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DA LITURGIA CRISTÃ)

HERMISTEN MMA P COSTA

A TEOLOGIA DO CULTO

(Considerações

Bíblica-Histórica-

Teológica

da Liturgia

Cristã)

Rev.

Hermisten

Maia Pereira da

Costa

Belo

Horizonte, outubro

de

1984

A

meus

pais,

irmãs,

esposa

e

filho.

1987

Todos os direitos reservados à CASA EDITORA PRESBITERIANA Rua Miguel Teles Jr, 382/394 Tel. (011) 270-7099 (Tronco) CEP 01540 Cx. Postal 15136 - Cambuci - S. Paulo - SP.

Arte de Capa: Edson Barnabe

Wllllem

Temple:

"Adorar é aliviar a

consciência com

a Santidade de

 

Deus,

alimentar

a mente

com

a verdade

de

Deus, enriquecer

a

Imaginação

com a beleza

de Deus,

abrir

o coração

ao amor de

Deus,

submeter a vontade

ao propósito

de

Deus” .

 

Kurl Barth:

"O

culto cristão

 

é

o

ato

mais

importante,

mais relevante,

 

mais

glorioso

na vida

do

homem” .

 

R.

Martin-Achard:

“ Servir

a

Deus

consiste,

em

primeiro

lugar,

no

reconhecimento m ínios” .

de

sua

autoridade

em

todos

os

tempos

e

do­

R.

Schnackenburg:

"Na

verdadeira

adoração,

um

encontro

com

Deus,

para

o qual

o

homem

precisa

ser

capacitado

pela

graça

de

Deus".

 

R.

P.

supremo, porque

somente

Em essência o culto é um encontro

de Deus com Seu povo no qual se estabelece um diálogo: Deus feia à sua Igreja através de Sua Palavra e a congregação ex­ pressa sua adoração ao Senhor mediante as orações, oferendas e hinos",

M artin:

“ Adorar a Deus é atribuir

Ele

é

digno".

a Ele valor

Vlctor M. Sendovai Garcia: “

Dãvl: "Rendei graças ao Senhor, invocai o seu nome, fazei conheci­ dos, entre os povos, os seus feitos. Cantai-lhe, cantai-lhe sal­ mos; narrai todas as suas maravilhas” — (SI 105.1-2).

PREFÁCIO

INTRODUÇÃO

SUMARIO

1.

O

Imperativo

da

Adoração

 

2.

O Culto Cristão como Atitude

Responsiva

3.

Liturgia:

Origem

e

Evolução

do Termo

 

4.

Definição

de

Liturgia

 

5.

A

Adoração na Sinagoga

 

6.

Liturgia da Igreja Cristã no período Pós-Apostólico

7

A

Igreja

Cristã:

Comunidade

Litúrgica

 

B

Elementos

da Liturgia

Bíblica

f)

Igreja Presbiteriana do Brasil —

Igreja

Litúrgica

CONCLUSÃO

INCONCLUSA

 

NOTAS

E REFERÊNCIAS

 

BIBLIOGRAFIA

APRESENTAÇÃO

Imenso valor. Valor relativo. Nenhum valor. São conclusões possíveis a que se chega após detida análise de certo objeto ou de determinada realidade. Interessantes são os critérios adotados para se chegar lá. Um desses, essencialmente pragmático, verificável nas experiências simples do quotidiano, julga de uma realidade pelo in­ teresse e necessidade que desperta. Tudo quanto provoca interesse

e desperta o senso de necessidade traz em si a marca do valor.

Sem

dúvida,

aplicado

tal

recurso

ao

volume

que

em

tão

boa

hora chega às mãos do leitor

evangélico,

pode-se

concluir

que

se

trata de uma literatura

sidade, já evidentes ao primeiro

título.

valor

cujo

se

mede

contacto,

pelo

a

interesse

partir

do

e

neces­

sugestivo

Interesse, pois o Culto em sua correta expressão teológica situa

mais relevante em sua vida. Aqui,

a Igreja

vê-se a Igreja inserida no âmago de sua própria natureza como Povo de Deus, Família da Fé, Assembléia dos Eleitos, que cumpre sua vocação no Culto, na Adoração, no Serviço que incessantemente presta ao seu Senhor. Neste ponto, ressalta-se a felicidade do autor ao revelar notável segurança teológica, através de um enfoque bí­ blico incontestável.

Necessidade, pois a Igreja reconhece o desastre espiritual que

a deturpação do culto inevitavelmente provoca em seu meio. A

multiplicidade de seitas ditas evangélicas, com seus desvios imper­ doáveis a título de inovação, com seus cultos exóticos, estranhos

à herança Reformada fiel às Escrituras, não deixa de produzir frutos amargos para não dizer desintegradores de inúmeras comunidades religiosas que não contestam e nem resistem aos seus acenos se­ dutores. Contra tais perversões, as Igrejas de tradição Reformada devem precaver-se.

de Cristo

no

que

de

litera­

tura merecedora de confiança nesta área. Parece-nos limitado o núme­

ro de obras específicas sobre o assunto, acessível ao leitor brasileiro.

O fator

necessidade cresce,

ainda,

na medida

da escassa

Assim, por preencher de certa forma uma lacuna, adquire maior rele­ vância a contribuição do autor ao acervo literário evangélico. Dispen­ sados outros motivos, este só é bastante para assegurar a boa recep­ tividade dos seus leitores.

A monografia que ora nos oferece o ilustre ministro e professor da Igreja Presbiteriana do Brasil, Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa, apresenta contornos definidos. Evidentemente não é uma obra exaustiva, mas representa uma apreciável tentativa de abrir possi­ bilidades de reflexão sobre um tema enraizado à própria cond;ção de ser da Igreja e, ao mesmo tempo, tão susceptível de distorções conforme testifica a própria Igreja Cristã no decurso de sua vida histórica. É um trabalho que reflete pesquisa histórica e interesse teológico, no intento de caracterizar as mutações ocorridas no culto cristão a partir de suas origens, fixando as riquezas do conteúdo litúrgico que a Igreja soube preservar até nossos dias. Atesta a eru­ dição do autor a riquíssima bibliografia que aborda tanto o problema do culto em si, como os aspectos culturais que com ele mantém estreita correlação.

Nas

limitações

próprias

de

uma

despretenciosa

apresentação,

prevalece a certeza

de

que

o trabalho

do

caríssimo

Rev.

Hermisten

há de

reacender

o

interesse

da

Igreja

e

particularmente

do

dileto

leitor

na

direção

da

redescoberta

do

valor

extraordinário

do

Culto

Cristão,

bíblico,

ipressivo

e

belo,

tão

caro

à

nossa

tradição

Re­

formada.

 
 

Campinas, janeiro

de

1985

OADI SALUM

INTRODUÇÃO

o

Rev. Cleómines Anacleto de Figueiredo, pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Niterói, convidou-me para integrar o corpo de pre-

letores de um curso que o Conselho de sua Igreja iria promover em agosto daquele ano, intitulado: “ Presbiterianismo-Eclesiologia

Bíblica-Histórica” ; e um dos temas sobre o qual deveria falar era relacionado com “ Liturgia". A minha primeira atitude foi de rejeitar tão honroso convite, por achar que o tempo era curto para preparar as palestras e, de um modo muito especial, a de “ Lituriga” . Sem

Na

data prevista, fiz as preleções e, os meus esquemas ficaram guar­

que conseguisse dissuadi-lo, por fim aceitei o gentil co n v ite

Este

trabalho

teve

uma

origem

curiosa.

Em

julho

de

1983,

Mais

de julho

“ Em

ou

menos

um

de

Busca

1984,

de

ano

3,

depois,

li

um

artigo

Liturgia".

no

jornal

“ Brasil

Rev.

no"

Ross,

p.

Uma

escrito

a

pelo

sua

Após

leitura,

Presbiteria­

Ivan

fui

G.

desper­

G.

tado

para

o

tema

e

resolvi

escrever

um

artigo

baseado

no

meu

antigo

“ esquema” , para

tentar

publicar

no

“ Brasil

P resbiteriano

"

Comecei

a

prepará-lo,

então,

aos

sábados

e

feriados;

até

que

per­

cebi

que

o

artigo,

apesar

de

despretencioso,

havia ficado

um tanto

extenso

para

ser

publicado no

jornal

e, mesmo

pensando

em

tentar

publicá-lo

em

série,

vi

que

ele

sairia

no

mínimo

em

seis

edições

m ensais

Foi então, que decidi

publicá-lo

na forma

em que

se

en­

contra.

Desejo que a leitura deste opúsculo possa contribuir, de alguma forma, para esclarecer um pouco mais o significado do culto e, assim, como resultado disso, possamos não simplesmente teorizar a respeito do assunto mas, também, adorar ao Senhor. É este o meu desejo e a minha oração.

Seminário Presbiteriano do Sul — Extensão em Belo Horizonte

Rev.

Hermisten

M.

P.

Coata

Outubro

de

1984

1.

0

IMPERATIVO

DA

ADORAÇÃO

A Antropologia, a Sociologia, a Filosofia, a Arqueologia

e

a

His­

tória,

etc.,

têm

evidenciado,

de

forma

convincente,

que

a religião

está

presente

em

todas

as

culturas

antigas;

isto

tem

conduzido

ao

que

hoje

podemos

chamar

de

“ truísm o” ,

a

afirmação

do

homem

como

ser

religioso

(homo

religiosus).

 

Na antiguidade, Cícero (106-43 aC), Plutarco (50-125 AD) e outros,

constataram

este

fato.

Cícero

escreveu:

 
 

“ Não

há povo

tão

bárbaro, não há gente

tão

brutal e

selvagem,

que

não

tenha

arraigada

em

si a convicção

de

que

Deus”

(í).

Também

encontramos,

nos pensadores

antigos, a observação

de

que

os

homens faziam

os

seus

deuses

à

sua

imagem

e semelhan­

ç a

(2). Xenófones de Cólofon (c. 570-528 aC), percebeu isso

com

acuidade:

 

“ Homero

e Hesíodo

atribuíram

aos deuses

tudo

o que

para

 

os

homens

é

opróbrio

e

vergonha:

roubo,

adultério

e

fraudes

recíprocas.

 
 

“ Como

contavam

dos deuses muitíssimas

ações

contrárias

às leis: roubo, adultério e fraudes recíprocas.

têm

“ Mas os mortais imaginam vestimentas, voz e forma

que os

deuses são

engendrados,

semelhantes a eles.

“ Tivessem

os

bois,

os

cavalos

e

os

leões

mãos,

e

pudes­

sem, com elas, pintar e produzir obras como os homens, os cavalos pintariam figuras de deuses semelhantes a cavalos, e os bois semelhantes a bois, cada (espécie animal) reproduzindo a sua própria forma.

"Os

etíopes

dizem

que

os

deuses

são

negros

e

de

nariz

chato,

os

trácios

dizem

que

têm

olhos

azuis

e

cabelos

verme­

lhos"

(3)

O Instinto

religioso

é

tão

antigo

quanto

o

homem;

por

isso,

entendo

que

a

assertiva

de

Dostoievesky

(1821-1881)

expressa

em

sua

obra "O

Idiota”

(1868-1869)

é uma

constatação

h is tó ric a

"O

instinto

religioso

não

sucumbirá

a

qualquer

argumento

ou

a qualquer forma

de

ateísmo”

(4).

Para

muitos

pensadores

a

religião

é

destituída

de qualquer

ele­

mento objetivo, por isso, cada um desses pensadores atribui à reli­

gião um elemento subjetivo, tentando imanentizá-la, tirando da religião qualquer elemento transcendente que possa ser apontado como sen­

do

uma invenção do homem, na qual ele projeta seus anseios; para K. Marx (1818-1883), ela surge da prepotência, fruto da sociedade capi­ talista; da ignorância, conforme A. Comte (1798-1857); do ressenti­ mento, segundo F. Nietzsche (5); ou da sublimação dos instintos, de

Feuerbach (1804-1872) a religião é

sua

fo n te

Assim,

para

L.

acordo com S. Freud (1856-1939) (6).

Contudo,

creio que seja necessário uma breve palavra de posicionamento. Entendemos biblicamente que o instinto religioso é próprio do ho­

mem por causa da sua natureza comum:

27); assim, mesmo que o homem esteja, como de fato

Não

é

nosso

objetivo

discutir

a

origem

da

religião.

de Deus

criação

(Gn

1.26-

está, corrom­

pido pelo pecado (Gn 6.5;

8.21;

Sl

14.2-3;

94.11;

Is 64.6;

Jr

17.9;

Rm

3.10-18; 8.7-8; Ef 2.1,

etc.)

(7),

o seu

ser

como

“ síntese

de finito

e

de infinito" (8), aspira pela divindade e, em todas as suas obras, há

um transpirar ofegante pelo sagrado, eterno, incom

eter­

nidade no coração

Crias­

te-nos para Vós e o nosso coração vive inquieto, enquanto não re­ pousa em Vós” (9).

“ Tudo fez Deus formoso

as

obras que Deus fez desde o princípio até o fim ” (Ec 3.11); "

ensurável

pôs

a

descobrir

em

seu

devido

sem

que

tempo;

este

também

possa

do

homem,

Qualquer indicação da origem da religião, fora do princípio bíblico

da Criação, se estiver no caminho certo, atingirá apenas o efeito da questão chave: o homem busca a religião, tentando encontrar o Seu

Deus porque o seu ser carece deste

mens em seus delitos e pecados não conseguem encontrar ao Deus

Vivo e Verdadeiro, embora o tenham procurado, tateando

Deus está

perto, mas o pecado cegou os olhos dos homens para as realidades espirituais (At 17.27; Rm 1.20-21). Por isso, procuram Deus fora de

Cristo. Mas, fora de Cristo, não há possibilidade de encontro, pois,

fora de Cristo não há salvação

Entretanto, os ho­

(Jo 14.6;

A t 4.12;

1

Pe

2.5).

"Todos os que procuram Deus fora de Jesus Cristo, e que

se detêm na natureza, ou não encontram luzes que osiluminem

ou acabam por encontrar um meio de conhecer Deus e de servi-lo

sem mediador, e por aí caem no ateísmo ou no deísmo, que são duas coisas que a religião cristã abomina quase igualmente. Sem Jesus Cristo o mundo não subsistiria; pois precisaria ser

destruído ou ser como um inferno” [10).

.a*

A

religião

é o imperativo

incondicional

da

essência

do

homem.

Todavia,

concordo

com

A.

W.

Pink,

quando

diz:

“ A

maior parte

da 'religiosidade'

de

nossa

época

é

apenas

um ‘velho Adão’ retocado. É meramente o adornar de sepulcros cheios de corrupção" (11).

Podemos observar que se a religiosidade é companheira insepa­ rável de todas as culturas, a adoração cúltica é a expressão da reli­ giosidade de cada povo. A forma de culto varia de religião para religião e esta, por sua vez, varia de povo para povo. Contudo, todas ou quase todas as religiões têm dois pontos em comum: O primeiro,

é a suposição de estarem adorando um “ deus” transcendente, isto,

porque as religiões, de modo geral, se respaldam numa suposta re­ velação transcendental (12); e, o segundo, é de serem a única religião

verdadeira, sem que com isso, usem de uma hermenêutica convin­ cente (13).

A

adoração é imperativa

do

mesmo

modo

que

a

religião

é

pró­

pria do homem;

desta

forma,

não

podemos

separar

a

adoração

da

religião, nem que a adoração se caracterize pelo culto silenciosa­

mente eloqüente do permanecer frente ao espelho com o ar de sa­ cerdote e divindade

Por isso, sem querer fazer uma extensa peregrinação histórica, poderíamos, contudo, perguntar às vozes facundas do passado — que deixaram seus ecos nos seus escritos e tradições — como deveria ser o culto e, por certo, constataríamos que em sua grande maioria encontraríamos a idéia de sacrifício animal e humano, como expressão cúltica. Encontramos tal prática entre os Egípcios, Persas, Indianos, Chineses, Saxônicos, Assírios, etc. Heródoto (c. 484-C.420 aC), por exemplo, narra em sua “ História" que o rei de Tiro ofereceu seu filho para obter prosperidade, tendo os Cartagineses o mesmo costume. O aludido autor descreve uma tradição cartaginesa que

lo

conta

dramática:

a morte

de Am ílcar (c. 290-229 aC), rei

de

Cartago, de forma

“ Dizem eles (os Cartagineses) que a batalha que os bárba­ ros travaram com os Gregos, na Sicília, durou dasda o romper da aurora até o anoitecer, e que Amílcar permaneceu firma no campo da luta, imolando vítimas, cujas entranhas lha auguravam grandes sucessos, queimando-as inteiras numa vaata fogueira, Tendo, todavia, percebido, enquanto fazia libações sobre as v íti­ mas, que suas tropas batiam em retirada, atirou-se ela próprio ao fogo, sendo logo devorado pelas chamas" (14).

Os deuses variavam e, também, a forma de adoração. Contudo,

o sacrifício humano estava presente em quase todas as religiões

dos povos antigos. Esta era

a sua

forma

de

culto

(15).

Algo

que

me

impressionou

foi

a

constatação

de

que

os

cultos

idólatras

tendem

sempre

ou, pelo menos, na maioria das vezes, para

as

orgias

sexuais

e bebedeiras.

Parece

que

os homens,

com

toda

a

sua

criatividade

idólatra,

criaram

seus

deuses

conforme

seus

capri­

chos

e desejos

mais

baixos

e, quando

os

adoravam,

glorificavam

na

verdade

mãos.

boça

à

uma

das

faz

os

seus

próprios

em

vícios

personificados

nas

o cordel

marca

homem,

nações são

falam;

e,

com

com

o

que

possa

e

prata

têm

não

o

obras

de

lápis,

suas

es­

“ O artífice

uma

imagem;

semelhança

casa”

mãos

de

(Is 44.13).

dos

homens.

madeira

alisa-a

com

beleza

“ Os

de

Têm

estende

plaina,

um

compasso,

olhos,

e

morar

ouro, obra

não

e

em

ídolos das

boca,

e

vêem;

têm

ouvidos,

e

não

ouvem;

pois

não

alento

de

vida

em

sua

boca"

(SI

135.15-17).

“ A quem

me

comparareis

para

que eu

lhe

seja

igual?

e

que

cousa

semelhante

confrontareis

comigo?

Os

que

gastem

o

ouro

da

bolsa,

e

pesam

a prata

nas

balanças,

assalariam

o ourives

para

que faça

um

deus,

e

diante

deste

se

prostram

e

se

inclinem.

Sobre

os

ombros

o

tomam,

levam-no

e

o

põem

no

seu

lugar, e

ele

fica;

do

seu

lugar

não se

move;

recorrem-se

a

ela,

mas

nenhuma

e a ninguém

livra

da

sua

tribulação"

(Is

46.5-71. A

resposta ele dá, condenação dos

idólatras

é

a

de

se

tornarem

inertaa,

sem

vida

como as

obras

de

suas

m ã o s

“ Como

eles

se

tornam

os que

os fazem, e todos

os que neles confiam ” (SI

135.18);

porqut

Deus

os

entregou

às

suas

paixões

(Rm

1.18-32

(16).

2.

0

CULT0

CRISTÃO

COMO ATITUDE

RESPONSIVA

Normalmente quando se fala de Culto ou do seu porquê, tem-se

seguido caminhos desviantes da fé cristã ou, quando se localiza a trilha correta, confunde-se, muitas vezes, o caminho da ação com

e

Afirmo

isto porque tenho observado que, quando se fala de culto, amiúde tem-se partido do ponto referente à aproximação do homem em dire­ ção a Deus, colocando, desta forma, o ponto de partida no homem, no desejo deste em buscar a Deus, evidenciando-se embora, de modo correto, a Teocentricidade do Culto. Todavia, isto não é sufi­ ciente. Entendemos, biblicamente, que o culto não é uma ação hu­ mana mss, sim, uma re-ação, uma atitude responsiva à ação de Deus que, primeiro, veio ao homem capacitando-o a responder a Ele. É Deus quem procura seus adoradores (Jo 4.23) (17).

o da

esquecendo-se da sua origem, da sua “ causa prim eira”

reação,

percorrendo-se,

assim,

apenas

a

metade

da

estrada

Teólogos como Karl Barth (1886-1969) e outros, não têm falado do cristianismo como “ religião", devido ao fato de que a palavra "religião” (18) tomou a conotação de um esforço do homem em dire­ ção a Deus. Enquanto que Barth, corretamente, entende, seguindo neste ponto a Teologia Reformada, que o cristianismo nos fala de

um Deus soberanamente livre que vem ao encontro do homem que está morto em seus pecados e, por isso, não pode ter qualquer con­

tato

com

Ele

(Is

59.2;

Ef 2.1)

(19).

O homem

não

cultua

a Deus

porque,

casualmente,

em

determi­

nado momento de sua vida, teve-um

“ insight” de fé

e'resolveu

adorá-

Lo. Não!

A

adoração

correta

(20) ao verdadeiro

Deus é

uma

atitude

de

e obediência

na

qual

o

adorador

se

prostra

diante

de

Deus,

que

o

atraiu

com

a

sua

Graça

Irresistível

(21).

Neste

ato

de culto,

o

homem

confessa

a

sua

dependência

de

Deus,

professando

a

sua

fé,

em

resposta

à

Palavra

Criadora

de

Deus

(Jo

1.1;

Rm

10.17). A

Palavra

de

Deus

é

criadora

pois

gera

a

e, todas

as

vezes

que

Deus

fala

ao

homem,

algo

de

novo

acontece,

o

homem

não

pode

ser mais o mesmo, ele não pode mais ignorar este

acontecimento

E,

isto

se expressa

em

culto. Deus fala

e o homem

adora;

Deus

se

mostra, o homem

contempla;

Deus

abençoa,

o homem

lo u va

“ De

longe

se me deixou ver

o Senhor,

dizendo:

Com

amor eterno

eu

te

amei,

por isso

com

benignidade

te

atraí”

(Jr 31.3).

 

O

culto

é

a

expressão

da

alma

que

conhece

a Deus

e deseja

continuar

guns

falando.

mantendo

este

instantes,

consista

diálogo,

apenas

mesmo

que

num

monólogo

este

diálogo,

por

al­

edificante

de

Deus

A definição

de Víctor M. S. Garcia expressa bem esta

realidade:

"

.

.

.

Em essência

o culto

é

um

encontro

de

Deus com

Seu

povo

no qual

se

estabelece

um

diálogo:

Deus fala

à

Sua

Igreja

através

de Sua

Palavra

e a Congregação

expressa

sua

adoração

ao

Senhor mediante

as orações, oferendas

e hinos” (22).

 

O

culto

é

uma

reação

adoradora

que

se torna

possível

pela

Graça

de

Deus que

nos

Vida

(Jo

10.10;

Ef

2.1,5;

Cl

2.13), capa­

citando-nos

para

este

evento.

 
 

“ Ó

Mestre,

nunca cessarão

meus

lábios

 

De bendizer-te e entoar-te

glória;

Pois eu conservo de teu bem

Grata memória" (23).

imenso

3.

LITURGIA:

ORIGEM

E EVOLUÇÃO

DO

TERMO

3.1.

Uso Secular

e EvoluçSo

A palavra "litu rg ia ” é transliteração aportuguesada do termo

grego “ leitourgía” , que pode significar o “ serviço público ou parti­ cular feito por um cidadão” . As variantes da palavra são: “ leitour-

gós”,

viço), (ação). Assim sendo, a sua tradução literal seria- “ Servidor Público". Esta palavra é pouco encontrada no grego secular e, nor­ malmente, recebe a tradução de “ a rtífice ” . “ Leitourgéõ” (Eu minis­ tro, sirvo") e, “ leitourgikós" (Ministrante). Esta palavra é pouco

encontrada nos papiros.

formada por duas palavras: “ leitos” (Público) e “ ergos” (Ser­

No

Grego

Clássico, a palavra

“ leitourgía"

passou por

quatro

es­

tágios

distintos,

a

saber:

 

1) Primeiramente,

significa

um

serviço

prestado

de

forma

vo­

luntária à Pátria, ou obrigatória por causa de sua renda. De qualquer

forma

era

um

serviço

prestado

à

Nação.

2)

Depois

passou a significar

(principalmente

no Egito),

a

reali-

Zcção

dos

serviços

que o Estado impunha aos cidadãos, especial­

mente qualificados para fazê-lo. Aqui, já não há lugar para a volun­

tariedade; as tarefas são obrigatórias, desempenhadas pela força,

caso

descrever

qualquer tipo de serviço. A palavra passou a ser usada, por exemplo, com respeito às bailarinas, aos flautistas ou músicos contratados

para algum espetáculo. Usava-se também para se referir a qualquer trabalhador que prestasse serviço a alguém; e, como testemunho

fosse

3)

necessário,

Posteriormente,

o

termo

expandiu-se,

chegando

a

máximo da sua abrangência, o termo para o “ serviço" de uma meretriz.

passou a ser usado até

mesmo

4)

Finalmente,

desenvolveu-se

um

emprego

totalmente

distinto

do sentido jurídico, utilizando-se no sentido religioso; assim, no tem­

po

do

Novo

Testamento,

no primeiro

século

da Era

Cristã, o

termo

era comum para descrever o serviço que um sacerdote ou servo prestasse nos templos dos deuses (24).

3.2.

Uso

Bíblico

 

3.2.1.

Na

Septuaginta:

 

Na versão

grega

do

Velho

Testamento,

feita

em

Alexandria

por

volta

os

ano

seguintes

do

250

aC,

termos:

conhecida

por

Septuaginta

(25),

encontramos

 

1) “ leitourgós:

Utilizado

onze

vezes

(Js

1.1;

2

Sm

13,

17-18;

2

Rs 4.43).

 
 

2) “ leitourgía” :

Que

traduz

o

hebraico

abõdãh,

 

é

utilizado

mais

de

quarenta

vezes

(Nm

4.24,27,28,33;

7.5,7,8;

2 Cr 8.14).

 

3) ‘‘leitourgéõ” : Que

traduz

o hebraico

seret,

é

utilizado

quase

noventa vezes

(Ex 28.31,39; 29.30;

Dt 10.8;

1

Sm

2.11,18;

3.1,6).

“ Leitourgía" e "leitourgéõ", “ eram especialmente apropriadas para expressar o serviço ritual, porque o culto sacerdotal era públi­ co, fixo e regulado pela lei, e o bem-estar do povo de Deus dependia dele. É, porém, surpreendente que a LXX (Septuaginta) usasse estes termos sem hesitação também para o culto pagão (e.g. Ez 44.12)” (26).

4)

“ leitourgikós” : Utilizado seis vezes (Ex 31.10; Nm 4.12,26;

7.5).

5) “ leitourgesímos” : Utilizado

apenas

uma vez

(1

Cr

28.13),

não

sendo traduzido;

casa do

viço

na

contudo, se refere

Senhor

aos utensílios usados para o ser­

skeuõn).

(leito.urgesímõn

6) “ leitoúrgema” : Apenas duas vezes (Nm 4.32) como “ Serviço" e, Nm 7.9 como “ Cargo” , referindo-se ao "M inistério Sagrado" dos Coatitas: o de levar o Santuário nos ombros.

são sempre

empregados na Septuaginta, referindo-se a um Serviço Religioso, en­

volvendo de forma direta ou indireta algo feito para o Senhor.

Com

exceção

de alguns poucos casos, estes termos

3 .2 .2 .

No

Novo

Testamento

No

Novo

Testamento,

encontramos

quatro

dos

seis

termos

en­

contrados

na Septuaginta,

a saber:

 

1)

vezes,

Lc

1.23 (M inistério);

2

Co

9.12

(A

sistência);

“ leitourgía” : Seis Fp 2.17 (Serviço);

Fp 2.30

(Socorro);

Hb 8.6

(M inistério);

Hb 9.21

(Serviço

Sagrado) (27),

2) “ leitourgós” : Cinco vezes (Rm

13.6;

15.16;

Hb 1.7;

8.2 (Minis­

tro);

Fp 2.25

(Auxiliar).

 

3) “ leitourgéõ” : Três vezes (At

13.2 (Servindo);

Rm 15.27 (Servi-

los)

e

Hb

10.11

(Serviço

Sagrado).

 

4) "leitourgikós” :

Uma vez

(Hb

1.14

(Ministradores)

(28).

O

que

me chamou a atenção na utilização

neotestamentária

des­

tas

palavras

é

que

sempre

uma

relação

direta

ou

indireta

com

um

serviço

religioso.

 

Resumindo, podemos dizer que a palavra ‘'litu rg ia ” tem três usos

principais

no Novo Testamento, a saber;

1. Serviço de um

homem

para

os outros:

Rm

15.27;

2

Co

9.12;

Fp

2.17,30.

2. especificamente

Serviço

Religioso:

Lc 1.23;

A t

13.2;

Hb 8.2,6.

3. Aquele

que

está

a serviço do seu Senhor:

Rm 13.6;

15.16.

3.3.

Uso

Posterior

No

grego

posterior,

a

palavra

veio

a

significar

simplesmente

"O breiro” , “ Trabalhador”

(29).

4.

DEFINIÇÃO

DE LITURGIA

4.1. Popular-Simplista

A

definição

que

normalmente

encontramos

entre

os

crentes

e,

Eté mesmo, entre líderes evangélicos, é que a liturgia é o "Progra­

ma" ou “ Roteiro" do Culto, o qual, torna o Culto “ frio", “ sem liber­ dade de expressão” , “ sem liberdade para a ação do Espírito San­

uti­

lizado com uma forte conotação pejorativa, como sinônimo da pre­

tensão

to ’’, etc. Observo, também,

que

muitas vezes

E s p írito

o termo

liturgia

é

humana

de amordaçar

o

4.2. Bíblica-Teolõgica

A Liturgia é o "Serviço Religioso" de Adoração ao Deus Triúno. Notemos que, neste sentido, não pode haver culto sem Liturgia; nem Liturgia sem Culto, pois, CULTO É SERVIÇO RELIGIOSO e Serviço Religioso é Liturgia. Logo, CULTO É LITURGIA! Por isso, podemos afirmar que a Liturgia é a manifestação responsiva do Povo de Deus que anela pelo re-encontro do terrenal com o Divino, do contingente com o Absoluto, do temporal com o Eterno, do “ Eu” que encarna todo o limite, com o “ Tu” Divino que personifica toda a possibili­ (SI 42.1-2).

Um dos mistérios do Culto é que o encontro é de valor infini­ tamente qualitativo: o Deus, o “ Totalmente O utro” , nos fala, e este encontro tem um sentido não temporal, a-temporal, pois a qualidade,

o significado do encontro não pode ser medido no tempo; no entan­

Quan­

to, tal encontro se dá num momento quantitativamente

do Deus fala, a categoria do tempo não serve de parâmetro para este acontecimento, pois, este ato é regido pelo atemporal: pelo Eterno!

5.

A

ADORAÇÃO

NA

SINAGOGA

1

E

O

CULTO

CRISTÃO

Apesar de não encontrarmos nas páginas do Novo Testamento nenhuma descrição completa do Culto Cristão, constatamos que, desde o início da Igreja neotestamentária, havia uma forma própria de Culto (At 2.42). Podemos observar, também, que desde o flores­ cimento da Igreja Cristã, houve a consciência de que o culto sacri­

ficial judaico tivera um valor transitório: ele apontava para o sacrifí­ cio perfeito de Cristo (A t 6.8; 7.53), sendo tal conceito coroado com

a Epístola aos Hebreus, escrita trinta anos mais tarde, por um autor anônimo. Contudo, uma pergunta se faz necessária: O Culto Cristão recebeu algum tipo de herança ou se estruturou do nada, de acordo com a orientação diretiva do Espírito?

Cristão

encontrou o seu protótipo na Sinagoga e, possivelmente (aqui, a pa­ lavra possivelmente é relevante), nas comunidades religiosas como

Hoje é assunto aceito quase universalmente

que o Culto

a

de “ Qumran",

por

exemplo.

 
 

As

palavras

de

W.

D.

Maxwell

representam

a voz

uníssona

de

inúmeros

estudiosos

que,

por

certo,

ratificariam

a

sua

tese:

“ A adoração cristã, como coisa distintiva e autóctone, sur­

giu da fusão, no cadinho da experiência cristã, da Sinagoga e

. ao dia de hoje na união entre a adoração na sinagoga e a expe­ riência sacramental no Cenáculo, e essa união remonta aos tem ­ pos neotestamentários" (30).

do C enáculo

da Igreja pode ser achada até

A adoração típica

Esta tese é inteiramente verificável através de evidências histó­ ricas, evidências estas que discutiremos no decorrer deste trabalho, devendo-se levar em consideração, também, que os primeiros discí­ pulos de Jesus Cristo eram judeus e a forma de culto que eles conheciam era o culto prestado na Sinagoga e no Templo. Porém, “ a única coisa que faltava na adoração da sinagoga era o scrifício ” (31). Contudo, os judeus das regiões distantes de Jerusalém estavam mais

familiarizados com a Liturgia da Sinagoga, tendo em vista que estas se encontravam por quase todas as cidades onde houvesse judeus pois, de scordo com a lei do “ M isná” (forma aportuguesada), era permitido que dez homens judeus formassem, em qualquer lugar, uma sinagoga. Havia cidades, inclusive, que possuíam várias. Estima- se, inclusive, que Jerusalém tinha cerca de quinhentas Sinagogas (32). Outro fato que reforçou ainda mais a influência da Sinagoga, foi a destruição do Templo ocorrida cerca de 40 anos depois de morte e ressurreição de Jesus, enquanto a Sinagoga continuou irradiando sua influência ,

 

Conforme

a

“ M isná”

(Meghillah

IV.3)

podemos

dividir

o

Culto

na Sinagoga em

seis

partes,

a saber:

 
 

1)

Recitação

responsiva

do

“ Shema"

(“ Ouve”),

título

tirado

da

primeira

palavra

do texto

de

Dt

6.4,9,

que

consistia

na

leitura

de,

além

deste texto, de

Dt

11.13-21;

Nm

15.37-41).

 

2) Recitação do “ Shemone Esreh" (“ Dezoito Bênçãos"), que se supõe ter o nome dezoio, em decorrência do fato de o nome de Deus

aparecer dezoito vezes no "Shema” . Estas "bênçãos’’ consistiam em

uma série

de

louvores

a

Deus, tais

como:

“ Bendito és Tu, o Senhor nosso Deus, o Deus de Abraão,

o Deus de Isaque, o Deus de Jacó: o Deus grande, poderoso e

terrível, o Deus altíssimo que mostra misericórdia e benignida­ de, que cria todas as coisas, que relembra os feitos piedosos

dos patriarcas, e que por amor dará um redentor aos filhos de seus filhos por amor de Seu nome, ó Rei, Ajudador, Salvador,

e

Escudo! Bendito sejas Tu, ó Senhor, Escudo de Abraão" (33).

.

.

.

E outras, que enfatizavam a restauração de Israel, o Templo

e a dinastia

davídica

3 Cântico

de Salmos.

4)

Orações

rituais

e

silenciosas.

5) Leitura do Velho Testamento feita por um homem que sou­ besse ler o hebraico, tendo um intérprete (Aram. (Méthurgemãn) para verter o texto para o aramaico que, amiúde, no caso da leitura do« Profetas, explicava a mensagem por meio de uma paráfraso, a tlm de tornar o texto mais compreensível ao seu contexto histórico. F»l» tradução era necessária devido ao fato de o Aramaico ter sido cu lti­ vado desde o exílio pelo povo judeu, e era melhor entendido do qu*

o Hebraico,

exceto

pela

elite

intelectual

que

sempre

preservou

o

estudo da sua língua

materna, falando

e escrevendo neste

idioma

Após

a leitura

dos

textos

sagrados, qualquer

pessoa

da congre­

gação, que fosse considerada competente, recebia o convite para

pronunciar o sermão (Cf. Lc 4.16ss; A t

13.15ss).

Esta

era

a

parte

mais

importante

do

Culto.

 

6)

Uma

bênção

pronunciada

por

algum

membro

sacerdotal

congregação ou,

na

ausência

de

alguém

com

qualificações

sacerdo­

tais,

em vez

da

bênção,

havia

uma

oração.

 

Podemos

enquadrar

estes

seis

itens

em

três

elementos

princi­

pais,

os

quais

constituem

 

o

culto

(liturgia)

na

Sinagoga:

I

LOU­

VOR (itens

1,

2

e

3);

II

ORAÇÕES

(itens

4

e

6);

III

INSTRU­

ÇÃO (item

5).

 

O

Dr.

R.

H.

Gundry, comentando o ritual

deste

culto,

escreveu:

 

“ Os

cânticos

não

eram

acompanhados de instrumentos mu­

sicais. A

se

todos

fim

de

ler algum

rolo do Antigo

Testamento,

o

orador

punha de

pé. Ao

pregar, ele

de pé”

(34).

se sentava. Quando das orações,

se erguiam

O Culto

Cristão,

desta forma,

encontrou

ricos

elementos

na

Li­

turgia da Sinagoga, elementos estes, que foram usados, adaptados e

transformados, de acordo com uma visão nova, fruto da fé cristã, ensinada pelo próprio Jesus Cristo: “ Deus é Espírito e importa que

os seus adoradores o adorem em espírito e em verdade” (Jo 4.24) (35),

liturgia que foi sendo amadurecida de acordo com o registro dos Evangelhos (entre os anos 60 e 96 AD) e dos demais livros do Novo Testamento (49-96 AD), encontrando a sua efetivação e maturação históricas no desenvolver conceituai da Igreja, mediante a direção e iluminação do Espírito Santo, o qual não veio trazer nada de novo, exceto ensinar o que Deus já revelara (Jo 14.26; 16.13).

Como sinal evidente

de uma transformação

dos elementos judai­

cos feita pela Igreja Cristã,

passou a se reunir diariamente (At 2.42-47) e, posteriormente, no primeiro dia da semana, devido a ressurreição de Jesus ter ocorrido neste dia: Domingo (Jo 20.1,19; A t 20.7; 1 Co 16.2; Ap 1.10) (36),

pois, o espírito do Culto passou a ser primordialmente de adoração

ti Deus, celebrando a ressurreição de Cristo, que assinala a vitória

de um

da

tlvor

novo dia para todo aquele que

constata-se que desde o início a Igreja

vida sobre

o

coração

a morte:

o raiar

despertado pela

“ A atenção naqueles cultos de comunhão não se centrali­ zava tanto nos acontecimentos da Sexta-feira Santa como nos do Domingo de Ressurreição. Uma nova realidade havia amanhecido, e os cristãos se reuniam para celebrá-la e para se fazerem par­ ticipantes dela” (37).

6.

LITURGIA

DA

IGREJA

CRISTÃ

NO

PERÍODO

Para analisar este período, obviamente temos

POS-APOSTÓLICO

de

recorrer

à

lite­

ratura extra-bíblica pois a época estudada se refere ao período do segundo século em diante da Era Cristã. O período apostólico, entre­ tanto, é restrito ao primeiro século, tendo os escritos do Apóstolo João sido redigidos por volta do ano 95 AD, sendo estes, os últimos livros que compõem o Cânon, em termos de redação.

Quero dizer, ainda, que para que o nosso estudo se torne mais claro, se faz necessário fazermos algumas citações de documentos da época ou, em outros casos, de historiadores do período e algumas destas citações serão um tanto extensas, para as quais peço a gentil paciência do le ito r

A nossa abordagem começará por Plínio, o Jovem (c. 62-113 AD). Plínio foi enviado pelo Imperador Trajano (53-117 AD) (o qual cruci­ ficou a Simão, irmão de Jesus, bispo de Jerusalém, no ano 107 e lançou a Inácio, bispo de Antioquia, às feras em Roma, no ano 110), à Ásia Menor para sanar um problema existente: O número de cris­ tãos tinha aumentado tanto, que os templos pagãos estavam quase que totalmente desertos e, conseqüentemente, tais cristãos não ve­ neravam a imagem do Imperador, nem adoravam os deuses roma­ nos (38). Para resolver tal questão, Plínio dispunha de poderes am­

que

plos, podendo até mesmo usar da força, se fosse p re c is o

de fato ele fez. Contudo, havia alguns casos a respeito dos quais

ele preferiu escrever para o Imperador Trajano, a fim de saber como

solucioná-los

do ano 112 AD, vamos saber que os cristãos, durante o interrogató­ rio, disseram que:

O

E, através de uma destas cartas, escrita por volta

 

(

.

.

.

)

sua culpa se

reduzia apenas a isto:

em

determinados

dias

costumavam

comer

antes

da

alvorada

e

rezar

responsiva-

mente

 

hinos a Cristo,

como

a

um

d e u s

"

(39).

No

“ Didaquê” , ou

“ Ensino

dos

Doze

Apóstolos” ,

obra

escrita

possivelmente em meados do segundo século, por um autor desco­ nhecido, encontramos uma descrição da concepção litúrgica existente:

graças, após

confessardes vossos pecados, a fim de que seja puro o vosso sacrifício. Se alguém tiver qualquer contenda com seu compa­ nheiro, não se reúna convosco enquanto não se reconciliar, para que não seja profanado o vosso sacrifício. Pois este é o sacra­ mento do qual diz o Senhor ‘Em todo lugar e em todo tempo oferta-se-me um sacrifício puro, porque eu sou um grande rei, diz o Senhor, o meu nome é admirável entre os gentios’ (Ml 1. 11,14)” (40).

"Reunidos

no dia

do Senhor,

parti

o

pão

e

dai

Justino,

o

M ártir

(100-167

AD),

que

escreveu

por

volta

do

ano

150, sua Apologia, “ dirigida ao Imperador Antonino Pio e a seus fi­ lhos adotivos, defendendo o cristianismo contra a perseguição gover­ namental e as críticas pagãs” (41), assim descreve o culto cristão:

“ No dia denominado de dia de sol (42) há uma reunião de todos aqueles que vivem tanto nas cidades como no campo. Ali se dá a leitura das Memórias dos apóstolos (43) ou das Escri­ turas dos Profetas até onde o tempo permite. Terminada a leitura o presidente faz uso da palavra para nos admoestar e nos exor­ tar a imitação e prática dessas coisas admiráveis. Logo nos le­ vantamos e oramos juntos. Terminada a oração, do modo como já foi dito, traz-se pão e vinho com água. O presidente dirige a Deus orações e ações de graça, o povo aquiesce com a aclama­ ção: Amém. E se procede a distribuição dos elementos eucarís­ ticos entre todos (44), enviando-se também, mediante os diáco­ nos, aos que estão ausentes" (45) (46).

Quando os historiadores comentam o Culto nos séculos II e III da era cristã, observam que a atmosfera que os cristãos respiravam estava carregada das influências advindas das religiões de mistério. Justino, em sua já aludida obra, constata que a Santa Ceia já tinha sido copiada pelos pagãos, escrevendo:

“ Esta instituição foi

imitada

e ordenada pelos demônios per­

versos

nos m istérios

de

Mitra,

pois,

como

conheceis

ou

podeis

conhecer,

em

suas cerimônias

de

iniciação, são apresentados

o

pão

e

um

cálice

de água

acompanhados

da

repetição

de

certas

fórm ulas"

(47).

A possível explicação para tal sincretismo adoracional se deve

da época, a qual carrega consigo uma he­

rança de vários séculos, de adaptações sincréticas na forma cúltica (48) e também "pelo grande crescimento da Igreja, por meio da con­ versão de muitos pagãos, durante a primeira metade do século III" (49).

a uma

tendência

natural

Notemos que esta prática eclética continuou de forma gradativa

através dos te m p os

tribuíram para isso. Contudo, isto é assunto para um outro trabalho e, por certo, não da minha pena; todavia, podemos observar alguns

pontos relevantes

Assim, quando o historiador W. Walker faz

alusão ao culto cHstão nos séculos IV e V, escreve:

É claro que houve fatores

históricos que con­

“ O culto público nos séculos IV e V estava inteiramente

sujeito à influência do conceito de disciplina secreta, a assim chamada disciplina arcani (50), provavelmente originária de con­ cepções semelhantes às religiões de mistério, ou delas prove­ nientes. Suas raízes remontam, ao que parece, ao século III. Sob

a influência de tais fatores, os ofícios dividiam-se em duas par­

tes. A primeira era franqueada aos catecúmenos e ao pública em geral, incluindo leitura da Escritura, cânticos, o sermão e a oração. À segunda, o verdadeiro mistério cristão, só eram admi­ tidos os batizados. Seu ápice era a Ceia do Senhor, mas o credo

e a oração dominical eram também reservados aos iniciados por

meio do batismo (51). A disciplina secreta terminou com o de­ saparecimento do catecumenato, no século VI, partindo do pres­ suposto de que a população era agora cristã.

“ A parte pública da adoração dominical iniciava-se com a

leitura da Escritura, entremeada do cântico de salmos. Essas seleções apresentavam três passagens: os profetas, isto é, o Antigo Testamento; as epístolas e os Evangelhos. Eram esco­ lhidos de forma tal que no curso de domingos sucessivos se abrangesse a Bíblia inteira (52). No fim do século IV, começa­ ram a ser elaborados os lecionários, reclamados pela conve­ niência de let- seleções apropriadas a estações especiais e de abreviar certas passagens. Durante a luta ariana, tornou-se co­ mum o uso de hinos outros que não os salmos, prática que, no Ocidente, foi disseminada com grande sucesso por Ambrósio de Milão (53).

IV

mais que quaisquer outras, a era dos grandes pregadores da Igreja antiga. Entre os mais eminentes contavam-se Gregório de

metade do V foi,

“ A

última

parte

do século

e a primeira

Nazianzo, Crisóstomo e Clrllo de Alexandria, no Oriente; Am- brósio, Agostinho e Leão I, no Ocidente. A pregação era, em sua maior parte, de caráter expositivo, embora acrescida de aplicações simples aos problemas da vida cotidiana. Sua forma era não raro altamente retórica, e os ouvintes manifestavam sua aprovação por meio de aplausos” (54).

O antigo respeito para com os mártires, que desde o segundo

século se caracterizou, dentre outras coisas, pelo fato de a igreja

“ se reunir

celebrar a comunhão” (55), transformou-se em culto (56), surgindo assim, nos dizeres de Harnack, “ um cristianismo popular de segunda classe” .

Depois das últimas perseguições nos séculos IV e V, os novos

convertidos tendiam

res miraculosos que atribuíam aos seus antigos deuses pagãos, ao

Deus

as

tumbas dos mártires se tornassem local de peregrinações; e os pró­ prios locais se tornaram alvos de orações, de intercessão, de supos­ tos milagres como se fossem protetores de cidades, entidades, fa­

mílias, etc. A própria mãe de Constantino, Helena, empreendeu uma peregrinação a Jerusalém, crendo ter sido encontrada ali a verdadei­ ra cruz de Cristo.

junto às suas tumbas no aniversário de sua morte para

a transferir

apóstolos

e

parte

da reverência

cúitica

a pode­

cristão

Notemos

e

aos

m á rtire s

que, a partir

daí, bastou apenas um

passo

para que

A virgem

Maria,

a segunda

Eva, como

na adoração

sou a ocupar o

lugar principal

entendia

popular.

lrineu

(57),

pas­

“ A

ela transferiu-se

muito

do sentimento

que se expressara

no culto

das deusas-mães do Egito, da Síria

e

da

Ásia

e

da Ásia

Menor, embora em forma

muitíssimo

mais

elevada"

(58).

 

“ Em

Éfeso,

parte

da adoração

tributada

a Diana

foi

transfe­

rida

à virgem

Maria,

e

se diz

que

ela tomou

posse

dos santuá­

rios

de Ceres

e Vênus

na S icília"

(59).

 

Ela transformou-se numa mediadora entre Deus e o hom em

anjos foram adorados, especialmente M ig u e l

Neste período, os

Constantino construiu um templo em sua homenagem perto deCons­ tantinopla, fazendo o mesmo em honra de São Pedro

Tudo

isto

foi

apenas

uma

preparação

para

a

canonização

dos

“ santos”

Era a igreja cristã

que se