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TRANSPORTE PARA
O DESCONHECIDO

Autor
CLARK DARLTON

Tradução
RICHARD PAUL NETO

Revisão
ANTÔNIO CARLOS
(De acordo, dentro do possível, com o Acordo Ortográfico válido desde 01/01/2009)
Na Terra e nos outros mundos da Humanidade os
calendários registram meados de maio de 3.442. Para
Perry Rhodan e para os terranos dos mundos da galáxia
não atingidos pela onda de imbecilização, ou não mais
atacados ― o seu grupo, apesar de entrementes ter
crescido para dezenas de milhares, é ainda ínfimo em
relação aos muitos bilhões de afetados ― oferece-se
uma quantidade tão grande de tarefas importantes que
praticamente é impossível realizar, em vista da aguda
falta de forças qualificadas.
Eles procuram por meios e caminhos para deter o
“Enxame” em sua penetração maléfica na galáxia. Eles
tentam diminuir a miséria na Terra e nos outros mundos
habitados. Eles se ocupam com o “Império Secreto”,
cuja existência parece representar uma ameaça
adicional. E eles tentam mobilizar todas as inteligências
ainda não afetadas da galáxia.
Nestas missões difíceis, apesar de todas as
resistências, entrementes já se conquistaram
consideráveis êxitos parciais. E agora um novo êxito
parece esboçar-se numa confrontação com o
“Enxame”.
A nave espacial Gevari, cuja tripulação conta com
Gucky e outros mutantes, encontra-se, há bastante
tempo já, no “Enxame”, sem ter sido descoberta. A
expedição possui até um esconderijo absolutamente
seguro ― porém para a execução de outras tarefas os
terranos precisam abandonar o seu esconderijo e
realizar o Transporte Para o Desconhecido...

= = = = = = = Personagens Principais: = = = = = = =
Alaska Saedelaere ― Chefe da Expedição-Gevari.
Mentro Kosum ― Piloto da Gevari.
Blazon Alfa e Blazon Beta ― Os irmãos, tão desiguais,
decidem abandonar o “Enxame”.
Gucky ― O rato-castor faz amizade com uma criatura
exótica.
“Amigo” ― Porta-voz dos habitantes secretos do planeta
Casulo.
1

A noite transcorrera sem incidentes. Desde que eles estavam na estação dois trilhos
do planeta Casulo, dentro do “Enxame”, tinha havido muita agitação e aventuras
imprevistas, mas nas últimas vinte e quatro horas não acontecera nada que pudesse
colocá-los em perigo.
A 5a Coluna tinha merecido essa pausa de descanso.
O murmúrio telepático do plasma enfermo não incomodava este sossego. Somente
Ribald Corello e o rato-castor Gucky podiam compreendê-lo, mas cada um deles sabia o
que isso significava, e que não havia nenhum perigo associado a isso. O plasma cobria
quase toda a superfície do planeta, montanhas amarelas e gigantescas planuras, que
viviam e pensavam ― e que ainda tinham esperanças.
Depois da destruição do “demônio negro”, o comando especial de Rhodan
conseguira apossar-se da estação de trilhos, para sua própria base de apoio. O gigantesco
edifício, visto de cima, parecia-se com uma tartaruga. Quase quadrado, porém fortemente
arredondado nos cantos, ele media novecentos metros de canto a canto. Como os trilhos
energéticos, que abarcavam todo o planeta, e que no corte tinham apenas oitocentos
metros de largura, sobrepassava a estes em cinquenta metros em ambos os lados.
A estação tinha trezentos metros de altura.
No seu interior havia inúmeros recintos com instalações técnicas, cujo sentido nem
sempre podia ser entendido claramente. De qualquer modo, a estação possuía uma
estação transmissora automática, que constantemente irradiava fortes impulsos. Alaska
Saedelaere, comandante da 5a Coluna, não mandara interromper estas transmissões, pois
uma repentina parada da instalação certamente causaria a desconfiança dos verdadeiros
proprietários do “castelo”, como eles tinham batizado a estação.
Nas proximidades do hangar, que ficava logo abaixo da superfície do castelo, eles
tinham descoberto um recinto maior, que lhes parecera apropriado para seu esconderijo.
Não havia um excesso de instalações técnicas, em contrapartida existiam muitos recintos
anexos, parecidos com nichos, nos quais nossos amigos puderam instalar-se
comodamente. Na verdade eles tinham que desistir de todo luxo, e ficavam contentes
quando podiam banhar-se e refrescar-se na Gevari.
A Gevari era a nave com a qual eles tinham penetrado no “Enxame”, pousando no
planeta Casulo. Era um space-jet ampliado, um disco de cinquenta metros de diâmetro e
uma altura de vinte e cinco metros no vértice. O armamento principal consistia de dois
canhões transformadores.
Merkosh, o Vítreo, acordou e se espichou. Se Gucky tivesse visto isso, certamente
logo se lembraria novamente de uma observação inapropriada, mas por sorte o rato-castor
estava dormindo no recinto anexo. Apenas Balton Wyt, que estava deitado ao lado de
Merkosh, acordou e piscou os olhos.
― O que foi? Já acordou? Nós devíamos aproveitar essa pausa de descanso.
― Não se pode dormir eternamente ― retrucou o Vítreo. Ele deitou-se novamente,
e fechou os olhos outra vez. ― Mas, por minha parte...
Segundos mais tarde, ele adormecera novamente.
Kosum, o emocionauta, dividia o seu nicho com os irmãos Blazon Alfa e Blazon
Beta. Ele era, oficialmente, o piloto da Gevari, pois com a ajuda do capacete-SERT ele
conseguia executar manobras de voo com a rapidez do pensamento.
Os irmãos Blazon eram tidos como excelentes físicos-sextadim. Nem exteriormente
nem com respeito aos seus caracteres, eles se pareciam irmãos. Ao contrário.
Dificilmente haveria contrastes maiores que Blazon Alfa e Blazon Beta.
Saedelaere cutucou Gucky com cuidado. O rato-castor resmungou alguma coisa
para si mesmo, mas depois resolveu acordar.
― Aconteceu alguma coisa? ― quis ele saber, de boca mole. ― O que estão
fazendo nossos amigos-plasmas? ― perguntou Alaska, e ficou deitado calmamente. ―
Nós agora já dormimos o bastante. Toda uma noite, por assim dizer. Você tem contato?
― O plasma está pacifico como sempre. Também penetra na estação, mas não
significa nenhum perigo para nós. Eu acho que ainda podemos dormir uma rodada.
― Você tem coragem! Rhodan nem imagina se nós ainda estamos vivos ou não, e
você só quer dormir! Mas, você nem está tão sem razão, pois no momento não podemos
empreender nada. Apenas podemos esperar. Se pelo menos soubéssemos pelo que
estamos esperando!
― Que aconteça alguma coisa ― é por isso que estamos esperando! A iniciativa
não está mais conosco, Alaska. Nós agora sabemos que este é um planeta doente, que o
plasma são conquistadores-amarelos degenerados, que se reuniram numa criatura
coletiva. A sua divisão, em determinada ocasião, foi impedida, e agora vemos as
consequências de uma catástrofe dessas. O plasma tem esperanças, mas eu não sei do
quê.
― Mas você também considera certo que não devemos interromper os sinais de
rádio da estação transmissora?
Gucky rolou-se para o outro lado. Ele olhou para Alaska.
― Desta vez o comandante é você! ― Ele anuiu, magnânimo. ― Mas está bem, se
você dá valor ao meu conselho, você o terá. Não desligue! Nós também captamos, em
alguma ocasião, uma transmissão, que pode nos ajudar adiante.
― Trata-se, indubitavelmente, de impulsos de identificação. Se descobrirmos a
quem são destinados, nos adiantaremos um passo a mais. Eu acho que vou me ocupar
com isso. A bordo da Gevari temos todos os meios de ajuda técnica à disposição. Deverá
ser possível goniometrar a direção do raio goniométrico, determinando-o exatamente.
― Neste caso, levante-se! ― gritou Gucky e fechou os olhos. ― Eu ainda vou
descansar um pouco...
Alaska olhou-o, censurando, mas depois levantou-se, para acordar os irmãos
Blazon.
Era o dia 7 de maio do ano 3.442, tempo normal da Terra.
***
Do lado de fora do “Enxame” Rhodan, Atlan, Reginald Bell e as outras
personalidades dirigentes do Império Solar esperavam por um sinal de vida da 5 a Coluna.
As duas naves-capitânias Intersolar e Good Hope II mantinham-se a uma distância segura
do “Enxame”.
Depois que ainda se pudera verificar que a Gevari penetrara no “Enxame” através
do escudo flexível aberto à força por Corello não se havia mais recebido nenhuma notícia
de Alaska Saedelaere e dos seus acompanhantes. Ninguém podia saber se eles ainda
viviam, ou se já tinham morrido quando da tentativa de penetrar na microgaláxia
ambulante.
Eles estavam sentados na pequena cantina da Good Hope, silenciosos e pensativos.
Só de vez em quando se fazia uma conversa, que sempre girava sobre o mesmo assunto.
A inatividade, à qual eles estavam condenados, finalmente deu-lhes nos nervos. Mas não
havia nada que eles pudessem fazer.
― Alaska vai conseguir ― disse Atlan, apenas para cortar o silêncio opressivo. ―
Nós sabemos que os conquistadores-amarelos não nutrem quaisquer intenções inimigas
diretas. Eles querem multiplicar-se, eles seguem um instinto antiquíssimo. Que com isso
eles condenam planetas inteiros à morte, não é de sua intenção. Por que, portanto, eles
iriam querer destruir nossos embaixadores?
― Nossos embaixadores, conforme você os chama, ― opinou Rhodan,
calmamente, ― não pediram por permissão; além disso, penetraram no “Enxame” à
força. É possível que o seu procedimento seja avaliado como um ato inimigo, e reagirão
correspondentemente. Pelo que você está vendo, Atlan, a sua pílula tranquilizante não faz
efeito. Faz pouco sentido, nos enganarmos com alguma coisa. Mas eu conto com a
superioridade de nossos mutantes.
― Especialmente Gucky vai dar conta do recado novamente ― achou Bell. ―
Nosso pequeno salvador do Universo dificilmente se deixará enganar.
― Eu respeito sua confiança nele, Bell, mas ninguém de nós sabe os perigos que
nossos homens encontrarão. Pode haver coisas com as quais nem mesmo Gucky saberá
manejar. Mas não vamos ser pessimistas demais, nisso você tem razão. Além do mais,
qualquer prognóstico não serve para nada. Nós nos encontramos em posição de espera.
Na Terra, as condições parecem melhorar cada vez mais, e nós não nos precisamos
preocupar demasiadamente.
― Pelo menos não com a Terra ― resmungou Bell.
― Visto no geral, amigos, a situação melhorou ― verificou Atlan, mas rapidamente
acrescentou: ― Com o que, naturalmente, não quero afirmar que o perigo em si foi
afastado. De qualquer maneira agora sabemos o que acontece com o “Enxame” e o que
eles pretendem. Nenhuma invasão, conforme originalmente achávamos, mas o instinto
natural de um povo, no fundo lastimável, com rituais e costumes inexplicáveis. Isso
dificulta nossa situação, uma vez que não temos o direito moral de atacar os invasores
involuntários à força, não importa os danos que eles tenham provocado.
― Pois eu acho, ― disse Rhodan, ― que nós temos um certo direito de nos
defender. Se não fizéssemos isso, inúmeros planetas desapareceriam, milhares de mundos
habitados seriam devastados, milhares de civilizações ruiriam. Se intencionalmente ou
não, nós temos que nos defender disso. E já o estamos fazendo.
― Não foi isso que eu quis dizer ― Atlan defendeu suas opiniões. ― Eu apenas
quis dizer que a defesa nos será moralmente mais difícil, do que se estivéssemos diante
de invasores com intenções maléficas. Neste sentido, certamente você concordará
comigo, Perry?
― Sim, é claro. Eu também tenho pena desses conquistadores-amarelos, e eu
gostaria de ajudá-los, caso eles se deixassem ajudar.
― Quando eles reconhecerem nossas intenções, eles certamente refletirão a esse
respeito ― disse Bell. Em pensamentos ele ainda estava com a missão de comando
desaparecida, que eles tinham batizado de “Quinta Coluna”, e à qual pertencia o seu
amigo especial Gucky. Ele levantou-se, ― Eu vou até a central de rádio. Talvez eles
tenham captado alguma coisa que tenha importância.
Ninguém o deteve. Quando a porta fechou-se novamente, Rhodan disse:
― Se tivesse sido recebida alguma notícia importante nós já o saberíamos, mas ele
não consegue ficar sentado aqui, sem fazer nada, simplesmente esperando. Ele precisa
fazer alguma coisa. Eu consigo entender suas preocupações, comigo dá-se a mesma
coisa. Mas eu sei que preocupações não adiantam de nada. Nós só podemos esperar, nada
mais.
― Espero que nossa 5a Coluna também não esteja na mesma situação ― disse
Atlan. Ele nem imaginava o quanto tinha razão com suas suposições. ― Neste caso, nós
dois estaríamos esperando, e quem sabe por quanto tempo ainda...!
***
Blazon Alfa tinha quase um metro e oitenta e um de altura, e chamava atenção por
seus cabelos escuros, cortados “à escovinha”. Sempre parecia que ele não tinha passado a
navalha na sua careca durante muitos dias. Ele parecia estar sempre resmungando e
insatisfeito, e no fundo estava mesmo, quando não encontrava um adversário para
enganar no jogo. Realmente ― Blazon Alfa era um jogador. Jogos de todos os tipos o
fascinavam, especialmente quando eles desafiavam a sua inteligência, e ele estivesse
sentado diante de um adversário que estivesse à sua altura.
Ao contrário de Alfa, Beta era baixo e magro. Com seu metro e sessenta ele parecia
um anão ao lado do irmão maior. Beta era o que se podia chamar um anão venenoso. À
menor provocação ele ficava furioso, e então ele não levava absolutamente em
consideração com quem estava tratando. Ele dava livre curso à sua fúria. A isso juntava-
-se que ele era extremamente malicioso. Fora disto ele era, como o seu irmão, um
excelente físico-sextadim.
Quando Alaska acordou os dois, a reação correspondente não faltou.
― O que está pensando? ― berrou Alfa, erguendo-se. ― Nós temos um período de
descanso ou não temos? Está havendo um ataque? O mundo vai acabar? Ou o senhor
pretende me convidar para um joguinho? Sim? ― O Seu rosto, repentinamente, estava
radiante. ― Isso naturalmente seria outra coisa, Alaska. Que jogo é esse?
― Um joguinho até muito bonito, meu amigo.
Alfa ergueu-se de um salto, e ajeitou o uniforme.
― É gentox?
― Não, não é gentox, mas sim radiorrastreamento!
― Que jogo é esse, afinal? Do que se trata?
Entrementes também Beta acordara. Ele ficou deitado, mas o seu rosto enrugado,
com o nariz comprido e a boca estreita, revelava tudo menos pura alegria. Em silêncio ele
seguiu o curto diálogo, e quando soube do que se tratava, deixou-se cair de volta ao seu
leito provisório.
― Radiorrastreamento! ― gemeu ele, perplexo. ― E isso bem no meio da noite?
Alaska olhou para ele, censurando.
― Que história é essa de “noite” aqui? Como comandante, eu ordenei uma pausa
para descanso, e designei-a como noite. Quando esta noite termina, sou eu quem decide!
Vamos, levantem-se!
Alfa e Beta começaram a rir, até lhe brotarem lágrimas dos olhos. Eles tinham feito
a sua brincadeira. Isso tinha sido o bastante para deixá-los acordados, e esquecer toda a
raiva. Alaska olhou-os, perplexo, mas depois também riu.
― Eu sempre acabo caindo outra vez nas brincadeiras de vocês!
Eles foram juntos para a Gevari para lavar-se e para tomar o desjejum. Depois
Alaska explicou aos dois irmãos o que queria.
― Nós sabemos que o castelo constantemente irradia sinais de reconhecimento,
mas não sabemos para quem eles se destinam, nem em que direção são transmitidos. Não
podemos desligar o transmissor automático, pois neste caso imediatamente teríamos por
aqui um comando de verificação. Mas ninguém o notaria, se com nossos aparelhos nós
goniometrássemos e seguíssemos as transmissões. Era isso que eu queria pedir a vocês.
― Se o senhor tivesse dito isso logo, certamente teríamos reagido de modo mais
pacífico ― afirmou Beta. Ele olhou para o seu irmão. ― E então? Esse é um belo
joguinho, não é verdade? E eu vou ganhá-lo!
― Você vai falhar! ― berrou Alfa. ― Até agora você perdeu todo jogo, quando eu
sou o adversário.
― Desta vez o jogo é outro ― explicou-lhe Beta. ― Quem primeiramente
encontrar a direção exata da transmissão automática, ganhou.
― Ora! ― fez Alfa, depreciativo. ― E você chama isso de um jogo?
― Você apenas está tão pessimista, porque sabe exatamente que vai perder.
― Eu ― eu perder? Bem, isso nós veremos! Quando começamos?
― De preferência, imediatamente! ― gritou Alaska, que captou um olhar de triunfo
de Beta. ― Na central de rádio encontramos todos os instrumentos e aparelhos que são
necessários para isso. Eu acho que posso deixá-los sozinhos. Eu ainda tenho que me
ocupar com os outros, caso contrário eles dormem até estarmos numa outra galáxia, junto
com o “Enxame”.
― Nós vamos dar conta disso ― tranquilizou-o Beta, e Alfa acrescentou, certo da
vitória:
― De qualquer modo eu serei o vencedor!
Alaska voltou para o salão que lhes servira de alojamento. Ele também fora
escolhido, porque dele, em poucos instantes, se alcançava o hangar no qual se encontrava
a Gevari. Em caso de emergência, deste modo, era possível uma fuga rápida de Casulo.
Ribald Corello repousava no seu robô-suporte. Para a cabeça exageradamente
grande do mutante, tinha sido afixado um apoio especial. O robô podia andar, deslizar
sobre colchões defletores, e também podia voar. Com ajuda dos seus aparelhos, ele era
capaz de anular a gravidade, tomar-se invisível, e defender-se de qualquer ataque de
armas mortíferas.
Corello olhou para Alaska. Ele estava completamente acordado.
― O plasma está dando bons conselhos, os quais, acho que não são de valor para
nós. Nós não devemos separar-nos, de nenhuma maneira, aconselha ele. O tempo ainda
não chegou, e nós ainda devemos esperar. Eu receio que com separação ― divisão ―
eles estão falando de uma divisão de tempo.
― Ninguém de nós está pensando em se separar ― retrucou Alaska, sentando-se
num bloco de metal, que revestia uma das muitas maquinárias misteriosas. ― O plasma
pensa em outros rumos que nós. Ele não pode penetrar nos pensamentos de uma outra
forma de existência. Ele sente amizade por nós, mas pensa de modo subjetivo demais.
Mesmo assim, vamos ser vigilantes, pois entre as muitas sugestões não importantes, pode
aparecer uma que possamos seguir. Obrigado, Corello.
Ele acordou os outros. Algo descansados, eles se dirigiram para a Gevari, e quando
voltaram, uma hora mais tarde, podia-se designar todo o grupo como novamente pronto
para entrar em ação. Corello, entretanto, devido a suas debilidades físicas, ficava um
tanto incapacitado. Gucky teve pena dele e teleportou uma bacia de água fresca para o
seu suporte, ajudando-o assim a se lavar. Depois ainda lhe trouxe o desjejum.
Balton Wyt, o telecineta, ficou parado do lado, sacudindo a cabeça.
― Isso nunca ninguém viu! Gucky como criado de quarto! É difícil acreditar!
O rato-castor olhou-o, de modo venenoso.
― Algum dia eu também poderei servir a você, mas então certamente você vai
desejar nunca ter nascido. Amanhã você pode trazer o chocolate ao nosso supermutante,
seu preguiçoso!
Alaska pediu que se reunissem em tomo dele, e que se sentassem.
― Distribuição de trabalho para hoje ― começou ele, olhando-os em sequência. ―
Os dois Blazon estão na Gevari e se ocupam com as transmissões de rádio do castelo.
Conforme Corello informa o plasma penetra por diversos lugares para dentro do castelo,
mas não oferece perigo para nós. Se nos ameaça algum perigo, este somente poderá vir
de fora, ou seja, do espaço cósmico. Com exceção do plasma, o planeta é desabitado.
Gucky e Balton Wyt mesmo assim vão partir e verificar em que lugares o plasma
penetrou. Nós temos que evitar que ele provoque danos, ainda que sem querer. O menor
erro na instalação poderá ocasionar que alguém venha verificar, e então uma descoberta
não estaria mais longe. ― Ele hesitou um instante, depois acrescentou: ― Eu sei que
ninguém de nós gosta desta espera, mas não temos outra escolha. Eu sinto que alguma
coisa vai acontecer, mas não sei o que vai ser. Se este planeta fosse absolutamente inútil,
o “Enxame” já o teria expelido há muito tempo.
Balton Wyt, um ex-astronauta desaparecido e hoje membro do comando especial de
Rhodan, como telecineta, perguntou:
― Se o plasma tiver penetrado em departamentos do castelo que para nós pareçam
importantes, nós devemos rechaçá-lo ― mas como?
― Gucky pode entender-se com ele telepaticamente. Talvez possa fazer com que
ele recue ― e isso com argumentos lógicos. Por mais amistoso que seja, quando toda a
estação for inundada, também não restará mais nenhum lugar para nós.
― Eu também negocio com pudim de baunilha, quando é necessário ― afirmou
Gucky, muito sério. ― E essa coisa aqui parece ser o mesmo pudim.
― Só que essa coisa pensa ― disse Alaska, frisando as palavras.
O restante da divisão de trabalho para os membros restantes da 5 a Coluna pareceu
tão desinteressante ao rato-castor, que ele anuiu para Balton Wyt e se levantou.
― Venha, Balton, vamos colocar os trajes de combate e partir. Você nos desculpa,
Alaska, mas para nós pouco importa quem por aqui vai varrer o chão ou lavar as cuecas.
Vamos fazer uma visita ao plasma. Mais ou menos ao meio-dia estaremos de volta.
Tratem de ter alguma coisa boa para comer.
― Disso Mentro Kosum vai tratar ― prometeu Alaska, com isso dando sua
concordância.
***
Nas proximidades imediatas do hangar o plasma não penetrara. Gucky tomara
Balton pela mão e teleportou com ele para dentro de diversas seções do castelo, no que,
pouco a pouco, ele trocava de andar, subindo sempre. No centro do castelo, tudo também
estava sem modificações. Somente nas áreas externas, eles toparam com o primeiro
plasma.
Era um pavilhão de tamanho médio com elementos de comutação de aspecto
importante e gigantescos quadros de controle, que eram comandados positronicamente.
Não havia um só comutador que pudesse ser atendido manualmente.
Aquele mingau de cor ocre-amarelado cobria o chão metálico em quase um metro
de altura, mas não se conseguia determinar qualquer avanço do mesmo. Gucky sentiu
imediatamente os impulsos de pensamentos que penetravam nele. Ele teve um trabalho
indescritível para ordenar o caos, dando um sentido à confusão das correntes mentais.
Balton estava parado do seu lado. Apesar de intimamente estar convencido de que o
plasma era inofensivo, ele não conseguia evitar uma sensação sinistra. Nas profundezas
do seu subconsciente o antiquíssimo preconceito dos seus antepassados ainda estava
muito encravado. O plasma, mesmo sendo inteligente, era apenas plasma. Ele não se
parecia com ele, Balton Wyt.
― Ele está nos saudando ― murmurou Gucky. ― Muitas correntes de pensamentos
expressam alegria, mas também se preocupam pelo nosso bem-estar. O plasma sabe que
nós não viemos como inimigos, mas não pode revelar-nos como é nosso adversário. Ele
quer ocupar o castelo, para que ele não possa mais lutar contra ele.
― Com isso se alcança exatamente o contrário ― murmurou Balton. ― Como é
que podemos impedir isso?
― Primeiramente preciso encontrar um pensamento unitário no plasma. Enquanto
permanecer a confusão das mensagens, qualquer tentativa de uma tomada de contato
sensata é impossível. Ele não nos ouviria porque falta a coordenação. Isso, afinal, já
constatamos um par de vezes, sendo que devo conceder que o contato, às vezes, deu
certo, de golpe. Bem, vamos ver...
Quando Balton notou que Gucky começou a se concentrar seriamente, ele recuou
alguns metros, para não importuná-lo. Ele sentou-se em cima do bloco de um gerador,
observando o rato-castor, não tirando os olhos, entretanto, do plasma ainda imóvel.
Gucky ficou parado. Toda a sua atitude revelava extrema tensão e atenção. Quase
imperceptivelmente seus lábios começaram a se mexer, enquanto ele fixava e observava a
borda dianteira do tapete de plasma. Ele estava conversando com o mesmo, disso não
podia haver a menor dúvida.
Balton esperou, pacientemente. Ele agora gostaria de tomar um comprimido
tranquilizante, que estava no bolso interno do seu traje de combate, mas ele queria evitar
de fazer qualquer movimento inútil.
Entrementes Gucky conseguira estabelecer um contato definitivo.
― Nós agradecemos a vocês, pelos seus constantes conselhos ― devolveu ele
telepaticamente. ― Mas nós temos que pedir-lhes para que não penetrem mais para
dentro da estação. Isso dificultaria nosso trabalho, que também é de utilidade para vocês.
Seria até melhor se vocês abandonassem a estação totalmente.
A resposta ocorreu unitariamente:
― Nós não continuaremos a avançar mais, se vocês o desejam, amigos. Mas nós
precisamos ficar na estação, pois há quanto tempo nós já tentamos inutilmente vencer o
demônio negro? Vocês fizeram isso, e nós lhes somos agradecidos.
― A estação transmite sinais de reconhecimento. A quem eles se destinam?
― Nós não o sabemos.
― Quem são os que dão ordens?
― Nós não o sabemos.
Gucky refletiu sobre o que ainda deveria perguntar, mas ainda reconheceu em
tempo, de que já conseguira muito. Somente mais uma pergunta adicional, que poderia
poupar maiores esforços.
― Eu ainda preciso falar com seus irmãos-plasmas, para impedir que eles
continuem penetrando na estação, ou a sua decisão é definitiva?
― O que nós sabemos, todos nós sabemos ― veio a resposta um tanto misteriosa,
que entretanto logo fazia sentido, quando se encarava todo o plasma no planeta Casulo
como ser coletivo, pelo menos neste continente. Portanto Gucky não precisava esforçar-
-se para maiores contatos.
― Nós queremos agradecer a vocês ― disse ele, por isso. ― E nós confiamos em
vocês, assim como vocês podem confiar em nós.
― Isso nós sabemos.
Gucky aproximou-se de Balton Wyt e o informou.
― Ainda é cedo demais para o almoço ― disse o telecineta. ― Alaska vai pensar
que fomos preguiçosos...
― ...E nos indica para fazermos um trabalho indigno ― continuou Gucky. ―
Vamos ainda dar uma olhada por aqui.
Eles teleportaram para uma outra seção, e apesar de deixarem muitas centenas de
metros para trás, desta vez foram recebidos logo de principio por impulsos de
pensamentos bem-informados, que eram irradiados pelo plasma, entrementes esclarecido.
― Vamos descer uma vez à superfície ― sugeriu Gucky. ― O castelo está em cima
de um trilho energético, a cerca de sete quilômetros acima da superfície. Vamos respirar
ar puro. O ar aqui no castelo está um tanto insípido...
Balton era o último que faria objeções contra uma pequena excursão. Ele pegou a
mão do rato-castor e anuiu.
Eles não necessitavam de quaisquer medidas de proteção especiais, pois o ar em
Casulo era respiráve1. Naturalmente as temperaturas eram muito elevadas, mas a
refrigeração dos trajes de combate trabalhava sem problemas.
Eles estavam de pé numa grande planície, perto da margem do oceano, que se
estendia para o leste. O castelo pairava muito alto, acima deles, um diminuto ponto
escuro, em cima de um trilho energético muito brilhante. O sol vermelho Praspa se
encontrava muito paro o oeste e logo desapareceria. Mas o comando especial não se
dirigia de conformidade com a divisão de tempo planetária.
Ao norte havia uma montanha de plasma.
As massas tinham se levantado em quilômetros de altura e formavam verdadeiras
montanhas de matéria vivente. Uma montanha que pensava ininterruptamente e que
irradiava impulsos correspondentes.
― Ela está em ligação com o plasma do castelo? ― perguntou Balton, curioso.
Gucky ainda ficou “escutando” alguns minutos, depois anuiu.
― Sim, ela está a par do que nós combinamos com o plasma que penetrou no
castelo. Talvez exista um forte contato telepático, sem mesmo levar-se em conta de que
existe contato material. O plasma penetrou no castelo pelo trilho energético, que por isso
foi neutralizado. A massa que vem atrás se origina na montanha, e por isso também tem
contato físico, se é que nos podemos expressar assim.
O lugar onde eles estavam de pé ainda estava livre. O capim crescia até a altura dos
joelhos e era muito viçoso. O solo parecia úmido e fértil.
― Ainda há outros impulsos de pensamentos ― disse Gucky, de repente, e apontou
para a montanha ao norte. ― Nada de impulsos coletivos e sim impulsos individuais!
Isso devem ser seres unicelulares, que vivem e pensam, independentes uns dos outros!
Balton Wyt sacudiu a cabeça.
― Você deve ter se enganado, Gucky! Nós verificamos, sem sombra de dúvida, de
que o planeta apenas é habitado pelo plasma mutado. Fora dele não há vida, com exceção
de algumas formas primitivas. Além de nós e do plasma, ninguém pensa por aqui.
― Sou eu o telepata ― ou você? ― indignou-se Gucky, quando Balton duvidou de
sua capacidade. ― Você pode ter certeza de que eu não me engano! Precisamos voltar
para o castelo. Alaska vai ficar satisfeito quando souber disso.
― Por que ele deveria ficar satisfeito? Mesmo que você tenha razão, só pode
tratar--se de adversários. Talvez exista uma base de apoio secreto em Casulo, que nós
ainda não descobrimos até agora.
― Se for assim, nós o descobrimos agora! ― disse Gucky, e pegou a mão de
Balton. ― Vamos!
Eles rematerializaram numa parte desconhecida do castelo e tentaram orientar-se.
Segundos mais tarde, Gucky rastreou, telepaticamente, a 5a Coluna...
***
― Nós ganhamos, os dois ― disse Blazon Alfa, quando Alaska entrou na Gevari,
para informar-se sobre os resultados dos esforços dos dois irmãos. ― Nós conseguimos
goniometrar as transmissões e persegui-las por um trecho. A distância, a qual elas
alcançam, naturalmente não pôde ser verificada. Para isso seriam necessários delicados
rastreadores de intensidade, que nós infelizmente não possuímos.
― Mas nós temos a direção! ― triunfou Blazon Beta, aferrado. ― A cabeça do
“Enxame” ― sem dúvida alguma!
Alaska anuiu.
― Quer dizer que as transmissões saem daqui para a cabeça do “Enxame” ―
certificou-se ele. ― Muito interessante, realmente. Ali, portanto, deve haver alguma coisa
parecida com uma estação de controle. Enquanto a transmissão de reconhecimento é
irradiada daqui, nada pode acontecer. Logo que ela emudecer virá o controle, e é
exatamente isso que nós devíamos evitar. O plasma poderia provocar uma interrupção da
transmissão dessas, sem más intenções. Espero que Gucky e Balton tenham êxito.
― Agora estamos prontos aqui? ― perguntou Beta, resmungão.
― No momento não tenho nenhuma tarefa para os senhores ― respondeu Alaska.
― Por mim, Alfa pode fazer um joguinho com o senhor, ou os senhores se deitam para
dormir, para que não nos atrapalhem.
Sem maiores comentários Alaska abandonou a Gevari e voltou para onde estavam
os outros.
Blazon Alfa disse, sereno:
― Você pode ir dormir, irmãozinho. Eu vou até a cantina. Mentro Kosum ainda me
deve uma explicação.
― Uma explicação? ― perguntou Beta, admirado. ― Como assim?
Alfa ergueu os ombros e deixou-os cair novamente, um gesto de absoluta
perplexidade.
― Ontem eu joguei gentox com ele ― e imagine só! Ele ganhou a partida!
― E daí?
― Ele ganhou. Você não entende? Eu trapaceei até que os suportes metálicos se
dobraram, e mesmo assim ele ganhou! Esse sujeito não jogou limpo!
Beta sorriu.
― Muito bem, então, por que você não pergunta a ele? ― aconselhou ele, e deixou
o irmão sozinho.
Entrementes, Alaska conversava com Corello, para perguntar, sobre o estado das
coisas, que se referiam a Gucky e Balton.
― O senhor tem contato com os dois?
― Sim, Alaska. Eles desceram para a superfície, e abandonaram a estação, depois
de terem falado com o plasma.
Sucesso?
― Positivo! O plasma não avançará mais.
― E Gucky? Por que ele teleportou para superfície? Eu não tinha determinado isso.
― E dai? Afinal de contas ele é Gucky, não é verdade? De qualquer modo parece
que ele descobriu alguma coisa interessante. Mas eu vou deixar que ele mesmo lhe relate
a respeito. Os dois logo vão chegar aqui. Eles nos goniometraram neste momento.
Somente pouco mais tarde os dois mutantes rematerializaram no grande pavilhão e
fizeram o seu relatório, Alaska olhou, pensativo, a ponta de suas botas. Depois ergueu os
olhos.
― Impulsos de pensamentos de seres individuais? Que poderia ser isso?
― Uma identificação não foi possível, uma vez que a adaptação foi de apenas curta
duração ― declarou Gucky. ― Uma segunda tentativa nesta direção poderia ser coroada
de êxito. No momento eu estou tremendamente interessado em saber o que Mentro
conseguiu produzir de bom com nossos concentrados alimentícios.
Essa foi a palavra-chave. Todos eles repentinamente se lembraram do tamanho do
apetite que tinham, e Alaska deu o sinal para a pausa para o almoço.
***
Com mais de dez mil anos-luz de comprimento e em muitos lugares com quase até
dois mil anos-luz de grossura, o “Enxame” que penetrara na Via Láctea formava uma
microgaláxia.
Uma missão de comando, sob a direção de Gucky, fora a primeira a penetrar no
“Enxame”, tendo descoberto o chamado Planeta de Cristal, verificando que este cristal
de tamanho planetário não era outra coisa que um centro de irradiação de impulsos
hipnossugestivos. Depois de aventuras inacreditáveis, o comando conseguira destruir este
dispositivo de irradiações, e voltar para a Via Láctea.
Com isto tinha sido eliminada uma fonte de perigo de primeira categoria.
Ninguém podia imaginar se ainda existia um segundo planeta desse tipo, com cuja
ajuda não somente era possível dominar hipnossugestivamente não apenas sistemas
solares, mas até toda a microgaláxia.
Nisto Alaska teve que pensar, enquanto estava sentado na central de comando da
Gevari, tentando construir para o futuro, baseado nos acontecimentos do passado.
De repente ele sentiu um murmúrio.
Era um murmúrio mental, insistente, mas ininteligível. Era como uma exigência,
mas sem qualquer ameaça. Alaska apenas conseguia dar-se conta de sensações, não de
noções claras, ou mesmo ordens. Certamente elas não eram destinadas à missão de
comando terrana.
Gucky e Corello!
Os dois mutantes eram os únicos capazes de identificar com certeza esse tipo de
impulsos, podendo abarcar o seu sentido.
Alaska abandonou a Gevari sem notificar os outros que ainda estavam a bordo da
nave. Gucky estava deitado no nicho perto de Corello e dormia. Mesmo os fortes
impulsos não o haviam acordado.
― Hipnoimpulsos, Gucky, Corello! ― gritou Alaska. ― O que significam eles?
O rato-castor alisou a barriga.
― Eu bem que podia imaginar que minha força de trabalho seria
desavergonhadamente utilizada. Eu vou me queixar em algum sindicato cósmico, ou
simplesmente pedir rescisão de contrato. Isso não pode ser verdade!
― Você quer, afinal, ou você não quer?
Gucky olhou-o, com a cabeça inclinada.
― O que é que eu deveria querer ou não querer?
― Examinar os impulsos! De onde eles vêm, qual é sua razão?
― Sim, para mim é um tanto penoso, revelar-lhe que tipo de impulsos são esses,
Alaska, e certamente você vai entender por quê. Na realidade eles não poderiam mais
existir, porque o Planeta de Cristal, de onde eles vêm, não pode mais preencher sua
finalidade.
― Você quer dizer que são hipnoimpulsos produzidos por cérebros de mutantes, e
irradiados por uma lente gigantesca?
― É exatamente isso que eu quero dizer! Isso é fatal. Talvez nós tenhamos apenas
muito pouco tempo ainda para colocar-nos em segurança. Eu posso imaginar que a
hipnotransmissão não está sendo feita sem motivo. Nós fomos descobertos.
― Besteira! ― Gucky levantou-se e começou a passear de um lado para o outro
dentro do nicho. Enquanto isso ele olhava frequentemente para Corello. Eles estavam de
acordo.
― A transmissão não nos interessa, ela é destinada à montanha de plasma. Mas ―
não apenas para ela.
― Não apenas para ela? Para quem mais então?
― Eu não lhe comuniquei que ainda deve haver outros seres viventes em Casulo,
cujos pensamentos captei? Exatamente para eles, esta transmissão é destinada, também.
O plasma está contente, está acalmado, não pensa mais em antagonismo. Ele está cheio
de esperanças, mas não me pergunte, Alaska, que esperanças são essas, que eu não sei, ―
ainda não, por enquanto, pelo menos. Se você me deixar em paz, junto com Corello, por
algum tempo, eventualmente vamos descobri-lo. Entendido?
Alaska percebeu que teria que atender ao rato-castor, se quisesse ficar sabendo de
alguma coisa. Ele sentou-se e ficou em silêncio.
Corello e Gucky permaneceram na sua atitude concentrada, tensos e silenciosos.
Eles recebiam os hipnoimpulsos, mesmo não telepatas os recebiam, mas nada podiam
fazer com eles. Os membros do comando especial eram insensíveis contra qualquer
influência parapsíquica desse tipo, sempre que os impulsos estavam ligados a ordens
hipnóticas ou pelo menos impressões mentais. Eles naturalmente registravam a sua
existência mas não podiam ser obrigados a atividades ou sentimentos.
Mas quanto mais tempo a hipnotransmissão demorava, mais nítido também ficava
para Alaska o sentido do ataque mental, como ele chamava a ocorrência para si mesmo.
Parecia-lhe tranquilizante, o fato de não tratar-se absolutamente de um ataque malévolo,
mas sim de uma mensagem de amizade, que transcorria quase mecanicamente.
Gucky virou a cabeça e disse:
― As frequências oscilatórias dos paraimpulsos são idênticas com as do Planeta de
Cristal, no qual vivem os mutantes amarelos. Ou existem diversos desses planetas
artificiais, ou então eles conseguiram consertar o dispositivo de irradiação. Isso,
entretanto, eu não consigo entender. Naquela ocasião eu me enganei! Deve haver mais
desses planetas de cristais, e o seu alcance, portanto, também não é tão grande, como eu
imaginara.
― O que diz a paratransmissão? De que mensagem de alegria se trata ― e para
quem é a mesma? O plasma?
Gucky sacudiu a cabeça.
― Muitas perguntas de uma vez só? Vamos começar pela última. Uma coisa é
certa: A transmissão é apenas para uma parte diminuta do plasma. Ela se destina aos seres
unitários, para quem é iminente uma grande alegria, a maior felicidade de sua vida. Que
tal, você consegue fazer alguma coisa com isso?
― A maior felicidade de sua vida... ? Você não acredita que... ?
― Acredito, sim, é exatamente nisso que eu acredito! A divisão! A transmissão
destina-se para aqueles que logo se dividirão. Portanto, eles serão buscados. E quem será
buscado, você certamente poderá imaginar ― conquistadores-amarelos, essas engraçadas
peras gigantes. Eu tenho razão! Existem os amarelo-ocres neste mundo, e eles se
esconderam nas montanhas de plasma.
― Por que não ficamos sabendo disso, através do plasma?
― Porque não perguntamos a ele, a esse respeito.
― Se isso for assim, nós nos encontramos em perigo. Eu posso imaginar que uma
transmissão dessas nada mais é que um pré-aviso. Eu somente não entendo como, neste
planeta infectado, ainda existam exemplares saudáveis dessas estranhas criaturas
amarelas.
― O plasma está começando a recuar ― disse Corello, de repente.
Alaska olhou-o fixamente.
― O que está dizendo? O plasma...
― Sim, saindo do castelo. Ele desliza de volta, pelos trilhos surdos, de volta para a
superfície do planeta. Ele abandona o castelo.
― Neste caso está se dando conta do perigo ameaçador, e tenta colocar-se em
segurança. Mas a paratransmissão ainda está ocorrendo.
― Correto, ― garantiu Corello, ― ela ainda está ocorrendo, mas agora destina-se
exclusivamente aos amarelos que se encontram diante da divisão. Ela agora assume um
caráter suplicante, ela está se tomando mais jubilosa, eufórica ― se posso me expressar
assim. Gucky poderá confirmá-lo.
― Sem dúvida ― concordou o rato-castor. ― E um determinado texto é repetido
muitas vezes, como se o seu conteúdo devesse impregnar-se no receptor.
― Que texto é esse?
― Logo... espere mais um instante.
Enquanto Gucky “escutava”, Corello relatava, num murmúrio:
― O plasma, ele se tomou preocupado e inquieto, apesar de não haver sido
anunciado nenhum perigo. Mas me parece que foi sugerida uma coisa parecida com uma
proibição. A proibição de se dividirem, futuramente.
― Absolutamente compreensível, acho eu. Mas por que, somente hoje? Ele se
multiplicou até agora sem permissão? Ou a proibição somente vale agora, quando é
iminente a divisão anunciada dos amarelos?
― Eu não sei, Alaska.
Corello silenciou, quando Gucky deu a entender, com um aceno, que queria dizer
alguma coisa. Levou ainda alguns minutos até que Gucky finalmente desistiu de sua
atitude concentrada e relaxou.
― Muito bem, agora estamos com a salada! ― anunciou ele, caminhando de um
lado para o outro no nicho. ― Ao que me parece está em funcionamento uma hipnofita,
pois a mensagem se repete sempre, sem nenhuma modificação. Ela diz que os sítios
aclars mais uma vez estão preparados para o recebimento dos felizes, que esperam para
oferecer-lhes prazeres indescritíveis, e que este acontecimento maravilhoso é iminente.
Maravilha, não é?
― Os sítios aclars... ! Se pelo menos soubéssemos o que querem dizer com isso!
Com isso querem dizer todos os planetas nos quais uma divisão ocorre? Se é este o caso,
trata-se de uma designação genérica, que nada tem a ver com um lugar bem determinado.
― Soa provável ― disse Gucky. ― Mas eu acho que temos tempo até mais tarde
para fazermos especulações a respeito. A pergunta principal e urgente agora é: O que
vamos fazer? Vamos esperar até as naves faviformes chegarem?
― Ainda temos algum tempo, Isso sabemos por experiência.
Quando os dois mutantes quiseram “escutar” as paratransmissões novamente,
tiveram que verificar que os impulsos tinham ficado mais fracos. Com a ajuda de uma
paragoniometria complicada, eles verificaram ainda que a transmissão passava por eles
num raio direcional, fortemente enfeixado, na direção de um destino novo, desconhecido.
Um outro mundo estava sendo influenciado parapsiquicamente...
***
Eles não se sentiam mais seguros no seu castelo.
Eles estavam cientes de que o perigo somente existiria, até que os conquistadores-
amarelos, que se achavam diante da divisão, fossem buscados. Depois Casulo seria
novamente um mundo vazio, se não se levasse em conta o plasma.
Eles estavam reunidos na central de comando da Gevari, para uma conferência. Para
isso era necessário que cada um expressasse sua opinião, tentando avaliar os
acontecimentos do seu ponto de vista.
― Como é possível, ― perguntou Merkosh, depois que o debate já tinha meia hora
de duração, ― que ainda existam amarelos aqui? Eles estão saudáveis, eles estão
doentes? Em minha opinião eles devem estar doentes, infectados por algum vírus
desconhecido de nós, caso contrário eles já teriam abandonado este planeta há muito
tempo.
― Com quê? ― interveio Alaska.
― Isso eu não sei, e aliás, isso nada significa, em nossas cogitações. O que eu quero
dizer é o seguinte: Se os desconhecidos detentores do poder que dominam o “Enxame” e
dirigem todos os processos de nascimento dos amarelos soubessem que aqui em Casulo
existem amarelos doentes, eles evitariam, de qualquer modo, a sua multiplicação.
Portanto eles não o sabem.
Alaska anuiu.
― O senhor está me dando uma ideia, Merkosh. Uma ideia muito perigosa, devo
dizer. Mas imagine apenas que os amarelos daqui realmente estivessem infectados com
uma doença e entrassem em contato com os saudáveis. Ainda não sabemos se realmente
virão buscá-los, apesar de ter havido uma mensagem correspondente. Ela pode muito
bem ter tocado Casulo por engano.
― Não! ― Gucky adotou uma atitude de docente. ― Objeção, excelências! A
afirmação é ilógica! A hipnotransmissão também era dirigida ao plasma, e nós não temos
motivo para imaginarmos que ainda existam outros mundos de plasma! Portanto a
transmissão também era dirigida para Casulo.
― Correto! ― Alaska sorriu. ― Mas talvez não a parte da transmissão que se
referia aos amarelos. Esta parte da transmissão corria automaticamente e paralela com a
outra, mas naturalmente não foi captada pelos doentes ― se é que eles em realidade estão
doentes, o que nós, aliás, não sabemos. Além do mais, existe uma razão lógica para a
admissão de que os senhores desconhecidos do “Enxame” nem sequer imaginam, de que
aqui existem amarelos, e não apenas plasma.
Balton Wyt pediu a palavra.
― Não levando em conta a previsão tentadora de contrabandear perigosos
portadores de bacilos para dentro da massa dos conquistadores-amarelos saudáveis, mais
uma vez estamos diante do problema de que pelo processo de nascimento natural fora do
“Enxame” todo um mundo está consagrado ao desaparecimento, pelo menos a vida sobre
ele, caso ela exista. Nós não podemos evitar isso?
― Em princípio esta não é nossa tarefa e também não é nosso problema iminente.
Foi-nos oferecida uma chance única, e vamos ter que usá-lo. Eu também já lenho uma
vaga ideia de como vamos poder fazer isto, mas a esse respeito falarei mais tarde. Por
favor, alguém ainda tem alguma coisa para dizer...
― Sim, eu ― disse Blazon Beta, resmunguento. ― Há uma coisa que me incomoda
já há muito tempo, uma pergunta, para a qual ainda não encontrei uma resposta
satisfatória. Por que os conquistadores-amarelos precisam abandonar o “Enxame” para se
multiplicarem, se dividirem? Por que este processo não ocorre aqui, nos seus próprios
mundos? Isso, afinal, seria mais simples, e menos complicado. O que acha disso, Alaska?
― O senhor mesmo sabe, Beta, que nós falamos muitas vezes sobre este problema.
Talvez exista uma resposta, mas ninguém pode saber se ela se aproxima mesmo da
verdade. Lembre-se que o processo de divisão ocorre sob condições extremamente
difíceis. A adaptação secundária do planeta destinado ao nascimento pode ser mortífera
para a fauna e a flora existentes. A temperatura deve ser, em toda a superfície do planeta,
de 62,7134 graus centígrados constantes. Condições extremadas como estas, não apenas
matam animais e plantas, elas também dizimam o efetivo valioso de pequenos seres
viventes microscópicos e tiram deste mundo toda a base de sua existência. Toda
civilização existente está fadada ao desaparecimento.
Blazon Beta fez um gesto de superioridade.
― Mas tudo isso nós já sabemos, Alaska. Isso não é uma resposta à minha
pergunta.
― Concordo com isso, mas a verificação que acabamos de fazer ainda há pouco
força-nos a uma conclusão mais ou menos lógica: Os conquistadores-amarelos não
querem destruir os seus próprios mundos dentro do “Enxame”. Neste caso, para o poder
secreto, que dirige os destinos do “Enxame”, não é muito mais simples, enviar naves de
exploração para fora do “Enxame”, à procura de mundos adequados, onde o processo de
divisão pode se processar?
― Mas o próprio plasma não afirmou, que ele jamais destruiria, jamais mataria? O
plasma está mentindo, pois afinal ele foi criado por amarelos mutados e doentes?
― Não, ele não mente. Os conquistadores-amarelos nunca querem matar ou mesmo
conquistar ― eu acho que eles são obrigados a isso. Eles precisam destruir mundos
estranhos, ou não podem se dividir. Entretanto se eles não se dividem, acontece o que
ocorreu em Casulo. Eles seguem o seu instinto e além disso as ordens hipnossugestivas.
Eles nem sequer podem defender-se contra isso, mesmo se o quisessem.
― Está bem ― concedeu Beta, hesitante, ― essa é uma teoria. Talvez ela esteja
correta, ou talvez não. E o que há com a sua ideia, que acabou de anunciar?
Alaska recostou-se na poltrona.
― Eu gostaria de entrar em contato com os conquistadores-amarelos em Casulo.
Isso pode acontecer sem perigo, pois eu estou certo de que a ligação por rádio entre
Casulo e os senhores do “Enxame” é unilateral. Portanto eu sugiro que Gucky faça uma
visita a Casulo, mas sozinho. Ele é teleportador e pode se movimentar sem ser detido.
Como telepata ele pode descobrir os amarelos e entrar em contato com eles. Nós
precisamos ficar sabendo alguma coisa sobre eles, e talvez também descobrir quando eles
devem ser buscados. Somente depois que soubermos disso, fará sentido pôr o meu plano
em funcionamento.
― E que plano é esse? ― perguntou Balton Wyt.
― Eu já dei uma indicação dele, Balton. Nós vamos tentar persuadir alguns dos
amarelos que se deixem levar por nós, para um outro planeta dentro do “Enxame”, onde
o voo para o planeta de divisão é iminente. O seu ímpeto de se dividirem é tão
prepotente, que certamente vamos encontrar exemplares que vão querer vir conosco.
Com isso, levamos portadores de bacilos, infectados, para o meio de povos saudáveis.
Uma arma, ainda que felizmente não mortífera. Porém antes precisamos saber se os
conquistadores-amarelos em Casulo realmente estão enfermos. Gucky, você está pronto?
― Sempre! ― O rato-castor espichou-se e aumentou dois centímetros. ― Eu
sempre estou pronto quando se trata de salvar o Universo.
― Ótimo, meu amigo. Neste caso, por precaução, coloque o traje de combate, pois
ninguém sabe tudo que você pode encontrar...
Gucky fez um gesto depreciativo.
― Eu sei como lidar com essas gigaperas.
2

Gucky estava parado, sozinho, na superfície do planeta Casulo.


Muito acima dele, de horizonte a horizonte, ― ticavam-se as órbitas energéticas ―
uma visão fascinante e sinistra ao mesmo tempo. O sol vermelho Praspa estava alto no
céu. Era meio-dia e estava muito quente. A instalação de climatização do traje protetor
trabalhava a toda força.
O rato-castor goniometrou o maciço de montanhas amarelas, que ficava a poucos
quilômetros de distância de onde ele se encontrava, mais para o norte. Dali vinham os
impulsos de pensamentos dos conquistadores-amarelos que não tinham se transformado
em plasma.
E por que, realmente, não?
Gucky, tinha certeza de que não encontraria uma resposta para isso. Aqui tratava-se
de processos biológicos absolutamente estranhos, que ele nem sequer conseguia alcançar
nos seus pontos de partida, mentalmente. Talvez nem mesmo os atingidos o soubessem.
Quando ele rematerializou, encontrava-se perto da parede amarela do plasma, cujas
emissões de pensamentos coletivos o acertaram com toda a força. Ele abrandou a sua
capacidade receptiva, para evitar um para-choque. Somente depois disso ele começou a
classificar.
Os impulsos, antes mais ou menos claros dos amarelos saudáveis, foram
sobrepostos pelo ideário do plasma. Isso também devia ter sido assim antes, caso
contrário ele e Corello teriam descoberto os impulsos unitários mais cedo.
Gucky tentou estabelecer contato com o plasma.
Como sempre, isso demonstrou não ser exatamente fácil, porque o plasma tinha que
coordenar-se, para conseguir efetuar uma transmissão unitária. Somente depois que isso
aconteceu, Gucky estava em situação de captar impulsos claros de pensamentos e
também de respondê-los.
― Nós sabemos que fora da coletividade do plasma ainda vivem outros seres neste
mundo. Vocês podem nos ajudar a encontrá-los? Nós também queremos ajudar a eles,
mas precisamos falar com estes seres. Vocês estão prontos a fazer isso por nós?
― São nossos antepassados, e eles vivem entre nós.
Por um momento Gucky ficou sem fala. Gaguejando um pouco, ele fez a pergunta:
― Entre vocês...? Vocês querem dizer, com isso, que eles vivem dentro de vocês,
assim como meus antepassados também continuam vivendo no meu sangue? Não foi isso
que eu quis dizer. Eu estou convencido que os antepassados, se vocês estão falando dos
mesmos que eu, ainda existem materialmente neste mundo. Onde estão eles?
― Dentro de nós e por baixo de nós ― veio a resposta. ― Você quer vê-los?
― É justamente por isso que eu pedi. Mostrem-me o caminho.
Em vez de qualquer resposta telepática, a montanha de plasma diante de Gucky
começou a se dividir. De olhos esbugalhados o ilt verificou que se criava a entrada para
uma formidável caverna, que se estendia profundamente para dentro da montanha. O
chão e o teto eram formados irregularmente, à direita e à esquerda ramificavam-se
corredores, mas sem dúvida alguma tudo dentro da caverna consistia de plasma.
A informação referente aos amarelos fora dada literalmente! Eles viviam dentro e
por baixo do plasma.
― Entre! ― veio o convite telepático. ― Os antepassados esperam por vocês.
Isso podia ter sido dito apenas de modo simbólico, pois os amarelos nunca tinham
se dividido em Casulo, portanto não podiam estar subdivididos em gerações. O seu tempo
de vida era desconhecido.
Gucky desistiu de teleportar aquele curto trecho, apesar do plasma de há muito já
dever ter reconhecido suas capacidades. Ele saiu bamboleando por cima da superfície
desigual até a entrada da caverna, e espantou-se de que dentro da montanha de plasma
não estivesse escuro. Por toda a parte ele podia perceber uma luminosidade pálida
amarelada.
Os impulsos mentais do plasma ficaram mais fracos, até emudecerem
completamente. Para o rato-castor ficou claro de que aqui, mais uma vez, a capacidade de
coordenação da massa amarela se mantinha. Uma ordem coletiva era suficiente, e toda
atividade mental era parada, para facilitar a ele, ao visitante estranho, o seu trabalho.
Em vez do pensamento do plasma, um outro impulso penetrou no seu consciente ―
um único impulso de pensamento, forte e concentrado:
― Seja bem-vindo, pequeno hóspede, em nosso mundo. Nós sabemos que estranhos
vieram até nós, que não são inimigos, por isso nós nos mantivemos na expectativa.
Agora nossos irmãos infelizes nos informam que vocês querem ajudar-nos. Continue
andando, e então nós nos encontraremos. Eu o espero, amigo do povo infeliz.
Os conquistadores-amarelos em Casulo eram telepatas!
Com isso Gucky não contara, mas ele se disse imediatamente que este dom
excepcional talvez seria uma consequência da doença, que por sua vez os tomava imunes
contra uma transformação em plasma.
― Eu preciso falar com você e com o seu povo ― retrucou o rato-castor, e
continuou andando. ― Ainda existem muitas perguntas, que não foram respondidas, e
somente quando elas estiverem esclarecidas, nós poderemos ajudá-los. Vocês têm
confiança?
― Nós temos confiança, pois já fomos enganados muitas vezes.
Isso soava ilógico, mas Gucky pareceu entender o sentido por trás dessas palavras.
Os amarelos estavam ansiosos pelo desejo de confiança, porque até agora sempre tinham
sido enganados pelos desconhecidos manipuladores de cordéis. Eles se agarravam a uma
palha.
― Vocês podem confiar em nós. Quando vou encontrá-lo?
― Você não está mais longe. Você está vendo a parede que fecha a gruta? Ela vai
se abrir e então você me verá. Eu o espero. O meu povo escolheu-me para porta-voz, e
por isso a voz dos meus pensamentos vale por todos nós.
Gucky caminhou valentemente na direção da parede amarela, que lentamente
começou a se dividir, até que se formou uma brecha larga, através da qual ele podia
passar. Por trás havia uma gruta que mais parecia uma câmara artificial, com paredes
lisas e um teto. Também o chão era liso e sem emendas, mas também tão amarelo quanto
todo o resto.
O conquistador amarelo arrastou-se lentamente na direção de Gucky...
***
A criatura exteriormente parecia uma pera de cerca de dois metros de altura, sendo
que a parte inferior, absolutamente lisa e redonda, possuía um diâmetro de bem um
metro. Ela se movimentava com fortes impulsos costais, como uma lesma, lentamente e
pacata.
Para cima, o corpo em formato de pera
afinava. No fim do lugar afinado encontravam-se
dois multiórgãos. Eles lembravam olhos, mas
ainda serviam a outros usos, além de ver. Um
deles ficava na frente; o outro atrás.
O conquistador amarelo que estava diante de
Gucky estava nu. Sua pele era lisa, brilhava,
oleosa, e não tinha qualquer pilosidade. Os dois
braços fortes seccionavam-se ao meio-
-comprimento em dois braços laterais, de cada
vez, dos quais cada um tinha uma mão com seis
dedos.
Já por isso não se deixava desmentir um
certo parentesco exterior com os chamados
instaladores do “Enxame”, o que levava à
suposição de que uns descendiam dos outros.
O plasma formou duas confortáveis
banquetas para sentar. O amarelo apontou para as
mesmas.
― Você é nosso hóspede. Por favor, sente-se.
Ele pensava isso com tanta força e intensidade, que os impulsos de pensamentos
pareciam palavras pronunciadas, mesmo para Gucky, que era um telepata
excepcionalmente capaz e treinado. Instintivamente ele respondeu em voz alta:
― Obrigado, eu também o saúdo em nome dos meus amigos, que também são
amigos do seu povo. Nós queremos ajudá-los.
Eles estavam sentados um diante do outro.
― Nós sabemos disso, por isso não empreendemos nada contra vocês. Nós não
apenas toleramos a nossa visita, mas ainda estimulamos o seu desejo de ficarem aqui. O
plasma, como você chama nossos irmãos infelizes, nos deu apoio nisso.
― Vocês, que permaneceram saudáveis, esperam por um acontecimento alegre. Ele
está sendo anunciado. Quando isso acontecerá?
― Nunca. Eles já nos prometeram isso há muito tempo, mas nunca alguém veio
buscar. Nós já esperamos há muito tempo, mas já não temos mais esperanças. Algum dia
teremos que morrer, sem termos preenchido nossa tarefa. Neste mundo ainda vivem
apenas 9.500 de nosso povo, antes tão numeroso.
― Não mais? ― Gucky refletiu por um instante, depois continuou: ― Quer dizer
que vocês já receberam muitas vezes a mensagem de alegria, sem que alguém a
transformasse em realidade? Ninguém veio buscar vocês, ninguém criou neste mundo as
condições conhecidas para a mais alta alegria do vosso povo? Por que isso? Para que essa
mensagem que anuncia alegria?
― Nós não o sabemos, meu amigo. Talvez porque sejamos doentes e imunes.
― Doentes e imunes ao mesmo tempo?
― Imunes contra uma transformação, como ocorreu com nossos irmãos, e doentes
porque trazemos dentro de nós o germe da ruína. Mais eu não posso explicar a você
sobre isso. Mas eles temem o contato entre nós e os povos saudáveis.
― Bacilos? Micróbios patogênicos, que poupam vocês?
― Talvez seja assim, meu pequeno amigo. Mas agora diga-me como vocês querem
ajudar-nos?
― Isso fará um outro, o comandante de nosso grupo. Ele falará com você e lhe
explicará tudo. Eu sou apenas o seu embaixador, a quem coube estabelecer o primeiro
contato. Vocês precisam acreditar em nós, isso é tudo. Mas somente depois que
soubermos tudo sobre vocês, é que poderemos ajudá-los. O desejo para isso deverá partir
de vocês, não de nós apenas. Vocês nos permitirão pousarmos na superfície deste planeta,
ao qual chamamos de Casulo?
— Nós vamos nos sentir felizes em poder saudá-los como nossos hóspedes. E nós
esperamos pelas suas sugestões. Tenham certeza de que ninguém virá para buscar-nos
daqui. Nós fomos condenados a permanecer neste planeta pelo resto de nossas vidas,
que nunca nos poderá trazer a mais alta de todas as alegrias. Nós somos os últimos
membros de nosso povo.
― Talvez nós saibamos como poderemos ajudá-los. Nosso comandante falará com
você e com o seu povo sobre isso, logo que nós tivermos pousado. Uma pergunta: Onde
podemos pousar?
― Vocês são bem-vindos em toda a parte, mas talvez seja bom, se a nave de vocês
fique guardada sob a proteção do plasma. Nós vamos dar instruções para que se forme
uma grande caverna com uma grande entrada. Vocês poderão voar para dentro dela. Ali
estarão seguros.
― Vou comunicar isso ao comandante ― prometeu Gucky.
Ele refletiu se ainda havia outras perguntas, que ele pudesse fazer, sem pôr o plano
de Alaska em perigo, depois decidiu-se pela despedida. Ele abriu seu bloqueio de
pensamentos e disse:
― Permita que eu volte novamente para os meus amigos. Eu vou levar-lhes o
convite de vocês. Talvez nós pousemos ainda hoje, mas talvez somente amanhã. Posso
pedir-lhe que prepare o seu povo para isso, também os infelizes irmãos do plasma? Nós
não gostaríamos de nenhum pânico. Ó, sim, mais uma pergunta...
― Por favor, meu amigo.
― Você falou de 9.500 sobreviventes... todos eles estão aqui, nesta montanha? Se
este for o caso, ainda existem outros, em outros continentes?
― Nem todos estão aqui conosco. O número é o de todos os membros do meu povo
neste mundo. Neste continente todos nós vivemos neste lugar, mas não mais de três mil.
― Obrigado, isso me ajuda. Logo nos veremos outra vez. Muito obrigado pela sua
boa vontade em nos ajudar.
― São vocês que querem nos ajudar ― lembrou-lhe o amarelo, sério. Ele
levantou--se e o assento de plasma onde ele estivera sentado desapareceu imediatamente
no solo. Também Gucky levantou-se, e ficou olhando enquanto o seu assento diminuiu,
até desaparecer totalmente. ― Nós esperamos por vocês, com alegria.
O amarelo acompanhou Gucky até a parede, que se abriu outra vez, sem qualquer
ordem aparente, para formar uma passagem. O rato-castor acenou amistosamente para
aquele ser exótico e bonachão, antes de se pôr definitivamente no caminho de volta.
Ainda enquanto ele caminhava através da gruta, ele recebeu mais uma vez um curto
impulso mental do conquistador amarelo.
O pensamento era indubitavelmente para ele, Gucky:
— De conformidade com a sua contagem de tempo, nós já trabalhamos há mil e
oitocentos anos no projeto de fuga! Talvez sejam vocês que o poderão tornar realidade
― então nossa esperança não terá sido em vão!
― Que projeto? ― perguntou Gucky, surpreso, mas não recebeu mais nenhuma
resposta.
Diante dele brilhava a luz do dia...
***
― Projeto de fuga... ? ― Alaska olhou para Gucky cheio de expectativa, depois que
este terminou o seu relatório. ― O que quer dizer isso?
― Eu não recebi nenhuma informação sobre minha pergunta referente a isso, mas
em minha opinião o caso está muito claro. Há dois mil anos eles esperam pela divisão,
que para eles não apenas é vital, mas também é o acontecimento mais feliz de suas vidas.
Fazem deles gato-e-sapato, e isso finalmente eles notam. Portanto eles decidiram se
ajudarem sozinhos, apesar de não ter uma ideia de como eles possam fazer isso sem uma
astronave. De qualquer modo eu tenho a sensação de que chegamos no momento certo. E
então, o que é que você acha?
Alaska olhou para os rostos cheios de expectativa dos outros.
Sorrindo, ele virou-se para Gucky.
― Sim, agora eu compreendo o que você quer dizer. Eles querem sair daqui, para
um planeta, onde reinam as condições de que eles necessitam para a divisão. Eles têm
esperanças de que nós possamos levá-los até lá. Na verdade a “Gevari” é pequena demais
para quase dez mil amarelos. Porém alguns deles deveriam encontrar lugar no space-jet...
―Importante é que não somos nós que os persuadimos para a fuga, ― opinou
Gucky, ― mas que eles nos pedem esse favor. ― Ele sorriu. ― Acho que isso se chama
alta diplomacia.
― É isso, exatamente! ― confirmou Alaska Saedelaere. Você devia ser membro do
corpo diplomático.
Gucky fez um gesto negativo.
― Este posto Perry Rhodan já me ofereceu muitas vezes, quando está metido em
encrencas. Mas ainda existem coisas mais importantes que a simples diplomacia! Por
exemplo, negociar com peras ambulantes gigantes.
― Você é conhecido por ser apreciador de frutas de todas as formas e tipos ―
lembrou-lhe Alaska. ― Mas, para voltar ao assunto original: O que foi que você disse?
Você quer dizer que os amarelos poderiam persuadir a nós, para realizarmos o nosso
plano?
― Foi exatamente isso que eu quis dizer, Alaska! Afinal, você pretendia convencer
um par de peras amarelas, para que viessem conosco, para que nós pudéssemos metê-las
entre as peras saudáveis. Seria muito mais ético e muito mais atraente, se eles nos
pedissem para fazermos isso. O que você acha?
― Eu já afirmei que você devia estar no corpo diplomático do Império Solar. Do
jeito que eu vejo as coisas, eles virão até nós para pedirmos que os tiremos daqui. A
iniciativa portanto parte deles. A questão é ― quantos deles vamos poder levar conosco.
Kosum ergueu a mão.
― Um problema, com o qual já nos demos bem, se bem me lembro. Na galáxia
Gruelfin, certa vez uma de nossas naves foi abarrotada de fugitivos. Eles foram colocados
em camadas, como sardinhas, e mal podiam se mexer, mas foram salvos.
― De quinhentos a oitocentos, pelo que me lembro ― disse Balton Wyt.
― Frutas estocadas! ― comentou Gucky, secamente.
Eles ainda conferenciaram por algum tempo, determinando o seu modo de proceder.
Os amarelos eram telepatas, isso eles não deviam esquecer. Por outro lado, eles realmente
queriam ajudá-los, ainda que não por motivos unicamente desinteressados.
― Nós vamos dormir por algumas horas, depois abandonaremos o castelo. Kosum
vai guiar a Gevari cuidadosamente para baixo, para a superfície, e depois vai voar com
ela para dentro da caverna indicada. Dentro de seis horas. Em Casulo então o sol deverá
estar justamente desaparecendo.
***
Os trilhos energéticos ficaram para trás quando o grande space-jet lentamente
desceu para a superfície. A nave deslizou bem baixo, por cima de montanhas amarelas, e
aproximou-se de uma elevada parede de plasma, na qual ficou visível uma larga fenda, a
qual, conforme Gucky garantia, ainda não estivera ali quando de sua visita. Portanto
somente podia tratar-se de abertura para a entrada do voo para a caverna de pouso.
Kosum diminuiu a velocidade de voo e desceu mais. Como uma onda imensa, as
torrentes de pensamentos do plasma se partiram e caíram no consciente do comando
especial terrano. O dilúvio de pensamentos expressava uma alegria rejubilante, apesar da
ação de ajuda ser para os conquistadores-amarelos não deformados, e não ao lastimável
plasma.
Kosum desligou a propulsão. Deslizando apenas sobre os seus colchões
antigravitacionais, a Gevari aproximou-se da larga fenda, por trás da qual brilhava a
gigantesca gruta. O seu diâmetro, numa primeira avaliação, era de mais de cem metros e
a altura de quase cinquenta metros. Isso foi o bastante para Kosum efetuar um pouso
suave. Ele também desligou os campos antigravitacionais, quando verificou que o chão
amarelo não cedia. Sem dificuldades ele suportava todo o peso do space-jet.
Diversos conquistadores-amarelos estavam prontos para saudarem os visitantes.
Numa atitude séria e solene, eles estavam parados ali, esperando. Ao contrário do
amarelo com o qual Gucky negociara, eles usavam trajes parecidos com sacos, que
alcançavam até o chão.
― Peras de roupão ― disse Gucky, perplexo. ― Nunca vi coisa semelhante em
minha vida, meus senhores. Talvez devêssemos vestir nossos pijamas, para nos
ajustarmos aos costumes praticados aqui...
Naturalmente eles conservaram seus trajes de combate, com a ajuda dos quais eles
podiam suportar as condições mais extremas, caso isto, inesperadamente, fosse
necessário. Os capacetes continuaram abertos.
― Corello fica para trás, na nave ― ordenou Alaska. Como cobertura de retaguarda
e garantia.
Alaska não corria nenhum risco, pois ninguém podia prever o desenvolvimento dos
acontecimentos daqui para a frente. Neste sentido, os terranos já tinham vivenciado
muitas surpresas nada agradáveis.
― Eles se parecem uns com os outros ― comentou Gucky, enquanto ainda estavam
de pé na escotilha de saída, aberta. Não tenho ideia se o sujeito com quem eu conversei
está entre eles.
― Parece-me que isso não tem importância. Apesar de não deformados, os
amarelos têm o mesmo sentimento de solidariedade que o plasma. Cada um deles sabe o
que você conversou com o seu porta-voz.
O dilúvio de ideias do plasma ficou mais fraco, até desaparecer totalmente.
Um forte impulso unitário os substituiu, somente inteligível a Gucky e Corello em
todos os seus detalhes. Ao contrário, os amarelos entenderiam cada palavra que os
terranos falassem. O rato-castor, portanto, funcionava como um tradutor unilateral.
― Sejam bem-vindos, amigos de nosso povo! O tempo da realização se aproxima, e
nossos inimigos também são os seus. O ódio se acumulou, através dos séculos, ódio
contra a traição daqueles que nos dão ordens. Nós queremos ser livres, queremos viver
em paz, e gozar a maior alegria da existência. O demônio negro está morto, que viva o
mundo da maior felicidade.
Alaska escutou a tradução de Gucky. Enquanto ele lentamente descia a escada,
caminhando na direção dos amarelos, ele disse:
― Nós queremos agradecer a vocês pelo convite, que aceitamos com prazer. Se
pudermos ajudar, o faremos com satisfação, mas nós temos apenas uma nave pequena, e
não podemos levar cada um de vocês ao planeta da maior felicidade. Vamos ter que
negociar, quanto a isso.
A saudação entre as criaturas viventes tão diferentes foi solene. Ela documentava a
pacifica convivência de formas de vidas diferentes, mesmo que originárias de outras
galáxias. Ela também documentava o fato incontestável, que motivos eram mais
importantes que fatos, que eram cometidos por esses motivos.
Os conquistadores-amarelos não eram conquistadores. Eles eram nada mais que
lamentáveis vítimas de um poder ainda desconhecido, que talvez nem fosse
malevolamente intencionado. Quem tem uma aparência diferente e quem age de modo
diverso, não precisa ser, necessariamente, maléfico. Este preconceito funesto
praticamente já não existia mais na era da astronáutica e do encontro com formas de vida
exóticas. Ainda que Gucky, de vez em quando, fazia brincadeiras com o aspecto de
“pera” dos amarelos, ele não o fazia, de modo algum, com intenções malévolas.
― Nós mandamos preparar recintos onde vocês poderão descansar.
― Nós podemos descansar dentro da nave ― retrucou Alaska. ― Seria falta de
cortesia de nossa parte, causar-lhes incômodos.
― Vocês são amigos, e amigos nunca causam incômodos. — garantiu o porta-voz
dos conquistadores-amarelos. ― Os seus quartos foram preparados. Mais tarde nós
conversaremos.
Alaska não teve alternativa a não ser aceitar o oferecimento para não melindrar os
anfitriões amigos. Bem no inconsciente acalmava-o o fato de que Corello ficara para trás,
na nave.
Eles não tiveram muito tempo para descansar: Mal eles tinham olhado um pouco em
volta, quando foram todos convidados para uma primeira conferência. Isso ocorreu
através de impulsos telepáticos, que eram traduzidos por Gucky.
Entrementes tinham sido feitos cálculos, de modo que Alaska não perdeu tempo,
quando foi interpelado sobre o assunto, pelos anfitriões:
― Vocês realizariam o maior desejo de nossas vidas, se vocês se decidissem a nos
tirar deste mundo. Nós sabemos que a sua nave é pequena demais para levar a todos nós
de uma só vez, mas talvez vocês possam voltar, até que todos estejamos salvos.
― Nós podemos meter oitocentos de vocês na nave, mas vai ficar muito apertado.
O voo, entretanto, não dura muito tempo. Na verdade não sabemos se jamais poderemos
voltar para cá. Vamos tentar. Mais um ponto deverá receber atenção: Nós não
conhecemos o mundo da mais alta felicidade, mas podemos levar vocês para um mundo,
de onde um transporte para lá é iminente. Nós podemos goniometrar as
hipnotransmissões, perseguindo-as. Deste modo conhecemos mais ou menos a posição
deste planeta que fica no interior do “Enxame”. Vocês ficarão satisfeitos, se nós os
transportamos até lá?
Uma onda de alegria inundou Alaska e seus acompanhantes.
Qualquer outra pergunta neste sentido era supérflua.
― Nós mesmos vamos escolher e determinar os primeiros oitocentos ― garantiu o
porta-voz dos amarelos. ― Quando isso deve acontecer?
― Não se pode desperdiçar nenhum tempo, porque não sabemos quando os
transportadores cilíndricos vão pousar no planeta. Comecem com a escolha. Nós damos
partida, logo que todos os passageiros estiverem a bordo.
Eles voltaram para os seus recintos, e pouco depois os seus anfitriões lhes
trouxeram grandes bacias com frutas frescas e saborosas, que foram aceitas, com
agradecimentos. As frutas eram uma mudança bem-vinda no cardápio sempre monótono
do comando especial.
― Agora vamos comer seus irmãozinhos ― disse Gucky, quando meteu na boca de
uma vez uma fruta que tinha o formato de uma pera.
Mais tarde eles se acomodaram em cima do chão mole de plasma. Balton Wyt
adormeceu imediatamente. O telecineta era conhecido por poder dormir em qualquer
situação.
Merkosh e Alaska conversavam em voz baixa. De vez em quando os irmãos Blazon
intervinham na conversa. Em primeira linha falava-se do destino de voo pretendido, do
planeta desconhecido, para o qual eram transmitidas as hipnoirradiações.
― Somente dez anos-luz? ― quis ter certeza Alaska.
― Foi Alfa quem calculou ― confirmou Merkosh. ― Também a direção está
determinada. Portanto não deveria ser difícil encontrá-lo. Neste lugar do “Enxame” os
sistemas solares não estão semeados muito próximos.
― Uma etapa linear é suficiente ― interveio Blazon Alfa. ― Kosum é da mesma
opinião. Ele me ajudou durante a conferência.
― Vocês devem ter jogado é xadrez ― observou o seu irmão, malicioso.
Gucky estivera sentado, um pouco mais longe, num canto, parecendo dormitar. As
frutas em formato de pera pareciam pesar-lhe no estômago. Agora ele ergueu a cabeça,
como se escutasse. A sua expressão de repente mostrava preocupação. Ele levantou-se e
veio até onde estava Alaska.
― Está fedendo ― disse ele, sério.
Alaska olhou-o, sem entender.
― Talvez você tenha comido demais ― supôs ele.
Mas Gucky não mostrou nenhuma reação correspondente à brincadeira. Ele
continuou sério. Lentamente ele sentou-se, mas não tirava os olhos da parede com a
brecha, que ficava defronte.
― Nós, devíamos ficar juntos, aqui neste recinto, Alaska.
― O que é que há com você, afinal? Você não pode falar mais claramente? Quem
está fedendo, e por que devemos ficar juntos?
― Eu falei simbolicamente, e juntos devemos ficar, porque há confusão entre os
amarelos. Eles não conseguem entrar em acordo sobre quem deverá ser levado daqui em
primeiro lugar. Cada um quer estar entre os primeiros oitocentos.
― Eu já devia ter pensado nisso ― disse Alaska, visivelmente inquieto. ― Mas
isso é motivo, para nós ficarmos de sobreaviso?
― Talvez. Não se esqueça de que os amarelos são altamente inteligentes. Em caso
de necessidade eles também sabem manejar uma nave como a Gevari, portanto não
precisam de nós, necessariamente, para a fuga. Eu já informei Corello. Ele vai fechar
todas as escotilhas hermeticamente, caso alguém, além de nós, tentar entrar na nave. É
melhor ficarmos aqui para nos formamos uma imagem dos acontecimentos.
― Os amarelos acabarão concordando entre si. Caso contrário, eles terão que temer
que nenhum deles virá conosco.
Gucky retrucou, impaciente.
― Para o grupo que agora está se revoltando, tanto faz o que nós pensamos a
respeito. Ele, inclusive, está decidido a conquistar a nave à força, mesmo se nós, nisto,
sejamos mortos. Os amarelos que nos receberam tão amigavelmente já foram colocados
atrás das grades por eles.
― Mas isso são notícias muito pouco prazerosas ― agora concedeu Alaska. ― Eu
naturalmente nunca tinha contado com uma revolta. Isso muda a nossa situação, mesmo
que, para nós, tanto faz quais os amarelos que levamos conosco. O principal é que eles
estejam infectados.
― Afinal, que doença é essa? ― perguntou Merkosh.
― Nem imagino ― respondeu Alaska. ― Nós apenas sabemos que os bacilos
desconhecidos impedem uma deformação para plasma, caso o processo de divisão não
ocorre. Além disso, esta doença pode impedir o processo de nascimento, mesmo que o
desejo para a divisão permaneça, conforme nós mesmos estamos vivenciando. De
qualquer modo ela não se tomará mais vital. E isso é exatamente o que nós queremos dos
conquistadores-amarelos. Se esta doença é contagiosa...
― ...todos eles ainda acabarão telepatas! ― lembrou Gucky.
― Esse seria o mal menor, Gucky. Você está com a cabeça tão inclinada. Há outras
novidades?
Gucky fez que sim.
― E como! Eles estão vindo! Uma horda deles, e eles querem nos obrigar a
colocarmos a nave à sua disposição.
― Neste caso eles vão ter aborrecimentos ― prometeu Alaska e levantou-se. ―
Acorde Balton Wyt, Gucky. Esse daí dormiria, até se o mundo estivesse acabando...
***
Os amotinados primeiramente o tentaram com ameaças.
Três deles apareceram na brecha do plasma, com uma espécie de arma de raios
energéticos, que entretanto mantinham apontada para baixo. Através de Gucky, eles
comunicaram:
― Nós decidimos não recorrer mais à vossa ajuda, e deste modo não queremos
abusar demais de sua boa vontade. Nós vamos voar a nave sem vocês para o planeta do
retransporte, mas depois vamos trazê-la de volta. Mil dos nossos serão levados.
Alaska escutou a tradução de Gucky.
Ele sacudiu a cabeça, apesar dos amarelos não conhecerem o gesto. Mas eles leram
os seus pensamentos.
― Nós vamos levar oitocentos de vocês conosco, e ficaremos nisso. De modo
algum vamos permitir que vocês roubem nossa nave. Nós nos declaramos preparados a
ajudar vocês mas não deixaremos que nos coloquem sob pressão. Onde está o irmão de
vocês, com quem negociamos primeiro, e com quem fizemos a combinação?
― Ele não é mais nosso porta-voz.
― Mas ele é nosso parceiro! Nós queremos vê-lo, e isto aqui e agora. Antes disso
não vamos partir.
― Nós podemos forçar vocês!
― Então tentem!
Como Gucky falava a tradução em voz alta, os outros terranos conseguiam seguir a
conversa diretamente. Kosum puxou, com uma lentidão pronunciada, a sua pequena arma
de raios de agulha do bolso do traje de combate. Depois olhou, com expectativa, para o
amarelo.
A atitude superior dos seus hóspedes deixou os amarelos confusos. Eles tinham
contado com um ceder imediato, e agora tinham que verificar que seis criaturas viventes
ousavam levantar-se contra mais de três mil.
― Nós vamos voltar ― prometeram eles, e desapareceram.
Gucky olhou para eles.
― E eles voltarão com certeza! ― disse ele, significativamente. ― Sua pistola de
brinquedo os deixou muito impressionados, Mentro. Eles foram buscar reforços.
— Você consegue determinar onde está metido o nosso ex-porta-voz? ― Alaska
perguntou ao rato-castor. ― Nós devíamos nos preocupar por ele.
Os seus impulsos somente podem ser percebidos muito fracamente. Ele nos pede
ajuda, mas eu ainda não consegui determinar exatamente sua localização. Eu diria que
estamos metidos literalmente no meio de uma revolução. O que é que nós temos com ela?
― Muita coisa, pois indiretamente fomos nós que a causamos, Gucky. Portanto,
goniometre nosso amigo. Nós temos que libertá-lo.
― Se os outros nos deixarem ― objetou Gucky, e concentrou-se depois novamente
nos impulsos fracos.
Balton Wyt e Merkosh entrementes guardavam a brecha que levava à gruta onde
ficava a Gevari. Alaska tinha ordenado que os dois deviam impedir, mesmo à força, que a
parede de plasma fosse fechada. Naturalmente eles também podiam voltar para o space-
jet, mas ninguém queria colocar a nave espacial em perigo.
― Agora eu peguei o irmãozinho! ― anunciou Gucky. ― Ele tem contato comigo e
pede que o ajudemos. Devo ir buscá-lo?
― Espero que não haja para-armadilhas! ― opinou Kosum, preocupado.
― Estes daqui não conhecem essas coisas ― tranquilizou-o Gucky e concentrou-se
na teleportação que o deveria levar exatamente para o local do telepata goniometrado. ―
Aliás, agora cinquenta revoltosos estão se aproximando de nós. Portanto, tomem
cuidado!
Com isso ele sumira.
― Somente defender-nos! ― advertiu Alaska. ― Com Corello, provavelmente não
precisamos nos preocupar. Os amarelos não sabem que ele se encontra a bordo.
― Logo vamos ter frutas secas ― disse Balton Wyt, aferrado, mas Kosum
ameaçou-o com o dedo.
― Ninguém vai ser morto, Balton! Ainda que se trate de amotinados, eles não
cometem nenhum crime. Eles apenas seguem o seu instinto. Nós só vamos intimidá-los,
isso é tudo. O senhor pode fazer uso de sua capacidade de telecineta, mas não muito
rudemente demais.
― Neste caso vamos ter frutas caídas da árvore! ― achou Balton.
Merkosh anunciou o surgimento dos primeiros amarelos no pavilhão. Eles
ignoraram a espaçonave e deslizaram silenciosamente na direção do recinto onde se
encontravam os terranos.
Alaska atravessou a brecha e levantou a mão. Ele gostaria que Gucky voltasse,
porque ele não conseguia decifrar os fortes impulsos telepatas que o inundavam. Sabia,
entretanto, que, ao contrário, eles o entendiam.
― Parem, nem mais um passo! ― disse ele, em voz alta. ― Voltem, antes que seja
tarde! Se vocês fizerem uso de força, destruirão a nave, que representa sua única
salvação. Sejam sensatos, e se mantenham naquilo que foi previamente combinado.
O movimento dos atacantes parou. Eles continuavam mantendo suas armas,
estranhamente formados, apontadas para os terranos. O que eles respondiam Alaska não
pôde entender, mas ele viu o efeito de suas palavras. Os conquistadores-amarelos eram
obrigados, por natureza, a se movimentarem devagar. Isso, por sua vez, despertou,
justamente nesta situação, a impressão de que eles eram especialmente cautelosos. De
qualquer modo Alaska observou que eles não continuavam avançando, mas que se
desviavam para os lados.
Neste instante Gucky rematerializou no meio do pavilhão, e com ele o conquistador
amarelo, que naturalmente era o porta-voz libertado.
― É mesmo, eles querem nos cercar ― gritou Gucky e levantou o seu protegido. ―
Balton, mostre-lhes um pouco do que você aprendeu...
O conquistador amarelo que estava de pé no meio da fileira que recuava perdeu o
chão sob os seus pés. Ele ficou sem gravidade, e começou a girar em volta do seu eixo,
enquanto lentamente subia, ao encontro do teto, cinquenta metros acima. Gucky fixou-o
com seus olhos, e o manteve telecineticamente agarrado.
― Como nos velhos dias! ― disse ele, entusiasmado. ― Ei, Balton, não seja tão
preguiçoso! Pegue um também...
Ba1ton experimentou e conseguiu. As duas peras gigantes giraram no ar, se
encontraram e se entrechocaram suavemente. Elas lembravam dois desses balões que
faziam reclame para legumes e frutas.
Os outros revoltosos estavam surpresos demais, para pensarem em um ataque de
defesa. Sem entender, eles olhavam seus companheiros voadores e abaixaram suas armas.
Esta demonstração era mais penetrante no seu êxito, que qualquer defesa conseguida pela
técnica armada.
De repente, entretanto, o revoltoso, que Balton agora fez plantar uma bananeira no
ar, perdeu os nervos. Ele começou a atirar com sua arma de raios, e o feixe energético
acertou um dos seus companheiros. O coitado foi ao chão, mas depois começou a
arrastar-se para fora dali, com uma velocidade espantosa. Parecia que ele não sofrera
nenhum ferimento grave.
De qualquer modo, Balton Wyt ficou tão assustado, que por um momento esqueceu
de concentrar-se correspondentemente. A sua vítima começou a cair do teto, e certamente
a involuntária aventura não teria terminado sem muitas manchas roxas, se Gucky, no
último instante, não tivesse intervindo.
Suavemente os dois amarelos aterrissaram no pavilhão.
― Muito bem, e agora ouçam! ― Gucky voltou-se para eles, com sua vozinha
estridente. ― Isso foi apenas uma pequena amostra do que nós podemos fazer. Se vocês
não seguirem imediatamente as instruções de vosso antigo porta-voz, então poderão
experimentar dividir-se numa banheira, mas nunca num planeta, que é adequado para
isso. Em outras palavras: Sejam sensatos, ou nenhum de vocês deixará Casulo!
O amarelo, que Gucky libertara, voltou-se para os seus companheiros armados, com
gestos suplicantes, porém nenhum deles pensava mais em conquistar a astronave terrana.
Juntou-se a isso o fato dos aliados do amarelo libertado entrarem correndo no pavilhão,
para tirar as armas das mãos dos revoltosos surpreendidos.
Alaska olhou para Gucky. O rato-castor sorriu divertido, e colocou a mão, na borda
do capacete aberto, fazendo continência.
― Revolução abortada, sir! O programa original pode ser executado. ― Ele olhou
para trás e viu Balton. ― Wyt, o senhor pode continuar dormindo.
O telecineta preferiu silenciar.
O porta-voz amarelo informou Gucky e Alaska:
― A escolha dos primeiros oitocentos amigos logo estará terminada. Não há
nenhum dos revoltosos entre eles. Os senhores concordam com isso?
― Nós vamos dar partida dentro de três horas ― retrucou Alaska. ― Os escolhidos
deverão vir em grupos de dez, para que não haja confusão. Nós trataremos de alojá-los.
― Vamos precisar de no mínimo dez horas ― observou Blazon Beta. ― Nossos
amigos se arrastam como lesmas, o senhor não deveria esquecer-se disso, Alaska...
Gucky bateu as mãos por cima da cabeça, e afastou-se, de cara indignada.
― Peras-lesmas! ― disse ele, para si mesmo. ― Agora finalmente eu sei como
devíamos chamá-los...!
3

Levou até vinte horas, até que todos os oitocentos conquistadores fossem alojados
dentro do space-jet. Com espaço, por pequeno que fosse, foi utilizado. Eles estavam
deitados, apertados uns contra os outros, a torto e a direito, uns por cima dos outros e até
nos corredores.
Ribald Corello abandonara a nave com seu robô-transporte, indo colocar-se na
estação dos trilhos, na qual a nave fizera uma pequena escala intermediária. Alaska
queria, acontecesse o que acontecesse, voltar para Casulo, em qualquer circunstância.
Apesar do porta-voz dos conquistadores-amarelos, que fora libertado por Gucky,
querer ficar para trás, voluntariamente, em Casulo, Alaska o levara consigo. Ele queria
ter consigo pelo menos um aliado confiável, quando a situação ficasse ameaçadora. Além
disso, ele ainda tinha esperanças de obter mais informações.
Eles o chamavam de “Amigo”, bem simplesmente Amigo. Kosum pilotou a Gevari
e levou-a para fora, para o espaço cósmico livre, para além dos trilhos energéticos. Para
trás ficou o castelo, com Corello, por vigia. Ele cuidaria para que os rebelados se
mantivessem quietos, e não tentassem tomar a estação de trilhos.
A etapa linear foi programada, enquanto a aparelhagem de rastreamento sondava o
espaço. Eles não encontraram quaisquer objetos suspeitos nas proximidades. O space-jet
acelerou com valores normais e aproximou-se da velocidade de mergulho adequada.
Alaska e Gucky tinham recuado com “Amigo” para um canto da sala de controles,
onde podiam conversar sem serem incomodados. A sala de controles, acoplada com a
central de rádio, ainda oferecia algum lugar. De qualquer modo ainda foi muito difícil
meter o gigantesco robô na cabine relativamente apertada. Na sua parte inferior lisa, ele
estava de pé, como um cone, do lado da mesa, junto a qual Alaska e o rato-castor se
sentaram.
― Logo rastrearemos um planeta, para quem o grande acontecimento da evacuação
é iminente. Por que vocês nunca foram buscados, Amigo? Vocês realmente não sabem
por quê? Aqueles que lhes dão ordens, sabem de sua doença? E isto, na realidade, é uma
doença?
Amigo refletiu um pouco, depois respondeu através de Gucky.
― Os deuses do “Enxame” sabem que nós degeneramos, e eles também sabem que
nós somente vencemos a propagação na última galáxia, porque estamos doentes. E
agora, a felicidade maior, nos é mais uma vez negada. E na realidade são os deuses que
degeneraram e não nós! Antes eles faziam questão de trazer saúde e paz a todas as
galáxias que o “Enxame” atravessava, e não apenas isso! Era tarefa do “Enxame”
carregar a centelha do intelecto através do cosmos. Em todo o lugar, onde a vida se
tivesse desenvolvido o bastante, o “Enxame” deixava o impulso do intelecto. Hoje em
dia ele só traz ainda morte e destruição. Portanto, quem está degenerado? Os deuses do
“Enxame” estão degenerados!
Alaska espichou os ouvidos. E quis ter certeza:
― A centelha fulminante da inteligência... ? Esta era a tarefa original do
“Enxame”? E de galáxia para galáxia?
― Isso mesmo! De acordo com o cálculo de tempo de vocês, o “Enxame” necessita
de cerca de mil anos, para vencer as imensas distâncias entre uma galáxia e outra.
Nesta galáxia, que vocês chamam de Via Láctea, o “Enxame” estava há um milhão de
anos atrás...
Há um milhão de anos... ! De acordo com isso, o “Enxame” entrementes visitara
mil galáxias, mas não preenchera mais a sua tarefa original. Os deuses tinham
degenerado...
― Quem são estes deuses? ― perguntou Alaska.
― Isso ninguém pode dizer ― veio a resposta surpreendente.
― Porque não?
― Porque não são mais os deuses antigos, não são mais os senhores originais do
“Enxame”. Tudo se modificou, também o sentido e o fim de nossa existência. Talvez
mais tarde vocês ficarão sabendo de tudo ― na ocasião em que nós também soubermos
de tudo que ainda nos é desconhecido.
Do console de controles, Kosum disse:
― Entrada no espaço linear, dentro de dois minutos!
Alaska anuiu para Gucky.
― Você ainda sente os hipnoimpulsos, ou eles se apagaram inteiramente,
entrementes?
― Fracos, Alaska. Eles são sem sentido, também a coação desapareceu. Somente é
possível determinar ainda sua direção ― e esta, está correta!
― Mais um minuto! ― anunciou Kosum.
A aparelhagem do automático linear estava em funcionamento. A nave mergulharia
na quinta dimensão, sem que se sentisse a sua passagem, e sem que ela desmaterializasse
no processo. Aqui valiam outras leis, e a velocidade da luz era a mais baixa de todas as
velocidades possíveis.
Alaska tentou explicar isso a Amigo, mas teve a impressão de que o amarelo só
entendeu tudo pela metade. Apesar de inteligente, e dotado de conhecimentos técnicos,
faltava-lhe a possibilidade da experimentação prática.
― Logo vamos poder nos dividir novamente ― disse Amigo, de repente.
Alaska olhou, perplexo, para Gucky.
― O que foi que ele disse? Eu pensei que eles tinham vencido a coação para a
divisão.
― A coação jamais ― retrucou Amigo, a uma pergunta correspondente, de boa
vontade. ― Somente a necessidade absoluta. Mas este não é mais o caso, pois logo
estaremos num mundo, que está adaptado às nossas condições. Mas os deuses não
devem saber que nós escapamos de Casulo.
― Vamos tentar pousar, sem sermos notados. Tudo depende das medidas de
segurança que foram tomadas. Mas nossa nave é pequena e difícil de ser rastreada.
Talvez tenhamos sorte.
A Gevari corria através do espaço linear, deixando os dez anos-luz para trás, em
pouco tempo. Automaticamente depois ela mergulhou de volta ao espaço-einsteiniano, e
continuou voando com velocidade subluz.
O rastreamento começou a trabalhar imediatamente, e pouco depois apareceram os
resultados.
Bem perto achava-se um sol amarelo normal. Mantendo a velocidade, era possível
alcançá-lo dentro de poucas horas. O telerrastreamento encontrou quatro planetas, dos
quais o segundo tinha condições semelhantes às da Terra.
Isso, somente, não foi o que os fez concluir que se tratava do mundo procurado.
Um outro fato era muito mais significativo:
Milhares de naves de vigilância giravam em tomo do segundo planeta e
praticamente o escudavam, hermeticamente.
***
Kosum deixou a Gevari continuar voando, sem propulsão.
Alaska não refreou sua preocupação pelo desenvolvimento das coisas. Ele começou
a imaginar que eles tinham tentado fazer muito mais do que podiam. Como seria possível
romper um cordão de cerca de cinco mil naves de vigilância, sem serem notados?
E mesmo que isso desse certo, o que os esperaria no planeta parecido com a Terra?
As naves faviformes tinham pousado ali, com seus módulos hexagonais, para apanhar os
amarelos ciosos de divisão?
Amigo também estava ficando cada vez mais inquieto, de minuto a minuto. Gucky
ficou próximo dele, “escutando” cada um dos seus pensamentos. Amigo estava em
constante contato com seus amigos na Gevari. Uma onda: de alegria antecipada inundou
Gucky. Os amarelos sabiam: Logo chegaria a hora!
Todos os bloqueios de divisão gerados pelo vírus desconhecido tinham
desaparecido. A vontade, com a qual eles tinham se erguido contra o seu instinto natural,
ruiu. Parecia que eles estavam outra vez perfeitamente normais. Eles queriam dividir-se.
Logo eles teriam que se dividir!
Sob este aspecto, todo o empreendimento de repente pareceu totalmente sem
sentido para Alaska. Que sentido poderia ter, se todos os outros conquistadores-amarelos,
que esperavam pelo seu transporte do segundo planeta, fossem infeccionados, se com
isso não se livrariam do seu instinto de propagação?
Blazon Alfa e seu irmão Beta aproximaram-se do console de comando diante do
qual Alaska e Kosum estavam sentados nas suas poltronas anatômicas, não tirando os
olhos das telas da galeria panorâmica. Eles se colocaram à direita e à esquerda de Alaska
e esperaram.
Alaska imaginou que os Blazon logo surgiriam com uma de suas famigeradas
sugestões.
Ele também esperou.
Finalmente Beta não aguentou mais. A sua boca ficou ainda mais estreita, depois ele
falou:
― Sabe, nós temos uma ideia...
Sem se virar, Alaska disse:
― Vamos nos poupar o trabalho, Beta?
― O que quer dizer com isso?
― Se eu declarar a sua ideia, logo agora, de inexequível, nós não vamos precisar
ficar discutindo. Eu conheço o senhor e o seu irmão o bastante, para saber que as suas
ideias naturalmente sempre são boas, mas inexecutáveis. Vocês pensam de modo
complicado demais, para chegar às soluções mais simples.
Blazon Alfa parecia extremamente indignado. Com voz seca, ele disse:
― Indivíduos cheios de preconceitos demonstram imaturidade moral. O senhor está
querendo ser contado entre estes tipos de Homo sapiens, Alaska?
Beta olhou, agradecido, para Alfa. A ideia, ainda não pronunciada, portanto, devia
aparentemente partir dele.
Alaska girou o corpo, de modo que pôde olhar para os dois.
― O que sugerem? ― perguntou ele, curto.
― Não se trata apenas de misturar os oitocentos portadores de bacilos, entre os
amarelo-ocres saudáveis, para que estes sejam infectados. Sobre todas as coisas, nós
queremos alcançar que Rhodan, que fora do “Enxame” espera por um sinal de vida
nosso, receba uma mensagem de nós. Ele devia ficar sabendo de tudo que entrementes
descobrimos, e, sobretudo ele precisa saber, que estamos em relativa segurança...
― Nisso, tem razão ― concedeu Alaska. ― Mas eu estou curioso em saber como o
senhor pretende fazer isso, sem que nós tenhamos que abandonar o “Enxame”.
Beta não se deixou confundir.
― Ao mesmo tempo nós temos ainda um segundo problema: Mais uma vez um
planeta deverá ser esquentado para chocadeira dos amarelos maduros para a divisão.
Toda a vida desse planeta, para nós ainda desconhecido, com isso está condenada ao
extermínio. Para nós e especialmente para Rhodan, seria necessário ficar sabendo da
posição do planeta-chocadeira, para tomar as necessárias medidas de ajuda. Pelo que está
vendo, Alaska, com uma única ação de nossa parte, dois problemas ao mesmo tempo
poderão ser solucionados.
― Eu não entendo uma palavra ― confessou Alaska e olhou novamente para a tela
de vídeo. As naves de vigilância não mostravam nenhuma reação. Portanto a Gevari
ainda não fora rastreada. ― Como é que nós vamos ficar sabendo qual é o planeta do
destino, e ao mesmo tempo avisar Rhodan? Bem entendido ― sem abandonarmos o
“Enxame”! Além disso, está se esquecendo de Corello, que está esperando em Casulo.
― Nós não o esquecemos ― declarou agora Alfa no lugar do irmão. ― Nosso
plano é simples e nada problemático. Nós vamos aterrissar com a Gevari naquele planeta
ali ― isso, aliás, pretendemos fazer porque precisamos descarregar nossos passageiros.
Nesta ocasião, Beta e eu também vamos abandonar a nave e tentar nos esconder num dos
módulos hexagonais, que naturalmente serão levados dali pelas naves faviformes. Como
sabemos as naves faviformes abandonam o “Enxame” e pousam no planeta-chocadeira.
Chegados ali, veremos.
Alaska anuiu.
― Eu sei, chegados lá, vocês verão! ― Agora ele sacudiu a cabeça e olhou para
Alfa, como para uma criança doente. ― O senhor deve estar cansado de viver, não? Acha
que tem mesmo uma chance de escapar da morte? Mesmo se o senhor não for descoberto,
todas as condições de vida estão contra o senhor, ainda que esteja usando o traje de
combate. De que lhe serve conhecer o planeta-chocadeira, se não tiver ocasião de passar
esta informação para Rhodan?
― Nós temos aparelhos de rádio conosco ― lembrou-lhe Beta. ― Com eles
poderemos alcançar a Good Hope ou a Intersolar.
Alfa insistiu:
― Que sentido tem se ficarmos sabendo de coisas interessantes, mas temos que
ficar com o que sabemos só para nós, até finalmente termos uma oportunidade para
abandonarmos novamente o “Enxame”? O senhor não precisa preocupar-se por Beta e
por mim. Nós vamos dar conta do recado. Os trajes de combate possuem uma excelente
aparelhagem de refrigeração, enquanto os aparelhos antigravitacionais compensam
qualquer modificação da gravidade. Ar para respirar e víveres existem em suficiência, e
em caso de necessidade podemos até voar para o espaço com os trajes. E então, Alaska,
ainda tem dúvidas?
― Essas não podem ser afastadas tão depressa. Mas, de qualquer modo, eu agora
estou tentado a não recusar a sugestão totalmente. Ela tem alguns aspectos bastante
prometedores, devo admitir... mas o risco é grande, grande demais até. Isso os senhores
sabem! E mesmo assim...
Ele aprofundou-se num silêncio pensativo.
Alfa e Beta recuaram um pouco para não perturbá-lo. Eles sabiam que uma maior
insistência era inútil. Alaska tinha mordido a isca, e isso era mais do que eles tinham
esperado.
― Nós vamos ganhar o joguinho ― murmurou Alfa para o seu irmão.
Gucky, que saía do seu canto, bateu com o dedo no seu peito.
― Quem vai ganhar este joguinho no final, ainda não está tão certo, Alfa. Este é um
jogo bem diferente daqueles dos quais você tanto gosta, pois desta vez trata-se de vida ou
morte. Se vocês tiverem êxito ― saúdem Bell por mim ― e naturalmente também aos
outros.
Alfa respirou fundo, aliviado. Se Gucky estava do lado deles, também Alaska daria
o seu consentimento. Se ele quisesse que o comando especial tivesse êxito, ele não tinha
outra possibilidade.
Do console de controle, Alaska disse,
― Está bem, Alfa e Beta. Eu concordo, mas antes nós ainda temos outro problema
para resolver ― a aterrissagem, sem sermos notados! Depois que tivermos conseguido
isso, falaremos sobre a missão de comando. Também vai depender de sabermos se as
naves faviformes com os módulos-chocadeiras já tenham pousado. Kosum, eu preciso de
todos os dados sobre o segundo planeta, especialmente duração de rotação e dados
geográficos. Depois vou escolher o local de pouso. Quanto tempo ainda temos, se
deixarmos a propulsão desligada?
― Cinco horas e meia, no máximo.
― Ótimo. Em caso de necessidade, Gucky terá que fazer um reconhecimento.
― Estou sempre metido em tudo! ― garantiu o rato-castor, e aproximou-se de boa
vontade. ― Teleportação ― para onde?
― Isso eu ainda vou lhe dizer quando chegar a hora ― disse Alaska, sorrindo. ―
Antes vamos esperar pelos resultados do telerrastreamento...
***
Uma hora mais tarde os dados tinham sido obtidos, sem lacunas.
Alaska estudara o mapa infravermelho obtido, e escolhera como local de pouso a
intransitável esplanada diante de uma serra de montanhas, por cima da qual agora ainda
brilhava o sol do começo da tarde. As primeiras avaliações dos telerrastreadores que
tinham confeccionado o mapa, já tinham demonstrado, sem dúvida, de que as naves
faviformes já haviam pousado, tendo distribuído os módulos-chocadeiras pela superfície
do planeta.
No local de pouso previsto, esses módulos estavam espalhados às dúzias. A
plataforma mais próxima de uma nave faviforme, de quatro quilômetros de diâmetro,
tinha baixado a cinquenta quilômetros de distância, numa planície. Ali ela esperava a
volta dos módulos ocupados, para mais tarde transportá-los para o espaço e dali para o
planeta-chocadeira.
O problema para Alaska agora era atravessar o anel de naves vigilantes, sem ser
notado, e pousar. A montanha rochosa oferecia bastante proteção contra rastreamentos,
de modo que não se precisava contar com uma descoberta mais tarde. Além disso,
haveria uma escuridão de quase quinze horas.
Tempo suficiente para Blazon Alfa e Blazon Beta se meterem num dos módulos e
esperar pela partida.
Não se via qualquer mudança no comportamento das naves de vigilância.
Despreocupadas elas circulavam em tomo do segundo planeta, e quase se tinha a
impressão de que elas estavam sendo pilotadas automaticamente.
Kosum terminou seus exames e virou-se para Alaska:
― Excelentes condições, Alaska! O terceiro planeta é desabitado, tem caráter
desértico com pequenas montanhas, atmosfera respirável e alguns mares. Os cálculos
resultam, para mais tarde, uma trajetória direta de voo para o segundo planeta, que se
encontra em posição oportuna. Por isso recomenda-se um voo com uma escala. Nós
temos um total de sete horas de tempo, se quisermos alcançar o local de pouso desejado
no segundo planeta, ao anoitecer.
― Muito bem, neste caso faremos o pouso de escala, esperamos algum tempo, para
mais tarde alcançar o segundo planeta num voo-relâmpago. Gucky poderá executar suas
explorações a partir do terceiro planeta. A escala pareceu aconselhável a Alaska, pois ele
não acreditava que a constante aproximação, ainda que lenta, da Gevari, na direção do
segundo planeta, ficaria sem ser notada indefinidamente. Além disso, Gucky devia fazer
um exato reconhecimento do local de pouso, para excluir surpresas.
Numa manobra hábil, Kosum conseguiu colocar o terceiro planeta entre a nave e a
frota de vigilância, de modo que um rastreamento tomou-se impossível Depois ele
pousou com a nave no lado contrário, num vale desértico, cujas rochas íngremes
ofereciam excelente proteção visual. Quando a propulsão morreu, Alaska disse para
Gucky:
― Você tem duas horas de tempo. A região escolhida você conhece, pois já a viu
no mapa. Você acha que vai poder alcançá-la com um salto?
― Eu vou tentá-lo, mas se não o conseguir, isso também não é problema. De
qualquer modo tenho o mapa na cabeça. Estarei de volta no máximo dentro de duas
horas. Se não, vocês simplesmente vêm atrás de mim.
― Nada de excursões extras! ― advertiu-o Alaska. ― Você está de volta dentro de
duas horas, e basta! Gostaria de saber quem poderia deter você...!
― Nisso você realmente tem razão, mais uma vez ― anuiu Gucky, cheio de si. ―
Portanto, estou de volta dentro de duas horas...
Sem mais qualquer comentário ele desmaterializou, mas eles o viram ressurgir,
quase no mesmo segundo, do lado de fora, em cima de um rochedo. Somente ali ele
fechou o capacete de seu traje de combate, e se preparou para a teleportação para o
segundo planeta.
Quando desmaterializou pela segunda vez, ele desapareceu definitivamente do
campo de visão dos que ficaram para trás.
― Lá vai ele! ― declamou Kosum olhou para a paisagem deserta, com um olhar
cético. ― Espero que ele consiga voltar.
― Disso eu tenho certeza! ― garantiu Alaska, levantou-se e foi até Amigo, que
esperava pacientemente a um canto, pela sua grande oportunidade.
Gucky rematerializou entrementes dois quilômetros por cima da superfície do
segundo planeta, segurou-se telecineticamente, e lentamente pairou para baixo, ao
encontro da paisagem rochosa. Ele aproveitou a oportunidade para se orientar, e com um
rápido olhar em torno, verificou que o mapa infravermelho fora bastante exato. Os
módulos hexagonais, de vinte e cinco metros de comprimento, estavam caídos por ali às
dúzias, e de muitos lados os conquistadores-amarelos maduros para a divisão se
arrastavam para esses tubos, que escolhiam para si. Cada um deles tinha direito a um
desses tubos hexagonais, ainda que talvez mais de um encontrasse lugar dentro dele.
Gucky estava convencido de que entre esses amarelos, inteiramente dominados
pelos seus instintos, deviam acontecer brigas, e tentou imaginar como seria uma luta de
boxe entre peras gigantes.
O local de pouso pretendido ficava na borda de uma montanha muito íngreme, cujas
paredes, em parte, sobressaíam, e com isso ofereciam uma excelente proteção visual do
alto. O space-jet aqui facilmente encontraria lugar. Mais para fora, na planície, caíra uma
verdadeira chuva de tubos hexagonais de chocadeiras. Gucky avaliou o seu número em
aproximadamente mil. Isso seria o suficiente para os passageiros amontoados da Gevari.
Do outro lado do pequeno altiplano havia menos tubos, e até a hora do pouso da
Gevari já estariam todos ocupados, pois inúmeros amarelos se aproximavam deles, em
tempo de lesma. Em poucas horas eles poderiam ter atingido o destino provisório de seus
desejos. Parecia que os módulos-chocadeiras os atraíam magneticamente, pois eles os
encontravam sem mesmo ter contato ótico com eles. Talvez também aqui havia
hipnoimpulsos que os transmissores dos tubos irradiavam.
Gucky pousou no altiplano.
Entrementes se passara uma hora. Restavam-lhe mais sessenta minutos antes de ter
que voltar para Alaska e os outros.
O platô não era muito grande, mas não oferecia apenas proteção visual do alto, mas
sobretudo não era possível olhar-se para dentro do mesmo, a partir da planície. O rochedo
sobressalente formava uma meia-caverna, na qual certamente dois ou três space-jets do
tamanho da Gevari encontrariam lugar. Kosum não teria qualquer dificuldade de
manobrar a chave para dentro dela.
Na realidade Gucky agora poderia voltar para o terceiro planeta, mas isso, em
qualquer caso, era contra sua natureza. Já que ele estava aqui, ele fazia questão de dar
uma boa olhada.
Ele olhou para o leste e teleportou, sem escolha, nesta direção. Em algum lugar ele
deveria poder verificar quantos amarelos aqui esperavam para serem transportados para
fora do planeta. Se eles já viviam aqui há muito tempo, também, devia haver cidades.
Cidades que provavelmente, depois da partida da frota-chocadeira, ficariam para trás
abandonadas e vazias ― por quanto tempo...?
Para Gucky ficou claro que na realidade eles não sabiam de praticamente nada sobre
os verdadeiros processos dentro do “Enxame”, apenas pormenores e talvez detalhes sem
importância. As verdadeiras intenções dos deuses “degenerados” por enquanto ainda
ficavam desconhecidas.
Quando Gucky rematerializou ele deixara para trás de si mais de cinco mil
quilômetros em direção leste. Por baixo dele havia terra firme, porém mais para o leste
ele viu a superfície de um mar ao mesmo tempo viu a cidade.
Ela ficava exatamente por baixo dele, e para livrar-se de qualquer rastreamento ele
teleportou alguns quilômetros lateralmente e um pouco mais para cima. Depois ele
pairou, imóvel, na fina atmosfera e tentou absorver pormenores. Como ele captava
impulsos mentais suficientes, conseguiu fazê-lo sem dificuldade.
Reinava uma atmosfera geral de partida. Acontecera algo de grande significação. A
longamente esperada divisão era iminente! Aquilo, pelo qual os conquistadores-amarelos
viviam, tomava-se realidade.
Os deuses do “Enxame” mantinham a sua palavra!
Mas, ― isso Gucky sabia instintivamente ― eles não o faziam por amor ao
próximo ou altruísmo. Eles jamais o fariam se não tivessem alguma vantagem com isso.
Que vantagem era essa?
Gucky desistiu de querer resolver o enigma sozinho. No máximo ele podia recolher
pequenas pedrinhas do mosaico, no quadro geral ainda desconhecido, que somente na sua
totalidade teria um sentido.
Ele recebeu fortes transmissões de impulsos, em base mecânico-telepática, e que,
entretanto eram totalmente diferentes das transmissões que eram feitas do planeta de
cristal, e tinham mais hipnocaracteres.
Para o rato-castor foi relativamente simples decifrar o conteúdo das transmissões.
Constantemente as posições das naves faviformes pousadas eram indicadas, e também
coordenados os dados sobre os caminhos mais curtos para os diferentes campos de pouso.
Portanto tratava-se sem dúvida alguma de um transmissor que era manipulado pelos
próprios amarelo-ocres.
Em conjunto com outros transmissores, que estavam distribuídos em torno do
segundo planeta, deste modo se fazia uma imagem exata da situação momentânea, e cada
um para quem o transporte para o planeta-chocadeira era atual, agora estava em posição
de escolher sozinho o caminho mais próximo para um dos tubos sextavados.
E na cidade por baixo de Gucky, sobre a qual ele pairava a grande altura, as coisas
se pareciam correspondentemente. Oticamente ele não podia perceber os pormenores,
mas os impulsos de pensamentos que captava lhe revelavam tudo.
Uma atmosfera de partida, e muitas vezes também medo e pânico, de perder o
êxodo, e não chegar em tempo hábil aos tubos sextavados, e encontrar um lugar dentro
deles. Entre tudo isso novamente alegria e felicidade, quando alguém o tinha conseguido.
Este conglomerado de sentimentos era de deixar qualquer um confuso, mas Gucky
era um telepata experimentado. Ele sabia como separar os mais diferentes impulsos, e
catalogar os mais importantes. Além disso, ele tinha a capacidade de ignorar
completamente transmissões que lhe parecessem sem valor.
Ele ainda tinha meia hora, se não quisesse perder a hora do regresso. Com um olhar
para o leste ele teleportou em volta da metade do planeta, mas não conseguiu verificar
qualquer modificação. Por toda parte reinava o mesmo caos, a mesma atmosfera de
partida e a mesma feliz expectativa. Os amarelo-ocres estavam a caminho, por toda a
parte, na direção dos tubos sextavados.
Gucky achou que já tinha conseguido saber o bastante. Primeiramente ele voltou
para o local de pouso escolhido para a Gevari, para de lá executar a teleportação de volta
para o terceiro planeta.
Os amarelo-ocres rastejantes entrementes tinham alcançado quase todos os tubos
que ficavam na planície situada mais abaixo, e se aprestavam a tomar posse deles. Isso
acontecia em absoluta ordem e sem brigas, o que certamente devia agradecer-se a
afirmação repetida constantemente, de que havia tubos sextavados suficientes para todos
os habitantes deste mundo, que necessitavam divisão.
A questão apenas era saber se havia mais oitocentos canos sextavados, além dos
planejados.
Antes que Gucky teleportasse ele se convenceu de que os cerca de mil tubos
sextavados do altiplano ainda continuavam repousando nos seus lugares. Naturalmente
ele não podia imaginar, de que eles tinham descido por engano neste lugar afastado, mas
mais tarde ele ainda teria tempo de pensar nisso e fazer suas especulações. Importante
era: Eles estavam ali e esperavam, e nas proximidades não se mostravam quaisquer
conquistadores-amarelos, que quisessem tomar posse deles.
Gucky concentrou-se na Gevari e em Alaska, depois teleportou.
Ele materializou na central de comando do space-jet.
4

Restava-lhes ainda uma hora, antes de terem que partir, para alcançar o esconderijo
no segundo planeta, antes de cair a escuridão. Levaria a noite toda até que os passageiros
amarelos pudessem abandonar a nave para arrastar-se até os canos-chocadeiras.
Alaska mostrou-se bastante bem impressionado com o relatório muito exato de
Gucky, e elogiou-o quase exageradamente. Gucky defendeu-se, modesto.
― Por favor, Alaska! Afinal não é crédito meu ter capacidades tão eminentes, que
me destacam da massa! Eu faço apenas o meu dever, é só isso, e se com essas coisas eu
ainda posso prestar um serviço a vocês, isso me alegra.
Balton Wyt parecia totalmente confuso. Antes que ele pudesse dizer alguma coisa, o
rato-castor adiantou-se a ele:
― Você pode poupar-se de suas observações tolas, Balton!
Fique satisfeito que no terreno da telecinese eu lhe ensinei mais alguma coisa, de
modo que você hoje em dia é tido como perfeito. Portanto você não tem motivo para
zombar de minha modéstia como “falsa afetação”, conforme você planejava.
― Eu não disse absolutamente nada! ― defendeu-se Balton, envergonhado. Como
é que ele pôde esquecer que Gucky era telepata? ― Só que sua modéstia é um pouco rara
― isso você mesmo tem que admitir.
― Eu não admito coisa nenhuma! ― gritou-lhe o ilt, furioso.
― Quando a gente quer mostrar-se humano, vem um desses telecinetas vagabundos,
e tenta bichar a fruta. É inacreditável!
― É melhor você se mostrar íltico, baixinho, e pare de brigar ― aconselhou Alaska,
olhando para o relógio. ― É melhor prepararmos tudo para a partida. Nós ainda temos
quarenta minutos, e ainda não passamos, sem sermos notados, pelo cordão das naves de
vigilância. Eu já estou vendo a necessidade de você talvez ter que teleportar os nossos
hóspedes, um depois do outro, para os tubos-chocadeiras.
― Por todos os espíritos dos meus antepassados! ― Gucky olhou para Alaska,
perplexo. ― Mas isso iria além da minha..., ― furioso ele olhou para Balton ― ... minha
modesta capacidade. Nós vamos dar conta disso, Alaska, com toda certeza vamos
consegui-lo. Em caso de necessidade, se nos perguntarmos, declaramos a nave como
transporte de frutas do Império Solar. Até que eles entendam isso, nós já pousamos há
muito tempo.
― Suas palavras no ouvido dos deuses do “Enxame”! ― disse Alaska e depois
voltou-se para Kosum, para falar com ele sobre a rota.
***
Eles voaram em volta do terceiro planeta no lado noturno deste, até que o segundo
se ergueu acima do horizonte. Imediatamente o rastreamento comunicou fortes formações
de vigilância, que tinham se formado bem longe para dentro do espaço, deste modo
ampliando a rede.
― Talvez agora tenhamos mais sorte ― achou Kosum, quando viu os resultados do
rastreamento na sua frente sobre a mesa de navegação. ― Talvez eles queiram impedir
que alguém entre neste sistema solar. Para que este cuidado dentro do “Enxame”, no qual
tudo parece tão bem ordenado? Será que Amigo não sabe de uma resposta?
Alaska fez um aceno para Gucky vir com ele para o hóspede, que ainda permanecia
no seu canto, esperando pelas coisas que estavam por vir. Quando lhe fizeram a pergunta
correspondente, ele retrucou:
― Para isso eu não posso dar-lhes uma resposta satisfatória, meus amigos. Mas
nós sabemos que os falsos deuses fazem sua própria escolha, quando se trata de nossa
felicidade. Talvez eles neguem a muitos de nossos povos a natural reprodução, e querem
evitar, de qualquer modo, que estes abandonem os seus mundos, para encontrar
sozinhos as condições para a divisão. Nós conseguimos fazer isso, graças a ajuda de
vocês. Pode ser que outros o tenham conseguido, sem ajuda estranha, talvez alguma vez
antigamente, e por isso a vigilância agora é redobrada. Eu não vejo outra razão para
essa cuidadosa vigilância.
― Isso soa lógico ― concedeu Alaska. ― Mas seja lá qual for a causa, nós temos
que enfrentar os fatos existentes. Nós levaremos vocês para o planeta, Amigo, você pode
confiar nisso. Vocês vão gozar a felicidade que merecem.
― Nós lhe seremos eternamente gratos por isso ― prometeu Amigo.
Alaska voltou para Kosum. A Gevari atravessava as camadas mais altas do terceiro
planeta e tomou rota direta para o segundo, que estava a quarenta milhões de quilômetros
de distância, e ainda estava sendo vigiado por inúmeras naves de vigilância.
― O rastreamento de matéria é menos confiável que qualquer rastreamento de
radiações ― disse Kosum. ― Especialmente quando se trata de uma nave tão pequena
como a Gevari. Se voarmos sem propulsão, não se pode rastrear nenhuma radiação
energética. Portanto vai ser difícil encontrar uma nave tão diminuta quanto a nossa.
―Seria puro acaso ― retrucou Alaska. ― Vamos tentar...
Depois de uma curta manobra de rota, a Gevari caiu exatamente na direção do
segundo planeta, no que a velocidade antes aumentava, porque a força de atração do sol
puxava a nave mais para o centro do sistema. Os computadores de bordo calcularam o
lugar de pouso previsto. Ele ficava a cerca de vinte quilômetros de distância da gruta que
Gucky descobrira. A correção de rota somente deveria ocorrer no último instante, depois
que já se tivesse transposto o cordão das naves de vigilância.
Eles tinham deixado para trás cerca da metade do trecho total, quando Kosum
registrou raios de rastreamento. Isso queria dizer que um sensor de massa tinha captado a
Gevari. Agora só iria depender o que a mecânica identificaria. Num sistema solar
desconhecido, eles facilmente podiam ser tomados por um asteróide.
Alaska deu algumas instruções para Gucky. Este pôs-se imediatamente em ligação
com Amigo, pedindo-lhe para comunicar aos seus companheiros que talvez a nave seria
atacada. Mas não havia razão para inquietações, caso tivessem que executar abruptas
manobras de modificação de rota e de velocidade.
Era apenas uma única nave, que pouco depois pôde ser observada por Kosum, e que
se aproximava deles de frente. Ela tinha o formato de um cubo, com um comprimento de
mais ou menos cem metros de lado. Na superfície havia protuberâncias, cúpulas de
diversos tamanhos, algumas delas de material transparente. Poderia supor-se que se
tratava de posições de armas e cúpulas de observação.
Uma nave de reconhecimento, armada, portanto...?
Kosum olhou interrogativamente para Alaska, quando ficou evidente que o objeto
voador estranho os havia avistado.
― Talvez ela esteja agindo por conta própria ― achou Balton Wyt. ― Neste caso,
nós simplesmente a derrubamos.
― Tão tolo só você podia ser! ― disse Gucky, numa revanche pela observação
pensada por Balton, antes da partida. ― Isso chamaria a atenção, mesmo se confiamos
em que os outros acreditem em um choque com um asteróide. Para isso eu tenho uma
sugestão melhor. ― Ele esperou que alguém lhe pedisse que anunciasse sua sugestão,
mas quando todos apenas o olharam silenciosamente, ele continuou: ― Eu teleporto para
a nave estranha, e tento persuadir os cavalheiros para que voltem, para que mudem de
rumo.
Alaska sacudiu a cabeça.
― Você não acha que, com isso, encontrou a melhor solução?
Gucky anuiu.
― É claro que acredito! ― disse ele, decidido. ― É que você ainda não conhece o
jeito e a arte de minha persuasão, Alaska. Continuem voando como antes, tranquilamente,
e não se incomodem comigo. Vocês conhecem o local de pouso que escolhi, pelo mapa
aqui. Pousem ali. Eu irei atrás.
― Eu lhe proíbo... ― começou Alaska, porém Gucky já tinha desaparecido.
***
Gucky simplesmente teleportara para dentro da nave estranha. Apesar da distância
ser de mais de dois milhões de quilômetros, ele materializou muito próximo da central de
comando, que ficava no centro do cubo.
Ele recebia correntemente padronagens de pensamentos, mas não conseguia fazer
nada com eles. Mesmo para seu entendimento, eram símbolos mentais absolutamente
estranhos e incompreensíveis, que nem sequer expressavam alguma emoção, mas apenas
padronagens, modelos regulares, parecendo quase matemáticos.
Quem quer que fosse a tripulação da nave-cubo, ele não conseguiria entender-se
com ela, apesar de ser um excelente telepata.
Ou talvez pudesse? Talvez os impulsos mentais captado eram apenas uma
transmissão de interferências, não se sabendo para quem ela se destinava.
De qualquer modo os impulsos lhe mostravam o caminho.
Ele ligou o escudo defletor do seu traje de combate, e ficou invisível. Esta era uma
medida de segurança, que em primeira linha apenas se referia ao alcance ótico. Com um
detector de radiação, a sua presença ainda poderia ser notada, pois o aparelho precisava
de energia, da qual uma pequena parte se perdia, por radiação. Esta energia liberada
podia ser medida por aparelhos correspondentes. Gucky apenas podia esperar que os
estranhos não possuíssem um aparelho desses, ou que ele não estivesse em
funcionamento.
Ele deixou alguns metros para trás, na direção da central de comando, que ele podia
identificar facilmente, graças às intensas radiações de pensamentos. Ele encontrava-se
num corredor largo, mas baixo, que seguia da borda do cubo para o centro. Uma vez ele
encontrou-se com uma criatura metálica, que o ignorou. Lembrou-lhe um prato chato, de
alguns metros de diâmetro, que corria sobre longas pernas de aranha, acionado por um
aparelho globular logo abaixo do disco, de onde também era dirigido. Sem dúvida,
tratava-se de um robô.
― Se ele for parecido com seus construtores, vou dar um jeito de conseguir pó
contra insetos ― pensou Gucky, um tanto divertido.
Ele conhecia seres viventes de todas as formas possíveis, mas tinha que confessar
que estes aqui, caso eles se parecessem com o robô, no mínimo podiam ser chamados de
extraordinários.
Ele apertou-se contra a parede e deixou o robô passar. Quando ele quis ir em frente,
perto dele abriu-se uma porta lateral, que levava a um recinto que lhe ficava por detrás.
Gucky apertou-se contra a parede, para evitar contato com a criatura-aranha, que na
realidade tinha uma grande semelhança com o robô, que entrementes desaparecera numa
volta do corredor.
O prato chato, de cerca de vinte centímetros de grossura, parecia alojar todos os
órgãos, a começar pelo cérebro até a digestão. Também as pernas compridas de um
metro, doze em número, eram conduzidas a partir do prato, que as movimentava. Não se
notavam braços nem mãos, mas sem dúvida estes seres tinham estas ferramentas, caso
contrário não teriam podido construir um robô nem controlar uma astronave.
A aranha ― Gucky o chamou assim, para facilitar as coisas ― movimentava-se
relativamente devagar, e com uma graça que encheu o rato-castor de espanto. Ele jamais
em sua vida tivera alguma coisa contra aranhas, e por ele, qualquer um podia ter a
aparência que quisesse. Ele julgava os outros apenas de acordo com seus motivos e suas
ações.
Ainda assim ― este aqui podia ser um adversário em potencial!
Inutilmente Gucky tentou ler os pensamentos do ser vivente, que passava bailando
tão perto dele, e que devia não imaginar coisa alguma. Era como coisa alguma. Ele
apenas captava padrões de pensamentos confusos e estranhamente rígidos, que nada
expressavam. As criaturas pensavam, disso não podia haver dúvida alguma, mas elas
pensavam mecanicamente, quase maquinalmente.
Inteligências dessas, que certamente agiam por encargo dos deuses desconhecidos
do “Enxame”, podiam dominar suas tarefas, sem cometer erros, ou seja, erros de peso?
Gucky não conseguia acreditar nisso.
Por outro lado, ele não conseguia desmentir o fato, de que aranhas aparentemente
vigiavam o segundo planeta, que eles funcionavam como povos auxiliares dos deuses do
“Enxame”, e de qualquer modo ― conscientemente ou não, conseguiam ocultar seus
pensamentos, e que eram inteligentes.
Gucky esperou até que a criatura-prato passasse, depois ele seguiu adiante, sem dar
atenção à porta, que entrementes se fechara outra vez. Ele queria ir até a central, e já não
tinha mais muito tempo. O encontro com a Gevari poderia acontecer a qualquer
momento.
A central de comando não era separada do corredor por nenhuma porta. Ela ficava
na extremidade do corredor, e conforme Gucky pôde verificar, ainda havia mais três
dessas entradas sem portas. Quatro enormes telas de vídeo nas paredes mostravam uma
galeria panorâmica do espaço cósmico. Levando em conta que a central de controle se
encontrava no centro da nave, uma instalação dessas era praticamente indispensável. Ela
possibilitava a total captação dos arredores mais próximos.
O restante do recinto estava cheio de inventário técnico, cuja significação Gucky
não conseguiu entender muito rapidamente. Mas ele sabia que agora tudo dependia de
segundos, e uma vez que ele não conseguia captar os pensamentos do estranho povo das
aranhas, viu-se colocado diante da tarefa de agir ao acaso.
Três poltronas de controle chamara sua atenção especialmente. Elas estavam diante
de um gigantesco quadro de controles, e mesmo se elas não aparecessem como poltronas,
o fato das aranhas que estavam metidas dentro delas tinha chamado a atenção, de que se
tratava do console de controle de voo.
Imóvel, ele ficou parado do lado da abertura para o corredor, não sendo notado por
ninguém. Telecineticamente ele tatear o interior do complicado quadro de comutações.
Ele imaginava os contatos, os relés, sem dificuldade ele sentia os importantes cabos
alimentadores, e sentia os impulsos positrônicos que fluíam através deles.
Ainda era cedo demais para uma definição exata. Mas Gucky não tinha outra
escolha. Ele tinha que interromper alguns circuitos de força telecineticamente, para
reconhecer o êxito dos seus esforços, para saber se estava realmente na pista certa.
Ele golpeou, concentrou-se...
A repentina falta dos campos de gravitação quase o atirou ao chão, pois a nave-cubo
estava justamente acelerando e mudando de rota. Também as aranhas que se encontravam
na central perderam o equilíbrio, com exceção das que se encontravam dentro das
poltronas de controle.
O comandante entretanto reagiu imediatamente, desligou a aceleração, e evitou uma
outra modificação de rota. Lâmpadas que piscavam mostraram-lhe a falha.
Gucky só estava meio satisfeito com o sucesso de sua intervenção técnica. Ele tinha
que encontrar o propulsor propriamente dito, para tomar a nave incapaz de manobrar. A
reação do comandante que estava sentado na poltrona do meio apontou-lhe o caminho
certo. Da alavanca de controle ele conseguiu seguir telecineticamente o cabo condutor,
até encontrar a positrônica em questão. Com uma nova intervenção ele interrompeu toda
a alimentação energética. Os contatos funcionaram, e, sem direção, a nave-cubo
continuou voando na direção original.
Os impulsos de pensamentos que ele recebia agora revelavam algo semelhante a
confusão e perplexidade, além de desamparo, quando o comandante reconheceu a
impossibilidade de manobrar a sua nave. Uma prova de que as aranhas estavam em
contato telepático entre elas, ainda que num código mental, que Gucky simplesmente não
entendia. A coisa seguinte que ele demoliu foi a instalação de rádio, antes que
correspondentes pedidos de SOS fossem irradiados. Ele naturalmente não podia saber, se
também aqui existia uma ligação telepática para o alto-comando da frota de vigilância, ou
não, mas ele esperava que o contato era limitado pela distância, e talvez somente fosse
possível dentro da nave. Caso contrário, uma aparelhagem de rádio não seria supérflua?
Na central de comando criou-se uma confusão indescritível, apesar de ainda não
existir um perigo iminente para a nave. A sua rota o carregaria para fora do sistema solar.
Nas telas de vídeo Gucky viu a Gevari passar lateralmente. O space-jet manteve-se como
se fosse um destroço à deriva, que por puro acaso entrara voando para dentro do sistema.
E então a Gevari ficou para trás.
Gucky teve a impressão de que ele realizara o seu dever total e perfeitamente, mas
ele aproveitou a oportunidade para olhar um pouco em volta. Ele não teria todo dia uma
oportunidade de se encontrar numa nave de aranhas. Infelizmente suas explorações
telepáticas não forneciam indícios, se as aranhas estavam hipnoinfluenciadas ou não.
Além disso, faltava-lhe ainda a explicação, porque ele não captara os pensamentos desses
estranhos seres viventes. Apesar deles pensarem, alguma coisa, continuamente.
Ainda enquanto ele refletia de como devia fazer para solucionar o enigma, foi-lhe
tirada a decisão: Nos fundos apareceu mais uma aranha, que de repente esticou dois
tentáculos e apontou exatamente para o lugar onde se encontrava Gucky.
O rato-castor entendeu imediatamente este gesto. Ele tinha sido descoberto, com um
sensível rastreador de irradiação, que tinha registrado e rastreado a irradiação de energia.
Não demoraria mais muito e eles o iriam encontrar, invisível ou não. Somente uma
rápida fuga conseguiria salvá-lo ainda. Com a rapidez de segundos ele decidiu-se a
executar esta fuga, mas não sozinho.
Ele queria levar um prisioneiro consigo,
para satisfazer sua curiosidade pessoal, e verificar
se sua vaga desconfiança se confirmaria.
Para isso essa aranha-prato com os
tentáculos apontando para ele era justamente o
ideal!
Com alguns passos rápidos ele atravessou o
recinto, sem chocar-se com ninguém. Enquanto
ainda começavam a procurá-la no canto indicado,
ele agarrou a aranha-prato nos dois tentáculos,
concentrou-se no segundo planeta, ainda a uma
distância de vinte milhões de quilômetros ― e
teleportou.
Ele não calculara absolutamente certo e
rematerializou a cerca de vinte quilômetros de
altura acima da superfície, apesar de ter pensado
intensamente no local de pouso. Provavelmente
ele fora perturbado na sua concentração pelos
impulsos mentais incompreensíveis do seu
prisioneiro. De qualquer modo ele agora caia
junto com ele para as camadas mais densas da
atmosfera. E o prisioneiro não vestia nenhum traje de proteção.
Com um rápido golpe de vista ele procurou se encontrar, mas o terreno abaixo dele
não permitia uma orientação exata. Mesmo assim ele se deixou cair, depois freou um
pouco e sentiu os primeiros farrapos de ar passar por ele.
Uma curta teleportação o levou para baixo, para a superfície.
Para sua enorme surpresa, a aranha prisioneira não sofrera qualquer dano. Ela
estendeu mais dois tentáculos do corpo em formato de prato e tentou libertar-se. Gucky
desligou o escudo defletor, e tornou-se visível. Ele tinha mais ou menos o tamanho de sua
vítima.
Por um instante o prisioneiro de Gucky esqueceu qualquer defesa. Provavelmente
só agora ele se dava conta de que o seu repentino dominador estivera invisível. Gucky
soltou-o.
A aranha estendeu mais dois olhos compridos, para poder olhar melhor o rato-
-castor. Ela o fez, sem vergonha, levada por uma curiosidade visível. Gucky não sabia se
devia sentir-se lisonjeado por tanta atenção à sua pessoa, ou se tinha razão para ficar
furioso. Ele decidiu-se, antes de mais nada, esperar para ver o que o prisioneiro pretendia
fazer.
Mas ele permanecia imóvel.
A falta de qualquer possibilidade de entendimento agora se tornava ainda mais
desagradavelmente notável que antes. Naturalmente a aranha pensava, mas Gucky não
conseguia fazer nada com os impulsos.
Depois a aranha se virou, encolheu os olhos um pouco, e saiu marchando, como se
tivesse esquecido o rato-castor totalmente.
― Ei, espere mais um pouco! ― gritou Gucky instintivamente, correndo atrás dela.
― Eu ainda tenho algumas perguntas...
De qualquer modo ela possuía órgãos para acústica, pois ficou parada e virou-se
outra vez.
Isso!
Pela primeira vez desde o estranho encontro, Gucky não pensava mais numa aranha,
ou num ser-vivente em formato de prato, mas apenas em “Isso”.
― Você consegue me escutar? ― quis ele saber, inseguro. Você consegue me
entender, se eu falo em voz alta...?
Não houve qualquer reação. Aquela coisa simplesmente ficou parada, observando-
-o. As finas pernas de aranha estavam prontas para a fuga, e os quatro braços ainda
estavam esticados, tentáculos frágeis e quebradiços, com mãos e dedos
extraordinariamente graciosos.
Entrementes Gucky tentava conseguir ligação telepática com Alaska, mas não
conseguiu. A atenção que ele tinha que dispensar à criatura-aranha o desviava demais.
Era dia claro, portanto ele devia ter pousado no lado errado do planeta. Ele podia
orientar-se pela posição do sol, se pelo menos quisesse encontrar a longitude do local de
pouso.
― Ora, venha comigo, não vamos demorar demais aqui! Não tenha medo, eu vou
levá-lo comigo apenas para os meus amigos. Aqui eu não tenho um aparelho tradutor, e
talvez um desses vai nos ajudar...
Rapidamente ele agarrou a criatura e teleportou.
Desta vez era noite profunda. Um pouco mais adiante, para o oeste, e ele chegou ao
lusco-fusco do anoitecer. Cautelosamente ele tentou orientar-se, sem afrouxar a mão que
segurava o corpo em forma de prato.
Um pouco mais para o norte ele descobriu finalmente a montanha, cuja formação
típica ele conhecia apenas do alto. Não foi difícil encontrar a planície e o altiplano com
os tubos-chocadeiras.
Ele pousou diante da caverna.
Não se podia ver o space-jet.
***
Alaska notou a repentina modificação de rota da astronave em formato de cubo,
mas, para sua satisfação, verificou que nada mais acontecia. Nenhum canhão apareceu
nas cúpulas, e se não houvesse uma segunda modificação de rota, a nave-cubo passaria
voando bem perto da Gevari.
Gucky tivera êxito? Era o que parecia.
― Escudo de proteção intato! ― avisou Blazon Alfa, da positrônica. ― O cubo
pode atirar, isso de nada lhe servirá.
― Um cubo ― ou um dado ― deveria ser especialmente interessante para o senhor
― disse Alaska, não sem ironia. ― Eu acho que não temos nada para temer, escudo de
proteção ou não. Gucky teve êxito. Na realidade ele agora já poderia voltar.
― É porque o senhor conhece Gucky mal ― disse Kosum, com um rápido olhar
para o cubo que passava voando por perto. ― O baixinho vai dar uma olhada em regra na
nave estranha. Ele nunca deixa escapar uma oportunidade dessas. Além disso, ele pode
reunir informações, que mais tarde nos podem ser úteis.
― O perigo ainda não passou ― lembrou Merkosh. ― Nós ainda não passamos
pelo cordão propriamente dito.
― Passamos, sim ― retrucou Alaska. ― Ele foi ampliado tanto, que não se pode
mais falar de um bloqueio. São apenas naves isoladas que estão sendo registradas pelos
aparelhos de rastreamento. Elas dificilmente ainda formam um obstáculo para nós.
A nave-cubo ficou definitivamente para trás. Se ficou mais rápida ou mais devagar,
ela desapareceu na direção do terceiro planeta. Também a rota não se modificou.
Ninguém sabia exatamente o que entrementes acontecera na nave de reconhecimento,
mas com toda certeza podia supor-se que Gucky tinha metido as mãos no jogo.
O segundo planeta aproximou-se.
Naves da frota de vigilância ainda patrulhavam isoladamente o setor de
aproximação de voo da Gevari. Naturalmente poderia acontecer novamente por acaso que
eles fossem rastreados, ainda que a propulsão estivesse desligada e o escudo protetor já
fora desligado há muito tempo. Mas o perigo diminuíra. Havia absolutamente a real
possibilidade de pousar-se no segundo planeia, sem serem notados, se no último segundo,
quando da correção da rota, não ocorresse uma descoberta.
O terminador entre o lado da noite e o lado do dia tomou-se claramente
reconhecível. Kosum estudou o mapa. Ele apontou para um ponto, que já se encontrava a
meia-sombra.
― É ali, sem dúvida alguma. Um momento, eu tenho que fazer uso mais uma vez
do computador... ― Kosum meteu todos os dados que tinha à sua disposição na
positrônica, e segundos mais tarde já recebia o resultado. ― Sim, isso vai dar certo.
Modificação de rota, somente três graus leste, baixar a velocidade... dentro de três
minutos e dezessete segundos.
Alaska ficou olhando em silêncio, enquanto o piloto fazia seus preparativos. Ele
sabia que uma segunda desaceleração mais tarde ainda seria necessária, mas então eles já
se encontrariam muito perto, acima da superfície, e nas proximidades do local de pouso.
Amigo, no seu canto, estava ficando visivelmente mais inquieto. Naturalmente ele
ainda permanecia no mesmo lugar, em cima de sua parte inferior, que parecia cortada,
mas os seus impulsos mentais intensos podiam ser sentidos até mesmo por não-telepatas,
ainda que não pudessem decifrá-los. Ele estava em constante ligação com seus
companheiros prontos para a divisão.
Cada vez mais o segundo planeta enchia o campo de visão. Pormenores da
superfície ficavam mais nítidos. Cidades claramente iluminadas no lado da noite,
caminhos de ligação, muito retos, no lado do dia.
A Gevari corria na sua direção, até que Kosum, exatamente no tempo calculado,
deu ignição na aparelhagem de frenagem. Ao mesmo tempo ele executou a modificação
de rota.
Entrementes, Alaska dava atenção aos seus próprios rastreadores. Pelo que ele pôde
verificar, as naves de vigilância continuavam patrulhando, sem modificação, nos seus
diferentes rumos. Portanto, parecia que elas não tinham notado nada.
Pouco mais tarde o space-jet riscava por cima da montanha, até que o altiplano
exatamente descrito por Gucky ficou visível. Os campos antigravitacionais carregaram a
nave, que agora se dirigia na direção da grande gruta, que devia servir como esconderijo.
― Ora vejam só! Lá embaixo está Gucky! ― gritou Balton Wyt, de repente.
E era isso mesmo!
No meio do platô, bem perto da caverna, estava Gucky, acenando, como se quisesse
ajudar o space-jet que pousava. Mas ele não estava sozinho. Perto dele encontrava-se
uma criatura esquisita, que vista em diagonal de cima parecia um prato com pernas finas.
― O que é isso que ele tem ali consigo? ― Kosum dava mais atenção ao terreno
difícil que ao rato-castor, mas mesmo assim ele o via com seu acompanhante. ― Onde
será que ele pescou isso?
― Isso logo ficaremos sabendo ― opinou Alaska. ― Ali está a caverna.
Kosum não respondeu nada. Com uma segurança aprendida ele fez a Gevari
deslizar para dentro da grande abertura no rochedo, antes de pousá-la suavemente. O
rugido da aparelhagem antigravitacional emudeceu.
Eles tinham conseguido.
***
― Essa coisa pensa uma porção de besteiras e parece borracha sintética ao tato ―
ou plástico ― disse Gucky, e terminou o seu relatório. Eles tinham abandonado a Gevari
e estavam parados na entrada da gruta. Amigo e seus primeiros amarelo-ocres
abandonaram a nave por cima de uma prancha deslizante, e se esgueiraram para longe, na
direção indicada pelo rato-castor, para procurarem seus tubos-chocadeiras. ― “Isso” às
vezes me parece um pouco esquisito. Até agora eu sempre pude entrar em contato com
qualquer ser pensante. Mas com este aqui, nem mesmo o aparelho tradutor serve para
alguma coisa.
― Borracha sintética e plástico! ― Alaska anuiu diversas vezes como para si
mesmo. ― Eu acho que justamente essa é a resposta a todas as suas perguntas supérfluas.
Essa coisa é um robô!
― Não! ― Gucky protestou energicamente. ― Eu mesmo vi um robô desses. Eles
são construídos de modo diferente, e além disso consistem de metal. Você acha, por
acaso, que eu não sei diferenciar metal de plástico?
― Muito bem, neste caso vamos chamar “Isso” de andróide, se você preferir. De
qualquer modo não é um ser vivente orgânico.
― Como, se ele pensa?
― Sim, mecanicamente, quase maquinalmente. Não é de admirar. “Isso” tem
integrado um transmissor de pensamentos em código. Isso nem mesmo o melhor telepata
consegue decifrar, se não conhece o código. Refinado, e tecnicamente muito
amadurecido! ― Alaska não conseguia esconder sua admiração. ― Um transmissor de
pensamentos, que é ativado por um cérebro inteligente e autopensante, de origem
anorgânica! Isso realmente é único! E você, baixinho, acabou enganado com isso!
― De modo algum, ainda que eu tenha que confessar que tomei esse sujeito por
uma criatura sensata. ― Se observou “Isso”. A aranha estava parada numa atitude calma
e de expectativa em meio aos terranos. ― De qualquer maneira, todas as reações levavam
a concluir-se isto. Você acha, então, que se trata de alguma coisa artificial, de um
andróide?
― Eu tenho certeza, e logo ficaremos sabendo disso exatamente.
― Quer dizer que estão fazendo uso não apenas de povos ajudantes normais, mas
até de andróides. Essa é difícil de engolir!
― Por quê? Os andróides são confiáveis, e foram programados
correspondentemente. ― Alaska apontou para a aranha. ― E agora? Você pretende levar
essa coisa consigo?
― Bagagem leve de viagem ― disse Gucky e anuiu.
Kosum disse:
― Eu espero apenas ainda que ele queira levar uma das peras amarelas de volta
para Terrânia, para pô-la em conserva. Eu não me admiraria nada.
Blazon Alfa voltou-se para Alaska e interrompeu a discussão sobre o esquisito
hóspede de Gucky.
― Nós não nos deveríamos interessar por nossos tubos-incubadeiras, caso contrário
ainda acabamos chegando tarde demais.
― Isso ainda tem tempo. Até que todos os oitocentos amigos tenham sido alojados,
ainda se passarão horas. Além disso, não tem importância, em que tubo-chocadeira o
senhor terá alojado, ele com certeza estará ocupado por um de nossos amigos amarelos.
― Ele continuou, pensativo: ― Para ser honesto, eu não estou mesmo muito
entusiasmado com a sua ideia, até agora.
― É que não existe nenhuma melhor ― afirmou Beta, e indicou, pelo seu tom, que
o debate sobre o valor ou não da ideia com isso estava terminado. ― Eu acho que vamos
nos preparar para o voo. Os trajes de combate precisam ser examinados, sobretudo as
provisões de concentrados. Eu não tenho muita vontade de engolir o mingau dos
amarelos, que eles recebem para levar nos seus tubos-chocadeiras.
Gucky sentiu-se um pouco desprezado e recebendo pouca atenção. Ele tinha
possibilitado a passagem livre da nave, e ainda trouxera um prisioneiro consigo, e de
repente tudo isso não significava mais nada!
O prisioneiro...!
Gucky descobriu-o na borda do platô, quando justamente ia descer, com suas finas
pernas de aranha, pela encosta abaixo, no meio dos amarelos que lentamente se
arrastavam.
― Um disco-voador em fuga! ― gritou ele, surpreso, e saiu correndo para alcançar
o prato. ― Nós ainda precisamos dele!
― Dificilmente ― gritou Alaska atrás dele. ― Mas ele poderia revelar o nosso
esconderijo. Portanto vá buscá-lo, traga-o de volta!
Gucky não se deixou dizer isso duas vezes, além do mais ele ainda não conseguia
digerir o fato de ter sido enganado por um objeto artificial. Por outro lado ele sentia uma
inexplicável simpatia pela coisa, apesar da mesma certamente não ter sido programada
para amizade com ratos-castores. Mas ele conseguia pensar por conta própria, e podia
tomar decisões, independente de sua programação.
O prato parou, quando Gucky o alcançou e segurou. Em volta dos dois
movimentavam-se, rastejantes, os conquistadores-amarelos. As torrentes dos seus
pensamentos formavam um verdadeiro caos de alegria e felicidade.
― Você não está querendo nos abandonar, sem despedir-se? ― quis saber Gucky,
cordialmente, apesar do outro não o compreender. ― Realmente, isso você não pode
fazer. Talvez nós ainda encontremos um meio de comunicação, apesar de tudo. Você
poderia contar-nos muitas coisas.
O andróide-prato fixou o interlocutor com seus dois olhos arregalados, que não
pareciam absolutamente sem vida e fixos, mas ao contrário, muito vivos. Mais uma vez
Gucky duvidou da afirmação de Alaska, de que se tratava de um objeto artificial.
Para sua imensa perplexidade, o prato ergueu uma de suas quatro mãos, e apontou
com a mesma para o sul, onde ficava o barranco que dava na planície mais abaixo. No
oeste ficava o altiplano com os tubos pousados.
O gesto era inequívoco:
O prato queria mostrar-lhe alguma coisa.
Gucky ligou o rádio de pulseira e chamou Alaska. Quando o comandante
respondeu, Gucky disse: ― Eu alcancei o sujeito, mas parece que ele está querendo me
dizer alguma coisa. Talvez ele nos entenda, e nós não o compreendemos. Eu vou com ele.
Em caso de necessidade, sempre posso voltar até vocês.
― Até agora cerca de cem amarelos abandonaram a nave. Vai levar a noite toda.
Mesmo assim, tenha cuidado, e não se deixe atrair para uma armadilha.
― Ora, Alaska! A aranha-prato é minha amiga!
― Eu não teria tanta certeza. Portanto, mais uma vez cuidado! De vez em quando
comunique-se conosco. Os aparelhos na Gevari estão ajustados na sua frequência, e ficam
em recepção permanente. Se você por acaso não receber urna resposta imediata, não se
apoquente. Cada uma de suas valiosas palavras será gravada automaticamente.
― Sujeito venenoso! ― piou Gucky furioso, e desligou.
Ele anuiu para o seu amigo chato, e apontou também para a direção indicada, para o
sul.
― Muito bem, vamos indo. Eu estou curioso para ver o que há de interessante ali. E
tente, finalmente, pensar de modo sensato. Os seus pensamentos são uma verdadeira
salada.
Mas a exigência não produziu frutos. A salada continuou.
De qualquer modo o prato pôs-se em marcha rápida, com movimentos bailantes, de
modo que Gucky teve alguma dificuldade em segui-lo com suas pernas curtas. Um
observador inadvertido provavelmente teria caído numa gargalhada, ao ver agora aquelas
duas criaturas tão dessemelhantes.
Eles alcançaram o barranco, e sem diminuir a velocidade o prato continuou
rapidamente, seguido por Gucky que bamboleava e ofegava. Uma vez ou outra ele
praguejava violentamente, para dar vazão à sua raiva, por este insensato desperdício de
força. Entrementes ele chegara à conclusão de que o prato apenas queria enganá-lo.
Mas ninguém podia saber isso ao certo, portanto ele o acompanhava.
Mais abaixo ficava a planície, que se estendia mais para o leste. O barranco era
íngreme só num pedaço, depois ele passava achatado para a planície. Com uma
habilidade espantosa, o prato passava por cima de todos os obstáculos do caminho,
pairava regularmente por cima de grandes rochas, e evitava, com a certeza de um
sonâmbulo, todas as fendas que subitamente apareciam no chão.
Para Gucky isso não era tão fácil assim, ainda que de vez em quando ele executava
curtos saltos teleportadores. Naturalmente ele poderia ter teleportado por todo o trecho
desconhecido, de acordo com instruções do prato, mas como é que ele poderia explicar
este seu desejo ao seu novo amigo, sem provocar novos mal-entendidos?
Ele começou a suar, de modo que teve que ligar a aparelhagem de ventilação do seu
traje de combate. Se isso continuasse assim por muito tempo, ele desejaria intensamente
jamais ter se encontrado com essa coisa-aranha.
Gucky ainda não imaginava o quanto ele logo desejaria isso.
Chegado à beira da planície o prato parou. Seus olhos foram espichados mais e
começaram literalmente a girar, como se buscassem um destino bem definido. Depois os
dois olharam na mesma direção, e permaneceram nessa posição. Adicionalmente a coisa
ainda estendeu dois braços.
O que Gucky viu o deixou muito espantado. Ele começou a ficar intrigado, pelo fato
deles não terem descoberto mais cedo aquele cubo que não era muito grande, mas
bastante vistoso. Ele brilhava metálico à luz das estrelas, e podia ser reconhecido
facilmente. O seu comprimento lateral devia ser de três metros, e se Gucky não se
enganava, a cor básica era negro ou cinza-escuro.
O prato pôs-se novamente em movimento. Gucky agora teria gostado de informar
Alaska pelo rádio, mas tão perto de uma meta ― o que quer que aquilo fosse ― ele não
queria deixar o seu amigo desconfiado. Além do mais, ainda era cedo demais para poder
dizer alguma coisa. Ele teria que esperar, para saber o que iria acontecer. Portanto ele
seguiu o prato em silêncio.
Enquanto eles se aproximavam, parecia a Gucky que o bloco começava a brilhar
mais intensamente diante deles, irradiando uma luz que vinha do seu interior. Se o cubo
de metal era uma instalação técnica que trabalhava automaticamente e que funcionava
sem manutenção, aquele brilho podia muito bem ser uma instalação de advertência ou de
identificação. Ele começou a imaginar que uma surpresa lhe era iminente.
Sem ser notado, ele agora ligou o aparelho de rádio. De agora em diante, qualquer
som que ele desse de si, e que fosse suficientemente alto para ser captado pelo aparelho,
era recebido na Gevari e gravado. Gucky agora sentiu-se mais seguro. Se realmente
acontecesse alguma coisa de imprevisto, Alaska seria informado imediatamente, e
poderia intervir.
O prato ficou parado diante do cubo, que agora sobressaia da planície, diante deles.
As paredes lisas não revelavam nada. Elas realmente consistiam de metal, e não tinham
nem saliências nem outras irregularidades. Inutilmente Gucky tentou explorar o seu
interior, telecineticamente. Ele bateu contra uma forte resistência de natureza mental, que
ele não conseguia ultrapassar.
Uma barreira? Caso positivo, ela tinha que ser de natureza parapsíquica.
Os impulsos de pensamentos dos homens que tinham ficado para trás junto do
space-jet, e aqueles dos conquistadores-amarelos, que Gucky, meio no subconsciente
continuara percebendo, porém mal lhe dera atenção, apagaram-se repentinamente. Era
como se alguém tivesse desligado um aparelho de rádio. Somente pelo silêncio que se fez
repentinamente notava-se de que antes não houvera silêncio.
Gucky ficou estarrecido. O que ele vivenciava aqui era absolutamente impossível, a
não ser que de um momento para o outro ele tivesse perdido todas as suas capacidades
telepáticas. Mas ele ainda continuava captando a padronagem exata do prato, que estava
parado do seu lado, e não se mexia.
Havia apenas uma outra explicação, algo plausível:
Gucky estava sendo isolado do mundo exterior por um paraescudo!
Esse reconhecimento acertou-o como um raio. Sem dar-se conta ele tinha caído
numa armadilha. Mas se a telepatia falhava, restava-lhe ainda a ligação pelo rádio. Ele
chamou Alaska, mas não recebeu resposta. Nenhuma razão para se incomodar, acalmou-
-se ele. Os aparelhos da Gevari estavam em recepção! Eles tinham que registrar seu
pedido de socorro!
A amiga aranha fez um gesto convidativo na direção do cubo.
No meio da parte dianteira fez-se uma pequena fenda, que se alargou rapidamente e
deste modo criou uma abertura de um metro de largura e metro e meio de altura, portanto,
de modo algum, eram pensados para os conquistadores-amarelos.
Gucky pensou por um momento em se teleportar para segurança, mas depois venceu
a sua curiosidade. Além disso, ele nem tinha certeza de poder teleportar daqui, se havia
um paraescudo que o rodeava.
Em silêncio ele seguiu o prato que ia à sua frente para dentro do cubo.
Ainda enquanto a fenda se fechou novamente, todo o cubo enterrou-se lentamente
no chão. Como um elevador, pensou Gucky instintivamente, e indubitavelmente estava
muito próximo da realidade em sua suposição.
No recinto pouco a pouco ficou mais claro. Ele não era grande e não tinha qualquer
instalação. Apenas numa parede lateral Gucky observou alguns controles, no máximo a
um metro de altura. Como criados para as mãos-ferramentas do prato, que entretanto,
primeiramente os ignorou.
Gucky não conseguiu avaliar, a que profundidade a cabine descia abaixo da
superfície, mas passaram-se pelo menos cinco minutos, até que um leve solavanco
anunciou que eles tinham chegado ao seu destino.
Sem se incomodar com Gucky, o prato manipulou alguns controles, e um pouco
mais tarde abriu-se novamente a porta. A luz acendeu-se mostrando um grande salão que
estava recheado de gigantescos blocos metálicos e geradores. Isoladores, longe uns dos
outros, enchiam o recinto por baixo do teto, enquanto as paredes estavam recobertas com
quadros de controle e telas de vídeo.
O “prato” acenou para Gucky e seguiu em frente.
Com uma certeza de objetivo que deixou o rato-castor perplexo, o andróide dirigiu-
-se para o corredor do meio, do qual, em intervalos regulares, saíam corredores menores,
que levavam aos diversos consoles de controle. Toda a instalação aparentemente
trabalhava sem manutenção e inteiramente automática.
No final do largo corredor central, quase no meio do salão, Gucky viu um complexo
enorme, em formato de sino, cuja parte superior consistia de uma esfera que cintilava
prateada, e para a qual corriam dúzias de condutos de colorações diferenciadas.
“Prato” dirigiu-se exatamente na direção do estranho complexo.
Gucky seguiu-o, hesitante. Nem com a melhor boa vontade ele não conseguia
imaginar, o que agora devia acontecer, e por que a aranha o trouxera para este pavilhão
que parecia ter uma técnica tão perfeita, e que servia a um fim desconhecido. Os reais
habitantes deste mundo, os conquistadores-amarelos, certamente não o haviam
construído.
Mas quem o fizera, então?
“Prato” ficara parado e esperou, até que Gucky o alcançou.
Estranhamente o rato-castor não tinha a sensação de se encontrar em perigo
iminente. Naturalmente a criatura-aranha o trouxera para esta situação isolada, e até o
cortara do mundo exterior, com ajuda de um parabloqueio, que impedia sua telepatia, mas
isso ainda não podia ser designado como um ato inimigo. Podia ser uma medida de
segurança, talvez até a seu favor ― a favor de Gucky.
Por cima da esfera prateada, de repente, transformou-se o teto em formato de
cúpula. Ela tornou-se transparente e branca. Ao mesmo tempo Gucky sentiu movimento
por baixo de si. O chão foi elevado. Numa plataforma retangular, ele agora pairava para
cima, com “Prato”, conforme ele agora batizara definitivamente a aranha.
A mesma altura da esfera prateada a plataforma parou. “Prato” deu alguns passos
para a frente, e com seus dedos finos tocou alguns dos instrumentos, que se encontravam,
à mesma altura, afixados na esfera. Um feixe de luz muito brilhante e fortemente
enfeixado saiu da parte superior da esfera e chocou-se contra o espaço transparente do
teto, onde se dividiu por igual ― começando a formar uma imagem fantástica. Uma
imagem, que Gucky em sua longa vida já vira milhares de vezes, ainda que não deste
modo especial.
O diâmetro da aparição devia ter cinquenta metros, e devido à curvatura do teto
parecia-se com o céu visto da superfície de um planeta. Somente que neste céu noturno
não se via absolutamente nenhuma estrela, mas uma quantidade de galáxias, impossível
de avaliar no número, aparentemente diminutas e em muitos casos apenas aludidas. De
qualquer modo parecia tratar-se de uma fotografia original, pois mesmo as distâncias
relativas estavam certas em exame tridimensional com o aparente tamanho da Via Láctea.
Porém se aquela era uma foto original, a câmera devia ter-se encontrado a bilhões
de anos-luz de distância ― ou ainda se encontrava ali, agora, neste instante.
Lateralmente à pequena esfera, que não era outra coisa que um projeto planetário,
fez-se uma pequena abertura. Dali saiu uma lente, que girou para cima, mandando um
raio de luz que mal tinha a grossura de um dedo. Ele não se dividiu ao alcançar a
imagem, mas formou apenas uma mancha muito branca, que lentamente se deslocava de
galáxia para galáxia.
Gucky entendeu. O seu pelo eriçou-se na nuca, quando ele reconheceu a verdade, ao
poder abarcar oticamente o que antes eles tinham sabido de “Amigo” através de conversas
telepáticas.
A mancha de luz muito branca simbolizava o “Enxame”, que se deslocava de
galáxia para galáxia, para conseguir planetas-chocadeiras adequados para os
conquistadores-amarelos. Pelo menos, conforme Amigo afirmava, agora era esta a função
do “Enxame”, que era dirigido por deuses degenerados.
“Prato” tocou um outro controle, e desta vez saiu um raio de luz amarelo-pálido,
em grande leque, lateralmente de dentro da cúpula do teto, e mergulhou tanto Gucky
como o andróide numa claridade mortiça.
No mesmo segundo apagaram-se as padronagens de pensamentos, ainda existentes e
ininteligíveis de “Prato”. Na realidade elas não se apagaram definitivamente. Elas apenas
se transformaram. O despedaçador mental fora desligado.
Os impulsos dos pensamentos de “Prato” alcançaram o para-cérebro de Gucky com
absoluta nitidez, e de forma inteligível:
Nós só temos poucos minutos de tempo, Gucky. Eu sempre entendi os seus
pensamentos, mas não podia respondê-los. Eu sou um andróide, conforme vocês
suspeitaram corretamente, e os deuses do “Enxame” são nossos criadores e senhores.
Nós temos que servi-los, ou somos destruídos. Mas nós queremos viver e esperar até que
os velhos deuses regressem.
Gucky entrementes tinha vencido o seu espanto e se controlara. Ele precisava
aproveitar a oportunidade, mas qual a pergunta que era a mais importante...?
― Quem são os deuses? ― perguntou ele.
Existem perguntas que eu não devo responder. Vocês vão conhecê-los.
― O que significa este planetário galáctico?
Ele serve para orientação, Gucky. Eu quis apenas mostrar-lhe que um dos
amarelo- -ocres, conforme vocês os chamam, falou a verdade. Houve um tempo em que o
“Enxame” trazia a centelha do intelecto de galáxia a galáxia, hoje ele traz a morte para
muitos mundos. Entretanto, a galáxia de vocês, que vocês chamam de Via Láctea,
causara a mudança.
Havia mais uma pergunta que parecia importante para Gucky:
― Você sabe por que nós viemos para cá?
Sim, eu sei.
― Você precisa nos trair, revelar nossa presença?
Sim, eu preciso. Mas fique bem tranquilo, Gucky. Eu somente o farei depois que
vocês abandonarem este sistema outra vez. Somente então eu consigo a oportunidade
para a fuga e para fazer o meu relatório. Até então eu sou prisioneiro de vocês.
― Por que você viola suas ordens, por nossa causa?
Porque você me tratou muito bem, e porque eu te amo.
Gucky sentiu-se comovido, mas não esqueceu a última pergunta:
― Você conhece nossos pensamentos e sabe que dois dos nossos ficarão para trás.
Você também terá que informar isso?
Não, pois isso eu esqueci. Depois de curta pausa veio outra informação: Logo que
o feixe de luz se apagar, nós não poderemos mais nos entender. Também eu, somente
poderei captar os seus pensamentos vagamente e com dificuldade. Você ainda tem uma
última pergunta, meu amigo?
― Por que nós conseguimos entrar em contato? O que significa essa luz?
Ela provoca a neutralização do codificador mental. A barreira é levantada. É por
isso que estamos aqui, e não pelo planetário galáctico, conforme você o chama. Eu
agora digo-lhe adeus, e como seu prisioneiro, vou acompanhá-lo de volta para a nave.
Eu lhe agradeço por tudo.
O brilho da luz amarela apagou-se, quando “Prato” tocou os controles novamente.
Ao mesmo tempo desapareceu a imagem plástica no teto. As padronagens mentais
matemáticas do andróide estavam novamente em ação. Tudo era como antes.
Gucky ainda teria milhares de perguntas, mas ele convenceu-se de que não devia
sobrecarregar “Prato”. Ele teria gostado de saber como funcionava o parabloqueio, e
quem tinha construído a estação subterrânea. Qual era o seu fim? Por que havia o código
mental para os andróides-aranha?
Em silêncio ele seguiu “Prato”, que desceu da plataforma novamente para o
corredor, que levava para a saída e para o elevador.
5

― Não há nada registrado no gravador automático ― disse Kosum, quando Alaska


perguntou-lhe a respeito. ― Gucky não tentou entrar em contato conosco. Ele já está
quatro horas a caminho. Eu começo a me preocupar.
― Ele pode teleportar ― lembrou-lhe Alaska. Com isso ele acalmava-se a si
mesmo. ― Talvez o prato possa mostrar-lhe coisas realmente interessantes, quem sabe...?
Entrementes trezentos conquistadores-amarelos tinham abandonado a nave. Alaska
sabia que ele se enganara em sua avaliação. Com esta velocidade, a evacuação dos
amarelos levaria ainda algumas horas mais do que ele calculara originalmente. Até que
todos tivessem abandonado a nave seria dia claro.
Apesar de sua preocupação por Gucky, que ele mesmo ainda não queria admitir a si
mesmo, ele agora tinha que pensar nos irmãos Blazon, mandando que se pusessem a
caminho. Eles precisavam ter tempo, para encontrar um dos tubos-chocadeira, para
meter-se dentro dele, junto com um dos amarelos.
Ele anuiu para Kosum, que ficava para trás na central de comando da Gevari. Do
lado de fora ele era esperado pelos dois Blazon e por Merkosh. Balton Wyt examinou
pela enésima vez os trajes dos dois irmãos.
― Tudo em ordem ― anunciou ele, finalmente.
― Chegou a hora ― disse Alaska, quando chegou perto deles. Do lado deles
passava a lenta torrente dos amarelos que se arrastavam. ― Deixem os aparelhos de rádio
ligados, até que vocês entrem no tubo. Então nós saberemos que tudo deu certo.
― Pelo menos até ali! ― resmungou Blazon Alfa.
― Correto! ― respondeu Alaska. ― Depois disso, não teremos mais nenhuma
ligação entre nós. Nós mesmos voltaremos com a Gevari para Casulo, ficando na antiga
base de apoio. Nós esperamos. Vocês, entretanto, comuniquem todo o possível a Rhodan,
e especialmente a posição no novo planeta-chacadeira. Se ali houver vida, Rhodan terá
que agir correspondentemente. Que efeitos nosso empreendimento ainda terá por aqui,
nós não sabemos. Eu começo a duvidar, que isso na realidade tenha algum sentido, mas
nós temos o dever de tentar de tudo, para deter os processos terríveis, ligados à divisão.
Se vamos conseguir, é uma questão que só o futuro poderá responder.
― Vamos ver ― disse Blazon Alfa, impaciente. ― Agora podemos ir?
― Eu teria gostado de dar Gucky a vocês para acompanhá-los no caminho até o
tubo, mas o baixinho ainda não regressou. Boa sorte, Alfa e Beta! E não se metam em
qualquer risco inútil.
― Este joguinho nos vamos ganhar ― afirmou Blazon Alfa, com uma segurança
surpreendente.
Com um último aperto de mão, eles se despediram dos seus amigos, e depois
seguiram para o oeste, ultrapassando os lentos amarelos, para onde os tubos estavam
distribuídos na paisagem, esperando por seus hóspedes.
Alaska ficou olhando atrás deles com sentimentos variados. Ele esperava não ter
cometido um erro, quando aceitara a sugestão dos dois irmãos.
***
Foi Balton Wyt quem viu Gucky primeiro. O rato-castor e seu acompanhante
estranho surgiram na borda sul do platô, sombras indistintas contra o céu noturno
fracamente iluminado. Merkosh substituíra Kosum nos controles da nave. Alaska ficara
com Balton Wyt ao ar livre.
― Eu estou curioso pelas explicações de Gucky, devido à sua longa ausência ―
disse Alaska, quando Balton chamou-lhe a atenção para eles. ― Pelo que conheço dele,
ele já tem uma boa desculpa preparada.
― Sem a sua excursão de quatro horas forçosamente todo o Universo teria ruído ―
opinou Balton, cheio de ironia.
Atrás dele movimentou-se um dos rochedos que havia caído por ali, pairou
lentamente para cima até a altura da espinha do telecineta e ali chocou-se com ele nada
suavemente. Balton tropeçou um passo para a frente, perdeu o equilíbrio e caiu ao chão.
Com muito esforço ele levantou-se novamente e olhou perplexo, como a grande pedra
aterrissava cuidadosamente um pouco mais para o lado.
Gucky!
O rato-castor tinha captado a sua palavra telepaticamente e lhe mostrara
telecineticamente como se fazia uma revanche.
Balton Wyt levantou-se novamente.
― Sem dúvida, Gucky está lá adiantei ― disse ele e apontou para a semi-escuridão.
Naturalmente era Gucky, que pouco mais tarde alcançava a beira da gruta com
“Prato”.
― Aqui estou novamente ― disse ele, e acariciou suavemente o corpo em forma de
prato do seu amigo. ― É um sujeito formidável, o nosso baixinho.
― E por isso você nos deixa aqui, adivinhando por quatro horas onde você andaria
metido?
― Se vocês me deixarem terminar de falar, eu posso explicar, mas antes eu gostaria
de tomar alguma coisa. Balton, você me faria a gentileza de me ir buscar um copo de
kerikari?
― Suco de cenouras?
Gucky piscou os olhos para ele, furioso. ― Eu falei kerikari! Você está surdo?
― E não é a mesma coisa? ― resmungou Balton e foi saindo.
― Mas tem nome diferente! ― gritou-lhe Gucky atrás, sentando-se sobre a pedra,
com a qual antes dera um tombo em Balton Ele anuiu para “Prato”. ― Você também
pode sentar-se, se estiver cansado.
“Prato” ficou de pé e não deu qualquer som de si.
― Ele nunca se cansa ― explicou Gucky e olhou para Alaska. ― Eu vivenciei
algumas coisas e fiquei sabendo de outras. Você vai arregalar os olhos! “Prato” é um
andróide, mas ele também sabe pensar sensatamente e até tem sentimentos. Ele nos
ajudou um bom pedaço adiante.
― Por que você nunca se comunicou conosco?
― Um paraescudo impedia-me de fazê-lo. Mas vamos por etapas ― ó, aí já vem
Balton. Neste caso podemos começar. Ele pegou o copo e bebeu. ― Hum, isso faz um
bem. Bem, então vamos começar. ― Ele estacou, pareceu “escutar” por alguns instantes,
depois disse: ― Os Blazon encontraram um tubo-chocadeira. Eles estão justamente
tentando entender-se com o proprietário, que acabou de se esgueirar para dentro. Parece
que estão indo bem.
― “Prato” teve oportunidade de revelar nossa presença? ― perguntou Alaska,
impaciente.
― Teve, mas não o fez. ― Gucky finalmente dignou-se falar de suas aventuras. Ele
terminou com as palavras: ― “Prato” é absolutamente confiável. Depois que nós
tivermos partido, ele informará ao comandante-em-chefe da frota de que uma nave
pousou aqui, desembarcando conquistadores-amarelos. Nem uma palavra a mais nem a
menos.
Kosum, que também tinha saído da Gevari, sacudiu a cabeça.
― Eu ainda não entendo tudo isso muito bem. Quer dizer que os deuses
desconhecidos estão usando andróides para realizar os seus intuitos. A instalação
subterrânea foi especialmente construída para as aranhas artificiais. Para quê?
― Eu não consegui perguntar mais isso ― declarou Gucky, um pouco chateado. ―
Eu tive um máximo de cinco minutos de tempo, não mais que isso. Para mim era
importante saber se “Prato” tinha a intenção de nos atraiçoar. Ele não o fará, e isso basta!
Pelo rádio, Merkosh avisou que mais da metade dos amarelos de Casulo tinha
abandonado a nave. Como nos corredores havia mais lugar, agora as coisas andavam
mais depressa. Dentro de três horas, na opinião de Merkosh, a Gevari estaria evacuada.
Alaska virou-se para Gucky.
― Eu suponho que ainda posso contar com você mais uma vez. Você faria a
gentileza de goniometrar os irmãos Blazon, e teleportar até onde eles se encontram?
Verifique sobre o estado das coisas, e volte o mais depressa possível. Não nos deixe
esperar quatro horas novamente. Não sabemos se não seremos obrigados a partir
repentinamente. Se este vier a ser o caso, nós nos encontraremos no terceiro planeta.
“Prato”, por uma questão de cuidado, vamos levar conosco.
― O “Prato” vai ficar aqui, caso contrário ele terá dificuldades.
Alaska silenciou.
Gucky goniometrou Blazon Alfa e teleportou.
***
Até o último segundo possível, Blazon Beta tinha transmitido para Merkosh pelo
rádio, e somente desligara o aparelho quando o tampo do tubo-chocadeira se fechou.
Apesar dessa coisa não ser exatamente pequena, havia pouco lugar. Nas paredes tinham
sido afixados recipientes e aparelhos técnicos que tomavam muito espaço. Além disso o
conquistador amarelo sentia-se o dono de direito, e tomava lugar correspondentemente.
Gucky ainda captava os impulsos dos pensamentos dos irmãos, mas ficou parado,
um tanto sem saber o que fazer, diante dos tubos já fechados. A ligação era unilateral.
Naturalmente poderia teleportar para dentro, mas refletiu se isso não seria muito
arriscado. Desde que ele tivera contato com o parabloqueio, sua voz interior lhe
aconselhava cautela.
Mas ele deveria voltar para Alaska e confessar-lhe que sentira medo?
―Não!
Antes, entretanto, de se decidir, ele ainda ficou “escutando” um pouco a conversa
entre Alfa e Beta, que se esforçavam para arranjar um pouco de comodidade. “Na
verdade”, pensou Gucky, “é totalmente supérfluo que eu ainda vá me meter aí no meio.
Deste modo eu também posso ficar sabendo de tudo que quero saber.”
Portanto ele não teleportou e ficou parado diante do tubo. Conquistadores-amarelos
passaram por ele, arrastando-se na direção de tubos ainda não ocupados. Tudo se
processava de modo disciplinado e ordenado. Não havia pânico, mas apenas uma alegria
indescritível e uma feliz expectativa.
― Nós nos metemos numa boa ― disse Alfa justamente para Beta, no interior do
tubo. Os seus impulsos mentais vinham claros e nítidos até Gucky. ― Além do mais, está
escuro! Desse jeito, não podemos sequer fazer um joguinho de cartas...
― Você tem mesmo droga na cabeça! ― indignou-se o seu irmão. ― Nós podemos
dar graças aos deuses se sairmos daqui vivos novamente, e você pensa em jogar!
― O nosso amarelo já parece estar ficando agitado ― disse Alfa, para mudar de
assunto. ― Só espero que ele não ganhe logo sua criancinha.
― Ele não ganha nenhuma criança ― explicou-lhe Beta. ― Ele simplesmente se
derrete e se divide. É uma coisa clara e limpa, acho eu, se nós não entramos neste,
justamente durante este processo.
― Será que, neste caso, também seremos divididos? ― perguntou Alfa.
Gucky sorriu, divertido, e concentrou-se nos impulsos mentais de Alaska. Não fazia
muito sentido continuar espreitando as ideias dos dois irmãos. Muita coisa sensata, neste
estágio dos acontecimentos, certamente, não sairia dali. Neste caso, ele preferia voltar
para a Gevari, na qual havia apenas ainda cento e cinquenta conquistadores-amarelos
esperando pelo desembarque.
Alaska e Kosum, que estavam parados ambos diante da nave, observando o êxodo
dos amarelos, ficaram surpresos quando o rato-castor surgiu tão depressa outra vez.
― Isso não pode ser verdade! ― verificou Kosum, seco.
― Mas é! ― Gucky descobriu “Prato” na beira da caverna. Ele estava parado ali, e
não se mexia. Era como se ele tivesse sido desligado. ― Os irmãos estão bem alojados e
estão bem. Alfa já está outra vez preocupado com um jogo de cartas. Eu acho que
maiores comentários são supérfluos.
― Nós não o podemos mais ajudar, mesmo se quiséssemos ― concordou Alaska.
― Só mais cem amarelos e podemos desaparecer daqui novamente. O que há com aquele
ali? ― Ele apontou para “Prato”. ― Ele não fugiu, mas nos ignora totalmente.
― Tática! ― explicou-lhe Gucky. ― Ele está olhando as estrelas, assim, mais
tarde, ele não poderá revelar o que viu entre nós. Ele é um bom sujeito. Eu bem que
gostaria de levá-lo.
― Se o levar, somente até o terceiro planeta, mas se nós conseguirmos sair bem
daqui, eu gostaria de desistir de pousar ali. Se você, portanto, acredita que ele mantém a
sua palavra, nós o deixaremos aqui.
― Eu ainda falarei um pouco com ele. Quando vamos poder partir?
― Dentro de no máximo uma hora. Então ainda estará escuro.
― Isso é indiferente, pois em poucos segundos estaremos no espaço cósmico, e
então não tem mais importância, se aqui embaixo é dia ou é noite. Avisem-me em tempo
útil...
― Uma raridade como você, nós certamente não vamos deixar para trás ―
observou Balton Wyt, e saiu correndo para entrar na nave.
Gucky saiu bamboleando até onde estava “Prato”. O andróide estava parado,
imóvel, no platô na beira da caverna, e olhava com seus olhos salientes para o alto, para o
céu noturno coalhado de estrelas. Quase todas as estrelas que se viam pertenciam ao
“Enxame”. Um Universo próprio que numa unidade fechada peregrinava de galáxia a
galáxia, o mais formidável complexo artificialmente construído que jamais existira!
Algo formidável, que apenas trazia desgraça...
― Ouça-me, “Prato” ― disse Gucky baixinho, de modo que o andróide pudesse
entender a sua voz, e ninguém mais. ― Você consegue captar os meus impulsos de
pensamentos e entendê-los, eu infelizmente não posso entender os seus. Você sabe que
meus amigos estão céticos. Eles temem que o seu relatório pode ter consequências ruins,
eu não temo isso. Se você mantiver sua palavra, do modo que a formulou para mim, está
tudo em ordem. Nós vamos deixar você aqui, sem causar-lhe dano.
Nenhuma reação.
― Dê-me pelo menos um sinal, de que você me entendeu, ou isso é contra o
regulamento?
Realmente? Um dos olhos, que sobressaia numa longa haste, virou-se na sua
direção e olhou-o nitidamente. Depois circulou lentamente, descrevendo uma elipse.
― Se isso é um “sim”, muito obrigado. Nós vamos partir dentro de uma hora.
Faça--nos figa, nas quatro mãos, para que consigamos passar bem pelo bloqueio. Espere
mais uma hora, antes de entrar em contato com o comando-geral. Isso também está em
ordem?
Novamente o movimento circular com o olho sobre a haste.
― Ótimo, então tudo de bom! Talvez você até consiga uma promoção para
andróide-mor ― é o que lhe desejo!
Gucky voltou para Alaska.
― Se tudo estiver pronto, podemos partir. “Prato” manterá sua palavra. E quanto a
mim, você pode me encontrar na minha modesta cabine. Vou dormir!
― Boa noite ― disse Balton Wyt, secamente.
Gucky ignorou-o e saiu bamboleando na direção do space-jet.
***
O último amarelo tinha abandonado a Gevari.
Alaska olhou mais uma vez para “Prato”. Totalmente, as suas dúvidas ainda não
tinham sido afastadas, mas depois ele se decidiu a correr o risco. Gucky falara tão
convincentemente, que qualquer dúvida às suas palavras seria uma ofensa. Além do mais
― por que “Prato” não teria realmente intenções honestas?
― Vamos ― disse Alaska para Balton Wyt e Kosum.
Dez minutos mais tarde o space-jet carregado pejos campos antigravitacionais, que
trabalhavam silenciosamente, pairou para fora da caverna. A nave permaneceu alguns
segundos por cima do platô do oeste. Nitidamente podiam ver-se os tubos-chocadeiras,
pois no leste já começava a clarear.
Não demoraria mais muito, e o sol subiria.
Kosum ligou a propulsão. Com forte aceleração, a Gevari foi atirada para o céu de
estrelas que se apagavam, até que ela mesma se transformou numa diminuta estrela, que
parecia perder-se por entre as verdadeiras.
Mas isso foi um erro!
Quando o segundo planeta ficara vários milhões de quilômetros atrás da Gevari,
Kosum registrou os primeiros reflexos de rastreamento. Eles haviam sido descobertos!
Alaska deitara-se, pois depois das muitas horas de permanecer tensamente
acordado, ele ficara cansado. Kosum olhou para Balton Wyt que estava de plantão com
ele na central.
― Rastreados! Acha que devemos acordar Alaska?
― Para quê? Nós também podemos fugir sem o seu conselho.
― Para o terceiro planeta?
― Somente se o bloqueio estiver atrás do terceiro planeta. Se nós pudermos
rompê--lo antes, vamos sair daqui rapidamente. Será que “Prato” já fez seu relatório?
― Acho que não. Pode ser um simples acaso, o fato de termos sido descobertos.
Era uma formação maior, o que se aproximava deles. Ela vinha da direção do sol, o
que entretanto não permitia uma conclusão de que não haveria um bloqueio efetivo além
do terceiro planeta. O problema se se devia efetuar uma escala ali ou não, portanto
permanecia em aberto.
― Só um voo linear vai ajudar ― sugeriu Balton Wyt.
― Dentro do sistema? ― Kosum sacudiu a cabeça. ― Isso seria perigoso demais,
nestas circunstâncias. Não, nós apenas podemos tentar iludir os perseguidores. Nós
voamos para o terceiro planeta com velocidade máxima, entramos atrás dele em proteção
contra rastreamento, freamos com todas as forças, e pousamos num terreno de difícil
visão do alto. Se nós ligamos o escudo de proteção, os rastreadores de metal falham. Eles
não nos encontrarão. Nós esperamos até que o ar está novamente limpo, depois fazemos
uma partida de emergência, com uma etapa linear imediata. Dois anos-luz serão
suficientes.
― Bastante arriscado.
― Não tão arriscado, como se agora quiséssemos atravessar o bloqueio. Nós nunca
conseguiríamos isso, depois que nos descobriram.
Balton Wyt sentiu-se visivelmente inconfortável.
― Não acha melhor acordarmos Alaska?
― Não é necessário! ― Alaska estava parado na porta que dava para o corredor. ―
Vocês falam tão alto, que é possível escutá-los até na casa de máquinas. Kosum tem
razão: Nós pousamos no terceiro planeta, e mais tarde tentamos a partida de emergência.
― Ele sentou-se na sua poltrona de controles. ― Com isso, eu só consegui dormir menos
de uma hora...
Os perseguidores somente se aproximavam lentamente, mas eles alcançariam a
Gevari, se esta não acelerasse mais ainda. Alaska deu as instruções correspondentes para
Kosum.
Finalmente eles conseguiram manter a distância, e aproximaram-se com uma
velocidade enorme do terceiro planeta, que Kosum, com incrível habilidade, conseguira
identificar. Depois ele freou ao máximo e minutos depois pousou entre os picos agudos
de uma montanha deserta, num pequeno vale arredondado. Ele desligou a propulsão, e
ligou o escudo de proteção normal. Com um suspiro, ele virou-se para Alaska:
― Muito bem, nós conseguimos, e agora apenas podemos, esperar. Eu prepararei
tudo para a partida de emergência.
Alaska apenas anuiu sua confirmação. Ele observou os monitores de vídeo dos
aparelhos de rastreamento, nos quais, a qualquer momento, deviam aparecer os
perseguidores. Eles tinham caído na astúcia, ou dariam uma busca sistemática na
superfície do terceiro planeta? Caso positivo, ainda havia o perigo de uma descoberta.
Os aparelhos de rastreamento continuaram em atividade. Os telemonitores
mostravam naves de vigilância isoladas, que circulavam a órbita de um hipotético quarto
planeta. Com isso eles escudavam sistematicamente todo o sistema solar.
A partida de emergência planejada dava uma segurança de fuga de oitenta por
cento. Isso deveria ser o bastante.
― Lá vêm eles! ― gritou Alaska justamente no momento em que apareceu Gucky,
esfregando os olhos. ― Eles nos procuram aqui, quem poderia imaginar isso?
― Ora, eu, por exemplo ― disse o rato-castor. ― Os outros também têm um
cérebro para pensar, ainda que se trate de andróides. Portanto também são capazes de
tirar conclusões. Nós desaparecemos atrás do terceiro planeta e não reaparecemos mais.
Onde, portanto, estamos metidos? Lógico! No terceiro planeta!
― Você é um menino esperto! ― disse Alaska, sarcástico. ― Mas você se esquece
da sombra cônica de rastreamento do planeta, através da qual nós talvez pudéssemos ter
escapado. Também com isso, suas aranhas-prato têm que contar. Portanto há a
possibilidade de que eles aqui apenas façam uma curta inspeção, para depois tentar
encontrar-nos do lado de fora do sistema.
― Sua palavra para os ouvidos das aranhas! ― desejou Gucky, e evitou maiores
discussões sobre este assunto. ― Vamos ver.
As naves de vigilância passavam a cinquenta quilômetros de altura por cima da
superfície do planeta. A sua formação se dispersara bastante, para evitar uma tentativa de
escapamento da nave procurada. Enquanto os seus sensores de metais tateavam o planeta,
para encontrar um conjunto muito especial, as naves vigilantes desciam bastante.
― Quanto falta na sua preparação, Kosum? ― perguntou Alaska, sem tirar os olhos
dos escudos de rastreamento.
― Logo estarei pronto! Programei para aceleração máxima
― Isso custa um bocado de energia! Mas eles não nos pegam. Distância, por uma
questão de segurança, de apenas dois anos-luz.
― Está em ordem. Ative tudo, Kosum.
― Basta apertar um botão ― prometeu o piloto.
A formação desapareceu por baixo do horizonte, mas já voltava outra vez, depois de
pouco tempo, desta vez com apenas vinte quilômetros de altura. Eles começavam a
intensificar a sua busca, portanto deviam saber que os procurados estavam metidos em
algum lugar no terceiro planeta. Não demoraria mais muito e eles requisitariam reforços.
Os círculos ficavam cada vez mais apertados.
― Isso eu não entendo ― disse Kosum, e sacudiu a cabeça, pensativamente. ―
Eles não podem ter nos rastreado de modo algum. Neste caso eles se comportariam de
modo diferente. Eles podem apenas imaginar que nós estamos aqui, mais que isso não.
Alaska olhou para Gucky, interrogativamente. O rato-castor, porém, o ignorou.
― Coloque a mão no botão de partida ― disse ele então, com voz calma.
Uma das naves de vigilância, um objeto voador de formato quase ovóide com asas
curtas, para voos atmosféricos, deslizou a menos de três quilômetros por cima do vale,
voou por cima deles ― e depois de uma curva fechada voltou novamente.
― Agora! ― disse Alaska.
Kosum apertou o botão no mesmo segundo.
Com o escudo energético de proteção ainda ligado, a Gevari saltou como uma bala
para fora do vale, e com uma aceleração inconcebível voou para o céu do terceiro
planeta, para segundos mais tarde atravessar as camadas superiores da atmosfera, e
desaparecer no cosmo. Antes que os robôs vigilantes se ajustassem à nova situação, a
Gevari já alcançava a velocidade linear programada ― e abandonou o Universo normal.
Pouco tempo depois a nave mergulhou de volta ao espaço normal, a dois anos-luz
de distância.
***
Apesar de Alaska saber que também aqui eles ainda não estavam cem por cento
seguros, ele sugeriu uma pausa de espera e de observação. Os aparelhos de rastreamento
funcionando em velocidade ultraluz possibilitavam também, desta posição, um exato
registro de todos os acontecimentos técnico-astronáuticos no sistema do sol amarelo sem
nome.
Durante algumas horas nada aconteceu. A montagem das naves faviformes no
segundo planeta não podia ser observada desta grande distância, mas sim a sua partida.
Mesmo nos monitores de vídeo do rastreamento relativamente pequeno, esta partida
era um imponente espetáculo de grandiosa técnica cósmica, exemplo de um êxodo
planetário de proporções cósmicas.
Eram mais de mil naves faviformes ― quatro quilômetros no diâmetro e oito
quilômetros de altura ―, que se erguiam numa partida em massa da superfície do
segundo planeta. Somente muito mais tarde o contador do rastreador verificou que se
tratava de mil e quinhentas naves faviformes. Isso significava cerca de três bilhões de
emigrantes amarelos, que estavam diante de uma divisão iminente. E isso significava que
logo haveria sete vezes tantos conquistadores-amarelos.
Em um planeta ainda desconhecido do lado de fora do “Enxame”!
Em um planeta talvez habitado, que estava condenado ao desaparecimento, se nada
acontecesse.
Tudo dependeria de Blazon Alfa e de Blazon Beta, que juntos com estes três bilhões
de amarelos voavam ao encontro do seu destino desconhecido. Se eles conseguissem
avisar Rhodan em tempo útil, talvez fosse possível impedir o pior.
Nos limites do sistema, as naves faviformes se reuniram com as cinco mil unidades
das naves de vigilância. A gigantesca reunião formou-se, e tomou rumo na direção da
cabeça do “Enxame” desaparecendo, depois de uma transição para a quinta dimensão,
dos monitores de rastreamento da Gevari.
Alaska olhou mais algum tempo para os monitores vazios do rastreamento.
Gucky, que estava parado do seu lado, disse, aparentemente sem motivação:
― “Prato” não nos traiu, Alaska. Você está errado, se está achando isso. Uma
simpatia genuína a gente pode sentir, pode-se ter certeza dela. Sem confiança não
existiria um Universo, não existiria sequer a amizade entre dois seres inteligentes, e não
haveria de modo algum o que os seres humanos chamam de “amor”. Confiança é a base
de toda existência, Alaska! Quando é que você finalmente vai entender isso?
― Eu não desconfio do seu amigo “Prato”, mas ele poderia ter sido obrigado a nos
trair, a revelar nosso plano, tudo...
― “Prato”, com certeza, teria preferido virar sucata! Confiança também tem
alguma coisa a ver com crença.
― Crença não é saber, baixinho!
― Uma expressão muito idiota, que tem sua origem infelizmente numa triste
verdade, isso eu concedo. Não se deve empregá-la para tudo. Com certeza nunca para
com “Prato”.
― Eu... ―Alaska sorriu, um pouco ― ...creio em você, Gucky.
Kosum achou que já era tempo de intervir.
― Eu programei a rota de regresso, meus senhores teóricos. A rota de volta para
Casulo. Quando posso apertar o botão?
Alaska apontou para as telas de vídeo apagadas do rastreamento.
― Imediatamente, Kosum. Não há mais motivo para esperar mais tempo. Corello já
deve estar se aborrecendo. Talvez ele também já esteja preocupado conosco, o que seria
ainda pior.
Gucky levantou-se.
― Muito bem, ainda vai levar algumas horas até que estamos novamente na estação
dos trilhos. Alguém tem alguma coisa contra, se eu me retirar, para repousar um pouco?
― Repouse, tranquilamente ― gritou-lhe Kasom, bonachão. ― O resto nós
conseguimos fazer sem você.
― Assim espero ― comentou Gucky, furioso, e desapareceu com o seu típico andar
bamboleante.
Alaska olhou para Kosum.
― E então, o que ainda estamos esperando...?
Kosum deu um sorriso largo, antes de ativar o voo linear previamente programado,
para uma distância de oito anos-luz.
***
Sem qualquer incidente, eles alcançaram o planeta Casulo com suas órbitas
energéticas. A entrada no castelo também ocorreu sem incidentes, e Ribald Corello
recebeu os homens que voltavam sãos e salvos, com visível alívio.
Nada de novo em Casulo.
O plasma se mantinha quieto e na expectativa, os restantes amarelos naturalmente
ainda esperavam ansiosamente pelo seu transporte, e seria necessário acalmá-los, mas
este era um problema de segunda classe.
Na realidade agora havia apenas um único problema, e este se chamava bem
simplesmente ― esperar!
Esperar para saber se Blazon Alfa e Blazon Beta venceriam o seu empreendimento
arriscado com vida, e se eles podiam entrar em contato com Perry Rhodan.
Quando Alaska abandonou a Gevari para dar uma volta pelo castelo, para
inspecioná-lo, ele olhou mais uma vez para o relógio de data da nave.
Era o dia 12 de maio do ano 3.442 ― tempo terrano.

***
**
*

Eles levaram consigo 800 passageiros em sua


viagem, e os levaram para o planeta da felicidade.
Também dois homens da Gevari ali sobem a bordo. Eles
querem tentar entrar em contato com Perry Rhodan...
Mais sobre esta aventura você terá no próximo
número da série, intitulado: “Crepúsculo dos Ídolos”.
Visite o Site Oficial Perry Rhodan:
www.perry-rhodan.com.br

O Projeto Tradução Perry Rhodan está aberto a novos colaboradores.


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