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Os santos ícones

Do Capítulo VI, «Dimensões da Redenção»,


da
Collected Works of Georges Florovsky, Vol.
III:
Creation and Redemption (Nordland
Publishing Company):
Belmont, Mass., 1976), pp. 209-212.

Primeiro Domingo da Grande Quaresma é o Domingo da Ortodoxia.


Ele foi estabelecido como um dia memorial especial pelo Concilio de
Constantinopla em 843. Ele comemora antes de tudo a vitória da Igreja
sobre a heresia dos Iconoclastas: o uso e veneração dos Santos Ícones
foi restaurada. Neste dia nós continuamos a cantar o tropário da Santa
Imagem de Cristo: «Nós reverenciamos Tua sagrada Imagem, ó
Cristo...»

Á primeira vista, pode parecer ser uma ocasião inadequada para comemorar a glória da Igreja
e todos os heróis e mártires da Fé da Igreja. Não seria mais razoável fazer isto nos dias
dedicados à memória dos grandes Concílios Ecumênicos ou dos Santos Padres da Igreja? A
veneração do Ícone não é mais uma peça de um ritual e cerimonial externo? Um Ícone
pintado não é justamente mais uma decoração, muito bonita de fato, e de diversas maneiras
instrutiva, mas dificilmente um artigo de Fé? Esta é a opinião corrente, infelizmente
largamente espalhada mesmo entre os próprios Ortodoxos. E é a responsável por um pesaroso
decaimento da nossa arte religiosa. Nós usualmente confundimos Ícones com «pinturas
religiosas», e assim não encontramos dificuldade em usar as mais inadequadas pinturas como
Ícones, mesmo nas nossas igrejas. Com excessiva freqüência nós simplesmente perdemos o
significado religioso dos Santos Ícones. Nós esquecemos do verdadeiro e definitivo propósito
dos Ícones.

Olhemos o testemunho de São João Damasceno — um dos primeiros e maiores


defensores dos Santos Ícones na época da luta — o grande teólogo e poeta devocional da
nossa Igreja. Em um de seus sermões em defesa dos Ícones ele diz: «Eu tenho visto a imagem
humana de Deus e minha alma está salva». É uma afirmação forte e mobilizadora. Deus é
invisível, Ele vive na luz inaproximável. Como pode um homem frágil ver ou contemplar
Ele? Porém, Deus Se manifestou na carne. O Filho de Deus, Que está no seio do Pai, «desceu
do céu» e «Se fez homem». Ele habitou entre os homens. Este foi o grande movimento do
Amor Divino. O Pai Celestial foi movido pela miséria do homem e enviou Seu Filho porque
Ele amava o mundo. «Deus nunca foi visto por alguém. O Filho Unigênito, Que está no seio
do Pai, Este o fez conhecer». (Jo. 1: 18). O Ícone de Cristo, Deus Encarnado, é um
testemunho contínuo da Igreja para aquele mistério da Santa Encarnação, que é a base e
substância de nossa fé e esperança. Cristo Jesus, nosso abençoado Senhor, é Deus Encarnado.
Isto significa que desde a Encarnação Deus é visível. Pode-se ter agora uma verdadeira
imagem de Deus. A Encarnação é uma identificação íntima e pessoal de Deus com o homem,
com as necessidades e misérias do homem. O Filho de Deus «Se fez homem», como afirma o
Credo, «e por nós homens e para nossa salvação». Ele tomou sobre Si os pecados do mundo,
e morreu por nós pecadores na árvore da Cruz, e assim Ele fez da Cruz a árvore da vida para
os fiéis. Ele Se tornou o novo e Último Adão. A Cabeça da nova e redimida humanidade. A
Encarnação significa uma intervenção pessoal de Deus na vida do homem, uma intervenção
do Amor e Misericórdia. O Santo Ícone de Cristo é um símbolo disto, mas muito mais do que
um mero símbolo ou sinal. É também um eficiente sinal e recordação da presença em
habitação de Cristo na Igreja, que é Seu Corpo. Mesmo em uma pintura comum há sempre
algo da pessoa representada. Uma pintura não só nos lembra da pessoa, mas de alguma forma
conduz a alguma coisa dela, isto é, «representa» a pessoa, ou seja, «torna ela presente de
novo». Isto é ainda mais verdade com a sagrada Imagem de Cristo. Como os professores da
Igreja nos ensinaram — especialmente São Teodoro o Estudita, outro grande confessor e
defensor dos Santos Ícones — um Ícone, em certo sentido, pertence á própria personalidade
de Cristo. O Senhor está lá, nas Suas «Santas Imagens».

Por isso, nem todo mundo tem permissão para fazer ou pintar um Ícone, se se tratar de
verdadeiros Ícones. O pintor de Ícones deve ser um membro fiel da Igreja, e deve se preparar
para sua tarefa sagrada com jejum e oração. Não se trata somente de uma questão de arte, ou
de habilidade artística ou técnica. É um tipo de testemunho, uma profissão de fé.

Pela mesma razão, a arte em si deve ser subordinada de todo o coração à regra da fé.
Há limites para a imaginação artística. Existem certos padrões estabelecidos a serem
seguidos. Em todo caso, o Ícone de Cristo deve ser executado de maneira a conduzir à
verdadeira concepção de Sua pessoa, isto é, testemunhar a Sua Divindade, ainda que
Encarnada.

Todas estas regras foram mantidas por séculos na Igreja, e então elas foram
esquecidas. Até mesmo descrentes foram autorizados a pintar ícones de Cristo nas igrejas, e
assim certos «ícones» modernos não são mais do que pinturas, nos mostrando somente um
homem. Estas pinturas falham em ser «Ícones» em qualquer sentido próprio e verdadeiro, e
cessam de ser testemunhas da Encarnação. Em tais casos, nós simplesmente «decoramos»
nossas igrejas.

O uso dos Santos Ícones sempre foi uma das características mais distintivas da Igreja
Ortodoxa Oriental. O Ocidente Cristão, mesmo antes do Cisma, tinha pouco entendimento
desta substância dogmática e devocional da pintura de Ícones. No Ocidente ela significava
simplesmente decoração. E foi sob influência ocidental que a pintura de Ícones também se
deteriorou no Oriente Ortodoxo nos tempos modernos. O decaimento da pintura de Ícones foi
um sintoma do enfraquecimento da fé. A arte dos Santos Ícones não é uma matéria neutra.
Ele pertence à Fé.

Não deve haver risco, nem «improvisação» na pintura de nossas igrejas. Cristo nunca
está sozinho, afirma São João Damasceno. Ele está sempre com Seus santos, que são Seus
amigos para sempre. Cristo é a Cabeça, e os verdadeiros fiéis são o Corpo. Nas igrejas antigas
o estado completo da Igreja Triunfante estava representado pictorialmente nas paredes. De
novo, isto não era simplesmente uma decoração, nem era uma simplesmente uma história
contada em linhas e cores para os ignorantes e iletrados. Era mais uma visão da realidade
invisível da Igreja. A companhia toda do Céu estava representada porque ela estava presente
ali, apesar de invisivelmente. Nós sempre oramos na Divina Liturgia, durante a Pequena
Entrada, «que os Santos Anjos entrem conosco para servirem conosco...». E nossa oração é,
sem dúvida, atendida. Nós não vemos os Anjos, na verdade. Nossa visão é fraca. Mas é
relatado que São Serafim costumava vê-los, pois eles estavam lá de fato. Os eleitos do Senhor
os vêem e a Igreja Triunfante. Ícones são sinais desta presença. «Quando nós estamos no
templo de Tua glória, nós os vemos nos Céus».

Assim, é bastante natural que no Domingo da Ortodoxia nós devamos celebrar não
somente a restauração da veneração dos Ícones, mas comemorar também o glorioso corpo de
testemunhas e fiéis que professaram sua fé, mesmo ao custo de sua segurança, prosperidade e
a própria vida mundana. É o grande dia da Igreja. De fato, nesse dia nós celebramos a Igreja
do Verbo Encarnado: nós celebramos o Amor redimidor do Pai, o Amor Crucificado do
Filho, e o Companheirismo do Espírito Santo, tornados visíveis na companhia toda dos fiéis,
que já entraram no Repouso Celeste, na alegria Permanente do Senhor e Mestre deles. Santos
Ícones são nossas testemunhas do Reino que há de vir, e já presente.

FONTE:

Folheto Missionário P095w | Editor: Bispo Alexandre Mileant


Fonte: https://www.ecclesia.com.br/biblioteca/iconografia/os_santos_icones.html