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Informativo TSE

Assessoria Consultiva do Tribunal Superior Eleitoral (Assec)


Brasília, 4 a 17 de junho – Ano XX – nº 9

SUMÁRIO

SESSÃO ADMINISTRATIVA_____________________________________ 2

•• Autofinanciamento de campanha aplicado às Eleições 2018

•• Gastos em campanha eleitoral com aeronaves e embarcações e uso de bem móvel de


propriedade do candidato em coparticipação com pessoa jurídica

PUBLICADOS NO DJE________________________________________ 4
DESTAQUE__________________________________________________ 6
OUTRAS INFORMAÇÕES_____________________________________ 10

SOBRE O INFORMATIVO: Este informativo, elaborado pela Assessoria Consultiva, contém resumos não oficiais de decisões do TSE
pendentes de publicação e reprodução de acórdãos publicados no Diário da Justiça Eletrônico (DJE).
A versão eletrônica, disponível na página principal do TSE, no menu Área jurídica – http://www.tse.jus.br/jurisprudencia/
informativo-tse-1/informativo-tse –, permite ao usuário assistir ao julgamento dos processos pelo canal do TSE no YouTube. Nesse
link, também é possível, mediante cadastro no sistema Push, o recebimento do informativo por e-mail.
SESSÃO ADMINISTRATIVA

Autofinanciamento de campanha aplicado às Eleições 2018

Nas eleições de 2018, será permitido ao candidato o uso de recursos próprios em campanha
eleitoral até o limite de gastos estabelecido para o cargo ao qual concorre.

Esse foi o entendimento adotado pelo Plenário do TSE ao responder a consulta formulada por
deputado federal em que se questionou a aplicação do art. 23, § 1º-A, da Lei nº 9.504/1997, que
dispõe sobre o limite para o autofinanciamento de campanha no pleito de 2018.

O projeto legislativo do qual resultou a Lei nº 13.488/2017 previa a revogação do dispositivo


supracitado, mas essa alteração foi vetada pelo Presidente da República no ensejo da sanção e
promulgação da referida lei.

Posteriormente, o Congresso Nacional rejeitou o veto presidencial, em 15.12.2017, oportunidade


em que o art. 23, § 1º-A, da Lei nº 9.504/1997 deixou de ter existência jurídica.

O mencionado parágrafo dispunha sobre o limite de autofinanciamento de campanha, nos


seguintes termos:

§ 1º-A O candidato poderá usar recursos próprios em sua campanha até o limite de gastos
estabelecido nesta Lei para o cargo ao qual concorre. (Incluído pela Lei nº 13.165, de 2015 e
revogado pela Lei nº 13.488, de 2017.)

O Ministro Napoleão Nunes Maia Filho, relator, ressaltou que a rejeição do veto presidencial
ocorreu apenas em 15.12.2017, menos de um ano antes do pleito, razão pela qual, em observância
ao princípio constitucional da anualidade eleitoral (art. 16 da CF/1988), o dispositivo será aplicado
nas eleições gerais de 2018 – não obstante sua revogação –, pois estava vigente um ano antes
do pleito.

Consulta nº 0600244-41, Brasília/DF, rel. Min. Napoleão Nunes Maia Filho, julgada em 12.6.2018.

Gastos em campanha eleitoral com aeronaves e embarcações e uso de bem móvel de


propriedade do candidato em coparticipação com pessoa jurídica

Os valores despendidos com combustível e manutenção de veículos terrestres são considerados


despesas pessoais do candidato e não estão sujeitos à prestação de contas eleitoral, não se
aplicando essa ressalva aos gastos com embarcações e aeronaves.

Ademais, não é permitido, na campanha eleitoral, o uso de bem móvel de propriedade do candidato
em coparticipação com pessoa jurídica, por configurar conduta vedada pela legislação eleitoral.

Esse foi o entendimento adotado pelo Plenário do TSE ao responder a consulta formulada por
diretório nacional de partido político que questionou, em síntese, se a locação de embarcações
e/ou aeronaves nas campanhas eleitorais é contabilizada no limite de 20% de gastos com o
aluguel de veículos automotores, bem como se a isenção de prestação de contas das despesas
pessoais do candidato com combustível e manutenção de veículos automotores próprios é
extensível às embarcações e/ou aeronaves.

2 Informativo TSE – Ano XX – nº 9


O art. 26 da Lei nº 9.504/1997 traz regramento sobre a prestação de contas de campanha eleitoral
e, em seu § 1°, estabelece limite de 20% da totalidade de gastos para o aluguel de veículos
automotores. Além disso, o § 3° prevê hipóteses que caracterizam despesas de natureza pessoal
do candidato e que, por conseguinte, estão excluídas da prestação de contas, in verbis:

§ 3º Não são consideradas gastos eleitorais nem se sujeitam a prestação de contas as seguintes
despesas de natureza pessoal do candidato: (Incluído pela Lei nº 13.488, de 2017.)
a) combustível e manutenção de veículo automotor usado pelo candidato na campanha; (Incluído
pela Lei nº 13.488, de 2017.)
b) remuneração, alimentação e hospedagem do condutor do veículo a que se refere a alínea a
deste parágrafo; (Incluído pela Lei nº 13.488, de 2017.)
c) alimentação e hospedagem própria; (Incluído pela Lei nº 13.488, de 2017.)
d) uso de linhas telefônicas registradas em seu nome como pessoa física, até o limite de três linhas.
(Incluído pela Lei nº 13.488, de 2017.)

O Ministro Tarcisio Vieira de Carvalho Neto, relator, entendeu que o limite de gastos estabelecido
na legislação eleitoral se restringe às despesas decorrentes da locação de veículos automotores
de uso em via terrestre, não abarcando as aeronaves e embarcações.

Esclareceu que o legislador foi expresso ao incluir exclusivamente os meios de transporte


terrestres, aqui compreendidos quaisquer deles que se deslocam em ruas, estradas e rodovias.

Ressaltou, porém, que tal entendimento não leva à conclusão de que os gastos com embarcações
e/ou aeronaves não tenham limites, uma vez que a proporcionalidade e a razoabilidade impedem
que qualquer abuso ou privilégio macule o processo eleitoral.

Afirmou, ainda, que não é admissível o uso de bem móvel na campanha eleitoral, inclusive os
de transporte, de propriedade do candidato em coparticipação com pessoa jurídica, haja vista
configurar doação de pessoa jurídica, vedada a partir da revogação do art. 81 da Lei nº 9.504/1997.

Consulta nº 0600450-55, Brasília/DF, rel. Min. Tarcisio Vieira de Carvalho Neto, julgada em
12.6.2018.

Informativo TSE – Ano XX – nº 9 3


PUBLICADOS NO DJE

Agravo de Instrumento nº 1533-70/RS


Relator originário: Ministro Gilmar Mendes
Relatora para o acórdão: Ministra Rosa Weber
Ementa: ELEIÇÕES 2008. AGRAVO DE INSTRUMENTO. RECURSO ESPECIAL ELEITORAL. CRIME
ELEITORAL. ART. 299 DO CÓDIGO ELEITORAL. GRAVAÇÃO AMBIENTAL. CONDUTA INDUZIDA.
ILICITUDE. DEPOIMENTO TESTEMUNHAL DE COAUTOR. INADMISSIBILIDADE. CONFISSÃO
INSUFICIENTE PARA CONDENAÇÃO.
1. Não há violação ao art. 275 do Código Eleitoral quando o Tribunal enfrentou todos os
argumentos levantados pela parte, ainda que de forma contrária aos seus interesses.
2. Alegação de ilicitude de provas (gravação ambiental e depoimento de coautor do delito) que
confirmam fatos confessados pelo réu em seu interrogatório.
3. A confissão do réu é uma prova independente, não contaminada por eventual ilicitude da
gravação ou do depoimento das testemunhas (art. 157, § 2º, do CPP).
4. A parte não pode alegar a ilicitude de provas que confirmam a própria versão dos fatos. Mesmo
que ilicitude houvesse, não haveria prejuízo, na medida em que a parte optou validamente por
produzir prova contra si mesma, confessando os fatos corroborados pelas provas supostamente
ilícitas. Se a prova ilícita confirma a versão da parte, a ilicitude não lhe causa prejuízo. Na forma do
art. 563 do CPP, à mingua de prejuízo, não se pronuncia invalidade.
5. A jurisprudência do Tribunal Superior Eleitoral faz uma distinção, em relação à gravação de
conversas ocorridas no período eleitoral, para a prova de crimes eleitorais. Admite-se a prova,
se utilizada para a demonstração de conversas em ambientes públicos, ou para as quais não há
expectativa de privacidade. Pelo contrário, rejeita-se a utilização de gravações de conversas privadas,
tendo em vista que a disputa eleitoral é propícia para a indução à prática de crimes. Precedentes.
6. Há uma conexão da distinção com o direito penal material subjacente. O fundamento da
distinguishing é justamente o ambiente de disputa eleitoral, propício ao induzimento da prática
de crimes. A situação se assemelha ao chamado flagrante preparado, em que a atividade
criminosa é planejada e induzida por agentes alheios com o fim de surpreender o indivíduo em
prática criminosa. Isso representa, aliás, o teor da Súmula nº 145/STF, segundo a qual “não há
crime, quando a preparação do flagrante torna impossível a sua consumação”.
7. O caso deve ser avaliado à luz do art. 17 do Código Penal, que trata do crime impossível.
A conduta de membros de campanha eleitoral que, induzidos por partidários de campo político
diverso, praticam conduta formalmente típica, mas sem possibilidade de atingir o bem jurídico
protegido pela norma, é atípica.
8. Eleitor que admitiu ter solicitado vantagem ilícita ao candidato e efetuado a respectiva gravação
mediante paga, por adversários políticos do réu.
9. Tendo em vista o induzimento, a conduta não colocou o bem jurídico protegido em risco, nem
ao menos em tese. Via de regra, a reserva mental, por parte do eleitor, não impede a consumação
do crime do art. 299 do Código Eleitoral – crime formal. O relevante é que a própria negociação
do voto é insincera. O eleitor policitante tem por objetivo principal obter uma prova incriminatória
contra o candidato.
10. Do ponto de vista do direito penal, a conduta é atípica, porque o crime é impossível, por
absoluta impropriedade do objeto, na forma do art. 17 do Código Penal.
11. Ainda que tenha caído em emboscada, o candidato oblato agiu de forma moralmente
reprovável, ao aceitar a proposta ilícita e pagar a vantagem indevida.
12. Agravo de instrumento provido. Recurso especial eleitoral provido, para absolver o recorrente.

DJE de 6.6.2018

4 Informativo TSE – Ano XX – nº 9


RESOLUÇÃO PUBLICADA NO DJE, DE INTERESSE PÚBLICO

Resolução nº 23.571, de 29.5.2018


Instrução nº 3/DF
Relator: Ministro Admar Gonzaga
Interessado: Tribunal Superior Eleitoral

Disciplina a criação, organização, fusão, incorporação e extinção de partidos políticos.

DJE nº 116 de 14.6.2018

http://www.tse.jus.br/legislacao/codigo-eleitoral/normas-editadas-pelo-tse/resolucao-no-
23-571-de-29-de-maio-de-2018-2013-brasilia-df

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DESTAQUE
(Espaço destinado ao inteiro teor de decisões que possam despertar maior interesse,
já publicadas no DJE.)

Processo Administrativo nº 513-71/GO


Relator: Ministro Luiz Fux

PROCESSO ADMINISTRATIVO. PROPOSTA. UNIFICAÇÃO. AFERIÇÃO. INELEGIBILIDADE. SISTEMA


DE APLICAÇÃO DE TESTE DE ALFABETIZAÇÃO. INVIABILIDADE. JURISPRUDÊNCIA. TSE. NÃO
ACOLHIMENTO DA PROPOSTA.
1. A restrição de direitos políticos com base no critério da instrução encontra fundamento na necessidade
de se reservar o mister da representação a sujeitos que possam exercê-la com total independência.
2. O ius honorum, na Constituição Federal à semelhança da tradição constitucionalista
latino-americana, reserva aos cidadãos que possuam uma base educacional mínima, plasmando
uma opção compatível com o direito comunitário de regência (art. 2º do Pacto Internacional de
Direitos Civis e Políticos; art. 23.2 da Convenção Americana de Direitos Humanos).
3. Nada obstante, o constitucionalismo moderno tende a acreditar que “a exigência de um
determinado patamar mínimo de cultura [...] soa anacrônica e incrongruente com o princípio geral
de livre acesso da população aos cargos públicos”.
4. A realidade multifacetada da sociedade brasileira desaconselha que o analfabetismo seja avaliado
a partir de critérios rígidos, abstratos e estanques. Do contrário, em redutos onde o analfabetismo
seja a regra, o domínio político se perpetuaria como um monopólio das elites.
5. O exame da causa de inelegibilidade do art. 14, § 4º, da CF/88 deve ocorrer da forma mais
branda possível, em harmonia com os valores constitucionais e em consonância com o estádio de
desenvolvimento regional.
6. Proposta não acolhida.

Acordam os ministros do Tribunal Superior Eleitoral, por unanimidade, em não acolher a proposta
formulada pelo Juízo da 3ª Zona Eleitoral de Anápolis/GO, nos termos do voto do relator.

Brasília, 12 de abril de 2018.

MINISTRO LUIZ FUX – RELATOR

RELATÓRIO

O SENHOR MINISTRO LUIZ FUX: Senhores Ministros, trata-se de proposta subscrita pelo Juiz da
3ª Zona Eleitoral de Anápolis/GO, Matheus Milhomem de Sousa, por meio da qual sugere a
modernização e unificação do sistema para aferição do grau de alfabetização de candidatos, nos
seguintes termos (fls. 8):

[...] formulo consulta/sugestão no sentido de ser verificada a possibilidade de modernização no


sistema de triagem para constatação do grau de alfabetização dos candidatos, podendo ser feita
pelo TSE ou mesmo de forma unificada pelos TRE´s, a aplicação de teste na ausência de 1º grau
completo ou havendo indícios de analfabetismo funcional.

6 Informativo TSE – Ano XX – nº 9


Alegou que “os tipos de analfabetismo perfazem o iletrismo (falta de compreensão na leitura),
analfabetismo funcional (aptidão para ler e escrever, sem, contudo, desenvolver a interpretação)
e [...] analfabetismo tecnológico (ausência de acesso à internet e falha no manuseio de
equipamentos eletrônicos)” (fls. 7).

Aduziu que, de acordo com dados do IBGE 2010, cerca de 13,9 milhões de brasileiros com 15
anos ou mais são analfabetos, sendo comum encontrar, em época de eleições, candidatos que
se enquadram nessa condição, o que torna precária sua formação para o exercício de funções
cada vez mais complexas.

Na sequência, defendeu que o teste para subsidiar a aferição da causa de inelegibilidade


tem o intuito de evitar a eleição de candidatos considerados analfabetos funcionais e,
concomitantemente, incentivá-los a progredir nos estudos, bem como para estimular o
desenvolvimento, pelos mandatários atuais, de políticas públicas para melhoria na educação.

Sustentou que a avaliação realizada pelos juízos eleitorais para aferir o analfabetismo não possui
qualquer padronização, sendo prejudicada por falta de estrutura e devido à logística envolvida
no processo, o que possibilita o ingresso de candidatos vetados pela própria Constituição.

Sugeriu a formação de uma junta de educadores especializados para realizar testes próprios de escrita,
compreensão textual e conceitos básicos matemáticos, a serem aplicados pelo TSE ou de modo unificado
pelos Tribunais Regionais Eleitorais, em momento próprio, antes do deferimento da candidatura.

Requereu que o TSE oriente os juízes e promotores eleitorais no exercício dessa atribuição, por
meio de regulamentação de requisitos de validade dos testes, enquanto não for viabilizado o
exame unificado.

O feito foi autuado como Processo Administrativo e a mim distribuído, nos termos do art. 16, § 8º,
do RITSE (fls. 173). A fls. 176-177, sugeri a redistribuição do processo ao Relator das Instruções do TSE
para as Eleições de 2016, Ministro Gilmar Mendes, o que foi determinado em despacho a fls. 179.

Por meio da Informação Assec nº 03/2018, a Assessoria Consultiva (fls. 194-198) apontou:

No parecer de fls. 182-190, emitido em 31.5.2016, esta Assessoria opinou pelo não acolhimento da
proposta, tendo em vista que a jurisprudência deste Tribunal Superior estabeleceu como requisitos
de validade do teste de alfabetização o nível elementar do conteúdo cobrado e o modo individual e
reservado de sua aplicação para que não haja constrangimentos que agridam a dignidade da pessoa.
[...]
Pelo despacho de fl. 192, proferido em 1º.2.2018, o Ministro Gilmar Mendes reencaminhou os autos
a esta Assessoria para atualização das informações em razão do transcurso do tempo.
2.  Cumpre-nos informar que, após esta Assessoria emitir o parecer de fls. 182-190, de 31.5.2016, o
Plenário deste Tribunal Superior concluiu, em 27 de setembro daquele mesmo ano, o julgamento do
REspe nº 89-41/PI, rel. Min. Herman Benjamin, assentando que a inelegibilidade por analfabetismo,
prevista no art. 14, § 4º, da Constituição da República, deve ser analisada da forma mais branda
possível, de modo a favorecer ao máximo a participação político-eleitoral.
Conforme trecho do voto do Ministro Relator, o exame da causa de inelegibilidade do art. 14, § 4º,
da CF/88, deve ocorrer de acordo com o quadro valorativo principiológico delineado pelo texto
constitucional, de modo que o “analfabetismo de natureza educacional não pode e nem deve, em
nenhuma hipótese, significar analfabetismo para vida política, sob pena de excluir as minorias –
dupla sanção, em verdade – do direito ao exercício do jus honorum”.
[...]
O entendimento deste Tribunal Superior firmado nesse precedente é no sentido de se admitir
a realização do teste de alfabetização em caráter meramente suplementar e em benefício do

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candidato, de modo que a apresentação de documentos que tenham o mínimo de valor probante
é suficiente para afastar a incidência da inelegibilidade constitucional.
3. Assim, esta Assessoria reitera o parecer de fls. 182-190, no sentido da impossibilidade de
acolhimento da sugestão proposta nestes autos pelo Juízo da 3ª Zona Eleitoral de Anápolis/GO, em
conformidade com o entendimento jurisprudencial firmado quanto ao tema nesta Corte Superior.

É o relatório.

VOTO

O SENHOR MINISTRO LUIZ FUX (relator): Senhores Ministros, trata-se de proposta subscrita pelo
Juiz da 3ª Zona Eleitoral de Anápolis/GO, Matheus Milhomem de Sousa, por meio da qual sugere
a modernização e unificação do sistema para aferição do grau de alfabetização de candidatos.

A Assessoria Consultiva reiterou o parecer de fls. 182-190, no sentido da impossibilidade de


acolhimento da sugestão proposta nestes autos.

Ab initio, consigno que a restrição de direitos políticos com base no critério da instrução encontra
fundamento na necessidade de se reservar o mister da representação a sujeitos que possam
exercê-la com total independência.

Com esse espírito, a Carta brasileira – na linha da tradição constitucionalista latino-americana,


reproduzida em países como Bolívia, Venezuela, El Salvador e Chile – reserva o ius honorum a
cidadãos que possuam nível mínimo de educação (art. 14, § 4º, CRFB), plasmando uma opção
compatível com o direito comunitário de regência (art. 2º do Pacto Internacional de Direitos Civis
e Políticos; art. 23.2 da Convenção Americana de Direitos Humanos).

Nada obstante, o critério capacitário é um constante objeto de críticas. Nesse diapasão, o


constitucionalismo moderno tende a acreditar que “a exigência de um determinado patamar
mínimo de cultura [...] soa anacrônica e incrongruente com o princípio geral de livre acesso da
população aos cargos públicos” (ARAGÓN, Manuel. “Derecho electoral: sufragio ativo y pasivo”.
In: NOHLEN, Dieter et al. Tratado de Derecho Electoral Comparado de América Latina. 2. ed. Ciudad
de México: FCE, 2007, p. 191 – tradução livre).

O tema do analfabetismo é, portanto, bastante sensível e inspira cautela quando tem de


ser tratado.

Esta Corte Superior, ao examinar o primeiro caso relativo a analfabetismo nas Eleições de 2016,
sedimentou entendimento, quando do julgamento do REspe nº 89-41/PI, com base em tese
lançada pelo eminente Ministro Herman Benjamin, redator para o Acórdão, segundo a qual “o
exame da causa de inelegibilidade do art. 14, § 4º, da CF/88 deve ocorrer em conjunto com os valores
constitucionais [...]. Assim, analfabetismo de natureza educacional não pode e nem deve, em nenhuma
hipótese, significar analfabetismo para vida política, sob pena de excluir as minorias – dupla sanção,
em verdade – do direito ao exercício do jus honorum”.

É cediço neste Tribunal Superior o entendimento segundo o qual as restrições que geram as
inelegibilidades são de legalidade estrita e, portanto, devem ser interpretadas restritivamente,
conforme decidi no Recurso Especial Eleitoral nº 234-37, decisão monocrática de 17.10.2016,
publicado em Sessão de 27.10.2016.

Demais disso, tal orientação aplica-se, inclusive, à hipótese inscrita no art. 14, § 4º, da Constituição
Federal. Nesse sentido, confiram-se os seguintes precedentes:

8 Informativo TSE – Ano XX – nº 9


AGRAVO REGIMENTAL. RECURSO ESPECIAL. REGISTRO DE CANDIDATO. DEFERIMENTO. ELEIÇÃO
MUNICIPAL. 2012. ANALFABETISMO. FUNDAMENTOS NÃO INFIRMADOS. DESPROVIMENTO.
1.    A jurisprudência deste Tribunal é pacífica no sentido de que as restrições que geram
inelegibilidades são de legalidade estrita, vedada interpretação extensiva. Precedentes.
2.  A hipótese de inelegibilidade prevista no art. 14, § 4º, da Constituição Federal diz respeito
apenas aos analfabetos e não àqueles que, de alguma forma, possam ler e escrever, ainda que
de forma precária. [Grifei]
3.  Agravo regimental desprovido.
(AgR-REspe nº 906-67/RN, Rel. Min. Dias Toffoli, PSESS de 8.11.2012); e

[...]
1.    [...] as restrições que geram as inelegibilidades são de legalidade estrita, sendo vedada a
interpretação extensiva.
2.  Essa orientação se aplica, inclusive, quanto à configuração da inelegibilidade do art. 14, § 4º,
da Constituição Federal, devendo exigir-se do candidato apenas que ele saiba ler e escrever
minimamente, de modo que se possa evidenciar eventual incapacidade absoluta de incompreensão
e expressão da língua.
3.  Não é possível impor restrição de elegibilidade, por meio da utilização de critérios rigorosos
para a aferição de alfabetismo. [Grifei]
4.  [...].
(AgR-REspe nº 109-07/SC, Rel. Min. Arnaldo Versiani, julgado em 18.10.2012).

Ademais, a própria realidade multifacetada da sociedade brasileira desaconselha que o


analfabetismo seja avaliado por critérios rígidos, abstratos e estanques. Do contrário, em redutos
onde o analfabetismo seja a regra, o domínio político se perpetuaria como um monopólio das
elites. No particular, vem a propósito a reflexão de Adriano Sant’Ana Pedra:

Existem muitos municípios no Brasil onde mais da metade da população adulta é analfabeta. Nestes
casos, como impedir que um analfabeto seja o representante político dessa comunidade? Fazer
uma interpretação literal do artigo 14, § 4o, da Constituição brasileira é deixar toda essa multidão
de analfabetos sem representação. (PEDRA, Adriano Sant’Ana. “A inelegibilidade do analfabeto
segundo uma perspectiva concretista”. Revista de Informação Legislativa. Brasília: Senado Federal,
n. 189, jan./mar. 2011, p. 73).

Ex positis, corroborando o entendimento de que o exame da causa de inelegibilidade do


art. 14, § 4º, da CF/88 deve ocorrer da forma mais branda possível, em harmonia com os valores
constitucionais e em consonância com o estádio de desenvolvimento regional, voto pelo não
acolhimento da proposta.

É como voto.

VOTO
O SENHOR MINISTRO LUÍS ROBERTO BARROSO: Senhor Presidente, há uma observação
interessante, que é o modo de exclusão política: primeiro a exclusão das mulheres, depois a dos
negros, depois era o voto censitário e depois a exclusão dos analfabetos. Com isso, como no Brasil
50% da população era de analfabetos, excluir-se-ia metade da população.

Portanto, o rigor excessivo nesse quesito é altamente excludente da participação política.

Estou plenamente de acordo.

DJE de 13.6.2018

Informativo TSE – Ano XX – nº 9 9


OUTRAS INFORMAÇÕES

ESTUDOS ELEITORAIS

ESTUDOS Volume 13 – número 1


ELEITORAIS
VOLUME 13 ̶ NÚMERO 1
JANEIRO/ABRIL 2018

BRASÍLIA ̶ 2018 A revista Estudos Eleitorais, de periodicidade quadrimestral,


oferece subsídios para reflexões históricas, teóricas e práticas
não apenas sobre o Direito Eleitoral material e processual, mas
também sobre o processo político-eleitoral.

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Ministro Luiz Fux


Presidente
Carlos Eduardo Frazão do Amaral
Secretário-Geral da Presidência
Sérgio Ricardo dos Santos
Marina Rocha Schwingel
Paulo José Oliveira Pereira
Assessoria Consultiva do Tribunal Superior Eleitoral (Assec)
assec@tse.jus.br

10 Informativo TSE – Ano XX – nº 9