! — elogiou Aidala, batendo no ombro do pescador. — Você aprendeu
depressa.
— Uma sensação maravilhosa — retrucou Renda, colocando a mão novamente nos
controles de voo. — Eu sou-lhes muito grato, muito agradecido...
E já ele estava voando, com alta aceleração, mar a fora, desaparecendo em direção
leste. Desta vez ele não voltou logo. O CheFe chamou para a partida.
— Não podemos perder tempo, pois ainda faltam cinquenta quilômetros. Eu acho
que na estrada vamos encontrar alguns veículos, que não pudemos ver de cima. Neste
caso, chegaremos antes de escurecer. Esse tal Serdag está sozinho na nave com Haigra, e
cada um deles só tem um pensamento — matar o outro.
Eles marcharam para dentro da floresta, que começava a apenas cem metros
adiante, e seguiram uma estrada que somente estava fechada novamente pelo mato nas
laterais. No meio não havia obstáculos. A estrada levava exatamente para o oeste.
Derks tinha definitivamente tomado a chefia sobre o grupo perdido dos ex-membros
da tripulação. Dusteron se submetia a ele sem resistência, enquanto Semmka, de vez em
quando, se rebelava violentamente, até que Derks o aconselhou que ficasse para trás.
Semmka seguiu o conselho. Ele ficou para trás e seguiu o grupo numa distância de
algumas centenas de metros.
Uma vez eles encontraram alguns blues, que imediatamente abriram fogo com suas
pequenas armas de raios de mão. Estabeleceu-se um verdadeiro combate, que entretanto
terminou quando um animal bastante grande, e de aparência perigosa, saltou de dentro do
mato bem entre os dois partidos inimigos. Mostrou seus enormes dentes de animal
predador, emitindo um berro assustador, que pelo menos nos blues causou um efeito
imediato. Eles desistiram da luta e saíram correndo de volta, pelo caminho pelo qual
tinham vindo.
Derks gritou para a sua gente:
— Fogo concentrado em cima da fera! Mas façam boa mira!
Os imbecilizados pelo menos ainda sabiam atirar, todo o resto eles haviam
desaprendido. Cegamente eles seguiram a ordem, e abriram fogo sobre o animal
selvagem estranho, que parecia uma mistura entre tigre e crocodilo. Os primeiros raios
enfeixados de energia o acertaram nas costas e na cabeça. O berreiro parou
imediatamente, depois o monstro virou-se para a fuga, perseguido pelos uivos de triunfo
dos atiradores.
Mais confiantes agora, eles continuaram sua marcha de aproximação para o leste.
Era um plano vago de Derks, alcançar a cidade mais próxima, para ali saquear os
negócios. Ele esperava não ter dificuldade de enfrentar os blues imbecilizados.
Durante a noite eles deixaram um trecho grande para trás, mas então foram
surpreendidos pela tempestade. Na borda do mato eles encontram alguma proteção da
fúria da natureza estranha e dormiram um par de horas. Quando acordaram, tudo estava
quieto, e no leste alvorecia.
Eles continuaram marchando, mataram um pequeno animal, que simplesmente
assaram por cima de um fogo rapidamente aceso, para logo devorá-lo. Quando o sol
descia no horizonte ao oeste, eles tinham deixado quase quarenta quilômetros atrás de si.
E então viram, bem longe à sua frente, na estrada, um movimento.
Um grupo de criaturas humanóides vinha ao seu encontro.
Derks estava convencido de ter diante de si, novamente, os blues que errava por ali,
e mandou que seus companheiros tomassem cobertura. Ele olhou em volta. De Semmka
não se via mais nada, eles deviam tê-lo perdido durante a noite. Talvez também o animal
ferido o tivesse atacado e dilacerado.
Eles esperaram.
Quando o grupo se aproximou mais, e quando Derks reconheceu melhor o
comandante, sentiu um frio na espinha. Seu punho segurou firme a arma de raios de
impulsos, como se quisesse esmagá-la. Ele não ousava dar a ordem para abrir fogo, e isso
não apenas devido a estranha figura que vinha na frente.
Derks reconheceu os acompanhantes.
Em sua maior parte eram terranos.
Ele fez um sinal a sua gente, para que se conservassem quietos. Talvez não fossem
observados, e passassem por eles, na direção oeste. Esta seria a melhor solução. E se eles
fossem descobertas, talvez não houvesse animosidade. Por que terranos iriam atirar em
terranos?
Somente a figura sinistra na ponta dava alguma dor de cabeça a Derks. A figura lhe
parecia conhecida, como se ele já a tivesse visto certa vez em algum lugar, mas ele não
podia mais se lembrar onde.
Quando os estranhos chegaram à mesma altura, o comandante parou. Os que
seguiam também pararam.
Depois a misteriosa figura disse em voz alta e claramente:
— Vocês não precisam esconder-se, nós já os descobrimos há bastante tempo. Se
quiséssemos, poderíamos ter surpreendido e matado vocês, mas essa não é nossa
intenção. Venham até aqui, nós queremos conversar.
Ainda enquanto falava pousou perto dele um terrano, num traje de combate. Ele
desligou o aparelho de voo.
Derks sabia que eles haviam sido observados do ar. Ele levantou-se e saiu do seu
esconderijo. A arma, ele mantinha para baixo.
— Quem é o senhor? — perguntou ele, hesitante. — Quem são os terranos?
— Nós somos a equipagem de uma estação da USO. E vocês? Eu suponho que
encontramos a gente da Gatos Bay, não é verdade? Serdag informou-me que vocês
queriam ficar aqui, em Pampas? Muito bem, então bom divertimento.
— Nós vamos ficar! — Derks estava firmemente decidido. — O senhor não poderá
nos impedir disso.
— Esta não é absolutamente minha intenção. Nós queremos chegar à Gatos Bay
para tentar abandonar este planeta com ela. Qual é a distância, daqui até o espaçoporto?
— Nós marchamos o dia inteiro e também durante toda a noite. É muito longe. O
Comandante Tschak vai ficar contente em receber uma nova tripulação.
— Tschak está morto. Um blue que invadiu a nave o matou. Serdag agora é o
comandante.
Derks não se importou muito com a notícia.
— Não me diga, Tschak está morto? Ele devia ter prestado atenção no que nós lhe
dizíamos. — Ele acenou para os seus homens, que lentamente saíram dos seus
esconderijos. — Nós podemos seguir caminho?
O CheFe anuiu.
— Ninguém está detendo vocês — disse ele, não dando mais atenção a Derks,
quando novamente ele se pôs em marcha.
— Boa sorte em Pampas.
Derks ainda olhou algum tempo atrás deles, depois disse aos seus acompanhantes:
— Vamos em frente, pessoal. Até a cidade mais próxima não deve ser muito longe.
Eles prosseguiram, ao encontro da noite.
Uma noite que talvez, para eles, não tivesse mais fim...
7

No outro dia eles alcançaram a margem do espaçoporto, e do terreno que se via dali.
Eles tinham marchado toda a noite e somente uma vez tinham feito uma curta pausa de
descanso, que Hotchka usara para apanhar frutas, e matar um animalzinho, que parecia
ser comestível. Eles naturalmente ainda tinham consigo alimentos concentrados, mas
ninguém tinha nada contra um bom pedaço de carne fresca.
A algumas centenas de metros de distância, estava pousada a Gatos Bay.
O CheFe ligou o aparelho de radiofonia do seu traje e chamou Serdag, na onda
conhecida. Porém, mesmo depois de diversas tentativas, ele não obteve resposta.
O navegador não respondia.
— Será que aconteceu-lhe alguma coisa? — Gaddard estava de pé ao lado do
CheFe e olhava para a nave, enquanto os outros se haviam sentado no chão morno de
cimento armado, para descansarem. A marcha tinha deixado todos exaustos. — Haigra
não é fácil de ser enganado.
— É bem possível. Eu já me censurei várias vezes por deixar Serdag sozinho com o
blue dentro da nave, mas eu precisava de todos os que haviam permanecido normais, para
conduzir nossos protegidos pela floresta virgem. Espere aqui, eu mesmo vou tratar desse
assunto.
— O senhor está querendo entrar sozinho na nave? — Hotchka ouvira as palavras
do comandante e se aproximara. — Isso nem se discute, CheFe! Se quiser ir, eu o
acompanharei.
— De qualquer modo seria perigoso demais, querer entrar na nave sem prévio
contato com Serdag, ainda que alguma escotilha esteja aberta. Muito bem, então vamos
— ou melhor, vamos voar.
— Serdag abriu algumas escotilhas de entrada, isso pode-se ver mesmo aqui.
— Isso também pode muito bem ter sido Haigra, para nos atrair a uma armadilha.
Mas logo o saberemos.
Gaddard e Aidala tranquilizaram os terranos imbecilizados e os dois blues. O CheFe
e Hotchka destravaram suas armas, ligaram os aparelhos de voo, e depois velejaram
diretamente na direção da Gatos Bay, sempre esperando que alguém abrisse fogo da
nave.
Mas não aconteceu nada, e também de Serdag não havia sinal de vida.
Diversas escotilhas estavam escancaradas.
Eles pousaram suavemente na eclusa superior, logo abaixo do canhão polar. Era
apenas uma pequena eclusa de emergência. De acordo com a experiência, ela era usada
só muito raramente, mas já por várias vezes dera mostras de sua necessidade.
Os aparelhos emudeceram. Dentro da nave tudo estava quieto, na medida em que
eles o podiam verificar. Não havia qualquer luz na apertada câmara, mas isso não
significava muita coisa. Serdag dissera apenas que iria abrir algumas escotilhas, nada
mais.
A questão era, apenas, por que ele não dava notícias. Ele talvez temesse o
rastreamento, pelo blue invasor?
— Vamos — disse o CheFe. Eles tinham deixado a radiofonia de há muito em
recepção, para não revelar-se com uma transmissão involuntária. — E se avistar Haigra,
atire. Ele é um desertor, um traidor e um assassino. Ele merece a morte.
— Sem um julgamento legal...
— Pare com isso, Hotchka. Ele já teve um julgamento legal, ou seja o meu, que
tenho carta-branca para anunciar a pena e executá-la. E eu, comandante da Central
Estelar Blue-Sul, Cheborparczete Faynybret, o condenei à morte. Isso está claro?
— O senhor será responsável por tudo, CheFe.
— Correto, e também pela vida de nossos colaboradores, não importa a que povo
pertençam. Mas agora venha, Hotchka, caso contrário ainda estaremos parados aqui
amanhã, discutindo sobre o emprego da lei em planetas estranhos e seus casos de exceção
extremos. Nós precisamos da nave para chegarmos à Quinto-Center.
Eles se encontravam na parte superior da astronave globular, a mais de cem metros
acima da superfície de cimento armado do espaçoporto. A central de comando da nave
ficava cinquenta metros abaixo deles, no centro da esfera, que representava um mundo
em si mesmo. Era necessário rebuscar mais de meio milhão de metros cúbicos — sem
auxiliares técnicos, um empreendimento quase irrealizável, se o acaso não viesse em sua
ajuda.
O elevador levou-os mais para o interior da nave, e eles puderam aproximar-se da
central de comando, sem serem impedidos. A porta não estava trancada
positronicamente; conforme o CheFe já temia em segredo, ela, inclusive, estava
escancarada.
Por trás, ouviu-se um ruído. Que veio da própria central.
O CheFe anuiu para Hotchka e o deixou passar. Com a arma de raios pronta para
atirar, ele o seguiu, dando-lhe ao mesmo tempo cobertura de costas, caso houvesse um
ataque de outra direção. Com Haigra era preciso contar-se com todos os truques mais
pérfidos.
Hotchka viu um homem caído ao chão, dentro da central, e evidentemente ele não
era um blue, e sim uma criatura humana. Ele parecia estar ferido gravemente, pois com o
que lhe restava de forças ele tentava chegar até o seu traje espacial, que estava
dependurado no braço de uma poltrona, a poucos metros de distância dele, quase ao
toque de sua mão. Mas o homem não o conseguiu. Era evidente que ele queria ativar a
aparelhagem de rádio do traje.
Hotchka fez um aceno para o CheFe.
— Um homem gravemente ferido, provavelmente Serdag. Ele queria entrar em
contato conosco, mas é incapaz disso. Haigra atirou nele, mas não o matou: ele quis
avisar-nos, mas está incapacitado para isso. Haigra o baleou, mas não o matou.
O CheFe ficou alguns segundos mudo, depois murmurou:
— Não sem motivo, Hotchka. Tenha cuidado! O senhor pula para dentro da central
de comando e imediatamente se joga ao chão, rola para o lado, e imediatamente atira em
tudo que se mexer — exceto, naturalmente, em Serdag. Eu o sigo, exatamente meio
segundo depois.
Hotchka entendeu o que o CheFe presumia.
Ele anuiu e aprontou-se para o experimento.
Por algumas vezes respirou fundo, antes de correr para o pulo, e aterrissar bem no
meio da central. Sem tocar o chão com os pés, ele logo deixou-se cair, rolando para o
lado, rápido como um raio, escorregando depois para baixo de uma das inúmeras
poltronas anatômicas. Ele virou-se e arrancou a arma para o alto.
Mas já era tarde demais.
O CheFe o seguira, conforme prometera. Silenciosamente ele entrara no recinto.
Haigra Whuy achara que fora excepcionalmente esperto, quando apenas ferira
Serdag, arrastando-o até a central de comando onde o deitara no chão. Ele achou-se mais
esperto ainda, quando se escondeu, bem próximo, dentro da central de rádio, para esperar
pelos terranos. Pelos terranos e pelo odiado CheFe, que não era um terrano.
O seu plano deu certo — até uma pequena coisinha.
Ele tinha subestimado o seu professor.
Quando Hotchka rolou dentro da central de comando, Haigra saltou para a frente,
arrancou a arma para cima, e apontou-a para Hotchka. Então ouviu o ruído da esquerda, e
viu, com o canto dos olhos, o movimento. Por um segundo apenas, sua atenção foi
desviada, mas isso foi o suficiente para dar um fim à sua vida.
O CheFe o matou com um tiro.
***
Levou horas até que todos tivessem sido instalados e distribuídos seguramente nas
cabines. Uma verificação dos víveres constatou que havia suficientes. Também água
havia em quantidade suficiente, de modo que eles não precisavam preocupar-se em
nenhuma circunstância. Gaddard ocupou-se com a central de rádio, e após um curto
exame afirmou que aqui o esperava a tarefa de sua vida. Entretanto ele estava convencido
que era capaz de reparar os danos maiores. Talvez, ao que deixou transparecer, até lhe
seria possível colocar o transmissor de hiper-rádio novamente em funcionamento. Porém,
para isso ele ainda precisava de algumas peças de reposição, que ele esperava poder
encontrar nos depósitos.
Hotchka ajudou o CheFe a consertar a propulsão e suas funções. Eles encontraram
as comutações primitivas de Tschak, que ele instalara para poder voar a nave sozinho.
Fácil certamente não seria, de manejá-las, mas na emergência elas seriam suficientes,
aliviando consideravelmente o trabalho dos fugitivos durante o voo.
Aidala cuidou de Serdag, na pequena enfermaria da Gatos Bay. Ele estava
novamente consciente e podia responder às perguntas. O próprio CheFe ocupou-se disso,
depois que Hotchka lhe garantiu que podia examinar sozinho as instalações de controle.
— E então, Serdag, como está se sentindo? Aidala acha que o senhor está
melhorando.
O navegador sacudiu a cabeça, quase imperceptivelmente.
— O senhor não precisa se incomodar comigo. Eu sei muito bem que não escapo
desta, pois para isso cuidou esse blue. Ele me usou como isca para o senhor.
— Ele já foi castigado, Serdag. E o senhor vai sobreviver.
— Não, com toda certeza não. Eu conheço a enfermaria desta canoa aqui.
Praticamente não há medicamentos, nada de instrumentos, e nenhum banco de plasma,
nada. Não, os senhores não vão conseguir me tirar dessa.
— Nós vamos voar para Quinto-Center, e lá...
— Lá o inferno está solto — era isso que queria dizer, não? — Serdag mais uma
vez sacudiu a cabeça. — Vamos aproveitar as últimas horas de minha vida. Como o
senhor disse que se chamava? CheFe? — Ele sorriu, num esgar. — Não me queira mal,
mas por que o senhor não assumiu logo um outro nome? Como Satã. Ou Belzebu. Isso
também soa bem bonitinho, não?
O CheFe não parecia ofendido.
— Por que não logo Diabo? — quis ele saber, suave.
— Sim. Por que não logo isso aí?
Aidala olhou interrogativamente para o CheFe, mas o comandante da estação
destruída da USO sacudiu a cabeça. Isso aqui era assunto seu, e ele não queria negar a um
moribundo a sua última vontade. Ele ainda deveria ser informado profundamente.
— O meu povo já conhece as viagens espaciais há muitos milênios, meu amigo, e
foi por puro acaso que os terranos nos descobriram. Foi um choque para eles, mas
naquela ocasião, Perry Rhodan foi suficientemente inteligente para esclarecer-nos as
coisas. O senhor deve imaginar que estou me referindo à nossa aparência exterior. O
senhor pode imaginar que nossa primeira aparição na Terra, há quase três mil anos,
provocou diversas consequências? Muitas vezes fomos vistos, naquela ocasião, por
homens ainda primitivos, e mais de um dos nossos foi apanhado e morto. O seu medo
pânico do desconhecido obrigava-os a isso, bem como sua superstição e a sua falta de
saber. Nós tivemos que esperar muito tempo, até que os homens ficassem ajuizados,
muito tempo. E às vezes até parece que nós ainda não esperamos tempo suficiente.
Serdag estava deitado, muito quieto nos seus travesseiros. Um sorriso apareceu no
seu rosto pálido, marcado pela morte. Quando ele dizia alguma coisa, o CheFe tinha que
inclinar-se para ele, para poder entendê-lo.
— Eu sempre imaginei isso — Diabo. Nenhum acontecimento pode ser sem causa,
nenhuma saga sem origem. Quer dizer que vocês nos visitaram, naqueles tempos, no
primeiro milênio?
— Muito antes disso, mas depois voltamos outra vez. Porém o mundo se tornara
mais escuro e pior. Nós perdemos toda a esperança de encontrar uma Humanidade
ajuizada, e nos retiramos. Somente agora, no quarto milênio, depois de um milênio e
meio de viagens espaciais interestelares dos Homens, parece ter surgido o tempo da
tolerância e do entendimento. Hoje posso caminhar na Terra, sem me tornar suspeito de
ser uma criatura malévola — somente porque tenho uma aparência diferente daquela dos
outros homens.
Serdag sorriu. Ele somente murmurava ainda.
— Eu quero dormir, CheFe. E se desta vez eu sonhar com pegadas de cascos e de
pequenos cornos acima de sua testa, isso não me inquietará mais... e isso eu agradeço ao
senhor. Eu lhes desejo um bom voo para Quinto-Center... passem muito bem, todos
vocês....
Aidala empurrou o CheFe para o lado, e ocupou-se com seu paciente.
— Ele adormeceu, mas não sobreviverá às duas próximas horas. Haigra fez um
trabalho completo.
O CheFe ficou parado na porta.
— Por isso ele agora está queimando no inferno — disse ele, aferrado, e ao sair, ele
bateu uma vez, furioso, com o casco direito no chão.
***
Eles trabalharam em conjunto na troca do gerador que já se encontrava em seu lugar
e que precisava apenas ser ligado ainda. O esquema de comutações os ajudou muito
nisso, não levando-se em conta, ainda, que o CheFe tinha à sua disposição dois
excelentes especialistas, em relação aos quais Tschak e Serdag seriam apenas amadores.
No dia 15 de outubro do ano 3.441, contagem de tempo terrano, a Gatos Bay estava
pronta para partir.
Serdag, entrementes, falecera devido aos seus graves ferimentos. Se tivesse havido
medicamentos correspondentes e meios cirúrgicos, Aidala teria podido salvar a sua vida.
Deste modo, entretanto, ela teve que assistir passivamente, como Serdag morria. Ela
pudera apenas aliviar suas dores, só isso.
O CheFe tomou lugar atrás dos controles. À direita e à esquerda dele estavam
sentados Hotchka e Gaddard. Aidala ficou junto dos outros, nas cabines.
— Muito bem, então vamos experimentar — disse o CheFe.
— Talvez não vamos conseguir subir nem dez metros...
— Eu estou convencido de que vamos conseguir partir — retrucou Hotchka.
Gaddard manteve-se em silêncio. Ele observou a tela de vídeo, como se quisesse
despedir-se de um mundo que por muitos anos fora sua pátria, ainda que praticamente
ninguém sabia que ele vivia ali.
O CheFe ligou os campos de antigravidade e olhou, muito tenso, para os ponteiros
dos instrumentos de controle. A nave tornou-se sem peso. Em seguida, os apoios
telescópicos foram recolhidos — e a Gatos Bay pairou livremente por cima do campo de
concreto armado.
— E agora a propulsão — disse o CheFe e ativou o contato correspondente.
Imediatamente começou a vibrar levemente sob os seus pés. — Eu vou puxar o manche
de acionamento de partida somente um pouquinho para a frente e ligo a partida vertical.
— Atenção!
E agora a Gatos Bay subia, ainda que com pouca aceleração, na vertical para o céu
azul. O espaçoporto ficou para trás, completamente visível e menor ao mesmo tempo. Ao
noroeste podia reconhecer-se uma cidade, bem perto da costa, e ligada por estradas ao
espaçoporto. Depois surgiram outras cidades, ao norte, no oeste e no sul. Ao leste ficava
o mar, e muito longe, no horizonte, já a ilha vulcânica. Talvez Renda já a tivesse
alcançado com o seu barco...
— A propulsão normal funciona sem problemas, achou o CheFe e puxou o manche
de aceleração mais um pouco para a frente. A Gatos Bay acelerou mais fortemente, e
logo a superfície de Pampas arredondou-se.
Graf-Tita, o sol amarelo, escorregou lentamente para a esquerda no monitor da
televisão. Automaticamente fecharam-se os filtros, mas Pampas continuou visível.
— Parece muito bem — disse Hotchka, mas ninguém sabia se ele estava falando da
propulsão da nave ou da fantástica visão que se lhe oferecia.
O CheFe, de qualquer forma, achou que ele falara da propulsão.
— Sim, realmente parece muito melhor do que eu pensava. Mas ainda não
experimentamos a propulsão linear, e foi esta que teve problemas. Se nós ligamos tudo
corretamente, na realidade não pode acontecer mais nada. O que há com os cálculos de
rota, Gaddard?
— Elas estão em ordem. O Sol está a 42.528 anos-luz de distância; Quinto-Center,
entretanto fica a apenas 13.703. Conforme combinamos, eu apenas calculei e programei a
rota até Quinto-Center. A primeira etapa linear será de apenas cem anos-luz de distância.
O resto, se tudo estiver em ordem, nós deixaremos para trás em três ou quatro etapas, que
eu entretanto somente calcularei a partir de nossa nova localização.
— Entendido. — O CheFe olhou para Gaddard. — O senhor devia ter se tornado
um navegador e não apenas um especialista de hiper-rádio. Aliás, como está o aparelho?
— Bastante demolido, CheFe. Eu consegui descobrir algumas peças de reposição,
mas ainda não examinei o que precisa ser trocado. Talvez consigamos arrumar o receptor,
ele foi o menos destruído. Com o transmissor não tenho tanta certeza, mas eu acredito
que dentro de um ou dois dias, já saberemos mais.
A Gatos Bay ficava cada vez mais rápida, e logo alcançou os limites do sistema
Graf-Tita. A velocidade era suficiente para dar início à primeira etapa linear, e com ela o
experimento decisivo.
O CheFe anuiu para os dois homens, e colocou a mão próximo do botão vermelho.
Se ele o apertasse, o automático programado começaria a funcionar, e ninguém, então,
poderia fazer com que o processo começado pudesse retroceder.
— Dentro de um minuto...
O CheFe apertou o botão.
— E agora, mais exatamente, cinco minutos — acrescentou ele. — O processo está
em andamento.
Os instrumentos de controle não mostraram nenhuma interferência.
Há muito tempo o planeta Pampas tinha sumido por trás do sol amarelo. Diante da
nave estava o cosmo com suas distâncias inconcebíveis e os incontáveis mundos e
civilizações, que em parte ainda esperam para serem descobertos.
— Mais sessenta segundos — Hotchka interrompeu o silêncio.
E então chegara o momento.
A Gatos Bay entrou no espaço linear, deste modo deixando o Universo normal. As
estrelas se apagaram, dando lugar a um brilho avermelhado.
— Até agora tudo transcorreu conforme o programado — verificou o CheFe. — Eu
acho que nós somos uns técnicos até bem passáveis.
— Hum... — fez Hotchka, ligeiramente ofendido.
O CheFe ligou o intercomunicador.
— Alô, Aidala, o que há de novo, aí com a senhorita?
O rosto da plofosense apareceu no pequeno monitor.
— Os dois estão dormindo, CheFe. Todos com saúde aqui. Como é que estão as
coisas, aí com o senhor, na central de comando?
— Ótimo. Nós já estamos no espaço linear. Eu acho que vamos conseguir o que
queremos.
— Quinto-Center?
— Sim, o destino original. Mas ninguém pode saber o que nos espera ali —
provavelmente o caos. Vamos tentar ajudar. É nosso dever. A desgraça que caiu sobre
nós atingiu a todos, e não apenas aos terranos. Só agora vamos ver o quanto nós estamos
amadurecidos, como somos progressistas e inteligentes. Eu vejo nisso uma espécie de
provação, um marco de viragem. Ninguém pode saber o que existe por trás disso, e nem o
que nos vai trazer o futuro. Porém, mesmo nosso pequeno destino em Pampas, nossas
vivências pessoais, demonstraram que os povos desta galáxia devem se unir, e que um
não pode mais viver sem o outro, quando o tempo do isolamento tiver passado. Aidala,
eu estou contente que a temos conosco.
Ela riu.
— Isso é uma declaração de amor, CheFe?
— Acho melhor que não, mas é um elogio.
— Então estou mais tranquila. Quanto tempo falta para termos certeza,
definitivamente? Quero dizer, quanto a propulsão linear?
O CheFe riu, como um cabrito.
— Dentro de dez minutos a primeira etapa terminará. Enquanto isso ainda pode
adivinhar seus enigmas, minha cara...
Dez minutos. Dez segundos...!
A nave caiu de volta ao espaço normal, as estrelas ficaram visíveis outra vez. E já à
primeira vista a galeria panorâmica mostrou estrelas e constelações estranhas. Um
segundo olhar para os mapas, lhes deu certeza.
Eles tinham conseguido!
A Gatos Bay, em menos de uma hora, tinha deixado cem anos-luz para trás.
O destino, Quinto-Center, portanto deixava de ser uma vaga possibilidade para
tomar-se uma certeza.
O CheFe recostou-se na sua poltrona e espichou as pernas.
— Nós merecemos uma pausa de descanso, Gaddard, o senhor mais tarde poderá
calcular a segunda etapa e programá-la. Porém deixe-se tempo — pois tudo que temos é
tempo. — Ele levantou-se. — Eu vou me deitar, por uma hora. O senhor fica aqui?
— Sim, CheFe. — Hotchka sorriu. — E durma bem, CheFe. A criatura, que andava
ereta, parecendo um grande bode, que em vez de pele tinha um pelo duro, permeado de
branco, tinha cascos nos pés, e sempre tinha chateações com seus cornos curtos — sorriu
de volta.
— É melhor não dormir, Hotchka, caso contrário eu o mato com um tiro, em
sonhos...
Quando a porta se fechou, Gaddard disse, pensativo:
— Você tem sorte, Hotchka, porque ele é um diabo bom...
Hotchka olhou para as telas da galeria panorâmica.
— Talvez nem existam diabos ruins, Gaddard. Não devemos acreditar em tudo que
as pessoas dizem...
A Gatos Bay caía, sem propulsão, através do espaço. Dentro de poucos dias eles
alcançariam Quinto-Center. Faltavam apenas mais três etapas lineares...

***
**
*

O comandante da Gatos Bay alcançou o fim de sua


viagem. Ele está morto — e um outro assume a sua
nave. Este outro, trata-se de Cheborparczete Faynybret,
chamado de CheFe, quer tentar alcançar Quinto-
Center.
Ele não imagina que o Quartel-General da USO é
O Lugar dos Condenados...
O Lugar dos Condenados é o título do próximo
número da série Perry Rhodan.
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