Você está na página 1de 12

PRÁTICA DE EXTINÇÃO:

a extinção de um comportamento no laboratório analítico comportamental.

EXTINCTION PRACTICE

Mary Lúcia Sargi do Nascimento

Patrícia Barros de Alencar

(Universidade Federal de Mato Grosso do Sul - UFMS)

Endereço para correspondência: Mary Lúcia Sargi do Nascimento, Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, Faculdade de Ciências
Humanas, R. Mainá, 126, Colibri I - Caixa Postal: 5006. CEP: 760091-330. Campo Grande, MS. Endereço eletrônico:
marylucia_01@hotmail.com.
PRÁTICA DE EXTINÇÃO:

a extinção de um comportamento no laboratório analítico comportamental.

EXTINCTION PRACTICE
Resumo: O presente artigo visa apresentar uma prática de extinção operante, caracterizando-a.
Temos por objetivo demonstrar se o sujeito de nossa pesquisa correspondeu aos critérios que
possibilitam a afirmação do processo de extinção, após passar por um esquema de reforçamento
contínuo. A prática foi realizada em laboratório; o sujeito diz respeito a um rato branco de
linhagem Winstar, de 100g, privado de água há 48h quando teve início a prática. Ao final da
análise, pode-se concluir que a prática de extinção foi bem-sucedida de acordo com as
definições.

Palavras-chave: extinção operante; caixa de skinner; análise do comportamento.


Abstract: The present article aims to present an operative extinction practice, characterizing it.
We aim to demonstrate if the subject of our research corresponded to the criteria that allow the
affirmation of the extinction process, after undergoing a continuous reinforcement scheme. The
practice was performed in the laboratory; the subject concerns a white Winstar, 100g, deprived
of water for 48 hours when the practice began. At the end of the analysis it can be concluded
that the extinction practice was successful according to the definitions.

Keywords: operant extinction; skinner box; behavior analysis.


1. Introdução

O artigo aqui apresentado descreve e analisa a prática de Extinção Operante realizada


no decurso das aulas de laboratório de Análise do Comportamento e se subdivide em: objetivo,
onde é exposta a motivação da pesquisa; método; descrição do sujeito e material utilizados na
prática, além do delineamento desta; resultado, no qual há exposição da prática; por fim, a
discussão dos resultados, em que analisamos se o objetivo coincide com os resultados
verificados.

Tendo em vista que, segundo Lopes (2008), um comportamento se caracteriza por uma
"relação organismo-ambiente, que pode ser entendida do ponto de vista de sua dinâmica como
uma coordenação sensório-motora, e do ponto de vista da Análise do Comportamento como
uma relação de interdependência entre eventos ambientais, eventos comportamentais, estados
comportamentais e processos comportamentais."; e que, partindo dessa concepção, torna-se
possível caracterizar também um esquema de reforçamento "Esquema de reforçamento diz
respeito, justamente, a que critérios uma resposta ou conjunto de respostas deve atingir para
que ocorra o reforçamento. Em outras palavras, descreve como se dá a contingência de reforço,
ou seja, a que condições as respostas devem obedecer para ser liberado o reforçador. " (Moreira
e Medeiros, 2007, p.117), e a modelagem, ainda conforme Moreira e Medeiros (2007, p. 62),
"é uma técnica usada para se ensinar um comportamento novo por meio de reforço diferencial
de aproximações sucessivas do comportamento alvo." torna-se possível a apreensão da prática
de extinção operante, tema de discussão do presente artigo.

Catania (1999) elenca uma série de características do processo de extinção. Segundo


ele, quando uma resposta é reforçada, sua probabilidade aumenta; e quando o reforço for
ausente, a tendência é o aumento da frequência de resposta, seguida da sua gradativa
diminuição, até alcançar o nível operante. O reforço é temporário, sendo a extinção uma das
suas propriedades, também descrita como a suspensão do reforço.

Em se tratando da história do conceito de extinção, de acordo com Catania (1999), por


muito tempo supôs-se que a extinção suprimia ativamente o responder; ela teria efeitos
inibitórios, em contraste aos efeitos excitatórios supostos para o reforço. E ainda, reforço e
extinção eram tratados separadamente; mais tarde, passaram a ser tratados como dois aspectos
do mesmo fenômeno. O experimento de Kendall (1965), contido no livro, é utilizado para
corroborar o exposto.

De início, ele reforçou as respostas de bicar o disco, em três pombos,


durante sessões de uma hora. Em seguida, programou sessões de extinção de
um minuto de duração. Somente depois que o responder tinha sido
confiavelmente reduzido a zero, nessas sessões curtas, é que ele introduziu a
primeira sessão de extinção de longa duração. Em poucos minutos, cada
pombo recomeçou a responder. Até essa sessão, o responder nunca havia sido
extinto até períodos mais longos do que o primeiro minuto da sessão; quando
a oportunidade, finalmente, apresentou-se, o responder ocorreu nesses
períodos posteriores ao minuto inicial. (Catania, 1999, p. 94)

Ainda de acordo com Catania (1999), o comportamento é afetado por consequências, as


quais podem ser programadas; o ambiente precisa estar organizado de forma que as
consequências esperadas possam vir a acontecer. A relação funcional descrita como operante,
na qual a principal fonte de controle está nas consequências, compreende uma parcela grande
de comportamentos, em contraposição à descrita como respondente, bem mais restrita.

No tocante ao conceito de extinção, ocorre pelo rompimento da relação resposta-


consequência, o que faz com que o comportamento deixe de ocorrer. Assim, quando um
organismo é colocado em extinção há: a) aumento de frequência de resposta; b) variabilidade
de resposta; c) redução gradativa do responder.

Existem alguns elementos que compõem a resistência à extinção, entre eles estão: o
custo de resposta para a extinção, em que quanto maior for o custo de resposta, tanto menor é
a resistência à extinção; e os esquemas de reforçamento, nos quais os intermitentemente
reforçados são mais resistentes à extinção se comparados aos reforçados continuamente. Em
nosso experimento de extinção, o rato havia passado pelo esquema de reforçamento contínuo.

Andery e Sério (2009, p.23) caracterizam os aspectos que caracterizam a definição de


extinção, e atingir estes aspectos foi o objetivo da prática em análise neste artigo: "Três
aspectos, então, necessariamente devem compor a definição de extinção: (a) uma relação entre
resposta e reforço já estabelecida, (b) a quebra desta relação e (c) as alterações no responder
produzidas por esta ruptura. "

2. Objetivo
Considerando a definição dada por Moreira e Medeiros em Princípios Básicos de
Análise do Comportamento (2007) para o conceito de Extinção Operante “quando suspendemos
(encerramos) o reforço de um comportamento, verificamos que a probabilidade de esse
comportamento ocorrer diminui (retorna ao seu nível operante, isto é, a frequência do
comportamento retoma aos níveis de antes de o comportamento ter sido reforçado)”, torna-se
de interesse àqueles curiosos quanto a prática da análise do comportamento se esta definição é
observável enquanto realidade; portanto, neste artigo, toma-se como propósito o entender e
demonstrar a confiabilidade da definição e utilidade da prática de extinção operante, quando
teve início o processo de extinção.

3. Método

O sujeito utilizado na prática é um rato branco da linhagem Winstar, pesando


aproximadamente 100g, privado de água há 48h antes da prática anterior a de extinção,
colocado na Caixa de Skinner disponibilizada pelo laboratório de Análise do Comportamento
da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul, de seguintes dimensões: 310mm (altura) x
260mm (largura) x 200mm (profundidade), constituída por uma caixa, um recipiente de água,
uma barra de ferro, uma base constituída por uma grade de ferro (no interior da caixa), uma
bandeja para o recolhimento dos detritos do sujeito, e um controle. Durante o a prática realizada
as pesquisadoras encontravam-se utilizando as indumentárias necessárias, sendo estas: jaleco,
luvas e sapato fechado; além disso, mantiveram-se os cabelos presos. As práticas aqui descritas
podem ser encontradas no livro “A Análise do Comportamento no Laboratório Didático”
(Matos e Tomanari, 2002).

Para que a realização do experimento de extinção fosse possível, delineamos o método


de pesquisa, efetivado em dois dias, da seguinte maneira. No primeiro dia, quatro práticas
preparam o sujeito de pesquisa: 1) mensuração do nível operante de pressão à barra; 2) Treino
ao bebedouro; 3) Modelagem da resposta de pressão à barra; e 4) Reforço contínuo da resposta
de pressão à barra (CRF I). No segundo dia, estando o rato condicionado, aplicamos um
complemento da prática anterior: 5) reforço contínuo de pressão à barra (CRF II), para garantir
que estávamos, de fato, observando um rato cujo condicionamento de pressão à barra se
efetivou.

Em seguida, iniciamos a prática de interesse central neste artigo: 6) extinção de resposta


de pressão à barra; cuja descrição realizou-se por meio da divisão em seis procedimentos: em
um primeiro momento, nos é solicitado que as anotações da prática mantenham em uso a folha
de anotação da prática anterior, apenas marcando o minuto de início do procedimento. Em um
segundo momento, orienta-se o desligamento da chave de comando da caixa, e que
mantenhamos as anotações de pressão à barra; após isso, propõe-se que, após cinco minutos de
iniciadas as anotações, retiremos o recipiente de água da caixa. Ao observar a ausência de
respostas de pressão à barra pelo animal por cinco minutos, finalizamos a prática. O último
procedimento a ser seguido diz respeito à prática 7) reforço secundário, o que não trataremos
neste trabalho.

4. Resultados

Ao iniciar desta prática o sujeito já se encontrava dentro da caixa de Skinner, e havia


sido submetido a prática de reforço contínuo de pressão à barra (CRF II), que foi pressionada
cinquenta vezes, o que possibilitou ao rato sair da privação hídrica de 48h e reforçar o ato de
pressão à barra como condição para o recebimento de água.

Posteriormente, a chave que controla a caixa foi desligada, o que fez com que, ainda que
o rato apertasse a barra por diversas vezes, não obtivesse água como resposta. O sujeito desta
pesquisa, no primeiro minuto de extinção apertou a barra por nove vezes, e nos minutos
posteriores não apresentou mais nenhuma resposta de pressão a barra; após cinco minutos com
a chave desligada, a cuba de agua foi retirada da caixa; e no minuto sequente à retirada da cuba
a prática foi encerrada, pois, segundo orientações do livro, caso o rato deixasse de apertar a
barra por cinco minutos subsequentes, considera-se finalizada a prática de extinção operante.

Ulteriormente foi realizado, com os dados obtidos na prática de CRF (I), Extinção,
Reforço Secundário e CRF (II), um gráfico expressando os resultados.
Gráfico 1. Apresenta a distribuição da frequência acumulada de pressão à barra ao longo de quatro práticas
distintas: a) CRF I, (reforço contínuo de pressão à barra I); b) Extinção; c) Reforço Secundário; d) CRF II
(reforço contínuo de pressão à barra II). Neste artigo, interessa-nos analisar somente o período em que ocorre a
extinção: o reforço água é retirado; como a água não aparece em sequência à pressão da barra, observa-se o
aumento considerável da frequência de resposta; até que a barra deixa de ser pressionada por completo. Afirma-
se, assim, ter ocorrido o processo que extinguiu as respostas que o sujeito de pesquisa, o rato, aprendeu a emitir
mediante condicionamento.

5. Discussão

Considerando o exposto no artigo, é possível afirmar que a definição do conceito de


extinção operante, de Moreira & Medeiros (2007) confirma-se na prática. O sujeito analisado,
após passar pela prática de extinção, retorna ao nível operante do comportamento, no caso
analisado, o rato deixa de apertar a barra completamente; esta passa a ser novamente um objeto
como qualquer outra coisa dentro da caixa, e o rato deixa de apresentar o comportamento ao
qual foi modelado.

Como pesquisadores, podemos dizer que o objetivo e o resultado coincidem; isto nos
permite afirmar que alcançamos o que pretendíamos. Primeiramente, submetemos o rato à
aprendizagem do comportamento de pressão à barra cujo reforço contínuo oferecido
correspondeu ao ganho de água, ou seja, o condicionamos a realizar essa atividade. Em seguida,
nossa meta era extinguir tal comportamento nesse sujeito, o que alcançamos. Assim, o processo
de extinção aconteceu como esperado, confirmando a hipótese de que a resposta de pressão à
barra é mantida por suas consequências.

Em outras palavras, é possível dizer que um sujeito pode ser condicionado a um


comportamento por meio da utilização do recurso reforço, basta que associemos seguidamente
o ato, pressão à barra, ao reforço, recebimento de água. E, uma vez que o condicionamento
tenha se estabelecido no rato, há possibilidade de extinção dessa aprendizagem; isso pode
ocorrer com a retirada do reforço, a água, que incentivava o rato a continuar pressionando a
barra.
6. Referências

Catania, A. C. Tradução de Deisy das Graças de Souza et al. Aprendizagem: comportamento,


linguagem e cognição. 4ª ed. Porto Alegre: Artmed, 1999.
Medeiros, C. A. de,; Moreira, M. B. Princípios básicos de análise do comportamento. Porto
Alegre: Artmed, 2007.
Tomanari, G. Y.; Matos, M. A. A análise do comportamento no laboratório didático. São
Paulo: Manole, 2002.
Andery, M. A.; Micheletto, N. e Sério, T. M. (ORG). Comportamento e causalidade. . São
Paulo, 2007.
LOPES, Carlos Eduardo. Uma proposta de definição de comportamento no behaviorismo
radical. Rev. bras. ter. comport. cogn., São Paulo, v. 10, n. 1, p. 1-13, jun. 2008 . Disponível
em <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1517-
55452008000100002&lng=pt&nrm=iso>. acessos em 20 jun. 2018.