Você está na página 1de 5
‘Belo Horizonte, vol. I, p. 51 - 55, dez. 1997 = A INVENGAO DA VERDADE Olimpio José Pimenta Neto* RESUMO: Este artigo consiste numa sintese da meditacdo sobre o conhecimento a partir do pensamento de Friederich Nietzsche e do ciclo narrativo José e seus irmdos, de Thomas Monn, visondo explicitar as determinacoes rect- procas entre saber e vida e estabelecer as conseqiiénci- as de tol enpreendimento no tocante a construgdo da verdade. PALAVRAS-CHAVE: Conhecimento, Vida, Norrativa, Ractonalidade. © conjunto de problemas que constitui o escopo de nosso estudo pode ser anunciado numa formulagéo relativamente simples: trata-se da meditagéo que visa j estabelecer as condicdes te validade do conhecimento. As margens que circunscre- veram essa temitica ao longo de séculos foram fixadas com base nuna espécie de estrita observancia te6rica que conferia a determinados habitos de pensamento o poder de decidir em absoluto a respeito da pertinéncia de qualquer consideracao feita sobre as matérias sujeitas a sua jurisdicdo. Importavam como critério Gltimo para o debate sobre o saber as justificativas de ordem fundacional -, isto 6: qualquer jufzo ou proferimento valia como conhecimento em fungao direta das garantias te6rico-ontolégicas por ele oferecidas. A intengdo de todos os que se orientaran por esta configuracao da reflexao sobre o conhecimento era, portanto, definir parémetros universais e necessarios para o encaminhamento do problema do valor do saber. 0 tratamento desse assunto recebeu uma inflexéo extremamente peculi- ar a partir da filosofia de Friedrich Nietzsche. Reconhecendo o saber em suas maltiplas formas como fruto de estratégias precisas a favor da presenca dos * Doutor em Literatura Comparada, 1996. ae Belo Horizonte, V1, p. 1 ~ 148, Dex. 1997 homens no mundo, 0 filésofo ensina a ler, na Tinguagem e em seus usos, seu sentido vital — com o qual interage, a modo de um sintoma, qualquer eventual sentido epistemolégico a elas agregado. A exigéncia de salvaguardas fundacionais para 0 conhecimento mostra para ele medo e fraqueza. Em contrapartida, a propos- ta de um conhecimento cuja ténica seja a alegria, mesmo en face dos maiores perigos e adversidades, mostra para ele forca e salde. 0 ciclo narrative José e seus irmdos, de Thomas Mann, encontra-se, a nosso ver, constitutivamente vinculado a uma perspectiva semelhante acerca do conhecimento. Realizacao de maturidade de um artista notavel, ombreia com a obra nietzscheana na demonstragéo de possibilidades de saber cujo principal conpro- misso € com a exceléncia no viver. A narragéo da trajetéria de José do Egito por Mann franqueia para seu leitor o tema da travessia até 0 super-honem, cultivado por Nietzsche como ponto alto de sua filosofia. Foi a partir dessa intuigéo ou associacao primitiva que se iniciou a elaboracdo desta tese. A principal tarefa em jogo demandou, assim, um duplo movimento. Competia dissociar as questdes relativas ao conhecimento do marco reflexivo hegemdnico na filosofia para, s6 entéo, fazer incidir sobre elas a 6tica delineada acima, tributéria das idéias de Nietzsche e da narrativa manniana. Além disto, una alianga entre o saber e a vida, na qual se manifestasse uma apreciacao reciprocamente favoravel de ambos, exigia a inscricao do trabalho num registro distinto daquele que fora previamente posto de lado. Embora a enunciagéo de seus conteGdos seja marcada com cores filos6ficas, ela pertence, por forca de seu contetido, ao territGrio da critica da cultura nomeado comparativismo literario. Essas colocages preliminares situam e esclarecem o plano geral da investigaco. Sua elaboracdo cumpriu trés etapas interdependentes de investiga G40, versando sobre o cosmos, o logos e a verdade. A primeira fornece uma espécie de bastidor mais abrangente de toda a meditacdo; a segunda se apropria dos elementos obtidos na anterior, transcrevendo-os conforme os termos e as pautas préprias da ficcéo narrativa; a terceira, por fim, deriva das relagdes entre as denais as conseqiiéncias posstveis a propésito do tena da verdade. Ha, entao, algo como a convergéncia das discusses sobre 0 cosmos e o logos ~ 0 que inclui Belo Horizonte, vol. |, p. 51 - 55, dez. 1997 = ‘também sua mGtua determinagao - em direcao ao topico da verdade. Quanto ao cosmos, impés-se de inicio a realizagéo de uma critica da metafisica da permanéncia. A partir dos autores, questionou-se o conceito de identidade e suas implicacdes valorativas. Energiu dat a proposta de um plural ismo cosmolégico, em nome do qual a leitura do mundo ganha em vigor e qualidade. No lugar da fixidez proporcionada por um pensamento comprometido com a busca de certeza por seus cultores, propée-se a eterna circulagéo de forcas com as quais 6 possivel lidar de modo afirmativo e desassombrado. Para um pensamento grave & cauteloso, a contrapartida de uma especulacéo arejada e disposta a desafios. Una vez que a especulagéo cosmolégica liberou a produgao do saber do dnus da certeza absoluta, era pertinente avancar a meditagdo até o estudo de outras potencialidades da palavra. Se a significagéo do discurso tornou-se irredutivel a um célculo classico de sentido, ganhava interesse a configurago de uma nova chave de leitura para os usos da linguagem. £ este o principal ponto de articulagéo da narrativa e da narracao no corpo do texto. A composigdo de uma poética da narrativa balizada pelo afirmativo nietzscheano e pela sintaxe lunar de Mann explicita um caminho efetivo para a construgao do saber e para a reflexao sobre ele — caminho percorrido pelos proprios autores em seus respectivos textos. Deve-se acrescentar que a anélise da narrativa em torno de José do Egito desdobrou-se em duas outras frentes. De uma parte, ela facul tou o reconhecimento de um modo de avaliar o mundo e os homens francamente afirmativo. De outro, ela ‘trouxe & luz 0 personagem cono um tipo modelar e extraordinario de humanidade, compatfvel com a criagéo nietzscheana do super-homem. Conforme mencionado, 0 estudo da narragdo permitia que a prépria atividade de produgao de conhecimento fosse reavaliada e pensada em moldes diferentes daque- es consagrados pela tradigao. A predicacao de verdade a um saber poderia prescindir do aval do princfpio de correspondéncia, postulando em seu lugar uma medida, comparativamente, mais compreensiva e flexivel. Para a racionalidade mesma, poderia ser designada uma fungéo antes operacional que normativa. Entendida como um instru- mento polivalente, capaz de contribuir na geracao de ficgdes através das quais 0 mundo seria apropriado afirmativamente, a racionalidade poderia conduzir os homens 60

Você também pode gostar