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Linguagem Fotográfica

Material Teórico
Linguagem Fotográfica

Responsável pelo Conteúdo:


Prof.ª Me. Rita Garcia Jimenez

Revisão Textual:
Prof.ª Dr.ª Selma Aparecida Cesarin
Linguagem Fotográfica

• Pintura x Fotografia;
• Nascimento de uma Nova Linguagem;
• Da Experimentação à Consolidação de uma Linguagem;
• O Fotógrafo;
• Fotógrafos e Linguagem Pessoal;
• Por Que Fotografar?

OBJETIVO DE APRENDIZADO
· Apreender o conceito de Linguagem Fotográfica por meio de aspec-
tos conceituais, históricos e estéticos;
· Apreciar, analisar significativamente, ler e criticar trabalhos de profissio-
nais representantes de movimentos artísticos no mundo da Fotografia;
· Valorizar a pesquisa sobre os aspectos conceituais, históricos, estéti-
cos e operacionais da Linguagem Fotográfica.
Orientações de estudo
Para que o conteúdo desta Disciplina seja bem
aproveitado e haja maior aplicabilidade na sua
formação acadêmica e atuação profissional, siga
algumas recomendações básicas:
Conserve seu
material e local de
estudos sempre
organizados.
Aproveite as
Procure manter indicações
contato com seus de Material
colegas e tutores Complementar.
para trocar ideias!
Determine um Isso amplia a
horário fixo aprendizagem.
para estudar.

Mantenha o foco!
Evite se distrair com
as redes sociais.

Seja original!
Nunca plagie
trabalhos.

Não se esqueça
de se alimentar
Assim: e de se manter
Organize seus estudos de maneira que passem a fazer parte hidratado.
da sua rotina. Por exemplo, você poderá determinar um dia e
horário fixos como seu “momento do estudo”;

Procure se alimentar e se hidratar quando for estudar; lembre-se de que uma


alimentação saudável pode proporcionar melhor aproveitamento do estudo;

No material de cada Unidade, há leituras indicadas e, entre elas, artigos científicos, livros, vídeos
e sites para aprofundar os conhecimentos adquiridos ao longo da Unidade. Além disso, você
também encontrará sugestões de conteúdo extra no item Material Complementar, que ampliarão
sua interpretação e auxiliarão no pleno entendimento dos temas abordados;

Após o contato com o conteúdo proposto, participe dos debates mediados em fóruns de discus-
são, pois irão auxiliar a verificar o quanto você absorveu de conhecimento, além de propiciar o
contato com seus colegas e tutores, o que se apresenta como rico espaço de troca de ideias e
de aprendizagem.
UNIDADE Linguagem Fotográfica

Pintura x Fotografia
“Essa indústria, ao invadir os territórios da arte, tornou-se sua inimiga mortal”.
Charles Baudelaire (COSTA, 2006, p. 52).

Charles-Pierre Baudelaire (1821-1867), o poeta e teórico da Arte francesa do


início do século XIX, sabia que a chegada da fotografia impactaria e transformaria
completamente o ambiente da Arte.

Muitos artistas se perguntaram: E, agora?

Para eles, estava surgindo uma ferramenta mais eficiente na Arte do retrato
e do registro: era rápida e eficiente. Já outros se sentiram aliviados de não mais
precisarem se ocupar em retratar paisagens e pessoas de forma fidedigna, ficando
livres para criar.

Figura 1 – Louis-Jacques-Mandé Da guerre.


Boulevard Du temple, Paris, 1838. Daguerreótipo
Fonte: HACKING, 2012

O novo causa grande estranhamento – é o diferente e o desconhecido chegando


– e também insegurança naqueles que tinham uma posição privilegiada dentro
daquele contexto.

De fato, a invenção da Fotografia foi uma revolução: fragmentos do mundo podiam


ser captados e aprisionados em uma superfície. No início, de tão surpreendente
que era, as pessoas se submetiam a ficar paradas por muitos minutos na frente
de uma Câmera Fotográfica, para passar pela experiência de terem sua imagem
congelada e impressa:
Os retratos dessa época (...) insinuam, de fato, uma austeridade vitoriana.
Mostram pessoas compenetradas, com fisionomias rígidas, em atitudes de
profunda meditação ou com ares de graves preocupações (...) Para tentar

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um resultado mais ameno era preciso sorrir e continuar “sorrindo”, durante
uns cinco ou dez minutos, deixando patentes na rigidez dos músculos que
sustentam o sorriso as limitações da técnica (KUBRUSLY, p. 40).

A Pintura sentiu profundamente que uma grande parte da sua clientela se


deslumbraria com a nova técnica, mas, ainda que isso fosse verdade, logo se
percebeu que se tratavam de Linguagens diferentes.

A novidade no campo da representação fez com que a Pintura fosse obrigada


a buscar a sua essência, enquanto Linguagem Pictórica, levando-a a encontrar
sua verdadeira alma. Seus elementos – como cor, materialidade, luz, pincelada
– começaram a ser explorados por meio das vanguardas, grupos de artistas que
exploravam as diversas potencialidades da Linguagem.

Nascimento de uma Nova Linguagem


O homem sempre sentiu necessidade de se expressar, de se comunicar com as
outras pessoas e também com o universo, por meio de seus rituais. A comunicação,
seja ela verbal ou não verbal, dá-se por meio de uma determinada Linguagem, que
tem características específicas e elementos próprios que se combinam para criar
sentido e forma.

Produzir linguagem é um ato criador!


Criar é, basicamente, formar. É poder dar uma forma a algo novo. Em qualquer
que seja o campo de atividade, trata-se, nesse “novo”, de novas coerências
que se estabelecem para a mente humana, fenômenos relacionados de modo
novo e compreendidos em termos novos. O ato criador abrange, portanto,
a capacidade de compreender; e esta, por sua vez, a de relacionar, ordenar,
configurar, significar (OSTROWER, 1986, p. 9).

Assim é com a Música, a Literatura, as Artes... o poeta, por exemplo, cria suas
poesias selecionando palavras e as organizando de tal forma a criar um determinado
sentido para o todo. Seu elemento principal é a palavra e o que faz de seu trabalho
significativo é a forma como as organiza.

A Fotografia, capaz de captar as imagens a que se propunha, surgiu como um


novo produto, a partir de muita pesquisa, estudo e experimentações. Sua invenção
foi fruto do trabalho incansável de vários homens, encantados pelas imagens
formadas pela Camera obscura (Figura 2), usada por Aristóteles (384 a.C. - 322
a.C.), apaixonados pelo desafio de capturar imagens e deslumbrados pela máquina,
que surgiu naquele momento, com o processo de industrialização.

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UNIDADE Linguagem Fotográfica

Figura 2 – Câmera escura de Joseph Nicéphore Niépce, c.1820-30.


Museu Nicéphore Niépce.
Fonte: Wikimedia Commons

A Câmera escura foi a grande inspiração para os inventores da Fotografia. É uma caixa com
Explor

paredes opacas e com um orifício em um de seus lados, por onde entra um feixe de luz,
que reproduz em seu interior, na superfície da parede paralela ao orifício, uma imagem
invertida de um objeto. Na Antiguidade, era usada por Aristóteles para fazer observações
astronômicas e sabe-se que o famoso pintor renascentista Leonardo Da Vinci a utilizava
como instrumento para auxiliar o desenho. Ele a chamava de Olho Artificial.

O surgimento da Fotografia fez nascer uma nova Linguagem com elementos


específicos que se relacionam a outros, próprios da Linguagem Visual, como
ponto, linha, forma, cor e textura.

O termo Fotografia, originário do grego, significa escrever com luz. Esse é o


elemento essencial dessa nova forma de comunicação. No lugar da tinta, é a luz
que registra a imagem de um objeto, com o auxílio da Câmera Fotográfica, a nova
Câmera Escura.

O fazer artístico se dá por meio do olhar do fotógrafo, que seleciona a parte


do mundo que lhe interessa, através do visor da máquina, que delimita o campo
a ser trabalhado. Assim, um fragmento do mundo é captado pela luz, depois de
ser escolhido por um olhar, muitas vezes atento e curioso,com o auxílio de um
equipamento fotográfico.

Além da luz, o espaço e o tempo são fundamentais na criação de uma fotografia.


Ao enquadrar um determinado assunto dentro do visor da máquina, o fotógrafo
delimita um espaço, onde se dará a imagem, ao mesmo tempo em que apresenta
ou sugere um lugar físico ou poético.

O tempo está presente na Fotografia; faz parte dela. A ação do dedo sobre o
botão registra algo em um determinado tempo, congelando-o para sempre naquele
instante. Torna-se uma ferramenta capaz de guardar a memória de uma pessoa,
um lugar, um fato histórico que, seguramente, iria se perder na memória humana.

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Torna-se um documento histórico. Hoje, sabemos muito de nossa História graças
aos fotógrafos que registraram os mais diversos temas do passado.

Ela também registra o tempo com a ajuda da abertura do obturador, um recurso


que deixa visível uma ação ocorrendo no tempo:
De todos os meios de expressão, a fotografia é o único que fixa para
sempre o instante preciso e transitório. Nós, fotógrafos, lidamos com
coisas que estão continuamente desaparecendo e, uma vez desaparecidas,
não há mecanismo no mundo capaz de fazê-las voltar. Não podemos
revelar ou copiar a memória (ZUANETTI, 2002, p. 17).
Explor

Eadweard Muybridge. Man/horse (vehicle), 1872-81: https://goo.gl/LSmEqQ

Da Experimentação à Consolidação
de uma Linguagem
Pensadores, cientistas e curiosos, desde muito tempo, começaram a pensar
como captar uma imagem. Precisaram se dedicar muito ao estudo e à pesquisa
para que começassem a ser possíveis as primeiras experimentações.

Como já dissemos, a Câmera Escura foi o primeiro instrumento capaz de captar


uma imagem. E como a mente humana não se satisfaz com pequenas descobertas,
ao contrário, fica ainda mais estimulada a seguir adiante, isso foi só o começo.

O pequeno orifício ganhou uma lente, a caixa ficou maior, procurou-se uma
substância que fosse sensível à luz, até que o Joseph Nicéphore Niépce (1765-
1833) conseguisse fixar a imagem da fachada externa de sua casa sobre uma placa
de estanho (Figura 3).

Figura 3 – Joseph Nicéphore Niépce. Vista da janela em Le Gras, 1826-27. Heliografia.


Fonte: environmentalhistory.org

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UNIDADE Linguagem Fotográfica

O pontapé inicial rumo à forma como fixar as imagens havia sido dado. A
invenção gerou muita curiosidade e mostrou a muita gente um novo caminho a ser
desbravado. Pintores viram a possibilidade de um registro mais rápido e eficiente;
empresários perceberam que surgia um novo Mercado, cheio de oportunidades e
muitas possibilidades de ganhos, e o público logo se interessou pelo novo produto
que surgia.

À medida que o equipamento foi se desenvolvendo, a qualidade da Fotografia


foi melhorando, o processo foi se tornando mais rápido e ficando cada vez mais
acessível às pessoas. Era caro, demorado e dependia de terceiros; hoje é de graça,
instantâneo e qualquer um pode fazer.

Figura 4 – Fotografia com celular


Fonte:iStock/Getty Images

Ao passo que os fotógrafos foram dominando as questões técnicas, começaram


a perceber que, usando a criatividade, podiam criar fotos mais interessantes,
surpreendentes, intrigantes e cheias de significados. Foi dessa forma que a
Linguagem Fotográfica começou a se desenvolver. Seus elementos começaram a
ser explorados com profundidade e a se inter-relacionarem de forma criativa para
construir novos tipos de imagens. Cores, tons, luz, exposição e abertura eram as
novas matérias-primas para os novos criativos.

Muitos fotógrafos se destacaram trazendo para o universo da Fotografia novas


possibilidades de trabalhar com essa linguagem, tão rica e poderosa na sua rapidez
e potência simbólica. Assim como as vanguardas artísticas europeias tiveram de
se aprofundar na essência da pintura, os fotógrafos foram em busca de explorar o
grande potencial da Linguagem Fotográfica.

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O Fotógrafo
É o equipamento fotográfico que registra um determinado tema ou assunto, mas
a produção fotográfica só é possível com a atuação do fotógrafo. Ele é o agente
responsável pela ação que dará origem à fotografia.

Ainda que a fotografia seja o resultado da ação da luz sobre um material/


equipamento fotossensível, ela nasce de um desejo, uma curiosidade e uma
intenção de uma pessoa: o fotógrafo. A formulação criada por Bóris Kossoy(1941-)
(KOSSOY, 2003, p. 37) demonstra a importância do indivíduo nesse processo:

Assunto/Fotógrafo/Tecnologia (elementos constitutivos) = Fotografia


(produto final)

Coordenação: Espaço/Tempo

É o seu querer conjugado à sua maneira de ver e compreender o mundo,


conteúdos e referências pessoais e artísticas que compõe que dão forma e conteúdo
para as imagens.

Esse conjunto de elementos, diferentes em cada indivíduo, é a combustão para


a originalidade e a inventividade presente nas incontáveis e distintas produções
fotográficas e o modo como esses elementos se inter-relacionam e se tornam
visíveis nas composições é o que lhes confere personalidade.

A alta Tecnologia e o baixo custo tornaram extremamente acessíveis os equipa-


mentos fotográficos. O aparelho de celular, que carregamos conosco, praticamen-
te, 24 horas por dia, é também uma máquina de fotografar.

Fotografamos todos os dias, ainda que para registro de coisas e momentos banais.
De qualquer forma, o exercício de seleção e registro de imagens se popularizou e a
linguagem é usada por todos. Somos todos fotógrafos... Mas temos de levar em
consideração a qualidade dessas imagens.

Mas o que pode ser entendido como uma boa fotografia?

Poderia ser uma nova formulação:

Conhecimento técnico + conhecimento específico da linguagem visual


e fotográfica + criatividade = boa fotografia

Conhecimento técnico diz respeito à compreensão, com profundidade, de como


usar um determinado equipamento, programas e aplicativos para captação, registro
e edição de uma imagem.

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UNIDADE Linguagem Fotográfica

Conhecer a Linguagem Visual é saber como se estrutura uma composição,


com todos os elementos que a compõem, como ponto, forma, textura, volume,
cor, tom, escala, profundidade e planos entre outros e a Linguagem Fotográfica é
conhecer seus elementos específicos como enquadramento, nitidez, luz, tempo e
espaço. Tanto o primeiro elemento como o segundo dependem apenas de tempo
e de dedicação para poder resolvê-los com perfeição.

Ainda que dominemos essas questões técnicas e de Linguagem Visual, e a criatividade?

Criatividade pode ser definida de diversas formas. O importante é perceber que


todas dizem respeito à capacidade de o ser humano criar o novo, de reinventar coisas,
de quebrar paradigmas, buscar novas soluções para novos e velhos problemas.

O criativo, em geral, possui alto grau sensibilidade, inconformismo, facilidade


na elaboração de hipóteses e muita coragem para empreender novos caminhos.

Figura 5 – Jeff Wall. A sudden gust of wind (after Hokusai), 1993


Fonte: tate.org.uk

O homem é um ser criativo e o exercício da criatividade é necessário porque o impul-


siona para o novo e para a solução de seus problemas, sejam eles simples ou complexos.

Se não fosse dessa maneira, não teria sobrevivido, no início de sua existência,
nos ambientes inóspitos e cheios de perigos, como a fúria da natureza e as grandes
feras, com os quais se deparou na Pré-história.

Assim, entendemos que todos somos criativos e que o que precisamos é desenvolver
a criatividade. Para isso, temos de acreditar que somos capazes de criar coisas novas
e melhorar aquelas que já existem. Nas áreas criativas como a Fotografia, é essencial,
se pensarmos que milhares de imagens são feitas a cada segundo.

Não devemos encarar esse fato como um problema, ao contrário. A criatividade é


uma atividade ligada ao divertimento e à brincadeira e é por isso que os profissionais
criativos encaram o trabalho como uma atividade prazerosa.

Com o tempo, esses profissionais desenvolvem qualidades importantes que o


diferenciam de todos os outros. São pessoas competitivas, querem sempre crescer
e mostrar seu melhor; não descartam possibilidades – experimentam, testam e pro-

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põem novas formas de fazer as coisas; fogem das categorias estabelecidas e gostam
de quebrar regras e testar novas receitas; produzem novidades com frequência;
percebem formas diferentes de aplicar suas ideias; desenvolvem técnicas para so-
lucionar problemas; tem uma postura mais produtiva diante da vida; conseguem
romper com os padrões estereotipados e rígidos e possuem muita facilidade para
interagir com o entorno.

Logo, é muito bom ser criativo!

Já sabemos que temos importante potencial criativo e queremos desenvolvê-lo!


Talvez, a principal dica seja: estude muito, conheça bem as regras e pense em como
melhorá-las e em possibilidades totalmente novas para realizar as mesmas tarefas.

Entre o grande número de produções fotográficas, com as quais nos deparamos


todos os dias, podemos encontrar inúmeras que contemplam o que entendemos
como uma boa fotografia. Mais que isso, elas nos mostram estilo e personalidade,
elementos fundamentais para criar uma linguagem pessoal.

Cada fotografia ou conjunto delas é um reflexo da maneira como o fotógrafo


enxerga o mundo. O tema que escolhe, a forma como o enquadra, a quantidade
de elementos que utiliza dentro de suas composições, as cores e as texturas que
privilegia dão caráter único para aquela produção e imprimem a marca de seu autor.

Podemos chegar à conclusão que o exercício da criatividade leva à criação de


uma linguagem pessoal.

Eureka!
Explor

John Heartfield. Adolf the Superman: swallows gold and spits tin, c.1932: https://goo.gl/FcvHnM

Cabe ao fotógrafo conhecer profundamente seu equipamento fotográfico, ter


uma intenção ao fotografar, compreender todos os elementos que compõem uma
foto e uma forma de relacioná-los de maneira diferente.

Vamos ver alguns fotógrafos que se destacaram no seu tempo, com produções
que trouxeram inovações e foram e são até hoje surpreendentes.

Fotógrafos e Linguagem Pessoal


Vamos começar por Charles Lutwidge Dodgson (1832-1898), um professor de
Matemática da Universidade de Oxford, que começou a fotografar aos 26 anos.

Seu tema principal era as crianças. Alice Liddell, irmã de um de seus amigos,
era uma de suas modelos preferidas, com quem realizou vários estudos fotográficos
(Figura 8). Inspirado pelo poema The brigar maid, de Alfred Tennyson, Dodgson
fez a foto Alice Liddell como a “pequena mendiga” (Figura 6).

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Figura 6 – Charles Lutwidge Dodgson. Alice Liddell


como a “pequena mendiga”, c.1859
Fonte: Wikimedia Commons

As fotografias que fazia tinham ar fantasioso.


As meninas pareciam personagens de histórias,
como Alice Liddell na foto. Ao longo dos anos,
exercitou muito sua criatividade, trabalhando com
diversas linguagens artísticas. Escreveu contos, po-
esias, romances, era desenhista e fotógrafo. Seu
trabalho criativo se expandia de tal forma que uma
linguagem alimentava a outra, como o poema que
inspirou sua foto e também suas fotos que serviram
como inspiração para outros de seus trabalhos.

Charles Lutwidge Dodgson criou o pseudônimo


Lewis Carroll. Ele foi o autor do livro Alice nos
país das maravilhas e Alice Liddell a inspiração
para a famosa personagem da garota que cai den-
tro de uma toca de coelho e vai parar em um mun-
do cheio de fantasias.
Figura 7 – Disney, Cena do filme Alice no
Mais tarde, a história se tornou um dos longa metra- país das maravilhas, ilustração
gens mais famosos de Walt Disney, em 1951 (Figura 7). Fonte: Wikimedia Commons

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Man Ray (1890-1976) também trabalhou com diversas linguagens artísticas –
Pintura, Cinema, Desenho, Artesanato, Escultura – mas foi com Fotografia que
obteve real destaque. Ao fotografar suas telas percebeu que a Fotografia tinha sua
própria força e personalidade.
Gostou tanto da experiência, que se dedicou a
estudar com profundidade a técnica e em pouco Dadaísmo é o nome de um
movimento artístico, criado
tempo se tornou um excelente fotógrafo. por poetas, escritores e ar-
tistas plásticos, na Suíça, em
Fotografava objetos comuns, mas sua visão 1916. Entre eles, além de Man
criativa fazia com ele imprimisse novas maneiras Ray, estavam Hugo Ball, Tris-
de enxergá-los, utilizando diferentes ângulos de tamTzara e Marcel Duchamp.
Tinham como meta quebrar
visão, efeitos de luz e sombra. as regras acadêmicas, a lógi-
ca e a razão, representando o
Suas fotografias representam muito bem a inventi- mundo sem sentido, reflexo
vidade e a espontaneidade do Dadaísmo, movimento dos efeitos terríveis da Primei-
do qual fazia parte. ra Guerra Mundial.

Man Ray experimentou e trabalhou com muitas técnicas e seu espírito inventivo
ainda o levou às Raiografias, um tipo de fotografia sem câmera, na qual ele pousava
objetos sobre superfícies sensíveis. Dessa série, surgiram as abstrações.

Figura 8 – Man Ray. Raiografia, c.1923.


Fonte: Floresta, 2011

Criou um estilo pessoal nos retratos também. Fotografava seus modelos a


certa distância e depois os ampliava, o que lhes conferia certa suavidade. Retratou
grandes personalidades como Gertrude Stein, Ernest Hemingway, Picasso, Jean
Cocteau e Constantin Brancusi, entre muitos outros.

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UNIDADE Linguagem Fotográfica

Figura 9 – Man Ray. Constantin Brancusi, c.1930. Fotografia


Fonte: Floresta, 2011

Henri Cartier-Bresson (1908-2004) era um pintor formado em Paris, que descobriu


a Fotografia ao viajar em uma expedição etnográfica pelo México, em 1931.

Sua produção fotográfica se destaca por captar o instante perfeito ou o momento


decisivo, como o menino que sorri ao carregar duas garrafas de vinho, na fotografia
intitulada Rue Mouffetard (Figura 10).

Figura 10 – Henri Cartier-Bresson. Rue Mouffetard, c.1958. Fotografia


Fonte: cameralabs.org

[...] Cartier-Bresson era um observador astuto, o homem do olho, que


sabia o que ele queria e o que interessava a ele. Um certa vez, ele se
comparou com um pescador que tinha um peixe na ponta da sua linha.
O mais importante era se aproximar cautelosamente e apertar o botão no
momento certo (MIELBECK, 1996, p. 101).

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Foi um dos mais importantes representantes da Fotografia Humanista, que
retratava temas humanos. Durante o tempo em que trabalhou para jornais e revistas
populares, fez grande quantidade de fotografias que diziam respeito à condição
humana em cenas cotidianas. Muitas ficaram conhecidas nos livros que publicou.

Já demonstrara interesse pelas questões sociais e políticas quando esteve no


México e realizou uma série de fotos, as quais apresentou em uma exposição, ao
lado do fotógrafo Alvares Bravo (1902-2002), como em Nacho Aguirre, Santa
Clara, México (Figura 13).

Figura 11 – Henri Cartier-Bresson. Natcho Aguirre, Santa Clara, México, 1934-1935. Fotografia
Fonte: metmuseum.org

Suas cenas apresentam certa tensão. Na fotografia Natcho Aguirre, Santa Clara,
México (Figura 13), por exemplo, Bresson retrata um homem com o tórax despido,
os braços cruzados e as mãos cerradas. O fato de seu rosto não aparecer confere
a esse personagem a representação de uma categoria, já que sua identidade não é
revelada. Ao seu lado, numa espécie de prateleira, há sapatos femininos de salto,
representando uma outra classe social.

Aqui podemos ver que o fotógrafo, a partir da escolha dos elementos e da


organização, comenta uma questão social, que parece ser bem importante naquele
lugar e tempo.

Em Venda de ouro nos últimos dias de Kuomintang (Figura 12), de 1948,


podemos ver a questão do momento decisivo combinada com o retrato social de
Xangai, na China, antes de a cidade ser tomada pelos comunistas.

Na foto, vemos pessoas que se amontoam em frente a um Banco Estatal, que


distribuía 40 gramas de ouro por pessoa, a mando do Kuomintang, o Partido
Nacionalista chinês, diante da desvalorização da moeda.

Na sua composição, Bresson revela o caos causado pela ação do Governo.


O efeito tremido da foto é resultado do acotovelamento da multidão nervosa e
desesperada reagindo à nova situação política.

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UNIDADE Linguagem Fotográfica

Os corpos estão entrelaçados e, de tão juntos, seus braços e mãos parecem


formar uma onda e as cabeças parecem procurar ar entre tantas pessoas. Segundo
fontes, 10 pessoas morreram esmagadas na multidão.

Figura 12 – Henri Cartier-Bresson. Venda de ouro nos últimos dias de Kuomintang, 1948. Fotografia
Fonte: cameralabs.org

A norte-americana Cindy Sherman (1954-) fez uma série de fotos, entre 1977
e 1980, intitulada Untitled film stills, nas quais se retrata como uma personagem
inspirada em filmes do fim da década de 1950 e início da de 1960. Foram cerca
de 69 fotos, em preto e branco, nas quais aparece dentro de uma visível narrativa,
cujos elementos tentamos buscar para reconstruí-la.

O trabalho encomendado pela revista Art fórum ganhou elementos especiais


da artista. Para a série, ela fez composições que lembravam fotos de revistas
pornográficas e escolheu o formato widescreen, usado no Cinema.

Na obra Sem título nº 92 (Figura 13), vemos claramente um momento


congelado de algo que está acontecendo. Ela está sentada no chão e olhando
para fora do enquadramento, como se estivesse com medo de algo ou assustada.
A câmera é posicionada de forma a dar maior dramaticidade à cena, elemento
típico em suas fotografias.

Figura 13 – Cindy Sherman. Sem título nº 92, 1948. Fotografia


Fonte: broadfoundation.org

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Suas fotografias não são autorretratos. Sua escolha de se fotografar é por acredi-
tar que pode dar o máximo na interpretação dos personagens, apresentando-os com
muita profundidade. A produção das fotos é rica em detalhes, levando-nos a enxergar
uma cena, por meio dos elementos que empresta da Linguagem Cinematográfica.

A maquiagem e o figurino trazem uma série de detalhes sobre as personagens que


Sherman interpreta, tornando difícil até encontrar a artista por traz da produção.

As cenas são construídas a partir das imagens dos filmes que a inspiraram. Os
cenários para suas fotos são meticulosamente pensados, podendo se apropriar de
um lugar externo ou, ainda, a produção de um lugar interno, como uma sala ou
um quarto.

A designer gráfica Barbara Kruger (1945-) começa a se apropriar de elemen-


tos da Linguagem Gráfica e da Propaganda para sua produção fotográfica. Ao
vermos uma de suas fotografias, rapidamente sabemos a sua autoria, pois reco-
nhecemos sua linguagem pessoal. As fotos de Kruger tem sua marca própria e
é facilmente reconhecível.

Kruger cria frases e textos e os sobrepõem à fotografias em preto e branco


de Revistas e outras fontes dos Meios de Comunicação dos quais se apropria.
O conjunto de elementos é forte e direto, quase um slogan de propaganda. É
interessante que ela se utiliza da Linguagem Publicitária para fazer denúncias e
críticas sobre a própria publicidade.

Elementos gráficos como uma borda na imagem e frases em vermelho sobre


fundos preto ou branco nos remetem à estética de anúncios de Revistas.

A maioria de seus trabalhos traz uma crítica e uma discussão sobre a sexualidade
e o consumismo, como na obra I shop therefore I AM (Eu compro, portanto eu
sou) (Figura 14), fazendo referência à famosa frase Penso, logo existo, do filósofo
francês René Descartes.

Figura 14 – Barbara Kruger. I shop therefore I am, 1987. Fotografia


Fonte: Wikimedia Commons

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UNIDADE Linguagem Fotográfica

Todos os fotógrafos que vimos aqui desenvolveram produções fotográficas cheias


de estilo, pois combinaram suas preferências, seu olhar e sua técnica, que os diferen-
cia de todos os outros. Mas isso só é possível depois de muita dedicação. Como dizia
Picasso: “Criar é uma combinação de 99% de transpiração e 1% de inspiração”.

É necessário começar, testar, experimentar, estudar e insistir na Linguagem


escolhida para que, então, seja possível criar algo realmente inovador e criativo,
com boa qualidade:
Não importa a intensidade do esforço: parece que é necessário pelo
menos 10 anos de trabalho constante em um tema ao linguagem artística
para chegar a dominar uma especialidade (...) Inclusive Mozart, que se
poderia considerar a exceção que confirma a regra, esteve compondo
pelo menos por uma década antes de poder produzir com regularidade
obras que se consideram dignas de serem incluídas no seu repertório
(GARDNER, 1995, p. 50).

Trocando ideias...Importante!
Experimente sair com sua Máquina Fotográfica ou mesmo seu celular e tire fotos de
tudo o que lhe interessar, sem se preocupar em fazer uma grande Obra de Arte. Pode ser
em apenas um quarteirão de sua cidade. Vamos começar devagar... Quando achar que
tem uma boa quantidade de fotos, volte para casa e as analise com calma. Olhe cada
uma das fotos, observe detalhes, pense nas composições que você fez e os elementos
presentes em cada uma delas. Depois, separe aquelas que você mais gostou. Guarde em
uma pasta de arquivo no seu computador com o nome Saída fotográfica nº 1. Algumas
semanas depois, já com maior experiência em fotografia, retorne ao mesmo quarteirão
e fotografe. Agora, sim, está na hora de você comparar seus trabalhos e observar sua
evolução. Ah! Salve em Saída fotográfica nº 2. Bom trabalho.

Por Que Fotografar?


A resposta mais precisa que posso dar do por que eu tiro fotos é uma metáfora.
Para mim, tirar uma foto é como o ponto de ignição em um motor em combustão;
ingredientes (vapores de gasolina, ar) são articulados em uma forma de engenharia
magistral, compactados em um momento primorosamente cronometrado e
sacudidos para produzir força e centelhas brilhantes. Na gênese de uma fotografia
bem-sucedida, todos os esforços anteriores se congregam em um momento decisivo:
o tempo de pesquisa para aprender aquela especialidade acadêmica, a longa ladeira
íngreme para chegar ao local antes que a luz mude, o truque inteligente imaginado
para que a própria história seja contada de um modo novo e intrigante, a metáfora

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prateada que envolve toda a ideia, a busca das condições climáticas favoráveis
– e ainda se você não se esqueceu de carregar a bateria, montar o tripé, levar a
objetiva certa etc. E quando tudo isso é congregado na mesma fração de segundo
e alcança o ponto de ignição... bem, a sensação de satisfação é extasiante. É algo
arrebatador (LOWE, 2017, p. 6).

Dicas:
• Busque assuntos do seu interesse, que agradam você, que mexam com suas
emoções e que provoque sua curiosidade;
• Saiba o que você quer dizer com sua fotografia. Tenha um objetivo;
• Tente imprimir uma marca pessoal em suas fotos;
• Seja criativo, tente fazer diferente e fuja das receitas;
• Dedique-se ao assunto. Pense, reflita e gaste tempo com ele;
• Aprenda profundamente as técnicas de fotografar. Experimente ao máximo!;
• Conheça a História da Fotografia;
• Discuta com amigos e professores sua produção fotográfica.

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UNIDADE Linguagem Fotográfica

Material Complementar
Indicações para saber mais sobre os assuntos abordados nesta Unidade:

  Sites
Instituto Moreira Salles
Organização sem fins lucrativos criada pelo diplomata e banqueiro Walter Moreira
Salles, em 1992, que se dedica à divulgar fotógrafos e suas produções fotográficas.
https://ims.com.br/

 Livros
Caderno de artes visuais
SESI-SP. Caderno de artes visuais. v. I. São Paulo: SESI/SP, 2016.

 Filmes
Nascidos em bordéis
Direção: Ross Kauffman e Zana Briski. Documentário, EUA/Índia, 2006, 85min.
Sinopse: A fotógrafa.

 Leitura
Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação
MORAES, Adriano Cunha; AHLERT, Jacqueline. Barbara Kruger: os limites entre
linguagem da publicidade e propaganda e da linguagem artística. Intercom – Sociedade
Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação. XVII CONGRESSO DE CIÊNCIAS
DA COMUNICAÇÃO NA REGIÃO SUL – Curitiba – PR – 26 a 28 maio 2016.

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Referências
COSTA, Cacilda Teixeira da. Arte no Brasil 1950-2000: movimentos e meios.
São Paulo: Alameda, 2006.

FLORESTA, Merry. Man Ray. São Paulo: Cosac Naify, 2011.

GARDNER, Howard. Mentes criativas. Barcelona: EdicionesPaidós Ibérica, 1995.

HACKING, Juliet (ed.). Tudo sobre fotografia. Rio de Janeiro: Sextante, 2012.

KOSSOY, Boris. Fotografia & história. São Paulo: Ateliê Editorial, 2001.

LOWE, Paul. Mestres da fotografia. São Paulo: Gustavo Gili, 2017.

MIβELBECK, Reinhold. 20th century photography: Museum Ludwig Cologne.


Colgne: Taschen, 1996.

OSTROWER, Fayga. Criatividade e processos de criação. Petrópolis: Vozes, 1986.

SALLES, Cecília Almeida. Gesto inacabado: processo de criação artística. São


Paulo: Intermeios, 2011.

ZUANETTI, Rose et al. Fotógrafo: o olhar, a técnica e o trabalho. Rio de Janeiro:


Senac Nacional, 2002.

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