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APOSTILA DE ÉTICA CRISTÃ

A IETEV
ELABORAÇÃO: PROFESSORES DA

REVISÃO TEOLÓGICA: BELº. CARLOS ANTÔNIO SANTOS DE NOVAIS (PÓS-GRADUANDO EM PSICOLOGIA PASTORAL)

EDITORAÇÃO: BELº. PR. CARLOS ANTÔNIO SANTOS DE NOVAIS


DIAGRAMAÇÃO: BELº. PR. GILMAR DOS SANTOS SILVA E PR. CARLOS ANTÔNIO SANTOS DE NOVAIS

REVISÃO DA LÍNGUA PORTUGUESA: BELº. PR. GILMAR DOS SANTOS SILVA


DIRETOR PRESIDENTE DA IETEV
TEV: PRº. DRº. CARLOS ANTÔNIO SANTOS DE NOVAIS
O IETEV: MINISTRA OS SEGUINTES CURSOS TEOLÓGICOS:

 BÁSICO EM TEOLOGIA
 MÉDIO EM TEOLOGIA
 BACHARELADO EM TEOLOGIA
 CURSO PARA LÍDERES DE IGREJAS
 ESPECIALIZAÇÃO
CIALIZAÇÃO EM LÍNGUA
LÍNGUAS BÍBLICAS
 CURSO DE HEBRAICO BÍB
BÍBLICO
 CURSO DE CAPACITAÇÃO MINISTERIAL
 CAPELANIA HOSPITALAR
 CURSO DE CAPACITAÇÃO PARA PROFESSORES DE ESCOLA DOMINICAL
 CURSO DE ESTUDOS JUDAICOS - MESSIÂNICOS
 CURSO DE MISSÕES URBANAS – EVANGELISMO DINÂMICO
 CURSO DE PSICANÁLISE CLÍNICA
 CURSO DE TEOTERAPIA NÃO CLÍNICA
 PÓS-GRADUAÇÃO EM ACONSELHAMENTO CRISTÃO
 PÓS-GRADUAÇÃO EM TEOLOGIA HISTÓRICA
 MESTRADO – CONCENTRAÇÃO EM TEOLOGIA BÍBLICA
 MESTRADO – CONCENTRAÇÃO SISTEMÁTICA PASTORAL
 LIDERANÇA E DISCIPULADO
 LICENCIATURA PLENA EM CIÊNCIAS DA RELIGIÃO
 DOUTORADO EM FILOSOFIA CRISTÃ – PH. D
 DOUTORADO EM ESTUDOS ECLESIÁSTICOS – D.E.E
 DOUTORADO EM BÍBLIA – D.B

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“P REPARANDO OS SANTOS PARA O EXERCÍCIO DO MINISTÉRIO ”


APOSTILA DE ÉTICA CRISTÃ

VISÃO TEOLÓGICA

O curso em geral visa uma preparação para o exercício


da função de Teólogo, e lembre que quando falamos em
“teólogo” estamos usando esse título de forma genérica, a
saber, tanto para homens como para mulheres. Da mesma
forma a palavra: “função” deve expressar um conteúdo mais
profundo do que apenas um ministério ou pastorado.
pastor

O (a) estudante deverá adquirir o conhecimento


instrumental (ferramentas) que lhe proporcionarão uma
capacitação de trabalho eficaz como Teólogo.

Procuramos como corpo docente dar uma dedicação pessoal a cada um de nossos (as) alunos (as),
tantoo no início do estudo, quando as dificuldades pessoais do confronto com o estudo teológico são
maiores, como mais tarde, quando desenvolve o confronto com a prática.

Sabemos que a Revelação veio até nós por intermédio do testemunho humano registrado nas
Sagradas Escrituras. O surgimento de tais escritos dista milênios de nossos dias.

Sua compreensão exige conhecimentos históricos, lingüísticos e literários, sem os qu


quais não haverá
verdadeira atualização, mas apenas repetição de termos e frases que nada mais dizem ao homem de
hoje. A aquisição de conhecimentos e métodos, requer uma dedicação intensiva e requer tempo em face da
vastidão do campo informativo a ser abrangido.
abrang

Deve ficar esclarecido desde o início que o (a) aluno (a) aprenderá a fazer uma clara distinção entre
“a verdade da fé” e “a verdade da história”, pois a verdade da fé, que pertence à dimensão existencial da
vida, será chamada de certeza se nós a ccomparamos
omparamos com o grau de “verdade histórica” envolvida. Se elas
são separadas, são também complementares, uma verdade não pode ser desvinculada da outra.

Tendo estes fatos em mente, podemos compreender com clareza porque uma fé errada pode destruir
o sentido
ido natural da existência, enquanto que o julgamento da história, mesmo que esteja errado, não pode
colocar em risco a existência.

Por essa razão, os primeiros estudos de teologia são para aprender a fazer um julgamento criterioso,
científico, honesto e descomprometido que levará a conciliar de maneira clara e compreensível a verdade
da fé, sem detrimento da verdade da história.

Cabe destacar ainda que, quando falamos em “verdade da fé”, não estamos incluindo nessa frase
qualquer sistema de doutrina,, pois
pois a teologia faz justamente essa separação entre doutrina e fé, entre o
que é essencial e o que é periférico. Razão pela qual a teologia pode ser inter-denominacional,
inter ou seja,
não interferir na doutrina da denominação religiosa.

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ANTES DE COMEÇAR A ESTUDAR ESTA APOSTILA
ILA

ÀS VEZES ESTUDAMOS MUITO


MU NADA DO ASSUNTO ESTUDADO.
E APRENDEMOS OU RETEMOS POUCO OU NAD
ISTO EM PARTE ACONTECE ARMOS SEM UMA ORDEM OU MÉTODOS DEFINIDOS DE ESTUDO.
ACONTEC PELO FATO DE ESTUDARMOS
EMBORA SUCINTA, A ORIENTAÇÃO QUE ORA LHES PASSAMOS A EXPOR ABAIXO, SER-LHE-Á EM MUITO ÚTIL.
SIGA AS SEGUINTES ORIENTAÇÕES:

1. BUSQUE A AJUDA DIVINA POR MEIO DA ORAÇÃO


ORE A DEUS, PARA QUE ELE, POR MEIO DO SEU ESPÍRITO SANTO POSSA ILUMINAR A SUA MENTE.
DAR-LHE GRAÇAS E SUPLIQUEE HUMILDEMENTE A SUA DIREÇÃO E ILUMINAÇÃO DO ALTO. DEUS PODE VITALIZAR E
CAPACITAR AS NOSSAS FACULDADES MENTAIS
ME QUANTO AO ESTUDO DE SUA SANTA E INERRANTE PALAVRA, BEM COMO,
ASSUNTOS AFINS E LEGÍTIMOS. NUNCA EXECUTE QUALQUER
QUALQUE TAREFA DE ESTUDO OU U TRABALHO, SEM ANTES ORAR AO DEUS
ALTÍSSIMO.

2. PERSEVERANÇA
NÃO DESANIME DIANTE DAS AS PRIMEIRAS DIFICULDADES
DIFICUL , CONTINUE EM FRENTE E SEJA UM VENCEDOR, POIS OS
VENCEDORES NUNCA DESISTEM; E, OS DESISTENTES
DESISTEN , NUNCA VENCEM.
3. AUTO-DISCIPLINA, SEJA ORGANIZADO AO ESTUDAR
E
TENHA CONSTÂNCIA NO ESTUDO
STUDO DIÁRIO DAS LIÇÕES
LIÇ , ARRUME SUA AGENDA SEMANAL, RESERVE TEMPO PARA O QUE VOCÊ
ACHA IMPORTANTE, E ASSIM,
A) AO PRIMEIRO CONTATO COM OM O TEXTO A SER ESTUDADO
EST , PROCURE
E OBTER UMA VISÃO GLOBAL
GL DA MESMA, ISTO É,
COMO UM TODO. NÃO FAÇA APONTAMENTOS, NÃO PROCURE REFERÊNCIAS BÍBLICAS. PROCURE, SIM, DESCOBRIR O PROPÓSITO DA
MATÉRIA EM ESTUDO, ISTO É, O QUE DESEJA ELA COMUNICAR
COM -LHE.
B) PASSE ENTÃO AO ESTUDO DE CADA LIÇÃO, OBSERVANDO, A SEQUENCIA DOS TEXTOS OS QUE A ENGLOBAM
E . AGORA SIM, Á
MEDIDA QUE FOR ESTUDANDO, FAÇA ANOTAÇÕES NO CA CADERNO DESTINADO PARA ISSO. MAS, PRESTA ATENÇÃO: SE ESTE
CADERNO FOR DESORGANIZADO, NENHUM BENEFÍCIO PRESTARÁ
PRE .
C) AO FINAL DE CADA TEXTO, PROCURE RECOMPOR, DE MEMÓRIA SUAS DIVISÕES SÕES PRINCIPAIS, CASO TENHA ALGUMA
DIFICULDADE, VOLTE AO TEXTO. O APRENDIZADO É UM PROCESSO
PRO METÓDICO E GRADUAL. NÃO É ALGO AUTOMÁTICO EM QUE SE
APERTA UM BOTÃO E A MÁQUINA TRABALHA.

4. ANOTAÇÕES
AS ANOTAÇÕES DEVEM SER R FEITAS NO PRÓPRIO MANUAL (APOSTILA) OU EM UM CADERNO Á PARTE
P , RESERVADO
ESPECIALMENTE PARA TAL INTENTO, NÃO CONFIE NA MEMÓRIA
MEMÓRI .

5. PESQUISA
AO SE DEPARAR COM UM ASSUNTO APARENTEMENTE
APARENTEMENT DIFÍCIL, NÃO PASSE POR CIMA, PESQUISE O MÁXIMO QUE PUDER
SOBRE O ASSUNTO, E SANE SUAS DÚVIDAS.

6. TENHA ESTES MATERIAIS DE AUXÍLIO SEMPRE Á MÃO


ALÉM DA MATÉRIA A SER ESTUDADA, SE POSSÍVEL, TENHA Á MÃO AS SEGUINTES CONSULTA E REFERÊNCIA.
NTES FONTES DE CONSU
► BÍBLIA. SE POSSÍVEL EM MAIS DE
D UMA VERSÃO OU TRADUÇÃO; (ARA, ARC, AVR, ACF, BLH, BJ, TEB, NVI, VFL,
BOC).
► LÉXICOS E DICIONÁRIOS BÍBLICOS E TEOLÓGICOS.
SE POSSÍVEL TAMBÉM DO TIPO HEBRAICO/PORTUGUÊS/GREGO;
► ATLAS BÍBLICA;
► CONCORDÂNCIA BÍBLICA;
► LIVROS TEOLÓGICOS, DEVOCIONAIS ETC.
► CADERNO DE APONTAMENTOS
APONTAMENT INDIVIDUAIS. HABITUE-SE A SEMPRE
RE TOMAR NOTAS DE SUAS
SU AULAS, ESTUDOS,
MO DE FRASES NA RUA QUE POSSAM TE SERVIR COMO ILUSTRAÇÃO PARA MENSAGENS.
MEDITAÇÕES E ATÉ MESMO

7. CONHEÇA MAIS DA MATÉRIA


 VERIFIQUE A BIBLIOGRAFIA NO FINAL DAS APOSTILAS;
 CONSULTE NA INTERNET
 VISITE BIBLIOTECAS EVANGÉLICAS EM INSTITUIÇÕES DE ACADÊMICAS CRISTÃS
 VISITE MUSEUS (SE HOUVER EM SUA CIDADE
CID )
 PARTICIPE SEMPRE DE ESCOLAS BÍBLICAS
 ADQUIRA BONS LIVROS TEOLÓGICOS
EOLÓGICOS

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BACHARELADO EM TEOLOGIA

ÉTICA CRISTÃ
APOSTILA COMPILADA PELO
PE PROF. CARLOS ANTÔNIO SANTOS DE NOVAIS[1]

1 - P ASTOR , T EÓLOGO , P ROFESSOR DE T EOLOGIA , F ORMAÇÃO : B ÁSICO EM T EOLOGIA – STPLM – B RASÍLIA, DF. B ACHAREL EM T EOLOGIA B ÍBLICA P ELO ITCEU – BA,
B ACHAREL EM ADMINISTRAÇÃO E CLESIÁSTICA – FATEFINA (EAD), B ACHAREL EM T EOLOGIA P ASTORAL – FETEV, P ÓS -G RADUANDO EM P SICOLOGIA E ACONSELHAMENTO C RISTÃO ,
C APACITAÇÃO M ISSIONÁRIA – AMME E VANGELIZAR – P OÇOS DE C ALDAS – MG, 2005, C URSOU OS 38 E STUDOS DO INSTITUTO B ÍBLICO B ERÉIA – RJ, T EOLOGIA EM C LÍNICA P ASTORAL –
E SCOLA DE T EOLOGIA R HEMA – E STER , INTRODUÇÃO Á M ISSÕES – E SCOLA DE T EOLOGIA R HEMA – E STER , C URSO DE ESCATOLOGIA B ÍBLICA – CPAD, C URSO DE F ORMAÇÃO E
C APACITAÇÃO DE O BREIROS – CPO – ASSEMBLÉIA D E D EUS – BA, C APACITAÇÃO P ASTORAL P ELA S EPAL, I GREJA B ATISTA P ENIEL – BA, D IRETOR DO DEPMAD – D EPARTAMENTO DE
M ISSÕES DAS ASSEMBLÉIAS DE D EUS NA B AHIA , 2006, MEMBRO DA O RDEM DE T EÓLOGOS E P ASTORES DO B RASIL E O RDEM DE P ASTORES DO B RASIL, 2010, EXPERIÊNCIA COM RÁDIO :
APRESENTADOR DO P ROGRAMA NOVAS DE ALEGRIA – R ÁDIO C LUBE DE CONQUISTA – AM, APRESENTADOR DO P ROGRAMA N OVAS D E ALEGRIA – R ÁDIO M ELODIA C ONQUISTA – 87,9 FM,
P ARTICIPA C OMO D EBATEDOR – R ÁDIO MELODIA C ONQUISTA – 87,9 FM, P ALESTRANTE NOS SEGUINTES ASSUNTOS : R ELACIONAMENTOS – N AMORO , N OIVADO , C ASAMENTO E
S EXUALIDADE Á LUZ DA B ÍBLIA , G UERRA E SPIRITUAL – “O C ORAÇÃO DO HOMEM ”, O C AMPO DE B ATALHA ONDE T UDO C OMEÇA . C ARGOS , F UNÇÕES E ATIVIDADES DESEMPENHADAS :
F UNDADOR DO D EPARTAMENTO DE M ISSÕES DAS ASSEMBLÉIAS DE D EUS – BA, P ROFESSOR DA E SCOLA B ÍBLICA D OMINICAL – ASSEMBLÉIA DE D EUS – 1997 A 2010 – BA, P ROFESSOR DO
M ÉDIO E B ACHAREL DO INSTITUTO T EOLÓGICO NO C ENTRO EVANGELÍSTICO U RBANO – ITCEU, 2005 A 2008 – BA, P ROFESSOR DA ESCOLA T EOLÓGICA E L S HADDAI – ETES, A SSEMBLÉIA
DE D EUS – 2010 – BA, P ROFESSOR DA E SCOLA T EOLÓGICA DO M INISTÉRIO DE S ANTO A MARO – ETEMISA, ASSEMBLÉIA DE D EUS – 2010 – SP

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I. CRISE DA MODERNIDADE E ESPIRITUALIDADE
Frei Betto[2]
A modernidade é um período que durou
du os últimos quatro séculos e que está em crise. Este período,
que começou na Renascença,
cença, coincide justamente com a descoberta da América e a descoberta do Brasil,
com a passagem da época medieval para a época moderna. E desconfio, como bom mineiro, que estamos es
vivendo não uma época de mudança,
dança, mas uma mudança de época. No próximo
próximo milênio teremos algo que
em nossos dias é imprecisamente chamado de pós pós-modernidade,
modernidade, mas que será bem diferente do que temos
hoje em termos de referência ou paradigmas. Na Idade Média, toda a cultura girava em torno da figura
divina. Tudo estava centrado na idéia de Deus. Na modernidade a cultura está centrada no ser humano, e
um dos símbolos
bolos que melhor expressa essa passagem é a pintura do Michelangelo no teto da Capela
Sistina,, onde Deus Pai está todo encoberto de mantos e com a barba longa, representando a idéia de Deus
que prevalecia naquela época, perante o homem desnudo que é fortemente atraído para a Terra, mas,
apesar disso, estende
de o dedo para não perder contato com o ttranscendente
cendente e com o divino. Então, a
desnudez daquele Adão na Capela Sistina traduz bem a revolução que a modernidade representa em nossa
cultura e em nossas concepções. Um dos fatores que mais caracteriza a modernidade é a exacerbação da
razão. Vivemos hoje uma crise da modernidade, porque vivemos uma crise do racionalismo. No iní início da
modernidade, principalmente na épocaépoca das luzes, entre os iluministas, a religião era considerada
superstição. Os camponeses da Idade Média regavam seus campos com água benta e agradeciam aos
padres (que, diga-se
se de passagem, cobravam pela água benta, é claro!). E agradeciam a Deus a boa
colheita. Até que apareceu um senhor oferecendo
oferecendo a eles um pozinho preto, o adubo, que também custava
dinheiro, mas não tinha que depender
depender da ira ou do agrado divino, bastava aplicar à terra e aquilo facilitava
a colheita.

Então muitos camponeses perderam a fé, na medida em que a concepção de Deus que predominava
pre
na Idade Média era de um Deus necessário. Costumamos dizer, em teologia, qque Deus não é nem
supérfluo nem necessário: rio: Deus é gratuito, como todo amor. Um outro episódio que caracteriza a
modernidade foi quando mister Halley, em base a cálculos matemáticos, sem dispor dos aparelhos que
conhecemos hoje, previu que um cometa, que hoje leva seu nome, o cometa meta de Halley, voltaria dentro de
vinte e dois anos. Na ocasião, muitos disseram: "Este homem é louco! Como é que, fechado em um
escritório na Inglaterra, baseado em cálculos feitos no papel, ele pode prever a volta de um cometa? Quem
de nós domina os céus?" Mister Halley morreu antes de se completarem aqueles vinte e dois anos, porém po
muitos ficaram atentos e, exatamente na data prevista, o cometa de Halley passou sobre
so os céus da Terra.
Era a glória da razão! Se é assim, se a ra razão
zão é capaz de prever os movimentos dos astros, como nos
ensinaram
ram Copérnico e Galileu, e depois Newton, que é um dos pilares da nossa cultura – todos nós somos
consciente ou inconscientemente
mente newtonianos e cartesianos –,, então a razão vai resolver todo
todos os dramas
humanos!
nos! A razão vai acabar com o sofrimento, com a dor.

2 - IN: BETTO, Frei; BARBA, Eugenio; COSTA, Jurandir F. Ética. Rio de Janeiro/Brasília: Garamond/Codeplan, 1997. p. 15
15-36.

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A razão vai acabar com a fome, com a escravidão. A razão vai nos criar um mundo de luzes, um
mundo de progresso, um mundo de saciedade, de alegria! Só que, quatro séculos depois, o saldo
sald não é dos
mais positivos. Muito pelo contrário! Os dados não são meus, são da FAO, divulgados nessa reunião que
acaba de acontecer em Roma. Nós somos cinco bilhões e setecentos milhões de pessoas no planeta,
metade da população vive na faixa da pobreza e oitocentos milhões vivem com fome crônica! Se os países
que assinaram as determinações de Roma começassem imediaimediatamente
tamente a aplicá-las,
aplicá no ano 2010 teríamos
reduzido essa fome para a metade, para quatrocentos
quatrocentos milhões. Dizem alguns que o problema
pro da fome é
que há excesso de bocas, e propõem o controle da natalidade. Eu, pesso
pessoalmente,
almente, não tenho nada contra,
antes pelo contrário, sou totalmente a favor do planejamento
planejamento familiar, porém não aceito o argumento
argumen de
que há bocas em demasia. Não! Há concentração
con de riqueza em demasia, diz a FAO.

O planeta produz, hoje, alimento suficiente


suficiente para saciar o estômago de dez bilhões de pessoas, quase
o dobro da população. Portanto,
tanto, o problema não está no controle da natalidade, está na falta de
distribuição de riquezas.
zas. Certa vez, num simpósio com os americanos que defendiam ferozmente o con- con
trole como forma de, supostamente, reduzir a pobreza no mundo, eu disse a eles: "Olha, por que vocês não
adotam nos Estados Unidos dos os métodos que aplicam no Terceiro Mundo?" Porque Por o que um norte-
americano consome de energia elétrica por ano equivale ao que quinhentos indianos consomem anu- anu
almente! Acho preferível evitar que nasça um norte-americano
norte americano do que advogar a morte dos quinhentos
indianos. Se a lógica é essa, eu, evidentemente,
evidentemente, como cristão, não posso aceitá-la.
aceitá Vamos dividir o
prejuízo. Ora, essa crise culmina no momento em que vemos o sistema capitalista alcançar a hegemonia,
com o fim do socialismo no LesteLeste Europeu, e adquirir um novo caráter chamado
cha de neoliberalismo.
Gostaria de analisar
sar com vocês como está funcionando esta passagem do liberalismo para o neoli- neoli
beralismo. Gostaria de trabalhar com vocês algumas chaves de leitura deste momento crítico, crí difícil,
complexo, que estamos vivendo. Um momento de grande insegurança,
insegurança, um momento em que as pessoas
estão buscando segurança fora do racionalismo. Vejam, por exemplo, o fenômeno do esoterismo. Nunca
Deus esteve tão em moda como agora. Uma coisa muito difícil, hoje, é encontrar um ateu. È muito difícil,
muito raro, porém
ém podemos encontrar um agnóstico! Mas o ateu saiu de moda, porque está todo mundo
procurando um viés religioso para tentar se reequacionar diante desta crise racionalista. Quais são as
chaves de leitura
tura desta mudança do liberalismo
liberalis para o neoliberalismo?

No liberalismo, nós falávamos em desenvolvimento,


desenvolvimento, os políticos falavam em desenvolvimento.
desenvol Nos
anos sessenta havia a teoria do desenvolvimento, que falava também em sub subdesenvolvimento. Havia a
Aliança para o Progresso,
gresso, que iria desenvolver a América Latina. Aliás, a própria palavra
"desenvolvimento" tem um certo componente ético, porque pelo me menos
nos se imagina que todas as pessoas
deverão ser beneficiadas pelo desenvolvimento. Juscelino
Juscelino dizia: "Vamos desenvolver o Brasil, cinqüenta
cin
anos em cinco". Hoje, je, a palavra é "modernização".
"modernização". A palavra "modernização" não tem um conteúdo
humano, tem uma forte conotação tecnológica. Então, modernizar é equipar equipar-se tecnologicamente.
Modernizar é competir. Modernizar é conseguir que a mi minha
nha empresa, que a minha cidade,
cida que o meu
país, que o Estado esteja próximo do paradigma primeiro primeiro-mundista,
mundista, ainda que isso signifique um
sacrifício para as pessoas. Outrora ouvíamos falar em trabalho. Lembram-se
Lembram se de quando sentíamos orgulho
de dizer: "Olha, meu pai educou a família trabalhando
trabalhando trinta anos na rede ferroviária!"; "Minha mãe foi
professora aos vinte e tantos anos"? O trabalho era fator de identidade! Eu ainda peguei uma geração que
tinha o luxo, ultra-luxo,
luxo, seis estrelas, de falar em "vocação". Perguntávamos para o menino adolescente:
"Qual é sua vocação?" Posteriormente, ninguém mais falava em vocação, falava-se
falava em "profissão": "Qual
é sua profissão?" Hoje fala-se
se em "emprego" - e olhe lá! Quem tem emprego já diz: "Graças a Deus". Já
não se fala mais em trabalho, o fator de identidade social não é o trabalho, é estar no mercado.O mercado
é o novo fetiche religioso da sociedade em que vivemos. Antigamente nossos avós consultavam a Bíblia, a
palavra de Deus diante dos fatos da vida.

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Depois, nossos pais consultavam o serviço
serviço de meteorologia. Hoje não, consulta
consulta-se o mercado: "Será
que o dólar subiu? Baixou a Bolsa?sa? Como é que funcionou?" Vejam na televisão
televisão os políticos, os analistas
diante de uma catástrofe, diante de um acontecimento: "Bem, vamos ver como é que o mercado reage"!
Eu fico imaginando um senhor, trancado
trancado no seu castelo, que por telefone celular se manifesta: "Olha, eu
não gostei desse negócio
gócio aí, estou meio irado." Ou então: "Olha, o mercado não reagiu bem diante do
acontecimento". Ou então: "O mercado reagere ge bem". Ora! O mercado, no Brasil – pergunte a qualquer
agência de publicidade –,, são quarenta milhões de pessoas, quarenta milhões de pessoas que têm acesso
aos bens publicitados! Porque as demais só têm acesso
acesso aos bens de necessidade indispensável, e para
vender pão e leite na padaria você não precisa fazer anúncio na televisão, nem colocar
co out-door na rua.
Justamente o segredo da publicidade é tornar o supérfluo necessá
necessário.
rio. E, hoje, o grande drama das pessoas
não é ter ou não ter um trabalho, mas como
como se inserir no mercado. Eu preciso estar no mer
mercado, tenho que
ser competitivo, tenho que fazer a reengenharia, tenho que disputar o espaço. Não dá para levar em conta
conotações éticas, elaborar um planejamento
planejamento de inclusão das maiorias, um projeto a longo
l prazo. Quer
dizer, o mercado, hoje, é um mercado internacional, um mercado globalizado.

Outrora falava-sese em produção. Você tem um capital, tem que investir esse capital, tem que
produzir. Hoje, fala-se
se em especulação.
especulação. Em como o dinheiro produz dinheiro. Esta noite, através dos
computadores, um trilhão de dólares rodaram o planeta em bus busca
ca de melhores lucros. Passaram da Bolsa
de Singapura para a de Tóquio, da de Tóquio para a de Buenos Aires, da de Buenos Aires para pa a de São
Paulo, da de São Paulo para a de Nova York, e assim por diante. Agora, em Singapura, provavelmente
estão discutindo o que fazer com os seis bilhões dólares que estão
estão disponíveis no mercado. Antigamente a
gente ouvia falar de marginalização. VoVocê
cê é marginalizado no seu emprego, mas ainda tem esperança de
voltar para o centro. É marginalizado na sua escola, mas tem esperança de voltar. É marginalizado na sua
Igreja, mas também tem esperança.
esperan Essa palavra – marginalização – foi abolida; a palavra
palavra, hoje, é
"exclusão" – e o excluído não tem esperança de volta. Porque o neoliberalismo é excludente. A exclusão
não é um problema para o neoliberalismo, como a marginalização o era para o liberalismo. A exclusão é
parte da lógica de crescimento do sistema e da acumulação de riqueza. Antes falávamos em "Estado",
principalmente durante
rante a ditadura militar. O negócio era fortalecer
fortalecer o Estado. Tinha até um Ministro que
dizia: "Vamos fazer crescer o bolo, depois que o bolo estiver crescido, a gente divide." Só que o bolo
cresceu, o gato comeu e a gente não viu o resultado! Esses mesmos políticos que advogavam o
crescimento do Estado advogam
vogam hoje a sua destruição, com o sofisticado
sofisticado lema da "privatização".

Vejam bem, eu não sou contra a privatização, nem sou estadista.estadista. Conheço países do Primeiro
Mundo, como os Estados Unidos, a França, a Inglaterra, onde os serviçosserviços públicos e estatais funcionam
maravilhosamente
lhosamente bem! Não é por serem públicas que as estatais funcionam negativamente. Não é isso, a
conversa é outra.
ra. Muitos políticos, que deveriam ser homens públicos, estão prioritariamente ligados a
empresas de interesses
resses privados, de maneira que não têm interesse
interesse em que as coisas públicas estatais fun
fun-
cionem bem. O maior exemplo disso é o ser serviço de saúde no Brasil.
rasil. São oito bilhões de dólares correndo
por ano nos planos privadosdos de saúde. Por que é que o SUS vai funcionar
funcionar bem? Antigamente você ficava
doente, dava graças a Deus por conseguir um lugar no hospital. Hoje, a gente morre de medo de ir para o
hospital! Hospital virou ante-sala
sala do cemitério. A privatização não é só econôeconômica. Ela é filosófica, é
metafísica. Ela tem reflexos na nossa subjetividade. Nós também estamos virando seres cada vez mais
privatizados, somos cada vez me menos solidários, menos interessados nas causas cau coletivas, menos
mobilizáveis para as grandes questões. A privatização, inclusive, entra na religião. O que tem de fé
"privatizante"! Aquelas que têm conexão direta
direta com Deus e não precisam passar pelo próximo, ótimo!,
porque o próximo incomoda. da. Elas vão direto, via DDD, sem telefonista, sem mediação. E a privatização
da fé, destituindo-aa da sua dimensão social e política. Nós, cristãos, querendo ou não, somos discípulos
discí de
um prisioneiro político, Jesus, que foi processado duas vezes,
vezes, pelos judeus e pelos
pe romanos.

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APOSTILA DE ÉTICA CRISTÃ
Como é que a gente liga essa fé privatizada à dimensão social e política do Evangelho? Outrora
falava-se
se em "Nação", em "nacionalismo", no orgulho de ser brasileiro,
brasileiro, nos símbolos pátrios. Hoje,
abrimos o Jornal do Brasilil naquelas entrevistas dos sábados,
sábados, e qual o motivo de arrependimento? Não ter
nascido nos Estados Unidos. Hoje, o Cazuza cospe na bandeira brasileira, e, em um show no Recife, é
aplaudido. Um marinheiro
nheiro americano, antes da Revolução Cubana,
Cubana, urinou no monumento a José Martin,
em Havana. A cidade inteira se levantou e a esquadra
esquadra americana teve que se retirar de lá, naquela
madrugada, porque profanou o monumento
monumento da principal figura da história cubana.
cu Então, fico pensando:
onde é que está a nossa "brasilidade",
ilidade", o nosso orgulho, não aquele nacionalismo, xenofobismo, nada disso,
dis
mas nosso orgulho do "vamos construir nossa nação"? Hoje falamos em globalização. Também acho
ótimo que o planeta tenha se transformado numa só aldeia. O que me preocupa
preocupa é que eu
e entrei numa loja
de discos, no interior da China, e havia pôsteres do Michael Jackson, mas nunca encontrei no interior
in dos
Estado Unidos um pôster de um chinês!

O que me preocupa é que esta globalização é a imposição de um modelo cul cultural único, de um único
tipo, com um único paradigma de comportamento. Eu já estive no Oriente e já tive contato com monges
do Tibete, da Mongólia, monges do Japão, monges monges chineses. Hoje, vindo para cá, eu apreciava
aprecia o
movimento do aeroporto de São Paulo. Era uma segunda-feira
segunda feira de manhã, a sala de espera estava cheia de
executivos com telefones
nes celulares, preocupados, ansiosos, geral
geralmente
mente comendo mais do que deviam. Já
haviam
am tomado café em casa de manhã, mas, no aeroporto, a TAM oferece um outro café e todo mundo
come vorazmente.
orazmente. Eu fico pensando: "Qual dos dois modelos?" Então lembro da Danielle, que é uma
menina de dez anos, minhanha vizinha, com quem me encontrei no elevador
elevador às dez da manhã e perguntei:
"Danielle, você não foi à aula?" E ela respondeu: "Não, Betto, eu tenho aula à tarde". Então eu disse: "Que
bom, então de manhã você pode brincar,
brincar, dormir até mais tarde". Ela respondeu: "Não, eu tenho tanta coisa
de manhã..." Eu falei: "Que tanta coisa?" Ela disse: "Eu tenho aula de inglês, aula de balé, aula de pintura,
pintura
piscina", e começou a elencar. E eu fiquei pensando:
pensando: "Que pena, a Danielle não disse: eu tenho
te aula de
meditação! ela disse: eu tenho só duas horas para brincar!”

Nós estamos construindo super-homens


super homens e supermulheres, totalmente equipados, só que
emocionalmente
onalmente infantilizados. Por isso estão descobrindo agora que mais importante que o QI é a IE, a
Inteligência Emocional. Não adianta você ser um superexecutivo se não consegue se relacionar com as
pessoas. Ora..., aula de meditação!!! A cidade de Ribeirão Preto, em 1960, tinha seis livrarias e uma aca- aca
demia de ginástica, hoje tem sessenta academias
academias de ginástica e três livrarias! Eu não tenho nada contra
malhar o corpo,
po, mas me preocupo com a desproporção em relação à malhação do espírito! Acho ótimo, óti
vamosos todos morrer esbeltos! Como é que estava o defunto? "Olha, uma maravilha, não tinha uma
gordurinha!" Mas como é que fica a questão da subjetividade? Da espiritualidade? Da ociosidade
amorosa? Outrora falávamos em realidade. Lembram-se?
Lembram Análise da realidade,
ade, inserir-se
inserir na realidade,
conhecer a realidade. Hoje a palavra é "virtualidade". Tudo é virtual, o discurso do presidente é virtual,
não tem nenhum compromisso
promisso com o real! (prestem atenção, estou
estou falando do presidente da firma, do
presidente da empresa.)
resa.) Você pode fazer sexo virtual
virtual pela Internet, não pega AIDS, não tem envolvimento
emocional, controla-se no botão,
tão, no mouse. Você pode, no seu quarto em Brasília, ter uma amiga íntima
em Tóquio, uma amiga virtual, um amigo virtual, sem nenhuma
ne preocupação
cupação de conhecer o seu vizinho
vizi de
prédio ou de quadra! Tudo é virtual, estamos entrando na virtualidade de todos os valores, não há
compromisso com o real! E muito grave esse processo de abstração da lin linguagem,
guagem, de sentimentos. Somos
místicos virtuais,, somos religiosos virtuais, somos todos virtuais. A realidade vai por outro lado, somos
so
eticamente virtuais. A Cultura começa onde a natureza termina.
termina. E a cultura é o refinamento do espírito.
espíri
Televisão, no Brasil – com raras e honro
honrosas exceções –, é um m problema. Passa uma semana
se e temos a
sensação de que ficamos um pouco menos cultos, porque hoje a palavra é "entretenimento". Domingo,
então, é o dia nacional da "imbecilização" geral.

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APOSTILA DE ÉTICA CRISTÃ
Imbecil o apresentador, imbecil o que vai lá e se apresenta
apre no palco.
co. Como a publicidade não con-
con
segue vender felicidade, passa a ilusão de que felicidade é o resultado da soma de prazeres. Se você tomar
este guaraná, vestir este tênis, usar esta camisa, comprar aquele carro, você chega lá! E você não chega!
Quem pode, desenvolve
esenvolve de tal maneira o desejo que acaba pagando um analista. O problema é que alguns
al
psicanalistas ficam tentando descobrir o que fazer com o desejo dos seus pacientes. Colocá
Colocá-lo onde? Eu,
que não sou da área, posso me dar o direito de apresentar uma sugestão.
gestão. Só há uma saída: virar o desejo
para dentro. Porque, para fora, ele não tem onde ir! O grande desafio é como a gente vira o desejo para
dentro. Quando a gente se gosta, começa a ver o quanto é bom ser livre de todo esse condi condicionamento
globalizante,
ante, neoliberal, que existe
exis hoje. Ora, quando falamos em entretenimento,
mento, falamos também em
"consumo". Colocar
locar no mercado é transformar as pessoas em consumidoras. Isso revela uma lógica religi
religi-
osa na crise da modernidade. Reparem no seguinte: se você vai vai à Europa e visita uma pequena cidade que
tem uma catedral, procure
cure saber a história daquela cidade, porque a catedral é sinal de que aquela cidade
tem história. Porque, na Idade Média, uma cidade
cidade adquiria status construindo uma catedral. Hoje, uma
cidade,
ade, no Brasil, adquire status construindo um shopping center. Prestem aten atenção, 90% dos shopping
center têm linhas arquitetônicas de catedrais estilizadas. E para você ir ao shopping não pode ir de
qualquer maneira, tem que ir com roupa de missa de domingo.
doming

Você entra naqueles claustros, observa


observa os vários nichos, aquelas capelas com os veneráveis objetos
de consumo, acolitados por belas sacerdotisas e aquela musiquinha do gregoriano pós pós-moderno. Se você
pode comprar, vai se sentir no reino dos céus. Se tem que fazer pré-datado,
datado, pagar a crédito, aí vai se sentir
no purgatório. Mas se você não pode comprar, você vai se sentir no inferno: "Sou um desgraçado".
Felizmente terminamos
mos todos na eucaristia pós-moderna,
pós moderna, na mesma mesa, no mesmo suco e no mesmo
sanduíche do McDonald's. O grande desafio, hoje – e aí entra o papel
pel do entretenimento –, é como colocar
a criançada no mercado de consumo. Porque o fillet-mignon
fillet mignon do mercado é a infância. Nos Estados
Unidos, em 1994, o lucro líquido do mercado infantil foi ddee 125 bilhões de dóla
dólares! A criança tem duas
vantagens: não tem discernimento e seduz o adulto! Eu, que sou antigo, mas não sou velho, cheguei até os
doze, treze anos, sem que o fator dinheiro entrasse na minha vida. Até hoje não sei qual era a marca do
keds
eds que eu usava. O máximo de consumo que eu tinha era pedir ao meu pai que trouxesse do centro da
cidade uma caixa de pregos para pregar meu carrinho de rolimã, meus brinquedos etc. Não havia con- con
sumo. Como é que a gente faz a criança entrar
en no mercado dee consumo? A fórmula é simples: através da
erotização precoce dessa criança. Se você consegue que ela comece a se pintar com quatro, cinco anos
diante do espelho, a se preocupar com a marca do tênis e da camisa, você ganhou a parada. Só que há um
problema: ela é precocemente erotizada, na fantasia, porque o corpo não acompanha, o corpo não
despertou para a sexualidade.

Quando chega à puberdade, o corpo desperta, mas aí ela tem medo da rea realidade, quer prolongar a
fantasia da época anterior, e nada melhor do que uma boa droga,ga, vivam as drogas! As drogas têm esse pa-pa
pel de prolongar a fantasia em que as crianças
crianças foram educadas para serem consumidoras
consumido precoces. Outrora
falávamos em história, lembram--se?se? As coisas tinham passado, presente e futuro. Sobretudo
Sobretu para quem
estava acostumado
tumado a uma cultura literária. No romance, as coisas têm início, meio e fim. Havia proje projeto
histórico, ideal histórico, compromisso histórico. Para quem é cristão, então, toda nossa fé cristã está
calcada na historicidade. Não dá para ser cristão ou judeu sem a subjacência da historicidade, porque o
nosso Deus não é um deus qualquer, é um Deus que apresenta curriculum: é o Deus de Abraão, de Isaac e
de Jacó. Cada vez que se fala n'Ele, já vem com o seu curriculum embutido.
embutido. Até mesmo
mes no ato de criação
Ele é um Deus histórico, porque criou o mundo em sete dias! Isso, para um grego, é uma "piração".
Porque um Deus que é competente, te, que é onipotente, não precisa de prazo para criar – é como o Nescafe,
instantâneo. Então, os gregos achavam
achavam que o Deus dos judeus era de segunda categoria, porque precisou
de vários dias e ainda ficou cansado e teve que descansar no sétimo – não pode ser dos melhores.
me Não!

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Isso é que é bonito! No próprio relato bíblico já está embutida a concepção de histhistoricidade. De
repente, vem um senhor chamado Fujiama e declara: "A história acabou".
acabou". Não há nada mais contra a
virtude da esperança do que essa frase: "A história acabou."
acabou." Como é que a história acabou? Eu só não fico
tão apavorado porque Nero também dissedisse que a história acabou, e Hitler também disse que a história
acabou. Enfim, todos aqueles que conseguem globalizar sua proposta
proposta dizem que a história acabou porque
qualquer mudança iria perturbá-los
los terrivelmente.
terrivel Ora, hoje vivemos a cultura da "simultaneidade",
"simul que
está sabotando a dimensão da historicidade. Isso é terrivelmente perigoso nessa crise da modernidade. O
que é a simultaneidade?
multaneidade? As novas gerações são educadas pela TV. A TV subverte a his historicidade e impõe
a circularidade. Exemplo: os Mamonas
Mamon Assassinas estão sendo enterrados dos e na mesma tela de TV há um
clip deles cantando. O garoto não tem passado, nem presente, nem futuro. Tudo é aqui e agora. O Aírton
Senna está sendo enterrado e aqui está ele, no pódio, recebendo um banho de champanhe.
cham Então, entramos
na simultaneidade. E essa simultaneidade é terrivelmente desagregadora de valores, porque os valores têm
que ser construídos na temporalidade. Nossos pais, nossos avós, tinham aquela coi
coisa de namorar, noivar,
casar, depois fazer bodas de prata e bodas de ouro. Hoje, se namora,
namora, casa, namora, casa, casa, namora...
não é mesmo? Percebem? As pessoas já não sabem fazer projetos, vivem uma ansiedade terrível.

Enfim, diante dessa crise, quais são as perspectivas? Muitas. Mas eu falo daquilo quque diz respeito ao
meu ofício, ao meu interesse, à minha motivação maior, que é a espiritualidade. A questão da
espiritualidade não é uma questão simplesmente religiosa, ela é mais do que religiosa, é uma questão de
educação da subjetividade, da interioridade.
interioridade. E uma questão de nos reeducarmos para a comunhão conosco
mesmos, para a comunhãonhão com a natureza, para a comunhão com o próximo e com Deus. Isso é o que
mais buscamos, porém o que menos se trabalha do ponto de vista institucional. Hoje, é notório no que o
mundo, a humanidade, tem gula de Deus. Basta ver o êxito da literatura esotérica, a busca à multiplicidade
de estilos e práticas religiosas. Qualquer seminário que toque a questão religiosa, espiritual, tem muito
êxito, isto é indubitável. Mas a questão
ques é outra. A questão é: "Como conseguiremos
conseguire trabalhar isso numa
dimensão libertadora?" Este é o desafio! Esta dimensão dimensão libertadora é muito ameaçadora para o
neoliberalismo porque, na medida em que uma pessoa se gosta, ela precisa de menos adornos para
representar-se socialmente. Um dos fenômenos do neoliberalismo é que antes eu vestia essa camisa e dava
valor
lor ao tecido, eu humanizava o tecido por usá-lo.
usá lo. Hoje, ao contrário, é a camisa, com a sua griffe, que
me dá valor! Assim, meu valor é tanto maior quanto
quanto mais griffes eu ostento! Se eu chegar na sua casa a
pé, tenho
nho um valor; se eu chegar de BMW, tenho outro valor! Não é assim? Isso é a "reificação" ou
"coisificação" do ser humano!
no! O ser humano só se reveste de griffes na medida em que ele não se gosta.
gosta A
Veja destata semana traz uma matéria sobre uma casa noturna de São Paulo, chamada Leopoldo, que mostra
as preocupações das mulheres que a freqüentam. Elas começam a se pre preparar
parar um mês antes para os
casamentos ali celebrados.

Só que não se preocupam com com o que vão vestir, e sim com o que as amigas ou inimigas vestirão,
para não ficarem inferiores.
riores. Eu fico pensando. Uma pessoa que demanda tamanha energia, vida, tempo,
dinheiro,
nheiro, não se gosta! Porque quem se gosta, se acha muito bonito, e transmite isso. O título de um dos
meus livros, que até trouxe aqui, é: Fome de paz e de beleza, tirado de um poema de um poeta cubano,
Roberto Fernandes. Ele diz que "o ser humano tem duas grandes fomes: a de pão, que é saciável, e a de
beleza, que é infindável". A espiritualidade
espiritualidade tem que ir nesta dimensão: como trabalhar nossa fome de
beleza? De harmonia? De contato? De interação e integração? Esse é o desafio que se apresenta para nós,
hoje. Eu acredito que o primeiro passo é buscarmos vínculos de solidariedade e comunidade.
comun Enquanto
estivermos
vermos fechados nos nossos próprios interesses
interesses e em interesses imediatos, não vamos con
conseguir; só se
nos ligarmos à comunidade, à solidariedade, às boas causas. Não importa que sejam assistenciais ou
políticas, religiosas, imediatistas
as ou a longo prazo; importa que elas representem uma construção coletiva,
da comunidade, do grupo, da instituição, da parceria,
parceria, da irmandade, da fraternidade.

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APOSTILA DE ÉTICA CRISTÃ
Nessa medida, é que conseguiremos resgatar
resgatar o nosso tempo como historicidade, e conseguiremos o
mais importante – imprimir à nossa existência um sentido. Para nós, cris
cristãos,
tãos, esse sentido é a proposta do
Evangelho.
lho. "Eu vim para que todos tenham vida e vivam em plenitude". O Evangelho não faz distinção
entre vida material e vida espiritual;
espiritu ele unee as duas coisas. O grande desafio é construir uma sociedade na
qual todos tenham
nham vida material digna, com total liberda
liberdade
de e possibilidade de ter a sua vida espiritual. Só
então vamos conseguir construir um mundo
mundo sintonizado na grande energia do amor, pporque o fim de toda
política positiva – porque
que há aquela que não é positiva – é construir a sociedade do amor. Onde as nossas
diferenças
renças não só permanecerão, como serão acentuadas, mas jamais se tornarão divergên divergências. E nós,
porque sabemos gostar de nós mesmos, e nos amarmos, saberemos amar o outro e ver no outro o
sacramento de Deus.

II. QUE SIGNIFICA ÉTICA E MORAL?


Leonardo Boff [3]
INTRODUÇÃO
Sempre que irrompe uma crise grave na sociedade e nas religiões, é a espiritualidade e a ética que
são imediatamente afetadas. E com razão, porque é a espiritualidade que trabalha o sentido mais pro profundo
da vida e é a ética que, concretamente, orienta as práticas pes
pessoais
soais e sociais. Tal constatação se comprova
nos tempos atuais que se caracterizam por grave
grave crise global e estrutural do sentido de nosso viver na fase
planetária da humanidade. A crise começa a ser superada quando lentamente se anuncia uma nova
experiência de sentido, fruto de um mergulho mais profundo no Ser e no mistério das coisas. É entã então que
nasce uma nova espiritualidade. Ela redefine a direção do caminho, ressitua a missão do ser humano no
conjunto dos seres e rasga um novo horizonte de esperança. Agora se pode avançar com entusiasmo e com
vontade moldar a história. Simultaneamente nascem nascem também novos valores, projetam-se
projetam sonhos
benfazejos e inauguram-se se comportamentos novos. É o nascimento
nascimento do ethos, vale dizer, surge uma ética
adequada à percepção coletiva das novas tarefas a serem cumpridas pelos seres humanos. Atualmente
tanto a espiritualidade
piritualidade quanto a ética revelam uma característica singular. Elas contemplam o todo,
possuem uma dimensão
mensão planetária e são desafiadas a construir consensos mínimos que possam valer para
a diversidade das historias, das culturas e dos caminhos espirituais.
espirituais. Pois temos a clara consciência de que,
a partir de agora, todos nos encontramos dentro da mesma e única nave espacial espacial azul-branca,
azul o planeta
Terra. É a nossa Casa Comum. Não temos outra para habitar. Devemos nos auto-educar
auto para convivermos
pacificamente
amente dentro dela com uma ética da austeridade compartilhada,
compartilhada, com um consumo solidário e com
um sentido de co-responsabilidade
responsabilidade coletiva pelo futuro da humanidade e da Terra.
[...]

QUE SIGNIFICA ÉTICA E MORAL?


Face à crise generalizada de ética e de moral, importa resgatar o sentido originário das palavras.
Ética e moral é a mesma coisa? É e não é.

1. O SIGNIFICADO DE ÉTICA
Ética é um conjunto de valores e princípios, de inspirações e indicações
indicações que valem para todos, pois
estão ancorados na nossa própria
pria humanidade. Ela responde à pergunta: Que significa agir hu
humanamente?
Para responder a isso, utilizou-se
se uma experiência fundamental,
fundamental, como orientação segura: a experiência da
morada e do ato de morar. Esse é o sentido grego de ethos, "morada", "cas "casa". Morada não deve ser
entendida materialmente como construção com quatro paredes e telhado. Morada deve ser compreendida
existencialmente, como o modo de o ser humano habitar, como forma de organizar a vida em família. Aí
surgem as inspirações, os princípios
pios e os objetivos
objeti fundamentais.

3 - BOFF, Leonardo. Ética e eco-espiritualidade.


espiritualidade. Campinas: Verus Editora, 2003. p.9-14.

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APOSTILA DE ÉTICA CRISTÃ
Morar implica a harmonia dos que moram. Significa ainda organizar adequada e inteligentemente o
interior da casa, os quartos, a sala de visita, a cozinha, o canto sagrado, onde guarda
guardamos as recordações ou
a Bíblia. Morarr exige que organizemos o en entorno
torno da casa, o jardim, a relação com os vizinhos para que
seja pacífica
fica e amical. Tudo isso está presente no sentido originário de ética. No fundo, ética significa
viver humanamente. Viver humanamente implica realizar o primeiro primeiro princípio de todo
to agir humano,
chamado, por isso, de regra de ouro que é: "Não faças ao outro o que não queres que te façam a ti." Ou
positivamente:te: "Faze ao outro o que queres que te façam a ti" (Mt. 7,12). Esse princípio áureo pode ser
traduzido também
ambém pela expressão de Jesus, testemunhada em todas as religiões: "Ama o próximo como a
ti mesmo."
mo." É o princípio do amor universal e incondicional. Quem não quer ser amado? Quem não quer
amar? Alguém quer ser odiado ou ser tratado com fria indiferença? Ninguém. Ninguém. Outro princípio da
humanidade essencial é o cuidado. Toda vida precisa de cuidado. Um recém-nascido
recém nascido deixado à sua própria
sorte morre poucas horas após. O cuidado é tão essencial que, se bem observarmos,
observarmos, tudo o que fazemos
vem acompanhado de cuidado do ou de falta
falta de cuidado. Se fazemos com cuidado, tudo pode dar certo e dura
mais. Tudo o que amamos também cuidamos. A ética do cuidado hoje é fundamental: se não cuidarmos do
planeta Terra, ele poderá sofrer um colapso e destruir as condições que permitempermi o projeto planetário
humano. A própria política é o cuidado para com o bem do povo. Outro princípio reside na solidariedade
universal. Se nossos pais não fossem solidários conosco quando nascemos e nos tivessem rejeitado,
re não
estaríamos aqui para falarr de tudo isso. Se na sociedade não respeitássemos as normas coletivas em
solidariedade para com todos, a vida seria impossível. A solidariedade, para existir de fato, precisa sempre
ser solidariedade a partir de baixo, dos últimos e dos que mais sofrem. A solidariedade se manifesta então
como com-paixão. Com-paixãopaixão quer dizer ter a mesma paixão que o outro, alegrar-se
alegrar com o outro, sofrer
com o outro para que nunca se sinta só em seu sofrimento, construir juntos algo bom para todos.

Pertencem também à humahumanidade essencial a capacidade e a vontade tade de perdoar. Todos somos
falíveis, podemos errar involuntariamente
involuntariamente e prejudicar o outro conscientemente. Como gostaríamos de ser
perdoados, devemos também nós perdoar. Perdoar significa não deixar que o erro e o ódio ó tenham a
última palavra. Perdoar é concederder uma chance ao outro para que possa refazer as relações boas. Tais
princípios e inspirações formam a ética. Sempre que surge o outro diante de mim, aí surge o imperativo
ético de tratá-lo humanamente.
mente. Sem tais
ta valores, a vida se torna impossível. Por isso, ethos, de onde vem
ética, significava, para os gregos, "a casa". Na casa, cada coisa tem seu lugar, e os que nela habitam
devem ordenar seus comportamentos para que todos possam sentir-se
sentir se bem. Hoje a casa não
n é apenas a
casa individual de cada pessoa, é também a cidade, o estado e o planeta Terra como Casa Comum. Eis,
pois, o que é a ética. Vejamos agora o que é moral.

2. O SIGNIFICADO DE MORAL
Se ethoslética significa "a morada humana", a moral então sinaliza
sinaliza as formas e os diferentes estilos
de se organizar a casa. Isso depende de cada cultura que é sempre diferente da outra. Um indígena, um
chinês, um africano, vivem do seu jeito o amor, o cuidado, a solidariedade e o perdão. A esse jeito
diferente chamamosmos de moral. Formalizando, podemos dizer: a moral é o conjunto concreto de preceitos e
normas que organizam a vida das pessoas, das comunidades e das sociedades e, hoje, da comunidade
planetária.
ria. Ética, existe uma só para todos. Moral, existem muitas, de acordo
do com as maneiras diferentes
como os seres humanos organizam a vida. Vamos dar um exemplo. Importante é ter uma casa (ética). O
estilo e a maneira de construí-la la podem variar (moral). Pode ser simples,
simples, rústica, moderna, colonial,
gótica, contanto queue seja casa habitável.
habi Assim é com a ética e a moral. Hoje devemos construir juntos a
Casa Comum, para que nela todos possam caber, inclusive a natureza. Faz-se Faz se mister uma ética comum,
um consenso mínimo no qual todos se possam encontrar. E ao mesmo temp tempo, respeitar as maneiras
diferentes como os povos organizam a ética, dando origem às várias morais, vale dizer, os vários modos
de organizar a família, de cuidar das pessoas e da natureza,
natureza, de estabelecer os laços de solidariedade entre

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APOSTILA DE ÉTICA CRISTÃ
todos, os estilos dee manifestar o perdão. A ética e as morais devem servir à vida, à convivência humana e
à preservação da Casa Comum, a única que temos, que é o planeta Terra. [...]

III. A ÉTICA NA BÍBLIA


O meu mandamento é este: Amem-se
Amem uns aos outros como eu os amei. Ninguém tem maior amor do
que aquele que dá a sua vida pelos seus amigos. Vocês serão meus amigos, se fizerem o que eu lhes
ordeno. [...] Vocês não me escolheram, mas eu os escolhi para irem e darem fruto, fruto que permaneça.

João 15.12,13,16

Charlie Brown
own está confortavelmente sentado numa cadeira, na sala de visitas, quando ouve um
barulho vindo da cozinha. Vai verificar o que está acontecendo e flagra Snoopy assaltando a geladeira.
– Ei! O que está fazendo? – pergunta o menino – Você não pode simplesm
simplesmente ir pegando o que está
na geladeira. – E, sacando a Bíblia, acres
acrescenta:
centa: Veja, está aqui no Êxodo: "Não furtarás". Snoopy, também
versado na Bíblia, tira o livro da mão do garoto, vira algumas páginas e mostra a Charlie Brown a
passagem de Deuteronômio 25.4. Enquanto seu dono está lendo "Não amordacem o boi enquanto está
debulhando
lhando o cereal", Snoopy sai de fininho e volta à sua posição confortável no topo da casinha de
cachorro. Ao terminar de ler o versículo, Charlie Brown percebe o que aconteceu.
– Nunca
unca vi você debulhar cereal nenhum! – grita ele. Snoopy interrompe a refeição o tempo
suficiente para responder:
– Saiu meio de contrabando.

[...] A ética não é uma tarefa exclusivamente


exclusivamente cristã. Muitos já tentaram estabelecer uma vida ética e
depois segui-la.la. Vimos esse interesse mais amplo através das lentes da tradição da ética filosófica
filosó
originada na Grécia antiga. Nossa preocupação, porém, é ir além da ética geral para mostrar uma ética
cristã. Embora a tradição ética cristã se tenha desenvolvido em uma cultura que muito devia aos filósofos
gregos, os cristãos sempre viram primeiramente a Bíblia como o fundamento para a vida prática. Portanto,
se quisermos formular uma ética cristã para os dias de hoje, devemos
devemos ocupar
ocupar-nos das Escrituras. Como
Snoopy,
opy, é provável que cada um de nós já se tenha sentido culpado algumas vezes por fazer mau uso da
Bíblia. É provável que todos tenhamos usado as Escrituras só para sair pela tangente, "meio de
contrabando", em certas situações da vida. Mas os cristãos sensíveis
sensíveis querem que a Bíblia seja o
instrumento por meio do qual o Espírito Santo os guie a uma vida devota. De fato, o objetivo central da
Bíblia é instruir a comunidade dos cristãos acerca da vida ética. Conseqüentemente, as Escrituras são
fundamentais para a ética cristã. Muitos cristãos concordam que a tradição ética cristã repousa na Bíblia.

O que, porém, significa essa afirmação? Qual é a ética bíblica? Como passar da Bíblia para a vida
prática nos tempos atuais? Nosso primeiro impulso pode ser propor que a ética bíblica consiste nos
preceitos, princípios e leis de conduta humana contidos nas Escrituras. [...] Nos limitare
limitaremos aqui a dizer
que muitos eticistas cristãos julgam essa abordagem uma simplificação exagerada de como a Bíblia
relaciona-se com a vida. Nos últiúltimos
mos anos, estudiosos de todas as áreas teológicas têm observado que,
além de qualquer outra coisa, a Bíblia é uma narrativa. Narra uma história que inclui começo, meio e fim.
Em vez de abstrair dessa história as leis que se enconencontram nas Escrituras, para atribuir
atribuir-lhes um valor
universal, esses pensadores concluíram que a ética dos ensinamentos da Bíblia está entranhada na
narrativa e só pode ser entendida no contexto da história bíblica. Esses eticistas cristãos levam a idéia um
passo adiante.
nte. Estão convencidos de que o foco principal da narrativa bíblica é Jesus Cristo.
Conseqüentemente, te, para eles a ética, vista de uma perspectiva bíblica, preocupa
preocupa-se com o estilo de vida a
ser seguido pela comunidade de fé tal qual revelado na história de de Jesus. Como declara R. E. O. White: A
essência da moralidade bíblica não é um sistema legal, um código escrito, uma filosofia moral abstrata,

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APOSTILA DE ÉTICA CRISTÃ
mas um espírito e uma lealdade, uma visão e uma fé encarnadas na inexaurivelmente rica e variada perso- perso
nalidade de Jesus. Ou, nas palavras do estudioso católico romano Robert J. Daly, a ética criscristã é "a ciência
e a arte de refletir sobre os aspectos práticos da existência de Cristo para então pô-los
pô em prática". Nossa
principal tarefa neste capítulo é mostrar como as linhas dos ensinamentos éticos da Bíblia convergem para
Cristo. Faremos isso explorando do os temas éticos centrais presentes na narrativa bíblica.

A VIDA MORAL E AS ESCR


ESCRITURAS HEBRAICAS
A Igreja deve sua existência ao antigo Israel, pois, seguindo o exemplo de Jesus, os primeiros
cristãos viam a si mesmos como a continuação do que havia começado na época do AT. Eles estavam
convencidos de que em Jesus a história de Deus agindo na história humana havia atingido um novo nível.
Motivada por essa crença, a comunidade cristã inicial investigou as implicações do evange evangelho e os
ensinamentos de Jesus para a vida no âmbito de seu contexto histórico. Ao executar essa tarefa, porém, os
primeiros cristãos tinham os olhos voltados para o antigo Israel, afirmando que q as Escrituras hebraicas
acalentavam um consenso
senso quanto ao significado de viver como povo de Deus neste mundo. Por essa
razão, nosso levantamento dos fundamentos bíblicos da ética cristã cristã deve começar pelas Escrituras
hebraicas. Todavia, não começamos pelapela ética do AT como tal. Em certo sentido, "ética do AT" é um
termo impróprio. Como observa Walter Kaiser, "não há no Antigo Testamento nenhum conceito abstrato,
abrangente, que se assemelhe ao nosso termo moderno 'ética' ". Em vez disso, precisamos examinar
exami o fio
condutor da história do AT. Bruce Birch fala em nome de muitos estudiosos quando observa: "Não temos
no Antigo Testamento discursos filosóficos abstratos sobre moralidade ou sistemas éticos éti teóricos,
codificados. Temos elementos que contam a história
história de Israel ou dão testemunho dela". Portanto, mais que
procurar princípios atemporais de conduta que possam estar dispersos nas Escrituras hebraicas, nosso
objetivo é resumir os temas centrais da narrativa do AT que moldaram a antiga concep
concepção hebraica do que
significa ser povo de Deus neste mundo. Esse entendimento,
entendimento, por sua vez, serviu de berço para os
ensinamentos éticos de Jesus e as subseqüentes reflexões da comunidade cristã primitiva.

1. O TEMA BÁSICO: DEUS EM ALIANÇA


Fundamental para tudo o que os autores res das Escrituras hebraicas dizem sobre o que podemos
chamar "vida ética" é o tema da aliança. De fato, pode
pode-se
se dizer que toda a narrativa bíblica conta a his
história
da aliança. O pano sobe, e aparece a relação de aliança entre Deus e a humanidade
humanid (Gn 1.27-30), situada
no contexto do ato divino da criação do céu e da terra "no princípio" (Gn 1.1). Por intermédio de Noé,
Deus mais tarde renovou a aliança universal (Gn 9.9-11).
9.9 11). Mas significado especial tem a aliança de Deus
com Israel, que, na qualidade
lidade de descendente de Abraão, deveria
deveria ser a nação por meio da qual Deus
abençoaria todos os povos (Gn 12.1 -3). 3). O estudioso alemão do AT Walther Eichrodt declara que o
conceito de aliança "cultua a convicção mais fundamental de Israel, a saber, a consciência consc de um
relacionamento único com Deus". Não surpreende, portanto, que o entendimento
entendimento de que eles eram um
povo em aliança com Deus fornecesse o funda fundamento
mento para as reflexões éticas entre os antigos hebreus. No
âmago da idéia da aliança, estava a percepção
percepção de que o relacionamento de Israel com Deus decorria
inteiramente da graça divina. O acontecimento que mais influenciou a existência dessa aliança foi sem
dúvida o Êxodo. Deus resgatougatou o povo da servidão no Egito, e, mais que qualquer outra experiência,
experiênci esse
acontecimento constituiu os hebreus como povo da aliança com Deus. Desse Desse ponto em diante, a aliança
encontrou sua base na graciosa iniciativa de Deus na salvação. A declaração "Eu sou o Senhor, o teu Deus
que te tirou do Egito, da terra da escravidão"
escravidão" repetidas vezes serviu para introduzir injunções divinas
acerca da vida na comunidade da aliança (e.g., Ex 20.2). Israel, no entanto, sabia que o Êxodo, e portanto
a própria aliança, fora obra da bondade e da misericórdia
misericórdia de Deus. Começando no Sinai, a história do AT
tornou-se
se a narrativa da fidelidade de Deus à aliança, mesmo diante das falhas de Israel.

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A aliança não era uma rua de mão única, é óbvio. Ser parceiro de Deus na aliança — ser o recipiente
da graça divina — implicava obrigações por parte parte do povo de Israel. Essa percepção levou ao
"ensinamento" sobre o "caminho". Kaiser sem dúvida está certo quando observa: "A ética do Antigo
Testamento preocupa-se se com o estilo de vida que a aliança mais antiga prescreve e aprova". Acima de
tudo, a aliançaa significava que Israel deveria ser uma "reunião santa" (Êx 12.16)." De fato, o povo que
mantinha aliança com um Deus santo deveria ser igualmente santo. Santidade envolvia obediência ao
Deus da aliança, motivada por amor e gratidão (Dt 6.5,20). A obediên
obediência
cia à aliança expressava
expressava-se por meio
de cuidadosa preocupação com a vontade divina revelada no Sinai e na Torá. Contrastando, portanto, com
os filósofos gregos, os hebreus não partiram em busca do viver bem, como o objetivo final da existência
humana. Tampouco
pouco se fixaram no cultivo de um conjunto de virtudes como a melhor forma de chegar ao
bem. Em vez disso, o povo do AT preocupava-se
preocupava se com a justiça. E essa justiça envolvia a obediência da
santidade. A obediência incluía a separação pessoal de tudo o que ffosse
osse profano ou impuro, como, por
exemplo, a adoração a outros deuses. Implicava a consagração
consagração ao serviço do próprio Deus. Todavia, ser o
povo santo de Deus significava mais que levar uma vida direcionada para Deus. Manter aliança com Deus
exigia que Israel
el fosse uma comunidade santa, um povo ciente de que essa condição deveria traduzir
traduzir-se
em conduta apropriada para com os outros. A vida santa abrangia todas as dimensões da interação
humana, até mesmo aspectos tão diversos como vida em família e atividade comercial. A santidade exigia
também preocupação com os menos afortunados, punha limites à vingança (Dt 25.3) e até mesmo exigia
tratamento adequado aos animais (Dt 22.1-4).
22.1 Resumindo, ser parceiro de Deus na santa aliança não
permitia nenhuma bifurcação entre
ntre a adoração no templo e a vida cotidiana. Ser recebido pelo Senhor no
sábado exigia uma atitude correta para com Deus, bem como uma conduta apropriada durante a semana.
Envolvia não apenas o coração puro, mas também mãos puras; não apenas a rejeição à idolatria, mas
também atitudes
des de lealdade: "Quem poderá subir ao monte do Senhor? Quem poderá entrar no seu Santo
Lugar? Aquele que tem as mãos limpas e o coração puro, que não recorre aos ídolos nem jura por deuses
falsos" (SI 24.3,4).

A "conduta íntegra",
ra", portanto, era altamente social:
Senhor, quem habitará no teu santuário?
Quem poderá morar no teu santo monte?
Aquele que é íntegro em sua conduta
e pratica o que é justo,
que de coração fala a verdade
e não usa a língua para difamar,
que nenhum mal faz ao seu semelhante
e não lança calúnia contra o seu próximo [...]
que mantém a sua palavra
mesmo quando sai prejudicado,
que não empresta o seu dinheiro visando ao lucro
nem aceita suborno contra o inocente
(SI 15; cf. 51.6; 66.18; 118.20; 141.2-4).

Como sugerem essas considerações, a santidade não se concentrava na obediência


obe cega a um
conjunto de leis impostas de fora para dentro como um fim em si mesmo. Envolvia, em vez disso, a
atitude de levar a sério a responsabilidade
sabilidade inerente ao recebimento
recebimento do dom da graça divina. Assim, a lei da
aliança visava a um propósito mais alto. Era um guia mostrando o que significava
significava para Israel ser santo —
isto é, ser uma nação distinta das outras. A observância da Lei, portanto, não era um meio de tornar Israel
o povo da aliança de Deus. Na verdade, Israel constituiu-se
constituiu se povo em virtude de seu relacionamento com o
Senhor.

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As leis ofereciam orientação e instrução, de modo que a comunidade pudesse apreender e praticar as
implicações de estartar nessa relação de aliança. Pondo-as as em prática, Israel poderia cumprir a missão
designada por Deus, que era a de servir de preceptor, modelo e até mediador para as outras nações. Viver
como o povo da aliança com Deus significava viver como parceiro numa aliança divina. De fato, isso
constituía o objetivo da aliança. Como observa Kaiser, "a aliança visa a estabelecer uma relação pessoal, e
não um código de conduta abstrato". Mais importante que qualquer norma ideal para a mensuração de
conduta era a relação entre Deus e Israel,
Israel, na qual Deus se mostrava fiel ao longo do tempo. Acima de
tudo, portanto, ser parceiro na aliança com Deus significava modelar a vida de acordo com o padrão
divino incorporado na narrativa da convivência entre Deus e Israel. Envolvia conformar a vida vid humana
aos métodos do Deus da aliança. Até a própria Lei estava embutida no fluxo da narrativa da aliança.
Conseqüentemente, não apenas a vontade divina, mas também o caráter e a atividade de Deus estavam esta na
base do conceito de vida digna do AT. O povo da aliança divina deveria ser santo porque o Deus que
estabelecera a aliança se mostrara santo (Lv 18.5,6; 19.2-4).
19.2 4). A vida sob a aliança, em suma, deveria ser a
imitação de Deus. Ao longo da história da aliança com Israel conforme descrita na narrativa bíb bíblica, Deus
revelou seu caráter. Com isso, na história da aliança, Deus mostrou
mostrou a Israel o que é o bem (e.g., Mq 6.1-8).
6.1
Os profetas hebreus perceberamram o fato com clareza. O Autor da aliança (que eles haviam conhecido) era
fiel (Jeremias), justo (Amós), amoroso
moroso (Oséias), santo (Isaías) e misericordioso (Miquéias).

Juntando essas características, os autores do AT apresentaram esse Deus como, acima de tudo, cheio
de compaixão. De fato, a compaixão que nasce do amor divino caracterizou a relação fundamental entre
Deus e o povo da aliança. O tema do Deus compassivo torna-se
torna se evidente na formulação central
cen da fé da
comunidade hebraica, que segundo o livro de Êxodo tinha sua fonte na própria auto-afirmação
auto de Deus.
Depois de revelar seu nome a Moisés no monte Si Sinai, o Senhor descreveu-se
se como o "Deus compassivo e
misericordioso, paciente, cheio de amor e de fidelidade" (Êx 34.6). A declaração de que Deus tem amor
em abundância e é cheio de compaixão aparece repetidas vezes ao longo do AT, constituindo, por assim
dizer, sua declaração
ção teológica central (e.g., Ne 9.17; SI 86.15; 103.8; 111.4; 116.5; 145.8; Jl 2.13, Jn 4.2;
Is 54.10). A respeito disso, Williston Walker conclui: "Nada, portanto, é mais proeminente no Antigo
Testamento que a atribuição de compaixão, piedade,
piedade, misericórdia etc. a Deus. Pode
Pode-se dizer que o povo se
vangloriava disso". Como sugerem essas observações, a concentração no Deus da aliança deu ao povo
hebreu da Antiguidade uma perspectiva distintivamente histórica. Se Deus fez aliança com Israel, então a
história desse povo é a história dessa aliança. De modo mais específico, é a história da resoluta fidelidade
à aliança por parte de seu Autor. Porque Deus é fiel, concluiu o povo do AT, os justos no fim triunfarão
sobre os inimigos. Não podemos superestimar a importância do tema da aliança para a ética do AT.
Fornecendo um fundamento teológico para uma vida prática santa, a convicção de que Deus firmara
aliança com Israel criou um laço indissolúvel entre a crença interior e a conduta exterior.

Como enfatiza o livro de Provérbios,


Provérbios, a sabedoria (entendida no sentido prático de conhecer a
maneira apropriada
priada de viver e assim viver apropriadamente) começa pelo temor a Deus. A história da
convivência entre Deus e Israel também forneceu aos aos autores do AT um ponto de referência teológico
transcendente — inserido de fato numa história específica — para conceitos como justiça e
imparcialidade. Acima de tudo, a convicção de que Deus estabelecera uma aliança com Israel levou a um
entendimento teológico
ológico do "bem". Como observamos no capítulo anterior, os filósofos gregos associavam
o bem com certos ideais centrados no homem, como o bem-estar
bem estar pessoal e a paz de espírito. Divergindo
deles, os hebreus evitaram com cuidado assentar seu esquema de vida moral em supostas capacidades
morais humanas. Utilizaram, em vez disso, o caráter revelado de Deus. Qualquer concepção do que seja o
"viver bem" que os hebreus possam ter tido, estava sempre ligada à vida sob a aliança com o Deus da
história de Israel.

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A abordagem
bordagem hebraica está expressa de modo claro nas palavras de Jesus: "Busquem, pois, em
primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça, e todas essas coisas lhes serão acrescentadas" (Mt. 6.33).
Nessa breve declaração, nosso Senhor resume a visão hebraica e relega a busca helênica do bem à
condição de derivado de algo ainda mais fundamental: a busca da justiça numa relação com a Fonte de
toda a justiça, o Deus que fez a aliança. Ao estabelecer essa ligação, o AT oferece embasamento teológico
para uma intensaa discussão com a tradição filosófica grega, que alcançaria os pensadores cristãos.

2. OS TEMAS DE SUSTENTAÇÃO: PECADO PESSOAL E JUSTIÇA SOCIAL


Paralelamente ao reconhecimento do Deus que fizera a aliança, havia uma profunda percepção da
talha humana. Paraa os antigos hebreus, o pecado era fundamentalmente a obstinação, ou seja, a recusa de
Israel em viver à altura das responsabilidades contraídas pela aliança. O povo de Israel mostrara-se
mostrara infiel
diante da fidelidade de Deus. Em vez de consagrar
consagrar-se como povo o santo, os hebreus serviram a outros
deuses. Em vez de imitar o Deus justo nos vários relacionamentos com a comunidade, não agiram com
justiça. Como já observamos, as responsabilidades de Israel decorrentes da aliança estavam codificadas na
Lei. Isso sugere
re que os autores sagrados não viam a obediência à Lei em si como o objetivo da existência
humana. Esse objetivo consistia antes em serem fiéis parceiros do Deus que estabelecera a aliança com
eles. O objetivo da Lei era mostrar que a aliança trouxera responsabilidades
responsabilidades para com Deus (e.g., os quatro
primeiros dos Dez Mandamentos) e para com os outros (e.g., os outros seis mandamentos). Tampouco
foram as leis que constituíram Israel como o povo da aliança. Como a própria narrativa bíblica indica, a
relação de aliança entre Israel e Deus precedeu a codificação da Lei. Esse relacionamento criou o contexto
em que a Lei tornou-se se importante. A Lei oferecia orientação para que Israel, na prática, vivesse de acordo
com sua identidade de parceiro de Deus na aliança
aliança.. Por esse motivo, a violação de qualquer lei isolada,
embora prejudicasse a relação entre Deus e Israel, por si só não invalidava a aliança, que dependia
primeiramente da fidelidade de Deus. A compreensão do papel da Lei levou a uma consciência mais
profunda
nda da natureza do pecado, que mais tarde permearia os ensinamentos de Jesus, bem como a ética do
NT. O pecado não é simplesmente a transgressão externa de uma lei: é primeiramente uma mancha
interna. O pecado consiste no coração
cora mal orientado. Por esse motivo,
otivo, depois de terríveis atos de
adultério, trapaça
paça e assassinato, Davi confessou a Deus, que o escolhera como rei de Israel: "Contra ti, só
contra ti, pequei" (SI 51.4). Tendo consciência desde a queda de seu predecessor, Saul, de que Deus exigia
mais que simples obediência externa, Davi reconheceu que seu coração estava manchado e precisava
desesperadamente
mente de renovação: "Cria em mim um coração puro, ó Deus, e renova den dentro de mim um
espírito estável" (v. 10).

O exemplo de Davi sugere que o conceito de existência humana adequada expresso no AT juntava
as dimensões individuais e coletivas da vida. Ao contrário
contrário de muitos cristãos de hoje, os antigos hebreus
tinham um senso aguçado da reciprocidade entre indivíduo e grupo. Viver como o povo da aliança signifi-
cava que cada membro de Israel era parte de um corpo, de uma comunidade. O antigo povo de Deus
caracterizava-se
se por aquilo que Walter Kaiser denomina "solidariedade conjunta". Dito de modo simples,
os indivíduos sabiam que estavam interligados. Por causa dessa solidariedade fundamental, todo o grupo
formava uma unidade (e.g., I Sm 5.10,11), que podia funcionar como um todo por meio de uma única
figura representativa. Igualmente, o que uma única pessoa fizesse afetava o grupo, ora envolvendo todos
no pecado, ora atraindo sobre todos uma bênção. Essa solidariedade conjunta é evidente na reação de
Isaías à visão do Deus santo. Ele não só declarou: "Sou um homem de lábios impuros", mas tam também
confessou: "Vivo no meio de um povo de lábios impuros" (Is 6. 6.5).
5). De modo semelhante, Daniel, quando
suplicava a Deus que honrasse a promessa de restaurar Jerusalém, não só reconheceu os próprios pecados,
mas também apresentou uma extensa lista dos pecados de seu povo, Israel: Ó Senhor, Deus grande e
temível, que manténs
téns a tua aliança de amor com todos aqueles que te amam e obedecem aos teus
mandamentos, nós temos cometido pecado e somos culpados.

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Temos sido ímpios e rebeldes, e nos afastamos dos teus mandamentos e das tuas leis. Não demos
ouvidos aos teus servos, oss profetas (Dn 9.4-6).
9.4 A solidariedade social do AT tem uma dimensão ética que
ultrapassa a unidade fundamental do povo na culpabilidade por suas falhas no cumprimento cum das
obrigações da aliança. Significa que os integrantes da comunidade
comunidade parceira de Deus não alcançariam o
significado de seu verdadeiro ser como indivíduos, e sim como membros da comunidade. Esse entendi- entendi
mento criou um novo nível de responsabilidade recíproca entre o indivíduo
indivíduo e o grupo, como explica
Thomas Ogletree: "Nossa integridade como seres morais não pode ser abstraída da retidão moral da
comunidade à qual pertencemos". Assim, os membros da antiga comunidade da aliança não estavam
unidos apenas no fracasso, mas também na promoção do bem-estar
bem do grupo. Contudo, o indivíduo não se
perdia
ia nesse profundo senso de solidariedade conjunta. A ênfase no povo como um todo era
contrabalançada por uma ênfase igualmente importante no membro individual da comunidade. Segun Segundo o
AT, além de todos serem participantes do grupo, cada membro isoladamente
isolada te estava na presença de Deus,
e essa responsabilidade perante o Senhor fazia de cada hebreu uma pessoa individual.[4] Com Jeremias e
Ezequiel[5], essa perspectiva, que perpassa toda a narrativa bíblica[6], encontrou sua expressão sucinta. A
partir de então, por meio do profeta, Deus manifestou a responsabilidade de cada indivíduo pelos próprios
pecados: "Aquele que pecar é que morrerá" (Ez 18.4).

Essa noção de responsabilidade individual abriu caminho para o conceito dos remanescentes justos
no seio daa nação rebelde. Mesmo que a nação se afastasse de Deus, o fiel Autor da aliança preservaria um
remanescente de pessoas
soas dispostas a obedecer (Ed 9.8; Is 11.11; Jr 23.3; Zc 8.12). Logo no início da
história de Israel, Deus prometeu a Salomão que a ação de alguns poucos fiéis – os remanescentes – seria
benéfica para os muitos desobedientes: "Se o meu povo, que se chama pelo meu nome, se humilhar e orar,
buscar a minha face e se afastar dos maus caminhos, dos céus o ouvirei, perdoarei o seu pecado e curarei a
sua terra" (2 Cr 7.14). O conceito de grupo remanescente, por sua vez, dá origem ao que R. E. O. White vê
como o "pináculo da ética do Antigo Testamento", o sofrimento voluntário de quem não tem culpa como o
meio de regeneração da nação inteira. A idéia do
do sofrimento do inocente a favor do povo encontra sua ex-
ex
pressão mais vigorosa nos poemas do Servo Sofredor de Isaías:

Mas ele foi transpassado


por causa das nossas transgressões, foi esmagado por causa
de nossas iniquidades; o castigo que nos trouxe paz estava sobre ele,
e pelas suas feridas fomos curados.
Todos nós, tal qual ovelhas, nos desviamos, cada um de nós se voltou
para o seu próprio caminho; e o Senhor fez cair sobre ele
a iniqüidade de todos nós (Is 53.5,6).

Isaías talvez não tenha conhecido a identidade desse Justo sofredor. Mas, segundo o NT, esse
Homem sem pecado, que voluntariamente sofre pelo povo e assim traz a regeneração, é Jesus, "o Cordeiro
de Deus, que tira o pecado do mundo". Os primeiros cristãos acreditavam que o Cristo ressuscitado
ressusci
convidava seus seguidores a participar de seus sofrimentos.

4 - H.L.Ellison explica bem essa perspectiva: “O fato é que o conceito popular de indivíduo deriva do pensamento grego mais que dda Bíblia e pode até
ser considerado antibíblico. Tendemos a pensar a respeito de nosso corpo conferindo-nos
nos a individualidade e separando-nos
separando de todos os outros. No AT, é nossa
carne – praticamente ao existe em hebraico uma palavra para ‘corpo’ – que nos liga aos outros seres humanos; o que nos confere a individualidade é nossa
responsabilidade
ade perante Deus” (Ezekiel: The Man and His Message, p.27).
5 - White escreve: “Em Ezequiel, não são nem os pecados nem os méritos dos pais que determinam o destino dos filhos: eles respondem
respond por si
mesmos”. Embora no caminho certo, White exagera quando declara:
de “Este é um marco na ética bíblica”.
6 - Kaiser enfatiza que o antigo consenso de que a solidariedade do grupo predominou até Ezequiel agora está cedendo. Todavia, ele
el equivocadamente
fundamenta o tema do indivíduo no conceito da imago Dei.

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3. O TEMA CULMINANTE: A PERSPECTIVA ESCATOLÓGICA .
O fundamento da ética do AT assentava-se
assentava se na ação pela qual Deus, no passado, constituíra Israel o
povo da aliança. A história, todavia, não terminou naqueles tempos remotos. O antigo povo de Deus
desenvolveu intensa expectativa do futuro. Aos hebreus fora anunciado que Deus atuaria novamente, de
forma gloriosa, em favor da salvação deles. Um dia, declararam os profetas, Deus iria restaurar aquele
povo, que decepcionara seu Parceiro de aliança. Essa restauração, porém, não seria o simples
restabelecimento de alguma época áurea do passado. Em vez disso, os profetas voltavam suas esperanças
para a chegada do Reino perfeito do Deus soberano sobre toda a Terra e para a missão de Israel nesse
Reino. Essa expectativa,
tiva, que se fixava na vinda do Messias, conferiu à ética uma perspectiva escatológica.
A perspectiva escatológica é evidente na insistente chamada profética para uma vida reta no presente com
base na promessa da futura obra de Deus. Poderíamos de fato sugerir que a essência da visão profética era
anunciar as intenções de Deus para o futuro a fim de convocar Israel (e as nações ao redor) a proceder de
maneira ética
tica no presente. A esperança numa futura participação no Reino de Deus tinha graves
implicações éticas. Significava que decisões morais carregavam conseqüências para o futuro. Apenas os
justos poderiam participar da era messiânica (e.g., Dn. 12.2). Conseqüentemente,
Conseqüentemente, os profetas convocavam
a comunidade a levar o tipo de vida apropriado à expectativa que eles tinham do Reino de Deus. Tal modo
de vida poderia até contribuir para uma concepção correta do que era o Reino. A crescente expectativa
escatológica levou
vou à percepção de que a vingança dos justos e o julgamento dos maus por parte de Deus
talvez não acontecessem
sem nesta vida. Talvez o justo descesse à sepultura clamando pela intervenção divina.
Contudo, os profetas nutriam a esperança de que, mesmo não obtendo
obt do uma resposta divina de imediato,
Deus certamente atuaria a favor do povo da aliança no fim dos tempos.

JESUS E A VIDA MORAL


Com seu enfoque escatológico, a ética do AT encerrou-se
encerrou se num tom de esperança. O povo hebreu
aguardava o dia em que Deus agiria de forma decisiva
decisiva em benefício deles. Os remanescentes de Israel
mantiveram viva a esperança,
rança, enquanto procuravam preparar-se
preparar se para o grande Dia. Fiel à promessa, Deus
respondeu a essa expectativa, declararam os evangelistas do NT, enviando
enviando Jesus. O relato da vida, morte,
ressurreição e exaltação de Jesus ocupa o centro da Bíblia. Da mesma forma, esse relato é o âmago da
ética bíblica. Tendo isso em vista, concentraremos nossa atenção na ética de Jesus. Minha preo preocupação
nestes parágrafos não é fazer
zer um levantamento exaustivo de seus ensinamentos éticos, e sim descobrir que
temas estão na base desses ensinamentos, a fim de mostrar como Jesus situa
situa--se na base do fluxo da ética
bíblica. Wolfgang Schräge observa que o critério básico da ética do NT é o ato de salvação de Deus em
Jesus Cristo. Em sintonia com essa observação,
observação, queremos descobrir o fundamento cristológico que nos
permite entender
der o que significa viver como povo da aliança com Deus. De fato, quando o profeta de
Nazaré veio ao mundo, ele não apenas articulou o estilo de vida para o novo povo de Deus: também o
encarnou.

1. O CONTEXTO : JESUS E OS LÍDERES RELIGIOSOS


RE JUDEUS.
Só entenderemos a importância
importância dos ensinamentos éticos de Jesus se considerarmos o contexto de
sua interminável discordância
dância com os mestres religiosos de seu tempo, especialmente os escribas e
fariseus, acerca do que significava viver em aliança com Deus. Ernst Käsemann resume a situação de
forma comovente: "Jesus [...] foi além da espiritualidade e da teologia de seus contemporâneos
co e
substituiu a Lei mosaica pela promessa e pelo amor de Deus; a casuística, pelo legado do Espí
Espírito; e as
obras, pela graça". Essa discordância logo levou os líderes judeus a atacar o ministério de Jesus,
resultando na decisão de provocar sua morte. Apesar do que Käsemann infere, Jesus e seus inimigos não
discordavam sobre a importância fundamental da Lei como apresentada nas Escrituras hebraicas para
orientar a vida no seio da comunidade da aliança. Divergiam, porém, sobre as implicações das Escrituras
sobre o modo de viver como povo de Deus e sobre a natureza da vontade divina, como ressalta Eduard
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Lohse: "Jesus não pensou em questionar a validade da Lei, mas atacou a hipocrisia dos que supunham ter
feito o suficiente quando apenas respondiam
respon m às exigências da Lei por meio de uma interpretação
casuística". Conseqüentemente,
seqüentemente, Jesus procurou esclarecer seus ouvintes acerca da natureza da justiça, do
propósito de Deus na transmissão da Lei e da melhor maneira de interpretá-la.
interpretá la. Resumindo, Jesus pretendia
pr
corrigir os ensinamentos errados
dos de seus opositores acerca do que caracteriza a postura ética apropriada ao
Deus da aliança. Nosso Senhor discordava dos líderes judeus de seu tempo acerca de quem era de fato o
povo de Deus. Os fariseus e escribas viam a si mesmos como pessoas realmente justas e do agrado de
Deus. Consideravam-se se justos porque só eles obedeciam aos rigores da devoção judaica e observavam a
Lei ao pé da letra. Jesus, ao contrário, proclamava que o povo de Deus não é constituído dos qque parecem
justos, e sim dos que demonstram arrependimento. Deus aceita os que se humilham e clamam por
misericórdia e rejeita os orgulhosos que declaram não precisar de perdão. Numa parábola comovente,
Jesus acentua essa discordância. Contrastando com o fariseu
fariseu que se exaltava em sua oração supostamente
espiritual, o cobrador
dor de impostos nem sequer conseguia olhar para cima, mas humildemente implorava:
"Deus, tem misericórdia de mim, que sou pecador". Jesus chega a uma conclusão contundente: "Eu lhes
digo que este homem, e não o outro, foi para casa justificado diante de Deus. Pois quem se exalta será
humilhado, e quem se humilha será exaltado" (Lc 18.14).

Isso demonstra que a preocupação de Jesus sistematicamente ia além da simples discussão sobre
acerto e erro em ações isoladas. Ele preferia falar sobre o agente, pois sua primeira consideração aqui não
diz respeito ao que se deve fazer, mas sim a quem o faz. Um exemplo oportuno é a resposta de Jesus ao
perito na Lei que lhe perguntou: "E quem é o meu próximo?"
próximo?" (Lc 10.29). O objetivo do autor da pergunta
era determinar os limites do círculo daqueles a quem ele deveria amar. Jesus, porém, preferiu não se
envolver nesse tipo de casuística. Por meio da parábola que passou a contar, inverteu a direção da
pergunta.
nta. O ponto crucial não é: "Quem é o meu próximo?", e sim: "Para quem posso ser o próximo?".

Jesus também discordava de seus contemporâneos acerca do mérito humano hu e da recompensa


divina. Muitos judeus de sua época acreditavam que Deus recompensaria os que obedecessem
rigorosamente às normas estabelecidas
estabelecidas na tradição religiosa judaica. Conseqüentemente, determinavam
com rigor
gor as exigências e proibições da Lei e submetiam-se
submetiam se como escravos a rigores por eles mesmos
inventados. Supunham que desse modo estariam
estariam atraindo o favor divino." Jesus negou que os seres
humanos pudessem exigir de Deus o que quer que fosse. Não podemos tornar tornar-nos credores de Deus, ele
declarou. Tampouco podemos esperar merecer os favores de Deus pelo que fazemos. Por maiores que
sejam
m nossos esforços, jamais nos tornaremos justos aos olhos de Deus; "Se a justiça de vocês não for
muito superior à dos fariseus e mestres da lei, de modo nenhum entrarão no Reino dos céus" (Mt 5.20).
Contudo, a mensagem
gem de Jesus não elimina a esperança. Podemos
Podemos ser justos, uma vez que Deus nos
concede livremente seus favores por pura graça incondicional. A justiça de Deus é uma dádiva inefável.

No centro da interação de Jesus com seus opositores, estava a discordância acerca da intenção da
Lei. Os líderes religiosos judeus davam-se
davam por muito satisfeitos
feitos com ações exteriores, acreditando que
Deus exigia meticulosa conformidade dade com os padrões de conduta estabelecidos na Lei. Jesus, porém, não
estava disposto a restringir-se
se à conduta externa. Em vez disso, seus ensinamentos penetravam até o cerne,
até a dimensão interior da existência humana. Não é o desempenho público, mas a pessoa por trás da
fachada visível que tem importância
tância fundamental. Não é a mera conformidade exterior com a Lei, mas a
obediência interior
nterior que caracteriza o verdadeiro temor a Deus. Jesus preocupava-se
preocupa primeiramente com o
caráter, a motivação e o coração. A preocupação de Jesus com o coração nasceu de sua reveladora
percepção de que a fonte da maldade está dentro da pessoa. A menos que que esse problema "interior" seja
sanado, a obediência "exterior" não resiste muito tempo: "Considerem:
"Considerem: Uma árvore boa dá fruto bom, e
uma árvore ruim dá fruto ruim, pois uma árvore é reconhecida por seu fruto" (Mt 12.33).

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Jesus também tinha consciência da
da misteriosa inclinação do ser humano a enganar-se
enganar a si mesmo. É
possível que eles realmente acreditassem estar obedecendo à Lei, mesmo que externamente dessem a
impressão de não haver entendido sua intenção. Ou, pior ainda, talvez deliberadamente desobedecessem
desobede à
Lei, mesmo que externamente
mente dessem a impressão de viver de acordo com ela. Jesus acusou os fariseus
desse tipo de desobediência ao espírito do quinto mandamento, por exemplo ("Honra teu pai e tua mãe").
Eles estavam dispostos a abolir a responsabilidade
responsabilidade dos filhos em prover o sustento dos pais, declarando
que os recursos financeiros
ros separados para eles, os fariseus, eram Corbã, isto é, "uma oferta dedicada a
Deus" (Mc 7.11). Não surpreende que Jesus muitas vezes tenha lamentado que as ações apare aparentemente
impecáveis dos fariseus e escribas escondiam um coração frio, duro e ardilosamente mau. Ele aplicou as
palavras de Isaías a seus contemporâ
contemporâneos:
neos: "Este povo me honra com os lábios, mas o seu coração está
longe de mim" (Mc 7.6). Acima de tudo, porém,porém, Jesus sabia que a obediência interior, e não a con-
con
formidade exterior à Lei, caracterizava o verdadeiro temor a Deus, porque a intenção divina era criar
relacionamentos corretos. O Autor da aliança desejava
desejava estabelecer um relacionamento de pessoa para
pessoa com o povo da aliança.ça. A mera obediência às leis não podia mediar esse relacionamento. Talvez
isso estivesse perto do âmago do que Jesus estava tentando comunicar aos fariseus e escribas de sua
época. O Mestre enfatizava que a fidelidade aos complicados
com icados desdobramentos da Lei que os líderes
religiosos lhe apresentavam não era o que interessava a Deus.

Deus não buscava a rigorosa recusa em percorrer mais que certa distância no sábado, por exemplo.
Honrar o sábado podia ser um meio válido de expressar
ex ar a sinceridade que Deus desejava. Mas o que o
Autor da aliança queria mesmo era parceiros com o coração voltado para Deus, que, portanto, refletissem
refle
o coração divino em todos os seus relacionamentos. Finalmente, Jesus discordava de seus contemporâneos
sobre o fundamento teológico da vida ética. Os líderes religiosos judeus que ele conheceu honravam
honra o
Deus como o Legislador divino. Deus era a origem da Lei. Deus confiara
confiara a Moisés as tábuas no monte
Sinai. No entendimento deles, a vida ética consistia na na tentativa de agradar ao Legislador por meio da
obediência à Lei divinamente transmitida. Jesus foi além desse conceito. Proclamou que Deus é o Pai
celestial e que conhecê-lolo é confiar nele, amá-lo
amá e obedecer-lhe lhe com alegria no coração. Agindo assim,
Jesuss mudou a direção da vida ética. Sendo o Pai o Deus de toda a bondade e verdade, a vida ética nasce
de um relacionamento íntimo com esse Deus, e não da obediência servil a normas intermediárias entre
Deus e os homens.
mens. Jesus convidou outros a compartilhar sua confiança nos favores divinos para com a
humanidade, que Deus já mostrara livremente. Podemos dizer que, para Jesus, a vida ética surge como
nossa resposta à demonstração de amor, graça e favor de Deus para conosco, mais do que tentativa de
conquistar os favores divinos por meio de atos de obediência. E essa resposta consiste acima de tudo na
busca do Reino de Deus e sua justiça. Agindo assim, as pessoas descobrirão que Deus já lhes deu
livremente tudo aquilo de que elas realmente necessitam. Nos debatess com seus opositores, Jesus não
tentava demonstrar a verdade de sua posição pela análise lógica. Em vez disso, fixava-se
fixava no apelo que a
verdade moral exerce sobre o coração. Procedia firmado na pressuposição de que a verdade acharia o
caminho até o coração o dos que estivessem dispostos a crer. Para isso, ele repetidas vezes utilizou-se
utilizou de
histórias e parábolas, preferindo-as
as aos silogismos e aos complicados exercícios intelectuais.

2. A ÉTICA DO REINO.
Jesus ponderou os ensinamentos dos líderes religiosos de seu tempo e descobriu que eram
deficientes. Mas o que ele apresentou em seu lugar? Que tipo de ética ele propôs? A maioria dos
estudiosos reconhece que no centro do ministério de Jesus estava o anúncio do Reino de Deus, que
marcou a inauguração de uma época escatológica (e.g., Mc 1.14). Isso sugere que, além de tudo mais,
nosso Senhor apresentou uma ética do Reino. Segundo L. H. Marshall, "todo o ensinamento ético de Jesus
é simplesmente uma exposição da ética do Reino de Deus".

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APOSTILA DE ÉTICA CRISTÃ
Seus ensinamentos falavam am de como as pessoas "inevitavelmente se comportam quando de fato
sujeitam-se
se ao domínio de Deus". R.E.O.White sugere que a articulação da ética do Reino de Jesus foi sua
única contribuição para o pensamento ético. Os Evangelhos sinópticos apresentam a missão
mi de Jesus como
primeiramente
mente dirigida ao Reino de Deus. Na base de tudo o que ele disse e fez, portanto,
por estava a idéia de
que Deus atuava em benefício do povo da aliança. O Reino de Deus estava próximo. Em sua plenitude, o
Reino ainda era futuro, poisis se manifestaria universalmente na chegada do Filho do homem. Todavia,
Jesus ensinou que o Reino de Deus estava, apesar de tudo, presente: já era possível ingressar nele (Mt
11.12). Portanto, a mensagem do Reino – da graça de Deus na história humana – pedia uma resposta.
Jesus declarou que a entrada no Reino se dava por meio de arrependimento e fé (Mc 1.15), resulresultando em
uma mudança de coração e vida. Essa mudança implicava a total dedicação a Deus, mais que mero zelo
legalista. Esse enfoque tinha implicações
implicações éticas. Para Jesus, o viver bem não é a busca da felicidade, e sim
a busca do Reino de Deus (Mt 6.33). Viver bem equivale a ter a vida sob o reinado de Deus ou segundo a
vontade do Rei. Até a ordem de nosso Senhor "Creiam nas boas novas [ou no evangelho]"
evang continha um
aspecto ético: os que atendessem ao apelo deveriam ser governados pelo evangelho. Assim, a bondade
começa no coração, que é a fonte das ações (Mc 7.21; Lc 6.45). Pensando nisso, Rudolf Schnackenburg
conclui: "A verdadeira razão da obrigação
obrigação moral é a ação salvadora de Deus perceptível na vinda e na
atividade de Jesus, sua revelação da redenção, que é ao mesmo tempo histórica e escatológica e garante a
realização plena que está por vir".

De acordo com Jesus, ser seu discípulo significava participar do Reino do Rei celestial. A vida sob
sua soberania implicava não apenas uma nova maneira de pensar, mas também uma conversão radical que
levava à obediência voluntária
tária à vontade do Pai, em parte revelada nos mandamentos de Jesus. Por isso, o
Mestre ensinou seus discípulos a orar: "Venha o teu Reino, seja feita a tua vontade, assim na terra como
no céu" (Mt 6.10). Jesus resumiu a vontade do Rei no duplo mandamento do amor, que Rudolf
Schnackenburg afirma ser "o cerne e o ápice de toda a doutrinadoutrin moral".
ral". Resumir todo o AT no
mandamento de amar a Deus e ao próximo talvez seja a peculiaridade distintiva da mensagem de Jesus.
Em todo caso, para ele o princípio central da ética do Reino é o amor sincero a Deus e ao próximo. Os
cidadãos do Reino são aqueles que amam a Deus de coração e amam aos outros como a si mesmos. Tal
amor, porém, não é mero afeto interior. Ao contrário, envolve o serviço humilde a Deus e ao próximo.

Jesus prescreveu uma ética para uma comunidade que vivia na expectativa do futu futuro escatológico e
tivera a experiência de viver já naquela época o começo desse futuro. A vida no Reino afeta todos os
aspectos dos relacionamentos
namentos humanos. Por isso, Jesus falava de instituições sociais como casa casamento e
divórcio. Os cidadãos do Reino tatambém
mbém devem achar sua segurança em Deus, e não nos bens materiais.
Os que buscam o Reino de Deus também
também provarão o cuidado do Soberano (Mt 6.33). A riqueza, por sua
vez, não é a chave para se viver bem. Ao contrário, ela traz perigos. Por isso Jesus ensinava
ensina que, mais que
um trunfo, a riqueza pode realmente ser um empecilho
empecilho à participação no Reino. Em nenhum ponto isso
fica mais evidente do que no caso do jovem rico que rejeitou a Jesus por dar mais valor às riquezas que à
participação no Reino (19.16-22).
22). Sobre isso, observou Jesus: "É mais fácil passar um camelo pelo fundo
de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus" (v. 24). A interação de Jesus com o jovem traz- traz
nos à mente outra dimensão da ética do Reino. "Se você quer ser perfeito", disse nos
nosso Senhor, "vá, venda
os seus bens e dê aos pobres, e você terá um tesouro nos céus. Depois, venha e siga-me"
siga (v. 21). A ética
do Reino exige a assistência aos necessitados. O desejo do Rei é que os que foram por ele abençoados
com bens materiais usem essass dádivas em benefício dos outros.

3. UMA ÉTICA PARA A FAMÍLIA


FAMÍ DE DEUS.
Jesus declarou que o Rei de cujo Reino seus seguidores são cidadãos não é nenhum tirano distante.
Ao contrário, esse Rei é nada menos que o próprio Pai celestial de Jesus e, conseqüentemente,
conseqüe também o

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Pai amoroso deles. Mais ainda, a mensagem do Reino de Jesus exigia arrependimento e fé da parte dos
ouvintes (Mc 1.15). Mas essa resposta implicava o abandono da hipocrisia e a humilde aceitação da
graciosa providência de Deus – recebendo
recebendo o Reino como criancinhas, vendo nele uma dádiva imerecida
(Mt 18.1-5; 5; Mc 10.15; Lc 18.17). Assim, a mensagem do Reino com sua convocação ao arrependimento e
à fé logo desembocou na idéia de que o discipulado envolvia a entrada numa nova família, "nascen
"nascendo de
novo" (Jo 3.1-8).8). Por meio do novo nascimento – "nascendo de Deus" –,, os discípulos de Cristo haviam-se
haviam
tornado filhos de Deus (Jo 1.12,13). De acordo com essas considerações, podemos ver os ensinamentos
éticos de Jesus da perspectiva da participação na família de Deus. Essa perspectiva sugere que Jesus
proclamou uma ética para a família de Deus. Segundo Jesus, o fundamento da verdadeira vida está em
fazer parte de uma família como filhos daquele que ele chamou "Aba" (Pai). De acordo com Jesus, a
participação
icipação na família de Deus traz certos privilégios.
privilégios. Acima de tudo, os filhos de Deus podem depositar
sua confiança na bondade do Pai. Uma fé igual à das crianças no amoroso Pai celestial formava o contexto
dos ensinamentos de Jesus sobre os bens materiais
materiais e a riqueza aqui na Terra. Somente os tolos se
vangloriam do acúmulo de bens materiais como sua fonte de segurança, disse ele (Lc 12.13 12.13-21). Em vez
disso, tomando o exemplo plo das aves do céu e das flores do campo, os filhos de Deus voltam-se
voltam para o Pai
celestial,
lestial, que cuida deles e graciosamente lhes supre as necessidades (Mt 6.24-
6.24-34).

A confiança no Pai deveria igualmente levar os discípulos de Jesus a orar de um modo novo. Os
fariseus ofereciam orações elaboradas como um ato de devoção ou sinal de justiça (e.g., Mt 6.5). Os filhos
de Deus, ao contrário, oram a fim de se unirem à fonte inesgotável do amoroso Pai celestial (Mt 7.9-11).
7.9
Jesus ensinou que a participação na família de Deus tinha implicações éti
éticas.
cas. Na base dessa ética, estava o
princípio de que ser membro de uma família envolve semelhanças familiares. De modo similar ao enfoqueenf
do AT na imitaçãoção de Deus, Jesus exortava seus discípulos a serem parecidos com o Pai celestial, assim
como as crianças naturalmente se parecem com os pais terrenos. Por exemplo, ele mencionava o amor de
Deus pelos injustos para desafiar os ouvintes
ou a uma ética de amor ilimitado: "Amem os seus inimigos e
orem por aqueles que os perseguem, para que vocês venham a ser filhos de seu Pai que está nos céus.
Porque ele faz raiar o seu sol sobre maus e bons e derrama chuva sobre justos e injustos" (Mt 5.44,
5.44,45; v.
Lc 6.32-36).
36). De fato, os membros da família deveriam ser como o Pai deles em tudo: "Sejam perfeitos
como perfeitoto é o Pai celestial de vocês" (Mt 5.48). Birger Gerhardsson ressalta a natureza radical dessa
injunção. Nosso Senhor exigia que o discípulo
discípulo fosse "completo, incólume, indiviso e irrepreensível na
atitude de seu coração e, conseqüentemente,
conseqüentemente, em todas as suas ações [...] perfeito' ”. A semelhança
estendia-se
se também aos irmãos. Como filhos de um Pai comum, os discípulos de Jesus deveriam entenderente
que eles formavam um grupo único. Por serem uma família, os seguidores de Cristo deveriam tratar-se tratar
mutuamente como irmãos e irmãs. Mas esse princípio de solidariedade familiar
familiar ia além da mera troca de
gentilezas. Em última análise, a ética familiar exigia a participação na família em si. Por isso, o ideal
moral de Jesus só poderia
ria ser de fato realizado em comunidade. Os discípulos de Jesus só poderiam viver
como seus verdadeiros seguidores num relacionamento com outras pessoas.
pessoas. Eles punham a ética cristã em
prática pela convivência.

Portanto, a participação na família de Deus deveria criar uma solidariedade especial entre os
discípulos de Jesus. Ele ordenou que seus seguidores amassem uns aos outros. De fato, baseando-se
baseando no
próprio AT, nosso Senhor considerou o amor ao próximo abaixo apenas do amor a Deus (e.g., Mt 22.27-
22.27
40). O amor familiar, porém, era mais que simples emoção. Consistia numa forte lealdade natural, o
compromisso de permanecer unidos uns com os outros, como quem faz parte de um mesmo mesm corpo. A
solidariedade familiar também encerrava o dever de perdoar. Aqui mais uma vez os discípulos seguiam o
exemplo do Pai celestial. Assim como Deus lhes perdoara uma grande dívida, eles também deveriam
perdoar as dívidas uns dos outros, que, comparativamente,
compara mente, são minúsculas (Mt 18.21-35).
18.21

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Essa solidariedade familiar teria implicações de longo alcance para os relacionamentos
relacio humanos. A
ética de Jesus exigia que seus seguidores vissem a participação
participação na família divina com a máxima seriedade.
Seus discípulos
cípulos já não deveriam seguir o padrão do AT, que encarava a família física como o vínculo
humano mais estreito. Jesus ensinou que mais importantes que os antepassados físicos e nossos pais são os
antepassados espirituais – o nosso Pai celestial (e.g., Lc 3.7,8; Jo 8.31-59).59). Em conseqüência disso, a
família primeira dos discípulos já não dependia de laços terrenos de parentesco, uma vez que nenhum
outro relacionamento
mento deveria competir com a qualidade de membro da família de Deus. O relacionamento
fundamentaltal dos participantes da família celestial deveria ser entre os discípulos e Deus e, por extensão,
entre eles mesmos. Jesus, portanto, advertia seus ouvintes: "Quem ama seu pai ou sua mãe mais do que a
mim não é digno de mim; quem ama seu filho ou sua filha filha mais do que a mim não é digno de mim" (Mt
10.37). Contudo, ele prometeu a seus discípulos leais uma família espiritual maior, para compensar a
perda implícita no abandono da família natural por causa da condição de discípulo: "Digo-lhes a verdade:
Ninguém m que tenha deixado casa, irmãos, ir irmãs,
mãs, mãe, pai, filhos, ou campos, por causa de mim e do
evangelho, deixará de receber cem vezes mais, já no tempo presente [...] e, na era futura, a vida eterna"
(Mc 10.29,30). O que o Mestre exigia de seus seguidores, ele mesmo praticava. Ele tam também abandonou a
família para obedecer à vontade do Pai. Em vez de ligar-se
ligar se à mãe e aos irmãos naturais, considerava sua
verdadeira família "quem faz a vontade de meu Pai que está nos céus" (Mt 12.50). Embora centrada na
família de Deus, a ética de Jesus não terminava nesse ponto. Ao contrário, conduzia a uma preocupação
mais ampla. Os discípulos estavam compromissados com a obra divina da reconciliação. Do mesmo modo
que eles provaram a paz, recebendo os favores de Deus sem merecê-los,
mere los, assim também deveriam almejar
tornar-se
se pacificadores. Por isso Jesus declarou: "Bem-aventurados
"Bem aventurados os pacificadores, pois serão chamados
filhos de Deus" (Mt 5.9).

4. UMA ÉTICA DA IMITAÇÃO .


Ver os ensinamentos de Jesus como a apresentação de uma ética ética para a família de Deus conduz a
outra perspectiva. Os ensinamentos éticos de Jesus deram origem à ética da imitação: os discípulos
deveriam imitar seu Mestre. Agindo assim, estariam realmente imitando Deus. R.E.O. White afirma que
essa perspectiva é "noo cristianismo o princípio que mais se aproxima de uma verdade moral absoluta",
pois ela "continua sendo o cerne da ética cristã". Mas a determinação de quais sejam exatamente as im- im
plicações da imitatio Christi [imitação de Cristo] exige mais reflexão. Ao longo de seu ministério, Jesus
indicou o próprio exemplo como modelo de vida ética. Além de oferecer-lhes
oferecer lhes seus ensinamentos, orientou
os discípulos a observar sua conduta pessoal. Assim, desafiou-os
desafiou os à prática do amor recíproco
recípro seguindo o
modelo de seu amor or por eles (Jo 13.34; 15.12). Aconselhou-os
Aconselhou os igualmente a obedecer ao Pai celestial
conforme seu exemplo de submissão à vontade do Pai, que chegaria ao extremo de levá levá-lo à cruz.[7] Nosso
Senhor dramatizou ou exemplificou a vida que desejava para seus discípulos servindo
servindo-se de certos atos
simbólicos. Talvez nenhum desses gestos
gestos seja mais tocante que a ocasião em que ele lavou os pés dos
discípulos (Jo 13.1-11).
11). Na Palestina do século I, era habitual o anfitrião colocar um servo junto à porta
para lavar os pés dos hóspedes que iam chegando após uma jornada pelas ruas poeirentas da cidade.
Naquela noite, no salão do piso superior,
superior, nenhum servo aguardava Jesus e seus amigos junto à porta. Da
parte deles, os discípulos estavam preocupados demais discutindo entre si para saber qual deles era o
maior, e ninguém pensou nessa tarefa inferior (Lc 22.24). Então Jesus levantou-se
levantou da mesa, cingiu-se de
uma toalha e, um por um, lavou os pés daqueles homens briguentos. Ao terminar a tarefa, anunciou a
natureza simbólica
ica de seu ato: "Pois bem, se eu sendo Senhor e Mestre de vocês, lavei-lhes
lavei os pés, vocês
também devem lavar os pés uns dos outros. Eu lhes dei o exemplo, para que vocês façam como lhes fiz"
(Jo 13.14,15).

7 - Os estudiosos
tudiosos não hesitam em apontar João como o primeiro evangelho em que emerge a idéia da imitação. Mas esse tema também fica evidente
e
nos Evangelhos sinópticos.

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APOSTILA DE ÉTICA CRISTÃ
Todavia, a ética da imitação não se completava quando
quando o discípulo seguia o exemplo de Jesus. A
motivação final da vida ética situa-se
situa além do mero pautar-se se pela conduta exemplar de um grande líder.
Ela nasce do tipo de devoção que vinculava os discípulos ao Senhor no nível pessoal mais profun
profundo: eles
eram
am devotados a Cristo. Isso produzia uma conformidade cada vez maior com seu Senhor. O próprio
Jesus apontou nessa direção. Depois de lavar-lhes
lavar lhes os pés no salão do piso superior, ele não os aconselhou
a simplesmente amar como eles o tinham visto amar. Em vvez ez disso, estas foram suas palavras: "Como eu
os amei, vocês devem amar-se se uns aos outros" (Jo 13.34). Eles deveriam amar como ele os havia amado,
isto é, da maneira em que, em relação a cada um deles, ele provara pessoalmente seu amor, de modo
direto. O ideal
deal moral de Jesus incorporava não apenas um exemplo que seus seguidores haviam obser- obser
vado. E, mais importante, era uma qualidade que eles haviam provado. Eles conheciam por experiência
direta o amor de seu Mestre. Esse conhecimento podia produzir sentimentos
sentimentos sinceros de amor e devoção.

O objetivo da devoção supriu a base racional fundamental para a ênfase de Jesus na interioridade. A
conduta flui do caráter, ensinava ele, mas o verdadeiro
verdadeiro caráter nasce da devoção. De fato, a devoção ao
Mestre tornou-se a fonte para o desenvolvimento de um caráter semelhante ao dele em seus discípulos.
Em breve, os seguidores de Jesus não seriam mais motivados a seguir seu Senhor pela admiração da
pessoa histórica que realizara alguns grandes feitos. Em vez disso, o disci
discipulado deles decorreu da
gratidão e do amor pessoal para com aquele cujo amor haviam provado. Esse discipulado abriu caminho
para o enfoque do NT na união e na conformidade com Cristo. A ética da devoção oferece uma ligação
entre Jesus e seus discípulos em todos os tempos. A dinâmica da devoção significa que já não nos
situamos fora da história bíblica. Ao contrário do que acontece quando observamos a trama de um bom
romance ou até mesmo quando acompanhamos a biografia biografia de um grande herói, não somos meros
observadores
bservadores alheios à narrativa do evangelho. Somos, isto sim, participantes no drama do evangelho,
alguém que recebeu o amor de Cristo exatamente como aconteceu com os primeiros cristãos. Fomos
tocados diretamente não apenas pelo ideal moral incorporado por por Jesus, mas pelo próprio Senhor
ressuscitado. Conseqüentemente, não nos limitamos a admirar Jesus como talvez admiremos
admi outras
figuras históricas como Gandhi, Albert Schweitzer ou Madre Teresa. Não nos limitamos a tirar de sua
biografia inspiração ou um modelo de vida como poderíamos fizer com outras personalidades históricas.

A ética cristã não vê em Jesus apenas um exemplo histórico digno de imitar. Não vemos nele apenas
o protagonista de uma história ocorrida em tempos distan
distantes,
tes, com a possibilidade
possibilidad de refletir sobre sua vida
e assim aprender com ele. Mais propriamente, ele nos amou e sacrificou-se
sacrificou se por nós. Diante dessa expe-
expe
riência pessoal de amor, somos compelidos a corresponder com amor e gratidão. grati Assim, mais que
simplesmente pautar nossa vida pela biografia de Jesus, estabelecemos com ele um relacionamento. Nesse
relacionamento, almejamosmos viver como Cristo gostaria que vivêssemos, isto é, desejamos ter Cristo
formado em nós. A ética da devoção tem caracterizado os cristãos através dos tempos. Os seguidores de
Cristo têm sistematicamente estabelecido diferenças entre outras
ou pessoas-modelo
modelo (como os patriarcas, os
apóstolos e os mártires), cuja memória eles trazem no coração, e Jesus Cristo, que por meio de seu
Espírito fez morada em nosso coração.
coração. Assim o etos cristão intensificou e personalizou
personali o conceito bíblico
da presença de Deus no meio de seu povo. A presença divina nada mais é do que uma realidade interior do
Senhor Jesus Cristo mediada
diada pelo Espírito Santo. Do mesmo modo, a ética da devoção
devo a Jesus forma a
ponte mais direta para a ética veterotestamentária da imitação de Deus. O fundamento dessa ligação está
na missão dt Jesus como o Filho bem
bem-amado
amado em quem o Pai se agrada (Mc 1.11). Dotado com o Espírito
divino, Jesus revelou o caráter doo Deus santo, que é amoroso, misericordioso e compassivo. Assim, ele
encarnou a vida divina. Em conseqüência disso, Cristo serve de modelo para todos os seres humanos
viventes. Derramando o Espírito sobre seus seguidores, o Senhor Senhor ressuscitado conferiu-lhes
conferiu por sua
intermediação a dinâmica divina que lhes possibilitou a imitação do Deus revelado em Jesus de Nazaré.

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“P REPARANDO OS SANTOS PARA O EXERCÍCIO DO MINISTÉRIO ”


APOSTILA DE ÉTICA CRISTÃ
A ÉTICA DA IGREJA PRIMITIVA: O EXEMPLO DE PAULO
"Se os ensinamentos éticos de Jesus são uma nova e inexaurível fonte de inspiração moral,
alimentada
entada pelos profundos reservatórios da longa experiên
experiência
cia de Israel", comenta R. E. O. White, "então
a ética apostólica representa a canalização daquele fluxo renovável para terras mais distantes". De fato,
exatamente
mente como a ética de Jesus serviu
serviu-se do repositório
epositório de Israel e do AT, assim também os
ensinamentos do Mestre formaram o alicerce sobre o qual construíram
construíram os autores do NT. À medida que o
evangelho foi ultrapassando as fronteiras
fronteiras da Palestina, os primeiros cristãos depararam com a seguinte
questão:
tão: "O que significa ser discípulo de Jesus de Nazaré e assim reconhecer o Deus de Israel no
contexto de um mundo pagão?". Em resposta, eles canalizaram o fluxo decorrente da vida do próprio
Mestre para a tarefa do discipulado dentro
den daquele novo contexto. O apóstolo Paulo não foi, naturalmente,
o único entre os primeiros líderes cristãos a refletir sobre a importância da vida, morte e ressurreição de
Jesus, para quem vive como o povo da nova aliança. Contudo, ele apresenta-se
apresenta como o exemplo mais
influentee e impressionante dentre os que assumiram esse desafio.
desafio. Por essa razão, concentrarei minha
atenção na orientação fundamental para a vida cristã que emerge de seus escritos a fim de analisar o
enfoque cristológico de Paulo ao que ele entendia ser a maneira
maneira cristã de viver — isto é, ao que podemos
chamar "ética" ou "vida moral".

SALVAÇÃO: A BASE DA VIDA MORAL .


A ética da igreja primitiva surgiu da firme crença de que em Cristo o Deus de Israel, o Autor da
aliança, agira em favor da humanidade. O plano glorioso de Deus para os tempos futuros agora se ma-ma
nifestava, e esse plano cósmico centrava-se
centrava se em Jesus. Seu objetivo era chamar um povo dentre todas as
nações, um povo que pertenceria a Deus. A ética do NT nasceu da preocupação dos primeiros discípulos
em
m viver à luz da ação gloriosa de Deus como parceiros de sua aliança escatológica. Segundo Paulo, a
ação poderosa de Deus foi fundamentalmente soteriológica. Deus agira para a salvação humana. Essa ação
gloriosa emergia no contexto da falha moral humana e do pecado. Os homens haviam-se
haviam tornado presas do
pecado que, como um poder externo, os prende em suas garras perversas, instila neles uma hostilidade
contra Deus e os deixa impotentes para remediar essa situação (Rm 7.14
7.14-24).
24). Em meio à falha moral e à
depravação
avação humana, porém, Deus agira de modo definitivo. Tal ação divina mostrava a própria justiça de
Deus: "No evangelho é revelada a justiça de Deus" (Rm 1.17; v. 3.21).

Deus confirmou sua justiça, declarou Paulo, demonstrando fidelidade definitiva à aliança
alia (e.g., Rm
9—ll).
ll). Por isso, a ética paulina foi radicalmente teológica; nasceu da consciência de que toda a vida e todo
o ser da pessoa dependem do poder soberano e redentor de Deus. Embora a demonstração da justiça de
Deus envolva o julgamento do pecado pecado humano (Rm 1.18), seu enfoque, para Paulo, é Cristo, e por meio
de Cristo ela está centrada no Espírito Santo. Esse enfoque começa no passado, com a história de Jesus,
que compartilhou a condição humana. Papel central nessa narrativa tiveram a cruz e a ressurreição. Ao ser
crucificado, Cristo assumiu o pecado para que os seres humanos pudessem reconciliar-se
reconciliar com Deus. Em
sua ressurreição, ele deu a seus seguidores a possibilidade de uma vida nova. J. Paul Sampley ressalta a
importância da cruz para o apóstolo:
stolo: A morte e ressurreição de Jesus Cristo é o ponto de referência básico
no mundo do pensamento de Paulo. Ele vê o passado, o presente e o futuro à luz desse acontecimento
central. Para o apóstolo, os cristãos referem-se
refe à morte e ressurreição de Cristo
to como elemento formativo
em seu passado. Para Paulo, a salvação vem do passado e estende-se
estende se até o presente. Como conseqüência
da cruz e da ressurreição, os seguidores de Cristo desfrutam uma nova dinâmica moral dentro de si
mesmos — o Espírito Santo, que é o Espírito rito de Cristo. Por meio do Espírito, portanto, Cristo está
presente em seus seguidores. E, por causa do Espírito de Cristo que neles habita, eles estão unidos com
Cristo em sua morte e ressurreição (Rm 6.1-14).
6.1 De acordo com Paulo, o horizonte da d salvação vai além
do presente. De fato, o presente tem sua importância por ser o tempo entre o passado e o futuro. Na morte
e ressurreição de Cristo, o novo aeon surgiu. Mas o antigo aeon continuará em ação até a futura parousia
IETEV
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“P REPARANDO OS SANTOS PARA O EXERCÍCIO DO MINISTÉRIO ”


APOSTILA DE ÉTICA CRISTÃ
de Cristo, ou seja, até seu retorno
no glorioso. Enquanto isso, a forma presente do mundo está
está-se escoando, e
a nova criação já começou. A salvação forma o grande "indicativo" no pensamento de Paulo: o Deus que é
fiel aos planos divinos tem atuado em Cristo a favor da humanidade pecado pecadora e por meio dele tem
derramado o Espírito Santo no coração daqueles que estão "em Cristo". Os que morreram com Cristo
ressuscitarão um dia com ele. O grande indicativo forneceu a base para o "imperativo" indissoluvelmente
ligado a ele. Os cristãos devem
vem agora viver em sintonia com a salvação escatológica que receberam. Seu
comportamento deve revelar a nova vida que Deus, por sua graça, lhes concedeu e que um dia lhes
pertencerá em sua plenitude.
tude. Na condição de ressuscitados com Cristo, eles já podem viver "uma vida
nova" (Rm 6.4). Portanto, Paulo intimava seus leitores a viver na luz do dia que há de vir (e.g., Rm 13.1 1-
1
14; ICo 7.29-31).
31). Dessa maneira, o destino final (eschaton) lança seus raios de luz sobre o presente e se
torna claro no "já agora" da vida moral da comunidade dos que crêem.

SEMELHANÇA COM CRISTO : O OBJETIVO DA VIDA MORAL .


Em certo sentido, o imperativo
rativo paulino é simplesmente um conselho para os que estão "em Cristo",
a fim de que vivam de modo coerente — como os que estão "em Cristo". o". O imperativo moral de viver "em
Cristo" sugere que na visão de Paulo a vida cristã é uma dinâmica. Ela envolve, usando as palavras
endereçadas aos colossenses, "Cristo em vocês, a esperança da glória" (Cl 1.27). O imperativo moral
paulino enfoca uma realidade
alidade radicalmente nova. Muito mais que a simples reordenação de características
de uma vida anterior, estar "em Cristo" envolve uma "nova criação" (2 Co 5.17), que nasce do próprio
Deus. Paulo vê nessa ação divina Deus extraindo vida da morte (Rm 4.17; Ef 2.1-10). 2.1 O objetivo dessa
dinâmica é nada menos que a perfeita conformidade com Cristo: Cristo: todo o ser se transforma para tornar-se
tornar
igual a Cristo. Para o apóstolo, portanto, no âmago da vida moral está a imitação de Cristo (e.g., Rm 15.7;
2Co 10.1; Ef 5.25),
5), ou a imitação de Deus de acordo com o modelo de Cristo (Ef 4.32 4.32—5.2). Segundo
esse enfoque, ávida moral realiza-se
realiza se quando um cristão se conduz pelo exemplo dos que seguem Cristo e
torna-se
se um modelo a ser seguido por outros. Assim, Paulo podia aconselhar
aconselh os coríntios: "Tornem-se
meus imitadores, como eu o sou de Cristo" (ICo 11.1; v. ICo 4.16,17; Fp 3.17; lTs 1.6,7; 2.14). A
semelhança com Cristo inclui ter a atitude de Cristo: "Seja a atitude de vocês a mesma de Cristo Jeíus" (Fp
2.5). Paulo aconselhavaa seus leitores a pautar-se
pautar se por aquele que "não considerou que o ser igual a Deus era
algo a que devia apegar-se;se; mas esvaziou a si mesmo" (v. 6,7). Para Paulo, todavia, a atitude semelhante à
de Cristo também tem um lado intelectual: "Destruímos
"Destruí argumentosos e toda pretensão que se levanta contra
o conhecimento de Deus, e levamos cativo todo pensamento, para torná-lo
torná lo obediente a Cristo" (2Co 10.5).

A semelhança com Cristo implica também a apresentação do caráter de Cristo. Mais


especificamente, Cristo deve ser formado em seus discípulos, pelo Espírito Santo. Por isso, quando Paulo
lista os componentes do fruto do Espírito — "amor, alegria, paz, paciência, amabilidade, bondade,
fidelidade, mansidão e domínio próprio" (Gl 5.22,23) —,, os cristãos acertadamente encontram nessas
qualidades a descrição de Cristo, uma vez que muitos desses termos são usados em textos referentes a ele.
Tornar-se
se como Cristo, porém, não é uma experiência individual. Para Paulo, a mentalidade e o caráter de
Cristo formam-se nos discípulos
pulos à medida que eles se envolvem com a comunidade dos que crêem e
também com o ministério que seu Mestre lhes confiou. De fato, o apóstolo prenuncia que os fiéis se
entregarão à obra de Cristo até o ponto de sofrer perseguições por causa de seu Senhor ((2Tm 3.12). Isso
significa simplesmente que eles participam dos sofrimentos de Cristo (Fo 3.10; v. IPe 4.13).

3. CONFLITO ESPIRITUAL: O CONTEXTO DA VIDA MORAL.


Como sugere o tema do sofrimento,
sofri tornar-se
se como Cristo não é algo que acontece sem luta. De
fato, segundo Paulo, a vida cristã implica conflito espiritual. Esse conflito posiciona o "Espírito" contra a
"carne", 'pois a carne deseja o que é contrário ao Espírito; e o Espírito, o que é contrário à carne. Eles
estão em conflito um com o outro, de modo que vocês não fazem o que desejam" (Gl 5.17).
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A palavra "carne" (sarx) tem uma variedade de significados nos escritos de Paulo, dependendo do
contexto em que ocorra. As vezes, refere-se
refere simplesmente
mente ao material que compõe um corpo físico ou ao
próprio corpo humano.90
no.90 Mais importante, porém, é que ela também representa toda a pessoa humana no
aspecto puramente físico da existência. Por isso, "carne" também pode referir
referir-se
se à existência neste
nes mundo,
especialmente no que diz respeito à sua fragilidade, limitações e mortalidade. No entanto, quando a
palavra aparece no contexto de um conflito mo moral,
ral, devemos cuidar para não lhe conferir conotações
puramente físicas, o que nos levaria a situar a fonte do mal na dimensão física da existência humahumana, em
oposição a qualquer aspecto imaterial ou supostamente "espiritual". Nunca foi intenção de Paulo
estabelecer uma forte dicotomia entre o material
material e o imaterial. Ele tampouco imaginava um dualismo éético
que identificasse
casse o impulso do mal na dimensão física da existência humana. Em vez disso, seus
ensinamentos nasceram da antropologia hebraica e semítica, que sabia enxergar a mesma realidade
humana de vários pontos de vista. Mais do que referir
referir-se ao físico em si, a palavra "carne", como princípio
ético derivado da idéia de fraqueza e mortalidade, refere-se
refere se à vulnerabilidade moral
mo humana em relação ao
pecado. A "carne" significa a pessoa humana em seu aspecto frágil e, portanto, suscetível à tentação e
presa fácil do pecado. Refere-se
se então à pessoa humana em sua propensão a dar oportunidades ao mal,
afastando-se assim de Deus.

Partindo desse entendimento, basta um pequeno passo para chegar ao sig significado escatológico
presente no âmago da dicotomia paulina entre carne e Espírito. Esses termos descrevem dois tipos de
existência. O primeiro está condicionado à época presente, que já está escoando. O segundo, ao contrário,
descreve a nova vida do cristão por meio da união com Cristo pelo Espírito que habita
ha em nós. Não deve
surpreender-nos
nos o fato de que, nesta época intermediária, a "carne" trave combate mortal com o "Espírito".
Na visão de Paulo, a carne torna-se
torna se inimiga do Espírito de duas maneiras, as quais estão entrelaçadas.
Como fonte de desejos insaciáveis
saciáveis (Rm 13.14; Gl 5.16,17,24), ela é o meio pelo qual o pecado escraviza a
pessoa humana (e.g., Rm 7.25). Como fonte de auto-suficiência
auto — e, portanto, de confiança na capacidade
de alcançar a justiça pela obediência à Lei —,, ela proporciona o fundamento
fundam para a independência
orgulhosa de Deus (Fp 3.3,4) e para a ação salvadora da graça divina em Cristo. Por esse motivo, Paulo
não apenas previne
vine seus leitores contra a vida que procura satisfazer os desejos da "carne", mas também os
aconselha a evitar o auto-elogio
elogio (2Co 10.18) e a vanglória, seja qual for o motivo (Rm 3.27; ICo 1.29), a
não ser pela cruz de Cristo (Gl 6.14; v. ICo 1.31; 2Co 10.17).

O conflito espiritual que caracteriza a vida cristã não é somente uma questão
ques individual. Não é um
mero conflito no âmbito do coração do indivíduo e de sua crença. Ao contrário, a principal preocupação
de Paulo ao discorrer sobre carne e Espírito diz respeito à vida no seio da comunidade. Portanto, seu
conselho de "caminhar" no Espírito — que é sua maneira mais ais comum de descrever ou promover o
comportamento ético — convida os que crêem à prática do amor recíproco. Daí resulta o fruto do Espírito,
que inclui amor, alegria e paz praticados entre os que fazem parte do povo de Deus. O conflito espiritual
tem outraa dimensão. Por trás da luta que os cristãos travam dentro de si mesmos e entre eles, existe um
conflito externo, uma batalha cósmica da qual muitas vezes eles são participantes involuntários. Paulo Pau
refere-se
se a esse conflito como "guerra espiritual". Os ccristãos alistaram-se
se nas fileiras de Deus e, portanto,
são inimigos dos exércitos espirituais mobilizados
mobilizados contra Deus. "Nossa luta não é contra seres humanos,
mas contra os poderes e autoridades, contra os dominadores deste mundo de trevas, contra as forç forças
espirituais do mal nas regiões celestiais" (Ef 6.12). A presença do conflito do qual participam os fiéis
conduz a outra orientação
ção ética central do apóstolo, o repetido conselho de "despir
"despir-se" e "vestir-se" (e.g.,
Rm 13.11-14; Ef4.22-24; 24; Cl 3.9,10). Os cristãos devem "despir-se" se" de uma realidade e "vestir-se"
"vestir de
outra: despir-se da carne e vestir--se do Espírito. Despir-se
se da antiga vida e vestir
vestir-se da vida nova. Despir-
se das obras da carne e vestir-se
se do Senhor Jesus Cristo.

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Despir-se das atividades das
as trevas e vestir-se
vestir se das ações da luz. Foi nesse estilo inflamado que Paulo
caracterizou a ética cristã como sendo o abandono da velha vida para viver num estilo novo. Temos aqui
novamente uma ética escatológica.

4. AMOR: O ESTILO DA VIDA MORAL


MOR .
Mas o quee vem a ser esse novo estilo de vida? Aqui Paulo retoma a característica principal que Jesus
recebeu do AT e transmitiu
mitiu a seus discípulos. O princípio moral fundamental é o amor. Em certo sentido,
ao anunciar sua ética do amor, Paulo baseia-se
baseia no conflito o entre Jesus e os líderes religiosos. A exemplo
do Mestre, ele confirmava a Lei, que de modo algum fora abolida (Rm 3.31). A Lei representa a norma nor
para a vida prática. Por isso, o apóstolo afirma: "O mandamento é santo, justo e bom" (Rm 7.12). E, ao
aconselhar
nselhar os cristãos, Paulo deliberadamente serve-se
serve se das Escrituras hebraicas como textos autorizados
(e.g., 2Co 8.15; 9.9). De modo semelhante ao Senhor, porém, Paulo adota uma interpretação cristológica
da Lei. O papel positivo da Lei na salvação emerge apenas apenas quando ela é vista à luz de Cristo e de sua
vinda (v. Gl 3.19-25).
25). Assim, a Lei deve ser vista através das lentes do Evangelho, isto é, o papel de Cristo
como o cumprimento da Lei (Rm 10.4) e, acima de tudo, pela cruz e da ressurrei
ressurreição de Jesus Cristo. Essa
visão da Lei permite que se perceba que ela nunca foi destinada a ser o agente da salvação humana. A
justiça jamais poderia ser alcançada por esforço humano, em obedecer à Lei. Ela é, isto sim, um dom
gratuito de Deus para todos os que estão "em Cristo".
C No entendimento do apóstolo, a Lei cumpre apenas
um papel ético circunscrito,
cunscrito, a saber, o de estabelecer limites. Com isso, ela destaca — e até provoca — o
insucesso, a incapacidade e o pecado do ser humano. E o único resultado é a condenação (Rm 7 5-14). A
Lei pode informar quais são os limites, mas é incapaz de impedir que esses limites sejam transgredidos.
Nesse contexto, Paulo invoca a própria experiência: ele sabia o que era certo, mas fazia o que era errado
(v. 14-23).
23). Tal experiência só poderia
pode levá-lo lo a gritar: "Miserável homem que eu sou! Quem me libertará
do corpo sujeito a esta morte?" (v. 24). Para Paulo, então, a Lei é rigorosamente limitada. Seguindo os
próprios ensinamentos de Jesus, o apóstolo dá a entender que, por serem naturalmente externas à pessoa
humana, as leis jamais podem criar o tipo de relacionamento que Deus deseja manter com o ser humano.
Elas apenas mostram os limites dentro dos quais podem surgir relacionamentos verdadeiramente
espirituais.

Paulo declara terminantemente


rminantemente que apenas o Espírito — e não a Lei — pode dar vida (Rm 8.1 8.1-4). E
a vida dada pelo Espírito caracteriza-se
caracteriza se pelo amor. De fato, o Espírito nos liberta para amar. Segundo
Paulo, o amor é o caminho "mais excelente" (ICo 12.31), superior até mesmo
mesmo à fé e à esperança
espe (13.13).

Por isso, o apóstolo reitera os ensinamentos de Jesus sobre o papel central do amor ao próximo.
Agindo assim, chega à conclusão lógica dos ensinamentos do seu Mestre, isto é, que o amor é o
cumprimento da Lei: "Não devam nadanada a ninguém, a não ser o amor de uns pelos outros, pois aquele que
ama seu próximomo tem cumprido a Lei. Os mandamentos [...] se resumem neste preceito: 'Ame o seu
próximo como a si mesmo' " (Rm 13.8,9; v. Gl 5.13,14). Isso não significa que as múltiplas leis le das
Escrituras hebraicas sejam reduzidas a uma única e nova lei, tampouco que os mandamentos individuais
sejam absorvidos numa lei tão abrangente. Em vez disso, Paulo dá a entender que o amor recapitula
recapi a Lei.
E, como o vínculo que une os mandamentos individuais
individuais num todo, o amor proporciona aos cristãos uma
perspectiva para o entendimento da Lei. Por que o amor? Paulo parece apresentar uma tríplice resposta.
Em sintonia com os ensinamentos éticos do AT e de Jesus, ele concorda que o amor é crucial por
caracterizar
aracterizar Deus. O registro da grande ação divina em favor da humanidade pecadora revela a grandeza
do amor de Deus. Quando amamos, imitamos Deus. Isso confirma que, quando o Espírito escatológico
cria um povo que reflete o próprio caráter de Deus — o qual é amor —,, a intenção da Lei se cumpre
plenamente.

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Além disso, o amor está no âmago da ética de Paulo por causa de sua suposição de que a
comunidade de fé é o contexto primeiro para vivermos como cristãos. Apesar do repetido enfoque ao
aspecto individual, o apóstolo
lo não imagina os seguidores de Cristo levando uma vida isolada, solitária. Ao
contrário, estes são convocados a juntar-se
juntar se em Cristo, convocados a ser a ekklesia ("assembléia" ou
"igreja"). Percebendo que eles formam o único Corpo de Cristo (e.g., (e.g., lCo 12.12), os cristãos devem
naturalmente dispor seus dons a serviço do bem comum (lCo 12.5), praticar a reciprocidade (Ef 5.21) e
mostrar
trar qualidades semelhantes às de Cristo, como a disposição de sacrificar
sacrificar-se pelos outros (Gl 2.2; Fp
2.1-11), chegandoo a ponto de renunciar a direitos pessoais em benefício alheio (lCo 10.23-33).
10.23 Numa
palavra, essa vida comunitária é a vida do amor. E o amor só existe na vida comunitária. Victor Paul
Furnish captou essa dimensão crucial da ética paulina, pois declara: A vida e os atos do fiel sempre
acontecem no meio dos irmãos em Cristo, com eles e por eles. Para ele, a ação moral nunca se trata de um
agente isolado escolhendo dentre uma variedade de ideais abstratos qual deles são "bons" ou "maus" em si
mesmos. Em vez disso,
isso, é sempre uma questão de escolher e fazer o que é bom para o irmão e o que eleva
toda a comunidade de irmãos. A ética de Paulo tem sido acertadamente chamada "ética da vida em comu- comu
nidade". A terceira razão para o enfoque do amor fica visível no culminante
culminante "hino do amor" de Paulo.
Enquanto todos os outros aspectos da existência cristã terão de cessar um dia, o amor permanece no novo
aeon. Isso indica que, dentre as várias dimensões da vida moral, somente o amor oferece um vislumbre
vislum
dos tempos futuros. De fato, o amor é a qualidade real dos tempos que estão por vir. Por isso, segundo
Paulo, onde existe amor, ali está presente o novo aeon. E a vida moral é um estilo de vida escatológico:
envolve viver agora como aqueles que pertencem aos tempos futuros.

5. AUTODISCIPLINA: O MEIO PARA A VIDA M


MORAL .
Embora negue que a Lei possa produzir a vida ética, Paulo não defende nenhuma vida destituída de
"lei". Ele não era antinomista. Nas palavra;; de Gordon Fee, "ser 'sem-Lei'
'sem Lei' não significa
signi ser contra a lei".
Ao contrário, para o apóstolo a vida ética também inclui diligência e autodisciplina. Repetidas vezes,
Paulo ordena a seus leitores que sejam diligentes (lTm 4.15), que trabalhem pela salvação (Fp 2.12) ou
que sejam esforçados (2Tm 2.15). Ele destaca, sobretudo,
sobretudo, a autodisciplina., comparando a vida do cristão
à de um atleta disciplinado que treina para uma competição (lCo 9.27). Nesse contexto,
con Paulo mostra com
seu testemunho pessoal como ele mesmo se controlava
contro – chegando a esmurrar o próprio corpo, fazendo-o
fazendo
escravo (v. 29). R.E.O.White descreve a perspectiva de Paulo sobre o assunto: Está bem claro que o
cristão trocou a necessidade externa do cumprimento
cumprimento de regras por obrigações internas de um ideal muito
elevado. Todavia, isso é libertação, pois as compulsões
compulsões nascem do interior do eu e são exercidas por um
ideal livremente aceito. Assim, de acordo com Paulo, o cristão substituiu a lei externa por uma forma de
diligência ainda mais rigorosa: a autodisciplina. Mas por que levar uma vida disciplinada? A re resposta do
apóstolo invoca os objetivos que os fiéis devem ter em vista. O objetivo intermediário da autodisciplina é
o ministério: serem servos de Cristo seriamente envolvidos no trabalho que o Mestre lhes confiou. Os
servos fiéis sabem que certas atividades,
atividades, embora não necessariamente más, não contribuem para o
ministério: "Tudo é permitido,
mitido, mas nem tudo convém. 'Tudo é permitido', mas nem tudo edifica" (lCo
10.23). Fui criado como filho de pastor. Quando era adolescente, meus pais às vezes solicitavam que eu
não me envolvesse em certas atividades — não porque que as consideravam erradas, mas por saber que seriam
prejudiciais ao ministério
rio de meu pai. Essa atitude derramou nova luz sobre a questão. Meus pais
poderiam ter estabelecido um esquema legalista, simplesmente proibindo-me me aquelas atividades. Mas não
o fizeram. Apelavam para o respeito que eu tinha por meu pai e pelo ministério que nós, como família,
compartilhávamos. Com isso, eles me convidavam a exercitar a disciplina interna, um desafio que
mantenho
enho como fator de orientação pessoal. Muitas vezes, volto à pergunta da conveniência: "Será que
esta atividade favorece ou atrapalha o ministério?". Seja qual for nossa ocupação, a vocação de todos os
que crêem em Cristo é o ministério. Para Paulo, o objetivo
objetivo compartilhado de desejarmos ministrar como
servos de Cristo exige que vivamos com diligência e pratiquemos a autodisciplina.

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O horizonte de Paulo, porém, ligava o intermediário ao escatológico. O objetivo final da vida cristã
é a participação na gloriosa
iosa salvação futura. O desejo de conseguir um lugar eterno na nova comunidade
de Deus motivava o apóstolo
tolo a exercitar a autodisciplina e a diligência. Por isso ele revelou que o motivo
moti
de escravizar o próprio corpo — estendendo a metáfora do corredor olímpico
ol — é "para que, depois de ter
pregado o evangelho aos outros, eu mesmo não venha a ser reprovado" (lCo 9.27). Para Paulo, todavia, o
ponto básico estava além de qualquer recompensa que ele pudesse receber. Acima de tudo, sugere ele, os
cristãos praticam
cam a autodisciplina porque desejam agradar a Cristo. A recompensa que Paulo queria que
conseguir era o elogio de seu Senhor. Isso nos leva de volta à ética da imitação que encontramos nos
ensinamentos de Jesus. Para o apóstolo, a vida ética implica a diligência
diligência e a autodisciplina modificadas
pelo amor de Cristo. Assim, esse tipo de ética é caracterizado pela consagração. Os cristãos vivem como
vivem porque se dedicam à pessoa de Cristo e a Deus, que os reconciliou em Cristo. Conseqüentemente,
os cristãos devem
m levar uma vida digna — digna de seu chamado (Ef 4.1), digna do Deus que os chamou
(lTs 2.12), digna do Senhor (Cl 1.10) e digna do evangelho de Cristo (Fp 1.27). O Espírito Santo: o agente
da vida moral. Como observamos anteriormente,
anteriormen Paulo baseia sua construção
onstrução na discordância entre Jesus
e os fariseus acerca da eficácia da Lei. As tentativas humanas de obedecer à Lei e com isso alcançar a
justiça — que era o estilo dos fariseus — estão fadadas ao fracasso. Na visão de Paulo, a incapacidade da
Lei em produzir
oduzir vida derivou em parte do radicalismo do pecado humano. A Lei não tem poder para
produzir a justiça porque ela é "enfraquecida pela carne" (Rm 8.3). Os seres humanos estão "mor "mortos em
suas transgressões e pecados" (Ef 2.1). A implicação aqui é grave: não há como conceber que um ser
humano possa cumprir a ética cristã.

Qual seria a solução? O próprio Paulo faz-se


faz se essa pergunta: "Quem me libertará do corpo sujeito a
esta morte?" (Rm 7.24). De acordo com o apóstolo, apósto a resposta encontra-se se no Espírito
Espírit Santo, que é
derramado na vida daqueles que pela fé foram unidos a Cristo. O Espírito é a causa da vida justa, e Paulo
sabia disso por experiência própria: "A lei do Espírito de vida me libertou da lei do pecado e da morte"
(8.2). A ética cristã, portanto,
o, implica a vida no Espírito. Cristo veio, declara Paulo, "a fim de que as justas
exigências da Lei fossem plenamente satisfeitas em nós, que não vivemos segundo a carne, mas segundo o
Espírito" (v. 4). De acordo com Paulo, o Espírito é a ligação entre o indicativo e o impera
imperativo. O mesmo
Espírito interior que faz a mediação da salvação pela união dos que crêem com Cristo também provê o
necessário poder divino para a vida cristã. O Espírito que habita em nós permite permite-nos viver num novo
plano de existência (Rm 8.2-4; 4; Gl 4.6). Assim, os imperativos éticos de Paulo resu resumem-se à nossa
apropriação do Espírito Santo. Em vez de nos embriagar com vinho, devemos deixar deixar-nos "encher pelo
Espírito" (Ef 5.18). Se vivemos "pelo Espírito", não satisfaremos os "desejos da carne" (Gl 5.16).

A apropriação do Espírito interior é o caminho para a mentalidade de Cristo, pois "quem vive de
acordo com o Espírito, tem a mente voltada para o que o Espírito deseja" (Rm 8.5). Desse modo, o
enfoque de Paulo sobre o Espírito leva
leva-nos de volta à ética de Jesus, pois viver no Espírito — isto é, ser
conduzido pelo Espírito — é prova de que os que crêem são filhos de Deus (v. 14). Somos membros da
família de Deus. Os que estão unidos a Cristo pelo Espírito
Espírito experimentam uma transformação moral, pois
estão sendo transformados
dos na imagem de Cristo (2Co 3 18). Para Paulo, o papel do Espírito estende
estende-se às
situações específicas da vida. O Espírito orienta o cristão até mesmo no que diz respeito a condutas
específicas.
ficas. Por meio do Espírito, o cristão consegue discernir a vontade de Deus e perceber o que
constitui o comportamento apropriado. Desse modo, aqueles em quem o Espírito habita podem pôr em
prática as exigências de Deus no dia-a-dia
dia (v. Rm 8.4-9,13,14;
9,13,14; Gl 5.16; Cl 1.10). O Espírito é também a
principal ligação entre o passado, o presente e o futuro escatológico. O mesmo Espírito interior que
facilita a união dos cristãos
tãos com Cristo em sua morte é também o "pagamento inicial" que lhes garante
ga a
participação escatológica na ressurreição de Cristo (Rm 8.11; 2Co 1.22; 5.5). Essa ligação indica a
profunda união que Paulo estabelece entre Cristo e o Espírito (e.g., 2Co 3.17).

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APOSTILA DE ÉTICA CRISTÃ
De fato, podemos dizer que a pneumatologia de Paulo é a extensão radical de sua cristologia. H.
Wheeler Robinson acertadamente
mente conclui: "A doutrina de Paulo sobre o Espírito, que atua na regeneração
e na santificação do cristão unido a Cristo por meio da fé e do batismo, é sua mais importante e distinta
contribuição para a antropologia cristã". Assim, a ética de Paulo não ão é apenas radicalmente teológica; é
também radicalmente soteriológica. Em conseqüência disso, ela não é apenas radicalmente
radical cristológica,
mas também radicalmente pneumatológica. Portanto, podemos resumir a ética de Paulo — e a do NT
como um todo — na seguinte te frase: "Pelo poder do Espírito interior, seja (isto é, torne-se)
torne quem você é".
Por ser o Espírito Santo "o elemento absolutamente essencial de toda a vida cristã", para citar mais uma
vez Gordon Fee, a ética cristã é a vida de santidade — a vida do povo que é santo perante o Senhor —,
cumprindo-sese nisso a busca do AT.

IV . AÇÃO PEDAGÓGICA TRANSFORMADORA : PELA CONSTRUÇÃO D


DE UMA ÉTICA DA
RESPONSABILIDADE NO MINISTÉRIO
José Carlos Iglesias [8]
INTRODUÇÃO
A pessoa humana é cultural, sendo ao mesmo tempo produto e criadora do meio em que vive. "O
homem não é somente o sujeito ativo da cultura, mas também o sujeito passivo; ele não é só o artífice,
mas também o produto principal (...). Sua tarefa principal é construir o homem, um projeto de humanidade
que seja adequado à dignidade e à exigência da pessoa humana". A dignidade humana é uma construção
permanente, um projeto inacabado, feito de conquistas e derrotas, avanços e retrocessos e por ser o
produto principal da criação merece levar uma vida plena de dignidade
dignidade e fraternidade. A pessoa humana
alcança a plena dignidade e cidadania apenas quando saturou em atos o valor fraternidade, pois enquanto
houver apenas um ser humano existindo em condições precárias, não se pode admitir que haja alguém
dotado de plena
na dignidade. Dignidade e fraternidade são valores que se complementam, pois como uma
pessoa humana pode se sentir digna, se seu irmão não está vivendo com o mesmo conforto? O modelo
contemporâneo político-econômico
econômico é fator impeditivo da maioria das pessoas
pessoa serem verdadeiramente
humanas, pois já nascem sem esperanças, cheias de ressentimentos, sofrem discriminações as mais
variadas, estão impedidas de sonhar, de terem uma utopia de uma prosperidade futura. Toda esta estrutura
mina a saúde dos seres, que acabam
bam por ter as expectativas de vida diminuídas em qualidade e quantidade.

Nas periferias de todas as cidades encontramos jovens dos quais lhes foi roubado o futuro prematura
e definitivamente. As mídias os informam, no cotidiano, sobre um mundo pleno de valoresv e bem-estar a
serem usufruídos, mas, na realidade, esbarram com dificuldades de acessá-los.
acessá los. A impossibilidade de se
realizarem e vivenciarem as promessas da propaganda os torna presa fácil de uma estrutura que lhes tira
até a possibilidade de uma longevidade,
ngevidade, empurrando-os
empurrando os para práticas que violentam o processo do livre e
prazeroso escoar da vida. A pessoa humana é dotada de atributos únicos, como uma dimensão espiritual e
a liberdade soberana que vai além dos limites de espaço e tempo que a circundam.
circunda Sobrevoa o mundo
inteiro da experiência, avalia e julga o presente e o passado e pode também se prefigurar e programar seu
futuro, porque leva consigo um elemento de imaterialidade e de espiritualidade; porque possui uma
dimensão interior de natureza espiritual:
espiritual: a alma, a mente e o espírito. (MODDIN, Batista. Definição
filosófica da pessoa humana, p. 11) Todo indivíduo que não estiver empossado de todos os atributos da
concepção de pessoa humana, não pode ser definido como dotado de dignidade. Toda vez qque uma força
maior o impeça de circular pelo espaço e tempo, que o afaste de vivenciar e experienciar o presente, de
avaliar o passado e construir o próprio futuro, estaremos diante de um ser privado da plenitude de sua
dignidade.

8 - IN: KOHL, Manfred Waldemar; BARRO, Antonio Carlos (org.). Ministério pastoral transformador. Londrina: Descoberta, 2006. p. 185-217.
185

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Para a posse da cidadania,, há que se levar uma existência politicamente ajustada ao meio em que se
vive. A cidadania ocorre quando a pessoa está plena de dignidade, capaz de viver na comunidade como
um membro politicamente atuante, pleno de todos os direitos e cumpridor de todos ddeveres e valores. A
Igreja não tem se apresentado a contento no tocante a agir como agente formador de opinião pública e de
cidadãos. Se não é omissa, pelo menos pode ser apontada como negligente, ou imperita para tratar de
temas de interesse comum. Sua ação ação tem sido muito tênue; em alguns segmentos, opaca; em outros,
ausente; especialmente nos âmbitos de transformação da sociedade. Pode ser um desperdício, pois as
Igrejas cristãs possuem todas as possibilidades para gestar, no seio de suas congregações, uma um força
atuante e eficaz na direção de uma educação cristã para a ética e a cidadania. Nosso intento, neste capítulo,
será o de apresentar uma crítica a alguns dos modelos estabelecidos pela cristandade, que geraram e têm
gerado nada mais que repressão e omissão,
omissão, ao invés de ação transformadora da realidade, e expor uma
proposta de uma educação cristã voltada para a ética da responsabilidade e a construção da dignidade e
fraternidade humanas. Acreditamos que um ministério cristão transformador será aquele que q ousar praticar
a relevância do Evangelho do Reino na sociedade corrompida em que vivemos.

1. A ÉTICA E A EDUCAÇÃO PARA


P A CIDADANIA
Uma prática pedagógica cristã a partir do lar e da igreja pode ser voltada para a construção da pessoa
humana cidadã. A construção
onstrução da dignidade se entrelaça a valores da autonomia, fraternidade e
solidariedade, porém a história está encharcada de ações violadoras, desrespeito e toda sorte de
arbitrariedades e violação dos direitos humanos. O Talmud nos ensina: "Por isso um ssó homem foi criado
primeiro, para ensinar-te
te que a quem destruir uma só alma dos filhos do homem, a Escritura considera que
destruiu um mundo inteiro". O enunciado é pedagógico: uma só pessoa com seus direitos violados,
significa que todos os humanos foram afrontados; enquanto uma única pessoa existir sem ser considerada
cidadã, todos deverão sentir-sese também excluídos por omissão. Na recente história da América Latina há
exemplos vivos de violação dos direitos humanos. Talvez a forma mais aguda de exclusão cidadã, foi a
que vivenciamos por várias décadas com as ditaduras militares. O motivo da exclusão foi ideológico,
posto que os perseguidos
erseguidos seguiam uma ideologia contrária ao poder dominante. Para Juan Stam, o que
mais chama atenção é que entre os agentes torturadores e exterminadores havia um número elevado de
pessoas que se classificavam como cristãs. A barbárie instalada na América
América Latina durante este período é
um fenômeno que deveria causar muita vergonha em nossos contemporâneos. Muitos destes relatos são
estarrecedores. Os regimes fortes imprimem uma política autoritária, em que nem se cogita o uso da
solução negociada para conflitos.
flitos. A vulnerabilidade das minorias, oprimidos, excluídos e discriminados
aparecem como vítimas impotentes. O poder autoritário ignora valores como a tolerância, dignidade,
fraternidade e a solidariedade e simplesmente remove as pessoas como se fossem meros m obstáculos. Em
muitos casos, membros de igrejas cristãs aceitam a discriminação e até mesmo a eliminação de pessoas
inconvenientes e resistentes à dominação. A solução negociada para conflitos não é sentida como um
instrumento de força política capaz de promover mudanças, mas é opção pelo uso da força, para manter o
status quo, pela comodidade e desejo de manutenção do poder, pois mudanças podem não ser desejadas,
nem convenientes. Desta maneira, há esta deficiência na educação cristã, como forma de mais ma um desafio
para a igreja, afastando a hipocrisia da aceitação de velhas estruturas que perpetuam a ordem estabelecida
e impede a realização das utopias contidas no inconsciente e consciente coletivo. Em especial, amarra a
"utopia" do Reino de Deus. A deficiência
ficiência na construção da cidadania, pela não utilização de valores como
fraternidade e solidariedade, leva os Estados a adotarem uma cultura paternalista em relação aos
oprimidos e excluídos na divisão de renda. O paternalismo estatal procura satisfazer o mínimo das
necessidades de subsistência, distribuindo cestas básicas, vale transporte, subsídios para a compra de gás
de cozinha. Este paternalismo coloca a pessoa carente em uma posição de quase mendicância, pois ao
invés de possuírem meios para adquirir
adquirir pelo menos o básico para a subsistência, o que os tornaria mais
altaneiros e dignos, não se sentem capazes sequer para, com seu suor, adquirirem o mínimo.

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No tópico da moradia, oferecem-se
oferecem se as casas populares, as quais são de tamanho reduzido, podendo
criar
ar promiscuidade e diminuição de privacidade para os membros da família acabando por reduzir ao
mínimo a dignidade humana. Na saúde, a assistência oferecida para populações carentes é precária.
Mesmo para aqueles que contribuem para o Sistema de Saúde do Estado,
Estado, os produtos oferecidos não ficam
muito além do oferecido aos indigentes. A tecnologia de ponta não está disponível para estas populações.
Muitas práticas médico-hospitalares
hospitalares de alto custo, são ofertadas em cotas, atendendo a um número
determinado de pessoas, sendo que os demais ficam esperando na fila ou nunca são atendidos. A maioria
resulta no agravamento da situação da enfermidade, outros chegam a perder funções ou mesmo a vida pela
demora ou ausência de tratamento adequado. Quanto mais oneroso for for o tratamento, mais inviável será o
atendimento. No quesito educação, o Estado procura garantir o acesso a todas as pessoas, mas na prática
ocorre a inviabilidade, a evasão escolar vai sendo mais numerosa à medida que recrudesce a complexidade
dos estudos.. A quantidade de alunos que chega ao curso superior é infimamente menor àquela que iniciou
na escola fundamental. A deficiência na educação gera uma massa de pessoas desqualificadas para as
exigências do mercado, e o resultado é a exclusão ou o aproveitamento
aproveitamento nos segmentos de baixos níveis
salariais. Aqui se reinicia o círculo vicioso: famílias com baixo nível de rendimento geram uma prole mal
alimentada, combalida em saúde e formação, inserida em comunidades também com as mesmas carências
e as proles subseqüentes
eqüentes são condenadas a entrar no mesmo modelo das gerações passadas.

Muitos outros tópicos poderiam ser abordados, que aparecem como obstáculos para o cultivo de
uma cultura em direção à cidadania e são entraves histórico-culturais.
histórico culturais. A ação da igreja te
tem sido muito
tímida em relação à preocupação com uma educação voltada para a construção da cidadania. Este tema
poderia constituir mais um tópico dentro da preocupação pedagógica da igreja. Dentro da multiplicidade
de relacionamentos dos membros da igreja, poderia haver a inserção de uma didática preocupada com a
construção de cidadãos conscientes de seus direitos e deveres, com uma atenção especial, plena de amor
fraterno, voltado para a alteridade. A qualidade de vida é um dos conceitos mais presentes nos discursos
da atualidade; o alcance da cidadania seria a plenitude deste conceito. Nada mais justa e cristã esta
conquista para todas as pessoas e é papel de todos contribuirmos para este ideal.

2. O CRISTÃO E A QUALIDADE
QUALIDAD DE VIDA
Nos últimos anos o conceito
conceito que tem sido mais discutido, em alguns meios, talvez seja o da
qualidade de vida. A pessoa humana tem como responsabilidade pessoal e coletiva a busca de condições
que propiciem a todos o alcance deste alto ideal, além de ser direito e dever de todos. A construção da
qualidade de vida é composta de valores muito variados quanto são variadas as necessidades individuais
de cada pessoa, algumas são criadas desde a influência da propaganda. Muitas vezes o que é valor para
uma ou mais pessoas pode não ser correto
correto segundo a educação ambiental, ou mesmo a ética cristã. Para
tanto, é papel da igreja fornecer orientação no sentido de dotar a assembléia de um forte espírito crítico
voltado para a formação de sólidos e corretos ideais quanto ao que possa ser qualidade
qualida de vida, dentro do
modelo cristão. Os modelos neoliberais adotados ou impostos aos países do baixo-ventre
baixo do mundo,
podem ser o fator criador dos modelos elegidos como ideais, paradigmas para medir o que se pode aceitar
como valores determinadores da qualidade
qualidade de vida. O neoliberalismo cria o estado mínimo, em que a
atuação estatal se restringe cada vez mais em três pontos: segurança, educação e saúde. A força do Estado
fica cada vez mais restrita àquelas áreas de atuação. O Estado enfraquecido fica vuln vulnerável à
movimentação de mega grupos nacionais, internacionais e transnacionais os quais colocam seus interesses
de expansão acima dos ético-ambientais.
ambientais. As mega organizações transitam quase sem obstáculos,
respaldadas pelos acordos e leis que protegem o livre
livre mercado. Com tamanha força acabam inculcando,
via propaganda massiva, novos modelos de consumo, que traduzem sinais marcadores de qualidade de
vida.

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O sistema de livre mercado, adubado pela eficaz utilização das técnicas de propaganda, cria
necessidadess de consumo na vontade das pessoas transformando suas vidas radicalmente. O volume
crescente de produtos e necessidades leva as famílias a um super esforço no sentido de aumentar a renda
doméstica objetivando conquistas dos valores criados artificialmente.
artificialmente. Deixando de lado a discussão da
justa emancipação da mulher, o casal se vê compelido a uma jornada de trabalho exaustiva, para enfrentar
as despesas emergentes das novas necessidades. Quase sempre esta situação traz prejuízos no
relacionamento dos componentes
entes da família, sendo os filhos os mais prejudicados. A filósofa espanhola
Adela Cortina comenta que o consumo não está fazendo pessoas mais felizes por terem facilidade de
acesso aos bens produzidos. Que de um bem adquirido, nasce uma nova necessidade dde adquirir a próxima
novidade e assim sucessivamente é o que chamamos de desejo elusivo. Os habitantes dos países ricos
estão aptos a adquirirem todos os bens propostos pelos produtores, o que não os torna mais felizes.
Pondera que, enquanto não se consuma com justiça, a insaciabilidade continuará presente gerando o
desejo indefinido de querer sempre mais. O binômio consumo/felicidade só coexistirá com a prática da
solidariedade/justiça quando a possibilidade de consumo estiver ao alcance de todos. A felicifelicidade do
consumo nasce a partir de um equilíbrio das horas de trabalho que resultem na posse de bens necessários
para proporcionar bem-estar
estar para todas as pessoas. As horas de trabalho que eram utilizadas para
aquisição de bens desnecessários, devem ser utilizadas
utilizadas nas relações humanas, familiares, com amigos, em
trabalhos cooperativos capazes de trazer felicidade.

Com tanto empenho no trabalho, adicionado ao inchaço das cidades e o tempo de locomoção para
atender a tantas necessidades, passa-se
passa a consumir o 'tempo livre' das pessoas. As necessidades espirituais,
artísticas, e de lazer sadio passam para segundo plano, e quase sempre, não há viabilidade para o gozo
destes valores. O modelo de lazer de muitas destas famílias modernas passa a ser realizado nos shoppings
s
centers, nos fins de semana e feriados. Apenas não percebem de que estão novamente praticando o
consumo artificializado. O lazer de conteúdo cultural ou do contato direto com a natureza deixa de ser
procurado por falta de interesse, por não deter o modelo, a grife do consumo de estilo, tão em moda na
contemporaneidade. Outro equívoco cultural é a crença de que qualidade de vida está intimamente ligada
à idéia do "mais" e do "melhor", pois nem sempre a quantidade significa o mais indicado como ideal de
boa vida. A primazia do transporte individual motorizado pode ser colocada como símbolo destes valores,
adicionado à inconveniente agressão ambiental da poluição sonora, prejudicando o verdadeiro conforto
acústico, o direito de cada um desfrutar de um ambiente limpo de barulho e ruído inconvenientes. O
direito de cada um de não pretender ouvir o som oriundo dos veículos que trafegam nas ruas. Bem como o
direito de não querer ouvir ou ver as propagandas visuais e sonoras autoritariamente impostas às
comunidades,
nidades, as quais não possuem recursos para fugir a esta espécie de poluição, não há botões a serem
desligados. No tópico da saúde individual destacamos: o direito de ser tratado como um doente, visto
como um todo, bio-psico-social--cultural-espiritual, e não ão que apenas sua "doença" receba as atenções
médicas; a saúde preventiva em primeiro lugar, em busca de minimizar a dor do paciente e diminuir o
custo dos cuidados; a busca de terapias alternativas que tenham o modelo educativo para o fomento de um
ser biológico,
ológico, psíquico, social, cultural e espiritual, perfeitamente agregado, valorizado, respeitado em sua
dignidade de pessoa humana. Tudo isso com o objetivo de que a pessoa não se senta um indigente, um
peso morto no seio da sociedade que o recebe (e às vezes ve o rejeita). Muitos são os aspectos em que a ação
da igreja pode se fazer presente de uma maneira educativa. Talvez uma das inquietações mais sérias,
desde o pessoal até o comunitário, é a questão do pacifismo. Começando pelos conflitos familiares, no
trabalho,
rabalho, na violência urbana e rural, nos atritos sociais, no poder de grupos que mercadejam armas e
drogas, que são questões locais, até as questões regionais, culminando nas globais. A cultura pacifista
pode ser pedagogicamente compartilhada a partir da formação de uma cultura favorável ao desarmamento
em todos os seus segmentos. A desnuclearização, tanto para fins bélicos, como sua utilização pacífica
devem ser esclarecida, bem como os perigos, e o que significam tanto para hoje quanto para o futuro.

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Stam
m aponta para a incoerência dos cristãos que nutrem ideais de instintividade destrutiva, pois Deus
fez o universo em harmonia e fará com que tudo volte a ser como em seu estado original, como uma
reconstrução, uma reconciliação do plano inicial. Na Nova Jerusalém
Jerusalém não há espaço para as contrariedades
e vicissitudes nas quais estamos mergulhados. Com esta reconciliação serão suprimidos os ódios, as
guerras, o fanatismo ideológico, o patriotismo chauvinista, as divisas geográficas, os litígios pela posse de
bens,
ns, os valores da cultura contemporânea que só geraram (e continuam gerando) destruição,
instintividade, exclusão e morte. Ao assumir o discurso pacifista, Stam analisa a ação dos cristãos sobre o
hediondo das guerras mais recentes e reclama de uma ação de evangelização coerente com os
compromissos assumidos: "O militarismo e o armamentismo contradizem escandalosamente o sentido do
evangelho da reconciliação, e nenhuma evangelização pode ficar indiferente a eles". Aplaude as
conquistas tecnológicas com o aprimoramento
aprimoramento dos engenhos destinados à destruição; contabiliza cínica e,
quantitativamente, o número de mortos de um e outro lado. A glorificação das novas armas utilizadas no
Golfo, enaltecidas pelas mídias, que dão respaldo à onda belicista, supervalorizando
supervaloriza o império
tecnocientífico da morte, face ao aplauso e inoperância do cristão engajado: "...glorificam dramaticamente
as proezas das novas armas urilizadas no Golfo, encobrindo (...) o sofrimento e morte das vítimas. (...) Na
verdade, para muitos lhes encantancanta a guerra. Onde estavam a presença e a voz dos pacificadores
evangélicos (Mt 5.9) ante tal culto ao cavalo vermelho?" (STAM, Juan. Las buenas novas de la creación.
p. 93). Após o término deste conflito, houve nos EUA desfiles monumentais celebrando a vitória norte- norte
americana, como se tivessem ganho algum campeonato mundial esportivo. Este tipo de evangelização faz
questionar que métodos e objetivos se têm utilizado, tal a discrepância
discrepância na prática cristã com os ideais
contidos nos evangelhos. "Que tipo de evangelização produz cristãos que, já convertidos, são ainda mais
materialistas e belicosos que antes, sete vezes mais presos ao demônio do consumismo e do cavalo
vermelho?" (idem, p.94). O mesmo autor ainda denuncia a ação cristã republicana que apoiou Reagan e
Bush nas suas ações belicosas no Vietnã, no Golfo e na América e “os pouquíssimos evangélicos que
questionavam eticamente essa guerra e se abstiveram da grande festa de júbilo, não passaram de ser
valentes vozes clamando no deserto ético da sub-cultura
sub cultura evangélica, que lhes via como esquerdistas e
perigosos” (idem, p.94-95).
A opção que restou foi a solução negociada para conflitos, imprimindo nas pessoas a validade do
diálogo
logo até a exaustão, nunca optando pelo conflito aberto, com o uso de violência, quer seja de natureza
física ou outra espécie. O absoluto respeito pela liberdade democrática, pelo direito de ser, de expressão,
de ir e vir, de justiça social, e outros. A vida
vida necessita ser entendida como presente divino, por isto deve
ser encarada como sagrada. A pedagogia cristã necessita aplicar mais atenção a respeito deste valor,
objetivando alcançar um maior respeito na cultura contemporânea para a inviolabilidade da vida v em todas
suas manifestações.

3. O DESAFIO DA IGREJA EM DEFESA DA VIDA


V
No primeiro capítulo de Gênesis, encontramos que em seis dias Deus criou o mundo e separou a luz
das trevas, os céus da terra, as águas do solo firme. Criando as plantas segundo sua espécie, criaturas
dotadas de nadadeiras, asas ou patas, também obedecendo suas características e, quando o sexto dia
declinava, anunciou a criação do homem e da mulher, segundo a imagem divina. Atribuiu à pessoa
humana a prerrogativa e o dever de dar continuidade
continuidade na sua obra da criação. Tudo o que Deus criou é
sagrado e possui uma função ou objetivo, da forma natural em que foi criado. A mutação que ocorre com
os seres vivos e com toda natureza dá dá-se
se em decorrência de fenômenos naturais. Toda precipitação ou
artificialização deste processo natural pode ser entendida como uma violação à vida, sendo um desafio
para os cristãos e a igreja a reflexão sobre a ação da cultura humana sobre os dados originais da criação.
A crescente complexidade da sociedade humana humana cria uma estreita relação entre o social e o ambiental
resultando em fenômenos que afetam a qualidade de vida para todos os seres. A ação sócio sócio-cultural nem
sempre leva em consideração a defesa da vida.

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Para uma ação voltada em direção à defesa e preservação da vida, precisa-se
precisa iniciar, pelo fator
geográfico local, a criação de uma cultura sustentável de uma organização política municipal, em que as
necessidades de preservação do meio ambiente seriam a preocupação da vontade política. Uma gestão
local
cal possuiria mais qualificação e meios para disciplinar as relações sócio-ambientais.
sócio ambientais. A importância da
manutenção e priorização da cultura local, estaria em razão de sua proteção e preservação da ação
predatória da globalização massificante. Seria o primeiro
primeiro passo para a sustentação dos valores de uma
pequena comunidade. Tal descentralização do poder privilegia a tradição local, além de melhor distribuir
os recursos de acordo com as necessidades domésticas, criando uma camada impermeável na cultura,
como proteção
roteção da ação corrosiva de culturas alienígenas. Para a política local pode ser mais racional e
eficaz gerir os transportes urbanos, a água e os esgotos, o lixo, a segurança e a educação, o lazer, a
economia o desemprego, a recuperação de áreas degradadas,
degradadas, o reflorestamento, a recuperação e
preservação de mananciais e outras questões sócio ambientais. Uma educação calcada neste modelo
encontrará grande oposição, pois há muitos interesses em jogo, que quanto mais descentralizadas forem as
decisões, melhor para certos segmentos políticos e econômicos. O valor cristão de uma gestão política
local pode salvar valores desprezados pela cultura globalizante. A ação da igreja adotando a inculturação
defende a tradição autóctone e das etnias excluídas, preservando valores artísticos, religiosos, culturais;
cultivando o respeito às minorias; condenando o racismo, a xenofobia, os massacres genocidas, as
limpezas étnicas e outras mutilações nos direitos divinos e consuetudinários da pessoa humana.

A gestão política no que se refere ao regional, nacional e mundial, deve ser voltada para o interesse
da vida em sua concepção mais abrangente. Na economia, a distribuição da renda parece ser de caráter
emergencial, e o grande obstáculo parece ser o sistema capitalista. A existência
existência de uma parcela alarmante
de pessoas que padecem por não possuírem o mínimo para sua subsistência parece ser o primeiro ponto a
ser discutido e levado a uma ação que possa resolver a crônica injustiça, não ficando em soluções
paliativas, no estilo paternalista. A questão social na vertente de distribuição de rendas que possa oferecer
o mínimo necessário para as pessoas adquirirem com dignidade os bens necessários só poderá ser vencida
com a criação de novos empregos. A função política do Estado, desd desdee o local ao planetário, deve ser de
corrigir as distorções criadas pelo capitalismo, oferecendo empregos para, de um lado, ajudar a resolver o
crônico problema do desemprego, e, ao mesmo tempo, atender a necessidades na preservação ambiental.
O planejamento to deve atender às áreas degradadas, abrindo a possibilidade de aproveitamento de mão-de-
mão
obra ociosa para partir em busca da recuperação destes ambientes. As ações reflorestadoras devem ser
priorizadas, procurando restaurar o mais próximo possível a biodiversidade
biodiversidade original. A recuperação dos
mananciais é outro ponto importante para a reconstrução ambiental, pois são os berçários da vida. Aterros,
assoreamento de áreas baixas necessitam receber atenção especial, pois a cultura da modernidade
imprimiu a aceitação
ação de que as bacias são improdutivas, 'habitat' de insetos indesejados, por isso
necessitam ser drenadas, aterradas, saneadas, para se tornarem produtivas, utilizáveis para a agricultura ou
área urbana. Mangues e pantanais foram pintados no inconsciente coletivo como áreas inúteis, perigosas;
até nas manifestações artísticas estas regiões são depreciadas como morada de seres horrendos, maléficos,
que devem ser evitadas e erradicadas. Desde os filmes para crianças, os desenhos, até os de terror, de
vampiross e outros monstros, produziram uma cultura de depreciação destes locais, que verdadeiramente
são autênticos santuários da vida. Eles representam o local onde,a vida se inicia, se revigora e reproduz,
desde os seres mais elementares até os mamíferos mais complexos complexos dependem destes santuários. A
desconstrução deste discurso é tarefa educacional da igreja, Estado, empresas, e de cada cidadão e cidadã,
pois a vida planetária é pertinente e importante para todos. A instituição denominada Forças Armadas
constitui-se
se em um ícone intocável, poucas pessoas se atrevem discutir sua real necessidade, funções e
abrangência. A Constituição Federal procura restringir suas prerrogativas a fatores ligados a defesa da
soberania nacional. O custo financeiro do exército no bolso
bolso dos cidadãos é muito alto, em muitos lugares
de pelo menos um terço da arrecadação.

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A proposta seria da utilização desta força de trabalho, em eterna espera de um conflito armado, para
fins pacíficos, precisamente para protegerem o meio-ambiente,
meio pela vigilância
igilância e policiamento de abusos e
distorções. Seria atender a uma lógica de, enquanto a guerra não vem, utilizar todo complexo militar para
finalidades urgentes da sociedade. Uma pauta de discussão muito presente é a questão dos transgênicos.
Naturalmentete que as sementes transgênicas são vivas e produzem frutos, mas não matrizes. É necessário
voltar à empresa produtora e adquirir novas sementes, a cada momento de plantio. O agricultor que optar
por este modelo de agricultura, poderá estar comprometendo o futuro de suas terras, pois com o passar do
tempo, não poderá mais adotar outro tipo de técnica. Depois de alguns anos de utilização desta técnica, o
solo só aceitará ser cultivado se o plantio sempre igual. Mesmo que o agricultor queira plantar o mesmo
produto,
roduto, mas de outra empresa, não será possível, pois o solo estará comprometido com a tecnologia
adotada anteriormente.

I. APESSOA HUMANA CORPÓR


CORPÓREA E CONSUMIDA
A Modernidade destruiu todas metanarrativas que serviam de orientação para a humanidade,
colocando em seu lugar a idéia de que a tecnociência seria capaz de suprir todos os sonhos e realidades,
conforme estudamos nos capítulos precedentes. "Não se pode esquecer aqui que o desamparo humano
aumentou muito na dita pós-modernidade,
modernidade, pois, com o fim das utopias e dos messianismos alimentados
pela modernidade, não há mais como fazer obstáculo às dores e desesperanças produzidas na atualidade"
(BIRMAN, Joel. Mal-estar estar na atualidade, p.243). Parece estarmos vivenciando um momento muito
especial, em que emerge do inconsciente coletivo uma espécie de objetor de consciência, transparecendo
na sensação de estarmos sendo todos enganados, por algum poder muito grande, mas que não ousa
mostrar-se. O mal-estar persiste,
te, não visualizamos a solução, nem mesmo uma explicação esclarecedora;
antigas crenças e esperanças foram desmontadas pelo racionalismo, nada foi oferecido em substituição.
Para muitas pessoas a fuga subjetiva em mergulhos no mundo da fantasia apresenta
apresenta-se como única solução
disponível para preencher o vazio existencial. Um contingente imenso de pessoas, aumentando
vertiginosamente, procura refúgio na utilização de drogas. É preciso lembrar que drogas, não são apenas
as que são oferecidas no submundo do crime, crime, as chamadas ilegais. As drogas também podem ser
encontradas no mercado legal, adquiridas nas farmácias, são as chamadas controladas. Para adquiri
adquiri-las, a
lei dispõe que haja um receituário oriundo de pessoa autorizada. A realidade é bem outra, as mídia mídias
informam constantemente a irregularidade deste procedimento. Por outro lado, estas substâncias levam
seus usuários à dependência, ou seja, a única diferença destas drogas em comparação com as "fora da lei",
é que uma é legal e a outra ilegal. Todos os produtos
produtos comercializados pela rede autorizada pelo Estado
possuem a garantia de serem confiáveis, perfeitamente respaldados por critérios aprovados e consagrados,
sendo, portanto, de consumo em absoluta confiança. Na prática, esta realidade pode ser constatada
constata como
contraditória ou polêmica, pois enganos grosseiros podem ser apontados, como a oficialização do
consumo do tabaco e álcool. Muitas drogas aprovadas e consumidas, com o passar do tempo,
apresentaram efeitos desconhecidos, com prejuízos irreversíveis aos usuários. Elencar exemplos não seria
o objetivo do presente trabalho, mas apenas mostrar o alerta de que nem sempre as leis emanadas do
Estado são espelhos da verdade e da conveniência. Talvez uma das tendências de fuga mais presente na
contemporaneidadeade seja o culto exagerado pela corporeidade, uma preocupação exagerada com a imagem,
que não espelha a realidade, mas um virtual modelo que corresponderia a uma adequação da pessoa a uma
situação que a colocaria em posição de dignidade e admiração da comu comunidade
nidade ou 'tribo' a que pertence. É
um sinal exterior que procura definir a posição sócio-cultural
sócio cultural a que a pessoa quer pertencer. Em casos
extremados, a própria droga faz parte da pessoapessoa-espetáculo,
espetáculo, ao culto narcisista do corpo some
some-se a
utilização de roupasas e adereços nada convencionais que podem até escandalizar as pessoas menos
tradicionais. Em casos mais extremos, até mesmo o neurótico recebe aplausos, por atos e posturas
bizarras, posto que o valor do momento é a imagem e o espetáculo.

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"O aumento do consumo
onsumo de drogas, (...) funcionam como instrumentos (...) privilegiados de
realização dessa transformação desejada de humor (...) para se inscrever no espetáculo da cultura do
narcisismo" (idem, p.248). Todo este artificialismo e busca do prazer fugaz pode ser resultado também da
cultura consumista. É significativa uma contribuição do professor Marcos Reigota em suas observações de
viagem: "Nos inúmeros sex shoppings espalhados pela cidade (Frankfurt) podem podem-se encontrar,
obviamente, muitos produtos indicados
indicados para o estímulo e a prática das mais diversas fantasias sexuais.
Homens de diferentes faixas etárias, muitos deles bem vestidos, aparentando alto nível sócio
sócio-cultural, são
vistos escolhendo produtos para as práticas sado-masoquistas".
sado

Ao contrário doo que se pode pensar, não é privilegio dos jovens proporcionar uma imagem ou
hábitos estranhos à sociedade, mas também pessoas bem situadas na malha social, que poderiam ser
definidas como tradicionais, apresentam tal comportamento. Na produção do corpo pa para consumo, há toda
uma indústria montada para atender a esta tendência. As academias voltadas para o trabalho com o corpo,
para o aumento da massa muscular proliferam até mesmo nas periferias das cidades, mostrando que esta
tendência atinge as classes maiss humildes e que construir um corpo musculoso é imperativo. As mulheres
comparecem em grande número, em busca de adquirirem um corpo desejado, apropriado ao mercado de
consumo da imagem-espetáculo.
espetáculo. Muitas pessoas ingerem produtos fármacos que estimulam e aceleram
a os
resultados desejados na construção do corpo, são as chamadas "bombas", no jargão das academias de
musculação. Nesta prática, os limites da imagem entre o masculino e o feminino se entrelaçam, parecendo
não ser mais importantes os traços que marcam
marcam estas duas características originais entre o homem e a
mulher. No culto à imagem e à pessoa pessoa-espetáculo,
espetáculo, tudo é válido, desde a utilização de adornos
semelhantes, por pessoas de sexos diferentes. O trato do cabelo, com corte e cores; por um lado, mulheres
mulhere
com cabelos curtíssimos; do outro, homens com longos e tingidos de cores extravagantes. No quesito
roupas e calçados se instala grande variedade: a preocupação estética rompe paradigmas nunca antes
imaginados; a roupa limpa, cozida, passada, bem elaborad
elaboradaa cede lugar à estética do roto, rasgado e sujo.
Há uma profusão muito variada de imagens, as quais, quanto mais extravagantes e distantes do modelo
tradicional são mais apreciadas. A este pluriverso estético podemos adicionar a aplicação de tatuagens e
piercings
ercings localizados nas partes mais inusitadas do corpo humano.

Na indústria que produz o corpo para consumo há outra vertente que está experimentando um
crescimento muito grande, mesmo entre as camadas mais humildes e com menos recursos. A proliferação
das
as cirurgias plásticas que remodelam o corpo, tirando ou adicionando massa, nos lugares esteticamente
incômodos. A maioria que se submetem a esta prática são as mulheres, mas os homens comparecem em
número cada vez mais crescente. Outra prática muito utilizada
utilizada é a dos regimes e dietas alimentares, desde
os mais simples, os domésticos até os dirigidos por profissionais de saúde. Passando por alguns com
características bizarras, ou oferecendo resultados mágicos. Proliferam clínicas e estâncias destinadas ao
emagrecimento,
magrecimento, para construir o corpo ideal, é a valorização de uma imagem estética. Os meios de
comunicação trazem com grande freqüência casos de pessoas que perderam a vida buscando clínicas e
hospitais para se submeterem a esses tipos de cirurgias. Da mesma mesma maneira, alguns regimes, dietas e
remédios para emagrecer têm trazido grandes malefícios para alguns usuários, havendo casos de morte.
Uma das vertentes dessas cirurgias que mudam e constroem o corpo humano é a voltada para o
transexualismo, que objetivava a troca de sexo pela adaptação dos órgãos genitais à vontade do paciente.

Entretanto, há o lado positivo na prática dos regimes, dietas e cirurgias plásticas, voltadas para o
valor estético. O que se pode apontar é o exagero e o desequilíbrio que levam alguns usuários a receber
mais malefícios que benefícios. Há de se considerar o lado ético, em que a beleza e a estética devem ser
cultivadas, mas quando entra o culto da vaidade aí temos o limite a ser discutido.

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APOSTILA DE ÉTICA CRISTÃ
Nosso país é apontado como um dos que pos possuem
suem o mais alto índice de parto cesariano, as
estatísticas apontam números elevados. Esta cultura une interesses: de um lado, dos profissionais de saúde,
que recebem muito mais do que em um parto normal; do outro, a parturiente que procura fugir da dor-do-
dor
parto, bem como se preservar ao máximo dos efeitos estéticos da gravidez. O nascimento com data
marcada pode ser alvo de reflexão, pois a criança vem à luz de conformidade com as razões dos pais ou do
profissional de saúde. O nascituro fica privado de nascer
nascer no dia e hora exatos que a natureza lhe reservou.
Acarretará esta prática algum prejuízo? Como já de muito tempo esta situação existe, na primeira análise
parece não haver grandes conseqüências para a criança nascida dentro deste modelo, mas talvez o tempot
ainda seja muito pouco para uma avaliação mais profunda e detalhada dessa prática. A necessidade de
projetar uma imagem que possa ser consumida e valorizada passa por todo viés da sociedade
contemporânea. De conformidade com o meio a que a pessoa pertença,
pertença, nasce o modelo apropriado para
cada tipo projetado e construído. A prática de esportes marciais é um modismo na atualidade sempre
desembocando na eficácia, e no poder de dominação pela força bruta. O velho jargão do mais forte
fisicamente dominar os mais fracos, para obter projeção, admiração e submissão dos demais e colher os
benefícios junto ao meio feminino, ainda é válido nos dias de hoje. A prática de esportes marciais vem
acompanhada de uma propaganda virtual que chega por meio de filmes e programas
progr de má qualidade e os
jovens procuram imitar os heróis acreditando que sendo fortes e exímios lutadores conseguirão vencer
todos os obstáculos. Outros esportes mais requintados e complexos também são escolhidos para
projetarem uma imagem de prosperidade
prosperidade financeira. O jogo de tênis, golfe, surfe, hipismo, iatismo,
esportes aquáticos, etc. exigem do praticante certa posição financeira. O automobilismo e outros esportes
motorizados também espelham o poder econômico da pessoa. Desta maneira, o esporte escolhido
escol passa a
ser o termômetro com o qual a pessoa passa a ser avaliada pela comunidade. Muitas vezes é com imenso
sacrifício que a pessoa mantém a prática destes esportes, para projetar a imagem de pessoa bem
bem-sucedida,
para não se ver segregada do meio onde
ond vive.

II. SAÚDE, CORPOREIDADE E CONSUMO


CONSU
Nas últimas décadas é presente a preocupação com o corpóreo e a saúde, desde as políticas públicas
objetivando uma qualidade de vida melhor para todos, até as iniciativas das pessoas enquanto indivíduos,
sempre procurando uma vida-boa boa plena de bem-estar.
bem estar. As praças e lugares públicos lotados de pessoas
buscando o ar livre e exercitando o corpo, além das academias, clínicas e hospitais especializados para
onde milhares de pessoas vão em busca de mudanças para o corpo físico. Neste universo resta espaço para
a discussão de seus valores em consonância com a ética cristã. A mulher tem sido transformada em objeto
de consumo, procurando repetir e imitar o padrão de beleza definido em uma boneca vendida aos milhões
por todo mundo, por décadas a fio. O resultado é conhecido: o padrão de beleza migra das rechonchudas
madonas dos artistas do período clássico e renascentista para criaturas com aparências pálidas, esquálidas
e anoréxicas. Esta mudança de paradigma estético foi produzida
produzida pelos estilistas (pouco preocupados com o
conceito de beleza feminina) e os países ricos detentores da indústria da moda. O exacerbado culto ao
corpóreo provocando mudanças bruscas nos paradigmas tradicionais pode desembocar em um porto não
seguro, pois: "Quem se afasta do Deus vivo e confia nas coisas criadas, endeusa estas coisas e a si próprio,
e com isto as destrói, como destrói a si mesmo (...) se dirige para coisas que não são divinas e as
transforma em ídolos" (REIGOTA, Marcos. Eucação ambien ambiental:
tal: compromisso político e competência
técnica. 2006, p.200). A tecnociência oferece meio extraordinário para o prolongamento da existência e da
melhoria de sua qualidade. A tendência é de um crescimento vertiginoso deste campo de produção
científica. O antigo
ntigo sonho de uma vida eterna para o corpo físico nunca esteve tão próximo, parece ser só
uma questão de tempo. Talvez pela força dos ideais do capitalismo, a saúde esteja intimamente ligada à
excelência da eficácia e êxito, na produção e consumo. Aptidão
Aptidão,, capacidade, performance; vencer é a
ordem, a pessoa que não preenche estes quesitos fica do lado de fora do processo. A corporeidade e sua
capacidade de produção está constantemente medida.

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A enfermidade pode colocar a pessoa fora do modelo capaz de produção
produção e consumo. A doença ou
qualquer tipo de enfermidade afasta a pessoa deste processo de bem-estar.
bem estar. A simples condição de ser
criança, idoso ou deficiente, leva a pessoa à condição de dependência de outra pessoa, família ou
instituição. A incapacidade para
ara a produção ou consumo, leva a pessoa à condição excludente, pois: "...
não podemos medir a 'saúde' somente no sistema de valores da respectiva sociedade, mas precisamos
atentar também para a concordância e as contradições da forma corporal da pessoa em relação ao seu
meio-ambiente
ambiente social" (MOTMAN, Jünger. O Espírito da vida. p.90). A concepção de saúde na
contemporaneidade é decorrente da crescente influência da psicanálise e dos arquétipos da sociedade
industrial centralizados na produção e consumo. A definição de pessoa saudável, segundo o modelo, será
toda aquela capaz de produzir e consumir. A capacidade para trabalhar, gerando produção, é a principal e,
do outro lado, a capacidade de prazer, de saber que é digno produtor, portanto, com direito de co
consumir os
produtos industrializados. "Se uma pessoa está prejudicada em sua capacidade de trabalho e impedida em
sua capacidade de prazer, então ela é considerada doente” (idem, p.384). Este modelo cultural tem criado
em grande clamor de exclusão, de pessoas
pessoas doentes, deficientes e idosas, pior ainda para aquelas que estão
próximas da morte. "Na medida em que pessoas 'sãs' se distanciam dessas é que estão condenando-as
condenando à
morte social. O que deveria servir à saúde da vida torna-se
torna se morte para aquelas pessoas que
q são excluídas"
(idem, p.384).

A atual tendência de fracionar e mensurar para qualificar pode levar à incapacidade de compreender
a pessoa humana como um todo, pois no seu autêntico sentido de existir, ela é um composto muito
complexo de bem-estar e mal-estar,
estar, em uma alternância de estados de saúde e doença. "Saúde também
pode ser entendida como uma posição da pessoa em relação a seus diversos estados, a qual pode ser
constatada subjetivamente. (...) Saúde caracteriza o processo de adaptação, ... a capacidade
capac de viver nos
mais diversos ambientes, de envelhecer, de se recuperar, de sofrer, de em paz esperar a morte". Saúde é
então: "a capacidade de lidar autonomamente com o sofrimento, a doença e a morte" (idem, p.388). A
pessoa humana necessita ser compreendida
compreendida desde o instante de sua concepção, passando por todos os
momentos: seu jubiloso nascimento, sua infância, adolescência e fase adulta; na saúde e na doença, no
labor e no ócio, até a morte de seu corpo físico, a fim de ser para sempre respeitada, simplesmente
sim por ser
imago Dei. O que parece estar ocorrendo é uma não aceitação do corpo recebido em seu estado original,
necessitando, por isto, receber uma redefinição, por meios artificiais, tudo para que a pessoa se sinta em
sintonia com as exigências de seu tempo. Talvez não devamos ver este fenômeno como uma crítica, mas
uma constatação cultural. Em tão poucos anos acompanhamos tantas ações e procedimentos com relação
ao corpóreo que a discussão ético-religiosa
ético religiosa pode ter ficado para trás, talvez pela falta
fal de um programa
pedagógico da própria igreja com objetivo de orientar o rebanho.

III. A PESSOA HUMANA ENTRE A FINITUDE E O VIRTUAL


A questão ética mais recente e sutil, que passa quase despercebida, ou de difícil entendimento, é a
discussão que envolvee a finitude e fugacidade da existência terrena da pessoa. Nesta discussão devemos
voltar nossa atenção para a virtualização do ser humano e de seu corpo físico, que por técnicas invasivas-
invasivas
virtuais devassa a intimidade interior das pessoas.A pessoa humana atravessa a via da glória de ter sido
feita à imagem divina, até o ínfimo de sua pequenez diante da grandeza do universo. Na modernidade, o
ser humano foi conceituado na privilegiada posição de "coroa da criação – é relativizado dentro da
corrente da vida, uma vez que a sua própria sobrevivência depende de considerar a vida e a natureza em
seu conjunto", conforme o educador Danilo Streck. Este autor, citando Edgar Morin, afirma: "Eis-nos,
"Eis
portanto, minúsculos humanos, sobre a minúscula película de vida que cobre o minúsculo planeta perdido
num descomunal universo (que talvez seja ele próprio minúsculo num proliferante pluriverso)" (STRECK,
Danilo. Teologia prática e práticas pastorais na América Latina. ASTE: Sinodal, 1998, p. 107-108).
107 Isto
mostra a vulnerabilidade
bilidade da pessoa humana na fina camada capaz de gerar e manter a vida, bem como a

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possibilidade do nosso universo ser apenas um grão de areia no infinito cosmo, nos levando a reflexionar
tanto a respeito de nossa grandeza como de nossa insignificância. Deste este reconhecimento radical de
fínitude e de perdição pode surgir, segundo Morin, uma nova ética de fraternidade: "sejamos irmãos para
viver autenticamente nossa comunidade de destino de vida e morte terrestres. Sejamos irmãos, porque
somos solidários uns dos outros na aventura desconhecida" (idem, p. 386 386-387). Quando estivermos
conscientes de nossa situação transitória e de finitude, talvez comecemos a aceitar a necessidade de
adotarmos uma ética preservacionista, sustentável e distributiva. Da aceitação de
d finitude e transitoriedade
podemos começar a compreender a importância da sacralidade de nossos corpos, questionando a livre
utilização de técnicas invasivas tanto do corpóreo como do virtual. O que outrora fora íntimo e privado,
passou a ser objeto de inquérito
nquérito e observação, muitas vezes não consentida, pelos profissionais de saúde e
extensivamente para toda comunidade científica e a comunidade universal. "Raios X, scanners, sistemas
de ressonância magnética nuclear, ecografías, cameras de pósitons virtualizam
virtualizam a superfície do corpo. A
partir dessas membranas virtuais, podem-se
podem se reconstruir modelos digitais do corpo em três dimensões..."
(idem, p.108).

O surpreendente avanço tecnocientífico tende a deixar


deixar-nos
nos extasiados com tanta novidade e
maravilha. Os benefícios
enefícios imediatos são tão práticos que a discussão passa despercebida, ou mesmo
considerada impertinente, diante de tanto progresso e bem-estar.
bem estar. Os benefícios aparentes que as pessoas
enfermas recebem tornam estéreis e inúteis quaisquer questionamento ético
ético a respeito dos procedimentos
utilizados na promoção desse "bem-estar".
"bem Neste momento, a discussão aqui desenvolvida não pretende
ser uma crítica à Modernidade e/ou à ação inconveniente da tecnociência, mas, sim, à passividade das
pessoas, ao aceitarem acriticamente todos os procedimentos destas técnicas. Segundo Pierre Levy,
devemos estar atentos para o fato de que "cada novo aparelho acrescenta um gênero de pele, um corpo
visível ao corpo atual. O organismo é revirado como uma luva. O interior passa ao exterior ao mesmo
tempo em que permanece dentro" (LÉVY, Pierre. O que é o virtual?, p. 29). Os questionamentos a
respeito destes procedimentos, apenas são apresentados em casos de erros profissionais, transformados em
indenizações pecuniárias. Contudo, a contestação ética fica esquecida, tendo em vista que a força de
convencimento da eficácia destas conquistas tem superado qualquer possível objeção.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
O chamamento da igreja para aceitar o desafio de construir em seu rebanho uma educação voltada
para a formação de autênticos cidadãos pode parecer no mínimo uma utopia. Muitos obstáculos podem ser
levantados, os quais não deixam de ser verdadeiros. Nesse sentido, o presente capítulo pode ser entendido
como uma proposta de conteúdo para uma ação pedagógica da igreja, com a finalidade de ser aplicado em
todas as vertentes programáticas da educação religiosa e nos ministérios eclesiásticos. Voltando-nos outra
vez às percepções de Adela Cortina, podemos recolher subsídios que sustentariam a viabviabilidade da igreja
transformar-se
se em formadora de cidadãos comprometidos com os valores de uma ética da
responsabilidade do reino de Deus. Os grandes discursos são fundamentais e imprescindíveis, mas apenas
quando se prova e exercita seu conteúdo é que podemos
podemos convencer a outros. Os grandes trabalhos hão de
ser iniciados em algum momento. Não se pode aceitar o adágio popular de que "isto se arruma com o
tempo", pois o tempo não arruma nada, apenas com a AÇÃO é que se mudam as coisas. Adela relata
situações que
ue estavam estratificadas na cultura humana. Mas com a ação educativa, as pessoas foram
sendo envolvidas criando o que ela chama de "objetor de consciência" nas comunidades. A partir do
momento em que a comunidade se convence da necessidade de mudanças, passa pa então a objetar e pedir
mudança. Onde antes parecia ser uma utopia, já começam a aparecer sintomas de aceitação da
possibilidade de concretizar uma nova realidade (CORTINA, Adela. Entrevista concedida no 6°
Congresso Mundial de Bioética. Brasília DF 2002).
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Adela Cortina relata alguns exemplos, como o do serviço militar obrigatório, na Espanha, onde, no
momento do início das discussões, a todos parecia elementar que todos devessem fazê fazê-lo. Porém esta
mudança ocorreu em tempo relativamente curto. Hoje, as pessoas se perguntam como o serviço militar um
dia pôde ter sido obrigatório. Atualmente na Espanha o serviço militar não é mais obrigatório. Outro
tópico citado pela entrevistada é a questão da escravatura. Ao tempo do início das discussões esta
conquista apresentava-se
se como um despropósito, uma utopia, todos eram unânimes com a aceitação da
escravatura. Mas, com a luta a favor da emancipação dos escravos, as conquistas foram aparecendo,
disparando no seio da cultura humana o objetor de consciência que, ppor or fim, levou à libertação total da
escravidão, e ao reconhecimento de que era um costume abominável. Por fim, aponta mais um exemplo
dentro da longa luta da emancipação feminina: o direito de votar e ser votada. De início esta discussão não
era aceita, pois
is a função feminina se restringia nos afazeres domésticos, a vida civil era reservada aos
homens. Esta foi mais uma das utopias que se tornaram realidade. Ainda Adela ensina: o que é comum é
ouvirmos das pessoas incrédulas que "já se deu conta de que isto não é possível de ser feito?” Porém
devemos adotar a seguinte máxima: O que é necessário é possível e tem de ser transformado em real. Há
de se comprometer todas as pessoas, os políticos, autoridades, os empresários, profissionais liberais, as
empresas, o Estado, é uma luta de toda humanidade. Tudo que era e é utopia, é possível de ser mudado,
basta vontade política. Diante da comprovação, em fatos, de que a cultura da utopia é uma coisa
impossível de ser derrotada, por que não acreditarmos na iniciativa da
da ação da igreja em torno de assumir
uma postura pedagógica séria e permanente junto à comunidade? A pessoa comparece para a vida eclesial
desde o nascimento até a morte, e em todos os momentos importantes da existência humana a igreja
oferece algum rito, alguma atividade.

Há os momentos fortes na pertença eclesial, como o batismo, a catequese, o crisma, os grupos de


jovens; acompanhamento para namorados, noivos e casais; a preparação para o matrimônio, a celebração e
os ritos que o acompanham etc. Há os grupos de reflexão, caridade, filantropia; muitas paróquias dispõem
de centros comunitários, com assistência à saúde para pessoas carentes; além dos inúmeros movimentos
eclesiais que envolvem desde as crianças até a da terceira idade. Um dos recursos em que qu se pode inserir
uma ação pedagógica transformadora é a liturgia. As práticas litúrgicas são compostas de uma simbologia
muito variada e forte. Sabemos que a linguagem simbólica é muito rica em variedade e principalmente em
poder persuasivo e educacional. A profissão de fé ortodoxa, o rito oriental, talvez seja o mais rico em suas
celebrações litúrgicas, com muitas procissões dentro da missa, com muita movimentação, muitos
adereços, símbolos, enfim, utilizam uma linguagem simbólica riquíssima. Muitas de su suas missas podem se
estender por até três horas. A Igreja Católica Romana também possui um ritual muito propício para passar
recados pedagógicos, as outras profissões de fé cristãs não utilizam tanto as linguagens simbólicas,
simplificaram a liturgia na palavra
avra e na música. Por outro lado, o estudo Bíblico é muito mais presente
entre as denominações protestantes, por exemplo. O recurso da homilia (pregação) está presente em todas
as vertentes cristãs e é, por excelência, uma ocasião para construir cotidianamente
cotidianam "objetores de
consciência" junto à comunidade eclesial. A importância da educação ambiental também está cada vez
mais presente, cabe a cada denominação religiosa, a cada sacerdote, pastor, dirigente eclesial, assumir sua
parte na construção e formação de objetores de consciência junto a suas assembléias, a fim de que todos,
unidos em Nosso Senhor Jesus Cristo, formemos uma só força e voz em direção a uma existência cheia de
vontade política para a mudança de paradigmas que resultem em um viver pleno de dignidade de
verdadeiros seres feitos imago Dei.

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V. A RESPEITO DA ÉTICA
Ed René Kivitz [9]
Deixa de ser bobo, todo mundo faz. Esta é a frase mais usada para justificar o comportamento ilícito.
Dentro dela estão embutidas práticas como a do médico que solicita um “por fora” argumentando que a
remuneração do plano de saúde não é satisfatória; do empresário
empresário que molha a mão do pessoal que libera
carga na alfândega; do pai de família que trabalha sem carteira assinada e do empregador que contrata o
pai de família; do vendedor que dá uma comissão ao comprador para fechar negócio; do comerciante que
compra
pra nota fria para tributar menos ou sonegar; do consumidor que compra produto pirateado porque
senão não poderia comprar; da sacoleira que trabalha no mercado informal para sustentar quatro filhos; e
assim por diante, numa lista de comportamentos interminável
interminável assimilados como “naturais” neste mercado
selvagem. O cenário comporta múltiplas abordagens, e qualquer um que acredite estar diante de um
problema de fácil solução certamente está fazendo uma análise simplista. Por exemplo, basta lembrar que
o comportamento ilícito tem suas variáveis. Pelo menos duas, para ser simples sem ser superficial. A
primeira diz respeito aos agentes. A segunda, aos eventos. Quanto aos agentes, os não éticos podem ser
divididos entre os que fazem por estilo de vida, como os criminosos que montam uma estrutura de
mercado e governo paralelos;
alelos; e os que fazem por necessidade, como os que se colocam à beira da calçada
e estão mais para sobreviventes do que para imorais. Já em relação aos eventos, devemos admitir que há
distinção entre a transgressão como recurso emergencial, como a do camarada
camarada que aceita ser achacado
pela autoridade que criou a dificuldade para vender a facilidade, e a transgressão como meio de vida,
como a da autoridade que vive criando dificuldade. De minha parte, embora coloque tudo no pacote do
fracasso ético, aceito dialogar
alogar com quem acredita que “uma coisa é coisa e outra coisa é outra coisa”.

ÉTICA , MORAL E LEI


Na busca de caminhos para o comportamento ético, podemos entrar pela porta das definições
elementares. Devemos, por exemplo, fazer distinção entre ética e moral.
moral. O Frei Leonardo Boff ilumina
nossa caminhada dizendo que “Ethos, ética, na língua grega designa a morada humana. O ser humano
separa uma parte do mundo para, moldando-a
moldando a ao seu jeito, construir um abrigo protetor e permanente. A
ética, como morada humana, a, não é algo pronto e construído de uma só vez. O ser humano está sempre
tornando habitável a casa que construiu para si. Ético significa, portanto, tudo aquilo que ajuda a tornar
melhor o ambiente para que seja uma moradia saudável: materialmente sustent sustentável, psicologicamente
integrada e espiritualmente fecunda. A ética não se confunde com a moral. A moral é a regulação dos
valores e comportamentos considerados legítimos por uma determinada sociedade, um povo, uma religião,
uma certa tradição cultural etc.. Há morais específicas, também, em grupos sociais mais restritos: uma
instituição, um partido político... Há, portanto, muitas e diversas morais. Isto significa dizer que uma
moral é um fenômeno social particular, que não tem compromisso com a universalid
universalidade, isto é, com o que
é válido e de direito para todos os homens. Mas, então, todas e quaisquer normas morais são legítimas?
Não deveria existir alguma forma de julgamento da validade das morais? Existe, e essa forma é o que
chamamos de ética”.

Moral identifica
ntifica um modo de agir humano, regido por normas e valores, por hábitos e costumes. A
moral se relaciona com o comportamento prático do homem. Ética é uma reflexão teórica que analisa,
critica ou legitima os fundamentos e princípios que regem um determinado
determinado sistema moral.
Ética é princípio; moral são aspectos de condutas específicas;
Ética é permanente; moral é temporal;
Ética é universal; moral é cultural;
Ética é teoria; moral é prática.

9 - Ed René Kivitz é escritor, conferencista e pastor da Igreja Batista da Água Branca, em São Paulo.

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As leis estão no campo da moral, e devem ser avaliadas a partir de seus pressupostos éticos. Para
que você entenda melhor, a afirmação de que todos os seres humanos são iguais perante Deus é uma
afirmação ética, um princípio universal, e a lei que considera crime a segregação racial é uma aplicação
moral, bem como a lei ei que condena a escravidão. A ética deve ser, portanto, aplicada moralmente através
dos códigos legais. As leis são instrumentos de regulamentação social. De acordo com Clive Staples
Lewis, teólogo inglês, essas as leis são necessárias, pelo menos por três razões.
razões. Em primeiro lugar, para
promover uma arrumação e harmonização no interior de cada ser humano em particular. Depois, para
promover a justiça e a harmonia entre os seres humanos. Finalmente, com o objetivo geral da vida humana
como um todo, com o fim para o qual o homem foi criado, que se consolida na possibilidade de um
mundo justo e fraterno habitado por seres humanos plenamente realizados, o que muitos de nós
chamaríamos céu ou paraíso. Em termos práticos, Lewis está dizendo que “a lei protege a pessoa”,
pes e por
isso o Ministério da Saúde obriga advertências nos produtos tóxicos como fumo e álcool. Além disso, “a
lei promove a justiça”, o que justifica a tributação como instrumento de distribuição de renda. Por fim, a
lei viabiliza a utopia, que se expressa,
ressa, por exemplo, na Declaração Universal dos Direitos Humanos.

CRISTIANISMO : ÉTICA , MORAL E CONSCIÊNCIA


É certo que o Cristianismo possui suas premissas éticas (grade de valores) que determinam sua
moral (leis, mandamentos e costumes). Mas também é certo que a proposta do Cristianismo não é um
chamado para que se viva em obediência a leis e mandamentos morais. O Cristianismo convida a uma
nova consciência, isto é, desafia cada ser humano a interpretar a lei (moral) à luz da ética. É fácil de
explicar as razões deste desafio à consciência. Tenho basicamente quatro justificativas. Em primeiro lugar,
todos sabemos que nem tudo o que é legal é ético, isto é, nem sempre a observância da lei é o melhor
caminho para a realização do ideal ético e promoção da justiça. O aborto, a eutanásia e a pena de morte
podem se tornar legais, mas ainda assim continuarão a suscitar discussões éticas. A segunda justificativa
da valorização da consciência acima da lei, é que a lei não é suficientemente abrangente. Uma vez que o
ser humano é um universo infinito, também as relações entre seres humanos será um universo infinito. A
lei nunca será abrangente o suficiente para promover a justiça em todos os espectros possíveis da
complexidade das relações humanas. Cada sociedade vai vai desenvolver seus códigos morais em razão da
necessidade da sobrevivência e da convivência.

O Dr. Drauzio Varella discute bem essa questão em seu livro Carandiru, que retrata o dia-a-dia dia
daquele que foi o maior complexo penitenciário da América Latina. Um terceiro argumento está baseado
no fato de que a lei se flexibiliza diante da ética. A lei, que em tese é rígida em sua norma, se submete à
ética, que é dinâmica em sua hierarquia de valores. Por esta razão é que o sujeito que rouba para dar de
comer aoss filhos pode ser absolvido pelo tribunal: a vida é um valor maior que o direito à propriedade.
Acredito que foi isso o que Jesus tentou ensinar ao afirmar que “o sábado foi feito por causa do homem, e
não o homem por causa do sábado”, isto é, a lei deve estar
e a favor da vida. Finalmente, a lei é reguladora
dos fatos sociais, e nesse caso, não havendo o fato que a justifica, a lei perde seu sentido. Quem ficaria
parado de madrugada numa rua deserta só porque o sinal está fechado? O policial que lavrasse uma multa
por avanço de sinal às duas da madrugada numa rua deserta estaria cumprindo a lei? Novamente voltamos
ao paradoxo entre o sábado e o homem. Fica claro, portanto, que somente o tolo obedece sempre, e
somente o sábio é capaz de desobedecer a lei sem transgredir
transgredir a ética. Poucos são os capazes de andar na
ilegalidade sem cair na imoralidade. E isso faz do Direito uma ciência extraordinária e bela, pois visa a
justiça, acima da lei. Está explicado porque o Cristianismo, em vez de apresentar um novo código moral,
faz um convite desafiador à nova consciência.

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PRINCÍPIOS ÉTICOS À LUZ
UZ DO CRISTIANISMO
Em relação à questão da vida profissional e das relações no mercado, posso dar exemplos de
princípios éticos derivados dos valores cristãos. falando de resulta
resultados,
dos, o Cristianismo, por exemplo, é
diferente do Pragmatismo. O Pragmatismo diz que o que dá certo é certo, enquanto o Cristianismo diz que
o que é certo vale mais do que o que dá certo. Isto é, nem tudo que dá certo é certo. Algumas coisas,
inclusive, nós fazemos sabendo que resultarão em prejuízo para nós – darão “errado” – mas preservarão
nossa dignidade e honra, isto é, a nossos valores éticos. O caráter sempre vale mais do que os resultados.
Falando de gente, as pessoas sempre valem mais do que os papéis papéis que desempenham: o faxineiro é tão
digno quanto o presidente da corporação. Os relacionamentos sempre valem mais do que os negócios. A
fraternidade está acima do lucro. A solidariedade está acima das posses. Falando de dinheiro, a justiça vale
mais do que
ue a prosperidade, e o bem comum vale mais do que a riqueza pessoal. O bem estar individual
não pode existir às custas da indiferença social. Lembre da figura do vampiro que suga o sangue de todo
mundo até sobrar apenas o sangue dele: o genocídio é uma espécie espécie de suicídio. Riqueza sustentável é
riqueza compartilhada. Dinheiro vivo é dinheiro circulando, repartido, distribuído.

CAMINHOS PESSOAIS
Alguém já disse que a melhor maneira de mudar o mundo é fazer um circulo ao redor de si mesmo e
começar as mudanças as a partir do lado de dentro do círculo. Os alemães dizem que devemos pensar
globalmente e agir localmente, o que deve ter dado origem ao seu provérbio que diz que “em pequenas
vilas, pequenas pessoas estão fazendo pequenas coisas que estão mudando o mundo”.
mund Nesse caso, mesmo
sabendo que esta questão não será equacionada sem a mobilização social e as transformações estruturais
promovidas pela ação política, sugiro alguns compromissos pessoais-individuais.
pessoais individuais. Jamais negocie os
valores arraigados em sua consciê
consciência.
ncia. Caráter não tem preço. É melhor dormir mal porque falta cama, do
que dormir mal porque a consciência pesa. As pessoas que me procuram à guisa de dilemas éticos
geralmente estão em defesa de seu padrão de vida, em vez de em luta pela sobrevivência. O problema de
muita gente não é a impossibilidade de fazer o que é certo, mas a dificuldade ou recusa em assumir o ônus
do que é certo. Muito raramente me deparo com pessoas que não sabem o que fazer. Geralmente encontro
pessoas que não têm coragem de fazer o que sabem que devem fazer. É melhor ter pouco com o temor de
Deus do que grande riqueza com inquietação. (Provérbios 15.16) É melhor ter pouco com retidão do que
muito com injustiça. (Provérbios 16 .8) Melhor é um pedaço de pão seco com paz e tranqüilidade do que
uma casa onde há banquetes, e muitas brigas. (Provérbios 17.1) Melhor é ser pobre do que mentiroso.
(Provérbios 19.22) Melhor é o pobre íntegro em sua conduta do que o rico perverso em seus caminhos.
(Provérbios 28.6) Faça distinção entre
entre a prática eventual do ilícito e o estilo de vida ilícito. A Bíblia
também recomenda: “Não seja excessivamente justo nem demasiadamente sábio; por que destruir-se
destruir a si
mesmo? Não seja demasiadamente ímpio e não seja tolo; por que morrer antes do tempo? É bom reter
uma coisa e não abrir mão da outra, pois quem teme a Deus evitará ambos os extremos” (Eclesiastes 7.167.16-
18). Não encaro isso como “licença para ser imoral de vez em quando”, mas como recomendação da
sabedoria para julgar e discernir a partir de uma hierarquia de valores. Pratique a “ética temporal
ascendente”. Este é um conceito muito interessante desenvolvido por Lourenço Stelio Rega, em seu livro
Dando um jeito no jeitinho (Editora Mundo Cristão). Este princípio foi utilizado, por exemplo, pelo
apóstolo Paulo, que não se posicionou claramente contra a poligamia, mas exigiu dos líderes cristãos que
“fossem maridos de uma só mulher”. Naquele contexto social, a transição brusca da poligamia para a
monogamia implicaria a condenação de muitas mulheres,
mulheres, que não possuíam quaisquer direitos legais, à
miséria e à prostituição. Por isso, mesmo sendo a monogamia o ideal moral cristão, o apóstolo soube
conviver com a poligamia o tempo necessário para promover a transição, de modo a evitar maiores
complicações sociais. Participe dos processos de transformações sociais. A mobilização da população é o
instrumento de transformação social em um estado de direito. O regime democrático implica mais do que
o voto, na verdade, exige que o voto seja precedido pelo escl
esclarecimento
arecimento e sucedido pelo acompanhamento
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dos eleitos. A militância, geralmente associada à política partidária, deve ser encarada em seu espectro
mais amplo, que inclui a sociedade civil em todas as suas dimensões de representatividade. Cumpra seu
papel como
omo cidadão. Comprometa-se
Comprometa se com uma causa. Assuma uma postura. Associe-se
Associe com pessoas e
organizações que trabalham para o bem comum. Incentive a solidariedade. Seja um doador. Faça trabalho
voluntário. Divulgue boas notícias. Denuncie. Assine listas. Candidate-se.
Candid se. Proteste. Faça campanha. Não
se omita. Faça alguma coisa. E se for o caso, chame sua turma e levante uma bandeira.

CONCLUSÃO
Geralmente se ouve que as pessoas se perguntam se vale à pena ser honesto. A profecia de Rui
Barbosa se cumpriu: “De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver
crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se
agigantarem se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a
desanimar da virtude, a rir-se
se da honra, a ter vergonha de ser honesto.” Mas receio que
qu a questão seja um
pouco pior: as pessoas já não se perguntam se a honestidade vale a pena, mas sim se a honestidade é
possível. Mas não perdi a fé. Não perdi a esperança. Não deixei de acreditar na dignidade do ser humano.
Aprendi que o mundo está dividido
dividido em três grupos de pessoas. Os otimistas ingênuos. Os pessimistas
frustrados. E os realistas engajados. Espero somar entre os que estão de mãos arregaçadas.

VI. AFRODESCENDENTES EVANGÉLICOS E O II CONGRESSO BRASILEIRO DE


EVANGELIZAÇÃO – CBE2
A participação do MNE – Movimento Negro Evangélico no II Congresso Brasileiro de
Evangelização – CBE2,, que aconteceu entre o dia 27 de outubro a 1 de novembro em Belo Horizonte foi
histórico e de grande impacto. Estamos muito otimistas que depois deste CBE2, a questãoquestã racial e
negritude terá espaço nas agendas de outros congressos que venha acontecer pela motivação do CBE2. O
mais importante de tudo isso é que constatamos que os envolvidos em Missão Integral são muito
receptivos a questão da negritude devido a sua compreensão
compreensão social do evangelho de Cristo bem como
alcançar o ser humano como um todo, ou seja, as pessoas envolvidas em Missão Integral já tem um bom
caminho andado que facilita muito a entender a importância das igrejas se envolverem com a questão do
negro. Mesmo assim encontramos poucas pessoas que tinham algum conhecimento da questão e também
encontramos muitos afrodescendentes que se realizaram ao descobrirem que existiam pessoas falando de
negros nas igrejas: “Tenho vinte anos de crente e nunca tinha ouvido
ouvido alguém falar de negro na igreja”.
Essa era a expressão de alegria de um irmão ao ouvir a temática no CBE2.

No dia 18 de outubro no Encontro de Lideranças Negras Evangélicas em São Paulo Hernani da Silva
que participava do encontro colocou para o grupo que iria participar do CBE2 como facilitador do grupo
de discussão com um tema muito oportuno “discriminação, exclusão e inclusão” que era uma importante
abertura da organização do congresso para a questão dos afrodescendentes. Hernani pediu apoio para falar
fa
em nome do grupo que foi denominado de Fórum de Lideranças Negras Evangélicas, onde recebeu total
apoio de todos, como tinha pouco tempo para definir a participação do fórum representado por Hernani no
congresso, ele elaborou um MANIFESTO e enviou para todos os membros do fórum para aprovação.
Sendo o documento aprovado ele enviou para o presidente do CBE2 o Rev. Carlos Queiroz. O documento
doc
teve repercussão no congresso já preparando o terreno para o que estava a acontecer durante o evento. O
Espírito Santo de Deus já começava a trabalhar providenciando mais pessoas para estar presente no CBE2,
como o rev. Marco Davi, o rev. Welinton, e a jornalista Nilza Valeria todos participante do fórum de
lideranças negras em São Paulo, que tiveram um papel muito importante nas articulações e mobilizações
para a visibilidade da questão da negritude no CBE2. Marco Davi com seu entusiasmos e militância,
militânc foi
convidado para fazer parte do painel cidadania na sexta feira pela manhã, podendo falar para uma platéia
de mais de mil pessoas de todos os estados brasileiros, participou da mesa com Paul Freston, Alexandre
Carneiro, e Eude Martins que expuseram o que entendem sobre cidadania à luz da Bíblia, das ciências
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Sócias e da pratica de vida. Tendo como mediador o sociólogo Alexandre Brasil, o painel expôs questões
sobre ética na política, racismo, exclusão social, exercício da cidadania, entre outras nuanc
nuances do tema.
Depois das exposições foi aberto espaço para que os participantes fizessem perguntas sobre os temas
mencionados, a fala de Marco Davi foi de um grande impacto no publico presente suscitando
questionamentos e aplausos: “Hoje eu orei. Ele é negro
negro!”
!” Disse Marcos, arrancando aplausos da platéia,
falando também de negritude e racismo, houve questionamento dos participantes sobre o sistema de cotas,
preconceito na igreja e demonização da cultura afro. Um dos momentos marcantes foi quando Marco
pediu para
ara que todos os negros presentes se levantassem, foi um grande momento de negritude, mais
também de dúvida e busca da identidade. A questão da negritude não ficou só no congresso mais também
foi estendido para mais de sessenta cidades de Minas Gerais através
através de um programa de televisão da Rede
Super chamado Alerta Geral um programa de entrevista onde Hernani da Silva foi convidado para falar da
questão do negro e a igreja falando meia hora ao vivo sobre racismo na igreja e demonização da cultura
afro. Hernani
ani também foi facilitador de um Grupo de Discussões no CBE2 com a temática preconceito,
exclusão e inclusão foi de grande importância para a mobilização de pessoas que se tornaria aliados para
que o tema da negritude e racismo tivesse uma significante presençapresença durante todo o congresso e
repercutisse contagiando outras pessoas para a questão.

A maioria dos presentes foram de afrodescendentes mais tivemos pessoas brancas que entenderam a
proposta e se tornaram fortes aliados. O facilitador do debate Hernani
Hernani da Silva falou de como nasce um
preconceito e em seguida expôs as diversas formas de preconceito em nossas igrejas. Falou da questão
racial e negritude trazendo os participantes para um debate que revelou indícios de como os evangélicos
discriminam àqueles
eles que não se enquadram dentro do perfil. Hernani a borda também a questão da
demonização da cultura afro, e afirma que para desconstruir essa demonização precisamos olhar o
cristianismo como também de matriz africana. “A igreja tem que fazer uma reparação
reparaç teológica em favor
da negritude”, afirma Hernani, lembrando que no país a pobreza é negra e que há no país mais de duas
mil comunidades remanescentes de quilombos, e que a igreja precisa olhar para essas questões para viver
a sua missão integral. No final nal os participantes apresentaram propostas para superar toda forma de
preconceitos existentes nas igrejas, para a afirmação da negritude na igreja e busca de caminhos para
resgatar a cultura negra incluindo--a na liturgia da igreja brasileira.

Tivemos também
mbém a participação do Rev. Ariovaldo Ramos, presidente da Visão Mundial, que tem
mostrado que é possível pregar sem ser omisso com relação a questão do negro, que muitos pregadores e
teólogo pregam e fazem tratados teológicos sobre a total depravação, eleição, expiação, graça,
perseverança dos santos e justiça social, sem a mais leve referência a como essas questões se relacionavam
com a causa do negro. Em sua fala no CBE2 com o tema A Ética e a Igreja, Ariovaldo Ramos abordou a
questão
stão do negro com muita firmeza: “Vós não sabeis de que espírito sois.” Disse Jesus em Lc 9.55, aos
irmãos Tiago e João, que, quando perceberam que uma aldeia de Samaria se recusava a permitir a
passagem de Jesus, perguntaram-lhe
perguntaram se gostaria que pedissem aoo Pai que mandasse fogo do céu para
destruir aquela vila. Jesus explicou que o filho do homem não veio para destruir a alma dos homens, mas
para salvá-los.
los. Jesus estava ensinando ética para os seus discípulos. O que eles sugeriram não combinava
com caráter da obra, da pessoa e da natureza de Cristo. Ética é isso, a coerência entre meio e o fim. A
gente é ético no contexto onde a gente vive. O nosso contexto é o Brasil, país de contrastes perversos: uma
das maiores economias e um dos piores índices de distri distribuição
buição dessa riqueza; uma tecnologia
desenvolvida ao lado dos piores índices de alfabetização e de aquisição de cultura; uma das arquiteturas
mais reconhecidas e respeitadas ao lado de um dos maiores de índices de déficit habitacional e de sub
moradias; um dos maiores territórios do planeta, com terras das mais férteis ao lado dos piores índices de
distribuição de terra; uma das mais eficazes agriculturas ao lado da fome e da subnutrição; uma medicina
das mais desenvolvidas ao lado de índices estarrecedores de mortalidade infantil; uma das legislações

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mais avançadas na área dos direitos humanos ao lado de graves índices de violência contra a mulher,
abuso de crianças e adolescentes e prática de tortura; um dos códigos penais de maior senso humanitário
ao ladoo de um dos sistemas carcerários mais aviltantes e degradados; uma das democracias raciais mais
celebradas ao lado de um racismo pérfido, pois, sutil, não confessado e disfarçado de problema sócio
sócio-
econômico, onde o negro, cantado em prosa e verso, não consegue
consegue ser cidadão e está condenado à pobreza
e a ignorância; uma das constituições mais avançadas ao lado dos piores e mais corruptos políticos
encontrados numa nação classificada entre as modernas; um dos sistemas de votação mais avançados ao
lado de um processo
ocesso eleitoral marcado pela preponderância do poder econômico e por vícios que
perpetuam no poder uma casta de caudilhos, sistema onde se tem a obrigação do voto mas não se tem o
direito de veto, onde o eleito pelo povo transforma o mandato em patrimônio pessoal e fonte de riqueza;
uma cultura marcada pela criatividade ao lado de um mercado cultural colonizado e empobrecedor; um
dos povos que mais confessam a existência de Deus ao lado de uma vergonhosa manipulação religiosa e
de arraigadas práticas de superstição,
perstição, que o tornam prisioneiro de forças malignas.

O que significa agir de forma coerente a nossa natureza e finalidade num contexto desse? Vou tentar
responder a essa pergunta apresentando, salvo melhor juíza, algumas posturas. A face mais visível e, e
aparentemente, a que mais cresce da igreja brasileira ao invés de denunciar a injustiça social e propor e
viver uma economia solidária, passou a pregar uma teologia que sustentava a desigualdade ao afirmar que
a riqueza deveria ser o alvo do crente, e ququee o caminho é a fé atestada pelo nível de contribuição e pela
capacidade de arbitrar, por decreto, sobre o que Deus deve fazer; ao invés de denunciar a miséria e a
dívida do estado para com os excluídos passou a denunciar a provável pequena fé dos desgraça desgraçados; ao
invés de socorrer aos enfermos, enquanto denunciava o descaso, começou a apregoar uma cura instantânea
para aqueles que, com um certo tipo de fé, freqüentarem o ministério certo; ao invés de combater o
racismo passou a estigmatizar como maligna tudo tudo o que se relaciona com a cultura negra, como se o
demônio fosse negro e, portanto, tudo o que é negro fosse demônio; ao invés de denunciar a corrupção
passou a fazer negociatas com sórdidos representantes da camarilha que mantém o país no
subdesenvolvimento,nto, assim como, a participar, sem restrições, do jogo político, cassando o direito político
de suas ovelhas pelo constrangimento para que votem nos candidatos escolhidos pelos líderes; líderes que
ao invés de praticarem o serviço para que se forme uma com comunidade,
unidade, tornaram-se
tornaram caudilhos que se
locupletam às custas da boa fé de gente quer apenas queria Deus, e que se escondem em títulos pomposos
enquanto transformam a igreja numa cultura de massas fácil de manobrar; ao invés de pregar a graça que
foi de modo abundante derramada através de Cristo Jesus, passou a demandar sacrifícios acompanhados
de doações cada vez mais constrangidas, para que o fiel se tornasse apto para receber a bênção desejada;
ao invés de promover a mansa espiritualidade do cordeiro, promoveram
promoveram a esquizofrênica espiritualidade
do leão, que tenta transformar em “já” o “ainda não” do reino, enquanto transforma o “já” do reino em
“nunca”;ao invés de viver, sinalizar e anunciar o reino, passaram a caçar os principados e potestades nas
regiões celestiais,
elestiais, ora localizando e derrubando os seus postes ídolos, ora ungindo de alguma forma
criativa a cidade, inaugurando o que James Houston chamou de evangelização cósmica; ao invés de
fomentar o surgimento da comunidade do Reino importou modelos de agrupamento agru que aumentam a
produtividade da igreja na promoção do crescimento numérico, que passou a ser aval de benção divina; ao
invés de pregar e praticar a vitória de Cristo na cruz e na ressurreição sobre todos os agentes do mal,
passou, de um lado, a pregar gar uma teologia que mais infundia medo do que fé. Continua Ariovaldo: É
daqui que temos de continuar. Temos uma teologia para desenvolver, precisamos, sob essa nova ótica,
repensar a teologia sistemática e a identidade protestante; temos uma espiritualida
espiritualidade para retomar, a
espiritualidade do Cordeiro; temos uma igreja para edificar, de modo que, pelo menos nela, todas as raças
desapareçam dando lugar à única raça que Deus criou, a raça humana, onde todos sejam gente como gente
tem de ser, à imagem de Jesus de Nazaré; temos um país para influenciar, temos profecia a proferir (caso
das novas tribos).

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Precisamos refletir, a partir dessa compreensão teológica, sobre o labor político e partidário; sobre
economia; sobre genética; sobre bioengenharia (falar dos transgênicos);
transgênicos); sobre a globalização, sobre a
chamada pós-modernidade,
modernidade, sobre a nova sexualidade, sobre a fermentação religiosa, sobre o desafio do
islã, sobre formas de fazer entendida a mensagem da cruz, num mundo em mutação; sobre a questão
agrária e o meioo ambiente; sobre a urbanização na América Latina; sobre a relação da igreja com o estado.
Temos de nos encontrar mais, trabalhar mais juntos, abrir o círculo para que novos não só sejam atraídos,
como já o estão sendo, mas, para que se sintam bem vindos e em casa. Ariovaldo finaliza dizendo que
temos um reino para viver e para manifestar. E não estamos sós: o Senhor Jesus está onde sempre esteve,
reinando sobre sua Igreja e sobre todo o universo; e o Espírito Santo está aqui, pairando sobre o caos,
soprandodo vida, levando a Igreja que está no Brasil a um avivamento que ainda não conheceu, o
avivamento que chama à história o clamor de Jesus, retratado por Lucas:
Lucas: “Bem aventurados os pobres
porque deles é o Reino de Deus”. O clima do II Congresso Brasileiro de Evangelização - CBE2 foi de
indignação e denuncia e isso foi presente em todas as falas e fóruns, painéis e grupo de discussões, mais
também foram momentos de comunhão, perdão e de renovação. Podemos sentir muito isso em uma carta
do CBE2 dirigida a Deus em forma de oração: “Escrevemos essa carta em forma de oração porque
reconhecemos que tu és a nossa fonte e direção”.

Em outra parte diz:


“Falamos de inclusão, mas confessamos nossa dificuldade de ser inclusivo entre nós.... Isso abre
uma enorme brecha de esperança para o nosso futuro, mais ainda uma inquietante pergunta: até quando?
Até quando os sem-teto e sem--comida, os aflitos, os solitários estarão sem-apoio,
sem sem-pastor, sem
igreja?”. E encerra a carta oração dizendo:
diz Encerramos essa carta, Deus da paz, sabendo que Teu Filho
está sendo glorificado por ai, e o Teu Espírito anda soprando por tudo que é lado. Nós te agradecemos por
isso e nos consagramos a ti para ser sal da terra, conforme o Teu desejo. O mais atenc
atenciosamente possível,
teus filhos e filhas do Congresso Brasileiro de Evangelização 2.

Belo Horizonte, 1º de Novembro de 2003.

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