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CAMILA FRANÇA E SANDRA NODARI

EXISTE ROTEIRO DE DOCUMENTÁRIO? COMO OS


DOCUMENTARISTAS DE CURITIBA PRODUZEM SEUS FILMES?

Camila França1
Sandra Nodari2

RESUMO

Este trabalho pretende discutir o processo de produção de um roteiro de


documentário, a partir da sequência: ideia-roteiro-filmagem-montagem. As estratégias
de escritura de roteiros colocadas em prática por documentaristas de Curitiba (PR) são
investigadas a partir de questionários aplicados a cinco cineastas. A partir da discussão
sobre o processo de realização de um documentário é possível questionar se o roteiro
escrito é um método praticado por documentaristas ou se não existe esta etapa. Ainda,
se pode analisar se o projeto passa direto da ideia para a filmagem e se o roteiro é
realizado apenas para a edição.

Palavras-chave: Roteiro de Documentário; Documentaristas Curitibanos; Roteiro


Literário; Pesquisa Filmada.

1 Graduada em Jornalismo pela Universidade Positivo. E-mail: camilafrancafontes@gmail.com. Voluntária do Programa


de Iniciação Científica (PIC) da UP.
2 Professora do curso de Jornalismo da Universidade Positivo. Mestre em Comunicação e Linguagens. Orientadora do
PIC. E-mail: sandranodari@gmail.com

COMUNICAÇÃO - REFLEXÕES, EXPERIÊNCIAS, ENSINO |Curitiba | v. 12| n.12|p. 033-042| 2° Semestre 2016 | 33
EXISTE ROTEIRO DE DOCUMENTÁRIO? COMO OS DOCUMENTARISTAS DE CURITIBA PRODUZEM SEUS FILMES?

INTRODUÇÃO

O uso do roteiro na realização de documentários cinematográficos é algo bastante


controverso. Eduardo Coutinho (LINS, 2004), um dos maiores documentaristas
brasileiros, cuja produção de filmes foi constante desde a década de 1970, era um
grande defensor da não utilização de roteiro para a produção de documentários. Ele
afirmava que não existia a necessidade ou a possibilidade de escrever um roteiro
para filmar documentários. Porém, deixava sempre clara a necessidade da criação e
definição de uma forma de filmar, colocando este como ponto mais importante do que
o próprio tema a ser tratado no documentário. Investia muitas horas na escolha dos
personagens, produzindo inclusive pesquisas filmadas para compreender como faria
seu filme. Podemos chamar de “pesquisa filmada” aquilo que Coutinho utilizava para
decidir por seus personagens, o que lhe permitia uma espécie de roteirização visual.
Este foi o caso de Edifício Master, um de seus mais bem sucedidos documentários,
uma equipe de produção filmou entrevistas com possíveis personagens para que
Coutinho as assistisse e decidisse quais moradores do prédio e quais cenários fariam
parte do filme.
Tomamos a defesa feita por Coutinho, da não existência de um roteiro
escrito para o processo de produção de um documentário, como ponto de partida
para investigar como documentaristas de Curitiba se relacionam com roteiros de
documentários que realizam. Para cumprir o principal objetivo deste trabalho que é
descobrir se os documentaristas utilizam roteiros na produção de seus documentários,
foram entrevistados cinco documentaristas de Curitiba sobre o uso de roteiro. Por
meio de questionário fixo, cineastas que realizaram pelo menos um longa-metragem
e um curta-metragem, indexados como filme de não-ficção na sua carreira, foram
selecionados para explicar sua experiência. Outra questão que pesou na escolha foi o
fato de o profissional ser filiado à AVEC, Associação de Vídeo e Cinema de Curitiba.
O questionário aplicado aos documentaristas apresentava dez questões que
referenciaram a produção e a relação do cineasta com o documentário. Entre as
questões colocadas estavam: Lista de documentários que participou como roteirista;
Como foram escritos os roteiros de documentários? Se não escreveu roteiros, como
definiu personagens e linguagem, bem como locações? Se acha fundamental escrever
o roteiro antes de filmar o documentário? Se faz pesquisa filmada antes de gravar?
Como escolhe personagens e locações? Se o documentário finalizado é fiel ao roteiro?
Se poderia ceder um roteiro ou trecho de roteiro? Estas questões estão respondidas na
sequência deste trabalho.

REVISÃO BIBLIOGRÁFICA

O cinema documentário resulta em filmes que trabalham com a reprodução,


representação e retratação de situações cotidianas. Primeiramente, um documentário
pode ser compreendido como um momento em que é dedicado a compreender uma
situação que necessita de atenção. “Vemos visões do mundo. Essas visões colocam

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diante de nós questões sociais e atualidades, problemas recorrentes e soluções


possíveis. O vínculo entre o documentário e o mundo histórico é forte e profundo.”
(NICHOLS, 2001, pág.27)
Qual a importância de um roteiro na produção de um documentário? Um dos
maiores documentaristas brasileiros, Eduardo Coutinho, defendia a sua não utilização.
No livro, O documentário de Eduardo Coutinho, Consuelo Lins fala da aversão do
diretor aos roteiros. “É essa a concepção de cinema que faz Coutinho desconsiderar
radicalmente a feitura de roteiros, prática que, para ele, desvirtua esforços e corrói o
que mais preza no documentário: a possibilidade de algo inesperado no momento da
filmagem”. (LINS, 2004, pag. 12)
A revista Comunicação Midiática, da Universidade Federal do Rio Grande do
Sul, ao discutir o trabalho de Coutinho e sua relação com os personagens cita o uso
do roteiro:

No cinema documentário essa relação diretor/personagem envolve uma série de


outras questões e acaba sendo inscrita em outra ordem, respondendo a outras
regras, ou seja, a outros jogos. Estamos falando de pessoas que representam
a si mesmos e que, sem roteiro prévio, encenam suas vidas na perspectiva do
improviso. Dessa forma a relação que se constrói no espaço de filmagem pelo
diretor e seu personagem se potencializa pela presença do inesperado. (2012,
p. 6)

Enquanto, alguns documentaristas se posicionam de forma contrária ao uso


de roteiro, autores argumentam sobre a importância deste recurso para a produção
de documentários, assim como Sérgio Puccini: “Parente próximo do texto teatral, o
modelo de escrita do roteiro de cinema foi todo ele desenvolvido e aperfeiçoado de
forma a atender às exigências do bom planejamento da produção, visando sempre a
redução dos custos e a consequente ampliação da margem de lucro na comercialização
do produto” (PUCCINI, 2009, p. 13). Neste caso, a ideia de roteiro é aquela utilizada
pelo cinema de ficção, de roteiro literário.
Os documentaristas podem adaptar modelos já usados ou criar novos, desde que
facilitem o processo como um todo. Uma das formas de financiamento de roteiros
mais praticada no Brasil é por meio de editais públicos, o modelo de roteiro literário
é o mais seguido por estar sugerido nos próprios processos dos editais. No caso do
DocTV, por exemplo, o era chamado de Sugestão de Estrutura:

Não se pretende um roteiro a descrição definitiva do que será o documentário,


e sim uma exposição de como o autor proponente pretende organizar as
Estratégias de Abordagem no corpo do filme. A apresentação pode ser feita
livremente a partir de texto corrido ou blocado. (DOCTV: 2008)

Mas o roteiro não pode ser uma estrutura estanque que aprisione o diretor
conforme defende Comparato: “... é unicamente orientativo, um ponto de referência
para o trabalho de filmagem, visto que a realidade muitas vezes interfere e introduz
novos elementos não previstos” (1992, p. 341).

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Puccini apresenta o conceito de “tratamento”, utilizado por muitos autores, como


forma de organizar as ideias a ser usadas na estrutura do documentário “permitir a
visualização da ordem em que as sequências do filme irão aparecer. O conteúdo dessas
sequências é descrito, no tratamento, de maneira resumida, mantendo uma abertura
aos imprevistos que possam ocorrer quando se iniciarem as filmagens” (2009, p. 59)
Na teoria o roteiro é um ponto fundamental na produção de qualquer obra
cinematográfica e composta por formatos pré-estabelecidos e bastante conhecidos
como a obra de Comparato e descritos de forma pedagógica em vários manuais de
escritura de roteiros, como a obra de Syd Field3.
Puccini argumenta sobre a realização da pesquisa em campo como fundamento
do roteiro de documentário. Ele defende que as escolhas podem ser feitas durante
este período, pois através delas pode se definir detalhes que não comprometam o
prosseguimento do trabalho. “visitas antecipadas às locações de filmagem servem
também para definir os equipamentos necessários para cada locação, o tamanho
mais adequado para cada equipe técnica em cada situação, prevenção de possíveis
dificuldades de acesso” (2010, p. 34).
Após todo o trabalho de produção, coleta de imagens e gravação de sonoras,
vem a parte da “pós-produção”. Momento em que o documentarista tem o domínio
de tudo que foi feito ao longo da produção do material. Nesta etapa, o uso do roteiro
se torna imprescindível para a organização, assim como define Eduardo Leone. “O
processo cinematográfico possui três etapas para se chegar a um objetivo artístico: o
roteiro, a realização e articulação (pós–produção). Todas essas etapas estão implicadas
com a montagem (...) Na prática, não existe filme sem roteiro e esse roteiro pode ser
manifesto de formas diversas” (LEONE, 2005, p. 24).
Estas diversas formas serão discutidas a partir do resultado dos dados obtidos
neste trabalho.

PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS

Este trabalho iniciou com a revisão da bibliografia específica. Nos últimos dez
anos, várias obras lançadas discursam sobre a questão do roteiro no documentário,
porém, poucas tratam especificamente de como este mecanismo é utilizado. Em
seguida, houve um levantamento do número de documentaristas que produzem
projetos junto à Fundação Cultural de Curitiba e registrados junto ao Sindicato da
Categoria, o Siapar - Sindicato da Indústria Audiovisual do Estado do Paraná.
O próximo passo foi a realização de questionários para entrevistar os
documentaristas contendo as questões elencadas nos objetivos específicos: inventariar
quais modelos de roteiro são utilizados; pesquisar quais outros métodos são usados
quando não há roteiro; descobrir como se dá a produção de documentários entre a ideia
e a exibição; questionar a importância do roteiro para a escritura de editais de fomento
à produção audiovisual. Os questionários foram aplicados a cinco documentaristas de
3 Autor de diversos livros sobre roteiros de cinema, criou conceitos que foram seguidos por diversos roteiristas do mundo
todo, principalmente de Hollywood.

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Curitiba que dirigiram pelo menos um longa-metragem e um curta-metragam: Guto


Pasko, Joana Nin, Luciano Coelho, Fernando Severo e Eduardo Baggio.
Depois de os questionários aplicados, houve a computação dos dados e em
seguida a escritura do artigo que deve ser apresentado a congressos relacionados ao
cinema, preferencialmente o Intercom.

RESULTADOS OBTIDOS

O mercado de documentário ganha dia a dia mais apreciadores. Mas, para


os inexperientes, como saber iniciar um trabalho que vai muito além de ligar uma
câmera e sair gravando? Cada documentarista possui um método de desenvolver
sua atividade, o objetivo deste estudo é tentar entender como se dá este processo
no documentário utilizando roteiro. Para este trabalho foram entrevistados cincos
documentaristas que atuam em Curitiba e que responderam sobre experiências com
roteiro de seus documentários e opinaram sobre alguns assuntos voltados à área.
A partir da compilação das entrevistas, os temas foram agrupados e as opiniões e
experiências dos profissionais analisadas.
Escritura de roteiro
Escrever um roteiro é imprescindível na produção de um documentário, mas seu
uso depende de cada projeto, levando em consideração particularidades específicas.
Esta é a definição de Guto Pasko4. Para ele: “Tudo depende do tema do filme, objetos,
estratégias de abordagens e estruturas eleitas para contar cada história” (PASKO,
2015). Ele enfatiza que fazer um documentário não é pegar uma câmera e sair filmando.
Porém fez isso no documentário: “Sim, Somos Ucranianos”, quando roteirizou o
material apenas na ilha de edição, mas “Eu tinha consciência do que estava fazendo”.
Esta posição de Pasko é confirmada por Puccini: “Em muitos casos, o trabalho de
roteirização, feito ainda na pré-produção do filme, vai se contentar em estabelecer
uma estrutura básica que servirá como mapa de orientação para o documentarista
durante as filmagens”. (2010, p. 24)
Ao contrário, o documentarista Fernando Severo5 afirmou que nunca fez um
documentário que não tivesse usado por base um roteiro, mesmo que tenha havido
modificações na realização. Porém, ele não considera seu uso como fundamental.
“Alguns bons documentários se originaram de improvisos, observações e anotações”
(SEVERO, 2015).
Porém, ratifica a importância do roteiro porque ajuda na definição de personagens,
linguagens e locações para a seleção de personagens. Opinião compartilhada por

4 Pasko já participou de oito documentários como roteirista dentre eles: Pinhão (2015), Entre nós, O Estranho (2015), Dia
de Casamento (2014), Clube dos solitários (2014), Sim, também somos ucranianos (2006). Além de ter participado de três
documentários com a função de diretor: Procurando Cris McClayton (2014), Clube dos Solitários (2014), Ivan De volta
para o passado (2011).
5 Severo fez o seu primeiro documentário “Jardins Suspensos”, em 1982, o mais recente é o Espírito de Contradição, de
2015. Dentro desses 33 anos de produção, na sua filmografia também inclui: O significador de insignificâncias (2014), A
polaca (2013), Xetá (2010), Helmuth Wagner Alma da imagem (2009), Visionários (2002), Século XX (1993), Os reinados
(1992), O mundo perdido de Kozák (1988).

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Eduardo Baggio6 que para a escrita de seus roteiros sempre utilizou informações da
pesquisa. “Alguns foram finalizados com estrutura de cenas, outros ao estilo difundido
pelo modelo do DocTV”” (BAGGIO, 2014).
Há os documentaristas que não seguem à risca o uso do roteiro, principalmente
quando participam diretamente da edição, como no caso de Luciano Coelho7. Boa
parte dos roteiros que escreveu foram textos provisórios, que serviram para conquistar
a aprovação de recursos em editais públicos. Esta experiência comprova a hipótese de
que esta é uma prática é comum entre documentaristas.
Coelho foi editor da maior parte de seus filmes, o que contribuiu para que a
estruturação da narrativa fosse feita no processo de edição. Como Pasko, Severo
e Baggio, ele afirma não achar fundamental escrever o roteiro antes de filmar, mas
reconhece que seu uso é importante para a organização do material.
Joana Nin8 explica que utiliza o roteiro a partir de uma pesquisa inicial (que
considera indispensável), com dados e personagens coletados, escreve um roteiro,
que funciona como uma descrição das primeiras cenas do filme. Porém, afirma tomar
cuidado para escrever apenas aquilo que considera suficiente para o leitor do roteiro
(no caso os julgadores de projetos dos editais públicos a que concorre) identificar
a linguagem do filme e o tema que está sendo abordado. Esse é o único texto que
escreve, segundo ela, o resto do trabalho de roteirização é mental, surge na fase da
montagem ou anotações de decupagens.
Joana Nin conta que já fez uso de escaleta em que descrevia cada uma das cenas,
cena a cena. Método que pode ser bastante útil, inclusive para facilitar a montagem.
Escaletas criadas na pré-produção contribuíram na fase da montagem “este é o
momento quando as ideias ficam mais confusas” (NIN, 2014). Segundo Puccini: “A
escaleta ou tratamento é decupar a história em cenas dramáticas. Quais as cenas que
irão informar o conteúdo da história? Em que ordem elas aparecerão?”. (2010, p. 36).

6 Baggio fez seu primeiro documentário em 2003: 28 anos, na sequência: “Michaud: entre os crocodilos e as serpentes”,
em 2004, depois: Norte, Sul, Leste, Oeste (2007), Amadores do Futebol (2010), Rejoneo (2011). E o mais recente Santa
Teresa, em 2014. Baggio também assumiu outras funções: como diretor: 28 anos (2003). Editor: O rei está doente(2003) e
Comunidade do Sutil (2004). Diretor: Michaud: entre os crocodilos e as serpentes (2004). Editor: Norte, Sul, Leste, Oeste
2007. Finalizador: Caminhão de Cavalo 2009. Diretor: Amadores do Futebol 2010. Editor: Geada Negra , 2010. Diretor:
Rejoneo 2011. Finalizador: Um filme para Dirceu, 2012. Diretor: Traço Concreto, 2013. Diretor: Santa Teresa 2014.
7 Coelho atuou primeiro como roteirista, em 1994, no Chile, com o documentário Piesando. Em seguida,
Unpasado Perdido ( 1997), Recordações e ações (2004), Camaleão (2005), Pra ver a umbanda passar
(2007), Música Subterrânea (2009), Caras de um carnaval (2010), e a Linha Fria do Horizonte (2014).

Já em outras funções: A linha Fria do Horizonte (2014), Caras de um Carnaval (2010), Com quantas Histórias se faz um
brinquedo (2009), Música (2007), Vida de Balcão (2007). Visita íntima (2006). Camaleão (2005) como Diretor, Produtor,
Roteirista, Diretor de Fotografia e Editor. Recordações e Ações (2004), como Diretor, Produtor, Roteirista, Diretor de
Fotografia e Editor. O Ubernata (1998), como diretor e editor. História de Unpassado Perdido (1997) como diretor,
roteirista e editor. Piensando (1994), como diretor e roteirista.
8 Nin participou como diretora e produtora de quatros documentários: Visita Íntima (2005) curta, Cativas Presas pelo
Coração (2013) longa, À Luz do Dia (2013) curta, Uma Gôndola para Nova Veneza (2014) telefilme, apenas no Hércules
56 (2007, Silvio Da-Rin), como diretora assistente.

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USO DE PESQUISA

Segundo Severo, a pesquisa filmada pode tornar o processo inspirador. Coelho,


raramente faz o uso de pesquisa e justifica: “o roteiro de captação raramente é fiel ao
final”. (COELHO, 2015). Baggio informa que poucas vezes fez este tipo de trabalho,
mas destaca que lê muito sobre o assunto, conversa com pessoas e utiliza-se de
outros meios como fotos e documentos. Pasko acredita que a filmagem tira a essência
do material a ser gravado depois. Joana Nin foi a única, de nossos entrevistados,
completamente favorável ao uso da pesquisa filmada, que considera indispensável
para o projeto, pois é o que lhe serve de base na construção do roteiro.
Por meio da pesquisa de campo é possível realizar o estudo de locações e
personagens, por isso, alguns roteiristas dizem ser este processo fundamental à
escritura do roteiro. Nin explica que na mesma ocasião em que realiza a pesquisa
filmada, aproveita para definir locações e personagens. Pasko diz que a escolha de
personagens e locações dependem de cada filme, pois cada assunto tem uma forma
diferente de ser explorado. Assim como para Severo, seus personagens surgem de
acordo com a circunstância e aos poucos ganham importância para o filme. Jà Coelho
destaca que seus personagens e locações são escolhidos com o que combina com cada
assunto abordado. Para os personagens e locações, Eduardo Baggio também faz suas
escolhas de acordo com a proposta do filme.

PROCESSO DE CAPTAÇÃO TRANSFORMA O ROTEIRO

É discurso quase unânime entre os documentaristas entrevistados que o roteiro


serve para situar os documentaristas e sua produção, mas nem sempre chega ao fim do
trabalho como havia sido escrito no início da produção. Durante a filmagem, a equipe
se depara com situações inusitadas que podem ser inseridas dentro do documentário
e que não estavam previstas em roteiro. O roteiro tem como objetivo trazer um
esboço daquilo que será trabalhado, com pequenos detalhes que norteiam a equipe
de produção. Além, de contribuir para a organização. Alguns documentaristas não
o utilizam no início, mas durante a pós-produção se rendem ao seu uso, justamente
pelo motivo de se ter algo que dê as direções de como prosseguir. Muitas vezes fazem
seu uso durante a edição o que, no geral, faz com que o trabalho siga ao roteiro, pois
alterações acontecem, normalmente, durante as gravações dos materiais.
Pasko destaca que nem sempre o documentário finalizado termina fiel ao roteiro
escrito no início do processo, mas chega bem próximo. Para ele, tem como objetivo
controlar o processo de produção e direção pelo fato de, na prática, o material ser um
organismo vivo. Baggio concorda que, na maioria das vezes, o roteiro sofre alguma
alteração, portanto não chega completamente fiel. Para Joana Nin: “O processo
criativo é dinâmico, vivo, e o documentário conta com muitas variáveis. É muito
difícil prever se você vai conseguir todas as imagens que gostaria, por exemplo. Algo
sairá do controle, sempre”. Para Coelho, o roteiro definitivo é construído somente
durante a edição. Mas há quem ao final do trabalho considere que seguiu à risca o

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roteiro inicial, como Fenando Severo afirma que, em seu trabalho o documentário
finalizado quase sempre é fiel à intenção do roteiro. Para ele, o cineasta é que pode
controlar esse uso.

CONCLUSÃO

O objetivo deste trabalho era analisar o uso de roteiro em produções de


documentários, partindo de uma pesquisa qualitativa, realizada com cinco
documentaristas que moram em Curitiba com grande conhecimento e experiência
com este tipo de trabalho. Fazendo referências também a autores que trabalharam em
obras para debater o assunto.
Foi possível compreender que o roteiro foi utilizado por todos os cineastas em
alguma fase da produção de seus trabalhos. Provando que o uso é extremamente
importante para se trabalhar com documentários.
O documentarista, Eduardo Coutinho, não utilizava o roteiro em seu trabalho, o
que, por um lado, causava surpresa às pessoas pelo excelente material que produzia, e
por outro uniformizava um discurso de que roteiro e documentário não combinavam.
Porém, Coutinho tinha sempre uma equipe que realizava pesquisas filmadas, estas
acabam contribuindo diretamente para que ele conhecesse o universo pelo qual estava
explorando.
Dos entrevistados aqui analisados, muitos dizem não usar o roteiro em todos
os trabalhos e durante todo o processo de produção do documentário, mas todos
defendem a importância do uso deste recurso. Nenhum deles deixou de considerar
o seu uso importante visto que, através do roteiro é possível obter-se organização,
e ao final do trabalho, um produto de qualidade. Outros, o utilizam mesmo que, ao
fim dos trabalhos novas informações tenham sido inseridas. Desta forma, é possível
compreender como fundamental o uso de um roteiro em um trabalho de documentário.

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REFERÊNCIAS

COMPARATO, Doc. Da Criação ao Roteiro. São Paulo: Summus, 2009.


DOCTV - PROGRAMA DE FOMENTO À PRODUÇÃO E TELEDIFUSÃO DO
DOCUMENTÁRIO BRASILEIRO – DOCTV IV. 2008. Disponível em:
http://www.agencia.se.gov.br/userfiles/regulamento.pdf.
LEONE, Eduardo. Reflexões sobre a montagem cinematográfica. Belo Horizonte: UFMG,
2005.
LINS, Consuelo. O Documentário de Eduardo Coutinho, Televisão, Cinema e Vídeo. Rio
de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2004.
NICHOLS, Bill. Introduction to Documentary. Indiana, USA: Indiana University Press,
2001.
PUCCINI, Sergio. Roteiro de Documentário. Campinas, SP: Papirus: 2009.
SYD, Fiel. Manual do Roteiro. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.
Revista Comunicação Midiática, v.7, n.1, p.138-152, jan./abr. 2012. Disponível em: file:///C:/
Users/Camila/Downloads/Dialnet-EduardoCoutinhoEntreOJogoEACena-3935008.pdf

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