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Capiruto IL O PROBLEMA DA TEORIA DO METODO CIENTIFICO _____De acordo com proposta por mim feita anteriormente, a Epistemologia ou ldgica da Pesquisa cientifica deve ser identificada com a teoria do método cientifico. A teoria do método, na medida em que se projeta para além da andlise puramente logica das relagdes entre enunciados cientificos, diz respeito a escolha de métodos — a decis6es acerca da maneira de manipular enunciados cientificos. Naturalmente, tais decisdes dependerao, por seu turno, do objetivo que selecionemos dentre os numerosos objetivos possiveis. A decisio aqui proposta para chegar ao estabeleci- mento de regras adequadas ao que denomino “método empirico” esta estreitamente ligada a meu critério de demarcagao: proponho que se adotem as regras que assegu- rem a possibilidade de submeter a prova os enunciados cientificos, o que equivale a dizer a possibilidade de aferir sua falseabilidade. 9. POR QUE SAO INDISPENSAVEIS AS DECISOES METODOLOGICAS Que sao regras de método cientifico e por que necessitamos delas? Pode exis- tir uma teoria de tais regras, uma metodologia? A maneira de se responder a essas indagag6es dependerd amplamente da ati- tude que se tome diante da Ciéncia. Aqueles que, 4 semelhanca dos positivistas, encaram a ciéncia empirica em termos de um sistema de enunciados que satisfaz certos critérios logicos — tais como significatividade ou verificabilidade — darao uma resposta. Uma resposta muito diferente seré dada por aqueles que tendem a admitir (6 0 meu caso) como caracteristica distintiva dos enunciados empiricos acircunstancia de estes serem suscetiveis de revisao: 0 fato de poderem ser critica- dos e substituidos por enunciados mais adequados; e aqueles que encaram como ta- refa que lhes é propria analisar a capacidade caracteristica de a Ciéncia progredir ea maneira peculiar de decidir, em casos cruciais, entre sistemas tedricos conflitantes. Estou pronto a admitir que se impée uma andlise puramente légica das te- orias, andlise que nao leve em conta a maneira como essas teorias se alteram e se desenvolvem. Contudo, esse tipo de andlise nao elucida aqueles aspectos das cién- cias empiricas que eu prezo muito, Um sistema como 0 da Mecanica classica podera ser “cientifico” tanto quanto se queira; mas os que o afirmam dogmaticamente — acreditando, talvez, que lhes cabe defender da critica um sistema de tanto éxito, enquanto nao for ele refutado de modo conclusivo — estio-se colocando em atitude 45 oposta A atitde critica, a meu ver adequada ao cientista. Em verdad, jamals pode ser apresentada uma refutagdo conclusiva de certa teoria, Pols sempre ser possivey afirmar que os resultados experimentais nao sio dignos de crédito ou que as discre. pancias que se afirma existirem entre os resultados experimentais e a teoria Sa0 ape. aparentes e desapareceriio com o avango de hossa compreensio, (Na luta contra stein, esses argumentos foram usados com frequéncia, em defesa da Mecinica newtoniana, e argumentos similares si0 comuns no campo das Ciencias Sociais,) Caso algueém insista em prova estrita (ou estrita refutagao)'! em ciéncias empiricas, esse alguém jamais se beneficiara da experiéncia ¢ jamais saberd como esta errado, Consequentemente, se caracterizarmos a ciéncia empirica tao somente pela estrutura légica ou formal de seus enunciados, nao teremos como excluir dela aque- la dominante forma de Metafisica proveniente de se elevar uma teoria cientifica obsoleta ao nivel de verdade incontestavel. Minhas raz6es para propor que a ciéncia empirica seja caracterizada por seus métodos sao: nossa maneira de manipular sistemas cientificos, aquilo que fazemos com eles e aquilo que fazemos a eles. Assim, tentarei estabelecer as Tegras ou, se Preferirem, as normas que orientam o cientista empenhado na pesquisa ou na des- coberta — nos termos aqui fixados. 10. A ABORDAGEM NATURALISTA DA TEORIA DO METODO. A sugestao que adiantei na segio anterior, a respeito da bem estabelecida di- ferenca entre minha posicio e a dos positivistas, reclama algum desenvolvimento, ‘__ Opositivista desaprova a ideia de que possam existir problemas significativos fora do campo da ciéncia empirica “positiva’ — problemas a serem enfrentados por meio de uma teoria filoséfica genuina. O positivista nao aprova a ideia de que deva existir uma teoria genuina do conhecimento, uma epistemologia ou metodologia.” Ele inclina-se a ver, em todos os problemas ditos filoséficos, meros “pseudoproble- mas” ou “charadas”: Ora, essa inclinagao — que, digamos de passagem, ele nunca expressa em termos de desejo ou de Proposta, mas em termos de enunciado de fato’* — sempre pode ser satisfeita, Com efeito, nada mais facil do que apresentar “1 Actescentei, agora, em colchetes, “dem ensttasdo estrita da negacio” porque (a) essa expressio é implicada pelo que foi dito i nunca se pode apresentar demonstragio ia da negacio de ‘uma teoria’) ¢ (b) tenho sido constantemente ‘mal interpretado, afirmando-. ite wee pensaserdesignedoendode donee, itemise 0) que se assenta em falseabil Nes dois anos que precederam a publicagéo desta obra, minhes id b mit leias eram criticadas pelos adeptos do Cir culo de Viena afirmando-se impossivel uma teoria do meétodo que nao fosse nem cléncs emplriea nem pura Légica — pois 0 que saisse desses dois camy sem sentido. (Essa mesma posicao era mantida ; r 1POS era totalment Por Wittgenstein ainda em 1948; cf. meu artigo “The nates of Philosophical Problems’ The British Journal le, a critica-padrio passou a assentar-se B& or dhe Philosophy of Science. 3, 1952, nota da p 128) Manco tenda de que eu havia proposto a substitu do eritério de verificabilidade por um critério de falseabilidade ‘egdes de miimeros *19 a*22, do significado, Ver meu Postscript, especialmente ¢ Aepois disso. Ver nota 6, abaixo, "2 Alguns positivistas alteraram sua atitude, questao inconveniente, que nao ha como nela vislumbrar qualquer significa¢ao. Mais ainda: se ndo admitirmos como significativos quaisquer problemas, a nao ser 0s relativos a ciéncia natural,' qualquer debate em torno do conceito de “significa- a0" mostrar-se-a sem significacao.’ O dogma da significacio, uma vez acolhido, paira acima de qualquer disputa. Nao pode mais ser atacado. Torna-se (em palavras de Wittgenstein) “inexpugnavel e definitivo”? : A controvertida questao de saber se a Filosofia existe ou tem qualquer direito de existir € quase tao antiga quanto a prépria Filosofia. Repetidamente tém surgi- do movimentos filoséficos novos que conceituam os velhos problemas filoséficos, dando-os como pseudoproblemas; e que contrapdem o pernicioso absurdo da Fi- losofia 4 procedéncia da ciéncia significativa, positiva, empirica. Repetidamente, os desprezados defensores da “Filosofia tradicional” buscam explicar aos orientadores do tiltimo ataque positivista que o problema central da Filosofia é 0 da andlise cri- tica do apelo a autoridade da “experiéncia”’ — precisamente a experiéncia que todo Ultimo descobridor do Positivismo esta, sem qualquer engenho, como sempre, dan- do qual coisa assentada. A essas objecées, entretanto, o positivista apenas responde com um gesto de enfado: nada significam, para ele, pois nao pertencem a ciéncia empirica, que é a tinica significativa. A “experiéncia’, para ele, é um programa ¢ nao um problema (a nao ser quando estudada pela psicologia empirica). Nao creio que os positivistas se disponham a responder diferentemente as minhas tentativas de analisar a “experiéncia’, que eu interpreto em termos de mé- todo da ciéncia empirica. Para eles, s6 existem duas espécies de enunciados: tau- tologias ldgicas e enunciados empiricos. Se a metodologia nao é légica, concluirao eles que deve ser um ramo de alguma ciéncia empirica — da ciéncia, digamos, do comportamento dos cientistas atuantes. Essa concepgao, segundo a qual a metodologia é uma ciéncia empirica — es- tudo do comportamento efetivo dos cientistas ou do proceso efetivo da “Ciéncia” — pode ser rotulada de “naturalista”. Sem duvida, a metodologia naturalista (por vezes denominada “teoria indutiva da Ciéncia’)? tem seu valor. Um estudioso de légica da ciéncia pode interessar-se por ela e aprender muito. Contudo, aquilo que denomino “metodologia” ndo deve ser considerado uma ciéncia empirica, Nao acredito ser pos- sivel decidir, usando métodos de ciéncia empirica, questdes controvertidas como a de saber se a ciéncia realmente usa ou nao o principio da indugao. Minhas dividas au- mentam quando me dou conta de que sera sempre questao de decisao ou de conven- ao saber o que deve ser denominado “ciéncia” e quem deve ser chamado “cientista”. 1 Wittgenstein, Tractatus Logico-Philasophicus, proposicao 6.53. 2 Wittgenstein, ao final do Tractatus (onde expla 0 conceito de significado), assevera: “Minhas proposigbes Mo clecidativas por isto: quem me compreende, acaba reconhecendo que sio destituidas de significado.” (Cf Sextus Adv. Log. ti, 481, Loeb, ed. ii, 488.) ittgenstein, op. cit. a0 final do Prefécio. 4H. Gomperz (Weltanschawungslhre I, 1905, p. 38) escreve: “Se lembrarmos quao infinitamente problemtico é econceizo deexperiéncia...talvez sejamos forgados a acreditar que... afirmagées entusidsticas, no que concerne Sexperiéncia, sso muito menos apropriadss...do que uma critica cuidadosae resguardada, .” 5 Dingler, Physik und Hypothesis, Versuch einer induktiven Wissenschafislehre, 1921; analogamente, V: Kraft, Die Grundjormen der wissenschafilichen Methoden, 1925.