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LEPRA NA BÍBLIA

estigma e realidade
STANLEY GEORGE BROWNE

LEPRA NA BÍBLIA
estigma e realidade

2003
Copyright © 1979, Stanley George Browne

TODOS OS DIREITOS RESERVADOS.


Publicado originalmente sob o título Leprosy in the Bible
Traduzido do inglês com permissão da
Christian Medical Fellowship Publication

PRIMEIRA EDIÇÃO:
Dezembro 2003

TRADUÇÃO:
Vera Ellert Ochsenhofer

REVISÃO:
Bernadete Ribeiro

FOTO DA CAPA:
Cores do Brasil, www.centralx.com/cores

Ficha catalográfica preparada pela Seção de Catalogação


e Classificação da Biblioteca Central da UFV

Browne, Stanley George 1907-1986


B884l
2003 Lepra na Bíblia: estigma e realidade / Stanley George Browne;
[tradução] Vera Ellert Ochsenhofer. — Viçosa : Ultimato, 2003.
80p.
Tradução de: Leprosy in the Bible.

ISBN 85-86539-67-8

1. Hanseníase na Bíblia. II. Título.

CDD 19.ed. 220.8616998


CDD 20.ed. 220.8616998

2003
PUBLICADO COM AUTORIZAÇÃO E COM TODOS OS DIREITOS RESERVADOS
EDITORA ULTIMATO LTDA.
Caixa Postal 43
36570-000 Viçosa, MG
Telefone: 31 3891-3149 - Fax: 31 3891-1557
E-mail: ultimato@ultimato.com.br
www.ultimato.com.br
SUMÁRIO

Apresentação à edição brasileira 9


Introdução 11
1. Lepra na Bíblia 15
2. A palavra “lepra” no Antigo Testamento 21
3. Lepra na época do Antigo Testamento 33
4. A palavra “lepra” no Novo Testamento 43
5. Lepra na época do Novo Testamento 47
6. Lepra na Idade Média 53
7. A palavra “lepra” nas traduções modernas 59
8. Lepra bíblica e missões 65
Hanseníase no mundo hoje 69
Hanseníase no Brasil hoje 71
Referências bíblicas 73
Referências bibliográficas 77
ALM BRASIL: NOVA IORQUE
A ALM Brasil é o nome fantasia da representação brasileira da
associação cristã American Leprosy Missions, fundada em 1906, em
Nova York, cujo objetivo é demonstrar o amor de Cristo em palavras e
ações às pessoas e comunidades atingidas pela hanseníase.
O trabalho da ALM Brasil é realizado mediante parcerias com
organizações governamentais e não-governamentais que promovem
o tratamento, a reabilitação física e socioeconômica dessa população
prioritariamente nos Estados de São Paulo e Rio de Janeiro.

Contato:
Telefone: 15 211-7773 / 15 211-4446
Fax: 015-231-3649
almbrasil@uol.com.br
www.almbrasil.com.br
AGRADECIMENTOS

Ao preparar esta edição, o autor reconhece com gratidão


as críticas e sugestões úteis de muitas pessoas, entre elas:

Andersen, J. G., Museu Médico-Histórico — Copenhague,


Dinamarca
Davies, P, Departamento de Estudos Bíblicos, Sheffield
Field, D, Oak Hill College
Jakobovits, I., The Chief Rabbi
Kirby, G. W., London Bible College
Maile, J. F., Spurgeon’s College, Londres
Mason, Rex, Regent’s Park College, Oxford
Moore, W. E., Northern Baptist College
Porteous, N. W., New College, Edinburgh
Sawyer, J. F. A., Newcastle-upon-Tyne
Selman, Martin, Spurgeon’s College, Londres
Shallcross, M., Oak Hill College
White, R. E. O., Glasgow Theological College
Wiseman, D. J., School of Oriental and African Studies,
Londres
Abreviações
AV — Authorized Version
ETHB — English Translation of the Hebrew Bible
GNB — Good News Bible
MRB — Modern Readers Bible
NCB — New Catholic Bible
NEEB — New English Bible
NIV — New International Version
RSV — Revised Standard Version
TEV — Today’s English Version
APRESENTAÇÃO
À EDIÇÃO BRASILEIRA

Lepra na Bíblia foi muito influente nos círculos das


organizações ligadas ao atendimento às pessoas atingidas pela
hanseníase no mundo de fala inglesa. O livro teve três edições
(1970, 1974 e 1979) e é citado como referência no assunto em
dicionários bíblicos. No Brasil, contudo, não houve demanda
por sua tradução, visto que na época poucas organizações
não-governamentais atuavam na área.
A realidade mudou e hoje temos diversas organizações
religiosas atuantes na saúde, como a Pastoral da Saúde, a
Capelania Evangélica entre outras. Portanto, vemos a
necessidade de fornecer informações específicas sobre a lepra
bíblica por ser ela tacitamente associada à hanseníase, o que
contribui para a manutenção do estigma existente contra o
doente e a doença.
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O excelente trabalho de pesquisa realizado por Stanley


G. Browne fornece subsídios para se repensar a associação
direta entre a hanseníase, também conhecida como lepra, e a
lepra retratada na Bíblia tanto no Antigo como no Novo
Testamentos. É necessário que informações acuradas cheguem à
população e aos formadores de opinião para que se abandonem
as mensagens que relacionam a hanseníase à lepra da Bíblia e,
com isso, se esgote uma das fontes de significados
estigmatizantes sobre a doença e o doente.
Faz-se necessário comentar que adotamos a expressão
“hanseníase” na tradução do texto sempre que o autor emprega
a expressão “lepra verdadeira”. O motivo dessa escolha
baseou-se no fato de que a palavra “hanseníase” não era a
designação oficial para a “lepra verdadeira” (como denomina o
autor) na época em que o livro foi escrito. O autor emprega tal
expressão para distinguir a lepra que aparece no relato bíblico
da patologia conhecida então como “lepra” (hanseníase).
Profa. Dra. Zoica Bakirtzief
Representante para o Brasil da ALM
(American Leprosy Missions)
Professora Titular da Universidade Paulista
INTRODUÇÃO / 11

INTRODUÇÃO

DURANTE MUITOS ANOS, os cristãos estiveram à frente do


cuidado de pessoas que sofriam de lepra. De maneira geral, sua
atitude em relação à doença e às suas vítimas baseou-se no exem-
plo do nosso Senhor, que de fato tocou1 os acometidos pela lepra.
Os cristãos interpretaram que as instruções de Jesus aos doze dis-
cípulos (“purifiquem os leprosos”2) aplicavam-se aos cristãos de
todos os tempos. A seu ver, a Versão Autorizada do Antigo e do
Novo Testamentos oferecia justificativa para julgarem a lepra não
apenas como uma doença à parte, mas também como motivo
suficiente para que houvesse uma preocupação especial para com
suas vítimas.
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Por outro lado, havia aqueles que julgavam improcedente (e


até mesmo leviano) tentar curar os acometidos pela lepra, consi-
derando-a como punição divina pelo pecado e, portanto, fora do
alcance de tratamentos médicos. Aos olhos desses, todos os doen-
tes eram considerados corrompidos pela “lepra do pecado” e, a
menos que houvesse um ato soberano de Deus, não havia possi-
bilidade de cura. Muitos escritores e pregadores cristãos, a partir
de Orígenes, julgavam a lepra “um tipo do pecado”, um modelo
ou símbolo do pecado, e essa idéia transpareceu em muitos ser-
mões. Até pouco tempo atrás, o fato de alguns tipos de lepra
evoluírem implacavelmente e nenhum tratamento parecer eficaz
na cura das úlceras nas mãos e nos pés certamente deu credibilidade
à crença disseminada, cristalizada em ditos e provérbios em todo
o mundo, de que a doença ainda era incurável (Bennett, 1896).
Pesquisas recentes sobre a lepra — sua etiologia, patologia,
transmissão e tratamento — tiraram a doença da penumbra da
superstição popular, levando-a para o âmbito de doenças
transmissíveis específicas, que podem ser e são investigadas e ava-
liadas cientificamente (Bloomfield, 1958). A causa há tanto tem-
po sob suspeita, o Mycobacterium leprae, está sendo decifrada, e
os postulados de Koch (às vezes atribuídos a Henle) estão sendo
cumpridos, um por um. Embora muitos mistérios não-resolvidos
da imunologia e transmissão continuem desafiando os cientistas
no campo e no laboratório, a lepra já assumiu o seu lugar apro-
priado na escala das infecções micobacterianas (passou a ser cha-
mada hanseníase).
Existe muita confusão sobre o significado a ser atribuído à
palavra lepra em diversas versões da Bíblia, em inglês e em muitos
outros idiomas. As diferenças observadas nas novas traduções para
o inglês, que recentemente obtiveram aceitação e popularidade
variáveis, não diminuíram as dificuldades existentes há longo tem-
po. Algumas dessas versões seguem as interpretações tradicionais
da AV, ao passo que outras introduzem novas interpretações, que
INTRODUÇÃO / 13

podem chocar os ouvidos daqueles habituados às palavras e frases


da AV ou da RSV. O âmago da questão está nos significados ori-
ginais e conotações variáveis das palavras em hebraico e grego, e
seus equivalentes verbais no inglês moderno (Sawyer, 1976). Outro
aspecto bastante prático desse problema de tradução são as impli-
cações de qualquer identificação da palavra utilizada nas Escritu-
ras com uma doença específica. Se a doença bem definida e
identificada, atualmente conhecida como hanseníase, receber a
conotação de profanação ritual, de impureza e punição pelos atos
errados — então as pessoas que já sofrem com a hanseníase terão
de suportar também os resultados das traduções e interpretações
enganosas, que durante anos causaram profunda angústia e
sofrimento a milhões de pessoas.
um

LEPRA NA BÍBLIA

O QUE É, NOS DIAS DE HOJE, a lepra da Bíblia? A lepra


bíblica é a mesma doença que atualmente conhecemos como
hanseníase? Além disso, por que as Sagradas Escrituras dariam
destaque especial a uma determinada doença? Será que a doença
denominada lepra possui algum significado ritual ou teológico?
A resposta resumida é que a Bíblia não menciona de maneira
explícita ou inequívoca a hanseníase (nome com o qual atual-
mente designamos o complexo clínico de sinais e sintomas causado
16 / LEPRA NA BÍBLIA

pelo M. leprae), embora a palavra lepra e seus cognatos ocorram


na maioria das traduções do original para os idiomas românicos.
Se as Escrituras em hebraico e grego fossem hoje novamente
traduzidas para o inglês ou para qualquer outro idioma, por estu-
diosos igualmente versados em lingüística histórica e semântica
médica (e sem pressuposições subconscientes), certamente eles
usariam uma palavra diferente de lepra como o equivalente em
denotação e conotação da palavra hebraica tsara‘at e da palavra
grega lepra. Essa é uma tarefa impossível. Aliás, muitos estudiosos
consideram as palavras intraduzíveis, visto que elas abrangem
conceitos incompreensíveis para falantes das línguas atuais.
Embora talvez algumas pessoas temam que essa espécie de ten-
tativa de retraduzir o texto possa invalidar o sentimento imperio-
so de alguns cristãos para “purificar os leprosos”2, outros talvez se
alegrem com uma redescoberta honesta do verdadeiro significa-
do da Palavra de Deus e enfrentem de maneira realista as implica-
ções dessa reorientação de pensamento e ação. A verdade é mais
estranha, e mais forte, do que a ficção. A ênfase sentimental e até
mesmo mórbida da lepra em alguns círculos, e a dramatização
não-cristã do trabalho missionário entre doentes acometidos por
hanseníase dariam lugar a uma percepção mais profunda das ne-
cessidades físicas e espirituais de todos os homens e mulheres que
sofrem. No mundo de hoje e de amanhã, os portadores de
hanseníase, negligenciados e relegados ao ostracismo (Browne,
1963), vítimas de deficiências e discriminação social, cultural,
eclesiástica e até mesmo legal por causa da sua doença (não obstante
a Declaração dos Direitos Humanos), e muitas vezes vistos com
repulsa e medo, continuarão a atingir de forma especial a consci-
ência dos cristãos de modo geral e a apelar para a compaixão dos
dedicados profissionais da área médica. Eles continuarão sendo
objeto de cuidados especiais, pois em muitos países ainda consti-
tuem um segmento da comunidade particularmente necessitado
e negligenciado.
LEPRA NA BÍBLIA / 17

Graças à providência de Deus, traduções errôneas graves de


palavras das Escrituras originais foram substituídas, e mesmo a
identificação equivocada da “lepra” bíblica não foi um infortúnio
irremediável. A bem da verdade, ela inspirou um grande volume
de filantropia desinteressada, com benefícios físicos e espirituais
duradouros para as vítimas da hanseníase (Lie, 1938). Ao atende-
rem os doentes de hanseníase negligenciados e serem os pioneiros
nos domínios do cuidado compassivo, tratamento médico, cirur-
gia de reconstrução e reabilitação, os missionários cristãos mais
do que repararam as atitudes antibíblicas de alguns dos seus ante-
passados e os graves danos causados em nome da religião a víti-
mas inocentes de uma doença pouco contagiosa. Quando nin-
guém mais se incomodava, os cristãos o fizeram, e seu exemplo
ainda inspira pessoas de outros credos ou que não possuem credo
algum, profissionais da área médica e cientistas pesquisadores.
Ainda é verdade que grande parcela dos trabalhadores do setor
médico na área da hanseníase é motivada pelos mais elevados ide-
ais cristãos.
Nos últimos anos, não-cristãos têm ingressado na batalha con-
tra a hanseníase. Isso é bom, mas significa que os interesses nos
aspectos médicos e humanitários da doença já não são prerrogati-
va daqueles cujos ideais e motivos derivam de sua fé cristã, base-
ada na Bíblia. Antes pioneiros e catalisadores, agora os cristãos no
serviço do atendimento a portadores da hanseníase atuam como
colaboradores, contribuindo não apenas com atitudes essenciais e
ênfase nos problemas humanos e médicos, mas também com
qualidades como preocupação compassiva e integridade, simpa-
tia e paciência.
A principal razão da afirmação de que as Escrituras originais
não citam a hanseníase é que somente em 1847 (Danielssen e
Boeck) diferenciou-se a lepra, de forma clara e definitiva, como
uma entidade clínica distinta de muitas outras doenças que até
então freqüentemente eram confundidas com ela. Mais tarde,
18 / LEPRA NA BÍBLIA

Hansen (1874) publicou os resultados iniciais de suas pesquisas,


e identificou o M. leprae como um organismo sistematicamente
presente (embora em concentrações muito variáveis) em todos os
tipos de lesões que, por definição clínica, eram hanseníase. As
palavras originais em hebraico e grego, e seus equivalentes lati-
nos, naturalmente não tinham a precisão e delimitação científica
da palavra hanseníase (e seus cognatos), atualmente empregada
em inglês. Essas antigas palavras eram termos genéricos, de senti-
do lato, imprecisos e “leigos”. Não se pode esperar que palavras
de significado cristalino e relativamente preciso em épocas passa-
das e em outras culturas sejam equivalentes a palavras usadas pelo
homem científico ocidental no século vinte.
Tendo em vista que para a maioria dos falantes de inglês a AV
ainda é “a Bíblia”, a grande maioria das observações seguintes irá
referir-se a essa versão. Quanto às palavras lepra e leproso, a RSV
geralmente segue a AV, tal como o faz a Bíblia Viva. Mais adian-
te, examinaremos as traduções em várias versões modernas.
Nosso principal objetivo agora é examinar a palavra lepra tal
como a encontramos no Antigo e no Novo Testamento, e tentar
descobrir o significado e as delimitações do conceito básico deno-
tado pela palavra em seus diversos contextos. Somente assim será
possível chegar a um entendimento sobre a lepra na Bíblia. De
maneira genérica, na Bíblia lepra é uma condição patológica, em
geral um conjunto de doenças em um contexto de enfermidade e
aflição3 física. É um termo ritualístico, que denota profanação ou
impureza. Ele sugere mácula superficial, estigma e tabu. A razão
de se designar um objeto como cerimonialmente profano não se
baseia nas idéias modernas de infecção, higiene ou moralidade.
O objeto simplesmente é impuro.
Antes de mais nada, temos de reconhecer humildemente a
falibilidade do diagnóstico em retrospectiva, especialmente quando
há poucas indicações médicas e quando se usam palavras de sen-
tido controvertido (como em Levítico 13 e 14). Mais do que isso,
LEPRA NA BÍBLIA / 19

os padrões de doença tendem a mudar com a passagem do tempo


e entre as diferentes raças, como demonstram a tuberculose e a
sífilis, o sarampo e a escarlatina. Com base exclusiva na lingüísti-
ca, não é possível afirmar categoricamente se a hanseníase estava
ou não incluída entre as doenças que tinham de ser identificadas
pelo sacerdote como aviltantes, exigindo a exclusão temporária
ou permanente do doente da sociedade.