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Linguagem Fotográfica

Material Teórico
Análise da Imagem – Níveis Compositivo e Narrativo

Responsável pelo Conteúdo:


Prof.ª Me. Rita Garcia Jimenez

Revisão Textual:
Prof.ª Me. Natalia Conti
Análise da Imagem – Níveis
Compositivo e Narrativo

• Introdução;
• Análise da Imagem – Nível Compositivo;
• Análise da Imagem – Nível Narrativo;
• Conclusão.

OBJETIVO DE APRENDIZADO
· Conhecer os elementos básicos para a leitura de uma imagem foto-
gráfica nos níveis compositivo e narrativo;
· Identificar em fotografias os elementos que compõem os níveis com-
positivo e narrativo para análise de uma imagem;
· Realizar análise de imagem fotográfica a partir do uso de fichas espe-
cíficas para os níveis compositivo e narrativo.
Orientações de estudo
Para que o conteúdo desta Disciplina seja bem
aproveitado e haja maior aplicabilidade na sua
formação acadêmica e atuação profissional, siga
algumas recomendações básicas:
Conserve seu
material e local de
estudos sempre
organizados.
Aproveite as
Procure manter indicações
contato com seus de Material
colegas e tutores Complementar.
para trocar ideias!
Determine um Isso amplia a
horário fixo aprendizagem.
para estudar.

Mantenha o foco!
Evite se distrair com
as redes sociais.

Seja original!
Nunca plagie
trabalhos.

Não se esqueça
de se alimentar
Assim: e de se manter
Organize seus estudos de maneira que passem a fazer parte hidratado.
da sua rotina. Por exemplo, você poderá determinar um dia e
horário fixos como seu “momento do estudo”;

Procure se alimentar e se hidratar quando for estudar; lembre-se de que uma


alimentação saudável pode proporcionar melhor aproveitamento do estudo;

No material de cada Unidade, há leituras indicadas e, entre elas, artigos científicos, livros, vídeos
e sites para aprofundar os conhecimentos adquiridos ao longo da Unidade. Além disso, você
também encontrará sugestões de conteúdo extra no item Material Complementar, que ampliarão
sua interpretação e auxiliarão no pleno entendimento dos temas abordados;

Após o contato com o conteúdo proposto, participe dos debates mediados em fóruns de discus-
são, pois irão auxiliar a verificar o quanto você absorveu de conhecimento, além de propiciar o
contato com seus colegas e tutores, o que se apresenta como rico espaço de troca de ideias e
de aprendizagem.
UNIDADE Análise da Imagem – Níveis
Compositivo e Narrativo

Introdução

Figura 1 – Astrid Kirchherr. Os Beatles, parque de diversões Hugo Hasse, 1960


Fonte: Hacking, 2012

O papel da composição é mais bem explicado em uma analogia com o


mundo da música. A fotografia é mais ou menos como o jazz – um estilo
de música baseado na improvisação e na expressão pessoal, mas cons-
truído sobre uma estrutura sólida de acordes e de progressão de acordes.
Quando falamos, não pensamos conscientemente na gramática de nossa
língua; do mesmo modo, precisamos praticar a composição até que ela se
torne algo totalmente natural. Podemos fazer isso experimentando com
elementos formais isolados e examinando o maior número possível de
imagens com boas composições. (PRÄKEL, 2010, p. 8)

O processo de criação fotográfica se inicia quando você escolhe aquilo que quer
fotografar – ou quando um objeto ou uma cena escolhem você. O trabalho se
inicia com estudo, exploração e reflexão sobre o assunto, segue com a seleção e
a análise daquilo que nos interessa e se conclui quando o olhar do espectador fixa
na imagem final. Entretanto, o olho e a câmera não veem as mesmas coisas, uma
fotografia não reproduz a mesma cena que enxergamos. A câmera grava apenas
uma parte da cena maior, reduzindo-a a duas dimensões.

Outra questão importante: quando olhamos para uma cena, naturalmente


selecionamos alguns elementos, enquanto que a câmera registra tudo, todos os
detalhes. “Elementos que não percebemos podem tornar-se dominantes quando
vistos em uma foto” (LOWE, 2017, p. 23).

Uma das melhores formas de entender os elementos que tornam uma imagem
bidimensional interessante é analisar vários tipos de imagens, não apenas fotogra-
fias, mas também obras de arte, afinal, todo artista tem de trabalhar com a orga-
nização do espaço dentro do quadro, por exemplo. Quanto mais imagens você
analisar com atenção, mais irá melhorar a composição de suas próprias fotografias.

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Figura 2 – Mario Guti. Camera capturing a forest
Fonte: iStock/Getty Images

Desde o início da fotografia, no início do século XIX, a composição tem sido


uma das questões de maior interesse de profissionais e amadores. Nesses primeiros
anos, muitos dos princípios de composição da pintura foram praticamente impos-
tos à fotografia. Mas fotógrafos mais ousados perceberam que podiam fazer mais,
afinal, estavam com um meio único, com qualidades distintas, e encontraram seus
próprios caminhos.

Hoje, dispositivos popularizaram a fotografia e qualquer pessoa pode ser um


fotógrafo, sem que haja necessidade de conhecimento formal das leis da composi-
ção. Isso se deu em grande parte pela popularização dos smartphones, pequenos
e compactos, com interface amigável e várias opções de conectividade sem fio e
compartilhamento. No pós-moderno, fotógrafos e artistas fotográficos se apropria-
ram da fotografia casual, ou instantâneo, para fins criativos. As imagens jornalísti-
cas e publicitárias, por exemplo, auxiliam na criação de novos tipos de composição
e de forma muito mais estilizada.

Como o fotógrafo escolhe a parte do mundo que vai enquadrar, a composição


passa a ser a expressão da sua personalidade. Assim, quebrar regras pode repre-
sentar a criação do seu jeito de fotografar.

Análise da Imagem – Nível Compositivo


A composição é o processo de identificação e organização de elementos para a
produção de uma imagem. Tudo o que está em uma imagem forma a sua composição.

Existem vários itens que podem ser analisados na composição de uma fotografia
e inúmeras propostas de autores para essa análise. Destacamos, a partir de agora,
alguns desses itens e seus aspectos mais relevantes no nível compositivo.

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UNIDADE Análise da Imagem – Níveis
Compositivo e Narrativo

Perspectiva
Ao olharmos uma fotografia não temos dificuldades em identificar formas e pro-
porções dos objetos retratados. Isso ocorre porque a imagem contém indicações
que nos auxiliam a identificar essas características como, por exemplo, a perspec-
tiva. A partir dela, obtemos informações sobre a forma e o tamanho de objetos
e de pessoas, em decorrência da posição da qual são vistos. Assim, é importante
dominar as propriedades da perspectiva como linhas convergentes, pontos de fuga
e linha do horizonte.
a) Linhas convergentes:

Na fotografia, as linhas convergentes são uma das formas mais eficazes de se


conferir profundidade à imagem (ZUANETTI, 2002). Exemplo: trilhos de uma li-
nha férrea se estendendo por um longo caminho (Figura 3). Aparentemente, a dis-
tância entre os trilhos vai se tornando cada vez menor à medida que eles se afastam
do observador até que parecem se unir; entretanto, sabemos que essa distância
permanece sempre a mesma.

A perspectiva também pode sugerir que objetos e pessoas do mesmo tamanho


pareçam diferentes. Quando olhamos ao longo de uma rua com edifícios da mesma
altura, os mais distantes parecem menores e mais estreitos dos que os mais próxi-
mos. Entretanto, nosso cérebro interpreta a imagem e nos leva a concluir que os
prédios têm o mesmo tamanho.

Figura 3 – Joel Sternfeld. Artefato ferroviário, Rua 30, maio de 2000, 2000
Fonte: Hacking, 2012

b) Ponto(s) de fuga:

Em uma linha férrea, por exemplo, o ponto final para o qual os trilhos tendem
é identificado como ponto de fuga (Figura 4). Mas, uma imagem pode ter mais de
um ponto de fuga. Em uma fotografia de um edifício de esquina, por exemplo,
podemos ver claramente dois pontos de fuga, um de cada lado do prédio (Figura 5).

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Figura 4 – Joel Sternfeld. Artefato ferroviário, Rua 30, maio de 2000, 2000
Fonte: Hacking, 2012

Figura 5 – Autor desconhecido. Sucursal do Banco da Província do


Rio Grande do Sul, em Pelotas (RS), s/d
Fonte: Adaptado pelo conteudista

c) Linha do horizonte:

A escolha da posição do horizonte é um dos recursos mais importantes para se


dar ênfase ao tema, criar efeitos especiais ou equilibrar os elementos da fotografia.
A linha do horizonte (LH) atua ainda como uma escala de referência, conforme
sua posição: LH no terço superior (Figura 6), LH centralizada (Figura 7) ou LH no
terço inferior (Figura 8). Conforme sua posição, as proporções entre os elementos
da foto se alteram.

Figura 6 – Peter H. Emerson. Levando a turfa para casa de barco, 1886


Fonte: Hacking, 2012

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UNIDADE Análise da Imagem – Níveis
Compositivo e Narrativo

Figura 7 – Hiroshi Sugimoto. Oceano Atlântico Norte, ilha de Cape Breton, 1996
Fonte: timeinart.altervista.org

Figura 8 – John Stanmeyer. Sinal: migrantes africanos pobres se reúnem


à noite na costa da cidade de Djibuti, 2013
Fonte: Lowe, 2017

Regra dos Terços


Conforme Lowe (2017), o método de composição conhecido como regra dos
terços já era usado na Grécia antiga. O sistema divide um quadro (uma fotografia,
por exemplo) em terços, tanto horizontal quanto verticalmente, resultando em quatro
linhas e quatro pontos de intersecção entre eles – chamados de “pontos de ouro” –,
criando uma espécie de grade imaginária (Figura 9), justamente onde os nossos olhos
têm maior atenção. Se os elementos da composição estiverem dispostos ao longo
dessas linhas e pontos, a imagem parecerá bem composta e equilibrada com o objeto
adquirindo maior força e peso visual (Figura 10).

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Linha vertical Linha vertical
esquerda direita

Linha horizontal
superior

Linha horizontal
inferior

Figura 9 – Localização das linhas e dos pontos de interesse (em vermelho)


em uma fotografia, conforme a regra dos terços

Figura 10 – Eddie Adams. Chefe da polícia nacional sul-vietnamita


Nguyen Ngoc Loan executa um suporto vietcongue, 1968
Fonte: Adaptado pelo conteudista

Pose
A pose é importante na análise fotográfica, especialmente nos gêneros retrato e
documental. Descrevemos se a fotografia pretende captar a espontaneidade de um
gesto (Figura 11), ou se o modelo posa conscientemente, identificada como foto
posada (Figura 12).

Figura 11 – Weegee. O primeiro assassinato, 1941


Fonte: Lowe, 2017

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UNIDADE Análise da Imagem – Níveis
Compositivo e Narrativo

Figura 12 – Jeff Wall. Autorretrato duplo, 1979


Fonte: Hacking, 2012

Outras Informações
Nesta seção, podem ser acrescentadas informações que não estejam contempla-
das na ficha e que contribuam para a análise fotográfica da imagem.

Ficha Para Análise Fotográfica – Nível Compositivo


A ficha 3 (a ficha 1, apresentada anteriormente, se refere ao nível técnico; e a
ficha 2, apresentada na Unidade anterior, se refere ao nível morfológico), contem-
pla elementos do nível compositivo apresentados nesta unidade, tendo como base
Felici (2004). A adaptação busca facilitar a análise fotográfica por meio da identifi-
cação de elementos constantes nas imagens a serem avaliadas.

Quadro 1 − Ficha para análise fotográfica:


Nível compositivo
Fotografia

Quadro 2 − Ficha 3: Nível Compositivo


Elemento Sim/Não Análise
• Perspectiva;
• Linhas convergentes;
• Pontos de fuga;
• Linha do horizonte.
Regra dos Terços
Pose
Outras Informações
Comentários
Análise realizada por:
Fonte: Adaptado de Felici (2004)

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Quadro 3 − Ficha para análise fotográfica:
Nível compositivo (Exemplo)
Fotografia

Figura 13 – Arnold Newman. Alfried Krupp,


Essen (Alemanha Ocidental), 1963
Fonte: Cátedra, 2009

Quadro 4 − Ficha 3: Nível Compositivo


Elemento Sim/Não Análise
• Perspectiva;
Grande profundidade de campo; forte perspectiva, proporcionando
• Linhas convergentes;
dinamismo à imagem. Um ponto de fuga, exatamente no centro da
• Pontos de fuga;
imagem. Há uma simetria com o personagem ao centro.
• Linha do horizonte.
A imagem possui dois centros visuais bem demarcados: o centro
geométrico, que coincide com o ponto de fuga (reforçado por uma luz);
e o rosto do retratado, que é cortado pela linha horizontal inferior.

Regra dos Terços

Figura 14 – Arnold Newman. Alfried


Krupp, Essen (Alemanha Ocidental), 1963
Fonte: Adaptado pelo conteudista

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UNIDADE Análise da Imagem – Níveis
Compositivo e Narrativo

Elemento Sim/Não Análise


Fotografia é posada. A imagem é estática, característica do gênero
Pose
retrato.
Outras Informações

Comentários Composição extremamente calculada, com uma organização interna estudada.

Análise realizada por: Rita Jimenez


Fonte: Ficha e conteúdo adaptados de Felici (2009)

2. Análise da Imagem – Nível Narrativo

Figura 15 – Robert Capa. Multidões correndo para o abrigo depois


de um alarme antiaéreo soar, Bilbao, 1937
Fonte: Lowe, 2017

Introdução
A realidade nos oferece tanta riqueza que precisamos remover parte dela
imediatamente para simplificar. A questão é: sempre removemos o que
deveríamos remover. Henri Cartier-Bresson (LOWE, 2017, p. 261)

A fotografia possui presença frequente e marcante na vida das pessoas, seja


em álbuns de família, jornais, revistas, na publicidade, ou em páginas, blogues
e redes sociais que circulam pela internet, ampliando o registro de imagens de
forma geométrica. Desde o advento da fotografia no século XIX, naturalizou-se a
ideia de que o que está na fotografia é real, existe ou existiu de alguma forma, em
algum momento. Entretanto, em um mundo dominado pela imagem digital, cuja
produção e acesso estão ao alcance de um número cada vez maior de pessoas,
“algumas certezas que temos em relação a estas imagens podem ser colocadas em
dúvida, juntamente com a ideia de representação da realidade” (PAZ; OLIVEIRA,
2013, p. 36). Na internet, imagens podem ser modificadas, publicadas, copiadas,
compartilhadas; podem ser usadas para diferentes fins e inúmeras interpretações
podem ser feitas.

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De qualquer forma, seja analógica ou digital, a fotografia, na medida em que
representa uma parte da realidade (ou simula sua representação, no caso de fotos
modificadas), pressupõe a existência de um olhar narrativo. Neste sentido, Felici (2004)
propõe um conjunto de conceitos a partir dos quais é possível refletir, desde a atitude
dos personagens, a presença ou ausência de qualificadores ou marcas textuais, a
transparência narrativa, os mecanismos narrativos (identificação versus distanciamento),
até o estudo das relações intertextuais, que a imagem fotográfica proporciona.

Análise da Imagem – Nível Narrativo


Atitude dos Personagens
A atitude dos personagens em uma fotografia pode revelar ironia, sarcasmo,
exaltação de determinados sentimentos, alegria, desafio, violência, etc., e, conse-
quentemente, promover emoções no espectador. Essas atitudes podem ser estu-
dadas a partir do exame da encenação e da pose dos participantes da fotografia.

Em New Brighton, Inglaterra 1985 (1985) (Figura 16), o fotógrafo inglês Mar-
tin Parr (1952-), um observador sutil – mas agudo – do cotidiano volta sua câme-
ra para o resort litorâneo decadente, representando uma mudança na fotografia
documental britânica e a sua aceitação como uma prática artística. São retratadas
famílias se divertindo, comendo e tomando sol em meio aos seus próprios detritos
sem qualquer problema ou constrangimento. No centro da foto, um casal de idosos
consome tranquilamente alguns petiscos, enquanto olham para alguém ou algo
fora do quadro. O bebê, no carrinho, toma um sorvete de casquinha. E a mulher
em pé de blusa azul (à direita) aponta para algo também além do quadro. O uso
de flash, em dias de verão brilhantes, lentes grandes-angulares e profundidade de
campo, teve como resultado cores vivas e berrantes. Parr é reconhecido por seu
fascínio por narrativas não relacionadas entre si (HOBSON, in Hacking, 2012).

Figura 16 – Martin Parr. New Brigton, Inglaterra, 1985


Fonte: Hacking, 2012

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UNIDADE Análise da Imagem – Níveis
Compositivo e Narrativo

Olhar dos Personagens


O exame dos olhares dos personagens é outro aspecto que pode dar muitas in-
dicações sobre as suas atitudes. Em certas ocasiões, esses olhares constituem uma
interpelação direta ao espectador, ou a outros personagens do campo visual. Por
outro lado, os olhares podem dirigir-se para fora de campo, o que sublinha a sua
importância. Conforme Felici (2004), o estudo deste parâmetro não está isento da
carga subjetiva do analista, já que essas atitudes podem ser indefinidas.

Em determinados gêneros, como a fotografia documental, por exemplo, a pre-


sença do fotógrafo é sistematicamente ocultada quando os personagens não olham
diretamente para a câmera. Assim, a fotografia obtida mostra uma ação, situação,
relações de força, etc., que tem como efeito um maior realismo, o qual deve ser
vinculado com o efeito discursivo da impressão de realidade. Já o olhar para a câ-
mara do personagem protagonista constitui uma interpelação direta, desafiante, ao
espectador da imagem. Em determinadas ocasiões, de acordo com Felici (2004),
essa característica reforça a presença da câmera, rompendo, em parte, com a re-
alidade fotográfica.

Anna Fox (1961-) é da segunda geração de fotógrafos documentaristas britânicos,


que trabalha com cores e que veio depois de Martin Parr, entre outros. Crítica
mordaz da vida em escritórios na Grã-Bretanha, da primeira-ministra Margaret
Thatcher (1925-2013), nas décadas de 1980 e 1990, ela frequentemente isolava
os personagens por meio do enquadramento e corte, muitas vezes fazendo parecer
que as pessoas eram engolidas por seus ambientes. Em Estações de trabalho,
café, a cidade. Vendedor (9) “Fazem-se fortunas que estão de acordo com
os sonhos da avareza.” Negócios 1987 (Figura 17), da série Work Stations
(1987-1988), Anna mostra os excessos do consumo no período. O flash congela o
trabalhador no exato momento em que ele leva o alimento à boca, com seus olhos
sugerindo êxtase naquele momento (Lowe, 2017).

Figura 17 – Anna Fox. Estações de trabalho, café, a cidade. Vendedor (9) “Fazem-se fortunas
que estão de acordo com os sonhos da avareza.” Negócios 1987, 1987
Fonte: Lowe, 2017

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Em gêneros como o retrato, é habitual (mas não obrigatório) que a pose do sujeito
fotografado inclua o olhar para a câmera. Os retratos de Paul Strand (1890-1976)
são um bom exemplo. Os temas são apresentados para a câmera de uma forma
simples e direta, enfatizando as características do fotografado, normalmente pessoas
comuns, sem efeitos visuais de luz ou de posicionamento, tanto do fotógrafo quanto
do modelo. “Gosto de fotografar pessoas que têm força e dignidade em seus rostos,
independentemente do que a vida tenha feito a elas”, afirmou Strand (Lowe, 2017, p.
120). Em Jovem rapaz, Gondeville, Charente, França (1951) (Figura 18), Strand
apresenta um jovem cujos olhos extremamente expressivos exigem fortemente a
atenção do observador. Além disso, a interação entre pele, textura e granulação do
fundo de madeira têm uma harmonia, resultado da luz suave presente em grande
parte da imagem. Conforme Lowe (2017), as pessoas posavam para o fotógrafo
sempre na sombra, em um local onde a luz direta não incidia.

Figura 18 – Paul Strand. Jovem rapaz,


Gondeville, Charente, França, 1951
Fonte: Lowe, 2017

Interação Entre os Personagens e Com o Espectador


Neste item são analisados o grau de interação do sujeito fotografado com o seu
entorno e entre outros personagens, além do grau de proximidade ou de afastamento
que a instância narrativa promove no espectador da fotografia. Um exemplo é a
imagem de Allan Sekula (1951-2013), da série À espera do gás lacrimogêneo
(globo branco vira preto) (2000) (Figura 19). Durante cinco dias, ele fotografou
os protestos contra a reunião de cúpula da Organização Mundial do Comércio,
em Seattle (Estados Unidos), em 1999. Politicamente engajado, ele acompanhou
o fluxo das manifestações sem flash, teleobjetiva ou credencial de imprensa,
movendo-se como parte integrante da multidão. Na figura 19, Sekula mostra um
manifestante mascarado, usando uma fantasia vermelha de diabo com uma serra
elétrica de papelão na mão, olhando para o fotógrafo (e, consequentemente, para
o espectador) como se o tivesse desafiando. A câmera de 35 mm, a iluminação da
rua e a ausência de manipulação digital resultaram em imagens de baixa qualidade
técnica, fundamentais para seu objetivo de realismo crítico e, consequentemente,
de integração com o espectador.

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UNIDADE Análise da Imagem – Níveis
Compositivo e Narrativo

Figura 19 – Allan Sekula. Sem título, da série À espera do gás


lacrimogêneo (globo branco vira preto), 2000
Fonte: Hacking, 2012

Expressão do Fotógrafo
Em uma análise de um texto visual é possível reconhecermos a marca expressiva
do fotógrafo. Conforme Felici (2004), podemos identificar duas estratégias
principais na expressão fotográfica. Por um lado, a que se serve de modelos
realistas da encenação, presentes, principalmente na fotografia documental; e, por
outro lado, a estratégia discursiva baseada em modelos não realistas. Esta última é
muito mais ampla e complexa de se definir devido a sua natureza metafórica – na
qual se estabelecem relações imaginárias entre os elementos ou signos visuais. “Na
metáfora, a relação entre o signo e o referente não existe por continuidade, mas é
absolutamente livre, o que explica a virtualidade de leituras múltiplas que motivam
os discursos artísticos”, salienta Felici (2004).
Neste aspecto, podemos citar a identificação e o distanciamento como duas
estratégias narrativas que implicam efeitos discursivos muito diferentes no espec-
tador. A identificação é mais frequente nas fotografias nas quais a impressão de
realidade é o principal objetivo como, por exemplo, na fotografia documental,
que procura, com frequência, uma resposta emotiva do espectador e um efeito de
identificação do público. Henri Cartier-Bresson (1908-2004) foi um mestre nesse
sentido. Em Sevilha, Andaluzia, Espanha (c. 1930) (Figura 20), ele fotografou
crianças na Espanha durante os dias que antecederam a Guerra Civil no país.
Já o distanciamento é um efeito discursivo que se produz, quando o espectador
está consciente da natureza artificial da representação fotográfica, como acontece
em algumas propostas estéticas de Duane Michals (1932-) (Figura 21), Joel-Peter
Witkin (1939-) e Robert Mapplethorpe (1946-1989), entre outros.

Figura 20 – Henri Cartier-Bresson. Sevilha, Andaluzia, Espanha, c.1930


Fonte: Hacking, 2012

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Figura 21 – Duane Michals. O anjo caído, 1968
Fonte: Lowe, 2017

Henri Cartier-Bresson (1908-2004) não tirava apenas uma única fotografia decisiva.
Conforme Präkel (2010, p. 131), em um filme no qual ele aparece trabalhando, o fotógrafo é
Explor

visto tirando fotos quase que continuamente. “Seu talento estava em reconhecer o momento
da união dos elementos emocionais e composicionais e encontrar esse quadro em meio às
suas imagens”, afirma o autor. O estudo dos retratos de artistas feitos por Cartier-Bresson
mostra exatamente isso. Em um retrato do artista suíço Alberto Giacometti (1901-1966),
o fotógrafo captura uma imagem emblemática (segundo Präkel, sem intenção), na qual
Giacometti parece imitar uma de suas próprias obras (Figura 22).

Figura 22 – Henri Cartier-Bresson. Alberto Giacometti, 1961


Fonte: henricartierbresson.org

Relações Intertextuais
É importante destacar que todo o texto se relaciona sempre com outros textos
que o precederam. O fotógrafo, obviamente, sofre influência do trabalho de outros
fotógrafos, das artes – pintura, escultura, do cinema e também da televisão, da li-
teratura, etc. Felici (2004) lembra que aparecem em trabalhos fotográficos motivos
iconográficos, “o que supõe estabelecer uma relação entre um conceito com figu-
ras, alegorias, representações narrativas ou ciclos, como a paixão (como motivo
religioso), os anjos (romantismo), o cemitério, etc.” (FELICI, 2004, online). O au-
tor alerta, entretanto, que a competência de leitura do analista é fundamental para
a detecção desses tipos de relações intertextuais presentes na fotografia estudada.
Ele cita três formas de registro dessas influências no texto fotográfico:

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UNIDADE Análise da Imagem – Níveis
Compositivo e Narrativo

a) Citação – Consiste na presença literal de uma obra de outro fotógrafo,


artista, criador, etc;
b) Colagem – Técnica que se baseia explicitamente no uso de fragmentos de
outros textos visuais;
c) Reprodução – Consiste na utilização de determinados elementos carac-
terísticos ou mesmo obras de um fotógrafo, artista ou criador e combi-
ná-los de maneira que ofereçam ao espectador a impressão de se tratar
de uma criação independente.

Outras informações
Na análise da imagem, em outras informações, podem ser agregados outros
conceitos, fontes, filmes, documentários, livros, etc., que possam auxiliar ou estar
relacionados com o nível interpretativo da análise fotográfica.

Ficha para análise fotográfica – Nível narrativo


A ficha 4, apresentada a seguir, contempla elementos do nível narrativo apre-
sentados nesta unidade, tendo como base Felici (2004). A adaptação busca facilitar
a análise fotográfica por meio da identificação de elementos constantes nas ima-
gens a serem avaliadas.

Quadro 5 − Análise Fotográfica: Nível Narrativo


Fotografia

Quadro 6 − Nível Narrativo


Elemento Sim/Não Análise
Atitude dos personagens
Olhar dos personagens
Interação entre os personagens
e com o espectador
Expressão do Fotógrafo
Relações intertextuais:
• Citação;
• Colagem;
• Reprodução.
Outras informações
Comentários
Análise realizada por:
Fonte: adaptado de Felici (2004)

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Quadro 7 − Análise Fotográfica: Nível Narrativo (Exemplo)

Fotografia

Figura 23 – Annie Leibovitz. John Lennon e Yoko Ono, 1980


Fonte: Hacking, 2012

Quadro 8 − Ficha 4: Nível Narrativo


Elemento Sim/Não Análise
John Lennon literalmente se desnuda em frente à câmera de Annie. Uma das
maiores celebridades do mundo demonstra ser uma pessoa real, com seus
Atitude dos personagens medos e angústias, mas, que vê em Yoko seu porto seguro. Era a mais pura
realidade. “Você retratou nosso relacionamento exatamente como ele é”, disse
John a Annie.
Os olhos de John estão fechados, enquanto ele beija Yoko, indicando devoção.
Olhar dos personagens Os olhos de Yoko, entreabertos, estão direcionados para frente. Seu olhar parece
estar longe. Face praticamente sem expressão.
A pose encolhida e agarrada de John (sem roupas) junto ao corpo de Yoko
Interação entre os personagens (vestida) enfatiza vulnerabilidade por parte do ex-beatle. A mão esquerda de
e com o espectador John segura a cabeça de Yoko e, a sua mão direita, os cabelos. O beijo quem dá é
Lennon. Yoko parece estar distante. Seria premonição?
Annie Leibovitz se notabilizou por realizar retratos, especialmente de
Expressão do Fotógrafo
celebridades, cuja marca é a colaboração extrema entre ela e o retratado.
Relações intertextuais:
• Citação;
Não
• Colagem;
• Reprodução.

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UNIDADE Análise da Imagem – Níveis
Compositivo e Narrativo

Elemento Sim/Não Análise


Cinco horas depois de Annie ter tirado essa foto – para a revista Rolling Stone (Fig. 24) –,
John seria assassinado, na tarde de 8 de dezembro de 1980.

Outras informações

Figura 24 – Annie Leibovitz. Capa da revista


Rolling Stone, de 22 de janeiro de 1981
Fonte: Annie Leibovitz, Rolling Stone - 1981
Comentários
Análise realizada por: Rita Jimenez
Fonte: ficha adaptada de Felici (2004); análise baseada em Hacking, 2012, p. 471

Vamos tentar?
Explor

Com base nas fichas 3 e 4 – Análise fotográfica – Níveis compositivo e narrativo, apresentados
nesta unidade, analise a fotografia de Raghu Rai (Figura 25), que apresenta uma cena em
uma estação ferroviária de Mumbai (Índia).
Dicas:
• Confira o site da Magnun Photos: https://goo.gl/aYK1HQ;
• E também o livro Mestres da Fotografia, de Peter Lowe (Gustavo Gili, 2017, p. 220-221).

Figura 25 – Raghu Rai. Passageiros locais na estação


ferroviária Church Gate, Mumbai, 1995
Fonte: Lowe, 2017

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Conclusão
Não queremos finalizar a exposição da nossa metodologia de análise, sem
esquecer que o prazer visual é um fator-chave na recepção das imagens.
Caberia acrescentar que a própria atividade analítica não está isenta de
prazer, já que entender (ou crer entender) o sentido oculto (ou sentidos
ocultos) na mensagem fotográfica é uma atividade que também propor-
ciona prazer. Um sentimento aprazível que parece ser causado pelo fato
de se ter alcançado o êxito na análise. (Felici, 2004, online).

Como vimos, a interpretação do texto fotográfico, de caráter fundamentalmente


subjetivo, conforme Felici (2004), contempla a possibilidade de reconhecer a pre-
sença de oposições que se estabelecem no interior do enquadramento, a existência
de significados para os quais podem remeter as formas, cores, texturas, ilumina-
ção, etc.; como se constrói o texto fotográfico, por meio do exame da articulação
dos modos de representação do espaço e do tempo; que tipos de relações intertex-
tuais (com outros textos audiovisuais) podem ser identificados.

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UNIDADE Análise da Imagem – Níveis
Compositivo e Narrativo

Material Complementar
Indicações para saber mais sobre os assuntos abordados nesta Unidade:

  Sites
Brasiliana fotográfica
Iniciativa da Fundação Biblioteca Nacional e do Instituto Moreira Salles, o espaço
objetiva dar visibilidade, fomentar o debate e a reflexão sobre os acervos do gênero
documental, abordando-os enquanto fonte primária, mas também enquanto patrimônio
digital a ser preservado.
https://goo.gl/4CfKgT

 Filmes
Annie Leibovitz – A vida através das lentes
Direção: Barbara Leibovitz. Documentário, 90 min, Estados Unidos, 2007. Sinopse:
A vida da fotógrafa que registrou grandes imagens e se tornou tão conhecida
quanto as celebridades que fotografou. Annie Leibovitz produziu algumas das mais
famosas imagens dos últimos 30 anos. Glamour, riqueza e poder foram algumas das
características registradas por Annie em seus trabalhos para revistas renomadas no
mundo como Vogue e Rolling Stone. Porém, não só isso faz parte de seu extenso
portfólio, os horrores provocados pela guerra em Sarajevo e Ruanda também foram
documentados com seu estilo único de registro.

 Leitura
O olhar fotográfico: os princípios do design para a composição da fotografia
SCHONARTH, Ana Júlia. O olhar fotográfico: os princípios do design para a
composição da fotografia. Trabalho de Conclusão do Curso de Design – Linha de
Formação Específica em Design Gráfico do Centro Universitário Univates.
https://goo.gl/agQDsz
Análise documentária de fotografias: um referencial de leituras de imagens fotográficas para fins documentários
MANINI, Miriam Paula. Análise documentária de fotografias: um referencial de
leituras de imagens fotográficas para fins documentários. Tese apresentada ao
Departamento de Biblioteconomia e Documentação da Escola de Comunicações e
Artes da Universidade de São Paulo. São Paulo (SP), 2002.
https://goo.gl/Az1Lig

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Referências
FELICI, Javier Marzal. Cómo se lee una fotografia – Interpretaciones de la
mirada. Madri: Cátedra, 2009.

FELICI, Javier Marzal. Proposta de modelo de análise da imagem fotográfica –


Descrição dos conceitos contemplados. In: I Congresso de Teoria e Técnica dos
Meios Audiovisuais, Castellón (Espanha), 2004. Disponível em: <http://www.
analisisfotografia.uji.es/root2/meto_por.html>. Acesso em: 25 fev. 2018.

HACKING, Juliet (ed.). Tudo sobre fotografia. Rio de Janeiro: Sextante, 2012.

LOWE, Paul. Mestres da fotografia. São Paulo: Gustavo Gili, 2017.

PAZ, Thais Raquel da Silva; OLIVEIRA, Marilda de Oliveira. Narrativas a partir


da fotografia. In: Cadernos de Educação, nº 45, 2013. Faculdade de Educação,
Universidade Federal de Pelotas. Disponível em: <https://periodicos.ufpel.edu.br/
ojs2/index.php/caduc/article/viewFile/3816/3063>. Acesso em: 15 mar. 2018.

PRÄKEL, David. Composição. Porto Alegre: Bookman, 2010.

ZUANETTI, Rose et al. Fotógrafo: o olhar, a técnica e o trabalho. Rio de


Janeiro: Senac Nacional, 2002.

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