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Aula 02: História e Cultura (2018) “História da história cultural”: 4 fases – Clássica,

História social da arte (1930), História da cultura


Ideia da aula: postular temas e problemas popular (1960) e a Nova história cultural. (16)

1 – O que é cultura? Clássica


2 – Artes x manifestações cotidianas
3 – Zeitgeist: “espírito de uma época” Ideia: historiador pinta “Retratos de uma época” (1800
4 – Aspectos culturais de manifestações econômicas, a 1950).
políticas (Weber)
5 – Relação da cultura e da sociedade – cultura x A cultura do Renascimento na Itália, Jacob Burckhardt
politica x economia. Reflexo? (1860) e Outono da Idade Média (1919), Johan
Huizinga.
Texto 1: Peter Burke – O que é História Cultural
Ambos: amadores de arte, entender obras em seu
contexto histórico. Conexões entre diferentes tipos de
História Cultural redescoberta nos anos de 1970 – arte. ZEITGEIST – “ESPÍRITO DA ÉPOCA” (Hegel e
desde então vem passando por renovações. outros filósofos). Uma “História da cultura”.

Pergunta: O que historiadores culturais fazem? CENTRAL: Ideia se desenvolve na ALEMANHA antes
Amplo espectro do que se considera como teoria e que ela fosse uma comunidade política, uma nação, ela
prática da história cultual. “Guarda-chuva” que engloba era uma COMUNIDADE CULTURAL. (17)
temas e problemas de pesquisa.
Burckhardt: Se baseava em: ELEMENTOS
Pergunta – O que é cultura? RECORRENTES, CONSTANTES, TÍPICOS, PRODUZINDO
Antes associada a manifestações artísticas, “GENERALIZAÇÕES”.
movimentos artísticos – cultura letrada, erudição,
produção intelectual. Huizinga (1929): achar PADRÕES DE CULTURA,
descrever SENTIMENTOS característicos de uma época
HOJE: CULTURA – SITUAÇÕES COTIDIANAS, SENTIDO e suas incorporações em obras de arte. “ideais de
AMPLIADO – CULTURA = SOCIEDADE. ASPECTOS DO vida”, formas e padrões de comportamento.
VIVER EM SOCIEDADE.
Da sociologia à História da arte
RESULTADO: FRONTEIRAS DO TEMA SE AMPLIARAM.
Atenção, então, o se voltou para o MÉTODO. Max Weber – A ética protestante e o espírito do
capitalismo (1904) – raízes culturais do capitalismo –
Várias vertentes. TERRENO COMUM: SIMBÓLICO e “cultura do capitalismo” – explicação cultural para
suas interpretações. Símbolos estão em toda parte, na mudança econômica. (20)
arte e na vida comum.
Norbert Elias: O processo civilizador (1939), usou Mal
Tradição francesa: IMAGINÁRIO SOCIAL, estar na civilização (1930), de Freud. Desenvolvimento
MENTALIDADE COLETIVA; gradual do autocontrole sobre emoções nas Cortes da
Europa Ocidental. – Escrever sobre a civilização e não
Tradição inglesa: SOCIAL. sobre a cultura.

Peter Burke: se diz historiador cultural e afirma praticar Ernst Gombrich: “esquemas culturais” – biografias
diferentes abordagens: história social da cultura intelectuais.
elevada e cultura popular; antropologia histórica,
história da performance. (12) A grande diáspora

Capítulo 1 – A grande Tradição: A partir dos anos de 1930, depois de Hitler no poder.
Cientistas e intelectuais vão para outros lugares,
História cultural não é descoberta nova. Já na incluindo EUA.
Alemanha, 200 anos antes. Antes disso, 1780, história
das culturas humanas, regiões e nações. EUA: cursos sobre CIVILZAÇÃO, mais que sobre
CULTURA. “História das Ideias”.
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Pergunta: História cultural está condenada a ser
Na Grã-Bretanha: História cultural – Shakespeare. E impressionista? História serial? (livros, testamentos,
depois preocupação com relações entre cultura e escritoras, panfletos políticos? – anos 1960)
sociedade.
CRÍTICA MARXISTA: À abordagem “Clássica”:
Cultura como expressão ou reflexo da sociedade:
Arnold Hauser, marxista – História social da arte – 1 - ela “fica no ar”, falta-lhe base econômica e social –
cultura pensada a partir de conflitos sociais e “Quais são as fundações econômicas do
econômicos. renascimento?” e da peste negra?

2 – Superestimar HOMOGENEIDADE CULTURAL e


A descoberta do povo IGNORAR CONFLITOS.

Ideia de “CULTURA POPULAR” já na Alemanha no XVIII. Thompson fala de “noções excessivamente


Canções e contos populares, deixada para o FOLCLORE. consensuais”.

1959 – História social do Jazz, Francis Newton Preciso: identificar diferentes culturas, culturas
(pseudônimo de Hobsbawm) – um dos primeiros a diferentes de classes sociais diferentes, homens,
estudar a cultura popular por outro viés. mulheres, gerações.

JAZZ – como negócio e forma de protesto político e


social (historiador econômico e social) PROBLEMAS DA HISTÓRIA MARXISTA

THOMPSON: A formação da classe operária (1963) – o Cultura é apenas “superestrutura”? algo que teria sido,
lugar da cultura no processo de formação da classe – hipoteticamente, subestimado por Marx.
simbolismos de alimentos, rituais, iconografia, poesia –
ESTRUTURA DE SENTIMENTOS DA CLASSE Thompson foi criticado por outros marxistas, chamado
TRABALHADORA. de “CULTURALISTA” – por dar ênfase na experiência e
nas ideias (37).
Influência: na “história vista de baixo”.
TENSÃO CULTURALISMO X ECONOMICISMO

CAPÍTULO 2 – “PROBLEMAS DA HISTÓRIA CULTURAL” NOTA: Falar como Thompson vai resolver isso em
artigo sobre Antropologia.
Problemas dos clássicos
Raymond Williams: chamou base “estrutura-
Outono da Idade Média, Huizinga superestrutura” de muito “rígida” e preferia falar em
“relações entre elementos no modo de vida como um
1 - RECORTE (TENTAÇÃO) usou poucas fontes, usando- todo”. Pensava em termos de “HEGEMONIA CULTURAL”
as repetidas vezes. Poderia ter recorrido, por exemplo, (Antonio Gramsci) – classes dominantes exercem poder
a outros escritores. não só pela força, mas por ideias. (38)
2 – Tratar textos e imagens como ESPELHOS DE ÉPOCA
Questão central: BURKE – diz que crítica de Thompson
Burckhardt, A cultura do renascimento às GENERALIZAÇÕES ameaça jogar história da CULTURA
EM “FRAGMENTOS”.
1 - Falou do testemunho “involuntário” – dizer e saber
coisas involuntariamente. PERGUNTA: É possível estudar as culturas como um
2 - Problema: PENSAR QUE ARTE, ROMANCES SÃO todo, sem fazer falsas suposições sobre a
SEMPRE DESINTERESSADOS, livres de paixão e homogeneidade cultural?
propaganda.
RESPOSTAS PROPOSTAS:
Ambos: chamados de “impressionistas” – observar
aquilo que nos interessa. 1 – Estudar tradições culturais

2
2 – Tratar cultura erudita e popular como
“subculturas”, parcial embora não inteiramente Crescente preocupação ANTROPOLÓGICA com o
separadas ou autônomas. cotidiano.

CONCLUSÃO: HISTORIADORES SE APROPRIAM DA


NOÇÃO ANTROPOLÓGICA DE CULTURA. 43

Os paradoxos da tradição

Tradição: conhecimentos e habilidades legados por CAPÍTULO 3 – A VEZ DA ANTROPOLOGIA


uma geração para a seguinte. Como muitas tradições
podem COEXISTIR, libera historiadores culturais da 1960-1990: VIRADA EM DIREÇÃO À ANTROPOLOGIA da
suposição de homogeneidade ou uma “era”. História cultural.

Problema: Tradição “imóvel”? Signos externos podem Historiadores: “aprenderam a usar o termo “cultura”
mascarar a inovação da tradição. “CONFLITO INTERIOR no sentido amplo” + usar termo “cultura” no plural.
DAS TRADIÇÕES” – DISPUTA INEVITÁVEL ENTRE REGRAS
UNIVERSAIS sempre em transformação. Expansão da cultura

“HISTÓRIA CULTURAL DE TUDO”: Psicologia cultural


Cultura popular em Questão (impulsos idênticos), ações simbólicas na política,
culturas específicas, do “mérito”, “do jogo”, “do amor”,
Outra alternativa para fugir da “homogeneidade” “do protesto”, etc.
cultural dividi-la entre erudita e popular
CONCLUSÃO: “EXPANSÃO DO IMPÉRIO DA CULTURA”
Cenário: assim como Zeitgeist e “superestrutura”,
noção de “cultura popular” se tornou fonte de debate. A hora da Antropologia histórica

PROBLEMA: quem é o povo? Quem não é da elite? Há Marcel Mauss (fenômeno do Dom), Evans-Pritchard
homogeneidade entre os excluídos? Culturas populares (bruxaria), Mary Douglas (pureza) e Clifford Gertz,
no plural? Cultura “feminina” x “masculina”? Podemos sobre Bali.
pressupor que pessoas de status elevado, riqueza e
poder, são necessariamente diferentes, no que diz Keith Thomas – um dos pioneiros da antropologia
respeito à cultura, das pessoas comuns? histórica britânica. (Astrologia e feitiçaria) Religião e
declínio da magia, 1971.
[Livros populares na França XVII lido por todos]
Nathalie Zemon Davis – Pureza e Perigo – violência
ROGER CHARTIER: DEFENDE QUE É IMPOSSÍVEL comunitária da época – “ritos de violência”,
ROTULAR OBJETOS OU PRÁTICAS CULTURAIS COMO linchamento para purificar a comunidade local da
“POPULARES”. (42) nódoa da heresia. (50)

Outra questão: INTERAÇÃO ENTRE CULTURAS. Linguistas, Semiótica, influência de Claude Lévi-Strauss.
Le Goff e Emmanuel Le Roy.
O QUE É CULTURA:
Maior influência: Clifford Gertz (EUA) e sua “TEORIA
Termo “cultura” ainda é mais problemático – “história INTERPRETATIVA DA CULTURA” (51)
da cultura” – conceito vago (Burckhardt)
CULTURA PARA GEERTZ: “um padrão, historicamente
Antes: “Alta cultura” (artes e ciências) transmitido, de significados incorporados em símbolos,
Depois: se ampliou para os lados (ampla gama de um sistema de concepções herdadas, expressas em
artefatos) formas simbólicas, por meio das quais os homens se
comunicam, perpetuam e desenvolvem seu
Depois: Olhar antropológico para a cultura conhecimento e suas atitudes acerca da vida” (52)
(Malinowski, 1931) – artefatos, técnicas, bens, ideias,
hábitos e valores.
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Método: “descrição densa” para entender esses CAPÍTULO 4 – “Um novo paradigma?”
símbolos. (Brigas de galo em Bali) Interpretação das
culturas – trata as brigas de galo como texto – Antropologia inspirou autores dos anos 1970 e 1980,
“dramatização das preocupações com o status”. mas há ainda outras inspirações para NOVA HISTÓRIA
Inspirado em teórico da LITERATURA (Kenneth Burke) CULTURAL

DARNTON: O grande massacre de gatos (1984) – “LER 1989 – Lynn Hunt publica A nova história cultural (NHC)
UM RITUAL” PARA CAPTAR A “ALTERIDADE”, um mundo
diferente do seu, distante. Começa pela risada dos A palavra “nova” para distinguir do que havia sido feito
aprendizes – “nossa incapacidade de perceber a anteriormente e distinguir da história social. Uma
piada” – para entender cultura e contexto dos tentativa de resposta aos desafios colocados acima.
trabalhadores.
DIFERENÇA: Preocupação com a TEORIA
INTERESSE HISTÓRICO PELOS RITUAIS: Natalie Zemon
Davis (charivaris), Thompson (rough music, venda de QUATRO TEÓRICOS:
esposas, etc.) Mikhail Bakhtin – Norbert Elias – Michel Foucault –
Pierre Bourdieu.
CENTRAL: O QUE FEZ A ANTROPOLOGIA PARA
HISTÓRIA BAKHTIN: teórico da linguagem e da literatura –
Cultura popular na Idade média e no Renascimento
Emmanuel Le Roy e Daniel Roche (FRA), Natalie Z. (1965)
Davis e Lynn Hunt (EUA), Ginzburg (ITA) se diziam Conceitos: “carnavalização”, “destronar”, “linguagem
marxistas e partir da década de 1960 voltam-se para a do mercado”, “realismo grotesco” – RITUAIS DE
antropologia como maneira alternativa de vincular DESSACRALIZAÇÃO
cultura e sociedade, uma maneira que não reduzisse a
primeira a um reflexo da segunda. 56 Destaca: IMPORTANCIA DA SUBVERSÃO E A
PENETRAÇÃO DA “ALTA” CULTURA PELA “BAIXA”,
Interesse pela cultura popular: aumentou ainda mais a especialmente por meio do RISO POPULAR. –
aproximação dos historiadores com a Antropologia. “diferentes vozes que podem ser ouvidas num texto”.

Ao microscópio NORBERT ELIAS: sociólogo, interessado em história e


cultura. O processo civilizador (1939)
Na década de 1970 – micro-história, Ginzburg e Levi.
Conceitos: “Fronteira da vergonha” e “fronteira da
O que foi: reação contra um certo tipo de história repugnância” que foram expulsando da sociedade um
social (métodos quantitativos, tendências gerais). número cada vez maior de formas de comportamento.
Reação que foi de encontro à Antropologia. Procurar Outro conceito: “pressão social pelo controle”.
rostos na multidão, fugir do DETERMINISMO SOCIAL e
Econômico. Termo: “Civilidade”
Crítica: a) superestima a influência das cortes e
Estudo de caso: ver POSSIBILIDADES DE AÇÃO DO subestima a das cidades; b) suposição que “civilização”
SUJEITO HISTÓRICO. é um fenômeno fundamentalmente ocidental.

O QUEIJO E OS VERMES – Menocchio e uma nova FOUCAULT: Filósofo, se Elias enfatizava o autocontrole,
história da leitura, história vista de baixo, relações Foucault chama a atenção para o controle sobre o eu,
entre cultura popular e erudita. sobre os corpos exercidos pelas AUTORIDADES. História
da loucura, da clínica, da vigilância, da sexualidade, dos
Pós-Colonialismo e feminismo – dar voz àquilo que sistemas intelectuais.
havia ficado invisível na leitura do imperialismo
europeu, incluía história cultural. Orientalismo, de Said Genealogia (Inspirado em Nietzsche) – traça
(1978) – estereótipos criados pelo Ocidente. “acidentes” e não “evolução” das ideias,
Feminismo: desmascarar preconceitos masculinos. DESCONTINUIDADES CULTURAIS, OU “RUPTURAS”.
MUDANÇA NA RELAÇÃO ENTRE AS PALAVRAS E AS
COISAS, invenção da loucura.

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Questiona “epistemes” e “regimes de verdade” como Exemplos: história da leitura – influenciada pela teoria
EXPRESSÕES DE UMA DADA CULTURA E, AO MESMO de MICHEL DE CERTEAU – ENFATIZA O PAPEL DO
TEMPO, FORÇAS QUE LHE DÃO FORMA. LEITOR (82) – USOS CULTURAIS

Arqueologia: para chegar fundo às estruturas Reação dos leitores aos textos, anotações na margem,
intelectuais. sublinhados, cartas escritas pelos leitores; gostos
literários, deslocamentos aparentes com
A ordem do discurso (1971): aula inaugural no Collège apresentações teatrais, leitura em voz alta, leitura
de France – “estudo do controle do pensamento, privada;
incluindo modos como certas ideias ou temas são
excluídos de um sistema cultural. (75) Loucos, REPRESENTAÇÕES
criminosos, desviantes sexuais.
Michel Foucault criticou historiadores pelo que
CENTRAL: A ordem das coisas (1966) – categorias e chamou de sua “ideia empobrecida do real”, que não
princípios subjacentes e organizadores de tudo o que deixava espaço para o que é imaginado.
possa ser pensado, dito ou escrito em um dado
período. Os DISCURSOS DE UM PERÍODO. História da imaginação, história da representação.

Seu conceito de DISCURSO foi fundamental para SAID Hsitoriadores franceses reagam: Duby e As três ordens
em Orientalismo. (1978) - imagem medieval dos “três estados”;
imaginário social O nascimento do purgatório, Le Goff
CRÍTICA: QUANTOS DISCURSOS HAVIA NA FRANÇA DO (1981) – ascensão da ideia de purgatório.
SÉCULO XVIII?
Benedict Anderson, em 1983: Comunidades
PIERRE BOURDIEU imaginadas sobre nacionalismo
Diferente de Elias e Foucault, era filósofo que se
transformou em antropólogo e sociólogo, não escreveu Representação dos trabalhadores, das mulheres, do
história. “outro” (SAID) se tornaram foco nos anos de 1980.

Conceitos: “campo”, a teoria da prática, a ideia de História da memória, “memória cultural”, “lugares de
“reprodução cultural” e a noção e “distinção”. memória”, “memórias históricas”.

Campo: literário, linguístico, artístico, intelectual ou Cultura material; Historiadores da Literatura; história
científico – domínio autônomo, independente em uma dos alimentos (poder simbólico do açúcar); história dos
determinada cultura, produzindo suas próprias hábitos, roupas; habitação; ciência, do corpo;
convenções. [Ideia não atraiu historiadores]
REVOLUÇÃO NA HISTÓRIA CULTURAL?
“Reprodução cultural”: modo pelo qual, p.ex.,
burguesia exerce seu poder por meio do sistema Conclusão de Burke: Se ocorreram nas últimas duas ou
educacional. três décadas, poucas inovações de método, muitos
novos temas foram descobertos e explorados.
“TEORIA DA PRÁTICA”: FUNDAMENTAL, conceito de
“habitus”, que reagiria contra a rigidez da ideia de Destaca similaridades recentes e partes da obra de
regras culturais. Burckhardt e Huizinga sendo resgatadas.

PRÁTICA COTIDIANA: pressupõe improviso sustentado


numa estrutura de esquemas inculcados pela cultura
tanto na mente quanto no corpo.

PRÁTICAS

É um dos paradigmas da NHC.