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SANDAL,
O VINGADOR

Autor
HANS KNEIFEL

Tradução
AYRES CARLOS DE SOUZA

Revisão
ARLINDO_SAN
(De acordo, dentro do possível, com o Acordo Ortográfico válido desde 01/01/2009)
Na Terra, os calendários registram meados de novembro
do ano 3.441. Com isso passou-se praticamente um ano, depois
do dia em que a catástrofe abateu-se sobre quase todos os
seres inteligentes da galáxia.
Ainda não existe qualquer perspectiva de impedir o voo
do misterioso “Enxame” através da galáxia, ou então de
anular o retardamento das inteligências da maioria dos seres
viventes, ocasionado pela manipulação da constante
pentadimensional, ocasionada pelo “Enxame”.
Perry Rhodan e seus companheiros imunes, entre os
quais se encontram Atlan, Gucky e muitos velhos conhecidos,
não deixam de experimentar nada, para conseguir uma pista
para resolver o mistério do “Enxame”. Apoiado pela
Intersolar, a nave-capitânia de Reginald Bell, o
Administrador-Geral permanece quase constantemente, com a
sua Good Hope II, nas proximidades do “Enxame”, para
colher informações e fazer investigações.
Agora, porém, o cruzador de Perry Rhodan tomou outra
posição. Um grande objeto voador que, junto com muitos
outros objetos, abandonou o “Enxame”, para voar na direção
de determinado planeta, está sendo rigorosamente observado,
porque eles querem saber o que os estranhos estão procurando
no mundo dos “Guardiões da Solidão”.
Um homem da tripulação de Perry Rhodan quer sabê-lo
ainda mais exatamente. Ele se recusa a voltar à Good Hope,
pois tem planos muito especiais para com os estranhos vindos
de dentro do “Enxame” — ele é Sandal, o Vingador...

======= Personagens Principais: = = = = = = =


Perry Rhodan — O Administrador-Geral espera pelo regresso
de um bárbaro.
Sandal Tolk — Sua missão é a vingança.
Chelifer Argas — Uma mulher terrana se interessa por um
bárbaro.
Atlan e Icho Tolot — O arcônida e o halutense voam
novamente para o planeta Teste Rorvic.
Ninfon, Psofis, Psilida e Malkostraker — Alguns dos novos
amigos de Sandal Tolk.
1

Chelifer Argas, a psicóloga de robôs, de vinte e dois anos de idade, tinha uma voz
incomum, baixa e aveludada. Durante o voo a moça praticamente não chamara atenção
— ela se movimentava constantemente através da nave, controlando calmamente, sem
chamar atenção e muito habilidosamente, todas as instalações cibernéticas, especialmente
as servo-máquinas e os robôs. Agora ela estava sentada na central, em cima de uma pilha
de caixas chatas, amarradas ao chão. A nave ainda parecia mais que sobrecarregada com
provisões e objetos de equipamento, apesar de já se verem alguns claros pelos cantos.
Chelifer lançou um olhar para o cronômetro de bordo e disse:
— Hoje registramos o dia onze de novembro. Há quatro dias Sandal está lá
embaixo, no planeta. O senhor não pretende fazer nada, Mister Rhodan? Ainda mais que
também o senhor afirma que simpatiza muito com Sandal.

Perry Rhodan sorriu, quase imperceptivelmente. Ele respondeu, cauteloso:


— Correção — eu tenho muita simpatia por ele, uma “simpatia” bem diversa da
sua, menina. Não se preocupe. Eu vou fazer alguma coisa.
— Que ótimo. E o que o senhor vai mandar fazer?
Havia uma ligeira irritação nas palavras da moça. Ela tinha uma presença marcante,
com seus cabelos prateados cortados curtos e seus olhos verdes. Desde que Sandal viera
para bordo, mais ou menos em meados de outubro, alguma coisa se modificara para ela.
Pelo menos, era o que ela imaginava.
Atlan, o arcônida, brincava com uma das pedras malofagon, uma coisa redonda, que
tinha um diâmetro de cerca de cinco centímetros, desviando-se ligeiramente do formato
globular, sendo recoberta de uma padronagem curiosa de pequenas veias e entalhes.
— Nosso comando regressou porque não queremos arriscar nada — disse ele,
observando a moça cuidadosamente. Somente agora, depois de melhor olhado, quando o
rosto fino mostrava vida, é que se descobria como Chelifer realmente era bonita. Atlan
tinha um olhar muito agudo, quando se tratava de beleza feminina.
— Mas Sandal arriscou muita coisa — retrucou Chelifer. — Por que, aliás, o senhor
permitiu que ele ficasse para trás, em Teste Rorvic?
Icho Tolot riu de maneira trovejante, lembrou-se — como sempre que ria —, que
sua risada fazia mal aos ouvidos dos outros, e moderou-se.
Ele disse:
— Menininha — ninguém permitiu nada! Sandal tem sua vontade própria. Eu quase
diria que ele é excepcionalmente teimoso. Um traço de caráter que até agora só pude
constatar em terranos, e em povos que lhes são aparentados.
Rhodan girou sua poltrona, apertou uma tecla, e falou, na direção do microfone:
— Fala Rhodan. Estou chamando o rastreamento. A resposta veio segundos depois.
— Fala Alaska Saedelaere. Está precisando do que, chefe?
Alaska, o homem com a máscara, atrás da qual podia ver-se as reverberações
luminosas, apareceu no pequeno monitor.
— O que é que conseguimos ficar sabendo, entrementes, a respeito dessa nave, que
saiu de dentro do “Enxame”?
Alaska respirou fundo, e resumiu. Ele disse, à meia-voz:
— A espaçonave estranha, que rastreamos, e que desde então perseguimos
incessantemente com os instrumentos do telerrastreamento, aproxima-se mais devagar do
que havíamos esperado originalmente. Ela executou uma série de saltos e entre os saltos
sempre ficou bastante tempo no espaço normal.
“Até mesmo daqui, ou seja, da região nas proximidades do sol amarelo Estrutura-
Alfa, ela pode ser vista nitidamente. A nave se aproxima de Teste Rorvic, sob as maiores
medidas de cautela, exatamente como nós.”
Chelifer ergueu a mão e interrompeu o terrano magro. Ela perguntou, agitada:
— Existe a possibilidade de voar com um jato para Rorvic, para buscar Sandal de
lá? Nós temos chances, num empreendimento desses?
Alaska não precisou refletir. Ele já se colocara esta pergunta por diversas vezes, nos
dias passados. Também ele era fascinado por este jovem, que fazia perguntas
ininterruptamente e aprendia depressa.
“Ele aprende como um selvagem”, pensou Alaska, ironicamente.
Também ele gostava de Sandal. Provavelmente não havia ninguém a bordo que não
gostasse do jovem bárbaro.
— Se o fator tempo representa alguma coisa, — retrucou Alaska, — naturalmente
não seria muito ousado. Além disso, podemos entrar em contato com Sandal.
Rhodan quis saber:
— Quanto tempo precisa a nave para chegar ao planeta — levando em conta que
continue tão lenta como até agora?
— Três dias, chefe! — disse Saedelaere. — Levando em conta que não acelere.
— Maravilhoso, meus pequenos terranos! — berrou Icho Tolot. — Nas situações
mais complicadas, ainda fazem piadas! Eu amo vocês todos!
— Isso é mútuo! — comentou Alaska.
Todos eles já haviam passado juntos por uma tão grande quantidade de problemas e
aventuras, que achavam que já conheciam tudo, e nada mais poderia surpreendê-los.
Entre eles desenvolveu-se uma amizade que era extraordinariamente imune a desgastes, e
assim sempre continuaria.
Sem esperar por maiores explicações, Atlan disse, à meia-voz:
— Por amor à senhorita, Chelifer. Eu vou tentar partir com um jato, para buscar
Sandal. Concorda?
Chelifer anuiu e perguntou:
— Vai me levar também?
— De maneira nenhuma! — interveio Rhodan, cortante. — De modo algum! Nós
nos juramos que nunca mais vamos nos arriscar a nada, desnecessariamente. E sua
participação seria um risco absolutamente desnecessário. Eu respeito sua simpatia para
com ele, mas isso eu não posso arriscar.
A moça encolheu os ombros, murmurou alguma coisa que ninguém entendeu e
depois anuiu:
— Atlan?
O arcônida girou a cabeça e olhou para a figura do gigante halutense, formidável,
sentado imóvel na sua poltrona especial. Ele encontrou um olhar pensativo e de algum
modo desafiante, naqueles olhos brilhantes, e sabia o que isso queria dizer.
— Sim?
— Eu gostaria de ir, para tirar Sandal do meio daqueles robôs!
— Não tenho objeções — disse Rhodan, encolhendo os ombros.
A Good Hope II, uma nave que levava um nome famoso e que de certo modo
procurava repetir a missão de sua antecessora, ainda que sob condições radicalmente
diferentes, tinha se afastado do planeta Teste Rorvic, devido à cautela observada
geralmente, e tinha se colocado a alguns anos-luz de distância, nas proximidades de um
pequeno sol amarelo, cuja corona e cromosfera mostravam uma padronagem esfarrapada,
que justificava o nome que lhe fora atribuído: Estrutura-Alfa. O hiperrastreamento, que
tinha velocidade ultraluz, perseguia a espaçonave estranha em sua rota na direção do
planeta, que era tão assombrosamente semelhante à Terra.
Rhodan refletiu. Ele se abstinha de censurar os homens do comando — afinal de
contas ele dera ordem para a partida, — mas este segundo voo, que se seguiria agora, na
realidade era desnecessário.
Eles não deviam ter deixado Sandal Tolk para trás em Rorvic — ele não devia tê-lo
ordenado.
Estas censuras eram justificadas. Devia ser possível convencer Sandal Tolk. Ele
simplesmente tinha desaparecido, tinha se afastado do jato e do comando e ficara para
trás. Era impossível imaginar-se o que não aconteceria, se esta nave realmente pousasse
no planeta, e ali colocasse a aparelhagem, como acontecera no planeta pátrio de Sandal.
Os pequenos purpurinos o venceriam — a superioridade numérica faria isso, apesar de
suas flechas certeiras.
Sandal, com o coral redondo, vermelho, no lóbulo da orelha!
Um jovem decidido e simpático. Sua nova vida tinha começado com sua entrada na
eclusa da Good Hope II. Rhodan ergueu os olhos e encontrou os olhares interrogativos da
mocinha e do halutense. Atlan sorria ligeiramente. Ela já sabia o que o chefe havia
decidido. Devagar o arcônida levantou-se.
Rhodan disse, enfaticamente:
— Concordo. Peço apenas uma coisa...
Atlan fez um gesto defensivo.
— Muito cuidado e o máximo de pressa, não é verdade?
Perry anuiu rapidamente.
— Naturalmente! Eu vou cuidar de Atlan e do rapazinho! Eu vou ser como uma
mãe para Sandal! — anunciou o halutense, contido na voz.
— Acho melhor você bancar um sogro furioso, e, em caso de necessidade, arraste-o
pela gola para dentro do jato! — retrucou Rhodan. — Não se preocupe, mocinha. Nós
vamos trazê-lo de volta, incólume e sem muita dificuldade.
— Eu gostaria muito disso — retrucou Chelifer Argas, baixinho. — E todos
ganhariam com isso.
Atlan falou:
— Eu vou pilotar o jato e Icho vai ter que se meter na cabine, do jeito que for
possível.
— Eu já consegui me aguentar em situações bem piores, meninão! — insistiu o
halutense.
Atlan foi até a mesa de instrumentos, anuiu para o emocionauta Senco Ahrat e
abaixou uma alavanca.
— Fala o hangar da eclusa!
— Por favor, preparem um jato para a partida. Vamos dar uma chegada em Teste
Rorvic, Icho Tolot e eu — disse Atlan. — Estaremos aí dentro de cinco minutos.
— Entendido.
— Obrigado, chefe — disse a moça com os cabelos curtos, prateados, e os dois
condutores de nervos artificiais no córtex cerebral.
— Está bem — disse Rhodan. — É do interesse de todos nós, mesmo não levando
em conta os aspectos de amizade deste caso. Dentro de um par de horas, Sandal estará
novamente a bordo, aprendendo de cor o nome de constelações ou deslocamentos
angulares.
O arcônida colocou de lado a pedra malofagon, anuiu para o halutense e disse,
decidido:
— Vamos, Tolotos. Os mapas e todo o resto, nós vamos encontrar no jato.
Dentro de poucos minutos eles tinham se equipado correspondentemente, passaram
pelos corredores abarrotados e entraram na antecâmara da eclusa, que se transformara
numa espécie de depósito de mercadorias. Por toda parte podiam ver-se, bem ancoradas,
pilhas de caixas e fardos, que somente diminuiriam muito lentamente. A nave estava
simplesmente sobrecarregada. Havia lugar de menos e equipamentos demais.
— Você vai achar o caminho, Atlan, meu menino? — perguntou Tolot.
Atlan abaixou-se quando as ondas do barulho bateram nos seus ouvidos.
— Eu acho que sim! — disse ele.
Não se subestime! — advertiu o seu segundo sentido. Você não se encontra na pré-
história da Terra!
Os dois homens do comando de manutenção tinham tudo preparado. O jato
descansava seguro sobre os apoios magnéticos. Por trás dos astronautas fecharam-se as
comportas laqueadas da antecâmara. Atlan foi o primeiro a subir ao jato, sentou-se junto
dos controles, depois de ter armazenado o seu equipamento. Icho Tolot subiu pela escada,
cujos degraus haviam sido reforçados, de modo que não se curvaram com o peso do
gigante. Ele entrou praticamente deitado dentro da cabine da cúpula, deitando-se contra
uma bancada transformadora, onde apoiou a parte superior do seu corpo. Atlan conseguiu
alcançar o duto do elevador, sem pisar nas pernas, grossas como colunas, do halutense.
— Pronto? — perguntou ele.
— Eu estou pronto! — murmurou o halutense.
As escotilhas se fecharam, as máquinas começaram a funcionar, e a um sinal de
Atlan abriu-se a porta externa da eclusa da nave.
No escudo protetor foi criado uma falha estrutural, e o semi-automático empurrou o
disco para fora, para o cosmo. Os propulsores começaram a funcionar, e numa larga
curva o disco afastou-se da nave. Atlan fez um teste de rádio, e a ligação estava perfeita.
— Estamos na rota certa! — disse ele, em voz alta.
— Entendido! Eu fico contente por alguém tomar novamente uma providência. Será
que Sandal vai nos saudar com uma saraivada de flechas? — perguntou-se o halutense,
em voz alta.
— Dificilmente.
O halutense sorriu, satisfeito. Se é que era possível interpretar a mímica de sua
cabeça não-humanóide como um sorriso. Depois ele disse, relativamente baixo:
— Afinal de contas eu tenho uma pequena surpresa para ele. Ela se encontra lá
embaixo, na eclusa polar.
— Ele vai ficar contente — opinou o arcônida.
O jato acelerou e atirou-se ao encontro do seu destino distante.
A este destino também se aproximava, vindo de outra direção, a astronave estranha,
que fora classificada como um perigo real, pela tripulação da Good Hope II. Não haveria
uma corrida, mas isso não significava que Atlan e Tolot não teriam surpresas pela frente.
O seu destino era o planeta de nome Teste Rorvic.
Um mundo parecido com a Terra, se não se levasse em consideração os animais e as
plantas de um cinza-claro, cujas flores, ou penas ou pelos eram decorados com listras
negras ou amarelo-laranja, além de anéis da mesma cor. No primeiro rápido encontro
com a flora e a fauna planetária, os terranos tinham podido constatar isso.
— De quanto tempo vamos precisar?
Atlan retrucou:
— Algumas horas.
A rota estava calculada. O planeta que eles procuravam possuía um diâmetro de
2.113 quilômetros. A aceleração gravitacional da superfície era apenas um por cento
menor que a da Terra. Um dia transcorria em vinte e três horas e quarenta e oito minutos.
O jato entrou no espaço linear.
Atlan recostou-se na poltrona, e ficou pensando nessa estranha, esquecida cultura,
na qual os robôs tinham que regressar para baixo da superfície do planeta, para recarregar
suas baterias. Um planeta vazio, exceto por sua superfície natural. Eles tinham verificado
que as florestas e as praias, as savanas e as ilhas se encontravam em um estado, que
levava a concluir que aqui se fazia uma certa enxertia — que só podia ser feita pelos
robôs, — e que muito pouco era deitado ao acaso.
Talvez, dentro de algumas horas, eles ficariam sabendo de mais coisas...
***
O homem esbelto de cabelos brancos tinha colocado a mão espalmada por cima dos
olhos, olhando atrás do disco que partia. Sandal estava parado debaixo de uma
scafineura, uma árvore com folhas amarelo-alaranjadas e pretas, segurando o seu
gigantesco arco-composto na mão, e ouvindo o ruído das máquinas ficar cada vez mais
fraco até finalmente sumir de vez.
— Agora o mundo pertence a mim, sozinho! — disse Sandal, baixinho.
Além do som do vento nos galhos e nas folhas da árvore gigantesca, ele ouvia
apenas sua própria voz.
— A mim, sozinho. Aqui vou esperar pelos assassinos! — murmurou ele, recuando
para a sombra.
Sandal já não reconhecia a si mesmo.
Ele alisou os cabelos longos para trás e empurrou a larga testeira mais para cima.
Hoje ele era mais esperto que na ocasião em que deixara para trás os cadáveres
queimados de sua família. Mas ele também estava mais confuso, com toda a sabedoria
que recolhera. E havia ainda a mocinha com a figura de um garotinho, que ele deixara
para trás na espaçonave...
— Chelifer... — disse ele. — Eu voltarei. Como vencedor.
Ele encostou-se no tronco da scafineura, levou a mão para trás para sentir as
noventa e nove flechas na aljava às suas costas, e girou lentamente a cabeça. Ele
observou a paisagem e no meio dela viu a mancha redonda, queimada pelos propulsores
do jato partindo. Aqui, sozinho no planeta, ele sentia-se bem. Aqui ele tinha tudo para si
— as montanhas, as savanas e a floresta, a margem do mar e as ilhas, para esperar pelos
assassinos. E ele tinha tempo. De alguma maneira ele poderia abandonar o planeta
novamente.
“Talvez Chelifer venha me buscar” — pensou ele.
Agora ele sentiu-se um pouco descontente consigo mesmo. Ele devia tê-la trazido.
Mas também isso não era bom, objetou ele mesmo imediatamente, pois ela não estava
acostumada a uma luta como essa que ele travava. Isso era coisa de homens, um trabalho
para guerreiros, que sabiam lutar tanto com armas de raios energéticos como com um
arco, com uma faca tão bem quanto com uma funda. Portanto fora melhor mesmo deixá-
la sob a proteção da espaçonave, aos cuidados do seu amigo Atlan.
— Os assassinos virão, e então eu liquidarei com eles! — disse ele.
Agora ele se mexeu.
Lentamente as sombras tinham chegado. Ele teria que procurar um lugar para passar
a noite, e também caçar alguma coisa para comer. Além dele, o planeta somente era
habitado pelas máquinas, e se ele não quisesse não se atravessariam nos seus caminhos.
Talvez, entretanto, pudesse precisar delas. De qualquer maneira ele não tinha intenção de
descer abaixo da superfície do planeta, como tinham feito os seus amigos. De maneira
alguma. Aqui em cima ele se movimentava como uma criatura desse planeta, como um
grande e silencioso animal predador.
— Ainda estou sozinho! — disse Sandal.
Ele sabia muito bem que os assassinos estavam a caminho deste planeta. Ele
também ficara sabendo, dos seus amigos mais espertos, que com toda certeza não seria a
mesma nave, que pousaria aqui. Nem os mesmos ocupantes. Mas isso não fazia
diferença. Todos eles eram assassinos.
Há cerca de cem metros de distância Sandal viu a colina Era um morro ligeiramente
arredondado, que na terça parte superior se transformava num pico rochoso, alcantilado.
Nas fendas das rochas cresciam árvores e arbustos menores, e toda a encosta era verde.
Sandal viu um pequeno riacho, que alguns metros abaixo passava a uma queda d'água,
cujas gotículas brilhavam num pequeno arco-íris. Dali ele teria uma vista excelente da
savana e das edificações, que podia ver como silhuetas. Portanto teria que subir ali —
uma marcha de duas ou três horas.
— Vamos andando! — disse ele baixinho, e abandonou a sombra da scafineura.
Ele estava vestido com uma roupa relativamente leve. Por cima de suas botas, em
cujas bainhas estavam metidas uma faca grande e uma pequena, ele usava a calça de um
uniforme de bordo terrano. He se deixara convencer de que a fazenda era melhor do que
tudo que ele vestira até então. Até mesmo as facas. O aço era de primeira qualidade e
bem melhor e mais afiado que o das armas do castelo.
Por cima da fina peça superior do uniforme ele usava sua jaqueta comprida, com
muitos bolsos fundos, nos quais ele enfiava a maior parte do seu equipamento.
Atravessado no peito ele tinha um cinturão largo, no qual se encontrava enfiada a pesada
arma de raios energéticos e os magazines de reposição. Como antes, Sandal usava uma
proteção braçal e luvas para atirar suas flechas. Um aparelho, que chamava atenção, e era
uma novidade para ele mesmo, era a unidade de radiotransmissão que ele usava no seu
pulso esquerdo, e com a qual ele conseguia se entender com seus amigos. Ele podia até
ver uma diminuta imagem da pessoa com quem falava.
Ele correu, em linha reta, por trezentos metros, desviando-se de arbustos isolados,
porque ali havia cobras escondidas. Ele viu muitas das pedras malofagon, espalhadas por
ali, com suas cores quase cinza-prateadas, estriadas em linhas tortuosas de um amarelo-
alaranjado e preto. Diante dele um pássaro subiu preguiçosamente nos ares, mostrando
nas suas penas a mesma padronagem que havia nas pedras. E então ele chegou ao pé do
morro.
— Preciso de alguma coisa para comer! — resmungou ele, tirou uma flecha da
aljava, enquanto ainda corria, e ficou à espreita de algum animal que pudesse caçar. Ele
estava bastante faminto, e as poucas provisões que reservara não duravam mais por muito
tempo.
Começou a correr mais devagar, enquanto subia a encosta bastante íngreme. Por
uma hora ele subiu e pulou para o alto. O calor do dia aumentou, mas através do caminho
do sol pelo céu caminhavam também as sombras das rochas cônicas, que finalmente
também o alcançaram. No mesmo instante ele viu um animal semelhante a um antílope.
Ele ficou parado atrás de um arbusto, que era quase globular.
Seus movimentos repentinamente tinham ficado mais lentos. Eles se ajustavam ao
ritmo do oscilar dos ramos e das folhagens. Sandal colocou o pé esquerdo à frente, pôs o
direito para trás, e colocou dentro da cobertura a flecha no arco, ajustou o carne no tendão
e esperou alguns segundos.
Depois girou a parte superior do corpo, e, num movimento lento, quase harmônico,
arredondado, puxou o tendão até atrás da orelha. O seu olho grudou-se na região do
coração do animal, que tinha parado de mordiscar as folhas, olhando na sua direção. O
olhar de Sandal fundiu-se com o alvo. Ele nem se deu conta do punho do arco, que tinha,
por baixo da cobertura de couro, o rolo de sua
família, nem do tendão, nem da linha que
diminuía, na perspectiva, a flecha de plástico
com as pontas, finas como agulhas, de aço
terconite.
E então ele reconheceu o alvo e soltou os
três dedos que seguravam a flecha.
A flecha saiu uivando, o tendão bateu
fortemente contra o couro da braçadeira de
proteção, e o pequeno animal saltou
verticalmente para o alto, um décimo de
segundo mais tarde a flecha perfurara o seu
corpo.
— Bem no alvo!
Sandal anuiu satisfeito, sorrindo, subiu
mais os cem metros, e puxou cuidadosamente
a flecha de dentro do animal, depois de ter
desparafusado a ponta. Primeiramente ele
limpou a ponta, depois a haste, aparafusou
ambas as coisas novamente, e colocou a flecha
de volta na aljava.
***
A noite chegou.
Se um eventual observador soubesse muito exatamente para onde deveria olhar,
talvez teria visto o pequeno monte agudo de chamas brancas com bordas vermelhas,
sobre o qual girava o assado.
O fogo encontrava-se diante de uma pequena caverna rochosa, à cerca de trezentos
metros de altura. Daqui podia-se olhar para grande parte da terra até as distantes serras de
montanhas. Atrás do fogo, Sandal estava acocorado de pés descalços. Ele tinha lavado as
meias, dependurando-as para secar, e aberto as botas.
Um cheiro, que podia atrair animais predadores, saía do assado, e era levado pelo
vento morro abaixo. A pouca fumaça da fogueira subia para o alto.
Estava ficando cada vez mais escuro. Apareceram as primeiras estrelas.
Este foi o primeiro dia depois da partida do space-jet. Quando pousariam aqui os
assassinos?
2

A máquina parecia um gigantesco escorpião, e o zumbido que vinha do seu interior


se assemelhava ao do rosnar faminto de um animal de rapina. Na longa noite em que ele
acordara por diversas vezes para procurar pela espaçonave, ele desejara que Chelifer
Argas estivesse com ele.
Agora, com o dia claro, com a manhã já avançada, ele esquecera a moça.
— Eu sou Ninfon. Eu sou o Ninfon! — dizia a máquina.
A voz vinha de algum lugar nos arredores dos olhos gigantescos, que pareciam duas
vidraças redondas com um revestimento azul-escuro, e que giravam para todos os lados.
As duas tesouras desse inseto metálico gigante estavam viradas para a frente, e entre elas
se encontravam pequenas árvores, disformes.
— Eu sou Sandal — disse Sandal. — O que é que você faz?
A máquina retrucou:
— Eu nodentalido! — disse a máquina com o nome esquisito.
— O que é isso, Ninfon? — perguntou Sandal.
Quando ele se dirigira para o rio, para nadar, ele topara com esta máquina. Ela
pairava em cima de um colchão de ar, como os robôs que eram confiados a Chelifer, e ela
provocara um barulhão terrível, antes que Sandal a tivesse visto.
— Recue um pouco e eu mostro a você — disse o Ninfon.
— Com prazer.
Sandal recuou lentamente sete passos. Ele estava muito curioso em saber o que
nodentalidar queria dizer.
A máquina zuniu, empurrou-se para trás, e com isso amassou o capim alto. Depois
as duas tesouras baixaram em cima das pequenas árvores atrofiadas. Uma das árvores foi
cortada bem junto ao solo, caiu barulhentamente e a tesoura a agarrou e a enfiou no funil,
que se encontrava na sua parte superior. Ali a árvore desapareceu como uma raiz cozida
na boca de um comedor faminto. Houve até um ruído mascante.
A outra tesoura podou os galhos de uma árvore, limpou rebentos atrofiados e ajeitou
a árvore, juntando terra em volta do tronco. Os pedaços de madeira que caíam também
eram trabalhados, e quando a máquina passou pairando por Sandal ele viu que ela
despejava atrás de si uma larga torrente de madeira muito bem picada. Aquilo certamente
se transformaria num excelente adubo para a terra nova.
— Isso é nodentalidar! — disse Ninfon, firmemente.
— E por que você faz isso? — perguntou Sandal.
— Porque não sei fazer outra coisa. Quem é você?
Sandal refletiu rapidamente e disse:
— Eu não sou um animal, apesar de ser de carne e osso. Eu não sou uma máquina,
apesar de saber falar como você. Eu sou um ser humano.
O Ninfon retrucou com uma voz soturna, rangente:
— Eu não sei o que é um ser humano.
Sandal riu ligeiramente e respondeu, depois de ter pensado um momento.
— Um ser humano é uma criatura, que é melhor do que um animal e melhor que
uma máquina. Um ser humano é esperto e entende tudo.
Depois de refletir mais um pouco, ele acrescentou:
— Ou quase tudo, Ninfon.
Sandal já tinha visto, vivenciado, e uma vez até o ousara ele próprio, como os robôs
instantaneamente obedeciam aos terranos, como bondosos e rápidos escravos, como os
que tinham havido na pré-história do seu planeta. Talvez esta máquina também
obedeceria a ele? Se uma máquina obedecia, todas elas também deviam obedecer.
Aliás, como era mesmo possível que esta máquina falasse a sua língua?
Sandal disse:
— Eu sou um ser humano e portanto também entendo o que é uma máquina. Você é
uma máquina. Você não vive verdadeiramente, também não pode morrer, a não ser que
seja destruída.
— O que é uma máquina? — perguntou o Ninfon.
— Uma máquina é uma coisa que obedece a um ser humano — disse Sandal. —
Você me obedece?
— Eu entendo você — disse o Ninfon, pairou alguns metros adiante e começou,
com grande habilidade, a podar uma outra árvore pequena.
Ele soprou no rosto de Sandal uma torrente de serragem de madeira, com cheiro
forte, resinoso. Sandal tossiu e se afastou um pouco mais da máquina. Ele tinha visto
como os terranos se ocupavam com estas coisas, que havia de todos os formatos
possíveis, mas só agora ele deu-se conta de quanto essas máquinas realmente eram
interessantes.
— Mas você não me obedece? — quis saber Sandal, perguntando-se se a máquina
poderia resistir à ameaça de uma flecha disparada.
Mas preferiu não fazê-lo. Ela parecia muito compacta, e apenas uma das tesouras
poderia cortá-lo em um ou mais pedaços.
— Eu obedeço você num determinado quadro — disse o Ninfon.
Os olhos, que estavam assentados numa confusão feita de bastões, canos e esferas,
rapidamente olharam para trás. Aqui havia apenas árvores muito bem desenvolvidas
ainda.
— Você me obedece, se eu lhe pedir que me carregue para o rio, lá embaixo? —
perguntou o jovem bárbaro.
— Sim, com muito gosto — disse o Ninfon, ronronando satisfeito. — De qualquer
maneira eu tenho que ir até lá. Suba para a minha tesoura direita.
Um pouco desconfiado, Sandal ficou olhando enquanto a máquina dobrava a
tesoura para dentro, formando uma espécie de encosto com as instalações hidráulicas e as
manoplas. Sandal colocou-se de pé ali em cima, e a máquina movimentou-se para a
frente, aos trancos, depois tomou-se mais rápida e finalmente pairou uma encosta abaixo.
Somente agora Sandal viu aquilo:
Por toda a parte árvores e arbustos estavam cuidadosamente podados. Portanto esta
máquina tinha a incumbência de embelezar a superfície do planeta, mantendo-a em
ordem. Sandal ficara sabendo o que era um planeta, e em quanto era maior a parte de um
mundo globular, que não se podia ver, que o alcance de um pequeno âmbito que se via,
ao subir-se a uma colina. Isso abriu-lhe uma série de perspectivas interessantes. Portanto
haveria uma enorme quantidade de máquinas semelhantes — ou de formatos diferentes
— neste mundo. Milhares! Dezenas de milhares... ou mais! E as máquinas não destruíam
nem os insetos nem os outros animais. Elas eram uma espécie de guardas florestais.
— Eu compreendo — disse ele. — Você conhece as outras máquinas?
— Todas nós — disse o Ninfon, guiando ao longo de uma margem rochosa, para
um banco de areia largo, banhado ao sol, exatamente o lugar onde Sandal queria tomar
banho. Ele vira esse ponto do seu mirante. — Todas somos nós dentro de uma rede.
— Tudo que uma outra máquina vê ou pensa você também vê e pensa, Ninfon?
— Quando eu quiser! — foi a resposta. — Quando vem a sua hora de ficar parado?
Sandal refletiu durante muito tempo, mas não chegou a entender o que a máquina
estava querendo dizer. Ele desceu, jogou a aljava e o arco na areia, tirou as luvas e a
proteção braçal, e começou lentamente a se despir.
— Você tem diversas peles! — disse a máquina, surpresa.
— Eu sou um ser humano, e seres humanos têm roupas. Animais e máquinas não
precisam de roupas! — disse Sandal, com decisão.
— Você também não precisa ficar em posição parada, quando a sua energia acabar?
Agora ele compreendeu. Os porões abaixo da superfície, por baixo da grama, e os
grandes lugares vazios!
— Não!
— Realmente não?
— Não, com toda certeza. Vocês são máquinas e precisam recarregar sua energia.
Nós seres humanos fazemos isso de outro modo.
— Você sabe como uma máquina funciona? Como eu vivo?
— Sim! — disse Sandal, que estava de sunga de banho, mergulhando os dedos dos
pés na água fria.
O Ninfon verificou em voz alta:
— Neste caso você é aquele que reconhece o nosso ser!
Sandal anuiu e respirou fundo.
— Correto! — gritou ele, arrancou a sunga do corpo e mergulhou nas águas com
um bonito salto. A máquina recuou diante daquela chuva de respingos, e quando Sandal
surgiu das águas novamente, jogando os cabelos molhados para trás, com um movimento
da cabeça, viu que o Ninfon se afastava rapidamente por trás de algumas árvores.
Provavelmente ele precisava submeter-se a uma parada.
— Curioso! — resmungou Sandal, enquanto nadava rapidamente para tirar a
preguiça matinal dos seus músculos. — Tenho a impressão de que acabei de encontrar
um amigo.
Pouco tempo mais tarde ele estava deitado em cima de um tronco de árvore, seco e
branco, que tinha sido trazido pelas ondas, e que aparentemente era visto como decoração
da paisagem por Ninfon, para secar o seu corpo aos raios do sol.
— Maravilhoso! — disse ele, sonolento, com os olhos fechados, ao sentir o calor
em sua pele.
Ele refletia lentamente e com método.
Desde que se lembrava, Sandal, como habitante de um planeta, não sentira nem
vontade nem necessidade de abandonar o seu ambiente vital. A sua vida transcorria em
todos os ambientes que se podiam imaginar, com uma limitação. Ele jamais abandonava
a superfície do planeta. Ele não conhecia grutas profundas, nem cavernas, nem galerias
subterrâneas que tivessem mais de dez metros de profundidade. Ele não gostava da
escuridão. E ele se lembrava muito nitidamente dos minutos desconfortáveis que ele
vivenciara, quando a parede da nave globular abrira a sua bocarra, para engolir o jato. O
jato com o qual eles tinham trazido consigo os corpos congelados dos purpurinos.
Portanto também aqui ele não abandonaria a superfície, para ousar entrar na região onde
não sabia andar e onde desapareceria. Ele reforçou suas reflexões, e depois esqueceu-as
imediatamente. Era melhor assim.
— Tudo que existir lá embaixo não é meu território. Eu fico aqui — disse ele em
voz alta e abriu os olhos.
Ele assustou-se um pouco, quando viu uma máquina parada diante dele.
Ele não a ouvira chegar.
— Eu sou Psofis! — disse a máquina. — Isso é seu?
— Sim! — disse Sandal. — E eu vou jogar você na água ali, se você não me
devolver esta carne imediatamente!
A máquina segurava em um braço, que terminava em três dedos e um polegar
divergente, a perna assada do antílope, que Sandal guardara para o seu almoço. A
máquina tinha o formato globular, possuía mais ou menos uma dúzia de excrescências
como agulhas, nas quais viam-se olhos e aberturas, órgãos de agarrar e outras
aparelhagens, que Sandal não conhecia. A máquina balançava a perna diante de sua
cabeça, de um lado para o outro, parecendo irritada, por alguma razão.
— Esta parte de um ex-ser vivente pertence a você? — perguntou Psofis em voz
alta.
— Sim! Eu preciso dela para ganhar de volta minha energia — disse Sandal,
furioso. — É como se vocês desaparecessem nas criptas, para serem reabastecidas.
— Você é um ser humano?
— Pergunte ao Ninfon! Ele sabe de tudo. Eu matei um animal, porque caso
contrário morreria de fome! — disse Sandal, tentando agarrar o assado.
O braço do robô recuou.
— Ainda não! Eu preciso esclarecer uma coisa! — disse o Psofis baixinho.
Evidentemente o cérebro da máquina era pequeno demais para compreender o que
se passava aqui. Portanto ele conversou com as outras máquinas e chegou a uma
conclusão. Sandal ainda não sabia por que as máquinas falavam na sua língua, ou melhor,
num derivado de intercosmo, que o seu amigo Atlan, de cabelos brancos e olhos
ligeiramente avermelhados, lhe ensinara pacientemente.
— O que quer dizer esclarecer? — perguntou ele, vestindo-se lenta e
escrupulosamente, uma vez que estava seco.
— Refletir com lógica esclarecedora! — confirmou a máquina, desviando-se uma
segunda vez, quando Sandal quis agarrar a perna de carnes brancas e pele tostada,
marrom-escura, muito gostosa.
— Por que você me entende? — perguntou ele.
Desta vez ele não precisou esperar por um “esclarecimento”.
— Quando os outros seres humanos estiveram aqui, nós captamos o seu idioma, o
recalculamos e reclassificamos. Nós reconhecemos a maioria dos significados das
noções, e por isso conhecemos a linguagem. Eu não falo realmente, um computador é que
fala através de mim.
Então era isso! Eles tinham aparelhos de rádio embutidos, como Sandal podia
entender. Eles se correspondiam com uma central. Portanto tudo era semelhante às
máquinas cibernéticas da nave, sobre as quais Chelifer o informara.
Chelifer!
Como num filme, de repente passou diante dos seus olhos o último dia que ele
passara ao lado de Beeareema, sua jovem mulher. O banho no rio da ternura. A cavalgada
de volta a casa, e depois o assalto dos pequenos purpurinos mudos. E então... os corpos
carbonizados, na grama, empoeirada pela cinza branca.
Ele sacudiu-se todo e olhou em volta, de modo selvagem.
Mas ele não viu nenhum assassino, somente essa máquina, que congelara seus
movimentos como uma estátua, e que justamente começou a se mexer quando Sandal
refletia se devia atirar uma de suas flechas.
— Eu entendo que você precisa de energia — disse a máquina. — Mas não
desperdiça nada. O arcabouço duro do animal, você não pode absorver?
— Não — disse Sandal, sarcástico. — Eu não sou o Ninfon.
— Tome!
— Obrigado!
— O que é obrigado? — perguntou a máquina com um suave zunido.
— Quando alguém faz alguma coisa de bom a outra pessoa, esta tem que dizer
obrigado — explicou Sandal. — Isso é chamado de uma fórmula de delicadeza.
A máquina recolheu, em diferentes intervalos, as suas excrescências divididas em
dois, parecendo as pernas de uma cegonha, e passou por Sandal.
— Obrigado, criatura que entende o nosso ser — disse ela.
Sandal franziu a testa.
— Obrigado... — por quê?
— Pela informação.
Sacudindo a cabeça, Sandal ficou olhando atrás do robô, enquanto este marchava
pela praia em direção ao norte, e, a cada segundo, estendia um dos seus tentáculos, ou
mais deles, para baixo, para apanhar alguma coisa trazida pelas ondas, alguma coisa
apodrecida ou algo supérfluo, que metia dentro de uma espécie de cassete, do qual depois
caía uma torrente de substância muito fina, moída. Sandal mordeu, cheio de apetite, na
perna assada do antílope. Aquilo tinha um gosto muito bom, e ele tateou o bolso por fora,
para ver se o sal ainda se encontrava no saco impermeável dentro do seu bolso. Ainda
estava lá.
Agora ele já conseguira entrar em contato muito bom com duas máquinas, de
aspecto diferente. Talvez elas pudessem ajudá-lo a destruir os assassinos, ou pelo menos
a batê-los de modo definitivo. A nave, hoje, ao meio-dia, do segundo dia, ainda não
pousara.
Sandal caminhou de volta para sua pequena e cômoda fortaleza montanhosa, para
dormir um pouco, para caçar e para observar o horizonte com o instrumento que ele
ganhara de Rhodan.
Lentamente passou-se o segundo dia de espera.
— Eles não virão! Eles sabem que estou aqui, à sua espreita e que vou aniquilá-los!
— achou Sandal.
Ele dependurou o cinturão numa saliência de rocha, examinou a pesada mas simples
arma desintegradora, e depois colocou-a de volta no seu lugar.
Depois pegou sua aljava e verificou flecha por flecha. Uma delas ele perdera,
porque caíra na água — junto com um grande pássaro, que fora abocanhado por um peixe
predador.
Sandal ficou observando atentamente, enquanto uma aranha-tabanida, um bicho
grande e peludo, agarrou uma das inúmeras pedras malofagon, que havia por ali, a rolou
por mais alguns centímetros pelo cascalho fino, feito areia, e depois esticou um longo e
grosso aguilhão. Imóvel, quase sem respirar, Sandal observou como o aguilhão
lentamente desaparecera dentro daquela pedra dura.
— Inacreditável! — murmurou ele.
A aranha não se deixou perturbar.
O bicho agarrou-se, com suas pernas cabeludas, na pedra, sentou-se sobre a mesma
e depositou diversos ovos através do aguilhão de postura que vibrava no interior da
pedra. Depois ela encostou a cabeça na pedra e a rolou até um tufo de capim. Ali ela a
deixou depositada, e depois de olhar a pedra mais uma vez de todos os lados, afastou-se
muito lépida e fagueira.
Sem saber, Sandal pudera observar ainda há pouco algumas pedras do mosaico de
uma das mais fascinantes metamorfoses, que os cientistas terranos jamais tinham
conhecido.
Uma pedra cheia de veias... aparentemente uma pedra... era abastecida com ovos
por uma aranha, e depois rolada para o lado. Também a aranha era cinza-clara, com
círculos e estrias pretas e amarelas.
Sandal encolheu os ombros, e quando o fogo novamente ardia, e ele enchera a
panela dobrável com água, preparando-se um chá forte, consistente de concentrado com
álcool, ele se ocupou novamente com as flechas.
Elas eram tão leves quanto as de sua pátria, mas as pontas, a pedido de Rhodan, não
eram mais impregnadas com veneno de cadáveres.
As flechas consistiam de uma matéria que Chelifer designara por “plástico”, o que
quer que isso fosse. Estas novas flechas não se repuxavam com umidade ou calor, não se
dobravam e as pontas eram mais agudas do que as que ele conseguiria afinal com longas
afiações e polimentos.
Noventa e nove mortes, para os assassinos do avô de Sandal e sua família.
O segundo dia da longa espera passou. O bárbaro dormia, protegido por algumas
centenas de milhares de robôs, que ele não via e não observava, mas que agora sabiam
muito bem o que ele era.
Ele reconhecia o seu ser.
Isso era importante. Fortalecia a autoconsciência da máquina, que em algum lugar
nas profundezas do planeta trabalhava ininterruptamente, mandando informações e
decisões aos seus muitos membros e peças isoladas.
Esta máquina aprendia ainda mais depressa que Sandal...
Sandal Tolk bocejou, acordou e revistou o céu estrelado em busca de um ponto, que
se movimentasse rapidamente, e que se aproximasse cada vez mais da superfície.
Nada.
3

O terceiro e mais promissor encontro com aquelas máquinas misteriosas e


multiformes ocorreu mais ou menos ao meio-dia, do terceiro dia. Agora Sandal estava
irritado e intranquilo — será que esses assassinos tinham visto alguma coisa dele e
tinham medo da luta?
Ele não tinha nenhuma possibilidade de chamá-los para cá.
Interiormente ele estava furioso.
Sandal fez um esforço para se acalmar. Ele caminhou lentamente por uma parte da
savana, embaixo, junto da encosta do seu esconderijo montanhoso. Ele andou lentamente
pela areia, que era interrompida por tufos de capim e camadas de musgo isolados. A
campina na sua frente era praticamente plana, com muitas pequenas elevações de grupos
de arbustos, que pareciam ilhas em formato de cúpula, no mar amarelo-ferrugem da areia.
De vez em quando um largo leito de riacho, com uma pequena corrente de água no
centro, afrouxava a paisagem monótona. Sandal estacou, quando sentiu nas narinas o
cheiro de animais abeberando num ribeirão. Ele estava novamente precisando de outro
assado.
Lentamente ele se esgueirou para a frente.
Ele já estava com uma flecha na corda. Lentamente ele rodeou uma ilha de arbustos.
Animais pequenos, com longos rabos chicoteantes, saíram correndo. Lá do outro lado!
Sandal viu uma pequena manada de saborosas gazelas. O bode, muito forte, com sua
galhada em formato de lira, estava parado, vigilante e protetor, enquanto os outros
animais se abeberavam numa peça formada por um remanso do riacho. Sandal avaliou a
idade e o peso, e mirou um jovem animal fêmea, que não estava a mais de cem metros de
distância. Apesar de os animais aqui somente precisarem temer os grandes animais de
rapina, a distância de fuga era muito grande.
— Calma, Sandal, calma! — resmungou Sandal.
Lentamente ele vergou o arco, sempre mirando o seu alvo.
Até agora ele jamais errara um alvo, e já fazia mais de meia década que isso
acontecera da última vez. Quando ele não tinha certeza de acertar o alvo onde ele queria,
simplesmente poupava a sua flecha.
A parte traseira da ponta da flecha quase tocava o nó do dedo indicador, que
apertava o punho do arco composto, de dois metros e meio de comprimento.
De repente — um grunhido.
Que veio da esquerda.
A manada espantou-se, os animais ergueram as cabeças e saíram em louca
disparada. Por entre as plantas verdes surgiu um veículo estranho, um robô, que
essencialmente consistia de cinco bastões que estavam dispostos como duas letras Y
enfiadas uma dentro da outra. Como um desenho rústico de um animal deitado que
esticasse todas as suas quatro pernas para longe do corpo. O robô correu para Sandal,
fazendo uma curva maluca, e o homem afrouxou o arco, enfiou a flecha de volta na aljava
e olhou a máquina com os seus olhos cor de ouro.
— Eu sou Psilida — disse a máquina.
— Sua coisa burra, você espantou a manada — disse Sandal, furioso.
— Eu os espantei, correto. Eu vi um animal predador e justamente neste território a
fauna não é suficientemente forte. O animal predador deverá dar caça à sua presa num
outro lugar.
— Você está desgastando minha amizade! — disse Sandal.
— Eu faço apenas o que o meu programa prevê! — disse Psilida.
— E eu tenho que morrer porque você espantou a minha energia — disse Sandal,
chateado. — No que, afinal de contas, você é bom?
Ele olhou melhor a máquina.
— Eu sou um Mnesarch! — disse Psilida, explicando.
— Interessante! — disse Sandal e sorriu.
Ele não entendia nada. De alguma maneira, essas coisas metálicas sempre
conseguiam surpreendê-lo.
— O que é um Mnesarch? — perguntou ele, já um pouco mais calmo.
Ele olhou a máquina fixamente.
Ela pairava à cerca de metro e meio acima do chão. Nas quatro extensões, dirigidas
diagonalmente para baixo, estavam afixadas cubas largas, arredondadas para cima, nas
bordas. No lugar onde as duas “pernas dianteiras” se juntavam, elas desapareciam num
caixote com cantoneiras claramente arredondadas, das quais saía para o alto um bastão
em cuja ponta havia três “olhos”. O bastão central era formado com uma tábua
arredondada, carregando uma série de pequenas depressões. Provavelmente ali entravam
os prolongamentos de outras máquinas.
— Agora eu o sei — disse Psilida. — Eu sou uma Má-qui-na, que carrega outras
máquinas.
— Foi o que eu já disse ainda há pouco. Você é um Mnesarch! — verificou Sandal,
com um sorriso irônico largo.
— Isso é correto.
Sandal teve uma ideia audaciosa.
— Ainda há pouco você espantou a minha energia. Você sabe que eu procedo ao
meu reabastecimento energético de outra maneira que as máquinas. Entendeu?
A máquina correspondeu de uma maneira incrivelmente rápida.
— Correto — disse ela então.
— Portanto você precisa me carregar, ou seja, fazer o seu trabalho como Mnesarch.
Nós voamos pelos ares, atrás dos pequenos animais, e eu atiro em um deles, para que
tenha alguma coisa para comer. Comer é a mesma coisa que reabastecer.
— Um momento! — disse Psilida.
Sandal achou que estas máquinas sem dono eram guiadas, vigiadas e utilizadas sem
pausa por outras máquinas, sendo chamadas de volta, reabastecidas e recebendo
manutenção de criaturas que os seus amigos haviam chamado de “anões
reabastecedores”, esperando por um ser humano ou por uma criatura que lhes desse
ordens claras. Afinal de contas, as máquinas nunca eram egoístas, mas apenas servos,
escravos, executoras. Talvez elas já fossem muito velhas, pois o estado do planeta, do
qual ele conhecia apenas uma pequena fração, indicava que há milênios as máquinas
vinham arrumando e limpando a superfície e que tinham tido seu grande momento,
depois de catástrofes naturais. Talvez todas elas estivessem esperando pelo seu construtor
ou por aqueles que lhes poderiam dar ordens. Por que ele não poderia ser um daqueles
que davam ordens?
— Você vai me carregar? — perguntou Sandal, curioso.
— Eu vou continuar sendo um Mnesarch! — foi a confirmação.
Sandal reconheceu imediatamente sua chance única. Ele disse, claramente:
— Abaixe um pouco, para que eu possa me sentar.
A máquina zuniu um pouco mais forte, as quatro cubas tocaram o chão, e Sandal
sentou-se logo atrás da caixa com os olhos. Curiosos, os instrumentos óticos se viraram
para trás, tateando cada centímetro quadrado de sua figura.
— Paire mais para cima!
Segundos mais tarde ele sentiu-se como na sela de um cavalo. Entre as suas coxas
ele sentia as vibrações da máquina.
— Como é que eu posso guiar ou comandar você? Um bom Mnesarch precisa
deixar-se guiar! — disse Sandal, triunfante.
— Você precisa girar os meus olhos na direção para a qual quer que eu me
movimente.
— Como é que eu paro você?
— Você diz “Pare” — zuniu a máquina.
— Mais depressa, ou mais devagar, mais alto ou mais para baixo?
— Você precisa dizer o que quer.
Sandal riu alto. Agora ele sabia como estas máquinas deviam ser manipuladas. Ele
era o seu senhor.
De alguma maneira ele se metera dentro da “inteligência” dessas máquinas. Elas
não estavam acostumadas a servir, mas estavam aparelhadas para fazerem todas as
vontades dos seus dirigentes. Talvez elas o confundissem com aqueles desconhecidos
distribuidores de ordens, que as tinham construído, em algum tempo, e que depois tinham
desaparecido, ou simplesmente se extinguiram.
Sandal disse:
— Voe rapidamente atrás da manada, e permaneça cerca de cem metros atrás dela.
— Entendido. O que são cem metros?
Sandal hesitou, depois falou:
— Um trecho que é cinquenta vezes maior do que o meu tamanho. Você é uma
máquina Mnesarch, portanto deve calcular melhor os números que eu.
— Entendido.
A máquina saiu zunindo com um salto, que quase derrubou Sandal. Ele equilibrou-
se novamente, remando violentamente com os braços, escorregou outra vez para a frente
e segurou-se no bastão móvel com as células óticas. Ele experimentou como podia guiar
o Mnesarch, e já depois de alguns clomtros, ou como dizia o seu amigo Atlan, depois de
alguns quilômetros, ele sabia como devia tratar Psilida. Em princípio tratava-se de guiá-la
como a um darcan.
— Mais depressa!
A velocidade aumentou. Agora o Psilida pairante voava mais depressa que um
cavalo galopante. Sandal levou a mão por cima do seu ombro direito, retirou uma das
flechas de cento e sessenta centímetros de comprimento, apertou os olhos e colocou a
flecha no arco. A máquina voava rapidamente, numa rota bem calculada, em ziguezague,
por entre as ilhas de arbustos, saltou por cima de um leito de rio seco, e continuou
velozmente em frente, de modo que os olhos de Sandal começaram a arder, com o vento
da corrida. Depressa... Cada vez mais depressa...
— Você vai encontrar a manada?
Psilida retrucou em voz alta:
— Eu me dirijo de acordo com as informações de outras máquinas.
Agora as máquinas abaixo do planeta também já tinham aprendido a pronunciar as
designações estranhas. O voo, em velocidade muito grande, prosseguia em um metro e
meio de altura.
Os robôs o haviam aceitado como pequeno deus ou como comandante. De livre e
espontânea vontade, ou obrigados pelos seus programas — que diferença fazia?
Elas os chamavam de: O ser humano, que reconhece o nosso ser.
— Logo elas vão me chamar de assassino sibilante, ou coisa parecida! — dizia-se
Sandal.
Muito para a frente ele viu surgir novamente as pontas dos cornos bailantes.
Portanto eles se encontravam quase na distância apropriada para um tiro de arco e flecha,
com as gazelas fugitivas bem à sua frente. À direita e à esquerda as lágrimas sob as
compridas pestanas brancas do homem escorriam para trás, para as suas fontes. Galhos e
folhagens chicoteavam violentamente contra suas botas. Era como uma cavalgada rápida,
sobre um darcan sem sela. Só que mais dura.
Sandal esticou o arco, experimentando-o. Ele também podia atirar daqui, “de cima
da sela”, como antigamente, na cratera, quando da caçada com o seu avô.
Portanto o terceiro dia transcorreu, mesmo assim, com um ganho.
De um dos bolsos maiores Sandal tirou o plástico especial muito fino, desdobrou-o
diversas vezes, fechando-o novamente nos dois lados, depois de haver colocado os dois
pedaços de cerca de dois metros quadrados, um por cima do outro. Por baixo do plástico
encontravam-se folhas recolhidas por cima de uma mole camada de areia. O ar fresco,
úmido, da noite pairava diante da entrada da caverna. A camada de ar quente, que subia
das brasas ainda acesas da fogueira, subia ao longo das rochas, transformando as estrelas
em pontinhos tremeluzentes.
Seminu, Sandal enfiou-se no fino saco de dormir, cruzou os braços atrás da cabeça e
tocou com a mão a coronha da arma de raios.
— Eles ainda não pousaram! Esses assassinos covardes! — resmungou ele.
Mas, mesmo assim, alguma coisa se modificara. Ele não estava mais sozinho. Ele
naturalmente tinha amigos que eram mais estranhos que todos os servos e amigos que ele
jamais conhecera em sua jovem vida de quase vinte e dois anos, mas nem por isso eram
menos solícitos. Ele lembrou-se alegremente da caçada louca com o Mnesarch. Ele
atirara do assento, e depois carregara o assado de volta. Também a subida lhe fora
poupada, uma vez que Psilida o carregara para cima.
— Eu vou... — começou ele, baixinho.
As máquinas viam nele um representante dos seus construtores desaparecidos. Elas
deviam ser muito antigas, pois a Psilida não tinha mais demonstrado qualquer
consciência histórica. Elas tinham esquecido quando haviam sido criadas, quando este
planeta tivera o auge do seu progresso. Ele, Sandal, lutaria junto com as máquinas contra
os invasores. Ele apenas ainda teria que convencer os robôs, que também era do interesse
deles lutar contra os estranhos, cuja única tarefa parecia ser espalhar a morte e provocar
incêndios. Ele encontrara um meio de falar com elas.
— Eu preciso de um Mnesarch melhor! — pensou ele.
Psilida na realidade fora um pouco inconfortável, e com olhos lacrimejantes seria
difícil fazer um bom combate.
Novamente mudou a direção dos seus pensamentos. A cicatriz na parte de trás de
sua cabeça começou a doer ligeiramente, mas ele aceitava prazerosamente a dor, porque a
dor era sua garantia de que ele não se comportava como a mulher do takerer transferidor.
Alea Onandere estava sempre que a Good Hope II se encontrava no campo normal, no
qual as estrelas podiam ser vistas, retardada como uma criança — como os habitantes de
Exota Alfa, o mundo pátrio de Sandal, que agora, sob os cuidados do Homo superior,
lentamente submergia outra vez numa primitiva cultura agrária.
Todas estas noções ele aprendera de Chelifer.
— Chelifer... — murmurou ele.
Ele a amava? Ele ainda não o sabia, mas registrava que sua lembrança nitidamente
ditada pelo ódio dos assassinos, na bela Beeareema, lentamente empalidecia como as
estrelas antes do nascer do sol.
Ao contrário, Chelifer metia-se cada vez mais no primeiro plano dos seus
pensamentos. Ela era psicóloga de robôs, portanto um ser humano que entendia melhor as
máquinas que as próprias máquinas a si mesmas. Ela vinha da cidade que antigamente
fora a cidade mais bela do mundo, de Terrânia City, dissera ela. Também ela era imune
contra a radiação de imbecilização.
Na idade de treze ou quatorze anos, um tumor se formara no seu cérebro, conforme
diziam os terranos. O tumor havia sido retirado, mas eles também tiveram que afastar
duas fibras de nervos, uma vez que haviam sido afetadas pelo tumor. Chelifer achava que
a sua imunidade era devida ao fato de ela possuir dois feixes de nervos artificiais sob a
calota craniana.
Também ela, até a puberdade, tivera sonhos, que deviam ter sido parecidos com os
seus próprios.
Também Chelifer de vez em quando tinha dores de cabeça, quando apertava as
diminutas cicatrizes da operação.
Sandal adormeceu.
Seus últimos pensamentos não foram para o exército de robôs do qual ele precisaria,
mas para a moça com os cabelos curtos, cor de prata.
***
Sandal estava novamente deitado em cima do tronco branco, quente, da árvore
caída, deixando secar o seu corpo nu ao calor do sol. Lentamente o seu braço se mexeu,
desceu, os seus dedos tatearam em busca da larga pulseira. Ali estava embutido um
relógio que não consistia de outra coisa além de uma série de números. Sandal piscou,
ofuscado, naquela luz forte, e leu:
— 15:07 — 11.11.41. O dia onze de novembro... e eles ainda se fazem esperar! —
murmurou ele, e empurrou a pulseira por cima do pulso, depois fechou a faixa flexível.
Ele não devia perder este pequeno aparelho. Ele era a única possibilidade que tinha para
entrar em contato com seus amigos a bordo da espaçonave.
Meio dormindo, ele ouviu o zunido.
Ele abriu os olhos, e quando ergueu a cabeça viu a quarta máquina que encontrara
até agora. Ela deslizou lentamente no ar, em sua direção, e murmurou baixinho:
— Você é o ser humano. Você é aquele que não precisa de reabastecimento
energético. Você pode dar ordens.
Sandal colocou os pés na areia quente.
— Correto — disse ele, surpreso. — Eu sou o ser humano.
A máquina disse:
— Eu sou Malkostraker.
— O que é Malko... straker? — quis saber Sandal, olhando o seu equipamento, com
o canto dos olhos.
Ele estava, sem ter sido tocado, na sombra de uma árvore copada, sobre a areia.
— Um Malkostraker é algo semelhante a um Mnesarch — disse a máquina, solícita
por servir, zunindo ao mesmo tempo em bom som. — Eu sou melhor que um Mnesarch
— eu sou um Mnesadocer.
Se um Mnesarch era um aparelho portador, então um Mnesarch melhor, ou seja, um
Mnesadocer, devia ser um aparelho portador melhor. Sandal olhou melhor aquela
construção e viu suas suposições plenamente confirmadas. A “coisa” que pairava à sua
frente consistia basicamente de duas esferas pequenas e de uma grande. As duas esferas
menores estavam afixadas nos pontudos e elegantes prolongamentos, que saíam dos dois
polos de uma bola grossa. A esfera grande tinha um recorte, que parecia uma sela, com
apoio para as costas. Dois canos apontavam para o solo e tinham duas semi-esferas
aplicadas, portanto pareciam estribos nos quais era possível enfiar as botas. Exatamente
diante da sela existia um bastão com uma pequena bola em cima. No local, onde num
cavaleiro ficavam os joelhos, Sandal viu dois grandes botões, chatos.
— Eu tenho uma pergunta — disse ele em voz alta. — Você veio para me
transportar?
— Correto! — disse Malkostraker.
— Então isso significa que eu posso dar ordens a você e aos seus colegas?
— Correto!
Sandal refletiu um pouco, depois formulou sua nova pergunta:
— Este planeta, no qual todos nós nos tomamos bons amigos, dentro de alguns dias
ou algumas horas será atacado por assassinos. Eu odeio estes assassinos porque eles
mataram meus amigos. Eu quero matá-los. Eles vão se defender. Se eles se defendem,
eles destroem.
“Eles destruirão vocês do mesmo modo que as instalações daqueles que devem dar
ordens a vocês. Portanto vocês terão que me ajudar a correr com os estranhos daqui. Eu
direi a vocês quem são os estranhos, e como nós poderemos pô-los em fuga.”
Malkostraker disse:
— Eu passei esta informação para a nossa central. Ali existe um Conselho. A
resposta você obterá de mim.
Sandal vestiu-se e sabia, sem que fosse mantida uma conversa correspondente, de
que ele poderia dispor de todos os robôs — talvez com exceção de alguns exemplares —
ou então não poderia dispor de nenhum. Essa era a sistemática de máquinas robóticas e
instalações cibernéticas, como Chelifer já lhe havia explicado um dia. Caso ele pudesse
comandar o Malkostraker, também seria possível dispor sobre as outras máquinas. Agora
ele não tinha apenas amigos, mas também aliados contra os assassinos de Exota Alfa.
— A resposta, Mnesadocer! — pediu ele.
— Se houver luta, então nós
ajudaremos você, como se a luta fosse
pelo nosso planeta!
— E se trata realmente do
planeta de vocês! — insistiu Sandal.
— Você é o ser humano que
semeia a morte silenciosa! — disse o
Malkostraker.
Sua profissão ou sua utilidade
consistiria em levar Sandal para
qualquer lugar que ele quisesse ir.
Quando Sandal se aproximou da
máquina viu ainda outro pormenor. Um escudo curvo, totalmente transparente, estava
afixado diante do assento. Mesmo assim ele podia fazer uso do seu arco mas, de agora
em diante, os insetos não vergastariam mais o seu rosto.
— Eu sou este ser humano — disse ele. — Leve-me de volta à minha caverna, no
alto do morro!
— Suba! — disse o Malkostraker.
Sandal montou. Quando ele se aproximava a cinquenta metros de sua caverna,
ouviu um ruído, que nos últimos três dias e meio ele ansiara ardentemente ouvir. O forte
zunido na sua pulseira fez-se ouvir. Sandal parou o Mnesadocer, desceu da fofa sela, e
ligou a aparelhagem. Ele foi procurar uma sombra para poder ver melhor a imagem.
— Atlan! — gritou ele.
O rosto de Atlan, menor do que a articulação de um polegar, parecia aliviado.
— Sandal! Nós estamos chegando num jato! — disse ele. — Como é que você está?
Sandal riu.
— Excelente. Você vai ficar admirado, quando pousar. Quem é que você está
trazendo consigo?
Atlan sorriu largamente.
— O seu forte amigo Icho Tolot. Ele tem alguns presentes para você, a bordo. Nós
voamos apenas uma manobra cautelosa, depois vamos pousar num dos espaçoportos nas
suas proximidades.
— A nave, Atlan! A nave!
Atlan sacudiu a cabeça e disse:
— Os estranhos parecem estar com muito tempo, caso contrário nós não estaríamos
nas proximidades de Teste Rorvic. Eles estão se aproximando muito cautelosamente, e
talvez esta noite ou amanhã de manhã estarão prontos para pousar. Parece que estão com
medo de um adversário invisível.
Sandal estava aliviado.
— Ótimo! Eu já estava pensando que os havia espantado, porque eles conhecem a
minha ira!
O arcônida riu, depois disse:
— Ainda vai se passar muita coisa, até que você fique sabendo como são poucas as
suas chances contra uma espaçonave. Nós chamaremos você outra vez, quando
estivermos prestes a pousar.
— Entendido! — disse Sandal, e desligou.
4

Icho Tolot se espichou, o que teve como consequência um rangido ameaçador de


peças de plástico e de finas coberturas de chapas de aço.
— Cuidado, baixinho — disse Atlan e desligou o aparelho de rádio através do qual
acabara de falar com Sandal. — Você acaba arruinando a preciosa propriedade do
Império Solar que definha.
— Não se preocupe, amigo — disse o halutense, num tom de voz mediano. — Foi
apenas a expressão de minha alegria por termos falado com Sandal.
Atlan observou muito bem todos os instrumentos do painel à sua frente.
— Ele teve uma surpresa, você teve uma surpresa por causa dele — o que toma este
um dia de surpresas!
Tolot murmurou:
— Nós devíamos ter trazido aquela garota esbelta. Sandal ficaria muito contente.
O jato tinha entrado numa órbita em tomo do planeta, rodeando-o uma vez em
noventa minutos, mas descreveu uma grande curva com ajuda das máquinas, e não uma
dessas elipses-Homann, sem propulsão.
Atlan rastreou a espaçonave estranha, que podia ser vista, pouco nitidamente, à
cerca de três anos-luz de distância, voando mais ou menos à meia velocidade da luz.
Provavelmente ela logo executaria mais um salto, que a traria para bem mais perto do
planeta. Entretanto ainda havia tempo suficiente.
— Vamos pousar em cerca de uma hora — disse Atlan, anotando com uma caneta
especial, mais ou menos, a localização de Sandal. Ele conseguira descobri-lo por simples
goniometria de rádio. Atlan sentiu-se um pouco incomodado — por duas razões.
— Icho? — perguntou ele, à meia-voz.
— Sim, o que é que há?
— Tenho uma pergunta a fazer-lhe, Tolotos. Estou raciocinando o seguinte: Nosso
jovem e impetuoso amigo possui uma quantidade de virtudes extraordinariamente
valiosas. Também uma virtude, que é muito compreensível, mas, por isso mesmo, ainda
mais perigosa: o seu orgulho. Ele é apenas excedido pela sua valentia. Sandal abandonou
o nosso primeiro comando, porque viu uma chance de punir os assassinos de sua família
e culpados pelo desaparecimento do seu povo.
Tolot lançou-lhe um olhar faiscante com seus olhos vermelhos.
— Isso é verdade. Por essa razão eu amo Sandal especialmente. Ele poderia ser um
verdadeiro terrano. Teimoso, valente, e de um orgulho suicida.
Atlan fez que não ouviu essa definição sarcástica e prosseguiu, enquanto por baixo
deles passavam os continentes do planeta, em parte encobertos por nuvens e em parte já
escondidos pela noite que descia.
— Agora ele espera ali pelo pouso da nave. A nave é, para ele, idêntica ao inimigo
malévolo, o que, pragmaticamente nem se pode contestar. Agora ele certamente vai se
defender mais ainda, contra nossas exigências e pedidos, para que venha conosco, de
volta para a nave.
— Tem razão. Muito compreensível. Um halutense também não agiria de outro
modo! — concordou Tolot.
Ele parecia estar feliz por entrar numa luta, representando Sandal. Evidentemente
ele precisava mais uma vez de uma lavagem dos seus impulsos.
O senso extra de Atlan apareceu e interveio: Você tem pensamentos que poderiam
ser aplicados a um terrano compreensivo. Mas, neste caso, trata-se de um bárbaro, que
tem os seus impulsos arcaicos e atávicos apenas maquiados ligeiramente por uma cultura
imposta. Atenção — isso pode dar errado!
— É verdade! — gemeu o arcônida.
— Vamos vivenciar isso! — disse o halutense.
— O que vamos vivenciar? — quis saber Atlan, queixando-se.
A expressão do seu rosto se modificara. Ele estava mais tenso, mais concentrado.
— Se Sandal vem conosco ou não. Nós poderíamos usar Chelifer como chamariz,
se tivéssemos trazido a moça.
Atlan movimentou o comando e fez a nave baixar mais. Os primeiros traços da capa
da atmosfera ainda não podiam ser sentidos. Atlan perguntou, desconfiado e um pouco
repreensivo:
— Ao que me parece também o senhor está com Chelifer estreitada nesse seu
coração gigante, Tolotos!
Icho suspirou ruidosamente.
— Eu amo vocês todos! — declarou ele.
O disco modificou sua latitude de voo e também a velocidade. O campo de proteção
formou-se, e então Atlan colocou o objeto voador de cabeça para baixo e, numa manobra
ousada, atirou-o para baixo, quase na vertical. Ele coordenou a linha de voo com o
destino e viu nas telas de imagem os espaços redondos do espaçoporto se aproximando.
— Já vamos pousar? — perguntou Tolot.
A Atlan parecia que eles estavam voando para dentro de um perigo invisível. Ele
viu o solo, viu como o jato se atirava para baixo velozmente, para a cem metros de altura
frear, e depois dirigir-se para a borda do espaçoporto vazio. Bufando, a hidráulica
expulsou os apoios de aterrissagem da parte inferior do disco.
O jato foi freado violentamente, caiu uma segunda vez mais um pouco, interceptou-
se outra vez. Depois os projetores berraram uma segunda vez e, bufando, os apoios de
aterrissagem baixaram totalmente. Atlan colocou o objeto voador no chão, depois pôs as
máquinas em ponto morto.
Depois girou alguns botões, baixou algumas alavancas e olhou para o pequeno
monitor. Os aparelhos estavam trabalhando na onda normal, na qual também os
minicomputadores de pulso funcionavam.
— Estou aqui, Atlan! — anunciou-se Sandal. — Onde estão vocês?
Atlan pigarreou e disse:
— Mais ou menos no mesmo lugar onde pousamos da primeira vez. Como é que
podemos chegar onde você está?
Sandal retrucou:
— Você está vendo o sol, Atlan?
— Isso é fácil! — retrucou o arcônida, sarcástico.
— Voe cerca de cem quilômetros exatamente na direção do sol. Então você chegará
na borda oeste de uma savana, com muitas ilhotas redondas de vegetação. Mais para o
oeste você verá uma colina redonda com rochedos no topo, bastante arborizada. Eu
espero por vocês ao pé da colina.
— Excelente. Em poucos minutos estarei aí! — disse o arcônida, desligou e deu
partida na máquina.
O jato elevou-se até um nível de cem metros e saiu voando em alta velocidade,
quase exatamente para o sul.
Atlan não sabia exatamente o que o esperava, mas começou a imaginar que sua
sensação, antecipada por surpresas desagradáveis ou perigos, também desta vez não o
enganaria.
***
— Malkostraker! — gritou Sandal, em voz alta.
O aparelho de cavalgar metálico saiu pairando silenciosamente de trás de um
rochedo, atrás do qual se havia escondido discretamente.
— Ser humano, que transmite a morte silenciosa! O que é que você quer?
— Preciso de você!
Enquanto ele subia para o assento macio, ancorando as suas botas nas duas semi-
esferas, Sandal, por acaso, olhou para o chão. No lugar onde, há dois dias atrás, estivera a
esfera-malofagon, picada pela aranha preto-amarelada, encontrava-se agora uma
plantinha. Uma raiz comprida se formara, sugando umidade e matérias nutritivas do solo,
e da parte superior da esfera, que estava semi-enterrada no chão, crescia um rebento
comprido, fino, que mostrava os começos de três folhas de flores. A cor era cinza-clara e
mostrava traços de preto e amarelo vivo.
— Uma pedra se transforma numa planta... curioso! — disse Sandal, para si mesmo,
mas logo pôs estas ideias de lado, e ajeitou-se na sela. Depois o seu joelho direito tocou o
botão que cedeu e o Mnesadocer lentamente virou-se para a esquerda.
— Vamos! — disse Sandal, empurrando a alavanca de sua fechadura de cintura
para a frente.
— Temos um destino certo? — perguntou o Malkostraker.
— Não, ainda não. A beira da savana — disse Sandal em voz alta.
O Malkostraker correu como uma sombra encosta abaixo, evitando por conta
própria e esquivando-se dos grandes rochedos e dos arbustos, varrendo para baixo em
ziguezague, na direção do pequeno vale, entre a encosta e a savana. Dali ele olhou para o
norte, depois Sandal fez a máquina parar e esperou por Atlan.
Quando viu os traços da areia turbilhonada pela esteira do disco, ele apertou o
contato do aparelho de comunicação e disse em voz alta:
— Mais devagar, Atlan! Procure me goniometrar! Estou esperando diretamente
diante do morro, na beira da sombra comprida.
— Entendido, amigo Sandal! — disse Atlan, com uma voz que deixava adivinhar
que ele não viera apenas pela simples alegria e amizade. Mas o que quer que ele quisesse,
pensou o rapaz de olhos dourados, ele não seria capaz de mudar a opinião dele, de
Sandal. Nem com palavras e ainda menos com — coação.
***
O jato modificou a sua rota, muito pouco. Sandal notou que estava ficando nervoso.
Um nervosismo interior o fustigava. Enquanto o disco pairava na sua direção, com o trem
de aterrissagem baixado, parecendo uma gigantesca aranha, o comprido e fino véu de
areia baixou novamente para o chão.
Sandal empurrou a alavanca para a frente, e com os joelhos dirigiu o Malkostraker
na direção do jato. Ninguém o viu chegar — Atlan já se encontrava na eclusa polar e Icho
Tolot estava justamente tentando se libertar da sua posição bastante inconfortável.
Bem perto do jato, Sandal parou o Malkostraker.
— Atlan! — chamou ele.
Ele estava excitado, até que finalmente a eclusa polar se abriu e a escada foi
lançada. O arcônida desceu rapidamente, girou sobre si mesmo e correu na direção de
Sandal. Depois de dois passos, parou, estarrecido, e sorriu lentamente.
Ele conseguiu um bom contato com os robôs deste planeta! Assombroso! — disse o
seu sentido extra.
— Estou vendo, — disse Atlan, dirigindo-se, com a mão estendida, na direção do
homem que pairava na sua longa jaqueta de couro, — que você já encontrou bons
amigos, Sandal.
Os homens sacudiram-se as mãos, cordialmente, depois que Sandal pulara, de um
salto, daquela sela curiosa.
— Amigos e co-lutadores! — disse Sandal. — Eles me obedecem!
Atlan olhou Sandal dos pés à cabeça. O que ele viu parecia deixá-lo satisfeito.
— Quanto?
— Eu tenho esperanças de que eles também me obedecerão, depois dos assassinos
pousarem aqui — disse Sandal, aferrado. — Onde está o meu amigo Tolotos?
O gigante, enquanto se aproximava, deixava profundas pegadas na areia.
— Estou aqui, meu meninão! — gritou ele.
Debaixo de um dos seus braços ele carregava três compridos objetos de plástico. Os
olhos de Sandal se abriram desmesurada-mente, quando ele viu do que se tratava
realmente. O gigante halutense aproximou-se mais, sacudiu-se, quando viu o aparelho
pairando livremente no ar, e disse o mais baixinho possível:
— O que é isso? Um robô-equino? Um parente de Takvorian — sem pernas?
Ele deu uma risada alta, o que conseguiu espantar todos os animais que se
encontravam num raio de duzentos metros. Sandal disse:
— Amigos — eu encontrei algumas coisas inacreditáveis por aqui. São todas
máquinas. E todas elas me obedecerão.
Atlan lançou-lhe um olhar longo e interrogativo, depois disse, cortante:
— Todas?
— Todas! — confirmou Sandal.
Icho Tolot aproximou-se mais, ficou parado diante de Sandal e entregou-lhe os três
objetos de matéria plástica.
— Eu confeccionei tudo sozinho — ou melhor — controlei a confecção! É um
trabalho excelente.
O riso de Sandal era cordial, quando recebeu as três aljavas e viu as penas das
flechas.
— Trezentas flechas. Eu não sei se você poderá necessitar delas, meu menino! —
disse Icho Tolot, com sua voz muito alta.
— Eu irei precisar delas, Tolotos! — disse Sandal, entusiasmado, sorrindo
agradecido para o halutense. — São todas para os assassinos!
Atlan anuiu, admoestando-o, e quis saber:
— Antes de mais nada o que é mais urgente, Sandal Tolk. O que aconteceu por
aqui, quanto aos robôs?
Sandal relatou:
— Eu me encontrei com algumas das máquinas e conversei com elas. Elas
entendem a nossa língua porque ouviram as palavras, e as meteram nos computadores.
— Elas me reconhecem. Eu sou o ser humano que compreende o seu ser, e que trás
a morte silenciosa — com isso eles preenchem o seu ser, e que trás a morte silenciosa —
com isso eles se referem ao arco. Elas dizem que eu posso dar-lhes ordens.
Atlan sabia.
O comando central de todas as máquinas robotizadas naturalmente tinha ficado um
pouco espantado, pelo fato de uma criatura não precisar de reabastecimento. A surpresa
levara à identificação desta criatura como aquela que era capaz de dar ordens. Sandal não
precisava colocar-se atrás dos locais de abastecimento, em determinados intervalos, para
abastecer suas baterias, portanto ele se tomara o comandante, aquele que dava ordens. Os
robôs não eram como as máquinas de uma espaçonave, e, aliás, quase todas as máquinas
da civilização terrana, independentes de energia, mas eram equipadas com baterias de
longa duração, que forneciam energia durante algumas semanas, mas que depois
precisavam ser recarregadas.
— Eu mostrei-lhes como funciona o meu arco — declarou Sandal. — E como todos
os robôs podem ver o que um deles vê, declararam que eu sou a morte silenciosa, ou
sibilante, que carrego nas minhas costas.
— Isso está claro — disse Atlan. — O que você pretende fazer, Sandal?
Sandal disse:
— Eu fico aqui. Vocês me disseram que a nave está vindo. Eu vou esperar aqui até
que ela pouse. Depois eu mato todos e queimo a nave. Vou incendiar tudo.
Icho Tolot começou a rir trovejantemente. Aquilo mais parecia uma trovoada.
— Que sujeito! — gritou ele. — Sozinho, contra uma espaçonave?
Sandal disse, ofendido:
— Uma nave com sessenta membros de tripulação contra o “Enxame”... é a mesma
proporção.
— Só que nós nem ousamos pensar em destruir o “Enxame”! — disse Atlan. —
Falando sério... o que é que você pretende fazer, Sandal?
Você jamais teria pensado isso de Sandal, arcônida! — murmurou o seu sentido
extra.
Sandal explicou-lhe como ele levara as máquinas a obedecê-lo, e como ele
conseguira delas a garantia de que o ajudariam também a lutar contra os atacantes, os
covardes assassinos. Atlan e Tolot ficaram escutando atentamente, e o arcônida notou que
Sandal, sem verdadeiramente conhecê-las, empregara uma linguagem didaticamente
irrepreensível, e uma forma lógica de se referir a máquinas cibernéticas. Mais uma razão
para ficarem admirados sobre este jovem rapaz, que eles tinham trazido como bárbaro, de
um planeta de imbecilizados.
Tolot disse:
— Tudo isso é muito excitante e parece até muito aventureiro, Sandal. Mas você
devia fazer um favor aos seus amigos e a você mesmo e embarcar naquele jato ali, para
voltar para a espaçonave.
Sandal sacudiu a cabeça. O seu rosto tomou-se duro, impenetrável.
— Não!
Atlan disse, à meia-voz:
— Chelifer está esperando por você, Sandal.
Sandal empertigou-se. Ele oferecia a imagem de um orgulho inquebrantável. Ele
declarou:
— É coisa de mulheres, esperarem em casa, quando os homens fazem a guerra.
— Ele realmente tem ideias da Idade Média — gemeu o halutense. — É preciso que
eu abata você primeiro, para carregá-lo até lá, embaixo do meu braço?
Novamente Sandal sacudiu a cabeça.
Depois ele ergueu os olhos para o céu, colocou a cabeça de lado e disse:
— Eles estão chegando!
Atlan ficou escutando. Não se ouvia nada. Ele olhou para Tolot, interrogativamente,
e o gigante fez que não.
— Pode levar dias ou semanas até que a nave pouse aqui. Talvez somente entre em
órbita do planeta, sem mesmo pousar, Sandal. Então você ficará aqui até o fim dos seus
dias, pois a Good Hope II tem que continuar o seu voo. Nós não podemos esperar
eternamente.
Sandal bateu com o pé no chão.
— Escutem! — gritou ele, furioso. — Eles estão chegando! A nave vai pousar!
Eles se viraram e seguiram com o olhar o seu braço esticado. E realmente ouviram
um suave rugir, quase inaudível. Eles viram uma faixa de condensação, fina, branca, que
vinha em sua direção diagonalmente, aproximando-se cada vez mais do solo.
— São eles! — disse Atlan.
Tolot ficou parado, olhando para o céu pobre de nuvens, entrecortado por esta faixa.
— A nave realmente está pousando! — disse ele.
Eles ficaram parados, olhando fixamente para o trajeto de voo da nave, quase sem
respirar. A espaçonave entrou com uma velocidade grande demais, na camada de
atmosfera de Teste Rorvic. Se ela não diminuísse drasticamente a velocidade nos
próximos minutos, quando estivesse voando mais baixo, devastaria grandes trechos do
planeta. Minutos se passaram, enquanto os três homens tão diferentes esperavam aqui.
Agora a faixa teve um desvio angular, e segundos mais tarde ela se desfez, com o resto se
transformando numa larga listra, que formou um arco no céu.
— Eles não têm a menor consideração! Esses assassinos covardes. Estes
criminosos! — gritou Sandal em voz alta. A sua voz soava estridente, cheia de uma raiva
indomável.
— Realmente! — disse Atlan. — Precisamos agir, Icho Tolot. O que é que o senhor
sugere?
O halutense hesitou ligeiramente, depois brincou por algum tempo indeciso com as
pedras do seu colar do planeta Ninen.
— Determinar onde a nave pousa, Atlan. Voar até lá, manter-se em cobertura e tirar
fotografias. Silêncio de rádio! Eles podem nos goniometrar e nos dizimar, Sandal deve
vir conosco, caso contrário ficará infeliz.
Um ruído fantástico, trovejante, deixou as últimas palavras incompreensíveis. A
nave tinha atravessado a barreira do som, para baixo. Agora eles podiam vê-la.
— Somente um ponto luminoso, um reflexo... — disse Atlan.
— Um reflexo com consequências especiais, esses malucos...
Parecia que os estranhos agiam totalmente sem instintos. A nave agora passou
voando por cima deles à cerca de quatro mil metros de altura, horizontalmente, a uma
distância de cerca de quinze quilômetros.
— Vamos! — disse Atlan. — Agora precisamos empreender alguma coisa!
Sandal virou-se para a sua máquina e disse em voz muito alta e clara, porque agora
eles ouviam os ruídos da nave.
— No local onde a nave pousar, muitas máquinas pesadas devem se reunir, mas não
devem atacar, está ouvindo, Malkostraker? Eu vou dizer-lhes quando nós atacamos e de
que maneira. Eu não posso levar você comigo — preciso de um outro Mnesadocer!
— Entendido, criatura humana! — disse o Malkostraker, afastando-se
apressadamente.
Sandal jogou as três aljavas às costas e esqueceu-se completamente da carne na sua
fortaleza de montanha.
Todo o resto ele trazia consigo.
Eles correram juntos para o jato, Atlan, depois Sandal e finalmente o halutense,
entrando no mesmo.
Durante esses poucos metros, eles escutaram e sentiram as formidáveis ondas de
choque sonoras, que saíam da nave que passara velozmente.
5

Extrato do rolo da família da estirpe Crater — escrito por Sandal


Tolk asan Feymoaur:
“...talvez esta seja minha última luta. Eu, aliás, não creio nisso,
pois minhas flechas são mortais. Atlan, Icho Tolot e eu estamos voando
num space-jet pouco acima do solo e perseguimos deste modo a
gigantesca nave dos assassinos, que são culpados pela morte de minha
noiva e dos meus pais, e também da imbecilização de Exota Alfa. Eu
tenho trezentas e noventa e nove flechas, uma arma de raios
energéticos e bastante raiva, para matar milhares de assassinos. Eles
também vão querer devastar e assassinar por aqui. Mas eu sei corno
posso deter isso. Ninguém vai me impedir de fazê-lo, nem mesmo Atlan,
meu melhor amigo. Eu sacrificaria a amizade por minha vingança!
Escrito em 11.11.3.441, durante o voo por cima da savana de
Teste Rorvic.
***
Sandal enrolou novamente o pergaminho, fechou cuidadosamente a capa de couro,
depois de haver enrolado o documento em volta da manopla do arco, onde ficaria
guardado, à prova d'água. Depois ele olhou através da cúpula transparente.
A nave estava muito longe, à sua frente — deixando atrás de si um largo rastro de
devastação, como um furacão.
Três mil metros de altitude...
Quase mil quilômetros por hora de velocidade...
Agora somente ainda a quatro mil metros em diagonal adiante do jato, que voava
em velocidade bem menor, como uma sombra, esgueirando-se por entre árvores e
rochedos. Atlan e Sandal estavam sentados na cúpula e observavam o atalho de
devastação que a nave estranha abria atrás de si.
Uma gigantesca nuvem de poeira erguia-se logo atrás da nave no ar, consistindo de
areia, sujeira, gramíneas e pequenas árvores, de água e de animais sugados para o alto, de
aves e de uma formidável quantidade de folhas e outras coisas.
Ela era imensa, como os resíduos das erupções de uma comprida cadeia de vulcões.
Atrás da nave eram criadas zonas de ar fortemente rarefeito, devido aos efeitos da
sucção. Enquanto a nave varria para a frente, elas ruíam. Uma cadeia ininterrupta de
fortes ruídos de explosões, ou melhor, de trovões de implosões, podia ser ouvida, rolando
pela planície. A luz do sol era refletida para uma parede pálida de poeira erguida no ar. A
terra, por cima da qual os estranhos voavam, era violentamente afetada. Sandal
murmurou, amargurado:
— Vou matar todos eles! Olhe só para isso, Atlan! Eles destroem um planeta
inteiro, só com o seu pouso!
O arcônida anuiu e disse:
— Eles agem como formigas ou como animais, que são movidos por um instinto.
Ninguém pode se defender contra este impulso. Eu acho até que eles nem o fazem
conscientemente!
— Todo assassino mata conscientemente! — gritou Sandal, branco de raiva.
— Calma, meu amigo. Nós sabemos muito pouco! — murmurou Icho Tolot,
acalmando-o.
A sua voz foi capaz de deixar Sandal um pouco mais tranquilo.
— Eu sei o bastante para odiá-los! — murmurou Sandal, um pouco mais baixo. —
Eu os odeio, porque vou vingar os meus pais.
Atlan e Icho Tolot não precisaram refletir muito. Eles tinham o perigo agudo bem
diante dos seus olhos. Atlan não queria arriscar nada, e não ligou o aparelho de rádio,
aproximando-se da espaçonave estranha, cuja velocidade agora caía rapidamente,
somente até determinada distância. Ele não ultrapassava a distância de segurança. O jato
voava quase constantemente só em cobertura, atrás de rochedos, logo acima das copas de
velhas árvores, que eram sacudidas e chicoteadas pela tempestade artificial.
— Eles estão pousando! — disse Sandal, apontando para a frente.
— Estou vendo — retrucou Atlan.
Não arrisque nada! Você sabe que eles são um inimigo desconhecido! — dizia o seu
sentido extra, de modo penetrante.
Agora que a velocidade diminuía, eles reconheceram a nave melhor. Ela era muito
grande, e tinha um formato ainda mais incomum. Uma tecnologia totalmente estranha,
pensou o arcônida. Naves parecidas com arraias, que giram em tomo de si mesmas em
trezentos e sessenta graus... espaçonaves em forma de cubos, cujas partes laterais são
dobradas para baixo... e agora esta aqui.
— Parece um cogumelo de aço! — disse Sandal tirando as palavras da boca de
Atlan.
— Sim. Era exatamente isso que eu ia dizer! — disse Atlan, lacônico. — Uma
forma inofensiva, com um conteúdo certamente muito perigoso.
— Um pouco grande demais para suas flechas, meu menino! — disse o halutense,
com sua voz de trovão, de sua posição incômoda.
— O chefe vai ficar espantado! — disse Atlan e ativou as câmeras de bordo, depois
de ter dirigido o sistema de lentes na direção da nave.
O jato varreu logo acima do chão, tomando uma curva, baixando depois, como um
grande pássaro de prata, para dentro de um vale meio vazio, onde corria um rio, em cujas
margens as árvores ainda tremiam sob a tempestade. Por cima de tudo estendia-se um
grosso véu de poeira, em diversas concentrações de espessura, que de vez em quando se
abria, liberando assim a vista. A poeira e o lixo fino turbilhonados para o alto tingiram a
luz do sol do começo da tarde, transformando-a em faixas de uma cor feia, marrom.
— No caso de escaparmos daqui, e podermos mostrar-lhe as fotos! — disse Atlan.
Ele sabia exatamente como devia agir. A pouco menos de quatro mil metros da
localização da nave estranha, ele pousou o jato, vindo do oeste, atrás de uma formidável
barreira de rochedos, partida em muitos lugares. Já agora os dois homens podiam ver
como, de todas as partes das redondezas, os grandes robôs se movimentavam para a
região de pouso da astronave. O arcônida cutucou Sandal Tolk e apontou para fora:
— Os seus amigos estão se reunindo — disse ele.
— Eu sabia que eles me ajudariam! — respondeu Sandal. Atlan observou o terreno.
Era, visto cautelosamente, uma espécie de altiplano, mesmo se a diferença de nível
com a terra mais abaixo fosse de apenas poucas dezenas de metros. A planície era
fechada nos três lados, em parte por umas montanhas vulcânicas e noutras por montes
alcantilados, mas ficava aberta para o leste. Dali também, entrara voando a nave estranha.
Entre os maciços havia encostas de entulhos, muitas colinas e uma grande quantidade de
cortes profundos, escavados pelos rios no decorrer dos séculos. Através de um desses
cortes o jato entrara. No último instante Atlan pudera ver que a nave estanha pousara na
borda de um espaçoporto de cerca de cinco mil metros de diâmetro.
— Um cogumelo! — disse Icho Tolot, que se erguera um pouco, e na tentativa,
quase batera com a cabeça contra a cúpula de plástico blindado.
— Realmente. Um cogumelo! — disse Atlan.
Espantados, eles viam cerca de dois terços da nave, a parte inferior estava oculta aos
seus olhares pelos rochedos. A espaçonave estranha, um exemplar muito grande, agora
estava à sua frente, em toda a sua altura. A parte superior, ou seja, o “chapéu” do
cogumelo de metal, parecia uma semi-esfera, com a parte cortada para baixo. A ela se
juntava uma peça em forma de coluna, ligeiramente entortada para fora, cuja peça
inferior parecia estar pousada, chata, no chão. As aberturas dos propulsores não se
podiam reconhecer claramente e se encontravam na superfície de corte do cogumelo,
portanto a nave voava com o grande abaulamento para a frente. A forma aerodinâmica
não era exatamente de se perder o fôlego, refletiu o arcônida.
— E agora? Eu preciso sair! — disse Sandal. Atlan girou sobre si mesmo e disse,
furioso:
— Droga! Não se comporte como uma criança desobediente, caso contrário eu faço
você entender como é que se trava uma batalha dessas! Você faz questão absoluta de
morrer?
Sandal olhou para ele. Atlan respondeu ao olhar, fixando-o naqueles olhos cor de
ouro do outro. Passaram-se segundos...
— Está bem, desculpe! — disse Sandal, baixinho.
Atlan apontou para a nave e disse:
— Nós vamos sair, levamos as câmeras e as armas conosco. Não podemos ser
vistos. Afinal, há cobertura suficiente. Naquela nave existem milhares de criaturas
estranhas, das quais não temos a menor ideia.
— Os pequenos mudos purpurinos... — murmurou Sandal.
— Disso não temos certeza — retrucou Tolot, procurando meter-se dentro do duto
do elevador antigravitacional, o que conseguiu depois de meio minuto.
— Vamos observar, e atacar de emboscada, se é que podemos atacar! — disse Atlan
e depois: — Vamos, temos que passar por aquela fenda de rocha ali!
— Ótimo. Vocês também vão precisar de Mnesadocer?
— Precisamos do quê? — perguntou Atlan, espantado, afivelando sua pesada arma
de raios.
— Um robô-montaria?
— Por mim, sim. Mas um bem grande para mim! — gritou o halutense para cima,
da eclusa polar.
A eclusa abriu-se. Sandal pegou suas aljavas e trepou para fora. Os homens tiveram
que tossir, quando entraram naqueles véus de poeira turbilhonante. O perigo que
emanava da nave gigante estranha podia ser sentido quase fisicamente.
Quando Sandal se virou, viu um Mnesadocer pairando na sua direção, mas fez sinal
que não.
— Nós vamos a pé — disse ele. — Estes dois homens aqui são meus amigos, e lá
do outro lado estão meus inimigos. Não se deixem ver, ainda não ataquem, esperem mais
um pouco.
— Entendido, criatura humana! — disse o Malkostraker.
Os três observadores se esgueiraram adiante, na direção leste. Eles agora se
encontravam num corte do terreno. Quanto mais alto eles chegavam na fenda, menor e
mais rasteira era a vegetação.
— Dez mil máquinas se reuniram! — disse o Malkostraker, nitidamente.
— Pst! — sibilou Sandal. — Entendido!
Ele e Atlan trocaram um olhar significativo.
Eles continuaram trepando, passando por rochedos brancos, que sobressaíam do
cascalho. Aqui agora reinava um lusco-fusco difuso, porque a poeira baixava. Ouviu-se
um trovejar distante. Talvez viesse uma trovoada lavando a poeira do ar. Finalmente eles
se encontravam, enfileirados, um atrás do outro, na fenda, diante de uma barreira rochosa,
e observaram a cena.
A nave brilhava num cinza-azulado, como as penas de um pássaro Taenioglossa ou
como uma pedra malofagon.
Atlan levantou a câmera e filmou a nave, filmou as aberturas ardentes dos
propulsores.
— Uma coisa gigantesca, maior que os cubos no meu planeta — resmungou Sandal.
Cheio de ódio ele mostrou os dentes. — Eu vou esperar até que os purpurinos deixem a
nave!
Atlan não lhe deu resposta, continuou filmando e conservando-se em cobertura. A
distância era de cerca de três quilômetros e meio. Nada acontecia ali, ninguém se mexia,
nem uma abertura se fez no metal cinza da nave gigante.
— Vamos continuar observando! — disse Tolot, num murmúrio.
— Eu também sou dessa opinião — disse Atlan.
Ele guardou a câmera novamente, mas no meio desse movimento ele estacou,
repuxou a cara e encolheu os ombros. O seu minicomunicador tinha dado sinal!
— Rhodan? — perguntou Sandal.
Atlan anuiu, enquanto ajustava o aparelho. Ele tinha ligação com a aparelhagem
mais forte no jato. Por esta razão o aparelho de Sandal não tinha chamado.
— Atlan aqui!
— Aqui fala Rhodan. Atlan... existe um grande perigo. Nós estamos sendo atacados
por seis naves-arraia. Elas estão voando em rota de colisão. Voltem imediatamente,
mesmo se ainda não viram nada. Tragam Sandal com vocês! Chelifer já está mais do que
nervosa.
— Está bem. Onde estão vocês?
— Nós estamos indo ao encontro de vocês. Por favor, tomem mais ou menos o
mesmo caminho, para saírem do sistema.
— Entendido! — disse Atlan e virou-se. Ele queria puxar Sandal pelo braço.
Sandal desaparecera. Icho Tolot estava justamente se erguendo e olhando para a
nave.
— Onde está ele? — perguntou Atlan. — Rhodan está sendo atacado. Temos que
voltar. Com a maior pressa. Seis naves do tipo arraia!
— Eu ainda o vi há pouco — disse o halutense, chamando baixinho: — Sandal!
Meu menino! Onde é que você está? Você se escondeu...?
Nenhuma resposta.
Para Rhodan, sua tripulação e a Good Hope II não era problema destruir as naves
com algumas salvas dos seus canhões transformadores, mas em primeiro lugar a nave se
encontrava na cobertura relativamente segura contra rastreamentos do sol, e em segundo
lugar ela não poderia fazer nada melhor para revelar a sua posição, com esta abertura de
fogo, e assim pôr em perigo os três homens em Teste Rorvic.
Além disso:
Rhodan também queria desistir dessa provocação, porque ele e seus cientistas
temiam que as naves-arraia pudessem executar uma continuação da influência da
constante gravitacional. Neste caso a radiação seria suficiente para imbecilizar todos os
membros da tripulação.
O risco era simplesmente grande demais.
Tudo isso passou pela cabeça do arcônida, quando ele se virou, procurando as
pegadas e tentando ver a figura de Sandal por entre as rochas. Nada.
— Desapareceu! Esse rapaz... — disse Atlan, furioso e fazendo um sinal para Tolot.
— Precisamos voltar! Depressa!
Eles correram encosta abaixo, não muito rapidamente, porque os seus pés
provocavam pequenas avalanchas de cascalho, e finalmente alcançaram o local de pouso
do jato.
— Sandal! — gritou o halutense, mais alto.
— Nenhuma resposta, maldição! Esse sujeitinho teimoso, cabeça dura! —
resmungou Atlan, recolhendo-se à sombra, onde parou. Ele ficou escutando em todas as
direções.
Ele se esconde de você! Procurá-lo não levará a nada — ele não voltará com vocês!
— dizia-lhe seu sentido extra.
— Ele está maluco! — verificou Tolot. — Está completamente doido! Ele
realmente vai tentar lutar contra esta nave! Espero que possamos ver esse rapaz simpático
outra vez.
Atlan disse:
— Por favor, entre logo, Tolot! Eu vou dar uma busca rápida, talvez o encontre.
— Entendido. Mas apresse-se, por favor, Atlan.
— Está bem.
Atlan pegou sua arma, deu um pulo, e mergulhou por entre as plantas secas,
cobertas de poeira. Ele correu devagar em volta do jato, em espiral, olhando entre os
rochedos, precisando de cerca de três minutos para dar uma busca numa região bastante
grande.
Depois sacudiu a cabeça.
— Idiotice sem remédio — murmurou ele, depois ele se lembrou do seu tempo na
frota de Árcon, e nas suas aventuras na pré-história da Terra. Na situação e na idade de
Sandal, ele não teria agido de modo diferente. Mas talvez ele tivesse se deixado
influenciar por um homem mais velho e mais esperto. — Acabou-se! — disse ele, saltou
em volta de uma rocha, amaldiçoando a nave estranha. Dois passos adiante...
Ele ficou parado, como se tivesse se chocado contra o rochedo.
— Então é aqui que você está... — murmurou ele.
— Pare! — disse Sandal.
Ele estava parado de pernas muito abertas, segurando o seu arco esticado, e uma das
mortíferas flechas de pontas de terconite apontava exatamente para o coração de Atlan.
Ele sabia que a esta distância a flecha simplesmente o atravessaria.
— O que é que você pretende fazer, amigo Sandal? — perguntou Atlan, rouco.
— Quero dizer a você que vou ficar aqui. Vou ajustar o meu aparelho para
hiperrádio. Eu mato todos eles.
Atlan retrucou, frio:
— Nós não vamos voltar para procurar, junto com Chelifer Argas, pelo seu cadáver,
Sandal. Venha conosco. Com isso você vai ajudar a nós e a você também.
— Não — disse Sandal.
O seu rosto mostrava a expressão de um amadurecimento que ele nem tinha
alcançado ainda.
— Você não vem conosco? — perguntou Atlan, afastando-se para um lado.
— Não. Leve minha saudação para Rhodan e também para Chelifer. Diga a ela que
eu...
— Está bem — retrucou Atlan. — Ele vai ficar muito contente com isso. Quando,
acha você, vai aniquilar dez mil purpurinos com trezentas e noventa e nove flechas, sem
que lhe aconteça alguma coisa?
— Nós conversamos, mais tarde vou agir. Agora vá, meu amigo — eu lhe agradeço.
Mas não vou com você.
— Estou vendo. Boa sorte!
— Obrigado.
Lentamente Sandal girou sobre si mesmo, na mesma proporção em que Atlan o
rodeou voltando para o jato. Atlan jogou com três pensamentos diferentes, mas todos os
três eram ruins. Ele podia atirar-se em cima de Sandal, jogá-lo ao chão, e arrastá-lo
consigo. He poderia açular o halutense, que não podia ser ferido, em cima de Sandal, e
desse jeito poderia acabar com essa loucura, com um simples feixe do raio paralisador.
Mas ele não gostava de nenhum dos três métodos.
Quando Atlan tocou o degrau inferior da escada, Sandal deu um pulo e desapareceu
no mato.
— Foi embora! — resmungou Atlan.
Trinta segundos mais tarde, o jato ergueu-se, pairou lentamente o canyon abaixo,
tornou-se mais rápido, e quando estavam fora da vista da nave, Atlan acelerou com todas
as forças dos propulsores, voou ainda cinco quilômetros bem perto do solo, depois puxou
as alavancas do comando para cima.
O disco colocou-se num ângulo quase vertical, e se atirou para os céus.
***
Do oeste vinha chegando a negra frente de trovoada, que deveria alcançar a nave
estranha à noite.
As nuvens escuras, a luz do sol que conseguia passar por elas, e as massas de poeira
que desciam lentamente formavam contra o céu uma padronagem, cuja cor e
desequilíbrio mostravam mais nitidamente que qualquer outra coisa o perigo e a situação
desesperadora na qual se encontrava Sandal Tolk asan Feymoaur sec Sandal-Crater.
Sozinho contra milhares de seres estranhos.
Seus únicos auxiliares: Robôs com nomes e designações impronunciáveis, formados
ainda mais exoticamente que todos os outros.
Seu único pensamento: Vingança para a família Crater!
Lentamente, com passadas duras, Sandal aproximou-se do Malkostraker II, subiu
para a sela e fixou as flechas de Tolot à esquerda e à direita perto da bola. Para isso ele
usou os cordões que um outro robô lhe arranjou. Sua luta podia começar.
Ele temia a morte, e se isso não o colocasse em perigo, ele gritaria em voz alta por
Chelifer, ele não sabia onde e como devia começar, mas ele sabia exatamente:
Ele consumaria a vingança!
6

Sandal tinha a paciência selvagem de um animal de rapina à espreita. Ele primeiro


acenou para chamar o Mnesadocer para perto de si. Subiu para a sela e pairou ao longo
dos rochedos, passando por cima do parapeito, movimentando-se bem mais lentamente,
encosta abaixo. Entre o local de pouso da nave e o lado leste da barreira rochosa havia
inúmeros arbustos e muitas árvores antigas. Elas ofereciam somente pouca proteção
contra a visibilidade, uma vez que um observador, na parte superior da nave, podia ver
todo o terreno. Somente se tudo ficasse por baixo das copas das árvores e entre os
arbustos, ficava garantida uma segurança maior.
— De agora em diante, tudo dependerá de mim... daquilo que o meu avô me
ensinou! — murmurou Sandal, para si mesmo.
— E da nossa ajuda, criatura humana! — retrucou Malkostraker.
— Sim.
Ele podia ver claramente o perigo diante dele. Ele esperava que o adversário
reagisse. Agora, pouco menos de uma hora depois do pouso, ainda nada se mexera, nada
acontecera. Somente as máquinas robóticas do planeta vinham de todas as partes, para o
pequeno vale em formato de prato, à direita dos rochedos que eram separados da borda
do espaçoporto por um largo valão e um paredão de vigilância.
Enquanto Sandal Tolk procurava conseguir o seu primeiro contato, em cima do seu
estranho aparelho voador, a metamorfose da planta estranha prosseguia. De dentro da
pedra redonda, a raiz crescia cada vez mais para o fundo, e na parte superior do caule
desdobravam-se as folhas amarelo-alaranjadas, com a padronagem de listras negras como
carvão. Uma flor bizarra lentamente surgia do meio daquelas folhas de cobertura.
A transformação continuava.
Sandal agora alcançou a borda do campo de pouso. Diante dele a nave gigante
erguia-se para o céu. A poeira tinha descido, mas reinava uma atmosfera sombria. A
metade do céu estava encoberta por uma massa preta de nuvens gordas, por entre as quais
constantemente coriscava. De vez em quando um trovão surdo rolava por cima da
paisagem.
— Vingança! — murmurou Sandal.
Ele observou cuidadosamente cada metro que havia entre o esconderijo e a nave.
Grandes pedras em formato de cubos estavam espalhadas por aqui. E ele ficava
sempre por baixo da folhagem. Lentamente ele recuou, procurou por esconderijos e tinha
certeza que um exército de máquinas se reunia, que o reconheciam e que o ajudariam. De
repente ele ficara totalmente calmo. Chelifer e Atlan foram esquecidos — só existia ainda
a vingança.
— De volta para a barranca! — disse ele para Malkostraker.
O aparelho voador zuniu levando-o embora, rodeando os rochedos e somente
parando depois que eles alcançaram o pequeno vale.
— Excelente! — disse Sandal.
Diante dos seus olhos abriu-se um corte côncavo no terreno. Além das copas e dos
troncos de grandes árvores Sandal podia ver somente máquinas. Grandes e pequenas.
Máquinas, equipadas com tesouras semelhantes à de caranguejos, máquinas com serras
de ultra-som, aranhas metálicas de sete metros de comprimento, que catapultavam arpões,
com os quais normalmente eram retirados troncos de árvores à deriva nos rios. Robôs
voadores, deslizantes e que rolavam sobre esteiras muito largas, além de robôs rolantes.
— Uma pergunta a você, criatura humana! — disse o Mnesadocer, baixinho.
— Pergunte! — respondeu Sandal.
— O que devemos fazer?
— Esperar! — disse Sandal, lacônico. — Até agora nada aconteceu.
— Como devemos proceder?
Sandal não precisou de mais de um segundo para refletir. Ele simplesmente
respondeu:
— O que vale para mim, também é válido para vocês. Nós atacamos rapidamente e
de surpresa, e depois desaparecemos novamente, bem depressa. Importante é que
tenhamos poucas baixas, mas que o adversário tenha grandes prejuízos.
— Entendi, criatura humana! — disse Malkostraker, transformado em porta-voz de
mais ou menos cinco mil robôs.
Sandal disse:
— Eu chamo vocês, quando a luta começar!
— Entendido!
Rapidamente ele pairou de volta pelo caminho pelo qual viera, fez a máquina subir
e escondeu-se por entre os galhos mais grossos da copa de uma grande árvore.
Do seu lugar até o ponto, no qual a parte chata inferior da espaçonave parecida com
um cogumelo repousava no chão, havia uma distância de trezentos metros ou um pouco
mais. Sandal afixou suas três aljavas cheias, de tal maneira nos galhos, que podia retirar
delas rapidamente as flechas, mas também podia retirar as aljavas, quando precisasse
fugir.
Ficou mais escuro.
O reflexo de distantes relâmpagos no metal cinza-claro da nave ficou mais nítido e
mais forte — a luminosidade era mais forte.
Os trovões tinham ficado mais altos. A trovoada se aproximava. No ar úmido havia
uma eletricidade crepitante. Sandal começou a tremer de frio.
Ele foi tomado por uma inquietação, para a qual não havia uma palavra correta, que
não era nem nervosismo, nem tensão pela espera, nem hesitação, nem expectativa. Esta
sensação aumentou, ficou mais forte, mas a sua fonte continuava obscura para ele.
— Ali! — murmurou ele.
Agora ele via que alguma coisa se mexia. Indistintamente, a princípio, depois ele
reconheceu mais. Ele segurou a manopla do arco mais firmemente e espreitou através dos
galhos e folhagens da árvore scafineura.
Na base da nave abriram-se, em sequência, os portais. Sandal podia ver quatro dos
mesmos, e na parte que ficava fora do seu campo de visão certamente haveria mais uma
vez quatro. Os portais eram praticamente semi-esféricos, como arcos romanos — também
esta designação ele conhecia através de Atlan. Por trás brilhava a luz. Os portais tinham
três vezes a altura de Sandal... cerca de seis a sete metros, pelo que ele avaliava. A
escuridão aumentou ainda mais.
Seres estranhos surgiram e saíam dos portais, numa ordem de marcha em leque,
distribuindo-se para todos os lados.
— Estes não são... estes não são os purpurinos mudos...! — murmurou Sandal.
Eram seres diferentes, ainda mais exóticos.
Milhares!
Eles pareciam bizarros e irreais, como se fizessem parte de um dos seus antigos
sonhos. Eles se movimentavam rapidamente e com movimentos harmoniosos, apesar dos
seus corpos parecerem pedaços de troncos de árvores mortas.
O corpo, formado como um grosso tronco de árvore, era meio metro mais alto que
Sandal. Na extremidade superior o corpo era arredondado, como uma meia-esfera, e
sobre esta esfera encontrava-se outra semi-esfera menor. A mesma tinha mais ou menos a
altura de dois palmos.
— Quem são eles...? — murmurou Sandal.
A sua ira era grande demais, para que ele tivesse desistido. Mas ficou
profundamente confuso, ao ver que não se tratava das hordas dos pequeninos seres
mudos, e sim de outras criaturas!
A sua pele era marrom-escura, era coriácea e parecia-se um pouco com a casca de
troncos de árvores. A parte inferior do tronco era cortada, e ali se encontravam as
articulações de oito pernas, que tinham uma certa semelhança com galhos secos, nodosos,
parecidos com raízes, da mesma cor da pele gretada, com um pé, semelhante aos dos
grandes pássaros aquáticos brancos.
— O que é que eles estão fazendo? — murmurou Sandal, sem saber o que fazer.
Ele encolheu os ombros. Essa era sua resposta à própria pergunta. Ele não sabia o
que devia fazer. Depois ele viu que estas criaturas carregavam peças de máquinas e
puxavam pesados cabos atrás de si, que se desenrolavam, saindo das aberturas redondas.
Se os pequenos purpurinos tinham sido rápidos e consequentes, destes trabalhadores
Sandal tinha a impressão de que eles se movimentavam surpreendentemente rápidos e
ligeiros nos seus pés feitos cotos. Na sua manipulação havia a expressão de uma pressa
consequente.
Os corpos tinham um diâmetro de cerca de um metro.
— Para onde devo atirar, se quiser matá-los? — perguntou-se Sandal.
Também isso ele não sabia.
De repente uma cunha de claridade fendeu a noite e um gigantesco relâmpago
ramificado desembocou na ponta da espaçonave, correu ao longo do casco, saltou para o
cabo e perdeu-se na terra. Havia um cheiro de ozônio — e imediatamente veio o trovão,
perto ou por cima da nave, num ribombar violento.
Sandal estremeceu, assustado, mas aquelas criaturas nem se mexeram. Somente
quatro ou cinco deles, que tinham sido atingidos pelo raio, arrebentaram numa nuvem
amarelada de vapor quente. Ninguém se importou com eles, outros tomaram seus lugares.
E então o caçador observou algo especial. As criaturas tinham olhos. Ele começou a
enumerá-los e chegou a oito órgãos de visão, que trabalhavam de modo curioso. Sempre
se abria o olho que se encontrava mais próximo da zona de trabalho. Quando um dos
seres se virava, os olhos se abriam e fechavam, numa ciranda que era perturbadora.
Os olhos, facetados como os de grandes libélulas, se encontravam no
arredondamento dos terminais globulares da parte superior do corpo, oito pequenas
cúpulas, que à luz dos grandes holofotes brilhavam variegadamente.
— Oito pernas, oito olhos, oito braços... A escuridão agora era total. Não se via
mais nem uma única estrela, mas os muitos relâmpagos mergulhavam a região e a nave
numa chuva de fenômenos luminosos, que se seguiam rapidamente.
Os braços tinham o comprimento e eram tão fortes como uma coxa de um ser
humano, e se encontravam exatamente numa linha com os olhos e os pés. Tinham cerca
de cinquenta centímetros de comprimento e eram muito firmes. Depois eles se dividiam
em dois antebraços, ou tentáculos, que não pareciam articulados, e que mostravam,
exatamente nos pontos de bifurcação, um engrossamento nodoso. Parecia que era um
grande feixe de nervos, que dirigia o trabalho dos dois tentáculos... mais do que isso
Sandal não entendeu.
Quando uma das criaturas certa vez parou, para executar um difícil trabalho de
montagem, Sandal pôde contar oito dedos compridos, finos, nas pontas dos tentáculos.
Estas criaturas exóticas estavam até vestidas.
Elas vestiam uniformes que pareciam ser de um couro escuro, fino, envolvendo
todo o corpo até os olhos e nas bifurcações, e que eram entrecortados de grandes buracos
redondos. A vestimenta parecia um tecido de malhas largas.
E então Sandal, para sua surpresa, ouviu um grito estridente.
Ele o conhecia.
De um modo parecido também os purpurinos se haviam entendido. Alguém, no
meio desses cerca de dois mil seres, gritou:
— Y’Xanthomonary!
Sandal deu um gemido.
— A mesma linguagem! — disse ele, para si mesmo.
Ele olhou fixamente para aquelas criaturas ativas, que corriam em volta da nave
como formigas marrons. Eles se entendiam através de uma abertura bucal, que podia ser
vista quase diretamente abaixo dos olhos, num dos lados da cabeça. Quando as bocas se
abriam as cabeças dos estranhos pareciam cabeças de sapos. As vozes eram estridentes,
berrantes, nada harmoniosas. Também agora Sandal teve que pensar em animais, que não
obedeciam a outra coisa a não ser a impulsos e instintos.
O que é que eles faziam?
Na iluminação bruxuleante dos relâmpagos e na torrente luminosa dos holofotes,
que tinham sido articulados para fora da base do cogumelo, Sandal reconheceu que cada
grupo consistia de um chefe e de muitos serventes. Havia oito centros de atividade. Ali os
estranhos montavam aparelhos, com os quais queimavam buracos no solo. Terra
pulverizada saía lateralmente dos aparelhos, cobrindo, numa fina camada, as figuras
coriáceas.
Eles faziam perfurações? Para quê?
Eles perfuravam, cada vez, seis buracos com um sétimo exatamente no centro do
círculo. Sandal avaliou a diâmetro em cerca de três e a profundidade em pelo menos dez
metros. Dos aparelhos de perfuração saía um fogo vermelho, brilhante, e também as
figuras dos trabalhadores eram atingidas por essa luz.
— Como formigas...
Cada manipulação era correta, apesar dos grupos, aqui de cima, darem a impressão
de uma total confusão. Quando todos os buracos tinham sido perfurados — isso demorou
cerca de duas horas — as criaturas carregaram as máquinas desmontadas novamente de
volta para a nave e voltaram de lá trazendo pacotes que tinham a metade do tamanho dos
portadores. Estes pacotes foram abertos e o conteúdo despejado dentro dos buracos.
E ao mesmo tempo veio a chuva.
Primeiro somente alguns pingos. Depois verdadeiras torrentes martelavam sobre as
folhas da árvore na qual Sandal estava escondido, sobre a nave e sobre os trabalhadores
desprotegidos. Dentro de um minuto tudo estava encharcado. Enxurradas rugiam para
baixo, levando consigo cascalho, e transformando os arredores da nave, na medida em
que não consistisse do cimento armado do espaçoporto, num pantanal cheio de lama.
No meio de tudo isto coriscavam relâmpagos e rolavam os trovões.
Os estranhos não se deixaram interromper.
— Y’Xanthomonary!
Nos buracos agora eram metidos pequenos bastões de aço ou de ferro, bastante
ramificados, que na sua parte superior tinham o formato de um gancho quase que
totalmente fechado. Ininterruptamente os portadores despejavam suas cargas dentro dos
buracos, e uma fumaça fina, cor de musgo, ergueu-se dos buracos, sendo chicoteada para
baixo pela chuva. Os estranhos se entendiam com sons estridentes e trabalhavam
possivelmente ainda mais depressa. A chuva agora era como uma cortina e o calor do dia
fazia subir vapor e neblina por todos os lados.
Sandal anuiu.
— Vamos começar! — disse ele. — Malkostraker?
A máquina veio pairando calmamente e Sandal subiu para a sela. Depois ele dirigiu
a máquina para baixo, ficou atrás do tronco e disse:
— Aqui trabalha um grupo. As máquinas pesadas, mas rápidas, devem vir e destruir
os estranhos, depois que eu matei o seu chefe.
— Entendido, criatura humana!
Agora todos os escrúpulos e todas as dúvidas retrocederam dentro de Sandal. Ele
lembrou-se novamente das ruínas do castelo e dos cadáveres carbonizados. He tocou
rapidamente na pérola redonda no lóbulo de sua orelha e colocou uma flecha na corda.
— Vamos! Nós atacamos!
A chuva torrencial engoliu suas
palavras, mas o Mnesadocer entendeu.
Enquanto uma dúzia de pesadas máquinas de
remoção de terra se dirigia com alta
velocidade para o local indicado, Sandal
parou atrás de uma árvore triplamente
enrascada e fez a mira. Ele jamais tinha
falhado um tiro em sua vida — e também
agora não tencionava falhar.
Ele soltou a corda do arco.
Instintivamente, depois de anos de
treinamento, ele calculara desvio, chuva e
vento para o seu tiro. A flecha era silenciosa,
porque os ruídos do meio ambiente eram tão
altos. Ela acertou o chefe entre os olhos,
penetrou na cabeça e ficou metida ali, com
dois terços para dentro. A criatura caiu,
começou a bater com seus braços
anguiformes em volta de si e depois ficou
caído, sem se mexer mais.
A primeira máquina, saiu correndo, mal
o chefe caíra.
Ela correu para um grupo de cinco indivíduos que pareciam não saber o que fazer,
ligou a serra radicular de dez metros de largura e continuou em alta velocidade em frente.
Dentro de poucos segundos a primeira meia dúzia de estranhos foi destruída.
Entrementes um gigantesco Ninfon se aproximara e podou oito estranhos, com oito
rápidos golpes. Ambas as máquinas desapareceram em marcha à ré e somente ainda
brilharam por alguns segundos à luz dos holofotes, antes de recuarem para trás dos
rochedos.
Pequenos robôs, rápidos como ouriços, passaram velozmente à direita e à esquerda
de Sandal, ligaram as serras giratórias e guiaram para objetivos isolados. Sandal atirou
metodicamente, flecha após flecha. Cada tiro matava um chefe. Um bando de robôs veio
correndo, derrubando e destruindo todos os estranhos que estavam ao seu alcance.
Um diminuto Ninfon II corria em ziguezague de cadáver para cadáver, puxando
com sua tesoura as flechas dos corpos, e quando a máquina pairou no ar perto de Sandal,
o homem viu que na sua tesoura de molas havia vinte e cinco flechas metidas. Ele
colocou-as de volta na aljava e desviou-se de uma enorme máquina compactadeira que
passou por ele nas suas largas esteiras rolantes, atirando-se em diagonal através da massa
de figuras trabalhadoras.
— Excelente! Nós estamos aniquilando todos! — disse Sandal e acelerou a sua
máquina.
Malkostraker deu um salto e parou duzentos metros adiante, atrás de um rochedo.
Os grossos pingos da chuva que batiam sobre o rochedo formavam um véu em torno de
Sandal e da pesada máquina.
Novamente o jovem bárbaro atirou uma flecha depois de outra. Cada disparo
acertava.
— Y’Xanthomonary! — gritou alguém, estridentemente, contra o ruído forte da
chuva que caía.
— Ele não vai ajudar vocês! — disse Sandal, e disparou.
Os mortos simplesmente eram deixados onde estavam caídos. Novas torrentes de
trabalhadores saíam da nave e agarravam os pesados cabos, feitos de elos isolados de
correntes de aço. Estes cabos saíam de aberturas direcionais da parte alta da nave. No
total havia cinquenta.
Com elos ainda mais fortes os cabos eram dependurados nos anéis. Os anéis
formavam as terminações daqueles buracos enchidos, nos quais fora despejada alguma
coisa parecida com concreto ou plástico blindado.
Passaram-se minutos enquanto os trabalhadores carregavam os pesados elos,
ancorando-os nos ganchos.
Depois soou uma sirene, dando um sinal demorado.
Infinitamente devagar os cabos se esticaram, de maneira que a nave, depois de meia
hora, estava ancorada e segura ao solo, através dessas fortes e elásticas conexões.
— Esta certamente foi a primeira fase! — dizia-se Sandal.
E então uma grande abertura, circular, iluminou-se, bem perto, logo abaixo do
ponto de secção da semi-esfera do cogumelo. Depois uma segunda... uma terceira... num
total de oito. Um fogo vermelho-flamingo se irradiava destes oito buracos, dos quais
Sandal via apenas quatro.
— Como os olhos de um ídolo! — murmurou ele.
Depois ele pairou novamente, através da chuva, para mais perto daquelas criaturas
de fábula, e metodicamente disparou suas flechas.
Quatro olhos vermelho-flamingos fixaram Sandal.
Ele olhou de volta, fixamente, depois disse para o Malkostraker:
— Pequenos robôs devem voar, com a maior velocidade possível, para dentro
daqueles olhos, e destruir ali tudo que podem. É muito importante, caso contrário
seremos vistos.
O enxame se aproximou.
Eram máquinas com um peso de cerca de cem quilogramas, cuja tarefa era cavar
subterraneamente canais de águas servidas, reforçando os mesmos ao mesmo tempo.
Estas máquinas saíram uivando, com sobrecarga de velocidade, quando os trinta robôs se
dividiram e aceleraram tudo que podiam, na direção dos olhos.
E então aconteceu algo inverossímil...
7

Novamente caiu um raio nas imediações e ofuscou Sandal por alguns segundos.
Tudo ficou mergulhado naquela luz branca, tremeluzente. Um trovão ecoante bateu
contra os tímpanos, quando através do cerrado véu da chuva, que se estendia entre a nave
e o rapaz, o pequeno enxame de robôs varreu na direção dos olhos redondos e brilhantes
da nave.
— Mais depressa! — arquejou Sandal.
Ele estava sentado na sela do Malkostraker e corria em um quarto de círculo em
volta da nave, disparando uma flecha depois da outra. Atrás dele uma coluna de pesadas
máquinas colheitadeiras irrompeu da cobertura, ceifando os estranhos.
Oito olhos luzentes observavam a luta.
Sandal encontrava-se em terreno aberto, além da cobertura, e a chuva que impedia
que estes curiosos estranhos o vissem era sua única proteção. Ele olhou para o alto, para
os campos luminosos, e notou que os robôs batiam contra uma barreira invisível, bem
perto dos “olhos”. No local onde eles tocavam a barreira, provocavam longas faíscas
azuladas, e as máquinas caíam de volta, rodopiando.
— Maldição! Eles se protegem! — murmurou Sandal, limpando a água do rosto
com a mão.
Os olhos piscavam!
Eles clareavam, ficavam negros, clareavam novamente, outra vez escureciam e
depois brilhavam mais claros ainda. Deles saíam objetos que pareciam gotas vermelhas.
Eles pairavam horizontalmente até o lugar, no qual os robôs tinham batido contra o
obstáculo, depois caíam, tornando-se cada vez mais rápidos, em diagonal para baixo.
Cerca de quarenta a cinquenta dessas gotas, parecendo lágrimas, vinham abaixo,
procuravam um alvo e logo rebrilhavam num vermelho-escuro.
Uma luz fantasmagórica espalhou-se através do aguaceiro. Tudo aconteceu de uma
maneira tremendamente rápida. Estas lágrimas, luminosas sibilaram logo acima da
superfície, correram atrás dos robôs, e golpearam as construções metálicas. De golpe
houve meia centena de explosões, que se estenderam entre o semicírculo, que ficava entre
a nave e a encosta da montanha.
— Eles estão destruindo meus amigos! — gritou Sandal, cheio de raiva, dirigindo o
Malkostraker numa curva apertada, voltando por cima do solo de cimento molhado até
algumas árvores e os restos de antigos edifícios. Diante e atrás dele colunas de fogo
erguiam-se na noite como línguas de luz. Destroços voavam para todos os lados.
Explosões repetidas se seguiram. Apesar da trovoada, Sandal sentia calor. Ele estava
dependurado na sela para a direita, mirou para o alto, e disparou uma flechada de longe
contra um dos “olhos”, mas isso foi apenas um gesto de raiva e de teimosia. Os seus
amigos metálicos morriam!
— Eles devem desaparecer! De volta para a cobertura! — gritou ele.
— Entendido, criatura humana! — retrucou o Mnesadocer.
Sandal passou velozmente por entre os restos chamejantes de um Ninfon, entrou
pedaços de rochas e arbustos molhados, até atrás de uma árvore gigantesca. Aqui ele
ficaria mais ou menos seco. Daqui ele também tinha uma melhor visão do local da luta.
Todos os robôs que não tinham sido atingidos recuaram pelo caminho mais curto.
— Terminou! — gritou Sandal.
Ele colocou a mão acima dos olhos e olhou em volta.
Entre a nave, que se erguia diante dele como uma torre vermelha rebrilhante,
espelhada, na noite, e a árvore, ele viu uma parede em semicírculo. Este paredão consistia
de máquinas destroçadas e arrebentadas, dos restos de implementos de trabalho e de
muitos estranhos, caídos no concreto e nos gramados. Os olhos de Sandal ficaram
esbugalhados de surpresa e horror, quando viu como estes seres se modificavam depois
de mortos.
— Eles encolhem... eles ficam... menores! — gritou ele.
Ele observou como os corpos troncudos diminuíam, inclusive nas roupas.
Silenciosamente e de modo fantasmagórico, parecia que estes seres ainda viviam. Os
braços semelhantes a galhos atrofiavam, as pernas ficavam menores e mais finas, e o
tronco de árvore do corpo se transformava num delgado poste. Isso levou mais ou menos
meia hora, e então parecia que em volta da nave se encontrava uma pequena cerca de
madeira seca, escura.
Horripilante.
Lentamente a trovoada seguia adiante, para o leste. Os relâmpagos rarearam, o
trovão agora era mais baixo, e o rumorejar da chuva se transformou num ruído uniforme,
de pingos isolados. Um vento fraco subiu e levou vapor e fumaça para longe da nave.
Sandal esperou, imóvel, estarrecido.
Ele olhou ao longo dos elos de aço que seguravam a nave. A água escorria por eles
abaixo como de uma liana.
Sandal recostou-se na sela. Ele se sentia, agora depois da agitação da luta, cansado e
faminto. Mas ele somente começara. O Mnesadocer dirigiu-lhe uma pergunta:
— O que deve acontecer agora, criatura humana?
Sandal não via mais nenhum ser vivente do lado de fora da nave. Todos os
trabalhadores haviam recuado. Os cabos e os aparelhos tinham desaparecido, os portais
haviam sido fechados, permanecendo só com uma pequena fenda aberta.
— Reunir e esperar! — disse ele.
— Entendido, criatura humana. Você despachou muitas vezes a morte silenciosa.
Um pequeno robô começou a recolher as flechas. Ele separava até os projéteis
derretidos e inúteis, e, depois de curto tempo, trouxe cerca de sessenta flechas para
Sandal, que este colocou cuidadosamente de volta na aljava, que depois virou, para
derramar a água acumulada.
— Parece que está acontecendo alguma coisa com a nave — ali, veja! — disse
Sandal, e sentiu um arrepio.
Entre cada dois dos olhos brilhando vermelhos saiu um triângulo pontudo, do casco
curvo da nave. A superfície horizontal encontrava-se mais ou menos a meia altura do
tronco, de modo que esta modificação, depois de pouco tempo, parecia-se com um nariz
ligeiramente curvo, adunco. Também este metal começou a brilhar avermelhado. Aquilo
deveria transformar-se num monumento?
— Eu sei! — gritou Sandal, batendo com o punho cerrado na sela.
Ele lera o relatório que Rhodan recebera de um dos seus amigos. No mesmo
também havia fotos coloridas, tridimensionais. Elas mostravam a cabeça de um ídolo,
que parecia excepcionalmente cruel. Um homem da pátria de Rhodan o havia visto numa
nave inimiga. Os dois olhos e o nariz.... eram uma parte desse ídolo! Oito olhos e quatro
desses triângulos esguios, meio curvos.
Quatro rostos.
— Um para cada ponto cardinal.
— Y’Xanthomonary, — disse Sandal, baixinho, — que chora lágrimas vermelhas e
ri ao mesmo tempo.
Ele dirigiu sua montaria para baixo, jogou a aljava por cima do ombro e disse:
— Estas três aljavas não podem ser danificadas, está claro?
— Entendido.
Sandal acocorou-se no chão, tirou algumas frutas molhadas dos bolsos de sua
jaqueta e começou a comer. O sumo das frutas misturou-se à água que escorria dos seus
cabelos. Novamente lhe doeu a cicatriz na parte traseira de sua cabeça.
— E agora? — murmurou Sandal.
Ele encolheu os ombros. Ele não tinha a menor ideia. A nave estava parada ali,
como um castelo de metal, inexpugnável, e dentro dela havia milhares de seres estranhos.
Sandal esperou por duas longas horas...
Com ele esperaram, imóveis, as máquinas deste planeta, cuja concentração,
entrementes crescera para mais de dez mil. Elas vinham de uma região gigantesca,
reunindo-se aqui, porque a central sabia que provavelmente estava em jogo a vida deste
planeta. Por si mesmas as máquinas não atacavam — elas esperavam pela sua ordem. A
parte principal do exército de robôs encontrava-se na proteção da barreira rochosa.
Sandal não disparara um só tiro de sua arma moderna, e ele começou a se perguntar
se era certo ou errado. No meio dessa reflexão, enquanto comia o último pedaço de carne,
que embrulhara numa grande folha, ele notou que mais uma vez se processava uma
modificação na base da nave.
Abaixo do nariz abriu-se uma fenda transversal.
Naturalmente eram, como ele viu pouco mais tarde, quatro fendas. Elas se
transformaram em quatro rostos que olhavam para os pontos cardeais. A fenda alargou-se
mais, e depois de poucos minutos o homem solitário embaixo da árvore olhava fixamente
para rostos selvagens, brilhando muito. Um novo ídolo tinha sido colocado.
Sandal não podia imaginar por que razão alguém montava um monumento desses,
ou um ídolo, em um planeta. Sua significação era apenas decorativa. Ou não? Estas duas
imagens metálicas também teriam um efeito semelhante àqueles que ele vira em seu
planeta pátrio? Com alguma certeza, dizia-se ele.
Ele continuou esperando, silencioso e quase imóvel.
E então uma segunda reflexão deu-lhe o que fazer.
A nave-cubo no seu planeta tinha ido embora novamente. Este monumento,
entretanto, estava sendo ancorado no solo, e ficaria parado aqui para poder lançar
radiações mortíferas sobre Teste Rorvic. Os estranhos, entretanto, teriam que voltar para
o “Enxame”. Como é que muitos milhares de seres conseguiriam fazer isso sem a sua
nave? Uma parte da nave, esta era a conclusão lógica, portanto partiria novamente para o
espaço, com todos os seus ocupantes. De volta para o “Enxame”...
Esta frase começou a queimar nos seus pensamentos.
Ele levantou-se, massageou seus membros adormecidos e espichou os músculos.
Ele precisava fazer alguma coisa. Mas ainda não sabia o que poderia fazer, exatamente,
em vista desse monstro e de sua superioridade.
Ele dormiu por uma hora, todo encurvado em cima de um pedaço de musgo
relativamente seco, e quando acordou, ofuscado pelo brilho da luz, ele imaginou o que o
esperava.
Luta!
Primeiramente os gigantescos olhos chamejaram, depois se dividiram em duas
partes iguais. O chamejar diminuiu, e de cima baixou uma zona escura, como uma
pálpebra. De cada olho desceu lentamente uma quantidade dessas lágrimas vermelhas.
Elas pairam, de forma radial, dispersando-se, mas desta vez não caíram ao chão.
Elas ficaram cada vez mais rápidas, correndo loucamente, como meteoros, tomando-se
menores, enquanto sua luminosidade se transformava num vermelho-escuro
fantasmagórico. Elas correram velozmente para longe, tocando o horizonte. E então
houve uma corrente de mais de cem pequenas explosões, que depois do relampejar da luz
também se tomavam perceptíveis acusticamente. Em toda a volta as nuvens e o horizonte
pareciam em chamas.
— Elas estão destruindo o planeta! — tossiu Sandal, assustado.
O fogo parecia arrastar-se pelo chão, as zonas isoladas confluíam, e Sandal podia
imaginar que em volta desse altiplano se espalhava um formidável anel de destruição, que
se estendia através de todas as formações do terreno, através de leitos de rios e florestas.
O fogo chamejava cada vez mais.
Um anel de fogo rodeava, à cerca de cinquenta quilômetros de distância, a nave,
este megalomaníaco monumento de assassinos e conquistadores. Eles precisavam ser
detidos. Era preciso deter esta diligência ativa e animal, dos recém-chegados que não
pareciam ter outra coisa em mente a não ser devastação. Pressão ocasionava
contrapressão, e destruição e morte novamente provocariam mais mortes.
Enquanto o fogo ardia, novamente abriram-se os portais, na escuridão da noite que
acabava.
Novos seres saíram lá de dentro.
Mas havia uma diferença essencial. Agora estes estranhos estavam armados.
Portanto eles queriam correr o planeta, como os purpurinos, matando, assassinando. Mas
aqui não havia nenhuma criatura viva, com exceção dele, mas apenas robôs.
Ele chamou baixinho:
— Malkostraker!
— Estou aqui, criatura humana! — disse a máquina.
— Você está vendo os assassinos saírem de dentro da nave?
— Estou vendo — disse a máquina, dirigindo suas óticas enormes para as figuras,
que tinham vestido uma blindagem, que brilhava branca, por cima dos seus uniformes
coriáceos, e que seguravam armas de canos compridos nos braços. Por cima de suas
“cabeças” redondas eles tinham esticado arcos, que terminavam em estranhas semi-
esferas, bolas e antenas balouçantes.
— Vamos continuar lutando! — disse Sandal. — Estes assassinos se espalharão
pelo planeta. As máquinas pequenas devem atacar os estranhos armados, em
emboscadas!
— Nós compreendemos! — disse o Mnesadocer.
Sandal acenou para que ele se aproximasse ainda mais, subiu para a sela, e meteu as
botas molhadas, dentro das semi-esferas.
O assento era frio e molhado, mas a calça do uniforme terrano não deixara passar
nenhuma umidade. Sandal sentiu um pouco de frio, naquele ar fresco da manhã, mas
quando a febre do caçador novamente tomou conta dele, e quando ele pensou na sua
vingança, não sentiu mais frio algum.
— Vamos! — disse ele.
Ele observou os oito grupos, da cobertura segura de algumas rochas grandes, que
haviam se amontoado. Cerca de duzentos seres de cada vez, entraram em forma, mal
haviam deixado a nave, para uma coluna consistente de fileiras de três. Na ponta
marchavam sempre dois chefes, que podiam ser reconhecidos pelos grandes caras sobre
os blindados.
Alguém gritou três vezes seguidas, muito alto, e com voz estridente:
— Y’Xanthomonary!
Depois as colunas saíram marchando, aceleradamente. Sandal ficou parado, e aos
primeiros das colunas se reuniram cerca de mais duzentos seres, que carregavam
gigantescos recipientes, mas que aparentemente eram leves. Tudo parecia como uma
caravana, fortemente armada e segura, que partia para uma longa marcha através de um
continente desconhecido.
O fogo em redor ainda ardia, mas agora, na medida em que ainda estava visível, o
fogo chamejante se transformara numa incandescência intensamente rastejante. Parecia
um anel de lava fervente, e a Sandal pareceu que esta torrente se arrastava mais para o
centro, ou seja, mais para perto da nave.
A menos de cem metros dele, o primeiro grupo passou, abrindo um largo caminho
pelo mato baixo, naturalmente desviando-se das árvores gigantes e dos rochedos, e
esforçando-se para marchar em linha reta. Isso aconteceu num total de oito lugares. Atrás
dos últimos carregadores fecharam-se novamente os portais por baixo das bocas do ídolo,
que sorriam demoniacamente, deixando apenas novamente pequenas fendas. Sandal não
duvidava que seria capaz de passar por ali, se tentasse fazê-lo.
Ele disse:
— Quando clarear mais, vamos atacar. Eu vou lutar em toda parte. Os assassinos
não devem chegar ao seu destino.
— Nós compreendemos, criatura humana com a morte silenciosa nos dedos! —
disse a máquina.
Sandal não esperava para ter uma luz melhor — a noite era sua melhor proteção. A
noite, o esconderijo e a escuridão — os melhores auxiliares contra um adversário com
superioridade numérica. Ele esperou, até que os oito grupos se tivessem afastado
suficientemente da nave, e se encontrassem em terreno de visibilidade difícil. Ali ele
poderia golpear, decisivamente.
— Parem! — disse ele. — Três ou quatro grupos marcham através do espaçoporto.
Neste caso, os robôs precisam atacar com uma formidável superioridade numérica,
vindos de todos os lados, para aniquilar os grupos. Tudo isso tem que acontecer com a
maior velocidade.
— Entendido!
A região em volta da nave, com exceção dos restos das máquinas e dos estranhos
encolhidos, estava novamente vazia. Nada mais se mexia. O céu começou a tingir-se de
cinza-pálido no leste. Os fogos no horizonte ficavam mais fracos e menores. Sandal virou
o Mnesadocer e seguiu a caravana que lhe ficava mais próxima. Ele ultrapassou-a e
depois se manteve num terreno florestado, muito íngreme, para além da baixa barreira de
morros, perto e em diagonal dos estranhos em marcha. Por trás dele elevava-se para o
céu, sombrio, a cara do ídolo.
Depois escutou, muito atrás de si, o barulho causado quando as máquinas e as
colunas em marcha se entrechocaram.
Ele encolheu os ombros, segurou a máquina e esperou, escondido atrás de plantas e
rochas. Os passos, ou melhor, os ruídos abrasivos, raspantes, dos seres em marcha
aproximaram-se e se tornaram mais altos. Em diagonal, atrás dele, robôs pesados e outros
menores se reuniram apertadamente, esperando. Sandal trouxe o arco para a posição
correta, e amaldiçoou as luvas molhadas. Com isso ele estava arriscando tiros que podiam
não acertar.
E então ele atacou.
Ele curvou-se para a direita, para fora da sela, enquanto a máquina deslizava acima
do solo exatamente metro e meio, sempre procurando, por conta própria, a cobertura da
qual Sandal podia atirar. Ele levou a mão por cima do ombro, retirou uma flecha da
aljava cheia, colocou-a em posição e esticou lentamente o arco composto, de dois metros
e meio de comprimento. O chefe era o seu alvo — os olhos do seu lado estavam
fechados, somente dois, que se dirigiam para a frente, pareciam fixos no caminho.
Uivando, a flecha disparou do arco. Um forte golpe contra a proteção de couro no
antebraço, e a segunda flecha. Ainda enquanto o chefe caía, a corda zuniu novamente. O
segundo estranho perdeu o controle de suas oito pernas, tropeçou e caiu no meio das
pedras. Um terceiro viu Sandal, que parecia uma sombra ao longo da coluna, deslizando
de um lado para o outro, constantemente entre a cobertura total e o campo de tiro livre.
Um raio de fogo relampejou e acertou um robô, que havia saído de dentro do capinzal,
dirigindo-se para a ponta da coluna.
A tesoura de um Ninfon foi acertada, pontas e pedaços de metal saíram voando,
enterrando-se, incandescentes, na terra úmida.
— Mais depressa!
Sandal empurrou rapidamente a alavanca para a frente, ultrapassou a coluna numa
curva larga e viu, quando mudou de direção, como o Ninfon irrompeu através da coluna
com toda a sua fúria, matando dois atacantes e sendo ele mesmo destruído por pelo
menos dez tiros. O rapaz dos cabelos brancos colocou a flecha no arco, por cima do
escudo de proteção, mirou e soltou a corda.
Uma flecha atirou-se, fremente, através das grandes espigas de gramíneas brancas e
atravessou a cabeça de um estranho, que fazia mira com o comprido cano de sua arma,
sobre um alcator, que com seu braço gigantesco, semelhante a uma machadinha, que ele
girava em semicírculos vibrantes, partia para cima do grupo. A flecha zuniu.
Ela uivou pelos ares, acertou uma couraça e a transfixou. A ponta de aço terconite,
elaborada pelas máquinas da Good Hope, abaulou a couraça nas costas, ou na parte de
trás, fortemente, antes de arrebentar o material. Ao mesmo tempo um Incursida, uma
máquina para movimentação de terra, que corria sobre esteiras, ergueu-se do lado
esquerdo, avançando com máquinas berrantes e motores sonoros, cada vez mais para o
alto, para depois deixar-se virar. Ela acabou rolando, capotou, e sepultou três estranhos
debaixo de si. Entrementes aquela luta silenciosa se transformara num conflito muito
barulhento.
O trovejar de correntes de esteiras e rodas muito largas sobre as pedras, o ruído de
galhos queimando ou quebrando, os gritos estridentes dos que eram atacados, os ruídos
das máquinas dos robôs e, sobretudo, algumas vezes, que evidentemente deviam estar
saindo dos alto-falantes dos rádios dos estranhos.
— Y’Xanthomonary!
— Vingança para Crater! — gritou Sandal, recuou para o fim da coluna e disparou,
em vinte segundos, dez flechas.
Cada tiro significava um morto. Os atacantes iam para o chão e somente alguns
poucos conseguiam destruir os robôs. Um largo rastro marcado por criaturas parecendo
arbustos encolhidos, por máquinas enfumaçadas, explodindo e voando para todos os
lados, por capim amassado e cargas deixadas pelo caminho, formava a passagem desta
coluna, que era uma das oito que tinham penetrado terra a dentro.
Um dos recipientes de carga, nos quais um robô tinha penetrado, estilhaçando-o,
detonou. A onda de choque acertou Sandal, atirou-o com a testa contra a proteção da
máquina. Até mesmo o Malkostraker foi lançado para fora de sua rota, bateu com uma
das esferas contra uma rocha e saiu voando lateralmente, porque o joelho de Sandal, meio
desmaiado, apertara o botão correspondente. A máquina, com Sandal inconsciente,
aproximou-se velozmente da coluna, mergulhou por entre arbustos, bateu contra uma
árvore pequena e virou. Sandal perdeu o arco, mas conservou-se na sela. Ele tossiu e
tentou conseguir novamente o controle sobre si mesmo.
Depois a máquina abalroou três estranhos, subiu nos ares, na vertical, recebendo
atrás de si cerca de trinta tiros. Um deles queimou parte dos cabelos de Sandal. A louca
velocidade estabilizou-se novamente, porque Sandal conseguira erguer-se.
E um voo horizontal se fez.
Um dos estranhos parou, colocou sua arma sobre uma pedra e mirou. O cano
perseguia o homem na sela da máquina.
Quando o atacante apertou o gatilho, duas máquinas reagiram a um só tempo.
Uma Anastroca, que era usada quando obstáculos subaquáticos deviam ser
removidos, recebeu uma ordem.
Ela girou sobre si mesma, mirou corretamente e calculou tudo em frações de
segundos: Velocidade de voo, desvio, força da energia a ser empregada, posição e
automovimento do alvo, aceleração e dois fatores do meio ambiente.
Depois um projétil de dois metros deixou o cano, atirou-se num uivado indescritível
pelos ares, e pregou o atirador na rocha. Depois houve uma detonação, que arrebentou o
rochedo, o atirador e a terra, cinco metros ao redor, mandando tudo para o alto e para os
lados, transformado em destroços e cascalho.
Ao mesmo tempo a subida do Malkostraker parou por dois segundos.
Sandal e a máquina caíram quinze metros e estavam em segurança.
8

Isso salvou a vida de Sandal.


Cinco minutos depois de ter caído para fora da sela, sobre o capim, Sandal ergueu-
se lentamente. Sua cabeça doía e ele notou que por baixo do cabelo deveria haver bolhas
de queimaduras. Ele arrastou-se devagar até um diminuto charco, que se encontrava entre
as pedras. Ali, depois de haver tirado as luvas dos dedos, ele mergulhou as mãos e
refrescou o seu rosto.
Malkostraker pairava a um metro acima do chão.
— O... que... que... aconteceu? — balbuciou Sandal.
Ele estava exausto e sentiu-se doente e esgotado.
— Você perdeu sua arma silenciosa, criatura humana. Mas eu posso voar de volta
pelo mesmo caminho para encontrar a arma.
Diante do rosto de Sandal crescia uma planta de formato rombóide. Ela tinha cores
cinza-pálidas e tiras negras, entrecortadas de pontos amarelo-laranja e padrões lineares.
Quando Sandal se ergueu um pouco, alguma coisa no interior da planta arrebentou e
cerca de um terço dela, que consistia de um longo caule e de uma coroa de milhares de
cabelinhos pretos fininhos, saiu voando, girou no vento da manhã, e tomou a rota de
nordeste. Na parte inferior do caule estava dependurada, como um cesto de balão, uma
pedra-malofagon. Sandal olhou fixamente atrás daquela planta velejante, sem dar-se
conta realmente e sem saber que mais uma vez ele tinha visto um aspecto da fascinante
metamorfose desta planta. Se ele tivesse olhado melhor ainda, teria visto o esqueleto do
grande pássaro amarelo-laranja, onde crescia a planta. O pássaro tinha comido o fruto,
que crescera da planta, cujo crescimento fora originado pela mordida da aranha na pedra.
Sandal tossiu e colocou-se de pé.
— A coluna... ela foi destruída?
— Metade dela, criatura humana. Seus mensageiros da morte que ficaram
incólumes estão justamente sendo recolhidos.
Sandal observou a máquina pairante. Suas três aljavas ainda estavam ali, incólumes.
Elas estavam cheias de flechas. Trezentas. Na aljava às suas costas ele tinha apenas trinta
projéteis ainda, mas justamente quando ele quis verificar isso, vieram duas máquinas
pequenas, que normalmente eram destinadas a podar plantas. Elas lhe traziam de volta
quarenta flechas que não tinham sido danificadas. Ele colocou-as novamente em sua
aljava.
— As outras máquinas?
— Elas esperam por sua ordem, criatura humana!
— Não há pressa — disse Sandal. — O sol acaba de nascer.
— Nós saudamos a luz — comentou o Malkostraker.
— Eu saúdo a morte dos assassinos! — disse Sandal.
E então um ruído trovejante, matraqueante, chegou-lhe aos ouvidos. Ele virou-se
para o lado de onde ele viera, e sombreou os olhos. A nave erguia-se, como silhueta
negra contra o céu matinal, de cor vermelho-flamingo, envolto pela coroa dos primeiros
raios do sol.
— O que é isso? Estes malditos... eles ainda têm alguma coisa nova! — disse
Sandal, furioso.
Ele podia ver nitidamente, que agora a cúpula redonda da parte superior do
cogumelo se modificava. Dela saíam compridos bastões. Eram antenas com as quais era
possível transmitir ou captar alguma coisa. Deviam ser centenas delas, pois Sandal podia
ver que elas saíam de todas as partes e se orientavam para todos os lados. Cada uma delas
mostrava para outra parte da paisagem.
— Mais uma coisa! Isso deve ser... agora eu sei o que é! — disse ele.
Exatamente no ponto mais alto da nave aconteceu alguma coisa, como se os
estranhos estivessem tentando erguer uma capa polar. A curvatura superior dessa “coisa”
agora criada correspondia ao abaulamento da cabeça do cogumelo. Sandal viu aquilo
como uma silhueta negra. Uma figura lenticular, convexa de ambos os lados, empurrou-
se lentamente para cima. Era o que causava aquele barulho infernal.
A lentícula, muito parecida com um space-jet terrano, agora repousava sobre uma
grossa coluna redonda. Uma nave espacial? Naturalmente, a nave com a qual os
estranhos regressariam!
O reconhecimento acertou Sandal como uma martelada.
— Eles vão voar de volta! De volta para o “Enxame”!
Ele sabia que cada exército era comandado por um chefe, um grande general, um
rei, um tirano. Portanto também devia haver no “Enxame” um chefe desses, que era
culpado por tudo e que era responsável por tudo. E era contra este estranho que sua luta
era dirigida.
Sandal controlara-se novamente, quando o movimento para cima da lentícula
terminou. Ao mesmo tempo também parou o barulho. As colunas, na medida em que não
tinham sido destruídas ou dizimadas, continuavam a sua marcha.
— O que deve acontecer, criatura humana? Eles vão destruir tudo! — disse a
máquina.
— Nós vamos continuar lutando, mandando-os para o lugar de onde vieram —
prometeu o rapaz dos olhos dourados.
— Para onde?
— Para o inferno! — disse ele e deu uma cuspida.
Sandal abriu a bainha lacrada de seu uniforme, e retirou de diversos bolsinhos
drágeas de cores variadas, mais ou menos do tamanho da unha do seu polegar. Já era a
segunda porção de alimentos concentrados que ele gastava. Ele engoliu as pílulas, tomou
uma mão cheia de água da pequena poça e depois seguiu, de pernas ainda meio duras, de
volta para a máquina, colocou um pé no estribo e ajeitou-se na sela.
— Leve-me até o meu arco — disse ele e controlou a fixação de sua arma.
— As outras máquinas estão esperando.
Uma espécie de raiva queimante, furiosa, tomou conta do jovem bárbaro. Ele
retrucou, enfurecido:
— Elas devem atacar e destruir tudo que puderem!
— Nós entendemos, criatura humana! — disse Malkostraker.
Em oito pontos diferentes, a luta começou outra vez. Somente em um lugar, o
próprio Sandal podia intervir. Ele sentiu-se um pouco melhor quando aquela sensação de
fome diminuiu. Ele encontrou o seu arco novamente, também a manopla de couro, com o
rolo dos antepassados incólume, e quando Sandal esticou o arco, para experimentá-lo-
verificou que a arma nada sofrera. Só estava muito molhada.
Pela posição do sol ele notou que desde o instante em que ficara meio inconsciente
e agora, tinha se passado cerca de uma hora. Muito à sua frente, ou seja, à cerca de seis
quilômetros de distância, novamente tinha-se acendido uma luta furiosa entre os
defensores de metal e os invasores do “Enxame”.
— Vamos! Depressa! Siga esse rastro! — disse Sandal, empurrando a alavanca para
a frente.
O Mnesadocer pôs-se em movimento e saiu em alta velocidade.
Eles passaram por máquinas destruídas, soltando fumaça, e em espaços de
gramíneas queimadas. Em alguns lugares subia vapor. E havia também estranhos caídos
no solo, encolhidos até o irreconhecível. Eles realmente pareciam restos de árvores
tombadas. De vez em quando também se via uma couraça, que, ao contrário das roupas,
não modificavam seus tamanhos.
Pedras enegrecidas, capim amassado e arbustos esfacelados — um largo rastro
seguia para o oeste. A máquina corria velozmente, voando exatamente por cima dele.
Dois projéteis ultrapassaram Sandal e seu transporte. Eram lágrimas vermelho-escuras,
pairantes, do tamanho de um punho cerrado, que procuravam o seu alvo.
Sandal olhou-as penetrantemente, depois colocou uma flecha no arco, e dirigiu o
Malkostraker exatamente para trás de uma lágrima. Sandal atirou durante o voo, viu a
flecha ficar menor e depois acertar o alvo.
E então uma gigantesca bola de fogo vermelha ofuscou-o. A máquina carregou-o
através da nuvem de fogo, que entretanto nada lhe fez.
— Adiante! — Sandal agitou o seu arco.
Eles somente diminuíram a velocidade quando alcançaram a pequena planície. Ali
tudo parecia como na savana, onde Sandal já caçara.
Ali a coluna, que somente ainda consistia de um terço do seu número original,
reunira-se num círculo.
Ela era atacada de todos os lados pelos robôs.
Os seres, que tinham armas especialmente pesadas, tinham-se reunido num grande
anel em tomo dos trabalhadores. Eles apontavam as suas armas para fora, e deste modo
podiam defender-se das máquinas, e destruí-las. Mesmo assim, eles eram atacados
ininterruptamente, e havia vítimas.
No centro deste círculo trabalhavam cerca de setenta seres em uma nova construção.
Eles batiam longos bastões, enterrando-os no solo, afixando sobre os mesmos uma
construção em forma de gradil, que carregava uma plataforma. Todas estas peças eles
tinham carregado até aqui. Sandal guiou a sua máquina, num círculo que se formava à
cem metros adiante do front de máquinas atacantes e dos guardas que atiravam
furiosamente. Dali ele atacou.
Ele disparou uma flecha depois de outra.
Ele rodeou os combatentes como um lobo rodeia um rebanho de ovelhas. Mais uma
vez ele notou que estes seres eram atados instintivamente e não se davam conta do tipo
especial dessa luta. Eles se defendiam de um modo que era simplesmente suicida.
Sandal atirou ininterruptamente. Um defensor depois do outro foi para o chão. Mas
outros projéteis flutuantes intervieram, lágrimas vermelho-escuras dessa divindade que
chorava, e eles destruíam as máquinas. Logo um anel de sucata e chamas formou-se em
volta dos trabalhadores.
O andaime foi montado com uma velocidade louca. Um grande mastro foi
colocado, no qual estavam afixadas quatro conchas, que pareciam espelhos parabólicos.
Os estranhos trepavam pelo andaime, manipulando grandes chaves-de-parafusos
reluzentes, enquanto o número de defensores diminuía de minuto a minuto.
— Eu vou matar todos! — gritou Sandal, e atirou. Somente três defensores ainda
viviam. Novamente uma chuva de projéteis vermelhos veio voando e destruiu parte do
exército de robôs. Sandal ousou uma manobra audaciosa. — Uma vez em ziguezague,
transversalmente através do anel, máquina! — berrou ele, e puxou uma flecha,
colocando-a no arco.
— Entendido.
A máquina deu um salto, curvando em linhas uniformes através do círculo. Sandal
concentrou o seu fogo sobre os trabalhadores em cima do andaime. Ele atirou onze
flechas e onze homens morreram. Depois ele virou, e ousou uma segunda investida.
Novamente ele pôde mandar dez flechadas. Ele virou-se na sela e viu duas das bombas
incandescentes vindo na sua direção.
— Uma flecha! — resmungou ele.
Agora ele sentiu medo de morrer.
Ele atirou uma vez, fechou os olhos e sabia, quando a claridade ofuscou-o por baixo
das pálpebras, que tinha acertado. Para um segundo tiro a distância não era mais
suficiente, e ele arrancou a arma de raios, destravou-a e fez fogo. A explosão derramou-
se por cima dele como uma nova torrente de luz, mas nada lhe aconteceu, a não ser um
cintilar diante dos olhos.
— Vamos! Uma terceira vez! — resmungou ele.
Quando desta vez ele terminara a sua ação, somente uma única criatura ainda estava
dependurada no andaime. Ha segurava-se com três de seus braços, mantendo seus dedos
em volta de uma alavanca. Uma máquina que normalmente transportava troncos de
árvores veio correndo velozmente, abalroando o andaime. O estranho caiu e a grande
antena também, em câmera lenta, enterrando partes da construção por baixo de si. Sandal
colocou a arma de volta no cinturão, depois de travá-la, e disse:
— De volta para a nave!
— Entendido. As máquinas vão limpar tudo — ainda há milhões de nós que não
foram danificadas.
— Ótimo. Eu vou abandonar vocês! — disse Sandal.
— Por que, criatura humana?
— Vocês dão conta de tudo sozinhas — disse ele. — Eu preciso encontrar a central
desses assassinos.
— Você quer entrar na nave?
— Pelo menos vou tentar fazê-lo! — disse Sandal. — Antes, porém, ainda vou
caçar um assado para mim.
— Entendido. Eu levo você para um local onde ainda há animais — muitos
fugiram.
— Obrigado — disse Sandal.
A máquina repetiu, cortês:
— De nada, criatura humana!
Malkostraker virou-se, estabilizou a altitude de voo e esperou então
automaticamente até que as flechas tivessem sido recolhidas novamente e Sandal tocou a
alavanca. E então o veículo voou com alta velocidade de volta, ao longo do largo rastro
pelo qual tinham vindo. Outras máquinas tinham chegado, limpando cuidadosamente
todos os destroços, e cavando grandes valas, nas quais enterravam os estranhos. Os seres
haviam encolhido para um vigésimo de seu tamanho original. Uma coluna havia sido
totalmente aniquilada, as outras sete ainda lutavam.
Sandal notou que a máquina, pouco antes da barreira rochosa, fez uma curva para o
sul, voando ao encontro de uma extensa zona florestada. Ele tirou uma flecha, colocou-a
no arco, e esperou. A máquina levou-o ao longo de um curso de água e parou na margem
de um bebedouro.
Separadas pela água, ali estavam diversas manadas daquelas pequenas gazelas, tão
saborosas.
— Este é o melhor lugar, criatura humana! — disse o Mnesadocer.
— Excelente.
Sandal atirou, e acertou em cheio um grande gamo jovem.
Ele estava a uma distância de cerca de cento e cinquenta metros. Uma distância na
qual não podia errar. Ele voou por cima do rio, apanhou o gamo e fez-se carregar até um
local onde podia fazer um bom fogo sem chamar a atenção. Ele abriu o bicho, retirou e
limpou a flecha, e tirou a pele do animal.
Ele nadou no rio, deitou-se no sol e pensou na sua situação, enquanto uma máquina
girava o assado num espeto. Ou melhor, a máquina mantinha o assado nas tesouras, e
girava as tesouras sempre numa distância exata acima do fogo. Afinal de contas, ela
podia calcular muito bem o grau de calor. Ela era parte de uma maquinaria para a luta
contra incêndios florestais.
Sandal dormiu, enquanto o assado girava.
Quando acordou, sentiu-se preparado para sair vitorioso de uma luta contra o
Universo.
Ele agora conhecia a sua meta.
Ele queria entrar na nave.
***
Sandal esperou o dia inteiro. Quando escureceu ele vestiu novamente suas roupas
secas, e examinou, peça por peça, todo o seu equipamento. Até mesmo o que lhe restava
de sal.
Ele embrulhou o resto do animal — eram ainda mais de dois terços —, matou um
segundo, e amarrou os dois juntos. Ele não precisaria passar fome dentro da nave... só a
Estrela Eterna sabia que tipo de alimentação esquisita estes seres esquisitos tomavam...
Ele acenou para que a máquina se aproximasse.
— Como está indo a luta?
Malkostraker retrucou:
— Dez mil máquinas foram destruídas. Vinte mil outras estão recolhendo os seus
restos, levando-os para os pavilhões do reabastecimento energético. Dentro de alguns
dias não se verá mais nada disso. Seis desses pontos de apoio foram montados. Mas nós
não podemos chegar até eles.
— Por quê? — perguntou Sandal e amarrou as cintas das três aljavas de reserva
entre si. Ele precisava poder alcançá-las com apenas uma de suas mãos.
— Um escudo de proteção.
Sandal explicou:
— Vocês podem destruir as instalações, avançando, como toupeiras, por baixo da
terra.
Um segundo de silêncio, depois veio a resposta.
— Entendido. Nós agradecemos.
— O que está acontecendo com os estranhos?
— Duas coisas — disse o robô-montaria. — Cerca de três mil deles vigiam o
monumento luminoso. O resto recuou para o interior da nave. Também o fogaréu apagou-
se. O mesmo ocasionou um círculo gigantesco, e mesmo montanhas foram arrasadas.
— O que é que vocês vão fazer?
Para seu espanto, o Mnesadocer respondeu:
— Até que cheguem os nossos construtores, somos os senhores do planeta. Nós
vamos tentar reconstruir a superfície, para que fique novamente como era antes da
destruição. Você nos ajudou mais do que supõe.
— Não foi nada! — disse Sandal, agastado.
— Obrigado.
Ele estava pronto. O último ato podia começar. Ele precisava apenas...
— Você me leva até a nave. Três robôs pequenos, com baterias recém-carregadas,
carregarão minha bagagem e devem me obedecer instantaneamente. Eu talvez os leve
comigo para o interior da nave.
— Por você eles se deixarão desintegrar com alegria, criatura humana! — disse a
máquina de montaria.
Sandal sentou-se na sela e guiou o veículo de volta para a nave. Do seu antigo ponto
de observação, ele viu o que tinha acontecido.
Entre ele e a nave havia um cordão triplo de estranhos armados pesadamente.
Isso lhe deixava poucas chances.
Ele carregou os robôs com o assado e com as aljavas. Uma máquina ele reteve
consigo. Pela via da central, ela teria que transmitir as ordens para as outras máquinas.
Agora era noite.
A noite, no momento, era sua única amiga...
9

A careta diabólica do ídolo, brilhando vermelha, olhava-o fixamente como se o


estivesse convidando. Ele aceitou este convite, mas ainda esperou. Afinal de contas ele
precisava achar uma brecha neste anel triplo. No ponto de corte das duas metades do
disco — bem no alto da nave — agora tinham sido acesas algumas luzes. Ou então vigias
as iluminavam por dentro. Daqui ele não podia reconhecê-lo.
O trabalho da gente vinda do “Enxame” parecia ter terminado.
Eles haviam instalado coisas, que eram apropriadas para destruir o planeta. Os
robôs talvez pudessem destruir novamente estas instalações, removendo os seus restos,
mas nunca esse monstro gigantesco, com os oito olhos luminosos, os quatro narizes e as
quatro bocas.
— Mas eu vou conseguir entrar na nave! — disse ele.
Por cima dele arqueava-se o céu cheio de estrelas. Talvez, lá em cima, um dos
pontinhos luminosos era o space-jet com Atlan no comando ou a Good Hope II de
Rhodan.
Ele tinha que desviar a atenção dos guardas.
Depois ele riu baixinho.
Ele recuou para a escuridão, correu rapidamente uns duzentos metros de volta e
amontoou, entre as rochas, lenha e capim seco, e alguns ramos e galhos finos, que
quebrou. Durante a luta, muitas plantas haviam sido destruídas, caso contrário,
dificilmente ele teria encontrado tanta lenha.
Ele fez um monte, em forma de pirâmide, pegou a arma de raios e de uma cobertura
segura pôs fogo no monte de lenha. Esperou um pouco, até que as chamas se ergueram
muito altas, depois deu um grito que podia ser ouvido ao longe, e que terminou num
gorjeio estridente. Ele silenciou por cinco segundos, tirou uma flecha da aljava e colocou-
a no arco.
Depois ele se mostrou.
Ele dançou em torno do fogo, sempre se cuidando para não gastar demasiadamente
suas forças. E repetidamente ele gritou de forma estridente outras vezes, emitindo de
tempos em tempos o grito que ele aprendera a odiar:
— Y’Xanthomonary!
Mas não tirava os olhos das sentinelas, que somente conseguia ver indistintamente.
Elas se mexeram, gritavam-se coisas curtas, estridentes, e pareciam não saber o que fazer.
Finalmente um estranho saiu correndo de dentro da nave, agitou os seus braços que
pareciam galhos, e deu algumas ordens.
Cerca de trinta estranhos puseram-se em movimento, depois aceleraram. Alguns
holofotes foram acesos, iluminando Sandal.
Ele dançou em volta do fogo, ficou atrás das chamas, depois deu alguns saltos,
recuando para a escuridão e disparando três flechas, que ele sabia estarem perdidas.
Depois correu de volta para o seu antigo ponto de parada, acenou chamando o robô
e disse:
— Siga-me, logo acima do chão e em cobertura.
— Entendido, ser humano!
Primeiro ele correu, com alguns saltos, até um monte de sucata, onde ele se
escondeu por segundos. O seu coração martelava tão fortemente que ele temia que
pudesse ser ouvido dentro da nave. Os estranhos ainda o estavam procurando em volta da
fogueira, iluminando os arbustos e as árvores com seus holofotes. E então Sandal correu
velozmente, em ziguezague, agachado e bem perto do solo, através da brecha no anel dos
defensores.
Um deles o viu, agitou a sua arma e veio ao seu encontro. Ele morreu de um tiro de
flecha, dado a quinze metros de distância.
Sandal continuou correndo.
Ele virou-se quatro vezes, atrás de si viu apenas o pequeno robô, em forma de
caixote. Ninguém o perseguia. Sem fôlego ele alcançou a nave e encostou-se perto de um
portal meio aberto, no metal fresco. Cautelosamente, e contendo a respiração, ele
aproximou-se mais do portal, piscou na luz ofuscante, e depois viu uma espécie de
pavilhão vazio, que era suportado por um sistema de colunas. Muito ao longe havia três
daqueles seres que pareciam conversar. Eles davam de si uns sons que pareciam os
trinados de passarinhos.
— As outras máquinas devem voar para cá, numa curva elevada!
— Entendido!
— Você me segue!
— Entendido!
Sandal, o arco na mão, saiu correndo. Ele também segurava três flechas na direita.
Então ele pegou as flechas com a mão esquerda, apertando-as estreitamente ao arco. Ele
descobriu uma larga escada de metal, assegurou-se para todos os lados, lançou o olhar
para o alto, e correu escada acima.
Ninguém se colocou no seu caminho.
Sandal esperou silenciosamente pelas duas máquinas, enquanto as batidas do
coração e a respiração se acalmavam. Elas chegaram, ele indicou um canto escuro, e
também foi colocar-se ali. Depois ele ligou seu aparelho de hiperrádio de pulso e apertou
o botão. Segundos mais tarde ele tinha a imagem de Atlan diante dos olhos.
Atlan gritou:
— Sandal! Você ainda vive! Nós pensávamos que você já tinha morrido.
Sandal colocou o dedo sobre os lábios e depois murmurou:
— Eu lhes preparei uma pesada derrota. Dez mil robôs lutaram comigo contra eles.
Eu chamo estes seres de “instaladores do Enxame” — mas você pode inventar um nome
melhor.
Atlan sorriu ligeiramente e murmurou:
— Isso dificilmente é possível, Sandal. O que está acontecendo?
Sandal riu e disse:
— Eu estou dentro da nave.
— Dentro da nave? — perguntou o arcônida, estupefato. — Como é que você
conseguiu entrar aí?
— Com astúcia e uma boa luta. Eu vencerei todos eles.
— É melhor que primeiramente você vença a si mesmo! — resmungou Atlan. — Eu
abandonei a Good Hope com o jato e queria buscar você. Estou nas proximidades do
planeta.
— Você realmente é meu melhor amigo — disse Sandal. — Como vai Chelifer?
— Bem. Ela amaldiçoa você, porque não está com ela! — disse Atlan. — Você
ainda pode voltar?
— Eu poderia, mas não quero, Atlan! Eu vou procurar aquele em nome de quem
todos estes crimes são cometidos. Eu vou lardeá-lo com flechas, como se lardeia um
assado com toucinho!
— Bom apetite! — disse o arcônida, sarcástico. — O que é que você pretende
fazer?
Sandal murmurou:
— Eles logo vão partir com uma nave parecida com um disco, que eles trouxeram
para fora da ponta da nave-cogumelo.
— Quando?
Sandal levantou os ombros, lastimando.
— Não faço ideia. Eu tenho que tentar chegar aqui bem de baixo, para bem no alto.
Vou levar muitas horas.
— Você está maluco! — gritou-lhe Atlan. — Deixe que eu vá buscar você!
— Não! Eu vou conseguir entrar no interior do “Enxame”.
— Por mim, faça-o, seu maldito idiota! Também é possível transformar valentia em
maluquice — disse Atlan, furioso. — Você não tem medo de ser descoberto?
— Eu tenho um bom arco, uma faca e sua arma de raio, Atlan. Eu vou conseguir
entrar no “Enxame”! Mas agora preciso ir adiante. Isso aqui está justamente vazio
agora...
Atlan anuiu e deu-se conta de que era impossível quebrar a teimosia do rapaz.
— Boa sorte, Sandal! — disse ele.
Sandal reconheceu pela expressão no rosto de Atlan que isto era uma despedida
para sempre, do arcônida.
— Eu vou voltar! — disse ele.
— Passe bem! — concluiu Atlan.
Sandal murmurou, depois de um rápido momento:
— Saúde todos por mim... especialmente a garota!
Depois desligou, e engoliu em seco, várias vezes. Lentamente ele saiu das sombras
e olhou em volta, vigilante. Ele encontrava-se num canto escuro de uma galeria, que
rodeava um mastro grosso, meio transparente. Em intervalos regulares havia, entre o
mastro grosso e a galeria, largas pranchas, e no mastro podia ser vista uma entrada
semicircular. Sandal achou que isso devia ser um elevador.
— Vamos! Eu preciso subir! — disse ele, para si mesmo.
Ele tinha a impressão de que precisava estimular sua própria valentia.
Ele saiu correndo, circulou três vezes a galeria, e colocou-se sobre uma das
pranchas. No mesmo instante ele viu, do lado de fora da parede meio transparente, alguns
vultos que vinham na sua direção. O elevador parou justamente na sua altura. A porta
abriu-se. O primeiro estranho morreu com a primeira flecha, o segundo, cujos olhos
justamente se abriram na direção de Sandal, também morreu. De cinco metros de
distância a flecha o trespassou e penetrou também no terceiro estranho.
Com um salto enorme, Sandal foi em frente e enfiou a última flecha no olho do
terceiro, com a mão, pois este justamente ia abrir a boca larga.
Depois ele levantou os três corpos, um depois do outro, carregou-os até a borda da
prancha e jogou-os para baixo.
— Vá buscar os dois robôs.
— Entendido, ser humano.
As máquinas vieram com suas cargas, e Sandal verificou que dentro do gigantesco
interior redondo do elevador de carga ainda havia um menor. Certamente este era mais
rápido. Ele abriu a porta, mandou os robôs entrarem e voltou para buscar as três flechas.
Ele lembrou-se, depois de três passos, que as flechas estavam com os mortos, lá embaixo
no pavilhão, e saltou de volta.
Depois o elevador zuniu durante sessenta segundos para o alto.
Ele parou.
Sandal abriu a porta, apertou um contato, e viu que através da parede foi empurrado
um pontilhão, que ligava uma larga rampa com o pequeno elevador. Rapidamente ele
atravessou o pontilhão, e quando olhou para o abismo sentiu um frio na espinha e
rapidamente virou a cabeça. Ele não era homem para grandes alturas.
— Mais para cima!
Ele seguiu diretamente em frente, seguido pelos três robôs. Não se via ninguém,
mas ele não conhecia nada aqui. Ele também não encontrou nenhuma possibilidade de
comparação, olhando em volta procurando. De alguma maneira também os estranhos
deviam ter vindo de cima para baixo. Mas como? Finalmente ele parou diante de uma
porta retangular.
“Tenho que me esconder. A qualquer momento alguém pode surgir aqui e me ver.
Se sou descoberto, estou perdido — e nunca mais verei Chelifer”, pensou ele,
desesperado.
Gotas de suor se formaram na sua testa.
Ele caminhou vinte passos para a direita.
Abriu uma porta.
Depois anuiu, satisfeito. Bem perto dos seus pés saía, de uma abertura, uma esteira
de cinco metros de largura, subindo num ângulo muito íngreme para o alto. Ali ela
executava aparentemente uma forte curva, e continuava em frente. Não havia outra
esteira que seguisse para baixo, de modo que cada pessoa que se colocava em cima dessa
esteira estava sozinha e não podia ser vista, depois que ele passara pelo comprimento da
primeira seção, não havendo ninguém atrás dele, que fosse mais rápido, a não ser que
ainda corresse sobre a esteira.
— Venham!
Os três robôs pairaram para mais perto. Sandal fechou a porta atrás de si, curvou-se
fortemente para a frente e pôs os pés sobre a esteira. Ele foi arrastado, começou a
cambalear, teve que apoiar-se várias vezes no chão enrugado, e ficou de pé, muito
desconfortavelmente. Parecia que ele estava trepando por uma encosta muito íngreme. A
esteira puxou-o rapidamente para o alto, circundou uma curva, e depois veio a esteira
inversa.
Portanto aquilo era um duto estreito que levava para o alto, pensava Sandal.
Nas paredes não havia interrupções. Finalmente ele sentou-se, fincou as solas de
suas botas em diagonal no material, e esperou. Ele ficou contando. Uma subida, uma
segunda... no correr do tempo, aquilo acabou tendo dezessete seções. Cada uma delas
galgava uma notável diferença de altura.
De vez em quando surgia uma janela, através da qual podia-se olhar para dentro de
pavilhões, nos quais havia máquinas, das quais saíam grossos cabos de ligação. Uma vez
ele olhou para dentro do depósito de lágrimas. Em cima de gigantescas armações, estes
núcleos incandescentes estavam armazenados em diferentes tamanhos. Braços
hidráulicos, agora em posição de descanso, corriam em cima de pesados trilhos, diante
das estantes.
— Quer dizer que este é o ídolo. Eu estou no ventre do ídolo que chora lágrimas
vermelhas e ri ao mesmo tempo.
Sandal ergueu os ombros.
Ele acenou para que o primeiro robô se aproximasse, tirou sua faca e cortou uma
porção do tamanho de um prato da carne assada, colocou a arma de volta e começou a
comer. Agora ele sentia-se bem, mas isso, no minuto seguinte, podia modificar-se.
O tempo passou.
Ele estava chegando cada vez mais no alto.
— E quanto mais alto eu estiver, maior é a possibilidade de eu topar com muitos
estranhos. Ou eles comigo! — disse ele. — A noite é minha amiga.
Ele puxou sua arma pesada, enquanto mordiscava o osso que depois jogou para
além da esteira. Ele controlou a carga, ajustou o raio em enfeixamento fino, e colocou a
arma, destravada, novamente de volta na bolsa larga do seu cinturão, que atravessava o
seu peito.
E então a esteira terminou.
As máquinas esperaram, ele abriu a porta. Ele agora viu-se diante de um corredor
baixo, comprido. Este corredor parecia seguir o arredondamento do cogumelo, ou já a
cabeça do cogumelo. Pois ele conseguia ver apenas uma pequena parte dele. Mas ele
notou uma coisa, que lhe deu segurança. Tudo que ele vira até agora era construído de
maneira muito rude e sem cuidado. Bem diferente das instalações internas da Good Hope.
Portanto a construção era para “prejuízo”. Também este corredor. Paredes de metal
áspero, com costuras de solda, rebites e cantos não burilados. Os cabos tinham sido
instalados de maneira desmazelada, mas mesmo assim preenchiam suas finalidades.
Portanto ele ainda se encontrava naquela parte da nave que devia ficar para trás no
planeta, como imagem do ídolo.
— Eu compreendo! — disse ele, erguendo a arma de raios e seguindo adiante.
Ele não conseguiria partir um cabo condutor com uma flecha, apesar de ter
preferido isso.
Se ele agora se encontrava num corredor redondo, então ele estava na parte exterior,
portanto afastado do centro, da linha que representava a absoluta vertical do meio da
nave. Portanto, visto daqui, ele teria que movimentar-se mais para a direita. Mas não
havia nem portas nem escotilhas, nem eclusas nem quaisquer indícios. O chão consistia
de metal canelado.
Depois de mais vinte minutos ou meia hora, na qual ele quase desesperara,
descobriu, à sua frente, uma sombra.
Uma sombra característica, que se aproximava.
Um estranho.
Numa pressa febril, Sandal colocou a arma de raios de volta, pegou uma flecha e a
colocou em posição. Ele esticou o arco e continuou andando, apesar de não poder mirar
muito bem. Quando o estranho saiu de trás de uma curva interna do corredor, um uivar
sibilante foi o último som que ele ouviu em sua vida.
Sandal puxou a flecha para fora e disse:
— Pegue esse estranho e o leve na direção pela qual viemos. Se você descobrir
algum recinto, esconda-o ali.
— Entendido! — disse a máquina.
Enquanto o morto encolhia o robô arrastou-o consigo em alta velocidade. A
máquina encontrou uma entrada dentro de poucos minutos, e se viu diante de uma esteira
que ia para baixo.
A esteira carregou o corpo consigo, para o fundo.
***
Sandal Tolk parou. Atrás dele também pararam os dois robôs, enquanto o terceiro
varreu ao longo da curva do corredor, freando abruptamente. Perto de Sandal encontrava-
se uma grande vidraça, embutida numa grossa protuberância emborrachada. Sandal
encostou-se bem na parede e olhou através da vidraça. Ele pôde ver um salão redondo
com um grupo de máquinas, consoles e monitores de vídeo no centro do recinto.
Quatro estranhos estavam sentados ali, observando as telas de imagem. Sandal não
pôde ver o que elas mostravam — provavelmente eram imagens da superfície do planeta.
Atrás do salão, a uma distância de cerca de sessenta metros, ele viu uma outra
passagem aberta e por trás mais um duto de elevador.
Portanto ali estava o centro da nave, o eixo-polar, como os terranos chamavam a
isso.
Sandal refletiu — ele tinha que desviar a atenção dos quatro homens. Ele não
matava, quando não era preciso. Mas teria que matá-los, se eles se defendessem,
destruindo o seu plano.
— Espere aqui!
— Entendido, ser humano! — retrucou o pequeno robô.
Sandal pegou a arma de raios, deu dois saltos rápidos e deslizou diante da vidraça.
Nenhum dos quatro o vira. Sandal acocorou-se no chão, avaliou a distância e observou
atentamente as máquinas. Alguns cabos grossos seguiam até diversas conexões nas
extremidades do salão. Sandal levantou a arma de raios, mirou muito acuradamente e
depois disparou duas vezes.
A arma funcionava quase silenciosamente.
Duas veias energéticas foram cortadas bem perto das tomadas grosseiras. Houve
traços de fogo, descargas crepitantes, e uma saraivada de relâmpagos, depois subiram
gordas nuvens de fumaça. Os quatro seres se ergueram de um salto, três monitores
apagaram, e então os estranhos saíram correndo dos seus lugares na direção da qual
vinham a fumaça e os relâmpagos. Três ficaram parados, o quarto abandonou o recinto
através de uma porta estreita.
Sandal reconheceu a sua chance, ergueu-se de um salto e correu trinta metros até os
consoles.
— Vamos!
Ele acenou para trás. Sem ser vistos, também os robôs se colocaram atrás de
armários e monitores. Cautelosamente Sandal espiou por cima do canto de uma mesa e
agora viu que o quarto estranho distribuía pequenas bolas vermelhas aos outros. Eles
todos estavam parados de costas para Sandal e seus amigos metálicos.
A ocasião era favorável — nenhum dos olhos — que estavam dirigidos na direção
de Sandal — estava aberto.
— Ali, para o outro lado! Rápido! — murmurou ele.
Ele saiu rapidamente de sua cobertura, e correu, através da outra metade do recinto,
sobre suas solas finas, e se encontrou cm relativa segurança. Ele abriu a porta do
elevador, entrou nele ao mesmo tempo que as três máquinas, e apertou o penúltimo botão
de cima de uma longa fileira. Os botões eram quadrados e grandes e possuíam no meio
concavidades profundas para os dedos finos dos estranhos.
O elevador pôs-se em movimento, com um solavanco, seguindo rapidamente para o
alto, parou e bufou um pouco.
Sandal ainda mantinha a arma na mão e olhou em volta, logo que tinha colocado a
cabeça para fora da porta.
— Não há ninguém aqui. Será que todos estão lá embaixo, naquele anel de
vigilância? — perguntou ele a si mesmo, baixinho, saindo rapidamente para fora. A partir
de agora ele se encontrava em grande perigo. Ele não podia ser descoberto, pois aqui ele
notou nas construções melhores e muito mais cuidadosamente executadas de todas as
instalações e superfícies, que ele já se encontrava no objeto voador semelhante a um
disco, cuja altura ele tinha avaliado em quarenta metros, com um diâmetro de no máximo
cem metros.
Ele se encontrava no convés inferior, como logo verificou. O elevador ainda não
terminava aqui, mas nitidamente Sandal viu as vedações e as capas de pressão, que se
fechariam, quando o disco partisse.
Ele precisava esconder-se...
10

Sandal assustou-se quando ouviu a sirene. Ele perdera toda a noção de tempo,
durante a longa subida dentro da nave. Ele olhou para o relógio de sua pulseira. Era
muito depois da meia-noite, no tempo utilizado por Rhodan e seus amigos. Eles já
registravam o dia treze de novembro.
— O que pode significar isso? — perguntou-se Sandal, em voz alta.
Entrementes ele encontrara um caminho, para se esconder pelo menos
passageiramente. Ele se encontrava num pequeno recinto anexo da central de força — de
qualquer modo ele definira o que vira até agora, dessa maneira.
Sandal pensou na Good Hope II e refletiu onde ele se esconderia ali.
Na casa de máquinas?
A mesma era controlada frequentemente, e além disso ali eram executados
trabalhos, pois ali se encontravam um console de comando e outras coisas mais.
No magazine?
Já era melhor, porque ali raramente alguém ia dar uma olhada. Entrementes ele
também notara que todos os consoles de comando tinham sido instalados para os grandes
estranhos. Sandal imaginou que muitos desses seres nem teriam lugar aqui nesta nave
pequena. Talvez eles também encolheriam agora, tomando-se menores, conforme tinham
feito depois de mortos.
— A sirene só pode significar uma coisa — disse ele baixinho e virou-se para os
três robôs. — Os estranhos estão voltando. Eles querem dar início ao voo.
— Isso nós também achamos.
Sandal tirou de uma das máquinas as suas aljavas e jogou-as às suas costas. O
animal que ele matara recentemente e a metade do assado ele dependurou numa saliência
metálica e ordenou:
— É melhor que vocês agora desapareçam. Vocês sabem que botões eu ativei, e
também, é claro, que na medida do possível ninguém deverá vê-los. Portanto sejam
rápidos e invisíveis. Muito obrigado!
— De nada, ser humano! — disseram todas as três máquinas e saíram em disparada.
Com seus membros habilidosos eles abriram portas e as fecharam novamente.
Sandal estava convencido de que os robôs alcançariam o lado de fora sem serem
molestados. Mas entrementes o tempo estava ficando curto para ele.
Ele esgueirou-se para fora da casa de máquinas, abriu cada porta e cada escotilha
que descobriu, e finalmente encontrou-se numa oficina pequena mas muito bem
instalada. Também ela havia sido equipada para os estranhos grandes, conforme ele
verificou rapidamente. Ele notou gigantescas bancas de trabalho, máquinas e consoles de
comutação, viu numa parte muita desordem, e em outros lugares tudo muito bem
arrumado. Uma fileira de armários embutidos cheios de trajes espaciais podia ser vista.
— Excelente! — disse Sandal.
Ele correu de volta, foi buscar seu assado, fechou a escotilha cuidadosamente atrás
de si e tirou os trajes espaciais de dois armários. Ele arrumou-os num pequeno recinto
anexo, nas prateleiras superiores, contou, com a arma de raios, a parede de separação dos
dois armários, e empurrou a placa atrás de uma cobertura. Depois fundiu cautelosamente
uma das portas, prendendo-a no caixilho, colocou as aljavas e o arco para dentro, foi
buscar uma montanha de estopa, forrou o chão com a mesma, e finalmente desamarrou o
animal fresco do assado.
— Eu vou ter um quarto de luxo! — disse ele e sorriu.
Ele olhou em volta em busca de um esconderijo e finalmente jogou o animal atrás
de uma coleção de ferramentas no chão, colocando uma caixa vazia por cima, que
amarrou à parede.
Ouviu-se a sirene pela segunda vez. O seu ruído estridente atravessava toda a nave.
Com um fino raio de sua arma ele furou alguns buracos na parede do seu
esconderijo, para poder ter uma visão de todo o recinto. Além disso, ele também
precisava de ar para respirar.
— Pronto! — disse ele.
Depois puxou a porta, fechando-a por dentro, amarrou-a e deitou-se no chão, ao
comprido. Ele conseguia espichar-se completamente, mas evitou adormecer. Durante
muito tempo houve silêncio, e então a nave parecia estar se enchendo. Isso era
compreensível, pois os vigilantes precisavam do mesmo tempo que ele, para chegar ao
disco na ponta do ídolo de aço. Ouviam-se ruídos estridentes, uma confusão de vozes, e
depois a escotilha para a casa de máquinas se abriu.
Sandal agarrou a arma e estava decidido a defender este recinto até a morte, caso
fosse descoberto.
Ele viu um dos estranhos grandes e atrás dele... aquilo parecia realmente engraçado,
mas Sandal não tinha ilusões. Podiam ser milhares desses homenzinhos, que pareciam
anões ou gnomos de formas estranhas. Eles entravam aos magotes na casa de máquinas,
com o seu tamanho de menos de vinte centímetros. Ele sentiu um leve pânico. Agora
estas criaturas se pareciam ainda mais com bichos, com formigas ou insetos arrastando-se
confusamente.
Eles corriam numa confusão, mas logo fez-se uma certa ordem naquela massa, e
parecia, pelo que ele podia ver, que eles se distribuíam em muitos recintos pequenos.
Depois de uma hora a casa de máquinas estava novamente vazia, e o estranho, que tinha
manipulado uma ferramenta, abandonou o recinto novamente.
Sandal retirou o olho do buraco na parede de aço e esperou pelos ruídos e
estremecimentos que mostrariam que o disco estaria partindo, soltando-se de sua base.
— Será que eu devo arriscá-lo? — perguntou-se Sandal, em voz baixa.
A sua voz soava oca, e um eco vibrante podia ser ouvido.
Ele arriscou.
Na meia-escuridão ele mexeu o seu pulso para um raio de luz que caía através de
um dos furos. A luz caiu sobre a pulseira de comunicações e Sandal ajustou o aparelho
para hiperrádio e para transmissão.
— Atlan! — murmurou ele, penetrantemente, e espiou para fora pelo buraco.
Agora podia-se ouvir um surdo zumbido.
O diminuto monitor acendeu-se, novamente podia ver-se a cabeça de Atlan. O
arcônida parecia estar sonhando.
— Sandal! — disse ele, baixinho. — O que está acontecendo?
Sandal sabia que Atlan mal podia vê-lo. Havia pouca luz aqui.
— Eu estou escondido num armário duplo perto da casa de máquinas — disse ele,
baixinho. — Eu tenho algumas informações para você. Primeiramente a nave...
Murmurando, ele relatou o que acontecera por aqui, mas limitou-se ao mais
importante apenas. Os olhos ardentes, as lágrimas vermelhas, as quatro caretas e sua luta,
foram rapidamente mencionados.
— Continue! Eu liguei um gravador. Continue falando! — disse Atlan.
Tanto para o arcônida no jato como também para Sandal havia o perigo de que os
seus transmissores fossem goniometrados, tentando assim encontrar os que estavam
transmitindo. Então Sandal estaria perdido. Ambos contavam com que, em primeiro
lugar, deveria haver só poucos instrumentos a bordo deste disco, e em segundo lugar que
os preparativos para a partida e a própria partida deviam fazer com que os estranhos não
fizessem um exame melhor.
— Os estranhos têm o seguinte aspecto... — começou Sandal.
Ele descreveu o seu aspecto, a misteriosa massificação do fator oito no aspecto dos
assassinos, e depois ele relatou que estes seres diminuíam para um vigésimo de seu
tamanho original, e deste modo enchiam o jato aos milhares. Atlan observou, sarcástico:
— Parecem ser criaturas instantâneas. Obrigado, Sandal, você nos deu informações
preciosas.
Sandal murmurou:
— Eu vou voar para dentro do “Enxame”, com esta nave. Pelo menos tenho
esperanças disso. Diga ao meu amigo Perry que ele sempre permaneça nas proximidades
do “Enxame” com a sua nave, porque eu vou tentar irradiar informações importantes para
fora, pelo hiperrádio. Talvez também por outros meios, agora ainda não sei. Eu tive sorte
de que eles não me descobriram... — ele interrompeu-se.
Alguém entrou no recinto, sacudiu a porta do armário vizinho e depois abriu uma
outra porta. O estranho tirou o traje espacial, jogou-o por cima de dois dos seus braços, e
saiu novamente, pisando forte. Sibilando, a escotilha fechou-se. Enquanto ela estivera
aberta, o barulho tinha penetrado na casa de máquinas, sobrepondo-se a todos os outros
ruídos, inclusive às perguntas de Atlan.
— Eles não me descobriram, — continuou Sandal, — e eu sei que de certo modo
eles são como animais. Você se lembra de peixes na desova ou de formigas voadoras?
Eles têm apenas um objetivo diante dos olhos. Eles não enxergam muita coisa ao seu
redor. Mais ou menos assim, eles se comportam. Portanto eu também vou ter
oportunidade para me esconder no interior do “Enxame”. Eu ainda tenho trezentas
flechas, Atlan! Com elas posso combater o “Enxame”.
— Você é um maldito idiota! — disse o arcônida, com raiva.
Sandal viu nitidamente as rugas verticais na testa de Atlan.
— Vou desligar agora — disse ele. — Ninguém me descobriu. Eu vou recolher
informações, conforme dizia Chelifer. Como vai ela, Atlan?
Atlan anuiu, preocupado.
— Muito bem. Ela me pediu que fosse buscar você, caso isso o acalme, seu maluco.
Boa sorte, amigo!
Sandal sentiu uma forte queimação na garganta. Ele pigarreou e perguntou, com voz
rouca:
— Você agora vai voar de volta para a Good Hope?
— Sim — respondeu o arcônida. — Vou fazer isso. Vou contar a Rhodan o que
você pretende fazer. De certo modo, vamos ficar perto de você.
Sandal concluiu:
— Eu vou pensar em vocês nesse mundo infernal dos assassinos loucos! Desligo!
— Desligo! — murmurou Atlan, com voz sombria.
A tela do monitor apagou-se, o alto-falante deu um rápido clique.
Sandal estava novamente sozinho.
***
Cerca de um quarto de hora depois os ruídos e as vibrações ficaram mais fortes. O
ex-selvagem sabia que as duas naves agora se separavam e que o disco subia.
Os estremecimentos ficaram mais fortes, permaneceram algum tempo, depois
desapareceram. Sandal supôs que o disco agora se encontrava no espaço aberto e corria
de volta velozmente na direção do “Enxame”.
— Espero que para a viagem de volta eles não precisem de tanto tempo, como da
primeira viagem — disse ele, baixinho.
Sua prisão tinha de sete a oito metros cúbicos de tamanho.
Com muito esforço Sandal primeiro tirou a aljava das costas, depois afrouxou o
cinturão do peito e tirou a jaqueta. Ele praguejou quando a sua mão, por acaso, tocou o
saco meio vazio de sal.
Ele tinha providenciado comida, mas não pensara em água.
Em algum tempo ele teria que procurar água nesta nave. Como os estranhos
aparentemente se sentiram bem no planeta, não levando em conta as suas perdas, que ele
lhes ocasionara, ele não duvidava por um momento de que eles também precisavam de
água.
— Maldição! — disse ele, baixinho.
Ele enrolou a jaqueta, encostou-se na parede com as costas, e colocou a cabeça
sobre a jaqueta. Somente não podia virar-se de costas, pois assim havia o perigo dele
revelar a sua presença, devido aos seus roncos.
Ele esperou.
Durante horas.
Depois adormeceu. Sem transição, sua cabeça caiu para o lado, sua boca abriu-se, e
o solitário caçador dormiu profundamente e sem sonhos.
De vez em quando suas mãos se mexiam, fazendo os movimentos de um homem
atirando com um arco. Sandal Tolk dormiu por várias horas, e quando acordou
novamente, porque sentia um calor insuportável, sentiu também uma fome danada e
muita sede.
— Eu preciso arranjar alguma coisa para beber! — murmurou ele, erguendo-se com
muito esforço. Ele olhou através dos furos — e não viu nada. Escuridão. Provavelmente
eles tinham desligado, do console de comando, a iluminação de todos os recintos não
utilizados. Isso era uma vantagem e ao mesmo tempo uma desvantagem.
Sandal abriu, com a arma de raios na mão, cautelosamente a porta. Depois notou,
com o instinto do caçador experimentado, que, além dele, não se encontrava ninguém no
recinto, e ele fez alguns exercícios de alongamento e respiratórios.
Depois saiu, para procurar por água.
Ele caminhou dez metros, indo até a escotilha, colocando o rosto contra a vidraça,
transparente no meio. Como um olho luminoso, ela lhe indicara o caminho. Ele olhou
para dentro da casa de máquinas, e viu dois estranhos grandes diante dos controles. Eles
conferiam valores, mantinham nas mãos pranchetas sobre as quais haviam afixado papéis
e laminados. Ao mesmo tempo eles escreviam com três mãos, olhavam com quatro olhos
para os instrumentos, e conversavam em sons estridentes, entrecortados.
Depois de uma meia hora, apagaram-se algumas lâmpadas.
— Excelente! — disse Sandal, aferrado, esfregando as mãos.
Um dos dois colocou suas anotações de lado, atravessou o recinto e desapareceu por
uma porta. Por um momento Sandal pôde ver uma superfície em higiênico verde-claro.
— Onde existe um escoamento, — disse ele, baixinho, — geralmente também
existe um afluente.
Muito lentamente ele abriu a escotilha, escorando-se contra a mesma, de modo que
se fez apenas uma pequena brecha. Quando ele viu nitidamente que o outro estranho
dirigia sua atenção para um monitor redondo, Sandal esgueirou-se através dessa brecha e
desapareceu na sombra e atrás de grandes máquinas e transformadores.
Lentamente ele deslizou até o outro lado do recinto e esperou até que o estranho
terminasse de lavar suas mãos. O que levou muito tempo.
Quando o estranho, o instalador do “Enxame”, voltou, Sandal desapareceu atrás da
porta.
Agora ele tinha água de sobra.
Ele lavou-se com muita pressa, sempre com um olho na porta e a arma de raios ao
alcance das mãos. Depois bebeu longamente, abriu a porta e voltou, quando encontrou a
casa de máquinas escura e vazia, rapidamente para o seu esconderijo.
O voo que o levava para o interior do “Enxame” continuava.
***
Ao mesmo tempo a gigantesca estátua com as quatro caretas diabólicas começou a
mudar de cor. Os olhos, a boca e o nariz continuaram vermelhos, porém toda a
construção começou a tingir-se lentamente de amarelo. Uma hora mais tarde, as caretas
grotescas tinham o aspecto que fora descrito pelo seu primeiro observador na nave-arraia,
que também as fotografou — eram de um amarelo feio, repulsivo.
Como uma cabeça de ídolo com uma cobertura estranhamente formada.
Com alguma imaginação podia-se tomar aquilo como uma coroa de soberano —
mas no planeta Teste Rorvic não havia ninguém capaz de estabelecer esta comparação.
Somente alguns milhões de ativos robôs, aos quais agora se reuniram três máquinas
pequenas, que silenciosamente ajudavam a limpar os traços e destroços das lutas e da
devastação.
O sol subiu, iluminando a estátua do ídolo...

***
**
*

Você vai ler a continuação das aventuras de


Sandal Tolk num número posterior da série. Na próxima
semana um velho conhecido terá um papel importante
— o ser energético de Peregrino.
A história tem como título: O Pedido de Socorro
do Imortal.
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www.perry-rhodan.com.br

O Projeto Tradução Perry Rhodan está aberto a novos colaboradores.


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