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Horácio Quiroga (1878-1937)

A vida de Horacio Quiroga é uma sucessão de fatos da mais diversa índole e extração.
Alguns tem a ver com a Sorte, que a vida não controla. Isso que se há dado chamar de
Destino, a propósito das mortes trágicas disseminadas em sua trajetória de vida, que
culminarão com a própria, buscada por livre decisão após saber de sua incurável
doença. Uma horrível culpa inocente que o fez responsável na juventude pela morte de
seu amigo Ferrando, e depois de sua jovem esposa, revela a Quiroga a existência de
uma fatalidade mais penetrante que a inteligência humana, mais terrível que a vida
mesma.
Horacio Quiroga era um apaixonado pela ação, tanto como podia parecer rude ou
hermético a pessoas que não gozaram de sua confiança ou simpatia. Abre caminho a seu
gênio criador e experimentador, a seu espírito industrial e aventureiro; prova de tudo na
vida. Ao mesmo tempo, essa liberdade em fazer coisas frequentemente na contramão
com as normas estabelecidas, desde usar barba e ser um intelectual que usava a enxada a
pleno sol e recebia a quem o visitasse vestido com uma calça curta. Isto enquanto
tentava a construção de um mundo próprio em sua “meseta”, como chamava na
realidade e na ficção ao lugar elegido para estabelecer sua casa – em San Ignácio, na
província argentina de Misiones, região limítrofe com os estados brasileiros do Paraná e
Santa Catarina, bem como com o Paraguai.
Horácio Quiroga escreveu sobre todas estas experiências vividas em forma de
artigos/contos que foram publicando-se em diários e revistas, desde Salto e Montividéu
(Uruguai), em sua primeira época, até os de Buenos Aires em sua etapa mais madura,
sendo um dos autores mais prolíferos de sua época.
Se existe uma atividade constante na vida e obra de Horacio Quiroga que responde ao
profundo de sua psique, ela é sem dúvida alguma a que lhe dita seu espírito investigador
e curioso, e que está no ânimo cientificista comum de sua época. Porém ela se
aprofunda na sensibilidade de um Quiroga, que elege o selvagem e o natural sempre
frente aos progressos de seu século, atraído pelos abismos do desconhecido e o
misterioso. Sendo racional por formação e geração, se inclina por aquele fenômenos da
vida que não tem explicação aos olhos da razão, especialmente frente ao fenômeno da
morte e outras situações limites como a loucura, as alucinações.
Tudo isto aparece em seus contos, como A la deriva (1912) e El hijo (1928). O primeiro
incluído no livro “Cuentos de Amor, de Locura y de Muerte”, é o melhor exemplo da
qualidade narrativa do autor, fundada na brevidade expressiva. O próprio título sugere
mais aquém do anedótico, um sentido geral da vida humana, a deriva em uma corrente
de penalidades.
O segundo conto saiu no último volume editado em vida por Quiroga: “Mas allá”, em
1935. O real (um acidente de caça) e o imaginário, ou a alucinação de um pai como
produto de uma mente que se nega a aceitar o fato da morte e ante esta negação o
transforma, apaga a fronteira disso que comumente denominamos realidade.
Mas Horacio Quiroga registrou implacavelmente, entre outras coisas, o trabalho da
fatalidade sobre os outros. Foram seus contos sobre os problemas sociais na província
de Misiones (Argentina), mas que apresentou em termos humanos, não de forma
doutrinária como fizeram muitos outros escritores de sua época. Tudo isto também
aparece em alguns contos seus como Los mensú (1914) e Una bofetada (1916), e em
menor medida em Un peón (1918).
A primeira história começa e termina do mesmo modo como a sucessão indefinida e
fatalista das atividades dos trabalhadores rurais de Misiones (os mensú), é narrada com
a difícil e profunda simplicidade do “lo que es así”. Daí que podem desprender-se as
exposições de motivos e mensagens que o leitor queira encontrar. Quiroga nunca se
preocupou em dar. Ao calar no humano, seus personagens, como no caso Cayé e
Podeley, fazem com que a naturalidade e a realidade resistam todas as análises e sirvam
a todas as bandeiras políticas. O segundo conto foi incluído no volume “El Salvaje”, de
1920, logo de publicada na revista Fray Mocho em 1916.
O terceiro conto é um pouco distinto, pois cheio de sugestões pelo mistério que fica no
ar ao final. A narrativa é autobiográfica, de uma testemunha presencial do fatos (o autor
Quiroga), que joga ademais um papel importante, o de ser patrão, em sua relação com
um peão. No filme “Horacio Quiroga entre personas y personajes” (1987, Eduardo
Mignona), se incorporam os fatos desse conto às cenas da vida de Quiroga. O
protagonista do conto, o peão brasileiro Oliveira, é um autêntico personagem da
realidade de fronteira de Misiones, e em sua fala se reconhece a mistura do castelhano
com o português – um bilingüismo comum na região do Alto Uruguai.