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MANUEL BANDEIRA Seleta de Prosa Stimpressio Organizagao de Jiilio Castafion Guimaraes 532 wanuat maNDBIRA: SELETA DE MOEA Vontade de mudar as cores do vestido (autiverde) tio feias De minha patria, de minha pétsiz sem sapatos E sem melas, patria minha ‘Tio pobrinhal Nio te direi o nome, pétria minha, ‘Teu nome é patria amada, é patriazinha, ‘Ni ima com mae genti: Vives em mim como uma filha, que és ‘Unnaitha de teenuta; a Tha Brasil, tlvez. Agora chamarei a cotovia E pedirei que pecs ao rouxinol do dia ‘Que pega 20 sabié Pata levarte presto este avigrama: “Pétria minha, saudades de quem te ama. 7 Vinicius de Morais” Haveria muitos outros poetas em que respigar notas de humour. + Todavia os que ai vio tepresentam de maneiza mais original a atiude irOnica na moderna poesia brasileira, A versificagio em lingua portuguesa ( verso e seus apoios ritmicos. — O verso é a unidade ritmica do discurso poético, Para salientar o ritmo se tém valido os poctas, nos visios idiomas, de recursos fotmais como sejam 0s acentos de intentidade, 05 wales de slabas (quantidade), a8 rimar, a abterajdo, 0 encadeamento, 0 Paraleiimo,o srt, © mimere fede slabas. Estadazemos aqui os que tém sido utilizados em nosso idioma, a comesat pela rima. Artima. — Rinaé igualdade ou semelhanga de sons na termina- lo das palavras: axa, casa; aia cada, Na rima asa, cata hi patidade com- pleta de sons a partir da vogal wnica; na tima ata, cada a paridade & s6 as vogas: as timas do primeico tipo se chamam conanter, as do segun 0 soantes, Ne lingua francesa costumavam os poctas rimar também a con- soante anterior & vogal tnica: é a chamada rima com contoante de ooia, “Heuve um poets braileizo que empregou intencionalmente esse tipo de sina — Goulart de Andrade, Sen exemplo nio foi seguido. -Admite-se entre as timas consoantes a de vogal aberta com vogal fectada: bela arrela. Tanto poetas brasileiros como portugueses simam como consoantes duas palavras que tém na alaba tonica um ditongo, ‘our uma vogal fechada ou aberta: baja, deseo: bei’, Teo (Florbela Es- parca). Poetas brasleios tm praticado tal rima com palavras agudas: 20s hg (Alberto de Oliveira, Poesias, 1* série, Garaiet, 1912, pig, 209). Poetas portugueses simam os ditongos nasais dee am oie, alguns (Ant’> rio Nobie, “Males de Anto”, 54. Artur Azevedo simou, para eftto jocoso, a palavra lénpade com 4 palavea axtampa, completando a tima.com a palavra atona da, que co- mega o verso seguinte, pata cuja-medida concorte: Mandou-me o seahor vigitio Que the compeasse ume limpada Para alumiar a astampa Da senhora do Rosisio. su Manuel Bandeira utilizou-se desse tipo de sima em “Valgivaga” € “A cangio das ligrimas de Pierrot”, Carnaval Poetas brasleitos contem- porineos (Geir Campos, Cassiano Ricardo e-outros), sem duivida por influéncia de Louis Aragon, que foi o primeiro a usi-lo na poesia fran sa, t8m-no introduzido nos seus poemas, mas fazendo a ou as vogais 4tonas pertencer ao verso da tima e nio 20 seguinte: .seu eampaniio de idea ladilho, entre 0 azul do are 0 chio que palmilho (CO sino”, Arpuiptlage, Geie Campos) Pode a sima ser feita entre a palavea final de um verso e 2 palavra onde cai a primeite pausa do verso seguinte. Ha rims interior, que foi muito praticada pelos romanticos em quadras de versos decasslabos: Dorme, que eu velo, sedutora imagem, Grata midge que no ermo vis Dorie — Impossivel — que encontrei na sidal Dorme, gaerida, que eu sifo volto aquil (CA judia”, de Tomas Ribeiro) Hi outros exemplos esporidicos de rma interior assim, da pala- ‘yea final de um verso com palavra anterior do mesmo verso: “Maravilha 4e milbares de brilhos vidrilhos” (“Notumno de Belo Horizonte”, de Mésio de Andrade); “Unico e certo ¢ apenas 0 deserto / Que & Erato do montlogo albsoluto” (“O tio da divida”, O arranba-tu de vidra, de Cassiano Ricardo), Sao chamadas pobres, ¢ devem set evitadas, as rimas de palavras da mesma categoria gramatical: advérbio com advérbio, adjetivo com adjetivo, substantivo com substantivo, etc, sobretudo nas formas de- ‘masiado abundantes, como os advérbios em mente, os advésbios em anle ‘ou ents, os substantivos em ia ou ezs, 08 verbos no infinitive, no partic pio passado, nos pretértos imperfeitos e perfeitos, ete. Todavia, podem tis cimas admitirse quando de palavras que emprestam forga de ex- ppressio a0 contexto, como se dé nas duas primeiras oitavas de Os lusiadar. [Nio procede, pois, a crtica de Antdnio Feliciano de Castilho classifican- do de “imperdodveis desares” as simas assnalados, namgados,esnpades, cdjciram, sublimaram, glorosas,vdesas, valores, ilatando, devarando,kbertan- do daquelas magisteaisestrofes. Também slo de usar com grande cautela as rimas chamadas ricas ou raras, 0 oposto das timas pobres ou trvias, € que soam as vezes tio afetadamente, Os versos que niio rimatm sio chamados brances ou soles os que estio fora da medida, guebrades. A rsfcaie tm lingua portuguese 538 Hi quateo modoé principais de dispor as rimas: emparlbadas, ne ‘das enlgadas misturada. Rimas emparlbadassio as que se sucedem duas 4 duas, como no “Minuete” de Goncalves Crespo: Espagéso € o salio: jarras a cada canto” Admira-se 0 lavor do teto de pau-santo, CCadeicas de espaldar com falvas pregatias; ‘Um enorme soft larges taperares Rimas ongada sio as que, em ver de se sucedetem em parelhas, se alternam, Numa quadra, por exemplo, 0 primeito verso tima com o terccizo, € 0 segundo com 0 quarto: Na rua, a diteita, porque és a minha dama, ‘A minha masa ¢ 0 meu pendio. Mas A minha esquecda na cara, Do lado do meu coragio. (Herildica”, de Onestado de Pennafort) Nas. rimasenlagada,rimam em parelha dois versos entre dois ou- ‘os também simados: ‘Vai-se a primeica pomba despertads, Vai-se outra mais. Mais otra... E enfim dezenas De pombas vio-se dos pombais apenas Raia, sanguinea ¢ fresea, a madrugide (CAs pombas”, de Raimundo Corzes) ‘Rimes misturadas sito aquelas em que a sucessio é livre, como nes- tes versos de “Alma em flor” de Alberto de Oliveia: Foi... nemlembro bem que idade eu tinha, + Se quinze anos ou mais; Cecio que £6 quinze anos... Foi al fora | Numa fazenda antign, Com o seu engenho e as alas De nistices senzalas, Seti extenso terreieo, Seu campo verde ¢ verdes canavisis: Em. Também o més esquece agora A infiel meméria minal Maio.. unho.. nfo si te julho digs, «Jello ot agosto. Sei que havia 0 cheiro Do sassaftis em flo; _A nota das rimas se faz com letras minésculas,sendo 0s versos ‘que rimam representados pela mesma letra. Assim, o esquema de duas 596 MANUEL BANDEIRA: SELETA DE FROSA timas emparelhadas é aa; de uma quadra com rimas cruzadas, abab; de coutra com rimas enlacadas, adda; dos versos de Alberto de Oliveia citay dos tris, abederadf. A aliteraglo. — No seu sentido global, consiste a aliterasio em repetic um fonemé em palaveas seguidas, proximas, ou distantes mas smetricamente dispostas, Em sentido restito, 6 na poesia, a identidade da conscanteinical, ou da siaba inicial, de duas ou mais palavras num verso, Neste sentido definiu-a Pedto Hentiquez-Uresa como “ima 20 contricio — rima dos comeros das palavras, em que basta a igualdade dos sonidos inicais ou, em certas ocasides, 0 regulado contraste entre cles”, A aliteragio tem quase sempre efeito de harmonia imitat E, as curvas harpas de ouro acompanhando, ‘Tibios fltinsfntsimosgritavarn; ° Créials clros de metal cantasam, (CA tentagio de Kenéerates”, de Olavo Biae) (© mais longo exemplo de aliteraco em lingua portuguesa € 0 de Gruz ¢ Souza em “Violdes que choram..”” (Fan): Vozes veladas, veludosas vozes, ‘Volipias dor violbes, vozes veladas, ‘Vagam nos velhos vortices velozes Dos ventss, vivas, vis, vuleanizadas. A.aliteragio da vogal ténica tem o nome de ear t aliteragio de Bilac citada atris, € um bom exemplo de eco das vogais tnicas ie a. © encadeamento.— Consiste’o ancadeamento em repetic de ver- so a verso fonemas, palaves, frases att um verso inteio, Foi recurso ‘itmico muitissimo usado na poesia medieval e € freqiente na poesia ‘moderna em versos lives. Bxemplos colhidos em Augusto Fredetico Schmid No entunto este motivo escondido existe Nao yeio, esta tristeza, da saudade da que é sempre a i ‘Angente Nem da sua graga desaparecida.. (mpi de fmema) evi em mortos que morreram entre indiferentes. Pei nas velhas mulheres... (eet de pala) Oho 0 cfu € enfin descanso, Otho 0 ces © as etree fas, A verifapio em lingua partagueca Otho 0 ctu a enorme descans Oto 0 cs fi «inp (ti de fra) No principio foi um baltigg cobtinin e wagatosa Depols fl decd wma sombre adie, Um grande lato surge lengis brancos como ecpuma. No principio foi wn balango continuo e vagatoso. Depois tudo casou. (patio de sr) Os dois primeitos exemplos sio do poema “Tristeza desconhe- ida”; 0 terceiro, do poema “Descanso”;'0 quarto, do poema “Génese T° Casto da nit). O paralelismo, — Paradiso & repeticio de ideas, sinonimia de vocibulos. Cantiga de amigo de-Pero Goncalves de Porto Catzeio, tro- vvador portugués do tempo de Afonso IIT. O nel do meu amigo Perdi-o so lo verde piaho E chorea, bell © anel do meu amado Perdi-o so lo verde ramo E chorea, bela! Perdi-o s0 lo verde pinho; Por en chor'eu, dona virgo, E chor'eu, bela! Perdi-o so lo verde samo; Por en chor'eu dons d’algo, E chor'ey, belal Nessa cantiga hi, de estrofe a estrofe, repetisio de idéa,sinonimia de vocébulos (amiga, amado;pinby, ramos dona vgs, dona dale). A pat desse paralelismo, ocotre também 9 encadeamento pela repetigio dos verxos “Perdi-o so lo verde pinho” ¢ “Perdi-o s0 lo verde ramo,” tazio por que receberam as cantigas medievais desse tipo'o nome de panaleiticas encadeades, actéstico. — No aeréstia as leteas iniciais dos versos formam jum nomie de pessoa ou coisa: reside na escrita e niio é percebido pelo owvido, Exemplo: Masia, tens no teu vulto A grasa da ave eda flor. 538 wasuet BANDEIRA: SELETA DE PROSA Rendo-te mais do que amor Jmenso: rendo-te calto. Ab! come 4 mie do Senor. O niimero fixo de silabas. — A contagem ias sfgbss no verso (omer) difeze da contagem gramaticl: 0 poeta pode elidis/uma vogal na ‘opal seguinte dentro de uma palavra, ou da slaba final de uma palaves para a silaba inicial da palavra seguinte. A primeira figura se chama sinérese, 2 segunda, sialfa. Assim, em “piedade” as slabas gramaticais sio qua tro; mas 0 metsificador, elidindo a vogal i na vogal ¢ pode reduzie as silabas da palavea a ees: idee, No membro de frase “entre extss” conta o gramitico quatro silabas; poeta, porém, elide o « final de “entre” no einicial de “estas” e conta s6 ts sabas, A elisto pode atingit mais de duas vogais, como na fase “quero a esrela",cuja alabas métr- cas slo quatro: gue-raerinela, Umas vogais sfo mais duras de eidis que outras: as elisdes violentas como a-teg-rs (até agora), a-teu (até eu) comunicam ao verso certaforgaeseultural, a0 passo que os hiatos, isto &, 4 nio elisio das vogais,Ihes confere certa suavidade musical melédica, A escolha da elsio ou do hiato depend da nanureza do verso ¢ do gosto do poeta. Nio se admitem, porém, as sinalefas de duas vogais ftonas, 0 que tomari o verso demasiado frouxo: no pocma péstumo de Gonsalves Dias intitalado “No jardim” 0 verso “De Inglaterra a rine €um episinbo frou, porque obin ao histo do 008 Se. ikima palavea do verso for pacoxitona, rae se chama ele; oxtons, agud; se proparoxitona, ednixala. Contam-se as labas méticas até a Gltima vogal ténica do verso, Damos abaixo quatro versos de ‘Arta Azevedo, grafando em itilico as slabas contadas Consiememacgera wltsicos Versonfacrnacte eto: Tulvinte eviowageito, Tudearsade ewarsin, Tal sistema de contagem, também usado no idioma francés, foi introduzido em nossa lingua por Anténio Feliciano de Castlho no seu ‘Tratado de mebifcatao portuguese, Antes dele, contavam-se todas as slabas do verso grave, nfo se contava a dtima do verso esdrisrul, e conside- rava-se incompleto 0 verso agudo, pelo que contava como duas a ilt- ‘ma sflaba méttica, Destarte, os versos de Artur Azevedo citados acima so chamados beptasilabr (de sete slabas) segundo o sistema de Castilho, hoje prevalecente, eortoslabar (de oitoslabas) segundo o sistema antigo, que ainda prevalece na lingva espankola, e que em nosso idioma preten- deu restaurar o professor M, Said Ali. Adviria'se que se trata de mera questio de nome, que mifo afeta 2 estrutura'do verso. AA sersypeapae ene sengna portuguesa 137 CChama-se cesuna a pausa intencional praticada no interior do ver- so. As duas partes, nem sempre iguais, em que fica 0 verso dividido pela cesura se dé 0 nome de bemistguas. A cesura funciona como apoio sitmi- cons estrutura do verso longo, Exemplos em decassflabo, hendecasslabo € dodecassilabo: 5 Sete’anos dé pastor| Jac séevia (Cambes) “Tange o sino, an|ge numa voz de choro (Vicente &e Carvalho) ‘As mios da minha Mie | sobre a minha cabega (Olegitio Masiano) ‘A pausa final do verso pode recait em palavra que deixa incom pleto o sentido da frase, 0 qual se vai completar na primeira ou primei- 125 palavras do verso seguinte, Pata a primeira sabi tOnica deste & entio twansferida a pausa, € a esse efeito rftmico se dé em francés 0 nome exjumbemers, pasa teadugio do qual propés Said Ali 0 voctbulo caiele- ‘mente, Na estrofe 60 do Canto V de Os lastadas ocorrem trés belos exem- pos de eyiambemeit Desfezse p nuvem negra € chim sonore Bramide myjto longe 0 mar soo, Eau, levantindo as mios 20 santo, ore Dos Argos, ue tio longe nos guiou, ‘A Deus pai que removesse os dares (Carns que Adamastor contou fatuzos. A notiienclatura dos versos regulates, como foram praticados ‘em nossa lingua até o advento da poesia modemista, se fax. mediante prefixos gregos, designativos dos numerais de 1 até 12: morerfabo, dislabo,sisslaes,trasllabos (também se diz quadrisslabes), pntasilabos (edondilea nen), ecaclabo (edondilba menor ox bert quebrads),hyptcsilabo (redohdilba maior ow simplesmente redandilha), octostlab, eneastlabo € dodecaslabo (alexandrine). Foram razos os exemplos de metros mais lon- ‘g0s Bilac eScreven em vers0s de 14 silabas o seu soneto “Cantilens”). (Os metros de uma, duss ou trés slabas no comportam senio uma pause. Misio de Andrade usou com freqjiéncia o primeiro no poe- ma “Dancas”: quebra queima danga sangue gosma.. Exemplo notivel de dissilabos é 0 poema “A valsa” de Casimiro de Abreu: 540 wANUEL BANDEIRA: SELETA DE PROS ‘Te, ontem, Na danga,, Que cansi, Voevas.. Na sitira de Gongalves Dias “A certa autoridade” (Obras péstie sai) os tkimos dezenove versos sio tisslabos: Realmente, Coronel, Tens uma alma Bem cruel. ‘Os metros de quatro silabas podem levar pausa interior na pri- meira (‘Marcham-se as flotes), na segunda (“Enido brincando”) ou na terceira (‘Salome vinha”). A tedondilha menor (cinco silabas) pode levar pausa interior em qualquer das quatro primeires sflbas: ‘Tripida bata A gita no video Escorrendo logo, E sem caiy, tremula Pode aii levar mais de uma pausa intesior “Nios, nem wera”), (© mesmo se passa com os hexasslabos e os heptassilabos. Estes, sedondithas msiores, sio 0 metro'da preferéncia popular. Exemplos de uns e de outros: : Sumiv-se o sol espléndido ‘Nas vagas rumorosus. (6 slabas) ‘Até nas flores se encontsa A diferenga da sore: ‘Umas enfitam a vide, ‘Outtas enfeitam a morte, (fedondilhas) (Os octossilabos foram raros antes de Castilho, Bate escreveu: “O metzo de oito silabas, pode-se dizer que ainda nio é usado em porta. sgués.” Acrescentando: “..quando mals e melhor eultivado, a julgarmo- lo.pelos seus elementos, © pelo que os franceses dele tém chegado a fazer, pode vi ainda a set muito apreciado”. O vaticinio realizou-se. Os octas patnasianos serviram-se dele com freqinca, nunca deixando, porém, de fazer cesura na quatta slaba Por que me vens com o mesmo tio, Por que me vens com a mesma voz A verify te wt lnges portagaera 5468 Lembrar aquele paraiso. (Reguieseat”, de Bilac) No entanto jd Castlho segistrava outras pausas: na segunda slaba (Morne ¢ sem ao meu encanto”); na terceira e na sexta ("Terno amor «pe me faz feliz"); Machado de Assis empregou-as todas em “Mosca az”, “Flot da mocidade” e outros poemas. Dos metros de nove silabas mais usual € o que leva pausa na terceira.¢ na sexta slaba, como 0 praticou o nosso Gongalves Dias na soberba maldicio do velho tupi de “I-Juca-Pirama”: * ‘Ta chonate em preienga da morte? Na presenca de esiranhos choraste? Nio deseende 0 cobanie do forte: Pois chorate, meu fo nit és! “Quilquer outra composicio deturparia esta medida”, lecionou astilho, Nao se pode dizer tal do eneassilabo acentuado na quarta sila- bb, tio magistralmente empregado no poema “Pleniiaio” de Raimundo Correia: Além nos ares, tremilamente, Que visio branca das nuvens sai? Laz entre as francas, fra e silente; Assim nos ares, tremulamente, Ballo acto, subindo vai. ‘Temos que se podem construir eneasslabos com pausa na segun- dena quinta sfabas (“Nao sei nem predso saber nada”) ou somente na ‘quinta. (“Nao imagine coisa nenhuma”): tudo depende da habilidade ¢ Bosto do poeta. (© metro de dez silabas, chamado vero bentico porque foi preferi- do para os poemas épicos, ou ainda itaHano, porque da Itilia 0 trouxe Sé de Miranda para Portugal, leva ordinariamente pausa na sexta silaba (“Vaie sea primeira pomba despertada”), ou entio na quasta e na oitava (“Ora (Git) ouvir estas! Certo”). Todavia, aparece aqui e ali na poesia itlia- tna, misturado aos versos desse tipo, outro com pausa na quatta © na séima slaba (“Ma se conascer la prima radice”, Dante), Tal verso ji era conihecido na peninsula ibética sob o nome de gata gala. Encontramo- Jo de vez em quando em Camées: “Posto que fados Eopes exam; Doce seporso de minha lembranea”. "Também em Anténio Ferreira ¢ Sé de ‘Mranda. Outra vatiedade de decassilabo é o que traz pausa na segunda ena sétima sflabas (“A rea, preciptada bigorna”). Condenow-a Castlho - e salvez por isso nfo tenha sido usada pelos nossos rominticos, parnasianos e simbolistas, Hoje si0 muito encontradigos em nossa poe- J42 MANUEL BANDBIRA: SELETA DE PROSA sia esses e outros decassilabos cosrentes na poesia francesa, como 08 que Jevam pausa na quinta ena oitava slabas, ou ainda na quinta € na sétima: © sonho passou. Traz magoado o tim, ‘Magoada a cabega exposta a umidade. (‘Rondé de colombina”, de Manuel Bandera) (© mexo de onze silabas, chamado de arts maior, is vezes leva ppausa na segunda, na quinta ena oitava slabas ¢ entio pode oferccer um ritmo enérgico, pelo que foi prefetido por Goncalves Dias em alguns de seus poemas indianistas de feigio épica: Sto nidos, sesros, coberos de gloria, Jé frios inca, i camtam vitéria, (*TJuca Pisama”) ‘As vezes pode levar pasa apenas na quinta silaba e entio o eftito 6 20 contritio, de extrema dogura: All hi quantos anos que eu parti chorando Deste mea saudiso, catinhoso lat © nome alexandrine dado 20 metro de doze slabas detivi do ‘Roman d’Alevandre le Grand, comecado no séeilo XII por Lambert icors « terminado no século seguinte por Alexandre de Bernay. S6 penetrou ‘em nossa lingua pelos meados do século XIX. Castro Alves usou:o em seus poemas “Poesia e mendicidade”, “A Boa Vista”, “Pelas sombras”, “O tonel das danaides”, “Immenss orbibus angus”, “Deusa incraenta” © “No monte”. ‘Usou-o pérém, como 0 praticam os poetas de Lingua cespanhola, isto’& como composto de dois versos de seis sllabas, mas sem atender A exigencia de no terminar o primeiro hemistiquic em palavea esdrisxula e quando terminar em palavra grave, comecat 0 se- ‘guado hemistiquio por vogal (“Era uma tarde triste, mas limpida e sere- ‘n2”). Os nossos-pamnasianis obedeceram estritamente& lilo dos cliss- cos franceses na mancira de cesurar 0 alexandrino, Todavia, clisscos © penasianos nem sempre'faziam coincidir a pausa do sentido com a pausa do hemistiquio, Bilac e Guimaraens Passos, no seu Tratado de serifeasa, exémplificam conto certo o verso “Davarhe a custo a som- bra escassa e pequenina” porque a vogal final do primeiro hemistiquio (0.ade sombra) se elide na vogal einicial do segundo hemistquio; ¢ como exrado 0 verso “Dava-the a custo a sombre fraca e pequenina”, por nfo haver liso, No entanto @ maneira natutal de ler ambos os versos fazendo duas pausas interiores, a primeira em ust, a segunda em esasta ¢ race, Bsse stmo ternisio, sem atenglo 4 cesura mediana, ¢ outros, como 0 quatemnério (+343) ¢ of de corte irregular sio corcentes na moderna poesia da lingua portuguesa. Exemplos de Ribeiro Couto: A rrifcapio em Segue poregese (O olhar nevoento...0 pasto lento... onolento.. E em meio quele desalinho pitoresco... Pelos caminhos levando folhas de cores. ‘As -catcias delicadissimas da esséqcia, Neles no hi a elisio mediana, mas 0 ritmo &0 mesmo que resul- ‘ada leitura natural dos versos seguintes de Francisca Jlla, onde existe a dlisio: Sto esqueletos que de bragos levantados.. E senta-se. Compée as roupas, Olha em totno.. © Natureza, 6 Mie pérfidal ta, que ctas. ‘Tanto aborto, que se transforma e se renova... Di-se o nome de versifcasio palimérca aquela em que se mist stam dois ou mais metros. A mistura de decassflabos com hexasslabos se i'n denominacio de site. A.estrofagio. — O discurso poético ora se apresenta em forma cortida, oa distrbuido em grupos de versos, que se denominam estrafs, «éncias, cobra 01. tebo (poesia teovadoresca) e ple (cangbes populates), ‘Composicées hi em que um certo nimero de versos sio repetidos depois de cada estrofe: 0 reps, retin ot ebb, As estrofes podem ser simples isto 6, formadas de versos da mes- ma medida; compasia, onde certos versos maiores se compéem com ‘outros menores; ¢ irs, onde se admitem versos de qualquer medida. [Nas estrofes compostas 0 verso maiot & normativo,¢ 0 seu nt mero de silabas impée 0 do verso menor. Assim, ao heptassilabo se associa 0 de tx86 08 quatzo slabas; a0 decassiabo, 0 hexassabo; 20 hendecassilabo, o pentasslabo; 20 alexandrino, 08 de cto ses ou quatro sabes Segundo as estrofes se compdem de dois, tts, quatro, cinco, seis, oito ou dez versos, recebem respectivamente as denominagées de dso, seratos ow srtcas, quadras 0% quarts qaintlbas setilhas,eitanas dba, As estrofes de sett e nove versos niio tém nome especial. © poema de uum 36 verso se denomina monéctic, dtstce & mito empregado pelo povo nos seus adégios (“Agua ‘mole em pedra dura / Tanto bate até que fara”), Exemplos famosos ‘io os de Guerra Junqueito em “A ligrima” ¢ o de Castro Alves em “O tone! das danaides”. O esquema das rimas & aa, by « ete. ‘No poema em ieras 0 esquema € aha, be, cds; ded, € assim por dlante, sendo ad Hbitum 0 niimero deles, mas a iima estrofe deve ser uma quadsa, Se, por exemplo oitimo terceto houver sido ded, a quadsa obedecert ao esquema yi Tal € 0 tipo cléssicd de tercetos, que era ss 5¢4 yun BANDEIRA SBLETA De PRO ‘muito empregado para as elegias, eplstolas ¢ éclogas. Os tereetos dos sonetos apresentam diversas disposigdes de timas: aba, bab; aab, ec; abe, abs; e outeas. i" [Nas quadhasas tithes se dispOem das seguintes maneiras: abc abab, abba. Os versos podem ter todos a mesma medida, ou os impazes uma 08 pates outra, ou ginda os teés primeiros uma ¢ 0 quarto outra. Exem- plo do primero tipo, a quadra popular. Do segundo: Debrugada nas éguas de um regato ‘A flor dizia em vio A corrente, onde bela se mirava... “Ai, nio me deixes, alo!” (Nio me deixes, de G. Diss) Exemplo do terceiro tipo: No ar sossegado um sino caata, ‘Um sino canta no ax sombrio, Palide, Venus se levant.. Que fio! A guintiba clissica, como foi praticada por Si de Miranda, obe- deve a um dos dois esquemas abaab e abbale (Os santos de longus texas Sempre foram mais buscados, (Os da nossa estio cansados Busquemos santos das seas Que estio mais desocupados. Escrever com louvaminhas, io é minha profissio; : irae unhas 20 leio Para pas nas glinhas, Outros 0 fara, que ex no, Outros esquemas: abeba, abbaa, aabab. B.ainda, deixando 0 pei- meio verso solto: aie ou abc. A swaiba antiga era de uma s6 tima nos segundo, quarto ¢ sexto ‘versos (abchdl). Assim compés Gongalves Dias as suas Sextilhas de frei Antio, A sextlha moderna usa outros ésqueinas, com dus rimas (ahaa, abbacs