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José Normando Gonçalves Meira

Cosmovisão das religiões: reforma e Contra-reforma

José Normando Gonçalves Meira Cosmovisão das religiões: reforma e Contra-reforma Montes Claros/MG - Setembro/2015

Montes Claros/MG - Setembro/2015

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Autor

José Normando Gonçalves Meira

Bacharel em Teologia pelo Seminário Presbiteriano do Sul; Licenciado em Pedagogia pela Universidade estadual de Montes Claros –UNIMONTES; Mestre em História pela Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG ; doutor em História da Educação pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Professor da Universidade Estadual de Montes Claros – UNIMONTES e das Faculdades Unidas do Norte de Minas - FUNORTE.

Sumário

Apresentação

9

Unidade 1

11

Reforma e Contra-Reforma: Considerações Preliminares

11

  • 1.1 Introdução

11

  • 1.2 Termos, Conceitos e Perspectivas para o Estudo da Reforma e da Contra-Reforma

11

  • 1.3 Reformas Protestante e Católica nas Ciências Sociais

15

Referências

16

Unidade 2

17

Antecedentes Históricos da Reforma Protestante do Século XVI

17

  • 2.1 Introdução

17

  • 2.2 Transformações Ocorridas no Cristianismo e a Constituição da Igreja Medieval

17

  • 2.3 Política, Economia, Religião e Sociedade no Final da Idade Média

19

  • 2.4 Movimentos Dissidentes Eue Antecederam à Reforma no Século XVI .............20

Referências

........................................................................

22

Unidade 3 ..................................................23

Reformas Protestantes na Europa do Século XVI

.

23

  • 3.1 Introdução .....................................................................

23

  • 3.2 Reformadores do Século XVI: Martinho Lutero, Ulrico Zwinglio e João Calvino

23

  • 3.3 Doutrinas Fundamentais da Reforma Protestante: Convergências.................29

Referências

.........................................................................

31

Unidade 4

..................................................

33

A Expansão e Diversidade no Protestantismo Europeu ...............................33

  • 4.1 Introdução ......................................................................33

  • 4.2 Os Anabatistas ..................................................................33

  • 4.3 Protestantismo na Inglaterra

34

  • 4.4 Protestantismo na Escócia .......................................................

37

  • 4.5 Protestantismo na França

38

  • 4.6 Protestantismo nos Países Baixos ................................................39

UAB/Unimontes - 5º Período

Unidade 5

..................................................

43

Ética Protestante e sua Influência Social .............................................43

  • 5.1 Introdução ......................................................................43

  • 5.2 Ascetismo Intramundano e Reforma Social ......................................43

  • 5.3 Reforma e Educação

...........................................................

44

Reforma e

  • 5.4 trabalho.............................................................

46

Reforma e Política

  • 5.5 ...............................................................

47

  • 5.6 Reforma e Ciência ...............................................................49

Referências

.........................................................................

51

Unidade 6

..................................................

53

Contra-Reforma ou Reforma Católica................................................53

  • 6.1 Introdução .....................................................................53

  • 6.2 Movimentos da Reforma Católica ................................................53

  • 6.3 A Contra-Reforma ...............................................................55

  • 6.4 Os Jesuítas e a Contra-Reforma

56

  • 6.5 O Concílio de Trento e a

58

  • 6.6 Contra-Reforma e Repressão

60

  • 6.7 Avaliação da Contra-Reforma

61

Referências

61

Resumo.....................................................

63

Referências Básicas e Complementares

65

Atividades de Aprendizagem - AA

67

Ciências da Religião - Cosmovisão das Religiões: Reforma e Contra-Reforma

Apresentação

Caro (a) acadêmico (a),

O tema proposto é extremamente relevante. Não se trata apenas de conhecermos os mo - vimentos transformadores no interior de um grupo religioso. Além desse aspecto, muitos foram os reflexos da Reforma Protestante do século XVI e da Reforma Católica ou Contra-Reforma no mundo ocidental. Esta é a razão pela qual estudiosos das diversas áreas do conhecimento têm se dedicado ao desafio de compreender esses movimentos. Historiadores dialogam com pesqui- sadores das áreas de política, economia, educação, entre outras, verificando como as crenças re - ligiosas interferem na “construção do mundo”. No caso da cultura ocidental em particular, a fé cristã deixou as suas profundas marcas. As reformas religiosas ocorridas no século XVI são aqui tratadas como importantes marcos. Nos séculos subsequentes, as suas influências continuam marcantes, cabendo à ciência a verificação de como essas influências ocorrem, as mudanças e permanências nessas visões de mundo e como se adaptam aos diversos contextos sociais. Não há pretensão da nossa parte, além de oferecer fundamentos para o estímulo à busca de maior profundidade no conhecimento desse importantíssimo tema. Convido-o, portanto, ao estudo cuidadoso do texto que aqui é apresentado, mas que não se restrinja a esta leitura. A pró - pria bibliografia aqui comentada e outras devem ser buscadas, permitindo assim a análise por diversos ângulos. A investigação nos textos dos próprios reformadores protestantes e católicos, bem como os documentos produzidos pelos seus concílios, são de grande importância para que se faça uma análise crítica independente, inclusive das diversas versões da História e dos intér- pretes desses reformadores. Atendamos, pois, ao estímulo desse extenso, complexo, relevante e empolgante tema.

Bons estudos!

O autor.

Ciências da Religião - Cosmovisão das Religiões: Reforma e Contra-Reforma

UNidAde 1

Reforma e Contra-Reforma:

Considerações Preliminares

1.1 Introdução

José Normando Gonçalves Meira

O tema do nosso estudo nesta e nas demais unidades deste caderno tem duas característi- cas marcantes: é empolgante por nos remeter a diversas discussões que ainda alimentam acalo - rados debates e que necessitam de melhor compreensão. É também muito complexo, pois sus- cita diversas perguntas essenciais: O que entendemos por Reforma Protestante do século XVI? Quais eram realmente os objetivos dos proponentes dessa Reforma? Ocorreu, de fato, uma Re - forma ou o que aconteceu foi apenas um cisma no cristianismo? É possível falar de “Reforma Pro - testante”, de “Protestantismo”, ou seria mais adequado os termos “Reformas Protestantes” e ”Pro - testantismos”? E a Contra-Reforma, qual foi o seu objeto e quais eram os seus objetivos? É mais adequado tratá-la como “Contra-Reforma” ou “Reforma Católica”? Como as doutrinas e métodos dos reformadores protestantes e católicos do século XVI influenciaram a sociedade ocidental naquele período e quais as suas contribuições para a formação da cultura nos diversos lugares onde tais ideais se instalaram ou se propuseram a se instalar? Quais as mudanças e permanên- cias nesses sistemas teológicos e como dialogam com a sociedade atual? As questões acima levantadas demonstram o quão desafiador é o estudo do tema “Reforma e Contra-reforma”. O nosso objetivo nesta e nas demais unidades é apresentar conceitos, fontes e possibilidades de investigações mais aprofundadas. Apontaremos o rumo, procuraremos desbra- var o caminho, mas será necessário continuar o intenso trabalho para que seja possível trilhá-lo com maior segurança, superando obstáculos, muitos deles firmados em preconceitos decorren- tes de análises superficiais do tema. Iniciemos, portanto, os nossos estudos.

1.2 Termos, Conceitos e Perspectivas para o Estudo da Reforma e da Contra-Reforma

Para melhor compreensão da nossa abordagem, iniciemos considerando alguns dos termos chave que serão utilizados ao longo do estudo. Quais os sentidos dos termos “reforma”, “protes- tante”, “contra-reforma” ou “reforma católica”? No que diz respeito à Reforma, os estudiosos reco - nhecem a dificuldade de compreensão do termo, tendo em vista os diferentes matizes a serem considerados nesse movimento de cunho religioso, mas de influência marcante em diversos ou- tros aspectos das sociedades onde se instalou. Silva e Oliveira (2013) ponderam:

Os sentidos que às vezes são dados ao termo Reforma são parcialmente condi- cionados pela visão do historiador. O historiador católico entende como uma revolta de protestantes contra a igreja medieval. Já os historiadores protestantes compreendem como uma busca aos padrões do Novo Testamento. Do ponto de vista do historiador secular, a interpretação da Reforma apenas como um movi- mento revolucionário (SILVA e OLIVEIRA, 2013, p.3).

UAB/Unimontes - 5º Período

Alguns historiadores alertam para a possibilidade de, em vez de “reforma”, utilizar-se o termo cisma religioso do século XVI. Fundamentam a sua proposição, afirmando que não se cumpriram os objetivos dos reformadores, especialmente dos “pioneiros”; entre eles, Martinho Lutero, que era o de “reformar” a Igreja, reconduzi-la aos eixos originais, tendo as Escrituras como parâmetro. Na impossibilidade de implantarem-se as mudanças necessárias, para que se retornasse ao cristianismo simples do Novo Testamento, e devido à forte resistência do cle - ro, houve, então, o rompimento com a Igreja de Roma, dando origem aos grupos denomina- dos protestantes. Uma nova vertente dentro do cristianismo. Outros, porém, entendem que o protestantismo não inovou, introduzindo divergências doutrinárias no seio da Igreja de Roma, pois certos conflitos existiram ao longo dos séculos. Fernández-Armesto e Wilson (1997), de - pois de comentar várias divergências observadas no cristianismo, afirma:

A Reforma, portanto, não introduziu as inovações comumente atribuídas a ela; não rachou uma Igreja monolítica; não introduziu heresias inéditas; não gerou as primeiras igrejas nacionais. Em vez de ser um novo ponto de partida na história da Igreja, derivou de tradições vindas de longa data, uma forma de diversidade já antiga (FERNÁNDEZ-ARMESTO e WILSON, 1997, p. 20)

Considera-se que, ao longo dos séculos, movimentos divergentes tenham se proliferado no interior da Igreja, especialmente no final da Idade Média, denunciando as mudanças dou- trinárias e práticas que, a partir do quarto século, foram prejudicando a identidade da Igre - ja, distanciando-a do seu perfil original, neotestamentário. Tais movimentos, entretanto, eram facilmente controlados devido à hegemonia do clero. A partir do século XV, em um contex- to social favorável, efetivou-se o movimento conhecido como Reforma Protestante do Século XVI, que deixou profundas marcas em diversas regiões da Europa e, de lá, espalhou-se para outras partes do mundo. Para os herdeiros do movimento, especialmente os mais conserva- dores, o termo “Reforma” é muito caro. Afirmam que a Reforma, partindo da proposta origi- nal, principalmente em sua vertente calvinista, propõe uma volta às Escrituras do Velho e do Novo Testamentos (Bíblia), reconhecidas como Palavra de Deus, única regra infalível de fé e de prática. Sob a autoridade da Bíblia, a religião e todos os outros aspectos da vida devem ser ajustados aos padrões divinos nelas expressos. Citando a Bíblia e os Pais da Igreja, especial- mente Agostinho de Hipona, consideram que Deus criou todas as coisas perfeitas, inclusive o homem, à imagem e semelhança do Criador. Conforme a narrativa do livro de Gênesis todas as coisas criadas foram colocadas à disposição do homem para a sua administração responsável, em harmonia com o Criador, dono dele e de toda a criação. O homem e a mulher, perfeitos, foram colocados no jardim com o dever de “dominar, cultivar e guardar” (Com o devido cui- dado para evitar anacronismos, reivindica-se aqui a antiguidade do princípio para a utilização responsável dos recursos naturais, um fundamento cristão para as modernas discussões de te - mas relacionados ao desenvolvimento sustentável). Com a queda do homem no pecado, a sua própria natureza e todas as demais obras da criação se desorganizaram. Permanecem como obra de Deus e, portanto, boas, mas prejudicadas, tornadas imperfeitas. Deus, porém, não dei- xou a sua obra perder-se nessa condição prejudicada, providenciou a redenção por meio do seu filho Jesus Cristo. A própria redenção, nessa perspectiva, é uma espécie de reforma do ho - mem e da natureza. As confissões reformadas em geral, elaboradas nos séculos XVI e XVII, para sistematizar a doutrina protestante, afirmam com clareza tal visão de mundo. Dentre elas, os documentos produzidos pela Assembleia de Westminster (Confissão de Fé, Catecismo Maior e Breve Catecismo) na Inglaterra entre 1643 e 1647, ainda hoje adotados por muitas denomi- nações cristãs de tradição reformada em todo mundo, inclusive no Brasil. Nessa perspectiva, todas as coisas são originalmente boas, pois foram criadas por Deus. A queda, o pecado, ao en- trar no mundo, prejudicou todas as coisas. Do ponto de vista da redenção cristã, todas devem ser continuamente recuperadas, restauradas, reformadas, segundo o padrão divino revelado nas Escrituras, na Bíblia Sagrada. Eis alguns exemplos: o casamento, monogâmico e heterosse - xual, foi instituído por Deus. É, portanto, bom para a glória de Deus e felicidade humana. Com o pecado, tornou-se problemático, difícil. Mas pode e deve ser “reformado”, restaurado, segun- do os princípios bíblicos. O mesmo pode ser dito da política (Deus criou o homem para viver em sociedade), da sexualidade e mesmo da utilização dos recursos naturais.

Ciências da Religião - Cosmovisão das Religiões: Reforma e Contra-Reforma

BOX 1

Assembleia de Westminster

Sob a influência do movimento reformado, calvinista, inglês denominado “puritanos” (por reivindicarem uma igreja pura na doutrina, no governo e em sua liturgia, tendo como parâmetro as Escrituras do Antigo e do Novo Testamentos no), no século XVII, no reinado de Carlos I, o parlamento. Convocou uma assembleia de 151 teólogos que, reunidos entre 1643 e 1649, elaboraram importantes documentos que, até os dias atuais, têm sido adotados como exposição doutrinária por igrejas reformadas. Por se reunir na Abadia de Westminster, o conclave ficou conhecido como “Assembleia de Westminster”. Dentre os documentos ali produzidos, destacam-se: A Confissão de Fé, os catecismos, maior e breve, e o diretório para o culto.

Fonte: KERR, Guilherme. A Assembleia de Westminster. Disponível em <http://livros.gospelmais.com.br/livro- assembleia-de-westminster-guilherme-kerr.html>. Acesso em 15 jul. 2015.

A espiritualidade humana também é um dom de Deus, que a criou à sua imagem e seme - lhança, com capacidade para relacionar-se com o seu Criador. A queda, o pecado, fez com que o homem se tornasse idólatra. Como diz o apóstolo Paulo na sua carta aos Romanos, “passando a adorar a criatura em vez de adorar o criador”. A religião também (e, principalmente, por ser o princípio motivador de todos os demais aspectos da vida) precisa sempre ser reformada, pois, devido à natureza humana pecaminosa, os desvios são inevitáveis e ameaçam constantemente a verdadeira religião bíblica. Desse entendimento, surgiu o lema reformado; “Igreja Reformada, sempre reformando”. A Bíblia deve ser sempre examinada e as convicções e práticas religiosas submetidas a ela, utilizando-se de métodos e técnicas da hermenêutica que garantam a máxima segurança no apreender do sentido original do texto que deve ser aplicado aos diversos contex- tos e circunstâncias. A religião do Papa e de Roma, analisada à luz da Bíblia, deveria ser purificada dos elementos agregados ao longo dos séculos. Esse é o sentido de “Reforma” do pondo de vista “dos de dentro” em geral. A tensão protestante, reformada, entretanto, é permanente, pois a análise crítica das suas convicções e práticas pessoais e das suas comunidades religiosas deve ser realizada continua- mente, evitando assim o desvio. A Reforma é uma tarefa sempre inacabada durante a militância terrena da Igreja. Não se trata, portanto, de um contraste apenas com o catolicismo romano, mas com todas as atividades religiosas consideradas sem base bíblica. Na perspectiva protestante tradicional, portanto, descarta-se a ideia de revolução, que pres- supõe a destituição total de uma realidade e a implantação de outra, completamente nova. Isso não seria necessário, pois, mesmo prejudicada pelo pecado, a realidade preserva muito da cria- ção original, necessitando apenas de uma volta aos padrões estabelecidos pelo Criador na sua revelação, a Bíblia. Como será explorado na unidade 5, para os reformados não há dicotomia en- tre vida religiosa e vida secular, entre o sagrado e o profano, religião à parte dos negócios. Na verdade, todos os aspectos da vida são religiosos, pois pressupõem uma resposta positiva ou ne - gativa à orientação divina.

A Escritura usa esta palavra VOCAÇÃO para mostrar que uma forma de viver não pode soar boa nem aprovada, a não ser que Deus seja o seu autor. E esta palavra VOCACÃO também quer dizer “chamado”; e este “chamado” implica em que Deus faça um sinal com o dedo e diga a cada um: quero que vivas assim ou assim ( ) ... que não nos ocupemos naquilo que Deus condena por sua palavra (CALVINO apud BIÉLER, 1990, p.528).

O termo “protestante” passou a ser usado a partir de 1529, quando, na dieta de Speyer (ou dieta de Spira) ficou confirmada a intolerância religiosa, ocasionando protestos por parte de seis príncipes e 14 cidades alemãs. Posteriormente, o termo ganhou a conotação popular, referindo- se à pregação dos “protestantes”, denunciando os desvios do catolicismo romano. Atualmente o termo “protestantismo histórico” é atribuído às denominações cristãs que tiveram as suas origens vinculadas ao movimento da reforma em suas diversas vertentes. O termo “protestantes reforma- dos” passou a designar a vertente calvinista dos “protestantes históricos” que adotam as confis- sões de fé produzidas nos séculos XVI e XVII, como exposição das suas doutrinas, consideradas fiéis às Sagradas Escrituras. A teologia reformada é tratada atualmente como referente à teologia calvinista que, em muitos aspectos, converge com a teologia dos de outros reformadores, espe -

UAB/Unimontes - 5º Período

Figura 1: Pontos doutrinários fundamentais do protestantismo e do evangelicalismo em geral

Fonte: Disponível em <http://pibpe.blogspot.

com.br/2011_10_01_archi-

ve.html>. Acesso em 15 jul. 2015

GloSSário

Heresia: A palavra vem do latim e significa “opinião”, “escolha”, tendo passado a indicar uma opinião contrária a uma doutrina tida como correta. O contrário de “ortoxia” que seria “an- dar no caminho reto”. Hereges do ponto de vista do catolicismo são todos aqueles que, de alguma forma, negam os ensinamentos da Igreja. Do ponto de vista protestante, heresia é a doutrina que não tem base sólida na Bíblia.

Figura 2: Concílio de Trento (1545-63)

Fonte: Disponível em <http://upload.wikimedia. org/wikipedia/com - mons/c/ca/Council_of_ Trent.JPG>. Acesso em 13 jul.2015.

14

UAB/Unimontes - 5º Período Figura 1: Pontos doutrinários fundamentais do protestantismo e do evangelicalismo em geral

cialmente Martinho Lutero e Zwin- glio. Os segmentos originados por estes últimos, entretanto, sofreram maiores alterações ao longo dos sé - culos. Os protestantes, reformados e de outras tendências, são incluí- dos entre os evangélicos em geral. O termo “evangélico”, por sua vez, tem suas raízes nos movimentos de resistência à secularização sob a influência do iluminismo, referin- do-se à manutenção dos pontos essenciais de convergência entre cristãos protestantes das diversas vertentes. A grande ênfase do mo - vimento evangelical era o aviva- mento espiritual e o ardor missio - nário (PIERARD, 1990, p. 120). O significado de “evangélico” se ampliou, comportando diversos usos, referindo-se praticamente a todas as denominações cristãs à parte do catolicismo romano, inclusive os pentecostais. No relacionamento entre os protestantes, há o exercício de identifica-

ção da igreja que é “genuinamente evangélica”. Normalmente consideradas aquelas que susten- tam elementos doutrinários tidos como essenciais, tais como: a Bíblia como única regra de fé e de prática (Sola Scriptura), a justificação exclusivamente pela graça, mediante a fé (Sola Gratia), a mediação única de Jesus Cristo no relacionamento do homem com Deus (Solo Christus), a fé como único elemento de aproximação do homem de Deus (Sola Fide) e Deus, como único digno de adoração e glorificação (Soli Deo Glória). Os protestantes reformados, calvinistas, são mais ri- gorosos na consideração desses tópicos, embora sejam adotados com mais ou menos intensida- de pelos evangélicos em geral. Contra-Reforma ou reforma católica? São diversos os argumentos utilizados para se prefe - rir uma ou outra dessas designações. Contra-Reforma enfatiza a reação do catolicismo romano ao alcance do protestantismo. Medidas que visavam neutralizar o avanço da heresia protestan- te. Reforma Católica, por sua vez, aponta para transformações ocorridas no seio do catolicismo não como simples antítese ao protestantismo (embora as teses protestantes sejam fortemente consideradas), mas como resposta a diversos reclames que já perduravam e amadureciam den- tro da própria Igreja de Roma (PIGGIN, 1988, p. 348). Sobre esses movimentos que reconheciam a necessidade de mudanças sem, contudo, afetar as bases da teologia medieval, Gonzalez (1983), afirma:

Desde antes do protesto de Lutero, existiam muitos que sonhavam com uma re - forma eclesiástica, e tomavam medidas neste sentido. Particularmente na Espa- nha e graças a Isabel a Católica e de Ximenes e Cisneiros, a corrente reformadora ganhou impulso, apesar de não abandonar as linhas do catolicismo romano. Em termos gerais, a reforma católica, ainda depois de aparecer o protestantismo, se - guiu as linhas traçadas por Isabel. Tratava-se de um intento de reformar a vida e os costumes eclesiásticos, de empregar melhor a erudição disponível para puri- ficar a fé e de fomentar a piedade pessoal. Porém, tudo isso sem afastar-se nada da ortodoxia de Roma (GONZALEZ, 1983, p. 183).

UAB/Unimontes - 5º Período Figura 1: Pontos doutrinários fundamentais do protestantismo e do evangelicalismo em geral

Embora sejam reconhecidas as necessidades internas motivadoras da Reforma Católica, mesmo antes do protestantismo propriamente dito, com o seu surgimento, inten- sificaram-se os esforços para que tais reformas ocorressem na Igreja de Roma. Respostas teriam que ser dadas e estratégias montadas para contenção do avanço das ideias protestantes. A criação de novas ordens religiosas, destacando-se entre elas a Companhia de Jesus,

Ciências da Religião - Cosmovisão das Religiões: Reforma e Contra-Reforma

criado por Inácio de Loyola, a Inquisição e o Concílio de Trento são considerados elementos cen- trais da Contra-Reforma ou Reforma Católica. Esse tema será objeto de discussão mais detalhada na unidade 7 deste caderno.

1.3 Reformas Protestante e Católica nas Ciências Sociais

As ciências sociais, reconhecendo a importância da religião como elemento fundamental

GloSSário

na cultura, têm se ocupado de estudar as suas diversas manifestações. Berger (1985, p. 15, 41):

“Toda sociedade humana é um empreendimento de construção do mundo (

...

)a

religião desem-

penhou uma parte estratégica no empreendimento humano da construção do mundo”. Max Weber reconhece o papel fundamental das crenças religiosas para a ação social dos indivíduos (Khon, 2000, p. 151). O cristianismo e as suas marcas profundas na cultura ocidental têm sido objeto de especial consideração sob diversos aspectos. Estudos relacionados aos primeiros sé - culos do cristianismo têm se restringido basicamente ao campo da teologia histórica, com exce - ção de alguns estudos em outras áreas que abordam a Patrística, especialmente no que diz res- peito ao pensamento de Agostinho de Hipona. Autores das diversas áreas do conhecimento, ao tratarem do cristianismo, normalmente omitem as suas condições originais e as transformações nele ocorridas até que fossem incorporadas às características doutrinárias e práticas predomi- nantes na Igreja medieval. Quanto à Reforma e Contra-Reforma, são diversas as abordagens nas diversas áreas do co - nhecimento que as abordam sob diversos aspectos, procurando compreender o seu impacto so - cial não apenas nos séculos XV e XVII, mas também os seus legados em tempos posteriores e em lugares onde aqueles ideais exerceram considerável influência. Max Weber, na sua sociologia da religião, ocupa-se de forma especial na discussão das convicções católicas e protestantes e

Patrística: Termo utilizado para referir-se ao período da História da Igreja logo depois do período apostólico e antes do período medieval propriamente dito. Período normal- mente delimitado entre o ano 100 ao ano 451 (Concílio de Calcedônia) da era cristã.

os seus sociais. Especialmente na sua obra clássica, “A Ética Protestante e o Espírito do Capita- lismo” (WEBER,1996), obra que tem sido mais mencionada do que lida e compreendida. A partir do seu conceito de “ascetismo intramundano”, muitos autores têm discutido a contribuição da Reforma para os diversos segmentos da sociedade. Independentemente do referencial teórico weberiano, vários estudos têm elucidado a contribuição das reformas religiosas do século XVI em diversas áreas da educação escolar, alfabetização, leitura e interpretação de textos (GRAFF, 1995; CHARTIER, 1991), na ciência (Hoykaas, 1988), na política (ARON, 2000) na economia, dentre ou- tros aspectos que retomaremos nas unidades 5 e 7. Entre os estudos sobre os ideais protestantes aplicados à sociedade brasileira, Villas-Boas (2000), Nascimento (2005) e Meira (2009) apresentam vasta revisão de literatura. Diversos trabalhos poderiam ser citados quanto à influência da Refor- ma católica no Brasil, destacando-se a vasta abordagem referente à atuação dos Jesuítas (LONDOÑO, 2002), bem como alguns estudos sobre reflexos da inquisição na América portuguesa (SOUZA, 2009). Burke (1989) discute as reformas luterana, calvinis- ta e católica e sua influência na transformação da cultu- ra popular. Apresenta como os princípios teológicos de cada segmento, seus materiais e métodos de transmissão do conhecimento religioso foram apropriados pelas pes- soas comuns do seu tempo e como as convicções religio- sas influenciavam os diversos aspectos do cotidiano. O tema Reforma e Contra-Reforma, portanto, tem ocupado lugar de destaque nas diversas áreas das ciên- cias sociais, sob diversos pressupostos teóricos e meto - dológicos. Movimentos de cunho religioso que tiveram alcance nos diversos setores da sociedade e suas pro - fundas marcas em diversos contextos. Mudanças e per- manências são objeto de contínua investigação desse campo. O grande número de trabalhos existentes, em vez de indicar esgotamento, estimula o surgimento de

Ciências da Religião - Cosmovisão das Religiões: Reforma e Contra-Reforma criado por Inácio de Loyola, a

Figura 3: Max Weber, importante referência para o estudo da sociologia da religião em geral e, especificamente, sobre a contribuição das convicções protestantes, contrastadas com a fé católica romana para a construção da sociedade

Fonte: Disponível em

<http://sociofoco.blogs-

pot.com.br/2010/04/fra -

ses-sociologicas-de-max-

weber.html>. Acesso em

15 jul.2015.

UAB/Unimontes - 5º Período

ATiVidAde

Analise criticamente o contexto em que ocor- reram os movimentos “Reforma” e “Contra -Reforma” e discuta no fórum de discussão com os seus colegas as im- plicações do uso desses termos para designar os movimentos ocorridos no século XVI.

novas questões que devem ser enfrentadas, considerando a diversidade de aspectos a serem

considerados, e a dinâmica do diálogo dessa herança religiosa com as sociedades nas quais se inserem.

Referências

ARON, R. As etapas do Pensamento Sociológico: Alexis Tocqueville. São Paulo: Martins Fontes,

2000.

BURKE, Peter. Cultura Popular na idade Moderna. 2. ed. São Paulo: Companhia das Letras,

1989.

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Ciências da Religião - Cosmovisão das Religiões: Reforma e Contra-Reforma

UNidAde 2

Antecedentes Históricos da Reforma Protestante do Século XVI

2.1 Introdução

José Normando Gonçalves Meira

Quando se iniciou a Reforma Protestante do Século XVI? Qual o conjunto de fatores que possibilitaram a sua eclosão? Antes de Martinho Lutero, é possível identificar outros focos de re - sistência à Igreja medieval? Se houve, esses movimentos de resistência se fundamentavam nas mesmas teses posteriormente apresentadas por Lutero? Como a Igreja medieval se comportou em relação a tais movimentos? Embora a história da Reforma Protestante do Século XVI seja as- sociada ao ato do Monge Martinho Lutero em afixar, no dia 31 de outubro de 1517, as suas 95 te - ses na porta da Catedral de Wittenberg na Alemanha, é preciso, mesmo ressaltando a relevância desse evento, considerar o contexto que nele culminou e possibilitou os seus desdobramentos. É o que pretendemos estudar nesta unidade.

2.2 Transformações Ocorridas no Cristianismo e a Constituição da Igreja Medieval

Ao se considerar a estrutura eclesiástica, o conjunto de doutrinas, tradições e práticas da Igreja de Roma no período medieval, comparando-os com a igreja cristã do Novo Testamento e dos primeiros séculos, será inevitável a pergunta: como a igreja cristã adquiriu tal perfil? A igreja, em suas origens, era simples no seu culto, na sua estrutura administrativa e nas suas afirmações doutrinárias. A Igreja medieval tem uma hierarquia clerical complexa. A própria figura do Papa é constituída e ampliada no decorrer do período medieval. A igreja até o quarto século da era cris- tã era também desprovida de poder político e econômico e enfrentava sérias oposições, inicial- mente dos judeus, e depois do Império Romano. O culto ao imperador foi motivo de intensa per- seguição aos cristãos que, sendo radicalmente monoteístas, recusavam-se a participar do culto oficial. Essa resistência dos cristãos gerou inúmeros mártires e diversos outros tipos de punições. Internamente a Igreja Cristã enfrentava as controvérsias teológicas, principalmente relacionadas à doutrina da Trindade e da pessoa de Cristo. Os credos antigos foram produzidos nesse período, demarcando assim os parâmetros da fé Cristã e garantindo a sua ortodoxia. Esses padrões ela- borados pelos concílios antigos ainda servem de base para as diversas vertentes do cristianismo, católicas e protestantes. Sobre esses períodos de intensa perseguição externa e debates inter- nos e da sistematização de doutrinas cristãs básicas, poderão ser aprofundados com o estudo de obras tais como Nilcols (2006); Gonzalez (1980); Haykin (2012); Matos (2008), MacGrath (2007) e Costa (2014). O governo do imperador Constantino, a partir de 323, tem sido considerado como grande marco histórico para as transformações ocorridas na Igreja cristã. Antes de Constantino, os cris- tãos que eram perseguidos pelos imperadores, agora gozavam da sua simpatia. Antes, ser cristão representava perigo, a partir do referido imperador passou a ser privilégio. Não se sabe ao certo

GloSSário

ortodoxia: Palavra de origem grega que quer dizer literalmente:

“Opinião certa”. Tem o sentido de “doutrina correta”. Contrasta-se com heterodoxia, termo utilizado, a partir de Iná- cio de Antioquia (c. 110 AD) para indicar ensina- mentos falaciosos, falsas doutrinas ou doutrinas que não se ajustam com o ensino cristão, bíblico. Ortodoxo do ponto de vista católico romano é aquele ensinamento que está de acordo com os ensinamentos da Igreja. Para o Protestan- te, ortodoxo é o ensino que está de acordo com a Bíblia.

UAB/Unimontes - 5º Período

os motivos da simpatia de Constantino para com a Igreja. Várias possibilidades são consideradas. Uma delas era a de que se tratava de fé sincera (embora, na prática, não se tenham verificado evidências de sua plena adesão à fé cristã), por entender que a expansão da Igreja, mesmo em meio a condições tão desfavoráveis, devido às sangrentas perseguições, evidenciava o poder do Deus por ela proclamado, levando-o a temê-lo e desejar as orações da Igreja. Outra hipótese é a de que Constantino resolveu favorecer a Igreja por habilidade política, pois entendia ser essa organização e a sua pretensão de universalidade, importante elemento unificador do Império. Independentemente do motivo que tenha levado o imperador a favorecer a Igreja cristã, os efei- tos foram decisivos sobre a identidade dela. A nova situação de liberdade e até certos privilégios ocasionaram grande expansão da Igreja e também adaptação cultural, promovendo assim mu- danças nas suas práticas. Essas mudanças se intensificaram quando o imperador Teodósio (380) decretou o cristianismo a religião oficial do Império. O poder político e econômico da Igreja au- mentou incomparavelmente, passando, posteriormente, a reivindicar supremacia sobre o gover- no dos reis. A teoria das duas espadas. A espada temporal, dos reis, deveria se submeter à espada espiritual, da Igreja, que trata das questões eternas. Ser cristão por decreto implicava introduzir crenças oriundas de diversas culturas abarcadas pelo Império Romano, promovendo, assim, pro- fundas transformações no conteúdo doutrinário, litúrgico e prático da Igreja. Com o aumento do poder político e econômico, principalmente da Igreja estabelecida em Roma, capital do Império, a estrutura eclesiástica foi alterada. Surge a figura do Papa, com o crescimento do poder do bispo de Roma, como afirma Matos (2015):

Outro fator que contribuiu para a ascendência da igreja romana e do seu líder foi a própria centralidade e importância da capital do Império Romano. Ao con-

(

...

)

trário da região oriental, em que várias igrejas (Alexandria, Jerusalém, Antioquia e Constantinopla) competiam pela supremacia em virtude de sua antiguidade e conexões apostólicas, no Ocidente a igreja de Roma, desde o início, foi pratica- mente a líder inconteste. Outrossim, a partir de Constantino, muitos imperadores romanos fizeram generosas concessões àquela igreja, buscaram o conselho dos seus bispos e promulgaram leis que ampliaram a autoridade deles (MATOS, 2015,

p.35).

Nesse processo de transformação da igreja durante o período medieval, além de a estrutu- ra eclesiástica clerical ter se tornado complexa, houve também a ampliação de dogmas e prá- ticas em relação à igreja antiga. Eis alguns exemplos: o sacrifício da missa, instituído pelo Papa

Figura 4: Papa Leão I, de grande destaque na História dos papas

Fonte: Disponível em <http://pt.wikipedia.org/

wiki/Papa_Le%C3%A3o_

I>. Acesso em 10 jul.2015.

UAB/Unimontes - 5º Período os motivos da simpatia de Constantino para com a Igreja. Várias possibilidades

Gregório I; a veneração a Maria, tendo-a como intercessora, e corredentora da humanidade, começou a se desenvolver depois do culto de Calcedônia (451) e, permanecendo de certa forma dinâmico, continuou sendo ampliado até os séculos XIX e XX, culminando no dog- ma da imaculada conceição, em 8 de outubro de 1854 e da assunção, no dia 1 de novembro de 1950. A oficialização do uso de imagens na Igreja e pela Igreja foi decretada em 787. A confissão auricular, instituída pelo 4º Concílio de Latrão em 1215. Neste mesmo concílio foi estabelecido o dogma da transubstanciação. O Celibato dos padres estabelecido pelo Papa Gregório VII, em 1074. A doutrina do Purga- tório, oração pelos mortos, o clero como me - diador na relação do povo com Deus, foram doutrinas adaptadas neste período. Roma reivindica a autoridade divina da tradição da Igreja, para que tais mudanças sejam recebi- das como dogmas e, portanto, objeto de fé parte dos cristãos. Considerar as transformações ocorridas na Igreja Cristã, como as mencionadas nessa breve exposição, ajuda-nos a compreender as reivindicações dos movimentos reformadores

do século XVI. Esclarece também o longo de -

Ciências da Religião - Cosmovisão das Religiões: Reforma e Contra-Reforma

bate popular entre protestantes e católicos romanos. O católico que argumenta fazer parte da Igreja original, fundada por Cristo. Única e verdadeira, portanto. O protestante, por sua vez, ar- gumenta que os protestantes é que representam a Igreja original, uma vez que a Igreja de Roma apostatou-se. Distanciando-se do ensino bíblico, diluído pelas inserções da tradição, descaracte - rizou-se. A reforma teria sido a volta às origens. No próximo tópico deste estudo, veremos alguns aspectos do contexto, no final da Idade Média, que influenciaram na visibilidade dos atos de re - sistência às mudanças ocorridas na Igreja durante a Idade Média.

2.3 Política, Economia, Religião e Sociedade no Final da Idade Média

No final da Idade Média, começam a surgir os “estados nacionais”, alterando fundamental- mente a configuração política da Europa. O poder absoluto do papado, da espada espiritual, ini- cia um processo de declínio. Principalmente a Inglaterra e a França se desenvolvem e se unificam internamente, desenvolvendo o senso de independência. Esse espírito nacionalista é desenvol- vido também pelos povos germânicos que, mais tarde, também conseguem o seu governo na- cional. A partir de então, as tensões entre Igreja e Estado intensificam-se. Eventos radicais envol- vendo o conflito entre o rei Filipe IV da França e o Papa Bonifácio VIII ilustram esses conflitos. O rei francês, irritado com os impostos e imposições papais, envia as suas tropas que o prendem. A este episódio outros se seguiram, demonstrando claramente o declínio do poder da Igreja (Ma- tos, 2013). Além do contexto político desfavorável, internamente a Igreja enfrentava a corrupção no clero, as críticas ao extremo luxo da corte papal. Esse clima de instabilidade foi agravado pelo “grande cisma” (1378-1417), gerando a situação inusitada de haver três papas da Igreja ocidental. O excesso de riqueza e de poder acabou gerando extravagâncias que desgastavam a credibilida- de espiritual do clero. Há um documento do secretário do papa Benedito XIII que faz referência à situação moral do clero: “Raramente encontra-se um, em mil, que faça honestamente o que a profissão exige” (NICOLS, 1981, p. 129). Somaram-se a essas insatisfações, a degradação religiosa, dando lugar ao ritualismo, às relíquias, práticas mágicas, dentre outras que, além de gerar resis- tência, principalmente por parte de uma liderança crítica, despertava insatisfações também por parte de fiéis que se viam abandonados, sem os cuidados pastorais da maioria dos clérigos que demonstravam ter abandonado o sentido das suas vocações. Martina (2008), ao discutir as diversas teses referentes às causas da Reforma Protestante, aponta os dois grandes motivos que sustentam a tese clássica: a degradação moral da Igreja de Roma, especialmente do seu clero, e a alegada necessidade de se purificar a igreja da supers- tição. O referido autor apresenta documentos de clérigos que, muito antes do movimento do século XVI, argumentavam sobre a necessidade de reformas do ponto de vista moral. Cita, por exemplo, as humildes confissões de Adriano VI em suas instruções ao núncio da Alemanha:

Faremos todo o possível para reformar essa cúria, de onde, provavelmente, se originou esse mal, pois assim como, a partir dela, se difundiu a corrupção sobre todos os súditos, assim a partir dela se difunda a reforma e a salvação a todos (MARTINA, 2008, p. 51).

Ainda quanto ao aspecto religioso desse contexto, além da degradação moral, os refor- madores desejavam “extirpar tudo o que lhes parecesse superstição” (MARTINA, 2008, p. 53). O combate veemente à venda de indulgências, associada à superstição e à ambiciosa corrupção de Roma, e diversas outras doutrinas, como a da transubstanciação, por exemplo. A questão não era apenas os considerados desvios práticos, mas também o desvio das Escrituras. Martina (2008, p. 53) cita o comentário de Martinho Lutero, que evidencia essa expectativa reformadora do ponto de vista teológico, doutrinário: “Mesmo que o Papa fosse um santo como São Pedro, para nós seria sempre um ímpio”. A própria instituição papal e as demais tradições à parte das Escrituras eram consideradas uma traição à verdade. Martina (2008) apresenta a análise de Lucien Febvre

UAB/Unimontes - 5º Período

Figura 5: Erasmo de Roterdã (1466-1536)

Fonte: Disponível em <http://pt.wikipedia.org/ wiki/Erasmo_de_Roterd% - C3%A3o>. Acesso em 08

jul.2015.

UAB/Unimontes - 5º Período Figura 5: Erasmo de Roterdã (1466-1536) Fonte: Disponível em <http://pt.wikipedia.org/ wiki/Erasmo_de_Roterd% -

em 1929, que sublinha os fatores psicológi- cos nesse contexto desde o final do século XV, quando é sentida a necessidade de uma nova religiosidade que se distanciasse da aridez dos teólogos escolásticos, do formalismo clerical e que exigia uma maior proximidade pastoral. O ambiente tornou-se favorável ao for- talecimento dos movimentos de resistência à Igreja de Roma, também devido à emergência de uma nova corrente econômica, a burgue - sia, e uma nova mentalidade decorrente das suas atividades. Considerando a afirmação de Karl Marx de que “as religiões são filhas do seu tempo” (MONTEIRO ett all, 2011), é possível associar as transformações econômicas ocor- ridas neste período com o declínio da hege - monia do Papa de Roma e a abertura de pos- sibilidades de outras formulações religiosas. Cabe aqui cautela em relação ao reducionismo marxista que atribui as motivações dos movi- mentos religiosos às questões econômicas (cf. MONTEIRO ett all, 2011). Seguindo a chave analítica weberiana, consideramos preferível

entendermos que a mentalidade religiosa da- quele momento, as convicções doutrinárias, embora com motivações especificamente religiosas, receberam e provocaram influências dos outros aspectos da realidade social, inclusive da nova configuração econômica. Uma influência marcante do pensamento renascentista no ambiente cultural em que veio se consolidar o movimento de Reforma é o humanismo. Embora nem todo o pensamento hu- manista tenha sido bem aceito pelos reformadores, por muitos deles se distanciarem do ensino estrito da Bíblia, a ênfase na liberdade de pensamento e a leitura dos clássicos em muito contri- buiu para os ideais da Reforma. Muitos desses teóricos humanistas, destacando-se entre eles o holandês Erasmo de Rotherdan, ocuparam-se da tradução e estudo dos textos bíblicos (MATOS, 2013). Segundo Costa (2014), os reformadores em geral podem ser, de certa forma, considerados humanistas. Embora não considerando o homem como “a medida de todas as coisas”, seguiam a mentalidade religiosa do seu rae da sua produção. Afinal, este homem foi criado à imagem e semelhança de Deus, dotado de inteligência e talentos para subjugar a natureza, obra da criação divina, e transformá-la de forma relevante para atender às suas próprias necessidades, às necessi- dades do próximo e, em ambos os objetivos, estando sujeito ao objetivo supremo que é a glória do seu Criador.

2.4 Movimentos Dissidentes que Antecederam à Reforma no Século XVI

Embora seja possível afirmar, como já foi abordado na Unidade I deste caderno, que ações de resistência à teologia e métodos da Igreja medieval possam ser identificados durante todo esse período (FERNÁNDEZ-ARMESTO e WILSON, 1997), é a partir do século XII que os focos de oposição ganham visibilidade na insatisfação contra o que era considerado desvio por parte desses dissidentes. É preciso lembrar que não havia uma proposta alternativa homogênea, con- vergente, entre os grupos dissidentes. Embora muitos se alinhassem em termos doutrinários e outras reivindicações, outros diferiam nas discordâncias em relação à Igreja de Roma e também entre si (NICOLS, 1991, p. 131). É o caso, por exemplo, dos “Cataristas” que se desenvolveram no

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final do século XII e durante o século XIII. Tornou-se um grupo rival dos que mantinham os pilares da ortodoxia cristã. Tinham seus próprios sacramentos e credo. Era uma mistura do cristianismo com crenças religiosas orientais. Nesse mesmo período, mas sem se distanciar dos princípios do cristianismo, os “Petrobrus- sianos”,no sudeste da França, desenvolveu-se a partir da liderança de Pedro de Brurys e Henrique de Lausanne. Esse grupo conseguiu a adesão de pessoas das diversas camadas da sociedade, tendo como argumentos principais a luta contra a superstição dominante na Igreja, alterações para eles inaceitáveis na forma de culto, bem como a degradação moral do clero. Dois movimentos considerados de grande importância nos séculos que antecederam à Re - forma foram os Valdenses e o do grupo chamado de “Os irmãos”. O dos Valdenses surgiu no final do século XII, chefiado pelo comerciante Pedro Valdo, da cidade de Lião, na França. Depois de ter lido o capítulo 10 do Evangelho segundo Mateus, passou a distribuir os seus bens entre os pobres e tornou-se um pregador ambulante. Tendo conseguido reunir muitos adeptos, foi logo excomungado pela Igreja dominante, o que ocasionou a organização do grupo como uma igreja dissidente. Apesar da constante repressão da Igreja, os Valdenses se multiplicaram em diversas partes da Europa ocidental. O grupo dos “Irmãos” expandiu-se entre camponeses e artesãos que realizavam as suas atividades religiosas em secreto, driblando assim a repressão romana. Aprecia- vam a leitura da Bíblia e mantinham uma organização simples, sendo essa simplicidade a carac- terística que entendiam ter perdido a Igreja de Roma ao distanciar-se do ensino bíblico (NICOLS, 1981, p. 132). Nos séculos XIV e XV, os movimentos de protestos contra a forma de religião dominante e propostas de reforma continuaram surgindo. Na universidade de Oxford, o professor John Wyclif- fe (1325 – 1384), que também era padre que gozava de grande simpatia entre os pobres, de - senvolveu intenso combate às doutrinas da Igreja de Roma, especialmente à autoridade do Papa e ensinava com veemência a Bíblia como única e verdadeira regra de fé e de práti- ca. Traduziu a Bíblia para o inglês e incentivou a sua divulgação entre os diversos setores da sociedade. Criou a ordem dos sacerdotes po- bres, os “irmãos Lollardos”, com a finalidade de divulgar a Bíblia entre os pobres. Os membros da ordem andavam descalços, com um cajado na mão, distribuindo porções de textos bíbli- cos, mensagens e a própria Bíblia traduzida pelo padre e professor de Oxford. Embora te - nha sido condenado por tribunal eclesiástico e condenado à condição de herege, nenhuma providência mais severa foi tomada contra Wyclliffe. Atribui-se essa relativa tolerância à sua popularidade e também ao contexto polí- tico em que vivia, tendo recebido certo apoio das autoridades inglesas que também tinham seu relacionamento desgastado com o poder papal, por resistirem aos pesados impostos co - brados pela Igreja. Tendo a obra de John Wycliffe como refe - rência, John Huss (1373-1415), reitor da univer- sidade de Praga, desenvolve, entre os boêmios, vigoroso movimento de contestação às doutri- nas e práticas da Igreja de Roma. Além das suas convicções nacionalistas que lhe davam crédi- to perante autoridades e o povo, era também sacerdote, pregador ativo respeitado pelos seus ouvintes. Essas condições proporciona- ram-lhe o suporte para a expansão das suas ideias. Afirmava em seus escritos e discursos a suficiência das Escrituras como guia da Igreja de Cristo e que o Papa de Roma só deveria ser obedecido naqueles pontos em que os seus

Ciências da Religião - Cosmovisão das Religiões: Reforma e Contra-Reforma final do século XII e durante
◄ Figura 6: John Wyclif Fonte: Disponível em <http://www.bible-resear- cher.com/wyclif1.html>. Acesso em 14 jul.2015.
◄ Figura 6: John Wyclif
Fonte: Disponível em
<http://www.bible-resear-
cher.com/wyclif1.html>.
Acesso em 14 jul.2015.

Figura 7: John Huss

(1373-1415)

Fonte: Disponível em <http://ptl2010. com/2013/05/31/jerome-o - f-prague/>. Acesso em 14

jul.2015

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UAB/Unimontes - 5º Período

Figura 8: Jerônimo Savanarola (1452-1498)

Fonte: Disponível em < http://historiaybiografias.

com/tag/proceso-a-gior-

dano-bruno/>. Acesso em

12 jul.2015.

ATiVidAde

Escreva um texto dissertativo, discutin- do as transformações ocorridas no cristianis- mo desde os primeiros séculos até o século XVI, observando o conceito de “Igreja Católica” e elementos motivadores dos movimentos de reforma, localizando-os no tempo e destacando o alcance e a profundi- dade propostos nesses diversos movimentos, bem como as suas implicações para a uni- dade da Igreja medie - val. Poste no Fórum de discussão.

UAB/Unimontes - 5º Período Figura 8: Jerônimo Savanarola (1452-1498) Fonte: Disponível em < http://historiaybiografias. com/tag/proceso-a-gior- dano-bruno/>.

decretos coincidissem com os preceitos bíblicos. O Con- cílio de Constança julgou Huss culpado de heresia e, como se recusou a se retratar, foi condenado à foguei- ra como herege, sendo logo executado. A repercussão de tal ato gerou revoltas na Boêmia, tanto no aspecto religioso quanto político. Os “Irmãos Boêmios”, organi- zados sob a influência da obra de Huss, expandiram-se por grande parte da Europa como um segmento cristão à parte da Igreja de Roma. Outro nome normalmente destacado entre os “pré-reformadores” ou “antecessores da Reforma” é do monge italiano Jerônimo Savanarolla (1452-1498), fra- de dominicano que atuou em Florença. Portela (1997) problematiza a ação de Savanarola quanto à natureza da sua divergência com a Igreja romana. Embora tenha pregado contra “a imoralidade na sociedade e na Igre - ja, inclusive no papado” (MATOS, 2008), segundo Porte - la (1997), a contestação de Savanarola foi relevante no

aspecto religioso, a sua pregação incisiva conclamando à restauração moral, diferencia-o dos demais reformadores, inclusive Wicliffe e Huss, por não ter uma proposta clara de volta às Escrituras. Savanarola governou Florença por algum tempo, mas, sendo considerado herege, foi condenado à forca. Nesta unidade, preparando-nos para o estudo da Reforma Protestante do Século XVI pro- priamente dita, pudemos verificar o contexto que a antecedeu. Verificamos também que as obras de Matinho Lutero, João Calvino, Ulrico Zwinglio e outros reformadores que têm sido des- tacados pela historiografia, não ocorreram abruptamente nem isoladamente. O ambiente foi se tornando favorável mediante um conjunto de fatores que aqui foram considerados de forma su- cinta, de conformidade com os nossos objetivos neste texto, mas que poderão ser explorados em outras leituras.

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Ciências da Religião - Cosmovisão das Religiões: Reforma e Contra-Reforma

UNidAde 3

Reformas Protestantes na Europa do Século XVI

José Normando Gonçalves Meira

  • 3.1 Introdução

Convido o(a) prezado(a) acadêmico(a) para analisarmos nesta unidade algumas doutrinas basilares da Reforma Protestante do século XVI, que foram pontos convergentes entre os tradi- cionalmente considerados principais movimentos de reforma e que deram origem ao que pode - mos chamar de ortodoxia protestante. Esses temas teológicos podem ser considerados, portanto, elementos unificadores dos considerados principais segmentos da reforma protestante. Na verda- de, como afirma Martina (2008), os reformadores que sucederam Martinho Lutero, de certa forma, reproduziram e até ampliaram, como foi o caso de João Calvino, em outras partes da Europa, as doutrinas outrora proclamadas pelo reformador de Wittenberg. Este, por sua vez, utilizou muito o discurso dos chamados “pré-reformadores” John Wycliffe, John Huss e outros, tendo como argu- mento a volta ao texto bíblico, dedicando-se à hermenêutica e à exegese como disciplinas espe - ciais. Todos tiveram a obra de Agostinho de Hipona como importante referência. Poucos foram os pontos divergentes entre esses reformadores considerados clássicos para o movimento do século XVI. O mais relevante deles foi o relacionado à eucaristia ou ceia do Senhor, como será discutido mais adiante. Além da análise desses pilares teológicos do protestantismo clássico, discutirei, de forma sucinta, os diversos fundadores de movimentos de reforma, o contexto específico em que atuaram e as escolas teológicas que eles passaram a representar. Normalmente uma questão é le - vantada pelos interessados em compreender os conflitos religiosos do século XVI: Por que o movi- mento de reforma que deu origem ao protestantismo causou uma fragmentação no cristianismo, dando origem a diferentes grupos? Por que não se unificou o movimento reformado, mantendo- se uma única corrente, como permaneceu unificado o catolicismo, mesmo abrigando diversas or- dens? A diversidade de movimentos deve-se ao fato de terem ocorrido em diversos contextos po - líticos e, considerando a relação entre religião e Estado nesse período, explica-se a independência desses movimentos. Essa é uma explicação. A falta de um eixo unificador, como funciona o papa- do na Igreja Católica Romana, também serve de hipótese para essa fragmentação. Para a presente unidade do nosso caderno didático, reafirmo o meu objetivo de, a partir deste estudo introdutório, estimular o acadêmico a outras investigações que lhe possam aprofundar os conhecimentos do tema geral de subtemas extraídos dessa discussão. Privilegiarei aqui os líderes dos movimentos de reforma, lembrando que, como já foi afirmado na Unidade 1, diversos estudos, seguindo os pressupostos teóricos e metodológicos da Nova História, como Burke (1989) e Chartier (1991), têm apontado a grande fertilidade do estudo desse tema, considerando a participação de pessoas consideradas comuns nesses movimentos do século XVI e em momentos posteriores.

GloSSário

Hermenêutica: Vem do grego “hermeneuo” que

significa “eu interpre -

to”. Designa a arte, o método ou ciência da interpretação. A her- menêutica é pertinente às ciências sociais em seus diversos objetos de investigação. No que se refere à teologia, aplica- se especificamente à interpretação dos textos sagrados. Exegese: Palavra de origem grega que sig- nifica literalmente “tirar para fora”. Aplica-se ao exercício de se buscar o sentido original de um texto. No caso da teolo- gia, do texto sagrado.

  • 3.2 Reformadores do Século XVI:

Martinho Lutero, Ulrico Zwinglio

e João Calvino

Embora os movimentos de divergências teológicas contra a Igreja Medieval não tenham se restringido às obras dos reformadores que aqui serão discutidos, optei por apresentá-los juntos

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UAB/Unimontes - 5º Período

nesta unidade, por serem considerados as principais referências do protestantismo clássico. Em outras unidades serão analisados outros movimentos dissidentes que, embora contrários à Igreja Católica Romana, divergiam também desses reformadores que se tornaram tradicionais. É pre - ciso lembrar que outras abordagens desse tema, privilegiando os seus reflexos no cotidiano, na cultura, têm sido de grande relevância para a sua compreensão. Além dos teólogos que lidera- ram o movimento, é importante analisar como a sua teologia foi recebida e praticada pelos sujei- tos que aderiram aos seus discursos em situações diversas. Discutiremos esse aspecto de forma mais detalhada na unidade 5 quando, tendo Weber (1996) como referência, discutiremos a “ética protestante e ação social”, procurando compreender o conceito de “ascetismo intramundano” e a influência nas sociedades em que predominaram os princípios reformados. Para o cumprimento dos objetivos da presente unidade, apresentaremos os líderes, suas obras e ações. Quando se fala em “Reforma Protestante do Século XVI”, normalmente o primeiro nome que nos vem à mente é o de Martinho Lutero. É popularmente considerado o detonador do movi- mento, o pioneiro da Reforma. Como já ficou demonstrado em unidades anteriores, na verdade o movimento de reforma já vinha sendo construído desde o final da Idade Média, tendo adquirido maior expressão a partir da ação luterana, considerando um conjunto de fatores que tornaram aquele ambiente favorável à sua efetivação. Conheçamos um pouco da trajetória de Martinho lutero (1483-1546): oriundo de uma fa- mília bastante religiosa nos moldes medievais, da pequena cidade de Eisleben na Saxônia. Seu pai trabalhava em uma mina de ferro e conseguiu progredir, oferecendo ao filho boa oportunida- de de estudar. Inicialmente o sonho do seu pai, abraçado por ele, era de seguir a carreira jurídica, chegando a ingressar-se na renomada universidade de Erfurt, na Alemanha, onde estudou du- rante quatro anos. Aprofundou-se nos estudos da filosofia medieval. Além de ser bom orador e dedicar-se a atividades polemistas, interessava-se também pela música. Uma inusitada experiên- cia causou uma repentina mudança nos seus objetivos. Ao deparar-se com a morte em uma forte tempestade, resolveu dedicar-se à vida religiosa e ingressar-se no Convento dos Agostinianos em Erfurt. Essa decisão repentina, quando já estava quase iniciando as suas atividades profissionais, causou desapontamento no seu pai que desejava que Lutero ingressasse na carreira jurídica. Na sua nova atividade, dedicado especialmente à vida religiosa, envolveu-se numa intensa busca pela salvação, excedendo-se nas vigílias, jejuns, flagelações e confissões, revelava sua afli- ção por considerar-se debaixo da ira divina, devido à sua indignidade de homem pecador (Nil- cols 2006, p.145). Tornou-se professor da universidade de Winttenberg em 1512, onde passou a oferecer cursos sobre diversos livros da Bíblia. Entre esses cursos bíblicos, o da carta do apósto- lo Paulo aos Romanos foi o que mais o influenciou. Estudando o referido escrito paulino, Lutero afirma ter encontrado a tão almejada paz de espírito por entender que a obra redentora de Cris- to atendia plenamente às exigências da justiça divina em favor de todo que nele crê. A partir daí seria elaborada a doutrina da justificação pela graça, mediante a fé, tão cara para Lutero e para o protestantismo (MacARTHUR JR. 1995). Entendendo que “o justo viverá por sua fé” (Romanos 1.17), passou a ensinar a insuficiência das obras humanas para atender à justiça e santidade de Deus, sendo a obra de Cristo, representando o pecador, o único meio de justificação. A venda das indulgências por parte da Igreja de Roma casou-lhe extrema indignação. Inicialmente, ao consi- derar a venda de indulgência um abuso à pureza da religião, além de outros erros que lhe cau- savam indignação, pensava serem essas práticas desconhecidas da Igreja em Roma. Depois de tomar conhecimento de que o próprio Papa as apoiava, decepcionou-se com a Igreja que tanto amava, passando a entender que as reformas necessárias teriam que ser muito mais amplas e profundas, culminando no conhecido ato do dia 31 de outubro de 1517. Matos (2015) resume:

No dia 31 de outubro de 1517, diante da venda das indulgências por João Tetzel, Lutero afixou à porta da igreja de Wittenberg as suas Noventa e Cinco Teses, a maneira usual de convidar-se uma comunidade acadêmica para debater algum assunto. Logo, uma cópia das teses chegou às mãos do arcebispo, que as enviou a Roma. No ano seguinte, Lutero foi convocado para ir a Roma a fim de responder à acusação de heresia. Recusando-se a ir, foi entrevistado pelo cardeal Cajetano e manteve as suas posições. Em 1519, Lutero participou de um debate em Leip- zig com o dominicano João Eck, no qual defendeu o pré-reformador João Huss e afirmou que os concílios e os papas podiam errar. Em 1520, a bula papal Ex- surge Domine (= “Levanta-te, Senhor”) deu-lhe sessenta dias para retratar-se ou ser excomungado. Os estudantes e professores da universidade queimaram a bula e um exemplar da lei canônica em praça pública. Nesse mesmo ano, Lutero escreveu várias obras importantes, especialmente três: À Nobreza Cristã da Na- ção Alemã, O Cativeiro Babilônico da Igreja e A Liberdade do Cristão. Isso lhe deu notoriedade imediata em toda a Europa e aumentou a sua popularidade na Ale -

Ciências da Religião - Cosmovisão das Religiões: Reforma e Contra-Reforma

manha. No início de 1521, foi publicada a bula de ex- comunhão, Decet Pontificem Romanum. Nesse ano, Lutero compareceu a uma reunião do parlamento, a Dieta de Worms, onde reafirmou as suas ideias. Foi promulgado contra ele o Edito de Worms, que o levou a refugiar-se no castelo de Wartburgo, sob a proteção do príncipe-eleitor da Saxônia, Frederico, o Sábio. Ali, Lutero começou a produzir uma obra-pri- ma da literatura alemã, a sua tradução das Escrituras (MATOS, 2005, sp).

São várias as interpretações da pessoa e da obra de Martinho Lute - ro. Desde um blasfemo e imoral, neurótico, a intelectual extraordinário. São várias as atribuições de amigos, discípulos e adversários. Martina (2008) faz um balanço sobre essas avaliações da personalidade de Lute - ro, principalmente por parte dos seus adversários:

(

...

)

todos admitem hoje que a evolução psicológi-

ca do jovem religioso e as suas angústias não nas- ceram de uma perversão moral. Diferentemente do dominicano Johanes Cochlaeus, o jesuíta Grisar, que rejeita a tese da perversão moral, insiste sobre a deformação psicológica de Lutero, propenso a ter escrúpulos e ansiedades, atormentado pelo terror do pecado e do demônio, e até por uma disposição

psicológica hereditária (

)

para Grisar, Lutero é um

... neurótico (MARTINA ,2008, p. 121).

Segundo essas interpretações, essas características da personalidade de Lutero é que teriam motivado as suas ações religiosas que culminaram no rompimento com a Igreja. Essa ruptura, nessa perspectiva, explica-se pelas evidências de profundo desespero do monge agostiniano, temendo o juízo de Deus e não tendo os seus anseios atendidos pela teologia medieval. Essas suas angústias o atormentavam, por ele considerar a santidade absoluta de Deus, da sua perfei- ta justiça, o que impossibilitaria ao pecador prevalecer na presença do Criador Santíssimo. Essas angústias só foram cessadas, como exposto acima, após a sua compreensão da doutrina da justi- ficação pela graça, mediante a justiça de Cristo, apresentada pelo apóstolo Paulo nas suas cartas aos Romanos e aos Gálatas. Martina (2008,) prossegue no diálogo com os intérpretes da persona- lidade de Lutero:

Ciências da Religião - Cosmovisão das Religiões: Reforma e Contra-Reforma manha. No início de 1521, foi

Figura 9: Martinho Lutero (1483-1546)

Fonte: Disponível em <http://www.bbc.co.uk/ history/historic_figures/ luther_martin.shtml>. Acesso em 16 jul.2015.

Hoje, depois dos estudos de Lotz, Adam e outros, assistimos a uma reavaliação de Lutero. Todos reconhecem nele uma profunda religiosidade. Lutero teve uma experiência pessoal de Deus, um autêntico sentido do pecado e da própria nuli- dade, da qual se reerguia pelo apego a Jesus Cristo e pela confiança cega nele e em sua redenção (MARTINHA, 2008. p.121-123).

Além da análise da pessoa de Lutero e a relação com os seus atos reformadores, Martina (2008, p.123) avalia a sua contribuição. A partir dos objetivos religiosos, reflexos são percebidos na sociedade (nós nos deteremos nesses reflexos políticos e sociais na unidade 5):

É justo ver em Lutero, como dizia Fichte, o alemão por excelência, o homem que não somente deu à Alemanha umas das primeiras obras literárias em língua vulgar, como contribuiu para a formação de uma consciência nacional alemã e, talvez, tenha concorrido para acentuar no caráter alemão alguns traços menos felizes (MARTNA, 2008. p.123).

Ao se abordar a reforma luterana, é preciso considerar a participação de um dos seus mais eficientes discípulos e auxiliares: Filipe Melanchton. Sobre a contribuição de Melanchton (2011) afirma:

Uma das grandes figuras da Reforma do século XVI foi Felipe Melanchton. Ele era um humanista que veio a se tornar teólogo e deu importantes contribuições à reforma religiosa na Alemanha e em outras partes, com seus muitos contatos em muitos países e com suas obras teológicas, como o Loci Communes e a Confissão de Augsburgo e sua Apologia. Suas contribuições frequentemente são obscure - cidas pela grande figura de Martinho Lutero, mas nós podemos perceber que ele

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também teve sua influência na Reforma como um todo e mesmo sobre o próprio Lutero, contribuindo com o seu impressionante domínio de Grego, Latim e Re - tórica, e também com seus insights teológicos. Melanchton foi o sistemático do movimento luterano, moldando o pensar teológico por décadas, ao menos até o fim do século XVI (MELANCHTON, 2011, p. 544).

Além dos efeitos da reforma luterana na Alemanha, a sua obra e a obra de Melanchton servi- ram de referência para movimentos em outras partes da Europa. Prossigamos, verificando outros focos de divergências para com a religião dominante no período em que geraram outras verten- tes do protestantismo. A Reforma na Suíça tem sido considerada de grande relevância pela historiografia. Para compreendê-la, é necessário lembrar que, no século XVI, a suíça era uma confederação constituí- da de 13 pequenos Estados, denominados “cantões”. Um dos importantes nomes da reforma suí- ça é Ulrico Zwinglio (1484-1531). Zwinglio teve formação intelectual privilegiada nas universi- dades de Viena e Basileia, tendo ali recebido forte influência dos mestres humanistas. A formação de Zwinglio foi, portanto, bem diferente da de Lutero que esteve sempre vinculado à filosofia medieval e por suas marcantes experiências religiosas. O reformador suíço se tornou clérigo mais por influência familiar.

Figura 10: Ulrico Zwinglio

Fonte: Disponível em

<http://www.militar-

cristao.com.br/gap. php?id=605>. Acesso em 18 jul.2015.

UAB/Unimontes - 5º Período também teve sua influência na Reforma como um todo e mesmo sobre

Além do espírito de independência que

fazia parte da sociedade suíça no período, o contato direto com as obras dos humanistas foi de grande importância para a aproximação de Zwinglio dos ideais reformistas. Ele passou a estudar a Bíblia a partir do Novo Testamen- to traduzido por Erasmo de Roterdan (Nicols, 2006). Logo passou a se opor às práticas su- persticiosas observadas nos fiéis que, como peregrinos, procuravam a sua paróquia em Ein- siedeln. Reconhecido como grande pregador, em 1519 transferiu-se para Zurique, passando a receber influência de Lutero e foi se afastan- do das convicções da Igreja romana, pregando contra as suas doutrinas e práticas, até que, em 1522, “anunciou abertamente o seu afastamen- to do papado” (Nilcols 2006). Um debate públi- co realizado em Zurique em 1523 motivou a cidade a se tornar protestante. Considerando a relação entre religião e Estado, ser Católico Ro- mano ou Protestante era também uma decisão

política. Matos (2015) afirma:

O reformador escreveu os Sessenta e Sete Artigos – a carta magna da reforma de Zurique – nos quais defendeu a salvação somente pela graça, a autoridade da Escritura e o sacerdócio dos fiéis, bem como atacou o primado do papa e a missa. Esse movimento suíço, conhecido como a “segunda reforma”, deu origem às igrejas “reformadas”, difundindo-se inicialmente na Suíça alemã e no sul da Alemanha. Em 1525, o Conselho Municipal de Zurique adotou o culto em lugar da missa e em geral promoveu mudanças mais radicais do que as efetuadas por Lutero (MATOS, 2015, sp).

Se Martinho Lutero é lembrado como o desbravador do movimento de reforma, João Calvi- no (1509-1564) é considerado como o sistematizador da sua teologia. Embora Lutero tenha pro - duzido importantes obras (FISCHER, 2004), a vasta produção intelectual de João Calvino é consi- derada de incomparável importância para a consistência da teologia protestante e para além do próprio protestantismo. Costa (2004, p. 133) considera-o “o exegeta da Reforma”. Sermões, car- tas, tratados, comentários bíblicos e a sua obra mais conhecida: “Instituição da Religião Cristã” ou “Institutas”. Martina (2008, p. 145) afirma que Calvino não se destaca por sua originalidade, mas por sua capacidade de sistematização. O reformador de Genebra não chegou a elaborar novos tópicos teológicos, além do que Lutero já havia produzido, mas aprofundou-se na explicação, sis- tematização e organização de tais ideias. Atribui a essa característica de João Calvino o alcance da sua contribuição para diversas partes da Europa e, posteriormente, para diversas partes do mundo onde ainda as suas ideias exercem marcante influência.

Ciências da Religião - Cosmovisão das Religiões: Reforma e Contra-Reforma

Ciências da Religião - Cosmovisão das Religiões: Reforma e Contra-Reforma João Calvino nasceu no dia 10

João Calvino nasceu no dia 10 de julho de 1509, em Noyon, norte da França. A sua mãe faleceu quando ele ainda era muito criança. Seu pai, Gérard Cauvin, era secretário do bis- po da sua cidade e advogado da Igreja. Após os seus estudos iniciais em Noyon, Calvino seguiu para Paris, onde se dedicou ao estudo das humanidades e de teologia. Ali permane - ceu de 1523 até 1528, quando, por ordem do seu pai, seguiu para Orléans e Bourges para dedicar-se aos estudos jurídicos. Ali perma- neceu de 1528 a 1531. Com a morte do pai, retornou a Paris, retomando os estudos an- teriores e publicou a sua primeira obra, um comentário do tratado de Sêneca “Sobre a Clemência” (MATOS, 2015). João Calvino con- verteu-se ao protestantismo por volta de 1533, quando se intensificou o seu contato com os ideais de reforma na própria universi- dade de Paris. Esses contatos se deram destacadamente por meio do seu amigo Nicholas Cop e do seu primo Olivétan, que também foi um dos tradutores da Bíblia para a língua francesa. Fu- gindo da perseguição religiosa anti-reforma em Paris, instalou-se em Angouleme, onde se dedi- cou à escrita da sua obra mais conhecida; “Instituição da Religião Cristã” que teve a sua primeira edição publicada em 1536 na cidade de Basiléia (MARTINA, 2008, p. 146). (Outras edições amplia- das dessa obra que procura apresentar, de forma sistemática, uma síntese da teologia bíblica, a última publicada em 1559). Ainda em 1536, Calvino teve a intenção de fixar residência em Estras- burgo, cidade protestante, onde atuava o reformador Martin Butzer (1491-1551), mas, passando por Genebra, mesmo relutando inicialmente, foi convencido pelo veemente apelo de Guilherme Farel que ali liderava o movimento de reforma na cidade e foi visitá-lo na hospedaria e requisitou a sua colaboração, considerando o seu preparo intelectual. As reformas empreendidas por Farel e Calvino, implicando mudanças de costumes, combate aos vícios e austeridade no comportamen- to em geral, renderam-lhes fortes oposições que ocasionaram a expulsão de ambos da cidade. Em 1541, o próprio conselho que administrava a cidade convidou Calvino para que retornasse. Ele, que já havia se instalado em Estrasburgo, onde dava assistência pastoral a refugiados de per- seguição religiosa de diversas partes da Europa, relutou, mais uma vez, em aceitar o convite. Gui- lherme Farel e outros amigos se encarregaram de persuadi-lo a retornar, argumentando tratar- se de uma oportunidade de efetivação da Reforma, que não poderia ser negligenciada. Martina (2008, p. 147) cita a frase pronunciada pelo reformador francês para justificar a sua resposta: “Se dependesse de mim, jamais aceitaria esse convite. Mas, uma vez que não me pertenço, ofereço o meu coração em sacrifício pelo Senhor”. A segunda passagem de Calvino por Genebra, que du-

Ciências da Religião - Cosmovisão das Religiões: Reforma e Contra-Reforma João Calvino nasceu no dia 10

Figura 11: João Calvino

(1509-1564)

Fonte: Disponível em <http://www.ibamendes.

com/2011/06/o-conceito-

de-joao-calvino-sobre-as. html>. Acesso em 09

jul.2015.

GloSSário

Consistório: A cida- de de Genebra era administrada por um parlamento, um conse - lho. Esse é o sistema de governo que veio a se

consolidar no sistema presbiteriano, parla- mentarista. João Calvi- no, ao discutir sobre os sistemas de governo,

afirma: “(

)em

virtude

... dos vícios ou defeitos dos homens, é mais seguro e mais tolerável quando diversos exer- çam o governo, de sorte que, assim se assistam mutuamente, ensinem e exortem uns aos outros; e, se alguém se exalta mais do que lhe é justo ,muitos sejam censores e mestres para coibir- se seu desregramento” (Livro IV, Capítulo XX das Institutas).

Figura 12: Universidade de Genebra. Parte central do Muro dos Reformadores, com, na ordem, da esquerda para direita,Guilherme Farel, João Calvino, Teodoro de Beza e John Knox

Fonte: Disponível em < http://blogdosnerds.

blogspot.com.br/2009/12/

ferias-parte-15.html>.

Acesso em 12 jul.2015.

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UAB/Unimontes - 5º Período

rou até à sua morte, foi bastante profícua para o cumprimento dos seus objetivos. A partir dos princípios religiosos, foram realizadas reformas nos aspectos político e social, destacando-se a forma de governo da cidade, por meio do consistório e a fundação da academia de Genebra que veio a se tornar a Universidade de Genebra que influenciou diversas partes do mundo com as ideias ali emergentes. Martina (2008) avalia a personalidade e a obra do reformador de Genebra:

Então, como hoje, Calvino granjeou poucas simpatias, muitas vezes injustamen-

te (

)

de fato, seria injusto negar o profundo senso religioso de que foi animado

) do Deus da Bíblia

... em toda a sua vida. A procura apaixonada do Deus revelado (

e dos profetas percorre suas obras (

...

)

... a exigência de uma autenticidade absoluta

no encontro com Deus (

).

Calvino tem consciência de ser chamado pelo “Deus

... invencível” – que tem em suas mãos os destinos dos homens – a uma missão

especial e a ela se consagra totalmente. Dessa persuasão tira ele forças para su- perar sua timidez, que o teria feito ficar de bom grado metido em seus estudos, a tenacidade para exercer a sua missão, com um desinteresse absoluto, que o faz aceitar a pobreza sem reclamação (MARTINA, 2008, p. 147).

Calvino seguia a tese dos reformadores em geral sobre a justificação pela graça, mediante a fé, aprofundando-se no tratamento do tema articulado às doutrinas da incapacidade humana de, por si mesma, buscar a Deus e realizar a sua vontade (depravação total) e da predestinação. Essas doutrinas estão presentes de forma enfática, nas obras de Martinho Lutero e, muito antes, Agostinho de Hipona. Quanto à prática das boas obras, também seguindo a mesma linha dos de - mais reformadores e de Agostinho, reivindicando autoridade bíblica, “se nossas obras não contri- buem para a nossa salvação, elas dão glória a Deus e devemos executá-las para demonstrar-lhe o nosso respeito e fazer a sua vontade” (Apud MARTINA, 2008, p. 150). No Brasil, obras traduzidas de João Calvino têm sido publicadas principalmente por parte de edito - ras ligadas às denominações cristãs de tradição reformada. Comentá- rios bíblicos, como os Salmos, as cartas paulinas, seus catecismos, suas cartas. Especialmente as edi- toras Cultura Cristã e FIEL têm pu- blicado essas obras. Como ressalta Martina (2008), existem mais de 4.000 cartas conhecidas de Calvino dialogando com amigos e adver- sários, servindo tais documentos para análise do seu pensamento. Em 2009 editora Cultura Cristã pu- blicou um livro reunindo 70 dessas cartas. Desta mesma editora é a publicação das Institu- tas, obra principal de Calvino. Essas obras escritas pelo próprio reformador servem como importantes docu- mentos, possibilitando uma leitura crítica e a superação de mitos referentes ao seu pensamento. Estudos sobre a Reforma Protestante e, especifica- mente, sobre o pensamento de Calvino também têm se diversificado. São várias as pesquisas sobre o reformador que resultaram em dissertações de mestrado e tese de doutoramento. O programa de pós-graduação em ciên- cias da religião da Universidade Presbiteriana Macken- zie, em São Paulo, tem contribuído de forma significativa
as-institutas-edicao-classi- com essa produção. Costa (2004), integrante do referido programa, destaca-se entre os pesquisadores brasileiros que se ocupam do pensamento do reformador de Gene - bra em seus diversos desdobramentos. Além de incenti- vador a leitura e interpretação dos escritos do reforma- dor, investiga a influência do pensamento de Calvino no

Figura 13: João Calvino

Fonte: Disponível em

<http://presbiterianos-

calvinistas.blogspot.com.

br/2011/04/importancia-

de-joao-calvino-na-teo - logia.html>. Acesso em 15

jul.2015.

UAB/Unimontes - 5º Período rou até à sua morte, foi bastante profícua para o cumprimento dos

Figura 14: Quatro Volumes da obra “Instituição da Religão Cristã, de João Calvino”, em português.

Fonte: Disponível em <http://www.redelivraria.

com.br/produto/140/2224/

ca-em-4-volumes>. Acesso em 15 jul.2015.

UAB/Unimontes - 5º Período rou até à sua morte, foi bastante profícua para o cumprimento dos

Ciências da Religião - Cosmovisão das Religiões: Reforma e Contra-Reforma

trabalho, na educação e na economia (1996), a sua relação com o humanismo e o seu conceito de fidelidade cristã (1999), o culto cristão na perspectiva da teologia de Calvino (1996) e a sua aplica- ção pastoral na cidade de Genebra, no exercício do seu conceito de piedade, visita às residências, pregação e escrita. Diversos outros trabalhos poderão ser citados, além de obras relacionadas à educação teológica calvinista, como Ferreira (1985) que além da biografia do reformador, discu- te aspectos centrais da sua teologia e a sua influência no mundo ocidental. Silvestre (2009), que apresenta diversos aspectos da trajetória intelectual de Calvino, concentrando-se no seu pensa- mento político. Obras como a de Lopes (2006) e de Vieira (2008) discutem a influência do pensa- mento do reformador na educação. Essas obras citadas servem apenas para ilustrar a vasta produ- ção acadêmica sobre a pessoa, a obra e pensamento de João Calvino, especialmente nos campos da teologia e da ciência da religião, com aplicações em diversas outras áreas de investigação.

3.3 Doutrinas Fundamentais da Reforma Protestante:

Convergências

Quais os principais pontos teológicos elaborados pela Reforma Protestante do Século XVI e que prevalecem como distintivo do protestantismo clássico? É importante conhecer essas dou- trinas fundamentais do protestantismo para uma compreensão do aspecto religioso, mas, além desse objetivo específico, entender como tais convicções influenciaram as sociedades onde se instalaram. Lembramos que nem todos os grupos que tiveram as suas origens nos movimentos de reforma do século XVI continuaram a sustentar os seus pontos doutrinários fundamentais. Principalmente a partir do final do século XVIII e no decorrer do século XIX, sob a influência do iluminismo, com a secularização da cultura, muitos desses grupos se distanciaram das doutrinas originais da reforma. Essas transformações têm sido objeto de debate dentro das próprias deno- minações protestantes conservadoras que continuam sustentando as convicções reformadas. O próprio luteranismo tem sofrido profundas alterações e dado origem a diferentes denominações mais ou menos relacionadas com o pensamento do reformador. Entre os calvinistas, embora também experimentando o distanciamento de diversos grupos, parece manter um maior núme - ro de representantes da teologia original do reformador e das confissões reformadas que foram elaboradas em diversos contextos nos séculos XVI e XVII. Até o termo “reformado” hoje tem servi- do para indicar especificamente os grupos que conservam a herança calvinista da Reforma.

Ciências da Religião - Cosmovisão das Religiões: Reforma e Contra-Reforma trabalho, na educação e na economia

Figura 15: Como consequência da liberdade religiosa, do livre exame das Escrituras e do sacerdócio universal dos cristãos, é inevitável que haja diversidade de grupos, movidos por diversos entendimentos do texto bíblico.

Fonte: Disponível em

<http://filosofiacalvi-

nista.blogspot.com. br/2011/03/o-sacerdo - cio-universal-dos-cren - tes-e.html>. Acesso em 11

jul.2015.

UAB/Unimontes - 5º Período

A supremacia das Escrituras sobre a tradição da Igreja foi um dos pontos principais dos mo - vimentos de reforma desde o final da Idade Média. Ganhou força no movimento liderado por Martinho Lutero e prevaleceu nos segmentos posteriores do calvinismo, como o zwingliano e o calvinista. A própria Reforma reivindicava uma volta às Escrituras, uma purificação da Igreja, ten- do o texto bíblico como referência. Todas as crenças e práticas deveriam ter ampla fundamenta- ção bíblica. O próprio movimento puritano inglês, sustentado por bases teológicas calvinistas, adquiriu esse nome por reivindicar uma Igreja purificada de todos os acréscimos, inovações e tradições humanas, sem apoio nas Escrituras. O culto religioso, por exemplo, segundo a Confis- são de Fé e o Diretório de culto de Wetminster, deveria seguir o seguinte “princípio regulador”: a única forma de culto aceitável é aquela determinada pelo próprio Deus na Bíblia. Os elementos proibidos ou simplesmente não ordenados na Bíblia deveriam ser proibidos no culto da Igreja. Imagens de escultura ou qualquer representação visível, proibidas, ou uso de velas e outros or- namentos, não ordenados, deveriam ser eliminados. Além do culto, propriamente dito, todas as atividades da vida deveriam ser julgadas à luz das Escrituras. Relacionamentos familiares, o trabalho, lazer e todas as demais áreas devem ser realizadas para a glória de Deus. Sendo o homem criado, sustentado e redimido por Deus, per- tence a Deus e deve viver para agradá-lo. E, para que esse objetivo seja cumprido, é necessá- rio conhecer a vontade de Deus na Bíblia, que é a palavra de Deus e, suprema autoridade, única regra de fé e de prática para os que desejam servi-lo corretamente. A autoridade da Bíblia não depende da Igreja, dos concílios ou de homem algum. É inerente a ela mesma. Todos os aspectos da ação humana, de acordo com essa visão de mundo, estão relacionados com o seu dever para com Deus. Não há separação entre a vida secular e a vida religiosa. Normalmente as confissões reformadas e os compêndios de teologia a elas relacionados, iniciam-se com o tópico referente à natureza das Escrituras. “Sola Scriptura” é o pressuposto básico da fé reformada. Essa concepção protestante, no que se refere à importância da Bíblia na vida cristã, motivou diversas ações com alcance para além das fronteiras estritamente religiosas. As traduções das Escrituras para as línguas vernáculas, a começar com a que Lutero fez para a língua alemã e as verificadas em diversos outros contextos onde se instalaram representantes da fé protestante. A alfabetização das diversas camadas da sociedade foi considerada necessária. Afinal, como evan- gelizar pessoas destituídas do acesso à revelação divina nas Escrituras? A leitura e interpretação de textos são essenciais para a edificação da fé protestante. Além do “Sola Scriptura”, é considerado pilar do protestantismo o “Sola Gratia”, isto é, a sal- vação do homem é um ato da livre graça de Deus. Como foi exposto acima, Lutero e Calvino, seguindo a linha teológica de Agostinho de Hipona, entendiam que, embora o homem tenha sido criado reto, perfeito, dotado de livre arbítrio, quando, usando dessa liberdade original, de - sobedeceu a Deus no Éden, caindo em pecado, teve a sua natureza totalmente corrompida, tor- nando-se incapaz de buscar a Deus por si próprio. Ele está inclinado a buscar os seus próprios

Figura 16: Harmonia das Confissões Reformadas

Fonte: Disponível em <https://editoracultura - crista.com.br/loja/livro/ harmonia-das-confissoes -reformadas-751>. Acesso em 11 jul.2015.

UAB/Unimontes - 5º Período A supremacia das Escrituras sobre a tradição da Igreja foi um dos

caminhos e não se submeter ao chamado divi-

no. Como pode então alguém se salvar? Como os reformados responderiam a essa pergunta? Deus, na sua soberania, escolheu para si um povo e enviou o seu Filho Jesus Cristo para pa- gar as suas dívidas e, no tempo determinado, o Espírito Santo aplica os méritos de Cristo ao pecador eleito, concedendo-lhe o dom da fé e do arrependimento, buscando-o, mediante uma transformação espiritual, reconciliando-o com Deus e dando-lhe uma nova disposição para obedecê-lo, ainda que de forma imper- feita nesta vida. Assim, a salvação do pecador não é nenhum mérito humano. A justiça de Deus foi satisfeita exclusivamente pela obra vicária de Cristo (“Solo Christus”). Martinho Lutero teria afirmado: “Quando olho para mim mesmo, não vejo como posso ser salvo; quan- do olho para Jesus, não vejo como posso me perder”. Apegando-se ao texto bíblico (por exemplo: João 14.6; Atos 4.12 e 1 Timóteo 1.5), creem em Jesus Cristo como único mediador,

Ciências da Religião - Cosmovisão das Religiões: Reforma e Contra-Reforma

intercessor, entendendo ser impertinente, idólatra e, portanto, ofensiva a Deus, a doutrina da in- tercessão de Maria e dos santos, desenvolvidas pela tradição da Igreja durante a Idade Média. A fé, que também não é mérito humano, mas dom da graça de divina, é o único meio pelo qual o homem pecador pode ter acesso às bênçãos da graça. Uma confiança plena na benignidade de Deus, em Cristo e na suficiência da sua redenção. É outro pilar doutrinário protestante: “Sola Fide”. Prosseguindo no raciocínio da visão de mundo protestante, uma vez que a salvação e to- dos os benefícios que o homem pode ter é oriundo da graça, não tendo ele do que se gloriar, “humilde de espírito”, reconhece que toda glória deve ser dada a Deus. É o tópico conclusivo des- sa base doutrinária: “Soli deo Glória”. Além dos pontos teológicos supramencionados, outro que tem sido considerado funda- mental para contrastar a fé protestante com a sustentada pela Igreja medieval é a do sacerdó- cio universal dos cristãos. Não existe, nessa perspectiva, uma separação entre clero e leigos. O único sacerdote é o Supremo Sacerdote, Jesus Cristo, único mediador entre Deus e os homens. Baseiam-se na narrativa bíblica das ocorrências relacionadas à morte de Cristo, entre elas a ras- gadura do véu do santuário que, no Antigo Testamento, fazia separação entre o “santo dos santos”, lugar onde os sacerdotes representavam o povo no culto judaico. Os líderes religiosos, pastores, presbíteros, diáconos, não são sacerdotes. São guias, responsáveis pela instrução e di- reção da Igreja, mas não com a capacidade de representá-los diante de Deus. Diferem radical- mente também neste ponto da eclesiologia desenvolvida por Thomás de Aquino. Essa doutrina do sacerdócio universal dos cristãos é considerada importante para outros desdobramentos so - ciais. Considerando que cada um dará conta de si mesmo diante de Deus, é dada margem para o desenvolvimento do individualismo que tem diversos desdobramentos sociais. A própria ne - cessidade da leitura e interpretação do texto sagrado para que seja dada uma resposta pessoal a Deus. Não se pode, nessa perspectiva, simplesmente seguir a Igreja e esta conduzirá o fiel a Deus. É necessário uma autoavaliação, tendo sempre os padrões bíblicos como referência. Esse princípio teria sido também um dos elementos motivadores para a popularização da educação escolar no meio protestante. Essas são algumas das importantes questões teológicas que alimentaram os movimentos de reforma do século XVI e continuam alimentando o intenso debate entre reformados, católicos e protestantes que se distanciaram das propostas da Reforma. Um lema desenvolvido pelos pro- testantes reformados, ao longo dos séculos, ainda proclamado entre os que lutam para a conser- vação dessa herança é: “Igreja reformada, sempre reformando”. A reforma é entendida como um ato contínuo de análise da fé e da prática individualmente, em família e em comunidade (Igreja), procurando ajustá-las de acordo com o ensino bíblico (“Sola Scriptura”). Matos (2015), expressan- do a compreensão e anseio reformados, interpreta:

Os reformadores não estavam buscando inovar, mas restaurar antigas verdades bíblicas que haviam sido esquecidas ou obscurecidas pelo tempo e pelas tradi- ções humanas. Sua maior contribuição foi chamar a atenção das pessoas para a importância das Escrituras e seus grandes ensinos, especialmente no que diz respeito à salvação e à vida cristã. Para que as Igrejas Evangélicas atuais possam manter-se fiéis à sua vocação, é preciso que julguem tudo pelas Escrituras, aco - lhendo o que é bom e lançando fora o que é mau. Os reformadores nos mostra- ram que o critério da verdade não são os ensinos humanos, nem a experiência espiritual subjetiva, mas o Espírito Santo falando na Palavra e pela Palavra (MA- TOS, 2015, sp).

diCA

O tema “Reforma Protestante” é abun- dantemente abordado no meio protestante não apenas nos seus cursos de teologia em faculdades confessio- nais e seminários, mas também em eventos

para o público em geral. Observem as pales- tras ministradas pelo Professor Alderi Mattos, doutor em História da Igreja. Confira os ende - reços eletrônicos:

Palestra 1: <https://

www.youtube.com/wat-

ch?v=hvBDmZIBTxQ>. Palestra 2: <https://

www.youtube.com/wat-

ch?v=uaYMQbh4BZk>.

ATiVidAde

Elabore um quadro comparativo entre os líderes do movimento da Reforma Protestante nas diversas regiões da Europa, destacando o contexto em que as suas ações foram efe - tivadas, as convicções por eles defendidas e o impacto social decor- rentes dessas convic- ções. Poste a atividade no fórum de discussão.

Referências

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VIEIRA, Paulo Henrique. Calvino e a educação: A Configuração da Pedagogia Reformada no Sé - culo XVI.

Ciências da Religião - Cosmovisão das Religiões: Reforma e Contra-Reforma

UNidAde 4

A Expansão e Diversidade no Protestantismo Europeu

4.1 Introdução

José Normando Gonçalves Meira

Na unidade anterior, foram discutidos os movimentos de reforma que deram origem ao chamado “protestantismo histórico” ou “protestantismo clássico”. Nesta unidade, além da análi- se referente à expansão desses movimentos tradicionais para outras partes da Europa, aborda- remos alguns segmentos considerados protestantes, por serem dissidentes da Igreja de Roma, mas também divergiam das vertentes luterana, zwingliana e calvinista do referido protestantis- mo. Analisaremos o movimento radical anabatista, o protestantismo inglês e as peculiaridades da sua origem, estrutura eclesiástica, formulações doutrinárias e transformações nele ocorridas. Discutiremos também a configuração dos protestantismos escocês, francês e dos países baixos que, embora diversificados em suas origens, acabou sendo predominantemente calvinista. Veri- ficaremos também, a partir dessa expansão, os contextos nos quais foram surgindo as chamadas confissões reformadas que tiveram muita importância na sistematização teológica protestante, especialmente o de origem calvinista. Essas confissões tiveram papel semelhante aos dos credos antigos que sintetizaram o conjunto de doutrinas fundamentais da Igreja Cristã à época. As con- fissões reformadas, mais extensas do que os credos antigos, devido às demandas teológicas do seu tempo, serviam para publicar o conjunto de crenças que os reformados sustentavam. Coe - rentes com a sua origem, essas formulações partiam do pressuposto do “Sola Scriptura”, que já foi objeto de análise neste trabalho.

4.2 Os Anabatistas

O nome “anabatista” significa “rebatizadores”. Designação pejorativa a um grupo de protes- tantes radicais que não admitiam o batismo infantil e insistiam em rebatizar os adultos que ha- viam recebido esse sacramento na infância. Os anabatistas ou reformadores radicais surgiram na Suíça em 1522. Esse movimento foi liderado por Conrado Grebel e Félix Mantz, iniciou-se com lei- tura e estudo da Bíblia nas casas de amigos. Nos dois primeiros anos de atuação do grupo, apoia- vam as teses e ações de Zwinglio, mas, a partir de 1524, romperam com o reformador por enten- derem a necessidade de realização de uma reforma mais profunda. Não admitiam fazer parte das igrejas reconhecidas pelo Estado, por entender que fazer parte da Igreja de Cristo significava total independência do domínio do poder temporal. Nos escritos dos reformadores, especialmente nas obras de João Calvino, encontram-se várias referências aos anabatistas, sendo as suas ideias jul- gadas impertinentes e extremadas. No capítulo 22 do quarto livro das Institutas de Calvino, por exemplo, que trata do tema “Da Administração Política”, o reformador contrapõe-se à atitude dos “aduladores dos príncipes”, que os tratam como deuses e até se prostram perante eles, e ao extre - mo oposto, dos anabatistas, que se consideram isentos de submissão às autoridades humanas por se acharem sujeitos apenas à autoridade divina. Para Calvino, que se utiliza de diversos argumen- tos bíblicos, a postura correta do cristão é a do respeito às autoridades por serem elas instituídas por Deus e, portanto, sujeitas a Deus como seus ministros para proteger os bons e punir os maus. A essas autoridades não devem ser atribuídos poderes divinos, mas também não devem ser des- prezadas. Devem ser reconhecidas como instrumentos de Deus para a manutenção da ordem.

UAB/Unimontes - 5º Período

Os anabatistas se espalharam por diversas regiões da Europa. Sob a liderança de Miguel Sa- ttler, foi elaborada em 1527 a Confissão de Fé de Schleitheim, que estabeleceu os princípios basi- lares do grupo (MATOS, 2015):

ideal de restauração da igreja primitiva; igrejas vistas como congregações vo- luntárias separadas do Estado; batismo de adultos por imersão; afastamento do mundo; fraternidade e igualdade; pacifismo; proibição do porte de armas, cargos públicos e juramentos. Os anabatistas foram os únicos protestantes do século 16 a defenderem a completa separação entre a igreja e o estado (MATOS, 2015, sp).

UAB/Unimontes - 5º Período Os anabatistas se espalharam por diversas regiões da Europa. Sob a liderança

Figura 17: Michael Sattler

Fonte: Disponível em <http://followingthefaithful.

blogspot.com.br/2008/03/michael-sattler-obeying-jesus.

html>. Acesso em 10 jul.2015.

UAB/Unimontes - 5º Período Os anabatistas se espalharam por diversas regiões da Europa. Sob a liderança

Figura 18: Melchior Hoffman

Fonte: Disponível em <https://ebdcatedral.wordpress.

com/2012/10/26/a-reforma-protestante-do-sec-xvi/>.

Acesso em 09 jul.2015.

Figura 19: Menon Simons ► Fonte: Disponível em <http://womenofhistory. blogspot.com.br/2013/08/ the-ghost-rapes-of-boli- via.html>. Acesso em 07 jul.2015.
Figura 19: Menon
Simons
Fonte: Disponível em
<http://womenofhistory.
blogspot.com.br/2013/08/
the-ghost-rapes-of-boli-
via.html>. Acesso em 07
jul.2015.

Devido ao radicalismo desse movimento, a perseguição era frequente, chegando ao ex- termínio de comunidades inteiras por parte de exércitos católicos romanos, como foi o caso da cidade de Münster, onde foi instalada uma teo- cracia anabatista sob a liderança de Melchior Hoffman. Na Holanda, o movimento anabatista, sob a liderança de Menno Simons (1496-1561), e na Morávia, sob a liderança de Jacob Hutter (†1536), adquiriu características mais mode -

radas. Mesmo assim, menonitas e huteritas mantinham costumes bastante peculiares, afastados da sociedade em geral, habitavam em co - lônias. Esforçavam-se para se assemelharem ao máximo à comunidade cristã do relato bíblico no livro de Atos dos apóstolos, não admitiam a propriedade privada e tinham tudo em comum.

4.3 Protestantismo na Inglaterra

Os “antecedentes históricos” do protestantismo inglês estão diretamente vinculados à refor- ma luterana e, consequentemente, aos demais segmentos do protestantismo clássico, conside - rando a significativa obra de John Wycliffe e a sua influência na cultura inglesa. Os anseios de liberdade e anticlericalismo de intelectuais e do povo inglês já eram notórios muito antes da ins- talação definitiva do protestantismo. O rompimento definitivo com a Igreja de Roma, entretanto, deu-se em circunstâncias peculiares que acabaram produzindo também um protestantismo pe - culiar, pelo menos na sua fase de consolidação. Matos (2015) afirma:
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Ciências da Religião - Cosmovisão das Religiões: Reforma e Contra-Reforma

Vários fatores contribuíram para a introdução da Reforma Protestante na Inglaterra:

o anticlericalismo de uma grande parcela do povo e dos governantes, as ideias do pré-reformador João Wycliff, a penetração de ensinos luteranos a partir de 1520, o Novo Testamento traduzido por William Tyndale (1525) e a atuação de refugiados que voltaram de Genebra. Todavia, quem deu o passo decisivo para que a Ingla- terra começasse a tornar-se protestante foi o rei Henrique VIII (MATOS, 2015, sp).

Martina (2008, p. 155) divide a consolidação do protestantismo inglês em quatro fases: A primeira com Henrique VIII, iniciando-se em 1534 quando houve o rompimento com Roma até à morte em 1547. A segunda com Eduardo VI, no curto período de 1547 a 1553, a terceira com Ma- ria, a Católica, de 1553 a 1558, e a quarta com Elizabeth, de 1558 a 1603. Henrique VIII, “fundador” do protestantismo inglês, na verdade sempre foi um fiel católico romano. Em 1521, devido à sua forte oposição à reforma luterana, foi considerado “defensor da fé” pela hierarquia da Igreja romana. Ele teria promovido a queima em público de obras de Lute - ro, além de ter publicado um folheto, combatendo as ideias do reformador alemão. Os seus con- flitos com Roma iniciaram-se devido à negativa do Papa Clemente VII em anular o seu casamento com a sua primeira esposa, Catarina de Aragão, que lhe dera apenas uma filha, Maria. A intenção de Henrique VIII era contrair novas núpcias. A segunda esposa seria Ana Bolena, com quem es- perava ter um filho varão. Rompendo-se com Roma, a anulação do seu casamento foi efetiva- da, ficando o rei livre para o novo casamento. Em 1534 o rei foi proclamado o “Protetor e Único Chefe Supremo da Igreja da Inglaterra”. Além desses dois casamentos, Henrique VIII ainda casou outras quatro vezes, com Jane Seymour, Ana de Cleves, Catarina Howard e Catarina Parr. Dessas esposas, a segunda, Ana Bolena e a quinta, Catarina de Howard, quando foram repudiadas, também foram executadas pelo soberano inglês. Essa fase do protestantismo inglês não pode ser associada aos outros mo - vimentos protestantes que analisamos ante - riormente. Protestantes das vertentes luterana e calvinista eram objeto de perseguição por parte do rei. Os motivos que levaram a Ingla- terra a romper com Roma, portanto, foram de ordem pessoal e não ocasionaram mudanças estruturais, teológicas ou práticas na Igreja in- glesa. Houve apenas um afastamento político. Com a morte de Henrique VIII, ascendeu- se ao trono o seu filho ainda muito jovem Eduardo VI. Ele era filho do terceiro casamen- to do rei. Sua mãe era Jane Seymour. Os seus tutores promoveram a Reforma na Igreja da Inglaterra. Cessaram-se a perseguição aos protestantes e foram elaborados e aprovados dois documentos considerados de grande importância para conferir uma identidade re - formada àquela Igreja: o Livro de Oração Co- mum (1549; revisto em 1552) e os Quarenta e Dois Artigos (1553). Esses documentos tinham como base as teologias luterana e calvinista (MATOS, 2015; MARTINA, 2008). Do ponto de vista de Roma, “do cisma se passou à heresia” (MARTINA 2008, p. 157). As mudanças foram profundas. “Não apenas a introdução da li- turgia na língua vulgar, como, sobretudo, a supressão de qualquer frase que aludisse ao caráter sacrificial da missa” (MARTINA, 2008, p. 157). Quanto à estrutura do governo eclesiás- tico, porém, manteve-se a hierarquia episco - pal. Essa foi, portanto, a primeira experiência oficial propriamente protestante da Inglaterra.

Ciências da Religião - Cosmovisão das Religiões: Reforma e Contra-Reforma Vários fatores contribuíram para a introdução
◄ Figura 20: Henrique VIII Fonte: Disponível em <http://www.passado. com.br/ntc/default.asp?- Cod=110>. Acesso em 07 jul.2015.
◄ Figura 20: Henrique VIII
Fonte: Disponível em
<http://www.passado.
com.br/ntc/default.asp?-
Cod=110>. Acesso em 07
jul.2015.

Figura 21: Eduardo VI

Fonte: Disponível em <http://pt.wikipedia.org/ wiki/Eduardo_VI_de_In - glaterra>. Acesso em 10

jul.2015.

UAB/Unimontes - 5º Período

Figura 22: Maria Tudor

Fonte: Disponível em <http://pt.wikipedia.org/

wiki/Maria_I_de_Inglater-

ra>. Acesso em 14 jul.2015.

GloSSário

episcopal: Um sistema de governo eclesiástico, baseado na hierarquia dos bispos. Simplifican- do, pode-se afirmar que é um sistema análogo à monarquia, o governo de um só. O bispo, responsável por uma região é a autoridade sobre os clérigos sob sua jurisdição. Difere de outras duas conhecidas formas de governos: o congregacional que se caracteriza pela democracia direta. As comunidades reúnem- se em assembleias para tomar as suas decisões. O sistema presbiteriano adota a democracia represen- tativa. As comunidades, em assembleia, elegem os presbíteros que, em conselho, parlamentos eclesiásticos, exercem o governo sobre essas comunidades que os elegeram.

UAB/Unimontes - 5º Período Figura 22: Maria Tudor Fonte: Disponível em <http://pt.wikipedia.org/ wiki/Maria_I_de_Inglater- ra>. Acesso em

Devido à sua frágil saúde, foi prematura a morte de Eduardo VI, com apenas 15 anos de idade. A sua sucessora foi Maria Tudor, tam- bém chamada de Maria, a Católica. Era filha da primeira esposa de Henrique VIII, Catarina de Aragão. Devido à intensa perseguição por ela empreendida contra os protestantes, tor- nou-se conhecida como “Maria, a sanguinária”. Durante os cinco anos do seu reinado vários protestantes foram condenados à fogueira. Segundo Martina (2008, p. 158), cerca de 300 pessoas foram condenadas à morte durante o reinado de Maria. Muitos outros foram con- denados ao exílio. Alguns desses, refugiando- se em Genebra e Estrasburgo, fortaleceram os seus vínculos com a fé reformada e, ao retor- narem à Inglaterra, exerceram grande influên- cia na configuração de grupos protestantes calvinistas. Eram chamados de “exilados ma- rianos” (MATOS, 2015). Em 1554 a Igreja da In- glaterra se submetia novamente ao poder do

Papa de Roma. Elizabete I assumiu o trono da Inglaterra em 1558 com a morte de Maria, a Católica. Durante o seu reinado a Igreja inglesa afastou-se novamente de Roma. O protestantismo foi definitiva- mente estabelecido na Inglaterra. Os 39 artigos foram adotados como o credo daquela igreja na- cional. Como ocorreu no reinado de Henrique VIII, novamente o ocupando trono inglês tornava- se chefe da Igreja. Como a Inglaterra desenvolveu-se economicamente, acabou tornando-se um dos pilares do protestantismo em toda a Europa. A Igreja oficial da Inglaterra, portanto, a partir da aprovação dos 39 artigos, sob a autoridade de Elizabete I, retomou o caminho da fé protestante, cuja sistematização havia adquirido força no reinado de Eduardo VI. O protestantismo estabelecido por Elizabete I procurava um ponto in- termediário. Embora os 39 artigos convergissem com as doutrinas fundamentais do protestan- tismo, mantinha na Igreja oficial muitos traços do catolicismo romano, especialmente no que concerne ao governo eclesiástico (episcopal) quanto na liturgia, na forma de culto. Essa retoma- da do caminho protestante não foi considerada suficiente por alguns grupos protestantes que, principalmente no “exílio mariano”, receberam a influência da Reforma Calvinista. A reação desse grupo foi forte, reivindicando para a Igreja: um governo puro, doutrina pura e culto puro. Essa purificação só seria possível, mediante o ensino das Sagradas Escrituras, cujo conteúdo é o único capaz de promover a verdadeira reforma. Devido às suas reivindicações, esse movimento passou a ser denominado pejorativamente de “os puritanos”. O puritanos tiveram influência marcante na Inglaterra na busca de reforma da Igreja oficial. Mantiveram-se entre segmentos presbiterianos e congregacionais, mas todos de herança calvinista. Devido ao seu zelo pelas Escrituras e práti-

Figura 23: Assembleia de Westminster ► Fonte: Disponível em <http://wwwpastorwil - sonbezerra.blogspot. com.br/>. Acesso em 11
Figura 23: Assembleia
de Westminster
Fonte: Disponível em
<http://wwwpastorwil -
sonbezerra.blogspot.
com.br/>. Acesso em 11
jul.2015.

Ciências da Religião - Cosmovisão das Religiões: Reforma e Contra-Reforma

ca devocional, estudos sobre esse movimento têm sido empreendidos tanto na área da teologia histórica no âmbito do protestantismo, especialmente no calvinismo, como de outras áreas do conhecimento com o objetivo de compreender o impacto da visão de mundo puritana nos di- versos aspectos da sociedade. O próprio Weber (1996) utiliza-se de fontes puritanas para a sua análise da ética protestante. Diversos grupos puritanos, reagindo contra a repressão na Inglater- ra, vieram para a América do Norte, no século XVII, tendo participação marcante na fundação dos Estados Unidos da América. A contribuição desses grupos religiosos puritanos, presbiterianos e congregacionais, despertou a atenção, inclusive de Tocqueville (2005), na sua análise da “Demo - cracia na América”. Os puritanos, no século XVII, sob o reinado de Carlos I, tiveram grande influência no parla- mento. Foi convocada uma assembleia de 151 teólogos que, reunida entre 1643 e 1649, elabora- ram importantes documentos que até os dias atuais têm sido adotados como exposição doutri- nária por igrejas reformadas. Por se reunir na Abadia de Westminster, o conclave ficou conhecido como “Assembleia de Westminster”. Dentre os documentos ali produzidos, destacam-se: A Con- fissão de Fé, os catecismos, maior e breve e o diretório para o culto.

4.4 Protestantismo na Escócia

Embora muitas tentativas de implantação do protestantismo já tivessem sido feitas, geran- do, inclusive alguns mártires, a sua efetivação só veio ocorrer com John Knox, a partir de 1559. O primeiro pregador protestante na Escócia foi Patrick Hamilton, estudioso que aderiu às ideias de Martinho Lutero. A sua proposta de reforma foi fortemente resistida, ocasionando a sua con- denação à fogueira em 1528, quando também foi executado. Depois dele, George Wishart, que havia estudado na Suíça, onde abraçou os ideais reformados, retornando à escócia, lecionou em Cambridge. Mas, da mesma forma que o seu antecessor, sofreu forte resistência e também foi condenado à morte, foi executado na fogueira em 1546. A morte de Wishart teve importante re - percussão entre o povo escocês (Matos, 2015), o que serviu, de certa forma, para preparar o am- biente para as ações protestantes que se seguiram. John Knox havia se refugiado em Genebra, devido à perseguição religiosa empreendida pela rainha Maria Stuart, que era católica e contra quem ele fez incisiva oposição. Durante o pe - ríodo em que Knox passou em Genebra, tornou-se discípulo de João Calvino, trazendo profunda herança dessa escola teológica quando retornou em 1559. Matos (2015) comenta:

Foi na Escócia que surgiu o conceito político-religioso de “presbiterianismo”. Os reis ingleses e escoceses sempre foram firmes defensores do episcopalismo, ou seja, de uma Igreja governada por bispos. A razão disso é que, sendo os bispos nomeados pelos reis, a Igreja seria mais facilmente controlada pelo estado e ser- viria aos interesses do mesmo. À luz das Escrituras, os presbiterianos insistiram em uma Igreja governada por oficiais eleitos pela comunidade, os presbíteros, tornando assim a Igreja livre da tutela do Estado. Foi somente após um longo e tumultuado processo que o presbiterianismo implantou-se definitivamente na Escócia (MATOS, 2015, sp).

Quando o parlamento escocês renun- ciou ao catolicismo e adotou a fé reforma- da como religião oficial, em 1560, John Knox e outros líderes reformadores se en- carregaram de elaborar uma confissão de fé, sistematizando assim as suas doutrinas. Devido às origens de John Knox e a sua passagem por Genebra, a Confissão Esco - cesa é plenamente calvinista. A primeira Assembleia Geral da Igreja Presbiteriana da Escócia reuniu-se em dezembro de 1560, quando foram elaborados o livro de dis- ciplina, a constituição da Igreja escocesa. Mesmo tendo se tornado a Igreja oficial, a reforma na escócia, desde os tempos de

◄ Figura 24: John Knox Fonte: Disponível em <http://spc9a14jl.weebly. com/new-churchimpact- today.html>. Acesso em 13 jul.2015.
◄ Figura 24: John Knox
Fonte: Disponível em
<http://spc9a14jl.weebly.
com/new-churchimpact-
today.html>. Acesso em 13
jul.2015.

UAB/Unimontes - 5º Período

knox até o século XVII, foi marcada por conflitos e instabilidade, principalmente quanto à forma de governo, devido à forte herança episcopal. Matos (2015) comenta:

A teologia reformada continuou a dominar a história da Igreja da Escócia, mas houve uma longa luta pela supremacia entre os sistemas presbiteriano e epis- copal no final do século 16 e início do século seguinte. O presbiterianismo foi vigorosamente reafirmado em 1638, sob a liderança de Alexander Henderson, mas o episcopado voltou a ser imposto à igreja entre 1660 e 1689, quando ela tornou-se definitivamente presbiteriana (MATOS, 2015, sp).

4.5 Protestantismo na França

GloSSário

Vulgata latina: Tra- dução da Bíblia para o latim, feita por Jerônimo de Estridão, no final do século IV e início do século V. línguas originais: Os textos bíblicos originais são em hebraico, o Antigo Testamento (que tem algumas poucas porções em aramaico) e, em grego, o Novo Testamento.

diCA

Diversas confissões reformadas, algumas delas citadas nesta unidade, são traduzidas para o português. A análise desses docu- mentos é de fundamen- tal importância para que o estudioso do tema faça a sua própria leitura da teologia protestante e das suas possíveis implicações sociais. Embora diversas delas tenham sido traduzidas e publicadas de forma avulsa, Beeke e Fergunson (2006) organizam um quadro comparativo entre os textos de diversas des- sas confissões, além de um breve histórico de cada uma delas.

Como foi discutido na unidade 2, vários movimentos reformadores antecederam as refor-

mas ocorridas no século XVI. Em 1512, Jaques Lefevre já insistia na pregação da justificação pela graça, mediante a fé somente. Cairns (1998, p. 256) afirma que Lefevre, que havia estuda- do na Itália, foi grandemente influenciado pelos chamados humanistas bíblicos, interessados em estudar a Bíblia na língua original. Ao retornar à França, formou um grupo para estudar esses textos. Em 1523 concluiu a tradução do Novo Testamento para a língua francesa. Mar- garet, irmã do rei Francisco I, participava do grupo de Lefevre. Crescia assim o movimento que desejava uma reforma da Igreja francesa, aproximando-a do ensino bíblico. A insatisfação geral com o monopólio do clero e da nobreza em todos os aspectos da vida social e política fazia com que as formulações dos humanistas bíblicos ganhassem força (CAIRNS, 1988, p. 256). A reação de Francisco I foi incisiva. Em 1521, os escritos de Lutero foram condenados pela Sor- bone. Em 1525 o rei adotou a força na tentativa de conter o movimento. Dispersou o grupo que promovia estudos bíblicos e publicava suas conclusões encaminhadoras de propostas de Reforma. Alguns dos seus líderes tiveram que deixar a França. Em 1535 surgiu uma nova tra- dução da Bíblia para o francês, a de Olivétan. Sob a orientação de Calvino, essa tradução, ao contrário da de Lefevre, que fora feita em grande parte a partir da vulgata latina, foi feita a partir das línguas originais. Essa instabilidade dos protestantes na França e os diversos mitos surgidos em torno do que criam, levou João Calvino a publicar em 1536, a primeira edição da sua obra principal, “Instituição da Religião Cristã”, conhecida como “As Institutas”. Essa primeira edição foi endereçada ao rei Francisco I, apresentando os diversos pontos da fé protestante e procurando demonstrar não se tratar de uma “nova religião”, mas de uma busca ao ensino de Cristo, nas Escrituras. Defendia os cristãos franceses que optavam pela Reforma e sugeria, por meio dos esclarecimentos teológicos, o fim da perseguição. Calvino era francês e estudante da universidade de Paris, que havia sido obrigado a fugir devido à intensa perseguição religiosa.

Segundo Cairns (1988), depois que Calvino se estabeleceu em Genebra, na Suíça, a sua contri- buição para o desenvolvimento do protestantismo francês foi efetiva. Entre 1555 e 1556, mais de 155 pastores treinados em Genebra foram enviados à França. Mesmo com a intensa per- seguição sofrida a partir de 1538, com a assistência de genebra, os grupos que compunham movimentos isolados e desarticulados, foram se unificando e se consolidando sob as bases da teologia calvinista. A Confissão de Fé Galicana que, a exemplo da confissão escocesa, seguia a linha teológica calvinista, servia de elemento unificador dos protestantes franceses. Em 1559 foi realizado o primeiro Sínodo Nacional da Igreja Reformada Francesa. Segundo Matos (2015), “em 1561, havia duas mil congregações reformadas no país, compostas de artesãos, comer- ciantes e até mesmo de algumas famílias nobres, como os Bourbon e os Montmorency”. Dentre os nobres franceses que aderiram ao movimento protestante, tem sido objeto de destaque o influente almirante Gaspar de Coligny que viria ser uma das vítimas da chacina da “noite de São Bartolomeu”. Em 1560 os protestantes calvinistas franceses passaram a ser conhecidos como Huguenotes, termo de origem incerta (CAIRNS, 1998, p. 257). Esse grupo, a despeito das perseguições que perpassavam os reinados de Francisco I (1515-1547), de Henrique II (1547- 1559), consolidou-se como representante do protestantismo francês. No reinado de Francisco II, sob a regência da sua mãe Catarina de Médici, por ser ele ainda menor, houve uma certa tolerância para com o movimento protestante. Esses tempos de relativa tolerância, entretanto, foram de curta duração (MATOS, 2015) e logo foram desencadeadas longas guerras religiosas (1562-1598). Nesse período, segundo Cairns (1998), houve oito guerras e massacres. Uma das mais marcantes foi a chamada “noite de São Bartolomeu”, do dia 24 de agosto de 1572, quando

Ciências da Religião - Cosmovisão das Religiões: Reforma e Contra-Reforma

entre 10 a 20 mil protestantes foram assassi- nados. Encontravam-se em Paris, para o casa- mento do filho de Catarina com o protestan- te Henrique de Navarra. Foram surpreendidos por católicos romanos. Dentre os mortos, en- contrava-se um dos seus principais líderes, o almirante Gaspar de Coligny. Quando Henrique IV, que era huguenote, tornou-se rei, foi promulgado, em 1598, o Edi- to de Nantes que, mesmo de forma limitada, garantia certa tolerância religiosa. O Edito foi revogado pelo rei Luís XIV em 1685, retoman- do a perseguição aos reformados. O esforço de Luís XIV para que se consolidasse um só Estado, um só rei e uma só fé na França pro - vocou a saída em massa dos huguenotes para outros países, além do impacto econômico causado sobre a França na época, determinou também a c e também a sua configuração re - ligiosa, a partir de então, sem expressiva in- fluência protestante.

Ciências da Religião - Cosmovisão das Religiões: Reforma e Contra-Reforma entre 10 a 20 mil protestantes

Figura 25: Gaspar de Coligny

Fonte: Disponível em <http://pt.wikipedia.org/ wiki/Huguenote>. Acesso em 14 jul.2015.

4.6 Protestantismo nos Países Baixos

Origens dos movimentos de reforma nos países baixos são discutidas a partir dos “irmãos da vida comum”, movimento que surgiu no século XIV e já reivindicava mudanças estruturais, teo- lógicas e morais na Igreja Medieval. Sobre a relação desse grupo com o posterior movimento de Reforma, Lancillotti (2003) afirma:

A despeito de nunca haverem (os Irmãos) intentado uma ruptura com a Igreja Católica e de terem a expressa aprovação papal, reputa-se à irmandade haver exercido grande influência sobre a reforma protestante. A preocupação com questões educacionais teve grande repercussão, especialmente o uso da língua vernácula na educação e na pregação religiosa (LANCILLOTTI, 2003, p. 1).

Ainda sobre os primórdios do protestantismo nos países baixos, deve ser considerada a atuação dos humanistas, especialmente Erasmo de Roterdam que ali, pela primeira vez, traduziu o Novo Testamento para a língua vernácula. São diversos e complexos, portanto, os elementos iniciais do protestantismo nessa região. O protestantismo, propriamente dito, de origens luterana, calvinista e anabatistas, surgiu nos países baixos por volta de 1540. Destacavam-se em número, os calvinistas. As intensas per- seguições aos protestantes duraram por muitas décadas, especialmente quando estiveram sob o domínio da Espanha. Guilherme de Orange, um dos principais líderes na resistência contra o domínio espanhol e na defesa da liberdade religiosa, foi morto em 1584. Quando os países bai- xos se dividiram em três nações, Bélgica, Luxemburgo e Holanda, as duas primeiras tornaram-se católicas e a última aderiu ao protestantismo calvinista. Em 1570, sustentando-se nas bases teo - lógicas do reformador de Genebra, organizou-se a Igreja Reformada Holandesa. Alguns documentos importantes foram produzidos pelos protestantes dos Países Baixos. A Confissão Belga, por exemplo, elaborada por um teólogo e pastor protestante, Guido de Brès, em 1561, em meio à intensa perseguição empreendida pelos espanhóis, apoiou-se no texto da Con- fissão Galicana, que havia sido produzida e adotada pela Igreja Reformada Francesa. Segundo Matos (2015), a Confissão Escocesa, embora deixando clara a sua identidade, ao expor as dou- trinas distintivamente protestantes, procurou enfatizar também as doutrinas em que há conver- gência com o catolicismo, evitando assim o tom polemista tão comum no período. Enfatizava

GloSSário

Soteriologia: Tópico da teologia que estuda a doutrina da salvação.

Pelagianismo:

Monergista. Crê que o homem inicia e conclui o processo de redenção e santificação por viver

um tipo de vida mode - lada por Cristo.

Semi-pelagianismo:

Sinergista. Considera que o homem inicia o processo de redenção, mas ele é concluído

pela ajuda de Deus e do sacrifício redentor de Cristo.

Semi-agostinismo

(Arminianismo).

Sinergista: Acredita que Deus inicia o processo

de redenção, e conclui este nas pessoas que respondem ao seu chamado inicial.

Agostinismo (Calvi-

nismo). Monergista:

Acredita que Deus inicia e conclui o processo de santificação e redenção de um grupo seleto de pessoas.

UAB/Unimontes - 5º Período

Figura 26: Confissão Belga (1561)

Fonte: Disponível em <http://esbocodesermao. com/o-unico-deus/>. Aces- so em 15 jul.2015.

diCA

E, para aprofundar o tema, confira nos ende - reços eletrônicos deba- tes sobre as correntes teológicas vistas:

PelAGiANiSMo: http:// personaret.blogspot.

com.br/2010/09/pela-

gianismo-um-modelo-

monergisa-de.html

ArMiNiANiSMo:

http://www.monergis-

mo.net.br/?secao=armi-

nianismo

Figura 27: Sínodo de Dort (1618-1619)

Fonte: Disponível em <http://pt.wikipedia. org/wiki/S%C3%ADno - do_de_Dort>. Acesso em 17 jul.2015.

40

UAB/Unimontes - 5º Período Figura 26: Confissão Belga (1561) ► Fonte: Disponível em <http://esbocodesermao. com/o-unico-deus/>. Aces-

também a consciência cristã, bíblica, do devi- do respeito e da honra para com os reis e os demais que se acham investidos de autorida- de. Demonstrava assim não se ter o movimen- to que ele representava objetivos de rebel- dia contra o governo. Esse documento foi de grande relevância para o protestantismo em diversas regiões da Europa naquele período e permaneceu sendo utilizado por reformados de diversas partes do mundo. Outro documento de grande importân- cia, especialmente para o Calvinismo, foi os chamados “Cânones de Dort”, produzido na Holanda no início do século XVII (1619). Con- siderando a relativa inconsistência teológica da jovem Igreja Reformada Holandesa, criada no final do século XVI, surgiu uma controvérsia interna, iniciada por um professor de Teologia, Tiago Armínius, cujas convicções abrigavam tendências associadas ao pelagianismo, por defender o livre arbítrio, contestar a doutrina da predestinação e a queda da graça e perda

da salvação. Essa controvérsia dividiu a nação

holandesa (e esse debate permanece vivo en- tre os protestantes que são classificados de arminianos ou calvinistas). Mesmo depois da morte de Armínius, em 1609, as suas ideias continuaram se expandindo, tendo os seus discípulos publi-

cado um documento, chamado de Remonstrância , sistematizando em cinco pontos, a sua discor- dância da soteriologia protestante tradicional. A Igreja Reformada Holandesa sentiu-se forçada a convocar um concílio para analisar a questão, o Sínodo de Dort, que se iniciou no dia 13 de no - vembro de 1618 e só concluiu os seus trabalhos no dia 29 de maio de 1619. Foram 180 sessões, tendo sido reunidos quase 100 integrantes, pastores, presbíteros, teólogos, representantes dos reformados de diversas partes da Europa. Foi elaborada uma resposta ao documento elaborado pelos arminianos, os chamados cinco pontos do arminianismo, respondidos e contestados pelos

cinco pontos do calvinismo. Os debates realizados, nos moldes reformados, partiam do pressu- posto do “Sola Scriptura”, já discutido neste trabalho. Sobre os cânones de Dort, outro documen- to considerado referência para o protestantismo mundial, Matos (2015) afirma:

O Sínodo de Dort marcou um importante ponto de transição na história da fé re - formada na Holanda. Estabeleceu definitivamente o calvinismo como a teologia da igreja holandesa e também tornou oficiais a Confissão Belga e o Catecismo de Heidelberg. Os cânones, que foram assinados por todos os delegados, expres- saram o consenso de uma significativa diversidade teológica e representaram o triunfo de um calvinismo moderado, sendo considerado uma das melhores expressões da ortodoxia protestante (MATOS, 2015, sp).

UAB/Unimontes - 5º Período Figura 26: Confissão Belga (1561) ► Fonte: Disponível em <http://esbocodesermao. com/o-unico-deus/>. Aces-

Ciências da Religião - Cosmovisão das Religiões: Reforma e Contra-Reforma

Referências

BEEKE, Joel R.; FERGUNSON, Sinclair. Harmonia das Confissões reformadas. São Paulo: Cultura Cristã, 2006. CAIRNS, Earle E. o Cristianismo Através dos Séculos. São Paulo: Vida Nova, 1988. KNOWLES, David. Nova História da igreja . Petrópolis: Vozes, 1983. LANCILLOTTI, Samira Saad Pulchério. A Influência dos Irmãos da Vida Comum na Obra Didática Magna de Coménius. In: HiSTedBr , Aracaju, 2003. MARTINA, Giacomo. História da igreja: De Lutero a Nossos Dias. São Paulo: Loyola, 2003. MATOS, Alderi de Souza. reforma Protestante. Disponível em <http://www.mackenzie.br/6962. html>. Acesso em 12 jun. 2015.

ATiVidAde

Discuta com os seus colegas no fórum de discussão as peculiari- dades do protestantis- mo inglês, apontando as suas semelhanças e diferenças com o protestantismo estabe - lecido em outras partes da Europa. Observe também a presença cal- vinista na Inglaterra, o seu diálogo com a Igreja oficial e a importância da produção intelectual decorrente desse diálo- go para o protestantis- mo em outras partes do mundo.

Ciências da Religião - Cosmovisão das Religiões: Reforma e Contra-Reforma

UNidAde 5

Ética Protestante e sua Influência Social

José Normando Gonçalves Meira

5.1 Introdução

Depois de discutirmos a Reforma Protestante do século XVI, suas propostas, sua expansão, as suas formulações teológicas, é pertinente perguntar: Qual o impacto da visão de mundo de - corrente da fé protestante nas sociedades nas quais foi implantada? As transformações sociais que favoreceram o movimento de reforma, bem como as que dela decorreram têm sido conside - radas de grande relevância nos diversos aspectos da vida: educação, economia, política, dentre outras. Essa é uma razão pela qual diversos autores, especialmente das ciências sociais, enten- dem que o estudo da Reforma extrapola em muito os interesses meramente religiosos. D’ Aubig- né afirma:

A história da reforma não é a do protestantismo. A história do protestantismo poderia não interessar senão aos protestantes, enquanto que a da reforma é para todos os cristãos, ou antes, para todos os homens (D’ AUBIGNÉ, s.d, p. 5).

Embora diversos autores, sob diversos prismas, abordem o tema e alguns deles serão cita- dos nesta unidade, tomaremos a obra clássica de Weber (1996) como principal referência para a primeira parte do nosso estudo. Na mesma perspectiva, outros autores nos servirão para análise de aspectos específicos que destacaremos no decorrer do estudo.

5.2 Ascetismo Intramundano e Reforma Social

diCA

Para aprofundar o en- tendimento da análise da ética protestante, além do próprio de Weber (1996) e do seu texto “Religião e Racio- nalidade Econômica” (Cf. COHN, 2000), indico o diálogo com outros autores que discutem o pensamento weberia- no, especialmente no que diz respeito à sua sociologia da religião. Dentre eles, destacam- se: Wegner (2000), Souza (1999), Pieruci, Krammer, Domingues e Avritzer (cf. SOUZA, 2000), Coelho, Bandeira e Menezes (2000), além de Quintaneiro (1999), Gertz (1997) e Cohn

(2000).

Uma das principais chaves para a análise da ética protestante por parte de Max Weber é o que ele chama de “ascetismo intramundano”. O que isso significa? Asceta é aquele que nega o mundo, rejeita os seus prazeres. Essa é uma atitude comum às chamadas religiões de salvação, dentre as quais se encontra o cristianismo em suas diferentes vertentes. Esse ascetismo, entre - tanto, nem sempre é praticado da mesma forma. A peculiaridade do ascetismo protestante na visão de Max Weber é que, em vez de ausentar-se do mundo, descolar-se dele como fazem os monges em seus conventos, o protestantismo, de forma oposta, nega o mundo enfrentando-o (Cf. SOUZA, 1999, p. 260) para transformá-lo, visando à glória de Deus. Freund (2000). comenta:

A ascese que se pratica no seio do mundo (innerweltliche), a exemplo do puri- tano, ela considera igualmente a criatura como instrumento de Deus, mas para glorificá-lo pela atividade profissional , pela vida em família exemplar , pelo rigor

de conduta em todos os domínios da vida, cumprindo todas as tarefas como de -

veres queridos por Deus (

)

para o asceta (visto essencialmente sob os traços do

... puritano), a contemplação mística surge como gozo pessoal, indolente e estéril do ponto de vista religioso e, por conseguinte, condenável, porque ele vê nela a voluptuosidade de uma criatura idólatra: em vez de trabalhar para a glória de Deus e cumprir sua vontade, ele se preocupa apenas com seus êxtases (FREUND 2000, p. 146).

UAB/Unimontes - 5º Período

Partindo do princípio “Sola Scriptura”, o reformado busca base bíblica para esse seu enfren-

tamento do mundo: “Vós sois o sal da terra”(MATEUS 5: 13), “Vós sois a luz do mundo” (MATEUS 5:

14), “ Não peço que os tires do mundo, mas que os livres do mal (

)

assim como tu me enviaste

... ao mundo, também eu os enviei ao mundo” (JOÃO 17: 15,18). Assim, o verdadeiro cristão tem um compromisso perante o mundo, embora não absorvendo a sua filosofia. É o “estar no mundo sem ser do mundo” (Cf. WEGNER, 2000, p. 195). Nessa concepção, não há lugar a dicotomia vida religiosa e vida secular. Toda ação humana é, de certa forma, religiosa por se tratar de uma resposta (positiva ou negativa) à Palavra de Deus. A religião despoja-se da magia, aponta para os valores racionalmente éticos, segundo o manda- mento divino, como critério de validade (Cf. COHN, 2000, p. 151-152). Como já foi dito em unidades anteriores, os protestantes, luteranos, zwinglianos e calvinis- tas, creem que a salvação é uma dádiva da graça de Deus aos seus eleitos, redimidos por Cristo e eficazmente chamados pelo poder do Espírito Santo. O homem não é, portanto, justificado dian- te de Deus por obras meritórias por ele praticadas, pois, por melhores que fossem essas obras, elas seriam insuficientes para atingir o padrão perfeito de Deus. Por outro lado, o eleito de Deus, redimido por Cristo, regenerado pelo Espírito Santo, terá uma vida digna do Evangelho por ele abraçado. É assim que a sua predestinação é reconhecida por ele mesmo e pelo mundo. O verda- deiro cristão, nessa perspectiva, é aquele que, em todas as suas ações, visa à glória do seu Cria-

dor. Souza (1999) afirma:

Em lugar de uma percepção da salvação segundo a acumulação de boas ações isoladas, há agora a perspectiva de que a vida tem de ser guiada a partir de um princípio único e superior a todos os outros: o de que a vida terrena deve ser concebida apenas como um meio (e, o homem como um mero instrumento de Deus) para o aumento da glória divina na terra. Todos os sentimentos e in- clinações naturais devem subordinar-se a esse princípio, o que faz com que o protestantismo ascético represente desse modo, uma gigantesca tentativa de racionalizar toda a condução da vida sob um único valor (SOUZA, 1999, p.27-28).

Inconformados com o mundo, como afirma o apóstolo Paulo na sua carta aos Romanos, o cristão é vocacionado a transformá-lo, tendo os padrões divinos como referência. Mas como esse cristão, mesmo regenerado e consciente do seu dever, é parte desse mundo, há sempre o conflito pessoal entre o que se crê e o que é vivido. Uma luta constante em busca de maior coerência. A ausência do conflito, nesse sentido, é vista como evidência de que o indivíduo não é um regene - rado. Essa luta do indivíduo em busca das evidências na sua própria conduta de que ele é um elei- to, predestinado, e regenerado, tem sido considerada por diversos estudiosos, nessa perspectiva weberiana, como um motor que move algumas revoluções. Souza (1999, p. 28-29) entende que a Reforma realizou uma verdadeira revolução social, mas não era este o seu objetivo primordial, isso ocorreu, entretanto como resultado dos seus objetivos religiosos (cf. WEBER, 1996, p. 27). A partir dessa compreensão, verifiquemos, a título de exemplo, alguns aspectos em que é reconhecida a influência da teologia reformada:

5.3 Reforma e Educação

As convicções teológicas protestantes têm sido consideradas elemento fundamental na va- lorização e popularização da educação escolar. Em primeiro lugar, a necessidade de se ler a Bíblia para promover o relacionamento saudável do indivíduo com Deus. Numa comunidade reforma- da, quando os pais apresentam os seus filhos para o batismo, comprometem-se solenemente a ensinarem ou mandarem ensinar o filho a ler, para que, por ele mesmo, ele possa ler as Escrituras (RIBEIRO). Furter (1994) afirma:

(

...

)

a vida eclesial compreende um conjunto de atividades de formação tão es-

senciais quanto à liturgia e os ritos. Ela deve preocupar-se com a iniciação dos

candidatos ao batismo e sua confirmação, ato que ocasionou as invenções peda- gógicas do catecismo e, hoje, da catequese de adultos. A vida eclesial estimula o aprofundamento da fé pela leitura e meditação das Escrituras, o que supõe ao menos um domínio da leitura. Além disso, ela corrige as crenças extirpando as heresias, em princípio, pela reflexão, crítica e discussão (FURTER, 1994, p. 12).

Ciências da Religião - Cosmovisão das Religiões: Reforma e Contra-Reforma

Além da leitura e interpretação elementares do texto bíblico, há outra importante razão para que se valorize o saber escolar. Para realizar a sua vocação no mundo (ascetismo intramun- dano), o indivíduo deve preparar-se ao máximo, adquirir o máximo de conhecimento que lhe for possível, para que possa cumprir o seu papel na sociedade, visando à glória de Deus, o seu pró - prio bem estar e do próximo. São várias as citações de Martinho Lutero, João Calvino e outros re - formadores no século XVI e, em outros contextos, nas missões protestantes, no que diz respeito à necessidade de criação de escolas para a promoção da fé e do ser humano em termos gerais, visando sempre ao fim principal, a glória de Deus. Os pressupostos teológicos protestantes promovem a prática da leitura. Roger Chartier (1991) discute amplamente a influência das convicções religiosas nas práticas de escrita e leitura. Ter as Escrituras como a única fonte do conhecimento especial de Deus para a salvação, o prin- cípio do “livre exame” e a doutrina do sacerdócio universal dos crentes, concedendo às pessoas comuns o direito e a responsabilidade de ler e interpretar a Bíblia, enfatizando a sua relação pes- soal, individual com Deus. Destaca-se a intensa campanha feita na Inglaterra luterana, no que diz respeito à leitura para que os fiéis pudessem “aprender a ler e ver com os próprios olhos o que Deus ordena e comanda, através de Sua Palavra Sagrada. Chartier (1991) afirma:

Nos séculos XVII e XVIII, a catequese nos países reformados pressupõe a presença

do livro, lido em voz alta e comentado pelo pastor, enquanto as crianças lêem em silêncio e escutam a lição. Há nisso uma espécie de herança eclesial de uma velha prática da universidade medieval em que, similarmente, cada estudante acompanha no livro a leitura feita pelo mestre em seu próprio manuscrito. Em ambos os casos, a palavra que ensina requer a familiaridade com o objeto escrito, portado, manuseado, dominado, familiaridade conquistada com maior lentidão

na pastoral católica (

)

Nos países calvinistas, e portanto alfabetizados, a leitura

120 - 122).

Chartier (1991) aponta, ainda, a prática protestante da leitura solitária, na intimidade, como fator de desenvolvimento da leitura e de familiarização com a leitura. Como apenas saber deci- frar as palavras é insuficiente no caso da reflexão religiosa, exigindo, no caso do protestante, uma postura individual diante do conteúdo lido, a interpretação torna-se imprescindível, proporcio- nando maior desenvolvimento nesse aspecto. Aponta ainda o apego dos protestantes ao livro, destacando a diferença de postura católica romana nesse sentido:

diCA

A imprensa que surgiu em 1455, criada pelo alemão Johannes Gutemberg, foi de grande influência na divulgação das novas ideias naquele período. Contribuiu em muito para a divulgação dos ideais protestantes. Em contrapartida, segundo Santos (2012), a Refor- ma também contri- buiu para a expansão da imprensa. Ele faz um levantamento do número de tipografias existentes e demonstra que essas eram sempre em número maior nas cidades que aderiram ao movimento reformis-

ta. O trabalho de Santos (2012) está disponível no enderônico; <http:// tede.mackenzie.

com.br/tde_arqui-

vos/3/TDE-2012-11-

29T134312Z-1518/

Publico/Eliezer%20

Lirio%20dos%20Santos.

pdf>.

A fronteira religiosa parece ser um fator decisivo no tocante à posse do livro. Nada o mostra melhor que a comparação das bibliotecas das duas comunida-

des numa mesma cidade. Em Metz, entre 1645 e 1672, 70% dos inventários dos protestantes incluem livros contra apenas 25% dos inventários católicos. E a dis- tância é sempre muito acentuada, seja qual for a categoria profissional conside - rada: 75% dos nobres reformados têm livros, mas apenas 22% dos católicos os possuem, e as porcentagens são de 86% e 29% nos meios jurídicos, 88% e 50% na área médica, 100% e 18% entre pequenos funcionários, 85% e 33% entre comerciantes, 52% e 17% entre artesãos, 73% e 5% entre “burgueses,” 25% e9%

entre trabalhadores braçais e agrícolas (

...

)

os reformados também possuem mais

livros: os reformados membros das profissões liberais têm em média o triplo de

livros de seus homólogos católicos (

...

)

com bibliotecas calvinistas dez vezes mais

ricas que a dos católicos (CHARTIER, 1991, p. 132-133).

◄ Figura 28: Tipografia do século XVI Fonte: Disponível em <http://www.luteranos. com.br/conteudo/ensi- no-os-fantasticos-seculos -xv-e-xvi>. Acesso em
◄ Figura 28: Tipografia do
século XVI
Fonte: Disponível em
<http://www.luteranos.
com.br/conteudo/ensi-
no-os-fantasticos-seculos
-xv-e-xvi>. Acesso em 20
jul.2015.

UAB/Unimontes - 5º Período

5.4 Reforma e trabalho

Normalmente os textos que discutem o trabalho enfatizam a sua conotação negativa como castigo. A própria origem do termo trabalho, do latim “tripalium”, indica instrumento de tortura. Reforçam o argumento de que o próprio conceito bíblico de trabalho é algo penoso, o cultivo do jardim “com o suor do rosto” do homem e a terra, produzindo cardos e abrolhos, conforme a nar- rativa do livro de Gênesis demonstraria essa visão negativa do trabalho. De acordo com a ética protestante, entretanto, o trabalho, a capacidade de transformar a natureza produzindo recursos para o bem de quem trabalha e do mundo que o cerca, é um precioso dom de Deus. Deve ser exercido com prazer, para a glória do Criador. Este é mais um aspecto do ascetismo intramunda- no que discutimos acima. A natureza, com a entrada do pecado no mundo, realmente tornou-se resistente à transformação por parte do homem. É a consequência natural do pecado que pro- duz morte, mas o eleito de Deus, redimido e regenerado, deve utilizar toda a sua inteligência, do seu potencial, que são dons divinos, para a glória do seu Criador. Há grande ênfase no trabalho como exercício fiel da vocação divina e a aversão pela ociosidade, bem como o combate ao luxo e o gasto desregrado são entendidos como deveres cristãos (cf. WEGNER, 2000, 185). Weber faz referência a Richard Baxter (1615-1691), pastor presbiteriano inglês, como exemplo dos ideais puritanos nesse sentido:

A perda de tempo através da vida social, conversas ociosas, do luxo e mesmo do sono além do necessário para a saúde – seis, no máximo oito horas, por dia – é absolutamente dispensável do ponto de vista moral. Não se trata assim do “Time is Money” de Franklin, mas a proposição lhe é equivalente no sentido espiritual:

ela é infinitamente valiosa, pois, de toda hora perdida no trabalho redunda uma perda de trabalho para a glorificação de Deus. Daí não ter valor e, eventualmen- te, diretamente condenável, a contemplação passiva, quando resultar em pre - juízo para o trabalho cotidiano, pois ela é menos agradável a Deus do que a ma- terialização da sua vontade no trabalho. Para isto existe o Domingo, e, segundo Baxter, são os que não estão absortos em sua vocação, que nem para Deus tem tempo, na hora existente para este mister (WEBER, 1996, p.112).

O trabalho, como vimos até aqui, é um instrumento para a glória de Deus no exercício da vocação. Baseando-se sempre na Bíblia, recebida como a infalível revelação de Deus, citam pas- sagens como as orientações paulinas à Igreja de Tessalônica, para que não se vivesse desorde - nadamente, na ociosidade, mas, ao contrário, que se empenhassem no trabalho para não ser pesado aos outros. O mesmo Paulo, escrevendo aos efésios, aponta como uma evidência de con- versão, além de parar de furtar, aquele que tinha esse hábito passa a trabalhar com as próprias mãos para ter com que acudir ao necessitado. É o próprio João C que afirma:

Se seguirmos fielmente nosso chamamento divino, receberemos o consolo de

saber que não há trabalho insignificante ou nojento que não seja verdadeira-

mente respeitado e importante ante os olhos de Deus. (

) a glória de Deus deve

.... resplandecer sempre e nitidamente em todos os dons com os quais porventura Deus se agrade em abençoar-nos e em adornar-nos. De sorte que podemos con- siderar-nos ricos e felizes nele, e em nenhuma outra fonte (COSTA apud CALVINO, 2004, p. 121).

É necessário lembrar que, de acordo com a convicção protestante, embora a diligência no trabalho seja uma forma de honrar a Deus no exercício da sua vocação no mundo, a moderação também é uma virtude a ser cultivada. É também um preceito bíblico, para o bem do homem, o respeito aos seus limites, reservando o tempo necessário para o descanso e seus exercícios de - vocionais. A guarda de um dia inteiro em cada sete, em observância ao quarto mandamento, é muito enfatizada nos escritos protestantes, inclusive os seus documentos oficiais. A Confissão de Fé de Westminster, de 1647, por exemplo, afirma:

Como é lei da natureza que, em geral, uma devida proporção do tempo seja des- tinada ao culto de Deus, assim também em sua palavra, por um preceito positivo, moral e perpétuo, preceito que obriga a todos os homens em todos os séculos, Deus designou particularmente um dia em sete para ser um sábado (descanso) santificado por Ele; desde o princípio do mundo, até a ressurreição de Cristo, esse

Ciências da Religião - Cosmovisão das Religiões: Reforma e Contra-Reforma

dia foi o último da semana; e desde a ressurreição de Cristo foi mudado para o primeiro dia da semana, dia que na Escritura é chamado Domingo, ou dia do Senhor, e que há de continuar até ao fim do mundo como o sábado cristão. (Exo. 20:8-11; Gen. 2:3; I Cor. 16:1-2; At. 20:7; Apoc.1:10; Mat. 5: 17-18). Este sábado é santificado ao Senhor quando os homens, tendo devidamente preparado os seus corações e de antemão ordenado os seus negócios ordinários, não só guar- dam, durante todo o dia, um santo descanso das suas próprias obras, palavras e pensamentos a respeito dos seus empregos seculares e das suas recreações, mas também ocupam todo o tempo em exercícios públicos e particulares de culto e nos deveres de necessidade e misericórdia (Exo. 16: 23-26, 29:30, e 31:15-16; Isa.

58:13).

Ao contrário do que popularmente se afirma, Weber não atribui essa concepção protestante do trabalho à ambição pela riqueza. Ao contrário, analisa as convicções calvinistas, até mesmo contrárias às riquezas, por serem perigosas. Embora indiretamente, sem intencionalidade, tenha favorecido o estabelecimento do “espírito” do capitalismo. Comenta:

diCA

Nos próprios escritos de Calvino, quando aborda a questão da riqueza, essa interpretação de

Weber é reforçada. Leia as citações de Calvino, comentadas por Costa (2015): <http://www.

monergismo.com/tex-

tos/teologia_reforma-

da/reforma_trabalho.

html>.

A riqueza em si constitui sério perigo; suas tentações nunca cessam, e sua pro- cura não é apenas desprovida de sentido, quando comparada com a superior importância do reino de Deus, como moralmente suspeita. A ascese aqui parece

voltar-se (

)

contra toda a procura de riqueza em bens temporais. Exemplos de

... condenação da procura de bens e de dinheiro podem ser encontrados em quan- tidade nos escritos puritanos, e comparados com a literatura da baixa Idade Mé - dia, muito mais liberal a este respeito (WEBER, 1996, p. 113).

5.5 Reforma e Política

As implicações políticas da teologia protestante são inevitáveis, como afirma Skinner (1996). A própria tese do sacerdócio universal dos cristãos, o rompimento com o clericalismo romano, implicará o desenvolvimento do individualismo que, mais tarde, se consolida nas teorias liberais. A separação entre Igreja e Estado, delimitando rigorosamente as suas competências e a propos- ta de liberdade religiosa está presente nas principais confissões reformadas. Há, entretanto, de forma paradoxal, evidências de que os pensamentos de Martinho Lutero e João Calvino favore - ceram o absolutismo devido à grande ênfase dada pelos reformadores à devida submissão às autoridades que, de acordo com a Bíblia, são instituídas por Deus. Na sua obra principal, as Institutas, João Calvino sistematiza a sua compreensão bíblica so- bre a “administração política”. Não se trata de um compêndio de filosofia política, mas uma “pas- toral”, sendo como questão central: “Como o cristão deve comportar-se perante a administração política?” Tem como pressuposto básico da sua discussão o princípio de que o homem perten- ce a Deus e deve viver para a sua glória, sabendo que terá que prestar contas ao final do seu “mandato”. Assim, magistrados, príncipes e súditos devem saber, pelas Escrituras, os seus papéis e exercê-los, pensando, primeiramente, nos seus deveres para com Deus. O mandato dos que se acham investidos de autoridade não pertence nem ao povo nem a eles mesmos, mas a Deus, a quem, em última instância, terão que ser aprovados. Nesse texto, João Calvino combate dois extremos em relação à questão central supra citada. Ele afirma a impertinência do comporta- mento dos aduladores dos príncipes que os tratam como seres divinos, esquecendo-se de que acima deles e regendo-os, como afirmam as Escrituras, encontra-se o “Soberano dos reis da ter- ra”. Combate também o extremo dos radicais, anabatistas, que entendiam estarem desobrigados para com os governos terrenos, uma vez que pertencem a Deus e só a ele devem obediência. O reformador de Genebra expõe que Deus instituiu os governos humanos como seus instrumen- tos, dando-lhes autoridade e dever de proteger os bons e, armou-o com a espada, para punir os maus, dentro dos limites estabelecidos pelo próprio Deus na sua Palavra. Os magistrados, os governantes são, portanto, ministros de Deus para a manutenção da ordem e da paz. Apresenta vasta argumentação bíblica para demonstrar a sua tese. Como na sua concepção, a Palavra de Deus é autoridade sobre as maiores autoridades, munido dela, adverte aos magistrados:

(

...

)

quão grande zelo de integridade, de prudência, de mansidão, de domínio

próprio, de inocência devem aplicar a si próprios aqueles que forem constituídos ministros da divina justiça? Com que ousadia haverão de admitir a iniquidade perante o seu tribunal, do qual aprendem ser o trono do Deus vivo? Com que au-

UAB/Unimontes - 5º Período

dácia haverão de pronunciar uma sentença injusta com essa boca que entendem ser um instrumento destinado à divina verdade? Com que consciência haverão de assinar ímpios decretos com essa mão que sabem ser ordenada para regis- trarem-se os atos de Deus? Em suma, caso se lembrassem de que são vigários de Deus, impõe-se que vigiem com todo cuidado, zelo, diligência, para que re - presentem em si, aos homens, uma como que imagem da divina providência, proteção, bondade, benevolência e justiça (CALVINO, 2006, p. 456).

As autoridades, em seus diversos níveis e competências, portanto, devem se submeter a Deus e estão sob os olhos de Deus. Por outro lado, os que são governados, os súditos, devem- lhes honra, obediência, submissão em quase todos os aspectos. A única restrição é quando essas autoridades se chocarem frontalmente com a lei divina. Um ímpio decreto que implique a deso- bediência à lei suprema, a Bíblia, estaria o indivíduo desobrigado de obediência. Ao contrário, teria o dever de resistir, seguindo a orientação bíblica e o exemplo dos apóstolos de que impor- ta mais obedecer a Deus do que aos homens. Além desse ponto restritivo, deverá haver plena submissão às autoridades, deixando nas mãos de Deus os seus possíveis atos de injustiça, pois é Deus que estabelece reis e destitui reis. Essa passividade (MARTINA, 2008) é entendida como estimuladora do absolutismo. Ao introduzir a sua discussão sobre o tema, Calvino menciona as diversas formas de gover- no e, embora à semelhança de Aristóteles, não se posicione de forma radical, revela a sua prefe - rência pelo “governo” de muitos, considerando os perigos do governo de um só, na monarquia, propensa à tirania, e de todos, na democracia direta, que tenderia para a anarquia. Ele opina:

Quando essas três formas de governo, das quais tratam os filósofos, são consi- deradas em si mesmas, de minha parte longe estou de negar que a forma que se sobressai muitíssimo às demais é a aristocracia, quer pura quer modificada pelo governo popular, não deveras em si mesma, mas porque mui raramente sucede que os reis não governem a si mesmos de tal modo que nunca discordem do que é justo e direito, ou se deixem possuir de tanta intensidade que não conse - guem ver corretamente. Portanto, em virtude dos vícios e defeito dos homens, é mais seguro e mais tolerável quando diversos exerçam o governo, de sorte que, assim se assistam mutuamente, ensinem e exortem uns aos outros; e, se alguém se exalta mais do que lhe é justo, muitos sejam sensores e mestres para coibir-se seu desregramento (CALVINO, 2006, p. 458).

Se a submissão passiva aos governantes, considerando-os ministros de Deus, pode ser con- siderada estímulo ao absolutismo, a opinião de Calvino sobre o governo compartilhado repre - senta avanço na sua época em direção às restrições ao poder dos monarcas por parte de um parlamento. Indícios da democracia dos modernos, representativa. Tendo o pensamento de João Calvino como referência, as confissões reformadas também inovam ao delimitar as competências do Estado e da Igreja. Vejamos, por exemplo, o que afirma a Confissão de Fé de Westminster (Ca- pítulo XXIII) sobre o magistrado civil:

Deus, o Senhor Supremo e Rei de todo o mundo, para a sua glória e para o bem público, constituiu sobre o povo magistrados civis que lhe são sujeitos, e a este fim, os armou com o poder da espada para defesa e incentivo dos bons e castigo dos malfeitores (Rom. 13:1-4; I Ped. 2:13-14). Aos cristãos é licito aceitar e exercer o ofício de magistrado, sendo para ele chamado; e em sua administração, como devem especialmente manter a piedade, a justiça, e a paz segundo as leis saluta- res de cada Estado, eles, sob a dispensação do Novo Testamento e para conseguir esse fim, podem licitamente fazer guerra, havendo ocasiões justas e necessárias (Prov. 8:15-16; Sal. 82:3-4; II Sam. 23:3; Luc. 3:14; Mat. 8:9-10; Rom. 13:4). Os ma- gistrados civis não podem tomar sobre si a administração da palavra e dos sacra- mentos ou o poder das chaves do Reino do Céu, nem de modo algum intervir em matéria de fé; contudo, como pais solícitos, devem proteger a Igreja do nosso comum Senhor, sem dar preferência a qualquer denominação cristã sobre as ou- tras, para que todos os eclesiásticos sem distinção gozem plena, livre e indisputa- da liberdade de cumprir todas as partes das suas sagradas funções, sem violência ou perigo. Como Jesus Cristo constituiu em sua Igreja um governo regular e uma disciplina, nenhuma lei de qualquer Estado deve proibir, impedir ou embaraçar o seu devido exercício entre os membros voluntários de qualquer denominação cristã, segundo a profissão e crença de cada uma. E é dever dos magistrados civis proteger a pessoa e o bom nome de cada um dos seus jurisdicionados, de modo que a ninguém seja permitido, sob pretexto de religião ou de incredulida- de, ofender, perseguir, maltratar ou injuriar qualquer outra pessoa; e bem assim providenciar para que todas as assembleias religiosas e eclesiásticas possam re -

Ciências da Religião - Cosmovisão das Religiões: Reforma e Contra-Reforma

Ciências da Religião - Cosmovisão das Religiões: Reforma e Contra-Reforma unir-se sem ser pertur- badas ou

unir-se sem ser pertur- badas ou molestadas (Heb. 5:4; II Cron. 26:18; Mat. 16:19; I Cor. 4:1-2; João 15:36; At. 5:29; Ef. 4:11-12; Isa. 49:23; Sal. 105:15; 11 Sam.23:3). É dever do povo orar pe - los magistrados, honrar as suas pessoas, pagar- lhes tributos e outros impostos, obedecer às suas ordens legais e su- jeitar-se à sua autorida- de, e tudo isto por amor da consciência. Incredu- lidade ou indiferença de religião não anula a justa e legal autorida- de do magistrado, nem absolve o povo da obe - diência que lhe deve, obediência de que não estão isentos os ecle - siásticos. O papa não tem nenhum poder ou jurisdição sobre os magistrados dentro dos domínios deles ou sobre qualquer um do seu povo; e muito menos tem o poder de privá-los dos seus domínios ou vidas, por julgá-los hereges ou sob qualquer outro pretexto (I Tim. 2:1-3; II Ped. 2:17; Mat. 22:21; Rom. 13:2-7, e 13:5; Tito 3:1; I Ped. 2:13-14, 16; Rom. 13:1; At. 25:10-11; II Tim. 2:24; I Ped. 5:3).

Figura 29: Alexis de Tocqueville

Fonte: Disponível em <http://pt.wikipedia.org/ wiki/Alexis_de_Tocquevil - le>. Acesso em 22 jul.2015.

A contribuição do pensamento político protestante para diversas culturas tem sido consi- derada sob diversos pontos de vista. A sua influência na formação dos Estados Unidos da Amé - rica tem chamado a atenção de diversos estudiosos (SOUZA, 1999). Alexis de Tocquevile viu nas comunidades puritanas dos fundadores elementos que estabeleceram os pilares da democracia americana. Os sistemas de governo congregacional (democracia direta) e presbiteriano (demo - cracia representativa) teriam sido fundamentais na produção daquela cultura política.

5.6 Reforma e Ciência

A religião é, necessariamente, oposta à ciência? A fé e a razão estão em desarmonia? Pear- cey e Thaxton (2005) e Hooykaas (1988) propõem uma investigação detalhada sobre a contri- buição da cultura judaico-cristã para o surgimento da ciência moderna. Um questionamento dos referidos autores é que a influência da filosofia grega no surgimento da ciência moderna é amplamente discutida, mas, sendo a herança cultural judaico-cristã tão presente nos diversos aspectos da vida, não seria possível identificá-los no desenvolvimento da ciência moderna? De - monstram que a secularização da cultura desenvolveu-se a partir do século XVIII, mas os pres- supostos cristãos ainda permaneceram centrais em diversos setores. Os fundadores da ciência moderna atuaram sustentando pressupostos cristãos. Percey e Thaxton (2005) afirmam:

Até a virada do século XIX para o XX, o cristianismo era a influência intelectual

predominante na maior parte das áreas da vida e da cultura do ocidente ( verdade é que não podemos entender, de fato, figuras como Newton, Descartes

...

)

a

ou Cuvier sem investigar as ideias religiosas e filosóficas que impulsionaram os seus trabalhos científicos (PERCEY e THAXTON, 2005, p. 10).

Para esses autores é, no mínimo inadequado, estudar a história da ciência moderna, sem considerar de forma mais profunda a relação entre a produção intelectual dos seus fundadores e o contexto em que atuaram, sendo a questão religiosa elemento marcante nesses contextos. Um estudo dessa natureza serviria para desfazer o mito do obscurantismo cristão, criado devido a al- gumas atitudes da Igreja Medieval, consideradas como inibidoras do progresso da ciência. Investigar a influência do cristianismo em geral sobre o surgimento e progresso da ciência moderna é desafio de enorme potencial. Considerando os nossos objetivos específicos neste tex-

UAB/Unimontes - 5º Período

to, indagamos: Qual foi o posicionamento dos reformadores em geral sobre a investigação cientí- fica? É possível identificar reflexos dos pressupostos teológicos protestantes para impulsionar ou frear o desenvolvimento da ciência? Hooykaas (1988) faz minucioso estudo sobre as questões acima levantadas. Apresenta um levantamento quanto ao número de protestantes envolvidos com a produção científica entre os séculos XVI e XVII. Apresenta dados que para ele foram surpreendentes, pois, devido às trans- formações no campo econômico, com o desenvolvimento do comércio e da navegação, poderia

até se esperar uma presença maior de protestantes nas ciências exatas e da tecnologia, mas essa presença foi marcante também em outras áreas tais como a botânica e a zoologia. Afirmou: “A maior parte dos botânicos do século XVI pertenceu à minoria protestante” (1988, p. 129). Esse au- tor associa a relação entre protestantismo e ciência com o conceito de “ascetismo intramundano” de Max Weber. Do ponto de vista protestante, Deus criou o mundo e todas as leis que o regem. Concedeu ao homem a condição de administrador, mordomo desse mundo criado, e é justo que ele o conheça ao máximo, até o ponto em que o Criador e Senhor da natureza o permita. A omis- são, a negligência na busca desse conhecimento seria uma falta para com Deus. Hoykaas (1998, p.138) cita diversos cientistas, entre eles o alemão Johannes Kepler, astrônomo, matemático, “fervoroso luterano”, que se motivavam nas suas investigações, entendendo-a como um dever de amor e de gratidão. Eles tomavam como base para a sua ética a parábola dos talentos. João Calvino observou: “aqueles que possuem tempo e capacidade, não devem descurar do estudo da astronomia” (Hoykaas, 1988, p. 138). A ciência, portanto, é divina. A verdade é divina e deve ser buscada diligentemente, pois, sendo o homem criado à sua imagem e semelhança, recebeu o dom do conhecimento, ainda que parcial da realidade. A natureza é obra de Deus e quanto mais

diCA

Além dos autores

supracitados, diversos outros poderão ser úteis para a compreensão do tema abordado

nesta unidade: “Asce -

tismo Intramundano e Reforma Social”. Dentre eles Biéler (1990), Van Til (2010), Kuyper (2003), Powlison (2011). Confira as palestras sobre a cosmovisão protestante no que

se refere à ciência e à produção acadêmica:

<https://www.youtube.

  • com/watch?v=9ya- a conhecermos, mais poderemos glorificá-lo:

xEHmfc2M>,<https://

  • www.youtube.com/wat- O que é mais impressionante acerca dos primeiros cientistas protestantes é o seu amor pela natureza, na qual reconhecem a obra das mãos de Deus, e o seu prazer em investigar os fenômenos naturais. Um dos pais da anatomia compa-

ch?v=RhNSByLikhA> e <https://www.youtube.

  • com/watch?v=lu22NB- rada, o holandês Volker koiter (1534-1576), jamais se cansava de exaltar a provi- dência do Criador, evidenciada na maravilhosa adaptação da estrutura animal (HOOYKAAS, 1988, p. 136 -137).

2cIUY>.

Figura 30: Johannes Kepler (1571-1630)

Fonte: Disponível em <http://pt.wikipedia.org/ wiki/Johannes_Kepler>. Acesso em 21 jul.2015.

UAB/Unimontes - 5º Período to, indagamos: Qual foi o posicionamento dos reformadores em geral sobre a

Hooykaas (1988) destaca outro ponto da análise weberiana que é pertinente para a re - lação entre o protestantismo e a investigação científica: a glória de Deus como finalidade principal da existência humana e de todas as coisas. Além do conhecimento da natureza que o homem é vocacionado a dominar, uti- lizar e proteger, a glória de Deus será promo - vida por meio da divulgação das suas maravi- lhas e na melhor utilização delas por parte da humanidade. Os reformados, especialmente os puritanos, em suas pregações, além de in- centivar a busca do conhecimento, alertavam para o perigo da soberba e a necessidade de humildade, reconhecendo sempre a limitação da criatura diante do Criador. Esses princípios motivadores da produ- ção científica por parte dos reformados po - dem ser identificados, como foi exposto aqui, nos séculos XVI e XVII e, posteriormente, com o avanço do protestantismo para outros con- tinentes, identificado em outras culturas. A

criação de instituições de ensino em geral e de universidades, especificamente, e a influência sobre determinadas teorias. Embora não possa ser atribuída exclusivamente ao protestantismo, contendo até elementos contrários à sua visão de mundo, o pragmatismo norte-americano teve muito dessa influência na sua constituição. Esse pragmatismo é identificado nas instituições cria- das pelos missionários em diversos países, inclusive no Brasil (MEIRA, 2009).

Ciências da Religião - Cosmovisão das Religiões: Reforma e Contra-Reforma

Referências

BIÉLER, André. o Pensamento econômico e Social de Calvino. São Paulo: Cultura Cristã, 1990. CALVINO, João. As institutas. São Paulo: Cultura Cristã, 2006 CHARTIER, Roger. As Práticas da Escrita. IN: ARIES, Philippe; DUBE, Georges. História da Vida Pri- vada: Da Renascença ao Século das Luzes. Vol 3, São Paulo: Companhia das Letras, 1991. COSTA, Hermisten Maia. raízes da Teologia Contemporânea. São Paulo: Cultura Cristã, 2004. D’AUBIGNÉ, J. H. Merle. História da reforma do Século XVi. Vol. I São Paulo: CEP, S/D. HOYKAAS, Rejer. A religião e o desenvolvimento da Ciência Moderna. Brasília: UNB, 1988. KUYPER, Abraham. Calvinismo. São Paulo: Cultura Cristã, 2003. MARTINA, Giacomo. História da igreja: De Lutero a Nossos Dias. São Paulo; Loyola, 2008. MEIRA, José Normando Gonçalves. Ciência e Prática: Ensino Agrícola na Educação Presbiteriana em Minas Gerais (1908-1938). São Paulo: PUC, 2009 (Tese de Doutoramento). MENDONÇA, António Gouvêa. introdução ao Protestantismo no Brasil. São Paulo: Edições Loyola, 2002. POWLISON, David (Et all). O Calvinismo na Prática. São Paulo: Cultura Cristã, 2011. RIBEIRO, Boanerges. Protestantismo e Cultura Brasileira. São Paulo: Casa Editora Presbiteriana,

1981.

ATiVidAde

Elabore um texto dis- sertativo de, no mínimo duas laudas, analisando elementos fundamen- tais da ética reformada, fundamentada em suas convicções religiosas, e as suas implicações nas sociedades onde tais convicções se estabele - ceram. Poste no fórum de discussão.

SKINNER, Quentin. As Fundações do Pensamento Político Moderno. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

SOUZA, Jessé de. (Org.). o Malandro e o Protestante: a tese weberiana e a singularidade brasi- leira. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1999.

TOCQUEVILLE, Alexis de A . democracia na América. Belo Horizonte: Itatiaia, 1962. VAN TIL, Henry R. o Conceito Calvinista de Cultura. São Paulo: Cultura Cristã, 2010

WEBER, Max. A Ética Protestante e o espírito do Capitalismo. 10. ed. São Paulo: Pioneira, 1996.

______.

2000.

Religião e Racionalidade Econômica. In COHN, Gabriel. Weber. 7. ed. São Paulo: Ática,

WEGNER, Robert. A Conquista do oeste: A fronteira na obra de Sérgio Buarque de Holanda. Belo Horizonte: UFMG, 2000.

Ciências da Religião - Cosmovisão das Religiões: Reforma e Contra-Reforma

UNidAde 6

Contra-Reforma ou Reforma Católica

  • 6.1 Introdução

José Normando Gonçalves Meira

Contra-Reforma ou Reforma Católica? Os movimentos de renovação ocorridos no inte - rior da Igreja medieval foram simplesmente uma reação à Reforma Protestante ou tiveram outras motivações? Quais foram as mudanças de fato implementadas na Igreja medieval? Por que as mudanças não foram suficientes para atender aos protestantes, reunificando o cristianismo ou pelo menos parte dele? Convido os prezados acadêmicos para um estudo introdutório desse complexo tema, proporcionando-lhes condições para novas buscas, deli - mitações e aprofundamentos. Alguns autores, enfatizando, e às vezes até limitando, as ações reformadoras ocorridas na Igreja de Roma como reação aos movimentos protestantes, usam o termo “Contra-Reforma”. Ou- tros preferem o termo “Reforma Católica”, entendendo que as referidas mudanças representaram, de fato, a reforma da Igreja, pois ocorreram sem rupturas. A estrutura foi mantida e realizadas mudanças possíveis naquele contexto. Há ainda os que utilizam os dois termos. Avaliam que as propostas de reforma que foram produzindo as mudanças na Igreja Católica Romana surgiram paralelamente aos movimentos que deram origem ao protestantismo. Reações que se asseme - lhavam em grande parte dos pontos. Depois da consolidação das reformas protestantes, causan- do rompimento em diversas regiões da Europa, os movimentos de reforma católicos adquiriram o caráter de Contra-Reforma. Reforma Católica e Contra-Reforma seriam, portanto, etapas ou as- pectos do movimento ocorrido na Igreja católica. A Reforma católica seria o seu aspecto interno, cuja necessidade era reconhecida por diversos grupos, incluindo parte do clero, devido à degra- dação moral do próprio clero e as mudanças ocorridas no contexto da sua atuação. A pressão externa que ocasionou as reformas foi causada pela sistematização e expansão das doutrinas e instituições protestantes, dando-lhe o caráter de Contra-Reforma.

  • 6.2 Movimentos da Reforma

Católica

A necessidade de reformar a Igreja, tornando-a mais coerente com os princípios cristãos, foi percebida desde o início da Idade Média (GONZALEZ, 1981 e 1983). O surgimento dos mosteiros e outras atividades de exercícios de busca de uma vida piedosa mais intensa era uma reação à degradação moral já constatada no clero que adquiria privilégios. O contraste com o cristianismo simples, destituído de poderes políticos e econômicos, como vimos na unidade 1, incomodava aos que desejavam viver a sua fé com autenticidade. Os monges procuravam se retirar para uma maior consagração, assumindo vida casta e simples. Esse foi, inclusive, o primeiro passo para que as ideias referentes ao celibato dos sacerdotes se desenvolvessem até se tornar dogma (1074 AD). Os monges não poderiam ter nenhuma propriedade, mas os seus mosteiros podiam. Essa concessão acabou sendo fator decisivo para que os próprios mosteiros logo se revelassem tam- bém necessitados de reformas. A riqueza dos mosteiros, embora não sendo dos monges, dificul- tava a simplicidade e estimulava a luxúria e a vaidade (GONZALEZ, 1983).

UAB/Unimontes - 5º Período

Martina (2008, p. 188) afirma que manifestações significativas de insatisfação com as con- dições que a Igreja foi adquirindo, ao longo da idade Média, podem ser identificadas em suas formas mais intensas, desde o século XV. Nicols (2013, p. 183) destaca que essas manifestações eram abrangentes, podendo ser identificadas em diversas regiões do ocidente e envolvendo di- versos segmentos da sociedade, inclusive sacerdotes, monges, bispos e cardeais. Essas insatisfa- ções referiam-se, principalmente, às questões relacionadas à degradação moral percebidas prin- cipalmente no meio clerical. Além dessas questões morais, outro elemento interno motivador desse apelo por reforma tinha a ver com a influência cultural do Renascimento. Percebia-se a ne - cessidade de uma mudança de métodos, superando a metodologia escolástica, considerada na- quele momento, produtora de uma teologia densa e pouco aplicável à vida dos fiéis. Esses movi- mentos, paralelos a outros mais radicais que geraram severas reações da hierarquia romana, não chegavam a atingir o cerne da doutrina desenvolvida pela Igreja durante o período medieval. Atinham-se às questões de comportamento e de métodos de ação. Essa talvez seja uma razão da serem relativamente pouco explorados pela historiografia tradicional que praticamente reduz as ações da reforma católica às reações ocorridas a partir das décadas do século XVI que sucederam ao movimento de Lutero e, depois, dos outros reformadores. Martina (2008) afirma:

Antes de Lutero, portanto, havia um movimento espontâneo de reforma no seio da Igreja católica e alguma coisa tinha sido feita. Os resultados, porém eram es- cassos e estavam bem longe de uma renovação séria e profunda, tanto mais que a resistência à renovação religiosa provinha sobretudo da cúria romana, onde pontífices e funcionários realmente não se davam conta da gravidade do perigo e se embalavam na indolência e na vida mundana (MARTINA, 2008, p.189).

A existência desses movimentos mais ou menos radicais, de contestação limitada aos pa- drões morais ou atingindo também as questões doutrinárias, é reconhecida, inclusive, quando são estudados os chamados movimentos precursores da Reforma Protestante do século XVI ou “pré-re - formadores”. Estes seriam parte dessas reações internas do catolicismo em busca de renovação. Na Itália, especialmente, que, por diversos fatores, permaneceu impermeável aos movimentos protes- tantes e, mesmo aquelas contestações doutrinárias mais profundas, ocorridas em outras partes da Europa, as ações pela renovação da Igreja também ocorreram, mas, em vez de confronto doutriná- rio, caracterizava-se pela intensidade do zelo religioso e do reavivamento na relação com os dog- mas estabelecidos pelo clero. Cairns (1988) discute as ações desses movimentos que objetivavam reavivar a fé católica, reagindo contra o formalismo e superficialismo, destacando os seus exercícios devocionais e a intensificação de obras de caridade, além de criação de ordens e organizações, in- clusive formada por leigos.

Figura 31: Isabel a Católica

Fonte: Disponível em <https://pt.wikipedia.org/ wiki/Isabel_I_de_Castela>. Acesso em 24 jul.2015.

UAB/Unimontes - 5º Período Martina (2008, p. 188) afirma que manifestações significativas de insatisfação com as

Gonzalez (1981, p. 183) destaca a impor- tância da rainha Isabel I (1451-1504), Isabel, a Católica, para as reformas no catolicismo espa- nhol. Fiel aos dogmas e ao papa, as suas ações reformadoras, nos diversos aspectos da socie - dade sob seu governo, impulsionaram também as iniciativas de reforma da Igreja. Outro nome considerado importante para os movimentos de reforma católica na Espanha foi o cardeal Xi- menes de Cisneiros (1436-1517), arcebispo de Toledo. Agiu como confessor e conselheiro da rainha Isabel. Era franciscano, destacando-se pelos hábitos simples e pela prática da carida- de, favorecia ações reformadoras nos costumes clericais e na prática eclesiástica. Cairns (1988, p. 280) cita o “Oratório do Amor Eterno”, organizada por volta de 1517, que por sua dedicação à Igreja de Roma e a busca intensa de renovação religiosa por meio de fervorosos exercícios espirituais, serviu de inspiração para que outras ordens semelhan- tes fossem criadas em diversas partes da Eu- ropa. Esse movimento não entre os pioneiros, mas surgiu paralelamente aos que, em outras

Ciências da Religião - Cosmovisão das Religiões: Reforma e Contra-Reforma

regiões, especialmente na Alemanha e Suíça, deram origem à Reforma Protestante. Além de demonstrar os anseios por reforma que já existiam no seio da Igreja, serviram, posteriormente, como elemento de Contra-Reforma, em reação ao protestantismo nascente, uma tentativa de impedir a sua expansão.

Ciências da Religião - Cosmovisão das Religiões: Reforma e Contra-Reforma regiões, especialmente na Alemanha e Suíça,

Figura 32: Cardeal Ximenes Cisneiros coordenando a construção de um hospital de caridade

Fonte: Disponível em <https://pt.wikipedia.org/ wiki/Francisco_Jim% -

C3%A9nez_de_Cisneros>.

Acesso em 25 jul.2015.

Sobre os diversos movimentos proponentes de reformas dos costumes no interior da Igreja medieval, Gonzalez (1981) ressalta:

Tratava-se de um intento de reformar a vida e os costumes eclesiásticos, de em- pregar melhor a erudição disponível para purificar a fé e de fomentar a pieda- de pessoal. Porém tudo isso sem afastar-se em nada da ortodoxia, muito pelo contrário. Os santos e os sábios da reforma católica, como Isabel, foram puros, devotos e intolerantes (GONZALEZ, 1981, p. 183).

Mesmo depois da consolidação dos movimentos protestantes, os diversos grupos que ape - lavam por reformas no interior da igreja de Roma persistiram, coexistindo em duas vertentes. A primeira, reconhecendo os desvios morais nos quais a Igreja, especialmente o clero, havia incor- rido e a necessidade de uma renovação na conduta. A outra ponderava a possibilidade de reava- liações em pontos doutrinários que pudessem promover a reintegração de grupos dissidentes, evitando assim o cisma. As convicções arraigadas na Igreja seriam fundamentais obstáculos para que essa vertente prevalecesse. A afirmação veemente de que o clero tem a autoridade para me - diar o relacionamento do povo com Deus e era o legítimo intérprete das Escrituras, devendo ser seguido com toda segurança pelos fiéis, era uma delas. A outra é a de que a tradição da Igreja, ao lado das Escrituras por ela interpretadas, era a regra para a fé e a prática geral. Esses pontos, ine - gociáveis para católicos e protestantes, demonstraram a impossibilidade de se evitar o cisma ou de promover uma reconciliação entre os grupos que já haviam se separado.

6.3 A Contra-Reforma

Embora as ações que visavam à Reforma Católica sejam identificadas desde muito antes do evento do dia 31 de outubro de 1517 em Winttenberg, na Alemanha, “o surgimento do protes- tantismo, deu-lhe novo tom” (GONZALEZ, 1981, p. 185). As expectativas de unidade se frustra- ram. Tanto proponentes de uma profunda reforma estrutural e doutrinária da Igreja que culmi- naram no protestantismo, como dos reformadores católicos que, sem abrir mão das doutrinas romanas, reconheciam necessidade de mudanças, entenderam ser impossível uma síntese. O cis- ma era irreversível. Como os protestantes demonstravam potencial de avanço a partir da Alema- nha e da Suíça para diversas regiões da Europa, as ações reformadoras internas da Igreja romana deveriam levar em consideração essa pressão externa e responder-lhe, buscando neutralizá-la. Esse esforço é chamado de Contra-Reforma.

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Figura 33: Anais Eclesiásticos, de Cézar Baronio

Fonte: Disponível em <http://www.europeana.eu/portal/

record/9200110/BibliographicResource_1000126635817.

html>. Acesso em 26 jul.2015.

Figura 34: Roberto Belarmino

Fonte: Disponível em <http://www.igrejacatolica.pt/sao -roberto-belarmino-e-o-sedevacantismo/#.VYAZtPlViko>. Acesso em 28 jul.2015.

Além de dar continuidade aos projetos de renovação interna, melhorando os costumes, principalmente entre os clérigos e, consequentemente, uma melhor orientação dos fiéis, agora seria necessário lidar com a pressão externa. Defender a Igreja da heresia protestante que se de - monstrava vigorosa nas regiões em que já havia se instalado. Desenvolveram-se entre eruditos e populares as práticas de respostas aos argumentos do protestantismo. Gonzalez (1981) cita Jaco - bo Lovaine, reitor da Universidade de Lovaina, que se dedicou especialmente a essa atividade de resposta à pregação protestante. Partia da afirmação de que era suficiente a leitura da Bíblia em latim, pelas lentes das tradições da Igreja, que era a sua legítima intérprete. Para ele, o estudo da Bíblia nas línguas originais e a sua tradução para as línguas vernáculas eram desnecessárias. Gonzalez (1981) cita ainda Roberto Belarmino que, devido à sua erudição, tornou-se um dos principais combatentes do protestantismo. Sua arma foi a sistematização dos argumentos católicos em resposta à contestação dos seus dogmas. Sua principal obra foi “As Controvérsias da Fé Cristã”. Roberto Belarmino participou do julgamento de Galileu. A sua fidelidade incon- dicional ao catolicismo é evidenciada pelo fato de ter ele participado desse evento, embora declarasse e demonstrasse respeito por Galileu (GONZALEZ, 1981, p. 186). Na mesma linha de objetivos de Belarmino de combater de forma erudita o protestantismo, Cézar Barônio dedi- cou-se ao estudo da História do catolicismo. A sua dedicação culminou na publicação da sua obra principal: “Anais Eclesiásticos”.

6.4 Os Jesuítas e a Contra-Reforma

Diversas foram as ordenas religiosas criadas durante a Idade Média, em busca de renovação dentro da Igreja de Roma. Grande parte delas merece estudos mais aprofundados que explici- tem as suas contribuições. Dentre essas ordens, destaca-se na historiografia a “Companhia de Je - sus”, também conhecida como “Jesuítas”. A sua contribuição para o combate do protestantismo e para o avanço missionário da Igreja Católica Romana tem sido considerada incalculável por análi- ses de diversas tendências ideológicas, religiosas e áreas de estudo. Um dos principais elementos da Contra-Reforma, portanto, é a Companhia de Jesus, ou os Jesuítas. Conheçamos um pouco da

Ciências da Religião - Cosmovisão das Religiões: Reforma e Contra-Reforma

história dessa instituição, fundamental para o cumprimento dos objetivos da Igreja de Roma na exposição da sua nova metodologia, em contraposição ao protestantismo, poderosa na conten- ção do avanço das heresias. Normalmente, o estudo da Companhia de Jesus inicia-se pela trajetória do seu fundador, o espanhol Inácio de Loyola. As semelhanças entre Loyola e Lutero têm sido destacadas pelos his- toriadores (MARTINA, 2008) tanto na forma como se sentiram vocacionados para as obras que lhes ocuparam pelo resto das suas vidas, como pelo espírito contrito, perturbado, as experiências de angústias profundas pelo reconhecimento do pecado. A diferença entre os dois foi o sentido que tomaram. Enquanto Lutero, pela leitura das Escrituras, descobriu a doutrina da justificação pela graça, mediante a fé que lhe acalmou o coração e deu-lhe a paz que julgava ter que procla- mar e por esta e outras doutrinas afastou-se da religião do Papa, Loyola entendeu que a solução para as suas angústias estaria exatamente na sua entrega à defesa da Igreja de Roma como fiel soldado, e essa fidelidade manifestava-se pela honra incondicional ao Papa que entendia ser o cabeça da Igreja, chegando a afirmar: “Eu acredito que o branco que eu vejo é negro, se a hierar- quia da igreja assim o tiver determinado” (Apud NASCIMENTO, 2015). Inicialmente o sonho de Inácio de Loyola era dedicar-se à carreira militar e, de fato, dedicou-se. Ao ter a sua perna ferida gravemente em combate, durante a sua difícil recuperação, teve uma profunda experiência que o levou a decidir se tornar um soldado de Jesus. Gonzalez (1981) cita documento, contendo o testemunho de Loyola na terceira pessoa:

Estando uma noite acordado, viu claramente uma imagem de nossa Senhora com o santo menino Jesus, e com esta visão recebeu por notável espaço de tem- po, uma consolação muito excessiva, e ficou com tanto nojo de toda a sua vida passada, e especialmente de coisas da carne, que parecia haver-se tirado da alma todas as espécies que antes tinha nela pintadas (GONZALEZ ,1981, p.193).

Inicialmente, após a sua recuperação, teve a intenção de ser missionário entre os turcos na Palestina. Chegou a participar dessa missão por algum tempo, colaborando com os franciscanos que ali atuavam. Por ter sido considerado apressado em seus métodos, devido ao seu fervor, os franciscanos temeram que problemas fossem criados, prejudicando a realização do trabalho mis- sionário, solicitaram que ele se retirasse da região. Voltou então para a sua terra e, embora não sendo mais tão jovem, dedicou-se aos estudos em Barcelona, Alcalá, Salamanca e Paris. Reuniu em torno de si companheiros com propósitos semelhantes aos dele. Em 1534 todos fizeram os votos de pobreza, castidade e obediência ao Papa. Surgia então, em 1534, a nova ordem religiosa que, inspirada em princípios e métodos mili- tares, se empenharia bravamente na defesa e na expansão dos ideais católicos romanos. Inicial- mente a ideia era que os Jesuítas atuassem na Palestina, desenvolvendo a atividade missionária entre os turcos, onde Loyola foi impedido de prosseguir na parceria com os franciscanos. Con- siderando, entretanto, a terrível ameaça que o protestantismo representava naquele momen- to, principalmente depois do seu reconhecimento oficial por parte do Papa, em 1540, a nova ordem empenhou-se no seu combate. Isso não impediu que os ideais missionários fos- sem enfraquecidos, pois os Jesuítas atuaram fortemente nas terras longínquas, na medida em que as novas terras iam sendo conquista- das pelas nações católicas. A ideia era, além de cristianizar os pagãos, fazê-lo nos moldes da Igreja de Roma, antes que os protestantes ou outras tendências chegassem. Na Améri- ca Portuguesa, que viria a ser o Brasil, os Je - suítas deixaram a sua influência marcante. Atuaram aqui durante 210 anos (1549-1759), tendo importante participação no processo colonial, especialmente no que diz respeito à educação, uma das suas principais estraté - gias de combate. Essa atuação dos Jesuítas na América Portuguesa tem sido fértil tema de pesquisa por parte de historiadores de di- versas subáreas, especialmente da História da Educação.

◄ Figura 35: Inácio de Loyola, fundador da Companhia de Jesus Fonte: Disponível em <http://pt.wikipedia.org/ wiki/In%C3%A1cio_de_
◄ Figura 35: Inácio de
Loyola, fundador da
Companhia de Jesus
Fonte: Disponível em
<http://pt.wikipedia.org/
wiki/In%C3%A1cio_de_
Loyola>. Acesso em 25
jul.2015.

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Figura 36: Ratio Studiorum

Fonte: Disponível em <https://pt.wikipedia.org/ wiki/Ratio_Studiorum>. Acesso em 26 jul.2015.

UAB/Unimontes - 5º Período Figura 36: Ratio Studiorum Fonte: Disponível em <https://pt.wikipedia.org/ wiki/Ratio_Studiorum>. Acesso em 26

Os Jesuítas se destacaram, portanto, por seus projetos educacionais que serviam tan- to para a catequese, a atividade missionária propriamente dita, de alcance dos povos não cristãos, como para o fortalecimento dos que já professavam a fé católica romana. Além de estudos elementares, desenvolveram nos colégios, níveis superiores de escolarização. Como esses colégios se multiplicaram e a unidade de ação deveria ser mantida para que não se perdessem os objetivos centrais da Companhia, instituiu-se o “Ratio Studio - rum”, um currículo unificado, contendo 467 regras norteadoras ou disciplinadoras da ação educativa nas suas diversas instituições espalhadas pela Europa e pelas terras con- quistadas por Espanha e Portugal. A ação dos Jesuítas na defesa do catoli- cismo romano predominava no campo edu- cacional, visando alcance em diversas áreas da sociedade. Além de alcançar os filhos, for-

mando-os fervorosos defensores da Igreja de Roma e combatentes do protestantismo, estendiam a sua influência também aos familiares, for- talecendo-os na fé que professavam. Além disso, disseminavam o fervor da sua causa aos gover- nantes. Nicols (2006) afirma que, por influência do discurso dos Jesuítas, intensas perseguições foram empreendidas por parte de governantes católicos aos protestantes nos seus domínios.

6.5 O Concílio de Trento e a Contra-Reforma

A necessidade de um concílio geral da Igreja vinha sendo sentida desde que as divergências doutrinárias e as propostas de reformas se intensificavam (MARTINA, 2008). O próprio Martinho Lutero, diante das resistências às suas teses, apelava para que um concílio fosse convocado para avaliar cuidadosamente cada ponto à luz das Escrituras. Outros clamores pela convocação do concílio se fizeram ouvir, já no final do século XV e no início século XVI. Um dos principais moti- vos de resistência por parte de Roma para essa convocação era o temor das tendências “concilia- ristas” que poderiam enfraquecer o poder do papa, transferindo para os concílios a primazia nas decisões eclesiásticas. Essas tendências já haviam sido enfrentadas em séculos anteriores. A tão solicitada convocação do concílio só foi possível após a polarização dos ideais refor- madores. Por um lado, os que entendiam ser necessária uma reforma, além dos comportamen- tos, no cerne doutrinário da Igreja, negando a autoridade do Papa e das tradições e reivindican- do formulação doutrinária sustentada pelo “Sola Scriptura”. Do outro, os que, fiéis aos princípios católicos romanos, desejavam mudanças morais e intensificação da espiritualidade. Ficando cla- ra a impossibilidade de descaracterização doutrinária da Igreja de Roma, o concílio poderia ser, como de fato foi, um instrumento de revitalização e de combate ao protestantismo. O concílio geral foi, assim, convocado para a cidade de Trento, iniciando-se em 1545. Divi- diu-se em três fases: 1545 a 1547; 1551 a 1552 e 1561 a 1563. A realização do concílio, de forma tardia, na opinião geral dos grupos protestantes, foi motivo de duras críticas, principalmente por parte de martinho Lutero. O reformador Alemão publicou, na época, um opúsculo com o provo- cativo título de “Contra o papado romano fundado pelo demônio” (MARTINA, 2008, p. 239), refle - tindo a concepção protestante do caráter antibíblico e, portanto, ofensivo a Deus da hierarquia romana, chamada pejorativamente de “papista” pelos protestantes. Mas, na sua primeira fase, o maior obstáculo enfrentado pelo concílio não foi as temidas reações protestantes, inclusive de ataques militares (MARTINA, 2008, p. 239), mas fatores internos, como a falta de um organizado plano de trabalho. Alongaram-se as discussões referentes às estratégias que deveriam ser segui-

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das. Houve intenso debate se seriam priorizadas as questões dogmáticas ou aquelas referentes à renovação moral da Igreja. Pela composição da assembleia, era possível prever que as discussões dogmáticas se restringiriam à sistematização e fundamentação das doutrinas já consagradas pela tradição, uma vez que os grupos divergentes já não participavam dessas discussões. Mesmo com as dificuldades internas enfrentadas, ainda nessa primeira fase, o Concílio de Trento aprovou um dos pilares dogmáticos do catolicismo romano: “o decreto sobre a Escritura

Sagrada e a Tradição” (MARTINA, 2008, p. 240). É decretado pelo concílio que ambas, Escritura e

Tradição, “o concílio (

...

)

recebe e reverencia com igual sentimento e veneração” (Apud, MARTINA,

2008, p. 240). Esse decreto básico, fundamental, afasta definitivamente a Igreja Católica Romana do protestantismo arraigado na afirmação “Sola Scriptura”. A autoridade divina que determina a fé e a prática do católico romano está em dupla fonte: Escritura e Tradição. Para o protestante, só a Bíblia é inspirada por Deus, portanto, única regra de fé e de prática. Essa diferença de fonte da revelação divina implicará as demais divergências entre essas duas vertentes do cristianismo. Além da tradição da Igreja, considerada como autoridade de fé, o concílio, em 1546, afirmou a autoridade dos sete livros do Antigo Testamento, chamados pelo catolicismo de “deuterocanôni- cos”. São eles: Tobias, Judite, Primeiro e Segundo livros de Macabeus, Sabedoria, Eclesiástico e Ba- ruque. A palavra “deutero”, de raiz grega significa “segundo”, isto é, reconhecidos posteriormente como parte do Cânon bíblico e, portanto, de inspiração divina. Esses livros são chamados pelos

protestantes de “livros apócrifos”, ou seja, não inspirados por Deus. Para isso apresentam vasta argumentação, a começar pelos argumentos históricos relacionados ao próprio posicionamento do judaísmo, produtores e guardiães do Antigo Testamento. Não é nosso objetivo discutir esses argumentos aqui. Cumpre-nos, nessa discussão, compreender que aqui há mais um ponto de de - limitação das fronteiras entre Reforma e Contra-Reforma. As Bíblias adotadas pelo catolicismo e pelo protestantismo são idênticas em todos os pontos, exceto, no Antigo Testamento. Os protes- tantes adotam os 36 livros, menos os sete por eles chamados de “apócrifos” e chamados pelos católicos romanos de “deuterocanônicos”. Outras reafirmações doutrinárias contrapuseram-se à fé protestante. A justificação, segundo o Concílio de Trento, não era pela fé somente, mas também por boas obras. Contrapõe-se tam- bém com as afirmações: “Sola Gratia” e “Sola Fide”, pilares das convicções protestantes. Foram reafirmados os sete sacramentos contra os protestantes que entendem que, à luz da Bíblia, só dois deles procedem: o batismo e a eucaristia. Além dessas importantes decisões dogmáticas, foi nessa primeira fase que o Concílio de Trento formulou os decretos sobre os abusos eclesiásticos. Além da resistência ao protestantismo, encaminhou-se a reforma considerada necessária e possí- vel no interior da Igreja de Roma. Nas sessões seguintes, além de doutrinas importantes para o catolicismo como a tran- substanciação, o celibato dos padres, a doutrina do purgatório, entre outras, formuladas ou reafirmadas segundo a sua dupla fonte de autoridade: A Bíblia e a Tradição da Igreja (CAIRNS, 1984, p. 286).

◄ Figura 37: Concílio de Trento Fonte: Disponível em <http://cleofas.com.br/ historia-da-igreja-o-conci- lio-de-trento/>. Acesso em 29 jul.2015.
◄ Figura 37: Concílio de
Trento
Fonte: Disponível em
<http://cleofas.com.br/
historia-da-igreja-o-conci-
lio-de-trento/>. Acesso em
29 jul.2015.

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6.6 Contra-Reforma e Repressão

Desenvolveu-se durante a Idade Média a ideia de que era justo o emprego da força para re - primir crenças e práticas consideradas heréticas. No período da Contra-Reforma, tais ideias foram revigoradas com a intenção de conter as ideias protestantes e outras que representassem ameaça à ortodoxia romana. Entre as medidas repressivas adotadas pelos agentes de contenção do pro- testantismo foi o índex librorum prohibitorum, o índice de livros proibidos. Pelo decreto do Papa Paulo IV, em 1559, elaborou-se uma lista de livros que, por serem objetos de discordância da Igreja, foram proibidas a sua divulgação e leitura. Entre eles, encontravam-se os escritos protestantes em geral, versões da Bíblia (a única admitida era a Vulgata, em latim, de consulta quase exclusiva do clero), escritos humanistas em geral, científicos, entre outros. Esse instrumento de controle da Igre - ja perdurou por séculos, sendo inclusive reformulado em 1948. Só veio a ser revogado em 1966.

Figura 38: Index Librorum Prohibitorum

Fonte: Disponível em <http://www.smu.edu/

Bridwell/SpecialCollec-

tionsandArchives/Exhi-

bitions/HeresyandError/ EcclesiasticalCensorship/ Indexlibrorum>. Acesso em 30 jul.2015.

UAB/Unimontes - 5º Período 6.6 Contra-Reforma e Repressão Desenvolveu-se durante a Idade Média a ideia de

Outro instrumento de repressão utilizado pela Contra-Reforma foi a inquisição. Como já vimos, essa crença na autoridade da Igreja para reprimir a heresia, ainda que se utilizando da força, desenvolveu-se ao longo do período medieval. Intensificou-se no século XV. Embo - ra sempre tenha alcançado diversas formas de heterodoxia, e normalmente associada a grupos específicos, como os judeus, mesmo os que, convertendo-se ao cristianismo, eram julgados praticantes de elementos estranhos à fé cristã, esposada pela Igreja de Roma. Pin- to (2010), além de analisar os procedimentos do Tribunal do Santo Ofício no julgamento dos acusados e na execução dos condenados, discute as origens da inquisição, encontran- do evidências da sua prática já no século IX. Aponta as diversas transformações pelas quais passou essa prática até aos decretos papais que a regulamentavam em diferentes contex- tos, alcançando diferentes adversários. A in- quisição moderna inclui-se como elemento da

Contra-Reforma:

Ademais, a Inquisição Espanhola (1478–1821), cujo âmbito de atuação se esten- deu em um segundo momento à América, foi precursora da Inquisição Portu- guesa (1536–1821) e da Inquisição Romana (1542–1965). A utilização do Tribunal do Santo Ofício como braço do poder real é um dado indiscutível, sobretudo durante os séculos XVI e XVII, quando consistiu no principal instrumento apto a preservar o poder dos soberanos e conferir efetividade a suas determinações. A religião, a moral e o direito estavam visceralmente ligados, amalgamados e, des- sa forma, havia a interferência de dogmas e de argumentos de matizes divinas na própria estruturação juridicopolítica do Estado, cujas ações passaram a gozar de uma “legitimação eclesiástica” (PINTO, 2010, p. 194).

A partir do surgimento do protestantismo, a inquisição é relacionada à repressão, como instrumento de Contra-Reforma. Por tratar-se de instituição complexa e com diversos desdobra- mentos em diferentes contextos, Betthencourt (2000), na sua ampla análise desse fenômeno, prefere usar o termo “inquisições”. Entende ser inadequado o tratamento no singular pelas dife - rentes características e motivações inquisitoriais, dependendo do ambiente em que era pratica- da. Sobre os métodos da inquisição ou inquisições, Pinto (2010) afirma:

Na prática, tanto na Inquisição Medieval quanto na Inquisição Moderna não se preocuparam em extirpar todos os hereges, os quais, na verdade, eram aleato- riamente caçados e se não fossem encontrados, eram criados para servirem de símbolo visando, dessa maneira, incutir-se no imaginário popular o risco abstra- to de uma condenação pelo Tribunal do Santo Ofício. Para tal intento, bastavam poucos processos, um número reduzido de execuções públicas de cenografia

Ciências da Religião - Cosmovisão das Religiões: Reforma e Contra-Reforma

bem chocante e impressionante, a manutenção do mito dos segredos inquisito - riais e das terríveis torturas a que eram submetidos os acusados, a exaltação da vergonha e a da ruína econômica de uns poucos infelizes, para, assim, manter-se a totalidade das pessoas em um estado de plena submissão à autoridade moral da Igreja, agora visceralmente vinculada ao poder secular. Os condenados à fo- gueira “eram despojados de seus sambenitos após o auto, e antes de chegarem à fogueira, pois os hábitos que usavam eram colocados nos muros das igrejas paroquiais como bandeiras arrancadas do inimigo, para perpetuar a memória de sua vergonha e advertir seus descendentes. Quando o hábito apodrecia, era substituído por pedaços de tela amarela, com nome, família, delito e pena do condenado. Um dos deveres do inquisidor, quando fazia as inspeções periódicas a seus distritos, era examinar nas igrejas os sambenitos e os pedaços de tela para ver se estavam sendo devidamente conservados. As igrejas acumulavam cente - nas de sambenitos, regularmente restaurados como uma espécie de fichário de um monstruoso arquivo policial (PINTO, 2010, p. 195).

A inquisição, portanto, não foi um elemento instituído pelo movimento de Contra-Reforma. Existia antes do surgimento do protestantismo. Foi, porém utilizada, servindo assim ao seu anti- go objetivo, o de combate a todas as formas de heresia, visando à pureza da Igreja, a honra da fé, o bem dos faltosos que se arrependessem dos desvios cometidos e o temor nos seguidores potenciais dessas heresias.

6.7 Avaliação da Contra-Reforma

Toda Avaliação de um processo tão complexo como o da Contra-Reforma é parcial e está sujeito a diversas releituras. Arrolaremos aqui apenas alguns aspectos gerais, com o objetivo de estimular investigações que aprofundem a compreensão dos efeitos desse movimento de tão re - levante importância para se compreender a formação sócio-histórica do mundo ocidental. Lem- brando as teses weberianas já discutidas, quando analisamos o protestantismo, torna-se perti- nente avaliar os possíveis impactos sociais da chamada reforma católica.

Burke (

),

ao avaliar a influência das reformas religiosas do século XVI na cultura popular,

.... não deixa de enfatizar a reforma católica como elemento de grande importância para as refor- mulações de costumes e a implantação de novos padrões morais. Essas mudanças são reflexo da atuação do Clero que, tendo formação mais cuidadosa nos novos seminários criados e os que foram reformulados para uma melhor preparação daqueles que deveriam guiar o povo na sua fé. Segundo Nicols (2013), a reforma católica, embora não podendo ser analisada como um fenô- meno homogêneo com resultados facilmente compreendidos é possível afirmar que conseguiu revigorar a Igreja de Roma, dando-lhe um espírito novo. Para ele,

tanto clérigos quanto leigos experimentaram, em muitos lugares, um reaviva- mento da fé do zelo romanistas que se manifestou numa devoção aos interesses dessa Igreja e ao bem estar do próximo (NICOLS, 2013, p. 187).

Esse despertar no catolicismo foi o grande combustível para as suas ações de resistência a novas ideias, inclusive as protestantes. Serviu também para impulsionar a ação missionária, o avanço para outras terras e outros povos por meio das ordens religiosas, cujos membros se sub- metiam a diversos sacrifícios, sustentados pelo seu amor à Igreja que, para eles, era indissociável do amor a Deus a ao próximo. O ponto que normalmente é considerado negativo, do ponto de vista cristão, tanto católico como protestante, foram as violentas guerras travadas para conter o avanço das ideias protestantes. Entre elas a guerra dos trinta anos (1618-1648).

ATiVidAde

Analise e discuta com os seus colegas os aspectos do movi- mento estudado nesta unidade que justificam o emprego do termo “Contra-Reforma” e os que caracterizam o refe - rido movimento como “Reforma Católica”.

Referências

BETHENCOURT, Francisco. História das inquisições: Portugal, Espanha e Itália Séculos XV a XIX. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

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Ciências da Religião - Cosmovisão das Religiões: Reforma e Contra-Reforma

resumo

Na unidade 1, você estudou:

Termos e perspectivas do estudo do tema “Reforma e Contra-Reforma”.

Conceitos e abordagens pertinentes ao tema.

Como esse tema tem sido discutido nas diversas áreas das ciências sociais.

Principais autores que servem de referência para análise do tema em geral.

Na unidade 2, vimos:

As transformações ocorridas no cristianismo medieval, referindo-se aos primeiros séculos

Na unidade 3, você viu:

da era cristã. O contexto em que surgiram os apelos por uma reforma da Igreja.

As primeiras tentativas de reforma ou antecedentes históricos da Reforma Protestante do

Século XVI.

Principais movimentos protestantes do século XVI.

Na unidade 4, observamos:

Vida e obra dos líderes dos movimentos protestantes.

Convergências e divergências entre os movimentos protestantes nas diversas partes da Eu-

ropa.

Movimentos protestantes que divergiam do movimento tradicional.

Na unidade 5, estudamos:

A expansão do protestantismo e as características do protestantismo instalado em cada

região. As confissões reformadas dos séculos XVI e XVII e sua relevância para a consolidação e ex-

pansão do protestantismo.

Os credos religiosos e a construção social a partir de uma visão de mundo.

A abordagem weberiana sobre a ética protestante.

As diversas influências da visão de mundo protestante, devido às suas convicções religiosas, como influenciaram em diversos aspectos da sociedade.

Na unidade 6, você viu:

Os conceitos de Reforma católica e Contra-Reforma católica. A existência de apelos reformadores ao longo da Idade Média, intensificando-se nos séculos XV e XVI. As vertentes da necessidade da reforma, apenas no que diz respeito às questões morais, de comportamento e a que entendia ser necessária reformulação doutrinária. Com o surgimento do protestantismo, a reforma católica adquiriu novos objetivos, tendo em vista as pressões externas, oriundas daquele movimento. Principais elementos da Contra-Reforma, a ordem dos Jesuítas e outras ordens, o Concílio de Trento e a Inquisição.

Ciências da Religião - Cosmovisão das Religiões: Reforma e Contra-Reforma

referências

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Complementares

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SOUZA, Laura de Mello e. o diabo e a Terra de Santa Cruz: feitiçaria e religiosidade popular no Brasil Colonial. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

UAB/Unimontes - 5º Período

VILLAS-BOAS, Ester Fraga. origens da educação Presbiteriana em Sergipe (1884-1913). São Cristóvão- SE: UFSE (Dissertação de Mestrado)

WEBER, Max. A Ética Protestante e o espírito do Capitalismo. 10. ed. São Paulo: Pioneira, 1996.

Ciências da Religião - Cosmovisão das Religiões: Reforma e Contra-Reforma

Atividades de Aprendizagem - AA

1) De acordo com a visão de mundo reformada, especialmente a vertente calvinista, o conceito de “Reforma” extrapola os objetivos do movimento do século XVI. Trata-se de um exercício per- manente para o indivíduo e para a comunidade. Qual é esse entendimento de “Reforma”?

2) Quais as doutrinas consideradas fundamentais para o protestantismo?

3) Quais as implicações sociais do conjunto de crenças do protestantismo?

4) Quais os principais movimentos do protestantismo clássico e onde ocorreram?

5) Qual o movimento denominado “reformadores radicais” ?

6) Por que a Igreja da Inglaterra não era aceita pelos protestantes reformados?

7) Em quais os sentidos são utilizados os termos “Reforma católica” ou “Contra-Reforma” para se designar o esforço de renovação da Igreja Católica Romana?

8) Quais elementos são considerados fundamentais para o sucesso da Contra-Reforma?

9) O Concílio de Trento reafirmou diversas doutrinas da Igreja de Roma que foram decisivas para a separação definitiva entre católicos e protestantes. Qual dessas é considerada geradora de to- das as demais?

10) Elabore um comentário, fazendo uma avaliação pessoal dos movimentos Reforma e Contra -Reforma.