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A CONVERSAGAO Marc Fomarotr ‘A bistéria da conversagdo |..] me parece impost- tel, como a de tudo 0 que 6 essenclalmente relativo e passageiro, do que depende das impres. ses mesmase Sainte-Beuve! Propor, mesmo a titulo de conversa improvisada, uma hist6ria da conversagio francesa pode parecer tio pouco razodvel quanto tentara das Kigrimas, clos adeuses, dos pri meiros encontros. Scripta manent, verba volant. A con- versagio seria apenas um jogo de patavras efémeras, fiteis, em suma, burguesas ¢ mundanas? Um viokento preconce to abateu-se na Franga sobre a palavra ¢ a coisa. Uma nue vem de coleGpteros metafisicos as arruinaram em poucos anos com um troar de élitros no qual se reconheciam as silabas de incomunicabilidade, de absurdo, de suspetta, de linguagem armadilha, tla € prisio. A sociologia no ficou em divida sustentada pela linguistica: sobre as ruinas da conversagio, 2 comunicacio foi por ela entronizada, Essa nova praga do Egito (que os escritores, le La Peste a La Jalousie, profetizaram) nao aboliv, contudo, nem 0 gosto natural dos franceses pela conversa nem o velho artigo de {€ da religido nacional segundo 0 qual "Bom papo s6 em Paris’ Esse antigo orgulho frances, essa confiangs feliz no genio do lugar que favoreceria a beatitude social, oral, mas também literiria e floséfica, da palavea pantilhada, tem ilus- tres antecedentes antigos ¢ solidas testemunhas modernas, Falavase, dialogava-se jé oralmente € mesmo por escrito em Atenas ¢ em outros lugares antes de Plato, Mas s6 em ‘Atenas se conheceu a conversagio onde nasceu 0 teatro, ¢ 6 se soube vercadeiramentc 0 que era a conversagio cle- vada a categoria de uma arte - 0 aticismo - na encenacéo escrita de conversacoes atenienses, nos didlogos de Platao’ termo francés “conversacio”, de origem latina, pode muito bem s6 ter comegado a ser usado no século XVI, 0 que ele designa entdo esperava, por assim dizer, desde 0 fim da aniguidade nesses textos gregos, cle s6 voltou a ganhar vida ia Europa Modesna, e de inicio na Inia, s6 depois da redescoberta em Veneza e em Florenca dos dis logos de Platio e de seu émulo latino Cicero. ‘Como definir em algumas palavras a forma singular de colaboracio oral que 0s didlogos platonicos esilizam e imi tam por escrito? Bl faz interirinterlocutores de condigao livre, em lugares alheios & vida politica (casa de amigos, 0 mais frequente, mas também o at livre do campo préximo de Arenas, o de suas ruas). Uma inclinagdo natural para cconversar junto apronima essas pessoas de bem como se af cencontrassem 0 jogo mais apaixonante, 0 jogo supremo, digno dos deuses. Naturalmente, a presenga frequente ea imtervengdo de Sécrates, 0 ironista temido, leva a inte dade deste jogo de homens livres ao mais elevado grau de vivacidade e de dificuldade. Mas enfim, a caracterstica de ‘SGerates sendo a de sentir-se em casa e ser ele mesmo em todas as circunstncias, os jogos dos quais ele € 0 arbiteo dliferem segundo o cariter de cada um de seus interlocuto- res: 0 assunto da conversa € diferente a cada vez. Nunca, em seguide, fienhum escritor conseguiré representar com naturalidade ce Platdo, a0 mesmo tempo imediata e deli cada, os meandros, as transigGes, as tonalidades, em sua, amdsica da conversacio. Pode-se dizer do diflogo literdtio ‘em prosa 0 mesmo que da imprensa, da fotografia ¢ do cinema: to logo inventado, rapidamente atingiu a perfei- ‘io. Perfeicio tanto mais miraculosa quanto esses didlogos destinados & pedagogiafiloséfica da Academia, poem seu leitor em presenca de conversagdes primeiro modestas, leves, variadas, mas que, sem previnir, se elevam as ques- {Ges mais vertiginosas que o espitito humano pode colo- care: a felicidade, a verdade,a vida boa, aarte,a misica,a tcologia, a cosmologia. Desde sua aparicio, a conversacio, eentretenimento superior entre homens livres, aparece tam- bém como o método pedagégico mais sutil e a forma de enciclopédia mais completa sob sua aparéncia descontinua Sem diva, Sécrates € sua ironia sAo o lévedo que trans- forma uma roca agradével de opinives em uma luta ansio- sa entre dois ou varios, de onde surgem relimpagos is ve- zes ofuscamtes, Porém, a massa mesma, a nacureza hus na, na diversidade e na singularidade de seus representan- {@5, na realcade de seus tipos psicol6gicas e socias, sere vela apropriada para esse delicioso e suti festim de pala ‘ras, de emogdes, de pensamentos. Socrates - que se tor nou, por esses dillogos, o mestre imortal da Academia -&0 revelador da vocagao filos6fica da conversacio, mas tam- bém de seu enraizamento na natureza humana, ignorante, ‘mas vida de saber. Por si s6, a felicidade ingénua e cle mentar desse reparador jogo de palavras entre homens li- res & jf uma decolagem do peso fisico, socal, politico, eco- nibmico. Ele abre uma clareira, Basta um mestre para que esta se torne uma pista de v6o. Da mutiplicidade dos inter: locutores, ce suas divergencias, de suas clissengbes, 0 esp: mito de Socrates consegue fazer uma rosécea na qual algu- ‘ma coisa da unidade inacessivel do verdadeiro se faz luz @ com essa luz uma felicidade de uma qualidade que gozo algum ou passe mundanos poderia igualar. Assim, o didlogo platonico (contemporineo da comédia de Anstofanes, da tragédia de Séfocles) ndo seria apenas crigem da historia da conversagio: ele éseu centeo, sua fon- te. A conyersacio ocorre quando se aproxima 0 grupo dirigi- do por Socrates € seus atenienses e se exingue quando ele se afasta de novo. Podese discutt, querelar, entreterse intercambiar, bater papo, palestrar,discorrer em todas as Epocas e em toxlos os lugares: estabelecer conversacio desde Plato, abandonar esses modlos barbaros do discurso para inseriese no natural da palavra humana e recuperar 2 luz dtica, £ entdo que, sem esforgo, reaparece, mesmo sab forma de fagulhas, um pouco da grande chama do espitto socrético, um pouco dessa beatitude ateniense que é bern- estar ¢ liberdade, um pouco dessa ascensio flosdfica que é volta 20 lr, estar na sua casa, em uma contemplacio entre varios, mais pert da unidade. da verdade, da felicidade. A Franca, € mais precisamente Pars, seriam a Atenas dos moderos e, portanto, as vezes também sua Acade- ‘mia? Em todo caso, ¢ 0 que sugeria Emmanuel Kant que pode escrever em 1798 em sua Aniropologia “A forma de bem estar que parece combinar mais com @ bumanidade é uma boa refei¢ao em boa companbia (¢ tanto quanto possivel variada). Chesterfield dizia que ela ndo devia ser inferior ao mimero das Gragas nem 6 my exceder 0 das Musas. A nacdo francesa se caracteriza entre todas por seu gosto pela conversacéo; quanto a esse ponto de vista, ela é um modelo para as outras na- bes. Ela é cont, sobretudo em relacao ao estrangeiro que a visita, ainda que esteja fora de mada agora ter maneiras de corte. O francés é comunicativo, nao por imteresse, mas por uma exigéncia imediata de seu gosto Uma vez que o gosto concerne d relagao com as mulbe- res da alia sociedade, a conversacao das damas tornou- se a linguagem comum das pessoas desse meio; e uma tal tendéncia, ndo se deve contestar, deve ter seu efeito sobrea complacéncia a prestar servico, sobre a boa von- tade a vir em ajuda e, pouco a pouco, sobre uma Jfilantropia universal fundada sobre principios: ela tor ‘na tal povo amdvel em seu conjuntor. ‘A Franga seria eleita para essa forma suprema da felici- dade entre homens livres, a conversagio, o banquete em boa companhia? Se ela € uma outra Atenas, nem por isso € a Academia de Platdo, Retomando contra os franceses des. ta vez, 0 julgamento moral que Tucidides fazia sobre os atenienses, Kant acrescenta: 0 reverso da medalba é una vivacidade no domi: nada suficientemente por principios estabelecidos e, ao lado de uma razao clarividente, uma frivolidade que ndo conserva por muito tempo certas formas pela nica ra- 2iio que elas sto vellas ou simplesmente que ficamos de- masiado fascinados por elas, mesmo se elas produziram completa satisjacao. Além disso, wn esptrito de liberdade & contagioso e arrasta em seu fogo a prépria razio e pro- aca nas relagdes do povo com o Estado um entusiasma capaz de tudo abalar e ir além mesmo dos extremas. As qualidades desse povo levadas ao extremo, porém de acor- do com a viva realidade, podem ser representadas no t0- tal e sem outra descricao por fragmentos langados na desordem, como materiais para uma caracteristicas Osombrio alcance da conversagio, quando Séorates esté ausente e quando os sofistas conduzem o jogo, & essa per pétua adolescéncia do espitito que Joubert criticava em Voltaire: bastante desprendimento para ojogo e a felicidade, insuficiente maturidacte espiritual para saber 0 valor das ins- tituigdes duraveis (a Academia de Platéo durou quase mil anos) que transformariam essa sociabilidace de huxo em per- severanga flosofica ¢ em tradigéo de formas vivas Menos profundo, porém mais célebre, 0 testemunho de Madame de Staél, francesa de fora, é também mais Ii sonjeiro para 0 amor préprio nacional. Ele no contribuiu pouco, depois da tragédia dos anos 1792-1794, para tranquilizar a Franca quanto a sua vocagii socidvel e para colocé-la de novo na senda da conversago: sParece-me que conheceu, escreve ela, Paris como a cidade do mundo onde o espirito € o gosto pela conversagio sto mais geral- mente difundidos; e o que se chama o mal do pais, essa saudade indefinivel da patria, que € independente dos pro- prios amigos que lé ficaram, se aplica particularmente 20 prazer de conversar, que em nenhum lugar os franceses encontram no mesmo grau que encontram na terra deles. Volney conta que os franceses emigrados queriam, durante a revolucio, estabelecer uma colénia e desbravar terras na ‘América; mas de tempos em tempos, eles largavam todas as suas ocupagées para it, diziam cles, conversar na cida- de, ¢ esta cidade, A Nova-Orleans, estava a quatrocentas léguas de onde moravam, Fm todas as classes, na Franga, sente-se a necessidade de conversar; a fala nfo ¢ la, como ‘em outros lugares, um meio de comunicar suas idéias, seus sentimentos, seus negécios, mas é um instrumento com 0 ‘qual se gosta de brincar e que reanima os espititos, comoa rmisica para alguns povos, os licores fortes para outros. Depois de trinta anos de existencialismo, de “nouveau roman” ¢ de “luta de classes” durante os quais a frivolida- de ea moda nuttiram o terror, chegam-nos do estrangeiro trabalhos sobre “a chilizagio dos costumes" (Blas), sobre “a pragmtica do discurso” (Goffman), sobre “as condigdes 6timas da cooperacao oral” (Grice). Sem ligacio com esas pesquisas eruditas, um filme dinamarqués, tirado de uma novela de Karen Blixen, A festa de Babete, foi para o publi co francés atual o equivalente do capitulo “Sobre 0 espitito dda conversacdo” de Madame de Staél para 0 piblico do pri meiro Império: a lembranca de uma antiga felcidade. Ali ‘vemos convivas dinamarqueses se expandirem no bem-es- tar da palavra gracas a um banquete que uma parisiense Ines preparou com amor, Ela é uma partidétia da Comuna de Paris exilada: essa vitimna do trigico politico francés, nem por isso deixou de permanecer fil 20 fundo de humanida de e de benevolencia que a boa mesa, 0s bons vinhos ¢ a conversagio mantém, apesar de tudo, na Franca, Babete foi também uma grande cozinheira da Festa do segundo Império, Para agradecer a seus anfitribes, ela fez vit em se- {gredo de Paris e empregou com todo 0 seu talento intacto, tudo 0 que na Franca concorre para a euforia da boca, 0 62 esabrochar das Iinguas, a suspensio dos confltos de opi nies: a arte da mesa, os grandes vinhos, a gastronomia. A conversaclo ¢ inseparivel de suas comodidades, ela ama 0 Juxo. Durante uma noite de béngio, a banquisa do mutismo puritano se degela sob o efeito desse grande rito convival homens e mulheres, aldedes e dignitirios nascem & volup- twosidade glutona e 2 alegria da palavra partilhada, A hu: rmanidade sériae rigida descrita por Dreyer ¢ Bergman du- rante algumas hocas plenas adere a0 Evangelho francés de BrillatSavarin e de Rabelais, Unicamente pelo exemplo contagioso dos saldes parist- censes e de seis fests, sem 0 menor recurso a intimidacdo politica ou militar, nem & politica cultural alguma, a Franca do Antigo Regime tinha conquistado pacificamente @ Euro- pa das cortes e das “boas companhias" criando ali uma so- ‘iedade para lé das fronteiras, onde cada cidado, falando nossa lingua; encontrava uma patria superior. No capitulo ji citado de Da Alemanba, Madame de Staél, 20 mesmo tempo em que amplifcava temas vindos de Rousseau, os conjugava com reminiscéncias de Montesquieu, que mos- trava na conversacio francesa 0 espirito sofistico vencendo Co espitito soérético, mas sem condenésla por isso: «O espi- rito de conversacio, escrevia Montesquieu em seus Pensa- ‘mentos, & 0 que se chama espirito entre os franceses. Fle consiste em um didlogo habitualmente alegre no qual cada "um, sem se éscutar muito, fala € responde, ¢ tudo se trata de uma maneira cortada, penetrante ¢ viva. O estilo € 0 tom da conversagio se aprendem, isto é, 0 estilo do dilo- ‘go. Existem nagGes nas quais 0 espitito de conversacio € inteiramente desconhecido, Como aqueles onde no se vive fem conjunto aqueles cuja gravidade constitui o funda- ‘mento das costumes. Oque se chama espirito entre os fran- ceses ndo ¢ 0 espirituoso, mas um género particular de es- pitta. O espirito, em si mesmo, € 0 bom senso ligado a luz. (© bom senso € a justa comparacao das coisas ¢ a distingio ‘mesma das coisas em seu estado positivo € em seu estado relativos!, Mesmo que esteja espontaneamente em toda a socieda- de francesa, o gosto pela conversacio ndo funciona sem uma certa “arte” mais artculado € mais exemplar no topo do edifcio socal francés, em Paris, na “boa companhia”, Mada- me de Staél em Dez anos de extlio, caracteriza na Franga, a ccontrario, por dois tragos essenciais & conversagio exem- plat “instrugio”, de um lado, a “confianga” do outro, me da “alegria”e da “intimicade’”, sem as quais 0 espirito, essa chara que a conversacio acende, niio poderia brotar’, Ao