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INTRODUÇÃO

À ANÁLISE ECONÔMICA
INTRODUÇÃO
À ANÁLISE ECONÔMICA
COLEÇÃO DO INSTITUTO DE ESTUDOS POLÍTICOS E SOCIAIS

Diretor. FERNANDO BASTOS DE AVILA, S. ].

VOLUMES PUBLICADOS:

1 — A Igr<ja e a Questão Social — V. van Gestd, O. P. (Trad, c adapt. <lo P. Fernando


Bastos de Ávila, S. J.)

2 — L'Immigration au Brésil — P. Fernando Bastos dc Ávila, S. J.

5 — As Grandes Obras Politicos de Maquiavel a Nossos Dias — jean-Jacques Chevalier.


Prefácio de André Siegfried. (Trad, de Lidia Cristina.)

i — Antropologia Fisica. Introdução — José Bastos de Ávila. Prefácio de A. Fróes da


Fonseca.

5 — Introdução á Economia (Subsídios Históricos c Doutrinários) — Alfredo Gomes.

6 — Introdução Critica ao Marxismo — Émile Eaas. (Trad, do P. Femindo Bastos de


Ávila, S. J.)

7—0 Pensamento Econômico no Século XX — Émile James (Trad, de José Gouveia


Vieira), 2 vols.

8 — Introdução à Ciência Politiea — C. C. Rodee, Ph. D., T. J. Anderson. Ph. D.. C.


Q. Christol, LL. B., Ph. D. (Trad, de Marina Teles de Meneses), 2 vol*.

9 — Economia e Politico Econômica — Otávio Gouveia dc Bulhões.

10 - Introdução à Análise Econômica — Paul A. Samuel son. (Trad, dc Luix Carlos


do Nascimento Silva.) 2 vols.

11 - Família e Politico Social — P. Pedro Calderan Beltrão, S. J. (Trad, de J. Lamar­


tine Correia de Oliveira.)

12 — Introdução à Sociologia — P. Fernando Bastos de Ávila, S. J.

IS - Fundamentos da Política Social — Estanisiau Fischlowitt.

14 - Análise Econômica ao Alcance de Todos — G.L.S. Shackle. (Trad, de Myriam


de Bulhões Smith e Maria do Carmo dos Santos Dias.)

15 — 0 Marxismo — Cônego Juvenal Arduini.

i
PONTIFÍCIA universidade católica
DO RIO DE JANEIRO
COLEÇÃO DO INSTITUTO DE ESTUDOS POLÍTICOS E SOCIAIS

N.* 10

PAUL A. SAMUELSON
Professor de Economia do Massachusetts Institute of Technology

INTRODUÇÃO
À ANÁLISE ECONÔMICA

Tradução de
Luiz Carlos do Nascimento Silva
Suplementos e notas brasileiros
sob a supervisão de
Ângelo Jorge de Souta
Capo dt
Milton Rlktlra

I
.* ediçao

1966

AGIR
livraria
Editora
Rio de Janeiro
Copyright @de
Artes Gráficas Indústrias Reunidas S A
(agir)

Traduzido do original inglês


Economics: An Introductory Analysis (6th. edition)

Paul A. Samuelson
Publicado por
McGraw-Hill Book Company

ivrarie AGIR Editôra


Rim Bráulio Come*, 125 Roa México, 98-B Afonso Pena. 919
a.
TeL: 344300 TeL: 42-8327 ' TS. o-SQS*
Caixa Postal, 6040 Caixa Postal, 3291 — ZCOO r»tw Postal 733
Sio Paulo. SP Rio de Janeiro — GB Belo Horizonte — ^
ÍNDICE

Nota da Editôra ...........................................................................................


Prefácio da 6ª edição americana ..................................................................

Primeira Parte: CONCEITOS FUNDAMENTAIS DE ECONOMIA E


RENDA NACIONAL

Capitulo 1. INTRODUÇÃO ............................................................................


Por quem os sinos dobram. Luz c fruto. O que a economia é. Uma
dentre muitas. A descrição c a análise econômica. A política econômica.
Bom senso c contra-senso. A tirania das palavras. Teoria versus prática.
O todo e a parte: o "soíisma da composição". Uma prévia. Temas
para discussão.

Capitulo 2. PROBLEMAS CENTRAIS DE QUALQUER SOCIEDADE ECO­


NÔMICA .............................................................................................. 36
A. Problemas de organização econômica ............................................ 86
A lei da escassez
B. Alternativas tecnológicas à disposição de qualquer sociedade ........ 39

A curva de possibilidade de produção da sociedade. Algumas aplicações


do conceito da possibilidade de produção. Quadros de uma exposição.
A lei dos rendimentos decrescentes. Economia de escala e produção em
uuissa: uma digressão.
C. A base demográfica fundamental de qualquer economia: tendências
passadas c futuras da população ................................................... 51

A teoria malthusiana da população. América e Europa ameaçadas de


despovoamento? Noiso espantoso aumento de população. Efeitos econô­
micos do aumento de populaçSo.
Sumário ................. ............................................................
Temas para discussão .........................................................................
Apêndice: A população brasileira (Janes Ângelo de Sousa) .........|jjK|g|g

Capitulo S. O MECANISMO DO PREÇO DE UM SISTEMA CAPITALISTA


DE INICIATIVA “MISTO” .....................................................................
Um sistema de inidativa misto ...................................................... I
VIII INTRODUÇÃO À ANÁLISE ECONÔMICA

A. Como um sistema dc livre emprêsa resolve os problemas econômicos


básicos ............................................................................... .................

Orilcm econômica* não o caos. A Mio Invisível e a "concorrência


perfeita”. O sistema de preços. Retraio de pregos e mcrutdos. Aspectos
ético» da distribuição da renda. Imperfeições da concorrência. O papel
econômico do govêrno.

B. Capital, divisão do trabalho e moeda ....................................................

Capital e tempo. A necessidade de abrir mão do consumo presente.


Capital c propriedade privada. Especialização, troca e divisão do
trabalho. Especialização e interdependência. Escambo versus uso da
moeda. Moeda-mcrcadoria, papcl-moeda e moeda bancária.

Sumário ................... ..................................................................................


Temas para discussão .................................................................................

íapitulo f. OFERTA E PROCURA: REVELANDO OS ELEMENTOS ...........................

O mecanismo do mercado A escala da procura. A curva da procura.


Razões da lei da procura decrescente. A escala da oferta. Equilíbrio
da oferta c da procura. Efeitos de um deslocamento da oferta ou da
procura. Dois obstáculos. O que a oferta e a procura conseguiram:
equilíbrio geral. Perfeição e imperfeições da concorrência.

Sumário .......................................................................................................
Temas para discussão .................................................................................
Apêndice: Flutuações do mercado de títulos ................................................

Capitulo 5. ORGANIZAÇÃO E RENDA DA EMPRÊSA ............................................

Grande emprêsa, pequena emprêsa e emprêsa microscópica. A proprie­


dade individual. O crescimento da emprêsa e a necessidade de capital
a curto prazo. A sociedade. "Ê assim que progredimos". Novas necessi­
dades e fontes de capital. Desvantagens da sodedade. A emprêsa.
Vantagens e desvantagens da companhia. Como uma emprêsa pode
levantar capital. Vantagens dos títulos diferentes. A emprêsa gigante.
Separação da propriedade e do cuuuôle 11a grande emprêsa. Direção
e contrôle da grande emprêsa. Uma revolução de administradores?
O mal do monopólio. A maldição da grandeza?

Sumário ....................................................................................................
Temas para discussão ...............................................................................
Apêndice: Elementos dc Contabilidade ......................................................

O balanço. A demonstração de lucros e perdas, ou demonstração dc


resultados. Depreciação. A relação entre a demonstração de resultado!
c o balanço. Resumo das relações contábeis elementares. Reservas |
fundos. O ativo intangível. Prestígio e poder de monopólio. Condusio.
ÍNDICE DO nu MU IO VOLUME

Sumário do Apêndice .......................................................................... H


Temas para diicuicSo .......................................................................... UB

Capitulo 6. RENDA INDIVIDUAL E RENDA FAMILIAL ................................... 153


O declínio da pobreza. Dois mundos? DistribuiçSo da renda nos Estados
Unidos. Opulência para quem? Como calcular a desigualdade entre aa
classes de renda. Tendência da desigualdade. Distribute da riqueza.
Diferenças dc renda entre ocupações. Vale a pena freqüentar a univer­
sidade? Diferenças de aptidões e rendas. A posição das minorias.
Kst ratificação econômica e oportunidade.

Sumário ............................................................................................ 1^1


Temas para discusdo ..........................................................................

Capitulo 7. AS RELAÇÕES ENTRE EMPREGADOS E EMPREGADORES .... 174


Quem pertence aos sindicatos? Sindicatos nacionais e locais. Os sindicatos
nadonais e a federaçáo. O anseio pela sindicalizaçSo. Pequena história
do movimento trabalhista americano. Comunismo e corruçSo nos
sindicatos. Até que ponto os sindicatos sio democráticos? Como funciona
a negociaçáo coletiva. Papel do governo na negodaçflo coletiva. Pro­
blemas atuais da negociaçflo. Alterações dinâmicas do trabalha

Sumário ............... ............................................................................. 1W


Temas para discussão ......................................................................... nl
Apêndice: Sindicalismo no Brasil (Angelo Jorge de Sousa) .................. 195

Capitulo 8. O PAPEL ECONÔMICO DO GOVERNO: DESPESAS, REGULA-


MENTAÇAO E FINANÇAS .............................................................. M

O aumento das despesas governamentais. Aumento dos amtrôlcs e da


regulamentaçSo governamentais. As funções federais, estaduais e nau*
nidpaia. A despesa federaL Modificações nas funções do govêrno.
Transferências e impostos no estado de bem-estar sodaL Análise grá­
fica da atividade do govêrno. Desperdício no govêroo e em seus obje­
tivos. Necessidades sodaia e particulares: o laiucz-fãire eatremo.
Necessidades sociais na vida reaL

Sumário ............................................................................. ........... 211


Temas para disaisaáo ........................................................................... BB

Capitulo 9. O PAPEL ECONÔMICO DO GOVÊRNO: A TR1BUTAÇAO FE­

DERAL E AS FINANÇAS MUNICIPAIS ........................................... S17 j


Natureza econômica da tributaçlo. Concesaftes pragmáticas I tribn-
taçJo. Tributação federal. O Impóato de remia piifiíSÍ» leposos
progressivos, investimento e gastos. Despoas essarfaais ( municipal
x ISTKOOVÇÃO À ASÁUSZ ECONÔMICA

ImpoaCM estaduais c municipais. Auxílios c financiamentos intergo-


irtnamcntais. Condusio: o espinhoso problema da inddència do
impôsto.

Sumário ........................ ...... .............................................. .... 234


Temas pari discussão .....................................................................................235
Apêndice: O seior público no Brasil (Margareth Hanson Costa) .................. ....255

Cêpltulo 10. RENDA NACIONAL E PRODUTO NACIONAL .................................... ....245

A medida da eficiência de uma economia. Duas medidas do produto


nacional: como fluxo de bens ou como fluxo de rendimentos. Produto
nacional real wrriu produto nacional monetário: emprêgo dc um
índice de preços para “dcflaaonar”. Evitando computar duas vtzes
os bens intermediários. Investimento líquido, formação de capital. In­
vestimento líquido, igual a investimento bruto menos a depredação.
Produto nacional bruto versus produto nadonal líquido. Despesas
governamentais em bens e serviços. O PNL c o PNB dos Estados
Unidos. Três conceitos relacionados entre si: renda disponível, renda
pessoal e renda nacional.

Sumário ........................................................................................................ 263


Temas para discussão .................................................................................. 264
Apéndíce: Os dados oficiais relativos à renda nacional .................................. 265
Apêndice: As estimativas da renda nacional (Ângelo Jorge de Sonsa) .... 271

Srgtwtla Parte: DETERMINAÇAO DA RENDA NACIONAL


E SUAS FLUTUAÇÕES

Capitulo 11. POUPANÇA, CONSUMO E INVESTIMENTO ........................................ 285

A divisão entre motivações de poupança e de investimento. A flutuação


do investimento. Padrões dc despesas orçamentárias. Propensão a poupar
e propensão a consumir. A escala dc propensão a consumir, examinada
em detalhe. A propensão marginal a consumir. A propensão marginal
a poupar. Breve revisão de definições. A escala geral de consumo
da comunidade. Qualificações.

Sumiria ......................................................................................... .............. W®


Tcmu pan diacussSo .................................................................................... M*

Capitulo 13. A TKORIA DA DETERMINAÇÃO DA RENDA ...................................... SOS

— A. Determinação do nível de equilíbrio da renda ............................................ 303

De como a renda é determinada no nível dc interseção das escalas de


poupança c do investimento. Determinação da renda pelo consumo
e pelo Investimento. Demonstração aritmética da determinação da
ÍNDICE DO rtlMUBO VOU/MC Xl

renda — uma terceira aplicado. A (corta aiaplifiodi da determi­


nação da renda explicada mais uma vo.
B. Investimento c renda ............. ............................................. .

O "multiplicador”. Imagem gráfica do multiplicador. Influfoda da


parcimônia ou de deslocamentos da etcala do consumo sôbre a renda.
Investimento induzido e o paradoxo da parcimônia. O hiaio H
Oadonário. O processo de inflado dot pregos.

C. A polbica fiscal na detaminaçSo da renda ................................ . V

Tributaçio c deslocamento para baixo da cura do coosuao. limi­


tações da anilise da poupança c do iavestimenio.

Sumário ....................................... ...................................................... M


Temas paia discuasSo ..................... ................................................... SK

Cmpltulo 13 CICLOS ECONÔMICOS E PREVISÃO ........................................ |$i

Prosperidade e depressSo. Medição e previsto do dclo econômico. Cor*


rcçio estatística da variado sazonal e das tendtodas. As quatso faaa
do ddo. Como utilixar as curvas da poupança e do investimento. Algu­
mas teorias do dclo econômico. Fatôres externos e internos, I cotias
puramente cndôgenss. Síntese de elementos emlôgenos e exôgcnot. O
princípio dc acclcraçfio. Intenções do acelciador e do mahipliudor.
Prognosticando o futuro da atividade econômica.
Sumário ............ .................................................................................. 851
Temas pan dbcuisSo ............................................................................ SSS

Capitulo 14. OS PREÇOS E A MOEDA ........................................................... SSS

A. Preços ........................................................................................... |M

InflaçAo, deflação e rcdistribuiçflo da renda entre grupos. ECdtoi das


variações de preço na produçáo e no ctnptègo. lnflaçSo galopante. Obje-
tiro* do comportamento do preço a longo praia.

B. O mdo dreulante e sua velocidade dc drcubçlo................................ ttt

Os três tipot de moeda: mordas metálicas, papd-moeda e drpòétot


bancários. Porque os depósitos bancários do considerados dinheiro.
Ativo líquido, ou "quase-morda". A procura do dinheiro. Velocidade
de drculaçfo da moeda. A cquaçio das trocas. A teoria quantitativa
da moeda e dos preços: uma hipótese.

Sumário .......... ......................................................... .............................S7I


Temas para disnissáo ......................................................................... ....171
Apêndice: As causas do prorra» inOadonátio brasileiro (Angelo Jorge
dc Soam) ..................... .......................... .................. I.......... ugjj I
XII IN IKODlfçÁO A ANÁLISE ECONOMICA

CépUuIo n. O SISTEMA BANCÁRIO E A CRIAÇÁO DE DEPÓSITOS ....................... 57*

A. Niiuiru c funaonamenio do moderno liitema bancário ........................... 579

A iíiu^Io atual da atividade bancária. A criação do sistema da reierva


lederal. A atividade bancária como negódo. Como os bancos se origina­
ram cie ourivesarias. O moderno sistema bancário dc reservas fra­
cionárias. Exigências legais das reservas. O govêmo garante os bancos.
A garantia dos bancos.

B. A criação de depósitos bancários ............................................................ 592


Poderão. mesmo, os bancos criar moedas? Como os depósitos sJo criados:
a fase do primeiro banco. Repercussões em cadria nos demais bancos.
Um "banco monopolista". Expansio ou contraçlo simultânea por
parte de todos os bancos. Duas limitações.

Sumário ....................... ............ ............................................. ............ . 403

Temas para discussão ....................................................... .......................... 406

\ Capitulo 16. A RESERVA FEDERAL E A POLÍTICA MONETÁRIA DO


BANCO CENTRAL ......................................................................................... 408

Açâo da política monetária para o controle do dispéndio. Recapitu­


lação. Balanço dos bancos da reserva federal. Políticas monetárias
discricionárias da reserva federal: operaç6es no mercado aberto. Po­
lítica da taxa dc desconto: uma segunda arma. Alterações das exi­
gências de reservas: arma drástica e usada com pouca frcqOênda.
Armas secundárias: contròles qualitativos versus contrõles quantita­
tivos. Movimentos intemadonais do ouro e as reservas. O ouro como
embaraço à política monetária. A pirâmide do crédito. Al finanças
no período de pós-guerra.

Sumário ...................................................................................................... ^27

Temas para discussão ............... ................................................................. «8


Apêndice: A estrutura financeira do Brasil (Floriano Vasconcelos Jr.) 429

Capitulo 17. SÍNTESE DA ANALISE MONETÁRIA E DA ANÁLISE DA


RENDA ................................................................................................. 450

MocsU. preferência pela liquidez, eGdênda marginal, multiplicador.


Política fiscal e determinação da renda. A síntese em açâo: dcsrm-
prégo tecnológico? A síntese neodássica.

Sumário ....................................................................................... ............. W


Temas para discussão ................................................................................ 462
Apêndice: Mecanismo da moeda e da determinação da renda .................... 463
ÍNDICE DO PftlMKIRO VOLUME XIII

Capitulo 18. POLÍTICA FISCAL E PLENO EMPRÊCO SEM INVLAÇAo


A. Política fiscal de curto prazo e de longo praxo ............................

A tarefa da política fiscal. Nosso» importantes “estabiliiadoves amo*


máticos". Limitações dos estabilizadores automáticos. Política fiscal 9
criduiiáiú. Financiamento do superávit c do deficit-, csagnaçfto. ani­
mação e crescimento planejado. Uma década de cresciaento lento e
de crescente desenprégo.

B. A dívida pública e a moderna política fiscal .................................. 4g|


ônus e benefícios da dívida pública. Efeitos sõbre o investimento pri­
vado. O problema quantitativo da dívida. Conduslo: uma grande
síntese ncodássica.

Sumário .................................................................. 489


Temas para discussão ............................................. M
Apêndice: ônus falsos e verdadeiros da dívida pública 49$
NOTA DA EDITÔRA

Esta nova edição da Introdução à Análise Econômica, do Prof. Samuelson,


corresponde à 6* edição americana e sofreu profundas modificações, cuja
amplitude é explicada, em seu prefácio, notadamente quanto à reorgani­
zação de tôda a seção sôbre microcconomia e o nòvo capítulo sôbre cresci­
mento econômico.
Desejamos, no entanto, acrescentar algumas palavras sôbre aspectos
próprios da edição brasileira. A tradução é totalmente nova, mesmo nos
trechos cm que o original permaneceu inalterado.
Estêve a cargo de Luís Carlos do Nascimento Silva, tradutor espe­
cializado, que já colaborara na 5* edição e, desta vez, pôde dar maior
uniformidade ao trabalho.
Embora tirando a maioria dc seus exemplos dc uma economia já plena­
mente desenvolvida como é a dos Estados Unidos, a visão de Paul Samuel-
son faz com que seu livro possa ser utilizado como texto no mundo
inteiro: tomou-se o bestseller mundial cm livros dc economia. Apesar
disso, julgamos que sua utilidade será largamente acrescida com os comen­
tários e notas referentes à conjuntura brasileira. Já em edições anteriores
agimos de acôrdo com êsse principio, dando-lhe plena execução nesta
6* edição. Sob a orientação de Ângelo Jorge de Sousa, vários economistas
escreveram apêndices a alguns capítulos e notas onde sc faziam necessárias.
Ângelo Jorge de Sousa, Master in Economics pela Universidade de Yale.
é presentemente cheíe do Centro de Contas Nacionais do Instituto Brasi­
leiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas. Assim, puderam ser
induidas, nesta edição, numerosas tabelas c estatísticas da maior impor­
tância para o estudioso brasileiro.
— A 1* edição brasileira desta obra, cm 1952, teve o mérito de tôda
iniciativa pioneira de que muito sc orgulha a Agir: abriu caminho a muitos
outros livros de economia, nacionais e traduzidos, muitos déles excelentes.
Hoje, a 6' edição dês te famoso tratado é prtmus inter para e nossa editòra
não poupará esforços para aperfeiçoá-lo cada vez mais.

15
PREFACIO DA 6.a EDIÇAO AMERICANA

£ste livro é uma introdução à Economia, destinada a um curso de­


mentar cuja duração pode ser de um semestre ou de um ano inteiro
c a estudantes que possam, ou não, prosseguir em estudos mais avançados
da matéria. Esta 6* edição foi a que sofreu uma das revisões mais drásticas.
Economia é uma matéria importante. £, também, assunto emocionante.
Como economista profissional, é claro que penso assim, mas repetidas
sondagens de opinião demonstram que um curso de Economia bem pla­
nejado está sempre entre os primeiros cm número de pessoas interessadas,
e é muito freqüente encontrarmos pessoas que lamentem o fato de nunca
terem tido a oportunidade de estudar Economia.
Quando escrevi a 1* edição dês te livro, disse a mim mesmo: a<Que
é que uma pessoa inteligente deve saber sôbre Economia nesta última
metade do século XX? É provável que o leitor ache interessante os tópicos
que talvez venham a ser da maior importância para êle daqui a vinte
anos, quando começar a ocupar uma posição de poder e responsabilidade.”
O resultado alcançado foi um sucesso além de minhas mais apaixonadas
esperanças. O livro tem sido usado de forma ampla, traduzido universal­
mente c lisonjeiramente imitado. Professôres de Economia — aqui e no
exterior, em colégios e cm grandes universidades — estavam. assim parece,
prontos para receberem um compêndio que aplicava as armas da Fxonomia
analítica aos problemas econômicos vitais da época cm mutação: desem-
prêgo e inflação; crescimento e desenvolvimento; eficiência da formação
de preços e modificação da desigualdade da renda; ouro e comércio exte­
rior; a economia mista e o comunismo desafiador; em suma, que tratasse
dos problemas de hoje e de 1970, e não de ontem e de 1929.
As árvores precisam da poda para adquirir vigor. A 6* edição foi redu­
zida pela eliminação de capítulos, apêndices e tópicos. Novos capítulos
e nôvo material foram acrescentados.
O que é mais importante, tóda a parte relativa à microeconomia foi
reorganizada. Agora, a teoria da formação competitiva de preços é desen-

17
18 IMROrUÇÃO A ANÁLISE ECONÔMICA

volwda scrn interrupção, introduzindo uma coerência e clarc/a que os


estudantes muito desejam. Ao mesrao tcmjxj, esse processo atende a uma
necruidade. a mim expressa por muitos professores, dc se destacarem as
funções dc bem-estar e eficiência da formação de preços em regime dc con­
corrência perfeita c imperfeita — convertendo, assim, um estudo dc meca­
nismo c gráficos enfadonhos cm instrumento para a análise do monopólio
e do planejamento. Uma nova seção resumida (lapítulo 30) sintetiza
tôda a microeconomia.
IJma inovação é o nôvo capítulo sôbrc a teoriu do crescimento (capítulo
35). Os problemas do desenvolvimento são o assunto do dia entre os
economistas. Muito a propósito, aliás. Mas não nos agrada a perspectiva
dc uma geraçflo dc estudantes educada com uma análise apressada da
teoria econômica, tornada aceitável e agradável com histórias e estatísticas
antiquadas c referentes a Maurício, à índia, à China e à Rússia. Aquilo
que começa como uma agradável reuuião deixa tanto o professor como
o aluno rezando desesperadamente pelo fim do curso.
Quem não puder aplicar a análise econômica a tópicos novos como
descmprêgo estrutural, inflação pela pressão sôbrc os preços, crescimento
equilibrado, automação, capital social geral, e o dreno de ouro contra
o dólar, terá simplesmente aumentado a lista de tópicos que o estu­
dante é obrigado a decorar c pelos quais êle se vê enfarado. Êsses
assuntos clamam pelos instrumentos analíticos do radocínio econômico,
que tôda a expcricncia demonstra não poderem ser manipulados sem um
estudo sistemático. Ê por isso que os textos de Economia unificados
continuam a ser usados numa época cm que diversas listas de leituras
recomendadas se tomaram particularmente difundidas em outros estudos.

A poda mal feita pode enfraquecer as árvores. Nos anos em que foi
feita esta revisão, um dos pomos a que mais mc dediquei foi a susccti-
bilidade de ensino da matéria. Quando o raciocínio se toma essencial­
mente complexo, a prosa se torna inteligível; as frases se encurtam; os
quadros apresentam números; as figuras representam os números em
forma gTáfica; as legendas das figuras repetem c integram o texto. Será
que isso é conversa para criancinhas? Sir Isaac Newton não pensava assim.
Tampouco penso eu.
Homens que hoje se distiguiram no campo da Economia declaram que,
quando estudantes, acharam que éste livro era fácil de ser lido, dc ser
com prendido e de ser lembrado nos exames. Mas também achavam, di/em
eles, alguns significados mais profundos cada vez que tomavam a lê-lo.
Todo princípio econômico tem diferentes camadas de significado: no
texto, nas entrelinhas, nas notas de rodapé, era tipo reduzido, e, nos
apêndices, polvilhei comprecnsões cuidadosamente planejadas.
rmkSÊb ft

A McGraw-Hill foi dc uma cooperação magnífica na produto de um


livro cuja impressão, cujos diagramas a cores e cuja distribuí-lo H
texto foram projetados com o único propósito de auxiliar o domínio da
Economia. Sc o resultado é um livro bonito, que merece ser mantido
na biblioteca jxrrinanente de um estudante, trata*sc apenas de uma boni­
ficação. Nós nos concentramos na função didática do livro. Planejamos
os cuidadosos sumários dos capítulos, as introduções claras, os ternas para
discussão visando a pesquisas, a lista final de conceitos-chaves ao fim de
cada capítulo, os ocasionais apêndices a capítulos, assinalados pelo formato
cm coluna dupla, destinados a abordar matéria que pode ser fàalmente
saltada num curso dc pequena duração ou que se concentre nas noções
elementares básicas.
Para o estudante que gostaria dc ter uma assistência extra, há o
Study Guide and Workbook.♦ Escrito pelo Professor Romney Robinson,
da Universidade dc Brandeis, êsse livro foi cuidadosamente planejado
para proporcionar ao estudante um meio rápido dc testar sua compreensão
da matéria.

O instrutor verá que êste livro contém material suficiente para um


curso de um ano inteiro. Poderá ser suplementado, se desejado, e a matéria
foi distribuída de modo que capítulos c apêndices possam ser omitidos
sem que haja quebra da continuidade. Muitas instituições irão querer
utilizar o livro para o curso era um semestre. Por isso, oferecemos um
esbôço como sugestão para êsse curso.
Cada capítulo foi planejado para constituir uma unidade de compreen­
são. Quando um capítulo tende a ser longo, foi dividido em seções A. B e
assim por diante, que podem ser consideradas capítulos. Em vários pontos,
foi introduzida matéria nos apêndices aos capítulos. Uma votação não oficial
mostrou que a maioria dos instrutores aprovou a flexibilidade extra
oferecida por êsse método. O material ali contido não é, neccssàriamente,
mais difícil, mas em geral se trata dc a&sunto que pode ser eliminado se
o tempo fôr curto ou numa primeira leitura.
A discussão íoi cuidadosamente distribuída de modo a possibilitar ao
instrutor, sc êlc assim o desejar, alterar a ordem das tarefas. Assim,
embora no M.I.T. prefiramos não fazê-lo, não vemos porque a terceira
parte, que trata da Microeconomia, não possa anteceder à segunda parte,
que aborda a Macroeconomia, o que, aliás, é feito por «40% dos g
utilizam dês te livro. A aplicação calculada da redundância proporciona
um refôrço da instrução e dá aos instrutores flexibilidade dc distribuir
os capítulos fora da ordem convencional.

• Ihto de Exoddoa pin a ItlroducSo ft AfiáMar EcooSatiK §|JgjS — (M.T4


20 IVTXODUÇÃO A ANAus

Como potslveit complementos para o texto, John R. Coleman, Robert


Readings in Economics;
L Bishop, P.W Saunders, Jr., c cu preparamos
como mencionado, o produtivo Study Guide and Workbook, que nas
,^us edições anteriores recebeu, de fonua excepcionalmente ampla, a adoção
oficial por parte dos professores c o uso oficioso por estudantes ávidos,
foi revisto para se adaptar a esta edição. Além disso, a McCraw-HjU
Book Company tem à disposição dos interessados uma coleção de doze fil-
ines silenciosos, que constituem um valioso suplemento para a sala de aula.

Escrever um compêndio elementar é tarefa árdua. As recompensas,


fKHcin, têm sido extraordinárias — e mio me refiro, apenas, íls de ordem
monetária. O contato com milhões de inteligências de tôda lima geração
é uma experiência sem igual para um intelectual. E colocar em letra de
fôrma aquilo que nós, os economistas, sabemos sôbre a Economia, foi uma
experiência verdadeiramente emocionante. Só posso desejar que uma parte
dessa emoção se transmita ao leitor.
Quando chegamos ao momento dos agradecimentos finais pela ajuda
recebida, vejo-me mais uma vez na condição de um falido irremediável.
Não sei como enumerar os nomes das centenas de professôres e leitores
que me enviaram sugestões para a revisão. Citar os nomes de todos os
meus colegas do M.I.T. também seria impossível. Mas cm relação às
outras faculdades, tenho que agradecer aos Professôres Arthur M. Oktin
(Vale), William G. Bowen (Princeton), Janet L. Weston (Illinois), Herbert
W. Fraser (Washington University), Daniel R. Fusfeld (Michigan), John
Haldi (Stanford), Ronald Jones (Rochester), Nathan Rosenberg (Purdue),
Mark B. Sdiupack (Brown), Wallace F. Smith (California), Carey C.
Thompson (Texas), Robert Weintraub (C.U.N.Y.), Don Winkelmann
(Iowa State). Uma vez mal», Inez J. Crandall prestou um eficiente auxílio
na parte de secretaria. Michael K. Taussig uniu-se à crescente lista de
assistentes que me possibilitaram manter as sucessivas edições acompa­
nhando a evolução dos tempos. Mais do que qualquer pessoa isolada,
Felicity Hall Skidmore contribuiu para esta edição e só posso exprimir,
aqui, meus agradecimentos.
Um compêndio deveria ser dedicado aos filhos do autor - c eu
também os tenho — mas penso que devo, acima de tudo, mencionar minha
dívida para com o Professor Ralph Evans Freeman, ex-Presidente do
Departamento de Fronomia e Ciência Social do M.I.T., de quem
primeiro partiu a sugestão de que êste livro fftsse escrito. Nem êle, nem
qualquer um dos que mencionei acima devem ser culpados pelo rcsul-
udo; qualquer crédito 6 devido à minha mulher, Marion.

Paul A. Samuelsox.
Primeira Parte

CONCEITOS FUNDAMENTAIS

DE ECONOMIA E

RENDA NACIONAL
A época do cavalheirismo já passou: a ela sucedeu a dot
estudantes universitários, dos economistas e d'*s computadores.
Edmund Bumul

O Doutor Watson já nos disse como ficou surpréso ao saber que o


grande Sherlock Holmes jamais ouvira falar no sistema solar. Sua surprésa
foi ainda maior ao saber que Holmes não tinha intenção de ouvir-lhe a
descrição, baseado na estranha teoria psicológica dc que o cérebro é
semelhante a um sótão, com espaço limitado, de modo que o conhecimento
dos planétas estaria expulsando o de coisas mais importantes, como as
características do lóbulo dás orelhas de mulheres que se especializam no
roubo de lojas.
Embora possamos afirmar com segurança que o conhecimento da
Economia não irá privar o leitor de sua eficiência na Física, no Latim ou
na solda elétrica, a verdade é que todos desejam utilizar econômicamente
o pouco tempo de que dispõem, c se as horas gastas com o estudo desta
matéria não visassem a objetivos importantes, haveria coisas outras em
quantidade em que utilizá-las.

• POR QUEM OS SINOS DOBRAM

Uma razão principal para o estudo da Economia reside no fato dc que


ela trata de certos assuntos que serão do nosso máximo interêsse:

Quais os serviços que precisam ser executados? Quais os seus resultados? Qual a
quantidade de mercadoria que pode ser adquirida atualmente com um d41ar ganho,
e qual será essa quantidade numa época de inflação galopante? Quais as probabilidades
de chegarmos a uma época em que um homem nSo poderá obter emprêgo adequado
dentro de um prazo razoável?

Além dos assuntos domésticos dc cada um, a Economia também trata


das decisões políticas que cada cidadão deve enfrentar:

Será que o govêmo vai aumentar os Impostos que eu p*f°* 1 ajudar


mineiros desempregados, ou existirão outras medida* que Hc p°*** romar

23
24 INTRODUÇÃO À ANÁLISE ECONÔMICA

a atenuar o problema do desemprêgo? Deverei votar a favor da construção de uma


nova escola e de uma nota estrada agora, ou a favor de que essas obras sejam postai
de lado até que o ritmo dos negódos afrouxe, caiam os preços do cimento e haja
necessidade de empregos? Deverei votar a favor de que as mullteres sejam mantidas
afastadas do emprego público, para que haja mais emprêgo para os homens? Será qae
a automação nas fábricas provocará a adoção de salários de fome c o excesso de
mão de-obra? E o que dizer da legislação antitruste que pretende combater os monopólios?

A Economia também trata dos assuntos comerciais:

Qual teria sido o motivo da queda dos preços das ações ordinárias, no período de
1929 a 1952, e de sua dramática elevação nos anos do pós-guerra? Por que é freqüente
subirem os preços das obrigações quando caem os das ações? De que maneira os
Li rendeiros variam o uso da terra e da mão-de-obra quando os salários se elevam em
relação ã renda da terra?

A economia ataca de frente os problemas cruciais que desafiam a


sociedade e a nação:

Em que sentido uma população em crescimento constitui um problema para a índia?


E para os Estados Unidos? A nossa taxa de crescimento econômico no futuro irá depender
fundamentalmente da taxa de sacrifício que impusermos aos bens de consumo no presente,
a fim de produzir máquinas e outros equipamentos industriais, ou será o cspWio
ciiador dos cientistas que trabalham nas universidades, dos engenheiros de pesquisa*
e dos supervisores das fábricas, o elemento-chavc do crescimento futuro?
Ê provável que na mente de habitantes das civilizações ocidentais mais avançadas
e das regiCcs subdesenvolvidas do globo sejam estas as perguntas mais importantes:
Daqui a duas décadas, terá a União Soviética ultrapassado os Estados Unidos como a
sociedade mais opulenta do mundo, ou como a maior potência militar? Que estará
acontecendo com a diferença que separa êsses tipos diferentes de sistemas econômicos?
Que poderá cada um dêlcs fazer para mudar sua posição relativa? Quais os métodoi
que deverão ser imitados pelo homem do povo da índia e do Congo a fim de acelerar o
desenvolvimento?

Cada uma dessas perguntas exige o estudo da Economia para que se


possa obter meios de respondè-la, e uma pessoa que jamais tenha levado
a efeito um estudo sistemático desta ciência estará em desvantagem até
mesmo ao pensar nesses problemas. Estará nas mesmas condições de um
surdo tentando apreciar uma sinfonia: dêem-lhe um aparelho para surdez
e êle poderá não ter talento, mas pelo menos terá uma oportunidade de
lutar para perceber o que é a música.
Durante tôda a nossa vida» o povo e a imprensa estarão discutindo
problemas econômicos como os acima citados, ou novos itens com os quais
nem sequer ainda sonhamos. O estudo da Economia é o requisito indis*
pensável a uma participação útil c agradável dêsse "Grande Debate”.
INTKODIÇXO 25
0 LUZ K FRUTO

Existe outro motivo para o estudo da Economia: ela pode ser uma
interessante matéria. Há dois sleulos, homens cultos vêm encontrando nela
o interésse humano inerente à própria vida, enquanto que ao mesmo
tempo os princípios econômicos apresentam um pouco da beleza lógica
da geometria euclidiana. Para que possamos apreciar os encantos da
física quíintica, é preciso adquirir, primeiro, difíceis conhecimentos mate­
máticos. Entretanto, para percebermos a estrutura estética da análiie eco-
nómica, basta uma tendência para a lógica e uma capacidade de admiração
pelo fato de terem essas construções mentais uma importância vital para
bilhões de homens no mundo inteiro.
É daro que a simples beleza não é suficiente. Se no fim de uma longa
existência o economista sentisse não ter feito outra coisa senão meditar
sôbre belas formas, não teria atingido o senso de realização provocado
pela capacidade dc ver mil e um casos em que os frutos do trabalho
realizado pesaram nos negócios da humanidade. A Economia é estudada
pelos esclarecimentos que cia nos traz, c qualquer prazer ao longo dêsse
estudo representa uma bonificação casual.

• O QUE A ECONOMIA I

Os principiantes costumavam exigir uma definição sucinta da Economia


e em resposta a essa procura não havia escassez de oferta. Eis algumas
dessas definições:
1. A Economia é o estudo das atividades que, com ou sem dinheiro,
envolvam operações de troca entre pessoas.
2. Economia é o estudo da maneira pela qual os homens selecionam
o emprego de fatôrcs de produção escassos ou limitados (terra, mão-de-obra,
bens de capital tais como maquinaria, e conhecimento técnico) para
produzir várias mercadorias (como trigo, came bovina e sobretudos;
concertos, estradas, bombardeiros e iates) e distribuí-las, para consumo,
a vários membros da sociedade.
3. A Economia é o estudo dos homens no curso comum de sua existência,
ganhando e desfrutando a vida.
4. A Economia é o estudo da maneira pela qual a humanidade realiza
a tarefa de organizar suas atividades de consumo e produção.
5. A Economia é o estudo da riqueza.
Esta lista é boa. No entanto, um elemento estudioso poderá torn.1-Ia
muitas vêzes maior. É sempre difídl resumir cm poucas linhas uma des­
crição exata de uma matéria, capar de distinguir-lhe os limites dos de
outras matérias e dc transmitir ao prindpiante tudo aquilo que ela repre­
senta. Ê certo que a Economia abrange todos os elementos salientado*
26 INTRODUÇÃO À ANÁUST. ECONÔMICA

naquelas diversas definições... c todos aqueles implícitos na lista mais


longa que poderia scr compilada.
Atualmente, os economistas, de modo geral, estuo dc acôrdo quanto a
uma definição como a que sc segue:

0 Economia é o estudo da maneira pela qual os homens c a socicdadc decidem, com


a utilização ou não do dinheiro, empregar recursos produtivos escassos a fim de
produ/ir diferentes mercadorias ao longo do tempo c distribuí-las para consumo,
no presente c no futuro, entre várias pessoas c grupos da socicdadc.

• UMA DENTRE MUITAS

A Economia, ou Economia Política, como costumavam chamá-la, tem


pontos de contato com outras importantes disciplinas acadêmicas. A
Sociologia, a Ciência Política, a Psicologia e a Antropologia são, tôdas,
ciências sociais cujo estudo tem pontos comuns com o da Economia. Eis
um exemplo:

l?m economista visitante salientou, certa vez, que na índia empobrecida as vacas sSo
animais sagrados e, num total de milhões de cabeças, têm permissão para perambular
pelas ruas â procura de alimentos. Embora um economista ingênuo, que nada conhecesse
sôbrc a verdadeira natureza humana, pudesse considerar aquêle gado como uma fonte
principal de suplementos de proteínas para uma dieta já inadequada, o estudioso mab
profundo, possuidor da compreensão adequada da psicologia dos costumes, levará cm
consideração essa atitude sociológica ao analisar o desenvolvimento econômico indiano
e terá que compreender a estrutura e as pressões políticas de tal ambiente.

A Economia também se vale, cm grande parte, do estudo da História.


Terá sido coincidência o fato de que os preços se elevaram, durante séculos,
na Espanha e na Europa, depois que Colombo descobriu a América com
todo o seu ouro? Por que a era da máquina a vapor e da estrada de ferro
ajudou o agricultor de Iowa, prejudicou os de Vermont e Oxfordshire,
c ajudou os moradores dos cortiços de Londres? Teremos que recorrer a
instrumentos analíticos para a interpretação dos registros históricos, pela
simples razão de que os fatos jamais "contarão sua própria história
Essa necessidade, porém, não contraria o velho provérbio chinês que diz
que "uma olhadela vale por mil estratagemas”. .
Dentre as inúmeras matérias relacionadas com a Economia, o estudo da
Estatística tem importância especial. Os governos e as emprêsas dão |
publicidade uma quantidade enorme de informação numérica. A maior
parte daquilo que sabemos sôbre as verdadeiras formas das diversas curvas
que deverão ser vistas ao folhearmos êste livro, tem que ter como* fonte
uma cuidadosa análise estatística das informações registradas. Os métodos
matemáticos da probabilidade e da estatística encontram muitas de suas
mais importantes aplicações no campo da Economia.
ivnooiiçXo 27

Apesar dc todo livro dedicado aos principiantes dever conter diagramas


geométricos, o conhecimento da Matemática cm si só é nccessário pm
os estágios inais avançados da teoria econômica. O raciocínio l^uu 1 a
chave para o sucesso no domínio dos princípios cconòmuos básico», como
a avaliação perspicaz das indicações empíricas é a chave para o sucesaó
no domínio das aplicações econômicas.
Max Planck, o famoso vencedor do premio Nobel que foi o primeiro
n apresentar a teoria da física quântica, declarou certa vc/, com modéstia,
que havia dccidido ser economista, mas que desistira porque achara a
matéria demasiado difícil. Quando contaram isso ao pioneiro da moderna
lógica matemática. Lord Bertrand Russell, êste retrucou: "Ê estranha
Eu abandonei a Economia porque era demasiado fácil!”
Existe a verdade em ambos os pontos de vista. A experiência tem
demonstrado que, apesar de os simplórios não vencerem neste ramo nem
cm outro qualquer, não há necessidade de uma raça de super-homens
para praticar com proveito a disciplina que sc encontra a meio caminho
entre uma arte c uma ciência e que os homens chamam de Economia.
Assim como a Economia se beneficia do trabalho dc ciências sociais
correlatas, por sua vez as ciências sociais sc beneficiam com a Economia.
Isso talvez sc torne óbvio no caso da ciência política c do govêmo: como
poderá alguém estudar legislação e plataformas de partidos, sem com­
preender os problemas econômicos envolvidos? Até mesmo no campo da
Antropologia cultural, só nos é possível medir a fôrça do hábito depois dc
ficarmos sabendo atê que ponto chega a fôrça das correntes econômicas a
que ela resiste. Historiadores profissionais estão sendo obrigados a refazer
suas crônicas padronizadas, com base em pontos de vista modificados a
respeito das concepções econômicas a que anteriormente não davam mui­
ta importância. Seria indefinido o número a que podei íamos levai o®
exemplos.

• A DESCRIÇÃO E A ANÁLISE ECONÔMICA

A primeira missão da moderna ciência econômica é descrever, analisar,


explicar e correlacionar o comportamento da produção, do desempxêgo,
dos preços e de fenômenos semelhantes. Para que tenham importância,
as descrições devem ir além de uma série de narrativas incoerentes. De­
vem seguir um padrão sistemático, e é êste o significado da verdadeira
análise.
Devido à complexidade do comportamento humano e social, não pode­
mos esperar atingir a precisão de algumas das ciências físicas. Náo podemos
levar a efeito as experiências controladas de um químico ou de um
biologista. À semelhança do astrônomo, devemo-nos contentar, em grande
parte, cm "observar". Infelizmente, porém, os fato» econômico* e os da dos
U isnoovdLo A analise EOONOMICAJ

estatísticos observadas não têm o mesmo grau dc bom comportamento


c ordem cios caminhos seguidos pelos satélites celestiais. Felizmente, nossas
respostas não precisam ter a precisão dc muitas casas decimais; pelo
contrário, se a correta direção geral da causa e do efeito puder ser deter*
minada, teremos dado um enorme passo à frente.
Um bom exemplo para demonstrar a importância da análise é o pro­
blema do crescimento econômico dc países avançados e do desenvolvimento
econômico de nações pobre*. O tratamento que daremos a êsses problemas
na sexta parte irá demonstrar que os fatos em si têm que ser suplemen*
tados por todos os instrumentos dc análise das cinco partes anteriores, se
quisermos dominar êsse tema vital.

• A POLÍTICA econômica

Esta exposição nos leva ao importante problema da política econômica.


Era última análise, a compreensão deverá contiibuir para o contrôle e o
desenvolvimento. De que maneira poderão ser diminuídos os caprichos
do ciclo econômico? Como será possível favorecer o progresso e a eficiência
econômica? Dc que modo poderemos tornar extensivos a maior número dc
pessoas padrões de vida adequados?
Em todos os pontos de nossa análise iremos procurar lançar alguma
luz sôbie êsses problemas de política. Para atingirmos êsse objetivo, deve­
mos todos tentar cultivar uma capacidade objetiva e imparcial de ver as
coisas como realmente são, não importa quais sejam as nossas simpatias
ou antipatias. É preciso reconhecer o fato dc que os problemas econômicos
tocam emocionalmente a todos. Sobem as pressões sangüíneas e vozes
ficam mais estridentes sempre que se vêem envolvidos crenças e preconcei­
tos profundamente arraigados, e alguns dêsses preconceitos não passam
dc racionalizações tênuemente veladas de interêsses econômicos especiais.
Sabemos que um médico, ardentemente interessado em erradicar uma
doença, deve, em primeiro lugar, aprender a observar as coisas tal como
se apresentam. Sua bacteriologia não pode ser diferente da dc um cien­
tista louco disposto a destruir a humanidade por meio dc uma epidemia.
O pensamento baseado no desejo é nocivo e pouco resultado traz na
realização dêsse desejo. "Onde existir a obrigação de adorar o Sol, as
leis do calor serão insuficientemente compreendidas."
Do mesmo modo, só existe uma realidade válida em determinada situa­
ção econômica, por mais difícil que possa ser o seu reconhecimento é
o seu isolamento. Não existe uma teoria econômica para os republicanos
e outra para os democratas, tampouco uma para os trabalhadores e outra
para os empregadores. A maioria dos economistas está razoàvelmente de
acôrdo sôbre os princípios econômicos básicos relativos a preços e a
desemprêgo.
INTROOLÇXO 29

Não queremos dizer, com isto, que os economistas estejam sempre


dc acôrdo no campo politico. O economista A pode ser favorável ao HE
cmprêgo a todo custo, o economista B poderá não dar uma import Anr ia
fundamental a ôsse ponto. Questões básicas relativas a objetivos certo* I
errados a serem perseguidos não podem ser resolvidas pela ciência como
tal. Pertencem ao campo da ética c dos “critérios de valor". Em última
análise, à coletividade caberá resolver êsses casos. O que o perito pode faier
é salientar as alternativas exeqüíveis e os custos reais que poderão estar
envolvidos nas diferentes decisões.

• BOM SENSO E CONTRA-SENSO

Ninguém pode compreender uma matéria complexa como a Química


sem um longo c cuidadoso estudo. Isto representa uma vantagem c, ao
mesmo tempo, uma desvantagem. O homem do povo ou o jornalista n2o
poderá considerar-se a autoridade máxima num assunto dêsses — o que
é ótimo. Por outro lado, o nôvo estudante de Química tem o dever dc
íamiliarizar-se com todos os conceitos básicos pela primeira vez, o que
exige muito esíôrço.
Desde a infância que todos sabem alguma coisa de Economia, c êste
conhecimento é tanto útil quanto ilusório: útil, porque muito conheci­
mento pode ser considerado como já adquirido; ilusório, porque é natural
e humano aceitar de modo superficial pontos de vista plausíveis. Todo
aluno de ginásio sabe muita coisa a respeito do dinheiro, mais, até, do
que imagina. Por isso, êle está certo quando ri da criança que prefere
o níquel grande de 5 centavos à moeda menor de 10 centavos e dos cam­
poneses bascos que roubaram o talão de cheques cm branco do artista
visitante.
Entretanto, um conhecimento insuficiente também pode ser perigoso.
Examinado de perto, o bom senso poderá revelar-se como contra-senso.
Um líder sindical que tenha saído vitorioso na negociação de vários
contratos de trabalho poderá considerar-se um perito na teoria econômica
dos salários. Um homem de negócios que tenha cumprido as obrigações
constantes de sua fôlha de pagamento poderá achar que seus pontos dc
vista a respeito do contrôle de preços são a última palavra. Um banqueiro
que tenha suas contas equilibradas pode chegar à conclusão de que
está a par de tudo o que existe sôbre a criação do dinheiro. É natural
o fato de cada indivíduo ter a tendência de julgar um fato econômico
apenas pelos efeitos imediatos exercidos sôbre êle. Não se pode esperar
que um operário despedido de uma fábrica de charretes raciocine que
novos empregos possam ter sido criados na indústria automobilística, mas
devemos estar preparados para fazê-lo.
50 INTRODUÇÃO A ANALISE ECONOMICA

Em uma pesquisa introdutória, o economista está interessado no fun­


cionamento da economia como um todo, e não no ponto de vista dc
determinado grupo. Seus objetivos são as poJíticas social e nacional, não
a individual. Com demasiada freqüência, “o que é da conta de todos
não é da conta de ninguém". Por isso, vale a pena repetir, no inicio, que
um curso elementar de Economia não tem a pretensão de ensinar o
indivíduo a dirigir uma firma ou um banco, a gastar dinheiro com inte­
ligência. ou a ficar rico especulando na bôlsa, mas é de esperar-se que a
teoria econômica geral proporcione uma base útil a muitas dessas atividades.
É claro que o economisia deve saber muito a respeito da maneira como
agem e pensam os homens de negócio, os consumidores e os investidores.
Isto não significa que êsses indivíduos sejam obrigados a usar em suas
decisões a mesma linguagem e os mesmos métodos que os economistas
consideram úteis para descrever-lhes o comportamento — à semelhança dos
planetas, que não precisam saber que estão seguindo as órbitas elípticas
traçadas pelo astrônomo. Assim como muitos de nós vimos "proseando"
a vida tôda sem o sabermos, muitos homens de negócio iriam surpreen­
der-se ao saberem que o seu comportamento é suscetível de uma análise
econômica sistemática. £ste desconhecimento não terá necessàriamente
de ser condenado. De nada adianta a um jogador dc futebol conhecer as
leis da aerodinâmica, e se ficarmos preocupados com a maneira pela qual
devemos abotoar nossas camisas, é possível que achemos a tarefa mais difícil.

• A TIRANIA DAS PALAVRAS

Particularmente nas ciências sociais, devemos tomar cuidado com a


"tirania das palavras". O mundo já é suficientemente complicado scin a
introdução dc novas confusões e ambigüidades decorrentes (1) da utili­
zação dc dois nomes diferentes para indicar a mesma coisa, ou (2) da
aplicação do mesmo têrmo para dois fenômenos completamente diferentes.
João poderá chamar Robinson de mentiroso por sustentar que a causa
da depressão é o excesso de poupança, dizendo: “A verdadeira causa é o
subconsumo." Fernando poderá entrar na discussão, afirmando: "Os dois
estão errados. O verdadeiro problema é o subinvestimento.” Os três pode­
rão continuar discutindo mas, se parassem para analisar a linguagem que
estão usando, poderiam descobrir não haver diferenças de opinião quanto
à realidade c que tudo não passava de uma confusão verbal.
Do mesmo modo, as palavras podem ser traidoras, porque não reagimos
a elas dc uma maneira neutra. Assim, um homem que aprove o programa
dc um governo para acelerar o crescimento irá classificá-lo como um
programa dc "planejamento sensato", ao passo que um opositor que n5o
lenha simpatias pelo govémo descreverá a mesma atividade como uma
“organização burocrática totalitária”. Quem poderá contestar o primeiro.
iKntootrçXo SI

e quem iria condenar o segundo? No entanto, os dois estão-se referindo I


mesma coisa. Não é preciso ser um perito em semântica — o estudo da
linguagem e dc seu significado — para compreender que a discussão cientí­
fica exige que uma terminologia emocional dessa nature/a seja evitada
sempre que possível.

• TEORIA VERSUS PRÁTICA

O mundo econômico é extremamente complicado. Como dissemos, era


geral não é possível fa/er observações econômicas nas condições experi­
mentais controladas dos laboratórios científicos. Um üsiologista que deseja
determinar os efeitos da penicilina sôbre a pneumonia pode conseguiu
“manter os outros elementos constantes”, utilizando dois grupos dc testes
que só diferem no fato dc que recebem e não recebem injeções dc peni­
cilina. Já o economista sc encontra cm situação menos afortunada. Se
desejar determinar o efeito dc um impôsto incidente sòbrc a gasolina
no consumo de combustível, poderá írritar-se com o fato de que. no
mesmo ano era que o impôsto passou a vigorar, foram utilizadas pela
primeira vez os oleodutos. Apesar disso, Me deverá tentar — ainda que
apenas mentalmente — isolar os efeitos do impôsto, "mantendo cons­
tantes os demais elementos". Do contrário, não conseguirá entender os
efeitos econômicos, nem da tributação, nem dos melhoramentos de trans­
porte, nem das duas coisas juntas.
A dificuldade cm analisar causas quando é impossível a experimentação
controlada tem uma boa ilustração na confusão do feiticeiro selvagem,
que acha que a feitiçaria e um pouco dc arsênico são necessários para
matar o inimigo, ou que só depois de ter êlc vestido um manto verde na
primavera as árvores farão o mesmo.1 Como conseqüência desta e de
muitas outras limitações, nosso conhecimento econômico quantitativo está
longe dc ser completo. Isto não quer di/er que não tenhamos à nossa
disposição grandes quantidades dc conhecimentos estatísticos precisos.
Temos. Resmas de dados ccnsitários, informações sôbre comportamento
dc mercados c estatísticas financeiras têm sido coligidas por governos,
associações comerciais e firmas.
Mesmo que tivéssemos maiores c melhores dados, ainda haveria a
necessidade — como em tôda ciência — dc simplificar, de resumir a massa
infinita de detalhes. Mente alguma pode apreender uma massa dc fatos
scra conexão. Tôda análise envolve abstração. É sempre necessário idealizar,
omitir o detalhe, armar hipóteses e padrões simplificados pelos quais os
fatos possam ser relacionados, preparar as perguntas cerco» antes dc

1 Em Lógica, tm raciocínio às vêxes é chwnrifl óe ndaw pmtt W, Mepoil


ditto, (tuio por ama ditto).
procurarmos ver o mundo como êle realmente é. Tôda teoria, seja na
ticncia íísica, na biológica ou na social, destorce a realidade pela simple*
razão de simplificá-la exageradamente. Entretanto, se a teoria fôr bo2*
aquilo que ela omite é contrabalançado pelo raio de iluminação e |
piccnsão que ó lançado sôbre a massa de dados empíricos.
Comprendidas da maneira correta, pois, a teoria e a observação,
dedução e a indução não poderão estar cm conflito. O teste da valida
ile uma teoria é a sua utilidade no esclarecimento da realidade observa
São irrelevantes a sua elegância lógica c a sua frágil beleza. Em comi
qucncia, quando um estudante diz: “na teoria, está certo, mas não
prática”, quererá dizer que "na teoria relevante, isso não está certo", oq

então o que êle diz não faz sentido.

• 0 TODO E A PARTE: O "S0F1SMA DA COMPOSIÇÃO"

Uma boa primeira lição dc Economia é a seguinte: geralmente, as coú


não são aquilo que parecem ser. O que é exemplificado pelas seguintâ
afirmações verdadeiras:

1. Sc todos os fazendeiros trabalharem intensamente c a natureza colaborar


produção de uma safra excepcional, a renda agrícola total poderá cair, c é prováfaj
que isâo aconteça.
2. Um homem podcTá resolver seu problema dc dcscinprêgç se tiver grande liabfll*
dade em caçar um cmprêgo ou se estiver disposto a trabalhar ganhando menos. ■*!
todos os indivíduos n5o poderão necessariamente resolver seus problemas dessa mandii^
S. Preços mais elevados para uma indústria poderão beneficiar as firmas do ramofl
mas se os pregos de tudo o que è comprado c vendido aumentassem na mesma n
porção, ninguém sairia lucrando.
4. Poderá valer a pena os Estados Unidos reduzirem as tarifas que inddem
produtos importados, ainda que outros países se rceuscm a fazer o mesmo.
5. Poderá ser interessante para uma íirma aceitar certas encomendas a preços nuitoI
abaixo dos custos totais de produção.
6. Durante a depressão, as tentativas das pessoas, de pouparem mais, poderão H
tiuir o totaI da poupança da comunidade.
7. Aquilo que é considerado componaraento prudente para um indivíduo ou uma
íirma cumercUl poderá, cm determinadas ocasiões, ser insensatez paia uma naçio oo
um estado.

Salientemos bem: cada uma das afirmações acima é verdadeira,


cada uma delas é aparentemente paradoxal. No decorrer dêste livro, m
paradoxos aparentes serio resolvidos. Não existem fórmulas mágicas ou
truques. Uma das características da Economia | qUe lU(j0 aquilo' que
ii>i realmente correto deve parecer perfeitamente razoável, uma vez desen-
volvido cuidadosamente o raciocínio.
IMKOOTÇto SS
*
À esta altura, é conveniente observar que muitos dot paradoxoi acima
baseiam-se numa única confusão ou soíiwna. chamado pelos lógicos de
“o sofísma de composição'*. Nos livros sôbre lógica, temos a seguinte
definição:

# Sofisrna dc composição: sofisrna pelo qual se alega que aquilo que 6 verdadeiro
para a parte é, sòmente por êsse motivo, também verdadeiro para o ioda

No campo da Economia, muito especialmente, o que parece trr verda­


deiro para indivíduos nem sempre é verdadeiro para a sociedade como
um todo; c, de modo inverso, o que parece verdadeiro para todos poderá
ser completamente falso para qualquer indivíduo isolado. São haverá
benefício algum se, para ver um desfile, todos se puserem na ponta dos
pés, ainda que ao fazé-Io isoladamente uma só pessoa possa ver melhor. Si o
inúmeros os exemplos semelhantes que podem ser apresentados no campo
da Economia. O leitor poderá divertir*se verificando, nos sete exemplos
anteriores, quais aquiles que provavelmente estão relacionados com o
sofisma dc composição. Ou, melhor ainda, tente encontrar novos exemplos.
Chegamos ao fim de nosso exame preliminar. Talvez a melhor resposta
ft pergunta "por que cstudnr Economia?" seja aquela famosa dada por
Lord Keynes no final de sua controvertida obra clássica:*

"As idéias dos economistas e dos filósofos políticos, quer quando èlcs estejam certos»
quer quando estejam errados, são mais poderosas do que geralmente se pensa. Na
verdade, o mundo é governado por pouco mais do que isso. Ilomens práticos, que
acreditam estar totalmente livres dc quaisquer influências intelectuais, geralmente são
cscravoi dc algum cconomiita falecido. Homens enlouquecidos com o poder, que ornem
vote$ no ar, destilam seu furor dc algum escrevinhador acadêmico de alguns anos atrás.
Estou certo dc que o poder das vantagens adquiridas é extremamente exagerado era
comparação com a usurpaçSo dc idéias. Na realidade, nlo imediatamente, mat depoli
dc um certo intervalo, pois no campo da Economia c da Filosofia Política nlo são
muitos os que sc influenciam por novas teorias depois dos vinte e cinco ou trinta anos
dc idade. Por isso, as idéias que os funcionários civis, os políticos e até os agitadores
aplicam aos acontecimentos correntes não devem ser, com tôda probabilidade, as mais
modernas. Entretanto, cedo ou tarde sio as idéias, nflo as vantagens adquiridas, que
representam perigo para o bem ou para o mal.”

• UMA PRtVIA

Aqui na primeira parte tratamos dos instrumentos fundamentais neces­


sários à análise dc fatos e instituições básicas da moderna vida econômica
C terminamos êsse exame com o conceito unificador de renda nacional.

* J«» Maynmu» Ketkes. The General Theory of Employment, Imtere* mi Mmey (Hmsart,
•race. New Yoik. 1956). (N.T. - Traduzido pm o portam* tom o Undo * Teorio Gnat do
Kmprigo, do Juro e do Dinheiro, EdkAra Fundo dc Cultura.)
34 INTRODUÇÃO k ANÁLISE ECONÔMICA

Na segunda parte analisamos as causas da prosperidade c da depressão: 1


a interação dos processos de poupança e investimento para estabelecerem I
o nível de preços, de renda c de emprêgo; e como as políticas monetária e
fiscal do govêrno podem estabilizar a atividade comercial cm um nfvel
sadio de crescimento progressivo.
A terceira parte trata das fôrças da concorrência e do monopólio que
agem através da oferta e da procura para ajudarem a estabelecer a compo­
sição da renda nacional, em termos tanto de mercadorias como de serviços
a serem produzidos e de seus preços.
A quarta parte trata da distribuição da renda: salários, renda, juros
e lucros.
A quinta parle examina o comércio internacional, quer sob o aspecto
monetário, quer sob o aspecto real.
O último capítulo da quinta parte e tôda a sexta parte tratam de
alguns dc nossos problemas econômicos atuais da mais vital importância,
problemas empolgantes como o desenvolvimento de países atrasados, pro-
blemas que nos desafiam, como o incentivo ao crescimento econômico c o
controle da inflação, e comparações desapaixonadas de sistemas econômicos j
alternativos e filosofias em luta.

TEMAS PARA DISCUSSÃO

1. Uma grande depressão,* como a ocorrida na década dos SO, ou uma j


inflação em tempo dc paz, iria afetar sua vida (1) sèriamente, (2)
moderadamente, ou (3) cm coisa alguma?
2. Por que o físico fala tanto no sistema sem atrito, quando tal coisa
não existe? Há alguma justificativa para isso?
3. Comente o conteúdo emocional das seguintes palavras: arregimentação,
planejamento, usura, monopolista, jôgo, especulação, sistema de vida
nortc-amcricano, livre emprêsa, cartéis, parcimônia, entesouramento.
4. Dê exemplos do sofisma de composição e do sofisma post hoc, ergo
propter hoc.
5. Quantos dos problemas apresentados nas primeiras páginas dêste capí­
tulo você pode enquadrar na resumida definição de Economia?
6. Veja sc consegue dar qualquer exemplo dc um argumento cm que a
expressão "na teoria, está certo, mas na prática está tudo errado”

. Pm djvcrsos pontos dfisie livro o auior fai Wferénclai * "Grande Deprestfo" da década do» 30.
£ Importante acentuir que a referida depressSo teve repercussões tSo profundai, que até a presente!
data mesmo o homem mais simples das ruas. nos EE.UU., sabe seu significado, pois é considerada
. * a -.gjor catástrofe econômica dos tempo» modernos. Nus Estado» Unidos, que mais sofreram, o 1
F\B decreiccu de 30* entre 1029 e 1932. Em 1932. U dos trabalhadores citavam desempregados j
e. em 1940. 15% da populaçSo ativa ainda nlo encontrava trabalho.
INTftOOUçIo S5
faria sentido. Será capaz de apresentar um argumento no qual a mesma
expressão seja nitidamente absurda?
. Reveja sua compreensão dos seguintes conceitos:
Economia diferençada de outras matérias
análise e política
prática e teoria
pensamento baseado no desejo
tirania das palavras
experimento controlado
sofisma de composição
sofisma post hoc
2 PROBLEMAS CENTRAIS DE QUALQUER
SOCIEDADE ECONÔMICA

rara obter frutos da terra em quantidade,


t. preciso trabalhar cada vez mais;
Dai, os alimenta* crescerão como um, dois, três
Enquanto os números aumentam como um, dois, quatro
Canção de Malthus: Uma Ralada dos
Rendimentos Decrescentes

Anoni

Nas bases de qualquer comunidade serão sempre encontradas aigu


condições econômicas de caráter universal. Certos problemas de fundo
sã° tão cruciais hoje em dia quanto o foram na época de Homero e César,
c continuarão a ser relevantes no admirável mundo nôvo do futuro.*
Neste capitulo iremos ver, na seção A, que tôda sociedade deve enfren­
tar um determinado trio de problemas básicos de organização econôrair^
na seção D, que o conhecimento tecnológico, aliado a quantidades limita­
das dc terra, trabalho e capital, define as possibilidades de escolha entre
bens e serviços oferecidos à comunidade e que essas possibilidades de pro­
dução estão sujeitas a alterações e à lei dos rendimentos decrescentes; c, na
seção C, que a base de qualquer economia é a sua população, ou elemen­
to humano.
Deixaremos para o capítulo 3 os importantes aspectos econômicos espe­
ciais característicos dc nosso sistema misto de emprêsa privada e emprésa
pública-

A PROBLEMAS DE ORGANIZAÇÃO ECONÔMICA \


Qualquer comunidade, consista ela em um estado comunista totalmen­
te coletivizado, uma tribo das ilhas dos Mares do Sul, uma nação capitalis­
ta industrial, uma familia de Robinsons suiços, um Robinson Crusoe, ou,
quase que poderíamos acrescentar, uma colmeia. deve, de um modo ou

• O intor fix aluiSo 1 novela de Aldout Hoxley. New World, que descreve, satlricamente,
o conflito entre o homem e a civilizaçSo «upcimccani/ada do luturo.
promje mas crvnuus

dc outro, enfrentar três problemas econômicos fundamentais e intefde-


pendentes:
1. Quais as mercadorias que deverão ser produzidas, e em que quanti­
dades? Ou seja, qual a quantidade e quais os bens e serviços alternativo^
que seráo produzidos? Alimentos, roupas? Muito alimento e pouca roupa,
ou vice versa? Pão c manteiga liojc, ou pão e plantações de videiras hoje,
com pão, manteiga c geléia no próximo ano?
2. Como deverão ser produzidos os bens? Isto é, por quem e com que
recursos e por que processo tecnológico irão êles ser produzidos? Quem
caça, quem pesca? Eletricidade proveniente dc vapor ou de quedas d’água?
3. Para Quem deverão os bens scr produzidos? Ou seja, quem irá
usufruí-los e obter o benefício dos bens e serviços oferecidos? Ou, para
dizer a mesma coisa dc outra maneira, como será distribuído1 o total do
produto nacional entre diferentes indivíduos c famílias? Entre alguns
ricos e muitos pobres, ou entre pessoas que em sua maioiia vivem em
modesto confôrto?
Estas trcs perguntas são fundamentais e comuns a tôdas as economias,
mas sistemas econômicos diferentes tentam rcsolvft-las dc modo diferente.
Numa civilização primitiva, é possível que o costume regule cada aspecto
de comportamento. A decisão quanto a O Quê, Como e Para Quem pode
ser tomada com referência a métodos tradicionais de fazer as coisas. Aos
membros dc outra cultura, as práticas seguidas podem paiccer bizarras
e irracionais: os membros da tribo ou do clã poderão estar tão familiariza­
dos com as práticas existentes» a ponto de ficarem surpresos, e talvez
ofendidos, se lhes fôsse perguntado o motivo do seu comportamento.
Assim, os indios Kwakiutl acham aconselhável não acumular riqueza, mas
distribui-la durante a potlatch, uma festança. Êste desvio do comporta­
mento aquisitivo não irá surpreender os antropologistas. Graças aos seus
estudos, êles sabem que aquilo que significa comportamento correto numa
cultura constitui, com freqüência, o maior dos crimes em outra.
Na colmeia, todos êsses problemas, até mesmo aquêles que envolvem
uma extraordinàriamente elaborada divisão cooperativista do trabalho.
são resolvidos automàdcamcntc por meio dos chamados “instintos bio^
lógicos”.
No outro extremo, podemos imaginar um ditador onipotente, benevo­
lente ou malévolo, que toma as decisões quanto a O Quê, Como c Para
Quem por meio de decretos e atos arbitrários. Ou, então, poderíamos Sna-

1 AVISO: Cnalnxntr. quando um ccoooniiu fala de "diaCribuicSo**. cili ê»


de rendas — os princípios que determinam o salário da aio-de-obra. ■ rr*da 4» **rn. o 4*
capital e todo o processo relativo ao Item Pen Que». P beatem do po*o dá. gent****.
«So. o sentido dc veada por atacado e a varejo — a maneira pela vul m »***•
à» mios do consumidor. Teme evitar esta última ímerptrta**©. qoe poderá l"*'*1'
58 iNTKODtçÃO A ANÁLISE ECONÔMICA

ginar a organização econômica através de decretos, mas sendo, êstes proj


tados pelo voto democrático ou por selecionadas autoridades legislativa»
Como o capítulo 3 explica, as perguntas O Quê, Como e Para Quem,
na chamada "economia capitalista da livre emprêsa?, são determinadas
fundamentalmente5 por um sistema de preços (de mercados, dc lucrosa
de perdas). I

• A LEI DA ESCASSEZ

O Que produzir, Como c Para Quem não constituiriam problemas se H


recursos íôssem ilimitados. Sc fôsse possível produzir uma quantidade iníi- ]
nita dc cada produto, ou se as necessidades humanas estivessem plenan
satisfeitas, não faria diferença se se produzisse uma quantidade ex<
de qualquer produto em particular, tampouco haveria importância sedj
trabalho e as matérias fòsscm combinados de maneira insensata. Uma vez!
que todos pudessem ter quanto desejassem, não importaria de que maneii
os bens e as rendas fôssem distribuídos entre diferentes indivíduos c famflii
Não haveria, então, bens econômicos, isto é, bens que são relativamj
escassos, e dificilmente haveria necessidade de estudar-se Economia ou|
como "economizar”. Todos os bens seriam bens gratuitos, como o ar.
No mundo real, até as crianças aprendem, ao crescer, que "ami
não é uma resposta admissível para uma escolha de "qual das duj
Em comparação com países atrasados ou séculos passados, as mod( ____________ ___
sociedades industriais parecem realmente muito ricas. Entretanto, niveiij
de produção mais elevados parerem trazer na sua esteira padrões de coí
mo mais elevados. O povo sente que deseja e “precisa” de aquecimento
central, instalações hidráulicas, refrigeradores, educação, cinemas,
televisão, livros, automóveis, viagens, música, roupas elegantes, e a&D
por diante. Um biologista poderá dizer-lhe que será possível ficar belli
alimentado com um mingau de aveia por dia,3 gastando apenas algun*
dólares, mas essa possibilidade deixa as pessoas tão indiferentes quantoj
a informação de que os elementos químicos dc seus corpos valem apena*
poucos dólares. Qualquer pessoa que tenha feito um orçamento domésUwy
sabe que as necessidades da vida — as obrigações indispensáveis — poucfl^
têm a ver com as necessidades fisiológicas mínimas de alimentos, vestuário
e abrigo.
Em The Affluent Society (A Sociedade Opulenta), Galbraith 4, da Uni­
versidade de Harvard, salientou com eloqüência que os americanos &

* Nunca «tiniu um sistema dc emprêsa cera por cento automático. Até mesmo no nomo
capitalista, o govtmo tem ura importante papel na oodificaçSo do funcionamento do iWera» Jj
preços. Vivemos ao que pode ser chagado de "economia mista**.
i Um estudo citado por C. Siigler revela que os modernos padrões dc nuiriçSo de um SJ*®
poderiam icr seguidos em 1964 gastando-se menos de cem dólares por ano. Mas que regln* **•
•ignifieal Rins. repolhos, farinha dc uigo. e pouco mais!
» John Kcnneth G*tnMnn. Th* Affluent Society (Houghton Mifflin, Boston. 1958).
PROBLEMAS CTNTRAIS

hojeu 1 trapassaram, cm sua maior parte, o nível da necessidade


e que freqüentemente o consumidor passa com rapidez de uma «ocnjua
a outra em resposta a pressões da moda e da propaganda. .Sem contrariar
a tese de Galbraith, segundo a qual é chegada a hora de gastar mais para
o atendimento das necessidades públicas dn que das particulares, podemos
salientar corretamente que o nosso produto total teria que ier muitas
vézes mail alto do que o seu nívrl atual se todos fóssem ter a oportunidade
de viver no mesmo nível dc um médico, advogado, professor ou agente
de propaganda moderadamente rico — para não falar naqueles que
são realmente ricos.
Fôsse ou não verdade que as pessoas ficariam mais felizes gastando
duas vêzes o que gastam agora, a observação sugere que os moradores dos
subúrbios estão agindo, atualmente, como se quisessem maior renda para
gastar: fazem serviços extras, opõem-se aos aumentos dos impostos, acabam
economizando a mesma fração de suas rendas que economizavam em 1900,
c as mães da classe média parecem trabalhar mais do que faziam suas
genitoras. Mesmo que a renda nacional fôsse dividida igualmente entre
todos os homens, mulheres c crianças — c é claro que não pode — haveria
apenas cérca de 45 dólares por semana para viver. Por isso. apesar de
reconhecer o importante fundo de verdade na noção de que os Estados
Unidos se tomaram uma sociedade abastada, a Economia ainda terá de
tratar da escassez como condição básica.

B ALTERNATIVAS TECNOLÓGICAS À DISPOSIÇÃO


DE QUALQUER SOCIEDADE

• A CURVA DE POSSIBILIDADE DE PRODUÇÃO DÂ SOCIEDADE

Já discutimos o fato econômico básico de que a limitação dos iccursos


totais capazes dc produzir diferentes mercadorias impõe uma escolha entre
produtos relativamente escassos. Isto pode ser quantitativamente ilustrado

O pleno emprego dos recursos escassos significa que a sociedade tem que
escolher entre mais canhôas ou mais manteiga:

Poulbl- CanhArt Matitcica


lidades (Mllhfe*
(1000)
de ki)

A IS 0
B 14 1
C 12 2 Quadre 1 • PostibiBdadat olfomoHvo» ee ptvdwfê* <d» •••■
D 9 *
R tolga e canh&ot. Roamos mcoitòmicm pode* sor émàocaéot
S 4
F O S do prodwçõo do wantolgo paro o piod*ç#o do conUa.^ pouíbS*
fondo* com aMk», o (ranSoraoçOo d* •*
40 INTRODUÇÃO À ANÁLISV ECONÔMICA

por meio dc simples exemplos aritméticos c diagramas geométricos. Os


diagramas e on gráficos são auxiliares visuais indispensáveis em muitos
aspectos da Economia. Um pouco de cuidado ao começar a compreendê-los
será muitas vêzcs recomjxrnsado mais tarde.
Vamos supor uma economia com determinada quantidade de habitan­
te*. dctciminado grau de conhecimento técnico, determinado número dc
fábricas e fciramentas e determinada quantidade de terra, potência hidre­
létrica c dc rccursos naturais. Ao decidir O Que será produzido e Como pro­
duzi-lo. essa economia terá realmente que decidir de que maneira aqueles
recursos serão distribuídos entre os milhares de diferentes mercadorias
jHisNÍveis. Qual a área de terra que deveria ser dedicada ao cultivo do
trigo? Ou reservada para pastagem? Quantas fábricas deverão produ/ir
grampos para cabelo? Qual a quantidade de mão-de-obra especializada
que deverá destinar-se à indústria mecânica?
Já é complicado discutir êsses problemas, quanto mais resolvê-los. Por
isso, suponhamos que devam ser produzidos apenas dois bens econômicos
(ou classes de bens econômicos). Para efeito de draroaticidade. podemos
escolher a dupla canhões e manteiga. Êstes dois produtos são geralmente
usados para ilustrar o problema da escolha entre a produção civil c a
produção bélica, mas a mesma análise se aplica a qualquer escolha dc
bens. Assim, quanto maiores forem os recursos que o govêmo aplicar na
construção de estradas, menores serão os rccursos que restarão para que
sc produzam casas particulares; quanto mais o público preferir consumir
alimentos, menor será o seu consumo de vestuário; quanto mais a sociedade
preferir consumir hoje, menor poderá ser a sua produção de máquinas e
bens de capital para produzir maior quantidade dc bens de consumo
para o próximo ano ou para a próxima década.
Mas vamos continuar com o exemplo dos canhões c da manteiga. Supo­
nhamos que iodos os recursos sejam aplicados na produção de bens civis
(manteiga). Haverá uma quantidade máxima dc manteiga que pode ser
produzida cm um ano. (A quantidade exata depende dos recursos quan­
titativos e qualitativos da economia em questão c da eficiência tecnológica
com que ésses rccursos são utilizados.) Vamos supor que cinco mil tonela­
das de manteiga seja o máximo que poderá ser produzido com a tecnologia
c os recursos existentes.
No outro extremo, imaginemos que 100% dos recursos da sociedade
tenham sido dedicados à produção de canhões. Neste raso, apenas poderia
ser produzida uma quantidade máxima de canhões: talvez 15 000 unidades
de um determinado tipo pudessem ser fabricadas se estivermos realmente
dispostos a não produzir manteiga.
Temos aí duas possibilidades extremas. Entre elas ainda existem outras.
Se estivermos decididos a abrir mão de certa quantidade de manteiga.
PROBLEMAS CKWnuu \ \

poderemos ter crrta quantidade de canhões; se estivenno» |


abrir mão de uma quantidade ainda maior dc manteiga, iKxictcmos ter
ainda mais canhões. Uma escala de uma série de possibilidade» | apresen­
tada no quadro I, indicando a letra F o extremo onde a produção é tòdj
de manteiga e representando a letra A o extremo oposto, no <|ual todoi
os recursos são aplicados na produçilo dc canhões. Nos pontos intenne-
diários. F.. D, C, e fí, o volume da manteiga vai decresccndo gradativa-
mente cm troca de maior número de canhões. A maniciga é "transforma­
da" em canhões; não fisicamente, mas pelo deslocamento de recursos de
uma utilização para outra.
O quadro 1 também pode ser representado em diagrama pela fig I.
que dispensa explicações.
Um modo ainda mais elucidativo é representar essa mesma escala de
possibilidade de produção ou transformação da produção medindo-se a
manteiga ao longo do eixo horizontal c os canhões ao longo do vertical,
como na fig. 2.
A esta altura, o leitor deve ser capaz de passar diretamente do quadro
numérico para o diagrama final: contando, para o ponto F, 5 unidades
de manteiga para a direita e subindo zero unidade dc canhões: seguindo,
para E, 4 unidades de manteiga para a direita e subindo 5 unidades de
canhões: e, finalmente, somando, para o ponto A, zero unidade dc man­
teiga e subindo 15 unidades dc canhões.
Podemos preencher tôdas as posições intermediárias, mesmo aquelas
que envolvem frações dc 5 mil toneladas ou dc mil canhões, como na
chamada "curva de possibilidade de produção’* mostrada na fig. 3.

Isto pode ser mostrado com IluttraçBes:

A c/c^c/c/c/ c/dc/c/c/ c/c/c/c^

B (^c/c/dc/ dc/c^dc/ c^c/c/

C c&c&c/ c*c/có/</ c*c/

D c/c/dc^c/

Fie. 1 • O custo da obt*nç£o de canhões extras pode ser cokvlodo como a mant^tga • ^
formos forcados a nflo prodatír.
12 1\ I uniu ( \<) V ANÁI.ISI' ECONÔMICA

A turva que temos agora representa o seguinte falo fundamental:

% Uma economia de pleno emprigo deverá sempre, ao produzir determinado produto,


estar abrindo mão de ccila quantidade de outro. Isto supõe, natuialiucnic, que
pelo mciK*> alguns recursos podem ser transferidos dc um bem para outro, como,
po» exemplo. o aço que c usado no fabrico dc canhões c também no de manteiga,
a traves da maquinaria agrícola.
A substituição é a lei fundamental numa economia de pleno emprógo. A curva
de possibilidade de produção, ou fronteira, retrata a lista dc opções da sociedade.

|
Mas, e se tiver havido um clesemprêgo geral de fatores, ou seja, homens
desocupados, terra sem cultivo e fábricas paradas? Já avisamos que, nesse
caso, nossas leis econômicas poderão ser completamente diferentes.
Com o desemprego, não nos encontramos sôbre a fronteira de possibi­
lidade de produção, mas em algum ponto dentro dela; por exemplo, no
ponto U da íig. 3, produzindo apenas 2 mil toneladas de manteiga e 4 000
canhões. Se há recursos inativos, poderemos ter mais manteiga e mais
canhões, pondo-os a produzir. Poderemos mover-nos de U para D ou E e,
assim, obter mais manteiga e mais canhões.
Isso oferece um importante esclarecimento quanto à diferente experiên­
cia de três países em tempo de guerra, os Estados Unidos, a Alemanha e a
Rússia. Depois de 1940, de que maneira conseguiram os E.U.A. tornar-se
o “arsenal da democracia” e gozar de padrões de vida civil mais elevados
do que jamais obtiveram? Em grande parte ocupando as áreas de desem-

Ou podo mostrado gròficamonlo, mareando o* ponto» num quadro:

POSSIBILIDADES DC TRANSFORMAR
MANTEIGA EM CANHÕES
15
A
3
-
C
12
-
-
B ç D

8

a
O Fig. 2. Cada ponto assinalado representa uma
A
_ e- cuidadosa marca d« cada combiraçõo numé­
a •
d - rica de canhão e manteiga obtida no quadro 1.
ü (Adivinhe onde poderia cair, aproximadamente,
- o porto médio entre B e C. Leia as quantidades
de canhões e manteiga que a êle correspondem
f e inclua-as no quadro 1 na posição certa.)
I?3
MANTE3GA
(em milhões de quilos)
PROBLEMAS OOfSB 43

Ou po demos retratar as possibilidades de produçêo traçando o mo cwvâ •wove:

A CVtVA DA "fOSSIllUOADE M
P80DUÇÃ0" OU DE *riANSr0ftMAÇ20~

fig. 3. Esta nos nostra de qoe soáo a soòe-


dodt pode preferir tvbstMr nart0Í90 por
conhftes, admitindo »m dafomfaodo «lodo de
Vscnologki eme total dado de ream
quor ponto dutfro da corvo, temo U, M»
qoe m rscoaot nòo estòo lendo |ij»WfS
empregados no m#lhor neto conhocfrfo. IMo*
quadro 1. Passou-se una curva suovo petos
pontos da curva ontertor.)

MAMTOGA {mOHt da kg)

prego. Por outro lado, o esfôrço bélico dc Hiilcr começou cm 1953, muiio
antes da formal declaração de guerra, derivado de um período dc desem­
prego suficientemente agudo para que êle conseguisse os votos que o
levaram pacificamente ao podei. Quase todos os fatores extras tomados
possíveis pela utilização dc trabalhadores e fábricas inativos foram canali­
zados mais para a produção dc produtos bélicos alemães do que para um
consumo civil mais devado. O tcrcciro caso é o da União Soviética na
Scgufida Guerra Mundial. Os russos tinham um nlvel de desemprego
baixo, antes da guerra, e já estavam em sua curva de possibilidade dc
produção bem baixa. Não tinham outra alternativa senão substituir os
produtos civis pelos bélicos, com a conseqüente privação.

• ALGUMAS APLICAÇÕES DO CONCEITO DA POSSIBILIDADE DE PRODUÇÃO

fiste conceito, representado como uma simples curva, pode ajudai a


apresentação de muitos outros importantes conceitos da Economia. Por
exemplo, a fig. 3 ilustra a definição bisica da Economia dada no capítulo 1,
ou seja, o problema da escolha entre rccursos escassos ou limitados ("meios”
suscetíveis de utilizações alternativas) a fim de atingir melhores objetivos
("fins**). A terra, o trabalho e o capital podem ser utilizados na produção
dc canhões ou manteiga, ao longo da curva limítrofe da fig. S. E m que
ponto a sociedade decide parar? Na direção sudeste no diagrama, com
grande quantidade de bens de consumo civis, ou na direto noroeste,
com grande quantidade dc produtos bélicos? A Economia é mataria quart*
titativa. A opção não é uma questão qualitativa de escolher entre uma
4*i IN I ROI»l ( Àn À ANAIJSF FCONÒMICA

coisa e outra, mas sim dc cscolhcr a quantidade dc cada produto e o


ponto exato em que traçar a linha da decisão final.
A fronteira da possibilidade de produção também nos permite dar
uma rigorosa definição de escassez.

% Defini ^ òo: a escassez, cm Economia, refere-se à realidade básica da vida dc que


m« c\i%(c uma quantidade finita dc rccunot humanos c naturais capazes de
s<'i t in uiili/ados pelo conhccimcnto técnico na pioduçUo de apenas uma quanti­
dade miftima limitada de cada produto, como nos mostra a curva de possibili­
dade de pioriução. Até aqui, em nenhuma parte do globo a oferta dc l>cns i
tSo abundante ou os gostos do povo são tão limitados que cada pessoa possa
ter mais do que o suficiente de tudo aquilo com que possa sonhar.

A escala dc possibilidade dc produção pode ajudar a tomar claros


os tres problemas básicos da vida econômica: U Quê, Como e Para Quem.
O que é produzido e consumido pode ser demonstrado pelo ponto no
qual decidimos dc ter-nos na curva de possibilidade de produção.
A maneira pela qual deverão ser produzidos os bens implica uma escolha
eficiente dc métodos e a destinação adequada dc diferentes quantidades c
tipos de rccursos limitados às diversas indústrias. O que aconteceria se
homens bem qualificados para o fabrico dc canhões fôssem mandados
trabalhar cm fazendas? Estariamos do lado de dentro da fronteira de
possibilidade de produção, não sôbre ela. £ se as instruções governamen­
tais fizessem com que a terra mais apropriada ao cultivo do milho fôsse
utilizada para a produção de trigo, e a terra mais indicada para o trigo
fôsse cultivada com milho? Acabariamos com menor quantidade de milho
e de trigo, dentro da fronteira de possibilidade de produção num diagra­
ma cujos eixos estariam assinalados pelas letras Aí e T. Encontrar-se dentro
da fronteira 6 um crime de incapacidade econômica, mas não há necessi­
dade de envolver qualquer grau de incapacidade técnica, uma vez que
na terra errôneamente distribuída a produção poderia estar seguindo os
mais modernos métodos conhecidos pela ciência.*
Para quem serão produzidos os bens é um ponto que não pode ser
percebido apenas com o exame do diagrama da possibilidade de produção.
As v&a, porém, podemos estimá-lo com êsse exame: se encontrarmos
uma sociedade com a sua curva de possibilidade de produção acusando
muitos iates e poucos automóveis do tipo compacto, é justo que suspei­
temos que essa comunidade goze de uma considerável desigualdade de
renda c dc riqueza entre os seus elementos.

s Mais difícil é a noção de que a economia deveria preferir, com ficqQêntia, métodos cientifica*
mente menos eficiente* a métodos supostamente de maior eficiência técnica. Exemplos compêndio*
de Física ensinam que converter calor em impulso a I0C0*F é Intrlnsecamcnte mats eficiente do
que conterté-k» a I 200». Entretanto, se os raetaie que podem suportar a temperatura taais elevada
forem escassos e de alto perco, é eccnómicamente melhor para o engenheiro e o comerciante usar
o método termodinâmica mente menos eficiente!
PROMJOCAS CtKTtMt ■

As curvas dc possibilidados do prodoçfto ilustram mottos cato* »n«>aimi


1.°) Escolha tnfro artigos da luxo • dt primolra oocettidodo:

kaçAo poso NAÇÃO «SBIVOiVIOA


I

w» 4.
•a. o mcfio 4

rxwoi è pn*M»
gozando do poeco CflrfMs
pob do ...... oMlflifc
do A poro f, Sj
conw o do a
em comporoçSo «m O tee mo
coanc do oiNfa «séHha

# QUADROS DE UMA EXPOSIÇÃO

A seqüência de gráficos das Ggs. 4 a 8 dispensa, cm grande parte,


explicações. Mostram éles que a curva da possibilidade dc produçio pode
retratar muitos processos econômicos conhecidos, mas básicos. Capítulos
mais adiantados irâo tratar de cada um dêlcs em profundidade c aqui 16
é necessário compreender as idéias sensatas envolvidas.
A fig. 4 demonstra de que maneira uma sociedade consome grande
quantidade de alimentos, quando é pobre, mas se desloca cm direção aos
confortos e aos objetos de luxo à medida que se vai desenvolvendo, tópico
que será abordado no capitulo 11.
A fig. 5 nos mostra como o eleitorado deve escolher entre bens pi ivados
adquiridos a determinado preço e bens públicos pagos, em sua grande
parte, pelos impostos, matéria que encontraremos no capitulo 8.
A fig. 6 retrata o modo pelo qual uma economia se decide entre bens
de consumo corrente e bens de capital (máquinas, etc.), o que torna pool*

2.°) Escolha ontro bons público» o bons privados:

SOCIEDADE 01 MONTOtA SOCIIDM)! INT IR DEPENDENTS


Pia- 1 Em a. a «owoinlo 4 po*
te W bro o dhporso como not die» do
vido ds fronteira ds DoeM Boon*
o proporçfto do roamos qve m
destinam oo govêmo é baixo.
Cm b, o ocotiomio edé moil pré»*
poro • prefers goiisi mob de tos
rendo «levada em iet*lsn
nomoetqfa (eHredoe, Mwo, pee-
quito, edecocéolj ne é&mm *4de
urbona, ele «Se tem eSereotfva
n&o fo«er •otfotcem AA de frd-
Ugo. K>6om •
46 INTRODUÇÃO À ANÁLISE ECONÔMICA

3/') Escolha entro maior consumo hop o bens de capital que tornem
melhoros as possibilidades do futuro:

Fig. 6. Três pônei começam do


mesmo ponto, mas o país 1 não
ANTES DA POUPANÇA DEPOIS DA POUPANÇA | economiza para o futuro em A|
(limitando-se a substituir máquinas
gastas). 0 país 2 se abstém modes­
tamente de consumir, em Aj- O
pais 3/ pelo voto democrático ou
pelo sacrifício particular, está em
Àj, investindo muito en novas má­
quinas e sacrificando muito do
consumo corrente.
Nos anos que se seguem, o país
3 tomou a frente ao país 2, que se
ediantou ao país 1, que não pro­
grediu. Possuindo maior número de
máquinas para sua roão*de-obrO,
o país 3 podo, agora, ter mais
dos dois produtos do que o pais
2. O país 1 continua onde começou

vel maior quantidade de ambos no futuro. Uma parte apreciável das


segunda, quarta c sexta partes tratará dêsse problema básico dc investimento.
A fig. 7 mostra dc que maneira uma economia (a) abençoada por
descobertas científicas e técnicas seria capaz dc ultrapassar uma outra (6)
que sofresse maior parcimônia e investimento para o futuro, mas que
contasse com uma tecnologia menos progressista. As discussões sôbre o
crescimento, na sexta parte, irão desenvolver êsse tema.
Finalmente, a fig. 8 nos prepara o tópico seguinte, a lei dos rendimentos
decrescentes.

A LEI DOS RENDIMENTOS DECRESCENTES

O último diagrama faz com que travemos conhecimento com uma


famosa relação econômica tecnológica, a chamada “lei dos rendimentos

4.°) Caso em que o avanço técnico sobrepuja a poupanças

NAÇÃO 01 ELEVADO NAÇÃO 01 lUVAOO


NÍVEL DE e«veSTIMKMTO nível dk invenção

M*. 7. O país A, ò esquerdo, 4


pardmonioso e avença acumulan­
do bem de capital.
O poís B progride ainda mais
de 1965 a 1975, embora teja pou­
co a sua abstenção de consumir
” POrcjíe gasta mais com o dln-
da e com a pesquisa técnica. De
1975 a 1985, cresce ainda mais
depressa, usando os dels métodosi
progresso técnico e formaçAo de
capital.
problema* comuui 47

5.0) Como a produção, mantida constante o 6ra® * terre, NI


acompanha o ritmo da populaçfto:

CtlSCJMINTO lOUlllltAOO fixioiz oa mt*A


V V

b AtlMSHTOS
FIg. 8b. Começnmm no mrtme curvo A, temo
R|. ga. Cometamos no curvo mab baixa, A.
Mat a populaçÔo. agora, duplka • podo «• no flg- Io. Agoro, por Sm, o torre é «onüdo
palhar-se polo dòbro da terra anterior, deixgn- constante, wxiaoaio o populafSo dobre. C«do
trabalhador tem monos torro com que trebofcor
do cada muildpio • etlodo no mamo eqoltf-
brio terro-mõo-de-obra do antes. Dal o novo de qee no sWemo do crescimento oquBbrodo.
curva B pernitir exalamente o dòbro da «calo Dat ser a curva •* abaixo do OffO f do
do prodvçAo do alfaiemos o do voftfdrto. f|g. Io. Por Um, acrotconle omo incremento
Por fim, doíxe qvr môo-d»-obra • torro tor­ igual do mfio-do-obro, mantendo olndo o torro
nem a aumentar na mesma proporçS© extra cemfonf». O n6*o produto extra 4 olndo mots
que tnfro A • 0. Acabamos, em C, ganhando o baixo, como demonstrado peto» comprimentos
mesma quantidade de produtos exlro» que decrescentes dos setas 1, 2 o 3, que retratam
ganhamos antes das mesmas adlçSet oqultlbra*a producAo extra. Iremos compreender o* ro-
dai de mfio-de-obro e terra. Observe que at zftes de tudo Isso no próxima teçõc, que trato
tetai 1, 2 e 3 sôbre coda eixo nêo mostram do "lei dos rendimentos decrescentes".
•utoftsão deereteenU.

decrescentes”. Esta lei exprime a relação, não entre dois produtos (como
canhões c manteiga), mas sim entre um fator dc produção (como o tra­
balho) e a resultante produção de um bem por èle auxiliada (como a
manteiga ou, nos exemplos tradicionais, o millio).

0 | Dc modo mais espccíflco, a lei dos rendimentos decrescentes se refere à quanti-


! dade dc produção extra que obtemos quando adicionamos sucessivamente unida­
des extras iguais dc um fator variável a uma quantidade fixa de um outro fator.
(Prestem atcnçSo nos ttrmos grifados.)

Eis um exemplo para ilustrar a lei dos rendimentos decrescentes. Faze­


mos a seguinte experiência controlada: dada uma quantidade fixa dc terra
— 100 hectares, por exemplo — a ela não iremos adiüonar trabalho algum.
Vemos que, nesse caso, não há produção dc milho c registramos uma
produção igual a zero.
Agora, fazemos um segundo experimento relacionado com o primeiro:
adicionamos uma unidade extra dc trabalho à mesma quantidade fixa de
48 INTRODUÇÃO A AN Am SE ECONÔMICA

terra. Qual será a produção que obtemos, agora? O raciocínio puro não
nos pode responder; temos que examinar os fatos do experimento. Ao
(azMo, observamos que, digamos, tivemos uma produção positiva de
milho exatamente igual a 2 000 unidades (arrobas, ou qualquer outra
unidade com que prefiramos medir o milho). Resumimos, então, o resul­
tado di\sse segundo experimento: a adição de lima unidade extra de
trabalho à terra, fixa, nos dá uma produção extra de + 2000 unidades.
A fim de observar a lei dos rendimentos decrescentes, devemos fazer
uma lerreira experiência controlada. Ainda mantemos fixa a quantidade
de terra e, mais uma vez variamos a contribuição do trabalho e provi­
denciamos para que seja outra vez adicionada exatamente a mesma
unidade extra de trabalho como da vez anterior, ou seja, passamos agora
de uma para duas unidades de trabalho. Ficamos aguardando, muito
ansiosos, o resultado do experimento cm têrmos de produção extra de
milho. Será que vamos ter um total de 4 000 unidades dc milho, que
mais uma vez iriam representar exatamente 2 000 unidades extras produ­
zidas pela unidade extra do fator trabalho, variável, ou iremos encontrar
rendimentos decrescentes, com a nova unidade extra do fator acrescentan­
do uma quantidade abaixo das 2 000 unidades extras de produção ante­
riormente adicionadas?
Se a lei dos rendimentos decrescentes fizer efeito, nosso experimento
só pode ter um resultado: a segunda unidade extra dc trabalho irá
acrescentar menor produção extra do que a primeira. O acréscimo dc
uma tcrceira unidade extra de trabalho irá, vigorando a lei dos rendimentos
decrescentes, resultar numa produção extra ainda menor. E assim por
diante. O quadro 2 fornece valores numéricos para ilustrar com exatidão
o que significam os rendimentos decrescentes.
A lei dos rendimentos decrescentes é uma ordem econômica e técnica
importante, observada com freqüência, mas a sua validade não é uni-

A lei dos rendimentos docroscontos é uma lei fundamental da Economia


e do Tecnologia:

Produto extra
Produto total obtido pela
llameae-ano unidade adicional
(wM)
de mlo-de-obra Quadro 2* Rondimontot do
milho quando «toldados do
mão-de-obra são adicionada*
0 O ò loira fixa. A lei dos rondi­
2000
1 2 000 montot dacrescentes so reforo a
1 000 produtos extras sucessiva monte
2 3 000 mais reduzidos, obtidos pela adi­
SOO
J J 500 ção de medidas iguols de un fa­
tor variável a uma quantidade
4 3 800 coratonie de *m fator fixo. (Preen­
100
J 000 cha, o lápis, o produto extra do
5 1 quarto trabalhador)*
PROBLEMAS CFVnUls 49

versai- Freqüentes são as vêzes em que ela só agirá depois dc adicionarmos


uma quantidade considerável de doses iguais do fator variável. Dèue
ponto em diante, dizemos que a lei dm rendimentos decrescentes entrou
cm vigor. (Aquém disse ponto, os fatóres variáveis poderiam estar pro­
duzindo rendimentos extras crescentes, uma vez que até então percebemos
que adicionando fatóres variáveis extras a um fator fixo provocamos pro*
duções extras crescentes, não decrescentes.*)
Por que motivo é plausível a lei dos rendimentos decrescentes? Com
freqüência, achamos que, adicionando terra e trabalho juntos, — sem
qíie nenhum fator seja fixo e com todos variando na mesma proporção,
de modo que tôda a escala de operações vá ficando maior — a produção
também deveria crescer proporcionalmente e as produções extras não
precisam diminuir, pois por que iriam fazé-lo se cada um dos fatures
tem sempre aquela mesma quantidade dos outros com que trabalhar?
Em suma, podemos esperar, com freqüência, que as alterações equilibra*
das da escala deixem os fatóres e as produções nas mesmas proporções.
Por outro lado. quando mantemos um fator ou grupo de fatóres constante
e variamos os demais, vemos que os fatóres variáveis vão tendo cada vez
menos quantidade dos fatóres fixos com que trabalhar. Em conseqüência,
não ficamos demasiado surpresos com o fato dc que ésses fatóres extras
variáveis começam a adicionar cada vez menos produto extra. Com efeito,
o fator dc produção fixo (terra) vai decTesccndo na proporção do fator
variável (trabalho). À medida que colocamos um número cada vez maior
de lavradores na terra, ainda podemos obter alguma quantidade extra
de milho pelo cultivo intensivo do solo, mas a quantidade de milho
extra por unidade de mão-de-obra extra irá tornar-se cada vez menor.
Na quarta parte veremos que o salário real pago aos trabalhadores depende
da produção extra que um último homem acrescenta para o seu patrão.
Os rendimentos decrescentes revelam que os padrões de vida na China
ou na índia populosa suo baixos, cm virtude dessa verdade técnica básica
e não apenas porque a terra é dc propriedade do citado ou dc particulares.
Em conclusão, podemos resumir como se segue:T

e Sc f&M«nw alterar o quadro t. tubuituindo 2 000 por 900. mlinm que a Id doa rendimentos
decrescentes só se torna válida depois da segunda fila: a principio, haveria realmente rendl—emw
extras crescentes para cada unidade adicional igual de trabalho.
T A seguinte dúcuu&o, que é acracentad* como uma nota de pé dc pifina por nlo MT CMCtl*
ciai para uma compieensSo do texto, mostra que rendimento» decrescentes e a íomt 'írqnMdi'
característica da fronteira de possibilidade de producSo estSo lUlllmente telacionado*
A lei dos rendimentos decrescente* ajuda a expllrar n motUo pelo qual i Ironietrs tis pOOlW*
Iidade de producSo é, de modo geral, inchada, ou convexa, a partir de baixo. Sr caahtm r man­
teiga só fóssem produ/idos pela mão-de-obra, entlo a distribute*) de *0* P*« WgJ*
iria produzir exatamente metade do mSxímo dc alimentos e metade do miuário. I
rocdl&rio entre A e / na fig. S cairia sôbre a linha reu que passa etum
com um quarto, três quartos e outras pontos, frmespamtowto a ■— c0yt
<w. H), (M. 14) ou (*, l-«) do trabalho entre a* indáacrias. tmt emo ___
de possibilidade de produto em linha reu cede lugar i forma am c*w*
0 A lei du* rrrnlirnentot decrescentes: I'm aumento dc ccrtos fatòrcs cm
out vos (aiôres ftxos provocará urn aumento da produção local; mas depois dc
certo ponto, a produção extra resultante das mesmas adições de fatôres extra*
dei' - : t’jrnar-se cuia vez menor. Esta diminuição dos rendimentos extras é uma
conseqüência do Uio dc que as novas “doses’* dos recursos variáveis encontram
uma quantidade cada vez mais redu/ida dos fatôres fixos com que trabalharem.

• ECONOMIA DE ESCALA E PRODUÇÃO EM MASSA: UMA DIGRESSÃO 1

Antes de sairmos desta seção, devíamos tomar conhecimento de um


fenômeno que é diferente de nossa variação controlada de uma coisa de
cada vez. Vamos supor que aumentemos apenas a “escala de operações”,
isto é, aumentemos todos os fatôres ao mesmo tempo e no mesmo grau.
Em muitos processos industriais, quando dobramos todos os fatôres, pode­
remos observar que nossa produção fez mais do que duplicar. A êste fenô­
meno chamam “rendimentos çrcscentes da escala
A nossa lei dos rendimentos decrescentes se refere, sempre, aos casos
em que alguns fatôres foram variados enquanto outros continuaram fixos.
Daí, êsse caso de rendimentos crescentes da escala não constituir uma refu­
tação direta da lei dos rendimentos decrescentes.
Rendimentos crescentes da escala, ou as chamadas "economias de produ­
ção em massa", são freqüentemente associados a um dos seguintes pro*
gressos: (1) o uso de fontes dc energia outras que não a humana e a
animal (energia hidráulica, vento, vapor, eletricidade, turbinas e motores

°* «nhees e a manteiga se utilizam mellior de fatôres ein proporções ou intensidade» diferentes.


<)s produtos agricolas usam maior quantidade dc terra para tiabalhar do que os produtos manufa­
turados. Por isso. as primeiras unidades de manteiga podem ser produzida* com terra e outros
tecurvM não muito bons para a produto de canhões, mas para obtrnuos uma segunda e mais
entras unidades de manteiga, devemos começar a sacrificar cada vc/ mais os fatôres úteis & prodtt*
t,io de canhões. Daí, existe uma convexidade e uma "lei de um crescente nncrifício extra de uffl
pioduto para obter quantidades extras dc outro", f.ste raciocínio sc aplica, cm sentido contrário,
a qualquer dm bent. |Ainda que o trabalho e a terra tivessem cada um uma qualidade Isolada, a Icl
dos rendimentos decrescentes iria implicar convexidade. Por quê? Porque a primeira unidade de man*
tciga seria obtkla da melhor maneira tramfcrindo-ic mai* percentagem de terra do que de trabalho.
Por qué? Porque a agricultura exige tècnicmnente maior quantidade dc icrra, r n indústrias, dc raJo*
de-obra. A mão-de-obra tem. agora, menos terra com que trahnlhnr na produçSo de canhões, r estilo
cm funcionamento os rendimentos decrcucntes por unidade dc trabalho. F.m outros estigios
sucessivos, é aritmèticamente impossível a canhões continuar abrindo mSo das mesmas percentagens
mais elevadas de terra em relacüo ao trabalho, uma vez que os dois fatôres eitSo presente!,
no inicio, na quantidade de 100%1 Com o tempo, seria nccessílrio que a niúo dc olna dedicada Í
produção de manteiga também obtivesse menos terra com que trabalhar do que no primeiro
estágio: assim, a dilniçlo da terra em favor da mSo-dc-obra está (paradoxalmente) fn/endo corn
que também haja rendimentos decrescentes do trabalho na produção dc manteiga. Dal, por dupla
ra/So, a curva de possibilidade de produçlo é convexa e prevalece o cinto extra dc uma unidade
de alimento em termos da outra. Êste raciocínio é sutil, mas sc resume i condusSo dot compêndios
adiantados: entre dois pontos quaitquer sôbre a fronteira de possibilidade dc produçSo scríi possl*
vcl agir pelo menos tSo bem quanto a linha reta entre iun dois pontos; e, aproveitando
diferenças na intensidade dos fatôres, poderemos agir um pouco mellior — achando-no* sòbr
curva convexa. Q.E D. A segunda pane irá esclarecer aquilo que Inevitavelmente constitui ttm
quebra cabeças. |
PROBLEMAS CENTRAI» 51

dc combustão interna, energia atômica interna); (2) o cmprêgo dc meca­


nismos de ajuste automático (tornos mecânicos, íresas, scrvomccanismoi);
(3) utilização dc peças padronizadas c intcrcambiávcis; (4) a divisão dc
processos complexos em simples operações repetitivas; (5) a especialização
dc função c a divisão do trabalho; c muitos outros fatores tecnológicos.
A linha dc montagem da indústria automobilística e desenvolvimento his­
tórico da moderna fiação c tecelagem têxtil são exemplo» típicos dessa
diversificação dc íatôrcs.
Pensando bem, será cvidcnlc que cada uma dessas economias ou pou­
panças sô se encontra em açâo plena se estiver sendo produzido um
número de unidades suficientemente grande fiara que torne vantajosa
a instalação de uma organização produtiva com razoável grau de aperfei­
çoamento. Sc devera ser produzidos apenas uns poucos canhões, bem
poderiam ser produzidos a mão, mas se existem recursos para produzir
muitos milhares, valerá a pena fazer certos preparativos iniciais aperfeiçoa­
dos que não precisam ser repetidos quando sc quiser produzir ainda mais
unidades. Nesses casos, em que a simples escala tem muita importância, a
tendência da fixidez da terra em forçar os rendimentos decrescentes extras
do trabalho poderia ser bloqueada durante longo tempo por um aumento
da escala total de trabalho envolvida.* .
As economias de escala tém muita importância na explicação do motivo
pelo qual tantos dos produtos que adquirimos são fabricados por grandes
companhias. Veremos que são importantes no auxilio à explicação da
“divisão do trabalho” e do padrão de "especial»/açâo‘\ Provocam pergun­
tas As quais estaremos sempre voltando em capítulos posteriores.

C A BASE DEMOGRÁFICA FUNDAMENTAL DE QUALQUER


ECONOMIA: TENDÊNCIAS PASSADAS E FUTURAS DA POPULAÇÃO

• A TEORIA MALTHUSIANA DA POPULAÇÃO

A lei dos rendimentos decrescentes tem uma importante e interessante


aplicação no campo da população. Por volta dc 1800, Thomas Robert
Malthus, jovem sacerdote inglês, costumava combater, durante o café
da manhã, o ponto de vista perfeccionista dc seu pai, segundo o qual a
raça humana mantinha um melhoramento comtantc. Por fim, o Malthus

• Em conseqüência. poderia acontecer que. m contrário do nono quadro UmpUíiodo “•*rr'rT*


devêssemos picar duas uaidades de ouileiga peU nona primeira unidade de «TTtift mm para
obtermos mais ouuo eanhSo teilamos que pagar apenas uma unidade de mantei»». *»ac*s -
eficiência da prodatlo cm massa. Este seria um caso de rastos estras dc mm r- r1 **
de outro, mas decrescentes e ido crescentes. Quando da predominância da ."n- T .
cmeentes da escala, os compêndios avançados mostram que teremos que «oenar a
fim de que senha a ser c&ncava • nSo convexa, pelo mrooa peno da adm
52 INTRODUÇÃO A ANÁLISE ECONOMICA

mais môço ficou lão agitado, que escreveu um livro. O scu Essay on the
Principle vf Population (Ensaio sôbre o editado
Princípio da População),
cm 1798, entrou logo para a lista dos mais vendidos. Teve várias edições
c durante um século influenciou o pensamento dc pessoas pelo mundo
inteiro (inclusive Charles Darwin, o expositor da famosa doutrina da
evolução biológica), constituindo, ainda hoje, uma influência viva. Oi
pontos de vista de Malthus dependem diretamente da lei dos rendimentos
decrescentes e continuam a ser relevantes.
Partiu cie da observação feita por Benjamin Franklin, segundo a qual.
nas colônias americanas onde os recursos eram abundantes, a população
apresentava a tendência de duplicar-se a cada período de 25 anos. mais
ou menos. Por isso, Malthus admitia uma tendência universal da popula­
ção — a menos que detida pela oferta de alimentos — em crescer em pro•
gressão geométrica, Ora, qualquer pessoa que tenha imaginação sabe com
que vclocidadc crescem as progressões geométricas, como chega rápido o
momento em que 1, 2, 4, 8, 16, 32, 64, 128, 256, 512, 1 024..... se toma
tao grande que não haverá espaço no globo terrestre para que fiquem de
pé todos os habitantes.9
Essa argumentação toda não conseguiu impressionar membros da escola
perfeccionista, como o Malthus mais velho e William Godwin, e foi então
que Malthus desencadeou o demôn in da lei dos rendimentos decrescentes.
À medida que a população dobra e redobra, acontece exatamente a
mesma coisa como se o globo estivesse ficando com o seu tamanho redurido
à metade, até que, por fim. encolheu tanto que a alimentação e a subsis­
tência caem abaixo do nível mínimo necessário à vida. Devido à lei dos
rendimentos decrescentes, os alimentos tendem a não acompanhar a taxa
de progressão geométrica do crescimento da população.
Veja bem, Malthus não disse que a população cresceria àquelas taxas.
Essa era apenas a sua tendência, se não houvesse contrôle. Considerava êle
uma parte importante de sua argumentação mostrar que, em todos os
lugares, a tôdas as épocas, havia restrições cm ação a fim de deter o avanço
da população. Na primeira edição dc seu livro, êlc punha cm evidência
as restrições positivas que agem para aumentar a taxa de mortalidade:
peste, inanição c guerra. Mais tarde, êlc recuou dc sua doutrina sombria
c acenou com a esperança para a raça humana através de restrições preven­
tivas agindo sôbre a taxa de natalidade. Embora o movimento dc contrôle
da natalidade seja chamada de ncomalthusianismo, Malthus, que era um
sacerdote dos princípios do século XIX, defendia apenas o contrôle moral,

• A um de juros composto* de 6%, o dinheiro dobra de valor a cada 12 anos. Já foi calculado
que oa 14 dólares recebidos pelo* índios em pagamento da ilha de Manhattan representariam hoje.
se depositados a juros compostos, pelo menos tanto quanto o valor dos imóveis existentes na ilha.
A 6%. o saque efetuado por Sir Francis Drake dc ouro espanhol seria. boje. Igual à riqueza da
Voglatem.
nommi amm ■

com o prudente adiamento de casamentos entre pessoas muito jo\tns, aié


que fôsse possível sustentar uma família. Na verdade, pregava que a luta
pela existência era uma ilustração da sabedoria da Natureza, evitando
que as pessoas pobres se tomassem fracas e preguiçosas.
Essa importante aplicação dos rendimentos decrescentes esclarece os
profundos efeitos que pode ter uma simples teoria. As idéias de Malthus
tiveram repercussões generalizadas. Seu livro foi usado para apoiar uma
rigorosa revisão das leis inglesas referentes aos pobres, segundo as quais
a pobreza era considerada um resultado da preguiça e o desemprégo uma
situação que devia ser transformada na mais desagradável possívcL Suas
opiniões também apoiavam o argumento de que os sindicato! não podiam
melhorar o bem-estar dos trabalhadores, uma vez que qualquer aumento
dos salários só iria fazer com que éles se reproduzissem até que outra va
mal houvesse o bastante para sustentar a todos.
Apesar dos dados estatísticos referentes a muitos pises, incorporados
ás edições posteriores de seu livro, hoje se reconhece que seus pontos de
vista representavam uma simplificação excessiva. Na sua discussão dos
rendimentos decrescentes, Malthus jamais chegou a antecipar plenamente
os milagres da Revolução Industrial. No século seguinte a inovação tecno
lógica deslocou ràpidamente as curvas dc possibilidade dc produção pera
fora c tomou possíveis melhores padrões de vida para maior número de
pessoas, ainda que ao mesmo tempo os progressos médicos estivessem
prolongando a vida humana e diminuindo ainda mais os obstáculos positi»
vos h população. Tampouco imaginou que depois dc 1870, na maioria
das nações ocidentais, inclusive os E.U.A., a fertilidade da família medida
pelo número real dc filhos iria começar a uiío corresponder à fecundidade
da família, ou capacidade biológica dc reprodução.
Mesmo assim, as sementes dc verdade cm suas doutrinas ainda tão
importantes para a compreensão do comportamento da população da
índia, da China c dc outras partes do globo onde o equilíbrio entre
nümcro dc habitantes c suprimento de alimentos constitui um fator vital.
O quadro 3 mostra dc quanto aumentou a população mundial. ÊSS6
aumento foi possfvcl principalmente através da redução da taxa de
mortalidade resultante dos progressos na Medicina e dos melhores padrões

A populoção do mundo triplicou desdo 1800:

1 1*00 1940 1961


1
Qoadv* S. PopoIntSo
Europa (incluindo tôda a U.R.S.S.) IBS 572 Ml t—I mmòm) DUè
América do Norte. Sul e Central 29 277 «22 PM* w—r
702 I J96 1999
Asia. Africa c OceAtia
3099
Ntw YmK IW*I f*»
Mundo 919 2 MS ém Hmiêm iMmJ
54 INTRODUÇÃO À ANÁLISF. ECONÔMICA

dc vida que a Revolução Industrial tornou possíveis. A expectativa de vida


de uma criança ocidental dobrou desde 1800, para atingir acima de 70
anos no presente, c os padrões dc vida ultrapassaram de muito os de
qualquer século anterior.
Ainda mais dramática foi ;t redução havida nas taxas de mortalidade
entre regiões cie baixa renda. O Ceilão oferece o caso dramático cm que
o controle dos mosquitos com a aplicação do DDT diminuiu enormemente
a incidência da malária, reduzindo em 34% a taxa de mortalidade cm
apenas um ano do pós-guerra! Só na índia, um dos frutos da moderna
ciência tem representado um grande aumento da expectativa média de
vida. Nos últimos 20 anos, a população da índia aumentou dc pelo menos
120 milhões de habitantes, total maior do que as populações da França
e da Inglaterra juntas!
O Professor Kingsley Davis, da Califórnia, perito cm população, já
nos preveniu contra a crença fácil de que a fome (ou mesmo :i subnutrição)
é o fator principal que torna a vida tão curta nas sociedades pobres. O
papel da doença é importante como fator independente: se a ciência a
preços módicos aumenta muito o tempo de vida sem aumentar muito a
produtividade e alterar muito as atitudes pré-inclustriais, os temores de
Malthus assumem nova relevância (como a sexta parte irá deixar claro).

% AMÉRICA E EUROPA AMEAÇADAS DE DESPOVOAMENTO?

Ao término da Primeira Guerra Mundial, os homens ainda temiam


a maldição malthusiana da superpopulação. Os livros da época exibiam
títulos alarmantes como The World Faces Overpopulation (O Mundo
Diante da Superpopulação) c Standing Room Only! (Lugar, Só Em Pé!)
Entretanto, no momento mesmo em que êsses livros saíam das impressoras,
a Europa Ocidental c os Estados Unidos passavam por uma revolução
na população, o que só foi compreendido uma geração mais tarde. Então,
o pêndulo oscilou para o outro extremo e os livros campeões de venda
levavam títulos espalhafatosos como The Twilight of Parenthood (O
Crepúsculo da Paternidade) e England without People (A Inglaterra
Despovoada).
A partir de 1870 — na França, muito antes — as taxas de natalidade
começaram a cair na maioria dos países da civilização européia ocidental.
Depois da Primeira Guerra Mundial, e cm especial após a Grande De­
pressão da década de 1930, a queda tomou-se vertiginosa, mas a crise de
nascimentos ficou algum tempo escondida.
Observações de que havia um excesso de nascimento sôbre as mortes
davam um ilusório senso de segurança, porque ignoravam o fato de que
os Estados Unidos e a Europa Ocidental contaram temporariamente com
PROBLEMAS CEfflKgH BB

um núnxcro extraordinariamente grande dc mulheres nos grupos de idade


fecunda. Por que esse excesso nesses grupos de idades? Poique em 1900
as pessoas tinham famílias mais numerosas do que esiavavn tendo u
pessoas de 1935. Com tantas mulheres na idade de terem mies. as taxas
de natalidade anteriores à guerra man ti veram-se alias durante algum
tempo. £, no entanto, o número de nascimento por mie era baixo —
tão baixo que, se tivessem continuado a vigorar as mesmas taxas dc antes
da guerra, o crescimento futuro da população teria atingido um ponto
em que teria acabado c se transformaria cm declínio.
Antes da Segunda Guerra Mundial, havia tôda razão para que o espe­
cialista cm população ficasse desanimado quanto ao futuro da população
das nações ocidentais. Além do mais, o problema não parecia ser direta­
mente econômico. Todo mundo sabia que os ricos tinham menot filhos
do que os pobres. Antes da guerra, os estudantes de Harvard e Vassar
não se estavam reproduzindo, como não o estavam os do estado de
Michigan e de Oberlin, tampouco os que haviam completado o ginásio
c os grupos urbanos de modo geral.1*

• NOSSO ESPANTOSO AUMINTO DE POPULAÇÃO

Foi então que algo dc extraordinário aconteceu para chocar o espe­


cialista. Ninguém sabe, ainda, como explicá-lo. Durante e apôs a Segunda
Guerra Mundial, a taxa dc fertilidade começou uma ascensão uniforme,
atingindo novas alturas. Cada ano nos traz, agora, uma safra de mais
dc 4 milhões de crianças.
Alguns dos motivos são, é claro, evidentes. Com a guerra veio a pros­
peridade, e o «cúmulo de casamentos adiados em virtude da depressão
começou a desfazer-se. A Lei de Convocação Militar também teve alguma
influência no aumento de casamentos. O número de solteiros e solteironas
decresceu e a idade do (primeiro) casamento teve baixa acentuada, de
modo que o número de môças que se casam aos 18 anos é maior do
que o de qualquer outra idade e os anos que ultrapassavam os 20 antes que
uma môça se casasse ficaram reduzidos à metade, c a metade dos homens
se casa aos 22 anos!

» Em sna maioria, as autoridades acreditam que as taxas de natalidade ánrm ser expttodm
mais pelos fatóres sociais do que pelos biológico*. Auim. o» franco-canadenscs. qae possf
elevadas taxas de natalidade, vieram exatamente da* resides rurais da França qoe contam cam
as nab baixas dai taxas. Habitantes das cidades, descendentes diretos de Hahaom c Mm
xaiaa taxas grandemente reduzidas, como acontecc com ao pretos qoe se dodonm do «nl pn»
o Norte dos tüjl. Algum» da Baiom taxas de rrptodncSo Uqntfao sSo encontradas NM
bosnern brancos qoe moram nas rcgtfca rústica, do Sul. Itdafcamentr. m rT~f
de tòdas sSo encontradas ertre - tejam sé - os Indáos amtrkan«. snsrriná» <s» ^*
devolver o pals a Art. Sa momento, os fisidlogas dbeutem a noçio de 1* •
menos freurdo do qoe sens ctfoneados ancestrais.
56 INTRODIÇÃO A ANALISE ECONOMICA

As taxas líquida* de reprodução servem de correção para a distribuição


variável por idade:
Quadro 4. Taxas líquidas de reprodução paro vâriot países. Uma TLR (taxa líquida de repro­
dução) permanentemente maior do que a unidade significa um aumento de população. Uma TIR trenor
do que a unidade significo declínio da população. A TLR dos Estados Unidos está, agora, substancial*
mente acima de 1. (Fonte: Population Index, a b r i l d o 1963, O f f i c e of Population Research. Princeton.

fcstadoe Unidos Total 0.98 (1930-40) Bélgica 0,86 (1939)


1.72 (1960) 1.13 (I960)
Brancot 0.06 (1935-40) Holanda I.1S (1935-40)
1.66 (I960) 1.46 (I960)
Xão-brancos 1.14 (1935 40) Austrália 0.96 (1932-34)
2.09 (1960) 1.61 (I960)
Reino Unido 0.77 (1931-35) Palestina Muculmanvs 2.17 (1940)
1.25 (1960) Juieu» 1.6! (1945)
França 0,90 (1931-35) Israel Judeui 1.62 (I960)
1.28 (I960) JapSo 1.57 (1930)
Suécia 0.73 (1933-35) 0.92 (I960)
1.02 (1960) índia 1.25 (1931)
Alemanha Total 0,70 (1933) Ml (1941)
Ocidental 1.11 (1960) Uni&o Soviética 1.72 (1926)
1.54 (1935)

Com um número muito maior de casamentos recentes, era natural espe­


rarmos que a taxa de natalidade desse um pulo para cima. Mas, mais
do que isso, as pessoas aceleraram a taxa à qual têm filhos. Hoje em dia,
entre as classes médias é comum um terceiro e um quarto filhos, o que
representa uma dramática reversão do panorama de pré-guerra.
Paradoxalmente, nações mais pobres, como o Japão, que costumaram
ter elevadas taxas dc natalidade, restringem atualmente o tamanho da
família com maior rigor do que as nações ricas. Uma olhadela para o
grupo de catcdráticos dc uma universidade — jovens, velhos c de meia­
-idade — nos mostrará as tendências a êsse respeito cm mutação: os
professôres associados já tiveram mais filhos do que os aposentados, e o
aumento continua.
O quadro 4 indica que os países prósperos da Europa Ocidental, antes
dc guerra, tinham taxas líquidas de reprodução11 muito abaixo da
unidade e que, atualmente, contam com taxas acima do nível crítico
da unidade. Os Estados Unidos atingiram uma taxa líquida de reprodução
que é uma das mais altas do mundo ou da história recente, e desceu
pouco de seu máximo do pós-guerra.

“ O» demógrafos definem a taxa liquida de reprodução (TLR) como "o número médio de
crianças do texo feminino que devcrSo nascer de uma recém-nascida garotinha representativa durante
(Ada a ma vida”. Assim, sc 1000 meninas nascidas em 1965 tiverem produzido, até o ano
ZCI5. I 600 garotinbas, a TLR «= 1 *00/1 000 —1.5. E ac essã taxa de fertilidade fôste mantida
indefinidamente, a populaçJo acabaria aumentando numa proporçSo de 00% por **geraçÍo”
ou seja. a cada 25 anos. idade média de uma mSc ao dar à lar. (Explique exatamente o que*
significa TLR = 0.7 ou TLR — 1.0, demonstrando por que tnolivo 1,0 é • li uh» divisória entre
decadência e crescimento positivo.)
PROBLEMA! CEXTlAIS 57

Oi ( a n d o o grupo do idodo p r o d u t i v o :

OISTMUIÇlO mClMTUAl, fO# IDAOt. OA fOPUlAÇÃO


DOS K. U. A. NO P»k>DO IISO-19IO
100

4S44JI
•0

M JO-44
60
Fig. 9. X medida que at cosais
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40 J
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ao rottanlo da Europa t

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1961 lf?S

diferentes poisos em 1975 (todos os dados om


Fatade* Unttga
Reino Unido
Frmtça
U I
66
an
st
4%
nUhSos do habitantes). (Fonte: Aiwdrio Estatístico 1 'mio Sovifrtra 21* 22S
dos Noções Unidos.) Suit ia 14 I IJ
ltdllm SO 54

• EFEITOS ECONÔMICOS DO AUMENTO DE POPULAÇÃO

Já se pode perceber perfeitamente o impacto econômico das alterações


na população. Nossos subúrbios estão cheios de crianças, nossas escolas
estão com excesso de alunos. O bôjo dos nascimentos durante a guerra
já atingiu as faculdades: cm 1975 o número de matriculas será o dòbro do
de 1960! As vendas de sorvetes e de pianos refletem o aumento do
número de jovens.
A fig. 9 mostra a crescente proporção de crianças dependentes. Durante
algum tempo, os elementos em idade de trabalho cairão cm importância
relativa: apanhados entre o aumento dos dependentes de idade avançada
e dos jovens dependentes, cada um dèles terá que sustentar maior
número de pessoas que não trabalham.
Do ponto de vista do contingente militar, é possível que o tempo
esteja trabalhando contra os países da Europa OádcntaL O quadro 5
fornece estimativas das populações futuras de certos paiwt. Prestem
atenção na previsão para a União Soviética» onde as taxas líquidas de
58 INTRODUÇÃO À ANÁLISE ECONOMIC A

reprodução têm inuilo que cair antes de atingirem a unidade, e vejam


os algarismos bem baixos relativos à Suécia e à Inglaterra.

Seri benéfico o nosso aumento cie população? AEconomia não pode, sòzinha, res-
I r !t-r a uma pergunta assim geral. As alegrias c as dôrcs da vida cm família nlo
rr* ser medidas apenas cm lêimos de dólares c centavos. No entanto, podemos
escudar certo* aspectos econômicos do crescimento da população, c, quando o fizermos,
cm capitulo* posteriores, veremos que as respostas raramente são simples.
Por um lado, uma população crescente representa elevados gastos cm dinheiro, uma
* ' que as casas c as fábricas estão sendo rcpioduzidas da mesma maneira. Por Uso,
ela poderá agir contra o desemprego e. se pensarmos ura pouco, também poderia
agravar as ameaças inflacionárias. 1’or outro lado, um nivcl dc população considerável-
mente elevado nos ameaça com a lei dos rendimentos decrescentes. Enche nossos
carros dc gente c cnchc nossas estradas dc carros, estraga o campo c acaba com a
intimidade

A análise econômica precisa medir com cuidado um assunto dc tamanha complexidade


como a alteração da população, a fim dc ajudar a fornecer aos cidadãos e aos estadistas
o conhecimento necessário à sua compreensão.

SUMÁRIO 3

• A. PROBLEMAS DE ORGANIZAÇÃO ECONÔMICA

1. Tôda economia deve resolver, de algum modo, os trçs problemas


econômicos fundamentais: Que tipos e quantidades serão produzidos de
todos os bens e serviços possfveis; Como serão os recursos econômicos utili­
zados na produção dêsses bens; e Para Quem serão produzidos os bens,
ou seja, qual será a distribuição de renda entre diferentes indivíduos e
classes.

2. As sociedades enfrentam êsses problemas de diferentes maneiras:


por hábito, por instinto, atos c decretos e, no nosso sistema, cm grande
parte por um sistema de preços.

3. Os problemas básicos são importantes devido ao fato fundamental


de tôda a vida econômica: com recursos e tecnologia limitados, os padrões
c!e vida são limitados. Os bens econômicos são mais escassos do que livres;
a sociedade deve optar entre cies, porque nem tôdas as necessidades e
desejos podem scr atendidos.

» B. OPÇÕES TECNOLÓGICAS ACESSÍVEIS A SOCIEDADE

I. Dados certos recursos e tecnologia, as opções de produto acessíveis


a uma nação, entre dois produtos como manteiga e canhões, podem scr
resumidas na erva ou fronteira dc possibilidade de produçüo. Esta
PROMT MAS <:» vntAll 59

indica o modo pelo qual um produto pode ser transformado cm outro


cora a transferência dc rccursos de sua produção para a do outto.

5. As curvas de possibilidade de produção podem esclarecer muitos


processos econômicos básicos: como usamos relativamente menos o* nonos
recursos para atender às necessidades de alimentação, à medida que pro­
gredimos; como escolhemos entre bens de mercado particulares e bens
públicos governamentais, entre o consumo corrente e bens de capita] que
melhoram a capacidade futura de produzir. A curva de possibilidade de
produção pode explicar o progresso técnico e abrir caminho para os
rendimentos decrescentes.

6. A lei dos rendimentos decrescentes afirma que, depois de determinado


ponto, à medida que adicionamos uma quantidade cada vez maior de
um fator variável (como o trabalho) a um fator fixo (como a terra). o
total do produto extra irá diminuir. Essa lei é, na verdade, uma questão
de proporções: o fator variável vai tendo cada vez menos fator fixo com
que trabalhar.

7. As economias de produção em tnassa ou de escala são descritas, com


freqüência, como "rendimentos crescentes da estala”. A palavra “escala"
é um aviso de que todos os fatòres estão variando simultâneamente, sem
que nenhum seja mantido fixo como na lei dos rendimentos decrescentes.
Muitos processos modernos passaram realmente por um estágio initial de
rendimentos crescentes da escala.

• C. BASES DEMOGRÁFICAS FUNDAMENTAIS DE QUALQUER ECONOMIA

8. A teoria da população de Malthus apóia-se na lei dos rendimentos


decrescentes. Achava êle que uma população, se não a controlassem,
teria a tendênda de crescer em proporção geométrica, duplicando de gera­
ção em geração, ou coisa parecida. Entretanto, cada membro da popu­
lação em crescimento teria menos recursos naturais c terra com que
trabalhar. Por isso. devido aos rendimentos decrescentes, a renda tenderia
a baixar tanto, que levaria uma população estável a um nível em que
haveria inanição e incidência de peste.

9. Durante século e meio depois de Malthus, as populações dc tflda


pane cresceram em ritmo acelerado. Os números aumentavam principal­
mente porque as taxas de mortalidade tiveram uma queda brusca como
resultado de uma tecnologia médica e de saúde pública mais apnmorjda.
Todavia, o progresso técnico no campo da indústria mais do que contra­
balançou a lei dos rendimentos decrescentes.
60 utnoovçXo k análise econômica

10. Depoii dc 1870. as laxas de natalidade começaram a cair. Antes


da Segunda Guerra Mundial, países adiantados contavam com taxas
líquidas de reprodução abaixo de 1 c viam-se diante do despovoamento.
A partir de 1939. as classes médias voltaram a seguir um padrão de
família mais numerosa, tendência que poucos prognosticavam e com
graves conseqüências futuras.

TEMAS PARA DISCUSSÃO I

1. Sem olhar o próximo capitulo, poderá o leitor prever de que


inincira um tistema de preços, através da oferta e da procura, icsolvc
os trés problemas da organização econômica?

2. Kxplique o que querem os economistas dizer com 44escassez”, bens


livres e incapacidade.

3. Trace a curva de possibilidade dc produção da sociedade no caso


de as invenções científicas aumentarem a produtividade de determi­
nados recursos apenas na produção de manteiga, não na de canhões.

*1. Sc a terra fôsse aumentada cm certo número dc pontos e o trabalho


fosse mantido constante, haveria a aplicação da lei dos rendimentos
deucMentes? llusiie u caso e diga por quê.

5. Descreva e compare (a) a lei dos rendimentos decrescentes e (ò) o


fenômeno dos rendimentos crescentes da escala.

6. Quantos membros havia na família dc seus bisavós? E na dc seus


pais? Quantos você acha que haverá na sua?

7. “A pressão populacional não provoca a guerra, como geralmente se


acredita. Um estudo cuidadoso sugere que causa c efeito são exata­
mente o reverso. Nações que desejam expandir-se tentam convencer
seus cidadãos a aumentar cm número, para que o país venha a ser
militarmeme forte c tenha pretexto para a expansão.'* Comente.

8. Reveja sua compreensão dos seguintes conceitos:


bens econômicos e bens livres
substituição e lei de escassez
curva dc possibilidade dc produção
custos crescentes, rendimentos decrescentes
rendimentos crescentes da escala
teoria malrhusiana da população
produção total versus produção extra
fatores de produção
distribuição por grupos de idade.
A POPULAÇÃO HftASIUllfcA 61

APENDICE: A POPULAÇAO BRASILEIRA

JAMfS XnC&O M SOUSA

O cresdmento da população brcsiloi- talidade, uno vez que a taxa de natali­


ra, considerado um dot maiores do mun­ dade vem caindo continuamente, desde
do, te deve, em sua grande parte, a uma 1872 até o presente, e o infktênoo da
redução considerável nas taxas de mor­ imigração quase se tomou nulo.

TABILA I

POPULAÇÃO NAS DATAS DOS CENSOS

Tan de Ta» de Taa 4*


Ano* 1 000 bib fraarianta IfortalMedf
por 1 000 bob. porlOOOtab.

1872 99J1
I&J J0J 46J
1850 14334
IU 27.8 IM
1900 17438
18.6 26.4 4&0
1930 30 6M
18.7 2SJ 1U
1940 41236
3A8 1».I «M
1950 91944
30.1 ••e e•e
1940 70119

TABILA 2 dação Ge túlio Vargas prevêem que


nos próximos 10 anos o crescimento da
DISCRIMINAÇÃO DOS PATÔRIS DO população se fixa em tômo de 3,06%
AUMENTO DA POPULAÇÃO
ao ano.
Porcentagens É interessante ressaltar a relativa es­
tabilidade verificada na composição
Pelo excedente Pelo excedente por idade e par sexo da população
Período do ImicracOc* d co noacimontoo brasileira. Até 1900, a aceleração do
■/emlxraçao tòbtt óbitoe
crescimento da população foi acompa­
1872.1890 13.5 86.5
nhada por um achatamento da pirâ­
1891-1900 23.4 76.6 mide de idades. O ritmo quase cons­
1901-1920 10.1 89.0
1920-1940 6.3 93.7 tante de crescimento da população
1940*1950 1.0 99.0 entre 1901 e 1940 explica a relativo
estabilidade da pirâmide populacio­
nal nesse período. A oceleração consi­
Embora a taxa de crescimento tenha derável dêsse ritmo a partir de 1940
se acelerado consideràvelmonte a par­ não provocou, como era de se esperor,
tir de 1920, 6 de se esperar que esta variações de monta na pirâmide de
aceleração tenda ràpidaraente para idades. Nota-se, ainda, que o inído da
uma saturação, uma vez que a redução oceleroção coincide com o advento do
da taxa de mortalidade tende a ser uso dos antíbiátfcos e dos combates sis­
compensada pela redução da taxa de temáticos às endemics, princJpoâmertt*
natalidade. Estudos realizados pelo malária, de modo que a redução do
Instituto Brasileiro de Economia da Fun­ taxa de mortofcdade se fêz senlfir neo
62 INI KO III \ VO À ANALISE ECONÔMICA

mais acentuada mente nas primeiras de parte, de ser o contingente imigra­


idades, como é de se esperar, mas dis­ tório constituído principalmente de ho­
tribuída igualmente por todos os grupos mens. Naquele ono, com a redução
etários. continuada das imigrações, deu-se O
Quanto à composição por sexo, até equilíbrio entre os dois sexos e, a partir
1940 havia ligeiro predomino da po­ daquela data, aparece pequeno pre­
pulação masculina, decorrente, em gran­ domínio do sexo feminino.

TABELA 3

COMPOSIÇÃO DA POPULAÇÃO SEGUNDO ORUPOS Dl IDADE E SIXO,

NAS DATAS DO CENSO

Percentagens

Diarriminaçfto 1872 1890 1900 1920 1940 1950 I960

Grufios de 14*44

0-10 anoe 24,6 29.3 31.5 30.0 29.6 29.7 30.6


10-20 * • 21.1 21.8 71.1 26.6 2J.7 223 22.4
20-40 ’• 33.0 30.4 29.3 29.3 29.7 28.4
26.8
40 60 '• 14.3 13.8 12.3 12.6 13.3 13.5 13.9
60 anoe e mais 70 4.7 J.2 4.0 4.1 4.3 4.7

Sexo

Masculino St 6 SO.S 51.0 50.4 50.0 4 9.9


Feminino 48.4 49.S 4*.0 50.0 50.2 50.1

O rápido desenvolvimento das co­ 1940 — 43,04%


munidades urbanas vem provocando um 1950 — 48,35%
deslocamento de população do meio 1960 — 60,63%
rural para o meio urbano. Assim 6 que,
embora as taxas de natalidade sejam TABilA 4
maiores no meio rural, a população
pitEsams, de io anos e mais.
pessoas
rural cresceu à taxa constante de 16% SEGUNDO RAMOS DE ATIVIDADE
entre 1940 e I960, enquanto que o
Percentagens
crescimento da população urbana, de
39% entre 1940 e 1950, passou para
54% entre 1950 e 1960. Ramos de atividade 1940 1950 I960
O crescimento da fôrça do trabalho,
em têrmos de populoção ativa, não de­ Agricultura. Pescaria e Silvi­
senvolveu no mesma proporção que a cultura .................................. 32.6 27.0 24.0
Indústrias Extra ti vas............... tj U 1.2
população como um todo, o que indica Indústria de Transformação. 3.9 4.4 u
Indústria de Construç3o. 0.9 1.6 1.6
um período maior de maturidade decor­ Comércio de Mercadorias. 2A 2.6 S. I
rente do extensão do período escolar. Transportes. ComunicagOes e
Armazena gras. ..................... 1.7 1.9 2.2
Êste fato ó pôs to em relevo pela ele­ Prestação de Serviços................. 5.0 4.6 Sm
Outras Atividades...... 2.9 3.4 4.5
vação da taxa de alfabetização de CondiçOes inativas ................... 49.1 S3.2 UJ
pessoal maiores de 10 anos:
S5i»2?oáí

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COMPOSIÇÃO ANTECIPADA DAS POPULAÇÕES URBANA E RURAL, POR SEXO E GRUPOS DE IDADE

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63
BRASIL

COMPOSIÇÃO ANTECIPADA DAS POPULAÇÕES URBANA E RURAL. POR SEXO E GRUPOS DE IDADE •

M70

POPIXAÇAO URBANA POPULAÇÃO RURAL BRASIL


TOTAL

Homem Mulheres Homens Mulher et


Homens Mulheres

3 90) 844 3 723 786 8 80S 268 8 428 352 17 236 620
0 a 4 aoos........................ | 4 898 424 4 704 566 7 017 893
3 124 757 2 9KU 625 7 262 605 14 230 503
5 a 9 anos........................ 4 137 848 4 037 273
2 645 922 2 491 182 5 263 101 5 112 623 10 575 729
10 a 14 ano*...................... 2 617 179 2 621 446
2 663 825 2 MM) 230 4 9/3 /99 4 839 193 9 8)2 997
15 a 19 anos...................... 2 309 974 2 338 968
2 158 331 2 034 366 4 095 161 115 629 ■ 210 791
20 a 24 ano*...................... 1 936 832 2 081 202
1 678 950 1 640 422 3 242 06K 506 996 749 064
25 a 29 anos.................... 1 563 118 1 866 574
1 327 012 1 10« 699 2 76/ 298 OU 826 1779 124
30 a 34 anos.................. 1 440 286 1 208 127
1 059 817 1 015 739 2 342 909 521 471 864 380
35 a 39 anos...................... 1 283 092 1 485 732 110 641 1113 557
877 777 828 179 2 022 909
40 a 44 anos...................... 1 195 132 1 282 169 I 880 109 644 323
753 535 7 48 353 1 V64 214
45 a 49 anos.................. 1 010 679 1 131 756 878 229
619 310 371 618 1 444 V26 I 433 30)
50 a 54 anos.................... 825 616 801 603 1 167 20!» 2 335 4/0
490 137 440 938 1 168 261
55 a 59 ano*...................... 678 124 726 271 889 371 1 763 648
557 151 352 052 332 220 874 277
60 a 64 ano*.................. 522 225 590 088 I 168 692
399 108 221 816 190 980 578 601
65 a 69 anoa.................... 356 788 454 72) 885 841
307 640 165 280 147 077 431 118
70 a 74 ano*.................. 265 829 197 484 379 288
60 356 53 723 181 804
75 a 79 ano*.................. 121 448 143 761 186 646
26 693 23 884 83 630 103 016
to a 84 ano*................... 56 937 77 132 75 728
5 039 5 150 31 030 44 693
85 • mais........................... 25 991 39 548

47 385 984 47 424 646 94 810 630


TOTAL....................... 25 245 522 26 370 455 22 140 462 21 054 191

PONTE: INSTITUTO BRASILEIRO DE ECONOMIA DA FUNDAÇÃO GETÚLIO VARGAS. ___ .


.Vete. Earn projeto foi elaborada utílirando-se o método das componentes en que oi elemento* básicos sao: grupos etanos qüinqüenais pm tmgM oa*e*
secundo o Censo dc 1960. a taxa de fecundidadc feminina em grapo» dc idade apccínca dc 15 a50 anoa e a Un ds sobrevivência cmpna de idade especiiica

Asuín^de °*obrerívéneia que correspondem a una vida média ao nascei dc 49.2 anos. para o homem, e 52.5 anos. para a mulher, estlo condicionadas a um crei-

UraewítccnteC‘funclonou com» fiia^dc compicido dapopaUdo rora L representando a migração d« meio rural paia o nrtono. o que explica, entre outro*
fatóres demotráíicos, a laia de crescimento anual dc 1.40% para s domínio rural.
• Projecto ainda sujeita a revisto.

BRASIL

COMPOSIÇÃO ANTECIPADA DAS POPULAÇÕES URBANA E RURAL, POR SEXO E GRUPOS DE IDADE •
1975

POPULAÇÃO URBANA POPULAÇÃO RURAL BRASIL


GRUPOS DE IDADE TOTAL
Homens Mulheres Homem Mulheres lloi Mulheres

745 405 5 4 292 902 4 088 617 10 038 307


4 anos.. . 9 639 753
0 a
5 a 9 anos . ■. R7Q 045 4
4 177 164
3 440
2 893
364
532
3 281 674
2 752 308
8 319 400 8 097 118
19
IO
678 060
410 527
10 * 14 anos . 248 514 142 046 6 929 472 14 071 518
2 741 571 2 455 996 2 302 037
13 a 19 anos— 716 053 172 049 5 043 608 10 215 657
2 470 114 2 436 148 2 276 655 844 978
408 830 4 746 769
?(>
25
24 aaos. .
20 anos 016 004 2 192 267 I 951
1 507
390
290
ll829 113 967 394 4 021 380
9
7
591 747
988 774
1 958 845 1 402 580 136 052
30 a 34 ano*< • 628 762 I 179 3 421 423 557 477
779 777 183 1 133 440 668 782
33 a 39 anos 489 599 1 2 933 217 601 999
1 926428 900 175 244 507
40 a 44 mios 318 079 2 448 348 692 855
0
01 43 49 anoa 212 977 I 749
624
446
264
718
636
754
635
962 423 2 036 773 999 19S
015 396 1 157 553 039 OOO I 794 188
50 a 54 anos 492588 471 699 433 848
814 348 872 309 306 936 I 3*4 003
55 a 39 anos 368443 346 209 650 944
64) a 64 anoa . 645 374 716 418 013 817 1 062 627
243737 241 152
■ 076 444
63 a 60 anos— 468 012 528 421 711 749 769 373 481 322
134968 123 750
H 426 258
¥U a 14 anos 291 290 346 243 46« 002 895 260
237 330 82886 78 248 273 070
75 • 79 aaos . 190 184 315 578 388 648
10 a M aaos 69 102 90 490 12 691 21 5 23 91 793 112 013 203 806
ts • mais 25 881 29 470 5 205 5 617 31 036 35 087 66 173

23 807 461 22 698 195 54 990 316


total 31 112 855 32 521 746 55 119 941 110 210 257

POXTr-t 1XSTITITO BRASILEIRO DE ECONOMIA DA FUNDAÇÃO GETÚLIO VARGAS.


SM mteto foi elaborada utllüando-se o método das componentes PMjSP* ■•o «nipo» etário* qQinqOcnais para anboa o» anoa
gàjmd© o C m o d c 1940. a taxa dc fecuadidadc feminina em grapoa de laaoe (SUJIKs ac 15 a 50 anoa e a Casa dc sobrevivência cm grupo* dc IdadC eapsctiiCB

A» «ama 4* SõtKrivtacia que correspondem a una vida média ao nascer de 49.2 anoa. para o honera. c 52,5 anos. para a mulher, estlo condicionada* a um «res-
BSi JPlPIbdoMú de 3.06% ao ano. ,_..._
JB 9—M—Ia fundoBou cnw» fator do compressão da_populac&o nira. repreteniaaao a migração do meio rural para o nr ba ao. o qoe explica, entre o«uo
• • «•“ dc enadmemo anual dc l.40<para o domínio rural.
BjK* •*«* sulalta a isvlato.
O 0 MECANISMO DO PREÇO DE UM SISTEMA
Ú CAPITALISTA DE INICIATIVA "MISTA"

Todo indivíduo pretende aplicar seu capital de modo que


o seu produto venha a ser do maior valor possivel. De modo
geral, êlc não tem intençõts de promover o interfile público
nem sabe o quanto o está promovendo. Visa apenas À sua
própria segurança, apenas ao seu próprio lucro, e nisso tem
a guiá-lo mão invisível que promove um objetivo que não
estava nos seus planos. Ao procurar o seu próprio interisse,
êle freqüentemente promove o da sociedade, e isso com eficiência
maior do que seria o (aso se a intenção de fazê-lo fósse verdadeira.

Adam Smith, Wealth of Nations (1776).

• UM SISTEMA DE INICIATIVAS MISTO

Dedicaremos a maior parte de nossa atenção aos aspectos especiais


da vida econômica encontrada nas nações industriais do século XX (com
exceção do sistema soviético). Na maioria désses países houve, nos últimos
séculos, uma tendência para um cada vez menor contrôle governamental
da atividade econômica; gradativamente, as condições feudais e pré-indus-
triais foram substituídas pela maior Ênfase naquilo que em térmos gerais
é chamado de “livre empresa privada", ou "capitalismo competitivo”.
Muito antes dessa tendência ter-se aproximado de uma condição de
pleno laissez-jaire (isto é, de completa ausência da interferência gover­
namental nos negócios), a maré começou a voltar-se para o outro lado.
A partir dos fins do século XIX, tem havido, em quase todos os países
sob exame, um constante aumento das funções econômicas do govfrmo.
Teremos que deixar aos historiadores a tarefa de delineamento dos impor­
tantes fatòres que se encontram por trás dêsse significativo e difundido
desenvolvimento. No momento, basta que digamos que nos encontramos
numa "economia mista", na qual as instituições tanto públicas como
privadas exercem o contrôle econômico.
A seção A déste capítulo nos mostra de que maneira a nossa economia
mista ataca os três problemas da organização econômica que devem ser

66
O MECANISMO DO PKEÇO 67

enfrentados por qualquer sociedade. A seção B descreve algumas carac­


terísticas fundamentais da atual ordem econômica.

A COMO UM SISTEMA DE LIVRE EMPRESA RESOLVE


OS PROBLEMAS ECONÔMICOS BÁSICOS

Num sistema de livre emprésa privada, nenhum indivíduo ou orga­


nização se encontra conscientemente preocupado com o trio de problemas
econômicos apresentados no capítulo 2, ou seja, O Quê, Como e Para Quem,
o que é realmente assombroso. Parafraseando um famoso exemplo econô­
mico, tomemos a cidade de Nova Iorque. Sem um movimento contínuo
de mercadorias, para dentro e para fora da cidade, esta chegaria à beira
da inanição dentro de uma semana. Essa situação envolve uma variedade
dos tipos e das quantidades certas de gêneros alimentícios. Tendo como
ponto de partida os municípios circunvizinhos, 50 estados e pontos lon­
gínquos do mundo, mercadorias têm viajado dias e meses com Nova Iorque
como destino final.
Como é que quase 10 milhões de pessoas conseguem dormir bem à
noite, sem viver com o terror mortal de um colapso dos esmerados pro­
cessos econômicos dos quais depende a existência da cidade? Porque
tudo isso é realizado sem coerção ou direção centralizada dc qualquer
organismo consciente!
Todos pcrccbcm o quanto o govêmo realiza para controlar a atividade
econômica: legislação tarifária, leis regulamentando o uso de alimentos
de qualidade, regulamentação dos serviços públicos e das estradas de
ferro, regulamentação do salário mínimo, leis fixando o tratamento justo
da mão-de-obra, seguro social, preços-teto e preços mínimos, obras pú­
blicas, defesa nacional, tributação nacional e municipal, proteção policial
e correção judicial, leis estabelecendo o zoneamento, serviços municipais
de água e gás, e assim por diante. O que passa despercebido é o ponto
até o qual a vida econômica continua sem a intervençíio direta do
govêmo. Centenas de milhares de mercadorias são produzidas por milhões
de pessoas, mais ou menos por sua livre iniciativa e sem direção central
ou plano diretor.

• ORDEM ECONÔMICA, NÃO O CAOS

Só êsse funcionamento já constitui prova convincente dc que um


sistema competitivo de mercados e preços — ou qualquer outra coisa que
possa ser, por mais imperfeito que seja o seu funcionamento — náo
é um sistema de caos e de anarquia. Nêle existe uma certa ordem e regu­
laridade. O sistema funciona.
68 INlMDCÇfo À K H A U M rCONOMICA

Um tiitffna competitivo é um esmerado mecanismo |>ara a cooidenação


incon*ck'tite através de um sistema de preço* e mercados, um dispositivo
de comunicação visando à combinação do conhecimento e das ações de
milhòc* de indivíduos diversos. Sem contar com uma inteligência central,
resolve uin dos mais complexos problemas que se possa imaginar envoi-
*ci«do milhares dc variáveis c relações desconhecidas. Ninguém o projetou.
Cie simplesmente evoluiu e. como a natureza humana, está sofrendo modi­
ficações. mas pelo menos passa pelo primeiro teste a que se deve sub­
meter qualquer organização social: tem condições para sobreviver.
L m exemplo dramático da importância de um sistema de formação de
pieços é constituído pela Alemanha Ocidental no pós-guerra. No |>eríodo
19111-19-17 a produção c o consumo haviam atingido um nível exttema-
mente baixo, queda que não podia ser atribuída nem aos danos causados
pelos bombardeios durante a guerra, nem aos pagamentos de indenizações
no pós-gueira. Era evidente que a culpa cabia à paralisia do mecanismo
de preços. O dinheiro não tinha valor algum; fábricas cerravam as portas
por falta de matérias-primas; trens não podiam andar por falta de carvão:
este não podia ser extraído porque os mineiros passas*am fome: mineiros
passasam fome porque os camponeses não vendiam gêneros alimentícios
em troca de dinheiro e não havia produtos industriais com que se pudesse
pagá-los. Os preços eram fixados legalmente, mas pouco se podia comprar
a essas cotações. Havia um mercado negro caracterizado pelo escambo
ou por preços fantàsticamcntc altos. Então, em 1948, deu-se um "milagre".
Uma refoima monetária radical fêi com que o mecanismo de preços
voltasse a funcionar e, quase que no mesmo instante, a produção e o
consumo tiveram ascensão vertical. Mais uma vez as questões relativas a
O Quê, Como c Para Quem estavam sendo resolvidas pelos mercados c
pelos preços.
O que nos cabe salientm é que ésses chamados milagres estão aconte­
cendo à nossa roda o tempo todo. Basta que olhemos à nossa volta e
prestemos atenção ao funcionamento diário do mercado. Um revolucionário
disposto a destruir o sistema capitalista não podia pedir nada melhor do
que uma grande inflação ou deflação que paralisasse o mecanismo de
preços.1

• A MÃO INVISÍVEL E A "CONCORRÊNCIA PERFEITA"

Os estudantes de Economia devem evitar o pensamento errôneo de


que um mecanismo de preços funciona de maneira caótica sc não tiver
alguém a controlá-lo. Aprendida esta lição, não devem êles chegar ao

s Na lUxmda de I960, ocncorn ili URSS c «I» paUe* ntclitr* r%tio rcdescobrindo algumas
da* viriudet èe um tittcma de foim«lo de pregos. A iraiuçSo i a tnai» sincera forma de llsooja.
O M»CANUUO DO PftttjO 6$

outro extremo c tornarem-se enamorados cl;i Meza <fc um mcclolfl V


lonniição cie preços, considerando-o como a própria jxrr feição, como a
essência da harmonia providencial e situada fora do alcance de mias
humanas.
Adam Smith, cujo livro Wealth o/ Nations (1776) comtiuii o embrião
da moderna Economia ou Economia Política, \ibrou ao reconhecer «imj
ordem no sistema econômico c apregoava o princípio da "Mão Invisível":
cada indivíduo, ao procurar apenas a satisfaço «Ic seus inter esses egoístas,
era levado, como por mão invisível, a satisfazer os interesses gerais, de
modo que qualquer interferência do govêmo na livre concorrência poderia
ser classificada, com quase tôda certe/a, de prejudicial. Embora Smith
reconhecesse algumas das limitações realist iras dessa doutrina, só mais
tarde os economistas descobriram esta verdade: ;is alegadas virtudes da
livre empresa só se realizam em sua plenitude quando presences todos os
elementos de contrôle mútuo que formam a "concorrência jjerfeita".
A concorrência perfeita é deíinida pelo economista como o termo
técnico para indicar o caso cm que nenhum fazendeiro, homem de negó­
cios ou trabalhador exerce qualquer influência no preço do mercado,
Por outro lado, quando o seu cereal, sua mercadoria ou seu trabalho é
de vulto bastante para produzir efeitos depressivos ou elevatórios lôbrt
os preços do mercado, estabeleceu-se ccno giau de imperfeição monopolista
e as virtudes da Mão Invisível deverão ser descontadas nessa proporção.
Na verdade, não tem cabimento alguns dos elogios feilos a concorrência
perfeita. Como já dissemos, vivemos num sistema misto, do qual parti*
cipam o govêrno e a iniciativa privada, E como veremos mais tarde. tam­
bém se trata de um sistema misto de monopólio e concorrência. Um cínico
poderia dizer da concorrência perfeita o que Bernard Shaw disse da
Cristandadc: "O único defeito é que nunca foi experimentada”.
Historiadores discutem sõbre se já houve, ou não, uma época de ouro
da livre concorrência. E é claro que atualmente a concorrência não é
perfeita no sentido que lhe dão os economista*. Nem ao menos sabemos
devido à natureza fundamental da produção em larga escala e da tecno­
logia, cios gostos dos consumidores e da organização comercial, sc a con­
corrência está ganhando menor ou maior intensidade. As estatísticas
sugerem pelo menos um ligeiro enfraquecimento da concentração mono­
polista do poder.
De qualquer modo, a sociedade não precisa aceitar como inevitável
qualquer tendência para as grandes empresas, fusões, trustes e cartéis,
como as que começaram a aumentar na década de 1890. O desafio consiste
em elaborar leis e costumes que ajudem a melhorar o funcionamento de
nosso quase perfeito sistema competitivo. Os casos extremos - Uissez fãite
c ditadura totalitária da produção - dramatíaun os primlpn* ttonfimian.
70 INTROOIÇÂO À ANÁLISE ECONÔMICA

Entretanto, .t relevante escolha da política a ser seguida hoje em dia


nüo é uma dei isão entre esses dois extremos, mas o grau em que o governo
deverá agii menos ou mais, no sentido de modificar o exercício dc deter­
minadas atividades econômicas particulares.

• O SISTEMA DE PREÇOS

Dc que maneira funciona o inconsciente mecanismo automático de


preços? É fácil descrever a estrutura de um sistema competitivo de lucros
e perdas.
Tudo tem um preço — cada mctcadoiia e cada serviço. Até mesmo
os diferentes tipos de trabalho humano têm preços, que geralmente são
chamados de “taxas de salários". Todo mundo recebe dinheiro em troca
do que vende e usa êsse dinheiro para comprar o que quer.
Se houver a procura de maior quantidade de qualquer bem — sapatos,
por exemplo — haverá uma onda dc pedidos e isso fará com que o preço
se eleve e haja produção de maior quantidade.
Do mesmo modo, se um produto como o chá se toma disponível cm
quantidade maior do que as pessoas desejam comprar ao último preço
do mercado, o seu preço será redu/ido pela concorrência. Ao preço mais
baixo, as pessoas irão beber mais chá e os produtores já não irão produzir
tanto. Assim, será restaurado o equilíbrio da oferta e da procura (como
iião demonstrar o próximo capítulo e a terceira parte).
O que é verdadeiro para os mercados dc bens de consumo também o
é para os mercados de fatôres dc produção, como o trabalho, a terra C
o capital. Sc houver procura de soldadores em vez dc vidreiros, serão
mais favoráveis as oportunidades dc cmprôgo no campo da solda. O preço
dos soldadores, o seu salário-hora, tenderá a elevar-se, ao passo que o dos
vidreiros terá a tendência a baixar. Com os demais fatôres mantendo-se
iguais, isso irá provocar um deslocamento para a ocupação desejada. De
forma idêntica, um hectare dc terra passará a ser usado no cultivo da
cana-de-açúcar se os produtores dc açúcar oferecerem o máximo pela sua
utilização. Do mesmo modo, a produção de máquinas operatrizes será
determinada pela oferta e pela procura.
fcm outras palavras, temos um vasto sistema de tentativa e êrro, de
aproximação sucessiva a um sistema de equilíbrio de preços t produção.
Mais tarde, veremos que a combinação da oferta e da procura e dos
preços c dos custos ajuda a resolver simultâneamente os nossos três pro*
blemas. Eis o resumo:
1. O que será produzido é determinado pelos votos dos consumidores
_ n 3o nas urnas, de dois em dois anos, mas todos os dias, em suas decisões
de comprar êste e não aquêle produto. Naturalmente, o dinheiro que
O MECANISMO DO FUÇO 71

deixam nas caixas registradoras dos comerciantes acaba projxm ionando


as fôlhas de pagamento, as rendas e os dividendos que 01 consumidores
recebem tôdas as semanas. E assim fecha-se o círculo.
2. Como os bens são produzidos, quem determina é a concorrência de
diferentes produtores. O método mais barato em dado momento, devido
tanto à eficiência física como à eficiência de custo, deslocará um método
mais dispendioso.
O único meio de os produtores enfrentarem a concorrência de preços
e maximizarem os lucros é manter os custos em nível mínimo, e os métodos
mais eficientes. Por exemplo, a borracha sintética será feita partindo do
petróleo e não do álcool, se o preço do primeiro estiver cia certa relato
com o do segundo, ou a energia elétrica será gerada pelo vapor e não
pela energia atômica, se o preço do carvão estiver abaixo de determinado
nfvel critico. A grande fazenda que utiliza tratores em seus trabalhos
irá deslocar a pequena, se o seu método de agir resultar em custos de
produção mais baixos.

Exemplo internacional: Bob Jones cultiva sua fazenda de modo extensivo, com gzaade
quantidade de terra norte-americana em relaçSo a cada hora de trabalho: Pierre Reny
cultiva mus terras de forma intmth*. uando grande quantidade de uio-de-obra para
cada hectare de terra francesa. De quem parte a ordem dessas sensíveis dccirics sfibre
Como produ/ir, que se adaptam k perfeito ao fato de que a França tem uma popu-
lacSo mail densa do que os Estados Unidos? O Congresso? A Clman de Deputados?
As Nações Unidas? Claro que nSo. O dispositivo de sinalúaçSo da sociedade i o
sistema de preços. À semelhança de um amo que dá cenouras e estocadas para levar
seu Jumento a avançar, o sistema de preços distribui lucios e prejuízos para obter uma
declsflo quanto a O Quê, Como e Paro Quem.

3. A determinação de Para Quem as mercadorias serão produzidas


cabe à oferta e à procura nos mercados de serviços produtivos, ou seja,
pelos salários, pelas rendas da terra, pelas taxas de juros e pelos lucros,
que formam, todos êles, a renda individual, relativa a todos os outros
indivíduos e ao todo. (Naturalmente, o caráter da distribuição de renda
que disso resulta depende, cm grande parte, da distribuição inicial da
propriedade e das habilidades adquiridas ou hereditárias.)
Observe o seguinte; os votos do consumidor não determinam, por si
sós, Quais os artigos a serem produzidos. A procura tem que encontrar
uma oferta de produtos. Por isso, as decisões dos comerciantes quanto
aos custos e à oferta, juntamente com a procura por parte do consumidor,
vu la in para determinar O Quê. Da mesma forma que um corretor pode
ajudar a conseguir uma luta entre o comprador e o vendedor, o leiloeiro
no mercado de produtos age como intermediário, harmonizando os votos
do consumidor e as ofertas das mercadorias que são lançadas no mercado.
(O próximo capitulo explica de que maneira isso se dá.) Aquêle que
72 INTUODI ÇÃO A ANALISE ECONÔMICA
and» cm busca do lucro é o «gente da sociedade para determinar o
imo procurando custos mínimos para a produção dc cada mcrcadoria
e' sendo punido pela concorrência implacável se não conseguir utilizar os
melhores processos.

# RETRATO DE PREÇOS E MERCADOS

Pata ampliar essa explicação altamente simplificada, consultemos a


1,^. |. Ela nos apresenta uma visão panorâmica da maneira pela qual
a formação <!<* preços no mercado harmoniza a procura e a oferta do
público com a procura e a oferta das emprêsas. Observe que os mercados
vivem tie elemento de ligação entre o público c as emprêsas. Vinte
minutos de reflexão sôbrc esse diagrama poderão valer por horas dc medi-
13(,:1 o desconexa a respeito da formação econômica dos preços.
Um sistema competitivo é impessoal, mas não inteiramente. As famílias
consumidoras enfrentam as emprêsas comerciais em duas frentes, apenas
com os preços no meio. Uma dessas frentes é amplamente dispersa, ou
seja, o merendo do varejo, no qual os consumidores compram milhares de
pequenos itens em grande número de diferentes estabelecimentos vare­
jista», como armazéns, drogarias e lojas de departamentos, cinemas, postos
dc gasolina, emprêsas dc energia elétrica, correios, senhorio», companhias
de estrada dc ferro e de seguros.
Na outra frente, o mercado de trabalho e de outros serviços produtivos,
as relações nem sempre são pacíficas. Para o homem que sustenta a famí­
lia, seu salário não constitui simplesmente outro preço. Representa a
diferença entre luxo e conforto, entre conforto e privações. O trabalhador
poderá sentir-se inferior à grande emprésa no que se refere ao poder de
barganha, e poderá voltar-se para a negociação coletiva por intermédio
de sindicatos. Ao fazer isso, haverá vêzes em que êle poderá estar ajudando
a restaurar a concorrência, ao passo que em outras ocasiões poderá estar
fazendo com que as condições se afastem ainda mais da concorrência
perfeita.

• ASPECTOS ÍTIC0S DA DISTRIBUIÇÃO DA RENDA

O retrato acima, da concorrência tendendo para a eficiência ideal, a


colocar-se sôbre a fronteira dc possibilidade de produção e não dentro
dela, é de uma simplificação extrema. Entretanto, mesmo que o sistema
funcionasse com a perfeição descrita acima — o que todos sabem não
acontecer — haveria muitos que não iriam considerá-lo ideal. Em primeiro
lugar, as mercadorias vão para onde há maior número de votos ou de
dólares. O cachorro pertencente a um homem rico pode receber o leite
de que uma criança pobre necessita para evitar o raquitismo. Por quê?
O MECANISMO DO PMÇO 73

O sistema do preço competitivo usa os mercados da oferta e da procura paro


resolver os problemas econômicos básicos — O QUt, COMO e PAftA OUiMt

PROCURA N oferta

BAPAT06 "K PREÇOS Y" BAPATOO


NO MERCADO | y
HABITAÇÕES i DE BENS I HABITAÇÕES 1

CM A
■i

QUAIS
VOTOS DOS CUSTO DA
CON8UMIDORES PBODUÇ40*.

POBUCO COMO EMPRESAS

PROPRIEDADE DOS FOLHAS DE PAGA­


PATORES MENTO DO PESSOAL.
(OU IN SUMOS)
PARA QUEM
» I
I I
II v f PREC09 NO
TRABALHO

II f MERCADO DE
FATORES TERRA
| d"!_______________v
| (8ALAZU08. JUROS
JraNSDI_PROI)ÜÇAO_^ A1.UOC7C23. BENS DE PRODUÇÃO

^ WTOno
> /
OFERTA PROCURA

Fig. 1. Tâdas as relações de procura estão indicadas em linhos cheias; lôdas os relações de oferta,
em linhas Interrompidas. Veja como os votos monetários de procura de consumidor Interagem nos
mercados de produtos na parte superior com as decisões de oferta relativas ao custo dfl produfflo,
ajvdundo, assim, a determinar O QUE 6 produzido. E veia como a procura, por parte das emprêsas
de fatôres de produçõo vai oo encontro do oferta, por parte do pÒblico, de mfo-de-obra e outros
fatôres nos mercados de fatôres, para ajudar a determinar salários, aluguéis e juros — ou seja PARA
QUEM os bens são produzidos. A concorrência comercial para comprar fatôres de produção e vender
produtos mais barato determino COMO os bens devem ser produzidos. (Atençõoi Tôdos cs parte» do
diagrama estão interligados. O QUÊ depende da parte Inferior, assim como PARA QUEM depende
do superior — os salários dos carpinteiros dependem da procura de casos, e a procura de lato» d«-
pende dos direitos que têm que ser pagos pelas terras que produzem petróleo.)

Porque a oferta c a procura estão com defeito cm seu funcionamento?


Nilo. Porque os mercados de leilão estHo fa/endo aquilo que dêles se
espera - colocando produtos nas mãos daqueles que podem pagar o
máximo, daqueles que contam com o máximo de votos cm forma dc
dinheiro.
74 INTRODUÇÃO À ANÁLISE ECONÔMICA

Suponhamos que a invenção das máquinas automáticas fizesse baixar


o preço competitivo da mão-de-obra reduzindo, assim, os rendimentos dos
elementos pobres. Será que todos os observadores éticos iriam considerar
essa queda como necessariamente certa ou ideal? O fato de um homem ter
herdado 800 quilômetros quadrados de terras para pasto, pelas quais as
companhias de petróleo oferecem um milhão de dólares por ano, justifica
necessariamente uma renda assim tão elevada?
questões estão sendo sempre discutidas no Congresso. Se as rendas
devem ser totalmente determinadas por uma luta competitiva — a sobre*
vivência dos sobreviventes — é uma questão de ordem ética que ultrapassa
a mecânica da Economia.

Uma parábola sobre o papel limitativo de uma formação de preços eficiente. Em


Flandres havia dois reinos. Era Zig, o bom Rei Jcan requisitava os gêneros alimentícios
levados ;i cidade em época dc fome, pagando aos camponeses um preço juito (mas
generoso) c iacionando os suprimentos em proporções satisfatórias para todos. Como
a fome persistisse, os cidadãos moribundos abençoavam o Rei moribundo.
Em Zog, que ficava perto, em época de fartura, cada um dos doze comerciantes construiu
cm scgrêdo (c encheu dc cereais baratos) um armazém dc gêneros alimentícios. Quando
I veio a fome, venderam o produto pelo dôbro do preço comum, chegando até a despojar
|as pessoas dc seus relógios c dc suas jóias. Algumas (mas não tôtlus. em absoluto) das
jóias élcs as deram a camponeses inenos atingidos, para provocar a saída de maior
quantidade dc gêneros. E quando a noticia sc espalhou, de lugares que ficavam à
distância de Zig vieram camponeses trazendo alimentos. Quanto mais durasse o período
de fome. maior era o preço que os Zoguiias pagavam pelos gêneros, até que finalmente
o mercado limitou-os a uma dieta minima. Quando passou a crise, a cidade inteira
devia aos comerciantes, mas estava viva. e cada um dos comerciantes lamentava que a
concorrência por parte dc seus colegas havia impedido que êle aumentasse vinte vêies
a sua fortuna, cm vez de apenas quatro.

Não existe uma moral simples dessa história, mas ali encontramos uma
lição sôbre a mecânica dc um sistema de preços para (1) racionar as
ofertas de gêneros existentes e (2) fazer com que recursos se encaminhem
com eficiência para a produção dc bens pelos quais as pessoas que possuam
dinheiro, relógios e capacidade dc obter salários possam pagar.*

• IMPERFEIÇÕES DA CONCORRlHCIA

Como dissemos antes, constitui uma desvantagem do retrato do sistema


de preços acima descrito o fato de que. no mundo real, a concorrência
não se aproxima do ponto em que pode ser considerada "perfeita". As

* Ceol Wooomau-Switw. ca TA# Gieat Hunger: Ireland 1845-9 (H ami th Hamilton. Londres.
190). fax
um relato dos inacreditáveis detalhes da maneira pda qual um govêrno vitoriano do tipo
tmaex-fmre deixou que milhões de crianças, mulheres e homens irlandeses literalmente norresaem
de tome quando um fungo destruiu as safras de batata.
O MECANISMO DO rtKÇO 75

finnas não sabem em que época os gostos do consumidor iifio mudar e,


por isso, poderão ter superprodução cm determinado campo e subproduç
em uuiio. Quando chegar a hora em que elas estarão prontas a aprender
por experiência, é possível que a situação já se tenha alterado outra vcl
Além disso, num sistema competitivo existem muitos produtores que n3o
conhecem os métodos dos outros, e os custos não baixam a um ponto
mínimo. Na luta competitiva, há vêzes cm que é possível obter-se resul­
tados tanto pela restrição da divulgação dos conhecimentos, como pela
manutenção dc uma produção elevada.
Um desvio ainda mais sério da concorrência perfeita é proporcionado
pelos elementos monopolistas, que, como veremos mais tarde, podem mul­
tar cm formação errada de preços, incorreta e dispendiosa distribuição dc
recursos, e lucros dc monopólio. Estaremos sempre com a nossa atenção
sendo chamada para o rigor da definição que o economista di à “concor­
rência perfeita*'. A simples presença de uns poucos rivais não é suficiente
para que haja a concorrência perfeita. A definição econômica de "concor­
rente imperfeito” é a seguinte: qualquer pessoa que compra ou vende um
bem em quantidade suficiente para influir no preço désse bem. Até certo
ponto, isso abrange quase todos us homens dc negócio, com a possível
exceção dos milhões de fazendeiros que produzem individualmente uma
insignificante fração da safra total. A vida econômica é, tôda ela, uma
combinação de elementos competitivos e monopolistas. A moda atual é a
concorrência imperfeita (monopolista), não a perfeita. O que dissemos
é uma verdade, não uma condenação moral. É possível que tudo o que
possamos esperar é uma aproximação da concorrência perfeita.
Naturalmente, como veremos depois, um homem de negócios não pode
fixar seus preços agindo à sua vontade e, ainda assim, obter lucros. £
preciso que êlc leve em consideração os preços dos produtos que podem ser
utilizados como substitutos dos seus. Mesmo que êlc fabrique um carvão
com propriedades únicas e que tenha marca registrada, deverá ter presentes
cm seus cálculos os preços cobrados por outros tipos dc carvão, pelo óleo
e pelo gás, c pelo isolamento térmico das casas.
Comerciantes, fazendeiros e trabalhadores gostam e, ao mesmo tempo,
não gostam da concorrência. Todos nós a apreciamos quando ela nos
permite expandir nosso mercado, mas tachamo-la dc “lesiva", •’desleal" ou
"ruinosa" quando funciona contra os nossos interêsses. O trabalhador cuja
vida depende da maneira pela qual o mercado estabelece o preço jam
o seu trabalho poderá ser o primeiro a gritar quando a concorrência amea­
çar reduzir os salários. Grupos de fazendeiros, cientes do que pode a «*«-
corrência fazer com os preços dos produtos agrícolas, mb sempre pressio­
nando o Estado para que restrinja a produção e, com Sn eícve °* l,rcV*'
IS IKODl CÃO À ANÁLISE ECONÔMICA

Aimin' dos fatòres básico* icsponsáveis pela grandeza das empresas que
dia o monopólio, podem ser inerentes às economias de produção etn larga
escala, Isto é especialmente verdadeiro em um mundo dinâmico dc muia-
çóes tecnológicas. A concorrência entre inúmeros produtores não seria
eficiente em muitos setores e não poderia durar muito tempo. As marcas
registradas, as patentes e a propaganda são, com freqüência, icsponsávcis
poi outras imperfeições dc mercado. Por isso, seria humanamente impos-
sí\el tentar criar a concorrência perfeita por meio de uma lei. O problema
é toil segui r-sc uma “concorrência praticável”, de eficiência ra/oável.
Mais tarde, faremos um exame mais minucioso da oferta e da procura.
Depois disso, estaremos em condições de um julgamento mais criterioso
do funcionamento do sisterma dc preços. Um sistema de preços competitivo
c uma forma de organi/ar uma economia, mas não a única. Ainda assim,
é interessante notar que alguns socialistas pretendem continuar a utilizar
um mecanismo de preços como parte de sua nova socicdadc. Um sistema
dc preços não é perfeito, mas tampouco o são os seus succdAncos.

• O PAPEL ECONÔMICO DO GOVtRNO

Já foi dito que o nosso sistema econômico não c o dc uma economia


pura de preços, mas o de uma economia mista, na qual elementos de
contrôle governamental se misturam aos elementos dc mercado na orga­
nização da produção e do consumo. O papel econômico do govêmo é
tão importante, atualmente, que os capítulos 8 e 9 são a êle dedicados.
Poderemos fazer, aqui, um pequeno esbôço da sua iníluência. Os países
democráticos não estão satisfeitos com as respostas aos itens O Quê, Como
e Para Quem dadas por um sistema de mercado perfeitamente livre. Um
sistema dêsses poderia declarar que certas pessoas passam fome por falta
de renda e que outras recebem rendas inadequadas ou excessivas. Em
conseqüência, a coletividade, por intermédio do seu govêrno, intervém
com gastos que suplementem a renda real ou monetária dc alguns cidadãos.
Assim, o govêmo pode oferecer leitos de hospital para os seus cidadãos
ou, então, conceder aos mais necessitados pensões mensais cm época de
desemprego ou na velhicc. Padrões mínimos dc vida são objetivos muito
difundidos, hoje cm dia.
Além disso, o governo proporciona certos serviços públicos indispensáveis,
sem os quais não se poderia pensar cm vida em comunidade e que, pela
sua natureza, não jxxlcm ser deixados dc modo apropriado por conta de
emprêsas privadas. O govêmo nasceu quando o povo percebeu que “o
que é de todos não é dc ninguém". São exemplos evidentes a manutenção
O MECANISMO DO NU^D 77

da defesa nacional, da lei e da ordem internas, e a administração da justiç»


e dos contratos.*
Em geral, ao gastar o seu dinheiro, o governo se comporta exatamente
como qualquer outro gr.mdc gastador. Ao depositar um número suficiente
de votos em forma dc dólares cm determinadas direções, êle faz com que
os recursos para ali se dirijam. O sistema de preços funciona, então, era
grande parte, como se as necessidades fôssem particulares, e não públicas.
Na verdade, a maior parte dos gastos governamentais é paga com impos­
tos e taxas que foram recolhidos. É neste ponto que entra um importante
elemento dc cocrção. É fato que a coletividade, como um todo. impõe
sôbre si mesma a carga da uibtitação. Também é fato que cada cidadão
participa dos benefícios coletivos do govórno. Não há, porém, a mesma
conexão íntima entre benefícios c pagamentos dc im|>ostos que se dá
quando o indivíduo põe um níquel numa máquina automática que vende
goma dc mascar ou faz uma compra comum. Eu não preciso fumar cigarros
ou comprar meias dc nylon se não estiver com vontade, mas sou obrigado
a pagar meus impostos anuais, queira ou não queira.
Além do mais, há uma segunda forma importante de coerção no costume
universal de sancionar leis governamentais: é proibido ao vender fraudar
no péso, é proibido empregar crianças, é proibido incendiar casas, é proibido
lançar fumaça pela chaminé das fábricas, é proibido vender ou fumar ópio,
é proibido cobrar acima do preço-teto pelos gêneros alimentícios, e assim
por diante. Êste conjunto de regras forma a estrutura na qual funciona
a empresa privada e também modifica a direção désse funcionamento.
Juntamente com os gastos e a taxação do govêmo, os decretos governa­
mentais suplementam o sistema de preços na determinação do destino eco­
nômico da nação.
Seria infrutífero um debate sôbre qual a mais importante, se a iniciativa
pública ou a iniciativa privada, como infrutífero seria debater heredita­
riedade versus meio ambiente. Sem qualquer uma das duas. o nosso
mundo econômico seria inteiramente diferente.
Finalmente, como veremos na segunda parte, é função do govéroo
ajudar a estabilizar ciclos agudos e crônicos de desemprégo e de inflação
e a obter o progresso econômico.

• Eis um exemplo mais iccente de serviço governamental: os faróis de iu»r*»çSc. fHMj


e cargas, mas os faroleiros nlo podem dirigir-se aos comandantes para cobrar arm serviço». •
dii o compêndio mais atancado dc Economia. * temos aqui uma divergência entre vanupai pmtkwiÊr
e custo do dinheiro (do ponto de vista de um homen. com idade soGdenie para Matar sna I
explorando faróis} c a vantagem e o custo toeiêii xerdadeJros (medidos pdo
cargas que (oram sahos em comparação com (I) os cestos touis do farol e <f> <
resultam da permbsão para que mais um navio o!br para ■ In» do farol] ^
tlm sempre reconhecido o papel necessário éo govfrno em <**0>
economia externa entre vantagem particular e vaaugem *ocia!\” Talarem*
nnis Urde, nos capítulos 8. 22 e 36.
/8 INTRODUÇÃO À ANALISE ECONÔMICA

B CAPITAL, DIVISÃO DO TRABALHO E MOEDA

Fxistctn ainda três importantes aspectos da moderna sociedade econômica:


1. A moderna tecnologia industrial avançada tem por base a utilização
de imensas quantidades de capital: maquinaria aperfeiçoada, fábricas e
equipamentos para a produção em larga escala e depósitos e estoques de
produtos acabados e de matérias-primas. Nossa economia recebe o nome
de "capitalismo” porque êsse capital, ou “riqueza”, é essencialmente pro­
priedade privada de alguém — o capitalista.
2. O sistema econômico atual é caracterizado por um grau quase que
inacredi tàvelmen te aperfeiçoado de especialização e por uma complexa
divisão do trabalho.
3. O nosso é um sistema que se utiliza do dinheiro cm larga escala. 0
fluxo da moeda é o sangue do nosso sistema e também serve como medida
de vaiôres.

Tôdas essas características estão relacionadas entre si, uma com a


outra e tôdas com o mecanismo de preços descrito na seção A dêste capítulo.
Assim, veremos que, sem a grande facilidade de comércio e troca que
o dinheiro proporciona, seria impossível uma divisão aperfeiçoada do
trabalho. Dinheiro e capital se relacionam através das atividades credi-
tícias do sistema bancário e dos mercados de capita] organizados, nos quais,
pela venda, as ações podem ser transformadas cm dinheiro ou vice versa.
É claro que a relação entre o mecanismo de preços e a moeda é imediata
e evidente.

• CAPITAL E TEMPO

Ninguém tem dificuldade em ver que a produção de bens econômicos


poderá resultar da utilização de fatôres como o trabalho e a terra (incluídos
neste último têrmo os recursos naturais em geral). Êstes dois sao chamados,
com freqüência, de "fatôres primários de produção”, pela razão dc que
nem a terra, nem (em nossos dias) a mão-de-obra são consideradas resul-
tado de um processo econômico, mas existem em virtude dc fatôres físicos
c biológicos, c não econômicos.4

« c«tM» restrições serio evidentes. A terra pode srr conseguida. Ai vêos, pela drenagem ou pelo
aiérro. como foi o ca» dc grande porçSo da par* fronteir/ca do l*to de Chicago e da bala Back,
de Boston. 0* recursos naturais, como os minérios, sio depositados pela mturesa, mas poderá ser
ntrosirto muito esi0*0 econômico para localM-k», utílirálos e benefidi-los. Por too, possuem
éies algumas das propriedades do* bem de capital. Mesmo se abandonarmos, no mundo OddenUl,
uma teoria malthmiana da populaçlo. por meio da qual parece ser atribuído às poso» um
custo de produção que nlo difere do das miquinas, compreenderemos que o prooaso da ^ucaçlo
.niisre em investir nas pessoas. iornando-a». a»im, fatôre* d« produçSo mais produtivos. Quando
rrmm um formando em Medicina, estamos de certa maneira contemplando uma porçSo de capital
oo um fator de produçlo econômico que è. em parte, capital
O MECANISMO DO mrço 79

O capital, que é o térmo usado com freqüência para indicar os bens


de capital cm geral, é um tipo diferente dc fator dc produção. Um bem de
capital difere dos fatôres primários porque é um fator que também ê o
produto da economia.

9 \ O* bem dc capital representam, entfio, bens produúdos que podem ki utilizados


como fatArrs em estágios de produção mail avançados, ao pano que o trabalho
e a terra tSo fatôres primários dc produçSo n9o consideradoi utilmente como
sendo éles próprios produzidos pelo sistema econômico.

A quarta parte nos mostra que, assim como os salários e a renda são 00
preços dos fatôres primários, mão-de-obra c terra, os 4%, 6% ou 10%
de juros ao ano podem ser útilmente considerados como o preço que
remunera e raciona o escasso suprimento, da sociedade, dos vários bens de
capital e projetos dc investimento. Por ser uma taxa de juro* uma
percentagem por unidade de tempo (por ano, mós ou década), ela noa
chama a atenção para outra maneira de encarar o capital, maneira que
acentua a relação especial entre o capital e a passagem do tempo.
Examinemos novamente o importante papel econômico do capital. Se
os homens tivessem que trabalhar com as mãos em terra estéril, a produ­
tividade c o consumo seriam realmente muito baixos. Mas vamos supor
que, a pouco e pouco, nosso sistema econômico tenha conseguido reunir um
tremendo estoque de instrumentos de produção, fábricas e moradias, pro­
dutos em processamento, e terra drenada e fertilizada.
Os homens aprenderam muito cedo que os métodos de produção sim­
ples e diretos podem ser melhorados pelo emprêgo dc métodos indiretos
que consomem tempo. Nós, que estamos dentro do sistema econômico,
não temos consciência de como os processos produtivos se tomaram indi­
retos. Um observador externo ficaria surprêso com 0 fato de que quase
ninguém, no nosso sistema, parece estar produzindo produtos ar abados.
Vê-se quase todos executando um trabalho de natureza preparatória, com
o consumo final constituindo um objetivo futuro distante. O fazendeiro
passa seu tempo engordando porcos, o motorista de caminhão levando-os
ao mercado e o encaixotador levando-os mais adiante, para o último
estágio de consumo. O operário de usina prepara o ferro gusa, uma parte
do qual será transformada num martelo para construir uma casa; outro
pedaço irá tornar-se parte de um fomo de ferro gusa, que por sua \ci irá
preparar ferro gusa para ser usado no fabrico de outros martelos e mais
iornos para ferro gusa, e assim por diante.

• A NECESSIDADE DE ABRIR MA0 DO CONSUMO PftESCNTS

O fato de levar tempo para pôr as coisas em movimento e sim rom/J Us


t importante, pois explica o motivo pela qual a «odedwfc n*>
80 IN 1 ROM ÇÃO À AN VI IsF. ECONOM1CÀ

automatic.imeiue todos os processos diretos j>or pioccssos indiretos mais


pioüuiuuN. c todas os piocesx» indiretos por outros ainda mais indiretos.
A vantagem dc assim >r proceder c compensada pela desvantagem inicial
dc tci-se que abandonar bens de consumo presente, desviando-se recursos
de produção corrente pata aplicações que só darão resultado depois dc
I certo tempo.
Aquilo que as pessoas estiverem dis|>ostas a jxnipar. ou seja, a não
consumir no piesente e es|>eiar j*ara consumir no futuro, representa o total
de recursos que a sociedade pode dedicar a unia nova formação de capital. *
t se as |)essoas deixarem de preocupar-se coin o futuro, poderão em dado
momento tentar "despoupar”, isto é, gozar de certos prazeres no presente
â custa do futuro. Como? Desviando recursos da interminável tarefa dc
substituir e manter o capital para o trabalho de produ/ir uma quantidade
extra de bem para consumo presente. (Voltemos à fig, 6 do capítulo 2,
para revermos o processo dc abandonar o consumo corrente em favor da
formação dc capital que aumenta as possibilidades de produção futura.)
Podemos resumir da seguinte maneira o que foi dito: a atividade ecotuV
mira é orientada para o futuro. Da mesma forma, o consumo econômico
atual é, cm grande parte, conseqüência de esforços do passado. Os esfor­
ços produtivos correntes produzem, por assim dizer, para o futuro, a fim
dc compensarem o passado pelo consumo presente. E nas sociedades pro­
gressistas, uma certa fração do consumo corrente é sacrificada para uma
nova produção de formação líquida de capital, que irá aumentar a pro­
dução futura.

• CAPITAL E PROPRIEDADE PRIVADA

Os bens de capital físico são importantes em qualquer economia, porque


ajudam a aumentar a produtividade. Isso se dá tanto no comunismo
soviético como no nosso sistema, mas existe uma importante diferença.
De modo geral, no nosso sistema capitalista os instrumentos dc produção
estão era mãos dc particulares.
O que no nosso sistema representa a exceção — propriedade governa­
mental dos meios dc produção — constitui a regra num estado socializado,
onde a propriedade produtiva pertence a uma coletividade. Os rendi­
mentos dêsses bens reais dc capital cabem ao govêmo, e não diretamente
aos particulares. O governo decide, então, de que modo essa renda será
distribuída entie os indivíduos. O govêmo comunista também decide o
grau de rapidez com que os recursos serão aplicados na nova formação

1 Mal* ia rde írcmot ver que, âi vfvt, cm nmu moderna economia monetária, quanto mil* M
pmoa* tentara economizar, menor será a quantidade de bem de capital produzida: e qif. parado­
xalmente, quanto ma it ai peuoaa consomem, maior é o Incentivo aos homens de nefôcia parà que
conitruam notas lábricas e novos equipamentos.
O MECAMUMO DO MtEÇO 91

de capital» decidindo o quanto do consumo presente deverá ser cortado


a fim de aumentar o total de fábricas, equipamento e estoques de ba*
produtivos necessários no caso de um aumento da produção futura.
So nosso sistema, os capitalistas individuais recebem juros, dividendos
e lucros, ou rendas e royalties sòbre os bens de capital que fornecem. Cada
trato de terra e cada peça de equipamento possui um documento. ou
“título de propriedade”, que pertence diretamente a alguém, ou que.
se pertencer a uma empresa, pertence indiretamente aos acionistas indivi­
duais que a constituem. Além do mais, cada tipo de bem dc capital tem
um valor no mercado: daí. cada título de propriedade de um bem de
capital também tem um valor no mercado. Uma ação ordinária da One­
rai Electric é cotada a determinado preço, uma apólice da Ne* York
Central, a outro; uma hipoteca de uma casa é avaliada em certa quantia;
a escritura referente a uma casa e um terreno é calculada pelo mercado dc
imóveis em certo preço, c assim por diante.
Deve-se salientar que o govérno possui, realmente, grande parte do
capital real nacional, como, por exemplo, a Représa de Hoover. Além
disso, suas agências, como a Small Business Administration (SBA), cons­
tituem importantes fontes de empréstimos de capital a particulares e a
emprésas privadas.0
Notamos, também, que os direitos legais ile propriedade de um indi­
víduo são relativos e limitados. A sociedade determina quanto do que
possui um homem pode ser por êle legado aos seus herdeiros, e quanto
deverá passar para o govérno em forma de impostos estaduais e de trans­
missão causa mortis. A sociedade determina quanto podem ganhar ot
donos de emprésas de utilidade pública, como companhias de lu* e gás,
e de que modo devem êles dirigir seus negócios.
Até mesmo o lar de um homem não é o seu castelo. Êle tem que obede­
cer às leis de zoneamento c, se necessário, ceder lugar para uma estrada
de ferro ou um projeto de remoção de cortiços. Interessante é o fato dc
que a maior parte da renda econômica da sociedade não pode ser capi­
talizada em propriedades privadas. Desde a abolição da escravatura que
o poder humano de ganhar a vida tem a sua capitalização proibida po;
lei. Ura homem não tem nem mesmo a liberdade de vender-se.

Ne Brafl, dadas m conditfa de pab cm doentolvlacoio. a |>iupor\lo d* capital Mil—I


prrtnuçnte ao gmêrao. c bem superior àquela dot Coada Unida* fata rrlatlo aánda fca —I
ye *d'«*«*»ama» m cnprêcat parntatak c de cconooUa nka, pttdirtora ia anrrgii dáulta. asm
wr,w femniirtos c marítimo. aaftrttncia todal. etc.

Po» outro lado aa distorções cantada» pela lotação no ■■mli flnanari» tnmJerinm a W“»‘
**** P*btkne a quase «otalididc dos linam umenu» a m*ám r loaf» pv«a. • 4 ^
lulmente pelo Banco Nadotul do PomwlriofH twnko. Ban dr
*“**• Banco do Brasil através dc sua» carUin* r oulrm. «a00 lljjp I
e bancos estaduais como o da dc Sla Panlo. Icai Minkin mOlnm H
P»«a como também apràtiam dc ocganiw* nacionais I ffmipUonk
82 INTRODUÇÃO V \N.\I ISF. FCONOMICA

• ESFEC AUZAÇaO. TROCA E DIVISaO DO TRABALHO

Veja agora o segundo atpccto característico da economia do presente.


A« etonoini.it dc produção cm massa, sòbrc as quais sc baseiam os moder*
nos p.nliw' dc vida. não seriam possíveis sc a produção fôsse realizada
ein fa/endas ou regiões aulo-suficientcs. A especialização de função per­
mite que cada pessoa c rada região mili/cm, da mellior maneira possível,
quaisquer diferenças peculiares em habilidade c recursos. Até mesmo
numa economia primitiva os homens aprcndcui que, a ter todos fazendo
de tudo e dc modo medíocre, é melhor instituir uma divisão do trabalho:
v melhor que os homens gordos se eiuaucguem da pesca, que os esguios
tratem da caça e que os espertos façam os remédios, cada um trocando
seus piodutos pelos bens de que necessite.
Além de basear-se em quaisquer diferenças interpessoais de aptidão, a
opeciali/ação acentua c cria diferenças. A caçada faz o homem ficar
esguio c adquirir prática de aproximar-se da présa sem ser percebido;
uma região sem recurso algum especialmente adaptado para a indúMiia
de chapelaria poderá, apesar disso, desenvolver aptidões que lhe dão
vantagens nesse comérrio. (A especialização pode implicar custos ocultos
e a criação dc meios-homens: escritura rios anêmicos c foguistas abru­
talhados.)
Finalmente, ainda que não existam diferenças naturais ou adquiridas
nas habilidades, a especialização poderá sei vantajosa, pois com freqüência
é só assim que se potle atingir um volume de atividade suficiente para
levar a cabo tôdas as economias de produção em grande escala mencio­
nadas no capítulo anterior. Dois índios gêmeos e idênticos poderiam achar
melhor que um se encarregasse de fazer todos os arco* e, o outro, tõdas as
flechas, ainda que tivessem que tirar a sorte para ver a quem caberia
cada uma daquelas tarefas, porque só assim cada um dêles estaria fabri­
cando uma quantidade de cada item suficiente para permitir a introdução
dc técnicas dc fabricação mais apuradas.
A fim dc ilustrar a maior produtividade da especialização, Adam Smith
apresentou o clássico exemplo da fabricação de alfinêtcs. Um homem
podia, quando muito, fazer algumas dúzias dc alfinêtes imperfeitos por
dia. F.ntretanto, quando um pequeno grupo de homens é subdividido
no que respeita à função, de modo que cada um realiza operações simples
que se repetem, êsses homens poderão produzir centenas de milliarcs
dc alfinetes perfeitos, no mesmo período dc tempo.* Além disso, a simpli-

• Smith rrconheceu qnr a nprciali/acSo f a dhislo do trabalho eram limitadas pda cxtemlo do
mntm&a. ou •*»*. pelo volume que pode ser vendido, tie «rria aprovado o Mercado Comum Europeu.
qur t|u | redurir as barreiras fari.'irias impostas ao «oaoércto t a rrlar um mercado de taaianho

■ufK.cn,r para «ipomr uma produto em mama e uma cspcda!ira«Jo, compemadoras.


O ***** trc«ho. dcscreve a rxttwão da espedalüaçSo no abate do gado. é citado com
freqüência: -Seria difícil encontrar outra indútfria em que a di»i«So do trabalho tenha sido descn-
O MECANISMO DO PREÇO

íicaçâo dc funções tornada possível pela especial i/ação presta-se à mecani­


zação c ao finprégo de mais capital em vez de mão-de-obra. Ao mesmo
tempo, evita a dispendiosa duplicação de ferramentas que seria necessá­
ria se cada operário íôsse um homem de sete instrumentos, como também
poupa o tempo perdido com a passagem de uma para outra ocupação.
O moderno sistema da linha de montagem de um automóvel exemplifica
a eficiência da especialização. Atualmente, o lema é automação.

• ESPECIALIZAÇÃO E INTERDEPENDÊNCIA

Ê claro, porém, que a especialização e a divisão do trabalho envolvem


um sério problema, o da interdependência. Ê possível que uma forma de
vida, inferior e unicelular, como a ameba ou o paramécio, não tenha
muita competência para fa/cr algo complicado, mas pode viver isolada
e gostar disso. Nos animais superiores, como o homem, tôdas as células
morrerão se deixarem de funcionar as do coração. Quando tudo vai
bem, a extrema especialização das células é de muita eficiência... mas
à custa de uma independência extrema.
Na moderna sociedade econômica, êsse processo é levado ao máximo. I
Ninguém fabrica, sòzinho, a menor fração das mercadorias que consome.
Nos tempos medievais, o artesão fazia um artigo e trocava-o por muitos
outros. Hoje, um operário não chega a produzir um único bem. Talvez
faça apenas lingüetas para sapatos ou simplesmente gire o parafuso n* 999
da linha dc montagem da Ford. Poderá levar a vida tôda só fazendo isso.
Em troca, receberá uma renda que lhe permita comprar bens provenientes
de todos os cantos do mundo.
Assim, a especialização envolve completa dependência mútua. Um
banco abre falência na Áustria, e os nativos de Fiji, que transportam água
cm latas vazias da Standard Oil c vestem suas crianças com sacos de farinha

volvida de modo tão engenhoso e microscópico. O animal foi examinado e panado pan • papel
como se (Ave um mapa. e os homens (oram classificados em mais de trinia especialidade» e <tMf
escalas de salirio. de 16 a 50 centavos de dólar a hora. O trabalhador que recebe S0 etntara
limita-se ao uso da faca nas panes mais delicadas do couro ou do machado para partir a cspUha
dorsal. Sempre que um homem de menor habilidade puder ser empresado a 18. 183. 20. 21. OJ,
24 ou mais centavos, faz-se lugar para fle e una tarefa i traçada. Sé para trabalhar no
existem nove posições, a cito salinos diferentes por dia. Um empregado que gani» 20 ccouvo*
retira a cauda, outro que recebe 225 centaros extrai oatra parte onde o couto nlo è ban. e •
faca do que ganha 40 centavo* corta uma parte diferente e tem um Mtoque” diferente da do hmm
qne recebe 50 centavos. A perícia se tomou especializada para adapear-se ft anatomia.
“A divislo do trabalho cresceu com a indústria, seguindo-se a introdução do carro friforifico e a
comcTcializaião da carne cortada, na década de 1870. Ante» de o mercado ter rido^—pitado par
essas invenções revolucionaria*. os grupos encarregados da matança eram pc'wwa. sé
nata atendidas as procuras locais. Porém, quando o número de cabeça, de faáo a m
dia aumentou para mil ou mais, reuniu-se um crupo ou equipe de homem ^ *
melhores trabalhadores eram empregados nas tarefas em qne
de J. R. COMMONS, Quarterly Journal of Economics, sol. XIX. 1904. pip- 3 r *
84 INTRODUÇÃO À ANÁLISE ECONÔMICA

da Pillsbury. jxrrdein seu sustento. Sim, e poderão até morrer de inanição.


Na esteira de uma greve ou de utna guerra, um colapso nos transportes
e na estrutura econômica do câmbio revela como a moderna vida econômica
depende perigosamente da troca. Será que, se fôsse possível, faríamos o
tempo recuar até uma vida mais simples c mais pobre? Ou poderemos
manter as vantagens da divisão do trabalho encontrando políticas que
evitem o colapso?

• ESCAMBO VERSUS USO DA MOEDA

_ Juntamente com o capital c a especialização, o dinheiro constitui uuj


terceiro aspecto da moderna vida econômica. Sem o uso do dinheiro,
a nossa divisão do trabalho e a nossa troca atuais seriam impossíveis. Para
nos certificarmos disso, poderíamos imaginar um estado de troca, onde
um tipo de mercadoria é trocado diretamente por outro. Nas culturas
primitivas, não é raro ver-se alimentos trocados por armas, ou o auxílio
na construção dc lima casa trocado pelo auxílio na limpe/a de um campo.
Mesmo nas economias industriais mais avançadas, se dissecarmos o cAnibio
e retirarmos a camada de dinheiro que o encobre, descobrimos que o comér­
cio entre indivíduos ou nações se resume, cm grande parte, cm troca, ou
seja, transformação de um bem em outro através da troca, e não pela
transmutação física.
A troca representa um grande progresso sôbre uma situação na qual
cada um era obrigado a ser homem de sete instrumentos, sem dominar
nenhum dêles. Temos uma grande dívida de gratidão para com os dois
primeiros homens das cavernas que, de súbito, perceberam que cada um
poderia ficar em melhor situação se desse certa quantidade de determinado
bem cm troca de um pouco de outro. Apesar disso, a troca simples funcio­
na cm condições sèriamente desvantajosas. Uma elaborada divisão do
trabalho seria inconcebível sem a introdução dc uma grande e nova
melhoria: o uso da moeda.
Com exceção das culturas mais primitivas, cm lôdas as outras os homens
não trocam diretamente um bem por outro. Em vez disso, vendem um
bem por dinheiro e então usam dinheiro para comprar os bens <|iic dese­
jam. A primeira vista, isso parece complicar, e não simplificar ns coisas,
substituir uma única transação por duas. Sc cu tenho maçãs e quero
no/cs, não seria mais simples trocar umas pelas outras, e não vender
maçãs por dinheiro e depois usar o dinheiro para comprar nozes?
Xa verdade, dá-se o contrário: as duas transações são mais simples do
que uma só. Normalmente, há sempre quem esteja pronto a comprar
maçãs e quem esteja disposto a vender - a determinado preço - nozes.
Coincidência rara. porém, seria encontrar uma pessoa cujos gostos fôssero
O MECANISMO DO Itl^O 85

exatamente opostos aos meus, ansiosa por vender nozes e comprar EBBS
Essa coincidência seria tão improvável quanto a possibilidade de tirar
“coroa" doze vêzes seguidas. Ainda que se desse o extraordinário — como
deve acontecer ocasionalmente — não existe a garantia de que os dese­
jos das duas partes, no que respeita ás exatas quantidades e têrmo* da
troca, seriam coincidentes.
Para usar uma clássica frase econômica, em vez de haver uma dupla
coincidência de necessidades, é provável que haja necessidade de coinci­
dência, de modo que, a menos que um alfaiale faminto encontre um
fazendeiro que tenha comida e deseje uma calça, nenhum dos dois poderá
fazer negócios.
A moeda simplifica, realmente, a vida econômica. Não se esqueçam,
porém, que, para a sociedade como um todo. um simples aumento no
total de moeda não dará ao povo a possibilidade de consumir mais do
que os produtos reais tècnicamente produziveis com os totais de trabalho,
terra e capital existentes na economia.

• MOEDA-MERCADORIA, PAPEL-MOEDA o MOEDA BANCÁRIA

Se tivéssemos que reconstruir a história em linhas hipotéticas e lógicas,


naturalmente colocaríamos a idade da moeda-mercadoria logo depois da
era da troca. Històricamcnte, uma grande variedade de mercadorias tem
servido, num período ou noutro, como meio de troca: gado (de onde se
deriva a raiz latina dc “pecuniário” e também as palavras “capital" e
“bens móveis”), fumo, couros e peles, azeite de oliva, cerveja ou bebidas
alcoólicas, escravos ou esposas, cobre, ferro, ouro, prata, anéis, diamantes,
contas ou conchas, enormes rochas e marcos, e pontas de cigarro.
Cada uma das mercadorias acima possui certas vantagens e desvanta­
gens. O gado não pode ser dividido em trôco miúdo, mas, enquanto estiver
sendo guardado, êsse “dinheiro" poderá aumentar pela reprodução, des­
mentindo a doutrina de Aristóteles, segundo a qual “o dinheiro é estéril".
A cerveja não melhora com a armazenagem, embora o vinho possa me­
lhorar. O azeite dc oliva serve dc uma bela moeda líquida que pode ser
divisível até o grau mais ínfimo que se desejar. O ferro enferruja e seu
valor é tão baixo, que para carregá-lo seria preciso uma carrêta, cm vez
de uma carteira dc notas. O valor de um diamante não é proporcional
ao pêso, mas varia com o seu quadrado; por isso, se cortado em pedaços
êle perde valor. Os acréscimos (pela mineração) c as subtrações (pela
utilização cm dentes ou em jóias) anuais que sofre o estoque acumulado
de metais preciosos são dc pequena monta, em têrmos percentuais. Dai
não flutuarem desordenadamente os totais c o valor dessas substância*.
O ouro mantém brilho atraente mas, a menos que seja componente e
86 1MRODI ÇÃO À ANÁLISE ECONÔMICA

uma liga. c maleável. Sua alia densidade específica lorna fácil perceber
contrafações e misturas, mas durante a maior parte da história o seu valor
|x>i gi.uua tem sido lào elevado, devido à sua escassez, que usá-lo em com­
pras comuns exigiria moedas dc tamanho extraordinariamente diminuto.
Houve época em que a maioria dos tipos de moeda tendia a ter algum
valor ou utilidade intrínseca. Assim, até as contas eram usadas como
motivos de decoração e o papel-moeda começou como recibo de depósito
ou entrega de metais para cunhagem. Entretanto, a utilidade intrínseca é
o íator menos importante, no momento, no que se refere ao meio
monetário.
A idade da moeda-mercadoria cede lugar à do papcl-moeda. A essência
do dinheiro, sua natureza intrínseca, é simbolizada pelo papel-moeda.
A morda, como moeda mais do que como mercadoria, é desejada não pelo
que ela é, mas pelas coisas que com ela se irá comprar! Não queremos
consumir de modo direto o dinheiro, mas sim gastá-lo desfazendo-nos
déle. Ainda que prefiramos usá-lo mantendo-o guardado, seu valor provém
do fato de que iremos poder gastá-lo mais tarde.
A moeda é uma convenção social artificial. Se, por qualquer motivo,
uma substância começar a ser utilizada como dinheiro, tódas as pessoas
começarão a lhe dar valor, ainda que se trate de pessoas abstêmias, vege­
tarianas ou descrentes de sua utilidade intrínseca. Enquanto fôr possível
adquirir ou vender coisas com pagamento cm determinada substância,
todos irão contentar-se cm vender e comprar com essa substância. O
paradoxo é que o dinheiro ó aceito porque tem aceitação!
O uso do papcl-moeda (notas de cinco, dez, vinte dólares...) tornou-se
difundido pelas suas várias conveniências como meio de intercâmbio.
O dinheiro é de transporte e guarda fáceis. Pela impressão de mais ou
menos zeros no valor nominal da nota, uma grande ou pequena soma
de valòrcs pode ser contida num meio leve e transportável, de pequeno
volume. Pelo uso de vírgulas decimais, podemos tomá-la divisível à von­
tade. A gravação cuidadosa torna a moeda facilmente identificável e a
protege contra falsificações e adulterações. O fato de os particulares não
a poderem criar à sua vontade, cm quantidades ilimitadas, mantém-na
escassa, isto é, na condição de ura bem econômico, não um bem livre.
Dada essa limitação dc oferta, as moedas modernas têm valor, isto é,
podem comprar coisas, independentemente de qualquer lastro de ouro,
de prata, ou governamental. O público não sabe, nem se importa - e
não precisa saber ou importar-se — se a sua moeda tem a forma dos
chamados "certificados de prata", notas da Reserva Federal ou moedas
de cobre ou prata. Enquanto cada forma de dinheiro puder ser convertida
O MECANISMO DO MÍS

em qualquer outra com base em termos fixos, a melhor ter* tio boa
quanto a pior.T
Finalmente, ao lado da era do papel-moeda temos a da moeda bancária,
ou os depósitos em conta-corrente. Hoje, pelo menos nove décimos de tòdas
as transações, ainda que não cm número, mas em valor, são realizada»
por meio de cheques. Um professor terá o seu salário depositado direta-
mente em sua conta bancária, depois que o imposto de renda tiver sido
deduzido na fonte pelo seu empregador. Seu aluguel ou suas contas do
dentista serão pagas com cheques, sua gasolina e suas contas de hotel, com
uma carta de crédito. À exceção dc dinheiro miúdo para pagai almoço e
passagem, êle quase não precisa andar com dinheiro graúdo.
Com isso completamos a discussão da maneira pela qual a moeda realiza
suas funções essenciais em determinado período de tempo. Na segunda
parte» iremos examinar em detalhe as operações monetárias e creditícias
dos bancos e do govêrno, para vermos de que maneira atuam elas sôbre
as flutuações dos preços e da produção.

SUMÁRIO
Embora trale dc fatos subconscientemente conhecidos dc todos, êste é
um dos mais difíceis capítulos de tôda a ciência econômica. A chamo-nos
demasiado próximos do nosso próprio sistema para que possamos perceber,
sem um estudo cuidadoso, como êle lealmente funciona.

# A. FORMAÇÃO DE PREÇOS E INICIATIVA MISTA

1. No nosso sistema misto de iniciativa privada, o mecanismo dos pre­


ços. funcionando através da ofetta e da procura nos mercados competitivos,
opera de modo a resolver os três problemas fundamentais da organização
econômica. Pode não ser um sistema per leito, mas ttabalha para resolver
as questões quanto a O Quê, Como e Para Quem.
2. Os votos monetários das pessoas influem nos pieços dos bens e ésses
preços servem de guias para as quantidades dos dilerentes bens que deve­
rão ser produzidos. Quando se procura maior quantidade de um bem,
um comerciante concorrente poderá obter lucro aumentando a produção
daquele bem. No regime de concorrência perfeita, êle deverá encontrar o
método de produção mais barato, utilizando mão-de-obra, terra c outros
fatóres relativamente baratos e economizando no uso daqueles relativa­
mente caros. Caso contrário, terá prejuízos e será eliminado da concorrência.

7 Há um i&ulo. cia cxccçSo, nlo ■ icgta, o fato de nmat de banco e motém ■— u*aê—
uma» petas outns ao |or. Cada qual linha preços difctenin que tanavaai és du psn àm. •
pooto de ter necessária a manu:cn{So. por parte dm lojhtas. de Unas diária» dai tmntm “**
dc incdu. comprando-M c \cadendo a* corn lurvo. lonMt K fimiàrnê*-
INTRODUÇÃO À ANÁLISE ECONÔMICA

Ao mesmo tempo em que estão sendo resolvidos pelos preços os proble­


mas relativos a O Quê e Como, também o está o que diz respeito a Para
Querm. A distribuição da renda é determinada pelo aumento ou pela
redução dos preços dos fatôres de produção — salários dc cada tipo
dc m.KKU -obi.i. rendas da terra, direitos autorais, e vários rendimentos
do capital — provocado pela concorrência. Quem quer que possua terra
fértil e bem localizada, ou uma voz apreciada por um público numeroso,
receberá muitos votos monetários para serem usados nos mercados de bens
de consumo. Quem não possuir propriedade e fôr dotado de habilidades
pelas quais o mercado pouco se interessa, terá um baixo rendimento anual.
3. Nossa economia é mista em dois sentidos: os governos modificam a
iniciativa privada e elementos monopolistas restringem o funcionamento
da concorrência perfeita.

• B. CAPITAL, DIVISÃO DO TRABALHO E MOEDA

4. Os bens dc capitai — fatôres de produção como maquinaria, mora­


dias, e estoque dc produtos em fase de processamento--------------------- aumentgnuiC:
mendamente a produção de um país. Os métodos indiretos, demorados,
exigem tempo para dar resultados, motivo pelo qual o aumento do esto­
que dc bens dc capital requer um sacrifício temporário do consumo
presente.
5. No sistema capitalista, os bens dc capital são propriedade privada
e os rendimentos que êles produzem pertencem a seus proprietários. No
sistema comunista, o estado é dono dos bens de capital. Não há sistema
em que os direitos de propriedade privada sejam ilimitados.
6. A especialização c a divisão do trabalho caracterizam as economias mo­
dernas. e isso aumenta a produtividade, mas à custa da interdependência.
7. Não fôsse a troca, e a divisão do trabalho não poderia ter sido alta­
mente desenvolvida. A simples troca é ineficiente e tende a ser substituída
pelo uso da moeda. A moeda-mercadoria, por sua vez, é substituída pelo
papel-moeda e pela moeda bancária. Ao contrário dc outros bens econô­
micos, o dinheiro deve o seu valor à convenção social. Nós o avaliamos indi­
retamente por aquilo que êle pode comprar, não pela sua utilidade direta.

TEMAS PARA DISCUSSÃO

1. Durante a Segunda Guerra Mundial, os E.UA deixaram que a procura


dc dólares por parte dos consumidores determinasse o seu consumo de
açúcar? Por que não? E o que determinou aquêle consumo?
2. Poderia a oferta e a procura dc mão-de-obra funcionar a ponto de
proporcionar aos vendedores que tenham "boa conversa” uma renda
cinco vézes maior do que a de peritos cirurgiões? Em outra ocasião.
O MECANISMO W> FfcUÇO 89

poderia ela funcionar para dar aos cirurgiões o dôbro da inida do»
contadores?
S. Acha o leitor que um "instinto dc artesanato”^ um "senso dc resj»on-

sabilidade social" seriam capazes de, alguin dia, substituii o “motivo


de lucro”? Leia em voz alta a citação sóbre a Mão Invisível que

aparece no início dêste capítulo. O que pensa que Smith está tentan­
do dizer com aquilo? E com isto: “Nunca vi grandes benefícios pres­
tados por aqueles que aparentam negociar para o bem de todos."
Disseque a parábola sóbre Zig e Zog.
4. Relacione alguns casos em que o governo modifica o funcionamento
de sistema automático de preços. Faça uma lista de casos em que inter­
vém elementos de monopólio.
5. Supondo que ela não possa conseguir empréstimos no cxteiior. que
deverá a China fazer se quiser tornar-se uma nação eficiente e indus­
trializada daqui a poucas gerações?
6. "Lincoln libertou os escravos. Com um golpe de pena, destruiu grande
parte do capital que o Sul conseguira acumular durante anos." Teça
comentários a ésse respeito.
7. Cubos de gêlo dariam uma boa unidade monetária? Que produto daria?
8. Quais são algumas das vantagens do uso de cheques contra depósitos
bancários, de preferência ao papcl-moeda ou moedas dc metal? Rela­
cione quaisquer desvantagens.
9. Reveja sua compreensão dos seguintes conceitos:
economia mista
mercados dc oferta e procura dc bens e de fatôres de produção
procura do lucro, minimiza ção do custo
"racionamento" pelo preço
concorrência perfeita e imperfeita
serviços públicos do govêrno
características indiretas da produção
abstinência e espera
despoupança por não conseguir manter e substituir bens de capital
especialização, interdependência
divisão do trabalho, troca
troca versus preço em unidades monetárias
moeda-mercadoria, papel-moeda e depósito bancário.
A OFERTA E PROCURA:
it REVELANDO OS ELEMENTOS

Pode-se ali transformar um papagaio num iruiruido economista.


Basta que êle aprenda as duas palavras: "oferta” e "procura".

Anônimo.

Tôda declaração sucinta sôbrc a Economia c ilusória (com a


possível exceção desta que faço agora).
Alfred Marshall.

Os capítulos 2 e 3 apresentaram os três problemas básicos que tôda


economia tem que enfrentar:
1 — O Qite será produzido dentre a grande variedade dc bens e serviços
possíveis, e exatamente em que quantidades?
2 — Como irá a sociedade combinar seus diferentes fatores produtivos
— terra, trabalho, e assim por diante --------------- para produzir cada mercadoria?
3 — Para Quem serão os bens produzidos — que é o problema da ma­
neira pela qual o produto nacional será distribuído entre os diferentes
membros do povo. com as suas diferentes especializações de trabalho,
propriedade de terra e bens de capital?
O capítulo 2 mostrou que era possível pensar-se em vários sistemas
para resolver êsses três problemas. O Quê, Como e Para Quem poderiam
ser determinados pelo costume, pelo instinto, ou mesmo por sanções cen­
tralizadas e coletivas. O capítulo 3, porém, indicou que a moderna
economia mista não se baseia fundamentalmente em nenhum dêsses ele­
mentos para solucionar seus problemas básicos. Apóia-se, ao invés, num
sistema de mercados c preços.
O consumidor é, por assim dizer, o rei, ou antes, cora todo homem
exercendo o papel de rei, cada indivíduo é um eleitor que usa o seu
dinheiro como voto para mandar fazer aquilo que deseja. Seus votos devem
concorrer com os de outros homens c aquêles que possuírem o maior
número dc votos acabam por gozar da maior das influências sôbre o que
é produzido c sôbre o destino que essas mercadorias devem ter. Agora,
noisa tarefa é ver como se dá êsse dispíndio devotos monetários - como
funciona êsse sistema de “soberania do consumidor .

90
OFERTA C PROCURA: l U M I M o t

O O MECANISMO DO MERCADO

Tomemos um exemplo. O leitor acorda esta manhã com uma grande


vontade dc comprar um nôvo par de sapatos. É claro que teria idéia de
dizer: "Vou dar um pulo até à prefeitura e votar no prefeito que tenha
mais probabilidades de me dar um nôvo par de sapatos. Claro que é um
par nôvo, tamanho 39, de couro macio e côr marrom escuro."
Ou então, para citar um caso verdadeiro, vamos supor que certos
homens comecem a prosperar o suficiente para poderem comer catnc
todos os dias, sem precisarem completar a refeição com batatas. Como
traduzir em ação êsse desejo de substituir batata por carne? A que político
é feita essa comunicação? Quais as ordens que êsse político, por sua vez.
dá aos fazendeiros para que sc mudem do Maine para o Texas?* Qual a
renda extra cia terra que êlc decide ser necessária para fazer com que
os proprietários convertam a terra que produ/ batata em pasto para o
gado? E de que maneira êlc sc certifica de que as pessoas tenham a
quantidade desejada de carnc dc porco, dc cordeiro c dc vaca? E quem
rcccberá os cortes selecionados da carnc dc vaca?
Por que repetir o óbvio? Todo inundo sabe que nunca o problema foi
resolvido dessa maneira. Eis o que aconteceu: os consumidores começaram
a deixar de comprar batatas e começaram a adquirir carne. Isto elevou
o preço da carne e reduziu o das batatas, do que resultaram prejuízos
para os plantadores de batata e lucros para os criadores. A mão-de-obra
rural descobriu também que podia exigir salários mais elevados c houve
muito plantador de batata que abandonou o emprego em troca dc outro
que pagasse mais, em outra parte qualquer. Ao fim dc certo tempo, os
preços mais altos da carne trouxeram maior produção dc carne bovina,
suína c dc cordeiro, e as diferentes partes do boi chifres, couro, fígado.
rins, filé de primeira e costelas duras — eram arrematadas pelo preço
que cada uma pudesse obter.
Para mostrar que não é um importante membro do govêrno ou homem
de negócios que fixa os preços relativos, vejam o que aronicceu quando
a ciência descobriu que o fígado era bom para o tratamento da anemia.
Antes disso, e por motivos um tanto obscuros, os rins eram mais caros
do que o fígado. Na verdade, segundo os registros, havia dificuldade até
cm dar-se o fígado, antes daquela descoberta. Hoje, vá ao açouguc e
pergunte o preço do fígado. E, se puder encontrá-los, pergunte também
pelo dos rins. Houve uma verdadeira revolução: o preço do fígado subiu
acentuadamente em relação ao dos rins, de modo a racionar a oferta
limitada de fígado entre aquêles que o procuram ansioso». Tudo bio
se deu através do mecanismo impessoal da oferta e da procura.

• No Brasil poin-K-U toaur como compiraflo o» «udoi do FlMi r *J» CrmmJ* ãà M


92 INTRODUÇÃO À ANÁLISE ECONÔMICA

Revoluções .semelhantes estão acontecendo o tempo todo no mercado


economic o. A medida que variam os desejos e as necessidades das pessoas,
que se alteram os processos tecnológicos, e que variam os suprimentos
de i et in sos naturais e de outros fatores de produção, o mercado registra
alter ações nos preços e nas quantidades vendidas de mercadorias e de
serviços produtivos — chá, açúcar e carne, terra, trabalho e máquinas.
Existe um sistema dc preços, conceito que está longc de ser evidente.
£ propósito diste capítulo mostrar de que maneira se desenvolvem a
oferta e a procura de um determinado bem no mercado competitivo.
Daremos a definição de uma curva de procura e, depois, de uma curva
de oferta. Por fim, veremos como o mercado dc preços atinge o seu equi­
líbrio competitivo, no ponto em que aquelas duas curvas se cruzam — e
onde as forças da procura e da oferta estão em equilíbrio.

• A ESCALA DA PROCURA

Comecemos com a procura. Todos já observaram que a quantidade de


um bem que as pessoas irão adquirir numa época qualquer depende do
preço; que quanto mais alto o preço dc um artigo, menor será a quanti­
dade que o público sc disporá a comprar; c como, permanecendo tudo o
mais inalterado, quanto mais baixo o seu preço no mercado, maior será
o número dc unidades a serem procuradas.

% Assim, existe realmente, em qualquer época, uma relação definida entre o preço
do mercado dc um bem (como o trigo) e a quantidade dôsse bem que é
procurada. A essa relação entre preço c quantidade adquirida dá-se o nome de
"escala da procura", ou "curva da procura*'.

O quadro 1 fornece um exemplo de uma hipotética escala da procura.


A qualquer preço, como $5 por saco, há uma quantidade definida de
trigo que será procurada por todos os consumidores — no nosso caso, 9
milhões dc sacos por mês. A um preço mais reduzidos, como $4, a quan­
tidade adquirida é ainda maior, ou 10 milhões de unidades. Com os
dados do quadro 1, podemos determinar a quantidade procurada a um
dado preço, comparando a coluna 2 com a coluna 1.

# A CURVA DA PROCURA

Os dados numéricos do quadro 1 também podem sofrer uma interpre­


tação gráfica. A escala vertical na fig. 1 representa os vários preços alter­
nativos para o trigo, calculados em dólares por saco. A escala horizontal
mede a quantidade de trigo (em têrmos dc sacos) que será procurada
por mês. .
Uma esquina do centro da cidade é localizada tão logo ficamos sabendo
qual a rua e a avenida que a formam; a posição de um navio é determina-
OFERTA E PROCURA: ELKMENTOt 93

da assim que tomamos conhecimento de sua latitude e de sua longitude.


Do mesmo modo, para determinarmos um ponto nesse diagrama, preci­
samos de duas coordenadas: um preço c uma quantidade. Para o nooo
primeiro ponto A, correspondendo a $5 e a 9 milhões de sacos. «Iralocamo­
nos 5 unidades para cima e, depois, 9 para a direita. Um círculo assinala
o ponto A. Para obtermos o círculo seguinte, em B, subimos apenas 4
unidades e seguimos 10 para a direita. O último círculo é assinalado pela
letra E. Passando por ésses círculos, traçamos uma curva suave, assinala­
da por dd.
Essa representação gráfica da escala da procura tem o nome de "curva
da procura”. Observe que quantidade e preço estão inversamente relacio­
nados, com Q subindo quando P desce. A curva se inclina para baixo,
indo dc noroeste para sudeste. Esta importante propriedade recebe o nome
dc lei da procura decrescente, que se aplica pràticamente a tôdas as mer­
cadorias, como, por exemplo, trigo, barbeadores elétricos, algodão, gasoli­
na ctílica, flocos de milho e entradas de teatro.

% Lei da procura decrescente: Quando o preço de um bem é aumentado (ao momo


tempo cm que tôdas as outras coisas s3o mantidas consumes), será menor a
quantidade disse bem a ser procurada. Ou, o que é a mesma coisa: «e uma
quantidade maior de um bem Í6r lançada no mercado. Hte bem - com as
outras coisas continuando Iguais — só poderá act vendido a um preço mais baixo

• RAZÕES DA LEI DA PROCURA DECRESCENTE

Esta lei está de acôrdo com o bom senso e já é conhecida, pelo menos
dc modo vago, desde os primórdios da história de que se tem registro.
As suas razões não são difíceis de serem identificadas. Quando o preço do
trigo é astronômico, só os ricos poderão adquiri-lo: os pobres terão que
contentar-se com o pão de centeio, como ainda acontece cm países mais
pobres. Quando o preço ainda é elevado, mas não tanto quanto antes, as
pessoas de posses moderadas, que também tenham uma preferência es­
pecialmente grande pelo pão branco, serão agora indu/idas a comprar
certa quantidade de trigo. Assim, a primeira razão da validade da lei da

Uno escala de procura relaciona a quantidade procurado • o preço:

Quantidade
Preço do trico procurada em
em dólates | milhòes de sacos
par saco pur mê»
P 0 Qoadro 1. Escala 4• procora da Mf*• A “*
Hi da prtço do marcado axhrirá, o qaalqvv
1i uma procura por ama defenafeoda qmt*iéoé» é%
A trigo. A um praço i*ob radvaMow •
B 1 4
2
10 procurada ovmanloré, è madda ip* o* M
C 1 ■2 substituam outro* oRnaitfM P" Ml* • gí
D > 15
B 20 entandom qv« podarüo
1,
manos pr—wtw dêma i»oè*o
ÍNIKOIH^ÃO \ ANÁLISE ECONÔMICA

Urno curva descendente retrata a procura:

A CURVA OA PROCURA

Fig. 1. Oi proços são médldos no


eixo vertical e a quantidade pro-
curada no eixo horizontal. Cada
par de números O, P, do quadro 1
apareço aqui como um ponto, e
uma curva contínua passada pelos
pontos nos dó a curva do procura.
O fato de dd ser dcscendenle e
dirigir-se paro a direita ilustra a
muito importante “lei da procura
decrescente**

QUANTIDADE (mllhôo d# soco* por mts)

procura decrescente provém do fato dc que uma redução de preços atrai


novos compradores,
Não tão evidente, mas igualmente importante, é uma segunda razão
da validade da lei, ou seja, cada redução de preço poderá induzir certas
aquisições extras por parte de cada um dos consumidores do produto
e, o que vem a dar no mesmo, uma elevação do preço poderá fazer com
que qualquer um dc nós compre menos. Por que a quantidade por mim
procurada tende a cair quando o preço se eleva? Por dois motivos princi­
pais: quando sobe o preço de um produto, naturalmente eu tento substitui-
lo por outros (como, por exemplo, café por chá); c quando um preço se
eleva, vejo-me realmente mais pobre do que era. É evidente que irei
reduzir o meu consumo da maioria dos produtos normais, quando me
sen rir mais pobre e tiver uma renda real menor.
Eis, a seguir, exemplos de casos cm que eu compro maior quantidade
de um produto à medida que éle se torna mais abundante e seu preço
cai. Quando a água está muito cara, procuro apenas o suficiente para
beber. Depois, quando o seu preço cai, compro um pouco para lavar-me.
OFKRTA £ PROCURE >1.» Mr Was

A preços ainda mais baixos, utilizo-a para outras finalidades e, por fim.
quando cia m: toma realmente muito barata, rego ílúics e uso-a i vontade
para qualquer aplicação possível. (Vejam, uma ve/ mais, que é provável
que uma pessoa mais pobre do que eu só comece a usar água para Uvar
o seu cano por um preço mais baixo do que aquêlc pelo qual eu compro
água para fazer o mesmo. Uma vez que a procura do mercado é a toma
dc lódas as diferentes procuras das pessoas, o que significa isso? Significa
que, mesmo depois que a minha procura pára de expand ir-sr muito com
as quedas dc preços, o total adquirido no mercado ainda poderá expan­
dir-se à medida que passem a existir novas aplicações para novas pessoas.)
Para confirmar a sua compreensão do conceito dc procura, imaginem
um aumento da demanda dc trigo, provocado por uma grande elevação
dos rendimentos das pessoas ou por uma grande alta no preço dc mercado
do seu concorrente, o centeio, ou, ainda, por um maior desejo das pessoas
dc gastarem seu dinheiro com trigo. Mostre que isso desloca tôda a
curva da procura para a direita, c daí para cima; trace a lápis essa nova
curva e denomine-a d'd* para clistingui-la da antiga curva dd. Veja que
um aumento dêsse na procura significa que, agora, será adquirida maior
quantidade a cada preço diferente — como pode ser verificado interpre­
tando-se cuidadosamente as coordenadas dos pontos na nova curva c
preenchendo-se uma nova coluna Q para o quadro 1.

• A ESCALA DA OFERTA

Passemos, agora, da procura para a oferta — para a escala da oferta.


A da procura relaciona os preços com as quantidades que os consumido­
res desejam comprar. Como sc define a escala da oferta?

• Por rtcala. ou curva, da oferta, entende-se a relaçSo entre prrçot do mercado c as


quantidades que os produtores estão dispostos a oferecer.

O quadro 2 ilustra a escala da oferta de trigo c a fig. 2 a exibe como


uma curva da oferta. Ao contrário da curva da procura, a da oferta de
trigo normalmente segue para cima e para a direita, dc sudoeste para
nordeste.

A escala da oferta relaciona o preço e a quantidade oferecida:

Quantidade que o»
Preço* poulveii vendedorei oferccerSo
por taco (mtthtes dc mem por mês)

Á ss
u
0 lt
c
4 lê Qyadn >. Seaoli
3 IX
D •2 f «*• trie* A •*
R 1 0 O q— m i «—
lèr aêarattr
96 IMKUiM/ÇÃO À ANÁLISE ECONÔMICA

Sc o preço do trigo subir mais, os agricultores desviarão terras em que


cultivam milho para plantar trigo. Além disso, cada um dêsses fazendeiros
fnxle pagai maior quantidade de fertili/antes, maior número de empre­
gados. mais máquinas c até mesmo fazer uma plantação extra de trigo,
em lerra mais pobre. Tudo isso tende a aumentar a produção a preços
inais elevados.
C.01110 iremos ver na terceira parte, a nossa velha amiga, a lei dos
rendimentos decrescentes, fornece um forte motivo pelo qual a curva da
oferta sobe de forma bem acentuada. Sc a sociedade quiser mais vinho, uma
quantidade cada vez maior de mão-de-obra terá que ser adicionada aos
mesmos pontos limitados dos montes adequados à produção de uvas que
dão bom vinho. Mesmo que essa indústria seja demasiado pequena para
influir na taxa geral de salário da mão-de-obra, cada nõvo empregado —
segundo a lei dos rendimentos decrescentes — estará acrescentando um
produto extra cm volume cada vez mais reduzido. Daí, o custo necessário
ao estímulo da produção adicional terá que aumentar. (Custo c rendi­
mentos são lados opostos da mesma moeda, como será demonstrado mais
tarde.1)

A os cala da oferta pode ser traçada cm forma de curva:

CURVA DA OPlftTA DO TKIOO

FI9. 2. Cada par (O, P) do quadro 2


apareço, aqui, como um ponto. Uma cur­
va contínuo pastada por lies nos dá a
curva de oferta ai;endente. 00.
» T"
5 10 13 20

Quantidade (miihõc* «• p®» «■*•!

1 Embora c\ce<£ci à lei da procura dccrctcenie sejam 1S0 poucas que n3o tenham importância
na priiira, enrontrarrmm. na segunda parte, certas CXCCÇÔC* Interessantes i cur\a da ofeila MCCn-
drnte. Ansim. tiiponhamos que um pequeno agricultor produ/a trigo, e que o preço do produto se
elese tanto que lhe proporcione uma renda multo mais alta. Com o trigo dando tanto lutro. a
(pío tie %c vè tentado a uibaitmr uma certa parte (le suas horas de la/er para produtir mais
,L. Mn. „lo *rl razoivel que chegue um momrn.o cn. que Me * .In.. em .!.«>*>«Odcnic-
dlcnic 1,0.1. com a tenda «uh çlevaüa, para poder viver ton. um pouca raeno. «le P™-cuP»<f*. e
mhalhar menos «Io que antet?
OFERTA E PROCURA: Zl» MKMo* 97

Para representar um aumento da oferta, lembre-se de que isso significa


um aumento das quantidades que serão oferecidas a cada preço diferente.
Agora, veremos que a nova curva da oferta traçada a lápis na íig. 2 B
desloca para a direita; para uma curva de oferta ascendente, essa alteraçlo
significa que a nova curva oV terá sido deslocada para a direita e para
baixo (c não para a direita e para cima, como no caso de uma curva de
procura decrescente deslocada). Para comprovar que oV retrata realmente
um aumento da oferta, preencha uma nova coluna no quadro 2 interpre­
tando cuidadosamente os pontos do diagrama.

• equilíbrio da oferta e da procura

Combinemos, agora, nossas análises da procura e da oferta, para vermos


como o preço do mercado competitivo é determinado. Essa combinação
é realizada no quadro 3. Até aqui, temos considerado possiveis todos os
preços. Já dissemos que "se o preço fòr aquéle, as vendas serão tais; se o
preço (Ar éste, as vendas serão estas; e assim por diante”. Mas até que
nível chegará realmente o preço? E, nesse ponto, qual será a quantidade
produzida e consumida? A escala da oferta, isolacla. não nos pode dizer.
Façamos o que faria um leiloeiro, isto é, procedamos por tentativas. A
situação de A, no quadro 3, com o trigo sendo vendido a $5 por saco,
poderá manter-se por determinado perfodo de tempo? A resposta é clara:
não. A $5, os produtores estarão oferecendo 18 milhões de sacos ao mercado,
por més — coluna 3. A quantidade procurada pelos consumidores, porém,
será de apenas 9 milhões de sacos por més — coluna 2. À medida que se
acumulam os estoques de trigo, vendedores concorrentes reduzirão um
pouco o preço. Assim, como nos mostra a coluna 4, o preço tenderá a
cair, mas não cairá indefinidamente até zero.
Para melhor compreender esta parte, tentemos o ponto £', com o preço
sendo igual a apenas $1 por saco. Poderá ésse preço persistir? Mais uma
vez, evidentemente que nlo, porque uma comparação das colunas 2 e 3

O preço de equilíbrio de mercado encontra-se no ponto em que so equiparam


■ oferta e a procuras

Quantidade Quantidade 1
Preço* procurada olcfftdda
poamii «n atlbAn em mllbõea hndii
Quadre S. Escolas ém eSafe
por aco dc aacoe de area ■Abre o prece e d* prec w de Hp. Sèaaria
por xaCa por m<e oo preço d«SSo qwOdod»
CO (U 0) (4) pro erode peto eomumiéow
1*6 igmo» è «■■■**»do t~m-
A
II ss 9 IS I DoccaÉMl cMa p«lw poMvo. A QNÍ-
O 4 10 IS i DrriMieil qmt preço mmk itémàêx •
3* 12* !!♦ Neatn
u a PWM tMfa MNWI M|
m
m
IS r f Aeaütel
i 20 • 1 «THll e e qooÜpe? Pr#í* gSBfff fj
OÜMto matmé»rtâ e ptvomm.
98 INTRODUÇÃO A ANÁLISE ECONÔMICA

O pro^o do e quilíb rio do mercado está no ponto em quo as curvas da oro


• da oferta

COMO A OFERTA E A PROCURA DETERMINAM


O PREÇO DE MERCADO I A QUANTIDADE

Flg. 3. No ponto do Interseção C, a quanti­


dade oforeclda 6 Igual ò quantidade procura­
da.
A qualquer P mais baixo, o excesso de pro­
cura obrigará P a tomar a subir: e a qualquer
P mais elevado do que o de equilíbrio» a quan­
tidade oferecida será excessiva e P será for­
çado a baixar ao nível de equilíbrio.

demonstra que, àquele preço, o consumo excederá a produção. Os armazéns


começarão a ser esvaziados, e os consumidores desapontados que puderem
obter trigo tenderão a oferecer preço mais elevado. Essa pressão sôbre o
preço é indicada na coluna 4 pela seta voltada para cima.
Poderíamos tentar outros preços, mas a esta altura a resposta é evidente.

# O preço dc equilíbrio, ou seja, o único preço que pode durar, é aquèle ao


qual a quantidade oferecida e a quantidade procurada são iguais. O equilíbrio
co mp e titivo deve estar no ponto dc interseção das curvas da oferta e da procura.

Só no ponto C, com um preço de $3, a quantidade procurada (12 milhões


de sacos por mês) será exatamente igual à oferecida (12 milhões). O
preço está equilibrado, como equilibrada está uma azeitona no fundo de
um copo ile coquetel, porque não apresenta a tendência a subir ou a
baixar. (Naturalmente, è possível que êsse preço estacionário não seja
alcançado logo. Poderá haver um período inicial dc tentativas, de oscila­
ções cm redor do nível certo, antes que o preço acabe por fixar-se e |
oferta se iguale à procura.)
A fig. 3 mostra o mesmo equilíbrio, em forma ilustrada. As curvas da
oferta c da procura, superpostas no mesmo diagrama, cruzam-se cm apenas
um ponto, e éste ponto C representa o preço e a quantidade em equilibno.
A um preço mais alto. a barra grossa mostra o excesso da oferta sôbre
OFERTA E PIOCURAI IliMiMos 99

Ot diagramas mostram os «feitos dos dtslocamontos da procura • ofota


sôbre o pre$o:
DESLOCAMENTO OA OFERTA OfiStOCAMIKTO DA ftCCUIA

OUANTOAOC
Fig. 4. Se por qualquer motivo a oferta «• de*loca para a esquerda. o interseção do preço
equilíbrio subirá pelo curva do proaro, dondo P mo* elevado e O «ah baixo.
Se a procura se desloco para a direito, o equilíbrio subirá pela curva da oferta.

a procura. As setas apontam para baixo, a fim dc mostrar a direção cm


que seguirá o preço em virtude da concorrência de vendedores. A um
preço menor do que os J5 de preço de equilíbrio, a barra indica que a
procura ultrapassa a oferta. Em conseqüência, os ansiosos lances por parte
dos compradores exigem que apontemos as setas indicadoras para cima.
para indicar a pressão que estão exercendo no preço. Sòmente no ponto C
haverá um equilíbrio de fôrças e um preço estacionário e sustentável.
Esta <5 a essência da doutrina da oferta c da procura.

• EFEITO DE UM DESLOCAMENTO DA OFERTA OU DA PROCURA

Já agora podemos pôr em funcionamento o mecanismo da oferta e da


procura. Gregory King, escritor inglês do século XVII, percebeu que,
quando a safra era má, subia o preço dos gôncros alimentícios, e que
quando era farta, os agricultores obtinham um preço mais baixo. Vamos
tentar explicar, com os nossos diagramas, o que sc passa.
A fig. 4 mostra de que modo um período dc mau tempo reduz a quanti­
dade que os agricultores irão oferecer aos preços de mercado c, com isso.
desloca o ponto de equilíbrio £. A curva oo se deslocou para a esquerda
e passou a ser a curva oV. A da procura não sofreu alteração. Em que
ponto irá a nova curva da oferta ©V cortar a curva ddf Ê claro que em E,
100 inteoduçAo A análise econômica

o nôvo preço de equilíbrio ao qual a procura c a nova oferta reduzida


voltaram a equivaler-te. Naturalmente. P sofreu uma alta e, graças à lei

da procura decrescente, Q diminuiu.


Vamos supor que, ao contrário, a curva da oferta, devido ao bom tempo
e aos fertilizantes, tivesse aumentado. Trace um nôvo equilíbrio E", com
P mais baixo e Q mais alio.
Nossa aparelhagem também nos irá ajudar a analisar o efeito de um
aumento da procura. Suponhamos que a elevação dos rendimentos domés­
ticos façam com que todos desejem mais trigo. Nesse caso, a um P inal­
terado. teremos agora a procura de mais Q. A curva da procura irá
deslocar-se para a direita, para d'd\ A fig. 4b mostra a viagem que daí
resulta, pela curva de oferta, medida que a procura ampliada eleva os
preços competitivos.

• DOIS OBSTÁCULOS

A essa altura, é melhor fazer uma pausa e examinar duas pequenas


fontes de uma possível confusão, que têm deixado intrigados estudantes de
Economia de tôdas as gerações. O primeiro ponto se refere ao importante
fato dc que, ao traçarmos uma escala ou curva de procura, sempre insis­
timos que "as demais condições devem permanecer iguais". O segundo diz
respeito ao exato sentido em que a procura c a oferta são iguais quando
há o equilíbrio.
"Constantes os demais elementos ” Para traçarmos uma escala da procura
de trigo, alteramos o preço do produto e observamos o que aconteceria
à sua quantidade adquirida em dado per todo de tempo em que não se
permite que nenhum dos demais fatóres se altere para prejudicar nossa
experiência. Dc modo específico, isso significa que, enquanto alteramos o
P do trigo, não devemos, ao mesmo tempo, modificar a renda familial ou
o preço dc um produto concorrente como o centeio, ou qualquer outra
coisa que apresente tendência a deslocar a escala da procura do trigo.
Por quê? Porque, à semelhança de qualquer cientista que deseja isolar os
efeitos de um fator causai, devemos tentar modificar apenas uma coisa
<le cada vez. É bem verdade que em Economia não podemos realizar
experimentos controlados em um laboratório, e são raras as vê/es em que
podemos manter constantes os demais elementos ao fazermos observações
estatísticas de magnitudes econômicas. Essa limitação de nossa capacidade
dc fazer experiências empíricas em Economia dá ainda maior importância
ao faio de que devemos ser claros no nosso pensamento lógico, de modo
(jue possamos esperar reconhecer c avaliar tendéndas importantes — como
o efeito de P no Q procurado - quando se dá a possibilidade de outras
tendências estarem influindo na situação ao mesmo tempo.
OFERTA E PROCURA: ELEMENT 101

O caso do deslocamento da procura, na fig. 4b, pode exemplificar H


sofisma comum baseado num desrespeito à regra de que os demais dê-
men tos devem ser mantidos constantes ao definir-se uma curva de procura.
Suponhamos que a curva da oferta se desloque pouco, ou nada. Vamos
supor, porém, que a curva da procura se desloque para cima, para <f<f,
nos bons tempos em que haja fartura dc empregos c as pessoas tenham
rendimentos que lhes permitam comprar mais trigo. Suponhamos, ainda,
que na fase mais deprimida do ciclo econômico a procura se desloque
sempre para baixo, para dd. Agora, tome de uma íôlha de papel milimc-
trado c trace aquilo que seria realmente registrado nas estatísticas do
mercado de trigo.
Nos bons tempos, você registraria o ponto dc equilíbrio £' e, em épocas
más, o ponto £. Pegue uma régua c una os ponu» E c £*. O sofisma que
deve scr evitado como se evita uma praga é expresso da seguinte maneira:
"Desmenti a lei da procura decrescente, pois vejam que quando P estava
alto, Q também estava, como demonstrado por E quando P foi reduzido,
esta alieiação, em vez dc aumentar Q, na realidade reduziu-o, como de­
monstrado por £. A reta que tracei unindo E c E' representa uma curva
da procura inclinada para cima, não para baixo. Assim, refutei uma lei
econômica básica.**
Avisado com antecedência, pcrcebc-sc o sofisma desse argumento, porque
ao mesmo tempo cm que P sc elevou, os demais fatôres não permaneceram
constantes: pelo contrário, a renda tambéin aumentou. A tendência de
desestimular as compras, existente numa alta cm P, foi mais que encobena
pela tendência contrária de elevação da renda para aumentar as compra*.
Em vez dc testar a nossa lei econômica movimentando-se ao longo da
curva da procura, o principiante mediu alterações que resultam do deslo­
camento da curva da procura.
Por que será prejudicial êsse método cientifico? Porque nos leva a
resultados absurdos como o que sc segue: "Com base na minlia revolucio­
nária refutação da lei da procura decrescente, tenho confiança em prever
que, nos anos em que a safra fôr especialmente Carta, o trigo será vendido
por um preço mais alto, e não mais baixo." Êsse raciocínio não apenas
nos levará a previsões absurdas que fariam com que um especulador ou
um moageiro perdesse uma fortuna, como também fará com que reco­
nheçamos outras impoi lantes relações econômicas, como o fato de que,
quando a renda familial sc eleva, as curvas da procura dc produtos como
o trigo tendem a deslocar-se para a direita.
Significação do O segundo obstáculo é mais sutil, com
equilíbrio.
menores probabilidades de surgir, mas não é tão fácil desfazermo-no* déle.
É sugerido pelo que sc segue: "Como pode você declarar que a Igualdade
da oferta e da procura determina uni preço de equilíbrio? Porque, afinal.
102 INTRODUÇÃO À ANÁLISE ECONÔMICA

<t quantidade que um homem vende i exatamente aquela que outro


compra. A quantidade comprada deverá, sempre, scr igual à vendida, não
importa o preço; assim, esteja ou não o mercado cm equilíbrio, um estatís­
tico que registre a Q comprada e a Q vendida verá que as duas serão
sempre necessariamente idênticas, constituindo cada uma um aspecto dife­
r e n t e de exatamente a mesma coisa.*'
A resposta a êvse argumento deve ser redigida mais ou menos assim:

Você tem tôda razão ao dizer que a Q comprada c a Q vendida devem ser idênticas
quando registradas |»ui um estatístico. Entretanto, a pergunta importante é a seguinte:
a que P a quantidade que os consumidores estão dispostos a continuar comprando será
igualada por aquela qur os produtores estão dispostos a continuar vcndendoT A êsse
pre^o, ao qual há igualdade entre as quantidades que os fornecedores c os consumidores
querem continuar vendendo e comprando, c sòmcntc a êsse P. não haverá tendência
|ura uma elevação ou queda dc preço.
A qualquer outro preço, como no caso cm que P está acima da interseção da oferta
c da procura, é fato corriqueiro que quaisquer bens negociados apresentam identidade
estatística da quantidade comprada c vendida. Essa identidade medida, porém, não
nega de modo alguin que os fornecedores, a um preço assim tão elevado, estejam ansiosos
por vender mais do que os consumidores irão continuar a comprar, c que êsse excesso
de oferta programada sôbre a procura programada exercerá uma pressão baixista no
preço, até que êste atinja o nível dc equilíbrio cm que as duas curvas se cruzam.
Nessa interseção dc equilíbrio, c sòmcntc nela, estarão todos satisfeitos: o leiloeiro,
os forncccdorcs, os consumidores... c o paciente estatístico, que acusa iciupic uma
identidade entre as quantidades compradas c as vendidas.)

• O QUE A OFERTA E A PROCURA CONSEGUIRAM: EQUILÍBRIO GERAL

Uma vez que já vimos como funcionam a oferta e a procura, façamos


um levantamento do resultado obtido. Os bens escassos da sociedade
foram racionados entre os seus possíveis consumidores. Quem fêz o racio­
namento? Um conselho, um comitê? Não. Foi o mecanismo de leilão do
preço competitivo. Foi um caso de “racionamento pela bolsa”.
Para Quem os bens são destinados, foi parcialmente determinado por
quem estivesse disposto a pagar por êles. Se vocc contou com os votos
monetários, obteve o trigo. Em caso contrário, não conseguiu nada. Ou,
então, se possuía os votos monetários mas preferiu não gastá-los comprando
trigo, passou sem êle. As mais importantes necessidades de bens — desde
que apoiadas por moeda corrente! — foram satisfeitas.
Ao mesmo tempo, a pergunta relativa a O Qué estava sendo parcialmente
respondida. A elevação do preço foi o sinal para que houvesse maior
suprimento de trigo, sinal para que homens e outros recursos escassos
passassem de funções alternativas para a indústria da produção do trigo.
Até a pergunta Como estava sendo parcialmente decidida, nos bastidores,

a fdéntieo problema de identidade medida «mus intcneçSo de curvas poderia surgir na discusslo
«fe determinac*» da renda, feita no capitulo 12.
OFERTA E FRQCVRA: EUCÚLMOI 103

pois com os preços do trigo cm alta, os fa/endeiro» podiam pagar tratores


e fertilizantes caros e, assim, tornar úteis a» terras mais pobres.
Qual o motivo da inclusão do termo "parcialmente" nessa descrição da
maneira pela qual o mercado competitivo ajudou a resolver os três pro­
blemas? Porque o mercado dc trigo é um dentre muitos. O que estiver
acontecendo no mercado dc milho c de centeio também tem importância,
e é claro que importa, c muito, o que se estiver passando no mercado de
fertilizantes, de homens c dc tratores. Como veretnos mais tarde, o pro­
blema da formação de preços envolve mercados interdependentes, não
apenas o "equilíbrio parcial" dc um só mercado.*
Existem, por assim dizer, leiloeiros agindo simultaneamente nos diversos
mercados diferentes - trigo, milho, fertilizante c terra; mão-de-obra, li,
algodão, carne de carneiro, e rayon; títulos, ações c empréstimos indivi­
duais. Cada qual acaba por chegar ao ponto dc equilíbrio em que se dl
a interseção dc suas curvas da oferta e da procura - preços do trigo, do
milho c do fertilizante, c renda da terra; salário da müodc-obra. preços
da lã, do algodão, da carne dc carneiro c do rayon; a cotação do título
e seus juros, a cotação da ação c seus dividendos, e os juros cobrados
sôbre os empréstimos individuais. Mercado algum é uma ilha isolada.
Quando o P da lã se eleva (digamos que cm virtude de uma doença que
atacou os carneiros no exterior), puxa para cima os ? internos da mão-
-doobra, do fertilizante c da terra necessários a uma maior produção de
15; aumenta os preços de produtos rivais, como o algodão, para os quais
irflo voltar-se, nesse caso, alguns consumidores*, e bem poderia reduzir o P
dos teares e das ações dc companhias fabricantes de roupas, uma vez que
estas agora se vêem obrigadas a pagar mais pelas suas matérias-primas c
poderão diminuir o grau dc procura de mão-de-obra para fiação.
O nôvo conjunto de equilíbrio geral dos preços interdependentes ajusta-
se à nova situação. O sistema de preços enfrenta o problema criado pela
definição básica da Economia: é o estudo de (1) como são distribuídos
meios escassos com aplicações alternativas — terra e trabalho limitados
que podem ser transferidos de uma indústria para outra — e (2) como
atingir os fins c metas prescritos pelas preferências rclati vas à lã, ao nylon,

> Ao Ic.tor atento nlo seal |iniao kabm qu« o mercado cmprtiiho ci bem à^wlw qw
ixwilira rara nooetirios. e ülo de maneira cfkkme. bus a dhtvibuicSo 4hm sotas depende
d* ptev> pelo qual conieguimo* tendei o now trabalho e s som propriedade no mercado de
(aiôrcs compel iü«o e no imperfeitamente competitivo. e é afetada, dc modo tasimm. (J) pela
tarte que tivermos. (2) pela soitc que tiverem nossos pais c parentes afim; « (S) pela»
e desvantagem dc nouas habilidades e apfldSes. tanto genéticas como adquiridas. Nlo estari enganado
v estudai ic que escrever, num exame final, que **a Qoeatlo relativa ■ Para Quem é «kcidkla (em
pute) pela maneira pela qual as pestoas resolvem utilizar seus ntfos mooetliW*. Ka < ndade.
(se estudante poderá receber 50% dos pontos Entretanto, nlo comeguirá oa outras SM» ac Ma
acrescentar: **0 problema bSneo rm rebelo ao item fira Qnrea é o proccsm por que Us ártrcat-
nados os própria «ocos moaecários. o W nSo se dá. íundamentalaacw. pda «fcma # ncia pnwi
ro mercado de um único bem. mas peta oferta e pela pronara nas nwrradoa de afla á» obra, sem
• outros fatAres Interdependente» que K encontram na quarta parte.**
10*1 INTRODUÇÃO À ANÁLISE ECONÔMICA

aos alimentos c à moradia que têm os soberanos consumidores donos de


fatôres dc produção que lhes proporcionam rendas cm votos monetários
para serem aplicados no mercado. Cada mercado, com as suas curvas da
oferta c da procura, faz a sua parte em prol da criação do conjunto de
preços de equilíbrio geral, que na sociedade cm que vivemos resolve os
problem.is econômicos básicos relativos a O QxiS, Como e Para Quem.

• PERFEIÇÃO E IMPERFEIÇÕES DA CONCORRÊNCIA

Nossas curvas da oferta e da procura se aplicam estritamente a um


mercado perfeitamente competitivo, onde certo (ipo dc mercadoria padro­
nizada, como o trigo, está sendo leiloado por um intercâmbio organizado
que registra transações de numerosos compradores e vendedores. A. Câmara
de Comércio dc Chicago é um desses exemplos, e as bôlsas dc algodão de
Nova Iorque ou de Liverpool são outros. A Bôlsa de Valôrcs dc Nova
Iorque, embora não ponha em leilão bens e mercadorias ou serviços pro­
dutivos prestados por fatôres de produção, proporciona um mercado no
qual sao vendidas pelo melhor preço, durante todo o dia de trabalho, ações
ordinárias como as da General Motors c da Royal Dutch Petroleum.
Muitas debentures também são adquiridas e vendidas na divisão dc deben­
tures da Bôlsa.
As curvas da oferta e da procura do economista constituem importantes
meios de idealizar o comportamento dêsses mercados. Não têm a pretensão
de dar uma descrição microscópica e acurada do que ali se passa a cada
momento, quando homens de vários escritórios de corretagem se acoto­
velam no saguão enquanto fazem nervosos sinais com a mão e gritam
para o especialista que atua como leiloeiro para cada lote dc cereais ou
ação de uma companhia. Apesar disso, os instrumentos da oferta e da
procura resumem, realmente, as importantes relações médias que resultam,
depois de certo tempo, de um comércio assim organizado.
No que concerne a êsses instrumentos fundamentais da oferta c da
procura, pouco importa o tipo de troca a que os bens são negociados*,
se são usados sinais com a mão, ou pedacinhos de papel; se o leilão é
do tipo conhecido, com o leiloeiro anunciando um preço mínimo inicial
c aceitando lances cada vez mais altos até que só reste o lançador que
ofcrcccu o preço mais elevado para obter o Renoir em questão; se há
um “leilão holandês", onde o preço começa alto, e não baixo, e vai
desccndo a intervalos determinados, até que um lançador ansioso, temendo
que outra pessoa se adiante, acaba por dar o primeiro lance c leva a
mercadoria; ou se o leiloeiro pede que os lances e as ofertas sejam feitos
por escrito, para que êle possa armar um quadro ou uma tabela como
exemplificado no quadro 5 e na fig. 3, e encontrar de um só golpe o
pomo de interseção em que se dá o equilíbrio.
oferta r. procura: ruMrNToi 105

Ot intlrurronlo» do oforta • do procura tém muitas aplicoçfot:

ENGENHEIROS
"GRAY GOODS" ELETRICISTAS TITULO OU TERRA MOCOA ESTRANGEIRA
S REC Í M - f ORM AOOS

I •
O *

■■■■■ 0
QUANTIDADE QUANTIDADE QUANTIDADE QUANTJOAOf

Fig. f êstei >5o algum «imploi dot muitos aplico c&es do oferto • do procuro. Obwrri q— nos
diagrama» foram utilizadas reta» am vox das curva» dos figuras antsrloresi oo trotar do oferto o do
procura o om muitos outros diogromas o economista froqOonteioente utiliza lues gráficos simplificados
sioiplssmento porque são aproondldos a um golpo do vbtai habitua Imento comiitvoa oprexlmoç&o
sufidonto dai verdadeiras curvas orrplricas, mas, quando isio ndo acontece, 4 r&ü ■odWwr as
rotas. (Exomplot A oforta do ongonholros olotrldstai recém-formados coraHtui námoro rolaftromirto
fixo, o Isso fato é Indicado na linha do oforta vortical do segundo dia grana; entretanto Iwo repro-
senta um oxaglro se considerarmos que, ò mvdkla qve os salários atingem nW«l w f i d b a i x o ,
alguns dos alunos soidos do» colágios orronjorto enpregos em outros solares e outros odrorAo
para as faculdades — roxõo por que o «n»a oo se dirige para a osqoerdo quando oo salários sfto
baixos.)

Na verdade, o mercado não precisa ter apenas um leiloeiro. Todos


os lances podem muito bem ser feitos por telefone, como é o caso do
mercado de obrigações do govêmo dos Estados Unidos, que é muito mais
perfeito do que o das ações ordinárias no salão da Bòlsa de Valôvcs de
Nova Iorque. O mesmo pode acontecer com relação &s ações relacionadas
no chamado "mercado no balcão*’, um mercado completamente dirigido
por todo o pais por telefone e pela remessa diária, pelo correio, de listas
de cotações preparadas por diferentes corretores. Por exemplo, uma açio
importante, como a da Time, Inc., relacionada nesse mercado, poderá
comportar-se dc modo mais identificado com o nosso modela competitivo,
do que certas ações negociadas inativamente no salão da Bôlsa de Valòres
dc Nova Iorque.
Não é preciso dizer que os requisitos para uma concorrência absolu­
tamente perfeita são tão difíceis de satisfazer quanto aquiles, na Física,
para um pêndulo perfeitamente isento de atrito. Podemos aproximar-nos
cada vez mais da perfeição, mas nunca alcançá-la, o que não precisa causar
sério dano à utilidade do nosso emprêgo do conceito idealizada Na
verdade, tem pouca importância, para o cientista econômico, o falo de
que tipos diferentes de trigo provocarão ligeiras variações nos preços
cotados no mercado. Pouco importa, também, que os corretores de câmbio,
106 INTRODUÇÃO À ANÁLISE ECONÔMICA

dijos lances c ofertas determinam se o preço dc unia libra esterlina (ou


franco francês) será cotado a §2,79 e não a 52,80 (ou a 20,3 ccntavos
c não a JO.l centavos), se utilizem do telefone e do telégrafo de preferência
ao salão dc leilões, sob a presidência de um leiloeiro ou especialista em
revenda. I amjxnico importa, no caso de produtos de algodão padroni­
zados, os chamados "panos crus”, que sejam êles vendidos e comprados
de modo informal por muitas firmas concorrentes: enquanto houver inú­
meros compradores e vendedores de cada lado, bem informados quanto à
qualidade c aos preços de cada um e sem razão para discriminações entre
um comerciante e outro e para esperar que as variações dc seus lances c
suas ofertas exerçam influência apreciável sôbre o preço que prevalece
no mercado — enquanto tudo isso acontecer, pode-se esperar que o com-
poitaincnto do preço e da quantidade sc aproxime muito daquele previsto
pelas curvas da oferta e da procura.
Os vários diagramas da íig. 5 ilustram a maneira pela qual os instru­
mentos da oferta e da procura poderiam ser usados para fazer uma boa
descrição aproximada de várias situações econômicas que não a de um
produto primário como o trigo: ali está retratado um mercado competitivo
dc panos crus dc algodão; dc um fator dc produção como engenheiros-
clctricistas recém-formados, cujo preço é representado por um salário
mensal; de uma obrigação ou de uiu bem de capital como um terreno dc
esquina; e, finalmente, como será explicado mais tarde na discussão do
comércio internacional na quinta parte, um mercado dc câmbio cm que
o preço cm dólares de uma libra esterlina, dc um franco francês, ou dc
uma simples unidade de qualquer outra moeda estrangeira, é determinado
pelos lances daqueles que precisam de moeda estrangeira e pelas ofertas
daqueles que querem vender essas moedas a fim dc obterem dólares norte-
americanos.4
É claro que nem todos os mercados estão próximos, hoje cm dia, cie ser
competitivos no sentido que lhes dá o economista. Veremos mais tarde,
na terceira parte, que poderá haver a intromissão de elementos dc fôrça
monopolista ou dc imperfeição dc mcrcado c que essas imperfeições nos
irão obrigar a modificar o modêlo competitivo. Depois de lênnos apren­
dido a cuidar de casos assim, iremos reconhecer que o mundo é uma
combinação dc concorrência e imperfeições - o que significa que a análise
competitiva, qualificada de maneira apropriada, ainda constitui um in-
dispensável instrumento para interpretarmos a realidade.

« o ,flBa n« 9, no final déste capitulo, rcprodui 0 movimento financeiro publicado por um


jornal e retalho a um único dia. roortrando quais poderiam ter sido as cota<fes pare cercab, obrl-
gacóo a<V. ordinários c cimbio. Depois de estudar Kcooomla. fka^e em melhora cond^fles de
compreender » ífirt« biilcn que e«5o por trfe dt-c. prep»; nu. .6 « experlímu C „ «fido
podem fuer de alguím um rcioéttl peril, no .irbado J«*o dl prerlOo.
OFERTA E PfcOCURA*. fXEMZXK» 107

SUMÁRIO
1. Um problema básico da Economia é a maneira pela qual o meca­
nismo da formação de preços do mercado ataca o trio de problemas rela­
tivos a O Quê, Como e Para Quem.
2. Por escala da procura queremos dizer um quadro que mostra as
diferentes quantidades de um bem que — a qualquer época c com 01
demais elementos mantidos constantes — as pessoas quererão comprar a
cada um dos diferentes preços. Esta relação, traçada sóbre um diagrama,
é a curva da procura.
S. Com exceções sem importância, quanto mais alto o preço, menor
será a quantidade procurada, e vice versa. Quase tòdas as mercadorias
estão sujeitas a essa "lei da procura decresccnec".
4. A curva ou escala da oferta fornece as relações entre os preços e
as quantidades de um bem que os produtores estarão dispostos a vender
— desde que os demais fatôres permaneçam constantes. Geralmente, as
curvas da oferta seguem para cima e para a direita: rendimentos decres­
centes significam que é necessário um P mais elevado para atrair um Q
extia a custo mais alto.
5. O equilíbrio do mercado só pode acontecer a um preço ao qual u
quantidades oferecidas e pronuadas são iguais. A qualquer preço mais
alto do que o ponto de interseção das curvas da oferta e da procura, a
quantidade que os produtores irão querer continuar a oferecer excederá
a que os consumidores continuarão a procurar. Haverá uma pressão nos
preços para baixo, quando alguns vendedores solaparem o preço em vigor.
Da mesma forma, o leitor está em condições de mostrar porque um pic^o
mais baixo do que o preço de equilíbrio encontrará uma irresistivel pressão
para cima.
6. A formação competitiva do preço raciona a oferta limitada de bens
para aquéles que têm o desejo ou a necessidade apoiada por votos mone­
tários. Ao mesmo tempo em que ajuda a decidir o problema de Para
Quem, essa formação assinala alterações era O Que será produzido e em
Como será produzida Qualquer um dos mercados, porém, só ajuda “par­
cialmente” a resolver as questões quanto a O Quê, Como e Para Quem,
porque devemos notar sua interdependência com outros mercados de
produtos e fatôres para a instalação do sistema de preços em que o
equilíbrio é geral.
7. Existem mercados organizados para a comercializaçilo de produtos
primários como o trigo. É possível que também existam dêsses mercado*
para certas ações ordinárias, obrigações e outros itens financeiros. Há*
ainda, outros mercados que sc comportam cm grande parte como um
mercado leiloeiro, mesmo que não haja o modo formal dc agir dos leiJões:
108 INTRODUÇÃO À ANÁLISE ECONOMIC*

enquanto existirem numerosos fornecedores e consumidores bem infor­


mados. cada um demasiado insignificante para causar, sozinho, efeito
apreciável sôbre o preço do produto padronizado em questão — enquanto
prevalecerem essas condições, os instrumentos da oferta e da procura
darão uma aproximação adequada do comportamento desses mercados.
Xo entanto, como será visto mais tarde, uma grande parte da moderna
realidade econômica se afasta do rigoroso modélo competitivo do econo­
mista. e êste deverá encontrar instrumentos aplicáveis ao monopólio e à
concorrência imperfeita.

TEMAS PARA DISCUSSÃO

1. Embora devêssemos todos gostar dc escapar às agruras compreen­


didas em um preço mais elevado, mostre que os preços em ascensão
podem reali/ar certas funções úteis cm época dc escassez. Mostre dc
que maneira essas agruras poderiam ser solucionadas num tipo di­
ferente de economia.
2. Defina cuidadosamente o que significa uma escala ou curva de
procura. Exponha a lei da procura decrescente — de que há uma
espécie de relação inversa entre P e Q, baixando um quando o
outro sobe.
3. Defina o conceito de uma escala ou curva da oferta. Mostre que
um aumento da oferta significa um deslocamento, para a direita
c para baixo, da curva da oferta. Compare isso com o deslocamento
para a direita e para cima provocado por um aumento da procura.
Qual o motivo da diferença? Discuta os casos em que a oferta e a
procura diminuem.
4. Quais os fatôres que poderiam aumentar a procura do trigo? E a
oferta? Qual a inlluência que teriam sôbre os preços do algodão as
colhedoras mecânicas de baixo preço? E sôbre os salários dos traba­
lhadores rurais?
5. Alinhe argumentos que mostrem que o preço deve estabilizar-sc no
ponto de equilíbrio da interseção da oferta e da procura. Utiluc
um P demasiado alto ou demasiado baixo.
6. "Um aumento (ou queda) da oferta fará com que o preço baixe
(ou se eleve). Um aumento (decréscimo) da procura, de modo
geral, elevará (baixará) o preço. Embora possamos prever que um
aumento da procura acompanhado por uma redução da oferta será
seguido de uma elevação do preço, não podemos adivinhar, sem
outras informações, o que acontecerá se aumentarmos a procura e
aumentarmos a oferta ao mesmo tempor Verifique isso. Descubra
o porque disse uso dos parênteses, que é comum em Economia.
OFERTA E PROCURA: M1MENTQI 109

7. "Um aumento da procura c uma redução da oferta, simultâneos,


como no lema G acima, é estatisticamente impossível. A procura I
a oferta são identicamente a mesma coisa." Comente essas afirma­
ções em têrmos da seção que tratou dos "Dois obstáculos".
8. “Sc houver apenas um vendedor ou uns poucos vendedores muito
grandes, haverá necessidade de considerar o monopólio e a teoria
da concorrência imperfeita, e não os instrumentos da oferta e da
procura competitivas. Se os produtos estão longe de serem padro­
nizados, então é bem possível que cada vendedor de uma marca
registrada exerça certo grau de contrôle do seu preço, o que não
acontece com o concorrente perfeito definido pelo economista."
Verifique essa afirmação e faça uma relação das condições neces­
sárias à "concorrência perfeita**.
9. Tente decifrar o que significam as seguintes informações extraídas
de jornais:

10. Reveja sua compreensão dos seguintes conceitos:


O Quê, Como c Para Quem
escala ou curva da procura
lei da procura decrescente
escala ou curva da oferta
rendimentos decrescentes
interseção de equilíbrio
deslocamentos de escalas versus movimentos ao longo de uma escala
como a oferta e a procura, cm um mercado, resolvem "parcialmente
os problemas quanto a O Quê, Como e Parê Quem
preços de equilíbrio geral
situações imperfeitamente competitivas.
110 INTRODUÇÃO k ANALISE ECONÔMICA

APÊNDICE: FLUTUAÇÕES DO MERCADO DE TÍTULOS

Paro o publico, o exemplo mais dra­ Naturalmente, os prêmios estão todos


mático de um mercado competitivo é for­ no papel e dasapareceriam se todos
necido pela Wall Street, onde, segundo tentassem transformá-los em dinheiro.
a segundo, a oferta e a procura fazem Mas por que iria alguém querer vender
subir e descer os preços das ações ordi­ apólices assim tuo lucrativas?
nárias ou das quotas de participação. Quando o mundo inteiro está louco, é
Conquanto seja verdade que apenas loucura ser sensato. Vamos supor que
18 milhões dos 190 milhões de america­ alguém fôsse tão sábio ou tão ingênuo
nos possuem ações no que a Bôlsa de a ponto de acreditar que as companhias
Valâres de Nova Iorque chama de "ca­ de utilidades públicas são pirâmides
pitalismo do povo", todos gostam de de papel erguidas sôbre alicerces de
ler os manchetes sôbre assuntos finan­ papelão; ou que os maravilhosos de­
ceiros e prever os acontecimentos dos senvolvimentos imobiliários do Flórido
centros financeiros de tôdas as partes estão a meio caminho entre a espêssa
do mundo. floresta de pinheiros e o pântano; ou
Nos Estados Unidos, duronte a fabu- que os empréstimos externos particula­
íosa alta da bôlsa na "ruidosa década res, concedidos à América do Sul e ò
dos 20", donas de casa, carregadores Europa, estavam sendo dissipados em
da Pullman, estudantes universitários nos estradas para lugares inexistentes ou
intervalos das cuias, todos compravam em piscinas públicas. O que poderia
e vendiam ações. A maioria das com­ fozer um deslocado social dêsses? Iria
pras naquele agitado mercado de aprender, em pouco tempo, a primeira
"touros" 5 era feita na base do "sinal regra dos valôres das coisas: "uma
de entrada", isto é, o comprador de coisa vole aquilo que as pessoas acham
$10 000 de ações tinha que entrar ape­ que ela vale". Infelizmente, para que
nas com $2 500 ou menos, em dinheiro, funcionasse, essa regra teria que ser
e levantava a diferença caucionando aplicada em conexão com a segunda,
os títulos recém-adquiridos. O que im­ que é tão difícil de ser seguida, na prá­
portava ter êle de pagar ao seu corre­ tica, quanto amarrar um guizo a um
tor 6%, 10% ou 15% ao ano sôbre gato ou apanhar passarinhos colocando
o empréstimo, quando num só dia o sal nas suas caudas: “não seja o idiota
valor das ações da Aubum Motors ou que ficou na mão".
da Bethlehem Steel poderia dar um Quando veio o terrível estouro de
salto de 10%! outubro de 1929, todos foram apanha­
O ponto mais maravilhoso a respeito dos: os profissionais de primeira linha
do mercado dos touros 6 que êle cria e os Insignificantes amadores, Andrew
as suas próprias esperanças. Se as pes­ Mellon, John D. Rockefeller, o engenheiro
soas compram porque acham que as da Casa Branca, e o professor de Eco­
ações vão subir de valor, o seu ato de nomia saído de Yale. O mercado desa­
comprar eleva o preço dos títulos. Isso bou. Corretores tiveram que desfazer-se
as faz comprar ainda mais, provocando das contas dos investidores que com­
mais uma rodada da dança louca. E ao pravam na base do sinal de entrada e
contrário de um jôgo do cartas ou de que já não podiam pagar fundos extras
dados, ninguém perde o que ganham que cobrissem o esvaziado valor de
os vencedores. São todos premiadosl suas garantias,6 fazendo com que o

* A palavra "touro" nos E.U.A., quando apli­ * A divertida • Interessante crônica da década
cada ao comércio títulos, indica a pnitoa qui) dft 1920. Only Verfercfoy, de FREDERICK LEWIS
acredito quo o valor dos popéli Irâ aumentar. AUEN# apresenta um relato detalhado do pap«l
Em contraposição, aquêle que cr! o contrário 6 quo a alta no mercado de valôres rspresenfou
chamado d© "ur*o", (N. T.) na vida norte-americana.
FLUTUAÇÕES DO MERCADO DE TÍTULOS 111
|
A única coita certa sôbre proçot do açõts é qua irfio oscilar:

MÉDIA DOW.JOM£S DOS PREÇOS DAS AÇOtS INDUSTRIAIS


MO
•00

700

600

SOO
SOO

400

»00
■■■■■■
HKB >00
200

«00
100

1935 1940 1945 1950 1955 i960


1920 192 S 193D

Fla 6 X madlda que a ronda monetária nadoncl aumenta, em virtude do cre»dmento root • do
aumentos do nlvel do preço», a tendêndo dos pregos da. açSes ordinário» 4 paro dma. Obtorve,
porém, a» o»tHaç5o* violonta». (Font* Barron'» PublHMnO Co.J

mercado caísse ainda mais. Mesmo respeitáveis saíram completamente do


aquôles que não compraram ações por quadro. Aposar, mesmo, de o Presidente
êsse procosso perderam um têrço do Hoover e sua administração se mos­
teu capital até o fim do ano, e cinco trarem favoráveis ao comércio, em võo
sextos até 19321 tentaram restaurar a confiança anun­
O mercado dos touros chegara ao ciando que "a prosperidade está bem
fim. No seu lugar estava o mercado dos próxima" e que "comprar ações OOS
ursos. E, d semelhança do primeiro, queníveis atuais é um excelente negócio".
vivera de sonhos, o segundo foi consu­ For fim, em seguida à grande crise
mido pelos pesadelos. Bilhões de dóla­ bancária de 1933, o mercado de títu­
res em valôres eram arrasados todos los começou a acompanhar a recupera­
os meses, levando cora êles não apenas ção geral do comércio. A fig. 6 mostro
o capital de jcdagores que fôra apli­ os movimentos dos valôres das oções
cado visando a lucros especulativos, masem todo aquéle período. Embora os
também os minguados recursos da viúva, títulos chegassem à situação de mercado
supostamente investidos para que pro- de touros em 1936-1937 e durante a
porcionaisem uma renda constante. Uma Segunda Guerra Mundial, só em meados
ação “blue chip", como a da United da década de 1950 foi que voltaram
States, caiu de 261, em 1929, para 21 a níveis que se assemelhassem oos máxi­
em 1932, enquanto que papéb menos mos de 1929. A alta das atraentes
112 INTRODUÇÃO À ANÁLISE ECONOMICA

ações das indústrias de material ele- ações fore do mercado e limitam o


•fônico, que ocabou no colapso de mea­ número de transações, tendem a tomar
dos de 1962, confirmou que a natureza “mais fraco” o mercado. Num mercado
humano jamais sofre grandes alterações. fraco são tão poucas as transações, que
a tentativa de comprar algumas cen­
Adivinhando o Mercado? tenas de cções poderá fazer com que
Para a onfíqüUsima pergunta, sóbre se o preço dêsses papéis suba alguns pon­
é o mercado que segue a atividade tos, devido à ausência de vendedores
comeràal, ou a atividade comercial que prontos ao preço vigente no mercado.
segue o mercado, não existe uma res­ Uma tentativa de venda poderá redu­
posta simples. É razoavelmente claro zir o preço de alguns pontos.
que a atividade comercial, a renda 2. No outro extremo, estão aquêles
racional e os lucros das empresas de­ que vigiam a teletipo de hora em hora,
terminam os preços das ações, e não dia a dia, e que podem ser vistos em
vice verso; e também que os efeitos todo escritório de corretagem. Fclando
psicológicos dos movimentos do mercado em têrmos gercis, êles compram e ven­
já não rêm importância primordial. Ain­ dem, vendem e compram. De modo
da assim, o mercado pode, ocasional­ geral, só fazem dinheiro para os seus
mente, prever alterações na renda na­ corretores.
cional e no poder aquisitivo totcl. Ai, A existência desse grupo tem o efeito
éle parece antecedê-las, quando na de tomar menos fracoo mercado. Graças
realidade está seguindo aquHo que a êle, qualquer investidor pode esperar
pensa que elas seguirão mais tarde. conseguir liquidar os títulos que possui
Como invostir. Não existem regras a qualquer hora e a determinado preço,
infalíveis e simples para ganhar dinheiro embora êsse preço não possa ser pre­
com o mercado de títulos. Aquêle que visto nem seja aquêle que serio do seu
poder prever com exatidão o caminho agrado. Ainda assim, até essa "liqui­
que seguirá a atividade comercial, irá dez” restrita realça os atrativos das
prosperar. Mas essa possoo não existe. apólices negociadas em câmaras orga­
Podemos distinguir pelo menos quatro nizadas, em relação às emissões de com­
principais classes de investidores e es­ panhias menores não registradas nas
peculadores: bolsas e compradas e vendidas no bal­
1. O grupo que simplesmente compra cão dos corretores.
e guarda. Em virtude de a economia 3. No meio, estão os especuladores
nacional apresentar uma tendência para que jogam em oscilações intermediárias
cima, a longo prazo, os seus componen­ de muitos meses ou anos. Dêles, os que
tes obtêm resultados razoáveis em lon­ menos ganham são os omadores cuja
gos períodos. Poderiam ganhar um entrada no mercado no ponto máximo,
pouco mais se seguissem o conselho quando já é tarde demais, representa
estatístico dos serviços de investimento o sinal para a retirada do "dinheiro
quanto ò mudança para companhias esperto". Os especuladores de maior
com perspectivas de crescimento mcis sucesso são aquêles que podem evitar
favoráveis. Surpreendentemente, po­ os extremos do entusiasmo da multidão
rém, estudos representativos demons­ e discernir as condições econômicas bá­
tram que os melhores assessôres de sicas. Não quer isso dizer que êles sim­
fundos mútuos e investimento raramente plesmente compram porque uma ação
oblêm resultados muito melhores do que parece estar em baixa e vendam quan­
a média Dow-Jones de 30 ações in­ do parece estar em alta. Ao contrário,
dustriais. compram quando os títulos apresentam
O efeito désse jôgo controlador não indícios de que continuarão a subir.
é nem estabilizar nem desequilibrar os Quando uma queda parece iminente,
Drecos; na medida em que congelam vendem a têrmo ou, agindo de modo
FLUTUAÇÕES DO MERCADO DC TÍTULO* US

mais conservador, convertem os títulos grupo — como o vetw estadista de


que possuem em dinheiro ou em obriga­ duas guerras, Bernard Baruch — sõo
ções de alta categoric. É preciso ter os que maiores lucros obtém do mer­
nervos de aço para vender a térmo, cado. Desde a Segunda Guerra Mun­
porque, de modo geral, o mercado é dial, alguns operadores vigüontes con­
superotimista. Porém, se um indrvfduo seguiram transformar 1 000 dálares em
agir com inteligência, poderá conseguir 10 000000 de dólares ou mais; man­
evitar os prejuízos de um mercado de tendo, ao mesmo tempo, os lucros na
ursos. forma de lucros de capital sujeitos a
O comportamento dêsses especula­ uma tributação mais leve.
dores tem, muitas vêzes, o efeito de Entretanto, o investidor deverá deco­
desequilibrar os preços. Êes "atacam" rar a advertência de Baruch:
quando há uma elevação de preço,
aumentando-o ainda mais. Da mesma i Se estiver disposto a abandonar
forma, acentuam umq baixa. tudo o mais — a estudar, com o cui­
4. Finalmente, há indivíduos que estu­ dado com que um estudante de me­
dam situações especiais. De fonles públi­ dicina estuda Anatomia, tõda a his­
cas ou “dos bastidores", têm conhecimen­ tória e todos os antecedentes do
to antecipado das alterações nos destinos mercado e tôdas as principal com­
de determinadas companhias; de pro­ panhias cujas ações esteiam na
paladas falências; de dividendos es­ bôlsa — se puder fazer tudo isso
peciais, de distribuição de "filhotes" ou e, ainda mais, se tiver o sangue
de fusões; de prováveis participações frio de um grande jogador, o sexto
de lucros e dividendos. Quando combi­ sentido de uma espécie de vidente
nados com características auspiciosas e a coragem de um leão, você terá
do terceiro grupo, os meubros déste um fio de esperança.
ORGANIZAÇÃO E RENDA DA EMPRÊSA

O negócio dos Estados Unidos sâo os negócios,


Calvin Coolxdci.

Para compreender a nossa civilização dos negócios, é preciso primeiro


que compreendamos a organização e o funcionamento da emprêsa co­
mercial. A primeira parte deste capitulo conduz à análise da emprêsa
moderna, principalmente por um estudo extensivo de um caso concreto.
A segunda metade diz respeito à estrutura financeira das emprésas, em
particular da moderna empresa de larga escala, ou "gigante".
O apêndice a êste capitulo apresenta uraa breve introdução aos ele­
mentos fundamentais da contabilidade. Sem uma certa compreensão dessa
matéria, não pode haver conhecimento profundo da economia da emprêsa.
Em 1964, existem quase cinco milhões de unidades comerciais norte-
americanas. Com exceção dc uma fração muito diminuta, tòdas elas são
unidades muito pequenas, de propriedade dc uma só pessoa. A maioria
das emprésas está cm atividade hoje, e de portas fechadas amanhã, sendo
de apenas seis anos a expectativa média dc vida de uma organização.
Algumas acabam abrindo falência; muitas mais terão suas atividades encer­
radas voluntariamente, com suspiros dc pesar pelas esperanças perdidas
e por uma dispendiosa lição aprendida; outras, ainda, terão um alfgrc
fira quando seu proprietário, o "patrão de si mesmo*', acaba arranjando
um eraprêgo bom c estável.
Mais depressa do que morrem as empresas, nasccm novas. A atual popu­
lação de firmas cresceu como resultado do excesso cumulativo de nasci­
mentos sôbre as mortes das emprésas nos anos anteriores. À medida qu^
uma economia sc desenvolve, podemos esperar um contínuo excesso BI
nascimentos comerciais cm relação às mortes.

# GRANDE EMPRCSA, PEQUENA EMPRÊSA E EMPRÊSA MICROSCÓPICA

Km número, a emprêsa pequena, transitória, dc "propriedade indivi'


dual”, é esmagadoramente a forma dominante nos meios comerciais noift-
ORGANIZAÇÃO C RENDA DA DCPRÊ&A 115

-americanos. Entretanto, cm térmos dc valor cm dólares, poder politico c


econômico, folhas de pagamento, e emprego, algumas centenas de W
presas gigantes" ocupam uma posiçíio dominante, do ponto de vista
estratégico.
Examinemos rapidamente o papel das “emprêsas microscópicas*' cm
nossa economia. Nos Estados Unidos, existem mais dc 400000 proprietá­
rios de mercearias, todos êles tentando ganhar a vida. Há mais dc 250000
postos de gasolina; mais de 50 000 drogarias; e assim por diante.
Alguns dêsses empreendimentos conseguem resultados altamente com­
pensadores, mas ainda é verdade dizer-se que a maioria não rrnde aos
seus proprietários muito mais do que êstea poderiam obter com menor
csfôrço e risco irabalhando para outra pessoa Assim é fjue as cadeias de
lojas realizam cêrca de 45% dc todos os negócios do ramo dc secos c
molhados, ficando o restante dividido entre os vendedores independente»
Êstcs, em sua maioria, são constituídos pelas chamadas lojas mMa and P*#7
fazendo menos de 100 dólares de negócios por dia. Com freqüência, são
organizadas por pessoas que só contam com alguns milhares de dólares dc
capital inicial, o que representa menos da metade da quantia necessária
para uma mercearia reali/ar negócios no valor dc 150 dólares por dia,
dc que o proprietário precisa se quiser receber ao menos ura mínimo de
salário pelo seu esfôrço. Êsses empreendimentos de pequeno vulto estilo
condenados desde o nascedouro. Quando o capital inicial do proprietário
estiver todo aplicado, chega o fim. Isso explica por que dc um tèrço a
metade de todos os estabelecimentos varejistas cerra as portas antes dc
completar dois anos de atividade.
Naturalmente, os ramos de comércio diferem na quantidade de capita)
exigida. A construção de um moderno pôsto de gasolina custa mais dc
90 000 dólares, mas arrendar um pôsto de uma companhia de petróleo
faz com que o capital se reduza a cêrca de 5000 dólares. As ocupações
com um elevado "giro de estoques" — como as quitandas — exigem, como
é óbvio, um capital inicial mais reduzido do que as drogarias, as lojas
de ferragens ou as joalherias, onde muitos artigos de seu estoque fica rio
de S a 5 anos nas prateleiras c onde a proporçto do "giro” das vendas
anuais para os estoques poderá ser, em média, menor que a unidade.
Além do capital necessário para montar um negócio, há o tremendo
esfòrço pessoal exigido. Os f a rendeiros que trabalham por conta própria
ficam em atividade, geralmente, de 55 a 60 horas por semana, enquanto
que os empregados das fazendas trabalham cêrca de 45. Da mesma forma,

1 Lojas de propriedade dc u» casal, onie os dob atendem aos bt«mh «■* • W* ,flr“ *
Mm e Pm, cm ponosoê*. seria -Seu” e “Doar iN.Tj
116 introdução \ ANÁLISE ICONÔMICA

calculate que as pessoas que nflo têm patrão irabalham maior número dc
horas por seroana do que as assalariadas. Quem, no seu passeio dominical
pelo rainpo, nao teve pena dc algum escravo do trabalho que age por
conta própria e cujos esforços e os esforços de tôda a sua família mal são
suficientes para que êle equilibre as despesas?
Ainda assim, sempre haverá quem queira por conta própria.
trabalhar
t possível que o seu seja o empreendimento vitorioso. Ainda que jamais
consigam ganhar mais do que alguns milhares por ano, há algo de atraente
no fato de se poder fazer os próprios planos c reali/ar as variadas tarefas

exigidas por uma pequena empresa.

• A PROPRIEDADE INDIVIDUAL

Conseguimos ficar conhecendo as principais organização


formas de
comercial (a propriedade individual, a sociedade c a emprêsa) acompa­
nhando a história de uma determinada iniciativa comercial, à medida que
ela passa de um modesto comêço para uma empresa dc bom tamanho.
Na última parte dêste capitulo, passaremos a tratar da emprêsa gigante e
de seu papel econômico.
Vamos supor que o leitor dedda montar um negócio a fim dc produzir
pasta de dentes. Talvez tenha conseguido um bom preparo cm suas
aulas dc química, ou simplesmente procurado uma velha fórmula na
Enciclopédia Britânica. Para ser o único proprietário, não é preciso obter
a permissão de ninguém: basta acordar certa manhã e dizer: “hoje, entrei
para o comércio!** £ entrou, mesmo.
Pode contratar quantos empregados quiser, levantar o capital que puder.
No fim do mês, o que tlvei restado na forma de lucros — depois dc pagos
todos os custos! — é seu, para fazer com êle o que quiser. E nada o
impede de dirigir-se à caixa registradora, a qualquer momento, retirando
$800 - se puder encontrá-los lá — c dando-os à sua espôsa para que ela
compre um casaco de peles ou uma poltrona estilo Chippendale. (Natu­
ralmente, como pessoa física, você terá que pagar impôsto de renda sôbre
todos os rendimentos.)
Os prejuízos que o negócio der também são todos seus. Se suas vendas
não derem para cobrir os custos, seus credores podem pedir-lhe que saque
mais de seu ativo pessoal: os títulos separados para a educação dc seu
filho, o velho sítio, e tudo o mais. Em têrmos legais, um proprietário
individual tem "responsabilidade ilimitada" por todos os débitos contraí­
dos pela firma. Tudo o que possuir, com a exceção de um mínimo redu­
zido, é legalmente seqüestrávcl para saldar aquelas dívidas.
ORGANIZAÇÃO E RENDA DA IMPRÍ^A

• O CRESCIMENTO DA EMPRtSA E A NECESSIDADE Dl CAPITAL A


CURTO PRAZO

Suponhamos que o negócio esteja prosperando dc forma tremenda —


talvez porque o seu baixo preço tenha levado uma cadeia dc lojas de
5 e 10 centavos a fazer um grande pedido de tubos dc pastas para tereni
vendidas sob seu nome. Agora, você está fazendo mais dinheiro do que
esperava, mas sente, mais do que nunca, a urgente necessidade dc dinheiro
cm espécie. Por quê? Porque não recebe adiantado pelas vendas que faz,
ao passo que é obrigado a pagar seus empregados c fornecedores imedia­
tamente, logo após receber os seus serviços. Por enquanto, você «ti
aplicando dinheiro sem receber nada cm troca, isto é, nada, a exceção da
certeza dc futuros pagamentos de pedidos que vocé registrou, nada, a
não ser uma miscelânea de "produtos cm processamento": pasta dc dentes
inacabada, tubos vazios, e assim por diante.
Até certo ponto, a falta dc moeda corrente pode ser aliviada deixando
para pagar os fornecimentos no fim do mês, ou ainda depois. Entretanto,
há um limite até o qual os seus fornecedores permitirão que você acumule
as contas. E também, deixar as chamadas "contas a pagar” sc acumula­
rem é ura modo dispendioso de levantar capital, porque i normal os
produtos serem cobrados com um desconto de 2% para pagamento dentro
de 30 dias. Quando você não aproveita êsses descontos, está, na verdade,
pagando uma taxa de juros muito elevada: 24% ao ano!#
Onde irá êsse proprietário individual tomar dinheiro emprestado? Uma
companhia de crédito pessoal talvez lhe cobre uns 3% ao mês ou 40%
ao ano, para um pequeno empréstimo pessoal. E até essa companhia
preferirá conceder o empréstimo a um homem que perceba um salário
fixo que possa ser legalmente "seqüestrado" ou “penhorado" em raio de
não-pagamento. Sc você possuir uma casa não hipotecada, poderia ser
levantado um empréstimo a 6% ao ano, com a casa como garantia. Tomar
dinheiro emprestado dessa forma é, evidentemente, pôr em risco o futuro
bem-estar de sua famflia; entretanto, se estiver suficientemente convencido
quanto ao futuro de seus negócios, poderá assumir o risco.
Por que motivo o banqueiro local não pode ser procurado para um
empréstimo comercial a 6%? Normalmente, um banco comercial nfo
colocará um "capital de risco" à disposição de ura negócio que ainda n&O
se definiu. O presidente do banco examina o seu saldo cm conta-corrente
e descobre que êle andou sempre por perto do zero — o que é natural.

* Devido ao mirrado aumento doa paeçoa verificado no Ind mm éIié— mm, aoMWM
a ndoonar em tênaoa de alUaimat taxai de Juraa. A»inalc-«c a -ma Hnda". de U* ao
*Qul citada, é caa tfrmos Mi, Mo é. dmoiada o aoaaenco pnl «evitada mm preço.
Uiüüaado o ano de 1961 como eseaaplo. quando aa preço* ■■■rauiwa aaa MSS. tnlamoi mb
l«i«a de 116%. ao asso, oo apnulia nlammi* 9% m ali
118 INTRODUÇÃO À ANÁLISE ECONÔMICA

tima vez que tão logo iam sendo creditados os pagamentos, você era
obrigado a preencher chcques a fim de evitar as sempre insistentes reda-
mações de seus i redores. Normalmente, o banco gosta de conceder emprés­
timos a 90 dias, para serem utilizados para atender às necessidades que
surgem nas fases agudas e serem cancelados durante o resto do ano. £
inútil ter a pretensão de que daqui a três meses a sua emprêsa cm expan­
são terá mais dinheiro corrente do que agora. Ao fim dêsse prazo, você
estará pedindo uma continuada renovação do empréstimo. Você sabe disso,
e o banqueiro também.
Ainda que o banco já tivesse perdido o preconceito mais antigo contra
os "empréstimos a prazo", dc alguns anos dc duração, não poderia, cons­
cientemente, fornecer capital a uma emprêsa como a sua. Não importa
quão certo e glorioso lhe pareça o futuro dela, para o banqueiro você
n ío passa dc um dentre inúmeros pretensos empreendedores. £ êle sabe
que a maioria deles está destinada ao fracasso mesmo na melhor das fases,
e que quase todos seriam destruídos se houvesse uma depressão realmente
grande. Para que o banco protegesse realmente as quantias a êle confiadas
pelos seus depositantes, teria que cobrar-lhe um prêmio extra de 10% ou
mais, para cobrir o risco, = além dos juros dc, vamos dizer, 5%. Caso
contrário, os lucros dos empreendimentos vitoriosos não iriam contraba­
lançar os prejuízos dos fracassados.
Existe unia possibilidade dc você levantar um empréstimo no banco.
A Small Business Administration (SBA — Administração de Pequenas
Emprésas) poderia unir-se ao banco para conceder-lhe um empréstimo,
animando, assim, o banqueiro a fazê-lo. Ou, então, poderia haver uma
Small Business investment Company (Companhia de Investimento em
Pequenas Emprésas), criada para gozar dc ceitas vantagens fiscais, que
poderá emprestar-lhe capital dc risco em troca dc uma eventual proprie­
dade parcial. Em ccrtos estados norte-americanos, existem comissões de
desenvolvimento que possuem fundos limitados para ajudar a atrair uma
organização para a cidade ou a mantê-ia por lá.
Apesar de suas tentativas para levantar capital, a firma ainda sofre
is dores do crescimento. Você já exauriu tôdas as possibi]idades de obter
outro empréstimo de capital. É provável qtie tenha chegado a hora de
procurar um sócio.

• I'm owra alieroaiha trm tido utado de forma general irada na Alemanha, mai nSo n«
Ettados Unido* ou na Ingkiem: o« bancos alcmlcs adquirem uma parte da propriedade <|Ó
ncfóoo e pmfcipa dos lucras. Essa participação na propriedade resulta, fneviiivclraentc, e»
rrapontjf»ilidade» adminmrativas por pane dos bancos c. rom ímjüéncJa, no tonirôle mooopoli**»
dos negócio* pelos íoieréssfo bancários. Por ésse e por outros muitos. ou atividade é «edada por
ld aes bancos norte-americanos.
ORGANIZAÇÃO E RENDA DA EMrRÍSA 119

# A SOCIEDADE*

Qualquer grupo de duas ou mais pessoas pode reunir-se a formar iflB


sociedade. Cada participante concorda em entrar com determinada fraçio
do trabalho e do capital, participar de cena percentagem dos lucros e,
naturalmente, compartilhai dos prejuízos e das dívidas. Um acórdo pura­
mente verbal servirá, mas é mais comerdal e provocará menos mal­
entendidos se você mandar que um advogado rcdija uma espécie de acórdo
formal de sociedade.
No caso do ramo da pasia de dentes, vamos supor que ao seu cunhado
seja concedida uma propriedade parda! do negócio, cm troca da integral!-
/ação de $25000 de capital. Como você, êle deverá trabalhar para a
companhia a, por exemplo. $5 000 por ano, enquanto que você receberá
$8000. A você caberão dois terços de todos os lucros ou prejuízos, compu­
tados depois que as retiradas da sociedade são tratadas como custos de
produção; seu cunhado fica com um têrço.
Seu sócio entrou com $25000 em dinheiro. £ o que foi que você
aplicou na emprêsa? Em primeiro lugar, você tem, é cbro, alguns barris
inacabados de pasta de dentes e algumas contas ainda não cobradas, por
mercadorias já entregues. Não parece muita coisa.
Na verdade, o que você leva para a sociedade é um bem intangível
mas valioso: as lucrativas encomendas e o conhecimento, ou o que é
chamado de "boa vontade". Em suma, você traz consigo um poder poten­
cial dc obtcnçSo de um lucro, descontados todos os fcustos e retiradas,
de uns $12 000 por ano. Está permitindo que seu sócio tenha um einprêgo
de 5 000 por ano — que iremos todos presumir que talvez seja igual àquilo
que êle pode obter em qualquer outro lugar — e, além disso, por $25 000
cie está comprando um têrço de $12 000 todos os anos.
A obtenção dessa quantia anual com investimentos cm obrigações
sairia, pata êle, muito mais cara do que $25 000. Êle teria que comprar
$100 000 dc apólices governamentais que pagam 4%, ou $80000 de
obrigações a 5%, para conseguir um rendimento dêsses. Não se falando
no elemento risco, o seu sócio está fazendo um bom negócio com os seus
$25 000, uma vez que receberá anualmente cêrca de 16% do que inverteu.
Assim, a sua parte de dois terços é justificada pelo prestigio que você
oferece.1

• £ importante assinala! que as Íris que regem as sociedades anônimas, ms EhjAm Untdss.
diferem de estado para estado, como acontece tanbém com grande partr da No InA
a lei é de competénda do govêrno federal, e é a mesma para todo o pais (Dcoeto-W "* **17,
de 1940).

• Prestigio e capacidade lucratlra capitalizada 1S0 discutidos no apéndke • âHe MM «*■


«nu da Contabilidade.
120 introdução À anAuse econômica

# "É ASSIM QUE PROGREDIMOS"

1 SUi empresa continua a prosperar c a crescer. Todo ano, os dois


sócios concordam em retirar da firma apenas os saques previstos (que têm
a forma de salários) e cerca de um quinto de sua parte nos lucros, rein­
vestindo o resto na firma. Por que vocês decidem retirar uma parte dos
lucros? Porque precisam do dinheiro para pagar o seu impôsto federal
como pessoa física, que é cobrado não apenas sôbre os seus salários, mas
também sôbre as suas respectivas quotas dos lucros da sociedade.
Por que motivo progride um negócio como êsse? Eis algumas possíveis
razões: (1) suas vendas de pasta dc dentes aumentaram, cm conseqüência
de a sua marca tcr-sc tornado mais difundida e mais conhecida e pelo
fato de vocês contarem com maior número de vendedores; (2) à medida
que cresce a produção de pasta dc dentes, são feitas cconomias propor­
cionadas pela produção em larga escala, daí voccs poderem reduzir o preço;
(S) um nòvo fator dc crescimento resulta da "integração vertical". Vocês
decidem comprar uma fábrica de produtos químicos, a fim de produzir
suas próprias matérias-primas, c também sc tomam os seus próprios ataca­
distas, dirigindo, assim, três “estágios de produção" cm vez de apenas um;
(4) a companhia também cresce por "integração horizontal”: vocês apro­
veitam uma oportunidade lucrativa para comprar uma série de firmas
concorrentes que produzem pastas de dentes similares; (5) há o acréscimo
de novos "produtos complementares”, como sabonete c baton. Vocês acham
que a reunião das novas linhas na mesma fábrica irá ajudar a distribuir
os custos lixos, e seus vendedores são dc opinião dc que tanto poderiam
conseguir muitos pedidos como poucos, ao fazerem uma visita; (6) por
fim, sua firma pode progredir apenas porque voccs estão produzindo uma
pasta de dentes de melhor qualidade.

• NOVAS NECESSIDADES E FONTES DE CAPITAL

Uma vez mais, a empresa se encontra num paradoxo: quanto maior é o


seu sucesso e quanto mais depressa ela cresce, maior é a sua necessidade
de capital. Os $25 000 da nova “quota de participação" trazida para a
emprêsa não ficaram muito tempo na forma de dinheiro, mas foram
ràpidamcnic transformados em capital circulante, como bens em trans­
formação e material de expediente. Em parte, foram aplicados para saldar
as dívidas mais prementes.
O restante foi utilizado como entrada para um prédio onde instalar
a fábrica e para o equipamento. A diferença entre a entrada e o preço
total da fábrica foi garantida por um empréstimo levantado com garantia
hipotecária da propriedade. O dinheiro da hipoteca foi adiantado por
uma companhia de seguros e deveria ser amortizado ou liquidado em
ORGANIZAÇÃO K RENDA DA KMfRÉu 121

prestações pelo prazo de 20 anos, juntamente com 53% de juros àl |9


calculados sôbre o saldo devedor. Na hipótese de o empréstimo nSc ter
pago, é claro que o beneficiário da hipoteca tem o direito de executi li.
isto é, tomar conta do prédio e vendê-lo pelo que fôr possível* Uma vet
que o pagamento inicial da fábrica representou cêrca de um quarto do teu
preço, uma vez que éste preço foi uma pechincha, e uma vez que todo
ano a companhia de seguros estará recebendo de volta parte do principal, o
risco assumido pela companhia não é muito grande. Ela SÓ poderia ter
prejuízo se houvesse um desastroso colapso no mercado de imóveis nos
primeiros anos após a assinatura do contrato.
Apesar do continuado reinvestimento dos lucros na emprésa, o cresci­
mento ainda os deixam precisando de mais capital. Mas agora, com a sua
reputação estabelecida, por a»im dizer, abrem-se novas avenidas de
empréstimos. O seu banqueiro terá prazer em conceder-lhes um emprés­
timo para ajudá-los a atravessar o movimentado período que precede o
Natal. Uma companhia de financiamento industrial, como a Commercial
Credit Corporation (Cia. de Crédito Comerdal), emprestará dinheiro com
base cm suas "contas a receber*', seguras mas ainda não cobradas (quantias
que lhes são devidas por mercadorias vendidas e entregues mas ainda não
pagas).*
Vamos supor que, depois disso tudo, vocés ainda precisem de mais
capital do que podem levantar por meio de qualquer tipo de empréstimo.
Surge a dolorosa necessidade de obter outras "quotas de participação**,
permitindo que outras pessoas participem dos lucros (e prejuízos) da

Empréstimo* concedidos por todo* o» bancas c caubckcbncntos baualm


Saldo em SMMMS

OS 1000 000

Empréstimo* em Cootas< Titulo*


concilia TWwnWnVs

Comércio 57 soo

Indústria IIS SOS

Agricultura Z9K IS1

TOTAL 461 IMt

FONTE: S E.E.P. - Ministério da Fazenda.

• O dciconto de tltuloi comerdal* representa, mo Brail, a principal fa-e * mrnm» * «|*al


dc giro da* cmpiéwa. faracddot paios bancos e «gohdscimmtm CMBceims.
122 INTRODUÇÃO À ANÁLISE ECONÔMICA

ctnprésa. (Dc íaio, mesmo que ainda pudessem encontrar algumas insti­
tuições que lhe» emprestassem dinheiro, nao seria prudente fazê-lo. Vocês j
ji acumularam demasiadas obrigações c encargos fixos sôbre um pequeno
capital de partidpação. Enquanto as coisas forem bem, seria ótimo ganhar
de lucro sôbre um capital que só lhes custa 6%. Entretanto, se
houver prejuízos, èstes recairão pesadamente sôbre vocês, os dois sócios,
que sào os proprietários residuais.)

• DESVANTAGENS DA SOCIEDADE

Uma possibilidade de obter mais capital é admitir novos sócios. Não


há limite para o número de sócios que vocês poderão admitir; já houve
sociedades nos ramos da corretagem e bancário que contavam com mais
de cem pessoas. Entretanto, tôda vez que um nôvo sócio é admitido, ou
que uin dôlcs morre ou se retira, eleve ser formada tôda uma nova
sociedade.4
À medida que aumenta o número de sócios, vai-se destacando um fator
que, até o momento, vimos mantendo um tanto oculto cm nossa discussão:
cada sócio é ilimitadamente solidário, respondendo tôda a sua fortuna
pessoal pelas dívidas contraídas pela sociedade. Se êle possuir 1% da so­
ciedade c a emprêsa falir, será chamado a pagar 1% das dividas e os
demais sócios responderão pelos seus 99%. Suponhamos que êles não pos­
sam pagar parte alguma dc suas obrigações. Neste caso, o sócio que só
tem 1% poderá ser chamado a pagar por todos, ainda que isso signifique
vender suas belas gravuras ou pôr em leilão a casa onde mora.
Essa característica de responsabilidade ilimitada revela o motivo pelo
qual a tendência das sociedades é limitarem-se a empresas pequenas 8
individuais. De acôrdo com o princípio de “ação mútua" envolvido na
lei das sociedades, cada sócio tem podêres bastante amplos para agir de
modo a criar compromissos para tòda a sociedade. Quando se trata de
ai riscar fortunas pessoais, há a relutância de aplicar-se capital em empre-

4 Mali ponderável é a desvantagem real que decorre do falo de uma sodedade poder «cr dtod-
tida sempre que qualquer dos sócios considere Insatisfatório o ac&rdo existente e deseje tetlrar**-
A lei que re*e as sociedades também impede que qualquer «ócio venda sua pane a um nó*»
membro sem o consentimento dc icus sócios; se nSo fôr obtida uma concordância, poderá «cr ioesi*
tável uma dispendiosa liquidação do patrimônio da sociedade.
Talvei o leitor se recorde que o mnclista William Dean Howells fêx com que o teu fammo
penonaerm Silas Upturn, que di nome ao livro, e que por esforço próprio se transformara nua
magnata da indústria de tintas. lançasse o seguinte ultimato ao seu sóüo: “Compre a miròa
parte, ou eu compro a sua." As duas desculpas apresentadas por Silas, de que os responsiseis pelo
soraao do net ócio tinham sido a sua int*1ic«nria e tua enentia e que o preço oferecido excedia o
invesUmento original do teu sócio, nlo iludiram a inteligente Srau Laphan. E da «alientoo qae.
sem o dinheiro do sócio no momento critico, o negócio nunca poderia ter prosperado, e q« «
olerta de «toda d« Sélat bateava-ic no falo de que «le sabia que «eu sócio nSo estava em condi**»
de comprar a firma tôda.
ORGANIZAÇÃO E RENDA DA EMPUlftA 123

cndimentos complexos sôbre os quais pouco é o contròle que pode icr


exercido.
Isso explica por que a agricultura c o comércio varejista são os únicos
setores dc nossa economia cm que mais da metade dos negócios realizado!
o são por proprietários individuais e sociedades. No setor dos bancos de
investimento, firmas como a J. P. Morgan & Company costumavam anun­
ciar, com orgulho, tratar-se dc emprêsa “não incorporada", para que seu»
credores pudessem ter mais essa garantia. Mas até essaa emprésas transfor­
maram-se em sociedades por ações.
A gigantesca firma de corretagem Merrill Lynch, Pierce, Fenner & Smith
movimenta apreciável parcela de tôdas as operações da bôlsa de valôrct
dos E.U.A. Só recentemente foi que ela se transformou em sodedade por
ações. Por muito tempo, contou com muitos sócios principais e dezenas
de sócios secundários, demonstrando que as barreiras criadas pela socieda­
de para a direção de uma grande emprêsa não são intransponíveis. No
momento, são raras essas sociedades gigantes. Não há dúvida de que a
responsabilidade ilimitada e a burocracia necessária para garantir a con­
tinuidade são as principais desvantagens da forma de sociedade.

• A EMPRÊSA

A esta altura, portanto, — ou mesmo muito antes — é provável que


vocês decidam formar uma companhia, cm lugar dc uma sociedade. Nor­
malmente, vocôs a constituirão no estado cm que moram c operam. En­
tretanto, se a corporação fòr relativamente grande, vocês poderão preferir
instalar a matriz cm estados como os de Delaware ou New Jersey, que
adotaram uma legislação muito branda, para servir de atração ás firmas.
Há séculos, era muito raro os governos concederem cattas-patcntcs a
emprêsa5, c estas só as conseguiam por meio de leis especiais do rei c do
legislativo. O Parlamento ou o Congresso concediam graciosamente per­
missão para que uma companhia de utilidade pública ou uma estrada
de ferro formasse uma sociedade para fazer determinadas coisas e realizar
funções específicas. A East India Corporation foi uma dessas emprêsas
privilegiadas. As primeiras estradas de ferro, nos Estados Unidos e no
exterior, tinham, com freqüência, que gastar tanto dinheiro para conseguir
uma carta-paiente por intermédio do legislativo, quanto no preparo dos
leitos de suas ferrovias. Aos poucos, no século passado, isso começou a
parecer injusto e tornou-se prática a aprovação de leis gerais que regula­
mentem as sociedades comerciais, concedendo quase que a todo cidadão
o privilégio de constituir uma sociedade para quase qualquer finalidade, sem
a necessidade de obter um voto especial de aprovação do legislativo e*u-
dual ou do Congresso.
121 lSTRODl’Ç VO A ANÁLISE ECONÔMICA

Hoje. mediante um pequeno honorário, um advogado prepara os


documento» necessários e incluirá nos estatutos podêres e finalidades
quase tão amplos quantos os que sc desejar. A carta-patcnte será automà-
ticamente concedida pelo estado.
Vejamos como funciona o processo de incorporação no caso de sua
companhia de pasta de dentes. Vocês decidem emitar 20 000 ações ordi­
nárias da companhia, ficando você com 6 600, seu sócio com 3 300, sua
espôsa com 100, e as restantes 10000 para serem vendidas a estranhos.
Embora cada ação deva ter o valor inicial dedarado de §10, seu advogado
aconselhou-o a não emiti-las com o valor nominal, uma vez que o “valor
ao par" não significa particularmente muita coisa.
As 10000 ações destinadas à venda ao público deverão ser negodadas
através de uma firma de investimentos. Essas firmas são apenas negoaan-
tes de papéis e, como acontece com qualquer comerdante, seu lucro pro­
vém da diferença entre o preço de compra e o de venda. Como a firma
dc vocês é pequena, êles devem regatear nos preços, especialmente cm
virtude de poderem alegar que as despesas para a venda das ações deverão
ser elevadas. Assim, os corretores poderão oferecer-lhes $10 por ação e
planejar a revenda a um preço de §12,50 por unidade. Fôsse grande a
sua companhia c vocês poderiam obter tanto quanto $12,25 — ou mesmo,
cm certos casos, §12,40 — do preço de venda de $12,50, devido à intensa
competição entre as diferentes emprêsas de investimento, no sentido de
obterem o direito à venda das ações.
No caso dc unia grande companhia, é provável que o corretor concor­
dasse em endossar a nova emissão de 10 000 ações. Isso significa que êle
teria garantido a compra de tôdas as ações, a um preço estabeleddo. Se
depois o mercado sc recusasse a comprar nêle tôdas aquelas ações ao preço
que êle anunciara, êle, e não vocês, teria que absorver o prejuízo. Mas é
provável que êle considcrc a sua firma demasiado pequena e ainda vm
tradição para justificar o risco assumido por êle ao endossar as ações.
Por isso, êle aceita a sua emissão numa base de "fayer o possível", e sc
puder vender tôdas as ações, vocês acabam por levantar menos capital.
Felizmente, tudo sai bem e êle lhes paga $100 000 cm dinheiro pelos
papéis que vendeu. Ao contrário do caso da sociedade, você não predsa
preocupar-se com as pessoas às quais êle passou as ações ou com o fato
de que êsses compradores possam revendê-las. Os nomes dos possuidores
das ações são registrados junto à companhia ou seu agente bancário, para
o caso de um possível extravio e para que vocês possam saber para onde
enviar os cheques quando da distribuição de dividendos ou os editais
das assembléias de acionistas.
Normalmente, cada ação dá ao seu possuidor o direito a um voto. As
participações dos lucros da companhia também são era proporção direta
ORGANIZAÇÃO E RENDA DA EMElIlA

ao número de ações que se possui. Quem liver 100 ações terá 100 vote*
e receberá dividendos nessa proporção.
Os proprietários das 10000 ações pagaram (100000 em dinheiro I
companhia. £ o que pagaram vocé e seu sócio? Ê claro que não foi em
dinheiro, mas sim uma quantia equivalente em patrimônio: instalações,
equipamento, produtos cm bcncficiamcnto c, talvcx, prestígio que é.
como já vimos, o valor capitalizado da suposta “capacidade de luuu nu
excesso" da firma, resultante de suas marcas registradas, suas patente*
seu knov-how, e assim por diante.
Nos anos que antecederam 1929, vocé e seu banqueiro de investimentos
jx>deriam ter avaliado os aviamentos com a liberalidade desejada* poa
velmente dando a vocé 20000 ações, e não 10 000. Essa prática tem sido
denominada dc "diluição das ações". Hoje, vocês teriam que submeter
qualquer nova emissão de vulto à Securities and Exchange Comission —
SEC —, entidade reguladora criada como parte do Sew Deal, era 19SS.
A Comissão teria de convencer-se dc que não existem alegações falsas, antes
dc permitir a nova emissão. Entretanto, ela não tem a pretensão de julgar
ou de atestar o valor dos papéis. Caveat empior (o comprador que tone
cuidado) ainda prevalece como doutrina!

• VANTAGENS E DESVANTAGENS DA COMPANHIA

Vantagem particular. A emprêsa resolveu a maioria dos problemas que


o preocupavam em relação ã sodedade, c constitui um processo quase
pcrfdto para o levantamento de grandes somas de capital. O que é de
importância primordial, agora todo acionista tem responsabilidade limi­
tada. Depois de pagar $12,50 por ação, o investidor não precisar ficar
preocupado com o perigo que poderiam ocorrer aos seus haveres pessoais.
Se o pior acontecer e a companhia abrir falência, o máximo que cada
acionista poderia perder seriam os seus $1230 originais por ação. Nada,
além disso, poderia ser-lhe cobrado.
De importância secundária é o fato de que a emprêsa é uma pessoa
jurídica fictida criada pdo estado. Ela não existe por um "direito natu­
ral**, mas apenas por vontade do estado. A emprêsa, ao contrário de
seus proprietários, pode ser processada nos tribunais e pode processar.
Qualquer dirigente da companjna, ao contrário de qualquer de seus
sócios, tem limitada rigorosamente a sua capaddade legal de agir como re­
presentante dos outros proprietários e dc comprometê-los financeiramente.
Além disso, a emprêsa pode ter uma existência ou "sucessão perpétua",
nio importa quantas vêzes as ações trocarem de mãos pela venda ou
por herança e que haja 10000 acionistas diferentes. Nenhum grupo dc
arionistas pode obrigar outro grupo qualquer I vender ou reter as mas
126 INTRODUÇÃO À ANÀMSK ECONÔMICA

ações c basta a maioria dc votos, c não a unanimidade, para que sejam


tomadas as decisões romcrciais comuns. Normalmente, os acionistas serão
cm número demasiado grande para que sc reúnam para tomada dc lôdas
as decisões, preferindo eleger uma diretoria, formada por uma dúzia,
mais ou menos, de membros, que os represente nas assembléias anuais,
da mesma forma que os eleitorados democráticos selecionam representantes
legislativos para agir em seu lugar. Como veremos dentro cm pouco, o
problema de manter grandes empresas "verdadeiramente democráticas"

Você enfrentará uma desvantagem da sociedade por ações que se vem


tornando cada vez mais séria nos últimos anos: o govêmo federal tributa
a renda da emprêsa. Assim, durante a guerra, uma companhia que desse
lucros poderia ser obrigada a pagar até 80% dc sua renda ao govêruu,
em forma de tributação dc lucros extraordinários. O conflito coreano
também provocou um imposto dèsse gênero. A maioria das cinpiésas dc
vulto são obrigadas a pagar quase metade de cada dólar extra dc renda
(isso, além do impôs to de renda de pessoa física, que os proprietário»
pagam sôbre os dividendos que recebem).
O imposto dc renda das emprêsas é um preço muito alto a scr pago
por uma pequena companhia em troca dc responsabilidade limitada e
maior facilidade em levantar capital. No entanto, também existem vanta­
gens fiscais oferecidas pela sociedade por ações. Em nossa legislação atual,
existe uma válvula dc escape: os lucros não distribuídos escapam ao im-
pôsto de renda da pessoa física; só os dividendos pagos são tributados.
Um homem rico, que seja tributado em cêrca dc 70 centavos de cada
dólar de renda, poderá dizer: "Por que pagar essas taxas sôbre os rendi­
mentos da sociedade? Vamos formar uma emprêsa, pagar o impôs to mais
reduzido que sôbre cia incide, e manter baixos os dividendos.” •
Outra válvula utilizada para evitar as desvantagens da dupla tributação
sob a fonna de emprêsa, ê votarem os proprietários de uma companhia
entre poucas pessoas a distribuição da maior parte de seus rendimentos
a si próprios c a seus parentes, sob a forma dc elevados salários, pensões
c gratificações. O Departamento do Tesouro tenta controlar a sonegação
de impostos feita por meio dêsses aumentos dc despesas, mas é sempre difícil
saber se determinado parente por afinidade vale $15 000 por ano c se
uma viagem para uma convenção nas Bermudas é, na verdade, uma des­
peia poi conta da emprêsa ou tem caráter particular.

• D* carto «odo, «te «uri apenas adiando o dia axiago. pub, a mrnoa que o ku ad*««~fc>
poua enrootrar ona "diunbui<lc de pai» dc capital” Miamnente tributada, «rui ditkfendo»
•rrSo rribtitireb mato tank, quando êlc o» receber. De qualquer mancha, porém, a demora
m> pacamrnto do impAato rrprrvnta dinheiro para êk. Segundo nuras icvisfica final*, roufro*
pofcrto ganhar de qualquer modo: têm liberdade de terem u .uai emprêias tributadas como
limplc* MKkdadci ou como aocledadrt por içfin.
ORCANIZAÇfo E RENDA DA !»■

Vantagem social. Quando mostraram a eletricidade ao Primeiro-Mínimo


Gladstone, numa visita ao laboratório de Michael Faraday, éle pergti
“Qual a utilidade da eletricidade?" E Faraday teve a resposta divertida:
“Suponho que algum dia Vossa Excelência poderá lançar um impAito
sôbre ela.” É evidente que a vantagem da íôrça da sociedade por açóes
para a sociedade não é apenas o fato de o estado poder tributi-la.
A produção em larga escala é tecnicamente eficiente, e uma grande
emprésa representa um meio vantajoso de os investidores distríbutail Oê
riscos irredutíveis da vida comercial. Sem a responsabilidade limitada e
sem a empresa, a sociedade simplesmente não poderia colhêr o benefício
criado quando grandes suprimentos de capital podem ser atraídos para
as empr&as concorrentes que produzam uma variedade de produtos n»
piemen tares, distribuam os riscos e utilizem da melhor maneira as econo­
mias de grandes unidades dc pesquisa e o know-how administrativo. É por
isso que o privilégio da forma dc sociedade por ações é legalizado.

• COMO UMA EMPRlSA PODE LEVANTAR CAPITAL

Vamos supor que a sua emprèsa continue a crescer como resultado de


combinações vertirais e horizontais, novos produtos, economias de produ­
ção em massa, publicidade, e assim por diante. Além de levantar emprés­
timos com base em promissórias ou hipotecas, da compra a crédito e de
fiar*se em rendimentos não distribuídos em forma de dividendos, quais
as novas formas de financiamento que se encontram à sua disposição?
Debèntures. Primeiro, você poderá emitir debèntures. Estas não passam
de tipos especiais de notas promissórias, belamente impressas em papel
floreado, emitidas com o valor de $1 000 ou outras denominações, para
que possa ser prontamente negociável para revenda. Uma debenture é
uma apólice que promete pagar uma certa quantia de 6 em 6 meses,
durante um certo nAmero de anos, até à época do resgate. Nesta ocasuo,
a companhia tomadora do empréstimo promete pagar o principal da
debenture, ao sen valor nominal (muitas vèzes. a companhia tem o direito
de recolher a debenture alguns anos antes da data de rebate, pagando
aos portadores um preço previamente combinado). As prestações pagas
de seis cm seis meses, que são os juros da debénture, são em geral chama­
das de "pagamentos do cupão", porque o dono da maioria das debèntures
destaca um pequeno pedaço do titulo a cada 6 meses e o envia pelo
correio para receber o seu pagamento dos juros.
De modo geral, os pagamentos dos cupões e do principal lém que ser
feitos na época certa, tenha, ou não, a companhia tido lucro. Km caso can-
128 INTRODUÇÃO À ANÁLISE ECONÔMICA

tiãiio, a companhia não estará cumprindo com as suas obrigações c pode


ser levada aos tribunais como qualquer devedor.»
É claro que não existe qualquer motivo particular pelo qual uma socie­
dade não possa levantar empréstimos com base em debentures, mas em
geral não teria muito sucesso em despertar o interesse de alguém que
emprestasse o dinheiro. Por isso, uma pequena emprêsa dificilmente pode
levantar capital pela emissão dc ilebêntures.
Ações ordinárias. A emissão de debentures e a emissão de ações são
métodos opostos de financiamento. O acionista ordinário está fornecendo
capital “dc participação”. Êle participa dos lucros e do rontròle das deci­
sões da emprêsa, mas também tem que participar de todos os prejuízos.
O seu empreendimento é mais arriscado, porque êle não pode receber
quaisquer dividendos enquanto não tiverem sido pagos aos debenturistas
os encargos fixos. O debenturista recebe uma renda limitada, porém mais
certa. A menos que a companhia esteja falida ou cm perigo de falir, cm
geral o debenturista não exerce controle legal nas decisões tomadas pela
emprêsa, mas uma administração prudente terá o cuidado de manter boas
relações com todas as fontes de capital futuro.
Ações preferenciais. Entre as debêntures e as ações ordinárias, temos
as chamadas “ações preferenciais”, que pagam, no máximo, um dividendo
declarado — por exemplo, 4% do valor nominal —, não importando quão
lucrativo sc torne o negócio. O possuidor dc ações preferenciais tem mais
probabilidade do que o dc ações ordinárias, de receber seu dividendo
mesmo quando o lucro é pequeno, porque de acôrdo com a lei êle está
colocado, na fila, logo depois do debenturista e antes do portador de
ações ordinárias. Êste não recebe dividendos se as ações preferenciais não
receberem todos os seus.
Muitas vêzcs são emitidas ações preferenciais "cumulativas”. Isso signi­
fica que. se durante 5 anos de depressão não houver ganhos cm valor
suficiente para pagar qualquer dos dividendos de 4% sôbre a ação prefe­
rencial. quando voltarem os bons tempos os $20 "acumulados” (= 5 x $4)
de dividendos de ação preferencial não pagos deverão ser pagos antes
que os donos das ações ordinárias possam começar a receber quaisquer
dividendos. É também freqüente ser a ação preferencial "resgatável a
opção” c “conversível”. O primeiro têrmo significa que, por um valor
previamente indicado - $103, por exemplo — a companhia poderá recolher

• NSo do rara* •» «kbèniurcs dc icnda. cujoi juro» s6 sSo pagos ac houver rendimento* c*
Túlio sutidenic. t comum encontraram ações hipotecárias, garantidas por propriedades. A» K*»
c®mcnlvci». qoc podem « trocadas poi um dado nõnero dc ações ordinárias, constituem um
tipo híbrido popular.
ORGANIZAÇÃO E 1EMDA DA lUnisA

suas ações preferenciais era dreulação. O segundo te reitoe B direito


conrrdido ao dono da ação preferencial, de converter cada ajSòj «n j|B|
ordinárias, de acôrdo com uma proporção estipulada.f

# VANTAGENS DOS TfTULOS DIFERENTES

Do ponto de vista do investídor, cm geral as debentures, as ações pre-


ferendais e as ordinárias formam uma seqüência de risco cada vez maior
c de segurança cada vez menor — equilibrada por uma chance maior de
obter altos rendimentos ou ganhos de capital. Hoje em dia, uma deben­
ture "gilt-edge',# poderá render cérca dc 4,5%, e uma ação preferential,
cêrca de 5%. Como as ações ordinárias podem subir dc valor c proporcio­
nar ganhos dc capital, têm elas muitas vézcs, agora, uma gama dc dividen­
dos que começa ainda mais baixo do que as debentures: certas ações de
companhias cm expansão, como a IBM, rendem muito menos do que as
mais garantidas apólices governamentais. A fim de testar sua compreensão
dessas três formas de valóres, o leitor dcvciia certificar-se dc que com­
preende o motivo pelo qual as ações ordinárias tendem a ser, era época de
inflação, melhor investimento do que as duas outras.
Seria errôneo deixar o leitor com a impressão de que as debéntures
constituem investimento perfeitamente seguro. Feio contrário, durante
depressões, muitas companhias faliram e não pagaram suas debéntures,
pagando apenas uns poucos centavos por dólar. O perigo básico dc todo
investimento era sociedades anônimas é uma possível perda de poder
remunerativo, que irá reduzir, de muito, o valor do seu ativo. Muitas
vèzcs, uma companhia passa por uma reorganização na qual os acionistas
possam ser completamente eliminados. Os tribunais poderão nomear um
síndico, ou depositário, para administrar a emprésa, os debenturistas pode­
rão receber debéntures (ou mesmo ações!) iguais a apenas uma fração
de seus investimentos originais. Além do mais, certos debenturistas poderão
ter prioridade sôbre os detentores de outros títulos. Muitos investidores
cm apólices de estradas dc ferro aprenderam isso por experiência própria.
Do ponto de vista da emprésa, a dívida de debéntures cria obrigações
pequenas mas fixas, que podem causar embaraços em épocas dc depressão

T Além disso, certas ações preferenciais sSo tomadas mais atraentes pek onerai* 4a vwpptfi
de "participação**. (ao significa que. se o> lucros ultrap—wrm certo Bafte VRi «*»
participam, juntamente com as açfies ordinárias, de quaésqser tacra emJrsw. Etfa fasma ê sava.
Porfa. Quando uma nnprtu ponul açflo de uma ootra. *6 paga impòsla M IS* ém éi*tàr+
W ««eber, o que ezplca porque as rapebas slo imfoctaascs dt—swas ■ putnwif I

* "Cflt-edfe" slo títulos em que se ledna ao latnáam s pwililliliilr Se H* I I 111 '*


dotes, em sina das garantias ofrreodas Ua doa pnmt»*«» o» os 4* a»»*"* I
150 INTRODUÇÃO À ANÁLISE ECONÔMICA

A ação prcfeicncial é ligciiamente melhor, no que respeita à flexibilidade;


o capital de participação é o melhor de todos.8

• A EMPRÊSA GIGANTE

Embora não se deva concluir que tòdas as emprêsas passem por três
estigios, já levamos a nossa vitoriosa indústria dc pasta de cientes a um
ponto bem alto da escada do sucesso. O restante dêste capitulo será
dedicado à posição e ao poder econômico da empresa muito grande e
dos problemas por ela criados para a economia norte-americana.
Uma lista das 200 maiores emprêsas nãofinancciras parece um quadro
de honra da aiividade comercial dos Estados Unidos, sendo conhecidos
quase todos os nomes pelas famílias. Entre as companhias industriais
estarão a United States Steel, a Bethlehem Steel e a Aluminium Company
of America; a Standard Oil de Nova Jersey, da Califórnia e de Indiana;
a Texas Company; a General Motors, a Chrysler c a Ford; a came enlatada
da Swift e da Armour; a American Tobacco (Lucky Strikes) e a R. J.
Reynolds (Camels); The Great Atlantic & Pacific Tea Company, a Sears,
a Montgomery Ward, F. W. Woolwurili, e J. C. Penney; National Dairy
(Kraft) e a Borden; Procter & Gamble e Lever Brothers; e muitas outras.
Entre as ferrovias, temos veteranas como a Pennsylvania, a New York
Central, a Southern Pacific e muitas outras. A lista das emprêsas de
utilidade pública é encabeçada pela A.T. & T. Sc quisermos acresrentar as
maiores organizações financeiras, relacionamos gigantes como o Bank of
America (Califórnia), o First National City Bank (New York), o Chase
Manhattan Bank, o Continental Illinois National Bank (Chicago), e o J
First National Bank of Boston; a Metropolitan Life Insurance Company,
a Prudential Life, a Equitable Life, etc. Ao todo. existem agora mais dc
100 companhias com patrimônios acima de um bilhão de dólares!
A enorme concentração de poder econômico nas emprêsas gigantes
poderá ser medida pelos seguintes fatos: só essas companhias detêm
40% do patrimônio total dc tôdas as emprêsas não-financeiras, mais de
um têrço de todos os patrimônios bancários e 85% dc todos os patrimônios
das companhias de seguro de vida. As 200 maiores emprêsas retêm entre
um quinto e um quarto da liqueza nacional produtora de renda. Empre­
gam um dc cada oito trabalhadores. As 500 maiores emprêsas industriais
dos Estados Unidos detêm mais da metade das vendas no setor das iuanufa-

• O» pagamento? de Ju»o» também pedem »ci deduzido» dos lucro* da empresa, para fins fiscais.
II. um Incentivo, portanto, mantidos constantes o* demais elementos, para que se use o financia*
memo d* divida, em Vtt de financiamento das açCes. Entretanto, os demais elementos nSo se têm
mantido comtante*. e t> normal. not último» 20 anos, tetu sido crescer reinvestindo os lucro* e
emitindo dcMntuiea em número suficiente para minter mais ou menos a meima a relaçSo
entre dtvlda • capital ordinário, As novas emluGcs de açfci uOo têm mantido o mesmo ritmo.
ORGANIZAÇÃO E RENDA DA EMPfttSA 131

Curas c da mineração e obtém mais de 70% dos lucroi. Cada grupo de


cinco emprêsas lida com mais dinheiro do que qualquer um dot õosm
50 estados.
O poder dessas companhias não surgiu da noite para o dia. Depois de
1900, sua importância percentual foi aumentando a um ritmo firme.
Durante tôda a década dc 1930 e até a Segunda Guerra Mundial, relativa­
mente falando, elas sc mantiveram firmes.
Um bom tamanho gera sucesso, e sucesso gera mais sucesso.9 Mas tam­
bém existem barreiras econômicas c políticas às grandes dimensões. Uma
rcccntc pesquisa econômica mostra scr falso o difundido ponto dc vista
dc que os gigantes estão engolindo cada vez mais a indústria moderna.
Estatísticas sugerem que, relativamente, é provável que os gigantes tenham
perdido um pouco dc terreno desde 70 anos atrás, quando a "campanha
do truste" ainda não havia entrado em conflito com a Lei Antitruste
Sherman (1890). £ assim como um hotel pode estar sempre lotado — mas
com pessoas diferentes — vemos que a lista das maiores emprêsas é variável,
mas a um ritmo muito lento.

• SEPARAÇÃO DA PROPRIEDADE E DO CONTRÔLE NA GRANDE EM PR ISA

Examinemos o funcionamento interno de uma dessas grandes emprêsas.


A característica mais impressionante è a diversificação de propriedade entre
milhares e milhares de pequenos acionistas. Em 1964, mais de 2 200 000
pessoas diferentes possuíam ações da A.T. & T. Na verdade, metade dessas
pessoas possuía menos de 10 ações cada uma; um quarto das ações estava
dividido em blocos de menos de 100 ações; e não havia um só acionista
que possuísse 1% do total. A Bolsa dc Valôres tem como objetivo um
“capitalismo do povo", no qual as massas tenham uma participação apre­
ciável do capital da sodedade. Agora, 18 milhões de pessoas possuem
algumas ações ordinárias, mas o número dos que recebem um rendimento
apreciável ainda é inferior a um cm dez.
Em um estudo pioneiro,10 Berle e Means salientaram que essa ampla
diversificação da posse dc ações tem resultado numa separação entre a
propriedade e o contrôle. Estudos recentes mostram que na emprêsa
gigante típica, a administração tôda — funcionários dc categoria c direto­
res — detém apenas cèrca de 3% das ações ordinárias. Os maiores grupos
minoritários isolados detêm tipicamente apenas cêrca de ura quinto de

• Ai provas «tattslicai «Altre os lucros indicam que êstes aumentam com o tamanho, nus que
a» maiores firmas de uma indústria parecem acusar, às v*rci. uma ligeira queda d« lucro* rdaUvot,
em comparaçfa com nquelai que vêm logo a seguir era umanlio. Uma percentagem maior de
firmai pequenas, do que de firmai grandes, é incluída na clame da* firnu que ifa picjulm.
" A. A. Buli, Ja., e Gardnw C. Mkams. The Modem Corporation and Private Properly (Commer­
ce Clearing Houie, New York, 1938). Veja R. A. GoanoM, Üuúneu Leadership in ihe targe Carp*,
ration (Brookings Inuiiuiion, Washington. 1945), cap. II.
132 INTRODUÇÃO A ANÁLISE ECONÔMICA

tôdas as acões com direito a voto. Kssa pequena fração tem sido considi
da mais que suficiente para inanter o “contrôle dc funcionamento".*

# DIREÇÃO E CONTRÔLE DA GRANDE EMPRÊSA WM

O problema de manter uma grande emprêsa verdadeiramente demooj


tica é difícil. Até alguns anos atrás, comparecia uma dúzia de acionist
à assembléia anual. Mais recentemente, muitas centenas têm comparecii
a algumas reuniões, muitas vezes pela salada de galinha que é servii
grátis e\ deve-se confessar, pela o|xmunidade de criticar a administraçã<
ou ao espetáculo.
As decisões da assembléia anual são, na verdade, tomadas por meio de
procurações. Cada acionista é solicitado a enviar pelo correio uma proj
curação permitindo que a administração vote em seu nome. Há quem
não responda, mas em geral há respostas suficientes para que haja quoru\
e uma confortável pluralidade para a administração. A SEC tem tenta*
melhorar a estrutura democrática das emprêsas, insistindo em que os
assuntos a serem decididos na assembléia anual sejam indicados no texto
da procuração, para que os acionistas possam declarar suas preferências e,
também, que a grupos rivais seja permitido contato com os acionistas
por correspondência, e assim por diante.
Até há alguns anos, podev-se-ia dizer que a maioria das administrai
das empresas se perpetuava no poder. Estivesse a companhia em boa ou
má situação, fòsse eficiente, ou não, a sua direção, o pequeno acionista
típico pouca coisa podia fazer. Podia endossar a aprovação ou desabafar
seus sentimentos abstendo-se de votar. Em qualquer dos dois casos, a admi­
nistração se mantinha imperturbável.
Recentemente houve uma ligeira mudança. Graças às normas da SEC,
alguns grupos minoritários oposicionistas têm tentado — e com sucesso!
— desalojar o grupo dominante c colocar-se como novos dirigentes. Assim,
o falecido Robert Young moveu uma campanha tremenda — usando todos
os artificios da publicidade moderna — para destituir os administradores
da New York Central, c conseguiu obter apoio majoritário. Batalhas se­
melhantes tiveram lugar cm relação à estrada dc ferro de New Haven e
à Montgomery Ward.
De certo modo, portanto, podemos esperar que tenha aumentado o
contrôle democrático das emprêsas pelos acionistas. Observadores compe­
tentes, porém, ainda insistem que, excetuada a incompetência clamorosa,
a administração pode contar com a sua manutenção no pôsto. E, muitas

" t ptmM *è formar-* una pirâmide do cotrttfle. possuindo 1/5 de uma companli!» «Mtt
um milhSo de dólares de patrimônio, que pom.1 1/5 d* urna companhia dc cinto milhAe* de
tauimAnin. e a«,m por diante. Essa pirlmide das chamadas companhia, «holdings" pode dar tf
pequena propriedade da baae um contrôle de bilhões.
ORGANIZAÇÃO C RZKDA DA IMPftlu 153

vê/cs, a batalha das procurações é travada para determinar qual o grupo


minoritário que deverá assumir o contrôle.11

• UMA REVOLUÇÃO DE ADMINISTRADORES?

Quem toma as decisões nas emprêsas? Em primeiro lugar, a clasae cada


vez mais importante dos administradores profissionais. O antigo capitão de
indústria, apesar de todo o seu gênio criador e tôda a sua habilidade em
calcular os riscos necessários à formação dc uma grande emprèsa, exibia
com frequência uma mentalidade dc bucaneiro c uma atitude irrespon­
sável de -o público que sc dane". Em companhia após companhia, o fun­
dador original foi sendo substituído por um nôvo tipo dc executivo, cm
geral tendo um sobrenome diferente. Ainda que êle seja um homem que
chegou àquela posição por esfôrço próprio, é provável que tenha adqui­
rido treinamento c capacidade especial de administração. O nôvo executivo
profissional é mais versado cm relações públicas e no trato das pessoas.
É necessariamente mais o "burocrata", muitas vêzes interessado tanto na
preservação do status quo como cm correr riscos tremendos.
Tipicamente, o homem dominador será o presidente da emprèsa. Quan­
do os anos começarem a pesar, éle poderá ser eleito presidente da junu
diretora. O presidente da junta é, com freqüência, ura estadista mais
velho que, juntamente com um pequeno comitê executivo ou consultivo
da junta de diretores, assessora e aprova os atos do presidente e dos seus
diversos vice-presidentes.
O papel exato da diretoria varia de companhia para companhia e dc
grupo para grupo. Certos diretores são apenas homens conhecidos, selecio­
nados para emprestar prestígio à organização. Outros, possuem conheci*
menios especiais e exercem parte ativa na fixação da política a ser seguida.
De modo geral, seria exagêro diicr que a maioria das juntas de diretores
agem simplesmente como aprovadores das decisões já tomadas pelo» funcio­

nários menos graduados. Mas é verdade que, enquanto a administração


contar cora a confiança da junta, esta não irá intervir, dc modo geral,

para ditar orientações especificas. Êste procedimento administrativo é o


mesmo que costuma ser seguido pela junta dc procuradores de uma funda­

ção filantrópica ou de um colégio, e não difere muito do sistema parla­


mentar dc responsabilidade ministerial, cm vigor na Grã Bretanha e em

outra paite qualquer.

II Un adooou descontente podrri. sempre, vender mus ufa e «pnr —


nhia. Se um número suficiente de arionhtm «Mm • fiaerem. n cumpaohm cManvà
knnur capital pela tnda de uma nova emhtfo E a qoeda d» i«i- 9t9m v

deprimir o valor da ~opc5es de sebecriçSo"* conceded* aoo dbcfomi


boniflcaçlo para faga ao impflio « poderia gahanhar omum
tciotta por procnraçSo.
154 INTRODUÇÃO À ANALISE ECONOMICA

Dc modo geral, não haverá conflito algum de objetivos entre a adminis­


tração c os acionistas. Ambos estarão interessados em maximizar os lucros
da firma. I m duas importantes situações, porém, poderá haver uma
divergência de interesses, muitas vê/es resolvida cm favor da administra­
ção. Primeiro, os elementos que já se encontram ocupando cargos na
companhia poderão votar, a seu favor e a favor de amigos ou parentes,
salários elevados, verbas de representação, gratificações, aposentadorias e
opções de subscrição de ações, às custas dos acionistas.15
Um segundo conflito de interêsse poderá surgir em relação aos lucros
não distribuídos. Os administradores de tôda organização têm uma tendên­
cia, compreensível, de tentar fazer com que ela cresça e se perpetue. As
razões psicológicas são sutis e, em absoluto, nem sempre egoístas. Há raz5cs
para sc discutir se os lucros não são reinvestidos numa companhia, em
certos casos cm que o mesmo capital poderia scr melhor aplicado pelos
acionistas cm outra atividade qualquer ou gasto em consumo. De fato,
as vêzes acontece que uma companhia faria melhor se entrasse cm liqui­
dação c devolvesse o seu capital, mas um cínico poderia duvidar que a
administração seja capaz de votar a própria extinção e seu próprio desem-
prêgo.

• O MAL DO MONOPÓLIO

Em vista de todos os fatos acima, não é de surpreender verificarmos


que as indústrias norte-americanas mais importantes são caracterizadas
por um pequeno número dc grandes emprésas cuja participação da pro­
dução daquela determinada indústria é muitíssimo maior do que a sua
importância numérica poderia justificar. A fig. 1 apresenta uma lista de
algumas grandes indústrias americanas e retrata seu grau de concentração
mostrando a proporção relativa do emprêgo total controlado pelas quatro
primeiras emprésas dominantes e pelas quatro seguintes.
Na terceira parte iremos analisar alguns dos problemas criados pelo
monopólio e pela concorrência imperfeita. No úldmo século, em especial
a partir da promulgação da Lei Antitruste Sherman, em 1890, tem sido
grande a preocupação com o desaparecimento dos mercados de livre con­
corrência sob o avanço da emprêsa de produção em massa. Nos últimos
anos, funcionários da General Electric, da Westinghousc c dc outros

1» Outro* conflito, pudc.au dl/cr ropciio a fraude flagrante; os dirigente. poderio receber

tv'” .O.*™ V“ pr6prl" <on,panhla‘ ou vioUr " regulamentos da SEC.


otilinndo Infonnaçfiw confidential! c espalhando boatos falsos a fim de obter lucro com a
npectilaçSo com aa aede* da comumliU.rim «tm Aiiinwu __ j. «>■ . .'S
atfc. d. companhia, üm dos últimos presidentes da Chrysler teve que pedir

diretor dc*"™ d°n?' r" **rédo' de um> «"m fornecedora. Um


JSZJ?Z tuir01• ““‘“k ** »“«r PMticIpado. «m arfttr
ORGANIZAÇÃO E RENDA DA IMPftisA 1S5

Certas industriai tõo dominadas por muito poucos v«rtd*dorti:

CONCIKTRAÇÀO MCOIDA ff 10 PCSSOAl OCUPADO


NAS INDÚSTRIAS DE TRANSFORM AÇÃO — 1951

Alumínio (Prim Ar (¢)

iqiripantnio Wltlânko

tàmpodai

Alimentoi poro "bicokfoil"

Sob fio

Cigorroí

Aofom&vdi

AvIÕOl

Com* Cnlotado

0
% dc emmCgo total
Fig. 1. No Indõstria do akmmio, d* ow*om6v>U, do oço • moitas outra», mi itman re­
duzido de firmo» fazen a maior port* dos negócios, bso representa em contrarie ò teoria
da concorrência perfeita entre «úmeroí vendedores pequenos (por exenpio, fazendeira),
cada «vai derrasiado pequeno paro IrfMr no preço do mercado. Mas o perito do MAT*
MA. Adelman, acho qua em 1900 o concentração era, provavelmente ainda maior. (Fome
Bare ou of thm CiawiJ

fabricantes de aparelhos clétricos chegaram até a ser presos por terem


tramado a fixação de preços monopolista.
Do ponto de vista econômico, não faz muita diferença quais dos seguin­
tes artifícios monopolísticos façam com que 'o preço seja muito elevado:
(1) fusões de firmas concorrentes, (2) “pools" cooperativos ou "acôrdos de
cartel”, (5) os chamados “trastes” (envolvendo administradores que "coor­
denam” a política de preços), (4) juntas diretoras entreligadas, (5) controle
de companhias “holding”, (6) combinação tácita e ação das associações de
comércio, (7) legislação de “preço justo” (Lei Robiroon-Patman, etc.) e
acôrdos para sustentação do preço das mercadorias, patrocinados pelo
govêmo (trigo, borracha, algodão, etc.) •
• Diversas medidas nesse sentido têm ido tonada no Bracfl por oqiaimai footroUdacw áe
picços. A politic* de preço Justo tem procurado i defesa do produtor, prtoi M g gBgg
agropastoris, através da “Lei dos Preço* Mínimo»**, ouldrud< «• o ímmm é*. m p—ürjws
preço Justo, Incentivar a produçlo. Por outro lido dherua mcd$ tonm ■
direta do* consumidores, através do tabeUmenio; como exemplo ivcrnte. s * w w p * a *
mcdicamcnto» de p.imelr. nceoadadc, ao« qúak M «ptic» * fónnul. dr ohW. êt*** I M
136 INTRODUÇÃO A ANA1.ISK ECONOMICA

I'm preço alto demais, o desperdício de recursos e a criação de lucros


dc monopólio são males econômicos, não importa a sua origem nem os
detalhes técnicos legais da questão. É o que iremos estudnr na terceira
parte, mas é possível apresentar, aqui, uma pequena amostra.
Em regime dc concorrência perfeita, os recursos monetários são atraídos
para a produção dos artigos que o piiblico mais deseja comprar. O mais
eficiente conhecimento técnico c a combinação econômica da terra, do
trabalho c do capital são provocados pela implacável concorrência dar-
winiana. Mas se as firmas tiverem poderes monopolistas:
1) poderão ganhar, à custa dc outros fatôrcs dc produção, mais do
que valeriam suas instalações num sistema de concorrência perfeita;
2) já contando com muitos atrativos monopolísticos, o monopolista
poderá não ser estimulado pela perspectiva de ainda mais atrativos para
a introdução de tôdas as cficiências técnicas possíveis que reduzam seus
custos ao mínimo — e estará, é certo, um tanto protegido dos prejudiciais
golpes dos rivais perfeitamente competitivos;
3) os preços cobrados pelos monopolistas podem ser mais elevados do
que os custos mínimos competitivos (e ao longo das curvas dd do capítulo
4 a produção será menor do que seria num sistema de formação de preços
competitivos, mais baixos);
4) uma produção demasiado baixa, na indústria monopolista, significa
que a mão-de-obra, a terra c outros recursos devem ser aplicados em
demasia em outras indústrias nas quais sua produção valha menos, ou
podem até ficar desempregados (por exemplo, a decisão básica, sôbre se
eu deveria, ou não, trabalhar uma hora extra por semana ou por dia, fica
distorcida, uma vez que num regime de monopólio eu não poderei com­
prar por um dólar os produtos extras que realmente podem ser obtidos
pela minha execução dc um dólar extra de trabalho);
5) cm alguns casos, pior que tudo, a prática de cobrar um preço mono­
polista (ou imperfeitamente competitivo) poderá, como demonstrado na
terceira parte, resultar cm um número demasiado dc barbeiros que pouco
fa/em — e, devido à entrada de outros barbeiros imperfeitamente compe­
titivos, o consumidor poderá pagar um preço alto demais sem que os
barbeiros monopolistas façam mais dinheiro do que fariam sc a concor­
rência fôsse perfeita! Como poderão todos perder? Porque o monopólio
produziu a ineficiência e subutilizou a capacidade, deixando-nos bem dentro
da fronteira de possibilidade de produção retratada no capítulo 21 14

e:*- ssvu-: ---—


ORGAN 17AÇXO £ RJCXOA DA »Mr*#aA 137

# A MALDIÇÃO DA GRANDEZA?

Será a grandeza, em si mesma, um mal? Não hi dúvida que é grande


a hostilidade popular para com as grandes emprésas. Ainda que pudessem
fazé*lo, a General Motors ou a United States Steel muito relutariam em
engolir os concorrentes até que representassem, por exemplo, nove déci­
mos de suas respectivas indústrias. Teriam médo do efeito que isso exer­
ceria na opinião pública. Será ésse antagonismo para com as companhias
grandes dirigido à própria grande/a? Ou contra os supostos males do
monopólio que freqüentemente se supõe estejam associados à grandeza?
Qual deveria ser a política do govêmo para com uma emprésa gigante
"benevolente, bem comportada e eficiente'?
O chamado caso "A. & P." serve de exemplo. Essa cadeia de lojas de
gêneros alimentícios é conhecida pelos seus preços baixos. No entanto, o
Departamento de Justiça processou-a de acôrdo com as leis de combate
ao truste. Deixando de lado certas irregularidades sem importância que
a companhia possa ter praticado, o caso básico foi claramente exposto:
será crime crescer como resultado de eficiência e de uma continuada
manutenção de preços baixos c competitivos? Os tribunais federais pare­
ceram quase responder que era.
Outro exemplo mostra que os problemas de política não sio fáceis.
Em meados da década de 1950, houve uma erupção de fusões; por exem­
plo. na indústria automobilística a Nash uniu-se à Hudson e a Studebaker
à Packard. Muitas vèzes havia um "aspecto fiscal” na fusSo; mas em
certos casos as firmas se fundiam a (im de tentarem tomar-se mais eficien­
tes, para que pudessem competir com a General Motors c a Ford. Será
que essas fusões — mesmo apesar de aumentarem, sem dúvida alguma, o
tamanho das unidades fundidas — reduzem realmente a concorrência, cm
vez de aumentá-la? (Teria errado o Procurador-Geral ao proibir uma
fusão entre as companhias de aço Bethlehem e Youngstown? Estaria certa
a Comissão de Comérdo Interestadual ao permitir a emprésa ferroviária
C. & O. fundir-se com a B. & O.?)
Para produzir uma bomba atômica, o govêmo firmou um contrato com
a Du Pont Company na base de custo de produção mais um dólar
O know-how cientifico da General and Western Electric é dc valor incalculá­
vel, tanto para a paz, como para a guerra. Segundo as palavras dc Schum­
peter, economista mundialmente famoso que faleceu em 1950: u

u J. A. Soti urcru. CopiUümi. Soeimlim, mmd Democracy (Harper. New York, Ittt — *'•**
do Tradutor, editado do BiuQ peta EdilAm rondo de Gallon — **CapitaU«M, Sodataw c Dr-
mncrjcia*’). Sejam quit Coras m afrim da lac dc Sdaapacr, aiada é fcw <■* ** *1*^*
Krandet alterações da produtividade da acrkokora conpctitira; qoe mmtaa tmmm&m m
orífinam de pemoaa independentes oa de conpwlili peqoenw; « qae B*o hi
to de iawntin durante a ófcada ée 1S90. qoe M n Arfnk* de eonamndo
Detc-ie faier refettocia 1 dootitoa do "poder csotpemcdcfo". apmmud» 9* fi -
138 INTRODUÇÃO A ANALISE ECONOMICS

I “O modcuiv padxlo <!e 'id a das massas evoluiu durante o período dc grandes
negócios relativamente desenfreados. Se relacionarmos os itens que entram no orça­
mento do trabalhador moderno e observarmos, a partir dc )899, o curio do* seu*
preços nlo cm têrmos de dinheiro, mas das horas dc trabalho que poderão comprá-lo*
- úto c. oa pregos monetários de cada ano dividido pelos salários-hora de cada ano —
nlo podemos deixar de nos surpreender pela taxa do progresso que, cons:derandose
a espetacular melhoria d.is qualidades parece ter sido maior, c n5o menor, do que
nunca. ... K iwn não <• tudo. Tão logo entramos cm detalhes e investigamos os itens
individuais nos quais o progresso foi mais evidente, o caminho nSo nos leva às
portas das firmas que funcionam em condições de concorrência comparativamente livre
mas precisamente às portas das gTandes emprêsas — que, como no caso das miquinas
agrícclas. também respondem por grande parte do progresso no setor competitivo —
c somos assaltados por uma chocante suspeita dc que as grandes emprêsas possam ter
concorrido mais para criar aquêle padrão dc vida do que para mantê-lo baixo."

Isso sugere que o problema futuro poderá não ser escolher entre grandes
empresas monopolísticas e concorrentes de pequena produção, mas sim
projetar meios de melhorar a ação social c econômica de grandes em-
presas. O objetivo a alcançar no futuro poderá ser o dc manter a capacidade
tremendamente criadora da moderna emprêsa dc produção em massa,
trabalhando para o bem público. Voltaremos ao problema da manutenção
da “concorrência efetiva e exeqüível” depois da análise, feita na terceira
parte, dos preços e do custo em regime dc concorrência perfeita e na
concorrência imperfeita.

SUMÁRIO

1. A atual população das emprêsas norte-americanas cresceu cm conse­


qüência de um excesso cumulativo de nascimentos sôbre as mortes de
firmas. Em sua maioria, ela consiste de finnas individuais microscópicas,
a maior parte estabelecimentos de vendas a varejo e de serviços. Sua taxa
dc tenovação de estoques é elevada.
2. Em geral, devia-se compreender como uma emprêsa cresce, suas
necessidades e suas possibilidades de obter capital a curto ou a longo
prazo, c as vantagens e desvantagens da sociedade por ações comparada
à propriedade individual e à sociedade simples.
3. Além disso, todos deveriam pôr-se a par dos direitos legais funda­
mentais da emprêsa c das características geiais das debêntures e das ações
preferenciais e ordinárias da companhia.

ZZZTUTaZT , <»ou«1Uon Mifflin. Bouou, 19S2). Aumenta-*, ali. que a»


£££ * %hUT*"*- “ «“ - tU~, trabalhista*
** ,7® ? ® ^ Qur * Sc-*, c . A. Ir P.
ORGANIZAÇÃO K RFKDA I»A FMPRÍAA 139

4. Os problemas criados pela separação da propriedade e do contrôle t


pela grande concentração de riqueza econômica e poder de monopólio na
moderna emprésa gigante merece um estudo sério. (A terceira parte iri
discutir a concorrência imperfeita e as políticas de combate ao truste.)

A Contabilidade é um grande auxílio para a compreensão da Economia,


e seus princípios fundamentais são apresentados, cm forma resumida, no
apêndice a êste capítulo.

TEMAS PARA DISCUSSÃO

1. Imagine-se iniciando um negócio por conta própria. Escreva a sua


história provável.
2. Compare as vantagens e desvantagens (a) da firma individual, (b)
da sociedade c (c) da sociedade por ações.
3. Relacione as maneiras que as emprêsas pequenas, médias e grandes
dispõem dc levantar capital.
4. Quais as vantagens e desvantagens dos diferentes tipos dc ações?
5. Comente a estrutura da grande emprêsa moderna.
6. O que se quer dizer, ao chamar a época em que vivemos de era da
"Revolução Administrativa ou Burocrática'? Terá essa expressão
aplicações fora do govêmo?
7. Dê exemplos de interêsses divergentes entre acionistas e a adminis­
tração, de interêsses coincidentes, e de problemas dc contrôle demo­
crático.
8. Defenda a "grandeza como tal". Ataque-a. Quais os males que
poderiam acompanhá-la?
9. Quais os males econômicos do monopólio? Dê exemplos.
10. Reveja sua compreensão dos seguintes conceitos:
emprêsa individual
sodedade
sodedade anônima
responsabilidade ilimitada e responsabilidade limitada
banco de investimento
Securities and Exchange Comission (SEC), SBA
impôsto de renda de pessoa jurídica
impôsto de renda de pessoa fisica
debentures, ações ordinárias e ações preferenciais
procuração, contrôle minoritário
diretor, executivo, burocrata
formas de contrôle monopolístico
| 10 IM1UX>IÇU> A AN U INK ECONOMICA

fusão, fraude
males do monopólio
po>>ívei> vantagens ilin.Amicas da grandc/a

APÊNDICE: ELEMENTOS DE CONTABILIDADE

Nesta "era das cortas", uma certa Esta é a identidade fundamental de


noção elementar de ContabiEdade tor­ um Balanço:
nou-se de grande necessidade.
Valor do ativo — valor do total dos
O Balanço exigências ou da
propriedade
Um estudante de Economia precisa ter
alguma compreensão dos dois documen­ ■> valor das obrigações
tos contábeis fundamentais: o Balanço (devidas) + valor
e a Dmmonstraçdo de Lucros e Perdas da propriedade
(ou a chamada “Declaração de Resul­ (possuído).
tados"). ou Ativo m Obrigações + Patrimônio
O Balanço é cpresentado em um re­ líquido.
latório, em geral anualmente. Repre­
sento um "retrato" instantâneo da con­ Vemos lustrar isso examhondo um
dição Ha empreso em determinado dia, simples Balanço como o mostrado no
geralmente o último dia do ano. Corres­ quadro 1, que relaciona o Ativo à es­
pondendo ao valor monetário de cada querda e, à direita, os Obrigações e
bem — tangível ou intangível — tem o Patrimônio Líquido de uma nova com­
que haver, necessária mente, um total panhia cujo funcionamento recém-co*
exatamente igual de exigências ou pro­ meçou.
priedade. O valor de uma casa de Uni espaço em branco foi delibera­
$20000 é correspondido, com exati­ damente deixado ao lodo do item rela­
dão, pela reivindicação de alguém em tivo ao patrimônio liquido em ações
relação à sua propriedade, consistindo, ordinárias, porque o leitor deverá per­
por exemplo, de $15 000 devidos a um ceber que o único lançamento correto
credor • $5000 possuídos pelo seu compatível com o nosso trufemo do Ba­
proprietário. lanço, é $200000. Um Balanço terá

Um balanço é em "instantâneo fotográfico" que mostra que


ative r= passivo -f* patrimônio líquidos

ATIVO PASSIVO
Além Cerrntt Zxigtrrf * fmrta fraso
Ca In............... | 20000 Contas n pecar............. 20000
Isiqn soooo Titulo* a pagar.............. 30000

4Nn /«Mm* F.ngti+14 longo ptaso


Maquinaria e lnili- Emprértimo* «ovrr-
1JOOOO SO 000
Imóvel*........................ 170000 DeMntuirs.................... 50000

Ftirtmônio líquido
CsMIél
AçArt prefrrrnciate... SO 000
Àçflt* ordinárias .... Qeadro 1. Balanço da Pepto*
Gtttsr S. A.. •« 31-12-1966.
ToUl.......... ............. f 400000 Total............................. S «ooooo
ELEMENTOS DE CONTA BI I IDADE

que estar, sempre, em equilíbrio — por­ envolvem uma certa dose de adivinha­
que o Patrimônio Líquido, ou seja, u ção, se bem que cuidadosa. Além do
posso dos "reivindicontes residuais" sem­ mais, tôdas as avaliações contábeis têm
pre se a|usta para proporcionarque ser feitas em relação ò finalidade
o
equilíbrio. real ou ao uso do bem em questão. Se
Para ilustrar o que dissemos, vamos a emprêsa estiver indo bem e não se
supor quo um ladrão roube todo o di­ achar no processo de liquidação, o con­
nheiro em caixa e que um incêndio des­ tador terá o cuidado de não avaliar
trua um quarto do estoque de mercado­ bens duvidosos ao valor baixo que obte­
rias. O contador tomará conhecimento riam numa venda forçada. Cm vez disso,
dessa triste notícia sem se alterar: "O éle irá atribuir-lhes aquilo que valem
Ativo Total sofreu uma redução de para a companhia em seu funcionamen­
$40 000, ao todo; as Obrigações conti­ to normal.
nuam inalteradas. Muito bem, tenho que O estoque de mercadorias, consistin­
reduzir de $40 000 o Patrimônio Líqui­ do, no caso da nossa companhia de
do, que passará a ser de $210 000." pasta de dentes, de açúcar, produtos
É assim que éle vai marcando a conta­ químicos, tubos, matérias-primas e ou­
gem. tros produtos em transformação, pode
Até mesmo êsse Balanço simples nos ser avaliado de muitas maneiras dife­
revela muitos fatos interessantes. Pri- rentes. Muitas emprêsas conservadoras
meiro, é costume dividir o Ativo segundo usam o custo original dos estoques ou
a sua convertibilidade em dinheiro por o valor de mercado presente, depen­
meio de operações normais dentro de dendo de qual fôr o mais baixo. Proble­
um ano, ou não, sendo a primeira cate­ mas especialmente difkets surgem quan­
goria chamada de Ativo Corrente e, a do os preços do material varia de mês
segunda, de Ativo Imobilizada As obri- para mês. Será que deveríamos cal­
gações também podem ser subdivididas cular o custo dos produtos químicos da
em Exigrvel a Curto Prazo e Exigível a pasta de dentes de acôrdo com o preço
Longo Prazo, dependendo do seu ven­ original dos ingredientes realmente utili­
cimento se dar dentro de um ano ou não. zados e que, é claro, forem comprados
Bs um detalhe que deve ser obser­ há algum tempo, quando os preços eram
vado, com relação a um Balanço: em­ diferentes? Ou calcular, como o nosso
bora os seus dois lados devam apresen­ custo, o preço que terá que ser pago
tar equilíbrio no total, não há um item agora por aquêles produtos químicos pa­
de um lado que seja correspondido no ra reposição dos que estão sendo consu­
mesmo valor por outro item do outro midos? Uma discussão elementar não po­
lado. Assim, o item Debentures não cor­ de se aprofundar nesses dois métodos
respond e, em valor, a Equipamentos possíveis de avaliação de estoque.19
ou Imóveis, como os itens relativos ao É óbvio que, numa época de inflação ou
Capital não correspondem ao item Cai­ de deflação, fará uma grande diferen­
xa. A única afirmação correta sôbre ço, nos lucros declarados, o utilização de
um Balanço é que os credores têm uma um dêsses métodos. Haverá diferença,
exigibilidade geral de um valor defi­ também, no impôsto de renda. Por isso,
nido contra a emprêsa, e os proprietá­ o govêmo 6 levado a dizen "Use o
rios têm uma exigibilidade residual con­ método que quiser, mas, uma vez deci­
tra o restante. dido qual será êle, não use outro." Era
A maioria dos itens específicos rela­ o que tínhamos a dizer sôbre os esto­
cionados são, mais ou menos, auto-ex- ques.
plicativos. "Caixa" consiste de moedas,
e dinheiro depositado no banco; é o •* Oi texloi de ConfabSdode se referem e
único bem cujo valor e exato, e não uma «Im cerne TW«t-fc*-flnt.o»r (WOI e "last-h-
estimativa. Tôdas as outras avaliações flnt-ovT (UFOJ e os analisam com detaftas.
142 i.vntooiçÃo À análise econômica

O fluxo do rendas durante o ano é indicado pela demonstração de resultados:


S 240000

K Cuta da produçlc vendida


.... 50000
Ma
S»b . . . . íonnoo
tjn _____ 20000

Out r*fl (4# _ aa a • • a « . . . . 5000

Ç MU total dl producSo........................... ......... 175000

Mm» Eatoque mu íal ------------------------------- .... S0000


255000
l/m ____ 85000

m C u»to da firolui lo r li. .... 170000 170000

Lucro fcrut 70000


I f r n Dcapcau dc «dniaútratSo e prorrxoçãc d«
vendis. 140)0

56000
iíewat: Juros c impotlos estaduaisc cmnicipait. 6000

Renda Lí-iuida nates dc deduzido o impôsto de renda 50000


Uencs: Ircp6>:odr renda da emprêsa........................................... 21000

Renda Ifquida depois dc pagos os imposto*.............................. 29000 ,


itenoi: DlvUrodcadeaçOcs pcriacncais.....---------------------------- 2000

Lucro liquido d » portadores dc acGcs ordinárias.... 2?000 Quadro 1 Da monstra (5o do r*-

Xirmot: Dividendos de ac«cs ordixiriaa...................................... -....................


7 ono sultadas do Pepto-GUtttr S. À., de
■ - 1.* de janeira de 1967 a 31 do
Transferido pnm reservas.............................. ........................... 20000 dtzembro de 1967.

Se presumirmos que os itens relativos mo de 5 anos concedido, ou garanti-


a Equipamento e Imóveis foram adqui­ do, pela Small Business Administration,
ridos em fins de 1966, os valôres que organismo federal. As Debentures re­
aparecerão no Balanço serão iguais presentam um empréstimo a longo pra­
ao seu preço de compra, de acôrdo com zo, a 3% o cupão, só resgatável em
uma regra ou convençõo contábil fun­ 15 anos. (Notai Aquilo que aparece
damental: "X época da aquisição, pre­ como passivo dessa companhia poderá
sume-se que uma coisa valha aquilo surgir como Ativo para outra pessoa
que a emprêsa paga por ela.” Entre­ qualquer; assim, os credores que estão
tanto, como iremos ver em relação à de posse dessas debentures irão lançá-
Declaração de Resultados e ao Balanço las no lado esquerdo, o do Ativo, como
do ano seguinte, são difíceis os proble­ "Debentures a Receber").
mas para a decisão sôbre como avaliar Passando agora aos itens do Patri­
com exatidão o equipamento e os pré­ mônio Liquido, vemos que foram emiti­
dios que se depreciaram pelo uso e das 500 ações preferenciais cumulativas
paio tempo de utilização. de $100, a juros de 4% (sem direito a
No lado das Obrigaçães (Passivo), voto), e 20 000 ações ordinárias a $10
as Contas a Pagar representam, como cada uma.
seu nome indica, as quantias devidas Com isso, termina a nossa primeira
pelas mercadorias compradas e debi­ observação de um Balanço simples.
tadas. Títulos a Pagar são notas pro­
A Demonstração de Lucros e Perdas,
missórias devidas aos bancos ou a uma
ou Demonstração de Resultados
companhia de financiamento. O Título
da SBA relacionado sob o item "Exigível Agora, deixemos o tempo passar. Ao
a Longo Prazo" representa um emprésti- longo dos meses seguintes, a firma se
ELEMENTOS DE CONTABILIDADE

dedico lucraKvamente à produção e à tado, e o do estoque no fim do ano 4


venda de pastas de dentes. A fim de subtraído. O resultado, que difere eãt
mostrar o seu fluxo de rendimento nos $5000 do Custo de Fabricoçõo, 6 o
12 meses do ano, temos que examiner Custo de Fabricação dot Artigos Veo-
a sua Demonstração de Resultados, ou didos. Qual a diferença entre tees
— como preferem muitas companhias — dob têrmot, e qual o motivo dtee o juste
a Demonstração de Lucros e Perda*, de estoques?
no quadro 2. A Pepto-Glitter começou o ono com
Trata-se de uma demonstração que um estoque de $80000 de matérias-
primas e de produtos acabados. Du­
apresenta o seguinte: (1) a receita
obtido pela Pepto-Glitter com as vendas rante o ano, aumentou os estoques em
no ano de 1967, (2) as despesas que mab $5000. Neste coso, seria fabo
deverão ser deduzidas dessa receita atribuir todo o custo de fabricoçõo
e (3) o lucro que resta depois de des­ oot artigo» rec/roen/e vendidos. Algum
dêsses custos são reclmente atribwveb
contadas as despesas.
a artigos a serem vendidos no Muro,
Isto é, Lucro Total = Receita Totol
O esquecimento d Asse fato represen­
menos Custo Total (a identidade funda­
taria um exagéro do Custo dos Artigos
mental da Declaração de Resulta dot)*
Vendidos nesse ano; seria subtrair em
Você a compreenderá melhor se, a demasia das Vendas Líquidas désse ano
princípio, não levar em consideração e diminuir os lucros désse exerddo.
os núneros da seção Custo dos Artigos
Se não tivesse havido afteroçõo no
Vendidos (números da coluna interna)
estoque, tudo seria simples: o Custo de
e olher apenas os constantes da coluna
Fabricoçõo e o Custo dos Artigos Ven­
da direito. As vendas atingiram....................
didos seriam Idênticos.
$240 000, e o custo de fabricação dos
artigos vendidos chegou a $170 000. Por outro lado, o que aconteceria se
Depois de deduzir outros $14 000 rela­ tivéssemos um estoque menor, no fim
tivos a Custos de Venda e de Adminis­ do ano, do que no Início? Mui òbvSa-
tração, restaram $56 000 como Lucro mente, estaremos enganando o nós
liquido do Operação. Déste, foi pre­ mesmos se nõo reconhecermos que o
ciso pagar um total de $27000 de custo dos artigos que vendemos éste
juros e impostos, deixando $29 000 de ano deveria ser realmente maior do
Renda Líquida Depois de Pagos os Im­ que a quantia que pagamos à mão-de-
postos. foram pagos dividendos de obra e a outras firmas. Teremos igno­
$? 000 de ações preferenciais e $7 000 rado o custo do estoque consumido e
de ações ordinárias, deixando $20 000 nõo substituído.
de lucro liquido (Aumento das Reservas) Resumos para chegarmos a uma cifra
retido na firma. válida para o Custo de Artigos Vendi*
Volte, agora, para a seção de Custo dos* temos que ajustar o Custo de Fa­
de Artigos Vendidos, que relaciona os bricação da seguinte maneirai se o
custos daquela parte da firma. Ali estão Estoque Final acusar um aumento sôbre
as despesas feitas com matérias-primas, o Estoque Inidal, deduza Isse aumento;
mão-de-obra e gastos diversos, junta­ ie o Estoque Final tiver diminuido, adi­
mente com um item referente a Depre­ cione ésse decréscimo.
ciação. (Depreciação merece uma seção Em vez de subtrair $5 000 diretomew
própria, e iremos examiná-la dentro te dos $175 000 de despesas totais de
em pouco.) A soma désses quatro itens fabricação, o contador faz a operação
($175 000) 6 o Custo Total de Fabrica­ em duas etapas. Em lugar de trabalhar
ção. Segue-se, então, o que poderá com a diferença entre os dois, lie pri­
parecer um ajuste estranho. O valor do meiro soma o Estoque Inicial total e
estoque em 1.® de janeiro 6 acrescen­ depois subtrai o Estoque Final, esse
INTRODUÇÃO À ANÁLISE ECONÔMICA

método tem a vantagem de ser padro­ obtido se os custos do equipamento fo­


nizado. E o mesmo, tenha, ou não, sido rem distribuídos de modo mais eqiütà-
reduzido o estoque, oo posso que uma tivo durante o seu tempo de vido. O
simples cifra relativa à variação do valor do equipamento declina como re­
estoque seria, em alguns casos, uma sub­ sultado da idade e do uso; sofre uma
tração e, em outros, uma adição. E o depreciação do seu preço quando nôvo,
método do contador também revela a até o seu valor final como sucata. Re­
alteração do estoque em relação ao conhecendo isso, o contador deprecia o
vo'ume do estoque total. valor dos itens de capital fixo segundo
Observe que os termos do quadro 2 uma fórmula gradativa. Dos inúmeros
diferem daqueles do Balanço do quadro métodos propostos, eis dois que são
1. Os itens de rendimento se referem a os mais usados.
fluxos no tempo: ação cinematográfica. O primeiro é chamado de "depre­
Os itens do Balanço se referem a esto­ ciação linear".* Suponhamos que você
ques num determinado momento: re­ tenha um caminhão cujo custo, quando
tratos. nôvo, é de $10 100 e cuja vida econô­
mica é de 10 anos. Decorrido êsse prazo,
a sua vida física poderá continuar, mas
Depreciação
a econômica terá terminado, devido ao
A princípio, poderemos ficar pensando sou funcionamento procario e aos seus
no motivo pelo qual se fêz uma Depre­ custos de manutenção. Suponhamos que
ciação no exercício de 1967. Os prédios o seu valor, como sucata, ao fim de 10
e o equipamento forom adquiridos no anos, seja de $100. De acôrdo com o
inicio do ano, e certamente ainda não método linear, todos os anos você de­
terão sofrido desgaste. (Haverá, é cla­ bitará à depreciação um décimo pelo
ro, a necessidade de se gastar dinheiro declínio do valor ao longo de tôda a
com homens que façam a manutenção vida do materiel, ou seja, $10 000 (o
do equipamento e que mantenham pin­ preço quando nôvo menos o valor como
tadas as fábricas; mas os seus salários sucata). Assim, será feito um lançamento
lá estão incluídos no Custo de Mão-de- de $1 000, todos os anos, em Despesas
Obra ou nos Custos Operacionais Di­ de Depreciação.
versos, e não entram nas Despesas de Um segundo método de depreciação
Depreciação.) prematura mais rápida tem sido muito
É aS que se manifesta a sagacidade empregado, em especial porque as re­
Ho contador, que salienta que poderá centes leis fiscais permitem que se faça
não ser precisa gastar um só centavo dêle um uso generoso. Em vez de amor­
na substituição do equipamento durante tizarem um nôvo bem de capital regu­
10 ano», prazo a cujo término podera lamente pelo método linear, as firmas
acontecer que, de súbito, tódas as má­ podem utlizar o "método do saldo de­
quinas tenham que ser substituídos por crescente", ou — o que vem a dar mais
novas. Seria absurdo levar 9 anos sem ou menos no mesmo, pela sua genero­
fazer uma despesa de depreciação e sidade para com uma rápida deprecia­
enganar a si próprio pensando estar ção prematura — o método da "soma dos
tendo um belo lucro e, de repente, no dígitos". Nesta apresentação resumida,
décimo ano, ter que debitar todo o iremos descrever apenas o primeiro.
valor das máquinas de uma só vez e
pensar que teve um grande prejuízo
0* métodos aqui propoitos são mah no sen­
naquele ano. tido d* obter uma depreciação "real", que in­
Na verdade, salienta éle, o equipa­ formo, portanto, do melhor modo possível, a
mento está sendo desgastado o tempo qualquer momento, o voter "real do patrimônio".
Na prática as emprêsas seguem as leis espe­
todo. Um retrato mais real, sem distor­
cificas do impôsto sôbre a renda, sobretudo a
ções, da renda ou do lucro liquido será nova loQtslac&o sôbre reavallaç&o de ativos.
ELEMENTOS DE CONTABII IDADE 145

Deixando de lado o valor como su­ dois pensamentos: (1) um método de


cata, por insignificante, vejamos o ca­ depreciação aproximado, como um re­
minhão que custa $10000 e que dura lógio imperfeito, é muitos vêxes mdhor
10 arps. Em vez de deduzir um décimo do que nenhum; (2) os erros de depre­
dêsse valor para depreciação, no pri­ dação acabam por se compensarem,
meiro ano, a legislação fiscal permite de qualquer modo.
que você desconte, segundo o método Vejamos por que um êrro de depre­
de saldo decrescente, duas vêzes aquâfe ciação acaba tendendo a se corrigir.
valor, de 2X10% -20%. no primeiro Suponhamos que o caminhão dure 15
ano. Assim, você obtém uma dedução anos, e não os 10 previstos. Neste caso,
muito maior, para efeito de tributação. durante os primeiros 10 anos estivemos
Evidentemente você não pode deduzir exagerando os nossas despesas de
aquela quantia para cada ano de vida, depredação. No déámo-primefro e nos
já que isso o deixaria com um valor anos seguintes, porém, não haverá de­
igual a zero, a meio caminho, ao fim predação alguma lançada sôbre o ca­
de 5 anos. 0 que o método do saldo minhão, uma vez que êle já terá atin­
decrescente faz 6 deixar que você de- gido o seu valor de sucata ao fim do
duza 20% de valor residual, ou saldo, décimo ano. Nossos lucros, nesses últimos
todos os anos. No segundo ano, então# anos, tendem, portanto, a ser sobresti­
você deduz 20% dos $8000 de valor mados mais ou menos na mesma pro­
residual» ou $1 600. No terceiro ano, porção em que foram subestimados nos
você deduz 20% do que sobrou, ou anos anteriores. Depob de 15 anos, tudo
seja, de $6400. E o processo se dâ eslará na mesma, no final das contas.
nessa ordem. Pode-se calcular que na
Isto é, à exceção dos mpostos. Métodos
época em que o bem de capital tiver
diferentes de depredoçõo resultam
alcançado metade da sua vida 6tl,
numa distribuição diferente aparente
você teve permissão para deduzir, para
de rendimentos oo longo do tempo e,
fns fiscais, quase dois terços do seu
por isso, numa incidência diferente do
valor — e não a metade, como aconte­
impósto de renda. Naturalmente, um
ceria no método linear. E mais adiante,
homem de negócios prefere um método
na vida do bem, que o método do saldo
de depredação que faça com que a
decrescente começa a ser menos gene­
média dos impostos que paga seja mais
roso a fim de compensar c generosidade
constante ao longo do periodo, de mo­
anterior.17
do a manter sua taxa efetiva de bn-
Embora a depreciação seja, em geral,
pêsto tão baixa quanto possível e per­
calculada segundo uma fórmula apa­
mitir-lhe compensar prejuízos • lucros*
rentemente exata, todo contador sabe
que as estimativas são feitas, na verdade, E prefere, também, um método rápido
(como o saldo decrescente), que lhe
muito a grosso modo, estando sujeitas
permite adiar o máximo possível o dia
a grandes e imprevisíveis erros e en­
ãziago do pagamento dos impostos.
volvendo correções e suposições arbi­
trárias. O contabilista se conforta com Isso explica porque tontos emprêsas
aproveitaram a oferta de emergência
n Um método bem diferente, chamado de do govêmo norte-americano, de deixá-
"método do vnldodo do serviço", ov "método do
las amortizarem (ou depreciarem) suas
unidade do produçõo",s6 poderá ser mencionado
de formo muito resum'da, aq»i. Do ocôrdo com instalações e seu equipamento de defe­
éme processo, deveríamos cotarfor o número de sa em 5 anos. Rcaran satisfeitos por po­
quUftmetros, cargas ou unidades de seiviço que o derem, debitando elevadas despesos
caminhão Irá rtoBzor durante a soa vida. Asm,
de depredação, reduzir seus lucros de­
se o caminhão percorre um mIMo de quOêmetros
em 10 o nos. e te a iuo perda de valor nesse clarados durante a emergindo do sis­
p«rfodo fôc do $10 000, cada tyMuniiu porcar- tema de defesa, quando seus lucros
Hdo represente cêrca de 1 centavo. foram enormes. Preferiram muito mais
146 INTRODl’LAO À ANÁLISE ECONÔMICA

aproveitar essa "depreciação acele* videndos, ou, como vimos no final da


rada”, de modo a deslocar os seus Declaração de Resultados, igual a
lucros naqueles anos de emergência $27 000 menos $7 000, ou $20 000 de
para uma época posterior, quando se lucros distribuídos.
esperava que os impostos das empresas Algum item do Patrimônio Líquido de­
fôssem menores. verá ser aumentado em $20 000. É evi­
O Tesouro
não permitirá que uma dente que não se poderia aumentar a
emprêsa manipule suas Despesas de conta Ações Preferenciais, porque êsses
Depreciação para fugir ao impôsto. A acionistas não são os credores residuais
companhia poderá escolher qualquer dos lucros da emprêsa e nenhuma ação
método razoável, mas, uma vez feita nova foi vendida. Seria concebível se se
a escolha, terá que cingir-se a êle. acrescentassem os $20 000 à conta
Muitas pessoas, hoje em dia, se preo­ Ações Ordinárias. Entretanto, tal não se
cupam com os efeitos prejudiciais dc faz. Em vez disso, a conta Ações Ordi­
tributação do “capitcl de risco”. Alegam nárias é deixada no seu valor original
que teremos maiores investimentos era ao par, ou valor de enissõo.
noves ferramentas e criaremos mais em­ Será mais esclarecedor criar uma
pregos se o Tesouro fôr mais liberal era
nova corta, chamada Reservas — ou,
permitir que as corapanhias depreciem
às vêzes. Reservas Obtidas ou Rendi­
mais rapidamente o seu equipamento, mentos Retidos — pera mostrar quanto
economizando, com isso, impostos. Em
do aumento do Patrimônio Uquido re­
1962, o govêmo do Presidente Kennedy sultou do acúmulo de resultados não
introduziu um "crédito fiscal para inves­
distribuídos reinvestidos ao longo dos
timento", que dá um subsídio a firmas
anos.
que fazem investimento em equipamen-
Em muitas maneires. Reservas é uma
do nôvo.*
palavra ilusória. Parece algo extra
ou desnecessário, ov, com demasiada
A Relação entro a Demonstração de
frequência, uma boa bolada em que os
Resultados e o Balanço
funcionários ou acionistas da companhia
A esta altura, temos que estabelecer possam esperar avançar. Na verdade,
a relação entre a descrição, feita pela a conta Reservas não constitui um item
Demonstração de Resultados, daquilo patrimonial, muito menos um encaixe
que ocorreu durante o ano, e os Balan­ líquido. Indica, simplesmente, uma parte
ços do início e do fim do ano. O quadro da propriedade — em excesso das
3 mostra o Balanço da nossa emprêsa Obrigações para com os credores e o
de pasta de dentes ao fim do seu pri­ capital subscrito original — nos haveres
meiro ano de funcionamento. A compa­ heterogêneos da emprêsa. Um exame
nhia prosperou. O Patrimônio Líquido, do quadro 3 nos convencerá de que os
que é a diferença entre o Ativo Total $20 000 de Reservas não têm, no lado
e as Obrigações Totais, aumentou, entre Ativo, uma conta que apresente o mes­
o início e o fim do período registrado, mo valor em dinheiro.
$20 000 — de $250 000 para .... Mais uma vez, devemos lançar uma
$270 000. Êsse aumento, como se ve­ advertência contra a tentativa de esta­
rifica pela comparação dos Balanços, 6 belecer ligações entre itens específicos
igual aos rendimentos ou lucros à dispo­ dos dois lados do Balanço. Só os totais
sição dos acionistas ordinários mas que finais correspondem. Nem mesmo é pos­
não lhes foram pagos em forma de dl- sível dizer exatamente de que maneira
os $20 000 reinvestidos na firma, ou
• Medida Idêntica foi tomada diversas vêzes
adicionados às Reservas, foram utiliza­
no Brasil, «stando mok •« «vWInrfa, no momento,
es isenções concedido» a Investimentos novos dos. Um acréscimo às Reservas deve ser
reaEzados no Nordeste do Paf». associado a um aumento do Patrimônio
ELEMENTOS DE OOKTABI1JDAM

e/ou uma redução das Obrigações — de 1967 e que nõo comtavom no de


isto ó tudo que podemos dizer. 1966, poderemos resumir em poucos
Seria êrro Idêntico pensar que os palavros a reloção entre Balanços e
ucros de uma emprêsa advêm em forma Demonstrações de Resultado*
de dinheiro, de modo que no último dia 1—0 Balanço indica um retrato
do ano, pouco antes de a diretoria de­
financeiro instantâneo; é como uma me­
cidi r sôbre a sua taxo de dividendos, ha­ dida do volume de água que exble num
via uns $27000 em dinheiro, à disposição
logo;
dos acionistas ou para serem reinvesti­
dos na emprêsa. No caso da nossa com­ 2 — a Demonstração de Resultados
panhia de pasta de dentes, o belo lucro mostra o fluxo das vendas, custo e re­
obtido tomou, era grande parte, a forma ceito durante o ano ou outro período
de nôvo Patrimônio e menores Obriga­ contábil: mede a entrada e a soida da
ções; não muito mais de $7 000 pode­ água do lago;
ria m ter sido distribuídos como dividen­
dos em dinheiro, sem forçar sérias mu­ 3 — a alteração do Patrimônio Li­
danças das decodes de orden finan­ quido total, entre o início e o término
ce!ra tomadas pela companhia — deci­ do período — como se observo compa­
sões como emprestar mais, crescer a rando o nôvo Balanço e o anterior —
ritmo mais lento, desfazer-se, com prejuí­ pode também ser observada pelo exa­
zo, de uma parte do equipamento e do me das alterações das Reservas acres­
estoque de mercadorias, ou de operar centadas à Demonstração de Resultados
com saldo de caixa terrivelmente baixo. do quadro 3: podemos relocSonor a
vcriacõo do nível do lago durante o ano
Resumo das Relações Contábeis Ele­ às marés daquele período. Se houver
mentares a venda de novas ações ordinários, isso
Antes de um último exame das novas será revelado comparando-se os dois
complicações introduzidas no Balanço Balanços.

Depois de um ano de funcionamento, teremos um nôvo bolençet


Quadro 3. Balanço da Ptpto-GIWor S. A., era 31-12-1967.

ATIVO PASSIVO
Aluo terrrmlr Dtaidm
Caixa.................................................................... S 20000 fiWdwl e cuilo praao
Emoqun................................................................ 85000 Contai a pecar........................... 10000
Fumdo para iubitilni(ão io ejmpcmtnso Titulo* a pagar........................... 17000
(em título* dc govêrno doa E. U. A.) .................. 5000 Reserva para Impoatoa.............. 21000
Alito imobilizado
Maqnlaaria c iiiatalaçGci..... .................. UOOOO
Baithri e lamgc prato
Menos:
fondo (m KMrva) d« depredac&o 15 000 Empréstimos governa men tala seooo

115000 Debénturea S0000


lmávelt................................................... 170000
MdRMi Pafrimònio Itqmido
fundo (ou reaerva) <Ia dcpreciaçflo 5000
C*PÍt4l
165000
AcflMpr*##VMiHal*......... .................. seooo
Alito i*tangtul Toeooo
AcOesordlnArUs............
Patentes............ 10000
Av iam en t o,,,, . 18000 ................................... 2e

Total S 418000 Total t 411080


148 INTRODUÇÃO A ANÁLISE ECONÔMICA

Restam, entretanto, certas alterações o Ativo Corrente e o Ativo Imobilizado.


dos itens do Balanço, em comparação Constitui um valor patrimonial que con*
com os seus níveis anteriores, para as siste de, por exemplo, apólices gover­
quais a Demonstração de Resultados namentais a 4%, que deverão ficar
não nos fornece indício algum. Um exa­ retidas com a finalidade de cobrirem
me mais detalhado do Balanço relativo uma parte do dinheiro necessário à
oo dia 31 de dezembro de 1967 será, aquisição de novas máquinas quando
assim, instrutivo, embora já se tenha dito as antigas tiverem que ser substituídas.
o bastante para familiarizar o leitor Embora a emprêsa pudesse mudar de
com as noções elementares da Conta­ idéia e usar os títulos do Fundo de Amor­
bilidade. tização para outro fim qualquer, é de
se presumir que não o faça. A natureza
dêsse Fundo de Amortização é muito
Reservas • Fundos
compreensível: é, simplesmente, um con-
O nôvo Balanço, na maior parte, se junto de bens patrimoniais líquidos pos­
assemelha muito ao anterior, mas há a tos de lado para atender a um objetivo
presença de alguns itens novos, pela pri­ futuro específico.
meira vez. O último dêsses novos itens, Passando ao Ativo Imobilizado, te­
as Reservas, já foi por nós explicada mos uma surprêsa. A julgar pela nossa
Entre as Obrigações existe uma nova discussão anterior das Despesas de De­
conta intitulada Reserva para Impostos, preciação da Demonstração de Resul­
no valor de $21 000. Não é difícil com­ tados, deveríamos ter esperado que as
preendê-la. Os impostos que a emprêsa contas Prédios e Equipamento totalizas­
terá que pagar ao govêmo constituem sem $280000. Por quê? Porque no
Obrigações a curto prazo, tanto quanto início do ano as duas somavam.•...»
as Contas a Pagar ou os Títulos a Pagar. $300 000, porque nenhum equipamento
Impostos a Pagar poderia ter sido nôvo foi adquirido duronte o ono, o
um título melhor, já que a palavra “Re­ porque a Demonstração do Resirftados
serva" sugere uma parcela em dinheiro, nos disse que naquele período houve
o que absolutamente não 6 o caso. Em uma depreciação de $20 000, como
vez disso. Reservas para Impostos é parte dos custos de produção necessá­
simplesmente um indicador de parte do rios.
Patrimônio Total da companhia desti­
Por que, então, essas contas do Ativo
nada a um credor especial — uma lem­
Imobilizado constam do nôvo Balanço
brança de quo o Patrimônio Liquido
com os valôres antigos, de $130 000 e
dos proprietários está reduzido da
$170 000? Observando mais detida­
quantia devida aos impostos. Veremos,
em breve, que existem três tipos prin­ mente, vemos que, na realidade, tal
cipais de "Reservas", e nenhum dêles não acontece. Dos $130 000 de avalia­
representa dinheiro em caixa ou Patri­ ção nominal do equipamento, é subtraí­
do um Desconto (ou Reserva) de Depre­
mônio Líquido.
Examinemos o lado do Ativo, à pro­ ciação, de modo que, de fato, apenas
cura de novos itens.1 • O primeiro dos $115 000 são lançados em Equipamento.
novos, intitulado Fundo de Amortização Da mesma forma, dos $170 000 de va­
para Substituir Equipamento, vem entre lor original dos Prédios, é feito um des­
conto de $5 000 para Depreciação. A
•• N®m êtte Balanço nem o anterior contém nossa fé na sanidade do contabilista
vm Horn do Ativo, «neonfrado eom frequência, se restaura, mas ainda podemos ficar
chamado Despaias Pagas por Antecipação. Mui- querendo saber por que motivo êle
lot vIzm, uma emprtia paga teu aluguel ou
utiliza o método indireto de dizer "dois"
•• abaiioe* algum mttet antas. Muito correia-
como “quatro menos dois", em vez de
mente, a emprêsa deve pottuir no sou Balanço
um Item do AHvo equivalente. simplesmente "dois".
ELEMENTOS DE OONTABILlftADC 149

Na verdade, éle tem lá suas boas ra­ própria firma rendem, em geral, m
zões. Dm contador honesto sabe que a mais.1*
sua estimativa de depreciação è apenas Já tomamos conhecimento de dois
a mais grosseira das estimativas. Se tipos de Reservos: (1) uma reserva para
éle se limitasse a adivinhar e lançasse atender às obrigações, como a que se
o valor final de $115000 para o Equi­ destina ao pagamento de imposto^ que,
pamento, o público não saberia até na realidade, não passa de uma exigi­
onde confiar naquele dado. Por isso, bilidade de valor razoavelmente certa,
éle Icnça $130 OCO do valor original, e (2) a reserva para valorização do
que se acha firmemente baseado na patrimônio, como a destinada às depre­
realidade do custo original. Depois, dações (ou provisão paro compensar
cuidadosamente, isola o seu Desconto contas que não se possa receber), o
para Depredação estime do. O público que, na realidade, é simplesmente uma
fica, então, em melhores condições de dedução de um bem do Ativo ovoliado
avaliar o grau de confiança que se pode de modo exagerada Devemos mencio­
depositar no valor final de $115000. nar um terceiro tipo, a chamada "Re­
O sistema indireto não traz prejuízos serva Extra", que também não deve ser
e poderá ser conveniente. confundida com uma quantia em dinheiro:
às vèzes, uma firma separa uma porte
Sabemos, agora, o preciso significado
de seus lucros e a lança sob um nome di­
do Fundo (ou Reserva) de Depreciação.
ferente, para que os odonistas não se
Não se trata de somas em dinheiro; nco
vejam tentados a exercer pressão em
se trota de fundos de amortização de
favor de dividendos mais elevados. Por
patrimônios líquidos que possam ser
exemplo, a nossa emprèsa de pasta de
gastos em substituições. São, simples­
dentes poderia lançar metade da sua
mente, subtrações fmitas de áfros exa­
conta Reservas, de $20 000, numa Re­
geradas do Ativo. Assim, o Fundo de
serva para Pesquisas e Desenvolvimento.
Depreciação dos Prédios, no valor de
Esta reserva de $10 000 nâo consistiria
$5 000, não passa de uma corroção
de dinheiro ou de fundos líquidos, como
explícita do valor original dos edifícios,
também não consistem as próprias reser­
que seria um exagéro do valor se dei­
vas, ou qualquer outro tipo de provi­
xado naquela conta. Essa correção tem
sões. Essa reserva jamais deverá ser
que ser feita para evitar que o Ativo e o
confundida com um fundo.20
Patrimônio Liquido sejam artificialmente
inflacionados.
'* D* onde virá, entfto, o dinheiro para subi*
Tem que ser feita, não importa que, lltuír qualquer máquina ou prédio, se nAo Hver
lido feita a prevbfio do fundo* wptdfkml Em
ao mesmo tempo, qualquer quantia
geral, o equipamento pode sar compro do com
em dinheiro esteja, ou não, sendo posta o produto de vendas de artigos fobrkodos com
de lado em forma do fundo do amorti­ outraa máquina» quo ainda nAo precisal* ds
zação para substituir o patrimônio de­ substituição. O preço de venda do prodvç&o
disse outro equipamento confim uma pare ala
preciado. Observe que não há Fundo de
para atendor ò despesa de depredoçte, e umo
Amortização para os Prédios e que o import finda correspondente fico disponha! poro
Fundo de Amortização para Substituição ser investida em outro selor quolquor do emprese.
do Equipamento é apenas a t&rça parte Adotando Bngvogem mais Rvre, podeeos dbsf
qoe coda patrimônio que nôo proeba %m wbt-
do Fundo de Depreciação do Equipa­
tlfutdo empresta os Despesas de Dapredofflo
mento estimado. Na verdade, as firmas àqueles qoe o necessitam, sabendo que, qoaoda
americancs raro mente separam somas (Ar precao, serd fe*o o a com Ato.
consideráveis em fundos de amortização * O problema dos reserves se lerao atada
mais coropEcodo em reloçfio a caeMeg todos qeo
de substituições, porque as debèntures
podem, ou nôo, ocorrer» Amim. O Kwsrve pOTO
de olta categoria rendem, no máxi­ Depressões ou porá leeegedoçée serie de»>
mo, juros reduzidos, ao passo que o ficado entre o» reserves pore ofender e ofcrffle*
capital investido nas atividades da (Sm • a* reserves extras.
130 INTRODUÇÃO À ANÁLISE ECONÔMICA

Com isto fizemos um esbôço dos ele­ Em Economia, porém, como na Física
mentos básicos da Contabilidade, e o Nuclear, o todo é igual a mais do que
restante do apêndice aborda alguns a soma de suas partes. Depois que Mor­
pontos mais adiantados. gan reuniu as peças todas, viu-se com
O Ativo Intangível cêrca de 130 milhões de dólares de
valor extra de capital.
No balonço para 31 de dezembro de Quem ficou prejudicado com a tran­
1967 ainda resta uma nova categoria sação? t evidente que nem Camegie
de ativo. Para exemplificar que um bem nem Morgan. Mesmo as pessoas que
do ativo pode rão ser uma mercadoria compraram as ações não tinham direito
tangível, uma peça de equipamento ou de reclamar o fato de terem sido
uma soma em dinheiro, foi introduzida "desdobrados" os papéis, já que
uma patent*. Vamos supor que so trate durante muitos anos receberam um
de uma patente de um nôvo processo rendimento mais do que justo para
químico lucrativo, que nos dê direitos o seu investimento. Vender-lhos as ações
exclusivos de produção durante 17 anos. pelo seu custo real (sem o desdobra­
É claro que essa patente vale dinhei­ mento) teria sido (1) conceder-lhes um
ro. Como « natural, à medida que se presente dos lucros aumentados da fir­
passam 5, 10, 12 e 16 anos, a patente ma, e (2) dar-lhes o privilégio de re­
irá chegando ao fim da sua vida de venda das ações pelo preço mais alto
17 anos e estará perdendo o seu valor. que o seu poder de ganho podia obter
Portanto, aplicaremos a ela uma fórmula por elas numa bôlsa competitiva. (Em
de depreciação, como se se tratasse de têmos do padrão da época, essa fusão
um caminhão. nada teve de ilegal ou de contrária à
ética.)
Prestígio e Poder do Monopólio
O nosso contabilista, de espírito prá­
O que dissemos acima sôbre as paten­ tico, porém, não está preocupado com
tes, como exemplo de um bem intan­ essas questões de administração pública
gível do Ativo, é suficiente. Vamos su­ e de economia política, se o consumidor
por que, ao mesmo tempo em que adqui­ irá, ou não pagar preços mais elevados.
rimos a patente, também assumimos À nossa emprêsa de pasta de dentes
a direção de uma companhia de pasta ou a J. P. Morgan, êle dirá a mesma
de dentes rival. Essa combinação ho­ coita: "Se você pagou uma certa quan­
rizontal irá, como é de se presumir, au­ tia por alguns bens patrimoniais, temos
mentar a nossa posição monopolística que presumir que êsses bens valham,
e o nosso poder de ganho. Por isso, para você, aquilo que por êlos foi paga
estóvamos dispostos a comprar a com­ Se os bens não existem, têm que ser
panhia por mais do que valia o seu insig­ criados. O nome dêles é "Prestígio".
nificante Ativo — que consistia c penas Entretanto, como recentemente êsse têr-
em um pequeno estoque. É possível que mo adquiriu má reputação, muitas vêzes
uma parle do preço de compra repre- é lançado junto a outros bens.
sertasse lucro para aquêles que promo­ O bem intangível Prestígio é, assim,
veram essa pequena fusão monopo­ a diferença entre aquilo que uma com­
lística. panhia paga ao comprar outra compa-
Um exemplo da capitalização do nhio e aquilo que recebe em patrimônio
poder de ganho é a formação da gi­ identificável.
gantesca United States Steel Company,
levada a efeito no início do século por Conclusão
J. P. Morgan, que comprou as usinas Finalmente, podemos mencionar de
siderúrgicas de Andrew Camegíe e forma sucinta algumas interessantes rela­
combinou-as com meia dúzia de outros ções entre a Economia e a Contabili­
interésses por Morgan administrados. dade:
ELEMENTOS DE COKTAftIUDADt

(1) todos os Balanços dependem da brir a depreciação, você poderia supor


avaliação do Ativo, que é uma questão que eu não estaria nem perdendo nem
básica da teoria do capital e juro dis­ ganhando. O que diria um oontabMo
cutida na quarta parte; que calcula a depreciação com base
not baixos preços originalmente pago*
(2) nossas estatísticas relativas ò ren­ pelas minhas máquinas e pelo prédtd
da nacional são basea as nos dados em que estou instalado? Também lie
contábeis referentes a vendas, custo, e diria que eu não ganhei nem perdi. Na
assim por diante, como nos mostra o realidade, porém, pode-se dizer que
capitulo 10; andei vendendo meus artigos com um
(3) como iremos ver mais tarde, na prejuízo real, pois quando as minhas
discussão de como os firmas fixam os máquinas e o meu prédio estiverem gas­
preços, os dados contábeis relativos ao tos, não terei dinheiro suficiente para
renová-los ao ndvo nível de preços
custo representam um importante papel
na determinação do preço. mais elevada O mesmo ooonlece com
o comerciante que vende seu estoque
O contabilista trabalha com grande­ por um preço mais baixo do que o
zas monetárias; o economista tenta custo de reposição.
aprofundar-se nas grandezas reais sub­
Por Ssk>, é preciso que tenhamos cui­
jacentes. Especialmente em períodos de
dado com relação às dedoroções exa­
grande inflação ou deflação, o conta­
geradas, em termos monetários fictícios,
bilista compreende que seus métodos
dos lucros reais durante o período em
comuns podem dar resultados estranhos.
que os preços estão em ascensão, e
Um exemplo é o problema da varia­ às dedaroçães fictícias, subestimadas,
ção de nfvefe d» preço e da deprecia­ dos lucros em época de preços em
ção. Vamos supor que os preços este­ baixa. (Mais tarde, quando estudarmos
jam sofrendo uma alta muito acentuada. o estatística da renda nacional, você
Se eu vender meus artigos por um preço observará que os lucros são "ajusta­
suficiente para cobrir os custos da mão- dos” para permitir a reavaliação do
de-obra e outras despesas e para co­ estoque.)

SUMARIO DO APÊNDICE

Em lugar de uma longa recapitulação, 3 — 0 problema todo da Deprecia­


eis uma lista de conceitos contábeis que ção, tanto no seu aspecto de demons­
você deve compreender: tração de resultados como uma despesa
1 — a relação fundamental, no necessária, que não é bem um desem­
balanço, entre Ativo, Obrigações e Pa­ bolso, e no tratamento que recebe no
trimônio liquido e a subdivisão de cada balanço, como uma dedução feila de
uma dessas categorias em Ativo Cor­ ura bem patrimonial propositadamente
rente e Ativo Imobilizado, Obrigações exagerado em seu valor; e, também,
Correntes e Obrigações a Longo Prazo, a lógica dos principais métodos de de­
Capital e Reservas/ preciação;

2 — o caráter da Demonstração de 4 — a diferença entre um Fundo ou


Resultados (ou Demonstração de Lucros um conjunto de bens líquidos e três tipos
e Perdas) e a relação entre os lucros das chamadas “Reservas”j além dkto,
finais não distribuídos e as variações o significado de bens patrimoniais In­
das Reservas no nôvo balanço; tangíveis, como Patentes e Aviamento.
152 INTRODUÇÃO À ANÁLISE ECONÔMICA

TEMAS PARA DISCUSSÃO

1. Descreva u coluna da direita de Arme uma Demonstração de Resul­


um Balanço; descreva a coluna da es­ tados mostrando o prejuízo que a com­
querda. Quais os itens que se devem panhia teve no exercício e faça, no
combinar, de acordo com a "identidade balanço para 1967, os ajustes corres­
fundamental"? pondentes.
2. Você é um banqueiro decidindo 8. Descreva dois métodos de cálculo
se dá, ou não, um empréstimo à compa­ da depreciação e explique as vanta­
nhia de pasta dc dentes. Por que o seu gens fiscais.
interesse especial pelo itens correntes 9. Estabeleça a diferença entre três
do balanço? tipos de Reservas. Qual deles, se é que
3. Escreva uma lista de muitos bens há algum, constitui "Fundos"? Qual o
patrimoniais diferentes, descrevendo a que representa dinheiro? Descreva bens
natureza de cada um em poucas linhas. patrimoniais intangívois.
Faça o mesmo com o Passivo. 10. Calcule quanto iria pagar por
4. A demonstração de resultados uma emprêsa que deve render um lucro
representa um "retrato" em determina­ líquido de $15 000 por ano, com pouco
do momento? Por que não? risco de capital Suponha que o seu
Ativo Total, exceto o Prestígio, fôsse
5. Em 1967, uma companhia tem
avaliado em $100 000. Qual o valor
10 milhões de dólares de vendas líqui­
que você daria ao Prestígio?
das e 9 milhões de dólares de custos de
11. Reveja sua compreensão dos se­
todos os tipos (inclusive impostos, juros,
guintes conceitos:
etc). Seu equipamento é alugado, seu
9 identidade do Balanço
estoque de mércadóriàs não sofreu al­
identidade da Demonstração de
teração durante o ano, e ela não tem
Resultados
ações preferenciais. Não paga dividen­
Ativo, Obrigações e Patrimônio
dos. Arme a sua Demonstração de Re­
Uquido
sultados simplificada.
Ativo Corrente versus Ativo Imo­
6. A mesma companhia da questão bilizado
5 não deve dinheiro, tendo sido com­ rendimentos extras, dividendos
pletamente financiado, anos atrás, pelas Custo de Artigos Vendidos
ações ordinárias. Preencha os claros Custo de Fabricação, variação do
no balanço abaixo. estoque
7. Refaça os problemas 5 e 6, com Deprecicão (como despesa e re­
as seguintes alterações: além das outras serva)
despesas, os prédios da companhia se bens patrimoniais intangíveis —
depreciam em 2 milhões de dálares; Patentes e Prestígio
seu estoque sofreu uma redução de 3 Ativo e Reservas para Obrigações
milhões de dólares. versus Fundo de Amortização

ATIVO passivo

1066 1967 1Ç66 1967


ObrlgaçOes o 0
Patrimônio líquido ISO ir.ilhfoa

ToUl S50 mlllifics Total ..................................


fyRENDA INDIVIDUAL E RENDA FAMILIAL

— F. Scott Fitzgerald: Sabe, Ernest, os ricos são diferentes de nós.


— Ernest Hemingway: Sim, eu sei. lies têm rnais dinheiro do
que nós.

Todos comprccndcm a importância da renda. A expressão "a roupa


faz o homem" estaria mais próxima da verdade sc dissesse que "a renda
faz o homem”. Isto quer dizer que, quando só podemos saber um único
fato a respeito de um homem, o conhecimento do quanto êle tem como
renda poderá scr o mais revelador. Daí, poderemos adivinhar mais ou
menos suas opiniões políticas, seus gostos e sua educação, sua idade, c
até mesmo sua expectativa dc vida e sua capacidade dc fazer seguros de
vida. Além do mais, a menos que uma familia tenha um fluxo contínuo
de dinheiro tôda semana, todo mês e todo ano. será — ainda que possua
uma paciência de santo — uma família doente. Não apenas suas ativi­
dades materialistas, mas as não-materialistas — aquilo que converte a
existência cm vida — sofrerão com isso: educação, viagens, saúde, diverti­
mentos e caridade, para não falar em alimentação, aquecimento c abrigo.
Constituiu-se cm lugar comum dizer-se que o padrão dc vida c o nível
de renda familial norte-americanos são os mais altos dc todo o mundo,
mas são poucos os que compreendem como é pequena, na realidade, a
renda média americana, ou como é grande a distância entre as rendas
mais elevadas e as mais baixas.
Êste capítulo apresenta certos dados básicos a respeito de rendas e
riqueza.

O O DECLÍNIO DA POBREZA

Foi há muito mais de um século que Karl Marx e Friedrich Engels


emitiram, cm 1848, o Manifesto Comunista contendo as frases seguintes:
"Trabalhadores do mundo, uni-vos! Nada tendes a perder, exceto vossos
grilhões", Embora algumas das previsões de Marx quanto ao futuro do
capitalismo industrial fôssem comprovadas nos anos posteriores, ficou
provado que uma das mais famosas estava completamente errada. Sua
afirmutiva dc que os ricos ficarão mais ricos e os pobres mais pobres nio

153
134 INTRODUÇÃO A A N Á I ISE ECONÔMICA

pôde ser confirmada por uma cuidadosa pesquisa histórica e estatística.


Na F.uropa. cocio nos Estados Unidos tem havido uma constante melhoria
secular dos padrões mínimos de vida, seja medida em alimentos, roupas,
habitação ou tempo dc vida. Essa realidade, com respeito ao capitalismo,
é claramente depreendida das estatísticas que apresentaremos dentro em
breve.
Houve época em que era moda, entre os historiadores econômicos,
alongar-se sôbre os males da Revolução Industrial e a condição miserável
das massas nas cidades, que produziam doenças. Na realidade, nenhuma
das novelas de Dickens íêz plena iustiça às condições do trabalho infantil,
tamanho do dia de trabalho c às condições de segurança e instalações
sanitárias das fábricas do início do século XIX. Uma semana dc trabalho
dc 84 horas era a norma que prevalecia, com hora para a refeição matinal
e às vezes para o jantar, bem como para almôço. Muita coisa se podia
obter com o trabalho de uma criança de seis anos de idade, e se um
homem perdia dois dedos numa máquina, ainda lhe restavam oito.
Por verdadeiro que seja o quadro que aquelas novelas pintem das
cidades industriais, os historiadores mais antigos erravam ao pensar que
as condições eram piores do que na era pré-industrial. O primitivo sistema
doméstico, no qual a lã ou o fio era entregue aos trabalhadores para que
élcs fiassem ou tecessem cm casa, levou para os lares as pioies condições
da exploração. A família inteira era simbòlicamcnte forçada a trabalhar
com ardor para continuar a viver.

Molor produtividade nos dá malt produtos e mais laxtr

PROGRESSO ECONÔMICO — UM • IHJ

Fig. 1. Melhoramento* técnico» me­


lhoro bem de capital e mais mõo-de*
obra altamente espeáafixada au­
mentaram mah a produção do que o
cret cimento de população. Notar Si­
te gráfico é "de relação" ou "semBo*
garitmico’*; a escala vertical é dispos­
to de modo quo dist Andos verticals
iguais retraten variações percentual»
Iguab, e nOo absolutos Iguah. Exem-
plot 400 está 15o adma de 200 quan­
to 200 está adma de 100. (Fontet De*
poctaaenlo do Comércio dot E.U.A.)
RENDA INDIVIDUAL E REKDA FAMILIAL

Os gmoricanot goiom do padrflo da vldo malt **tado do Mi «


diferença está diminuindo:
Qn<ri I. ItMc par copfta
de dlfertotet paftei,
mi. <m ■«*■■* ■
Si 800 Itália SS00 foram oonvectfdat délem
I'stados Unido»
2 000 Eire 700 nerle-oiwdceeoe o toJtQf **•
Caiudii
1 800 Argentina 500 Hnodot a refletir podAra*
Sale*
1 800 PoMata 450 jirtvo* r#obi mk lodec o* ■*-
Sufcia
430
i—rot dtVMI Mr cowldirodoi
Alemanha Ocldcntal 1 500 JapSo
a proximo $9«« groMWoi, «•
Rcino L’nldo 1 500 ItMeo 300
eipedal Ml pabei q*# »•
Dinamarca 1 500 China ?S
confront mi «tapai da Jim*
U.K.S.S. 900 Toko voMihmIo drâiÜcoMMli dtfe-
rentes. (Fonlei CwHo d# t*W*
do» Int «ma donah, Mil)

Além do mais, nunca a pobreza é tão evidente no interior quanto nas


cidades industriais, onde cia ressalta aos olhos do observador. O idílico
quadio do sadio e feliz interior, povoado por pequenos proprictirios
rurais corpulentos e camponeses felizes, é uma miragem na maioria das
panes do mudo. Mesmo hoje, a Cozinha do Inferno ou o Harlem, de
Nova Iorque, a Parte Sul ou a Parte Norte de Boston, os "fundos dc
quintais'* dc Chicago ou o seu cinturão negro, diOdlmcntc obscurecem a
pobreza c a miséiia de nossas áreas-problcmas rurais: a Estrada do I abaco
do extremo Sul, as regiões rústicas do Planalto Apaladtc, as regiões asso­
ladas por prolongadas sêcas e tempestades de areia, e as cidades mineiras
abandonadas.
Por isso, os modernos historiadores salientam que as condições do pre­
sente industrial, por inadequadas que possam parecer, representam, apesar
dc tudo, grande progresso sòbre os períodos anteriores da emprêsa co­
mercial c do feudalismo agrário.

• DOIS MUNDOS?

A maior parte da Asia c da África encontra-se, ainda hoje, em níveis de


vida mais baixos do que os países ocidentais antes da Revolução Industrial.
A fig. 1 nos mostra como tem sido feÜ7 o crescimento dos Estados Unidos
cm produção. Um grande estatístico econômico, Simon Kuznets, da Univer­
sidade de Harvard, mostrou recentemente que as principais nações oci­
dentais vêm apresentando, há dezenas de anos, taxas médias que indicam
um rápido crescimento de produção por habitante. Qual a velot idade
dêsse crescimento? O gráfico no frontispído nos conta a história.
E o progresso dos países mais pobres? Faltam-nos dados para re spostas
firmes. O Professor Kuznets fêz uns cálculos inteligentes e sc inclina para
o ponto dc vista dc que o cresdmento da produtividade dêsses países tem
ficado para trás. Dêle é essa importante observação:1
• Saco* Kuzxro, "Quantitative Aspects of the Ecoooinlc Growth of Nscừ I". Jtjurnfr
Dcvthpmtnt and Cultural Chmg*, utf. V, 1990, pis- tS.
156 INTRODUÇÃO À ANÁLISE ECONÔMICA

. os países atualmente desenvolvidos já estavara à frente do 'resto do mundo*


quando sc iniciou a moderna industnali/açâo — c esta só fôz aumentar a disparidade."

O quadro 1 mostra as amplas expansões internacionais da renda per


capita. No próprio E.U.A., o Sul tem rendas muito mais baixas do que
o Nordeste e a Costa Oeste. Estados como o Mississipi mal alcançaram
rendas per capita iguais às atingidas na Pennsylvania e Nova Iorque em
1900, mas é interessante notarmos que as diferenças regionais nas rendas
estão-se estreitando e modificando gradativamente. O Sul e o Oeste pro­
gridem a um passo mais rápido do que a média, e regiões mais antigas,
como os estados do Meio Atlântico, estão voltando em direção à média.

• DISTRIBUIÇÃO DA RENDA NOS ESTADOS UNIDOS*

Uma pesquisa entre estudantes irá mostrar que êles não têm muita
certeza sôbre as rendas que suas próprias familias realmente recebem.
Normalmente, descobre-se que êles fazem uma noção ligeiramente exage­
rada dos rendimentos de seus pais. £ apesar da recente (e perfeitamente
justificada) declaração de uma destacada associada dc um clube, dc que
"as mulheres gastam 70% da renda nacional, e em breve esperamos tomar
couta do resto’*, é surpreendente o número dc mulheres que não fazem
idéia do valor dos cheques com que os maridos recebem seus salários.
Além disso, há pessoas tão incapazes de manter registros e com rendimentos
que variam tanto, que elas próprias não sabem quanto ganham. Mesmo
quando a renda é conhecida pelos membros da família, existe uma
reserva perfeitamente natural de revelá-la a terceiros. Por isso, os inves­
tigadores que realizaram uma pesquisa, em 1939, dos métodos que os
protestantes brancos nativos de Indianápolis usavam para o contrôle da
natalidade, encontraram com freqüência maior dificuldade em obter dados
financeiros do que informações íntimas.
Na ausência de conhecimentos estatísticos, é compreensível que sc forme
uma impressão do padrão de vida norte-americano pelos anúncios de
página inteira que aparecem nas revistas, retratando uma alegre família
norte-americana cm uma mansão com ar condicionado, um Buíck, uma
Rural, uma lancha e tòdas as outras boas coisas que compõem uma vida
confortável. Na verdade, é claro, êsse tipo de vida ainda se encontra

• O crescimento da renda Per capita no Brasil, de 1947 a 1961, foi de aproximadamente $%


ao ano. cm 1961-62. de 2,2%, e estimativas preliminares para 1965 acuiam um decréscimo de - 1,6%.
A« nilnuiivai di«pon(veis nlo permitem ainda obler uma distribuitio como a apresentada na
tabela 2. do texto. O Recenseamento Ceral de 1960, quando terminada a apuração, dará informações
a mpeito. Ettudos pormenorizados sAbre a diitribuiçSo e compotiçio da renda nas capitals do fuafi
e cidades principais estSo sendo realizados pela Fundação Getúlio Vargas, e publicados separada­
mente para cada cidade à medida que forem concluídos. Já estlo publicados os referentes ao Rio
de Janeiro c Salvador.
RENDA INDIVIDUAL E RENDA FAMIUAL

fora do alcance de 90% do público americano e, até, da maioria das


famílias do qual provém o seleto grupo de universitários.
Em meados da década dos 60, no auge da prosperidade americana, a
renda per capita dos Estados Unidos situava-se em cérca de 2 500 dólares
por ano, por pessoa, ou aproximadamente 50 dólares por semana. Êsse
número médio é obtido fingindo-se que tôda a renda dos Estados Unidos
é dividida igualmente entre todos os homens, mulheres e crianças. Natu­
ralmente, na vida real a renda é distribuída de um modo que fica longe
da igualdade, e não há garantia dc que uma tentativa de dividi-la igual­
mente deixaria inaltendo o total.
Se os membros de uma sala de aula, ou do país inteiro, anotarem em
cartões as rendas de suas famílias, ésses cartões poderão ser distribuídos em
diferentes classes dc renda, isto é, alguns irão para a classe de $0 a $1999,
outros para a de $2 000 a $3 999, c assim por diante. Désse modo. obtemoi
a freqüência estatística da distribuição da renda. Numa das extremidades
estão os muito pobres, para os quais a sorte saiu em branco; na outra, os
muito ricos. Entre os dois extremos está a imensa maioria.

Poucos famílias, nos Estados Unidos, atingem o nlval da fnéa


d• $15 000.

Ouse de rends FercenUttm de Percent* getc da Percentagem de niuxioe do


tÒdas ■■ temOtos renda total famílias e renda rcctbida
e Indivíduo* nesta recebida por famílias Indlvfduoa nesta jior esta classe
llâMt • Indivíduo* desta ria Me e claaaes e daam
(2) clame mala baixas mais baixas
0) (3) (4) CD

Abaixo de 12 000 12 2 12 a
$2 000— S3 090 it 8 31 10
4 000— S «99 21 14 52 as
6 000 — 7 000 IB 18 T0 42
8 000 — 9 009 11 14 âl S4
10 000 — IS 000 12 20 93 li
Actnu de 13 000
•f 24 100 100
Total 100 100

Quadro 2. Distribui(8o das rondas das famílias e dos Indivíduos norte «americanos •« 1962.
Melado dessas famílias o dèisos indivíduos ató abaixo da renda média d* S3 800, A renda mtdia
(ou midla aritmética) quo cada um receberlo, se a renda total fâste distribuída exatamente, 4 de
circo de $7100. O número de famílias o Indivíduos que Mm rendas em tAmo do nket modal de
$4 700 6 maior do quo em tômo de qualquer outra renda. (Fbntei Departamento de Coifcdo
dos E.U.A.)

O quadro 2 apresenta um resumo de estatísticas recentes sóbre êsse


assunto. A coluna 1 nos dá o intervalo de classe de renda. A coluna 2
mostra a percentagem de famílias e indivíduos em cada dasse dc renda.
A coluna 3, a percentagem do total de téda a renda que vai para as
pessoas na classe de renda dada. As colunas 4 c 5 são computadas com
os dados das 2 e 3, respectivamente. A 4 mosira qual a percentagem
do total dc famílias dc indivíduos pertence a cada classe de remi* ou
158 !\ mODUç U» Â ANÁUSE ECONÔMICA

abaixo dela. A coluna 5 mostra qual a percentagem da renda total que


vai paia as |>cnmm> que pcrtcnccm à classe de renda dada ou tèm rendai
ainda mais baixas.
f xh* quad i o demonstra que seria um grave £rro pensar-se que os pobres
c os ricos estão igualmente distribuídos cm tôrno do meio. A afirmativa
bíblica, de que "tendes os pobres sempre convosco", não di a mínima
indicação da imensa quantidade de componentes dessa classe. Abraham
I.imuln mencionou esse fato de modo pitoresco, quando declarou: “O
Senhor prefere o homem do povo. ... Êle os fèz tão numerosos!”
Um olhar para a distribuição de renda nos Estados Unidos nos mostra
como é pontuda a pirâmide da renda e como é larga a sua base. É perfeita­
mente verdadeiro di/cr-se que “há sempre lugar lá cm cima", mas porque 6
difícil chegar-se lá, e não porque seja fácil. Se fizéssemos uma pirâmide da
renda com os cubos com que as crianças brincam, cada camada represen­
tando $1 000 de renda, o cume estaria mais alto do que a Tôrrc Eiffel, mas
quase todos nós não estaríamos a um metro do chão.
A classe média, ou "mediana”, (que separa a metade superior de pessoas
da metade inferior) corresponde a uma renda modesta — apenas círca
de $5 800 no quadro referente a 1962. A renda mediana quase atinge a
ronda média (ou ”média aritmética”) de $7 100. Isso acontece, princi­
palmente, porque a distribuição de rendas é sempre inclinada, com uma
longa cauda de rendas estendendo-se adma da média.

• OPULÊN CI A PARA QUEM?

Vejamos até è adequado o nível de renda de que goza


que ponto
uma família americana típica, hoje em dia. Membros do serviço social
fizeram, há alguns anos, as seguintes cuidadosas estimativas de determi­
nados orçamentos mínimos:

1 _ pura mibsisténda: nada <le cinemas, pràticamentc nada de carnes, nada de


cuidado com os dentes, nada de jomaU pouca roupa, e asiim por diante;
2 — um mfnfmo de saride e decência: gastos ocasionais com cinema ou divertia
pedaços baratos dc carne dc tempos cm tempos, algum cuidado médico e dentário, e
a «sim por diante;
S — um mínimo de confôrto: dieta adequada, férias e divertimentos ocasionais,
alguns cigarros e livros, c assim por diante.

Podemos calcular, mais ou menos, o custo do orçamento de subsistência


cm $5 000, o que é mais do que pode suportar a sétima parte de tôdas
as famílias americanas. Mesmo o orçamento para o mínimo de confôrto,
simples como é, custaria era tôrno de $5200, o que é mais do que um
térço das famílias pode gozar. Isso vem demonstrar porque há uma preo­
cupação do publico para com o "tôrço inferior” da população da nossa
RENDA INDIVIDUAL E RENDA FAMILIAL

opulenta economia mista — cm particular devido ao fato de que o pro­


gresso para reduzir a pobreza foi pràticamente nulo nos últimos dez am,
em forte contraste com os dados estatísticos da década anterior.
Alguns peritos do ramo apresentam a seguinte explicação:3

Os Estados Unidos chegaram ao ponto em que a pobreza poderia ser abolida por
um golpe de pena. A devaçlo de todo indivíduo e tôda família da naçSo que agon
se encontram abaixo da renda dc subfbttoda para o nível de whiiléndi iria cocar
ccicu de $10 bilhões em um ano. Isto representa menos de 2% do produto nacional temo.
menos dc 10% de receita proveniente dos Impostos, e cérca dc um quinto do custo da
defesa nacional.

• COMO CALCULAR A DESIGUALDADE ENTRE AS CLASSES DE RENDA

Qual a amplitude das rendas, e como iremos calcular o grau dc desi­


gualdade da distribui çio da renda? Pelo quadro 2, podemos fazer uma
estimativa de que mais ou menos metade de todos os americanos es ti
induida na classe de renda média que vai dc $5 600 a $8 800. Isso «gnifira
que um quarto está abaixo de $3 500 e um número semelhante, acima de
$8 800. Naturalmente, o fato de existir o mesmo número de indivíduos
e famílias no grupo acima de $8800 c no grupo abaixo de $3500 não
significa que cada um déles recebe a mesma percentagem da renda total.
Na verdade, o quarto inferior da população recebe menos da metade da
metade da renda recebida pelo quarto superior.
Isso nos oferece uma sugestão quanto ao método de obter um cálculo
numérico do grau de desigualdade da distribuição da renda. Podemos
fazer as seguintes perguntas: qual a percentagem de tôda a renda que
vai para os 10% mais inferiores da população? Quando cabe aos 20%
mais baixos? £ aos 50% mais baixos? £ aos 95% mais baixos? E assim
por diante, êsscs dados podem scr fàcilmente obtidos nas colunas 4 e
5 do quadro 2.
Se as rendas fôssem distribuídas de maneira absolutamente uniforme,
os 20% mais baixos da população (que, neste caso, iria significar quaisquer
20%) iriam receber exatamente 20% da renda total; os 80% mais baixos
receberiam 80% da renda; e os 20% mais altos também iriam recebei ape­
nas 20% da renda.

* J. N. Moioah, M. II. David, w. J. Coins e H. E. Brazer, income and iVelltrt In tíu UnÜtd
States (McCnw.HIU. Nma Iorque. 1962). pie*. S-4. Os dados esiâttitícOfl relativa ao «(umo
lançam Itu i&bve a antíqOlalma pergunta: "Podem duas pessoas viver com o qoe vfva ma»”
Secundo o Bureau o/ Lãbor SUUlstUs, a reiposta é "ato". Mesmo qoe ac trabalhe cm cam. —
casal gasta, cm média, cêica de 100/70 vhes o qoe gaMa uma «A perna para v*m.
vantagens, porém, e essa quantia ainda é menor do qoe teria preciso para qua dmm pww riwwm
isoladamente. Cada filho que venha representa inevitável mente un acréscimo aa MÇg * v«Aa.
Assim, se cinta 70 viver sòtlnho e 100 viver com uma cspfea, rimará rêica Aí ISO pm um
filho, 160 cota dois. c assim por diante, para cada filho que
160 INTRODUÇÃO À ANÁLISE ECONÔMICA

At rendas não são distribuídas nem com igualdade absoluta, nem com
desigualdade absoluta:

Percentagszn dc renda

Percentagem dc 1 riu Made Desigualdade Reel, em


pcssoai absoluta absoluta 1962

0 0 0 0
20 20 0 s
40 40 0 16
60 60 0 22
80 SO 0 85
95 93 O to
100 100 100 ICO

DISTRIIUIÇÂO DA RINOA NOS ISTAOOS UNIDOS,


IM 1962 (CURVA LORENZ)
IVW

so

Fig. 2. Partindo dot dados de


quadro acima, podemos ver qve
a curva da distribuição real do
:o * renda fica entre os dois extre­
a DESVIO DA I0UAIDA0E mo» de igualdade obsoleta e de
O ABSOLUTA desigualdade absoluta. A árec
hadwrada dèste gráfico de Lo­
z
oB renz (como uma percentagem da
metade da árec do quadrado)
mede a desigualdade relativa da
renda. (Qual teria sido o aspec­
to da curva na ruidosa década
de 1920, quando a desigualda­
de era naiorf E como seria num
estado de bem-estar, de 1974,
cue reduza as diferenças de
renda?)
20 40 60 eo íoo
PERCENTAGEM DC PESSOAS

O que foi explicado acima é representado pela fhamaHa "curva de


Lorenz” na fig. 2, curva que traça a percentagem de pessoas, começando
pelas mais pobres, no eixo horizontal, e a percentagem da renda - total
que essas pessoas recebem, no eixo vertical.
A segunda coluna do quadro da fig. 2 fornece os dados para a linha
diagonal de igualdade absoluta. É o que tfnhamos a comentar sôbre o
caso da igualdade absoluta.
No outro extremo, temos o caso hipotético da desigualdade absoluta,
onde ninguém (por exemplo, 99 pessoas cm 100) tem renda, à exceção
de uma única pessoa, que recebe tôda a renda. Isso é mostrado na terceira
Rf.NDA INDIVIDUAL E RENDA FAMILIAL

coluna do quadro. Por cjuc aquéles números? Porque 0, 20. 80 e 99 pitas


dês grupos inferiores nflo rccebeui renda alguma, mas as 100 inferiores
incluem o último homem; c todo mundo, é claro, recebe a renda tôda.
A curva mais baixa do diagrama Lorenz — a linha preta, que forma um
Angulo reto — representa ésse caso limite dc desigualdade absoluta.
Qualquer distribuição da renda, como a de 1962, deve situar-se entre
cues dois extremos. Sua curva de Lorenz é dada, na fig. 2, pela curva
intermediária indicada, com a área sombreada indicando o desvio da
igualdade absoluta e. com isso, dando-nos uma medida do grau de desi­
gualdade da distribuição da rrnda.a

• TENDÊNCIAS DA DESIGUALDADE

O que estará acontecendo ao grau de desigualdade das rendas nas


nações modernas? Estará aumentando, como temiam os pessimistas? Cal­
culando a curva de Lorenz e outras curvas, os estudiosos verificam que
a desigualdade, nos Estados Unidos, é menor do que era em 1929, mas
faz pouca diferença do término da guerra até hoje. Um olhar para a fig. Sb
irá mostrar que o Reino Unido e os Estados Unidos possuem graus de
desigualdade de rendas muito parecidos, com a principal diferença apa­
rentemente não sendo atribuível tanto a diferenças de filosofia social
quanto ao fato dc existir nos dados norte-americanos uma fração maior
cic agricultores dc subsistência e de trabalhadores negros que recebem
baixos salários.
Terá havido, antes da industrialização, uma era de ouro de maior
igualdade dc distribuição? Dados históricos fragmentários sugerem o con­
trário. Dc modo geral, as sociedades avançadas contam com maior desi­
gualdade do que as nações subdesenvolvidas? Freqüentemente, a observa­
ção casual do turista sugere o reverso: os extremos de pobreza c riqueza
parecem maiores, nos países pobres, do que nos industrializados As esta­
tísticas limitadas de que se dispõe confirmam êsse ponto de vista. Por
isso, a curva de Lorcnz relativa a um país como o Ceilão, na fig. Sa,

• Estilem ainda outros processos dc calcular o gnu de desigualdade da renda. Podemos mendooaa
um dot tnato Interessantes, mas nSo dncutilo aqui en detalhes. Villredo l*areto, o iullano que
era professor de Economia na Sut^a. foi chamado, com frcqQénria e com txatldSo UB tanto
discutível, dc precursor ideológico do fascismo. Utilliando «e de um certo diagram* lofaiHmko
chamado de "diagrama de Parelo", éle descobriu que a "cauda superior" dos dados s&bre ■ renda
de muito* palm diferente* e nn multas épocas difeientcs seguia linhas retas que tpfesentsvam
quase que as mesmas inclinafOes. Parcta acreditou que se trata»* de uma Id natural fuiirt—iwl
De acòrdo com a Let dc Parcto, há mm inevitável I end é mia pans * renda ar» áUtriMés dê
mesmo modo — indePendentemunte de irutituifões soekii * politico» i do tnbuioçêo. Nua AkfcMfl
60 anos, estudos mais cuidadoma têm refutado a universalidade da I et dc raccsa, q— ■
•ua inevitabilidade. Assim é que. na Gri-Brctanha. no período que se acfutU à MWpi Gtawra
Mundial, a tributaçSo tóbre a renda foi tio pesada que. depois dc pagos os imposto*. sò mm
*0 pessoas com rendas acima de |ti 0001
162 IN 1RODUÇÃO A ANALISE ECONOMICA

A desigualdade difere entre nações e entre a renda o a riqueza:

DESIGUALDADE DE RENDA DESIGUALDADE DE RIQUEZA

Renda
tioMiq

PERCENTAGEM DE PESS3AS PERCENTAGEM DE PESSOAS

Fig. 3a. As economias avançadas mostram Fig. 3b. As posses de riquezas tendera o
menor desigualdade de distribuição de ten­ ser mais concentradas do que as renda»
da do que as economias pré-industriais — ganhas anualmerte. Os Estados Unidos • o
contrariando as funestas predições dos so- Reino Unido tèn uma Igualdade de rendas
ac Estas dentificcs, de que os ricos ficam semelhante, mas o riqueza brllfinka 4 muito
mais ricos e os pobres, mois pobres, no mais corcentrada do que a amsricana.
regime capitalista,

acusará uma desigualdade maior do que seria o caso se representasse os


Estadus Unidos, o Reino Unido ou a Holanda.
Qual o pais que, atualmente, apresenta a maior igualdade? Ninguém
sabe como comparar a desigualdade existente na União Soviética4 ou
na China com as das economias mistas. Se nos limitarmos a estas, foi
sugerido que o nôvo estado de Israel poderá liderar a lista. A Suécia
e outras economias mistas têm uma baixa desigualdade, como demonstra
a comparação feita na fig. Sfl.

• DISTRIBUIÇÃO DA RIQUEZA

Uma curva de Lorenz da distribuição da riqueza acusa uma desigual­


dade cm grau considcràvelmente maior do que uma curva da distribuição
da renda. A fig. 3b nos mostra qual é a diferença entre as curvas da riqueza
e da renda. Conquanto o Reino Unido e os Estados Unidos apresentem
uma desigualdade dc rendas semelhante, vejam que o Reino Unido tem

« Um estudo mullo cuidadoso das desigualdades salariais na economia comunista da Riinii,


The Structure •/ Soviet Woge«, de Assam Bergson (Harvard University Press. Mass., 1944). mostrou
dnl|ii«M*dci c diípcnfici entre os trabalhadores que reccbem 01 melhores salários p squêles que
receliem os piores que se assemelham de maneira surpreendente às da nossa própria sociedade.
Shostakovich, outros grand rs músicos soviéticos e grandes dentistas ganham U, provàvclmente,
mal* «Io que Scratimky. Teller e elementos do mamo pbirito, nos Estados Unidos. A desigualdade
de privilegio politico entre os burocratas, os militares e os membros do Partido Comunista c o
público soviético, em geral, nlo é suscetftel a um prccito cálculo numérico.
RENDA INDIVIDUAL E RENDA lAMlUAL 165

uma desigualdade de riqueza maior do que os Estados Unidos. Em


parie, isso é devido ao fato de ceilos nobres e magnatas da Inglaterra
possuírem imensas concentrações de terra e de outras propriedades. Entre­
tanto, o estudo dos dados demonstra que grande parte da diferença
provém do fato de que muitos americanos de rendas bem modestas tfm
realmente ura valor líquido (isto é, patrimônio menos obrigações) positivo,
ao passo que êsse fenômeno é menos comum entre os britânicos dc renda
mais baixa.
Voltemos à fig. 1 do capítulo 3, à pág. 51. EU nos mostra que o
problema Para Quem é determinado (1) pelo preço que as pessoas podem
obter pelos fatôres que fornecem — terra, mão-de-obra, maquinaria e bens
de capital em geral, e (2) pela quantidade désses fatôres com que elas
começam. Se a mão-de-obra pudesse ser ignorada, a distribuição das rendas
seria mais ou menos aquela determinada pela distribuição da riqueza: à
mesma taxa dc juros, o dôbro da riqueza proporcionará o dôbro da renda.
É por isso que as rendas das propriedades acusam grande desigualdade na
curva dc Lorenz.
Os rendimentos provenientes do trabalho — ordenados, salários, pro
labore de empresários individuais — são, evidentemente, distribuídos com
menos desigualdade, mas é claro que não são uniformes» como mostrara as
seções seguintes.

• DIFERENÇAS DE RENDA ENTRE OCUPAÇÕES

Qual a profissão que parece dar maior renda? Nos últimos anos, não
há dúvida de que a dos médicos, que passaram de muito os advogados.
Os médicos recebem, cm média, cêrca de $26 000, e tôiu uma renda mediana
de cêrca de $22000; os advogados têm uma renda média e mediana de,
respectivamente, $17 000 e $12 000. Qual o motivo para êsses elevados ren­
dimentos dos médicos? Em primeiro lugar, porque o custo do treinamen­
to é muito elevado e a capacidade de nossas faculdades de medicina é
m uito baixa. Como resultado, não treinamos muitos médicos mais do que
fazíamos em 1910, mesmo apesar de ter a procura crescido de maneira im­
pressionante. As sociedades médicas também são acusadas de ajudarem a
manter elevadas as rendas dos médicos, usando de vários artifícios, inclusive
a insistência cm padrões de alta qualidade.
Estima-se que os dentistas, os engenheiros e os profcssôres tèm rendas
medianas de cêrca de $13500, $11000 e $5200, respectivamente. Os
professôres universitários ganham um salário mediano de cêrca de $7 500
por ano acadêmico dc 9 meses ($8 500 se também ensinarem nos cursos
de verão, mas só a metade tem essa oportunidade). Os professôres cate-
drá ticos das maiores universidades percebem duas vêas essa» quantias,
e os professôres de Física c Engenharia têm, em média, rendai maiores
164 I NlRODl ÇÃO À ANÁUSE ECONÔMICA

do que os dc Grego c Botânica. Embora os salários dos professôres venham


melhorando recentemente, são os i li:i igos os profissionais que ganham
menos. Seu salái io mediano ainda mal ultrapassa os 4 000 dólares! £
mesmo com gratilicações especiais, a quantia final é inacreditavelmente
baixa.
Será que ai rendas aumentam com a idade? Não nos serviços manuais
que pagam os menores salários. Para êsse tipo dc trabalho, um homem
está no melhor de sua forma aos vinte c poucos ano»; depois disso, começa
a decair. Nas profissões liberais c nos cargos executivos das cmpròsas, ai
rendas aumentam, realmente, com a idade. Módicos e advogados alcançam
o seu ápice por volta dos cinqüenta c podem esperar trabalhar além das
idades normais eiu que o indivíduo se aposenta. Um executivo princi­
piante, que tenha diploma de bacharel de humanidades ou comercial,
começará seu treinamento a §700 por mês. No caso dc fazer uma carreira
muito boa, poderá aposentar-se como presidente da companhia, ganhando,
por exemplo, $100 000 por ano c mais bonificações cm forma dc ações c
vantagens da aposentadoria.5
Por outro lado, muitas empresas c instituições tton fixado a idade de
aposentadoria compulsória em 65 anos. Cora a melhoria das expectativas
do tempo dc vida, essa medida apresenta um problema de longos anos de
uma aposentadoria dispendiosa e infeliz. A solução parece estar na se­
guinte fórmula: que cada homem vá parando lentamente, cm vez dc
abruptamente, pesando para isso fatóres outros além da idade cronológica.

• VALE A PENA FREQÜENTAR A UNIVERSIDADE?

De que maneira a cclucaçüo c o treinamento influenciam a renda que


sc terá pela vida afora? Valerão £lcs o que custam? As provas indicam
que a resposta é: "claro que valem”. Homens que nunca terminam oito
anos de escola mal ganham $3 500 anualmente, e os diplomados cm univer­
sidades fazem quase três vêzes isso. O desemprego entre os que abando­
naram o ginásio cxccdc, cm margem cada vez maior, o existente entre os
diplomados.
Ainda que vocô tenha que pedir dinheiro emprestado a juros de 6%,
adiai anes dc cmprlgo lucrativo, morar longe de casa c pagar comida c
livros, é provável que os ganhos, para tôda a sua vida, nas profissões que
só estão abertas aos elementos de nível universitário venham a ser mais
do que compensadores. (As boas notas ajudam: um estudo feito pelo Time
moctrou, em teu próprio jargão, que os estudantes "afiados” acabam

» th Mlirios étm principal* elementos aumentam. realmente, com o tamanho da firaa. mas de
lunM
■**■“* «• i««»P©»çS©. Scsundn m niatluicas. o presidente da Companhia A, que é
• éékm 4m (amanha 4a Gampaaháa B, mio duas thn o salário qte sanha • presidente da D,
mm «pena* dta de IK a mais.
RENDA INDIVIDUAL E RENDA FAMILIAL

Advogados • médicos acusam grandes desigualdades do rondo/ o»


professôrot • et oficiais do M^rdlo* mono*:

DESIGUAIDADC DC EBJ0AS PAftA


MOnSSÕIS SELECIONADAS

__ __ . , , ~ Fia. 4. for avo Mo o


*.bM. om mi-
dicas o advooadoo os*
■ -a_■__ ■■ * -»— flofarlpdoo coir «io MÜ

otporor qoo ôf aSpBbi


HUkm
KvoMtm ono airro I090
àçfiüi da dai sidlCM?
Qaal a forme do corro
Mvo«odrt dot Mpoarfodoroi M
ÒfiBa* ordbiórtoat (Mu
G. X SMfior, NoOqooí
Bnooa o* Eoooòafc lo-
MOtth, Now Yoã, 19564

PERCENTAGEM DE PtOriSSIONAtS

ganhando ligeiramente mais do que os "grandes homens do camfms'\ e


que tanto uns como ouiros ganham mais do que o aluno anônimo da
multidffo universitária.)
O dinheiro nSo é tudo — é melhor ser ignotante, pobre e feliz, do que
abustado c desgraçado. A Comissão Governamental dc Doenças c Saúde
Mentais apresentou um relatório da pesquisa realizada em I960, quando
foram comparadas mentalmente as pessoas que possuíam graus diferentes
de educação. Seriam os portadores de diplomas universitários preocupados
c deprimidos em comparação com aqudles de pouca educação escolar?
Surpreendentemente, a resposta era um enfático "não”. Os primeiro»
acusaram maior fcliddade e menos doenças mentais. £ verdade que eram
mais introspectivos, mas aliado a esta condição eslava um maior senso
de bem-estar e satisfação. Suas perspectivas eram mais amplas e mais álto
os seus níveis de aspiração. E quando se preocupavam, suas preocupações
tendiam a relacionar-se com problemas reais, e não imaginários.
A fig. 4 nos mostra como diferem as profissões em desigualdade de
rendas. Vocô será capaz de adivinhar o motivo pelo qual a ordem de
desigualdade é advogado, .... oficial do Exército?
A educação é um dos mais lucrativos investimentos da sociedade. O
capital humano proporciona um rendimento tão grande, ou maior, quanto
o capital na forma de ferramentas e instalações. S ggr ivso que o Professor
T. H. Schultz, de Chicago, tem incitado os paiscs desenvolvidos I sub­
desenvolvidos a gastar mais em educação e treinamento.
166 INIRODI ÇÃO À ANÁLISE I.CONÒM1CA

# DIFERENÇAS DE APTIDÕES E RENDAS

Na quarta parte iremos estudar, cm detalhes, os princípios cconòmicos


que estão por trás da disti ibuiçãu da renda. O nosso bom senso nos
possibilita antecipar parte dessa análise c sugere que um dos falôtcs que
ajudam a explicar diferenças de icnda serão as diferenças existentes entre
as pessoas.
hvsas diferenças jwxlan ser físicas, mentais, temperamentais ou, mesmo,
morais. Podem estar associadas à herança biológica, através das células
genéticas, ou ao meio social e econômico. Podem ser permanentes — como
o fato de se ter cabelos louros — ou adquiridas, como a vantagem propor­
cionada pelo nlvel de educação. Essas diferenças podem até envolver
convenções como a posse, ou não, de uma carteira sindical ou a propensão
que a pessoa possa ter. a falar omitindo o "»** das palavras que deveriam
estar no plural ou a pronundar •'funil” com um “r” no lugar do 4T* c
"banir" sem *V\
Essas diferenças nos fornecem parte da resposta. Características físicas,
como altura ou medida da cintura, e características mentais comparadas,
como quocientc dc inteligência ou percepção das cores, parcccm não ser
tão diferentes, entre as pessoas, quanto as diferenças de distribuição dc
renda. Freqüentemente, o cientista que mede os traços característicos
individuais dcocobre serem èles "normalmente’* distribuídos com a maioria
das pessoas situadas no meio e poucas cm cada uma das extremidades,
como está representado pela curva cm forma de sino da fig. 5. (Sc os
resultados dc seus Q./. sc afastam da distribuição normal, muitas vêzes
os psicólogos modificam-lhes as escalas para que sc mantenham dc acôrdo!)
As rendas — mesmo aquelas que venham do trabalho c não dc proprie­
dades - são distribuídas de modo assimétrico, como demonstrado pela
outra curva que tem uma cauda muito longa saindo na direção dos
indivíduos mais bem pagos.
Na verdade, nada há de particularmente sagrado com respeito à cha­
mada “curva normal**. Sc as alturas dos cubos (não das pessoas) forem
normalmente distribuídas, seus volumes serão assimétricos cm direção à
direita. Além do mais, um cuidadoso exame dos dados ccnsitários a res­
peito das rendas sugere que cada tipo dc renda salarial poderá ter a
tendência de uma aproximação grosseira dc uma curva de distribuição em
forma dc sino c dc modesta simetria. Entretanto, quando somamos as
distribuições de rendimentos tanto das mulheres quanto dos homens, de
proprietái ios como de trabalhadores, de cspcculadorcs felizardos e dc
outros grupos distintos, surge realmente a grande "assimetria” de tôda a
distribuição. Além do mais, sc acompanharmos cada assalariado durante
um certo número dc anos, veremos aparecer um padrSo de dispcisão, com
RENDA INDIVIDUAL t RENDA FAMILIAL

os diferentes graus de desemprêgo de que são vítimas, representando um


das maiores fatôres que provocam as diferenças entre os indivíduos.
Talvez a esta altura seja conveniente um aviso para que não cheguem
à apressada conclusão de que existe algo dc necessário c inevitável com
referência a essa dispersão de renda. Na estrutura dc nossa tociedade
competitiva, alterações fundamentais na educaçüo já íi/cram significativas
modificações na desigualdade. Além disso, como ninguém melhor do que
o homem que está no tôpo sabe, o nosso sistema de tributação progressiva
sôbre a renda já provocou uma grande alteração na quantia relativa que
recebem tanto os que ganham muito como os que ganham pouco e, o que
é mais importante, na parcela que pode ser economizada, c parece que êsse
fato continuará a ser uma característica permanente da vida norte-
americana.

# A POSIÇÃO DAS MINORIAS

Ncnliuma discussão «Ia desigualdade das rendas estaria completa sem


que se mencionasse a posição das minorias econômicas. Num sentido
verdadeiro, essa posição preocupa a todos, porque todos ffôs pertencemos
u alguma minoria. Sim, até mesmo os Smith ou, mesmo, os Lodges e o»
Cabots.
É claro que, cconômicamentc, as mais importantes minorias mnsistem
dc prétos, mulheres que trabalham, pessoas idosas, jovens, c pessoas sem
instrução. Se você pode ser descrito por uma ou mais das seguintes carac­
terísticas, as probabilidades são de que esteja classificado na categoria
dos que ganham pouco: acima dos 65 ou abaixo dos 22 anos: quando
muito, educação dc nível primário; mulher; côr que não a branca; sulista;

Estarão as aptidões mais normalmente distribuídas


do que as rendas?

F?0.5. As alturas, o* qvocMn


d® InteHg&neSa, • muitos troço»
hvmonos umiurénli. perece*
obadoctr o uma dWMtftriffa •**
tothtico dcnocrinada "noemoT,
componvlar. As rendas parecnm
f#r ema dkfribwiç&o nab ohí-
nêtrica, soado o% rondas naforts
rondas moh boiios.
Mol» belas Mala «lia
168 IN ÍRODIÇÃO A ANÁLISE ECONOMICA

vinculado à agricultura. Calcule, então, as dificuldades dc um prèto idoso


e inculto, no Sul rural!
Observadores cuidadosos c competentes asseguraram não ser comum a
discriminação de sexo. no sentido de pagar maior salário aos homens
pelo mesmo tipo e volume de trabalho. Da mesma forma, afirmou-se que
a discriminação racial, no sentido de pagamento desigual pelo mesmo
trabalho, não prevalece.
Como poderemos reconciliar essas declarações com as desigualdades
econômicas que tôda pessoa sofisticada sabe que prevalecem entre sexos
e raças, como demonstrado no quadro 3? A resposta a âsse paradoxo está,
cm parte, no fato de que a discriminação assume, em geral, a forma mais
sutil c mais eficiente dc não admitir mulheres para fazerem o que fazem
os homens e vedando aos prétos muitos dos cargos que pagam salários
mais altos.
Não há dúvida de que isso explica uma grande parte da história. Entre­
tanto, outros competentes observadores afirmam que mulheres e prôtos,
fazendo exatamente a mesma tarefa, recebem com freqüência um salário
mais baixo. É comum uma professora primária receber menos do que
um professor. Numa grande fábrica de material elétrico, os peritos em
atribuir valor aos cargos dividem todo o trabalho da fábrica em duas
partes: trabalho dc mulheres c trabalho dc homens. O mais baixo orde­
nado dos homens começa mais ou menos no ]>onto cm que se encontra
o maior salário das mulheres. No entanto, tanto a direção como o sindicato
admitem, em caráter não oficial, que em muitos dos cargos que podem
ser ocupados tanto por mulheres como por homens, a produtividade das
primeiras é muito maior do que a dos segundos.
Ora, não se pode negar que existem diCerenças físicas e de temperamento
entre homens e mulheres. Por exemplo, uma mulher não poderia vencer
o campeonato de luta-livrc entre pesos-pesados, ou estabelecei* um recorde
para os 100 metros rasos. Por outro lado, o sexo feminino é o mais forte,
no sentido de expectativa de vida e também, talvez, em capacidade de
um csfôrço continuado e esmerado. É igualmente óbvio que existem dife­
renças de côr da pele e de textura de cabelo entre as raças de côr e a branca.
Sejam quais forem os pontos de vista que se possa ter a respeito das
diferenças biológicas e de meio entre as raças c os sexos — e as opiniões

Os homant ainda ganham mais qua as mulheras; os brancos,


mais que os prètos:

— Quodfo 3. Rendimentos latarlali médios om 1961. ín-


Homens Mulheres quanto no pan todos os rendimento* dos prltos atingem vm
■__________ pouco mah do metade dos dos brancos, no Norto • no Ootto
_ |j 297 $2 sis **°* M "Wia, do cêrca do três quartos, oos no Sal oponas do
NSo-brõncoo 3 01S l 302 três oitavos. As percentages do desemprftgo dos pritos sBo
__________ _________________________________quase o dôbro das dos broncos. (Fontet Bureau o# the Census.)
RENDA INDIVIDUAL E PENDA FAMILIAL 1G9

dos cientistas que estudaram a matéria a fundo são muito diferentes Kas do
homem do povo — para o observador está absolutamente claro que jeSSH)
inúmeros serviços que qualquer dos sexos ou das raças pode realizar com
a mesma eficiência c que são vedados a um dos sexos ou a uma das raças.
Isso é demonstrado pela experiência do tempo da guerra e nos perfodoi
dc prosperidade, quando as barreiras comuns são atenuadas.
Do mesmo modo, em épocas comuns, o trabalhador mais idoso fica em
situação desvantajosa, em nossa sociedade. Um homem pode ser atirado
no rol dos imprestáveis aos cinqQcnta anos de idade, quando muitos de
seus anos de maior eficiência ainda estão por vir. Não é verdade que um
trabalhador mais velho seja o primeiro a ser despedido; geralmente, sua
experiênda e sua antigüidade no cargo ajudam a protegê-lo. Mas, uma
vez despedido, tem éle maior dificuldade em tomar a obter emprégo.
Paradoxalmente, as medidas humanitárias adotadas pelas emprêsas no
sentido de ajudar os trabalhadores mais velhos, como planos de pensão
em caso de aposentadoria, constituem um motivo para que as companhias
sc recusem a empregar homens dc mais idade, uma vez que se toma mais
dispendioso fazê-lo.
Nos horrores da guerra, aprenderam-se algumas lições salutares. Mu-
lheres, prêtos e trabalhadores mais velhos mostraram que eram capazes de
exercer melhores cargos e ganhar mais dinheiro do que se pensava ser
possível antes do conflito. A conclusão da Fair Employment Practices
Commission (Comissão de Condições Justas de Emprego), tanto federal
como estadunl, nilo tem sido de que é possível banir-sc o preconceito da
noite para o dia, por decreto, mas que uma melhoria constante é viável,
sc o povo realmente a quiser. Tampouco se pode colocar inteiramente a
culpa nos intolerantes empregadores. Ao trabalho sindicalizado deve culier
uma parte do ônus da legislação discriminatória contra os homens de côr.
A prospeiidade verificada durante e após a guerra fêz com que melho­
rasse a posição econômica do prêto, mas vagarosa taxa de crescimento
da década depois de 1952 diminuiu o passo dessa tendência ao progresso.
Assim como o prOto é o último e scr contratado, também 6 éle o primeiro
a scr despedido quando vem a depressão. Quando os empregos sc tornam
escassos, os brancos chcgam a invadir o terreno dos serviços domésticos,
geralmente abandonados aos pretos.
São os grupos minoritários que mais lucram com a solução do descin-
prêgo e dos outros problemas macroeconômicos discutidos na segunda parte.

• 1ST RATIFICAÇÃO ECONÔMICA E OPORTUNIDADI

Os Estados Unidos sempre foram considerados como a terra da oportu­


nidade, onde qualquer pessoa de capacidade poderia vencer na vida. O
sucesso legendário do herói 'pobre mas orgulhoso" de Horatio Alger. Jr.,
170 l\ IROIU\ÃO \ ANÁLISE ECONÔMICA

que chegou. graças ao seu trabalho, ao ponto alto de sua carreira e casou-
se com a filha do patrão — ou vice versa — tem sido, sem dúvida, dema­
siado explorado. Mas continha realmente um pouco de verdade, quando
comparado com a situação em países europeus mais antigos, onde ainda
persistia uma tradição aristocrática e onde jamais se criou o ensino
giatuito além do primário.
Por exemplo, até há pouco tempo a “velha gravata da escola” e, o
que era mais importante, o sotaque de Oxford eram quase que indispen­
sáveis ao progresso político e social na Inglaterra. Mesmo com o sistema
dc bôlsas dc estudo gratuitas, eram poucos os membros da classe inferior
ou média que podiam vencer êsse obstáculo. Aqui, neste país, poucas
pessoas reconhecem um sotaque de "curso preparatório" e as variações na
fala são mais geográlicas do que sociais. A estenógrafa norte-americana
é quase idêntica, na aparência, à debutante de sangue azul.
Além do mais, a nossa civilização tem sido predominantemente mate­
rialista, na qual o sucesso é interpretado em têrmos comerciais. Devido
ao fato de que "o dinheiro fala”, é mais fácil aos arrivistas penetrar na
alta sociedade do que seria numa cultura que dê maior valor á tradição.
Os nouveaux richcs dc uma geração, como os Vanderbilts de um século
atrás, tornam-se os árbitros sociais da geração seguinte.
Apesar de tudo, a cuidadosa investigação, por meio de questionários,
das origens sociais dos homens dc emprésa que obtiveram sucesso, ou seja,
os diretores e os funcionários categorizados de companhias, nos fazem
surpreendentes revelações. O executivo típico norte-americano nSo vem
de uma fazenda ou do lar de um trabalhador. É mais provável que seu

Qualquer pessoa poie subir pela escada do sucesso, mas sempre a{uda
começar polo alto:

Quadro 4. Origem social de lidtrM norte-americanos bom sucedidos. Embora na populoçfio


em geral os operários existam om nómtro muito maior do que os homens de neg6dos, o maioria vito­
riosa dêstes últimos teve um pai que era homem de negócios. Qual a t end & nela que vocA percebe,
neste auadro? Como a explicaria? (Fontes: F. W. Taussig o C. S. Joilyn, Anerican Business Leaden,
Macmillan, New York, 1932j Fortune.)

Onpsclo Pcenes Milionários Lideres Ltleres Uderet


do pel mencionadas norie-aineri- empremrials empresariais empresariais
no (UM vivo* americano* americanos americano*
Who's Who cm 1925 era 1928 em 1952 com menos
de 1912 de 50 anos.
(%) <%> (%> em 1952
<%) <%)

Homan de neeSrios 35.3 75.0 ÇÇ.0 61.8 67,8


Profissional 34,3 10.5 13.4 13.5 14.8
Parendetro 23.4 7.3 12,4 12.7 11,1
Operário 6.7 1.6 12.5 7.8 24
Outra» OJ 5.6 1.7 4.2 3.8
Total 100.0 100.0 100.0 100.0 100.fr
RENDA INDIVIDUAL E RINDA FAMIIJAL

pai também tenha sido homem dc negócios ou, possivelmente, tenha


cxcrcido uma das profissões liberais. O quadro 4 nos dá um resumo de
certas pesquisas tfpicas realizadas por Taussig e Joslyn. e outros.
Quererá isso dizer que a sociedade econômica norte-americana se esleja
estratificando em castas?4 Taussig e Joslyn não têm certeza. Salientam
lies que são possíveis duas explicações diametralmente opostas: (1) Antiga­
mente, havia grande mobilidade social nos E.U.A. — todos os melhores
elementos chegavam ao tôpo, deixando lá embaixo as pessoas natural­
mente menos talentosas; (2) existem fortes, e talvez crescentes, barreiras
à circulação entre as classes econômicas.
Taussig e Joslyn inclinam-se mais pela primeira, sentindo que “não
se pode impedir que um homem eficiente progrida**. À maioria dos
sociólogos não concordariam com isso. Salientariam êles as mil e uma
sutis desvantagens psicológicas, sociais, econômicas c educacionais dos filhos
de famílias menos afortunadas, e que nem sempre uma capacidade igual
pode levar a um resultado também igual.
Seja qual fôr o ponto de vista correto, são as mesmas as implicações no
que respeita à política. Os sêres humanos são a forma de capital social mais
importante de uma nação — e uma forma que dá grandes rendimentos e
na qual temos investido muiio pouco no passado. O talento, onde quer
que se encontre, vale a pena ser procurado c desenvolvido.

SUMARIO

1. Estudos concretos da distribuição da renda norte-americana indicam


que as rendas medianas são mais baixas do que comumcute se acredita.
Embora as rendas atuais sejam mais altas do que em qualquer outro país

• Quando foi nulu a primeira cdiçXo dbie livro, o Autor se inclinava pira o ponto dc «Ma
de que te estava tomando cada vez malt difícil petcorterte o caminho da parte de balso até o tôpo.
Agora, êle Já nSo tem tanta certeza disso. Cuidadoso» estudos icctntes das orisen doa Hdetts
cosncrdab desde período anterior a 1000 sugerem qw o pmente DOde ser comparado. favoràvtl*
mente, aos bom tempos, que. no final daa contas, podem nSo ter «Ido tio boas assim. Cada set
mais, à medida que ai organizações vio crescendo, os elementos dc nepotismo c de favoritismo
pessoal parecem adquirir menor impottAncia. e a crescente ênfase nos testes quase objetivos e I
moda dos que tio impostos aos servidores dvli sugere uma mobilidade maior entre a elite.
O cálculo aritmético das "probabilidades de iratulcSo" pode sei levado a dar os Kiulnia
resultados: Vamos dividir a sociedade cm duas classes, de modo que eu sou ou um V ns da*v
Superior, ou um nio-U na Inferior. Se a chance de uma criança em sair da daac esn que
estlo seus pais é tio grande quanto a de ficar, entlo 1/2 do» filhos, netos, bisnetos e descendentes
em geral, de um pai U. será também V. Mas se houver e*ratiíica<io social, de modo qne uma
criança só tenha 1/4 de chance de passar para ama classe diferente da dc sms pnk 9M
(— |/2 + 1/4) doa filhos de 0 serio ü. Entretanto, podemos deduzir que apenas s* (— I I + 1 *
dos netos de V serio U; e apenas 9/15 (—1/* + 1/1«) de ieus bisnetos. Evidentemente, a tkamm
que tên on remotos descendentes de V de também serem V auba ficando reduajds a 11. ««■
50% do excesso ncima do nlvel de igualdade de l/t ehminados a cada nova gemia A W
para o. nJo-17 só significa desespéro para os U se um. disputa
Para maiores detalhes, consultem W. Yuin. Am Intiaàuctíon to PrcbébOUf (MikT. W»
1957).
172 INIKODCÇAO A ANÁI.ISE ECONOMICA]

ou época. ainda nào são elevadas em comparação com as noções comuns


.1 ii sj«'iio daquilo que representa o confortável sistema de vida moderno.
‘2. A opinião clc que o pobre está ficando mais pobre nas modernas
nações industriais não resistirá a um cuidadoso exame concreto. Desde
a Revolução Industrial que os padrões médios de vida na Europa Oci­
dental e nos Estados Unidos parecem vir acusando um movimento secular
em ascensão, tendendo a ultrapassar as nações subdesenvolvidas. Mesmo
nos Estados Unidos, são muito grandes as diferenças entre os padrões dc
viila. Há a tendência, porém, dc diminuírem as velhas diferenças entre
o Norte e o Sul.
3. O diagrama dc Lorenz é um instrumento conveniente para medir
as amplitudes ou desigualdades da distribuição da renda. Êle nos mostra
qual a percentagem da renda total que cabe ao 1% mais pobre da popu­
lação, aos 10% mais pobres, aos 95% mais pobres, e assim por diante. A
moderna distribuição da renda norte-americana parece ser menos desigual
cio que em 1929 ou do que nos países subdesenvolvidos, mas ainda acusa um
grau considerável dc desigualdade. Um ponto interessante é tentar rela­
cionar as distribuições assimétricas da renda com as diferenças existentes
nas capacidades mental e física do homem.
4. Os grupos minoritários — como as pessoas de idade, as mulheres,
os prêtos, e vários grupos étnicos — representam importantes problemas
econômicos para qualquer democracia. Nas fronteiras entre a Economia e
a Sociologia, encontramos as interessantes perguntas concernentes à "cir­
culação da elite". Lugares-comuns populares, como "de manga de camisa
a manga de camisa em três gerações", parecem basear-se apenas em parte
na realidade. Há uma acentuada correlação positiva entre renda e posição
social dos pais e avós de uma pessoa e desta própria, mas é difícil estabe­
lecer a direção exata da causa.

TEMAS PARA DISCUSSÃO

1. Deixe que cada aluno anote num pedaço dc papel uma estimativa da
renda de sua família. Com base nessas anotações, prepare um quadro
de freqüência que mostre a distribuição das rendas. Qual a renda
mediana? E a renda média?
2. De quanto você acha que um casal sem filhos precisa para viver
con for tà vclincn te em sua comunidade? Dc que maneira seria gasto
o dinheiro?
3. Seus pais vivem melhor do que os pais dêles? O que lhe sugere isso,
com relação ás vantagens e desvantagens do capitalismo?
4. Formule algumas dc suas próprias crenças éticas referentes ao grau
de desigua Idade das rendas de pessoas de diferentes capacidades
RENDA INDIVIDUAL E Rf NDA I AM ILIAI

c necessidades. Como à que você justifica essas crença»? Um none-


americano do século XIX concordaria com cias? E urn russo? E um
habitante das ilhas dos Mares do Sul? Qual seria a relevância do
relatório apresentado peloBureau of Labor Statistics, indicando
que os membros da elasse de renda inferior a $1 000 d2o 3,3% de
sua renda k igreja c a obras dc caridade, enquanto que aquéles
da elasse acima dc $10 000 dão 2,6%?
. Reveja sua compreensão dos seguintes conceitos:
distribuição de renda
renda média, mediana e modal
rendas per capita
curva de Lorenz da renda c da riqueza
distribuições normais c assimétricas
cstratificação social
AS RELAÇÕES ENTRE EMPREGADOS
7 E EMPREGADORES

— Mr. Hesnessiy: Mas essa gente que defende a “fábrica aberta"


diz que i a favor dot sindicatos.
— Mr. Dooixy: Claro, desde que conduzidos como devem. Soda
de greves, nada de regulamentos, nada de
contratos, nctla de horários, quase nada de salário
e multo poucos associados.
1* in ley Peter Dunne.

Quase todos, cm determinada época, fazem parte da força de trabalho.


A metade das horas que passamos acordados é gasla no emprêgo. Os
rendimentos provenientes do trabalho — ordenados, salários e pro labore
dc empresários individuais — constituem quatro quintos do total da renda
nacional. Não admira que o falecido Surancr Slichtcr, da Universidade
de Harvard, tenha declarado — com um pcrdoável cxagôro — que a
nossa sociedade é mais trabalhista do que capitalista.
Êste capitulo faz uma análise do importante papel que representam
os sindicatos de classe na vida norte-americana, abrindo o caminho para
a discussão mais detalhada da determinaçflo dos salários na quarta parte.

• QUEM PERTENCE AOS SINDICATOS?

Mais dc 18 milhões dc norte-americanos pertencem a um sindicato.


Assim, quase ura térço da fôrça dc trabalho não-agrícola é formado dc
elementos sindicalizados. Se excluíssemos os funcionários burocráticos, os
administradores c os executivos, a proporção seria ainda maior. Em certas
indústrias importantes, como as dc transporte ferroviário, ou por outros
meios, siderúrgicas, automobilísticas, de mineração e do vestuário, pràti-
camentc todos os operários qualificados pertencem a sindicatos de classe.
São poucas ns grandes firmas que escapam dc ter a sua organizaçíío ditada
pelos sindicatos.
A fig. 1 nos mostra o aumento verificado no número de membros dc
sindicatos dsede 1900: o avanço lenio c constante até à Primeira Guerra
Mundial, a grande alta durante a guerra e imediatamente após o conflito, e
a queda bastante acentuada e o nivelamento no correr da década dc 1920.

174
EMPREGADOS E EMPR1CAD0W flS

O sindicalismo tevo grand* incrcmenfo na daprossfio a duranla at aM


da guerra, mas recontamenfe fero acusado Mfagnaçâw

ASSOCIADOS DOS SINDICATOS

Fig. 1. Dos IrabokdorM »ls ogrfee


lot, 30% pertencei a sindicatos, contra
apenas 11% sa 1933. As ponpodios
para a expansão do» sindicados sAo som­
#1
mo brias: "Automação" sçnlfka wa tendén
do para menos operários de laba de pro­
1 dução, e i difícil orgcnízar os fundonérios
I bvrocréttco*. O Saf, região trodidoaola*"
te difidl do se organizar, cresce ea rürno
rela tiro; está owertondo e hosfdodo
pÃBco m leaUatfva contra o lindicofcmo,
com boso nos suspeitos do MrÇs dos sin­
dicatos. (Honfei Departamento do Trato-
fco dos EUA)
It*

Mostra-nos a explosiva angariação de novos membros durante os anos de


recuperação do New Deal* que sc seguiram à Grande Depressão; o conti­
nuado e rápido aumento durante a Segunda Guerra Mundial; e, final­
mente, a estagnação dos últimos anos.
A que sindicatos pertencem os trabalhadores? Eis os sete maiores, com
o número dc associados: o dos Condutores de Veículos dc Tração Animal
(TCWH), com 1 500 000; dos Trabalhadores Unidos da Indústria Side­
rúrgica (USW), com 1200 000; dos Trabalhadores Unidos da Indústria
Automobilística (UAW), com 1 100 000; dos Maquinistas (IAM), com
900 000; dos Carpinteiros (CJA), com 800 000; a Fraternidade Interna­
cional dos Trabalhadores na Indústria de Aparelhos Elétricos (IBEYV),
com 800000; e os Trabalhadores em Minas (UM\V), com GOOOOO.
Com duas exceções, todos êles pertencem à AFL-CIO, surgida da fusão
da American Federation of Labor e do Congress of Industrial Organizations.
Os Condutores de Veículos de Tração Animal, na gestão dc seu líder
Tunics R. Iloífa, fornm expulsos da federação por motivo dc corrução.
Os Trabalhadores Unidos da Indústria dc Mineração, nas gestôés dc
John L. Lewis e dc outros líderes que se seguiram, têm entrado e saído
da AFL c do CIO.

• O Teimo New Ikúl é Ctilizado pan identifica» a pol tka c atividade que caracsertoraa ■
adminhtrccSo do Pres. RooseiclL O tênao Soi bastante «tllUado na carapanha de IStt. s cs»
preende. prindpalmcnie. o» vem f aefies tomnto de 19S2 a I9S5.
O .NVa* IvW caractcrirousc pela subordinação do Intcrêssc prtwdo ao Mcrtmc éa uMM.
attaW* do aumeoto 4a fôrça do govêrno federal. As principals nedidas adotadas mm
foram concerncntn a subsídios aos agricultora e aumento roosiderátel do laipôrto das cisam dl
rendas altas, procurando uma melhor distribuiçSo da» rendas. ^_
Ea alcumas das Icb proportas por Roosesdt. evidracla-se bem o torjo
ir.rnto ecooòfclço nacional, e uma coonSenafSo. pot parte 4o gorémo federal, dm at*M om
estados.
176 INTRODUÇÃO À ANÁLISE ECONÔMICA

Os dado* estatísticas relativos ao número de sindicalizados níio dão a


verdadeira importância à influência exercida pelos sindicatos. Muitas
pessoas não sindicalizadas são atingidas pelos acôrdos sindicais a respeito
dc salários, horas de trabalho e condições de trabalho. Se vocA fizesse
um juramento solene de que jamais entraria para um sindicato ou traba­
lhai ia com base num acôrdo sindical, teria que desistir completamente de
scr operário de fábrica em muitos setores das indústrias manufaturciras.
Em tóda indústria manufatureira, pelo menos 20% de todos os assalariado*
trabalham sob acôrdos sindicais, ainda que não sejam realmente membros
de sindicato algum. Você teria que desistir de fazer carreira na mineração,
no ramo das construções c nos transportes. Para onde poderia ir? Poderia
evitar os sindicatos nas fazendas, no serviço público, nas finanças e no
comércio. Ou então ir para o Sul. Lá, as tentativas de organizar os traba­
lhadores têm encontrado forte resistência. Dois terços de todos os sindica­
lizados moram, no momento, cm 10 estados industriais.

• SINDICATOS NACIONAIS E LOCAIS

Existem três camadas na estrutura dos sindicatos norte-americanos:


(1) o sindicato local, (2) o sindicato nacional,1 e (3) a federação dos
sindicatos nacionais.

Para um associado, o local é a linha dc frente do sindicalismo. Êle entra


para o local em sua própria fábrica ou na cidade onde mora. É a êle que
o associado paga suas taxas. Geralmente, o sindicato local assina o acôrdo
dc negociação coletiva determinando seus salários e as condições em que
seu trabalho será executado.
Entretanto» o local é apenas uma seção ou filial do sindicato nacional.
Assim, um linotipista de Chicago pertence ao sindicato local daquela
cidade, mas êste é uma das centenas de seções locais da União Tipográfica
Internacional, cuja sede fica cm Indianápolis. Uma parte das taxas pagas
aos locais — em geral, metade ou menos — vai para o sindicato nacional.
Os regulamentos e as práticas do local não podem transcender às amplas
políticas estabelecidas no nível nacional. Os presidente e outros elementos
do local são, provàvelmente, trabalhadores locais, mas o importante cargo
cie agente comercial é emprégo com tempo integral cujo salário é pago,
com freqüência, pelo sindicato nacional. Há uma crescente tendência para
os sindicatos nacionais auxiliarem na negociação coletiva realizada pelos
locais.

Ao todo, existem cêrca de 200 sindicatos nacionais autônomos. Já vimos


que sete dêles possuem mais dc meio milhão dc membros. Mais da

1 Muü« «indicaic» pouurm filiais canademn t tSo chatnadoi de “«indlcatoi fntrrnickwail".


EMPREGADOS E EMPREGADORES

metade dos sindicatos nacionais tem, cada um, entre 10 000 e 200 000 asso­
ciados, c um quarto dos nacionais conta com menos dc 5 000 membros
cada um.
ü número de seções ou filiais locais dc sindicatos vai a 78000. Algumas
têm apenas uns doze elementos, enquanlo que alguns locais giganies
abi ungem milhares dc homens. Por exemplo, o sindicato local dos Tra­
balhadores Unidos na Indústria Automobilística, na Ford, i o maior dc
iodos. Só êle conta com 80000 membros! A imensa maioria dm locais
contam de 50 a 1 000 trabalhadores.

• OS SINDICATOS NACIONAIS E A FEDERAÇÃO

A AFL-CIO é uma federação livre, formada principal men te pela parti­


cipação, na qualidade dc membros, de sindicatos nacionais. Ê déstes que
cia depende para o apoio financeira Como as cinco grandes nações que
foimam o Conselho de Segurança das Nações Unidas, os sindicatos na­
cionais têm insistido cm sua "soberania" c direito dc veto c no direito
de "jurisdição exclusiva" sóbre os trabalhadores dc suas áreas. A maioria
das dôres de cabeça e lutas têm como causa essas disputas jurisdicionaic.
O público pensa que a federação é a peça mais importante do movi­
mento trabalhista, mas não é. Ela age como porta-voz da classe, mas o seu
poder é rigorosamente limitado. Assim, Walter Reuthcr exerce um poder
mais real em sua capacidade dc presidente dos Trabalhadores Unidos da
Indústria Automobilística, do que como vice-presidente da AFL-CIO.
O ex-presidente dos condutores de veículos de tração animal, Dave Beck,
tinha mais a temer da ação governamental do que das criticas aos seus
l>ccadilhos financeiros feitas pela AFL-CIO. Na qualidade de federação,
a AFL-CIO desaprova violentamente a discriminação sindical contra us
prêtos, mas n5o tem pod&rcs, exceto os de expulsão, para agir contra os
poucos sindicatos membros que ainda mantêm cláusulas restritivas em
suns constituições. Quando os Trabalhadores Unidos r.a Indústria de
Aparelhos Elétricos c 10 outros sindicatos esquerdistas foram expulsos
por sofrerem infiltração comunista, o ato foi considerado como abertura
dc precedente.
A AFL-CIO tem estado muito ativa nos meios políticos, nas últimas
décadas, apoiando candidatos favoráveis à classe dos trabalhadores. Nomi­
nalmente não-partidária, a classe trabalhadora organi/ada costuma apoiar
candidatos democratas, mas têm havido algumas exceções dignas de nota.
E alguns líderes trabalhistas apóiam, geralmente, os candidatos republi­
canos à presidência da República. A fig. 2 nos apresenta o organograma
da AFL-CIO. As federações estaduais e municipais ali mostradas atuam
nos respectivos níveis governamentais c cooperam na produção de progia-
INTRODUÇÃO À ANÁI.ISE ECONÔMICA

O* trabalhadores norte-americanos reuniram-se, finalmente, na fusão feito em


1955, da AFL com o CIO: '
ESTRUTURA DA AFL-CIO

FEDERAÇÃO AFL-CIO

SINDICATOS Ofícios do
Comissão dc
Educação Política NACIONAIS E Construção Civil
INTERNACIONAIS
e outros
Dopartamentos

Fcdcroções SINDICATOS Sindicatos locais


estaduais c diretamente
LOCAIS
municipais filiados

Flg. 2. Os sindicatos nacionais e locais continuam sendo os unidades importantes da estrutura sindical
federativa norto•americana.

mas de rádio, desfiles, e na solidariedade à eleição ou a uma greve. O


organograma também mostra alguns sindicatos locais diretamente subor­
dinados à federação, e não a qualquer sindicato nacional. De modo geral,
êsses locais se encontram em novos ramos em organização, ou em ramos
que ficam a meio-caminho da jurisdição dos sindicatos nacionais que com­
põem a federação. Os departamentos são, cm geral, órgãos coordenadores
constituídos dc sindicatos em setores similares, como o da construção civil

• O ANSEIO PELA SINDICALIZAÇAO

Não mencionando as corporações medievais, às quais pertenciam os


artesãos e seus aprendizes, como surgiram os atuais sindicatos? Por que
ficavam os homens tentados a participar dessas organizações? Quais as
funções gerais que elas devem exercer?
Nos séculos passados, os salários eram baixos cm tôda parte. A produti­
vidade, então, era baixa, de modo que nenhum sistema dc dividir o bôlo
social poderia ter dado ao homem comum uma fatia adequada. Os tra­
balhadores. porém, sentiam com freqüência estarem à mercê do patrão.
Sentiam-se pobres, mal informados e incapazes de se manterem econômi­
ca mente contra o empregador, que em qualquer conflito era o que tinha
mais fôrça para resistir. As oficinas eram organizadas com base em prin­
cípios ditatoriais, e as ordens partiam de cima para baixo. O trabalhador
não passava de uma roda dentada da máquina, um autômato despersonali-
zado. Era esta a idéia que fazia o trabalhador da situação, como revelam
os registros e os documentos históricos.
EMPR! GADO* E UfFftECADQttS

A pouco c pouco, os homens descobriram que hi fòrça na quanUdadé


Cem homens, agindo dc acôrdo, pareciam ler maior jxxlci de barganha
do que todo agindo separadamente. Os operários começaram a se reunir
cm tabernas c capelas. Formavam sotiedades fraterna» para contatos
mútuos, para divertimentos e discussões. Grada ti vãmente, ésses sindicatos
primitivos começaram a conceder auxílios uiútuos de funeral e várias
outras formas dc seguro, e promoviam a auto-educação. Começaram,
também, a propor salários padrões que os seus associados devei iam insisiix
em que fôssem pagos.
Naturalmente, os empregadores reagiam. Também éles aprenderam
que a fôrça provinha da cooperação, forma na qual cada empregador
apoiava o outro e recusava-se a empregar homens que constassem da
“lista negra" dos conhecidos agitadores da classe operária. Como era de
se esperar, os patrões invocavam os podéres da lei contra as conspirações
trabalhistas e as ações dos grupos. Mais tarde, contrataram pistoleiros e
espiões para combater os sindicatos.3
São éstes os antecedentes do moderno sindicato norte-americano. Ao
contrário dos movimentos de classe no exterior, os sindicatos americanos
existem com a finalidade primordial de melhoria econômica: tentar obter
salários mais elevados, menos horas de trabalho, férias mais longas, regu­
lamentos de trabalho mais suaves, benefícios adicionais como pensões e
seguros-doença, direitos democráticos para os liomcns cm atividade e outros
benefícios econômicos.
Embora os objetivos de caráter econômico sejam a principal preocupa­
ção c razão da existência dos sindicatos hoje cm dia, os órgãos de classe
também realizam funções puramente sociais. Os associados jogam boliche
juntos. Por intermédio de seu sindicato, participam de campanhas dc
doação de sangue, obras de caridade, e de exaltação cívica. Assim como
um homem pertence à sua loja maçônica, à sua igreja, h Legião Ameri­
cana, e ao seu clube náutico, sente êle a necessidade da filiação sindical.
(Não queremos, com isso, negar que um colega seu possa não fazer mais
do que pagar suas taxas para o sindicato, ou que ainda outro trabalhador,
cujo salário também é determinado pela negociação coletiva, possa detes­
tar a idéia da classe trabalhadora organizada.)

2 As principal! armai utilizada» pelos empregadores no conhate aos sindicatos IÍB rido: (I)
dispensa indiscriminada dos sindicalizado». (2) a lista negra, (5) O lockout, (4) o contrato cm qac o
candidato se comprometia a nlo entrar para o sindicato (yctlov-dog contract), (S) o CfpiSo, (I) 0
fuia-grerca c os guardas armados, e (7) o "tindlcatn de emprêsa" (company union), cujo quadro dfl
associados é formado apenas pelos empregados dc uma companhia e que gcialmcnie nflo m Wu
i nenhum outro sindicato ou grupo de sindicatos. E os empregadores também «lUrad*
doa tribunais para lotarem contra os inks de dane
180 INTRODUÇÃO À ANÁl.ISE ECONÔMICA

• PEQUENA HISTÓRIA DO MOVIMENTO TRABALHISTA AMERICANO

Embora a classe dos trabalhadores norte-americanos tenha demorado a


organizar-se, seus priraórdios recuam até a época que antecedeu à Guerra
Civil. Os primeiros sindicatos a serem formados foram os que reuniam
operários altamente especializados e estratògicamente colocados (gráficos
e outros); c dc tempos cm tempos, em épocas de prosperidade ou de
inquietação industrial, êsses órgãos combinavam-se para formarem federa­
ções municipais e nacionais, com finalidades políticas e reformadoras. Mas
só na década de 1880, qunndo formada a AFL, foi que o movimento
operário norte-americano assumiu sua forma característica atual.
Os Cavaleiros do Trabalho. No último têrço do século XIX, da revolta
populista contra "grandes interesses”, surgiram os Cavaleiros do Trabalho.
A princípio, era uma sociedade secreta à qual todos, exceto "advogados,
banqueiros, jogadores ou vendedores de bebidas, e detectives da Agência
Pinkerton", podiam pertencer. Mais tarde, o sigilo foi abandonado. Em
1886, no seu apogeu, os Cavaleiros contavam com 700000 membros. Re­
presentavam êles uma tentativa dc formar um grande sindicato de traba­
lhadores cjue falasse em nome de tôda a classe. Entretanto, a sua composi­
ção era heterogênea, reunindo "sindicatos de artes" de trabalhadores espe­
cializados, "sindicatos industriais" de todos os operários de determinada
oficina ou indústria, e assembléias mistas dc qualquer pessoa que quisesse
dar-sc ao trabalho de inscrever-se.
Os Cavaleiros muito se interessavam pela reforma c pela agitação políti­
cas. Alguns de seus dirigentes estavam mais interessados cm "melhoria
social" e em mudanças radicais na política, do que em aumentos do
salário-hora. Depois de algumas greves fracassadas, o número de seus asso­
ciados decresceu com a mesma rapidez com que aumentara. Os Estados Uni­
dos não pareceram sensíveis a um movimento trabalhista dessa natureza,
e a organização dos Cavaleiros do Trabalho era demasiado vaga para que
lhe proporcionasse qualquer capacidade de resistência.*
A Federação Americana do Trabalho. Em 1881, e formalmente em
1886, o atual movimento trabalhista tomou a sua forma com o nascimento
da American Federation of Labor. Durante quase meio século, até sua
inorte cm 1924, Samuel Gompers dominou essa organização e deu ao
movimento o seu padrão característico. O próprio Gompers foi trazido
para êste país quando criança, pelos pais imigrantes. Teve participação

i MjL uma vc/. |*>r «Ia época da Primeira Guern Mundial, o» Industriei Workers oj the
volta
World (IWW) - '1 Industriais
nbalhadores do Mundo — ou “Wobblics", tentaram orgauliar tôda
a classe operária, para a derrubada do capitalismo. Foi limitado o *cu »utoao n09 esforço» dc
ornnliar trabalhadora migratórios nlo ctpccialirados. madeireiros e trabalhadora nas minas de
racial, foram mais felliea na tarefa de causar pinico no Procurador-Geral Palmer, do Govêrno
Woodrow Wil«on, que. em 11K0. desafiando as liberdade* uvis. pAt na cadeia os radicais suspeitos.
Nlo houve reaçflo alguma do IWW. 0 pouco tempo depois cala a organização em completa Ineficida.
EMPREGADOS E £MFKECAXKÜ

ativa no desenvolvimento do Sindicato dos Charuceiros c na fundação


da AFL como organização rival dos Cavaleiros do Trabalho. Embora
interessado» desde cedo, pelos movimentos socialistas, compreendeu em
pouco tempo que no solo norte-amerí ca no não floresceria nenhum movi­
mento que se opusesse ao capitalismo.
Os princípios básicos de Gompers eram simples:
1. Insistia num "sindicalismo comercial", isto é, sindicalismo tendo
por objetivo salários mais elevados c melhores condições dc trabalho, c
não se entregando à luta de classe para alterar a forma de sociedade.
O* trabalhadores deveriam obter mais, e ainda mais, por evolução, não
por uma revolução violenta.
2. Vinculou a AFL ao princípio do federalismo, cada sindicato nacio­
nal gozando dc soberania autônoma e de "jurisdição exclusiva" sôbrc a
classe de sua especialidade. Isso queria dizer que a AFL não iria tolerar
o "sindicalismo duplo”: dois sindicatos não poderiam tentar organizar
os mesmos trabalhadores, e um grupo de operários não podia desligar-se
de um sindicato nacional reconhecido.
3. Por fim. insistia no voluntarismo, com o govêmo sem interferência
na negociação coletiva, quer a favor, quer contra a classe operária. Na
política, Gompers era a favor de que se recompensassem os amigos da
classe e que se punissem seus inimigos, mas não queria vincular os traba­
lhadores a qualquer partido político.
Assim, a AFL era diametralmente oposta aos Cavaleiros do Trabalho
em quase todos os aspectos. K medida que os Cavaleiros tinham sua
importância diminuida, crescia a AFL. E tem continuado a crcscer. Pode­
ríamos dizer que a filosofia da AFL passou a ser a dominante do movimen­
to trabalhista norte-americano.
A desfavorável década de 1920. Após a Primeira Guerra Mundial, a
AFL contava com cêrca de 5 milhões de associados c parecia gozar dc
bom conceito, mas durante a década de 1920 a classe operária encontrou
uma oposição decidida por parte da National Association of Manufactuiers
— NAM — (Associação Nacional dos Manufatureiros) e outros grupos dc
empregadores. A open shop ("fábrica aberta”), que significava o ofereci­
mento de cmprêgo sem refeiênda à condição de associado, ou não, dc
um sindicato, foi declarada como "o plano norte-americano”. Além do
mais, a década de 1920 foi uma "nova era” de eterna prosperidade. Como
declarou John J. Raskob, homem dc emprêsa e líder do Partido Democra­
ta, qualquer pessoa podia ficar rica economizando $ 15 por semana c
investindo essa quantia no merrado de valôres. (Acrescentou filo (JUC nüo
apenas era possível, como as pessoas tinham obrigação de íicar ricas.)
Aquela década foi, também, um daqueles raros períodos de alto n/vel C
INTRODUÇÃO A ANÁLISE ECONÔMICA

emprêgo cm que os preços não esiavam em ascensão. Por isso. o dcscontcn-


tamenio pelo custo de vida não funcionava para encorajar a sindicalização.
A própria AFL passava |>or um período de grande estagnação. Com a
morte de Gompers. John I.. I-ewis e outros homens fortes tentaram ficar
com o cargo que êle ocupara. William Green foi eleito, como candidato
de conciliação, e exerceu o pôsto de presidente até 1952, quando faleceu.
De modo geral, defendia o ponto de vista dos “sindicatos profissionais",
constituídos de trabalhadores especializados de determinada função. Lewis,
por outro lado. era associado aos “sindicatos industriais", formados por
todos os trabalhadores dc determinada indústria ou íábrica.
Recuperação e formação da CIO. Nas profundezas da Depressão de
1932, a AFL havia caído para menos de 3 milhões de associados. Mas,
com a recuperação, iniciava-se uma nova era para o sindicalismo. A De­
pressão tornara o público amargurado com muitos dos dísticos da década
de 1920 e havia excitado os antagonismos de classes. Mesmo antes do
New Deal de Roosevelt, o eleitorado e os tribunais começaram a modificar
sua oposição aos sindicatos.
Mas no seio da própria AFL, a velha insistência na jurisdição exclusiva
dos sindicatos nacionais era um obstáculo à organi/ação das grandes
indústrias dc produção cm massa. Por exemplo, antes dc Judge Gary,
da United States Steel, esmagar a grande greve do aço de 1919, um comitê
pouco maleável de cérca de quarenta sindicatos foi formado para dirigir
o movimento. Até hoje, os sindicatos dos Carpinteiros e dos Maquinistas
não conseguiram resolver algumas dc suas diferenças.
Observadores astutos, em 1933, previram que os sindicatos industriais
iriam representar importante papel no futuro. John L. Lewis, do Sindi­
cato dos Trabalhadores em Minas, o falecido Sidney Hillman, do Sindicato
Consolidado dos Trabalhadores na Indústria do Vestuário (Amalgamated
Clothing Workers Union), e outros líderes formaram, cm 1935, o Congress
of Industrial Organizations (CIO), sob a presidência dc Lewis. Auxiliada
por novas atitudes governamentais, pela legislação (cm cspcctal a Lei
Wagner dc 1935), e pelas decisões da justiça, seguiu-se uma campanha
"relâmpago**, na qual as importantes indústrias de produção em massa,
como a automobilística, a do aço, a da borracha e a do petróleo, foram
organizadas, apesar da cerrada oposição das principais companhias que
formavam essas indústrias.
A essa altura, a AFL havia aprendido a importante lição do sindicalismo
industrial Também ela começou a organizar-se em bases industriais, mas
os seus sindicatos profissionais continuaram a dominá-la.
Ot sindicatos em meados da década de I960. O sonho dos trabalha­
dores, o movimento unificado, acabou por tornar-se realidade cm 1955.
Formou-se a AFL-CIO, com George Meany, da AFI-, eleito primeiro pre-
EMPREGADOS E EMPREGADORtS

sidcnte. Parccc que agora o movimento sindical estabilizou-se, restando


poucas indústrias novas para serem organ i/adas.
Um nôvo tipo dc homem parccc estar-se deslocando para os postos
de destaque. Na época cm que os sindicatos nasciam c lutavam pela
sua sobrevivência, homens como John L. Lewis, Philip Murray e Dan
Tobin eram os líderes. Os novos elementos que os estão substituindo são,
com freqüência, homens com o talento de administradores. Milhões de
associados e literalmente centenas de milhões de dólares cm seus fundos
de assistência social, fazem com que os sindicatos necessitem de homens
cjue possam administrar e lidar, de modo persuasivo, com o Congresso,
com os dirigentes das emprêsas e cora o público.

# COMUNISMO I CORRUÇÃO NOS SINDICATOS

A infiltração comunista sempre constituiu um problema para o movi­


mento flindical. Por exemplo, na década dc 1920, Dubinsky comandou
um vitorioso esforço para eliminar a influência comunista de seu sindica­
to. Na década de 1930, os comunistas tentaram influenciar a política de
muitos sindicatos. Apesar dc formarem, dc modo geral, apenas uma insig­
nificante percentagem dos associados, exerciam uma influência que se
estendia além de seus componentes, porque agiam como um todo, utili­
zando-se de táticas maquiavélicas para atingirem seus objetivos. Forne­
ciam entusiastas organ i/adores da classe trabalhadora, c o próprio Lewis,
em suas lutas partidárias, tolerou-os durante algum tempo. No Sindicato
dos Trabalhadores Unidos da Indústria dc Aparelhos Elétricos (até 1949,
pertencente ao CIO), no Sindicato Nacional dos Marítimos, e nos sindi­
catos dos estivadores, as lutas entre "comunas" c anticomunistas toram
pai ticularmente violentas. £ no Sindicato Internacional dos Trabalhado­
res nas Indústrias de Peles e Couros (CIO), os comunistas chegaram a
obter o conirôle.
Durante longo tempo, o movimento sindical, cm particular o CIO.
havia tolerado os adeptos esquerdistas, desde que defendessem as mesmas
causas defendidas pelos sindicatos. Depois de 1949, porém, houve uma
decisão. Além de expulsar o Sindicato dos Trabalhadores Unidos da
indústria dc Aparelhos Elétricos e meia dúzia dc outros sindicatos, o CIO
expulsou, em 1950, o Sindicato dos Estivadores da Costa Ocidental, pre­
sidido por Harry Bridges, sob a acusação de infiltração comunista. Em
tncio à década de 1950, as leis contra os comunistas foram sc tomando
cada vez mais rigorosas.
A exceção de mais ou menos uma dúzia dc sindicatos, os comunistas
nunca chegaram a obter qualquer influência considerável. A sua influên­
cia, na qualidade ele minoria que eram, baseava-se quase que por inteiro
cm sua esperteza no uso da estratégia e na sua identificação com as causas
184 INI RODIÇÃO À ANÁUSE ECONÔMICA

populates da clusse opcrária. Qualquer que seja a nossa opinião a respeito


do critério econômico dc sua% políticas, a elasse trabalhaduia norte-ameri­
cana é \crinclha, branco e azul, c não vermelha.

O papel do gangsterismo no movimento sindical tem sido de pouca


importância. Após a revogação da lei-sêca, houve realmente pistoleiros
corrutos que conseguiram entrar para alguns sindicatos urbanos (por
exemplo, os estivadores por perto de Nova Iorque). £sses elementos esta*
vain prontos, tanto a trair a classe em troca de subôrno, como a lutar
pelos interesses dos trabalhadores. Êstes obtiveram algum sucesso em
limpar a sua própria casa. Nas cidades cm que existe um eficiente dispo
sitivo que faça com que as leis sejam cumpridas, os males do gangsterismo
sindical estão muito bem controlados.
Ainda resta um ponto de atrito: a fraude e a má aplicação dos vultosos
fundos sindicais ainda não foram completamente eliminadas. Dave Beck,
dos condutores de veículos de tração animal, ficou rico ao especular com
os fundos do sindicato, e outras utilizações indébitas de fundos sindicais
têm sido reveladas por comissões parlamentares de inquérito, "jimmy'*
Hoffa, sucessor de Beck, tem conseguido desafiar a AFLCIO, comissões
parlamentares, monitores designados pelos tribunais, e minorias no Sindi­
cato dos Carroceiros.
Estimulado pelas revelações públicas da existência dc corrução, o Con­
gresso venceu a oposição da classe dos trabalhadores c aprovou a Lei do
Relatório c da Divulgação dos Dirigentes Sindicais (Landrum-Griffin),
de 1959. Entre outras coisas, a lei exige a apresentação de relatórios finan­
ceiros por parte dos sindicatos, comunicação dc empréstimos feitos pelos
órgãos de classe aos seus dirigentes, e de pagamentos extra-salário feitos
por empregadores a êsses mesmos elementos.
A lei também estabelece uma "Carta dc Direitos” para os membros dos
sindicatos, que impede eleições fraudulentas e a punição sumária dos
associados por parte do sindicato.

• ATÉ QUE PONTO OS SINDICATOS SA0 DEMOCRÁTICOS?

Fm capítulo anterior, discutimos os problemas do contrôle democrático


da direção da emprêsa por pane dos acionistas. Problemas idênticos
ocorrem em relação aos sindicatos. É verdade que os dirigentes sindicais
são eleitos para os seus cargos e que todos os membros do sindicato têm
votos do mesmo valor. Entretanto, uma vez eleitos, os dirigentes ficam
no poder durante um período de tempo considerável, e, entre uma con­
venção anual e outra, o órgão é dirigido, em geral, por uma pequena
diretoria. Homens como John L. Lewis e Walter Reuther têm, de modo
geral, go/ado de popularidade entre os associados, mas se um membro
KM PREGADOS E I Ml'Rl.OAlXJf) \

não concordasse com a orientação geral estabelecida por lidera mSB


poderia não ir muito longe.
O associado comum não participa muito ativamente no esubeta ímeatò
da orientação a scr seguida. Entretanto, segundo Summer Slichter, que
estudou êsse problema:4

"Isso não quer dizer que u» elementos n3o-dirigcntes nlo tenham influência. Soa
influência é grande, mas influência nSo quer dizer partia paçio. Se deesoenda
significa simplesmente uma forte influência da gente comum, a maioria dot sindicatos
<5 democrática. A situação típica, num sindicato, é semelhante Aquela «xonrradi
na maior parte das organizações, igrejas e clubes de todos os tipo* Exifte uma
minoria suficientemente Interessada pelos assuntos da organização para coraparcorr a
teuniões era que slo tratados assuntos financeiros e participar ativamente na limasV
de problemas. No caso dos sindicatos, essa minoria geralmente pede aos dirigentes
que façam exiglndas de vulto — maiores do que aquilo que os emprega»
estariam dispostos a conceder sem muita luta. sufidentemente altas para fosçar o
fechamento das ponas dc muitas empresas. A fim dc evitar confusões, a grande maioria
do sindicato aceitaria muito menos do que o exigido pela minoria ativa.
Ê natural que o líder profissional fique em apuros. Sc desapontar em demasia a
minoria ativa, haveri oposição à sua liderança. Sc criar multas dificuldades para a
maioria inativa, imbém poderá provocar uma revolta. Ele transige, como. naturalmente.
è sua obrigação. Em geral, esti mais interessado cm acalmar a minoria ativa do que a
maioria inativa* porque sabe que o apoio ou a oposição dos membros ativo* è raais
importante do que o apoio ou a oposiçto dos inativos. A história mostra que os dili­
gentes sindicais perdem seus cargos, não por terem «ido demasiado radicais para a
maioria, mas por terem sido demasiado conservadores para a minoria.

• COMO FUNCIONA A NEGOCIAÇÃO COLETIVA

Vamos examinar dc que modo é efetuada a negociação coletiva.1 Ima­


ginemos um operário da linha de produção de uma fábrica que acaba
de ser organizada. Um sindicato pertencente à AFL-CIO requereu à
National Labor Relations Board (NLRB) — Junta Nacional de Relações
Trabalhistas — uma eleição para que se determine o agente exclusivo,
para fins de negociação, dessa fábrica. O operário assinala, em votação
secreta, seu voto a favor do sindicato c êste recebe maior número de
votos de que um "sindicato de emprésa" existente, que não possui filia­
ções externas e com o qual a diretoria da fábrica prefere discutir. A NLRB
credencia, então, o nôvo sindicato como o agente da negociação coletiva
na fábrica, impedindo que qualquer outro órgão de classe negocie dire­
tamente com os empregadores.
marcado o dia cm que os representantes do nôvo sindicato deverão
é
encontrar-se com representantes da diretoria da fábrica à mesa dc nego*
ciações. Sentados a essa mesa estarão, provàvclmente, um vice-presidente

s S. II. SiicsTsa, TIis Challenge of Indiutral Rotations (Cornell Pr+m. Ubaca, N. Y..
*9*9k pi*. 111.
a O capitulo 27 contém uma disnusio mab anatkka do prottso de enertatle coletiva.
186 INTRODUÇÃO À ANÁLISE ECONÔMICA

ciKuucgado das relações trabalhistas; com êle estarão advogados de uma


fuma espeoalizada em casos dessa natureza. Pelo sindicato, teremos o
agente comercial local do sindicato e um pequeno grupo de funcionários
do sindicato e. tuiulu/indo as ncgociaçõcs, haverá um perito vindo da
sede do sindicato. Êle poderá não ser nem advogado nem economista
jíiulissional, mas o corpo dc pesquisas econômicas do sindicato o auxilia
no preparo de um extenso relatório cm apoio às exigências do órgão
dc dasse.
Salários-hora não são o único problema em discussão. Além dêle, o sindi­
cato poderá pedir que as taxas a êle deveidas sejam automaticamente
descontadas nas fôlhas de pagamento dos associados. Poderá reivindicar
uma "union shop”, exigindo que todos os empregados se tornem membros
do sindicato até 30 dias depois da admissão. Reivindicações referentes a
pensões e seguros de saúde poderão ser dismiidas à mesa dc negociações.
Km muitas indústrias em que vigore o sistema dc pagamento por peça
produzida, a estrutura das taxas è um assunto importante para ser discuti­
do. O volume exato de trabalho — a quantidade de teares de que cada
homem cuidará, e assuntos semelhantes — poderá ser debatido, e o proble­
ma geral da rapidez com que os melhoramentos tecnológicos serão adota­
dos fíirá parte do contrato final. Os direitos dos operários de acórdo
com a antiguidade c um processo a ser seguido nos casos dc dispensa, êstes
e muitos outros problemas serão incluídos na negociação coletiva.
Na verdade, os dirigentes das emprêsas estão preocupados com as trans­
gressões que a mão-de-obra organizada vem tentando transformar naquilo
que considera prerrogativas suas. Muitos empregadores alegam que já
não podem dirigir suas emprêsas da maneira que consideram a melhor.
Encontram dificuldades cm empregar os elementos que desejam, em despe­
dir por causa justa, cm determinar métodos de trabalho, e cm decidir
qual a ordem cm que será distribuído o pessoal. Acham que cada nova
decisão serve dc motivo para uma reunião dc um nôvo comitê, e que
o tempo, que poderia ser mais bem empregado na produção, tem que
ser dedicado ás relações entre patrões c empregados. Alegam que o operá­
rio age como se tivesse diieito a qualquer cargo que tenha ocupado
durante certo tempo. Êsses críticos reclamam que muitos sindicatos se
opõem a planos salariais dc incentivo, insistem na observação rígida do
tempo de serviço, desencorajam métodos eficientes de trabalho, c limitam
seriamente a autonomia dos administradores. Um recente livro sôbrc a
negociação coletiva dedica mais espaço aos problemas que surgem dos di­
reitos dos operários do que a qualquer outro assunto.
Mas. finalmente, o contrato, ocupando muitas páginas de perfeito tra­
balho dactilográfico, 6 assinado, Está tudo em prêto no branco, inclusive
cláusulas regulando os casos que surgirem durante a vigência do contrato.
EMPREGADOS E IM PREGADORES

Muitas vézcs, também, há cláusulas referentes no arbítrio do§ problemas


que Mirjam do cumprimento do contrato, com as partes concordando! por
antecipação, em aceitar a decisão de um árbitro imparcial estranho. O tem­
po dc duração de nm contrato é, em geral, de um ou mais anos, cstabele-
cidas condições para a reabertura das negociações visando a um nôvo
contrato em condições especiais.
A negociação coletiva é um negócio complicado — uma questão de
concessões mútuas.
Muitos líderes empresariais aprenderam a concordar com a declaração
feita por Cyrus S. Ching,* ex-vice-prcsidcnte da United States Rubber
Company, e depois chefe do Serviço Federal de Mediação e Conciliação:

Quando tratamos com a niiío-dc-obra organizada, ramos obter o tipo de liderança


que nós mesmos exercemos.

E muitos homens de emprêsa reconhecem a semente do realismo na


declaração dc um líder trabalhista:1

"Geralmente, os empregadores obtêm dc seus empregados o tratamento que pediram.


Sc os sindicatos comclcm "excessos’’, dc modo geral o empregador nio pode culpar
ninguém, a nio ser éle próprio, por isso. Por exemplo, se éle contrata os serviços de
agências de espionagem entre o* operários, como a Railway Audit, a Agência Pinkerton
ou outras; sc êlc fa* um estoque dc gás lacrimoRênio, granadas dc raio. submetralha-
«laras. cassetetes, fu/is e outros instrumentos dc guerra: sc éle contrata advogado dc
Wall Street que cobram caro pelos seus serviço», paia hoctâliar o sindicato perante
a Junta dc Trabalho c nos tribunals; sc file distribui aos seus capatazes material de
propaganda and sindical e lhes dá a entender que será perdoado qualquer prejuízo
que posam dar aos sindicatos; se êle cmtribui para organizações que tíu contra a
dasse operária, como o famoso Comitê de Cidadãos dc Johnstown; se êle uu dc
sofísmas; sc sc recusa a consentir cm uma eleiçfio ou a assinar um contrato quando sabe
que o sindicato conta com a maioria; ic, depois dc obrigado a assinar o contrato, êle
protela e dificulta as soluções dc conflitos; se êle continua a fazer discriminações contra
membros do (indicato, a dasse dos trabalhadores responderá a altura c nove entre
dez homens dc cmprfaa. observando o fato à distância, dirão: "Ah! Outro cxcesao!'

Ninguém deverá ter a falsa impressão dc que todos os administradores


têm sido anti-sindicais. A violência vai para as manchetes, enquanto que
a cooperação paciente passa despercebida. Na maioria das indústrias, há
muito tempo que vem sendo observado um sistema feliz de fecunda
cooperação entre empregados c empregadores. Para destacar êsse fato,
a Associação Nacional de Planejamento tem publicado estudos que des­
crevem casos cm que as relações trabalhistas foram bem sucedidas.

• Ctatm S. Ciiinc, "Problems In Collective Bargaining", Jpum*l o/ Bumwu, I ruinudiír ét

CKrkP^’m'JT.ay U oóc»! OrgmUud Ldbor and Pnduttlto (Harper, Ne- Ys»t. IWO. wém-
259-263.
188 INTRODUÇÃO À ANÁLISE ECONÔMICA

relatórios cLscrevem “como gmpos històricamcntc hostis podem coexistir


numa ba*c de razoável igualdade de posição na empresa, e ao mesmo
(empo participarem do anseio comum dc procurarem, ambos, a segurança,
a oportunidade e o sustento". 9
Assim, a indústria dc polpa dc madeira c dc papel da Costa Ociden­
tal. lujo membro principal é a Crown Zellerbaeh Corporation, gozou 30
anos dc saudáveis relações trabalhistas. A divisão Dcwey & Almy, da
V\\ R. Grace, Inc., tem um registro de 24 ano» dc negociação coletiva
com o seu sindicato, envolvendo apenas cinco suspensões de trabalho.
A Nashua Corporation vem mantendo relações com sete sindicatos da
AFL, cm 50 anos, sem a ocorrência dc greves. E a Hickcy-Freeman Com­
pany. fabrírante de roupas masculinas, vem tratando com sindicatos hi
45 anos, sem uma greve; há mais dc 30 anos que nenhum atrito chegou a
ser submetido a arbitramento.
Nos casos acima, a paz não foi mantida porque a diretoria ou o sindi­
cato se mostrasse fraco. A ação firme, por parte dc ambos os lados, deverá
acompanhar as boas relações entre empregadores c empregados; apatia
dc ambas as partes ou o domínio de um só lado adia as soluções e acaba
por provocar rompimentos. Em casos normais, cada lado respeitava os
direitos do outro. Os dois não estão apaixonados um pelo outra mas hi
compatibilidade de gênios.

• PAPEL DO GOVlRNO NA NIGOCIAÇAO COLETIVA

Embora os sindicatos sejam relativamente livres neste país, em com­


paração com o contrôle que sofrem nos países colctivistas, o govémo
representou importante papel cm seu desenvolvimento histórico. Há du­
zentos anos, quando os trabalhadores tentaram organizar-se pela primeira
vez na Inglaterra c nos Estados Unidos, foram usadas contra os seus
membros as normas do direito comum contra a conspiração que restrin­
gisse o comércio. Até muito depois de iniciado êste século, sindicatos e
seus associados eram condenados pelos tribunais, obrigados a pagar danos
e atormentados por vários processos que proibiam suas ações. Repetidas
vê/es, a Côrte Suprema derrubou leis destinadas a melhorar as condições
de trabalho das mulheres e das crianças e outras reformas da legislação
referente a horas de trabalho c taxas de salários.
Km 1890, a Lei An ti traste Sherman tornou ilegais as restrições monopo­
listas ao comércio. O documento não falava em sindicatos, mas, nos 20 anos
seguintes, foi utilizado pelos tribunais, com freqüência cada vez maior,
para cercear as atividades dos órgãos de classe. Se um dêles fazia uma

• fmméamrmtalt tf laber Pemce, Caae Studies. No. 14 (National Planning Awociatkm. Washington,
IflSS).
EMPREGADOS E EMPREGADORM 189

greve com objetivos que na opinião de um juiz eram indesejáveis, o rnagS»


nado poderia decidir contra o sindicato. E muitos meios tradicionais,
utilizados pelos sindicatos, foram declarados ilegais pelos juizes, ainda
que visassem a um fim legítimo.
A AFL, embora contrária a que os trabalhadores tivessem parte ativa
na política, foi forçada a entrar para o campo político e, cm 1914,
a classe conseguiu obter a aprovação da Lei Antitruste Clayton. Apesar
de saudada como a "Carta Magna dos trabalhadores” e destinada a livrar a
classe da perseguição que lhe era movida com base na Lei Sherman, ela
não acabou com a oposição legislativa e judicial ao movimento trabalhista.
Legislação cm favor dos trabalhadores. Depois dc 1930, o pêndulo
oscilou para o apoio à negociação por parte do sindicato. Desta legislação»
destacaram-se particularmente a Lei do Trabalho Ferroviário (1926).
que aceitava a premissa básica da negociação coletiva; a Lei Noms-La
Guardia (1932), que pràticamente ncabou com a interferência coatora
dos tribunais federais nas disputadas trabalhistas; a Lei Walsh-I lealey
(1935), que estabelecia a exigência de padrões dc salário mínimo cm todos
os contratos feitos pelo govérno; e a Lei de Padrões Justos de Trabalho
(1938), que fixou um salário mínimo ($ 1>25 por hora, cm 1964) para
a maioria dos trabalhadores não-agrícolas empregados no comércio
interestadual, proibiu o trabalho infantil e exigiu o pagamento de mail
50% pelas horas que excedessem das 40 por semana.
O marco mais destacado de todos foi a Lei das Relações do Trabalho
Nacional (Wagner), de 1935. Seus térmos eram categóricos: "Os empre­
gados terão o direito de se organizarem, formarem organizações traba­
lhistas, juntar-se a elas ou auxiliá-las, dc ncgociar coletivamente por inter­
médio de representantes por êles escolhidos, e de participarem de ativida­
des em conjunto, com o objetivo de negociar coletivamente ou visando
a outro auxílio ou proteção mútua" (Art. 7*). Além do mais, criou a
Junta Nacional de Relações Trabalhistas (NLRB), com a finalidade de
evitar que empregadores sc entregassem a “práticas injustas” contra a
dasse trabalhadora. • A NLRB também penetra nas fábricas c realiza
eleições para ver qual a organização que é considerada a representante de
iodos os trabalhadores na negociação coletiva. Tem o poder de expedir,
c expede, “ordens dc desistência” contra os empregadores, a serem cumpri­
das depois do apêlo à justiça. E muitas vêzes faz com que patrões readini*

» O cênoo "práticas trabalhistas injustas*', aplicado na Lei Wagner, Unha «m sJgolfitado hm


amplo, referindo-se 4» atwidadc* dos empregadores qw interferem no» d irrito» de organtiaç>o dot
empregados. Slo exemplos dessai priiiau por parte doa patrões: (I) despedir empregado» *“i""
para um sindicato, (2) iecusa em empregar homens que tenham simpatia pckv liadwtoi. (S) ameaça
de fechar um estabelecimento no aw dc o* empregados entrarem para aas (4) ünerialr ma
administração de um tindicato ou domini-ta, ou (5) recusar-se a discutir com «• renmrounca
desxgnadoc pelos empregados. Notuz Os trabalhadores «empe» Uirraa dJieno dMMsi de ar «t1-
nirarem, mas a legislas*» da <KckU de I9M estimulou e eipandiu explicitamente liji* diraMaa
190 INTRODUÇÃO À ANÁLISE ECONÔMICA

iam empregados des|>edidos por motivo injusto, com pagamento do tempo


que ficaram afastados.
Sem essas atitudes favoráveis por parte do governo, é de duvidar-se
que o movimento sindicalista pudesse ter chegado ao plano cm que
hoje se encontra.
Tendências anti-sindicalistas. Após a Segunda Guerra Mundial, o elei­
torado ficou faito de greves e de preços cm elevação. A classe operária já
não ei a considerada vitima da injustiça social, e havia quem achnssc que
a Lei Wagner tinha sido parcial, favorecendo os trabalhadores e deixando
todos os encargos para os empregadores. O Congresso aprovou, em 1947,
a Lei das Relações entre Empregados e Empregadores (Taft-Hartley).10
Trata-se de uma lei de dois gumes sóbre as relações trabalhistas que —
ao contrário da Lei Wagner — estabelece padrões de conduta tanto para
os sindicatos como para os empregadores. O trabalhador que não quer
fazer parte de um sindicato também recebe o seu apoio, como fortalecidos
são m direitos de um associado a um sindicato perante os dirigentes dèssc
sindicato. Entre seus pontos principais, temos os seguintes:

As greves que "ameacem o bem-esur ou a segurança nacional" poderio ser suspen­


sas por 80 dias, por imposição da justiça cm atcnçüo a pedido do Procurador-Geral. Os
sindicatos devem avisar, com a antecedência dc 00 dias. a deflagração dc qualquer greve.
As práticas injustas por paite doi sindicatos estão definidas, c o comportamento
doa sindicatos limitado. Os sindicatos podem ser processados c responsabilizados pelos
atos dc seus agentes. A "clotrd shop”, que exige que todos os empregados sejam
membros do sindicato, é limitada, c os citado» t*m liberdade de aprovar leis mais rigoro­
sas. Boicotes secundários c greves jutisdldonais aão considerados ilegais. SIo limitadas
a atividade política c as contribuições financeiras dos sindicatos. Os direitos da livre
cxprcaa&o por paste do empregador são reafirmados e fortalecidos.

• PROBLEMAS ATUAIS DA NEGOCIAÇÃO

Os principais problemas que enfrentam os Estados Unidos e outras


nações, na década de 1960, são os seguintes: (1) o problema das interrupt
ções do trabalho: greves dos sindicatos c lockouts dos patrões; (2) a obri­
gação dc contratar mais operários do que | necessário e outras restrições
à produtividade impostas pelos sindicatos no interêsse da estabilidade
no emprego c de salários mais elevados; (5) certa tendência que têm os
salário* de crescer, o suficiente para provocar o "sôpro inflacionário".
Greves. O poder da greve é fundamentai na negodaçüo coletiva da
atualidade. Ao contrário do que sc costuma pensar, Cssc poder, como
demonstrado na fig. S. não é usado com muita freqüência: o número dc

* A lei Landrum-CrifCn (1950). que UA aprovada paia cuuImict * corru<So. já loi dJtcutida
anteriormente.
EMPREGADOS E EMPUCADOftES

At interrupções do trabalho atingiram seu ponto máximo


logo apés a guerrai

TEMPO PERDIDO COM INTEMtUPÇÕfS Dl WABÀIHO


NOS E. U. A. — 1935 - 1963
v* 1^5

o
o I00<
O Fig. 3. Embora o Umpo por-
dido com 01 Qraro* *efà
o 73- dido aai aiMu dt hoaom-
w
z dias, <0*0 porcortogoa do
S 50- tolal d# dkn d« trofcofc©
O tivo nunca atingiu 1,9% o tm-
X
2 25 ca chogou a mano» do 0.5¾.
y» (FonUt D*partamsaio do Tr®-
•o o balto das LUA)
5 ***s 1940 1945 1950 1955 i960

dias perdidos por causa de um resfriado comum é muito maior <lo que
os relativos a todos os conflitos trabalhistas.
O capítulo 27, que aborda em detalhes a determinação do salário
salienut que, sem o direito de greve, os podêres dc barganha de um
sindicato seriam substancialmente alterados, para melhor ou para pior.
Repetidas são as vézes cm que concessões têm sido arrancadas de um
patrão apenas com a ameaça realista de fazê-lo compreender os pesados
prejuízos financeiros que sofrerá com uma paralisação prolongada. E,
naturalmente, os trabalhadores tambfrn sofrem dolorosos prejuízos finan-
cciros c desmoralização com uma longa interrupção do trabalho. No
entanto, muitas vêzes os empregadores tlm-se recusado, com sucesso, a
concedcr o que lhes impõem os sindicatos, com a firme determinação de
"aceitar” uma greve prejudicial cm vez dc ceder à pressão.
Quando as greves envolvem indústriavchave (como a do aço) ou
funções-chave (como as ferrovias ou as docas), ou acontecem cm escála
nacional numa seção importante como a dos automóveis, o interêsse
público predomina. Dois homens não têm liberdade de entrar em luta,
sc isso prejudicar terceiros. Assim como os direitos dc propriedade privada
c das liberdades individuais não são absolutos e devem ser reconciliados
quando entrem cm conflito com os direitos de tcrcciros c do público em
geral, os direitos da "livre negociação coletiva" devem estar sujeitos a
um liuiite e à coordenação com as necessidades &ociais.
Não se trata de discussão acadlmica. Em 1919, o Governador Calvin
Coolidge lòz a seguinte declaração, referindo-se à greve da polícia de
Boston: "Ninguém, cm parte alguma, em momento algum, tem o direito
de fazer greve contra a segurança pública." Dc fato. atualmente o govérno
não deixa que persista uma greve de efeitos prejudiciais. Freqüentemente,
os Presidentes Truman, Eisenhower e Kennedy viram-se forçadoi i aplicar
1112 INTRODUÇÃO A ANÁLISE ECONÔMICA

At distribuições da mão-de-obra sofrem grandes alterações com


o pastar do tempo:

Flg. 4. Compensando o cons­


DlSTtllUlÇAO INDUSTRIAI DO IMMÈGO CIVU - 1920 I960 tante declínio do emprigo
agrícola, temos o oumtnto de
Ceiitrol omprêgo no govlmo e cm
serviços.
A própria indústria de
transformação, depois de um
Co*i'c!o, Serviçoi e Diverso»
crescimento inicial, d acresce
cm ímpoiiànda relativa. Os
trabalhadores em Iransfoma-
ção são divididos'pela llaha
interrompida emoperáriosda
” ' Indúilríat de Tianifo»rioçco.
linha de produção (embaixo)
. . Mioeíoçôo e ComUwçõo e empregados burocráticos
(acima da linha). Observe o
relativo declínio desde 1950
Asric«ft<*a nos trabalhadores do Knha
da produção, en eompnraçSo
aos burocráticos. ! Fonte: De­
1920 I960 partamento do Trobafco dos
E.UJU

as sanções previstas na Lei Taft-Hardey ou usar de outros artiffdos para


suspender greves em áreas vitais.11
Embaraços à produtividade. Os sindicatos tornam-se especialmente pre­
ocupados quando novas técnicas ameaçam a segurança do emprego de seus
associados. A palavra "sabotagem” surgiu quando os operários atiraram
seus sapatos de madeira [sabots) nas engrenagens das novas máquinas
introduzidas pela Revolução Industrial para substituir trabalhadores. O
termo "featherbedding" se refere a quaisquer regulamentos impostos aos
empregadores com o simples propósito de manter a demanda de traba­
lhadores; o uso dc pás de pequeno tamanho; limitação tio número de
tijolos colocados por dia; exigência de que o uso de gravações musicais
seja acompanhado por uma orquestra de plantão, que nada faz além
dc receber o pagamento; a exigência de um foguista (isto é, um homem
que lance pàzadas dc carvão na caldeira da máquina) junto a uma
máquina diesel, sob a alegação de que êsse elemento é necessário por
motivos dc segurança.
Sindicatos fortes têm o poder de impor expedientes desprovidos de
senso econômico. As estradas dc ferro têm sido um exemplo flagrante.
Como o capítulo 27 irá mostrar, há limites até os quais os sindicatos
podem aumentar os salários. Seus podêres são particularmente grandes em

ii Dc qu»lqo«r maneira, n catado parece estar propenso a intervir com rapidez, com propostas
de arbitramento compulsório: uma greve de ferroviários, que poderá reduzir em 25% o produto
national, deve ser diferençada de uma greve de jornais, que prejudica i dlsseralnaçSo das noticias
c dos anóndoe. ou de utna greve na indústria automobilística, que adia as comprai de novos
cjrros e envia por todo o sistema ondas de gastos reduzidos. O caso das ferrovias afeta multo mala
o Inierésae público do que as outras, por mais sérias que estas possam ser.
EMPRIG ADOS E EMPRECADOtES WM

oultas conexões com indústrias dc tinus. Em outra parle, é mais Mij


que ajudem a introdução periódica dc melhores técnicas dc produçio.
Aumentos de salários. Repetidamente, estaremos discutindo oc proble.
mas envolvidos na inflação. Poucos países modernos conseguiram goarj
por muito tempo, c dc fonna simultânea, dc (I) cmprtgo razoavelmente
pleno c (2) níveis de preços razoavelmente estiveis. Veremos que parte
da dificuldade está no campo da política financeira c fiscal. Parte
poderá scr devida à tendência que têm os salários dc resistirem a ajustes
para baixo, mas de estarem sempre demasiado propensos a subir além
das melhorias de produtividade, antes mesmo que o cmprêgo se aproxime
do plena
Um pouco dessa pressão salarial parece estar associado ao nosso sistema
de livre negociação coletiva. Quando tudo corre bem, os trabalhadores
pedem, c conseguem, aumentos constantes dc salários. Greves fracassadas
apenas tomam mais lento o processo. Sob o arbitramento voluntário ou
compulsório, não há dúvida sôbre sc a taxa será elevada ou reduzida:
é quase certo que será aumentada. Aos diretamente interessados, parece
inais barato comprar a paz com a classe operária concedendo salários que,
cm média, estfio acima do ponto compatível com preços estáveis.

• ALTERAÇÕES DINÂMICAS DO TRAIALH0

Restam problemas não solucionados no campo do trabalho, que n&o é


cst.itico, como demonstram as tendências apresentadas na fig. 4. k pro-
porção que a sociedade progride, exige menor quantidade de mão-de-obra
dedicada à produção de gêneros alimentícios, forçando, assim, os traba­
lhadores a passarem da agricultura para a indústria. Quando as rendas
aumentam ainda mais. os produtos manufaturados começam a perder a sua
importância relativa. O povo deseja mais serviços do que bens materiais.
Ganha importância a maneira de vender e entregar aquilo que é produ­
zido. Além do mais, as manufaturas podem scr produzidas por um número
rada vez menor de pessoas. Dos elementos que ainda trabalham nas
fábricas, é cada vez maior o grupo dos que usam colarinho e gravata e
realizam serviços como arquivo, tomada de conta do computador e dacti-
lograi ia. Um bom conselho aos trabalhadores d que façam suas aptidões
combinarem com a côr de suas camisas.
As alterações no número de habitantes têm import&náa. No momento,
metade das mulheres que trabalham o fazem, em particular, quando já
passaram dos 40, sem dependentes menores. A alta na taxa de natalida­
de verificada durante e após a guerra veio aumentar o número de jovens
que procuram trabalho. A automação exige novas esperializaçôes, dando
maior ênfase ao treinamento do que à simples fôrça ou iuptrritSo med
UH INTROOIÇÃO À ANÁLISE ECONÔMICA

nica. Foi preciso aplicar Iodos os princípios dc Economia para comprcen-


dei c facilitar o processo da adaptação c do rcajustamcnto interminável.

SUMARIO

1. <>' sindicato» operários ocupam um papel importante, mas não cm


expansão, na economia nortc-amcricana, tamo cm termos dc número dc
awxiados como dc influência. Sua estrutura atual compõe-se dc três etapas:
(a) sindicatos locais, (6) sindicatos nacionais, c (r) federação dc sindicatos
(AFL-CIO), sendo da maior importância as duas primeiras.
2. Na década dc 1880, já havia sido criado o padrão tfpico norte-
americano do sindicalismo federalizado, a político, gradualist;!. A partir
dc 1953, o CIO c finalmente a AFL modificaram a forma cm direção
j sindicalizarão industrial das industrias dc produção cm massa, cm vez
de apoiar-se unicamente na sindicalizcçâo profissional dc operário» especia­
lizados.
3. Depois que um sindicato é reconhecido por uma eleição realizada
pela NLRB como o agente exclusivo nas negociações, representantes dos
empregadores c dos empregados reúnem-se para negociar um contrato
que fixa níveis salariais, condiçõcs dc trabalho, padrões dc produtividade,
grau de reconhecimento do sindicato, direitos adquiridos por tempo dc
serviço, c processamento das queixas.
4. Até meados da dérncla de 1930, havia uma implacável oposição aos
sindicatos. Por fim, o pêndulo do govêmo oscilou para o apoio à negocia­
ção coletiva e, desde a promulgação da Lei Wagner (1935), a maioria das
indústrias manufatureiras já sc tomou sindicali/ada. Disso resultou menos
violência, mas também uma vigorosa negociação coletiva entre os grupos
of>ostos. Depois dc 19*17, o Congresso achou que havia agido com parciali­
dade cm favor dos trabalhadores e aprovou as Leis Taft-Hartley c Lan-
drtim-Griffin, para corrigir o equilíbrio. As ameaças de greve em indús­
trias vitais invocam, sempre, a ação governamental.
5. A parte as greves c o “featherbedding*/ um grande problema do
pót-guerra tem sido a relação dot aumentos de salários com o nfvel de
preços. No caso de serem estabelecidos “ciclos de aumento geral dos salá­
rios” que ultrapassem dc muito o aumento anual dc 2% ou 3% que sofre
a produtividade, é quase certo que o nível de preços subirá de maneira
inflacionária.

• "fitiaiii — TntMt de ama politic* doa aindkaloa da <U«r. dc forçar a contrai**»


da »i>ilU<ori Miillni áraarmirtii. por pane da cmpftu, ou uma atdaa dc dfaaiauItSo no
rifam dc uabalho. «mm a CioalKlade alegada de diminuir o tkacmptlgo.
EMPREGADOS E EMPUCADOtlS H|

TEMAS PARA DISCUSSÃO

1. Descreva a estrutura da organização trabalhista nos Estados Unidoc


Descreva as três etapas que compõem o movimento sindical. Quais 01
maiores sindicatos de sua ckladc?
2. Do ponto de vista histórico, os sindicatos norte-americanos seguiram
os princípios associados a Samuel Gompers. Quais são êsses princípios?
De que maneira foram élcs modificados a partir dc 1933? Como
explicar o fato de o trabalhismo norte-americano não ter sido mais
ativo na política, como acontece com os socialistas europeus?
3. Dê alguns exemplos de negociação coletiva pacífica.
4. Descreva a oscilação do pêndulo na atitude das legislaturas e doi
tribunais paia com o trabalhismo-organização, antes e depois da
Lei Wagner.
5. Os policiais deveriam ter direito à greve? E os carteiros? E os leiteiros?
Qualquer pessoa?
6. "Os salários apresentam a tendência de serem rígidos no que se refere
a movimentos para baixo.” Por que isso deveria ser cada vez mais
verdadeiro?
7. Reveja sua compreensüo dos seguintes conceitos:
sindicato nacional e sindicato local
federação AFL-CIO
negociação coletiva
emprêsas versus sindicalismo revolucionário
sindicatos profissionais versus sindicatos industriais
greve, lockout, paralisação de trabalho
Leis Wagner e Taft-Hartley
fea thcrbcdding
pressão dos salários sóbre os preços

APÊNDICE: SINDICALISMO NO BRASIL

ANGflO JOJtGf DC SOUSA

As lutas o problemas surgidos nos A criação do Ministério do Trc bolho,


Estados Unidos com a implantação e em 1930, época em que a indústria
desenvolvímento do sistema sindical fo­ ocupava menos de 6% da popUoçõo
ram evitados, no Brasil, pela implantação ativa, ccraeguw, sem maiores Mo*, re­
de um sHtema avançado de legisloção gulamentar as relações entre emprega­
trabalhista, bem antes de o ritmo de In­ dos e empregadores, e, através da
dustrialização alcançar o nível existente Consolidação das Leis do Trobofio, de
naquele país. 1943, estas relações foram «tacto*
1% 1N IHODI ÇÃO \ ANÁLISE ECONÔMICA

mente especificadas. Regulou-se a du­ A Junta de Conciliação e Julgamento


ração normal do trabalho, estabeleceu- e, em instância superior, os Tribunais Re­
se um salário mínimo (tabela 1) "capaz gionais e o Tribunal Superior do Tra­
de satisfazer as necessidades normais de balho, têm o fim de resolver os dissídios
alimentação, habitação, vestuário, hi­ entre empregados e empregadores. Em
giene e transporte do trabalhador". Foi 1961 foram solucionados pelo T.S.T. 82
dada garantia de férias anuais e re­ dissídios coletivos; em 1962, 76 e em
pouso semanal remunerado. Fixou nor­ 1963, 123.
mas de segurança e higiene do traba­ Os contratos individuais e coletivos
lho, exigindo adicionais de remuneração de trabalho foram também fixados,
por trabalho em condições de risco e in- dando-se aos sindicatos a prerrogativa
salubridade. Regulamentou a prestação dos contratos coletivos. Mais recente­
de serviços por mulheres e menores, proi­ mente foi regulamentado o direito de
bindo o emprêgo do menor de 14 anos. greve.

TABELA 1

RIO DE JANEIRO — GB, SALÁRIO MlNlMO, 1940/1965

Em Têrmos Rtals • Nominais

Salário VariaçAo Anual


Salário Curto da índice do
Vida—índice Mínimo Real Salário
Anos Mínimo (A Preço»
Crf 1940 - 100 de 1940) Mínimo Real %

240 100 240 100


1940 (VII) 90 10.0
1941 111 216
1942
•I 123 195 M 9.7
380 136 279 116 43.1
1943 (XII) 103 11.1
1944 153 248
1945 179 212 38 14.5
208 183 76 13.7
1946 18,0
1947 254 150 63
203 144 60 4.0
1948 139 58 4.1
1949 274 33 8.6
1950 299 127
113 47 11,0
1951 335 198.2
1 200 356* 337 140
1952 (I) 09 267 111 • 20.8
ÍOSI 450 6(.3
2 400 5S0* 436 182
1954 (VII) 91 353 147 ■ 19.0
1955 679 29.2
834* 456 190
1956 (VIII) 3 800 166 • 12.7
954 398
1957 347 145 • 12.8
1951 1 094 40.1
6000 1 234* 486 203
195¾ (I) 456 190 6.2
1960 (X) Ç 600 2 106* ■

13 440 2 912* 462 193 U


1961 (X) •I 338 141 • 26.9
1962 2 082 24.8
21000 4 982 422 176
1963 (D 402 168 • 4.6
1964 (II) 42 000 10 437*
19 860* 33 2 138 • 17.9
1965 (III) 66 000

• índice Mensal.

A ORGANIZAÇÃO SINDICAL caso queira, a lei lhe assegura tal dinlto


e o empregador não pode impedir.
De acôrdo com a lei, os sindicatos são O sindicato é oficialmente reconhe­
organizados segundo categorias profis­ cido pelo Ministério do Trabalho como
sionais. A sindicalização 6 da livre esco­ órgão de representação da catego­
lha do empregado. He não é obrigado ria profissional. Em cada distrito ou mu-
a associar-se a sindicatos. No entanto. nicípio, apenas um sindicato de cada