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A interpretação levinasiana da redução fenomenológica

Podemos reconhecer na fenomenologia husserliana uma desconfiança frente ao olhar


característico da atitude natural que se encontra voltado diretamente para o objeto, de
modo a permanecer centrado e absorvido nele e que, nesse movimento, ignora as bases
sobre as quais é constituído o sentido de sua objetividade. Nesse sentido, é como se a
abertura inicial sobre o objeto efetuasse uma espécie de fechamento, uma vez que o
sentido, presente nas intenções pelas quais nos voltamos a ele, não está explicitamente
dado e, sob as vivências atuais, há um horizonte de potencialidades determinadas que
lhe são correspondentes. Desse modo, torna-se importante destacar, na fenomenologia
de Husserl, não apenas a necessidade de buscar reflexivamente, partindo do objeto
iluminado, a vida subjetiva que o ilumina, isto é, pela qual há a sua constituição
segundo o seu sentido objetivo, mas também que a consciência, além de sua estrutura
intencional como consciência-de, é caracterizada pelo ato de emprestar sentido. É
necessário realizar, segundo a fenomenologia husserliana, o ato de retornar ao eu
transcendental com sua consciência pura e isso exige a realização da redução
fenomenológico-transcendental, em função da qual compreende-se o valor e o sentido
da realidade como decorrentes da cogitationes. Levinas afirma que é possível seguir um
caminho na realização da redução, que é sugerido pela sua leitura da obra Meditações
Cartesianas, segundo o qual o que entra em questão não recai sobre a adequação visto e
visado, rompendo com o pensamento centrado nas ideias de certeza e incerteza e
colocando-nos para além das normas pelas quais o ponto central seria a identidade do
Mesmo; seguindo esse caminho haveria uma inadequação característica da
apoditicidade do cogito e que se pauta na presença viva do Eu a si mesmo. E a
compreensão dessa presença aponta também para a interpretação da noção de
“transcendência na imanência”, segundo a qual haveria uma espécie de identificação na
imanência enquanto desperta-se dela, isto é, distancia-se do estado do qual faz parte. É
colocar-se para fora da imanência, mas ainda pertencendo a ela, o que se caracterizaria
como “um-eu-que-se-mantém-à-distância”, é a recusa em permanecer o Mesmo ou
reencontrar-se como tal. Existiria uma defasagem no interior da consciência de si ou
uma diferença irredutível de si a si? Cumpre-nos compreender o que seria esse traço de
alteridade atravessando o psiquismo onde deveria prevalecer a coincidência consigo.
Seria uma referência, no âmago da subjetividade, ao Outro? Um despertar ao modo de
inquietação do Mesmo pelo Outro, sendo que na afecção que dele decorre não há
alienação ou reificação do sujeito e essa alteridade, tampouco, se presta a uma
assimilação, sendo, portanto, irredutível. Isso sugere, segundo Levinas, a ideia de vigília
pelo Outro e pode indicar a noção de responsabilidade. Assim, o objetivo dessa
apresentação é considerar os desdobramentos e as implicações da redução
fenomenológica segundo Levinas, a partir dos seguintes ensaios do filósofo francês:
“Da consciência ao despertar” e “A Filosofia e o despertar”.

Palavras-chave: Levinas, Husserl, redução fenomenológica, responsabilidade.